SAMIZDAT

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agosto 2009 ano II
ficina

SAMIZDAT 19
agosto de 2009
Edição, Capa e Diagramação: Henry Alfred Bugalho Revisão Geral Volmar Camargo Junior Joaquim Bispo Assessoria de Imprensa Mariana Valle Autores Barbara Duffles Carlos Alberto Barros Eder Ferreira Giselle Natsu Sato Guilherme Rodrigues Henry Alfred Bugalho Joaquim Bispo José Espírito Santo Jú Blasina Léo Borges Marcia Szajnbok Mariana Valle Maristela Scheuer Deves Volmar Camargo Junior Autores Convidados José Guilherme Vereza Textos de: Augusto dos Anjos Edgar Allan Poe Machado de Assis

Editorial
Neste ano de 2009, comemora-se o bicentenário de nascimento de Edgar Allan Poe, e também 160 anos de sua morte. Em vida, Poe foi uma figura controversa, de poucos amigos e de inúmeros adversários; após sua morte, tornou-se um dos mais importantes autores de língua inglesa e tem seu lugar garantido na galeria dos mestres da Literatura. Inaugurou o gênero policial e foi um dos primeiros a se aventurar na nova ficção científica. Trouxe o bizarro, o terrível, o fantástico para as páginas de seus livros e para os versos de seus poemas. Nesta edição, os autores da SAMIZDAT prestam sua homenagem a este gênio literário, que, através de suas narrativas maravilhosas, mergulhou nas profundezas dos tenebrosos medos humanos. Também passamos a contar com a participação do escritor Eder Ferreira, mais um a embarcar nesta nossa longa jornada. Henry Alfred Bugalho

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Imagem da capa:
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Sumário
Por quE Samizdat?
Henry Alfred Bugalho

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ComuNiCado SAMIZDAT Especial de Mistério e Suspense 8 ENtrEViSta isidro iturat autor Em LÍNGua PortuGuESa a igreja do diabo
Machado de Assis

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Poesia

Augusto dos Anjos

CoNtoS o retrato do Juiz
Joaquim Bispo

28 32 36 42 44 48 52 54

o Lobo Vermelho (segunda parte)
Volmar Camargo Junior Henry Alfred Bugalho Jú Blasina

Contrata-se um Ghostwriter
rabiscos de um quase normal

as engrenagens da felicidade
Léo Borges

Ciúme

Marcia Szajnbok Barbara Duffles Maristela Deves

A Caligrafia

O Admirador - Final: O Enterro

A menina e as doze badaladas
Giselle Sato

56

autor CoNVidado o Escritor
José Guilherme Vereza

60

traduÇÃo annabel Lee

a máscara da morte Vermelha
Edgar Allan Poe

Edgar Allan Poe

64 66

tEoria LitErÁria o Bicentenário de Edgar allan Poe Publicação independente ontem e hoje
Henry Alfred Bugalho Henry Alfred Bugalho

72 80

CrÔNiCa a morte sem Vida

Guilherme Rodrigues Joaquim Bispo Eder Ferreira

84 86 88 90

Pouco racistas
a mais bela das artes a idade da Velhice?
Henry Alfred Bugalho

PoESia Poesia Visual

Carlos Alberto Barros José Espírito Santo Mariana Valle

92 94 95

mais eu
Na rua

Laboratório Poético: desespero e Pássaros Carniceiros 96
Volmar Camargo Junior Ju Blasina Ju Blasina

Blavinos Poesias

98 99

SoBrE oS autorES da Samizdat 101

Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico, distribuo e posso ser preso por causa disto” Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@hotmail.com

inclusão e Exclusão
Nas relações humanas, sempre há uma dinâmica de inclusão e exclusão. O grupo dominante, pela própria natureza restritiva do poder, costuma excluir ou ignorar tudo aquilo que não pertença a seu projeto, ou que esteja contra seus princípios. Em regimes autoritários, esta exclusão é muito evidente, sob forma de perseguição, censura, exílio. Qualquer um que se interponha no caminho dos dirigentes é afastado e ostracizado. As razões disto são muito simples de se compreender: o diferente, o dissidente é perigoso, pois apresenta alternativas, às vezes, muito melhores do que o estabelecido. Por isto, é necessário suprimir, esconder, banir. A União Soviética não foi muito diferente de demais regimes autocráticos. Origina-se como uma forma de governo humanitária, igualitária, mas logo

se converte em uma ditadura como qualquer outra. É a microfísica do poder. Em reação, aqueles que se acreditavam como livrespensadores, que não queriam, ou não conseguiam, fazer parte da máquina administrativa - que estipulava como deveria ser a cultura, a informação, a voz do povo -, encontraram na autopublicação clandestina um meio de expressão. Datilografando, mimeografando, ou simplesmente manuscrevendo, tais autores russos disseminavam suas idéias. E ao leitor era incumbida a tarefa de continuar esta cadeia, reproduzindo tais obras e também as passando adiante. Este processo foi designado "samizdat", que nada mais significa do que "autopublicado", em oposição às publicações oficiais do regime soviético.

Foto: exemplo dum samizdat. Cortesia do Gulag Museum em Perm-36.

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E por que Samizdat?
A indústria cultural - e o mercado literário faz parte dela - também realiza um processo de exclusão, baseado no que se julga não ter valor mercadológico. Inexplicavelmente, estabeleceu-se que contos, poemas, autores desconhecidos não podem ser comercializados, que não vale a pena investir neles, pois os gastos seriam maiores do que o lucro. A indústria deseja o produto pronto e com consumidores. Não basta qualidade, não basta competência; se houver quem compre, mesmo o lixo possui prioridades na hora de ser absorvido pelo mercado. E a autopublicação, como em qualquer regime excludente, torna-se a via para produtores culturais atingirem o público. Este é um processo solitário e gradativo. O autor precisa conquistar leitor a leitor. Não há grandes aparatos midiáticos - como TV ,

revistas, jornais - onde ele possa divulgar seu trabalho. O único aspecto que conta é o prazer que a obra causa no leitor. Enquanto que este é um trabalho difícil, por outro lado, concede ao criador uma liberdade e uma autonomia total: ele é dono de sua palavra, é o responsável pelo que diz, o culpado por seus erros, é quem recebe os louros por seus acertos. E, com a internet, os autores possuem acesso direto e imediato a seus leitores. A repercussão do que escreve (quando há) surge em questão de minutos. A serem obrigados a burlar a indústria cultural, os autores conquistaram algo que jamais conseguiriam de outro modo, o contato quase pessoal com os leitores, o diálogo capaz de tornar a obra melhor, a rede de contatos que, se não é tão influente quanto a da grande mídia, faz do leitor um colaborador, um co-autor da obra que lê. Não há sucesso, não há gran-

des tiragens que substituam o prazer de ouvir o respaldo de leitores sinceros, que não estão atrás de grandes autores populares, que não perseguem ansiosos os 10 mais vendidos. Os autores que compõem este projeto não fazem parte de nenhum movimento literário organizado, não são modernistas, pósmodernistas, vanguardistas ou qualquer outra definição que vise rotular e definir a orientação dum grupo. São apenas escritores interessados em trocar experiências e sofisticarem suas escritas. A qualidade deles não é uma orientação de estilo, mas sim a heterogeneidade. Enfim, “Samizdat” porque a internet é um meio de autopublicação, mas “Samizdat” porque também é um modo de contornar um processo de exclusão e de atingir o objetivo fundamental da escrita: ser lido por alguém.

SAMIZDAT é uma revista eletrônica mensal, escrita, editada e publicada pelos integrantes da Oficina de Escritores e Teoria Literária. Diariamente são incluídos novos textos de autores consagrados e de jovens escritores amadores, entusiastas e profissionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas literárias e muito mais.

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Comunicado

Samizdat Especial

mistério e Suspense
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SAMIZDAT agosto de 2009

Estamos preparando a quinta edição do SAMIZDAT Especial, contemplando o gênero Mistério e Suspense. 1 - Todos os colaboradores fixos do E-Zine podem participar e sugerir autores colaboradores; 2 - Também serão aceitos textos enviados voluntariamente por autores externos, para as seguintes seções do EZine: a - Resenha de Livros; b - Teoria Literária ou de Mistério e Suspense; c - Autor convidado (prosa ou poesia); d - Traduções; e - Crônicas; 3 - Serão selecionados, ao todo, entre 3 e 5 textos para cada uma das seções acima, mas a edição do E-Zine possui o direito de selecionar mais ou menos obras. 4 - Não há limites de palavras, mas como se trata duma publicação voltada para o meio digital, solicita-se que não sejam enviados textos mais extensos do que umas 2500 palavras.

5 - Por se tratar duma obra de divulgação, não serão pagos direitos autorais. A publicação e a distribuição do E-Zine não acarretará, tampouco, em custos para os autores participantes. 6 - O SAMIZDAT Especial - Mistério e Suspense será publicado durante o mês de setembro no blog, e na edição em .PDF em 1 de outubro. Por isto, solicita-se aos autores interessados que entrem em contato até o final de agosto, através do e-mail

revistasamizdat@hotmail.com

Indicando, no assunto do e-mail, SAMIZDAT Especial 5, e em qual seção o texto se enquadra (ver item 2).

Abraços a todos, Equipe da SAMIZDAT www.revistasamizdat.com

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iSidro iturat
Para mais informações sobre Isidro Iturat e sobre o indriso, leia: http://www.revistasamizdat. com/2008/10/voc-conhece-oindriso.html

Entrevista

O indriso pode ter variantes, como duplos e triplos? O senhor aceita esta possibilidade de criação? Isidro Iturat: O único limite no indriso está na associação dos dois tercetos e das duas estrofes de verso único duplicados, pois é isso o que o define. Em relação a outras particularidades textuais (medida nos versos, rima, temática, estilo, associações de vários indrisos, etc.) o

autor tem total liberdade criativa. Sobre as composições formadas com mais de um indriso, posso dizer que eu mesmo venho ensaiando isso desde que comecei a escrevê-los. Até agora, testei associações que vão de 2 até 5 poemas, com diferentes graus de ligação semântica e formal. Cito alguns exemplos próprios: I. [Cada vez de Eco menos queda.], II. [Narciso del lago se enamora:], Zwan-

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foto: Arquivo pessoal

gsneurose (La obsesión), Algunos descendientes de Caín, Los sentidos corporales. Apesar da liberdade, concorda que é extremamente difícil compor um indriso com conteúdo e forma em perfeita harmonia? II: Realmente, não é fácil compor qualquer poema com conteúdo e forma em perfeita harmonia, mas esse não é pelo menos um dos papéis do poeta? Atualmente como o senhor vê o crescimento do indriso entre os poetas jovens? II: Primeiro, está acontecendo entre eles um jogo de rejeições e atrações. Porém, este jogo é vital porque se o indriso vai oferecer alguma coisa de interessante para a literatura, não pode ser simplesmente aceito de mãos abertas. O indriso tem que ser criticado, tão testado quanto seja possível e, se depois disso representa algo valioso para os outros, aí sim, realmente será pertinente a sua consolidação. Acho que os poetas jovens estão ajudando especialmente nesse processo de “temperado na frágua”, porque naturalmente questionam mais. Mas tenho que dizer que, pelo menos por enquanto, esse jogo está resultando no crescimento do número de autores, coisa que,

logicamente, gosto de ver e agradeço. De onde surgiu o desejo de criar a forma poética dos indrisos? II: Na verdade, não houve desejo consciente. O indriso é uma imagem que a minha cabeça criou de forma espontânea. Às vezes, faço o exercício de visualizar a estrutura dos poemas mentalmente. O indriso surgiu em um momento em que meditava sobre o soneto e em um determinado instante, vi as estrofes da figura clássica se condensando desde o padrão 4-4-3-3 para o 3-3-1-1. Tenho feito algumas leituras teóricas a respeito de poesia. Na maior parte delas, pelo menos das contemporâneas, é dito que a poesia não está na forma, nem há “conteúdos” mais ou menos poéticos, mas que se trata de uma tênue e complexa relação entre as duas coisas. Para você, que pratica-a tanto na teoria quanto na prática, é possível afirmar objetivamente sobre um texto: “aqui há poesia”? II: Existem inumeráveis estudos que tentaram definir a poeticidade de um texto desde um ponto de vista objetivo e científico, mas perante cada tese aparece sempre uma antítese que, se não mostra a inviabilidade da primeira, mostra

sim um determinado grau de insuficiência. Acho que isso acontece simplesmente porque um objeto como a poesia é uma plasmação artística de tudo aquilo que o ser humano é e capta do mundo. Por isso, tentar percebê-la só através da função intelectual é impossível, porque o ser humano não percebe as coisas apenas através dela. Até onde sei, os especialistas no funcionamento da nossa mente identificam, pelo menos, outras três funções que permitem obter interpretações eficazes sobre a nossa realidade, que seriam a intuição, a emoção e a sensorialidade. Eu penso, intuo, sinto e percebo que quando, além do intelecto usamos estas outras funções, ou inclusive todas elas ao mesmo tempo (a própria poesia estimula fortemente este processo de integração), podemos chegar sim a ter aquela firme e inequívoca percepção de que no texto, que está diante do nosso nariz, há poesia. Por causa da aparente facilidade - todo mundo crê ser capaz de escrever poemas -, há uma total descrença, do mercado editorial e dos leitores, em relação à poesia e aos poetas. Como você percebe esta situação e o que há para ser feito para modificá-la? II: Eu não acho que essa descrença exista porque um grande número de au-

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tores não consegue atingir altos padrões artísticos. O fato de existir uma maioria assim e um pequeno número de indivíduos que realmente se destacam acontece em qualquer atividade. Em minha opinião, os motivos da rejeição social à poesia são bem maiores e até mais complexos do que isso. Posso enumerar alguns elementos que tenho percebido e os considero nucleares: a poesia apela a fatos como a expressão do mundo interior das pessoas; pode incentivar o que se chama “processo de individuação” (pelo qual a pessoa passa de ser “massa” a ser “indivíduo diferenciado”); e é intrinsecamente subversiva pelo simples fato de dizer as coisas de outro jeito, além de funcionar à margem da mentalidade mercantil. Tais motivos já são suficientes para que a poesia não seja muito aceita por uma sociedade cuja maioria é educada segundo padrões opostos. As figuras com maior responsabilidade direta na hora de mudar todo isso seriam os governantes que gerem a educação e as artes, as editoras, os professores e, logicamente, os poetas. Hoje, o conhecimento necessário para fazer um grupo ou sociedade prósperos (ou para afundá-los) já existe. Isso inclui uma tradição literária de milhares de anos que permitiria fazer as melhores obras da história. Para que as coisas

melhorassem, apenas seria necessário que cada uma destas figuras quisesse fazer a sua parte. Desde sua origem, a poesia possui um forte apelo pedagógico: basta nos lembrarmos dos poemas de Homero, Hesíodo, Dante, Shakespeare e Heine, por exemplo. Qual é a função da poesia no século XXI, na sua opinião? Este propósito educacional ainda está presente, ou ainda possui razão de ser? II: Como já mencionei anteriormente, para mim a função mais importante da poesia consiste em que ela expresse com a sua linguagem particular tudo aquilo que o ser humano é. Isso inclui, é claro, a função de educar, que é uma necessidade insubstituível. Falando especificamente do século XXI, penso que pode influir muito sobre as funções da poesia o fato de que - isto é uma opinião muito pessoal – provavelmente em toda a história da humanidade o ser humano nunca esteve tão perdido, ferido e narcotizado em relação ao seu caminho vital. A maneira mais simples de comprovar isto é olhar uma enciclopédia ilustrada de arte. Qualquer pessoa (que queira ver) vai perceber imediatamente que os artistas nunca expressaram um grau

de desintegração mental e espiritual tão intenso, em época nem cultura alguma. II: Pelo menos por agora, sinto que a principal causa disso é o fato de que o nosso medo está tomando a forma de mentira de uma maneira especialmente intensa em relação às coisas essenciais: o alimento apresenta-se como veneno, a narcose como lucidez, a escravidão como liberdade, a ignorância como conhecimento, as relações egoístas como modelos de amor, Deus é apresentado como diabo, os diabos como Deuses... E muitos de nós não queremos nem ver quando, pelo menos uma vez na vida, as coisas aparecem na nossa frente como realmente são. Não sei se encarar hoje esta situação já é ou será uma função importante da poesia, mas acho que não estaria nada mal que assim fosse. O que representa a Internet para o seu ofício literário? Em que ponto ela presta um favor aos novos escritores? Em que ponto ela os atrapalha? II: Bom, através da Internet tenho acesso a leituras às quais seria quase impossível acessar desde um país com uma língua diferente da minha; atualmente, o que eu escrevo depende por inteiro da rede para ser divulgado; e o computador é o único instru-

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mento que me comunica com outros autores e leitores. Veja quanta liberdade e quanta dependência ao mesmo tempo!... Para citar mais alguns “favores”, lembrarei que ela permite aquela independência em relação às editoras tradicionais e aos júris, quem em muitos casos até agora publicaram e premiaram o que eles queriam que o leitor considerasse literatura de prestígio. Também permite divulgação massiva e instantânea, além de uma fácil atualização das informações. Quanto ao que pode atrapalhar, penso em assuntos como a volatilidade dos dados (eles são apenas pulsos elétricos), a pressa do leitor, que perante a enorme oferta acessível em segundos tende a não ficar muito tempo em um mesmo lugar, ou o que as pessoas podem fazer com as informações, pois o conjunto daquilo que você coloca na Internet é de fácil acesso a simpatizantes ou não, pessoas próximas e alheias, individuais ou ligadas a órgãos públicos e privados, sendo também extremamente manipulável. II: Geralmente, os poetas possuem temas recorrentes, que perpassam a totalidade de suas obras e pelos quais eles podem ser reconhecidos. Ao analisar

sua própria obra, você identifica quais são seus temas recorrentes? Na verdade, não sei se a minha obra poderia ser reconhecida simplesmente por isso, porque realmente os que aparecem nela são dos mais comuns na literatura. Em primeiro lugar, direi que eu gosto de visualizar o conjunto da minha obra como uma roda em movimento. O eixo dela seria a noção de Eros no seu sentido integral de “instinto de vida”. A partir deste eixo, se projetariam uma série de rádios entre os quais considero de maior significação, e por isso mais recorrentes: a definição dos diferentes arquétipos do homem e da mulher; a relação entre eles nos aspectos erótico, sentimental e espiritual; as reflexões sobre o caminho vital humano e as relações de tudo isso com a divinidade. Quais são os poetas consagrados que você lê? E quais são os novos poetas que você lê? II: Os poetas consagrados que me marcaram mais e que leio recorrentemente são dois: o nicaraguense Rubén Darío, do século XX e o espanhol do século XVII don Luis de Góngora. Quanto aos poetas novos, também procuro acompanhar as últimas fornadas de autores com a esperança de que algum deles consiga atrair minha fidelidade como leitor,

mas infelizmente hoje não acontece isso com ninguém. Sei que este fato pode provir de um gosto pessoal restringido demais, ou de uma simples falta de pesquisa, não sei. Mas é o que acontece atualmente comigo. Além do indriso, a que projetos você têm se dedicado, no campo da poesia? II: Antes do indriso passei pelo que poderíamos definir como duas etapas poéticas. Na primeira, produzi uma série de poemas em verso livre de tom predominantemente niilista, depois veio uma segunda, na qual já comecei a experimentar com a métrica regular e com os poemas amorosos. Mas joguei fora quase tudo. A poesia que eu quero mostrar começa com o indriso e é o único projeto com o qual trabalho hoje, não porque me sinta obrigado, mas, simplesmente, porque é o que pede a minha voz poética. Como é a receptividade da literatura brasileira na Espanha? II: Na Espanha a literatura brasileira é praticamente desconhecida. É muito difícil encontrar livros brasileiros nas prateleiras das livrarias espanholas. Esse fato é verdadeiramente lamentável, porque considero que a literatura brasileira tem uma grande

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riqueza e singularidade. Na Europa a presença do Brasil é bem mais mais forte na França. Vale a pena mencionar alguns nomes evidentes que podem ser encontrados: Vinicius de Moraes, Jorge Amado, Machado de Assis... Quando você teve contato com a nossa literatura? II: A partir de 2004, quando já estava preparando a minha viagem para o Brasil, que se concretizou em 2005. Juntamente com o estudo da língua portuguesa, comecei a procurar nomes de autores brasileiros consagrados e a tentar ler alguns deles. As primeiras obras da literatura brasileira que li, foram os contos de Machado de Assis e uma pequena antologia de poetas que achei na biblioteca da Casa do Brasil, em Madri. Entre os brasileiros, que poetas você aprecia? II: Bom, em relação à poesia brasileira estou apenas começando a ler. Até agora captaram mais a minha atenção os gratamente inevitáveis Carlos Drummond de Andrade, Castro Alves e Vinicius de Morais. Com Vinicius tenho um vínculo afetivo mais forte porque foi meu “mestre de português”. Na Espanha, para fixar a prosódia (e porque sentia um enorme

prazer com a vibração daqueles versos na boca e no ouvido) eu recitava incessantemente o Soneto de fidelidade. Tem acontecido alguns episódios bem desagradáveis nos aeroportos, envolvendo brasileiros que viajam para a Espanha. A que você atribui esse mal-estar? II: Não tenho nenhum conhecimento especializado em relação às questões políticas e minha opinião não deve ter mais valor do que a de qualquer outro cidadão comum. Pelo que vi até agora, duvido que a opinião pública (seja brasileira ou espanhola) chegue a conhecer o verdadeiro motivo destas ações nos aeroportos da Espanha. Se os funcionários envolvidos, por exemplo, não forem claros e corretos na aplicação das normas, isso significa que existem outros motivos além dos que aparecem na mídia, motivos que só conhecem as autoridades que dão as ordens. Por isso, seja como cidadão espanhol ou como cidadão brasileiro, só me resta ver essa situação com muito pesar. Seu site mostra que, além de poesias, você também tem alguns artigos e ensaios escritos. Dentro dessas experiências, o que te traz maior retorno: a prosa ou a poesia?

