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PAPEL DOS ESCRAVOS NEGROS APÓS A ABOLIÇÃO Felipe Quartim Barbosa Cação* Cyro de Barros Rezende Filho **

RESUMO: O artigo trata fundamentalmente do papel do afro, ex-escravo, após a abolição da escravatura em maio de 1888. Os dados históricos desde a colonização foram apropriados para revelar as lutas e a maneira como a cultura afro se formou no Brasil, bem como a religião, a relação com o homem branco, de modo a justificar o tratamento com os afros até os anos que precederam 1888 e, sobretudo, a condição resultante nos anos que sucederam a abolição da escravatura. Palavras-chave: Escravidão, liberdade, Marginalização. ABSTRACT: The article is primarily the role of African ex-slaves after the abolition of slavering May 1888. Historical data since the colonization was appropriate to reveal the struggles and the way the African culture took shape in Brazil, as well as religion, the relationship with the white man in order to justify treatment with the afros to the years preceding 1888 and especially the condition resulting in the years since the abolition of slavery. Key words: Slavery, freedom, marginalization

Introdução

Esse artigo tem como objetivo analisar a relação entre o Homem Branco e o Escravo negro na sociedade do Brasil durante o período colonial até os dias de hoje, focando, contudo, na questão ligada ao papel do negro após a Abolição da Escravatura no ano de 1888. Dessa forma, navega nos períodos históricos relatando as dificuldades e os interesses que faziam parte e justificavam a ação de escravizar pelos Portugueses no Brasil. No primeiro subtítulo, foram trabalhados, basicamente, os conceitos da escravidão no Brasil e as características que resumem o papel dos negros em sua

Licenciado em História e pós-graduado (Latu sensu) em Política e sociedade no Brasil contemporâneo pela UNITAU – Universidade de Taubaté. Email: zetarasvati@hotmail.com / gauguin@hotmail.com ** Orientador; Dr. em História, Professor da UNITAU - Universidade de Taubaté.

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Revista Semina V9 - n 2 – 2010, publicada no 1º sem. 2011

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na criação de gado. que derrubavam a mata. nas oficinas de sapateiros. nas lojas. dos carpinteiros (. Daqui partiam os produtos tropicais enquanto das metrópoles vinham os produtos manufaturados. nesse contexto. neste ínterim. nas manufaturas de açúcar. 2011 2 . (SCHMIDT. dos ferreiros. Basicamente. preocupa-se ainda em pontuar as transformações ocorridas no mundo que levaram os negros a uma. os interesses econômicos e o papel da Igreja nesse processo.n 2 – 2010. Por exemplo. ocorridos durante o século XIX. O escravo. ressalta a dificuldade de organização dos próprios devido à distinção da cultura. Não obstante.Artigos construção histórica. E neste ínterim pontua e explica alguns processos que. 2007 p. na construção de casas e das estradas. plantavam e limpavam os cafezais. numa relação mantenedora.). levaram aos poucos à abolição da escravatura. bem como de tirar proveito das terras descobertas no Brasil.191). a escravidão esteve sempre muito ligada a Grande Lavoura. foi alimentar a idéia de que o negro deveria obediência em resignação à condição de escravo e que estava necessitado de Revista Semina V9 . limpavam o solo. sobretudo do idioma.. a monocultura e o latifúndio fizeram a economia por aproximadamente trezentos anos. Na faixa tropical. O papel da Igreja. No último subtítulo. fundamentalmente.. No segundo subtítulo. Além disso. o texto contorna os principais pontos e transformações. a escravidão. no comércio ambulante. nos serviços domésticos. nas fazendas produtoras de café todos os processos eram realizados por escravos africanos. O Escravo no Brasil Escravizar o negro foi uma forma de ocupar. tratavam e ensacavam os grãos. o artigo atinge o seu objetivo trazendo a luz fatos que levam a crer o estado ao qual o ex-escravo negro da sociedade brasileira foi submetido depois da abolição. bem como colhiam. nos açougues. publicada no 1º sem. representou a maior força de trabalho: Os escravos estavam em quase tudo na colônia: nas plantações. superação da condição de marginalizados uma vez valorizada sua cultura a partir do século XX. tanto de âmbito internacional como nacional. relativa.

