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A atualidade da Revolução Soviética e a questão do Estado1 Mauro Luis Iasi2

Até quando o mundo será governado pelos tiranos? Até quando o oprimirão com suas mãos cobertas de sangue? Até quando se lançarão povos contra povos numa terrível matança? Até quando haveremos de suportá-los? Bertolt Brecht

De certa maneira, a história sempre é feita de forma retroativa e com os olhos no futuro. Voltamos nossas pegadas em direção ao passado para encontrar uma linha de acontecimentos que nos ajude a entender os caminhos que podem nos levar até o futuro que escolhemos. Este tipo de história recorrente, como já foi criticado por Foucault (1984: 15 e ss.) depois de Nietzche, corre o risco de tirar os acontecimentos da própria história deslocando-os para o lugar nenhum do idealismo supra-histórico. Para Marx, no entanto, ainda que a história seja feita pelos próprios seres humanos, nos contextos concretos de formações sociais concretas, no calor cotidiano da luta de classes, não se pode reduzir a história ao momento singular do acontecimento. A ação dos seres humanos em cada momento se insere em momentos históricos maiores, em transições históricas que desvelam os caminhos pelos quais uma forma particular de produção da vida vai se transformando em outra. Assim, alguns acontecimentos só alcançam sua dimensão quando o processo de mudança acaba por se concluir. A própria revolução Francesa de 1879 foi, em sua época, esquecida como não mais que um acontecimento qualquer no mar tumultuado que separava o século XVIII do século XIX. É somente com o desfecho da transição entre o feudalismo e o capitalismo que o episódio da Revolução Francesa é destacado como um ponto importante de superação política que abre uma época histórica. O mesmo ocorre com a revolução Russa de 1917. Os dramáticos acontecimentos que se seguiram à queda do Czarismo em fevereiro até a tomada do poder pelo proletariado em outubro de 1917 podem ser entendidos apenas como o produto de uma singular correlação de forças que se apresentou apenas pela emergência de um contexto histórico concreto excepcional: a guerra mundial e a particular persistência de uma autocracia anacrônica. No entanto, se localizarmos tal acontecimento em seu contexto histórico mais abrangente, veremos que se desatava na Rússia um nó que havia se formado desde a Comuna de Paris de 1871 e que chegara ao início do século XX através de um profundo dilema que atormentava a vida dos grandes partidos de massa europeus de orientação marxista. É verdade que a história só pode ser jogada no terreno concreto dos acontecimentos, mas não pode ser compreendida caso limitemos a análise a eles. Os acontecimentos que marcam o final do século XIX e o início do século XX só podem ser compreendidos se entendermos que, no momento mesmo no qual o capitalismo se firmava como um modo de produção autônomo, ocorre
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Texto elaborado para as comemorações dos 90 anos da Revolução Russa apresentado em Assunción, Paraguay, 2007. 2 Mauro Luis Iasi é Doutor em Sociologia pela USP, Professor Adjunto da ESS da UFRJ, educador popular do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro (PCB)

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a emergência de um proletariado que não encontra lugar nesta nova ordem, a não ser como a força de trabalho a ser explorada pela euforia da acumulação crescente de capitais. O paradoxo da igualdade liberal, aquele no qual só se pode falar em igualdade formal perante a lei uma vez que a igualdade de propriedades e riquezas é impossível na ordem capitalista, ainda estava em processo de formação. Contra o proletariado que se levanta exigindo ampliação de direitos, a ordem burguesa, ainda não plenamente consolidada, responde com a repressão aberta, legislações proibitivas da organização dos trabalhadores, restrição do direito de voto e outros mecanismos de controle como se viu no ciclo revolucionário de 1848 e na própria Comuna de Paris em 1871. A consolidação dos Estados Burgueses na Europa Ocidental, que acompanha o processo gradual de passagem da subordinação formal para a subordinação real do trabalho ao capital, faz com que a atitude autoritária do Estado Burguês, ao mesmo tempo em que mantém os mecanismos repressivos contra as formas de ação direta dos trabalhadores (greves, organização para a luta econômica, insurreições, etc.) deixa, cada vez mais, aberta a possibilidade de participação política eleitoral. Esta será a base da formação dos grandes partidos de massa social-democratas na Europa Ocidental do final do século XIX. Enquanto uma parte das forças operárias resiste em participar do jogo eleitoral, notadamente a corrente anarquista que denunciava as eleições como uma armadilha que distanciava os trabalhadores das lutas diretas contra a ordem burguesa, os grandes partidos social-democratas de orientação marxista tendiam a acreditar que as eleições poderiam ser importantes espaços de divulgação de seu programa, neste momento ainda um programa socialista, ou seja, que afirmava a necessidade de constituição de um Estado Proletário que socializando os meios de produção iniciasse uma transição socialista. O sucesso desta alternativa se deve a inúmeros fatores, entre eles a própria persistência das restrições autoritárias a qualquer outra forma de ação direta como as greves que seguiam sendo reprimidas, como pode ilustrar a legislação antissocialista na Alemanha. Além disto, como analisa o próprio Engels, a evolução da tecnologia militar praticamente inviabilizava o sucesso das lutas de rua e das barricadas que marcaram os levantes proletários do final do século XIX, referindo-se ao surgimento do fuzil de repetição e do uso de artilharia leve que podia ser levada para dentro das cidades, assim como a criação de grandes avenidas que, além de tornar mais bela a cidade de Paris para as madames passearem com suas sombrinhas e cachorros, permitia a locomoção de batalhões, cavalarias e artilharia para combater os levantes operários. Entretanto, o principal fator do crescimento desta alternativa foi mesmo seu aparente sucesso. Considerando a evolução eleitoral dos partidos social-democratas vemos um vertiginoso crescimento. O SPD alemão obteve 125 mil votos em 1871, passou para 312 mil em 1881 e 1.427 000 em 1891. Já em 1914 alcançava a maioria relativa, tornando-se o maior partido político da Alemanha com 4 250 000 votos (Przeworski, 1989: 32). E a Alemanha não foi uma exceção. Na Áustria os socialistas passaram de 21% dos votos em 1907 para 40,8% em 1919. O mesmo ocorria na Bélgica (13,2% dos votos em 1894 para 39,4% em 1925), na Holanda (3% em 1896 para 18,5% em 1913), na Suécia (3,5% em 1902 para 36,4% em 1914), na Noruega (0,6% em 1897 até os 32,1% em 1915) (idem: 32-33). Os resultados eleitorais levaram a socialdemocracia a acreditar que o caminho eleitoral poderia levar a algo mais que uma simples utilização tática que permitia divulgar o programa socialista enquanto se acumulavam forças para uma revolução socialista. Passou-se a acreditar que a burguesia havia cometido uma imprudência chamando o proletariado para o campo da disputa eleitoral, uma vez que, sendo maioria numérica os trabalhadores, no dia que se comportassem política e eleitoralmente como trabalhadores, inevitavelmente venceriam as eleições. Envoltos no calor das disputas conjunturais, os trabalhadores não atentavam para o fato de que a escolha deste caminho, ainda que taticamente apresentasse resultados surpreendentes, redefinia a compreensão que os marxistas tinham do Estado e sua postura diante dele, assim como acabava por alterar a identidade de classe transformando-a em não mais que parte da 2

enfrenta uma realidade muito distinta. pelo simples fato que a história não acontece primeiro num lugar para. No fluir contínuo da história. acontecer em outro. acabam por criar outros patamares de objetividade sobre o qual as novas gerações podem agir. a não ser pela apropriação violenta de “sistemas explicativos” que buscam fugir da aleatoriedade prendendo-a no esqueleto da dialética. mas. no entanto. Nas determinações conjunturais de uma determinada luta concreta marcada pela Guerra Franco-Prussiana. No entanto. não é possível saber. como forma de ceder às pressões revolucionárias. exatamente por suas particularidades. não seria a Revolução Russa uma reminiscência. Em 1905. mas deixaram um patamar de possibilidades sobre o qual podemos pensar nossa ação em outro contexto 3 . o Czarismo permitiu que o movimento revolucionário retomasse o caminho da organização autônoma e independente na forma dos sovietes. O que ocorre é que dialeticamente os elementos que conformaram as novas formas germinam nas velhas. ela é simultânea. mas esta prática representativa restringia-se a setores descontentes da nobreza e parte da burguesia em ascensão. Os comunardos de 1871 não apenas enfrentaram sua época histórica com ousadia e foram derrotados.massa. restava a boa e velha repressão. O drama russo. a história se converte no acaso aleatório de contextos particulares que não estabelecem entre si nenhuma conexão. A revolução Russa e o próprio desfecho trágico da revolução Alemã colocarão dramaticamente a questão do Estado de volta ao centro do debate. desde a proibição da organização sindical até o fechamento sangrento dos Sovietes (conselhos criados no curso das lutas de 1905) na insurreição de Moscou. Mas o que faria da Comuna um germe da forma nova e não apenas um acidente? Caso nos limitemos a “álea singular do acontecimento”. o Czar havia aberto a possibilidade de representação política através das Dumas e Zemstvos (espécie de parlamentos regionais e locais). não poderia passar de um germe que não encontrava todas as condições para se desenvolver. estamos diante de muito mais que uma coincidência. depois. o da Primeira Guerra Mundial. Para os marxistas. o espaço eleitoral havia sido obstaculizado pela autocracia czarista. Marx (2008) considerava a Comuna a “forma finalmente encontrada” de Estado Proletário capaz de materializar as condições políticas da transição socialista. um eco do passado tornado possível pela situação excepcional da guerra. do povo. da mesma forma como acreditamos que tal questão consiste exatamente no fator de maior atualidade destas experiências que abriram a história política do século XX. nós temos que aprender de uma vez por todas que não existe história “em atraso”. Naquele momento histórico. no entanto. por exemplo. Ao obstaculizar os caminhos de integração eleitoral. A formação do Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR) em 1898 trazia as mesmas pretensões de seus colegas ocidentais. Primeiro porque o passado não produz ecos. Por motivos que estão profundamente ligados a forma com se constituiu a formação social russa. os trabalhadores franceses encontraram uma forma de organização política que foi a Comuna. Mas. que permitiria. os trabalhadores russos encontraram outra forma: os sovietes. era paradoxalmente a solução do impasse alemão. Estamos diante de um movimento em espiral no interior do qual o aparente retorno às formas superadas indica apenas o movimento contínuo de superação e negação sucessivas das formas históricas pela ação dos seres humanos. Em outro momento diverso. o armamento da população e a neutralização dos fatores tecnológicos ressaltados por Engels? Acreditamos que não. Nesta perspectiva. Para os trabalhadores. mas. o da crise da autocracia russa. em outro contexto singular. os seres humanos enfrentam suas tarefas com as armas que dispõem. A chave do futuro estava no passado: na Comuna. que exigiam como base material o desenvolvimento de relações especificamente capitalistas de produção que tornassem possível a subordinação real do trabalho ao capital. da mesma forma que nas novas ainda persistem traços das velhas formas superadas. Tudo parecia indicar que a velha Rússia nada mais era que a versão “em atraso” do processo que já se dera na França e depois na Alemanha. ao agir sobre o terreno objetivo legado pela história anterior. como quer Foucault (1989:28).