II: Basicamente, vejo a relação entre a minha poesia e o meu ensaio como a que poderia existir entre uma irmã mais velha com o irmão menor. Cada um deles tem o seu próprio tamanho (a poesia é bem maior), mas trata-se de uma relação amorosa na qual um incentiva o outro. Por exemplo, a minha poesia não apresentaria a mesma diversidade de matizes se não fosse pelo estudo, a meditação e o trabalho de ordenação mental que exige o ensaio; no entanto, ele permite tratar de assuntos literários além do verso que me interessam. Também acontece que a afetividade e recursos que a poesia mobiliza, permite que o ensaio fique mais rico em detalhes expressivos, ritmo e emocionalidade.

Coordenação da entrevista: Volmar Camargo Junior Perguntas feitas por: Carlos Barros Giselle Sato Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

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autor em Língua Portuguesa

Machado de Assis
Ilustração Gustave Doré

a igreja do diabo
Publicado originalmente em Gazeta de Notícias 1883 I De uma idéia mirífica Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez. — Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal

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dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo. Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

com os olhos no Senhor. — Que me queres tu? perguntou este. — Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos. — Explica-te. — Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho; dailhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros... — Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura. — Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a

vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece? — Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor. — Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amorpróprio gosta de ouvir o aplauso dos mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental. — Vai. — Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra? — Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja? O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje da memória, qualquer coisa que, nesse bre-

ii Entre deus e o diabo Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-no logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada

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ve instante da eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse: — Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura... — Velho retórico! murmurou o Senhor. — Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor — a indiferença, ao menos — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha — ou

sejam roupas ou botas, ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos... Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo. — Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie, replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião pare-

ce enjoado; e sabes tu o que ele fez? — Já vos disse que não. — Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão? — Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega. — Negas esta morte? — Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los... — Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai; vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai! Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa

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mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

iii a boa nova aos homens Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas. — Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos

contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil a airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo... Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada. Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza, que decla-

rou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe era robusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: “Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu”... O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos do Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das

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mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de prosperidades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento. As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes de eloqüência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs. Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe o braço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens são canhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um

monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no obscuro e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrando assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de

um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente. E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.

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Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: “Leve a breca o próximo! Não há próximo!” A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um

apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúlteros. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

iV Franjas e franjas A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo. Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam

todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiamse a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros. A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e[1] com o produto das drogas socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançoulhe em rosto o procedi-

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mento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogman; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meterse na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantarse. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia.

Mas não havia duvidar; o caso era verdadeiro. Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse: — Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu pobre e epilético. Era filho de Francisco José Machado de Assis e de Leopoldina Machado de Assis, neto de escravos alforriados. Foi criado no morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Ajudava a família como podia, não tendo freqüentado regularmente a escola. Sua instrução veio por conta própria, devido ao interesse que tinha em todos os tipos de leitura. Graças a seu talento e a uma enorme força de vontade, superou todas essas dificuldades e tornou-se em um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos. Entre os seis e os 14 anos, Machado perdeu sua única irmã, a mãe e o pai. Aos 16 anos empregou-se como aprendiz numa tipografia e publicou os primeiros versos no jornal “A Marmota”. Em 1860, foi convidado por Quintino Bocaiúva para colaborar no “Diário do Rio de Janeiro”. Datam dessa década quase

Fim de a igreja do diabo

fonte: http://www2.uol. com.br/machadodeassis/ machado.html

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todas as suas comédias teatrais e o livro de poemas “Crisálidas”. Em 12 de novembro de 1869 casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais. Esse casamento ocorreu contra a vontade da família da moça, uma vez que Machado tinha mais problemas do que fama. Essa união durou cerca de 35 anos e casal não teve filhos. Carolina contribuiu para o amadurecimento intelectual de Machado, revelando-lhe os clássicos portugueses e vários autores de língua inglesa. Na década de 1870, Machado publicou os poemas “Falenas” e “Americanas”; além dos “Contos Fluminenses” e “Histórias da meia-noite”. O público e a crítica consagraram seus méritos de escritor. Publicou os romances: “Ressurreição” (1872); “A Mão e a Luva” (1874); “Helena” (1876); “Iaiá Garcia” (1878). Essas obras ainda estão ligadas à literatura romântica e formam a chamada primeira fase de Machado de Assis.

Na década de 1880, a obra de Machado de Assis sofreu uma verdadeira revolução, em termos de estilo e de conteúdo, inaugurando o Realismo na literatura brasileira. Os romances “Memórias póstumas de Brás Cubas” (1881); “Quincas Borba” (1891); “Dom Casmurro” (1899) e os contos “Papéis avulsos” (1882); “Histórias sem data” (1884), “Várias histórias” (1896) e “Páginas recolhidas” (1899), entre outros, revelam o autor em sua plenitude. O espírito crítico, a grande ironia, o pessimismo e uma profunda reflexão sobre a sociedade brasileira são as suas marcas mais características. Em 1897, Machado fundou a Academia Brasileira de Letras, da qual foi o primeiro presidente, pelo que a instituição também conhecida como casa de Machado de Assis. Ocupou a Cadeira N.º 23, de cujo patrono, José de Alencar, foi amigo e admirador. Em 1904, a morte de sua mulher foi um duro golpe para o es-

Machado de Assis morreu em sua casa situada na rua Cosme Velho. Foi decretado luto oficial no Rio de Janeiro e seu enterro, acompanhado por uma multidão, atesta a fama alcançada pelo autor. O fato de ter escrito em português, uma língua de poucos leitores, tornou difícil o reconhecimento internacional do autor. A partir do final do século 20, porém, suas obras têm sido traduzidas para o inglês, o francês, o espanhol e o alemão, despertando interesse mundial. De fato, trata-se de um dos grandes nomes do Realismo, que pode se colocar lado a lado ao francês Flaubert ou ao russo Dostoievski, apenas para citar dois dos maiores autores do mesmo período na literatura universal. Fonte: http://educacao.uol.com. br/biografias/ult1789u180.jhtm

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http://guisalla.files.wordpress.com/2008/09/machado1.jpg

Em 1873, o escritor foi nomeado primeiro oficial da secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras públicas. A sua carreira burocrática teve uma ascensão muito rápida, uma vez que, em 1892, já era diretor geral do Ministério da Viação. O emprego público garantiu a estabilidade financeira, uma vez que viver de literatura naquela época era quase impossível, mesmo para os bons escritores.

critor. Depois disso, raramente ele saía de casa e sua saúde foi piorando por causa da epilepsia. Os problemas nervosos e uma gagueira contribuíram ainda mais para o seu isolamento. São dessa época seus últimos romances “Esaú e Jacó” (1904) e “Memorial de Aires” (1908), que fecham o ciclo realista iniciado com “Brás Cubas”

autor em Língua Portuguesa

a poesia de
augusto dos anjos

o morCEGo
Meia-noite. Ao meu quarto me recolho. Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede: Na bruta ardência orgânica da sede, Morde-me a goela ígneo e escaldante molho. "Vou mandar levantar outra parede..." - Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho, Circularmente sobre a minha rede! Pego de um pau. Esforços faço. Chego A tocá-lo. Minh'alma se concentra. Que ventre produziu tão feio parto?! A Consciência Humana é este morcego! Por mais que a gente faça, á noite, ele entra Imperceptivelmente em nosso quarto!

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o dEuS-VErmE
Fator universal do transformismo. Filho da teleológica matéria, Na superabundância ou na miséria, Verme - é o seu nome obscuro de batismo. Jamais emprega o acérrimo exorcismo E vive em contubérnio com a bactéria, Livre das roupas do antropomorfismo. Almoça a podridão das drupas agras, Janta hidrôpicos, rói vísceras magras E dos defuntos novos incha a mão... Ah! Para ele é que a carne podre fica, E no inventário da matéria rica Cabe aos seus filhos a maior porção!
http://www.flickr.com/photos/eob/55453207/sizes/o/

Em sua diária ocupação funérea,

aSa dE CorVo
Asa de corvos carniceiros, asa De mau agouro que, nos doze meses, Cobre às vezes o espaço e cobre ás vezes O telhado de nossa própria casa... Perseguido por todos os reveses, É meu destino viver junto a essa asa, Como a cinza que vive junto á brasa, Como os Goncourts, como os irmãos siameses! E com essa asa que eu faço este soneto E a indústria humana faz o pano preto Que as famílias de luto martiriza... E ainda com essa asa extraordinária Que a Morte - a costureira funerária - Cose para o homem a última camisa!

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VozES dE um tÚmuLo
Morri! E a Terra - a mãe comum - o brilho Destes meus olhos apagou!... Assim Tântalo, aos reais convivas, num festim, Serviu as carnes do seu próprio filho! Por que para este cemitério vim?! Por quê?! Antes da vida o angusto trilho Palmilhasse, do que este que palmilho E que me assombra, porque não tem fim! No ardor do sonho que o fronema exalta Construí de orgulho ênea pirâmide alta... Hoje, porém, que se desmoronou A pirâmide real do meu orgulho, Hoje que arenas sou matéria e entulho Tenho consciência de que nada sou!

VErSoS ÍNtimoS
Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão - esta pantera Foi tua companheira inseparável! Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera. Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja. Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!

fonte: http://www.biblio.com.br/conteudo/AugustodosAnjos/augustodosanjosobras.htm

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Augusto dos Anjos nasceu no engenho Pau d'Arco, no município de Sapé, estado da Paraíba. Foi educado nas primeiras letras pelo pai e estudou no Liceu Paraibano, onde viria a ser professor em 1908. Precoce poeta brasileiro, compôs os primeiros versos aos 7 anos de idade. Em 1903, ingressou no curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife, bacharelando-se em 1907. Em 1910 casa-se com Ester Fialho. Seu contato com a leitura, influenciaria muito na construção de sua dialética poética e visão de mundo.

Essa filosofia, fora do contexto europeu em que nascera, para Augusto dos Anjos seria a demonstração da realidade que via ao seu redor, com a crise de um modo de produção pré-materialista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo seria representado por ele, então, como repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a no nascimento e na morte.

Dedicou-se ao magistério, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde foi professor em vários estabelecimentos de ensino. Faleceu em 12 de novembro de 1914, às 4 horas Com a obra de Herbert Spen- da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, Minas Gerais, cer, teria aprendido a incaonde era diretor de um grupo pacidade de se conhecer a essência das coisas e compre- escolar. A causa de sua morte endido a evolução da natureza foi a pneumonia. e da humanidade. De Ernst Durante sua vida, publicou Haeckel, teria absorvido o vários poemas em periódiconceito da monera como cos, o primeiro, Saudade, em princípio da vida, e de que a 1900. Em 1912, publicou seu morte e a vida são um puro livro único de poemas, Eu. fato químico. Arthur SchoApós sua morte, seu amigo penhauer o teria inspirado a Órris Soares organizaria uma perceber que o aniquilamento edição chamada Eu e Outras da vontade própria seria a Poesias, incluindo poemas única saída para o ser huma- até então não publicados pelo no. E da Bíblia Sagrada ao autor. qual, também, não contestava sua essência espiritualística, fonte: http://pt.wikipedia.org/ usando-a para contrapor, de forma poeticamente agressiva, wiki/Augusto_dos_Anjos os pensamentos remanescentes, em principal os ideais iluministas/materialistas que, endeusando-se, se emergiam na sua época.

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Contos

Joaquim Bispo

o retrato do Juiz
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O pintor contemplava o retrato do juiz no cavalete e os seus olhos teimavam em fitar o olhar incisivo do retratado, muito firme, muito intenso. Parecia vigiar-lhe cada movimento. Era perturbador. O cliente já devia ter ido buscar o quadro há duas semanas, mas não havia maneira de aparecer. Júlio começava a ficar impaciente. Não que o dinheiro lhe fizesse muita falta, mas o olhar do retrato inquietava-o. Cada vez que o observava, parecia encontrar-lhe novos aspectos fisionómicos. Como se tivesse vida. Era, sem dúvida, das suas obras mais conseguidas. Desde novo que, nas suas mãos, as telas se povoavam de figuras, umas cândidas, outras austeras, umas históricas, outras, que podíamos esperar encontrar na rua, representadas com uma naturalidade notável. Manobrava os pincéis com destreza, como se já tivesse muitos anos de prática. Quase sempre fazia as misturas das cores na paleta mas, em obras de maior arrebatamento, aplicava as cores puras directamente na tela, em empastamentos de força cromática avassaladora. Com o tempo, percebeu que o retrato próprio era das imagens que as pessoas mais prezavam e passou a especializar-se nesse género, adoptando Columbano como referência. Ao seu “atelier” da rua de S. Paulo, em Lisboa, acudiam militares, magistrados, catedráticos, políticos. Cavalheiros graves em fun-

do escuro e damas vistosas em “toilettes” requintadas nasciam nas suas telas. Os olhares eram sempre inteligentes, a pose sempre nobre e elegante. Ultimamente, a clientela já não abundava mas Júlio, de sessenta e três anos escorreitos, gostava do que fazia e tencionava continuar a trabalhar indefinidamente. O último cliente fora este juiz. Tinha querido pagar a totalidade do trabalho, mas Júlio aceitara apenas metade; o resto seria pago contra a entrega da obra. Era um cliente fácil. Chegava sempre pontualmente às nove da manhã, no seu fato preto impecável, e mantinha-se firme na pose escolhida, durante as duas horas da sessão. Era de poucas falas, mesmo no pequeno intervalo que faziam a meio. O rosto, que era a parte mais delicada e a que dava mais trabalho, foi nascendo, mancha a mancha nas carnações da face, pincelada a pincelada nos fartos cabelos grisalhos e nas sobrancelhas rectas e espessas. Ao fim de duas semanas, os olhos vivos e inquisidores do juiz acenderam-se na tela como se fossem reais. Pouco depois, Júlio disse ao cliente que só faltava rematar os fundos e que podia ir buscar o retrato daí a uns dias. Tinham-se passado três semanas e o juiz não aparecia. O retrato estava muito realista. Júlio olhava-o e não

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conseguia evitar uma inquietação difusa. Começava a tornar-se uma obsessão. Não ficara, do juiz, com mais que o nome e a morada, rabiscados num papel. Pensou em telefonar-lhe, mas das Informações disseram-lhe que aquela morada não tinha telefone fixo. Resolveu procurar o cliente, pessoalmente. Apanhou o comboio para Carcavelos e, lá chegado, foi perguntando até encontrar a casa do juiz. O que descobriu não podia ser mais perturbador. Realmente, ali era a casa do juiz, mas ele não estava. Nem ele nem ninguém. Perguntando à vizinhança, soube que a casa estava abandonada desde que o juiz morrera, havia quinze anos. Júlio deixou-se cair num banco de jardim e ali ficou, sem tomar conta das horas, mergulhado num assombro de que não sabia como sair. Se havia coisa com que não sabia lidar era com o sobrenatural. Desde então que Júlio não pinta. No primeiro mês após a traumática revelação, só voltou ao “atelier” uma única vez. Tornar a encarar aquele olhar foi aterrador. Podia jurar que o juiz o olhava de cenho mais carregado, num misto de tensão e recriminação. Voltou a face da tela para a parede, mas Júlio continuou a pressentir a intensidade do olhar através dela. Sentiu medo. Saiu rapidamente, ofegante, sem saber o que fazer, sem vontade de

voltar. Em casa pensou que, se calhar, estava na altura de parar de pintar. Foi falar com um amigo, vizinho do “atelier”, que há tempos se propusera comprar-lho para alargar a sua loja de aprestos marítimos. Fizeram negócio, depois de o amigo aceitar ficar também com o recheio. Júlio recolheu-se à sua pequena casa de Montemor, sobranceira ao vale de Loures, disposto a desanuviar o espírito, mas não o tem conseguido. Passa as tardes na varanda, de olhar perdido no horizonte. Não consegue tirar da cabeça o olhar mau do juiz. Nem consegue entender que intuito teve ele, ao voltar do outro mundo e lhe encomendar o retrato. Por um desses dias, na sua casa de Azeitão, Armando Magalhães levantava-se da mesa e improvisava um pequeno discurso para uma dúzia de familiares reunidos à volta do almoço dominical: – Meus queridos, é com agrado e enorme orgulho que celebro convosco a próxima expansão da nossa pequena empresa. Foi um negócio bem sucedido de que todos saíram a ganhar, como gosto que sejam todos os nossos negócios. Ganhámos nós e ganhou o Sr. Júlio, que agora pode gozar uma bem merecida reforma. Era um grande artista. Vejam como ele captou o olhar austero do tio – apontava Armando o quadro na parede. – Aliás, quero fazer um agradecimento muito

especial ao tio Jerónimo, pelo esforço que fez de ir todas as manhãs a Lisboa e assumir tão bem aquela personagem. Sem a sua ajuda, talvez não tivéssemos conseguido o que há tanto tempo pretendíamos: a expansão do nosso armazém de vendas e do nosso negócio. Obrigado tio! E faço questão, é claro, que fique com o quadro. Bem o merece! De qualquer modo, estamos todos de parabéns. Por isso, peço que me acompanhem num brinde. Armando levantou um copo e pronunciou a fórmula habitual: – A família é a nossa fortaleza. À família! Todos se levantaram, de copo na mão, respondendo em coro: – À família! O brinde terminou com uma longa salva de palmas, que comunicou, ao espírito de cada um, o enternecimento de quem se sabe participante no bom sucesso de um projecto comum. [Conto publicado pela primeira vez em 2007, na edição resultante dum concurso de contos promovido pelo site Ora, vejamos... em que obteve um 3º lugar ex-aequo, entre 67 candidatos]

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Ele tinha diante de si a mais difícil das missões:

cumprir a vontade de Deus

ficina
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O Rei dos

Judeus
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át

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Henry Alfred BugAlHo

Contos

o Lobo Vermelho
(segunda parte)
Guinen Plumbeano
Volmar Camargo Junior

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Seguindo a estrada na direção sul, depois de uma sequência de sobes-e-desces ainda dentro do subúrbio, atravessamos os portões do primeiro nível de suas muralhas. Diferente do centro da cidade, o bairro que circundava a estrada parecia ainda não ter amanhecido, e foi um custo perceber alguma coisa além dos muros altíssimos. Era como se a avenida percorresse o fundo de um canal, e o bairro ficasse para além de suas margens. Não fosse pelas pequenas portas de metal, ao longo de um passeio estreito, eu diria que por ali só passavam carros. Assim, antes de chegar à zona rural, tudo o que vi da parte mais pobre de Avvena foi uma rua espremida entre dois altos muros de alvenaria. Seria lógico que eu tivesse perguntado algo a Platin, o motorista, mas preferi ficar quieto. Concentrei-me na história de meu personagem principal. E, sim, a ideia que eu fazia dele era a de uma entidade mitológica, e isso certamente não era culpa minha. Para o bem ou para o mal, o Lobo Vermelho era tido como uma figura folclórica. Para seus detratores e a grande maioria dos ativistas contrários à Confederação das Províncias, ele era um monstro, um demônio, ou na melhor das hipóteses, uma

marionete da Imperatriz. Para seus admiradores, era um herói lendário, capaz de proezas bélicas acima da capacidade humana, dono de uma coleção inigualável de façanhas e o mais importante dos humanos depois dos primeiros filhos de Adanno. Para aqueles que permanecem céticos, e que têm algum interesse nos fatos como eles realmente aconteceram – como eu – Petro Velasturvo fora um militar competente, um homem dotado de grande inteligência e poucos escrúpulos. E eu sei que posso escrever isso assim, sem nenhum medo de represálias, porque estas não são as minhas palavras, mas as dele. Eu precisava de um foco para minha entrevista. A história dele era realmente muito intensa, e havia demasiados fatos para tão pouco tempo. Fiquei grato por ter um motorista guiando – ainda que eu soubesse conduzir um veículo daqueles, jamais me arriscaria a fazê-lo dentro de uma neblina tão densa. Além do mais, não me distraí com a rica paisagem rural de Avvena, pelo fato de parecer que o carro estava todo envolto em lençóis brancos e molhados. Em um momento, tive a nítida impressão de que Platin estava apenas mantendo o carro em movimento, deixando que a

máquina sozinha seguisse pelo caminho que conhecia. Saquei o bloco e a caneta do bolso do casaco. Para retomar o fio de raciocínio, que perdera assim que saí do quarto do hotel, tentei lembrar da primeira façanha que tinha ouvido a respeito do General. Meu pai era aficionado por objetos históricos, um pesquisador entusiasta, profundamente avesso à academia e, hoje posso admitir, à Igreja. Em uma sala construída em nossa casa, especialmente para isso, meu pai guardava sua coleção. Não era como o museu da Universidade do Farol Púrpura, mas sem dúvida, era um dos maiores acervos particulares da Capital. Eu, bem como os poucos amigos que tive na infância, tínhamos uma simpatia enorme pelos artefatos de guerra, os uniformes dos soldados do império, e, principalmente, as armas. Havia, dentre todas aquelas peças às quais não podíamos fazer nada além de olhar, uma espada; um sabre para ser mais exato. No pedestal onde ele ficava, havia a reprodução de um quadro da época, que retratava um oficial do Exército à frente de uma quantidade incontável de soldados em marcha, e esse oficial empunhava, apontando para o alto, aquele mesmíssimo sabre. Meu pai