Os três principais apoios dos portugueses no comércio com a costa africana atlântica eram.82). 2007. Cada país europeu desenvolveu características próprias do mercantilismo. “Portugal foi o pioneiro das grandes navegações.. A partir do século XVIII. Enfim. que tinha apenas de obrigá-lo e controlá-lo nas tarefas cotidianas. p.. Além disso. como a Igreja proibia a escravização de índios.. O sistema econômico vigente na época era o mercantilismo.. por meio do qual o absolutismo se fortalecia economicamente. e luanda. e na costa entre o rio Volta e o Níger. e também fazia girar com importante dinamismo a economia de modo geral. marfim e escravos. p.. Esse comércio foi muito lucrativo ao longo da presença portuguesa. o mercantilismo garantiu a intervenção e o controle do rei sobre as regras comerciais. Teólogos e juristas argumentaram durante séculos a favor ou contra o trabalho escravo. p. ou seja. eram os brasileiros que detinham o comércio de escravos entre a costa da Mina e Salvador. Da África obtinha ouro.. foi montado um sistema de justificação e legitimação da escravidão de seres humanos. se os índios atacassem os portugueses. a ilha de São Tomé. ou seja. 2005. (SOUZA..81).n 2 – 2010. as ilhas do Cabo Verde. e entre Luanda e o Rio de Janeiro. a não ser por guerra justa.Artigos catequização pelo cristianismo. no Brasil a regra geral era que o escravo fizesse o trabalho pesado e gerasse lucro ao senhor. desde o século XVI. além da importância econômica (sendo a exploração do trabalho escravo a principal forma de acumulação de riqueza).118) Desde 1580 que os portugueses vendem escravos vindos da África para o Brasil. qualquer que tivesse o mínimo de condições e estrutura financeira obtinha um ou mais escravos para seu patrimônio. publicada no 1º sem. 2011 3 . baseada numa relação desigual que permaneceu até mais adiante da Independência do Brasil: Revista Semina V9 .” (SCHMIDT. Outra utilização que fizeram do escravo foi o comércio.. 2005. Geralmente... o negro africano tornou-se ainda mais a figura fundamental para o preenchimento de quase toda a demanda de mão de obra no Brasil: Para sua manutenção. (SOUZA. bem como depois da independência. Destarte era a sociedade Brasileira.

p.Artigos Os centros mais dinâmicos e capitalizados da economia dependiam do trabalho escravo. (SOUZA. publicada no 1º sem. o escravagista tornou-se obsoleto em favor dos novos valores impressos pelo capitalismo. ou seja. p.81). cujo palco foi o Brasil. nas veias do processo. que pouco a pouco iam se tornando brasileiros. 2005. 2005. instrumentalizando com isso mecanismos de inferiorização quanto ao valor humano do africano. (SOUZA. 2011 4 . ou seja. conhecimentos práticos. que dependiam disso para a criação de uma peculiar cultura negra. eram chamados de ladinos. Assim. quanto para a comunicação entre os próprios escravos.89).. Do ponto de vista cultural. os intelectuais debatiam a legitimidade ou não da escravidão e todos os que podiam faziam uso de escravos na sua vida cotidiana. Mudanças no rumo da História No século XIX. resultantes de combinações de dialetos africanos entre si e também com o português. se comportavam conforme os padrões portugueses. Contudo. uma vez adaptados e conformados à situação de escravos. teve tanto a função de estabelecer a comunicação entre o senhor e o escravo. resignados e com um comportamento exemplar. ademais. pela Revolução Francesa e pela Revolução Industrial. tinham o português como sua primeira língua. p. cabe ressaltar que os senhores chamavam os recém-chegados da África de boçais. estúpidos. O idioma português. Enquanto isso: os crioulos eram os que haviam nascido no Brasil. africanos vindos de diferentes regiões emprestavam uns aos outros crenças e ritos religiosos. apontando o comportamento e a religião com desaprovação. e este último dependia disso para a própria sobrevivência. Compreendemos que: Algumas vezes pessoas de um mesmo grupo lingüístico criavam línguas novas. lendas. ignorantes. pelo menos diante dos senhores. quase sempre eram batizados e. posto que ainda não conheciam o idioma e nem os costumes.n 2 – 2010. (SOUZA. O resultado foi a criação de novas Revista Semina V9 . o sistema tradicional de exploração. e iam formando uma cultura africana no Brasil diferente das que existiam na África.90 e 91). 2005.. boa qualidade de mão de obra.