Enquanto a facção menchevique se aproxima da tradição socialdemocrata ocidental da II Internacional. ao desenvolver as forças produtivas. Uma vez que as massas sublevadas de operários. A II Internacional. os Socialistas Revolucionários (herdeiros do movimento camponês que lutou pelo fim da servidão no Movimento Terra e Liberdade e que em 1901 havia se convertido em partido político) e o POSDR. são formados por representantes eleitos diretamente nos locais de trabalho. tal composição é absolutamente insuficiente para dar base real de sustentação ao novo governo e permitir a legalização e consolidação de uma nova ordem que substituiria a autocracia. principalmente pela influência alemã. principalmente através das eleições e das lutas sindicais. mas nós não temos nada contra as construções humanas desde que não fetichizadas. No entanto. o que os levaria a uma ação política absolutamente heterodoxa. os bolcheviques produzem uma leitura ao mesmo tempo ortodoxa e subversiva. os socialdemocratas russos dividem-se em avaliações muito distintas sobre a forma de conduzir as ações revolucionárias. portanto. aferrando-se a essa impossibilidade. tornando possível iniciar a transição socialista sem a necessidade de uma ruptura revolucionária e da destruição do Estado. de forma a acumular forças. Este seria o componente da ortodoxia que beira. camponeses. sejam sindicais ou político-eleitorais. Com a queda do czarismo. levou à queda do czarismo por meio de uma insurreição. aceitando ministérios importantes. os socialdemocratas afirmavam que a revolução em curso naquele momento histórico era uma Revolução Democrática Burguesa. com suas facções Menchevique e Bolchevique. o Governo provisório não encontraria nenhuma legitimidade se não lograsse atrair estes setores para a sustentação do governo. entre elas os anarquistas. os socialdemocratas da Segunda Internacional irão moldar toda sua tática e estratégia política nos limites da “etapa” democrática e. organização que procurava recriar a associação dos trabalhadores com base nos grandes partidos de massa que se formaram no final do século XIX. As massas rebeladas se fazem representar pelos Sovietes e estes. a impossibilidade da ocupação de espaços institucionais. além do fato de que a adesão dos soldados e marinheiros quebrou o aparato repressivo do Estado. 4 . são o espaço de ação política de inúmeras organizações políticas. colocando-o a serviço da maioria da população. acabaria por gerar as condições para uma futura superação socialista. Foucault tem razão ao afirmar que a história não existe fora de uma construção humana. nos comitês agrários ou nas bases militares. no entanto. A formação do governo provisório e o chamamento para que o Sovietes participassem do governo. Vimos.histórico concreto. que se distanciavam muito daquelas apontadas pelo criador do materialismo dialético. O que a Comuna de 1871 coloca como novidade no fazer histórico e que os russos recriam nas condições concretas de sua luta contra o Czar é a questão do Estado em toda a sua complexidade. que a dimensão do crescimento eleitoral os faz crer que seria possível ir mais além e disputar diretamente o controle do Estado Burguês. inclusive. Tratava-se de ocupar espaços no interior da ordem institucional. forma-se um governo provisório inicialmente constituído pela aliança entre a nobreza liberal e a burguesia. uma leitura determinista e economicista. se fundamentava em uma leitura aparentemente ortodoxa e fundamentalista de Marx para chegar a conclusões muito heterodoxas. por sua vez. mas de forma mais nítida a partir de 1905. soldados e marinheiros formam o sujeito das ações que levaram à derrubada do Czar. o que o converteria em um Estado Proletário. entretanto. Entretanto. Baseados na afirmação de Marx segundo a qual nenhuma sociedade nova aparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que a velha sociedade é capaz de conter. que. e nenhuma relação social de produção nova se apresenta antes que se desenvolvam as condições materiais para tanta no interior da sociedade antiga (Marx. 1977). atualizam a possibilidade da leitura heterodoxa segundo a qual era possível disputar o controle do Estado Burguês. Desde 1902. nos limites da ordem burguesa. No caso russo.

o segundo se aproxima muito da situação atual em que nos encontramos e o quadro que. se dividem entre aqueles que lutam para manter as relações tal como estão e aqueles que representam a necessidade histórica de criar novas relações de produção que fazem a história andar ou manterse como está. alargam o próprio horizonte das possibilidades. isto é. São os seres humanos que. A contradição objetiva entre o avanço das forças produtivas e as antigas relações sociais torna possível uma época de revolução social. enfatizar a dialética sem o materialismo. separando de maneira absoluta os aspectos objetivos e subjetivos do processo de mudança social. mas pelo maior ou menor domínio da dialética. durante o século XX. apegase ao materialismo para afirmar a impossibilidade da revolução socialista e a necessidade de participar da ordem institucional burguesa. favoreceria o caráter proletário do estado. diante da constatação da possibilidade de participar do Governo Provisório e da certeza de que se encontravam em uma “etapa” democrática. Mesmo diante da constatação serena segundo a qual não havia condições para que a ação política dos comunardos iniciasse uma transição socialista. isto é. Ocorre que a combinação dos fatores objetivos e subjetivos não é mecânica. em nenhum momento Marx se somou àqueles que criticaram os revolucionários franceses de 1871 afirmando que eles não deveriam ter pegado em armas. em diálogo crítico diretamente dirigido aos socialistas utópicos. Os trabalhadores podem encontrar condições políticas para desfechar uma ação contra a classe dominante. Em verdade. a disputa dos setores ligados aos sovietes com a burguesia. neste caso.Os mencheviques acusavam os bolcheviques de não serem ortodoxos o suficiente na leitura estrutural que determinava a impossibilidade de uma revolução socialista e. Os mencheviques. em um primeiro momento. saldou a iniciativa de tentar “tomar de assalto os céus”. se desconsideram ou relativizam as determinações econômicas sobre as quais se funda o Estado 5 . sem que as condições objetivas estejam plenamente maduras. logo depois. ao mesmo tempo em que podem ocorrer que as condições objetivas se apresentam sem que a classe revolucionária tenha desenvolvido os meios próprios de organização. Marx ressaltou que não seria possível a mudança sem que se desenvolvessem as condições materiais para tanto. A socialdemocracia oscila em seu oportunismo ao afirmar o materialismo sem a dialética para. pelo contrário. em um segundo momento faz-se o elogio do movimento e do processo desconsiderando peremptoriamente as condições objetivas dentro das quais há que atuar. não pela maior ou menor ortodoxia. No caso da questão do Estado este dilema é evidente. nas condições concretas da revolução russa. são muitas as combinações possíveis no terreno concreto da luta de classes. prevaleceu nos países centrais do capitalismo. como veremos com a própria experiência soviética. o fazer histórico é resultado da síntese entre esses fatores objetivos e subjetivos e. paradoxalmente. Como bom materialista. criam novos patamares políticos para as ações futuras da classe. de serem demasiado ortodoxos na tática política quanto ao Estado Burguês. O primeiro caso é típico do que ocorreu na Comuna e. quando os trabalhadores agem em uma situação na qual as condições objetivas não estão dadas e vão ousadamente além dos limites do possível. a leitura de Lênin e Trotski se diferenciava das forças hegemônicas na II Internacional. vemos a afirmação de que o mero desenvolvimento das forças produtivas levaria. de consciência e de ação revolucionária que poderiam inscrevê-la como um sujeito histórico dotado de autonomia histórica. em nenhum momento. mas não a faz. a ação política da classe revolucionária. por si só. de certa forma. Visto por este ângulo. Ao lado dos fatores objetivos que tornam possível uma mudança histórica deve juntar-se os fatores subjetivos. Se. ao enfatizar os aspectos políticos. em parte produzida por acontecimentos e contextos históricos precisos. desenvolvem a convicção de que o caráter de classe do Estado pode ser alterado pela natureza das forças políticas que o ocupam. portanto. A relativização do elemento dialético do método de Marx e Engels faz com que a socialdemocracia entenda a famosa afirmação de Marx sobre a relação entre o avanço das forças produtivas e a contradição com as relações sociais de produção de forma mecânica. Como se vê. Mas. às mudanças sociais. a saber. em cada época.

