You are on page 1of 2

Lágrimas do Céu – Parte II

Por Armando “Salubri” Netto.

Estava longe, o barco. Demétrius sentia uma imensa angústia ao prever que talvez não voltasse a ver sua mãe. Os olhos ainda a procura do barco inundaram-se com as mais puras lágrimas. Uma gota escorreu pelo delicado rosto do garoto, percorrendo o queixo até ser integrada pelo imenso oceano. As nuvens tornaram-se negras, fazendo com que Demétrius sentisse ainda mais medo. Os relâmpagos iluminavam a floresta, transformando as sombras em figuras macabras. O mar revoltou-se, tentando de diversas formas tragar o menino para si. Com muita dificuldade ele consegue suportar a força das ondas. Continua chorando. Uma aura amarelada rodeia o corpo de Demétrius. As costas curvam-se e de dentro delas surgem pequenas asas douradas. Os olhos tornam-se totalmente brancos e emitem uma luz atordoante. Neste momento, as lágrimas cessam e o corpo de Demétrius é elevado pelas asas. Em grande velocidade o garoto segue em direção a terra firme, mais especificamente para a floresta. Sobrevoa a floresta durante algum tempo, até ter coragem para desvendá-la. Um movimento na mata chama a tenção de Demétrius, que deixa o medo de lado e parte na direção do vulto. Embrenha-se na mata com dificuldade. Os pés tocam a terra molhada e o corpo, ainda iluminado, faz com que Demétrius possa enxergar por entre as árvores. O vulto não estava mais ali. Um relâmpago ainda maior. Demétrius olha para o céu. As árvores balançam freneticamente ao ritmo alucinante do vento. Folhas e pequenos galhos desabam a todo o momento. As asas do garoto recolhem-se no mesmo ritmo em que o brilho nos olhos e no corpo vão desaparecendo. As figuras macabras, formadas pelas sombras, voltam. Demétrius correu o mais rápido que pode. De repente depara-se com uma imensa árvore, a maior que já vira em toda a sua vida! Sua altura era superior a muitas montanhas que existiam em sua terra. A árvore era belíssima. O garoto sentiu uma incrível paz ao encontra-la. Os galhos e folhas eram tão densos que a chuvas não os ultrapassava. A árvore o chamava. Aproximou-se, vagarosamente. Não sabia se era loucura, mas tinha a impressão de ouvir até mesmo música. Uma música doce, muito suave. Tocou na árvore levemente. Sentiu algo simplesmente indescritível. A partir do momento em que recebeu a notícia de que Arthur teria de morrer, não sentiu mais nenhuma felicidade. E agora, voltava a senti-la. Pode esboçar até mesmo um sorriso. Singelo... Mas um sorriso! ***** - O que está acontecendo aí em cima, seu incompetente? – grita Lewi, após ter seu prato jogado do outro lado do depósito por uma travada brusca do barco. - O barco não quer funcionar, Lewi! – responde o Anão. Lewi sobre para o convés. Olha aborrecido para o Anão. A chuva começara novamente, e como o barco era movido à energia solar, a bateria chegou ao fim. As últimas horas foram de tempestades constantes, a luz do sol não se manifestara mais do que uma hora. Ao constatar isso, Lewi faz um sinal para o parceiro. Os dois descem juntos. O Anão pegas três ou quatro toalhas, joga-as para Lewi, que agradece. Os dois secam-se e voltam a guardar as toalhas. Sentam-se lado à lado, perto de uma pequena mesa de madeira, no depósito. - Deve ser algum castigo dos Deuses! – resmunga Lewi, enquanto tira um pouco de água que restou em seu ouvido. - Primeiro o garoto, e agora isso! Quanto tempo vamos demorar para levar esta encomenda para o Conselheiro? Ele vai nos matar... – diz o anão, secando com a mão o cavanhaque negro. - Espero que aquele pirralho não tenha descoberto nada! Se o Conselheiro descobre que alguém além de nós teve acesso ao barco seremos escalpelados! – diz Lewi, com seu já costumeiro meio sorriso. Continua. – O melhor que temos a fazer é esperar... ***** Demétrius adormece, abraçado à grande árvore. Aos poucos diversas luzes brilhantes rodeiam seu corpo, fazendo com que os cabelos cintilem sob a luz. Lentamente as luzes vão se multiplicando e aproximando-se do garoto. Eram Nadis. Um povo fada, muito exótico, até mesmo para os padrões dos celestes. Diversas lendas envolvem estas criaturas, mas nenhuma delas foi confirmada até os tempos atuais, devido a grande dificuldade de aproximação com as outras raças. Acredita-se que tais criaturas tem o poder de adquirir o tamanho de uma humanóide para atrair machos, também humanóides. Elas fazem isso por que só existem fêmeas desta raça. Os olhos de Demétrius incomodam-se com a luz. Vão abrindo pouco à pouco, até poder vislumbrar o circo de luzes que o envolve. O garoto acha tudo lindo. A felicidade que sentiu ainda permanecia em seu coração. As Nadis aproximavam-se cada vez mais. Podia-se notar uma que era diferente das outras. Parecia mais curiosa, aproximando-se mais rápido do que o resto. Em pouco tempo, a pequena e suave mão da nadi tocou os cabelos de Demétrius, que sentiu uma felicidade igual, ou até mesmo superior, do que quando tocou a árvore. Rapidamente diversas nadis tocavam o garoto, enquanto ele entrava em um estado de profunda felicidade. Pode-se ouvir um som, alto e irritante. No mesmo momento ouve uma dispersão imediata das nadis, com exceção da pequena curiosa, que permanecia compenetrada ao analisar Demétrius. Atrás da nadi que continuava a tocar-lhe, o garoto pode ver uma figura mais