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contava que aquela não era uma peça original, mas era uma cópia fiel da Guardiã do Mar, e que seu dono, o homem que a empunhava, era o Lobo Vermelho, o maior herói da guerra contra os invasores delfins. Então, meu pai contava todo tipo de histórias sobre ele, e que eu e meus amigos costumávamos reproduzir em nossas brincadeiras, amarrando toalhas e lençóis às costas como capas, e cada um com uma “Guardiã do Mar” feita das pernas de uma cadeira velha. Fazíamos um sorteio, todas as tardes, para decidir quem seria o Lobo Vermelho, depois, quem seria Unmonu, seu companheiro de aventuras, e, por fim, quem seriam os adversários: príncipes delfins, lordes adormecidos, bruxos linces, guerreiros bárbaros. E eu recordo de sempre gostar mais de interpretar os vilões, enquanto meus amigos se estapeavam para disputar que heróis seriam. Ao final da brincadeira era sempre eu, ou melhor, o inimigo do Mar de Luna, quem tinha a pior sorte, mas não antes de ter deixado muitos soldados caídos, ter derrubado o “Bovineu Invencível” e decepado uma das pernas do Lobo Vermelho – e eu nunca tinha certeza se era a direita ou a esquerda. Havia dezenas de versões explicando a razão de o General Velasturvo usar uma

perna mecânica, e a maior parte delas era, no mínimo, fantasiosa. A minha preferida era esta: Numa tarde de inverno, Petro e seus colegas praticavam luta no pátio da escola, quando foram surpreendidos por um lobo selvagem. Eles ainda não o haviam percebido porque era um lobo branco, e se esgueirou na neve até chegar perto o suficiente para atacar de surpresa. Os outros meninos fugiram apavorados, mas Petro não teve a mesma sorte: o lobo saltou em sua direção e, para impedir que fugisse, abocanhou sua perna e o derrubou. O menino teve o sangue frio de fingir-se de morto. Quando o predador soltou sua perna para conferir se a presa estava realmente abatida, Petro reagiu. Com presteza, enfiou as duas mãos no focinho do animal, segurando suas mandíbulas fechadas e avançou com os dentes contra o pescoço peludo do lobo. A fúria de Petro era tão grande que o couro do predador rasgou-se como um trapo velho, e músculos e veias iamse rompendo à medida que o menino mordia. Só depois disso é que o professor de luta veio em seu auxílio, mas aí, o lobo, que era branco, já estava morto, todo tingido de vermelho. A perna do menino Petro teve de ser amputada. Todos, a partir daquele dia, passaram a temê-lo e respeitá-lo. Como um

pedido de desculpas, a esposa do professor de luta fez para o menino um casaco da pele do lobo, que nunca mais pôde ser alvo, manchado de sangue para sempre. Eu ri sozinho no banco de trás do carro. Como aquelas historietas eram marcantes para as crianças! Era bem provável que, se eu perguntasse para qualquer um dos meus amigos de infância, eles teriam lembrado desta, “O menino e o lobo branco”, talvez com as mesmas palavras. Percebendo que eu ria – devo até ter falado sozinho, em voz alta – Platin olhou-me pelo espelho, devolvendo-me o sorriso. — Já conhece o General, Senhor Plumbeano? Digo, já o viu alguma vez? — Pode me chamar apenas Guinen, Platin. Só vi o General em fotografias. Por que a pergunta? — Porque a última vez que ele foi visto em público, ele estava bem diferente — respondeu, enfático. — Diferente como? — quis saber. — Não precisa se preocupar. Você já vai ver. Chegamos. Seja bem-vindo à Mansão do General.

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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Contos

um Ghostwriter
Henry Alfred Bugalho

Contrata-se

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Eleonor Schneider, diante da máquina de escrever, se preparou para redigir o livro da sua vida. Ler “São Bernardo” a encantou, a narrativa simples de Paulo Honório; refletiu que também deveria tentar. Mas ela não era nenhum Graciliano Ramos e, assim que a página em branco foi ajeitada, o peso das palavras oprimiu Eleonor. Não sabia o que dizer, nem como. — Por que você não contrata um Ghostwriter? — sugeriu Marieta, amiga de infância de Leonor. — O que é isto? — Algo comum nos Estados Unidos, amiga. “Escritor fantasma”, em português: você paga alguém para colocar suas idéias no papel e, no final, quem recebe os créditos é você. Mais fácil, impossível. Proposta tentadora. De fato, resolveria muitos problemas estruturais de sua narrativa, o primeiro deles: como colocar num livro setenta anos de história pessoal, três casamentos, uma viuvez, um filho morto em acidente de carro, uma filha doutora na Suíça, Eleonor sobrevivendo a um acidente de avião (com mais cinco outras pessoas). Todas aqueles coisas, grandes ou triviais, que indivíduos comuns consideram imprescindíveis de serem escritas num livro, para o

bem-geral da humanidade e da posteridade. Por isto, na manhã seguinte, Eleonor anunciou no jornal: “Contrata-se um Ghostwriter, para livro autobiográfico.” Logo começaram os telefonemas e as visitas. Candidatos com currículos, constando as editoras com as quais trabalharam, catálogo de clientes satisfeitos, trechos de suas obras. Eleonor os avaliava como se selecionasse um quarto marido: não bastava ter ótimas qualificações, tinha de ser simpático, não podia ser feio (ser bonito não era imperioso, mas feio, nem pensar!), e com horários extremamente maleáveis, já que as melhores idéias de Eleonor ocorriam de madrugada, ou seja, disponibilidade para receber telefonemas às três ou quatro da manhã. E tal pessoa só poderia ser Pietro della Fontana, vinte e tantos anos, olhar profundo, sorriso sincero e, de acordo com ele, pelo menos dois livros publicados na Itália. Apesar do português com sotaque, um conhecimento gramatical impecável; não trouxe currículo, mas apenas um pedaço de guardanapo, no qual, diante da própria Eleonor, escreveu um parágrafo, descrevendo-a.

A viúva se encantou com os adjetivos a ela atribuídos: — Quando podemos começar, meu filho? Três vezes por semana, Pietro vinha à casa de Eleonor, geralmente após a hora do jantar. Tomavam chá na sala de estar. Eleonor contava sua vida a Pietro, mostrando-lhe fotos esmaecidas, por vezes, algumas relíquias de família; este tomava notas de tudo, num caderninho velho com folhas amareladas. Riam juntos dos momentos pitorescos; choravam juntos dos trágicos. — Estou tão feliz com minha escolha, Marieta! — Eleonor no telefone — O rapazinho é atencioso e dedicado. Amanhã, trará as primeiras páginas do que escreveu. Mas Pietro della Fontana não cumpriu o prometido. Ao invés dum manuscrito, trouxe apenas o velho caderno de notas. — Mas você prometeu, Pietro! — Desculpe-me, Eleonor, eu deveria ter-lhe explicado o meu método de trabalho antes de começarmos. Você só terá acesso ao texto quando eu houver terminado. Então, revisaremos juntos e faremos as modificações. — Mas você prometeu! — Foi um deslize que

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não se repetirá. A confiança de Eleonor nele foi abalada. No entanto, agora que os trabalhos já haviam começado, iriam até o fim. Uma idéia brilhante despertou Eleonor, sobre como iniciar o próximo capítulo. Sentada na cama, discou o número de Pietro; ninguém atendeu. — Atenda, Pietro! É importante — ela sussurrava. Secretária eletrônica. — Pietro, aqui é Eleonor, ligue para mim o mais rápid... — não concluiu; tinha certeza de haver ouvido passos na escada. Desligou o telefone, vestiu o penhoar e abriu uma fresta na porta. Mesmo estando tudo escuro, uma sombra se lançava de baixo para cima, na escada, por causa do fraco abajur na sala. Eleonor teve medo. E se fosse um assaltante? Um estuprador (há quase uma década que ela não sabia o que era ter um homem dentro dela)? E se fosse um psicopata assassino em série? Eleonor apagou a luz e correu para dentro do closet. Arfava. Coração na boca. O invasor mexeu na maçaneta, a porta do quarto se abriu, um vulto entrou e caminhou diretamente para o closet. Encostou a cabeça na porta. — Eleonor, — murmurou

— sou eu, você me chamou. Eu vim. Os pêlos da viúva se arrepiaram, conhecia a voz, mas, tomada pelo pânico, não raciocinava. Permaneceu em silêncio. — Sou eu, Pietro... — a voz insistiu. Poderia ser uma emboscada, uma armadilha. O bandido poderia tê-la espiado e investigado a todos com quem ela mantinha contato. Mas a voz era mesmo de Pietro. Lentamente, ela abriu o closet. Os olhos profundos do rapaz a fitavam, à distância dum palmo: — O que você está fazendo dentro do armário, Eleonor? — ele riu. — O que é que você está fazendo aqui em casa, a esta hora da madrugada? — a raiva da senhora era muito inferior ao medo — Saia daqui agora! Saia, saia, saia! — Calma, Eleonor, eu trouxe alguns rascunhos para você dar uma olhada. Achei que não deveria deixá-la esperando. — Não vou repetir, rapaz. Se você não for embora agora, serei obrigada a chamar a polícia. Pietro trajou uma decepcionada expressão. Com um maço de papéis sob o braço, deu a volta e desapareceu escada abaixo.

Eleonor tremia, havia perdido o sono, tinha medo de descer e confirmar se Pietro havia realmente partido. Ficou sentada na beira da cama, abraçando-se, aguardando o sol nascer. — História esquisita esta que você me contou, amiga — Marieta apoiava a cabeça no punho cerrado, pensativa. — Vou cancelar o contrato com ele. Não quero mais saber de ele escrevendo minha história. Quem deu a ele direito de vir até minha casa, entrar sem ser convidado? Não quero mais saber. — E se ele for perigoso, Eleonor? Ele pode querer se vingar de você. Talvez seja melhor você descobrir mais coisas sobre ele. Eu gostaria de conhecê-lo. — Por favor, não me peça isto. — Confie em mim, Eleonor. Você sabe como é minha intuição. Uma olhada neste rapaz e já vou saber se ele é de boa índole. Eleonor aquiesceu. Ligou para Pietro e marcou um jantar, na casa dela, naquela mesma noite. — Ele já deve estar para chegar — Eleonor apertava as mãos, enquanto Marieta dispunha a mesa para três. A hora combinada chegou e Pietro, sempre ina-

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creditavelmente pontual, não apareceu. — Algo deve ter acontecido — Marieta racionalizava — É apenas um atraso. — Ele descobriu tudo. Percebeu que se tratava duma arapuca — o olhar de Eleonor saltava de janela em janela, temendo que alguém as estivesse observando. Ficou tarde, e lá fora começava a chover. — Ele não vem, amiga. E já está na minha hora. Cuide-se e, qualquer coisa, saiba que pode contar comigo — Marieta abraçou Eleonor e partiu. Dez minutos depois, alguém bateu à porta. É Marieta, esqueceu-se da sua sacola de bordados, Eleonor pensou. Com a sacola em mãos, Eleonor atendeu a porta: — Aqui está... — disse, sorridente, mas logo os dentes se esconderam, à porta estava Pietro. — Desculpe-me o atraso, Eleonor — ele estava todo encharcado — Meu carro enguiçou. Tive de caminhar até aqui. Sem convidá-lo a entrar, Eleonor sugeriu: — Quer que eu ligue para um mecânico? — Não precisa. Só preciso dum lugar para passar à noite. Amanhã, quando

estiver dia, eu mesmo posso consertar o carro. — Você não pode ficar aqui, Pietro. Sinto muito. — Por que não, Eleonor? Nós nos tornamos tão íntimos nestas últimas semanas — havia algo macabro neste “tão íntimos”. Ele avançou e afastou Eleonor com o braço. Retirou o casaco e o dependurou no cabide. — Posso dormir no sofá mesmo — retirou as botas, Eleonor estática, maçaneta da porta aberta numa das mãos, sacola com bordados na outra. — Feche a porta, Eleonor, está vindo um vento gelado de fora. Ela obedeceu. Mesmo se trancando no quarto, Eleonor não estava sossegada. A recordação da outra noite a inquietava, jurava estar ouvindo Pietro andando lá embaixo, emitindo grunhidos como se fosse um bicho, subindo a escada, respirando perto da fechadura, e descendo a escada novamente. Ela se cobriu com o lençol, era como se Pietro estivesse dentro do quarto, prestes a puxar o lençol e sussurrar: — Você me chamou... Eu vim. Outra noite insone. Eleonor se levantou e olhou pela janela: as árvores castigadas pelo vento e

pela chuva oblíqua. Foi até a penteadeira e apanhou o porta-retrato, no qual a foto de Teobaldo, seu finado esposo, sorria. Um tímido reconforto, fugidia segurança; vê-se no espelho, olheiras proeminentes, cabelos despenteados, e, atrás de si, quase invisível, quase uma névoa, a silhueta de Pietro. Num grito, quase um soluço, Eleonor se virou. Nada, apenas sua imaginação; delírios causados pela falta de sono. Pietro já havia partido quando Eleonor deixou o quarto; na mesinha de centro, um bilhete. Obrigado pelo teto. Vemo-nos em breve. Aliviada, Eleonor tratou de ligar para Marieta, mas quem atendeu não foi ela; a voz era de alguém mais nova: — Eu gostaria de falar com Marieta. Aqui é a Eleonor. — Ai, Eleonor, mamãe faleceu ontem à noite. — Meu Deus, Renata, o que aconteceu? — Ainda não sabemos... Eu a encontrei na cama. Gostaria de dizer que teve uma morte tranquila, mas o rosto dela... Era como se estivesse com medo. Dizem que pode ter sido um ataque do coração. A funerária acabou de levá-la. Eleonor chorava. Se soubesse que nunca mais

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veria a melhor amiga, não teria lhe dado apenas um abraço; ela lhe beijaria a face e agradeceria todos estes anos de companheirismo. Devia fazer uma última visita a ela, a sós. Foi até o necrotério. No semblante, aquelas mesmas feições descritas pela filha como sendo medo. O que Marieta tinha a temer? Ou era apenas um ataque cardíaco mesmo? Com o pretexto de apanhar as roupas para o velório, Eleonor obteve permissão de Renata para entrar na casa da morta. Logo que abriu a porta, encontrou pegadas de lama, que desapareciam após poucos passos. Porém, ao contrário do esperado, havia pegadas de quatro pés, dois possivelmente de Marieta, dois, bem maiores, dum homem. Alguém havia estado com Marieta, naquela mesma noite chuvosa. As pegadas pequenas desapareciam antes; as grandes, seguiam até perto do sofá. Eleonor as acompanhou, então, avistou, sob uma poltrona, apenas a pontinha duma folha de papel. Ela se abaixou e a puxou para fora. Era uma folha velha de papel, amarelecida, escrita com letra pequena e apressada, exatamente igual às folhas do caderno de Pietro, exatamente como a caligrafia

dele. Eleonor leu o que estava escrito:

Capítulo 47
Marieta não percebeu que alguém a havia seguido. Por razões muito importantes, queria-a morta; ela poderia ser um entrave na missão dele; poderia pôr tudo a perder. Desesperada, com a certeza de que a morte de Marieta não havia sido natural, Eleonor correu para a delegacia mais perto. Os policiais riram da hipótese dela, leram o pedaço de papel, especularam que poderia ser uma coincidência mórbida, mas, sob insistente pedido de Eleonor, aceitaram fazer uma busca da ficha criminal de Pietro della Fontana. Nada, mas um escrivão ouviu o nome e comentou: — Pietro della Fontana? Este cara deve estar usando um nome falso! — Por quê? — o outro policial perguntou. — Este é o nome dum famoso escritor italiano. Minha esposa está fazendo uma dissertação de mestrado sobre a obra dele. Morreu há uns oitenta anos, acho. A constatação foi dura para Eleonor. Ela não tinha o nome verdadeiro do criminoso, o telefone que

ele havia dado a ela estava fora de área, a polícia nem acreditava no que ela dizia. Deixou a delegacia com a sensação de impunidade, de que não conseguiria justiçar a morte da amiga. Na saída, porém, se deparou com o escrivão, cuja mulher conhecia a obra de della Fontana. Suplicou-lhe ajuda, entregou-lhe seu endereço e lhe pediu que solicitasse à esposa que mandasse para ela algumas informações sobre Pietro. Marieta foi velada e sepultada. De luto, olhos inchados de tanto chorar, Eleonor, ao chegar em casa, apanhou a correspondência. Havia um gordo envelope. Nele, um maço de documentos sobre Pietro della Fontana. Fotos, facsímiles de manuscritos, biografia, bibliografia. Tudo, desde a foto até a caligrafia, o Pietro, escrito italiano, morto em 1926, mestre do gênero fantástico e de terror, se assemelhava ao Pietro, ghostwriter. Eleonor se trancou no quarto, e leu linha por linha o material que tinha em mãos. Descobriu que Pietro havia se mudado da Itália para esta cidade, e a casa na qual faleceu ficava a poucas quadras da casa de Eleonor. Seu Pietro, o ghoswriter, era um rapaz muito esperto, estava tentando assustá-la, que-

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rendo se passar por um escritor morto, mas com qual intenção? Com qual propósito? Ela adormeceu sobre os papéis, exausta pelas noites insones e pela vigília ao corpo da amiga. Mas despertou, calafrios na espinha e ouvindo alguém respirando, bem pertinho de seu ouvido. — Você me chamou, Eleonor.... Eu vim. Instintivamente, relembrando seus tempos de meninice, quando ela e a irmã rezavam juntas um Pai-Nosso, quando tinham medo de que o Saci viesse, durante os verões no sítio, Eleonor começou a rezar. — Ainda falta um último capítulo, Eleonor. Depois, vou embora. Sim, o último capítulo era sobre ela. Os vizinhos reclamavam dum tremendo mal-cheiro. Ligaram para as autoridades e descobriram que vinha da casa de Eleonor. O corpo se decompunha há mais de um mês. Excetuando a filha doutora, que não dava a mínima importância para a mãe, ela não tinha parentes vivos, mais nenhum amigo próximo, ninguém havia dado falta por ela. Foi encontrada na cama, rosto contorcido, como quem sofreu muito. Ataque do coração, disseram. Sobre a mesa de jantar,

um manuscrito, letra pequena e apressada, autoria de Pietro della Fontana. O investigador, que coincidentemente havia sido o mesmo a quem Eleonor havia recorrido, um mês atrás, resolveu dedicar alguma atenção ao caso. Descobriu que Eleonor havia comprado este manuscrito num antiquário do centro, pela bagatela de cem reais. Provavelmente, não conhecia o autor, mas deve ter se impressionado pela antiguidade do documento e, talvez, pelo valor histórico. A escrita de Pietro era poderosa e, possivelmente impressionada pela narrativa de terror, deve ter tido alucinações; acreditado ter visto o autor, ter falado com ele, ter pedido a ele que escrevesse sua autobiografia. A obra adquirida por ela era desconhecida dos pesquisadores, muitos reputaram-na como apócrifa, mas foi incluída, posteriormente, no corpus do autor como obra póstuma. O que o investigador jamais compreendeu, nem queimou os neurônios tentando compreender, foi a coincidência de nomes entre os personagens do livro com as pessoas da vida real — Eleonor, Marieta, o próprio Pietro —, mas, às vezes, a arte imita a vida, noutras, a vida imita a arte, concluiu.

Um detetive...
Uma loira gostosa...

Um assassinato...
E o pau comendo entre as máfias italiana e chinesa.