até pela pressão das lutas proletárias. o argumento de Engels é que o Estado se coloca aparentemente acima dos conflitos de classes. da mesma forma que.russo neste momento. no próprio conflito dessas classes. é um conceito próprio da época de Marx. Para reforçar seu argumento. e que Engels compartilha. as coisas não são tão simples. enquanto os mencheviques buscavam pragmaticamente os caminhos reais disponíveis que os levaram a controlar o Estado. debatendo criticamente tanto com os mencheviques como com Kautsky. resulta. a abrir seu Estado à disputa das outras classes. Este autor teria vivido apenas um momento em que a burguesia de fato utiliza seu estado como um instrumento exclusivo de poder e trata as classes dominadas de forma autoritária. e a palavra chave aqui é o “aparentemente”. que viveu mais que Marx. interpreta a frase como sendo a comprovação de que o Estado nasceu do caráter inconciliável das classes. Poderia parecer àqueles que viviam esta época que os bolcheviques se apegavam ao preciosismo dos conceitos. tendo ficado preso aos limites do século XIX. em princípio. assim. mas é um produto desta própria sociedade em uma fase de seu desenvolvimento. Os mencheviques contra-atacam afirmando que esta é uma posição por demais ortodoxa de Lênin. Engels. não se ilude com as aparências e afirma que: 6 . por sua vez. que o conceito de Estado de Marx estava superado. antes. graças a ele. (Engels. as coisas não são bem assim. novos meios de oprimir e explorar a classe dominada. fase esta na qual a sociedade se divide em classes antagônicas. Os socialdemocratas da II Internacional passam a afirmar. os mencheviques concluem que o Estado é um espaço que torna possível a conciliação que na sociedade não pode se dar. em seu trabalho O estado e a revolução . se torna politicamente dominante e adquire. Marx não teria presenciado o surgimento do Estado democrático representativo moderno através do qual a burguesia é obrigada. que o Estado é sempre o Estado da classe mais poderosa. Lênin e os mencheviques tiram conclusões diversas. Partindo da afirmação de Engels segundo a qual o Estado não é de forma alguma uma força imposta do exterior à sociedade. Lênin (2007). As coisas mudam e o Estado contemporâneo mudou. Mais uma vez. Como Engels afirma que a divisão de classes produz um movimento no qual o Estado aparentemente “se afasta da sociedade” para evitar que a sociedade se consumisse em uma luta estéril. a suposta renovação do marxismo pelos membros da II Internacional os aproxima da clássica visão contratualista e liberal segundo a qual o Estado é fruto da decisão consciente e voluntária dos indivíduos para evitar a guerra hobbesiana de todos contra todos. Na verdade. a conclusão necessária é que o Estado seria um órgão de dominação de classe que consolida e legaliza uma ordem de exploração de uma classe sobre outra. numa clara demonstração de sua ortodoxia econômica e heterodoxia política. haviam desconsiderado os políticos. recupera a teoria de Estado de Marx e Engels para afirmar que não é possível conciliá-la de forma alguma com qualquer tática que afirme a possibilidade de partilhar do Estado Burguês ou de buscar utilizá-lo como forma política que conduza os trabalhadores até a transição socialista. da classe economicamente dominante que. afastando-se dela cada vez mais. se a conciliação fosse possível não seria necessário o Estado como uma força que se coloca aparentemente acima da sociedade. ao ressaltarem os aspectos econômicos. Lênin recorre a esta citação de Engels: Como o Estado nasceu da necessidade de refrear os antagonismos de classe. que o transforma em um instrumento exclusivo da burguesia a serviço de seu domínio. negando-se a abrir o Estado à disputa dos outros seguimentos sociais. Ao comentar o Estado representativo moderno. como se comprova pelos acontecimentos de 1848 e 1871. 2007: 30) Como podemos comprovar. uma vez que atua no interior deste conflito como expressão política de uma das classes em luta. No entanto. apud Lênin. Para Lênin. portanto. Lênin. O conceito clássico de Estado em Marx.

podendo se apresentar nas inúmeras 7 . s/d [1875]: 221) O texto parece indicar. que existe em todos os países civilizados. 2007: 30) Apesar da afirmação taxativa da primeira parte da frase. mais ou menos livres de complementos medievais. o Estado se tornaria uma “espécie” de árbitro. e os aspectos que conformam sua expressão aparente. O sentido geral da frase é exatamente que. O que são “períodos excepcionais”? São situações raras que não se produzem toda hora nem podem ser típicas de um período histórico. Uma “espécie”? O que uma pessoa diria ao ser convidada a participar de uma “espécie” de faculdade que promete transformar o estudante em uma “espécie” de médico? A frase central segue sendo a primeira: o Estado representativo moderno é um instrumento de exploração do trabalho assalariado pelo capital. do “conjunto da sociedade” dos representantes do pensamento burguês desde suas origens. uma ficção. da mesma maneira que. pois já ouvia esta balela de que o Estado é a representação do “interesse geral”. como uma espécie de árbitro. pois durou mais de mil anos. você é mesmo muito azarado. através de Hobbes. Ora. Locke. sua substância. pois enquanto morar em sua casa terá que obedecer a suas regras. Montesquieu e tantos outros. O que quer dizer o termo “certa” antes da palavra independência? Quando seu pai fala que você tem “certa independência”. (Marx. estes períodos “excepcionais” são “momentâneos”. O feudalismo não foi um período “excepcional” em que prevaleceram as suseranias e vassalagens.O Estado representativo moderno é um instrumento de exploração do trabalho assalariado pelo capital. sua forma. no momento em questão. na Inglaterra é diferente dos Estados Unidos. Há. Pelo contrário. mesmo em momentos nos quais o Estado se apresenta como se fosse neutro. e o Estado adquire “certa independência”. em uma espécie de árbitro que se coloca acima do conflito de classes. Falando sobre o “Estado atual”. o valor de troca é apenas a expressão do valor. que há uma distinção entre os aspectos que determinam o caráter do Estado. portanto. na qual Engels não deixa a menor dúvida sobre o caráter de classe do estado contemporâneo. No Império Prussiano é diverso do que existe na Suíça. seu conteúdo. Da mesma maneira. O pensamento de Marx enfrenta esta afirmação de maneira muito precisa afirmando que o pensamento burguês se perde na confusão entre a forma e o conteúdo do Estado. Segundo o autor. períodos excepcionais em que as classes em luta atingem tal equilíbrio que o poder público adquire momentaneamente certa independência em relação às mesmas e se torna uma espécie de árbitro entre elas. O “Estado atual” é. (Engels. o Estado teria se convertido. mais ou menos modificada pelas particularidades do desenvolvimento histórico de cada país. Se você passa por um período de muito azar nos últimos quarenta anos. Rousseau. no entanto. mais ou menos desenvolvida. ele segue sendo um instrumento da classe dominante que consolida e legaliza seu domínio. apud Lênin. Marx afirma que: A “sociedade atual” é a sociedade capitalista. os socialdemocratas mencheviques se apegam à segunda parte da frase para afirmar que o companheiro de Marx constata que. o “Estado atual” se modifica com as fronteiras de cada país. graças a uma especial correlação de forças. do “bem comum”. se considerarmos o conjunto da obra do autor. por analogia. Notem as expressões claras de Engels que relativizam a constatação correta da existência de momentos de equilíbrio nos quais o Estado se apresenta aparentemente “acima dos conflitos”. convertendo o Estado em um espaço de conciliação dos interesses das classes. ele quer dizer de fato que você não deve inadvertidamente acreditar que é independente. uma leitura atenta não pode chegar a esta conclusão. O próprio Marx não assistiu esta polêmica de tão longe como creem os socialdemocratas. não é um período.

