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Lágrimas do Céu – Parte I

Por Armando “Salubri” Neto

O vento soprava forte nas montanhas naquele fim de tarde. Ao longe se podia ver um menino, sentado diante de um grande penhasco. Aparentava ter seus sete anos. O corpo nú, reluzia os poucos raios de luz que ainda espalhavam-se pela ilha. Os olhos perdiamse no horizonte, como se estivessem em busca de algo. Depois de um alto e prolongado suspiro, Demétrius levanta-se e vai de encontro aos outros. O pôr-do-sol se aproxima, é hora de recolher-se. O elfo celeste apesar de pequeno, era muito responsável. Sábio, desde de que aprendera a falar dava conselhos a seus futuros súditos. Com a chegada da noite, a mãe sempre acolhedora, acomoda o rosto de Demétrius sobre seu colo, enquanto lhe acaricia as faces. Nunca sentira pele tão macia em toda a sua vida. O rosto pálido de seu filho e os cabelos loiros que serpenteavam entre os ombros, faziam dele algo sobre-natural... Algo divino! Se não bastasse isso, ele ainda tinha aquela marca. A Marca da Realeza, que lhe dava o poder sobre a tribo, após a morte de Arthur, o atual rei. Arthur era um homem velho, com cabelos e barba brancos, olhos claros, mas apesar da aparência frágil, mantinha oculto dentro de si um poder imenso, incalculável. Apesar de tanto poder e sabedoria, adquiridos com o passar das gerações, Arthur sabia que sua Era havia se esvaído e que com a chegada do novo escolhido para o trono, deveria seguir seu triste destino: a morte. Os elfos celestes têm tradições muito peculiares. Uma delas, que pode parecer estranha e até mesmo macabra para outros povos, é a que trata do fim de uma Era. Quando nasce um celeste com a marca da realeza, o atual rei deve ensinar-lhe tudo o que sabe e depois disso matar-se. Apesar de a tradição sempre reinar entre os celestes, Demétrius não conseguia conformar-se com a futura morte de seu mestre. Com o passar do tempo, Arthur tornou-se uma constante em sua vida, alguém que ele respeitava, e com o tempo aprendeu a amar. ***** A noite chegara novamente. Na manhã seguinte Demétrius receberia a coroa e Arthur seguiria seu destino. Os pesadelos atormentaram o sono de Demétrius. Sua mãe passou a noite inteira diante do filho, exausta. Demétrius achava tudo o que estava acontecendo algo terrível, sujo, indigno! Como aquele povo poderia deixar o homem, que durante séculos dedicou sua vida a eles, ir para a morte sem ao menos tentar alguma coisa? Apesar das indagações, Demétrius sabia que o próprio Arthur não aceitaria viver. O seu orgulho era maior do que o desejo de viver. Na verdade seu orgulho era maior do que tudo. Perdido em seus próprios pensamentos, Demétrius volta a si no momento em que a cabeça da mãe, acomoda-se como uma pluma em seu ombro. Estava muito cansada, havia ficado a noite inteira consolando o filho, pesadelo após pesadelo. O rosto fino de Suzenee encaixava-se perfeitamente entre os cabelos negros. Demétrius olhou para as faces coradas da mãe. Ela emanava uma aura de inquietude, de angústia. O menino queria, de alguma forma, evitar que as tradições se mantivessem. Indagava-se: - Porquê eu? Por quê tive que nascer com esta maldita marca? No momento em que Demétrius proferiu tal frase, uma chuva incessante teve início, como se por obra sua. Seus olhos se encheram de lágrimas. Sentia-se sufocado e não sabia o que fazer. Mais uma vez olhou para o rosto da mãe, como se dissesse: “Adeus...”. Deitou a cabeça de Suzenee sobre o pano de seda onde antes ele se encontrava e saiu pela porta, sem olhar para trás. ***** A chuva caia sobre as costas nuas de Demétrius, que caminhava sem destino pela Ilha dos Deuses. Já caminhara por algumas horas e a chuva, insistente não havia cessado. Avistou ao longe o mar e um pouco mais adiante um pequeno cais, muito freqüentado por pescadores, vindos da única comunidade residente na ilha, além dos celestes. Demétrius aproximou-se do cais. Estava exausto, com fome e frio. Refugiou-se então, em um barco, aparentemente vazio. Havia palha na parte coberta do barco. O menino, mirrado como era, acomodou-se perfeitamente sobre ela. Podendo dormir tranqüilamente. ***** Finalmente Suzenee conseguira dormir, conseguira descansar. Há dias não conseguia dormir direito, pensando na morte de Arthur, seu amor. Um amor oprimido, pois os reis não podem sentir o prazer dos simples mortais. Em toda sua vida, um rei celeste aprecia somente um prazer: o poder! Suzenee sabia disto. Por esse motivo manteve essa paixão tão obscura, mesmo com o passar de mais de um século. A chuva cessara, e uma gota, apenas uma, ultrapassara o teto de palha da cabana onde Suzenee se encontrava, caiu sobre seu rosto e a acordou. Saindo de um salto, Suzenee sente que algo está errado. Ao ver que Demétrius não está na cama, o desespero toma conta de si por completo. Levanta-se e corre para fora, a procura do filho. Suzenee, ultrapassa as pessoas que já se encontram fora de suas casas. Os olhos, como os de uma águia, rastreiam o filho e mesmo após revistar todos os lugares possíveis, parecem inconformados. Demétrius fugira. E por mais que tentasse se convencer, ela já previa isto. Os pesadelos, a inquietude do filho, nunca a enganaram. Mas apesar disto, Suzenee não desiste. Os olhos emanam uma límpida energia azulada, enquanto de suas costas emergem majestosas asas amareladas que lhes rasga as vestes. Ela voa em direção a praia como um raio. Procura o filho novamente, mas nada encontra.

