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O Espaço Urbano

José Carlos Lage

Teoria e História do Urbanismo e Paisagismo 1
Profa. NOEMI YOLAN NAGY FRITSCH 2013

Origem e Organização do Espaço Urbano
O surgimento das cidades não pode ser atestado por uma data precisa, pois os registros e informações arqueológicas são muito imprecisos no tempo e no espaço. Existem evidências aproximadas do que seriam as primeiras aglomerações humanas conhecidas como cidades. Segundo Duarte:
“Os estudiosos do assunto acreditam que as primeiras cidades surgiram por volta do ano de 3.500 a.C., há aproximadamente 5.500 anos na Mesopotâmia (no território do atual Iraque)”.

DUARTE, Ronaldo Goulart. A cidade, que lugar é esse?. São Paulo. Editora do Brasil, 2003, p.09 . (Coleção Geografia em revista)

. A cidade passa a ser o “locus” dessas transformações. A partir da Idade Moderna (século XV). científicos. a força dos lugares se fez presente. enterro dos mortos. construção de abrigos mais complexos estética e funcionalmente e estratificação social). Passa a ser possível a liberação de indivíduos para outras atividades não-rurais. as sociedades foram adquirindo mais conhecimentos técnicos e complexidade nas formas de organização sócio-espacial.Como tudo começou Com o tempo. políticos e jurídicos oriundos do Capitalismo. ainda de forma lenta. agricultura. a cidade se configura de uma vez por todas como centro de poder e decisão. Com a Revolução Industrial e os avanços técnicos. à medida que as técnicas agrícolas se ampliam e que começa a haver excedentes da produção. O nomadismo dos primeiros grupos humanos deu lugar a estruturas sedentárias (formação de núcleos familiares. sendo o espaço urbano o resultado disso.

C.200 a.C. Harappa Mohenjo-daro Ugarit (cidades Romanas) Biblos (cidades Gregas) . Egito 3. Eridu Ur Babilônia Tebas Mênfis Vale do rio Indo (Paquistão) 2. Mediterrâneo e Europa 1.200 a.C.500 a.500 a.As primeiras cidades Mesopotâmia 3.C.

Novo Novo Mundo Mundo 150 a. Editora do Brasil.500 a. (Coleção Geografia em revista). p. Ronaldo Goulart.41 in DUARTE. que lugar é esse?. Origem e Evolução das Cidades. p. Zahar. a. . Rio de Janeiro.C. 2003. A cidade. São Paulo. Anyamg Chengchou Teotihuacan Dzibilchaltun SJOBERG. 1977.09 .C.C. Gideon.As primeiras cidades China 1.

abastecimento de água.Cidades importantes e suas localizações junto a rios – Vales férteis. pesca e via de circulação Rio Tâmisa Rio Tigre Rio Hudson Rio Tibre Rio Nilo Rio Sena .

uma área urbana conta com uma cidade. Ao contrário da zona rural. ou subúrbios. Em geral. . as áreas urbanas não se ocupam com agricultura. Comumente a densidade demográfica urbana é elevada”. e regiões periféricas. que é o núcleo.Conceitos de urbano e urbanização “Urbano tem a ver com cidades ou vilas.

. local de concentração de atividades comerciais. São Paulo. Tais usos definem áreas. como o centro da cidade. 05. Esse complexo conjunto de usos da terra constitui a organização espacial da cidade ou. justapostos entre si.“O espaço da grande cidade capitalista constitui-se.O Espaço Urbano. o espaço urbano. p. de serviços e de gestão. num primeiro momento. áreas residenciais distintas quanto à forma e ao conteúdo social. as de reserva para futura expansão. áreas industriais. CORRÊA. que aparece assim como espaço fragmentado”. entre outras. simplesmente. no conjunto dos diferentes usos da terra. 1993. Roberto Lobato. Ática. de lazer e.

No Brasil. o Judiciário (o fórum). São Paulo.Coleção Geografia em revista. que lugar é esse?.500 Hab.). Venezuela – 2./km2. Editora do Brasil. isto é. cidade é toda sede do município onde se situa o Poder Executivo (prefeitura). o critério é pelo aspecto políticoadministrativo.. Ronaldo Goulart. A cidade.000 hab. o que define uma cidade é o número de habitantes que ela possui. “Lugares com legislativo. Senegal – 10. com mais de 5 mil hab. características urbanas pronunciadas e 3/4 da população adulta masculina empregada em atividades nãoagrícolas” é uma cidade. pois os critérios utilizados pelos administradores urbanos são diferentes do ponto de vista jurídico ou sócioeconômico-espacial (DUARTE. em muitos casos. Exemplos: Suíça – 10. Legislativo (Câmara Municipal) e. Para a Índia. . Venezuela e Senegal.000 Hab.As definições de cidade Os significados do que chamamos cidade variam. uma densidade maior que 390 hab. 2003 . Para Suíça.

