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Lágrimas do Céu – Parte III

Por Armando “Salubri” Netto

A chuva cessa. Demétrius segue por uma pequena trilha, após ter abandonado Ewá, a gigantesca árvore. A todo o momento olhava sobre os ombros. Tinha a estranha sensação de estar sendo seguido, ou ao menos observado. Os olhos percorreram os arredores, mas não adiantara. Por mais que pudesse constatar a solidão, Demétrius sentia o corpo tremer, com a perspectiva de ter companhia. Os passos, mais largos devido ao medo, desbravavam a mata, ainda virgem, ao término da pequena trilha. De repente um pequeno, quase imperceptível zunido, faz Demétrius olhar para a esquerda. Surpreendeu-se ao ver que ao seu lado estava a pequena Curiosa, como ele havia a apelidado. Ao ver a satisfação nos olhos do garoto, a nadi se encheu de luz. Encostou os frágeis dedos no rosto de Demétrius, a felicidade que o abandonara retornou. Sem nenhuma palavra, a nadi acomoda-se sobre o ombro direito do garoto. Os dois seguem, agora mais tranqüilos, pela floresta escura. ***** Donavan olhou para Suzenee, antes de acomodar seu corpo sobre o trono. Ao fazer isto sentiu-se como nunca. Achou que com o poder conseguiria tudo o que sempre desejou. E a única coisa que desejava era o amor de Suzenee. E faria de tudo para conseguir este amor. Absolutamente tudo! - Neste momento iniciaremos, conforme as Leis Celestes, a coroação do novo rei. Rei este que terá plenos poderes sobre a Ilha dos Deuses e sobre todos os seus habitantes. – disse, em tom solene, Salins, o sacerdote real. Continuou – Por favor, Donavan. Aproxime-se. Donavan andou lentamente até o sacerdote. Eram poucos passos, pois o sacerdote encontrava-se logo a frente do trono. Mesmo com a pequena distancia, ele saboreou cada centésimo de segundo. Os olhos tragavam todas as atenções para si e a expressão não o deixava mentir: estava adorando a situação. Ninguém, além de Salins, conhecia tal ritual. Nunca houve a necessidade de fazê-lo. Pela primeira vez a Marca da Realeza seria feita em alguém. Todos os outros reis que governara a Ilha já haviam nascido com tal marca. - A partir de agora você, Donavan, tem supremacia sobre os de tua raça e sobre esta terra abençoada pelos Deuses. – disse Salins, com uma tristeza aparente no olhar. Continuou - Mas que em sua mente fique claro: terás poder somente até o dia em que o verdadeiro rei voltar ou até uma nova criança nascer com a Marca da Realeza. Salins trazia sempre consigo um grande cajado. Surpresa de todos foi quando o sacerdote distanciou-se do cajado, e este permaneceu de pé, como se flutuasse. Aos poucos o cajado foi tomando uma forma bruta, cheia de tentáculos de fogo. Donavan, apavorado, observava tudo de muito perto. Os tentáculos tornaram-se maiores e agarraram o tronco de Donavan. Mesmo fazendo muita força ele não conseguia se soltar, nunca vira tamanha brutalidade em toda a vida. Aos poucos o fogo que envolvia os tentáculos foi desaparecendo, deixando apenas cinzas sobre o piso trabalhado do palácio. O fogo, que antes envolvia os tentáculos, transferiu-se para o corpo de Donavan, enquanto este soltava urros de dor. Todos os presentes estavam assustadíssimos. Mães tampavam os olhos das crianças, que sempre curiosas queriam espiar o que estava acontecendo. Quando todos os tentáculos se apagaram, Donavan caiu, como uma pedra, sobre o chão. Os olhos fechados atiçavam ainda mais a curiosidade da população. Aos poucos ele volta a si. Acorda assustado. Ergue-se aos poucos até poder levantar-se. As vestes rasgadas mostravam uma gigantesca marca, que se formara nas costas de Donavan. Era a Marca da Realeza. ***** Demétrius e Curiosa andavam tranqüilamente na floresta. Mesmo sabendo que a pequena criaturinha que o acompanhava nada poderia fazer em possíveis perigos, Demétrius sentia-se seguro. Estranhamente ele sente novamente que está sendo observado. Os olhos percorrem a mata ao seu redor. Nada. Curiosa também percebe algo, pois logo os olhos percorrem as redondezas. O quebrar de um galho confirma as cismas dos dois. Um vulto move-se à esquerda, de onde veio o barulho. Mesmo na companhia de Curiosa, Demétrius sente o medo lhe possuir novamente. Os pensamentos negativos tomam conta da mente do garoto. Mas estes pensamentos são interrompidos por um som, alto e amedrontador. Por reflexo, Demétrius corre. Corre muito até perder as forças. Agora parece tudo calmo. A sensação de estar sendo observado cessa e o coração volta aos batimentos normais em alguns segundos. A normalidade acaba logo após vislumbrar o ombro direito: a nadi não mais estava ali. Havia simplesmente desaparecido. Pensou em voltar, talvez ainda a encontrasse. Mas antes que pudesse ter qualquer ação, sentiuse observado novamente. Uma respiração ofegante aproximava-se, com cautela. Os galhos quebravam ao seu passa, as árvores se curvavam, tamanha sua força. A criatura aproximou-se de Demétrius. O cheiro pútrido emanado pela criatura deixou Demétrius desnorteado. A escuridão não permitia que o garoto pudesse vislumbrar o monstro por completo. Apenas via uma sombra, grande e deformada se aproximando. O som tornava-se cada vez mais alto, juntamente com o medo de Demétrius. A criatura avança, sem piedade , na direção do garoto. Os olhos de Demétrius fecharam-se com força. Um raio se mostra no céu. O corpo da besta é revelado: um Tron, uma criatura gigantesca, semelhante a um crocodilo, porém muito maior. É temido pelos nativos da região, devido ao seu ataque, a Espiral da Morte. Após sentir o toque dos dentes do monstro, Demétrius conformou-se com a morte. Não sentia mais o corpo. Os olhos não mais abriam. Talvez esse fosse o seu destino...

