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Revista Litteris – ISSN: 19837429

n. 9 - março 2012

Texto e Intertextos na obra de Amós Oz – uma leitura de O Mesmo Mar Flávia Albergaria Raveli ( USP)1

Resumo: Este artigo propõe uma leitura da obra do escritor israelense Amós Oz O Mesmo Mar a partir da perspectiva de uma relação intertextual com o texto bíblico. Esta pode ser compreendida e definida segundo a tradição da leitura talmúdica, ainda que fora dos parâmetros canônicos. Tal interpretação define-se por uma exigência interpretativa do próprio texto e estende-se ao mundo laico. Ela é um elemento fundamental no romance em questão e em minha leitura da obra de Amós Oz. Trata-se, então, de uma dupla interpretação: a de Amós Oz sobre o texto sagrado e a minha do romance deste escritor. 253

Palavras-chave: dialógica; psicanálise.

literatura

israelense;

interpretação;

judaísmo;

filosofia

Abstract: The aim of this paper is to propose a reading of the book O Mesmo Mar (The Same Sea) by Amos Oz that focuses on the intertextual relationship with the biblical text. This dialogue can be understood from the perspective of the tradition of Talmudic reading, even outside of canonical parameters. This form of interpretation is defined by a requirement of interpretation of the text itself and extends to the secular world. It is a key element in the novel in question and in my reading of the work of Amos Oz. It is then a double interpretation: Amos Oz on the sacred text and my own interpretation on the novel of this writer.

Key words: Israeli literature, interpretation, Judaism, dialogical philosophy, psychoanalysis.

1Flávia Albergaria Raveli (Universidade de São Paulo, São Paulo, Brasil, flavinharaveli@gmail.com, http://lattes.cnpq.br/6360316764773571). Historiadora formada pela USP, com mestrado em História Social (1998); ampla experiência no ensino superior; formação em Psicanálise pelo CEP, doutoranda no Instituto de Psicologia da USP sob orientação de Luís Claudio Figueiredo com a tese (a ser defendida até o fim de 2012) “De Amor e Trevas- Textos e intertextos na obra de Amós Oz”. Revista Litteris -Número 9 - Ano 4 www.revistaliteris.com.br

Revista Litteris – ISSN: 19837429

n. 9 - março 2012

Proponho uma leitura do livro de Amós Oz “O Mesmo Mar” que enfatiza seu viés intertextual e dialógico, próprio da obra deste escritor. Neste livro, reconhecemos referências a textos bíblicos como o Eclesiastes, o Livro de Jó e o Cântico dos Cânticos, entre outros, os quais ilustram e comentam a narrativa ficcional numa relação de mãodupla. Os textos sagrados são ampliados pela ficção de Oz numa tradição de caráter midráshico estendida ao mundo secular. Neste sentido, o midrash é a própria abertura e condição intervalar da leitura e do texto que exige interpretações. Reciprocamente, esse midrash de Amós Oz ilumina o viés de intérprete do escritor, transitando entre o lugar de ficcionista e leitor. Este exercício integra minha leitura da obra de Amós Oz e se justifica em função do caráter intertextual desta escritura, elemento privilegiado em minha interpretação. O Midrash origina-se na tradição talmúdica e define-se como 254

Método homilético de interpretação bíblica no qual o texto é explicado diferentemente de seu significado literal. (...) é também o nome dado a várias coleções de tais comentários bíblicos, compilados da Torá oral. A natureza do Midrasch é ilustrada na imagem de um martelo que espedaça a rocha da Torá em muitos fragmentos. (...) O Midrasch foi usado para conciliar contradições na escrita, para expressar idéias teológicas de forma imaginosa e para trazer uma mensagem contemporânea do texto bíblico às pessoas do povo. (Unterman, 1992, pp. 174-175) Segundo Enrique Mandelbaum

A palavra midrash vem da raiz drash, que significa estudar, investigar, pesquisar, buscar. (...) E o que emerge do midrash, um feixe de sentidos advindos do poder conotativo resultante tanto da fabulação organizada quanto das palavras utilizadas, aponta para o texto fundante de um modo que o esclarece, desdobrando-o em sua significação e não o amarrando numa definição fechada. (Mandelbaum, 2003, p. 166) Dessa mesma raiz também deriva o termo exigir. Como se a própria leitura do texto sagrado exigisse do leitor uma dedicação permanente ao texto, de forma a criar desdobramentos quase infinitos a partir da relação que se constrói entre leitor/intérprete e texto. Como vamos mostrar mais adiante, os trechos bíblicos aparecem transformados, Revista Litteris -Número 9 - Ano 4 www.revistaliteris.com.br

Eles estão sós diante de Deus e este lhes é inacessível por definição. que é seu verdadeiro ouvinte.Ano 4 www. Seus midrashim (comentários do texto bíblico) dialogam com a narrativa ao mesmo tempo em que parecem alheios a esta.revistaliteris. O Mesmo Mar é um romance escrito em forma poética. mas claramente identificados e ancorados em sua matriz bíblica.com. Veja Jó. um narrador que transita entre a terceira pessoa e a onisciência e um narrador oculto que se distancia para que os personagens tomem a palavra. Sua possibilidade de movimento vem de seu lugar intervalar e de sua condição intertextual. podemos pensar que a literatura de Oz é atravessada e profundamente determinada pela questão da liberdade e da ética na sua forma e conteúdo. Em ambas as formas – poética ou narrativa. Assim.2 Por outro lado. Salomão. Forma e conteúdo combinam-se em solilóquios estanques. a palavra bíblica parece também sugerir que sempre há mediação em qualquer relação.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. Nele. escritor e leitor. O narrador em trânsito é o do discurso (ou estilo) indireto livre. São Paulo: Cosac Naift. como é próprio da leitura midráshica. feito de narrativas curtas que constituem um todo. com muita flexibilidade. mais próxima do romance – trata-se.” Como funciona a ficção. 2011 Revista Litteris -Número 9 . Abraão. um discurso direto com o indireto de modo a criar espaço para que emerja o próprio fluxo da consciência. assim denominado porque alterna. os personagens deparam-se com a dificuldade das relações. de um outro lugar. Como em toda a obra do escritor. favorece e salienta o caráter midráshico do livro no qual uma família e seu entorno se desentende após a morte da mãe e da “fuga” do filho único para as montanhas. semelhantes a poemas. personagens. James Wood fez o belíssimo comentário: “Sentimos que Davi nos é opaco precisamente por ser transparente a Deus. A forma poética deste romance. Oz traz para a cena uma outra voz. montar a cena ou a moldura para que a polifonia se realize. o escritor dissesse aos personagens e leitor: não há outro lugar para conversar e viver além da vida. de dar voz aos personagens. “encontram-se” na tarefa de se haver com suas escolhas e com a responsabilidade intransponível e solitária que elas encerram. Como se dessa forma. intercala-se um sujeito lírico ou poético – próprio da poesia em que não há narrador – .março 2012 integrados à narrativa do romance. 9 . A heterodoxia da forma do romance em Amós Oz está intimamente relacionada a esse “imperativo” ético. a meu ver. 255 2 Sobre o texto bíblico.br . Em suas brechas. Neste aspecto.