Pierre. seus habitantes e sua idade. mais ou menos integrados entre si. cada um com sua fisionomia. Novos estudos de Geografia humana brasileira. formam a cidade. resultantes de sua função. Um bairro urbano tem uma feição que só a ele pertence. objetos. “Uma cidade é um conjunto de bairros. uma alma”. MONBEIG. ações e relações. uma vida particular. Os bairros. .Cidade: lugar de pessoas.

Estrutura interna das cidades Núcleo Central Zona periférica do centro Subúrbio Periferia Urbana Modelo de Ernest W. Burgess (1925) .

Penha de França. concentração populacional diurna. reproduzem em escala menor os atrativos do centro. que. Santana. na cidade de São Paulo. ampla verticalização. limitada horizontalidade.Caracterizações das estruturas Núcleo Central (Central Business District – CBD) “Grande diversidade de atividades sócio-econômicas. Afastados dos centros. há os subcentros. Exemplo: Lapa. Santo Amaro. São Miguel Paulista. foco de transportes intra-urbanos e área de decisões e poder”. Centro de Los Angeles Centro de São Paulo . a grosso modo.

ampla escala horizontal. limitado crescimento vertical. Zona Sul de Pittsburgh Bairro da Lapa – Rio de Janeiro .Zona Periférica do Centro (Zona de Obsolescência) “Semi-intensividade das atividades sócio-econômicas. residências de baixo status social e foco de transportes inter-regionais”. beneficiando-se da proximidade da área central.

Nos países ricos.Subúrbio “Ambigüidade de conceitos.Hollywood Subúrbio do Rio de Janeiro – Bangu . as amenidades e o poder público são mais presentes e as classes mais abastadas preferem esses espaços para viver. Subúrbio de Los Angeles . muitas vezes é lugar de menos atrativo e sofisticado”. Nos países pobres ou em desenvolvimento.

Periferia Urbana “Ocorrência em grande escala de conjuntos habitacionais populares. Cidade do México Vila Aliança – Rio de Janeiro Vila Kennedy – Rio de Janeiro . processos de autoconstrução e construções irregulares em terrenos pouco ou nada valorizados. Sua incidência é mais comum nos países pobres”. conhecidos como favelas.

2002. Geografia Geral e do Brasil: espaço geográfico e globalização. pelos quais fluem pessoas. Já nos países periféricos. Eustáquio de & MOREIRA. João Carlos. Scipione. interligadas umas às outras pelos sistemas de transportes e comunicações. informações. Região Metropolitana de Los Angeles Adaptado de SENE. dentro de cada país.Redes urbanas Região metropolitana do Rio de Janeiro “São formadas pelo sistema de cidades. apresentamse descontínuas ou embrionárias”. as redes são mais complexas e dinâmicas. etc. mercadorias. Nos países ricos. São Paulo. .

2002.A hierarquia urbana “Conceito militar (séc. Esquema atual B E A D Esquema clássico C A Legenda A – Metrópole Nacional B – Metrópole Regional C – Centro Regional D – Cidade Local E – Vila B C D E Adaptado de SENE. Scipione. longe dos centros metropolitanos. . João Carlos. com a modernização e barateamento dos meios de transporte e comunicação. XIX). conforme seu grau de importância e poder sócio-político-econômico-cultural. Dá idéia de subordinação entre cidades. Eustáquio de & MOREIRA. para definir relações entre cidades dentro de de uma rede. Geografia Geral e do Brasil: espaço geográfico e globalização. temos uma nova configuração ‘hierárquica’ mais flexível”. No passado. essa estrutura hierarquizada de cima para baixo era coerente. e com a diversificação e intensificação de atividades em cidades pequenas e médias. Hoje. São Paulo.