sinteticamente três direitos: o direito de propriedade privada dos meios de produção. Naquilo que nos interessa. Ora. Ainda que o caráter do Estado atual seja definido. o Estado pode assumir a forma que quiser: um Emirado Árabe. Tanto é verdade que.proporções em que um valor de uso se troca por outro. Na Prússia um Império. garantir a ordem do capital e. o direito de comprar e vender livremente a força de trabalho humana como mercadoria e o direito de acumular privadamente a riqueza socialmente produzida. isto não impede que ele assuma formas muito variadas quando consideramos cada país. Isto evidentemente serve também para a pretensão dos chamados “Estados Populares”. através de toda uma ordem institucional governamental. considerando o que já foi dito. uma Monarquia dirigida por uma senhora com chapéus ridículos e filhos horrendos. Portanto. o que leva à transformação da acumulação privada em acumulação social. ou seja. seria possível utilizar o Estado burguês para conduzir a transição socialista? Parece-nos que não. principalmente pela socialização dos meios de produção. seu caráter é definido pelo fato de ser sempre o Estado da classe economicamente dominante. é dado pela natureza das relações sociais de produção que cabe a ele garantir. Enquanto não se alteram as relações sociais de produção e com elas o domínio de uma classe social. portanto. da classe que expressa em cada momento as relações sociais de produção dominantes e que. mas que podem expressar a mesma substância: uma certa quantidade de trabalho humano abstrato. do Estado que corresponde à sociedade atual capitalista. A mudança socialista exige. nos EUA uma República Federativa. que existe nos principais países do mundo e que gostam de chamar a si mesmos de civilizados. na Inglaterra uma Monarquia Parlamentar – que Locke e Montesquieu chamavam de “governo misto” –. age no sentido de manter estas relações e garantir as condições de sua reprodução. na França num verdadeiro pot-pourri de formas de governo que vão desde a República até a restauração da Monarquia. a socialização dos meios de produção e a superação da forma mercadoria da força de trabalho de maneira que a ninguém seja permitido apropriar-se privadamente dos meios necessários à produção coletiva da vida. Na sociedade atual. na luta de classes. pois o Estado burguês existe exatamente para evitar isto. Não importa a forma. repressiva. desde que entre estes direitos se garanta a propriedade. uma Ditadura Militar ou um Estado Democrático de Direito. por seu caráter de classe. Uma vez que se mantenha o caráter privado da propriedade dos meios de produção. as relações sociais que constituem o capital são aquelas nas quais os proprietários dos meios de produção compram força de trabalho e extraem mais valia acumulando-a privadamente. Assim. A mudança de nome não tem poder de alterar a substância do Estado como acreditavam os nominalistas e parecem acreditar os modernos reformistas. Se a transição socialista começa por estas iniciativas descritas. trata-se de Estados Burgueses. é exatamente aí que reside toda a dramaticidade da questão do Estado que a Revolução Russa coloca em evidência. A manutenção e reprodução das relações capitalistas exigem do Estado. o “Estado atual” é o Estado Burguês. não se pode alterar o caráter do Estado. No caso do Estado. o caráter burguês de um Estado não se altera pelo maior ou menor grau de participação das demais classes na composição das casas representativas ou na composição do próprio governo. legislativa. portanto. passadas as euforias democráticas. para que se comece a transição. o conteúdo e substância do Estado atual. ainda que possam se produzir mudanças significativas em sua forma. que a propriedade não seja coletivizada. que a força de trabalho possa se vender livremente e que a riqueza acumulada privadamente seja garantida nas mãos de seus proprietários. Lênin já citava Marx para afirmar que “não é associando de mil formas diferentes a palavra Estado com a palavra Povo ou Liberdade que se fará avançar o problema um milímetro sequer”. os Cadetes (como se denominavam os membros do partido burguês russo Constitucional Democrático) apresentaram como suas mais elementares exigências para manter-se no governo de coalizão com as facções 8 . as relações assalariadas e a acumulação privada. a sociedade capitalista. jurídica e ideológica. a livre compra da força de trabalho e a acumulação privada da riqueza socialmente produzida.

seguem as ações na defesa das demandas proletárias forçando a dualidade de poderes e desestabilizando o Governo Provisório. mas ao mesmo tempo “marchar contra ela em todos os casos em que a democracia pequeno-burguesa queira consolidar sua posição em proveito próprio” (Marx / Engels. compõem decididamente os sovietes como espaço de massas capaz de criar uma dualidade de poderes no momento em que a burguesia tenta consolidar seu próprio Estado. Os críticos do regime soviético afirmam que esta ação foi irresponsável e. um programa próprio que não se detenha nos limites da revolução democrática e conceba os passos e ações necessárias para levar a revolução em permanência até uma revolução socialista que. segundo a lógica reformista. a convocação da Constituinte. tais como o andamento da guerra. gerasse as condições de experiências socialdemocratas para depois transitar para o socialismo. até pelo posterior desfecho burocrático da URSS. mas não se limitam a fortalecer o poder burguês democrático contra a ordem autocrática czarista. os bolcheviques e anarquistas aprofundam as lutas de massas pelo cumprimento das demandas proletárias. assim como os Socialistas Revolucionários. O centro do problema é que a concepção a respeito do Estado leva a dois caminhos distintos do ponto de vista da prática política imediata. ao mesmo tempo legal e secreta. o desenrolar dos fatos que vão de julho até outubro não confirmam esta ilusão. o restabelecimento da disciplina nas fábricas. não afirmam em nenhum momento que os trabalhadores devem conformar-se em ajudar a burguesia a cumprir seus objetivos. o desarmamento dos operários. os trabalhadores devem marchar com a burguesia pela derrubada da fração cuja derrota interessa ao partido operário. No entanto. o fim da guerra e do racionamento entre outras. que é o da Revolução Permanente. afirmam que o mais sensato seria permitir a consolidação de um governo “democrático” na Rússia que. s/d [1850]: 85). a volta da pena de morte no exército. os “socialistas” no governo comportam-se como homens “responsáveis” e “pragmáticos” e aceitam a repressão sobre aqueles que procuram desestabilizar o lento processo de democratização e de desenvolvimento das forças produtivas que. é fundamental que os trabalhadores mantenham uma organização independente. como classicamente na situação de 1848 a 1850. a impossibilidade de aprofundar a reforma agrária sem romper as alianças. ao desenvolver o capitalismo. Esta é a base de um conceito chave de Marx que será recuperado de forma enfática posteriormente por Trotsky. sem perder a autonomia e a independência de classe diluindo-se nos limites da ordem burguesa. Não se trata de desconsiderar as determinações que implicam no momento “democrático burguês” do processo de transformações sociais. Se os 9 . a distribuição da terra. no momento em que o Kaiser cai e os trabalhadores assumem as minas e fábricas através do controle dos conselhos.moderadas dos sovietes: o imediato reestabelecimento da disciplina nas fábricas e o desarmamento dos operários. Para que seja possível agir em um momento em que a burguesia luta pela consolidação plena de sua ordem capitalista contra os elementos feudais em decomposição. Mais uma vez. passam a partilhar as responsabilidades de governo. a burguesia coligada no governo socialdemocrata exige a devolução das fábricas aos seus legítimos donos. ao contrário. na Alemanha. participam das ações de massa contra o czarismo. Quando Marx e Engels constatam o momento de desenvolvimento das forças produtivas que determina um momento no qual os trabalhadores são obrigados a agir no curso de uma revolução hegemonizada pela burguesia contra a ordem feudal. como a redução da jornada de trabalho. mas de agir neste momento com a perspectiva de levá-lo até que desemboque de forma permanente em uma revolução proletária de caráter socialista. No momento em que as facções cadetes do Governo Provisório exigem a repressão aos bolcheviques e anarquistas. Apenas ressaltam que. destruindo o Estado Burguês. levaria quem sabe um dia à possibilidade de uma revolução ou de graduais transformações socialistas. Lênin e os bolcheviques compreendem perfeitamente este fato. os acordos internacionais. Enquanto os mencheviques que aderem ao Governo Provisório. em se tratando de um momento no qual ainda se luta contra os adversários de seus adversários. Da mesma maneira. o que falta a estes senhores é a dialética. o racionamento de víveres. gere as condições para a formação de um Estado Proletário.

reforma eleitoral e estabelecimento do voto universal. assim como o USPD (que iria criar o KPD – Partido Comunista). em algumas regiões. na proibição e repressão às greves que se alastravam. extensão dos votos às mulheres. o SPD defende a convocação de uma Constituinte que estabelece as regras de um Estado Democrático Republicano. principalmente nas minas. da república dos Senhores de Guerra e. entre outras. formam milícias armadas. destruíam o Estado Burguês e estabeleciam um Estado Proletário em aliança com os camponeses (os SRs de esquerda rompem com o governo e aderem à revolução socialista). o contraponto mais preciso à alternativa soviética pode ser visto nos acontecimentos da Alemanha. o Kaiser é obrigado a abdicar e forma-se um governo provisório com maioria do SPD e de um racha que formaria o Partido Social Democrata Independente (USPD). Apesar das medidas populares anunciadas pelo novo governo. em troca da garantia da manutenção da propriedade privada e das relações assalariadas de produção. restava saber qual seria a posição do SPD. não teríamos a consolidação de um regime “democrático”. mas levariam a um desfecho muito distinto. diluía-se em questionamento aberto ao governo do Kaiser e à própria liderança socialdemocrata. com a participação do SPD. criada por Rosa de Luxemburgo e Karl Liebknecht ao romper com o SPD. ocupam fábricas e assumem o controle direto de vários ramos da produção. os conselhos não se detêm nos limites do pacto. depois. Dissolvem as instituições locais. em parte pelos resultados negativos nas frentes de batalha. Os acontecimentos se precipitam em 1918. como o fim da censura. com o governo do Kuomintang. Os socialdemocratas propõem um pacto com os capitalistas que. Mas já era tarde. quase um ano depois da Revolução Russa. Enquanto a Liga Spartacus. inclusive com o apoio do SPD (os socialdemocratas alemães). A dualidade de poderes estava implantada. O Congresso dos socialdemocratas. convenções coletivas sobre as condições nas empresas. a redução da jornada para 8 horas de trabalho. é proclamada a República. extinguem a polícia. e os próprios trabalhadores rejeitam a proposta de passar o poder aos conselhos por 400 votos contra 50. propõe que o poder passe diretamente aos Conselhos. operários e camponeses se rebelam e são formados os conselhos que ocupam os centros de produção. na Alemanha os fatos se sucediam de maneira ainda mais didática. O consenso que havia levado à aprovação dos créditos de guerra. que propõe uma anistia aos presos políticos. com a formação. mas um golpe comandado por Kornilov. assumem o controle das finanças públicas. primeiro. o SPD anuncia a opção pela via pacífica da transição ao socialismo e o respeito à hierarquia militar. para buscar apoio da cúpula do exército ao novo governo.bolcheviques não houvessem ousado no caminho da revolução permanente e na meta revolucionária. Ao mesmo tempo em que os bolcheviques tomavam o poder. 10 . desde que os trabalhadores concordem com retomar a disciplina na produção. aceitam a eleição de dirigentes sindicais nos locais de trabalho. O Imperador tenta formar um governo provisório. na mobilização forçada dos trabalhadores grevistas e dirigentes sindicais para as frentes de batalha que já haviam ceifado a vida de mais de seis milhões de soldados. No entanto. dá ampla vitória aos moderados (o SPD conquista 288 votos contra 90 do USPD). liberdade de manifestação e de greve. criam câmaras por representação direta com funções legislativas. Desde 1915 a euforia em favor da guerra havia se diluído na trágica situação de intensificação do trabalho com jornadas de 11 a 12 horas. na redução dos salários. ocorrido em 16 de dezembro de 1918. em meio a uma greve geral. maioria no governo oficial e artífice do pacto com a hierarquia do exército e com a burguesia. inspirado pelo exemplo russo. anistia. No dia 9 de novembro de 1918. na escassez de alimentos e produtos de primeira necessidade. as massas atacam as prisões e soltam os presos políticos e. que levaria ao estabelecimento de uma ditadura da burguesia russa. Soldados e marinheiros se rebelam nas bases militares e no front. bem ao estilo do que houve na China depois da queda do Império e do Mandarinato. No entanto.