é levado a isso. A inspiração midráshica deste livro parece também obedecer a esse “imperativo de liberdade” expresso na sua forma e conteúdo. Amós Oz parece estender ou mesmo “explodir” a forma clássica do romance para se aproximar da narrativa bíblica e/poética com a qual dialoga em intertextos. no entanto. e sua autoria é atribuída ao rei Salomão3 em função de seu conhecimento e inserção na cultura grega expressos nesse texto. Bloom identificam aspectos de integração à cultura helenizada do Qohélet em suas referências terrenas que. sem polarizar sua escolha pelo romance ou pela narrativa. mas mantendo os paradoxos que a caracterizam. 9 . dizem os autores.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. cujo estatuto sagrado advém de seu ethos. O Qohélet. em latim integra os escritos sapienciais e poéticos da Bíblia Hebraica. Revista Litteris -Número 9 . entretanto. Os críticos literários Jacó Guinsburg e H. Mantém-se. este texto se assemelha ao Livro de Jó. a estrutura do romance. premido pelo sofrimento que sobre ele recai sem motivo aparente e compreensível aos olhos (e coração) humanos. estendendo-o – ultrapassando-o. cujos personagens encontram-se numa narrativa comum. Ou.com. diante do insondável. sua condição de transitoriedade e errância que confere certa aura de “sacralidade” ao comentário. ainda que este nem sempre lhe responda.revistaliteris.conhecedor da tradição grega.br .Bloom afirma que Salomão não é o autor do Qohélet nem do Cântico dos Cânticos (ou Cantar dos Cantares. Diferentemente do texto bíblico. embora “entrecortada” e diluída na forma poética do livro. mas entende que a autoria lhe foi atribuída em função de sua condição de rei sábio.março 2012 Neste livro. 3 256 H. Neste aspecto. na ficção de Amós Oz é a palavra. Utilizamos a tradução denominada transcriação feita pelo poeta e linguista Haroldo de Campos. na acepção de Benjamim. Na discussão interminável que o homem trava com Deus. ligada a tradição oral) mas permanecendo num espaço criado entre os dois. ou mais especificamente. midrashim que ele realiza nos excursos de seu texto e do texto bíblico. em hebraico. é convocado a provar sua fé. Oz parece levar ao limite o mandamento de interpretação do Midrash.Ano 4 www. Assim. em que o homem só. (usada aqui. Como se Oz optasse por essa condição intervalar. ao contrário. Foi escrito no século III a. mas nem por isso deixa de perguntar. de Campos). segundo H. estão sujeitas ao caráter predominantemente semítico do mesmo. de fato – para além dos limites canônicos. ou Eclesiastes. o escritor sustenta a tensão e a abertura de sentido de sua escritura sem fechá-la jamais numa síntese.C.

nos seus valores e nos seus limites. a sabedoria do pregador vem da aceitação de sua ignorância em relação às determinações de Deus. Crer é questionar e duvidar. 95) 4 Haroldo de Campos traduz ruáh (ou ruách) como “sopro”.. 9 .revistaliteris. pode-se entrever um Nietzsche que haja trocado a pele coribântica do pastor dionisíaco pelo xale do transviado pastor agônico do rebanho de Elohim. coisa vã.) e é lido na sinagoga no Sukot.) pensa radicalmente a existência humana. “coisa vã”. no período mais feliz do ano judaico. Na tradição cabalística. segundo Guinsburg. Qohélet é a expressão de um percurso absolutamente pessoal. No limiar.br . Revista Litteris -Número 9 . todo o afã do homem sob o sol – que é nada. no movimento em que o texto desliza. Sopro – ruáh – é ao mesmo tempo o que dá vida e névoa-nada4. 1991.Ano 4 www. Distante da reação conservadora ao mundo helenizado tanto quanto da assimilação. na sua concretude. o Qohélet não é um diálogo. impalpável – convertido no tudo.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. O tudo – afazeres. 257 (. (Campos.. “névoa”. daquele que.6 (Unterman. “ruáh é o sopro que dá vida. “vaidade das vaidades” na tradução latina. o nada – o incompreensível. a partir do existir judaico. ao ecoar a fala de sua angústia e de sua solidão. encerrado numa intransitividade fundamental e última. Constituem um paradoxo fundador do pensamento judaico expresso em vários textos bíblicos. as palavras do homem são névoa-de-nada.com. “vento”. que marcam seu destino humano limitado pelo tempo e espaço. no cânon Ele constitui um dos cinco rolos (.março 2012 O questionamento e mesmo a dúvida não se opõem ao cumprimento dos mandamentos. Para Guinsburg. 5 Houve muitas divergências quanto à inspiração divina do Qohélet em função de suas características “terrenas”. Ele sabe que nada sabe e que diante da fé. mas ele foi finalmente aceito e incluído bíblico. 17). um nunca se reduz ao outro e ambos são fundamentos da crença e do existir.. imaterial. Da transcendência à imanência vivida na transitoriedade. mas um monólogo. Diferentemente do Livro de Jó. 1992 p. O pregador está. para lembrar às congregações que a vida comum é a “mais fútil das futilidades”. no absoluto. Segundo o Dicionário Judaico de Lendas e Tradições.. O que lhe resta é entregar-se aos seus afazeres. pp.