O COvil dos inOCentes
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Contos

um quase normal
Ju Blasina

Rabiscos de

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Hoje não acordei. Não acordei, pois só acorda quem dorme. Permaneci em meu estado de semiconsciência, instável, mutável, ora letárgico - quem dera lisérgico com picos de excitação. Num limiar que vai do desespero latente ao vazio hiperativo. Fui ao banheiro e quando lá cheguei me deparei com um sujeito que não conheço. Nunca o vi mais magro. Sujeito estranho, espiava-me através de uma janela imitando meus gestos e caretas. Era bem feio o coitado, mas quando sorri, ele sorriu de volta, respondeu ao meu aceno, logo simpatizei! Prometi voltar mais vezes, apesar de já não lembrar o que tinha me levado àquele lugar... Fazer amigos, talvez? Bem possível! Despedi-me do distinto cidadão da janela e segui o meu rumo, andando com a segurança de quem sabe aonde quer chegar – eu sempre fui um bom ator! Até que um cheiro muitíssimo agradável cruzou o meu caminho e como um gancho içoume pelas narinas à cozinha. Lá haviam ainda mais cheiros e vapores. Sons de “tss”, “blub “crash” ”,

– ops, este fui eu esbarrando num prato, sempre desajeitado! Aquele lugar remetia-me a uma sinfonia da infância... E de repente, sem perceber entrei no ritmo fazendo um “rounc” com minhas entranhas adestradas. Sentei-me para o banquete, onde mastiguei coisas enganosas: caras bonitas e gostos estranhos. Não, não comi gente! Já não o faço desde... Que falta faz um calendário! Ah, sim: desde que notei o quanto os dedos mindinhos fazem falta. Acabei a refeição os guardanapos estavam ótimos! Adoro quando são coloridos, me deixam alegre por dentro. Não sei que lugar é este ou o que me trouxe pra cá, mas sei que aqui sou muito importante! Todos comem e dormem ao meu redor. Muitos até se vestem iguais a mim e imitam o meu caminhar – sempre fui um criador de tendências e adoro tender a mim mesmo. Só não recordo o título que ostento - serei eu algum tipo de rei? Uma divindade, talvez? Realmente não lembro... Muitos preferem me adjetivar, ressaltando minhas qualidades ao chamar-me de “pacien-

te”- tão gentil da parte deles! - confesso que preferiria algo como “garboso” ou “genial”, mas... O restante do dia pulou “de dois em dois”. Nunca aconteceu com você? Ah, comigo é algo frequente, mal pisco e o dia acabou! Não fiz muitas coisas, mas é preciso levar em consideração o quão difícil é agir quando você ocupa o corpo de outrem. Às vezes os membros simplesmente não obedecem. E com a noite o dono sempre vem reclamando o patrimônio – mais uma luta árdua: Fui, voltei. Mundo perto, mundo longe. Perto e longe, perto e longe – um grito mais alto, um pouco de violência e... Pronto! “Esta casa ainda é minha! Enfie sua ordem de despejo no rabo – de outro – porque o este agora me pertence! Haha” Exausto, mas satisfeito, mastigo algumas coisas desprovidas de forma ou sabor e me deito. Fecho os olhos, recebo as gotas milagrosas que me abastecem de vida e finjo novamente dormir – até ronco! – afinal: eu sempre fui um bom ator.

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Contos

da felicidade

as engrenagens

Léo Borges

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O cardiologista de Heitor disse que ele precisava correr pelo menos duas vezes na semana para baixar suas taxas de triglicerídeos e, assim, ter uma vida mais longa. Deveria ficar longe das gorduras saturadas, das novas e ameaçadoras gorduras trans, dos condimentos, das frituras, massas, doces e alimentos industrializados. Heitor sabia que aquele era um bom médico e suas palavras passavam segurança quando afirmavam que “a longevidade é reservada a quem pratica esportes e se alimenta bem”. Segundo o doutor, “as engrenagens da felicidade estão montadas sobre a boa saúde”. Tendo seu norte nas palavras de um profissional da medicina, que preconiza como as pessoas devem se comportar para terem uma vida feliz, Heitor viu que era hora de dar um basta no sedentarismo. Então, nem a ameaça de chuva daquela noite dissuadiu sua vontade de iniciar um exercício leve no calçadão da praia. Calçou o tênis, entrou no carro e foi para a praia correr, criar o hábito que, segundo o cardiologista, mantê-loia vivo por mais tempo. Procurava contar com a ajuda do estimulante aparelhinho MP3 que, nesta ocasião, apresentava
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o Lulu Santos dizendo, colado ao seu tímpano, que via um novo começo de era. Assim como acreditava no médico, Heitor também nunca desconfiou que o Lulu pudesse estar mentindo, apesar de saber que artistas, muitas vezes, se enganam, ou, até de propósito, enganam os outros, quase sempre com a melhor das intenções, como a de agora, em que o cantor tinha a missão de vivificar um preguiçoso. Um atraente outdoor na avenida principal era imperativo na promoção do carro sofisticado: “Seja feliz hoje!”. Hoje, obviamente, já estava tarde para ser, mas Heitor vinha juntando uma grana fazia algum tempo para comprar aquela máquina de design arrojado. Faria parte da tal engrenagem da felicidade ter um carro como o do anúncio? Heitor sabia que sim. A mensagem era clara: não devemos deixar aquisições que nos farão felizes para amanhã, principalmente se você for um sedentário, pois pode acabar morrendo com uma veia entupida e vai perder a oportunidade de dirigir um belo veículo. Bom, Heitor estava ali, fazendo a parte dele, fazendo as coisas que lhe mandavam para criar sua poupança de dias, semanas, anos, e, assim, poder

desfrutar por mais tempo do conforto que o dinheiro, quando existisse, proporcionaria. A garoa se confirmou e os primeiros pingos surgiram no pára-brisa. Mas, Heitor estava determinado a iniciar sua jornada atlética sob qualquer clima. No sinal do último cruzamento para a praia uma pedinte veio intimidar seus felizes pensamentos batendo com os nós dos dedos no vidro lateral. “Um trocado pelo amor do bom Deus...”. As gotas deixavam turva a imagem da mulher, como se ela estivesse desmanchando juntamente com a chuva. Era uma mendiga com um pano roto amarrado à cabeça que, não obstante não livrá-la de ter os cabelos molhados, ainda lhe conferia uma aparência melancólica. Ela não tinha um headphone onde pudesse ouvir o Lulu prevendo um futuro com gente fina elegante e sincera e não parecia estar disposta a dar uma corridinha para entrar em forma. “Estou sem comer desde ontem”. Também teria ela de se alimentar com saladas e sucos diet conforme determinava o senso saudável? Sim, com certeza, pensou Heitor. Entretanto, logo após abaixar o vidro e dar algumas moedas, ele ponderou sobre a vida

e as misteriosas taxas glicêmicas daquela mulher e, com algum constrangimento, concluiu que ela poderia ter uma licença para ficar de fora do rol dos que consomem uma alimentação balanceada, dita ideal. O calçadão da praia estava deserto. Um vento frio procurava inibir a intenção atlética do exsedentário Heitor. Corpos inertes refugiados em seus apartamentos apreciavam as televisões aparentemente sintonizadas em um mesmo canal. Um aposento destoante no cenário concentrava um grupo de amigos festejando algo. No poste adjacente, um cartaz atraiu a atenção de Heitor. Mostrava a foto de um garoto de seus vinte anos, sorriso estático e olhar pacífico. Fazia um sinal positivo com a mão. Letras negras e grandes apareciam sobre a foto revelando seu nome: “Marcelo Zanetti”. Abaixo, um pequeno texto dizia: “O homicídio não pode ser banalizado! Amanhã poderá ser seu filho. Confiamos na Justiça”. Triste era perceber que mesmo com uma alimentação adequada, Marcelo não garantiu sua longevidade. Aquele rapaz engrossava as estatísticas de assassinatos na cidade e a família agora parecia querer incomodar os

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atletas da orla, longevos ou não, com o assunto. E o objetivo estava sendo alcançado. Pelo menos com Heitor, que para não ficar impressionado, desviou novamente os olhos para os prédios e casas ao redor. Notou que o carro de seus sonhos, o mesmo do outdoor, passava agora pela televisão de um porteiro do edifício de bela fachada. E a festa solitária continuava rolando no apartamento, com animadas pessoas emitindo o ruído característico de ambientes felizes. Desta vez com o Tim Maia pedindo um motivo para ir embora. Marcelo não precisou de nenhum, foi embora sem motivo mesmo. Heitor mexeu no relógio para acertar o cronômetro. Respirou fundo e tentou criar boas vibrações na mente para a corrida fluir numa boa. No calçadão não havia ninguém além dele e de um cachorro revirando o lixo junto ao poste do cartaz que se descolava com a chuva. Para viver muito você tem que priorizar o lado bom da vida, tem que buscar ser

feliz de todo jeito. Esse era o ditado de Soraia, uma vizinha com quem Heitor chegou a trocar olhares mais demorados numa determinada época de sua vida, mas que, por causa da timidez de ambos, nunca chegou a namorar. Ela morreu atropelada numa noite de garoa como aquela, num acidente em que um carro invadiu a calçada e o motorista não parou para socorrê-la. Certamente quem o dirigia não o fazia dentro daquele possante de 16 válvulas da propaganda. Pessoas daquela estirpe costumam ser solidárias, têm classe, entendem o sofrimento alheio, pensou Heitor. Sendo o condutor de um carro como aquele uma pessoa feliz, por que não iria ajudar alguém a quem causou tamanha dor? Não fazia nenhum sentido. Mesmo assim, apesar da indelével felicidade de Soraia ter sido ceifada de modo brutal, essa mulher viveu o suficiente para acreditar no que pregava, no sorriso que cedia às pessoas e na crença em um mundo sem injustiças.

Heitor iniciou uma corrida nervosa, como se quisesse fugir dos fantasmas de todas aquelas tragédias e fixar os pensamentos apenas nas mensagens de alegria que a vizinha deixara. Quanto mais o rapaz corria, mais o som alto do apartamento festivo perdia a briga com o do seu MP3, que agora passava a tocar um rock americano pesado, impossível de se entender a letra. Pode ser que a luta por mais tempo no mundo, a alimentação saudável, o prazer instantâneo e a busca pelo conforto imediato é que movam a humanidade e se mostre como o combustível para a longevidade. Talvez seja este o motivo da vida: tentar conquistar algo que nos mostre as reais engrenagens da felicidade. Porém, naquela noite chuvosa, parecida com a da morte de Soraia, o olhar congelado e sem vida de Marcelo estava incomodando bastante Heitor.

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Contos

Ciúme

Marcia Szajnbok

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à memória de Edgar Allan Poe A noite estava muito fria. A chuva era forte e os trovões estremeciam todos os vidros. O vento enchia o ar de sons que pareciam vir de outro mundo. Na cama, encolhido, o pequeno puxava as cobertas para cima da cabeça e apertava os olhos. Não queria ouvir, não queria ver nada, tremia. Tremia de frio e de medo. Há tempos era assim. No momento exato em que a luz se apagava, e o corpinho cansado das estripulias diurnas perscrutava o leito à busca do nicho ideal para acalentar-se em sono, o horror começava. Eram arrepios, sensações de que vaga mão lhe percorria o cabelo, o rosto. Por vezes, sentia um beijo. Abria os olhos, já tendo como vã a esperança de lá encontrar a tia e, de fato, não via ninguém. Noutras noites, já no umbral do adormecer, sobressaltava-se com a impressão de que lhe sussurravam o nome ao ouvido, um chamado longínquo e saudoso, que sempre o deixava com os cabelos em pé. Havia ainda as formas. Não era possível descrevê-las de outro modo, eram assim, apenas formas esgazeadas, quase transparentes, brancas ou um pouco azuladas, que atravessavam o quarto quase junto ao teto, ou pairavam sobre a cama como que esperando o melhor momento para lhe invadir os sonhos. O garoto despertava, então, num grito de pavor que acordava toda a casa. Os tios vinham, algumas vezes com paciência para acalmá-lo, outras nem tanto. Já

havia tentado lhes explicar várias vezes o que sucedia nas madrugadas, mas não acreditavam. Ofereceramlhe chás de vários sabores, tintura de maracujá, melissa. Até mesmo uma colherada de conhaque no copo de leite quente, o tio havia tentado para prevenir o mau sono. Nada havia funcionado. Chamaram um padre. Os santinhos enfileirados no criado-mudo haviam de velar seu sono, trazer tranquilidade às noites infantis. Foi nessa época que aprendeu o pai-nosso e, durante algumas semanas, rezava baixinho, horas a fio, no escuro. Inútil providência. Por fim, tiraram do quarto as imagens, pois aqueles olhos imóveis, arregalados no gesso, tinham se transformado em mais uma fonte de pavor para o menino. Uma das cozinheiras da casa, uma negra sexagenária de carnes fartas, se propôs a passar as noites com ele. Suas rezas eram outras, ditas numa língua estranha que o garoto não compreendia. Encheu o quarto de ervas, jogou no ar umas águas perfumadas misturadas aos cantos vindos da África. Em vão. Assim, iam-se os dias. Noites mal-dormidas, pesadelos, assombrações. Semanas de angústia, meses de terror. Passados alguns anos, o menino já púbere deixou de reclamar e de gritar. Os tios sossegaram: acabou-se, nada além de temores de criança. Ledo engano. A diferença estava apenas na reação provocada pelas noites espectrais. Na infância, inseguro e frágil, o menino se desesperara. Agora, jovem introspectivo, tímido e um tanto solitário, tinha cria-

do uma espécie de apego à figura alucinada. Já não temia. Pelo contrário, esperava-a. Sim, ela. Agora, depois de todos esses anos de convivência, tinha certeza que se tratava de um espectro de mulher. Seu toque era suave, embalava-o em cafunés e sussurros, envolvia-o no calor da transparência azulada onde, aqui e ali, o jovem antevia uma forma arredondada, um seio talvez, ou um pedaço de anca feminina. Garoto ainda imberbe, magro demais para seus um metro e noventa e oito de altura, a pele excessivamente branca e cheia de espinhas, não agradava muito às meninas da escola. Também não tinha muito em comum com os outros garotos. Jogava mal bola, quase não tinha músculos, vexava-se diante das brincadeiras maliciosas. Todos riam dele, de sua aparência incomum, de sua timidez que o fazia corar ou gaguejar sempre que era alvo dos olhares. Cada vez mais distante dos colegas e das moças de carne e osso ia, por outro lado, mais e mais se aproximando da fantasmagórica acompanhante noturna. Muitas vezes assustava-se quando algum professor o chamava em voz mais alta – “preste atenção na aula, está sonhando?” Sim, sonhava. Devaneava horas a fio, imaginando possíveis contornos para seu rosto, a cor dos seus cabelos, seu nome... Quem seria ela, afinal? Houve a fase da pesquisa. Passou dias inteiros nas bibliotecas públicas, mergulhado em livros e jornais antigos que traziam a história da cidade. Esperava encontrar alguma

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tragédia, um assassinato, um drama familiar. Talvez uma linda jovem que, diante de um amor proibido, houvesse posto fim à vida bem ali, onde hoje era o seu quarto. Pesquisou, leu, investigou, mas não havia tal personagem. Onde foi construída a casa dos tios, em tempos idos não havia nada, apenas um terreno vazio. A frustração dessa fantasia, entretanto, não diminuiu sua curiosidade nem seu apego, antes até os fomentou. O jantar era servido sempre por volta das oito e meia. Um pouco de conversa, notícias do dia, novidades da escola, amenidades feitas para facilitar a digestão. Ansioso, o rapazinho checava repetidamente o relógio à espera da permissão tácita para se retirar. Subia ao quarto cada vez mais cedo. Decerto iria estudar, pensavam os tios, equivocados. Expectante da noturna visita, punha-se logo entre os lençóis, vedava todas as luzes e esperava. Fiel e constante, ela sempre vinha. O garoto fechava os olhos e imaginava-se a conversar com ela, a contar-lhe sua vida, seus segredos. Compreensiva, ela respondia com seu toque imaterial, com carinhos sutis que mal roçavam a pele. Por vezes, emocionado, sentia um fio de lágrima escorrerlhe. Ela, então, muito doce, secava seu rosto com um beijo delicado. E assim, noite após noite, cada vez mais o jovem abria seu íntimo à mulher fantasma que lhe acompanhava as noites desde a mais tenra infância. Essa companhia, agora,

trazia efeitos que se faziam visíveis no jovem. Pouco a pouco, deixava para trás os traços de menino mal púbere, ganhava ares de homem feito. Ganhara barba, os braços e o tórax se tornavam repentinamente fortes, todo ele adquirira um aspecto másculo. A tia estranhava. O tio, com uma piscadela cúmplice, sugeria – “arrumou aí uma namorada, hein?” O moço disfarçava e nada respondia. Na escola também a mudança se fizera notar. Já não zombavam, e a possível paixão secreta do rapaz era assunto das rodinhas femininas. Divertido com o mistério, ele apenas sorria, maroto, deixando que a dúvida crescesse. Os problemas começaram à época do baile de formatura. Era preciso escolher uma das mocinhas da classe para ser seu par. Há dois anos, teria sobrado. Hoje, era alvo de disputa, e logo lhe definiram como parceira de valsa a mais bonita da sala. Gozava intimamente da sua vitória quando sentiu pela primeira vez a dor. Como um aperto no alto da cabeça, teve a sensação de que o crânio estava prestes a ser esmagado. Sem poder se controlar, soltou um grito. Todos se viraram para ele, e foi novamente tomado pelo antigo rubor, afastando-se logo daquela cena pública. No caminho para casa, tinha sensações desagradáveis, arrepios, náuseas. Uma espécie de febre e torpor lhe borravam a visão e um ruído áspero parecia vir de dentro da cabeça para os ouvidos. Suando frio e tremendo, correu logo para o quarto. Bastou que se jogasse sobre a cama para que todo o mal estar desaparecesse. Logo cessa-

ram as palpitações, sentia todos os músculos do corpo relaxados, o tumulto que lhe preenchera a mente sossegava. Dormiu serenamente naquela noite e acordou refeito. A calmaria, entretanto, não durou muito. Novas crises semelhantes se repetiram. Em geral, acometiam-no quando estava na escola, sobretudo nos ensaios para o baile. Sempre que tomava a mão da parceira de valsa, a dor recomeçava. Um dos colegas percebeu sua expressão constrita e, cruelmente, disparou – “ah, bem sabia que no fundo, no fundo, seu problema era medo de mulher!” Pronto, já se tornara novamente alvo da zombaria. Tentava se controlar, disfarçar, mas ficava cada vez mais difícil. À medida que a festa se aproximava, as crises vinham mais frequentes e mais intensas. Preocupados, os tios chamaram um médico. Depois de muito examinar e conversar, o veredicto: o rapaz não tinha nada. Provavelmente estava apenas ansioso pela festa, emocionado por ter que se apresentar em público dançando com uma jovem tão cobiçada. Coisas da idade. Talvez fosse bom fazer uns exercícios, praticar alguma luta marcial... Mas ele bem conhecia o remédio para seu mal: ir para casa, fechar-se no quarto, apagar as luzes. Era mágico. Assim que se deitava, ela vinha, a fantasmagórica namorada. Na verdade, nas últimas semanas algo havia mudado nessas visitas. Transformada em amante espectral, seus carinhos já não se limitavam aos toques sutis e aos beijos delicados. Nos últimos tempos, sentia que

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O lugar onde
todo seu corpo era envolvido por aquele ectoplasma azulado, e que uma sensualidade insuspeita o invadia. Os beijos vinham agora misturados a mordidas, e por vezes parecia que a língua lhe seria arrancada da boca, tal a ferocidade da carícia. Tomado por aquele transbordamento erótico, todo seu corpo se crispava, sacudido até ao gozo e, ao invés de sussurros, o que lhe vinham ao ouvido eram gemidos de uma mulher enlouquecida de luxúria. Algo nela voltara a lhe dar medo. Mas, muito diferente dos tempos de menino, o medo atual também exercia alguma sedução. Quanto mais a tinha, mais a temia; mas, quanto mais temor, mais a queria. Assim terminava-se o ano letivo. Finalmente, chegou o dia do baile. Vestindo pela primeira vez um smoking, toda a família presente, lá estava o rapaz, muito compenetrado de seu papel ao lado da jovenzinha com quem ia dançar a valsa. Já se ouviam os primeiros acordes e os pares já se dispunham no centro do salão, quando aconteceu. No mesmo instante, todas as luzes começaram a piscar. Os lustres imensos balançavam, estilhaçando pouco a pouco os cristais de que eram feitos. As janelas, os espelhos, os copos, tudo o que era vítreo naquele ambiente, se partia e os cacos enlouquecidos voavam para todo lado. Todos gritavam, as moças corriam. Em meio àquela histeria, nem todos puderam notar que uma única jovem fora atingida pelos estilhaços. Sua parceira de valsa estava caída, no meio do salão, o corpo cravado de pedaços de vidro, o rosto disforme, o vestido todo manchado de sangue, os olhos esbugalhados em expressão de pavor. Um vento gelado cortava agora o salão, batendo portas, derrubando mesas e cadeiras. Aos gritos, os convidados procuravam as saídas. Em meio ao turbilhão, o rapaz sentiuse subitamente jogado ao chão. Teve certeza da presença inesperada: era ela que, em público, em meio ao caos que havia provocado, o queria. Quis resistir, em vão tentou se levantar. Com mais força e desejo do que nunca, ela o possuiu, ali mesmo, no chão, diante do olhar aparvalhado dos que ainda não tinham conseguido deixar o local. Ninguém a podia ver, mas ouviamlhe os gemidos cada vez mais altos, e a voz rouca que, mesclada ao assobio do vento, parecia repetir: – “meu, meu, só meu...” Toda a cena não durou mais que alguns minutos. De súbito, tudo se aquietou. No lugar da ventania, vinha agora uma brisa leve que atravessava a sala deixando em seu rastro um vago perfume de rosas. O socorro médico foi chamado, mas já era tarde demais para a pobre moça que jazia em meio à poça de seu próprio sangue. E, para aumentar ainda mais a perplexidade geral, notaram que num canto do salão estava largado um smoking, como se alguém tivesse se despido e esquecido ali as roupas. Os tios o reconheceram como sendo a vestimenta do sobrinho. Ele, no entanto, nunca mais foi visto.