***** A pequena Curiosa acorda. Dá um salto e logo procura por Demétrius. Os olhos percorrem todos os cantos. Nada. Tentara ajudar o mais novo amigo, mas a criatura sequer a percebera, atropelando. Ficou inconsciente por alguns momentos, mas não se feriu gravemente. Olha para frente e se depara com uma grande trilha, supostamente aberta pela terrível criatura. Decidi segui-la. Talvez Demétrius estivesse lá. Estivesse ferido ou até mesmo morto... ***** Após a coroação, Donavan se retira para os aposentos reais. Pede para não ser incomodado, mas Suzee não atende seu pedido. Passa pelos três guardas como um foguete e rapidamente aproxima-se de Donavan. - E então, Donavan? O que vai fazer agora, que você é rei? – diz Suzenee, com sarcasmo. - Vou mandar procurarem seu filho, nem que isto me custe a desconfiança de todos na Ilha. Tudo isso por você...- responde Donavan. - Não vou acreditar nisso, até ver os guardas saindo em direção ao Continente! Você sabe que suas palavras para mim não valem nada, até que você prove que mudou! – retruca Suzenee, ríspida. Continua. – Serei grata se fizer o que me promete, mas não se deixe enganar, nunca vou esquece o que me fez. Só não odeio você com todas as minhas forças, por quê justamente pelo que você fez eu ganhei Demétrius... Suzenee derrama algumas lágrimas. Olha para Donavan, que vira o rosto, como se por vergonha. Suzenee vira-se e vai embora. No momento em que as portas se fecharam, Donavan grita: - Guardas! Venham até aqui! Três guardas que cuidavam da entrada do quarto, do rei, aproximaram-se. - Preciso que vocês façam uma coisa pra mim... Os três guardas apenas acenaram com a cabeça, como um sim. - Procurem pelo menino... Demétrius. Encontrem-no. E matem-no! ***** - Finalmente essa maldita chuva parou! – disse Lewi ao vislumbrar o céu. Continuou – Mesmo assim vamos ter que esperar até o sol aparecer. Espero que não chova novamente. Ao dizer isso Lewi foi surpreendido por um raio que atravessava o céu. O rosto baixo, enquanto Lewi resmunga “Era só o que faltava!”. Continua...