construindo um círculo polifônico no qual a palavra pode transitar e se transformar. 2003. num constante acerto de contas – tensão que nunca se conclui – com sua consciência. eles parecem encerrados em sua solitude e solidão. como muitos deles parecem estar. mas a falta de chão. O escritor não busca enganar o leitor com uma suposta parcialidade. Como se a própria palavra pudesse lhes devolver a “vida”. ela parece “dizer”: trata-se. deslocandose da narrativa para dar a voz aos personagens. refletindo sobre as questões do Homem contemporâneo. sua vida.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. 9 . 132). ao contrário.com. Diz Berta Waldman: Revista Litteris -Número 9 . p. ele explicita as fissuras de sua escritura intertextual e polifônica. seus personagens. seus pais. único meio pelo qual a divindade se expressa. sobretudo. Solidão que no texto de Oz é representada também pela forma do livro. dialogando com eles. Desde o impedimento de qualquer imagem. seus desejos. dos limites – já bastante difíceis – da vida humana. encerrado num monólogo. Ouvindo-os. com raros ou nenhum diálogo direto entre os personagens. Ao contrário. rege um paradoxo.Ano 4 www. razão das divergências acerca de sua inclusão ao cânon bíblico. Ben Gurion. mergulhado e comprometido com os conflitos políticos de seu país. de mandamento. para lhes devolver a palavra móvel. num diálogo consigo mesmo. o escritor mobiliza e subverte os limites da própria escritura. alternando-se entre o lugar de narrador e personagem.br 258 .março 2012 É possível identificar alguns aspectos comuns ao texto bíblico e à escritura de Amós Oz a partir de nossa leitura e de outras realizadas pelos autores supracitados. constituído por trechos que se relacionam de modo indireto. A polifonia talvez seja a maior dessas características. no diálogo intercultural com a tradição greco-latina na qual o texto se insere. como diz Kafka. encerra uma transcendência que a literatura de Oz não tem e não almeja. Ele debate – e convida o leitor a participar – com Salomão. Aqui também. Como o rei sapiente. Outro elemento semelhante é a solidão do narrador que não dialoga. como na tradição judaica religiosa. (Maldelbaum. Oz dialoga também com seu tempo. o escrito adquire um estatuto sagrado. no caso do texto bíblico. de ar. de fora. num lugar de quem escuta. aqui. Y. Rabin. para lhes devolver a palavra possível. É no intertexto e através dele que se realiza o diálogo quase impossível para os personagens. Ela se expressa. sem dúvida. viva. vizinhos de sua infância.revistaliteris. Para isso. transitória e não fixada. O texto bíblico. ampliada pela multiplicidade e pluralidade de vozes que o escritor inventa e faz dialogar.

Enfim. a tarefa do judeu é a de debruçar-se sobre o livro numa leitura sem fim que. segundo Lévinas. acaba se deparando com o que lhe escapa. alteridade com o qual o Homem deve se deparar e com a qual deve se comprometer em função do mandamento ético que Lévinas identifica como Revista Litteris -Número 9 . ele também manifesta-se fora dela. (..março 2012 Assim. seja ele um igual. (. em circuito secular. 9 . Só ele pode se responsabilizar e se comprometer com seus atos. violento. esse encontro (que se dá necessariamente através do outro. (Waldman. como ídiche ou ladino. ao seu pedido de desvelar-se. exemplo da integração e do diálogo com a cultura helênica. uma das interpretações possíveis). pp..) O Midrash é justamente a reação desse leitor ao chamado da Escritura. sobre a violência de muitos episódios bíblicos e o que nos parece ser o espelhamento que a divindade promove ao homem de si mesmo. de sua “outra” face. coloca o leitor na condição – ética – de escriba. Salomão. no cumprimento do imperativo ético em que se baseiam muitos textos sagrados.) Se o Midrash marca sua existência na tradição da literatura rabínica. por excelência na Bíblia –. Diferença inscrita no próprio “eu”. através e no texto se comunica. No texto bíblico. O outro é também o rei sapiente. interpela e invoca num imperativo de escuta e reconhecimento. o patriarca (Abraão) que oferece o filho em holocausto como prova de fé. no “outro”. Pensamos. mas que se presentifica.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. aqui. tanto em língua hebraica. Da diferença. a quem Deus teria dito: não vês? (“Eu coloquei o bezerro para que você o sacrificasse. ao pretender a fidelidade... do “diferente” em relação ao qual o Homem deve se responsabilizar e com a qual precisa se comprometer. de se comprometer com o outro. em todos os tempos. até hoje. responsável pelo outro que.”. no limite de sua condição humana limitada e finita.17-18) Situação que. O faraó – outro.. seja a divindade. outro absoluto) é eminentemente traumático.revistaliteris. ainda que não entenda as razões de tudo o que lhe acontece. Esse “outro” é o próprio Jó diante do sofrimento inescrutável e incompreensível. Como se esta fosse a forma encontrada pela divindade para fazer o Homem ver aquilo que realmente importa: ele não é “pura bondade” e é responsável por todas as suas ações.br 259 . encarnada. ao fim e ao cabo.Ano 4 www. não faltam “outros”. no registro ficcional.com. responsabilizar-se por ele a partir da impossibilidade de fuga diante de seu rosto – sua alteridade. em última análise.. Trata-se. Esta se impõe traumaticamente ao “mesmo” e ao idêntico pela inscrição da diferença que irrompe sem pedir licença.