a boa Literatura
é fabricada

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Contos

Barbara Duffles

A caligrafia
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Aconteceu num inverno qualquer da primeira década de 2000. Veio de repente no meio da penumbra, jogou-me contra a parede e perfurou minha alma com seus olhos distantes. Olhos de passado, de quem já foi e não estava mais ali. Parecia que o conhecia, mas forcei a memória e não encontrei nada parecido com ele. Tirou uma carta amassada do bolso, esfregou-a na minha cara. Sua expressão era de dor e pavor, ele tinha medo de mim, e ao mesmo tempo uma raiva contida prestes a explodir. “Quem é você?”, perguntei, mas ele disse que não tinha muito tempo. “Assim que eu sair, você lê”. A carta pressionada contra meu corpo, as lágrimas dele começando a rolar. “Quem é você?”, eu perguntava, tentando encontrar a resposta naqueles olhos familiares, malditos olhos, de onde vem? Ele me abraçou forte, aconchegou-se em meu colo como se sempre o tivesse feito, e esse ato me pareceu corriqueiro como acordar todos os dias e escovar os dentes. Num rompante ele se

separou de mim, saiu de repente como havia chegado e desapareceu na penumbra. Na mesma hora abri o envelope amassado, era uma carta velha, mas estranhamente datava de 2032. Era de despedida, e dizia “Meus filhos, não me vejo mais neste mundo. Perdoem-me”. A caligrafia suicida era conhecida, as letras, apesar de tremidas, eram familiares. Fiquei completamente sem ar. Afinal, eu conhecia muito bem a pessoa que escreveu a carta... Era eu mesma. Alguns anos depois do dia em que ele me perfurou com seus olhos de passado, tenho-o novamente em meus braços. É um bebê, recostado em meu colo, olhando-me com olhos familiares. Entendi que não eram olhos de passado, eram olhos de futuro, de quem seria e ainda não estava lá. Mas, ainda assim, na penumbra, ele me salvou de mim mesma. **** Textos publicados no blog Não Clique

A GUI

Henry Alfred Bugalho

Nova York
para Mãos-de-VAca
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O Guia do Viajante Inteligente

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Contos

o admirador
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Maristela Scheuer Deves

Final: o Enterro

Chegou ao cemitério às 17 h em ponto, e estranhou que não houvesse ninguém lá para o seu enterro. Mesmo assim, caminhou entre os túmulos – que mais pareciam um labirinto – tentando decidir o que fazer. Que local teria ele escolhido para sua cova, perguntouse, relanceando um olhar ao redor e ainda estranhando a ausência de parentes e amigos. “Apareça”, chamou em voz alta, “eu sei que você está aí”. Com um sorriso maquiavélico e um olhar zombeteiro, ele finalmente surgiu no corredor entre as sepulturas, alguns metros adiante. “Bem-vinda, que bom que você veio ao nosso encontro”, saudou, num arremedo de cumprimento. Sem responder, ela ficou a olhá-lo, observando cada detalhe. Assim, sem o uniforme, até que ele não era feio, forçou-se a admitir, apesar da crescente aversão. “Então, era você mesmo”, disse simplesmente, sem nenhuma emoção.

Ele sorriu novamente. “Demorou a descobrir, heim? Mas, também, quem sou eu para você reparar em mim – seja como homem ou como suspeito? Simplesmente o novo porteiro, aquele que lhe abria a porta do prédio, entregava a correspondência, às vezes ajudava com as compras... Achei que as coisas iam mudar com as flores, mas você continuou a sair com aquele seu namoradinho sem sal! E eu tendo de avisar-lhe toda vez que ele chegava, tendo de ser educado com ele...” Ela tentou falar, replicar sobre o absurdo disso tudo, mas ele ergueu a mão, interrompendo-a. “Eu jurei que você seria minha, e que, se não fosse, não seria de mais ninguém.” Desnorteada, sentindo-se impotente perante a loucura do que ele dizia, sentiu toda a raiva e a coragem anterior abandonando-a. Enquanto lágrimas começavam a vir-lhe aos olhos, deu as costas ao seu tétrico admirador e começou

a se afastar em direção à saída do cemitério. Queria ir embora, e só. E foi seu erro. Mal sentiu quando algo pesado caiu com força sobre sua cabeça, enquanto ouvia-o dizer: “Você acha que eu seria tolo de marcar com você no horário exato? Alterei a hora no jornal que deixei sob a sua porta, os outros só chegam para o enterro daqui a uma meia hora...” Depois, não ouviu nem sentiu mais nada. Se não estivesse desacordada e sedada dentro do caixão que desceu à sepultura às 18 h., veria o quanto era querida: enquanto o padre rezava e dizia palavras de consolo, amigos, parentes, colegas de trabalho, namorado, ex-namorado, vizinhos e até mesmo o porteiro do prédio choravam a sua morte.

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Contos

as doze badaladas
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a menina e

Giselle Sato

doze badaladas
Foram doze badaladas, o som repercutiu através dos salões imensos e vazios. Quem ousaria enfrentar o medo e espiar, ainda que pela fresta da fechadura, a quem pertenciam os passos cadenciados. Um... dois...três... Uma lufada de vento forte, arrancou as cortinas diáfanas e a lua penetrou toda senhora de si o aposento sombrio. Iluminando e evidenciando os cantos escuros. A última esperança era o círculo de luz, no chão do quarto de brinquedos. Ainda podiam tentar... Mas quem iria se arriscar? Espreitando na escuridão eles aguardavam. O que antes era motivo de alegria, agora só trazia pânico e horror. Bonecas rotas e caolhas pareciam acompanhar seus movimentos, bailarinas tortas pendiam pelas prateleiras, caixas de lembranças em papel desbotado. Caixas de brinquedos, papéis e giz de cera espalhados pelo chão. Houve uma vez uma menina que só queria ser feliz. Ela cresceu em uma casa linda, com pais que se

amavam muito, tanto que não tinham tempo para mais nada além de si. Restavam os jardins com muitas flores e balanços, empregadas e babás. Correndo pelas alamedas ela sonhava que era uma fada e pintava as mais lindas cores. Cantava e bailava e assim eram os dias de sol. Dias de luz. Algumas vezes a doçura perdia o encanto. Prendendo laços negros nas pontas das longas tranças, ela transformava-se na bruxa má e desejava afogar todos no grande lago. Todos sem exceção, mesmo os que deveria obedecer e respeitar. Nestes dias em que o céu tingia as nuvens em chumbo de puro rancor... Ela partia-se em mil pedaços e não sabia o que era ou o que fazia. Destruía o que atravessasse seu caminho, maltratava os bichos e as pessoas tinham verdadeiro pavor. Quando tudo se acalmava ela repetia baixinho: Não estou sozinha. Foi ela quem fez estas coisas ruins. Somos duas irmãs em almas costuradas a ferro e brasa. Talvez seja um castigo... Talvez... Mas não estou sozinha. Ela está comigo.

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Como a canção de ninar jamais entoada. Ela ou elas adormeciam. Almas siamesas tão diversas, brincavam por trás do espelho do salão de chá. Esgueirando sob tapetes vivia o tormento, oculto sob camadas de espessa lã e tramas bem amarradas. Prisioneiros e cúmplices aguardando o momento propício da salvação, eles se apegaram. Agora eram três. Algumas vezes deitada em frente à lareira, ouvia histórias de um tempo em que não havia nada. O vazio e o inexplicável caminharam juntos e criaram vida. Foi assim que ela iniciou seu aprendizado com o mestre dos sonhos. Ele repetia cada lição, dia após dia... Incansável em sua doutrina. E todo ensinamento tem um custo muito alto. Talvez insuportável ou além dos limites. Certo dia os pais perceberam, que não tinham uma criança que se contentava com doces e afagos. Era uma aberração que precisavam destruir o quanto antes, temiam o dedo acusador e os risos de escárnio. A menina encarou os pais: dentro

dos olhos da família feliz, viu medo e ódio. O cutelo firme destruiu cada pedacinho daquelas vidas.

final veio arrebatada de um contentamento indescritível. Abriu os braços e foi recebida pela Mãe. A lua negra ofertou o fio condutor. Formando um ponto único nas trevas. Surgiu uma centelha criada pelo medo Partiu-se em duas fagulhas ínfimas. Tênues e pálidas... Mas vívidas! A Morte soprou e deu vida ao que seria sua criação derradeira. Partiu gloriosa do seu feito, mais uma vez havia triunfado. Os seres divinos sempre apostavam e perdiam. Ninguém conhecia mais o homem... Tão temida e odiada... Para ela não havia segredo, perdão, compaixão ou misericórdia. Apenas justiça. O pequeno milagre acontecia e todos os seres observavam em silêncio. Das duas forças abriuse um vórtice e de lá surgiram sete mistérios. Eles iriam engolir o mundo, tomar o fel da taça e trazer a ruína à humanidade torpe.

-- a décima terceira hora --Urros animalescos, sons guturais, gritos agudos e graves. Ópera dos desalmados, incompreendidos e fracassados. Música. O cheiro acre crescia e os animais rondavam a fazenda. Todas as portas e janelas foram abertas. Era o convite final! Que viessem e compartilhassem o banquete... A menina percorreu cada cômodo e fingiu não perceber os poucos sobreviventes. O ar gelado da noite envolveu o ambiente. Eles chegaram aos poucos, vinham deslizando pelo caminho da escuridão, ainda temiam o casulo, mas sabiam que precisavam obedecer. Finalmente a menina deixou-se levar pelo destino, sentiu quando partes de seu corpo foram arrancadas e engolidas às pressas. Precisava ser devorada e destruída, era parte do todo e ela agora compreendia. A agonia

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autor Convidado

o escritor
Afrânio resolveu escrever um livro. Achava que estava na hora. Só não decidiu fazer isso antes, porque era perseguido pela mais absoluta das certezas de que nenhum editor iria dar importância ao seu texto, nenhum livreiro iria colocar seu livro na vitrine, a noite de autógrafos seria um fiasco, nenhum leitor iria comprar seus escritos. E todos os críticos iriam condená-lo a um vexame público e notório. Mas dessa vez estava firme. Ouviu dizer que para um escritor bastava um cotoco de lápis e um papel de pão. O assunto viria no decorrer do pensar e as histórias, as personagens, as situações brotariam por si só. Bastava apenas um leve empurrãozinho do tal cotoco. Foi assim mesmo que se Muito bem, vamos lá. Era uma vez. Ok. Era uma vez o quê? Era uma vez... era uma vez o quê, onde, quando, como e por quê? Afrânio franziu as sobrancelhas diante daquele monstruoso papel em branco. Tentou mais uma vez e não saiu nada. Não era uma vez. Procurou outro caminho. Mordidas de lábios, ar de quem tinha caído nas armadilhas da inspiração. Gabriel Garcia Márquez também deve ter lá seus dias absolutamente inócuos. Inócuos. Bela palavra. Que tal começar assim? Toca o telefone. - Alô. - Afrânio, sou eu. - Oi, que voz é essa? - Uma notícia chata: tio Miguel morreu. - O quê? - O tio Miguel mesmo. Enfarte fulminante, agora de manhã, fazendo a barba. Quando tia Magali chegou só deu tempo de tirar o sabão do rosto. - Peraí. Deixa eu me refazer. - Tudo bem, depois você me liga. - Não, não, a gente tem que enfrentar. Mas eu não vou a enterros. - Nem eu. Dá riso nervoso
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José Guilherme Vereza

sentou à mesa do jantar.

Inócuos momentos em que...

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ver tanta gente chorando... - E a Candinha, já sabe? - Iam avisar. Não sei se avisaram. Ela está no Tibet. - Sabe de uma coisa, não vou ao enterro não. Tio Miguel era um chato, tia Magali também e a Candinha sempre me irritou com essa mania de meditação. - Acho que não vou também não. - Passo um telegrama e tudo bem. - Vou fazer a mesma coisa. Tchau. Mal desligou o telefone, Afrânio teclou o número do telegrama fonado. Atendeu uma voz de gralha. - Telegrama fonado, bom dia. - Bom dia, eu queria passar um telegrama. - Seu nome e número do seu telefone. - Afrânio Rosa Batista, 2254-0969. - Nome e endereço do destinatário. - Magali Batista Santana. Rua Carlos Pedrosa, 223, se não me engano. - Se o senhor se engana, o telegrama não chega. - Claro, um momento... estou conferindo no meu caderninho... cá está. O número correto é 476. Passei raspando. - Texto do telegrama. - Texto? Ah, sim, a mensagem... Meu Deus, o branco de novo. - Vamos lá: QUERIDA TIA MAGALI RECEBA DE SEU DILETO SOBRINHO AFRÂNIO AS MAIS SINCERAS CON-

DOLÊNCIAS PELA SÚBITA PERDA DE AMADO CÔNJUGE E ESTIMADO TIO. UM AFETUOSO ABRAÇO DE DOR E CONSTERNAÇÃO. - O senhor não acha que está meio rococó? Afrânio gelou. Ficou sem graça. - A senhora acha, é...? - Tá meio rebuscado. Não dá pra ser mais direto? - Acho que sim, vamos lá: QUERIDA TIA MAGALI, RECEBA MINHAS CONDOLÊNCIAS PERDA ESTIMADO TIO. Afrânio ouviu uma risadinha do outro lado da linha. Não gostou. - Escuta aqui: a senhora, por acaso, está rindo de quê? - Nada, nada não senhor... - Mais risinhos. - A senhora está rindo do meu telegrama? - Desculpe seu Afrânio, condolências é muito antigo. - A senhora acha, é...? - Desculpe seu Afrânio, o senhor escreve como quiser... - Não, não, sua opinião é importante. A senhora deve estar acostumada com muitos telegramas de falecimento. É melhor dizer pêsames mesmo. - O senhor é quem manda. Então ficamos assim: QUERIDA TIA MAGALI RECEBA MEUS PÊSAMOS PERDA ESTIMADO TIO. - Sei não, sei não... tá meio falso. - Já que o senhor tocou no assunto, sabe que eu acho a mesma coisa? - Tá falso, é?

- Pouquinho. - Então tira o estimado. Bota querido. - Agora tá redondinho. QUERIDA TIA MAGALI RECEBA MEUS PÊSAMES PERDA QUERIDO TIO. - Seu Afrânio, querida e querido na mesma frase? - É. Na mesma frase, por quê? Afrânio começou a perder estribeiras. - Nada não, seu Afrânio, eu só acho que não fica bonito. - Tem certeza? - Bem, seu Afrânio, é a minha opinião sincera, mas a tia é sua, o defunto é seu, o telegrama é seu. - Tem razão. Tira querido tio e bota tio Miguel. - Muito bem. QUERIDA TIA MAGALI. RECEBA MEUS PÊSAMES PERDA TIO MIGUEL. Ok? - OK... ok... OK nada! Você acabou fazendo a mensagem para mim. - Desculpe, Seu Afrânio... mas seu texto não estava bom. - Quer dizer que temos uma crítica literária fazendo bico de telefonista? Ora, vê se se enxerga, minha filha... - Minha filha não senhor! Meu nome é Kátia, telefonista com muito orgulho. - Então, Kátia, enfia esse telegrama... - Além de escrever mal, é grosso. Só para encerrar, o telegrama não está autorizado, certo? - Certo, cancela tudo. O que está autorizado, Kátia, já disse e repito: é esse telegrama enfiado no seu... você

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sabe aonde, minha filha. Afrânio desligou o telefone. Decidiu encarar o velório. **** Pegou o primeiro táxi. - Bom dia, o senhor poderia me levar às capelas do Cemitério São João Batista, por obséquio? - O motorista deu uma risadinha. - O senhor está rindo do quê? - Por obséquio, é? Não é melhor por Botafogo? E Afrânio mais não disse. Só pensou: outra Kátia na minha vida. **** A capela estava vazia. Ninguém. Nem a viúva. Entre flores mal cheirosas, sob um manto de filó, Tio Miguel era apenas um nariz cor de cera com algodão em cada narina. Afrânio ficou à distância, observando como os homens depois que viram defuntos perdem a dignidade. São apenas narizes apontando para o teto, alheios a seus arredores. Logo Tio Miguel. Tão extrovertido e mandão. Metido a dar ordens em casa, na cozinha, nas filas de cinema, nas reuniões familiares, nas casernas, onde passou mais da metade da sua vida. Agora estava ali sem ninguém para mandar ou chatear. Só esperando a hora de uma outra pessoa, alheia a sua vontade, mandar fechar o caixão e sair carregado a uma gaveta qualquer. De repente, um ruído assustador. Irrompe à capela Tia Magali. Toda de preto, amparada por uma amiga, proferindo urros de desespero, gritando bem alto como se o marido gelado pudesse

se comover. - Miguinho, Miguinho! Por que você fez isso comigo? Por que foi jogar peteca na praia ontem à noite? Eu sabia que ia te fazer mal de manhã... Ao descobrir Afrânio encostado na parede mais distante do caixão, Tia Magali se joga nos seus braços. Aperta-lhe tórax, peito e pescoço. Como uma sucuri. - Alfredo, que bom que você veio... vem cá ver o rosto sereno do Miguinho. - Afrânio, tia Magali, Afrânio... - Afraninho, claro, Afraninho de Marieta. - Antonieta, Tia Magali. - Vem cá, meu sobrinho querido, vamos nos despedir juntos do seu tio Miguel. - Tia Magali, deixa o tio Miguel dormindo seu sono eterno, tranqüilo. Prefiro ficar aqui mesmo. Tia Magali em prantos. - Afraninho, você sempre carinhoso... - Tia Magali, em meu nome e em nome da minha irmã... - Luzia... - Não, Tia Magali. Lavínia. La-ví-nia. - Lavininha, claro. Deve estar tão crescida. - 42 anos, Tia Magali. Tia Magali vira-se para o centro das desatenções da capela e recomeça a gritaria. - Miguinho, Miguinho, meu companheiro, meu companheiro que se foi. Meu Deus, o que será de mim? Afrânio espera passar o transe. Tão logo a tia se recupera, volta à carga e, enfim,

consegue falar. - Querida Tia Magali, receba do seu dileto sobrinho Afrânio e da sua não menos dileta sobrinha Lavínia as mais sinceras condolências pela súbita perda do amado cônjuge e estimado tio. Dá me cá um afetuoso abraço de dor e consternação. Tia Magali olha nos olhos de Afrânio. Tenta se controlar, esquece a viuvez. E cai na gargalhada. - Tá rindo de quê, Tia Magali? - Desculpe, mas esse seu discurso foi muito rococó. E tome de ataque de riso. Tia Magali e a amiga que a amparava, olham às gargalhadas para a cara do Afrânio. Circunspecto, contido, sobrancelhas franzidas. Outras pessoas começam a chegar. Os amigos da peteca, os coronéis reformados, as balzacas bronzeadas do Posto Seis. A tia retoma os prantos. Afrânio sai de fininho. **** Na saída do cemitério. É abordado por um florista. - Parente ou amigo? - Tio. - Então, o melhor é uma coroa de cravos. - Pensando bem, é distinto. - Sim, claro, uma bem frondosa, para ficar num cavalete ao lado do morto. Todo mundo olha para a coroa antes de olhar o falecido. Aliás, muita gente evita olhar o falecido. É um macete. O parente finge que está olhando o defunto, mas é atraído pela beleza da coroa. - Bem pensado. - Então, só falta os dizeres.

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- Dizeres? - A mensagem. - Eu sei que dizeres e mensagem são a mesma coisa, não precisa explicar. Esse é que é o problema. Afrânio suou frio de novo. - Uma frase curta e direta, meu amigo. - Um momento. Estou pensando. Não faz pressão, por favor. Enxugou a testa e mandou: - Anote aí: VAI COM DEUS, TIO MIGUEL. - O florista prendeu o riso. Não conseguiu. - Está rindo do quê? - Desculpe, amigo, parece que o senhor... Mais risos incontidos. - ... parece que o senhor estava querendo se livrar do tio. Afrânio se enfureceu. - Além de florista chato é palpiteiro... - Desculpe, mas a mensagem pode ser mal interpretada. Parece deboche. - Então, vai com Deus o

senhor mesmo. E enfia essa coroa ...ó! E partiu raivoso em direção a um táxi. Em momentos de cólera, Afrânio também só sabia mandar alguém enfiar alguma coisa no... lá mesmo. Não variava nunca. **** No táxi de volta. Afrânio contou até dez. Entrou num clima de paz interior. - Boa tarde, por favor leveme à Francisco Otaviano. Sugiro irmos pela praia. É mais gratificante ver o azul do céu tocando o azul do mar, que por sua vez, beija delicadamente as alvas areias com suas espumas peroladas. - Não entendi nada. É pra pegá a Atrântica, né moço? - Isso mesmo. Toca esse táxi e vê se não abre a boca. Tive uma manhã repleta de arrufos. - O quê? O taxista começou a rir. - Está rindo de que? - Nada não senhor. É que o senhor fala bonito... - Você acha mesmo...?

