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Guia de Avaliação Psicológica

ANÁLISE DO CASO DE UMA JOVEM
Ana – 17 anos

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17

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Nado morto

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Entrevista:
A Ana tem 17 anos e vem à consulta por dificuldades escolares – ao que parece por indicação da explicadora da escola. Sempre teve dificuldades escolares: Reprovou na 4ª Classe, duas vezes no 5º ano, 2 vezes no 7º ano, e actualmente está no 8º ano pela primeira vez. No primeiro período teve quatro negativas (disciplinas de Matemática, físico-química, francês, português). As disciplinas que gosta mais são Ciências e Ed. Física. A que gosta menos é a Matemática. Vive com o pai e a mãe, e com um irmão de 5 anos. Está quase sempre em casa, raramente sai. Tem muitos amigos (rapazes e raparigas, essencialmente raparigas O convívio com os pares parece circunscreverse ao período escolar.

Rui Manuel Carreteiro

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ajudar a mãe a arrumar a casa e costuma estar no quarto a ouvir música. altura em que ele disse que esperava que ela estivesse melhor que ele. da escola.. mas gosto dele”. Um bisavô também tem bronquite.. onde foi passar férias devido ao problema do irão: “foram as melhores férias da minha vida”. A última vez que falaram foi no ano novo. procura aos professores como vão as coisas. “tem que ser senão o tempo não passa”.. costuma ver televisão. Não tem namorado – “há outras prioridades”. interessa-se muito. mas quando chega ao exame fica “em branco” e não consegue lembrar-se de nada... A mãe dá-lhe mais apoio.. Ela disse que compreendia “para ele não pensar que ela tinha ficado em baixo e não ficar também mais triste”. quer desistir do curso.. Foi observado porque tinha muitas birras e mordia-se frequentemente. ela é mais introvertida. Também fala muito com a tia – irmã da mãe. Na escola costuma falar principalmente com duas amigas: falam dos problemas. parece haver uma situação de alcoolismo no pai. mas agora quer ser enfermeira. Rui Manuel Carreteiro 137 . Gostava de ser enfermeira. Dorme no mesmo quarto com o irmão. A tia tem bulimia. com alguns episódios de violência doméstica: por vezes bate na mãe mas nunca bateu nos filhos “é um bom pai”).Guia de Avaliação Psicológica Em casa. Até Setembro/Outubro encontraram-se regularmente.. o pai preocupa-se só com os resultados finais. Desde pequeno que o irmão tem asma. Afirma que ele é muito compreensivo e que agora vai para a tropa e anda com problemas. e saber bem a matéria. A mãe anda no psiquiatra desde os 23 anos e tem depressão desde os 20 anos.. A Ana afirma estudar. mas depois só falavam por telemóvel e cerca de semana a semana.. Refere que colegas também andam no psicólogo.. que é da idade dela. mas quando está com os amigos é menos. A mãe é doméstica e o pai é armador de ferro (segundo conta a mãe. pois seria melhor para ambos. Alentejo. considera-os muito incompreensivos e brutos. gosta de tudo o que esteja relacionado com crianças. rapazes. bem como uma tia. Sobre os colegas. O irmão é muito extrovertido.. já gostou de ser auxiliar de infância. que é muito desarrumado e está sempre a chamá-la – “Ele é chatinho. reagem com violência com os mais novos e não compreendem os outros... ele mandou-lhe uma mensagem e telemóvel a acabar o namoro. Começaram a namorar. de rapazes.. ele tinha 20 anos e estuda engenharia informática.. Na véspera de Natal... No período de férias de verão conheceu um rapaz nas termas.