Talvez ela esteja especialmente presente no pensamento judaico em função das características dessa religião – centrada na responsabilidade humana radical e solitária – e de sua contingência histórica diaspórica.março 2012 sendo a base do pensamento judaico.com. sobretudo.). o bem e o mal que. a ele cabe aquilo que ele pode e deve conhecer e não é possível nem aceitável a justificativa de desconhecimento da Lei. tanto melhor. A Deus cabe aquilo que o Homem não conhece e não pode conhecer..br 260 . se isso parece paradoxal. justamente porque não é dado ao Homem conhecer os caminhos e critérios das escolhas divinas é que ele deve fazer opções. evidentemente. no gozo do livre arbítrio e da liberdade de que foi dotado. de equacionar a relação entre liberdade e responsabilidade que o “destino humano” encerra dentro de limites éticos. a saber: imanência na transcendência e vice-versa.. Ao contrário.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. políticos. uma afirmação que seja a negação e exclusão total de seu avesso e que se conclua numa síntese. esta é uma questão do Homem em qualquer tempo e lugar. Ainda que sejam inescrutáveis os desígnios divinos. enfim. etc. embora moralmente distintos e definidos não se excluem completa e absolutamente nas ações humanas que Deus espelha para o Homem. Creio que ela pode ser pensada do ponto de vista judaico laico. É um imperativo religioso que o Homem realize de maneira plena sua natureza e suas capacidades. Trata-se. com seu desejo e sua liberdade de escolha. (a mim parece que se trata. Ao contrário. ainda que fundamentada no texto religioso. morais. com aquilo que acredita. de um pensamento. religiosos. na inexistência. judeu ou não. no fundamento religioso da espera/chegada do Messias. A questão da liberdade e do livre arbítrio está presente. É preciso que haja sempre dois e que o um nunca se reduza ao Revista Litteris -Número 9 .revistaliteris. E. trata-se do comprometimento que cada um deve ter consigo próprio – com sua consciência. da espera. Princípio e finalidade da filosofia que se sobrepõe à ontologia. Considerando que este “outro” inscreve-se em cada Homem. Pois o pensamento judaico caracteriza-se por paradoxos. De qualquer modo. na literatura. em última análise.Ano 4 www. como uma das grandes questões do Homem. este pensamento caracteriza-se pela tensão e a equivocidade diretamente relacionados ao dialogismo e a ética.. eles não isentam o Homem de suas escolhas e da responsabilidade por elas. Na impossibilidade de distinção entre as instâncias secular e sagrada da vida que se interpõem permanente e constantemente. muito mais do que da chegada. 9 .

a noção de amor ao próximo. N’O Mesmo Mar. então. onde os professores usam geralmente um método dialético de exegese em suas incursões aventurosas no que é cham ado de “o mar do Talmud”. 2 ed. Nisso se baseia. habitá-lo para. 9 .. mas sujeito lírico ou poético. o “amor sem concupiscência”. fluido e circular como o verbo “correr” – os rios correm. contornadas como quadros eles são apresentados pelo narrador. correm novamente.. este e os personagens.março 2012 outro. Tratar-seia. Revista Litteris -Número 9 . lugar de personagem. deslocando-se e alternando os lugares e as distâncias entre o leitor e o escritor.br . entretanto. Aos poucos vai sendo tecida uma trama de relações que constitui a própria narrativa a partir da inserção daquele que “conversa” e se integra.revistaliteris. entre outros. às vezes. Narrador que assume. não replena. Em se tratando de um texto bíblico. de um narrador onisciente. Deixemos agora que o próprio texto de Oz nos dê elementos para pensarmos sobre nossa leitura. talvez. segundo Lévinas. típico do texto bíblico – o rei sapiente – que avisa.7 e ao próprio texto do Qohélet que diz: Todos os rios correm para o mar E o mar não replena Ao lugar onde os rios acorrem para lá de novo correm (trad. atemporal e a-histórico. Afastando-se da escritura sob vários ângulos e perspectivas de modo a desdobrá-la em várias direções que a ela retornam através de pontes intertextuais. mas o Talmud deve ser abordado com mais brilho e vivacidade (. cuja leitura religiosa tem um caráter mais livre do que a bíblica. no entanto. No um que se desloca para ocupar o lugar do outro. O narrador que se distancia o faz em 261 7 O Dicionário Hebraico de lendas e tradições registra: O estudo da Bíblia deve ser feito num enfoque mental de seriedade.Ano 4 www. como comentador do próprio texto. Em seções estanques. O título do livro parece ser uma referência explícita ao Talmud. de um “outro lugar”. personagens se desencontram num texto poético.O Talmud babilônio é a principal matéria de estudo nas academias de IESHIVÁ.). Campos. 1991) Podemos considerar que no trecho acima não há narrador. a questão acerca da identidade do narrador fica em aberto. Neste trecho o mar parece movimentar-se.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. “Vemos” o movimento das águas que correm para o mar que.com. voltar a si e ao amor por si mesmo e pelo outro. Daí decorre também a compaixão pelo outro. acorrem.