- Só que não entendo nada. Afrânio olhou fixo para o horizonte. Não mais falou. Não mais ouviu. Ao parar na Francisco Otaviano, pagou o taxista e disse: - Muito agradecido. O taxista recolheu o dinheiro e comentou: - Taí, bonito dizer “muito agradecido”. Outro dia uma velha me disse a mesma coisa. Dessa vez, Afrânio desistiu de xingar o motorista. **** Ao chegar em casa, desistiu de muito mais. Olhou o cotoco de lápis ainda sobre o papel em branco. Lembrou da Kátia, da Tia Magali, do florista, do taxista da ida, do taxista da volta. Rasgou o papel em mil pedacinhos e jogou pela janela. Só não mandou ele mesmo enfiar o cotoco em si próprio. Não era coisa de sua preferência.

O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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annabel Lee
Edgar Allan Poe
It was many and many a year ago, In a kingdom by the sea, That a maiden there lived whom you may know By the name of Annabel Lee; And this maiden she lived with no other thought Than to love and be loved by me. I was a child and she was a child, In this kingdom by the sea; But we loved with a love that was more than loveI and my Annabel Lee; With a love that the winged seraphs of heaven Coveted her and me. And this was the reason that, long ago, In this kingdom by the sea, A wind blew out of a cloud, chilling My beautiful Annabel Lee; So that her highborn kinsman came And bore her away from me, To shut her up in a sepulchre In this kingdom by the sea. For the moon never beams without bringing me dreams Of the beautiful Annabel Lee; And the stars never rise but I feel the bright eyes Of the beautiful Annabel Lee; And so, all the night-tide, I lie down by the side Of my darling, my darling, my life and my bride, In the sepulchre there by the sea, In her tomb by the sounding sea. The angels, not half so happy in heaven, Went envying her and meYes!- that was the reason (as all men know, In this kingdom by the sea) That the wind came out of the cloud by night, Chilling and killing my Annabel Lee. But our love it was stronger by far than the love Of those who were older than weOf many far wiser than weAnd neither the angels in heaven above, Nor the demons down under the sea, Can ever dissever my soul from the soul Of the beautiful Annabel Lee.

tradução

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annabel Lee
Edgar Allan Poe
tradução: Fernando Pessoa
Foi há muitos e muitos anos já, Num reino de ao pé do mar. Como sabeis todos, vivia lá Aquela que eu soube amar; E vivia sem outro pensamento Que amar-me e eu a adorar. Eu era criança e ela era criança, Neste reino ao pé do mar; Mas o nosso amor era mais que amor – O meu e o dela a amar; Um amor que os anjos do céu vieram a ambos nós invejar. E foi esta a razão por que, há muitos anos, Neste reino ao pé do mar, Um vento saiu duma nuvem, gelando A linda que eu soube amar; E o seu parente fidalgo veio De longe a me a tirar, Para a fechar num sepulcro Neste reino ao pé do mar. Porque os luares tristonhos só me trazem sonhos Da linda que eu soube amar; E as estrelas nos ares só me lembram olhares Da linda que eu soube amar; E assim ‘stou deitado toda a noite ao lado Do meu anjo, meu anjo, meu sonho e meu fado, No sepulcro ao pé do mar, Ao pé do murmúrio do mar. E os anjos, menos felizes no céu, Ainda a nos invejar... Sim, foi essa a razão (como sabem todos, Neste reino ao pé do mar) Que o vento saiu da nuvem de noite Gelando e matando a que eu soube amar. Mas o nosso amor era mais que o amor De muitos mais velhos a amar, De muitos de mais meditar, E nem os anjos do céu lá em cima, Nem demônios debaixo do mar Poderão separar a minha alma da alma Da linda que eu soube amar.

Fonte: http://www.culturabrasil.pro.br/pessoaepoe.htm

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a máscara da
morte Vermelha
Edgar Allan Poe
tradução: Henry Alfred Bugalho

tradução

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A “Morte Vermelha” há muito devastara o país. Nenhuma pestilência jamais fora tão fatal, ou tão hedionda. Sangue era o seu avatar e seu selo — o rubor e o horror do sangue. Havia dores agudas e tontura súbita, e então sangramento profuso pelos poros, com decesso. As manchas escarlates sobre o corpo e especialmente sobre o rosto da vítima eram a execração da peste que lhe vetavam a ajuda e a simpatia de seus próximos. E toda a infecção, progresso e término da doença eram incidentes de meia hora. Mas o Príncipe Prospero era alegre, destemido e sagaz. Quando seus domínios estavam despopulados pela metade, ele convocou à sua presença um milhar de amigos saudáveis e joviais dentre os cavaleiros e damas de sua corte, e com estes se recolheu à profunda reclusão de uma de suas abadias fortificadas. Ela era de uma extensa e magnífica estrutura, a criação do gosto excêntrico, porém augusto, do príncipe. Uma muralha forte e altiva a circundava. Esta muralha tinha portões de ferro.

Após entrarem, os cortesãos trouxeram fornalhas e maciços martelos e soldaram as travas. Eles decidiram por não deixar nenhum meio de ingresso ou egresso pelos impulsos súbitos de desespero ou de frenesi daqueles desde o interior. A abadia estava vastamente abastecida. Com tais precauções, os cortesãos poderiam desafiar o contágio. O mundo exterior deveria tomar conta de si. No entremeio, era tolice se lamentar ou ponderar. O príncipe havia providenciado toda a sorte de prazeres. Havia bufões, havia improvisatori, havia bailarinas, havia músicos, havia o Belo, havia vinho. Lá dentro, havia tudo isto e segurança. Fora, havia a “Morte Vermelha”. Foi em torno do final do quinto ou sexto mês de reclusão que, enquanto a pestilência assolava enfurecidamente afora, o Príncipe Prospero entretinha seu milhar de amigos num baile de máscara da mais incomum magnificência. Era uma cena voluptuosa aquela mascarada. Mas, primeiro, deixe-me

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falar das salas nas quais ela ocorria. Eram sete — uma suíte imperial. Em muitos palácios, contudo, tais suítes compõem um panorama longo e retilíneo, quando as portas articuladas deslizam até às paredes em ambos os lados, de modo que a visão de toda sua extensão é escassamente impedida. Aqui o caso era muito diferente; como se poderia esperar do amor do duque pelo bizarro. Os apartamentos eram tão irregularmente dispostos que a visão abarcava nada mais do que um por vez. Havia uma aguda curva a cada vinte ou trinta jardas, e a cada curva um efeito diferente. À direita e à esquerda, no meio de cada corredor, uma alta e estreita janela gótica vislumbrava sobre um corredor cerrado que perseguia as angulosidades da suíte. Estas janelas eram vitrais cujas cores variavam de acordo com o matiz prevalecente da câmara para a qual se abria. A da extremidade oriental era, por exemplo, em azul — e de azul vívido eram suas janelas. A segunda câmara era púrpura em seus ornamentos e tapeçarias,

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e aqui as vidraças eram púrpuras. A terceira era totalmente verde, e assim eram seus caixilhos. A quarta era mobiliada e iluminada em laranja — a quinta em branco — a sexta em violeta. O sétimo apartamento estava intimamente revestido com tapeçarias de veludo negro que eram suspensas desde o teto, descendo pelas paredes e tombando em pesadas dobras sobre um tapete do mesmo material e matiz. Mas, nesta câmara apenas, a cor das janelas falhava em corresponder à sua decoração. As vidraças eram escarlates — uma profunda cor de sangue. Agora em nenhum dos sete apartamentos havia qualquer lâmpada ou candelabro, em meio à profusão de ornamentos dourados que jaziam dispersos para lá e para cá, ou dependurados no teto. Não havia luz alguma emanando de lâmpada ou vela desde o interior da suíte de câmaras. Mas, nos corredores que deixavam a suíte, ali havia, oposto a cada janela, um pesado tripé, sustentando um braseiro de fogo, que projetava seus raios através dos vitrais

e assim cintilantemente iluminava a sala. E assim se produzia uma multidão de reluzentes e fantásticas aparições. Mas na sala ocidental, ou negra, o efeito da tocha que luzia sobre as janelas negras através dos vitrais cor de sangue era fantasmagórico ao extremo, e produzia uma visão tão selvagem sobre o temperamento daqueles que nela entravam, que eram poucos os da companhia corajosos o suficiente para porem o pé dentro do recinto. Era neste apartamento que também havia, contra a parede ocidental, um gigantesco relógio de ébano. Seu pêndulo balançava de um lado a outro com um surdo, pesado, monótono retumbo; e quando o ponteiro dos minutos percorria o circuito, e estava para soar a hora, provinha dos pulmões acobreados do relógio um som que era nítido, sonoro, profundo e excessivamente musical, mas de uma nota e ênfase tão peculiares que, a cada lapso de hora, os músicos da orquestra eram constrangidos a pararem momentaneamente sua interpretação, para ouvirem

o som; e assim os bailarinos obrigatoriamente cessavam suas evoluções; e havia um breve desconcerto coletivo na alegre companhia; e, enquanto os sinos do relógio ainda soavam, observava-se que os mais instáveis empalideciam, e os mais velhos e sedados passavam as mãos pelas sobrancelhas como se em confusa reverência ou meditação. Mas quando os ecos cessavam totalmente, uma risada leve de súbito traspassava a assembleia; os músicos olhavam uns para os outros e sorriam como se para seu próprio nervosismo e tolice, e faziam sussurrantes votos, cada um para o outro, que a próxima badalada do relógio não produziria neles semelhante emoção; e, então, após o lapso de sessenta minutos (que abarca três mil e seiscentos segundos do Tempo que voa), vinha ainda outra badalada do relógio, e então era o mesmo desconcerto, tremulação e meditação como antes. Mas, a despeito de estas coisas, era uma festividade alegre e magnificente. Os gostos do duque eram peculiares. Ele tinha

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um olho apurado para cores e efeitos. Ele desprezava a decoração de mera moda. Seus planos eram ousados e fogosos, e suas concepções reluziam com lume bárbaro. Havia alguns que o tomariam por louco. Seus seguidores sentiam que ele não o era. Era necessário ouvir, ver e tocá-lo para se certificar de que ele não era. Ele havia dirigido, em grande parte, os ornamentos móveis das sete câmaras para a ocasião desta grande festa; e foi seu próprio gosto indicador que havia dado personalidade aos mascarados. Tenha certeza de que eles eram grotescos. Havia muito resplendor, brilho, licenciosidade e fantasia — muito do costumaz desde em “Hernani”. Havia figuras arabescas com membros e posições inapropriadas. Havia delirantes extravagâncias tais quais na moda de um louco. Havia muito do belo, muito de afronta, muito do bizarro, algo de terrível, e nem um pouco daquilo que poderia excitar repulsa. Para cá e para lá, nas sete câmaras, esgueirava-se, na verdade, uma multidão de sonhos.

E estes — os sonhos — se debatiam, assumindo os matizes das salas, e causando a selvagem música da orquestra se assemelhar ao eco de seus passos. E, subitamente, vêm badaladas no relógio de ébano que fica no salão de veludo. E, então, por um momento, tudo está em suspensão, e tudo está em silêncio com exceção da voz do relógio. Os sonhos estão rigidamente congelados em seus lugares. Mas os ecos das badaladas se extinguem — eles haviam durado apenas um instante — e uma gargalhada leve, meio subjugada, flana atrás deles enquanto eles partem. E agora novamente a música se eleva, e os sonhos vivem, debatem-se de um lado para o outro ainda mais alegremente do que antes, assumindo os tons dos muitos vitrais através dos quais são refletidos os feixes dos tripés. Mas para a câmara que jaz mais para o ocidente das sete, agora não há nenhum dos mascarados que se aventure; pois a noite está acabando; e há fluxos de uma luz enrubescida através das janelas cor de sangue; e a

negritude das tapeçarias escuras aterroriza; e para aquele cujo pé cai sobre o carpete negro, surge desde o próximo relógio de ébano um abafado tilintar mais solenemente enfático do que qualquer outro que alcança os ouvidos daqueles que se engajam em divertimentos mais remotos dos outros apartamentos. Mas estes outros apartamentos estavam densamente populados, e neles batia fervorosamente o coração da vida. E a festividade prosseguiu freneticamente, até que, em certo momento, começou a soar meia-noite no relógio. E então a música cessou, como eu havia dito; e as evoluções dos dançarinos se silenciaram; e havia uma desconfortável interrupção em todas as coisas como antes. Mas agora doze badaladas soavam no sino do relógio; e assim isto ocorreu, talvez mais pensamentos se embrenharam, com o passar do tempo, nas meditações dos pensativos dentre aqueles que festejavam. E assim também ocorreu, talvez, que antes de o último eco da última badalada ter

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imergido completamente no silêncio, havia muitos indivíduos na multidão que encontraram prazer em se tornar cientes da presença de uma figura mascarada que não havia capturado a atenção de ninguém anteriormente. E o rumor desta nova presença havia se espalhado, aos sussurros, ao redor, a certa altura, ergueu-se de toda a companhia um buchicho, ou murmúrio, expressão de desaprovação e surpresa — então, finalmente, de terror, horror e repulsa. Numa assembleia de fantasias tais quais retratei, poderia bem se supor que nenhuma aparência ordinária teria excitado tal sensação. Na verdade, a licença da mascarada da noite era quase ilimitada; mas a figura em questão extrapolava todos os limites, e havia ultrapassado as fronteiras até mesmo do indefinido decoro do príncide. Há acordes nos corações dos mais descuidados que não podem ser tocados sem emoção. Mesmo com aquele completamente perdido, para quem vida e morte são igualmente zombarias, há assuntos

sobre os quais nenhuma zombaria pode ser feita. Na verdade, toda a companhia parecia agora sentir profundamente que na fantasia e no comportamento do estranho não existia sabedoria nem propriedade. A figura era alta e esquelética, e encoberta da cabeça aos pés com as vestes da cova. A máscara que escondia as feições era feita de modo a se assemelhar à aparência de um cadáver enrijecido, que mesmo o escrutínio mais detalhado teria dificuldade em detectar a farsa. E tudo isto ainda poderia ter sido suportado, até aprovado, pelos insanos festeiros. Mas o mímico havia ido longe demais ao assumir o tipo da Morte Vermelha. Suas vestes manchadas de sangue — e sua ampla fronte, com todas as feições do rosto — estavam espargidas com o horror escarlate. Quando os olhos do Príncipe Prospero pousaram sobre esta imagem espectral (que com um movimento lento e solene, como se para mais completamente manter seu papel, vagava de um lado a outro entre os

dançarinos), ele pareceu ter convulsões, num primeiro momento com um forte tremor tanto de terror quanto de repulsa; mas, em seguida, sua testa enrubesceu de raiva. — Quem ousa? — ele roucamente indagou os cortesãos que estavam próximos dele — quem ousa nos insultar com esta pilhéria blasfematória? Agarrem-no e o desmascarem — para que saibamos a quem devemos enforcar ao nascer do sol, desde os parapeitos! Era na câmara oriental, ou a azul, na qual estava o Príncipe Prospero quando ele pronunciou estas palavras. Elas retumbaram alto e claramente através das sete salas —pois o príncipe era um homem destemido e robusto, e a música havia sido suspensa com um movimento de sua mão. Era na sala azul que estava o príncipe, com um grupo de pálidos cortesãos a seu lado. A princípio, enquanto ele falava, houve um ligeiro movimento apressado deste grupo em direção ao intruso, que, naquele momento também estava

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ao alcance, e agora, com passo deliberado e imponente, se aproximou ainda mais do falante. A despeito de certo fascínio inominável com que as aparências insanas do mímico haviam inspirado todo o grupo, não havia ninguém que estendesse a mão para agarrá-lo; então assim, desimpedido, ele ficou a uma jarda da pessoa do príncipe; e enquanto a vasta assembleia, como se num único impulso, encolheu desde os centros das salas para as paredes, ele percorreu seu caminho ininterruptamente, mas com o mesmo passo solene e calculado que o havia distinguido desde o começo, através da câmara azul para a púrpura — através da púrpura para a verde — através da verde para a laranja — através desta também para a branca — e até desta para a violeta, antes que um movimento decidido houvesse sido feito para capturá-lo. Foi

então, contudo, que o Príncipe Prospero, enlouquecido com fúria e vergonha por sua própria covardice momentânea, correu apressadamente através das seis câmaras, enquanto ninguém o seguiu por causa do terror mortal que os havia tomado a todos. Ele ergueu alto uma adaga desembainhada e havia se aproximado, com rápida impetuosidade, para três ou quatro pés da figura que recuava, quando o último, tendo atingido a extremidade do apartamento de veludo, virou-se subitamente e confrontou seu perseguidor. Ouviuse um grito agudo — e a adaga caiu resplandecente sobre o carpete negro, sobre o qual, instantaneamente em seguida, caiu prostrado morto o Príncipe Prospero. Então, convocando a coragem selvagem do desespero, uma horda dos festejadores, de uma vez só, precipitou-se para dentro do aparta-

mento negro e, agarrando o mímico, cuja alta figura permaneceu ereta e imóvel sob a sombra do relógio de ébano, engasgou-se em horror inefável ao descobrir as mortalhas fúnebres e a máscara cadavérica, que eles sustinham com tão violenta rudeza, desabitadas por qualquer forma tangível. E agora foi constatada a presença da Morte Vermelha. Ela havia vindo como um ladrão na noite. E, um por um caíram, os festejadores nas paredes cor de sangue dos saguões de sua festividade, e morreu cada qual na desesperadora posição de sua queda. E a vida do relógio de ébano se foi com aquela do último dos joviais. E as chamas dos tripés se extinguiram. E as Trevas, a Decadência e a Morte Vermelha mantiveram ilimitado domínio sobre tudo. Fonte: http://poestories. com/stories.php

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teoria Literária

Henry Alfred Bugalho

EdGar aLLaN PoE
a vida e a criação de um mito literário
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o bicentenário de

a vida do escritor
Há exatos duzentos anos, em 1809, nascia, na cidade de Boston, Edgar Poe. Filho de David Poe, Jr. e Elizabeth Arnold Hopkins Poe, ambos atores, Edgar perdeu os pais ainda muito criança; David Poe abandonou filhos e esposa em 1810, enquanto que Elizabeth Poe morreu de tuberculose em 1811. Apesar de nunca ter sido adotado formalmente, Edgar foi acolhido na casa de John Allan, um rico comerciante de Richmond, e passaria a ser conhecido como Edgar Allan Poe. Ele viajou com a família de John Allan à Inglaterra em 1815, onde morou por cinco anos. De volta aos Estados Unidos, Edgar Allan Poe se inscreveu na Universidade de Virginia em 1826. Envolvido em dívidas de jogos e com pouco apoio financeiro do pai adotivo, Edgar se viu obrigado a abandonar a carreira universitária e se alistou no exército. Nesta época, já se interessava pela Literatura e, em 1827, lançou sua primeira coletânea de poemas — “Tamerlane e outros poemas” —, que teve repercussão praticamente nula. Após servir por dois anos, Edgar conseguiu a dispensa com o auxílio de John Allan, caso prometesse

se matricular na Academia Militar de West Point. Neste meio tempo, em 1829, ele se mudou para Baltimore e foi acolhido na casa de uma tia e da prima, Virginia Clemm, com quem se casaria alguns anos depois. Foi nesta época que publicou seu segundo livro de poemas. Em 1830, matriculou-se em West Point, mas foi expulso de lá um ano depois, Também havia sido deserdado pelo pai adotivo, por pressões da mais recente esposa dele. Foi para Nova York, onde lançou um terceiro livro de poemas, financiado com a contribuição de seus colegas de West Point, mas logo retornou a Baltimore, para a casa da tia, por causa de seu irmão, seriamente doente devido a problemas relacionados a alcoolismo. Ao morrer o irmão, Edgar Allan Poe tentou se dedicar exclusivamente à carreira literária, tornandose o primeiro autor norteamericano a viver apenas da escrita. No entanto, longe de representar fortuna e sucesso, esta escolha significou para Edgar uma vida repleta de dificuldades e privações. Começou a se dedicar também ao gênero da prosa, publicando alguns contos em periódicos da

Filadélfia e Baltimore. Casou-se, em segredo, com Virginia Clemm em 1835; ela tinha apenas 13 anos, mas declarou ter 21. Publicou o romance “A Narrativa de Arthur Gordon Pym” em 1838, que foi bem recebido pela crítica. Aquela que é provavelmente sua obra em prosa mais importante, “Contos do Grotesco e do Arabesco”, foi publicada em 1839, mas a recepção foi contraditória.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/en/9/9d/Edgar_Allan_Poe_2_cropped.jpg

acima: Virginia Clemm era prima de Edgar Allan Poe e foi o seu grande amor. Também foi uma das trágicas perdas na vida do autor.

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Virginia, sua esposa, apresentou os primeiros sintomas de tuberculose em 1842, e nunca conseguiu se recuperar totalmente. A doença da esposa acentuou os problemas de Edgar com o álcool. Após ter trabalhado em vários jornais, ele retornou a Nova York e se tornou editor do “Broadway Journal” e, posteriormente, proprietário. Seu poema mais famoso, “O Corvo”, foi publicado em 1845. Apesar da enorme repercussão, Edgar Allan Poe recebeu apenas 9 dólares pela publicação. Seu jornal faliu um ano depois, quando Poe se mudou para um casebre no Bronx, onde Virginia morreria. Voltou a Richmond e começou um relacionamento com uma paixão da juventude, Sarah Royster. Edgar Allan Poe morreu em 1849, vagando pelas ruas de Baltimore, delirante. Apesar de seu falecimento estar evidentemente relacionado ao abuso de álcool, as causas ainda são questionadas.

