ENTRADA DE REINALDO GERA CRISE NA FOLHA. FOI FRIA?

Diante da avalanche de cartas contra a contratação do blogueiro mais conservador do País, jornal de Otávio Frias se viu forçado até a bloquear a área de comentários da Folha.com, ao contrário do que ocorre com outros colunistas; assinante influente, jornalista Cynara Menezes, de Carta Capital, fez artigo em que anuncia cancelamento de assinatura em protesto contra chegada de "reacionário"; diretor de redação Sérgio D'Ávila foi contra a contratação, mas Otávio Frias Filho mostrou que o que prevalece é a vontade de patrão; em seu blog, em Veja, Reinaldo usa o codinome Reinaldoxx como "insenticida" para barrar comentários indesejados; na Folha, o jeito foi bloquear
25 DE OUTUBRO DE 2013 ÀS 20:01

247 – Blogueiro de Veja.com, Reinaldo Azevedo estreou nesta

sexta-feira 25 sua coluna no jornal Folha de S. Paulo e, por

extensão, na Folha.com. Imediatamente, a crise se instalou na publicação. Sempre desfraldando a bandeira de ser um jornal democrático, a Folha precisou bloquear a área de comentários para a coluna de Reinaldo como única forma de conter a fúria dos leitores. Em Veja, como se sabe, o colunista conta com um filtro – ele mesmo – que não permite a postagem de comentários de oposição a seus artigos. (Leia aqui o artigo de Reinaldo, sem espaço para comentários, e aqui um de outro comentarista, com espaço aberto para o debate) Em seu blog, a influente jornalista Cynara Menezes, ex-Folha e hoje em Carta Capital, escreveu artigo em que anunciou o cancelamento de sua assinatura da Folha de S. Paulo em protesto contra a presença, em suas páginas, a partir de agora, de Reinaldo. Ela o classificou como um "reacionário" que marca a publicação com o que a direita brasileira tem de mais arcaico. Entre os jornalistas da Folha, o mal-estar é geral. O diretor de redação do jornal, Sergio D'Ávila, tentou convencer Otavio Frias Filho de que a contratação não pegaria bem para uma publicação, como a Folha, que se diz plural e apartidária. Mas, naquele momento, Otavio mostrou quem é patrão. As reações pelo desastrado movimento devem continuar, o que levanta desde já uma pergunta que não quer calar: para a Folha, contratar o conhecido blogueiro, que usa o codinome 'Reinaldoxx, o exterminador de petralhas' para deletar comentários em seu blog de Veja, foi uma boa ou foi mesmo uma fria? Abaixo, artigo de Cynara Menezes e a reprodução da coluna de estreia de Reinaldo Azevedo na Folha:
Adeus, jornais impressos

Caí de amores pela Folha de S.Paulo aos 17 anos, em 1984, quando entrei na faculdade e o jornal apoiou a campanha pelas Diretas-Já. Até então, menina do interior da Bahia, não conhecia bem a grande imprensa. O jornal que estampava em

sua primeira página o desejo de todos nós, brasileiros, de votar para presidente, me cativou. Como para vários da minha geração, trabalhar na Folha se tornou um sonho para mim. E de fato trabalhei no jornal, entre idas e vindas, quase 10 anos. Tive espaço, ótimas oportunidades, conheci de perto figuras incríveis: Ulysses Guimarães, Darcy Ribeiro, Florestan Fernandes, Leonel Brizola, Lula. E principalmente: na Folha escrevi como quis –ninguém nunca mudou meu texto e jamais adicionaram nem uma frase sequer que eu não tenha apurado, ao contrário do que viveria nos oito meses que passei na Veja (leia aqui). Em 2009 meu respeito pela Folha morreu. Naquele ano, o jornal publicou um artigo absolutamente execrável acusando Lula de ter tentado estuprar um companheiro de cela, um certo “menino do MEP” (antiga organização de esquerda), quando esteve preso, em 1980. Qualquer pessoa que lê o texto percebe que Lula fez uma brincadeira (de mau gosto, ok), mas o autor do artigo não só levou a sério, ou fez de conta que levou a sério, como convenceu o jornal a publicar aquele lixo. Como eleitora de Lula, aquilo me incomodou. Por que nunca fizeram algo parecido com outro político? Por que o jornal jamais desceu tão baixo com ninguém? Apontar erros, incoerências, fazer oposição ao governo, vá lá. Dizer que Lula estuprou uma pessoa! Por favor. Me pareceu que alguém na direção do jornal estava sob surto psicótico ao permitir que algo assim fosse impresso. Vários amigos da Folha me confidenciaram vergonha e indignação com o texto. Continuei a ler o jornal nestes últimos quatro anos mais por hábito do que por outra coisa. Quando veio o editorial em que a ditadura foi chamada de “ditabranda” não fiquei surpresa. Quando a Folha publicou a ficha falsa da candidata Dilma Rousseff no DOPS quando atuou na luta armada, tampouco. A minha própria ficha já tinha caído, lá atrás. O jornal a favor das Diretas-Já deixara de existir –ou será que nunca existiu? Afinal, antes disso a Folha havia apoiado o golpe militar. Terei eu caído num golpe –de marketing?