bela e ainda mais brilhante do que as outras. Ela aproximou-se lentamente de Demétrius, que como se estivesse hipnotizado não teve reação. Antes de encostar-se em Demétrius, a nadi que se aproximava tocou a pequena curiosa, que rapidamente recolheu-se, juntando as outras. Os olhos encontram-se e o garoto pode perceber que ao contrario das outras, essa nadi tinha os olhos firmes e semicerrados. Aproxima-se dele e toca-lhe a testa. Ao contrario do que sentira antes, Demétrius vê toda a sua vida passando diante de seus olhos. A tristeza volta. O sonho se desfaz. Mesmo que a nadi não tenha emitido nenhum tipo de som, Demétrius sabia que deveria partir. Algo dentro de si dizia que já era a hora. Hora do que? Nem ele mesmo sabia responder essa pergunta. A única coisa que o deixava ainda mais triste ,era deixar a pequena curiosa. A convivência entre os dois durou apenas alguns segundos, mas Demétrius jamais experimentara tanta felicidade. Mesmo que fosse apenas uma ilusão... ***** A água caia, forte, sobre Suzenee. Lavava os longos cabelos, na companhia de Laura, uma amiga de infância. O olhar perdido, mostrava a preocupação com o filho, desaparecido há quase dois dias. Laura passou as últimas horas ouvindo a amiga falar, sem intervalo, sobre o filho. Ela ainda acreditava que Demétrius iria voltar, assumiria o trono e tudo ficaria bem. No fundo, ela sabia que provavelmente isso não aconteceria, mas seu coração maternal não permitia que a idéia original se despedaçasse. Da grande cachoeira pôde-se ouvir o chamado de Clarice. - Suzee, Laura! Donavan vai fazer um pronunciamento! Venham! – grita Clarice, ainda longe. O que Suzenee mais temia aconteceu. Donavan, o macho mais velho da tribo, iria se autocoroar. Eram as tradições, mas Suzenee ainda tinha esperanças de que ele esperasse. Talvez Demétrius voltasse... Ela segue para o palácio, escavado nas montanhas. Donavan já esperava os futuros súditos, sentado no trono. Quando Suzenee entrou no palácio, as atenções do futuro rei foram todas voltadas para ela. Donavan deixou até mesmo o sacerdote que conversava com ele sem respostas. Ele seguiu na direção de Suzee. - Olá Suzee... Gostaria de lhe dar meu apoi... – dizia Donavan, ao ser interrompido por ela. - Poupe-me de seu falso apoio Donavan! Já estou farta da sua falsidade! Se estivesse mesmo do meu lado, mandaria alguém procurar Demétrius! – disse Suzenee, ríspida. - Você conhece as nossas leis Suzee. Sabe que não podemos ter contato com as outras raças. E ainda não sendo rei, não posso fazer nada! – retrucou Donavan. - E quando se tornar rei, o que vai fazer? Mudar as regras, as leis? Romper as tradições? Me diga! O que vai fazer, Donavan? – indagou-o, Suzee. Mas antes que pudesse responder, Donavan foi interrompido pelo sacerdote. Já era hora de fazer o pronunciamento. Um novo rei tomaria o poder na Ilha dos Deuses. Continua...