Topo à esquerda: gravura do poema “O Corvo”, um dos principais sucessos de Poe. À esquerda: poster com o manuscrito de “O Corvo”, publicado em 1845.
http://www.census.nationalarchives.ie/exhibition/dublin/literary/full/M_Joyce.jpg

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Influência de Poe
A árdua e trágica vida de Poe, que cedo perdeu os pais, viu o irmão e o amor de sua vida morrerem, teve de superar a pobreza e a inclemente crítica de seus contemporâneos, dificilmente poderia prenunciar a relevância futura de suas obras. Na verdade, imediatamente após seu falecimento, as controvérsias ao redor de sua personalidade e obras já começaram; primeiro com o obituário do reverendo Rufus W. Griswold, assinado com o pseudônimo de “Ludwig” “Edgar Allan Poe está morto. Morreu em Baltimore anteontem. Este anúncio poderá sobressaltar muitos, mas poucos se lamentarão. O poeta era bem conhecido pessoalmente ou por reputação, em todo o país. Ele tinha leitores na Inglaterra e em vários países da Europa Continental. Mas ele tinha poucos ou nenhum amigos. Os pesares por sua morte poderão ser induzidos principalmente pela consideração que a arte literária perdeu uma de suas mais brilhantes, porém erráticas, estrelas (...)”. Apesar de vários críticos e escritores se erguerem contra as acusações de Griswold, parecia ser um consenso o fato de que Ed-

gar Allan Poe não era uma pessoa de fácil convivência, adepto de polêmicas e que havia criado muitos desafetos no mundo literário. Estranhamente, o próprio Griswold foi incumbindo de editar e publicar o espólio de Poe, alegando ter sido este o pedido do autor. Não há nenhum documento que comprove esta afirmação, mas muitos teóricos argumentam que a caracterização de Poe feita por Griswold — de um homem diabólico, sem amigos, bêbado, drogado, problemático em sua vida social e pessoal — foi a principal responsável pelo sucesso póstumo do escritor. A aura demoníaca criada em torno de Poe foi o fator de atração do público leitor norte-americano, que se aproximava da obra de Poe com reverência e temor. Griswold também redigiu a primeira biografia oficial de Edgar Allan Poe, quando da publicação das obras completas dele. Tal biografia é repleta de inverdades e adulterações, e foi repudiada por quem conhecia o autor, mesmo tendo servido de fundamento para boa parte das biografias subsequentes. A história de Poe é um dos casos nos quais uma campanha difamatória, ao invés de prejudicá-lo, atuou

em seu favor. Todavia, enquanto o debate era acalorado nos EUA, na Europa, graças às traduções feitas por Charles Baudelaire, Edgar Allan Poe já era acolhido como um autor engenhoso e de grande qualidade. Baudelaire encontrava na obra de Poe muitas de suas próprias características, como o misticismo, o fantástico,
Acima: o Reverendo Rufus W. Griswold foi um grande rival e o maior detrator de Edgar Allan Poe, por outro lado, foi também um dos principais responsáveis pelo sucesso póstumo do escritor, através de uma intensa campanha difamatória.

o macabro e grotesco, e a busca por respostas filosóficas para questões estéticas e literárias. Foi através das traduções de Baudelaire que a obra de Poe pôde ser recebida e influenciar os autores simbolistas e surrealistas. Na obra “Sobre a Modernidade”, Baudelaire não poupa elogios a Poe, e não hesita em incluí-lo no rol dos grandes artistas da modernidade: modernidade:
“Lembram-se de um quadro (e um quadro, na verdade!) escrito pelo mais poderoso autor desta época e que se intitula “L’Homme des Foules” (“O Homem das Multidões”)?

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Atrás das vidraças de um café, um convalescente, contemplando com prazer a multidão, mistura-se mentalmente a todos os pensamentos que se agitam à sua volta. Resgatado há pouco das sombras da morte, ele aspira com deleite todos os indícios e eflúvios da vida; como estava prestes a tudo esquecer, lembrase e quer ardentemente lembrarse de tudo. Finalmente, precipita-se no meio da multidão à procura de um desconhecido cuja fisionomia, apenas vislumbrada, fascinou-o num relance. A curiosidade transformou-se numa paixão fatal, irresistível!”

americanos mais influentes do século XX, renovou o gênero conto ao ressuscitar questionamentos, técnicas, ambientações, sutilezas já utilizadas ou levadas à perfeição por Poe, como o embuste, o raciocínio lógico, o macabro e fantástico, o enigmático, a criptografia, a antiguidade histórica e povos exóticos ou desaparecidos. A controversa figura de

Edgar Allan Poe, que sofreu para poder viver de sua pena, converteu-se numa das mais ricas fontes de inspiração para a literatura vindoura. E o grande segredo disto residiu, principalmente, na transformação de um atormentado indivíduo real em um personagem bizarro e assustador, que toma vida todas as vezes que um leitor entra em contato com sua obra.

No mundo lusófono, a obra de Poe se refletiria e influenciaria os trabalhos de Machado de Assis, que definitivamente buscou no autor norte-americano sua inspiração para a estruturação e para algumas temáticas de seus contos. Por sua vez, em Portugal, Fernando Pessoa afirmava que Edgar Allan Poe “era uma das figuras literárias mais notáveis da América Inglesa”. Ambos, Machado de Assis e Pessoa, traduziram poemas de Poe para o português. Enfim, Jorge Luis Borges, um dos autores hispanoÀ direita: Charles Baudelaire foi o primeiro tradutor das obras de Poe e contribuiu para sua aclamação entre os autores simbolistas e surrealistas na França.

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a obra de Poe
Em vida, Edgar Allan Poe era conhecido como um competente, porém cáustico, crítico e ensaísta. Publicou resenhas e críticas literárias em inúmeros periódicos. Participou de polêmicas e debates com grandes autores e ensaístas, atacava ferozmente o “Transcendentalismo” de Emerson e Thoreau. Também viveu para presenciar, alguns anos antes de seu falecimento, o arrebatador sucesso de poemas como “O Corvo” e “Annabel Lee”. Mas, sem dúvida, a principal contribuição de Poe está na sua obra prosaica, em seus contos e em seu único romance “A Narrativa de Arthur Gordon Pym”. A obra de Poe tende a gravitar ao redor de alguns temas bastante específicos, como: – a Morte (“A Queda da Casa de Usher”, “A Máscara da Morte Vermelha”, “O Gato Preto”, “O Enterro Prematuro”, “Os Fatos no Caso do Sr. Valdemar”, “Uma Revelação Mesmérica”, enTopo à direita: reimpressão de 1843 do “Os Assassinatos da Rua Morgue”, considerada a obra que inaugurou o gênero Policial. À direita: primeira edição de “A Narrativa de Arthur Gordon Pym”, de 1838, o único romance escrito por Poe.

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tre outros; – investigações policiais (“Os Assassinatos da Rua Morgue”, “O Mistério de Marie Rôget”, “O Coração Delator”, “Tu és o Homem”, “A Carta Roubada”) – eventos marítimos bizarros ou fantásticos (“A Narrativa de Arthur Gordon Pym”, “Mensagem numa Garrafa”, “Descida ao Maelström”) Além disto, há vários outros textos satíricos, de humor, enigmáticos (como “O Escaravelho de Ouro”) e profundamente metafísicos. Edgar Allan Poe é considerado como um dos precursores da Ficção Científica, por causa de contos como “O Embuste do Balão”, “A Aventura sem par de um tal Hans Pfaall”. Poe é também considerado como o primeiro autor de ficção policial, ao conceber o antológico personagem Auguste Dupin. Tornou-se um ícone da literatura de Terror e Gótica. Paralelamente aos mestres russos e franceses, como Pushkin, Tchekov e Maupassant, Edgar Allan Poe instaurou as bases do conto moderno, produzindo alguns dos textos mais perfeitos e emblemáticos do gênero. No campo da poesia,

Poe foi considerado como cerebral demais, apesar de ainda ser tomado como um autor do Romantismo. Para ele, era muito mais importante a forma e a sonoridade dos versos do que o conteúdo, no entanto, isto nunca significou um desequilíbrio entre forma e mensagem na obra poética de Poe. Pessoalmente, acredito que no corpus literário de Poe existem algumas das mais fundamentais obrasprimas da escrita, mas há uma qualidade díspar entre os textos. Quem se aventurar a ler a obra completa do autor se deparará com obras incomparáveis, mas também com outras de difícil acesso, ou até desinteressantes. Definitivamente, Edgar Allan Poe é leitura obrigatória para qualquer um interessado em Literatura. Uma obrigação repleta de prazeres, surpresas e assombro.

estão sendo organizados eventos, como palestras, recitação de poemas e debates em sua homenagem, mas principalmente em Richmond, Boston e Baltimore, cidades nas quais ele passou a maior parte da vida. Inclusive, em Baltimore, para o dia 10 de outubro de 2009, está sendo preparado um funeral em homenagem a Poe, que contará com atores representando os papéis de amigos e rivais do autor. Nas ligações abaixo, há parte da programação das comemorações do bicentenário de nascimento de Edgar Allan Poe. Poe Bicentennial - Baltimore http://www.poebicentennial. com/index.html Poe Revealed 1809-2009 – Richmond http://www.poe200th.com/ index.php The New York Times – Edgar Allan Poe at 200 (Slideshow) http://www.nytimes.com/ slideshow/2009/01/16/ books/eapoe-SLIDE-SHOW01-17-2009_index.html
Página oposta: edição do jornal The New York Times em comemoração ao centenário de nascimento de Edgar Allan Poe, em 15 de julho de 1909.

a comemoração do bicentenário de nascimento de Poe
Durante todo o ano de 2009, em várias cidades do leste dos EUA, comemora-se o bicentenário de nascimento e o centésimo sexagésimo aniversário de morte de Edgar Allan Poe. Por todo o lugar que o escritor viveu,

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Para saber mais:
- BAUDELAIRE, Charles, Sobre a Modernidade. São Paulo: Editora Paz e Terra, 1996. - Baudelaire and the Arts, Translations: Baudelaire, translator of Edgar Allan Poe http://dl.lib.brown.edu/baudelaire/translations1.html - The Literature Network – Edgar Allan Poe http://www.online-literature.com/poe/ - PEEPLES, Scott, The Afterlife of Edgar Allan Poe. Boydell & Brewer, 2007. http://books.google.com/books?id=NyEu mvZL1QMC&printsec=frontcover - Poe Museum

http://www.poemuseum.org/poes_life/ index.html - Wikipédia – Edgar Allan Poe http://en.wikipedia.org/wiki/Edgar_ Allan_Poe - Wikipédia – Poe’s obituary http://en.wikisource.org/wiki/Death_of_ Edgar_Allan_Poe - Wikipédia – Rufus Wilmot Griswold http://en.wikipedia.org/wiki/Rufus_Wilmot_Griswold - The works of Edgar Allan Poe, in four volumes. Vol I, with Memoirs by R. W. Griswold. New York: W. J. Widdleton, Publisher, 1865. http://books.google.com/books?id=Cy4C AAAAQAAJ&printsec=titlepage

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teoria Literária

Publicação independente

ontem e hoje

Henry Alfred Bugalho

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(Este é o primeiro artigo de uma série sobre publicação independente na era digital)

a legitimação do mercado literário
Todo mundo, ao começar a escrever seu primeiro livro, tem em mente o esquema clássico de publicação: autor => editora => livraria => leitor. Quase ninguém questiona este modelo ao tentar ingressar na carreira literária e, para muitos, um autor que não seja publicado por uma editora comercial — ou uma “editora de verdade” — não merece ser lido. O processo de concluir um livro, enviá-lo para ser avaliado por uma editora, ser aceito, assinar o contrato e chegar às livrarias é a primeira legitimação dum autor, é o primeiro grande funil entre os escritores. Entre os pretendentes a escritores e os poucos que fazem parte do catálogo de uma editora, há um cruel processo de triagem que nem de longe contempla o valor artístico ou o mérito literário dum livro.
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interior dos bens materiais (os livros) estejam contidos valores imateriais (o que está escrito, os ideais, as teses, a concepção de mundo do autor), no entanto, o importante é que este bem material seja vendido; o objetivo principal do mercado editorial é vender livros, gerar lucro. Por isto, pouco importa o valor literário duma obra, se ela não apresentar perspectivas de lucro. Podemos dizer, então, que ser publicado por uma editora é, de fato, uma legitimação? Sim, evidentemente: é a legitimação de que alguém dentro duma editora considerou seu livro vendável. Nada mais do que isto. É óbvio que passar por esta etapa inicial conduz a outros patamares de legitimação. A União Brasileira de Escritores – UBE só considera, por exemplo, escritor aquele que possui pelo menos um livro publicado. Neste sentido, escritores talentosíssimos que publicam na internet ou mesmo para si próprios não passam de meros diletantes. Também é muito improvável que publicações de renome, como jornais ou revistas, dediquem algu-

ma atenção a autores não publicados. E não podemos nos esquecer dos grandes prêmios literários, que geralmente são concedidos aos melhores livros do ano, ou a autores com algum tempo de estrada e que já possuem vasto currículo literário. Isto nos leva a concluir que apenas após passar no quesito vendável um livro pode ser considerado literário.

a publicação independente
Apesar do domínio que exerce, a existência do mercado editorial é algo relativamente recente, se analisarmos a História da escrita e da publicação. As primeiras evidências de escrita datam de 3500 antes de Cristo, enquanto que a forma do livro como códice ocorreu por volta do século I a.C. Durante muito tempo, a escrita e o acesso a pergaminhos, manuscritos ou livros se restringia à classe sacerdotal e a alguns monarcas. O processo de produção de um livro era lento e dispendioso, isto até ao advento da imprensa, invenção de Johann Gutenberg, em 1450. Esta foi a grande revolução na escri-

O que estes autores, e os leitores também, parecem se esquecer é que as editoras e livrarias são empresas como outras quaisquer. Concordo que no

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ta e tornou o livro, se não acessível ao público, pelo menos viável comercialmente. No entanto, apenas no século XIX, auge da era industrial, a publicação de livros conseguiu reduzir drasticamente os custos de produção e abrir as portas para a cultura de massas. O controle da cultura deixou as mãos do clero e de patronos aristocratas para pequenos editores ou grandes associações que impulsionaram a publicação de livros rumo ao mercado de consumo. Então, a figura do autor publicado por uma editora (como Victor Hugo) dividiu espaço, pela primeira vez, com o autor independente, ou seja, aquele que custeia do próprio bolso a publicação de seu livro (como quase todas as obras de Friedrich Nietzsche), e com o autor-editor, aquele escritor que assume também o papel de editor de seus próprios livros e periódicos (como Balzac, Dickens e Edgar Allan Poe). Estes três modelos ainda vigoram hoje em dia, mas as editoras comerciais acabaram se sobressaindo e obscurecendo os outros dois. E como se caracteriza o autor independente hoje?

Assim como predominou no século XX, a publicação independente é tida como a via de acesso a uma editora comercial, ou apenas como publicação por vaidade. No primeiro caso, o autor custeia a primeira tiragem de seu livro, na expectativa de chegar a alguns leitores, mas, principalmente, de atrair a atenção de editores. Este foi o percurso realizado por quase todos os grandes autores contemporâneos, os quais através de pequenas tiragens iniciais provaram a qualidade e a viabilidade comercial de suas obras. No segundo caso, temos o escritor amador que encontra na publicação independente a possibilidade de suprir o desejo de ver seu livro impresso e vendido (ou distribuído gratuitamente) para amigos e parentes. Não há grandes pretensões comerciais ou literárias, apenas a necessidade de ter em mãos o resultado de meses de trabalho. Todavia, ainda há um terceiro caso, e que resgata uma das propostas do século XIX, do autor-editor, que encontra na publicação independente uma via alternativa para consolidar sua carreira.

o autor-editor no mundo digital
A informatização se caracteriza como a maior inovação na publicação de livros desde Gutenberg. Nunca antes foi tão fácil, barato e rápido produzir e distribuir informação. A internet rompeu todas as barreiras geográficas e materiais do processo de publicação. Por um lado, tem sido possível armazenar todo o tipo de obras, de todas as épocas, em todos os idiomas. Obras raras existentes apenas em bibliotecas pessoais ou livros pouco conhecidos podem ser encontrados sem dificuldades. O critério mercadológico deixa de predominar, e o valor histórico ou literário volta a ser mais importante. Sítios como os do Projeto Gutenberg (www. gutenberg.org), do Internet Sacred Texts Archive (http://www. sacred-texts.com/), do Perseus Digital Library (http:// www.perseus.tufts.edu/hopper/), do Domínio Público (http://www.dominiopublico.gov.br/), entre vários outros, disponibilizam obras de domínio público, muitas que não são reeditadas há décadas por causa da pouca demanda. Por outro lado, a internet permitiu, primordial-

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mente através dos blogs, o nascimento e a divulgação de novos escritores, que encontraram na publicação virtual um acesso imediato a seus leitores, pulando o longo e excludente percurso que passa pelas editoras e livrarias. O autor da era digital fala diretamente para seu público e é, deste modo, igualmente autor e editor de seus textos, já que está sob seu poder determinar qual conteúdo será apresentado. Além disto, a impressão digital tornou possível a publicação de livros em pequenas tiragens, o que facilitou a vida do autor independente na hora de distribuir seus livros em menor escala. Contudo, mesmo com o surgimento de alguns autores de renome através da publicação e divulgação pela internet, o autor independente ou não publicado ainda é recebido com desconfiança em comparação àqueles publicados por editoras comerciais. A falsa legitimação de qualidade das editoras ainda continua sendo a principal legitimação literária, mas que talvez esteja em vias de extinção. Mais do que nunca, a internet tem representado uma forte ameaça à onipresente cultura de massas.

Acima: Johannes Gutenberg, o inventor da prensa móvel, em 1450. Sua invenção permitiu a reprodução em grandes tiragens de livros e revolucionou a cultura global. À direita: os blogs surgiram na década de 90 e se tornaram um fenômeno, primeiro entre os jovens, posteriormente, em todos os níveis de comunicação de massa. Desde então, tem se instaurado uma nova relação entre escritor e leitor, entre criação e recepção.

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Crônica

a morte Sem Vida
Guilherme Augusto Rodrigues

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A morte sempre me fascinou. Ela tem o seu mistério e nunca o deixará. Fascinou filósofos com os mais diversos pensamentos, ateus ou não, escritores e poetas. Representa o fim de um ciclo, por isso pensar nela me faz refletir sobre a vida. Até chegar esse final de ciclo o que se fará, faz ou fez com a vida? Se a morte é o final, a vida é o caminho e o único que, desculpem a “incoerência”, é ramificado em muitos outros e deve-se escolher os melhores. Quantas pessoas passam por todas as etapas da vida, mas, no entanto, não souberam escrevê-las, deixando-as em branco. É preciso surpreender, conhecer o mundo e absorver o que ele oferece de melhor. Tem de aprender e vencer os problemas e defeitos, sempre em busca de conhecimentos e aprimoramentos. A vida é o fruto do mundo. O ser humano faz parte da natureza e cresce por causa dela. Resta-lhe decidir se será um bom fruto ou não. Não é algo que se pode trocar se não gostar, quando se desgasta ou enjoa. Ao se desgastar

é hora de mudar o modo de pensar para melhorar a vida que leva. Para morrer bem, deve-se viver bem. Não se pode acostumar com a vida, tem de ser incomodado com o fato de viver. Conformar-se com a vida significa perder o gosto e o motivo de viver. Não há razão de existir. Cada dia é um novo capítulo que deve ser apreciado com calma, vigor, felicidade e visto como se fosse a primeira vez. Viver não é normal. Quando se torna normal acabam o viço e a magia. A beleza está na natureza, no dia-a-dia, que ao primeiro olhar, parecem simples. Ao se habituar com a vida o homem perde sua capacidade de ver, deixando muitos detalhes da natureza, pois é nela que se encontram as respostas para as perguntas. Tudo está interligado e é essencialmente necessário. É indispensável saber observar. O fato é que se vive por algum motivo sim! Não é um ato em vão. Senão apenas se esperava o momento da morte, mas ninguém o aguarda. Quantas vezes perde-se tempo com coisas supérfluas

que nada acrescentam? Reluta-se, despreza-se, desiste-se e desperdiçase o que seriam muitas oportunidades por falta de conhecimento e não refletir sobre o momento. Isso é falta de crítica. Vicia-se a negar, desprezar e assim permanece-se o mesmo, vivendo no mesmo lugar, continuando a reclamar que tudo poderia ser melhor. Quando menos se espera, deixando tudo para amanhã, a morte chega e pouco viveu, pouco se fez e já não há mais tempo. O homem acha que a vida é longa e nunca morrerá ou virá bem tarde. É mais um que passa em branco, sem conhecer o mundo e a si, sem aprender, sem mudar. O homem acomodouse à sua confortável vida medíocre e sem cabeça devora o que lhe é dado aceitando tudo, seguindo o que lhe é imposto, desvalorizando-se, criando falsos valores e, com eles, buscando incessantemente satisfazer seus prazeres, tornando-a mero acaso. Desta forma, deixa-se de viver com arte.