embora não tenham tido uma ação diretamente transformadora na sociedade. 272): “Nos países em que se processou a Revolução Industrial os novos grupos ligados ao capitalismo Industrial que passaram a influenciar a política condenaram a escravidão”. em razão das condições econômicas. Por conseguinte. a escravidão perdurou por mais tempo e sua dissolução não ocorreu sem suor e sangue: O processo de desagregação do sistema escravista foi longo e difícil. Assim consta: Na sua “Carta aos Senhores Eleitores da Província de Minas Gerais” condenava o apoio dado pelo governo a certas indústrias e manifestava-se favorável a uma política exclusivamente agrária. não o levou a uma modernização das estruturas básicas da economia e da sociedade.. sobretudo no Brasil.272) As primeiras manifestações da industrialização no Brasil. 2007. Isso porque a Independência do Brasil. Entretanto. nesse momento. p. bem como o latifúndio e a economia baseada na importação de produtos manufaturados e exportação de matéria prima prevaleceram. contribuíram para mudanças desenfreadas no século XIX. p. uma evidente contradição se expressava no seio dessa sociedade conservadora do Brasil Imperial. sociais. publicada no 1º sem. políticas e ideológicas locais. (COSTA. começou a ser revista. p. a abolição da escravatura e o desenvolvimento do capitalismo não se aplicaram tão facilmente em algumas regiões específicas. 2011 5 .n 2 – 2010. A escravidão. Os interesses da camada dominante se chocavam com a própria realidade da constituição do país: Revista Semina V9 . conforme aponta Costa (2007.Artigos técnicas de exploração. (COSTA. pouco a pouco. Os setores poderosos no Brasil expressavam um liberalismo econômico cuja consistência liberal era defender o próprio interesse de caráter conservador. a produção industrial nasceu incapaz de fazer frente às necessidades de importação que vinham da Europa. sobretudo dos ingleses. favorecidos por tratados comerciais.273) Apesar de tudo. 2007. Esse processo evoluiu diferentemente em cada região. de modo que o trabalho escravo.. de imediato. Havia muitos interesses por detrás da velha estrutura de poder. Nesse contexto. portanto.

plantada pelas duas grandes revoluções do final do século XVIII. alguns intelectuais da época. no convívio das teorias da ilustração e do liberalismo. e mais tarde da escravatura. nesse momento. que inibia o processo de industrialização. a semente da liberdade. tornou-se um Revista Semina V9 . Fazendeiros endividados com a compra de escravos. Em 1811. que punha em risco a segurança nacional visto a violência e o antagonismo que refletia. Contudo. como José Bonifácio. a respeito da escravidão. de valorização da própria propriedade.. Manifestaram-se favoráveis à emancipação dos escravos alguns líderes da geração da independência. (COSTA. a questão da abolição do tráfico. De modo geral. 2007. publicada no 1º sem. p. Eles já estavam familiarizados com as teorias dos economistas clássicos e acompanhavam os debates. Hipólito da Costa já escrevia. carentes de mão de obra. viram na cessação do tráfico um projeto de desenvolvimento e progresso.272). 2011 6 . reclamavam os abolicionistas que o trabalho escravo dava rendimentos inferiores ao trabalho livre. inibindo o capitalismo por sua vez. Em suma. que a escravidão não era favorável às leis da natureza e tampouco às disposições morais do homem e propunha que se substituísse o trabalho escravo pelo imigrante. que tornava vil a idéia do trabalho.. mantinha-se a contradição.Artigos Afirmava-se que a lei é a expressão da vontade do povo. apenas o interesse dos traficantes e dos lavradores das zonas novas. no início da década de 1820. já denunciavam os malefícios causados pelo sistema escravista no desenvolvimento da sociedade. homens formados em contato com a cultura européia. contrariando. impossível de ser freado.276). Teoricamente aboliam-se os privilégios e igualava-se a todos perante a lei. p. Do ponto de vista político. Com o tempo. Ademais. por sua vez. já havia germinando nos planos férteis da mentalidade de uma parte da elite econômica brasileira. logo mesmo após a Independência. em rápido processo evolutivo. pelo Correio Brasiliense.n 2 – 2010. 2007. mas ao resguardar-se a propriedade como um dos direitos inalienáveis e imprescritíveis do homem. a opinião pública começou a se manifestar mais severamente contra o trabalho escravo no Brasil. como José Bonifácio e Maciel da Costa. na Inglaterra. é importante notarmos que a oposição ao escravismo está. por exemplo. (COSTA.