Neste momento, os olhos vão aos poucos se esvaziando da aura azulada que antes transbordava, as asas recolhem-se e Suzenee vai ao chão. Os olhos cheios de lágrimas lamentam duas perdas: o filho e Arthur, que havia se recolhido um dia antes do que o anunciado, para evitar despedidas dolorosas. ***** Os olhos de Demétrius abriram-se lentamente, depois que a luz do dia tocou seu rosto. Levou as mãos à face, para evitar que a luz penetrasse nos olhos, ainda dilatados. Lembrou-se então, que como o dia já chegara deveria seguir viagem, pois em breve alguém o procuraria. Levantou-se e seguiu para o andar superior do barco. Tinha que ser rápido, pois em breve o dono da embarcação voltaria. Ao subir um breve lance de escadas, Demétrius depara-se com um homem, baixo e com um cavanhaque negro. Tinha braços e pernas robustas, como o menino jamais vira. A careca do homem refletia a luz, que cegava Demétrius. O Anão espantou-se com o intruso, ameaçando um soco. Quando se deparou com a realidade: uma criança, nua e inocente, olhando sem medo, diretamente em seus olhos. O homem abriu um gigantesco sorriso e depois deu uma grande gargalhada, com sua voz grossa. - Olha só o que temos aqui Lewi! Um menino pelado! Quando o Anão falou, Demétrius pode ver que seus dentes estavam podres, quase que totalmente. Apesar disto era simpático. Depois disso, aproximou-se um elfo, que aparentava ser o chefe. Tinha os cabelos compridos e negros, presos em uma longa trança. Usava roupas melhores. Ao menos melhores do que os trapos que o Anão vestia. Lewi se aproximou com um sorriso nos lábios. Ao contrário do Anão, Lewi não era nenhum pouco simpático, e seu sorriso não emanava nem um pouco de felicidade ou satisfação. Aproximou-se de Demétrius e segurou-lhe o queixo, enquanto dizia: - Ora, ora! O que um menino como você está fazendo aqui? Sua mãe deve estar preocupada, não? O menino notou que suas pernas tremiam. Estava com medo. Nunca tivera contato com outros, senão os da sua espécie. Lewi continuou: - Não precisa ficar com medo... Ao menos agora, não! - dando uma prolongada gargalhada, que não foi acompanhada pelo Anão. – Vamos deixar você num lugar bonito! Muito bonito, mesmo! Demétrius não conseguia proferir nenhuma palavra, tamanho seu pavor. Só agora percebera que o barco não estava mais parado. Estavam navegando e pelo visto há muito tempo, pois não era mais possível ver sua ilha. Lewi largara seu rosto, depois de fazer sinal para o Anão com a cabeça. O Anão pega o menino e o leva novamente para a parte inferior do barco. Serve a Demétrius um copo com água e uma coxa de galinha, que estava com uma aparência terrível. Tamanha era sua fome, que o garoto comeu o frango em menos de um minuto. Soluçava, pela ingestão repentina do alimento. O anão ria, como se satisfeito com a cena. Navegaram durante mais algumas horas, até que Demétrius sentiu o tranco do barco ao atracar em algum lugar. Lewi desce as escadas e pega o menino por um dos braços. Leva-o para cima. O menino vê que na verdade pararam próximos a uma praia. Não havia cais ou porto, apenas a praia. Lewi e o Anão olhavam-se. Demétrius suspenso no ar. De repente o anão grita: - Você não vai fazer isso, Lewi... Vai? - Não... – responde Lewi, com um leve sorriso maldoso no rosto. Você vai! – continua. O Anão apreensivo pega Demétrius das mãos de Lewi, e antes de consumar o ato, olha para o rosto do menino, com tristeza. - Desculpe...–resmunga o anão, antes de atirar o menino no mar.