em 1919. Na mesma noite da tomada do poder. abre terreno para a ascensão do nazismo. O resultado direto da destruição dos conselhos e a quebra do poder operário. SRs de esquerda e. treinados na arte de dissolver motins e combater greves e manifestações operárias. em cada época. além de isolar o governo soviético na Rússia com grandes e drásticas implicações para o futuro da transição socialista. a Constituinte proclama as liberdades individuais e os direitos sindicais. da mesma forma que um tanque de guerra não se transforma em um trator se for dirigido por um camponês. A tese marxiana afirmava que a chegada ao poder. a URSS. dos quais 3 milhões vêm das camadas proletárias.4 milhões de votos. batalhões formados por militares. Nas palavras de Adam Przeworski (1989: 60). de uma classe a classe dominante. Um Estado Burguês cumpre a função de um Estado Burguês independente de quem o dirige. pelos anarquistas. contemporaneamente. e não dos ocupantes de cargos governamentais. O que estes acontecimentos acabam por demonstrar e que a continuidade da experiência socialdemocrata nos países da Europa Ocidental nas décadas que sucedem à II Guerra Mundial confirma é uma clara verdade sobre o Estado. armam os trabalhadores e quebram o exército como máquina de repressão do Estado Burguês. Em 1928. O Estado Soviético resiste à invasão de dez potências que levarão à guerra civil (1818-1921) e espalha a revolução até o extremo Oriente. as fábricas são passadas ao controle dos operários e todas as terras entregues aos comitês agrários para distribuição. 40% deles diretamente dos operários. que atacam os conselhos e brigadas operárias para desarmá-los. ligado ao USPD. portanto. O governo “democrático” e a burguesia recorrem às outras potências europeias e formam os chamados “corpos francos”. à formação de uma sociedade sem Estado. Os mineiros ocupam as minas e exigem a expropriação e o controle operário. A função estrutural de um Estado é garantir a manutenção e reprodução das relações sociais de produção que fazem. principalmente depois do desfecho da transição socialista com o desmonte da URSS e a reconversão capitalista na China. a tese de que a natureza do Estado mudou voltou com muita força. confere pouco poder. com o movimento operário e os conselhos destruídos. se nega a entregar o cargo. estudioso da socialdemocracia. Na Rússia os trabalhadores estabelecem um governo formado pelos sovietes e baseado na aliança entre bolcheviques. Finalmente. em 1930 chegam a 6. os nazistas fazem 800 mil votos. ainda neste momento. O governo responde ao voto de confiança dando carta branca aos “corpos francos”. agora já KPD. esta verdade pode ser assim descrita: Qualquer governo em uma sociedade capitalista é dependente do capital. à ampliação de direitos democráticos e à paulatina melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores. o estabelecimento de um Estado Proletário e a socialização dos meios de produção abririam uma transição histórica que deveria levar ao desaparecimento das classes e. 11 . As brigadas operárias reagem. O USPD. A natureza das forças políticas que sobem ao poder não afeta esta dependência. Apesar das evidências dos fatos.aprovam que a forma do Estado deve ser uma república e não um governo de conselhos e definem a convocação da Constituinte para janeiro de 1919. formando. O governo demite o chefe de polícia que. A destruição da alternativa revolucionária não leva à consolidação do gradualismo socialdemocrata. Rosa e Liebknecht são assassinados e seus corpos jogados no rio. pois ela é estrutural – uma característica do sistema. na verdade. É aprovada a retirada unilateral da Rússia da guerra e a formação de um governo baseado na forma de representação do Sovietes. prepara uma insurreição enquanto as lideranças sindicais conclamam pelo fim das hostilidades entre companheiros e pedem um voto de confiança ao governo. Os corpos francos atacam e retomam as minas e reprimem todas as greves que ameaçavam se alastrar em uma greve geral. As massas operárias reagem e pressionam o governo e as bases militares exigem o direito de eleger seus oficiais. Estar “no poder”. em 1919. dos vencedores das eleições.

Na ordem do capital os postos mais degradantes e alienados são ocupados pela lógica da necessidade e da miséria. isto só é possível pelo desenvolvimento da técnica e pela superação 12 . Marx estaria superado definitivamente. que esta transformação. condições estas que não podem ser produzidas simplesmente por atos de vontade política. pelo nível de desgaste. Enquanto os seres humanos forem obrigados a ocupar um posto no interior de uma divisão do trabalho. mas não as raízes das classes sociais. ou seja. ainda que desenvolvendo funções concretas distintas. superar o trabalho como mero meio de vida. não é possível uma escolha de fato livre. em uma das raras oportunidades em que comenta o assunto da transição. pelo grau de potencialidade de realização humana ou de desumanização. só então será possível ultrapassar-se totalmente o estreito horizonte do direito burguês e a sociedade poderá inscrever em sua bandeira: de cada um segundo sua capacidade. acreditava que a socialização dos meios de produção e a destruição do Estado Burguês gerava. proíbe-se a compra e venda da força de trabalho em caráter privado. a cada um segundo suas necessidades. quando o trabalho não for somente um meio de vida. com o desenvolvimento dos indivíduos em todos seus aspectos. mas a primeira necessidade vital. quando. A transição socialista é afirmada como um processo histórico no qual ocorreria a transformação da velha sociedade capitalista e a gestação das condições que poderiam levar ao fim das classes. com ela. superar a carência pela abundância. portanto. quando houver desaparecido a subordinação escravizadora dos indivíduos à divisão do trabalho e. entretanto. uma análise mais atenta demonstra um quadro um pouco distinto. como de fato ocorreu. sem Estado. marcado por uma disparidade muito grande entre os tipos de trabalho. superar o indivíduo em todos os aspectos. o contraste entre trabalho intelectual e trabalho manual. se socializam os meios de produção acabando com a propriedade privada. foi o fortalecimento do Estado e a formação de uma burocracia que se autonomiza da classe trabalhadora e passa a desenvolver interesses próprios. Os eternos críticos do marxismo retomam suas energias para afirmar que agora. com a qual anarquistas e comunistas concordam no que diz respeito ao ponto final de chegada (uma sociedade sem Estado). superar o antagonismo entre o trabalho manual e intelectual. s/d [1875]: 215) Notem que Marx fala de cinco superações que deveriam ocorrer para que se completasse a transição: superar a escravizante subordinação a uma divisão do trabalho. A única maneira de superar isso é homogeneizando o trabalho para que possa. Ocorre. pela periculosidade e insalubridade. mas não são suficientes para levar ao fim das classes sociais ou. das determinações que um dia dividiram a sociedade humana em classes antagônicas. (Marx. A concepção anarquista. Marx. Ora. crescerem também as forças produtivas e jorrarem em caudais os mananciais da riqueza coletiva. O início desta transição se dá pela quebra das condições que permitem a existência das relações capitalistas de produção. se dar com um desgaste proporcional e sem que envolva danos à saúde. exige certas condições materiais sem as quais as classes não desaparecem de fato. por si só. No entanto.O que foi visto. Estas medidas podem ser tomadas como atos jurídicos e políticos por uma revolução vitoriosa que quebrou o Estado Burguês e impedem o funcionamento e reprodução das antigas relações de produção. finalmente. O que desaparece é a burguesia. entretanto. mais precisamente. as condições para que os produtores diretos da riqueza se associassem livremente em uma sociedade autogestionária ou libertária. que com razão argumentaria que a manutenção do Estado pode levar à manutenção do domínio hierárquico sobre a classe trabalhadora e a formação de novos interesses dominantes. da mesma forma que se proíbe a acumulação privada da riqueza socialmente produzida. afirma que: Na fase superior da sociedade comunista.