.) Todos os Rios fluem para o mar.com.. . E o que se esconde por trás da história? Tem quase sessenta anos esse narrador. 2001.) . sem riqueza. No fim todo mundo. deixando que ecoe o que parece ser uma voz da própria consciência.) (Oz. ainda que indiretamente. Olhamos e desejamos. no fim deste trecho num texto poético sem narrador que dialoga com o texto bíblico – Tudo isso esta diminuindo.. conhecido pela sua generosidade e integridade de caráter. olhamos. se escutem e conversem...(. e o mar é silêncio (.. – e se desloca para a primeira pessoa do plural.revistaliteris. de um jeito ou de outro. podemos sugerir? O mais sozinho dentre todos os homens. cujos desígnios talvez fossem fazer com que o Homem pudesse olhar para si na radicalidade de sua condição.65) O narrador em terceira pessoa se apresenta – Tem quase sessenta anos. Só diante de si mesmo.) O que escala montanhas no Tibet e a que bordava no silêncio do seu quarto... Sozinho como Jó.) Tudo isso está diminuindo..março 2012 nome da polifonia. saúde. p. poeticamente... Um certo tom “moral” do texto que busca ensinar através da narrativa. aquele que foi chamado a provar sua fé no limite de sua condição humana: absolutamente só.. Nasceu em Jerusalém. Esvanece-se. (. Desintegra-se(. Silêncio.Ano 4 www. misturando-se aos personagens – Nós vamos e voltamos...br 262 . O que Existiu vai aos poucos se descolorindo.. (..). aproxima este trecho do texto bíblico. que o mar é silêncio. espelhado pela divindade. família. O impedimento de qualquer imagem com a qual o Homem pudesse se identificar leva-o ao encontro consigo mesmo. e poderia resumir as coisas assim: existe amor e existe amor. vive em Arad.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. Para deixar a cena. deixando que a cena se monte para que os personagens e o próprio leitor. já olhou ao redor e já desejou isso e mais aquilo.. (como pensava Benjamin a respeito de sua função num mundo predominantemente oral). convidado a compartilhar. até que fechamos e saímos. acrescentando... Sem anteparo ou mediação que amenize ou conforte esse espelhamento com o que há de “feio” neste homem. Todos os rios fluem para o mar(. Desintegra-se.) Nós vamos e voltamos.. – e voltando a “si próprio” – Nasceu eu em Jerusalém. 9 .. acaba sozinho: (. Revista Litteris -Número 9 .

Sendo a dúvida própria do Homem ele deve experimentála. Esta existe e deve ser vivida. Mas ele resiste e esta é uma ação empreendida duramente. realizando sua humanidade em todas as suas instâncias. O narrador onisciente. em meio a um sofrimento incomensurável. Eles expressam a essência humana. 2001. Jó poderia ter acabado com a própria vida – como lhe foi sugerido – diante dos sofrimentos que Deus lhe infringira.março 2012 A Lei representada pela Bíblia é um limite à natureza não bondosa e individualista do Homem. me parece.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. O esforço e a ação humanas devem se opor ao seu individualismo natural de maneira ativa e não se entregar. o imperativo ético bíblico ao qual se segue a responsabilidade do homem em relação ao próximo. Lévinas. experimentada como expressão da essência humana. pelo qual Jó questiona Deus. pensa o filósofo E. que parece tratar do inefável – o amor? – e do transcendente – “diz”: “o que não existe é o único que temos”. Este é. passivamente. tudo o que não existe e o que não vai existir. Assim. Mas. A ela não se opõe a dúvida. como ter o que não existe? Essa afirmação parece a do psicanalista Jacques Lacan sobre o amor: “Amar é dar o que não se tem”. 263 Afinal. no fundo é tudo o que temos (Oz. segundo Spinoza. o comentário do texto sagrado se dá através de um sujeito lírico que pode ser. como sugere o conteúdo moral do texto. O questionamento e o diálogo com Deus não correspondem ao ateísmo ou dúvida em relação à sua existência. Na narrativa bíblica judaica Deus parece impor ao Homem um intrincado quebra-cabeças que ele deve montar através do questionamento e da dúvida para conhecer a si mesmo. também e simultaneamente.br . mas de impor-lhe uma ação afirmativa da fé intransitiva do Homem. não implica na ausência de questionamento. p. Não se trata de conhecer seu sentido. O dever de se colocar no lugar do outro e se responsabilizar por isso determina o sentido da própria existência. ao contrário.com. 9 .Ano 4 www. ainda que não compreendidos. um narrador livre em terceira pessoa e um que se ausenta para dar a palavra a alguém. do Homem que age opondo-se à passividade natural. 250) No trecho acima. que interpretamos livremente sob a ótica do paradoxo e da filosofia dialógica. A obediência aos desígnios divinos.revistaliteris. Revista Litteris -Número 9 .

a espera da chuva para a tarefa na terra. e nessa fadiga. alimentando o próprio amor. do paradoxo entre a imanência e a transcendência deste texto e do pensamento judaico. p. p. Alternam-se os discursos direto com o indireto e neste intervalo ecoa uma fala – fluxo de consciência? – em primeira pessoa do pai. O cheiro do meu filho é como o cheiro de uma prostituta. Fazendo surgir – e dando – algo que não se tem sem o outro. por um instante. Resta ao homem realizar as tarefas. seja terminar um bordado ou as contas – que não “batem”. Complementam-se deixando sempre um resto. da família. da saúde. não o amor propriamente – é que engendra algo novo. te devolveu a mim. produto da relação que se retroalimenta. Meu coração vigia e se lamenta. Inscreve-se no cruzamento entre o pensamento.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. aqui. o homem só. uma tensão inconclusa. 48) A mãe diz: Não penso assim. Seja esta suportar o sofrimento da perda dos bens. Filho teimoso. o pregador. Torpe tarefa cujo sentido é fatigar o homem que pergunta.com. 2001. contas. 9 . a meu ver. possa o homem crer. Elas encerram algo maior contido nos limites estreitos de sua significação.Ano 4 www. 264 Filho rebelde. o sábio. mas nem por isso deixando de executá-las. Qohélet. toalhas. como Jó pergunta sobre o nada-tudo da existência: o amor. mais uma vez. Até quando? (Oz. meu filho os pés dessa mulher Maria cujo ventre. de fato. Beija. o sujeito lírico/poético confundindo-se com o narrador em terceira pessoa. 2001. sabendo de sua limitação. Tratase. a eternidade e o Revista Litteris -Número 9 . Eu durmo mas meu coração vigia. (Oz. Meus ossos não têm paz com as tuas andanças. Essas instâncias não se negam e não se excluem reciprocamente. 49) No trecho acima vemos.revistaliteris. sem a relação com ele. A alternância deliberada favorece a polifonia e a confusão de um diálogo que parece transcender o tempo.março 2012 Desta perspectiva é possível considerar que o movimento do amor – a relação. Vagar é bom para quem perdeu o rumo.br .