Champs Élysées . Ou seja. agricultura ou centro de poder). turísticas (riqueza natural. conforme sua história e sua geografia. de negócios (capacidade de gerenciamento.Paris Ouro Preto – MG Copacabana Porto de Santos Brasília Sambódromo Detroit – EUA . Há cidades portuárias (litoral recortado). cultural ou de lazer). indústria. são construídas ao longo do tempo sobre um determinado sítio.Funções urbanas “Podemos entendê-las pelas potencialidades e vocações de uma cidade.

cheio de símbolos e campo de lutas) é o produto social das ações acumuladas no tempo. Essa ação leva a uma constante reorganização espacial através da incorporação de novas áreas à cidade. adensamento do uso do solo.Dinâmica da organização interna das cidades “O espaço urbano capitalista (fragmentado. renovação urbana. o Estado e os grupos sociais excluídos. instalação diferenciada da infra-estrutura e mudança. reflexo e condicionante social.os promotores imobiliários. p. São Paulo. A ação destes agentes é complexa. deterioração de áreas. do conteúdo social e econômico de certas áreas da cidade”. os proprietários fundiários. das relações de produção e dos conflitos de classe. Os agentes sociais são os proprietários dos meios de produção. resultado da acumulação de capital. 1993. articulado. forçada ou não. Ática. Roberto Lobato.O Espaço Urbano. CORRÊA. efetuadas por agentes concretos que produzem e consomem o espaço. 05 .

Londres Royal Court Theatre – King’s Road . Não são estáticos e podem ser retrabalhadas e transformadas conforme interesses e mudanças dos grupos humanos que os utilizam. Têm forma e função que lhes dão um significado particular. A partir de 1830. Ex. Ponte do Brooklyn – Liga Manhattan ao brooklyn Carioca Shopping – Vila da Penha . tornou-se um bairro elegante e badalado. havia casas de trabalhadores. XVIII e XIX.: 1) Arcos da Lapa . se tornou via de circulação para os bondes da cidade). Hoje as ruas exibem lojas e restaurantes caros”.RJ Trens Eurostar – Estação de Waterloo .Kensington e Chelsea Londres. 2) Sloane Square . forma e função “Equipamentos urbanos são objetos e construções dentro da cidade.Londres Catedral de Notre-Dame – Paris Arcos da Lapa .RJ . nos séc. Dela sai a King's Road.Os Equipamentos urbanos. onde.Rio de Janeiro (de aqueduto.

S. Milton.A Cidade ao longo do tempo – As transformações nos Fixos e nos Fluxos As fotos mostram mudanças ao longo do tempo. Esse também é o caso de grandes edifícios. Hucitec. funcionando sistematicamente. armazéns. Um grande supermercado ou shopping center não podem existir se não forem servidos por vias rápidas. razão e emoção. Os portos e as redes rodoviária e ferroviária de um país são exemplos de objetos complexos e sistêmicos”. Segundo SANTOS: “Cada objeto é. transporte público com horários regulares e se. na lógica capitalista. SANTOS . um sistema. Rua Barata Ribeiro – década de 20 Rua Barata Ribeiro – década de 90 Avenida N. S. as atividades não forem coordenadas. estacionamentos adequados e acessíveis. que são o resultado das interações dos indivíduos. de Copacabana – década de 90 . no seu interior. A natureza do espaço: espaço e tempo. de forma constante e sistêmica. em si mesmo. 175. de Copacabana – década de 50 Avenida N. p. São Paulo. etc. silos. 1999.

Técnica. se já não nascem assim”. SANTOS. que fazem com que essas aglomerações humanas densamente construídas percam a naturalidade e não representem mais um espaço de cidadania. . em seguida necrópole. as cidades destinadas a ser grandes crescem rapidamente. freqüentemente a capital ou a área urbana mais importante de um país. Espaço e tempo: Globalização e meio técnico-científico-informacional. estado ou região”. Metrópoles de países periféricos são transplantações do modelo urbano dos países centrais. e rapidamente se transformam em necrópoles. 1998. Por isso há uma crítica a essa estruturação espacial. Já no Terceiro Mundo. Milton. segundo Lewis Mumford. Marcada pela relação de hierarquia em redes urbanas e pela lógica do capital. Hucitec. seria o destino final da evolução das grandes cidades européias e norte-americanas. 74. p.A metropolização nas áreas centrais e periféricas do capitalismo “Metrópole é uma grande cidade. São Paulo. De acordo com SANTOS: “Nascer cidade e tornar-se lentamente metrópole e.