Hoje, 24 de outubro de 2013, tomei a iniciativa de cancelar minha assinatura da Folha de S.Paulo. O jornal acaba de contratar dois dos maiores reacionários do País para serem seus “novos” colunistas. Não é possível, para mim, seguir assinando um jornal com o qual não tenho mais absolutamente nenhuma identificação. Pouco importa que minha saída não faça diferença para o jornal: é minha grana, trabalho para ganhá-la, não vou gastá-la em coisas que não valem a pena. O mundo não é capitalista? Pois não quero, com meu dinheiro, ajudar a pagar gente que me causa vontade de vomitar. O mais triste é que, ao deixar de assinar a Folha, deixo também de ler jornais impressos. Nenhum deles me representa. Esta é literalmente uma página que viro, dá a sensação de que perdi um amigo querido. Mas a vida é assim mesmo: às vezes amigos tomam rumos diferentes. Sem rancores.
Publicado em 24 de outubro de 2013 Confira a estreia de Reinaldo Azevedo na Folha: REINALDO AZEVEDO

'Os 178 Beagles' As ruas, ente divinizado por covardes, pediram o fim do voto secreto para a cassação de mandatos. Boa reivindicação. O Congresso está a um passo de extinguir todas as votações secretas, o que poria o Legislativo de joelhos diante do Executivo. Proposta de iniciativa "popular" cobra o financiamento público de campanha, o que elevaria o volume de dinheiro clandestino nas eleições e privilegiaria partidos ancorados em sindicatos, cujas doações não são feitas só em espécie. Cuidado! O povo está na praça. Nome do filme dessa mímica patética: "Os 178 Beagles". Povo não existe. É uma ficção de picaretas. "É a terceira palavra da Constituição dos EUA", oporia alguém. É fato. Nesse caso, ele se expressa por meio de um documento que consagra a representação, única forma aceitável de governo. Se o modelo representativo segrega e não muda, a alternativa é a revolução, que é mais do que alarido de

minorias radicalizadas ou de corporações influentes, tomadas como expressão da verdade ou categoria de pensamento. A fúria justiceira dos bons pode ser tão desastrosa como a justiça seletiva dos maus. Quem estava nas ruas? A imprensa celebrou os protestos como uma "Primavera Árabe" nativa. Nem aquela rendeu flores nem o Brasil é uma ditadura islâmica. Até houve manifestações contra o governo, mas todas foram a favor do "regime petista". O PSDB talvez tenha imaginado que aquele "povo" --sem pobres!-- faria o que o partido não fez em 11 anos: construir uma alternativa. Sem valores também alternativos aos do Partido do Poder, esqueçam. Há 11 anos o PT ataca sistematicamente as instituições, quer as públicas, quer as privadas, mas de natureza pública, como a imprensa. Dilma ter sofrido desgaste (está em recuperação) não muda a natureza dos fatos. Da interdição do direito de ir e vir à pancadaria e ao quebra-quebra como forma de expressão, passando pela reivindicação de um Estado-babá, assistiu-se nas ruas a uma explosão de intolerância e de ódio à democracia que o petismo alimentou e alimenta. O Facebook não cria um novo ator político. Pode ser apenas o velho ator com o novo Facebook --como evidenciou a Irmandade Muçulmana no Inverno Egípcio. Em política, quando o fim justifica os meios, o que se tem é a brutalidade dos meios com um fim sempre desastroso. A opção moralmente aceitável é outra: os meios qualificam o fim. Querem igualdade e mais Justiça? É um bom horizonte. Mas será o terror um instrumento aceitável, ainda que fosse eficaz? Oposição, governo e imprensa, com raras exceções, se calaram e se calam diante da barbárie que deseduca e que traz, volte-se lá ao primeiro parágrafo, o risco do atraso institucional. O PSOL conduziu uma greve de professores contra o excelente plano de carreira proposto pela Prefeitura do Rio. Era a racionalidade contra a agenda "revolucionária". Luiz Fux, do STF, posando de juiz do trabalho, chamou os dois para conversar. É degradação institucional com toga de tolerância democrática.

O sequestro dos beagles, tratado com bonomia e outroladismo pelo jornalismo, é um emblema da ignorância dos justos e da fúria dos bons. Eles atrasaram em 10 anos o desenvolvimento de um remédio contra o câncer, mas quem há de negar que os apedeutas ilustrados têm um grande coração?

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