9 . Aqui. 1991) No Qohélet. sua voz parece ser a do narrador onisciente que avisa. entrega. 2002. o amor lhe dá força para suportar as contingências que ela não pode modificar. A presença da mãe em todas as mulheres é um elemento fundamental de O Mesmo Mar. Nu saí do ventre de minha mãe E nu voltarei para lá. (trad. Iahweh o tirou.com. (Bíblia de Jerusalém. à doença. As referências ao Cântico dos Cânticos nas duas falas referem-se a um amor que parece transcender os limites do tempo e das contingências históricas e culturais. Aqui. encontra a mãe em Maria.br . Rico. imperativo. P. À mulher é Revista Litteris -Número 9 . também órfão da mulher. o filho. 265 Assim como saiu do ventre de sua mãe/ nu ele tornará a ir como veio/ E nada lhe advirá de sua faina/ que ele carregue na mão.revistaliteris. Campos. mulheres precisas que percorrem os sonhos e a vida real. Por fim. que se entrega – à morte. Mulher que o devolve à mãe. mas de uma aceitação que pressupõe coragem e maturidade. Dita. 804) No texto de Oz. Não se trata de submissão. em outras culturas. outro mundo. assim como no Qohélet. Sua mulher e filhas. Inicialmente a mãe de Rico. Maria. o diálogo intertextual com o Livro de Jó. o amor tanto pode ser prisão.Ano 4 www. Iahweh o deu. a namorada que passa a cuidar/seduzir o pai. preocupação. Bettine. que transcende a morte. por um segundo. é um amor que se submete. a mãe do escritor. Entre as montanhas e o abismo. com a qual ele tenta acertar as contas de toda uma vida enlutada.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. a mãe parece ocupar e representar esse amor divino. desassossego quanto liberdade. mulher misteriosa de terras distantes. mulheres quaisquer. morta precocemente. a mulher que o recolhe em seu ventre. Nádia. Bendito seja o nome de Iahweh. O narrador onisciente avisa.março 2012 tempo presente no qual o pai espera o filho. o amor de Deus pela criatura. viúva com quem Albert tem uma promessa irrealizável de vida. De um outro lugar. Para a mãe. de um luto mal acabado. a fala direta da mãe irrompe – no fluxo de consciência do pai? – para defender o filho que vaga de abismo em abismo. Para Rico.

Constituem uma abertura que a ficção de Oz realiza e expressa. 9 . em última instância – que se desdobra em muitas outras de forma quase infinita. porque a mãe já morreu. no sentido figurado. nutrindo. de fato. A corda segue o balde. Abençoada é a fonte. A graça – no sentido religioso.Ano 4 www. talvez – não é respondê-la. Para a mãe é a eternidade. O cântaro se quebrou na fonte. Em um nãolugar. Não é um diálogo. p. 55) No Qohélet: Revista Litteris -Número 9 . e no seu lugar abriram um shopping center.março 2012 atribuída uma capacidade quase mágica de seguir com a vida: criando os filhos. alimentando. respondendo uma pergunta com outra.br . num movimento interpretativo de deslocamento em direção ao texto bíblico e retorno à narrativa ficcional. numa condição de exílio que. Abençoado é o balde.revistaliteris. Rins. não se restringe nem se identifica com essa. embora coincida com a História do povo judeu. mas desdobrá-la. O exílio. distante. mas o paradoxo sobre o qual se assenta o pensamento judaico tão presente nesse “diálogo” com o Qohélet.com. o não lugar é o desconhecido. O assentamento dos tolos foi fechado. A escuridão enxergará dentro do coração. é a pergunta – e a palavra. achando caminhos. que passa. mas permanece viva no luto que o rapaz realiza vagando por terras distantes. Diabete. Trata-se de um exercício exegético de levar ao limite a pergunta interminável e fundamental do Homem judeu Aquele que transita. O humilde colono que nunca na vida pisou no assentamento dos tolos vai morrer em agosto de câncer no pâncreas. 2001. Seus olhos são doces e a luz é doce mas seus olhos não existem mais e a luz continua aqui. Mais uma vez não há contradição. O policial que gritou lobo lobo e era alarme falso morrerá em setembro do coração. Os tolos morreram. O “diálogo” entre a mãe morta e o filho parece um eco do que não foi dito. Eternidade. 266 Doce é a luz para os olhos. Para Rico. lugar da transição ele conversa com a mãe e esta lhe responde. presente e finitude não se opõem. Abençoados serão os pobres de espírito pois eles herdarão o lobo lobo. (Oz. lugar indefinido.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n.

o talento para o bordado (. 127) No trecho acima a mãe.. mãe. Como uma voz que ecoa e toma a palavra..) Tudo se esboroa. 2001. na primeira pessoa para dialogar com o filho. cântaro.. da qual jorra a água.(. a poeira do nada.) Uma poeira esquecida.) Todas essas montanhas. invisível. os temas da finitude. Não é a tarefa. pó voltando ao pó.Ano 4 www. mãe.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. 1991) Novamente.) Descanse. 9 . não a vida. que encerra qualquer mistério transcendente. imperceptível... num paradoxo em que o imanente e o transitório remetem a transcendência e a ele retornam.. que existiram e desmoronaram. balde.revistaliteris. As montanhas estarão sempre aqui. Se desfaz e volta Ao pó (. tempo de voltar. dunas de areia varridas pelo vento.. p. Os discursos diretos que irrompem na narrativa parecem presentificar o próprio fluxo da consciência/memória de Revista Litteris -Número 9 . digo a ela. Ela é o narrador onisciente e a mãe viva na memória do pai e do filho.com. o Jeito para equilibrar um balanço. É o Homem que na realização diária e humilde da tarefa se dá conta da transcendência na imanência e da impossibilidade de compreensão dos desígnios divinos. Campos. O tom sagrado do texto de Oz é dado pela alternância de um narrador onisciente que fala de tempo e lugar indeterminados e um outro localizado no tempo e no espaço da história e da política. de mim. 267 (. em si.br . você já as palmilhou uma por uma. a poeira das casas esquecidas. Em vez de perambular você poderia ser por exemplo arquiteto:do Teu pai. do lugar sagrado e indefinível da eternidade. avisa. o trabalho humano cuja finalidade é a aceitação dos limites. (Oz.março 2012 E que doçura a luz! / E como é bom para os olhos ver o sol! Antes que se rompa a corda de prata/ e se quebre a copa de ouro/ E se parta o cântaro sobre a fonte/ e a roldana quebrada caia na cisterna E o pó voltará à terra tal qual era/ E o sopro irá de volta/ a Elohim que o deu (trad. e já é quase outono. do tempo e do desamparo deslizam entre a tradição religiosa e a vida concreta.. A fonte.