Logo foi criado um comércio interno de escravos. p. (COSTA.. a escravidão. do mercado consumidor e do advento das indústrias. (SCHMIDT. as plantações de café continuavam a se expandir e precisavam de mão de obra. p. que explodiam em rebeliões.277) Contudo. [. publicada no 1º sem. 2007. visando manter a estrutura econômica do Brasil viva embora em seus suspiros finais. p. Revista Semina V9 .] Houve senhor de escravo que fez as contas e concluiu que. 2007. a questão da abolição enquanto necessidade para uma nova ordem. (COSTA. a indústria. ademais. (SCHMIDT. com ele. com o passar do tempo “passaram a eletrizar auditórios.284) Ademais.440) Entretanto. seguida de tragédias. p.Artigos objeto de discursos calorosos nos jogos políticos partidários. o processo de mudança começou. (COSTA. de modo geral. Em suma.n 2 – 2010. A partir do momento que a questão da abolição da escravatura começou a tornarse um corpo sólido dentro da sociedade brasileira. mobilizar a imprensa. à medida que caminhava o processo de abolição. a escravidão era um obstáculo para o desenvolvimento do capitalismo. era mais barato contratar o serviço dos imigrantes. não só por motivos econômicos. que temiam uma rebelião. equipada com navios mais aperfeiçoados e com ordem de entrar nos portos e apresar os navios suspeitos de tráfico. 2007.. p. 2011 7 .451). 2007. 2007. ao poucos. “Os políticos sentiram o alcance político da questão que apaixonava a opinião pública”. a marinha inglesa. ameaçava também a integridade dos senhores de terra. aumentava a nota de comiseração pelo sofrimento do escravo. caminhava para o fim. mas também pela luta dos próprios escravos.285) Por conseguinte. chamado tráfico interprovincial. O negro está ainda preso pela escravidão: “os escravos do Nordeste em dificuldades eram vendidos para as áreas cafeicultoras do Sudeste. comover multidões e a provocar acalorados debates parlamentares”. fez recrudescer a vigilância. a interdição do tráfico foi forçada pelos interesses britânicos: De outro modo. a cidade e o progresso. em suas fazendas: As idéias de modernidade ganhavam força: o fim da escravidão abriria o caminho para o capitalismo e. em vez de ter escravos. Se outrora ignoravam.

Cabe ressaltar a condição na qual o negro. porque Revista Semina V9 .453) Com esta lei estava extinta escravidão no Brasil. a se impor o mais rápido possível. 2007. libertavam o escravo aos 65 anos. Isso garantia tempo para que o dono de terras se adaptasse ao sistema de mão de obra livre. “Não houve reforma agrária. pela Lei Saraiva-Cotegipe. E temendo uma revolução tal qual no Haiti. não indenizaram os ex-cativos. A saber. salvo na clandestinidade. Por fim. Os conservadores.n 2 – 2010. não garantia qualquer proteção social. p. do Sexagenário. que garantia que o filho de escravo nascido a partir daquela data não seria escravo pela vida inteira. Papel do escravo após a abolição Para comemorar a outorga da Lei Áurea. As rebeliões e fugas em massa se multiplicavam” (SCHMIDT. mas ao máximo até seus 21 anos de idade. obviamente. Princesa Isabel. foi inserido. Porém: “Essas leis não foram suficientes. visando adaptar os proprietários. à frente do processo. ou Lei Rio Branco. A lei. e com poucos votos contrários. Segundo Schmidt (2007. uma vez que D. em suas memórias. criaram as Leis Moderadas.Artigos inevitavelmente. em 13 de maio de 1888. ex-escravo. p. sua filha Isabel. Em 1885. foi outorgada a Lei do ventre livre. como se necessitassem de outra lei áurea para libertarem a voz e a angústia. tanto os abolicionistas quanto os não abolicionistas comungaram do fato de que a liberdade dos negros seria algo inevitável. Além disso. não houve espaço para se pronunciarem a respeito.451). “Assim. descreve o relato de um ex-escravo após a abolição: “E tinha saudade da escravidão. a corte realizou um baile. p. só puderam entrar como criados. Gregório Bezerra. As pressões abolicionistas cresceram. 2007. ou.” (SCHMIDT.453) Logo depois. e o governo sequer se preocupou em construir escolas”. Em 1871. publicada no 1º sem. concordou com a lei já aprovada no Brasil. em sua finalidade. Pedro II se encontrava no estrangeiro a passeio. mas que seria sadia se concedida aos poucos. 2011 8 . a princesa Isabel assinou a Lei Áurea. os negros tornaram-se trabalhadores muito pobres instalados numa sociedade repleta de preconceitos.