Segundo CORRÊA (1993). Assim são as diferenças do espaço urbano e a sua apropriação por quem tem maior poder aquisitivo.RJ . Indiretamente atua através do Estado. gentrificação. deixando para boa parte da população a ocupação em espaços sem atrativo e de baixo ou nenhum valor econômico. Rocinha e São Conrado .A segregação sócio-espacial Segundo DUARTE (2003): “na sociedade capitalista. a incorporação imobiliária e a construção.” Seaside. Flórida (cena do filme “O Show de Truman“) O Novo Urbanismo mostra um grande aumento dos condomínios fechados. algo que se compra e vende. “A classe dominante segrega os outros grupos sociais. pois controla o mercado de terras. o solo urbano é uma mercadoria. e o acesso a uma moradia melhor ou pior vai depender do nível de renda das pessoas”. ou áreas de risco. direcionando seletivamente a localização destes na cidade. conservadorismo estilístico. homogeneidade e uma imagem geral de intolerância.

Apesar disso. p. mas de uma cidade da Zambézia ou da Cochinchina. aumentam seus lucros pela valorização dada pela chegada dessas benfeitorias patrocinadas pelo dinheiro público. A Zona Norte do Rio. São Paulo. Os ricos. Para mim. ele é um grande prefeito. Vê-se bem que a principal preocupação do atual governador do Rio de Janeiro é dividi-lo em duas cidades: uma européia e outra indígena”. nesse sentido. comprando mais barato antes. da época. . articuladas com o Estado (pois é ele quem financia as obras de infra-estrutura que farão valorizar os terrenos já apropriados pela elite). Carlos Sampaio é um excelente prefeito. dá idéia da péssima atuação do Poder Público na gestão democrática dos recursos e melhorias na cidade como um todo: “O Dr. 1956. Eu sou habitante da cidade do Rio de Janeiro e até nela nasci. quase não sinto a ação administrativa de Sua Excelência. Lima. não há dúvida alguma.Estudo de caso: A especulação imobiliária e o papel do Estado no Rio de Janeiro As obras públicas do início do séc. Brasiliense. XX no Centro do Rio (então capital do Brasil) marcaram o crescimento da especulação imobiliária sobre áreas da cidade. BARRETO. Essas áreas foram ocupadas pelas pessoas mais ricas. 117-9. O artigo abaixo. pode ser entendida então como um paradoxo: tem seu crescimento espacial e demográfico ligado ao aumento de investimentos de capitais e melhoramentos estéticos na Zona Sul e parte da área Central. Marginália: artigos e crônicas.

na metade do séc. & RIBEIRO. n. não tinha condições de salubridade desejáveis para os negócios e a preservação do próprio mercado interno. com serviços muito abaixo do aceitável: a) 1862 – Concessão à empresa inglesa Glenn & Mills Co.. c) 1873 – Inauguração da linha de bonde Rio de Janeiro Streets Railway Co . Vol./dez. Um dos seus maiores problemas era o saneamento básico ”. do monopólio da exploração da rede de esgotos do centro da cidade. b) 1868 – Inauguração da 1ª. d) 1901. Por isso. 1985). (Zona Norte). XIX. Venício T. 1985. beneficiando o aristocrático bairro de Botafogo). sobretudo estrangeira. I.1906 – Reforma urbana na administração de Pereira Passos (bota. Botânico e Laranjeiras. O Rio onde o sol não brilha: acumulação e pobreza na transição para o capitalismo in Revista Rio de Janeiro. linha de bonde da empresa norte-americana Botanical Garden Railroad Co . EDUFF.abaixo) – alargamento das ruas e expulsão dos pobres. c) 1901 – Ampliação da área de atuação da Botanical Garden para os bairros da recém ocupada Zona Sul da cidade. . Adaptado de SOLIS. em áreas de infra-estrutura.1 (set. Niterói. (inicialmente no centro e em 1871 para o Jd. Sydney Sérgio F. foram firmados grandes contratos com a iniciativa privada.Parcerias do Poder Público com o privado no Rio de Janeiro (séculos XIX – XX) Segundo Solis & Ribeiro “o Rio.

mídia e os mais variados serviços e produtos que existem. bolsa de valores. algumas grandes cidades ficaram tão conhecidas mundialmente e com um poder de influência tão vasto que merecem o nome de cidades mundiais ou cidades globais”. Frankfurt – Bolsa de valores Tóquio – Centro comercial e financeiro . Essas cidades têm uma população grande e abrigam as sedes de bancos. empresas.As cidades globais Nova York – Bolsa de valores em Wall Street Segundo DUARTE. universidades. “Com a ampliação da urbanização.

Créditos: Prof. . José Carlos Lage.