Se a escritura pode ensinar e conter algo de sagrado. parecem tomar a palavra do narrador com sua anuência. transitória. é disso que Oz parece falar. 268 Para tudo seu momento/ E tempo para todo evento sob o céu/ Tempo de nascer e tempo de morrer/ Tempo de plantar e tempo de arrancar a planta/ Tempo de matar e tempo de curar/ tempo de destruir e tempo de construir/ Tempo de pranto e tempo de riso/ tempo de ânsia e tempo de dança/ Tempo de atirar pedras e tempo de retirar pedras/ Tempo de abraçar e tempo de afastar os braços/ Tempo de procurar e tempo de perder/ tempo de reter e tempo de dissipar/ Tempo de rasgar e tempo de coser/ tempo de calar e tempo de falar/ Tempo de amar e tempo de odiar/ tempo de guerra e tempo de paz / Que proveito ao fazedor/ no afã do que faz?/ Eu vi a tarefa que Elohim deu / aos filhos do homem para atarefá-los / O todo ele o fez belo a seu tempo/ Também o eternosempre ao coração lhes deu/ sem que possa o homem devassar a obra/ qual ele a fez Elohim/ da cabeceira do começo e até onde tem fim.revistaliteris. Como se ela prescindisse daquele e “falasse” através da beleza do texto.1991) Neste trecho do Qohélet.br . Neste texto sagrado o narrador onisciente confunde-se muitas vezes com o sujeito poético em função da Revista Litteris -Número 9 . de seu movimento e fluidez.Ano 4 www. Para lembrar aos personagens e a ele próprio que a escritura é uma segunda chance. A liberdade é claramente limitada pelas contingências. ainda que de modo indireto como neste romance. esta é sua segunda chance. 9 . (trad. Campos. móvel.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n.com. Entre eles e o narrador. como se ele dissesse: conversem.março 2012 Rico. Esta é um imperativo ético onipresente na obra de Oz. vagando num não lugar que é a própria narrativa na sua forma flutuante. um lugar – sagrado? – para o diálogo entre os personagens. Mas a mãe já morreu e por isso o escritor convoca o texto sagrado. A verdade divina ecoa no texto bíblico em que o narrador onisciente – o rei sapiente – quase não aparece para dar lugar à palavra. Mãe e filho dialogam. se entendam ou se desentendam. o que não isenta o Homem da ação. Ele também. aceitando seus limites e se responsabilizando por seus atos. o pregador lembra ao Homem que o tempo humano é finito e por isso ele deve se comprometer com suas ações.

quando o filho tinha doze anos e meio. tão mau e gelado irromper dentro de você. Como se ela. um pássaro no ramo da árvore me Seduziu. por que me abandonaste? Diante da dor e da raiva pelo que é sentido como abandono materno o menino pergunta e questiona a mãe. 2001. p. sufoque a sua garganta não o deixe mãe. Revista Litteris -Número 9 . dissesse: Tudo se esboroa. pp.) mãe não seja tão boazinha.. 269 Pouco antes da minha morte. para onde foi a amada de sua alma. arranhe tão dócil e obediente como você. e não o filho.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. 9 . subvertem a palavra sagrada e na beira do abismo perguntam: Mãe. O narrador/Rico. Põe sobre mim o lacre. No fim.. do lugar da autoridade/eternidade que só a morte confere. implora.) lute com ele minha mãe roída. Imanência na transitoriedade e na transcendência que a palavra e a escuta presentificam. São eles que falam.revistaliteris. lhe concede. rasgar tua pele e roer teus seios (.140-141) Fora do tempo.br . distante. Meu viúvo à noite orvalha seu berço. Palavra divina/verdade que prescinde de narrador. quer trazer de volta à vida. Teu é o amor dos dois. tua é a minha camisola. não o deixe.março 2012 poesia do texto e do mistério de seu saber atemporal.. Narimi suas plumas tocaram-me e envolveram-me por inteiro num útero marinho. com a vida suspensa. (Oz. .Ano 4 www.109) 8 Fânia.. Ele ocupa a cena e “conversa” com a mãe. filhos meninos abandonados pela mãe8. Mas não deixe mãe. ele vai te devorar (. 2001.com. errando pelas montanhas ou fugindo para um kibutz. Noiva criança. Mais do que isso. Meu órfão adivinha sinais. a mãe de Amós Oz suicidou-se aos 38 anos. cordeiro sacrificado grite. Rico toma a palavra que o narrador. O escritor constrói o cenário para os personagens e oferece sua escuta. Rico é o filho a quem a mãe.. morda. morta.. Minha carne se consumiu. (Oz. se desfaz. dos dois tu és a esposa. resta a vida para ser vivida.