embora nem todos. Em resumo. p. Eliminar o lado africano significava “Conforme essa maneira de ver as coisas.” (COSTA. e por efeito. Com a instauração da República. A concorrência nos trabalhos agrícolas fez com que o negro. p. o objetivo era branquear a população..n 2 – 2010. p. basicamente.219). debruçadas na violência – que nesse momento pode ser considerada ação consciente da conquista de direitos – como um componente central de seu espírito libertador. tornou-se um movimento político: (. ganharam força por um conceito conhecido por Eugenia. a experiência da mão de obra técnica nas indústrias já em franco desenvolvimento no Brasil. optaram por permanecer no campo ocupando pequenos pedaços de terras.96).Artigos segundo ele.. e somado aos estudos sociais. que outrora era apenas um estudo científico sobre o cruzamento seletivo comum na agricultura e na pecuária. e o imigrante. A repulsa em aceitar os negros. ex-escravos. para o Brasil atingir o mesmo nível das nações mais desenvolvidas deveria eliminar seu lado africano e negro” (SOUZA.122). visto o preconceito contra sua cor. (HOBSBAWN. farinha e feijão à vontade e agora mal comia um prato de xerém com água e sal. 2011 9 .) composto de membros da classe média e burguesia. “O estímulo a imigração diminuiu muito a possibilidade de que os negros se tornassem trabalhadores agrícolas. naquela época comia carne. exescravo. geralmente Revista Semina V9 . mas com o tempo. publicada no 1º sem. 2008. para trabalhar para os fazendeiros se justificava. 1986. porque. estimulou a imigração de Europeus para substituir a mão de obra agora rejeitada preconceituosamente. O resultado foi que os negros. em dois motivos: primeiro. 2005. não empregar os negros seria uma forma de eliminá-los.” (SOUZA. ao menos os que lograram tal feito. as idéias de superioridade da “raça branca”. 2005. trazia consigo. branqueando a sociedade e estimulando a migração européia como compensação da ausência de mão de obra.122). disputasse as funções em desvantagem nas fazendas e cidades. além da raça. que pressionavam os governos para que implantassem programas de ações positivas ou negativas visando a melhorar a condição genética da espécie humana. e após o surgimento dos estudos genéticos. porque os fazendeiros temiam dos negros reações rancorosas de tempos anteriores. p. segundo. como já dito. ex-escravos.

publicada no 1º sem. ao longo do século XX. e logo. contribuíram para que a informação vinculasse ostensivamente no país. Pelos cultos religiosos. Todavia. (SOUZA.125). ao longo do tempo.126). podemos dizer que os afro-brasileiros com mais estudo e maior consciência política/ social se afastaram de suas tradições e de seus antepassados. habitaram as regiões menos nobres das cidades. O artesanato e a Marinha. E ainda no tocante à preservação cultural. revelaram-se ótimas oportunidades para uma maior e melhor inserção do negro na sociedade do Brasil republicano. o telefone. p. automóveis e a imprensa. 2011 10 . no entanto. a ferrovia. levaram muitas comunidades negras a reivindicar seu espaço dentro da sociedade. em grande maioria. Portanto. bem como as tradições africanas foram passando de pai pra filho ao longo do século XX. (SOUZA. assimilando muito mais os valores da cultura branca/europeizada. p. Assim. por assim dizer. Algumas associações foram criadas por grupos que denunciavam o preconceito e a marginalização do negro. como o rádio. representavam episódios nos quais contavam suas histórias de forma teatral e idealizada. dançavam para os santos católicos dos quais eram devotos.n 2 – 2010. 2005. a migração de negros para a cidade ganhou cada vez mais frequência: geralmente desempenhavam as funções mais subalternas.Artigos sob um sistema de parceria. cabe frisar que foi mantida. uma vez que só alguns poucos afro-brasileiros conseguiam se educar. com muita dificuldade. reverenciavam espíritos e ancestrais africanos buscando solução e orientação para os problemas do cotidiano: Nas congadas e nos maracatus festejavam seus reis. portanto. os valores e costumes. 2005. prosperar nos negócios e ascender socialmente. os ideais de igualdade entre as diferentes categorias sociais. Isso se explica se compreendermos que a eles interessava os valores da sociedade na qual almejavam se integrar: Revista Semina V9 . nos quais cedia parte de sua produção ao dono da terra que cultivava. No que concerne a revolução dos meios de comunicação. Quanto à cultura afro-brasileira.