e seguidamente minimizada . mas o que podemos facilmente relacionar com a problemática edipiana associada... algo que podemos relacionar com a história pessoal do sujeito respondente. pelo menos. o que poderia constituir desculpa para a incapacidade do sujeito face ao objecto.. A personagem feminina aparece submissa à masculina que "não lhe liga". “Violino. Está a dormir.. “Este é mais difícil (++) Está a pensar."partiu-se".. 2..."está a dormir"..... que música tocar. (++) Este é difícil.. mas a diferença de idade não é.. (++) [Porque será que está triste?] Não sei. Torna-se claro a necessidade de evitar a realidade depressiva e a semelhança com a situação pessoal parece ser reconhecida. A triangulação parece ainda não ter sido conseguida.. “O homem não lhe liga. o sujeito é encarado como incapaz de tocar por falta de conhecimentos ("não sabe tocar") algo que é rapidamente transformado num conteúdo menos ansiogénico (não sabe "que música tocar"). Há como que uma simpatia com a situação "por vezes a vida é complicada" (quase se poderia acrescentar: eu que o diga). Chorar..” O Violino (objecto adulto) é encarado de uma forma fragmentada .. Não se percebe muito bem [O que é que vês cá mais?] Um homem a trabalhar e outra mulher.. (sorri) (+) A mulher está a tentar que ele tenha atenção para ela. sendo a temática de cariz libidinal. 3BM. Poderá questionar-se até que ponto não encontramos aqui reflectida a vivência depressiva do sujeito na consequência de experiências amorosas não correspondidas. e sem deixar de destacar a falta de integridade do objecto violino.” A diferença de sexos é reconhecida. Rui Manuel Carreteiro 138 ..” Pela análise das verbalizações pode-se deduzir que o cartão se revela particularmente difícil . não sei.Guia de Avaliação Psicológica TAT 1."está triste" . (++) Não sabe tocar. “Está triste.. com um complexo de Electra supostamente por concretizar. a pensar.” A situação depressiva é reconhecida . partiu-se. às vezes a vida é complicada. A personagem feminina que a hipótese projectiva associa à personagem materna não chega a ser referida o que ratifica as afirmações anteriores...... referida.. Poderemos aqui observar algumas formas de lidar com a ansiedade e evitamento de experiências depressivas... ou a ver a paisagem. 4. também. Não obstante.ela própria refere por duas vezes que "é difícil"... aludindo ao cartão. (++) [Porque será que ele não lhe liga?] Não sei.

... mas sim como "a procurar alguém". “Estão a operar alguém. (++) [E agora?] Agora já não é assim tanto. A personagem do cartão estímulo não é encarada como controladora. Não deixa de ser novamente curioso que não e a mãe que é referida mas sim uma ama. 7GF. não é? Foi mãe muito cedo... A ideia de estar a procura de "os filhos" parece acentuar a tentativa eufemista de banalização e a afirmação de que iria "ver o que eles estão a fazer" parece ratificar a hipótese de uma temática de "controlo materno".” A verbalização é curta e parece assistir-se a uma banalização dos conteúdos do cartão. antes prevalecendo os impulsos de recuperação: "Estão a operar alguém". Temos mais liberdade agora.. que eventualmente já se deparou com situações afins ao estímulo. 9GF. “Estão a conversar (++) Este também está difícil (+++) [Qual será o tema da conversa?] Também não sei. 8BM. (++) Isto é um bebé.” Trata-se de um estímulo que desencadeou uma forte ansiedade. E não liga nenhuma à criança ou ao bebé. “Está a procurar alguém.....” A situação é transformada para um contexto superegóico em que uma personagem mais velha vigia controla .. que está a ler o que está num livro.. Este cartão parece remeter para uma relação insuficiente com a mãe. 6GF."estão a conversar". A situação de sedução é nitidamente embaraçosa para o sujeito. (+++) [De quem estará à procura?] Os filhos. contrasta com um gravidez (impulsos sexuais? curiosidades? relações sexuais acompanhadas por culpabilidade?)..” A personagem mais velha é encarada como uma criada ou uma ama.. A boneca que a rapariga transporta é encarada como um bebé e activa a temática de uma gravidez precoce. estão a coser.. aqui reportando-se à infância e na perspectiva da prestação de cuidados. Esta ansiedade terá levado a banalizar a temática ... o que poderá remeter para a hipótese de uma mãe ausente e cujas funções são delegadas numa terceira pessoa. o que talvez se possa considerar um eufemismo da primeira forma. inclusivamente explícita na afirmação "Este também está difícil". [Porque será que está a espia-la?] Antigamente era assim. (++) E o rapaz está assim um bocado triste (+++). Trata-se de uma temática que careceria de um trabalho posterior. A imaturidade física (idade) e cognitiva (a ama está a ler-lhe um livro) da rapariga.” A temática da agressividade ou morte é completamente afastada.a mais nova com a qual supostamente se identifica. (++) [Porque estará à procura dos filhos?] Podem estar sossegados... “É uma empregada. não é? Está a espiar a rapariga.. Rui Manuel Carreteiro 139 . “Isto é uma empregada ou uma ama. ia ver o que eles estavam a fazer.Guia de Avaliação Psicológica 5.