Antes da palavra. Contingências com as quais não é possível lutar. nada pede e nada espera. a quem a mãe contava histórias fabulosas do país de sua Revista Litteris -Número 9 . 290) No trecho acima. enfim.. pare de enfiar na cabeça dele esses lobos.. nos defender quando não tem mais jeito.. pó sua culpa. do amor que. o narrador é também Albert Danon que discute com sua mulher a respeito do menino/narrador. e também começar a distinguir afinal entre joio e trigo. Como a noiva bíblica e autorizando Dita a assumir seu lugar. Como ela parece fazer com o pássaro que canta na sua janela anunciando a vida e a morte. do narrador onisciente que avisa ser esta uma “terra sagrada”. na primeira pessoa. bruxas. algo de sagrado envolve o narrador. 9 .) já saiu voando rumo ao frio.(. Nádia eu te peço que pare de uma vez por todas de encher a cabeça dele com essas minhocas. Apenas – e sabiamente – tentar negociar. autoridade que advém da experiência da morte. levantar a cabeça.(. Você encheu a cabeça dele com fadas e brumas. neves. p. no lugar do mandamento. Para além das convenções. Deste “outro” lugar – a “eternidade” não identificada no judaísmo -. fantasmas nos porões. 270 Eu já te disse mil vezes.março 2012 Nádia parece aceitar que algo escapa às nossas – melhores – intenções.) nós estamos aqui em Israel para escapar disso tudo.(. a mãe fala.revistaliteris.. expulsar os sofrimentos passados.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. ele ainda é pequeno. viver os dias de verão sob o caramanchão de parreiras no jardim. E deixou montes de guardanapos e toalhas de mesa bordadas. salada e omelete.Ano 4 www. 2001.) (Oz.. que não servem Para nada.br .. ao mesmo tempo.no qual não cabem as mesmas categorias de tempo e de amor.. anõezinhos na floresta. entre o possível e a loucura. e se assusta à toa. Como pensava Benjamin. superar aos poucos a lembrança de tudo o que passou.) Veja no que vai dar. transformar as coisas.. para viver de iogurte. do sofrimento e das necessidades terrenas.com. e em você mesma já nasceram penas (. curar as tragédias dos tempos idos.

Avishag A noite é fria.. a mocinha e seu dragão. entre Bettine. A jovem Avishag pode ser Dita. Tendo podido.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. tateia Com as ondas a areia da praia. açoita. a mãe. Não é realmente velho. (Oz. As mãos dele são frágeis.com. p. Respira. sendo ele próprio pai. Como se eu trocasse a fralda do neto Minhas mãos prendem as suas. Por um momento ele é bebê E logo volta a ser pai. Ele não é realmente velho E eu não estou em seu colo.br 271 . sua mulher morta e suas contas. Campos. da condição de pai e filho. Albert. Rico e o narrador se confundem e se Revista Litteris -Número 9 . 1991) Aqui. Chuvosa. o título deste trecho é uma referência explícita a história contada na Bíblia em Reis. Como Fânia. compadecendo-se dele. Como personagem de uma fábula.. Os trechos acima parecem falar da alternância – de lugares. enfim. Pairando fora do tempo e da realidade. Ele reencontra em si. “mítico”.março 2012 infância. Avishag. Albert Danon.revistaliteris. se colocar no lugar do “próximo”. Suas mãos são delicadas Contidas entre as minhas Como fraldas de um bebê Nascido para mim de seu filho. a mãe do escritor.Ano 4 www. 9 . filho e mãe de si e dos pais nos personagens. Dita. Os homens Albert. num país particular. E ele mesmo. o pai.) Eu vi toda a gente vivente/ que andeja sob o sol/ Com o menino seguinte/ o que vai sentar no lugar do primeiro (trad. apresentada ao leitor no livro De Amor e Trevas. cujo filho erra pelas montanhas. o narrador parece acertar as contas com sua própria narrativa. 297) No Qohélet: Melhor menino mísero e com siso/ Que rei senil e sem tino/ o qual já não mais sabe iluminar-se/(. Esbraveja Lá fora. as trevas e o mar. namorada de Rico trazida para animar o pai. 2001. Entre brumas e florestas.

J. o narrador onisciente. 1994 Bíblia de Jerusalém São Paulo: ed. Numa construção de sentido de que é feita a memória e a própria vida. do hebraico de Milton Lando) SP : Companhia. Perspectiva: 2003 Oz.W. arte e política:ensaios sobre literatura e história da cultura São Paulo: Brasiliense. A. O Mesmo Mar (trad.do hebraico de Milton Lando) São Paulo: Companhia das Letras.Revista Litteris – ISSN: 19837429 n. Magia e Técnica. B. Salomão. O movimento de identificação criativa construído pela alternância dos narradores e sua ausência parece ser a forma pela qual o escritor sugere que a escritura oferece e realiza uma segunda chance. 9 . 2004 Guinsburg. A. H. H. J. 2005 Oz. in: Qohélet: O-que-Sabe poema sapiencial (Campos. Referências bibliográficas 272 Benjamin. 1992 Waldman. 2ª ed.revistaliteris.H. Franz Kafka: um judaísmo na ponte do impossível São Paulo. Dicionário de Lendas e Tradições (trad. Humanismo do Outro Homem Petrópolis: Vozes. 2ª ed. 2005 Campos. 2005 ______. das Letras. 2011 Revista Litteris -Número 9 . 7ª ed. E. Paulo Geiger) Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2004 Wood. Linhas de Força. De Amor e Trevas (trad. 2004 Lévinas. Como Funciona a Ficção São Paulo: Cosac Naify. o filho. de. Qohélet: O-Que-Sabe: Eclesiastes: poema sapiencial São Paulo: Perspectiva. Humanitas.com.escritos sobre a literatura hebraica São Paulo: Associação Ed. Paulus. E. Onde encontrar a sabedoria? Rio de Janeiro: Objetiva. A. 2002 Bloom.Ano 4 www. de) São Paulo perspectiva: 2ª ed.br . Ele também o pai.março 2012 fundem no sábio rei bíblico. 2001 Unterman. Ensaios sobre a Alteridade Petrópolis: Vozes.1993 Mandelbaum.