inclusive a superação da redução do ser social como precária cápsula individual. se estranhou. não se superou de fato as divisões. Não se trata de uma sociedade de intelectuais. Trabalha-se oito horas para depois viver nas migalhas que sobram ao final do dia. A suposição fundamental é que é possível desalienar o ato do trabalho de forma que em uma sociedade futura ao se perguntar – por que você trabalha? – a pessoa não responda: para viver? Responda: dou aulas de história. por exemplo). a recuperação da supremacia do valor de uso sobre o valor de troca. Se o desenvolvimento tecnológico pode homogeneizar o trabalho. Mas não só. Trabalha-se uma vida inteira para viver somente depois da aposentadoria. Trabalho fazendo ônibus. a base de existência das classes. Ora. Não no sentido no consumismo doentio da lógica capitalista mercantil. reunificando as duas dimensões do trabalho humano. portanto. Trabalha-se cinco dias para tentar viver no fim de semana. Mas ocorre que. mais que qualquer outro fator. é necessária a superação da escassez. mas ao mesmo tempo uma transformação material: a superação da forma mercadoria. Enquanto cada um não puder tirar da produção social tudo o quanto for necessário ainda sobreviverão critérios de equivalência entre a quantidade de trabalho oferecido e a quantidade de bens a serem consumidos. como ato coletivo de produção das condições que permitem a vida e no qual cada um se realiza como humano e se torna humano através dele. As condições técnicas da produção não podem ser alteradas por nenhum decreto político ou artifício jurídico.de fato de algumas funções que ninguém deve fazer por seu caráter desgastante e danoso ao ser humano ou alienante (como extrair minérios em grandes profundidades. Isto ocorre porque o trabalho se alienou. Esta não é apenas uma profunda transformação cultural e de consciência. Enquanto houver aqueles que planejam e controlam técnica e teoricamente as ações que outros devem realizar. a gestão da produção e o planejamento têm que se dar de forma diferente. A completude desta transformação só pode se dar quando este novo ser humano emancipado possa dar de acordo com sua capacidade e tirar da produção social tudo aquilo que for necessário à sua existência (só assim o trabalho deixa de fato de ser um mero meio de vida). A superação dos antagonismos presentes na subordinação dos seres humanos à divisão do trabalho. mas da satisfação das necessidades humanas. no entanto. A dialética da transição socialista é que as mudanças materiais vão produzindo um novo ser humano e uma forma de existência que passa a ser condição fundamental para completar as mudanças materiais. Para que se supere o valor de troca e a forma mercadoria. mas de trabalhadores que recuperam a dimensão teórica do trabalho que realizam. atos políticos ou atos de força. é necessária a abundância. a superação do antagonismo entre trabalho intelectual e manual só pode se dar pela universalização do acesso à educação e ao conhecimento. E esta reunificação se dá no trabalho concreto. pois envolvem um desenvolvimento objetivo que supõe patamares materiais. este não pode ser produzido por mecanismos jurídicos. A própria organização do trabalho. tem sua base em uma determinação mais profunda: o trabalho na sociedade de classes foi reduzido a um meio de vida. Um ser social capaz de dar o que for preciso e retirar da produção social só o que for necessário. pois as crianças nascem em uma sociedade dada e precisam saber o que houve antes para entender onde estão. para que os produtos do trabalho e o próprio trabalho assumam a forma de valores de uso. exige não apenas as superações anteriores como uma transformação no próprio ser humano e sua postura diante da vida. Não basta uma divisão do trabalho não hierárquica na qual não há antagonismo entre as dimensões intelectuais e materiais do trabalho. a lei do valor e a forma 13 . Da mesma forma. O trabalho como ato fundamental da existência. esta transformação do trabalho não é um ato de vontade política. Trabalha-se para viver. é necessário que o ser humano possa se apresentar de forma muito distinta deste ser mesquinho e egoísta que o ser social do capitalismo impôs ao gênero humano. não se supera de fato esta subordinação à divisão do trabalho sem superar o maior de todos os antagonismos que se apresenta nesta divisão e que está na base mesmo da divisão inicial da sociedade em classes: a separação entre trabalho intelectual e manual. pois as distâncias são grandes e as pessoas precisam se deslocar. O trabalho se estranhou de sua mediação de primeira ordem e transformou-se em mero meio.

zelar por sua aplicação. No entanto. ou o atraso material e objetivo pode fazer com que os avanços políticos regridam até expressões adequadas às condições objetivas dadas. socializaram os meios de produção. A burocratização dos Estados Proletários é o resultado político desta síntese. O novo patamar político pode puxar o atraso material até que ele se aproxime das condições necessárias. Todas as vezes que. exigiam um grau de desenvolvimento das forças produtivas que não se apresentavam nas formações sociais nas quais a ruptura revolucionária se deu. ao mesmo tempo em que a socialdemocracia. O quadro político da América Latina e do mundo hoje é a atualização deste dilema. desfigurada e limpa de qualquer resíduo de sua origem socialista. o socialismo.mercadoria não estarão superadas. ainda que em alguns casos tenha avançado bastante. na tentativa de encontrar uma terceira via. Mas se os seres humanos é que fazem sua própria história. com o fracasso das precisões liberais feitas em pó pela dinâmica da crise cíclica do capital. as revoluções socialistas do século XX confirmam tragicamente as tendências apontadas pelo pensador alemão ainda no século XIX. de forma que os avanços políticos desenvolvam as forças produtivas que. Alguém terá que distribuir o trabalho. Neste ponto a dialética tem que pagar um tributo ao materialismo. A Revolução Russa. 14 . O curto ciclo neoliberal e seu fracasso em converter-se em alternativa de longo prazo para o domínio burguês reatualizam delírios socialdemocratas descaracterizados e que já se implantam na fase senil da socialdemocracia. a burguesia se refugia no totalitarismo aberto das ditaduras do capital. Pode ainda haver uma combinação dos dois movimentos. punir os desvios em relação às regras e normas estabelecidas: o Estado ainda não desapareceu. levando ao paradoxo aparente de ser a forma política possível de implantar de fato as medidas neoliberais que governos mais conservadores não foram capazes. duas evoluções são possíveis. demonstram que a ação política dos revolucionários e da classe trabalhadora pode ir além das meras condições objetivas dadas em cada momento e adiantar-se na ousadia de criar as condições de uma superação do Estado Burguês iniciando a transição socialista. inflexionam as formas políticas impedindo que possam ir além daquela que as condições materiais permitem. Ao analisarmos as revoluções do século XX. como mostram claramente os casos do Brasil e do Chile. mas nos limites das circunstâncias históricas que encontram objetivamente na época histórica em que atuam. ao contrário de desmentir os prognósticos de Marx. O fim do ciclo ditatorial e as aberturas democráticas e a crise na transição socialista atualizou a volta dos preceitos liberais clássicos disfarçados pelo eufemismo de neoliberalismo. os socialistas não reúnem as condições de se apresentar como alternativa histórica. em Cuba e outras. Como os fatores políticos e subjetivos foram além das condições objetivas dadas. O fato destas formações sociais não encontrarem o pleno desenvolvimento das forças produtivas materiais que seriam as bases para as superações necessárias à transição socialista (lembrando que Marx afirmava que este desenvolvimento só se completaria em âmbito mundial). simultaneamente. se atola no pântano da conciliação de classe e deixa de ser um caminho alternativo para se chegar ao socialismo. não a fazem como querem. superaram a apropriação privada da força de trabalho transformando-a em um recurso social que só pode ser utilizada coletivamente e organizaram a apropriação social da produção social impedindo o reinvestimento dos recursos sociais pelas regras do mercado e da propriedade privada. acabou por determinar os limites da ousadia revolucionária. definir critérios. apesar dos arautos das novidades absolutas. a socialdemocracia e o totalitarismo. No caso das revoluções do século XX. assim como as revoluções na China. O século XXI começa sem novidades. Desta maneira. ou seja. o andamento das cinco superações. As forças políticas que disputaram o século XX foram: o liberalismo. implantaram um Estado Proletário. convertendo-se em uma maneira eficiente de evitá-lo. fiscalizar as quantidades oferecidas. esta última hipótese parece ter sido aquela que se realizou por um tempo. Destruíram o Estado Burguês. como o nazifascismo e o ciclo de ditaduras na América Latina nas décadas de 60 e 70 do século XX. vemos que as experiências de transição socialistas iniciaram as transformações citadas.