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Crônica

Pouco racistas
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Joaquim Bispo

A capacidade de miscigenação dos Portugueses foi talvez o grande trunfo para terem conseguido manter possessões coloniais no séc. XVII, atacadas por Holandeses, Ingleses e Franceses. Ao contrário dos Holandeses, por exemplo, que eram de “má boca” e por isso tinham de mandar vir da Europa quase todos os mantimentos, nos 24 anos que permaneceram em Pernambuco, os Portugueses adaptaram-se bem, quer climática, quer gastronómica, quer sexualmente. São famosos os casos de João Ramalho e António Rodrigues que “foram os pioneiros da miscigenação no planalto de Piratininga (S. Paulo). O primeiro casou com Bartira, filha do morubixaba Tibiriçá e o segundo com uma filha do chefe Piquerobi. Estas ligações entre portugueses e índias encontram-se na origem de alguns dos mais importantes troncos paulistas.” “Outro exemplo paradigmático é fornecido por Diogo Álvares, o Caramuru, que teve uma larga prole da sua relação com a índia Paraguaçu – que, após o baptismo, se passou a chamar Catarina Álvares – tendo todas as suas filhas casado com europeus de posição, enquanto três dos seus filhos foram armados cavaleiros pelo 1º governador-geral do Brasil. As primeiras famílias baianas resultam, tal como as paulistas, da miscigenação entre portugueses e índias.” “Na capitania de Pernambuco, o exemplo foi dado por Jerónimo de Albuquerque, que

se relacionou com a filha do chefe Arcoverde, bem como com outras indígenas de quem teve 24 filhos, facto que lhe valeu o epíteto de Adão Pernambucano.” A miscigenação tinha a vantagem de assegurar imunidade genética aos descendentes das índias, face a diversas enfermidades e epidemias. Depois destes cruzamentos de primeira geração, onde entravam Brancos europeus colonizadores, Índios autóctones e, a partir de meados do séc. XVI, Negros africanos, chegados como escravos, muitos outros de segunda e terceira se seguiram, criando uma enorme multiplicidade racial. No séc. XVII, para tentar distinguir as várias variedades que foram brotando de todos aqueles cruzamentos, usavam-se – para os nascidos no Brasil – as seguintes designações: Branco + Branca = Mazombo Branco + Índia = Mameluco Branco + Negra = Mulato Branco + Mulata = Pardo Negro + Negra = Crioulo Negro + Mulata = Cabra Negro + Índia = Cafuso Índio + Mameluca = Curiboca Esta miscigenação em larga escala criou extensas e complexas redes familiares, com o seu cortejo de costumes, crenças e língua, o que formava uma barreira dificilmente quebrável pelo invasor, e terá sido um dos principais factores que travaram as tentativas de instalação de Holandeses e outros. As forças militares do con-

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glomerado pró português que combateram nas duas batalhas de Guararapes (1648,1649) integravam muitos autóctones, de todos os estratos e matizes, alguns dos quais em posição de liderança de blocos combatentes. Os quatro comandantes militares exaltados pela História foram: “João Fernandes Vieira – senhor de engenho de origem portuguesa; André Vidal de Negreiros – brasileiro de origem portuguesa (mazombo) – mobilizou recursos e gentes do sertão nordestino; Felipe Camarão – indígena brasileiro da tribo potiguar – liderou as forças da sua tribo; Henrique Dias – brasileiro filho de escravos africanos libertos – foi o ‘governador da gente preta’ (negros, crioulos e mulatos), oriunda dos engenhos assolados pelo conflito.” O empenhamento coordenado de todo este heterogéneo conjunto foi decisivo na derrota e subsequente expulsão, como corpo estranho, das forças holandesas e determinou aspectos importantes do viver brasileiro futuro. Nota: O post onde, pela primeira vez, publiquei o essencial desta informação é um dos mais visitados do meu blog, o que denuncia o grande interesse que a sociedade brasileira tem por este aspecto da sua identidade. Fontes principais: http:// www.republica.pt/jornal2.htm http://pt.wikipedia.org/wiki/ Batalha_dos_Guararapes

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Crônica

a mais bela das artes
Todas as artes são belas, disso não se pode ter dúvidas. A dança, a pintura, a escultura, o cinema, todas possuem algo que as faz transcender as fronteiras da realidade e aproximar o ser humano da perfeição. Mas, há uma que faz mais do que isso. Uma arte que, além de servir como base para outras, cumpre um papel não só de entreter, como também de informar, de instruir, e de mudar a mente de seus espectadores, ou melhor, leitores. Essa arte é a literatura. Desde que o Homem inventou a escrita, criouse uma necessidade de se registrar o que se via e sentia. E mais: a cultura, que era apenas oral, passada de boca em boca, podia finalmente ser registrada, para nunca mais ser esquecida. Mas, logo o Homem percebeu que poderia também inventar histórias, criando, assim, os mitos, que até hoje emocionam e impressionam a todos, com poderes mágicos, seres extraordinários e fatos insólitos. Com a evolução do

Eder Ferreira

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conhecimento humano sobre o mundo, a arte da escrita se fixou como a mais sublime forma de emancipar o que se descobria. Em muitas obras literárias o caráter de entretenimento praticamente ficou de lado, dando lugar à transmissão de informações, sejam científicas, filosóficas, teológicas ou empíricas. Porém, a beleza e suavidade da literatura sempre a acompanharam. A poesia, por exemplo, pode ser considerada como a representação máxima do termo “Belas Artes”, quando se fala em literatura. Grandes nomes da poesia mundial, como John Milton, Charles Baudelaire, Camões, Fernando Pessoa, e os brasileiros Olavo Bilac, Cruz e Souza, Carlos Drummond de Andrade, entre muitos outros, elevaram a poesia em sua plenitude. Outros gêneros literários, também com o caráter de entretenimento, como o romance, o conto, a crônica, o ensaio, entre tantos outros, fizeram da história da literatura uma das mais respeitadas dentre todas as artes. Vista dessa forma, pode parecer que a litera-

tura desfrute de um rico legado, e que, até hoje, é valorizada. Infelizmente, a arte que mais contribui para a evolução de seus contempladores, tem sido deixada de lado, principalmente em vista de outras artes. A música deixou de ser clássica para ser popular, fazendo com que sua qualidade decaia cada vez mais. O teatro e a dança tornaram-se representações artísticas possíveis apenas, na maioria das vezes, nas grandes cidades. A pintura e a escultura se supervalorizaram e o cinema transformou-se em uma fábrica de dinheiro. E a literatura, talvez a arte de mais fácil acesso, ficou obsoleta, restrita apenas para alguns entusiastas que veem na leitura mais que uma obrigação. A beleza é relativa, cada um tem o direito de achar belo o que quiser. Mas, enquanto o mundo achar que há mais beleza em um CD ou DVD do que em um livro, o termo “Belas Artes” deve ficar engavetado, até que alguém o faça ressurgir.

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Crônica

a idadE da VELhiCE?
Henry Alfred Bugalho

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Quando Caetano Veloso completou sessenta anos, deu uma entrevista dizendo que, aos vinte anos, ele considerava que alguém de sessenta anos era velho, mas, que agora que tinha esta idade, percebeu que ainda se considerava novo. Um professor meu de faculdade, numa aula sobre Heráclito, levantou a seguinte questão: onde está a criança que um dia fomos? Ela deixou de existir, ou ainda continua em nós? Ou o adulto que somos já estava presente na criança? Acredito que ele defendia as mudanças, de que algo deixa de ser o que era de maneira espontânea, que tudo estava em constante mudança, como já havia pensado o filósofo de Éfeso. Minha esposa é, por outro lado, da opinião que nós, seres humanos, somos todos crianças. Nosso corpo cresce, envelhece, somos moldados por nossas experiências, pelas responsabilidades, mas, no fundo, somos as mesmas crianças de sempre. Recentemente, um psicólogo na TV disse algo semelhante: “a idade mental de todos os adultos é de 12 anos”. Tais exemplos me ocorreram hoje após ter recebido um e-mail de uma leitora que me chamava de “senhor”. Não é a primeira vez que isto ocorre, nos últimos tempos. Tenho ouvido alguns

“sirs” por aí, vindo de crianças americanas e, na última vez que entrei para jogar xadrez online, uma garota perguntou por minha idade e, ao responder, ela disse: “ah, eu ainda sou um bebê. Só tenho dezoito anos”. Isto porque nem cheguei à casa dos trinta anos, e estou bem longe de me sentir velho. Se eu parar para pensar, devo ainda ter a mentalidade de doze anos: jogo videogame, como chocolate, hambúrguer, salgadinho, pizza o tempo todo, gosto de acordar tarde e, às vezes, sinto que ainda vejo o mundo com o olhar de uma criança, deslumbrado. No entanto, lembro-me com muita clareza de quando minha mãe, já separada de meu pai, saía nas noites de sábado para ir dançar e eu, um menino com cinco ou seis anos de idade, achava um absurdo que uma velha pudesse querer se divertir. À época, ela tinha pouco mais da minha idade hoje. Também me recordo de como um ou dois anos faziam enorme diferença da hora de escolhermos nossos amigos, na juventude. Um rapaz de 16 anos não andava com um de 13, já possuíam interesses completamente diferentes, uns ainda brincavam enquanto os outros já estavam namorando, bebendo ou fumando. Hoje, ter um amigo cinco (ou até dez) anos mais velho não seria

problema algum, os interesses não mudam muito, há uma certa homogeneização. Então, ainda sem ter muita certeza da resposta, e com o comentário de Caetano Veloso diante de mim, indago-me: qual é a idade da velhice? Chegará um dia no qual eu realmente poderei dizer “estou velho”, que ficarei confortável com o título de “senhor”, que não terei mais a cabeça de um meninote de 12 anos e que não salivarei toda a vez que passar na frente de um McDonald’s? Algum tempo atrás, atravessando a rua para ir almoçar, vi uma senhora de andador, devia ter uns 80 anos, sendo amparada por uma enfermeira. Ela mal conseguia andar, mas havia dado uma acelerada para atravessar a rua. A enfermeira dizia à senhora: “Calma! Calma! Já vamos chegar lá”. A senhora estava indo para o mesmo lugar que eu: uma lanchonete. Ela entrou “correndo”, compraram o sanduíche e a velhinha tacou ketchup na batata-frita. Definitivamente, não envelhecemos. A nossa pele fica enrugada, ficamos mais cansados, mais desgastados, talvez até mais desiludidos, mas a criança está e estará sempre lá, esgueirando-se através das areias do tempo, rindo e pulando, pronta para alguma traquinagem.

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Poesia

Poesia Visual

Carlos Alberto Barros

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Poesia

mais eu

José Espírito Santo

A ingenuidade e o conhecer das idades são canções cantando-se, são pedra lisa a rolar na enseada ao sabor da onda Perto de longe do grito das águias,
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dos gritos que nos faz a distância Longe de perto desperto do sorriso cálido, a ingenuidade e o conhecer das idades cumprimentam-se Enquanto o movimento prende o tempo e o escritor desfia, insano, palavras Desfia como que traça linhas ao desafio no céu Enquanto a vida corre, eu me tempero...

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Na rua

Mariana Valle

Quero te comer na rua, com raiva, na pressa. Não dá tempo de ficar nua. Vamos logo Não quero romantismo, quero desejo puro e simples, quero a força do tesão. Não preciso do teu cinismo, preciso da tua paixão. Anseio sentir tua carne e tua veia pulsando em mim meu mar te molha e esquenta e eu fico louca te tendo assim.
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ao que interessa.

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Poesia

Laboratório Poético:

dESESPEro E PÁSSaroS CarNiCEiroS
Volmar Camargo Junior

Esquecimento
(revisitado) i. ecoa em cada quadro dessa galeria a justeza por que caminho, e a aspereza do alheio as mãos que não trazem calos os impossíveis desapegos um panorama do que não possuo a perfídia do leito cada hora perdida cada fio de cabelo os princípios e os fins as cãibras, o suor o cheiro de noite e os sonhos a tortura, a morte, a dor, o rancor e a solidão o que de mim não se enamora sussurra uma voz com cheiro velho “ouço estrelas”, sabe-me o destino todo fujo

ii. persegue-me insistente o eco que ecoa e ecoa e ecoa nesse templo vazio e oco buscam-me mortas as coisas, mortas as horas, as letras, mortas o nunca, o nada, o pó de uma rua velha, numa casa velha, num mundo invisível e velho ainda desperto ante o corredor áspero e poeirento sinto a frialdade do seu hálito em cada quadro dessa galeria ecoam o velho e o sono, ecoam o verbo e o verso vencido, desisto da fuga devora-me uma fome urgente que não tem nome sou engolido pelo torpor do esquecimento

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o Cadáver
abandonadas sobras da caçada às moscas, mais nada (e se delas esqueceu-se Deus? nem os vermes as reconhecem) olhou-as, pois, o urubu uma por uma, inútil sentiu-se nu, e fugiu

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Poesia

blavinos
Ju Blasina

Blavino Nº 12 – o P ó
O Hoje Nada mais É que o futuro Do ontem – Passado Como é o hoje ao amanhã Que espero encontrar presente Às minhas lembranças e Esperanças o tempo É só uma gaveta Onde guardo-me em Pó

Blavino Nº 6 – Im.permanência
Eu Juro em vão: Não sou à toa, ateu Ou pagão. Só não sirvo Pras coisas sérias – verdades São tão etéreas quanto à própria existência Paciência é fingir-se de morto enquanto o mundo explode Algo em mim nunca dorme - sempre trago Por dentro um vulcão latente, In. Constante. Mente Livre e por ora Vestida de Mim

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poesias
Ju Blasina
(meu) Fim
A sombra da vida Essência insensata Ou certeza inata? Verdade ingrata. O caroço das coisas e a casca também O miolo do mundo O fundo, o além A cinza das horas Do mal ou do bem? O pouco de tudo Faz louco de mim O amargo interno O etéreo eterno O (meu) fim

BaNquEtE
Sobre a bandeja de prata Eu sou o prato Nua e crua Eu sou tua Refeição Sinta o aroma Satisfação A pele branca De marfim Toque o veludo O cetim Aprecie Sacie A fome Sirva-se Dentes e talheres Sobre mim Rasgue a pele Corte a carne Tenra Beba o sangue Quente Saboreie O líquido acre-doce Que escorre de mim Beba-me, Antes que o sangue esfrie Coma-me Antes que a carne morra Devore-me Antes que já não haja Mais nada Pra provar em mim E ao final Erga a taça Lamba o prato Não deixe migalhas Daquilo que um dia fui Mortas e esquecidas Sobre a bandeja de prata

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O lugar onde

a boa Literatura
é fabricada

ficina
www.oficinaeditora.com
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A Oficina Editora é uma utopia, um nãolugar. Apenas no século XXI uma vintena de autores, que jamais se encontraram fisicamente, poderia conceber um projeto semelhante. O livro, sempre tido em conta como uma das principais fontes de cultura, tornou-se apenas um bem de consumo, tornou-se um elemento de exclusão cultural. A proposta da Oficina Editora é resgatar o valor natural e primeiro da Literatura: de bem cultural. Disponibilizando gratuitamente e-books e com o custo mínimo para livros impressos, nossos autores apresentam a demonstração máxima de respeito à Literatura e aos leitores.

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SAMIZDAT
Edição, diagramação e capa
Formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor de quatro romances e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e um dos fundadores da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”. Mora, atualmente, em Nova York, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha. henrybugalho@gmail.com www.maosdevaca.com

SOBRE OS AUTORES DA

henry alfred Bugalho

Revisão
Inconformado com a própria inaptidão para dizer algo sem ser através de subterfúgios, abdicou de parte de suas horas diárias de sono, tentando domar a sintaxe e adestrar a semântica. Depois de perambular pelo Rio Grande do Sul, acampou-se na brumosa, fria, úmida, às vezes assustadora – mas cercada por um cenário natural de extrema beleza – Canela, na Serra Gaúcha. Amargo e frio, cálido e doce, descendente de judeus poloneses, ciganos uruguaios, indígenas missioneiros, pêlos-duros do Planalto Médio, é brasileiro, gaúcho, e, quando ninguém está vendo, torcedor do Grêmio Futebol Porto-alegrense. Autor dos blogs “Um resto de café frio” e “Bah!”.
v.camargo.junior@gmail.com http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj

Volmar Camargo Junior

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Assessoria de imprensa
Por um amor não correspondido, a carioca de Copacabana começou a poetar aos 12 anos. Veio o beijo e o príncipe virou sapo. Mas a poesia virou sua amante. Fez oficina literária e deu pra encharcar o papel com erotismo. E também com seu choro. Em reação à hipocrisia e ao machismo da sociedade. Atuou como jornalista em várias empresas, mas foi na TV Globo onde aprimorou as técnicas de redação e ficção. E hoje as usa para contar suas próprias histórias. Algumas publicadas em seu primeiro livro e outras divulgadas nos links listados em seu blog pessoal: www.marianavalle.com

mariana Valle

Colaboração
Ex-técnico de televisão, xadrezista e pintor amador, licenciado recente em História da Arte, experimenta agora o prazer da escrita, em Lisboa. episcopum@hotmail.com

Joaquim Bispo

Jornalista, escritora e roteirista, é autora do livro “Não Abra” e do blog “Não Clique”. Apesar das negativas, esta carioca quer, sim, ser lida - como todo escritor. Tem dias de conto, de crônica e de pílulas sem sentido. Suas paixões: cinema e livros com cheiro de novo - se bem que adora se perder nos sebos da vida.

Barbara Duffles

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Paulistano, filho de nordestinos, desenhista desde sempre, artista plástico formado, escritor. Começou sua vida profissional como educador e, desde então, já deixou seu rastro por ONG’s, Escolas e Centros Culturais, através de trabalhos artísticos e pedagógicos – experiências que têm forte influência sobre seus escritos. Atualmente, organiza oficinas de ilustração para crianças, estuda pós-graduação em História da Arte e escreve para publicações na internet.
carloseducador@hotmail.com http://desnome.blogspot.com

Carlos Barros

Nasceu em Siqueira Campos, no dia 27 de dezembro de 1980. Formou-se no curso de Matemática, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Jacarezinho (FAFIJA). Funcionário público municipal na cidade de Siqueira Campos, trabalha junto ao Departamento de Cultura, coordenando projetos de incentivo à leitura e à criação literária. Também exerce a função de professor de informática e secretariado administrativo no Centro Educacional Integrado Plovas Informática (CEIPI). Trabalha ainda, de forma autônoma, com livros personalizados para presentes. Sua ligação com a literatura já é de longa data.

Eder Ferreira

Autora de Meninas Malvadas, A Pequena Bailarina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou Belas Artes, Psicologia e foi comissária de bordo. Gosta de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente panorama da sociedade em que vivemos.

Giselle Sato

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Estudante de Letras na Universidade do Sagrado Coração, em Bauru, onde sempre morou. Nutre grande paixão por Línguas, Literatura e Lingüística, áreas a que se dedica cada vez mais.

Guilherme rodrigues

Informático com licenciatura e pós graduação na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, trabalha há largos anos em formação e consultoria, sendo especialista em Bases de Dados, Sistemas de Gestão Transaccional e Middleware de “Messaging”. A paixão pela escrita surgiu recentemente, tendo no ano de 2007 produzido os livros “Esboços” (contos) e “Onde termina esta praia” (poesia). Vive com a família em Alverca, uma pequena cidade um pouco a norte de Lisboa, Portugal.

José Espírito Santo

Gaúcha de Porto Alegre. Não gosta de mensurar a vida em números (idade, peso, altura, salário). Não se julga muito sã e coleciona papéis - alguns afirmam que é bióloga, mestre em fisiologia animal e etc, mas ela os nega dizendo-se escritora e ponto final. Disso não resta dúvida, mas como nem sempre uma palavra sincera basta, voltou à faculdade como estudante de letras, de onde obterá mais papéis para aumentar a sua pilha. É cronista do Caderno Mulher (Jornal Agora - Rio Grande - RS), mantém atualizado seu blog “P+ 2 T” e participa de fóruns e oficinas virtuais, além de projetos secretos sustentados à base de chocolate e vinho, nas madrugadas da vida.

Jú Blasina

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Nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor público e amante da literatura. Formado em Comunicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas “Retratos Urbanos” em 2008 pela Editora Andross.

Léo Borges

Médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, trabalha como psiquiatra e psicanalista. Apaixonada por literatura e línguas estrangeiras, lê sempre que pode e brinca de escrever de vez em quando. Paulistana convicta, vive desde sempre em São Paulo.

marcia Szajnbok

Gaúcha nascida na pequena cidade de Pirapó, começou a sonhar em ser escritora tão logo aprendeu a ler. Escreve principalmente contos nos gêneros mistério, suspense e terror, além de crônicas.

maristela deves

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Também nesta edição, textos de
Barbara Duffles Carlos alberto Barros Eder Ferreira Giselle Natsu Sato
http://www.flickr.com/photos/st-stev/155466775

José Espírito Santo Jú Blasina Léo Borges marcia Szajnbok mariana Valle maristela Scheuer deves Volmar Camargo Junior

Guilherme rodrigues henry alfred Bugalho Joaquim Bispo

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