2011 11 . que inferia haver uma hierarquia de valores entre os povos. Hoje em dia. como também pela preferência por pessoas de pele mais clara para ocupar os melhores cargos no mercado de trabalho. 2008. Ademais. os africanos eram considerados inferiores. a biologia era essencial para uma ideologia burguesa teoricamente igualitária.Artigos Para conquistar lugares equivalentes aos que os ditos brancos ocupavam.126). 2005. mas branqueá-la ao longo do tempo. os negros assumiam os valores dominantes. p. ele ia ficando cada vez mais branco o que pensavam os poderosos. E em vista disso. cabe resumir que: a maioria dos negros e mestiços foi mantida nos segmentos mais desfavorecidos da população. interpretada no campo social. a cultura africana bem como o afro-descendente são vistos pelo mundo com muito mais valor do que antigamente. cabe dizer que o preconceito se acentuava uma vez que a cultura afro também não era valorizada. pois deslocava a culpa das evidentes desigualdades humanas da sociedade para a "natureza" (HOBSBAWN. publicada no 1º sem. (SOUZA. 2005. 2005. Em suma. vinculando os fatos. Sobre o papel do negro na sociedade brasileira após a abolição. não só pela precariedade das oportunidades oferecidas para a sua educação e aprimoramento profissional. (SOUZA. cujo papel central no século XIX nunca será demais ressaltar. p. primitivos e incapazes de construir civilizações evoluídas como a européia.142-143). deixavam de lado suas tradições com características africanas.n 2 – 2010. as elites brasileiras buscaram eliminar os laços com as culturas africanas.142). p. resultaria numa sociedade branca” (SOUZA. marginalizá-los eliminava grande parte que acabava sucumbida pela miséria: “Já no Brasil. p. de modo geral. Porém. No fim do século XIX. como afirma Hobsbawm: Sob a forma de racismo.219) Revista Semina V9 . e que apontava para a Europa no topo das civilizações. A própria cumplicidade das elites com a miscigenação objetivava menos inserir o africano na sociedade brasileira. o preconceito com os negros tinha sua justificativa na teoria evolucionista de Darwin.

podemos observar como os esforços da Igreja. resultado também de forças políticas internacionais. ou Homem Branco/ Negro. tradições.Artigos Mas as revoluções científicas do século XIX superaram o conceito de Darwin. Durante aquele tempo. se por um lado temos hoje uma maior valorização do africano e de sua cultura. Por consequência. do Estado Português. p. as dificuldades. 143). como afirma Hobsbawm (2008. importa observar que é dessa maneira áspera e hostil que a relação Senhor/ escravo. podemos observar o papel de objeto no qual o negro africano. foram quase 40 anos entre a abolição do tráfico negreiro e a abolição da Revista Semina V9 . e nisso a educação. Contudo. e nisso o negro passou a perder a sua função econômica.]”. a crueldade como foram tratados e o sentido da sua submissão. têm sido estudadas.n 2 – 2010. dos valores. vendido como mercadoria. E. as especificidades de cada sociedade no âmbito cultural. 2005. visto que o tempo e a cultura atual não foram ainda suficientes para apagar a marca que a escravidão imprimiu no Brasil por aproximadamente 300 anos. Dessa forma. temos consciência de que ainda não superamos totalmente o preconceito no Brasil. convergem para uma finalidade muito comum: a de subjugar o negro e manter a vitalidade do sistema mercantilista na Colônia. encontrava-se. costumes. XIX observamos que. 2011 12 . a escravidão começa a perder o seu papel numa sociedade em transformação. o papel do negro começou a sofrer alterações evidentes no cerne do Brasil Imperial. A resistência negra contra a escravidão evidencia o caráter antinatural de como eles eram tratados e a repulsa que sentiam. Considerações finais Este texto contém elementos que traduzem um pouco da trajetória do negro na história do Brasil. publicada no 1º sem. desde o início se processava no Brasil. valorizadas e incorporadas de maneira geral e “a noção de raça cedeu lugar a noção de cultura” (SOUZA. p.221): “Observadores da virada do século registraram uma "crise no darwinismo" que produziu várias especulações alternativas [. A partir do séc.. para nós. Como vimos. Desde o princípio da Colonização.. em conformidade com as transformações universais na economia. na política e na sociedade.