É evidente que. ao lado da persistente presença de Cuba como remanescente do último ciclo. Não é necessária uma ruptura. nos dias atuais. O quadro atual sugere a recuperação do debate sobre o Estado que descrevemos até aqui e que marcou os acontecimentos do início do século XX. sua negação é molecular e não geral. A sedução de tal aproximação é evidente. sendo este o desafio do século XXI: mudar o mundo sem tomar o poder. nas próprias palavras do autor. Mas. Desta forma. como o próprio Holloway afirma. de que a ideia de tomar as posições de poder para abolir o poder esbarra no fato de que a verdadeira transformação revolucionária deve localizar-se na alteração das relações que garantem a existência do poder de forma a “dissolvê-las” e não nas simples ocupações destas posições de poder. No entanto. que implicam na barreira real que impede a emancipação humana. portanto que “a única maneira de se imaginar agora a revolução é como a dissolução do poder. que não se contentam em derrotar o governo. “a ação simplesmente negativa se choca inevitavelmente com o capital em seus próprios termos. a política da negação do poder no aqui e agora transforma-se.Diante deste impasse. aparece sutilmente embelezado com uma retórica de anticapitalismo (na época também o era) e da genialidade de evitar a ortodoxia. a questão continua sendo como seria possível iniciar esta transição para que possamos alterar estas relações de poder e as determinações que se encontram em suas raízes. 2003:36-37). não parece resolver o problema. assim como as características do “socialismo no século XXI”. não como sua conquista”. ressurgem opções mais radicais de experiências populares que apontam para o horizonte de transformações socialistas que se iniciam por vitórias eleitorais. a crítica de Holloway se estende à teoria do Partido e abre o debate sobre os possíveis novos instrumentos políticos para “mudar o mundo sem tomar o poder”. como fazê-lo. como no caso da Venezuela. apesar da sedução. seja através de uma “antipolítica de eventos”. 15 . uma questão se apresenta de forma inevitável: se as atuais relações de poder. portanto. precisam ser superadas. mas de o ter aspirado pouco” (Holloway. em si mesma correta. o mesmo velho e surrado argumento de Bernstein e Kautsky. idem: 37). e nos termos do capital sempre 3 “O problema do conceito tradicional da revolução talvez seja não o fato de ter aspirado muito. Até porque. Pensando a organização não em termos do ser. Colocando-se aparentemente além e mais à esquerda daqueles que lutam pela tomada do poder3. argumenta que “talvez necessitemos rever a ideia de que a sociedade pode ser mudada por meio da conquista do poder de Estado”. o processo é tudo. O próprio fundamento da teoria da transição em Marx é o da necessidade de se alterar profundamente as determinações das relações de poder que implicam no domínio de uma classe sobre outra e no limite da subordinação dos seres humanos aos limites da lógica da mercadoria e do Estado. O autor irlandês busca fundamentar suas afirmações na constatação. uma vez que se descarta a luta contra a ordem do capital pela tomada do poder de Estado? A vaga referência a um processo de negação e afirmação cotidiano. Bolívia e Equador. Conclui. mas do “fazer”. na verdade o autor reapresenta um velho argumento: o objetivo final não é nada. em uma “antipolítica de eventos”. sejam governamentais ou aquelas dispersas na sociedade (Holloway. é evidente que não basta “tomar o poder” sem que se alterem de fato estas relações. ícones da socialdemocracia e do reformismo. Recupera-se o conceito foucaultiano de que o poder se apresenta como rede que se espalha e se insinua em toda a sociedade e não apenas em um centro como no Estado e. Interessantemente. mas quer “transformar a experiência da vida social”. Estaríamos diante de um novo contexto histórico em que finalmente a visão marxista sobre o Estado tem que ser superada? As determinantes históricas do presente colocam questões novas para as quais nosso acúmulo teórico nada tem a dizer? Holloway (2003: 26). ao analisar o desfecho das experiências revolucionárias do século XX. Como a forma de organização partidária está diretamente ligada à estratégia de chegar ao poder para mudar a sociedade.

como podemos mudar o mundo?” – e responde: “não sabemos. Sem que se quebre o Estado burguês não podemos. neste caminho. A ordem do capital pode conviver com negações particulares. Muito bem. mas existem poros sociais. Mas. O próprio Holloway. A antipolítica dos eventos se converte exatamente nisto: um evento. de fato. extrai mais valia e acumula privadamente a riqueza socialmente produzida. inclusive quando ganhamos” (idem:312). em sua defesa. Deslocar-se para um lugar no qual as relações capitalistas não se imponham pressupõe a capacidade de determinar um lugar no qual se supere a propriedade privada dos meios de produção. das minorias étnicas. porque. não é necessário destruir este centro de poder desarma os trabalhadores e os ilude com a possibilidade de transformar a ordem capitalista a golpes de eventos particulares. não escapam. com toda a complexidade dos elementos políticos. centrais e reticulares. Quando tentamos afirmar nossa emancipação. Mas não seria possível que a generalização destas lutas particulares. pelo menos. a livre compra e venda privada da força de trabalho e a acumulação privada da riqueza socialmente produzida. quando a negação. em um momento de sincera ingenuidade. costumavam saber. as cooperativas. primeiro. O capital aprendeu a conviver com estas negações particulares. O capital não é uma abstração.perdemos. não consegue ir além daquilo que nega. ibidem). Nós não”. isto não se consegue a não ser derrotando a burguesia e seu Estado. Os revolucionários costumavam saber. O capital acaba por subordinar as formas não capitalistas. A dimensão afirmativa desta negação cotidiana das relações de poder deveria. porque foi estabelecido um equilíbrio militar contra o poder do Estado burguês no México. este Estado age para nos destruir. Os leninistas sabem. a não ser como quistos facilmente isolados e controláveis. não tende para a totalidade. Seu principal instrumento é o Estado. dos emigrantes empobrecidos no centro e na periferia do capital levasse à negação geral da ordem do capital e à possibilidade da emancipação humana? Não. das mulheres. (idem: 315) É. que a mera tomada do poder é suficiente para mudar o mundo. dos indígenas. governamentais e repressivos centralizados. como entre as nações indígenas. Temos que superar as relações que constituem o capital e que impedem a emancipação humana. concordamos plenamente. os leninistas sabem. como no caso dos Zapatistas que tanto encanta Holloway. e com toda a eficiência de suas expressões na carne viva das relações sociais cotidianas que mantêm e reproduzem as condições desta dominação. Marx sabia. dos “novos sujeitos sociais”. se pergunta . muito pelo contrário. mas não pode aceitar uma alternativa global de sociabilidade que não se fundamente na propriedade privada e na acumulação privada da riqueza socialmente produzida. tradicionais formas de vida. mas avançar para modos em que o capital não possa sequer existir (idem. Agora. Isto não significa. move seus instrumentos de poder. relações comunitárias. A afirmação de que. como já afirmou Lukács (1974). Temos que derrotá-la. como deslocar-se para onde o “capital não possa sequer existir”? Existe algum ponto dentro da ordem do capital onde ele não se apresente? O poder não era reticular e se insinuava em todos os poros da sociedade? O problema de certo tipo de anticapitalismo é não ter a menor ideia do que é o capitalismo. A burguesia monopolista internacional não quer. Não. ao comprar força de trabalho. A breve autonomia que busca construir um espaço de dignidade para parte dos povos indígenas no México. transformar as relações de poder. sem que mudemos de fato e radicalmente as relações humanas que estão na base 16 . assim como subordina os países periféricos ao domínio do centro imperialista. não comprometerse com o capital em seus próprios termos. a agricultura familiar. Certo. só pode existir. O capital é uma relação social na qual o proprietário do meio de produção. que escapam às determinações do capital. portanto: Deslocar-se para uma dimensão diferente da do capital.“Então. ele se personifica em uma classe que.

Antes se acreditava que bastava tomar o Estado e agora parece se afirmar que é não necessário tomá-lo. pela via eleitoral. a resistência armada zapatista e os governos populares na América Latina. Estas experiências e o zapatismo não são suficientes para redimensionar os pressupostos políticos da esquerda? Vejamos com mais cautela. nem aqueles que se mantiveram nos limites da responsabilidade democrática institucional burguesa. Bolívia e. no mínimo em uma perspectiva anticapitalista. transformando o crescimento da economia capitalista em pré-condição para políticas sociais e distributivas rebaixadas. De um lado. Caso analisemos o que está em andamento hoje veremos que aqueles que conseguiram generalizar as lutas e direcioná-las contra um inimigo comum lograram produzir a unificação necessária das lutas sociais para equilibrar a correlação de forças e impor derrotas aos setores dominantes. o Equador. mas insuficiente para levá-la até a formação de uma sociedade sem classes e sem Estado. estas experiências mobilizam e organizam os setores populares numa clara luta contra os setores conservadores. a disputa pelo poder de Estado. Acreditamos que. 17 . como todo processo em aberto. Querendo se diferenciar da acomodação socialdemocrata e da burocracia do chamado socialismo real. A tomada do poder. no entanto. Ao mesmo tempo. pode ocorrer que vença a política do pragmatismo e da acomodação e. Por outro lado.? Acreditamos serenamente que não. ao mobilizar as massas e buscar realizar um governo popular. alguns saúdam estas experiências como já o socialismo do século XXI. para desmobilizar e derrotar as forças populares. estes processos se revertam em mera acomodação. apontam para a organização dos trabalhadores e a luta contra as camadas dominantes. em menor medida. Caso estas experiências. sem que deixassem de se burocratizar espetacularmente. Enquanto os primeiros abandonam de fato a perspectiva de uma mudança revolucionária. não é uma revolução. da organização de partidos proletários. como no caso exemplar do PT no Brasil. no interior de uma institucionalidade e de relações de produção que não superam inicialmente a ordem do capital. contribuindo. acabaram por ficar aquém da ampliação de direitos socialdemocratas. não têm indicado outro caminho. esta não é uma possibilidade tão remota. ou seja. Mas. mais precisamente a destruição do Estado Burguês e o estabelecimento de um Estado Proletário. inclusive alicerçados sobre discursos muito heterodoxos fundados em práticas cotidianas e de crítica às formas políticas e organizativas que culpavam pela burocratização. então. ou seja. Acreditamos que o que está em curso na América Latina é um processo em aberto. na prática. chegaram ao governo para aplicar políticas aquém dos limites mesmos da socialdemocracia. Mesmo em uma contraditória e complexa situação de governo. ainda que mantenham seus Estados adjetivados por qualquer tipo de apelido popular ou socialista. As atuais experiências na América Latina. avancem no sentido anticapitalista mais profundo. os mais ortodoxos as negam pela simples e mecânica comparação com tipos ideais weberianos da revolução socialista. se chocarão com a ordem do capital e podem desembocar em processos socialistas. Primeiro. o que implica eleições. certas experiências recentes. Ambos se equivocam. é condição fundamental para iniciar a transição socialista. recolocando o horizonte de transformações socialistas. tensionando os limites da ordem estabelecida. os demais mantêm a resistência e a luta contra os setores dominantes. como no Brasil e no Chile de Bachelet. se não socializaram os meios de produção e não estabeleceram um Estado Proletário não é socialismo. iniciaram experiências populares de governo que.do sociometabolismo do capital. etc. como no caso da Venezuela. nem aqueles que confiaram nos chamados novos sujeitos e na busca de mudar o mundo sem tomar o poder conseguiram aprofundar a dinâmica da luta de classes para colocar a ordem capitalista em risco. que existe uma clara diferenciação entre a acomodação descarada de um setor da esquerda à ordem do capital. de outro. Primeiro que aqueles que. De fato convertem-se em aplicadores responsáveis de políticas de desenvolvimento da economia capitalista e contentam-se com políticas distributivistas menores. em alguns casos. muito distinto daquele que a ortodoxia sempre afirmou.