considerando portanto o antagonismo e o tempo. não tendo acompanhado o processo político. e sob a demagogia da libertação. posto que o primeiro ocupava o papel da mão de obra. pois é evidente que pelo fato da relação Homem Branco/ Escravo ter sido construída de maneira tão fria. muitos negros rumavam para elas buscando refúgio para sobrevivência. Revista Semina V9 . acabavam tendo uma forma de vida alternativa aos grandes centros e isso dificultava ainda mais a integração com o branco. não estavam submetidos àquela condição. de maneira áspera. Ambos acontecimentos fortaleciam a marginalização do negro. 2011 13 . Por fim. tendo em vista o processo histórico. e que se a sociedade foi proibida de prendê-los à terra. e isso. à medida que as cidades cresciam. pois não poderiam. tão rapidamente terem consolidado a sua vitória como homens livres dentro de uma sociedade cujo passado os destinou à violência. e que o segundo alimentava e conservava o preconceito de raça dentro da sociedade. pois. permaneceu o preconceito. diferente deles. não obstante. a desconfiança e o desdém com relação ao negro. só poderia ter vindo por uma mágica.n 2 – 2010.-escravos não passou do âmbito jurídico. escravizandoos assim de outra maneira. fixavamse em habitações nas margens da cidade conforme as oportunidades que lhes surgiam. devido à histórica condição e a sua cor. agora os marginalizava. Constituindo sociedade nesses locais. é visível como isso instrumentalizou a luta dos negros pela dignidade e respeito pela sua raça. De modo geral. O fato. logo após a abolição. os negros. Além disso. é lógica a inevitabilidade da marginalização do negro na sociedade brasileira pós-abolição. Devido às condições materiais e sociais. pois. ocorreu que sua cultura. tendo algumas leis mediado esse processo. que o via com olhar de superioridade. A idéia de igualdade veio conferir maior liberdade e ao invés de serem vistos como inferiores. Com a modernidade e o desenvolvimento dos meios de comunicação. visto que os negros eram tratados como objetos.Artigos escravatura. concluímos que a mentalidade do brasileiro permaneceu colonial mesmo após as mudanças políticas da escravidão. na verdade estavam a criar uma outra condição de aprisionamento. é fato que a liberdade dos ex-escravos. publicada no 1º sem. Soma-se a isso o advento da imigração e do conceito de Eugenia. ao racismo e à subordinação. é que a liberdade dos ex.

n 2 – 2010. 2011 14 . São Paulo: Editora Nova Geração ltda. São Paulo: Global editora. ed. 8. COSTA. a integração do negro. 2005. Emília Viotti da. Mário. 2008. concluímos também que à medida que disseminavam as idéias de igualdade no Brasil. vigorou por longa data na sociedade brasileira e dificultou. ganhou novo olhar e uma riqueza a altura de ser resgatada. 2007. 1986. São Paulo: Ática. Nova História crítica. Além disso. permeada de valores racistas da Europa. pouco a pouco o negro se inseria. Da Monarquia a República. África e Brasil africano. e que a mentalidade preconceituosa. na sociedade vigente desde o fim do século XIX. ex-escravo. Referências Bibliográficas SCHMIDT. Revista Semina V9 . ed. HOBSBAWM. Emília Viotti da. Em suma. publicada no 1º sem. 2. SOUZA. com isso. concluímos que a cultura da escravidão não foi abolida quando decretado. a liberdade dos negros. 2. e cada vez conquistava mais espaço.Artigos conservada em cacos durante o processo histórico. São Paulo: Global editora. ed. Marina de Mello E. explorada e conservada pelo homem branco. Eric. 2007. A Era dos Impérios (1875 – 1914) RJ: Paz e Terra. A abolição. valorizada a sua cultura. juridicamente. COSTA.