Independente do desfecho do caso cubano. então. Experiências alternativas altamente festejadas em sua época foram varridas pelas mesmas forças que tentam há décadas. com toda sua dramaticidade e beleza. Devemos. Ao lado da experiência cubana se inscreve a alternativa do governo da Unidade Popular no Chile. Um povo derrotou seu tirano. não se contentou com a tese do socialismo como mero produtivismo sem que se dessem passos concretos de criação de novas relações que pudessem levar à formação de um novo tipo de ser humano e as mudanças de consciência subsequentes. (Guevara. Che não descarta a possibilidade de o processo de mudanças possa começar por uma via eleitoral. No centro da polêmica está a questão do Estado. e a persistência da revolução cubana nos alertam sobre os impasses que se anunciam no cenário político do início do século XXI. idem. ressaltava que estava em desenvolvimento em nosso continente. entretanto. Seria um erro imperdoável descartar por princípio a participação em algum processo eleitoral. em nosso continente. Assim Che (1981:50) descreve esta opção: Esta concepção gera uma visão de “institucionalidade” quando. defendendo como sabemos que os caminhos estratégicos de Cuba poderiam orientar a luta revolucionária na América Latina. Quando Che debatia o caráter excepcional ou não da revolução cubana. que corresponde. sem sucesso. inclusive a luta armada como instrumento indispensável para aplicar e desenvolver o programa revolucionário. à atualização do dilema do Estado aberto pelas Revoluções Russa e Alemã no início do século e que descrevemos brevemente. Cuba é um excelente caso para julgar os caminhos possíveis da emancipação e a validade de certos pressupostos que muitos se apressam em descartar. mesmo sintomas da degeneração burocrática próprios da experiência socialista do século XX.” Ainda que trabalhe este fenômeno como exceção à regra. até o dia em que esse crescimento quantitativo permita uma mudança qualitativa. e os prognósticos não são muito bons. A experiência revolucionária do Chile. ibidem) 18 . Em determinado momento ele pode significar um avanço do programa revolucionário.Há. Destacando que os revolucionários não podem prever todas as variações táticas que podem se apresentar em um processo de luta pela emancipação. principalmente em países que haviam experimentado um certo crescimento industrial e urbano. em períodos mais ou menos “normais”. uma certa tendência a optar por uma ação política voltada à ocupação de espaços institucionais. descartar a possibilidade de iniciar transformações socialistas pela via eleitoral? Mais uma vez. Mas seria imperdoável também limitar-se a esta tática sem utilizar outros meios de luta. afirmando que não acredita “que essa via possa se realizar em qualquer país da América Latina”. Chega-se inclusive a conceber a possibilidade de aumentos quantitativos de representantes revolucionários no parlamento. destruiu o Estado Burguês. e que resiste contra todas as expectativas de que não resistiria ao desmonte do bloco soviético: Cuba. os cubanos não podem ser descartados da avaliação política como uma mera exceção. em ter sempre em mente as diferentes táticas possíveis e em explorá-las ao máximo. interromper o processo cubano. uma terceira situação em nossa América. as condições são menos duras do que as que se dão habitualmente aos povos. Com todos os enormes problemas. as coisas não são tão simples. Che desenvolve o seguinte raciocínio: A qualidade de um revolucionário se mede pela capacidade em encontrar táticas adequadas a cada mudança de situação. socializou seus poucos e precários meios de produção.

ibidem). Uma coisa é uma força revolucionária ocupar espaços institucionais via processos eleitorais como formas de luta no caminho da execução de uma ruptura com a ordem capitalista para estabelecer uma transição socialista. por melhor que seja. como em Cuba e na Rússia. seja por uma alteração na correlação de forças que permita aos trabalhadores modificar estruturalmente a forma e o conteúdo do Estado. isso não tem nada a ver com ortodoxias ou preciosismos conceituais. Mais uma vez. Parece-nos que a resposta ainda é: não. O controle da principal fonte de riqueza pelo Estado.Como vemos. é que o exército opressor seja derrubado pela ação popular armada em defesa de seu governo. O problema reside no conteúdo. a questão central é encontrar o caminho através do qual a força do capital tenha que se enfrentar com a força unidade e organizada dos trabalhadores em condições que possamos destruir ou neutralizar seus principais instrumentos de poder para iniciar a transição socialista sem que a classe derrotada possa reverter este processo. o governo pode ser derrubado por maio de um golpe de estado e aí recomeça de novo a velha história. No entanto. mas jamais se completa se não além dela. o petróleo. Portanto. descrevem em detalhes os trágicos acontecimentos do Chile em 1973. e o caráter geral da economia venezuelana. ou. 19 . mais cedo ou mais tarde. relativizam a socialização dos meios de produção. Estas palavras. outra solução. nossa pergunta é sempre a mesma: se um movimento popular ocupa o governo de um país sustentado por ampla votação popular e resolve em consequência iniciar as grandes transformações sociais que constituem o programa pelo qual se elegeu. É o próprio Che que de maneira extremamente lúcida descreve este dilema prático: Quando se fala em alcançar o poder pela via eleitoral. O problema não é chegar ao governo através de eleições. a questão não é a possibilidade ou não de que em um momento concreto da luta pela transformação social devemos ou não participar das eleições. o século XXI começa reapresentando um velho dilema que traz o Estado em seu centro: é possível iniciar a transição socialista sem a destruição do Estado Burguês e o estabelecimento de um Estado Proletário? A atualidade da Revolução Russa é a atualidade da resposta a este dilema. não tem a capacidade de definir as “possibilidades” que se abrem no desdobrar das conjunturas nas quais as lutas se dão. pois começa por cisões no aparato militar e segue com alterações na forma do poder de Estado por meio de mudanças constitucionais que implementam a lógica da dualidade de poder pela organização de um poder popular. Uma ruptura revolucionária pode começar nos limites de uma institucionalidade burguesa. não é possível iniciar a transição socialista sem uma ruptura política. escritas nos primeiros anos da década de 60. não ao conteúdo de um processo revolucionário. a base real das relações capitalistas de produção terão que ser enfrentadas com risco de reversão do caminho que se espera socialista. mas envolve uma questão eminentemente prática. A via revolucionária corresponde à forma. seja pela destruição do Estado pela rebelião armada dos trabalhadores. como parece estar em andamento na Venezuela4. outra coisa é ocupar estes espaços ao invés de realizar a ruptura acreditando que é possível iniciar a transição sem superar o Estado Burguês. (Idem. 4 O caso Venezuelano é sintomático. Uma estratégia revolucionária. não entrará imediatamente em choque com os interesses das classes reacionárias desse país? O exército não tem sido sempre o instrumento de opressão a serviço destas classes? Não será então lógico imaginar que o exército tome partido por sua classe e entrará em conflito com o governo eleito? Em conseqüência. o problema não é abdicar de tomar o poder. mas igualmente atravessam as fronteiras do século para iluminar nossa reflexão sobre os dilemas que descrevíamos.

In_ Obras Escolhidas. F. – O Estado e a Revolução. I. Marx. São Paulo: Ática. Lênin. A. 1989. São Paulo: Expressão Popular. São Paulo: Alfa-Ômega. s/d. São Paulo: Martins Fontes. 2007. M. São Paulo: Alfa-Ômega. por suas realizações e fracassos. São Paulo: Expressão Popular. – História e consciência de classe. K. J. São Paulo: Alfa-Ômega. volume I. Przeworski. .Contribuição à crítica da economia política. 2003. In_ Obras Escolhidas. 1981. 2008. – Capitalismo e social-democracia. ainda é um autor do século XIX: Marx. s/d. s/d. Foucault. V. Holloway. volume III.Mudar o mundo sem tomar o poder.Crítica ao Programa de Gotha (1875). Indicações bibliográficas Engels.Os dilemas das revoluções do século XX. da propriedade privada e do Estado. – Che Guevara: Coleção grandes cientistas sociais. F. – Mensagem do Comitê Central à Liga dos Comunistas (1850). Porto: Escorpião. 1974. São Paulo: Viramundo. _______ . Lukács. São Paulo: Cia das Letras. E. – A Revolução antes da Revolução. In _ Obras Escolhidas. Rio de Janeiro: Graal. Origem da família. / Engels. _______ . 1984. Guevara. e o atual quadro da luta de classes na América Latina nos autorizam a dizer que o principal autor para pensarmos os desafios do socialismo do século XXI. 1977. volume II. K. – Microfísica do poder. 20 . G. Marx.