..que remete supostamente para a relação com os rapazes .Guia de Avaliação Psicológica mas mais que isso.. o rapaz está a pensar.pela personagem mais velha. 11.. Sabemos que este estímulo remete para os contornos entre o "dentro" e o "fora". parecem reforçar a solidão e revestir. “Nada. De incapacidade que se reflecte neste estímulo... Não sei. Esta afirmação é ratificada pela resposta "Dá para ver que é pobre" que dá á pergunta "que estará a pensar". que aqui não são de forma alguma referidos. provocando uma vivência depressiva. Está em branco..” Rui Manuel Carreteiro 140 .. Depois de algum tempo de latência acabar por dizer que não dá para perceber (se quisermos fazer a ponte com o cartão anterior. 16..” Talvez o cartão anterior tenha promovido uma desorganização e um sentimento depressivo... parecem... Quase poderíamos completar: "dá para ver que é pobre" de pensamento... A forma como resolver estes problemas/insuficiências não é referida.. “Marido e mulher. Onde há poucas pessoas.” A situação é levemente descrita e sob a forma de interrogação. “Sítio abandonado.. "é pobre". (+++) Não tem nada para brincar... A falta de recursos económicos "não tem nada para brincar". talvez por ela ser pobre. para um controlo .. ou por o estímulo ser insuficiente). o que reflecte o carácter ambíguo do cartão e a falta de autoconfiança para tomar partido de uma visão pessoal. “(+++) Não dá para perceber bem. não dá para perceber...? Mais nada.. uma pobreza do pensamento (comparação entre a capacidade cognitiva e social do sujeito). 10. 12BG. [acena que não sabe mais coma cabeça]. Os recursos para lidar com a ansiedade e o caótico que este estímulo evoca. Apagaram (sorri). “(+++) Isto é um desenho?? [aproxima da cara] Também não dá para perceber.. mais que uma pobreza social/económica.. Este assim é um bocado vago. 19...” A ausência e o abandono são as sensações desencadeadas por este estímulo.. “Está a pensar.? Estão a dar carinho um ao outro.” A solidão é substituída pela reflexão/pensamento.” O carácter caótico do estímulo é reconhecido e a hipótese de se tratar de uma luta está de acordo com a activação do perigo que este cartão parece desencadear.. 13B. estar ausentes. contudo. [O que estará a pensar?] Dá para ver que é pobre. e que remetem novamente para uma relação de objecto insuficiente.. Será luta? [Aproxima o cartão mais para si]. talvez numa tentativa de evitar a abordagem da angústia do abandono.

com 17 anos de idade neste departamento do Hospital de Lisboa. com alguma frequência este sentimento é expresso pelo seu contrário. Não deixa contudo de ser curiosa a sugestão. com um complexo de Édipo supostamente por resolver. como se houvesse uma necessidade de omitir alguma coisa. A temática da sexualidade poderá aparecer tenuamente e acompanhada de alguma culpabilidade. bem como um controlo supostamente excessivo e desadequado por parte da estrutura parental. Contudo. A sua personalidade assume alguns contornos depressivos apresentando uma auto-estima reduzida. ou talvez o pedido de confidencialidade/negligenciar as respostas. A Ana apresenta estatura física e discurso adequado à idade. RESUMO GERAL: A auto-estima parece estar de alguma forma reduzida o que é. A situação de sedução revela-se nitidamente embaraçosa. Com alguma frequência os estímulos que deveriam evocar a personagem materna evocam a imagem de uma ama. foi observada a Ana. Matrizes Progressivas de Raven: Rui Manuel Carreteiro 141 . tornando-se clara a necessidade de evitar uma realidade depressiva. mostrando-se cooperante durante a aplicação de todas as provas. um pouco na brincadeira de que terão apagado o cartão. RELATÓRIO INTERNO: Nos meses de Janeiro e Fevereiro de (ano).Guia de Avaliação Psicológica Assiste-se à incapacidade ou recusa de construir uma história. o que poderá remeter para uma mãe ausente e cujas funções aparecem delegadas numa terceira pessoa. O pedido de avaliação psicológica é formulado pela professora do apoio educativo da Escola e fundamenta-se nos baixos rendimentos escolares. A triangulação parece ainda não ter sido conseguida. expresso nomeadamente através de uma atitude de submissão. não obstante de alguma timidez inicial. o que constitui uma firma de lidar com a ansiedade.

Contudo. A temática da sexualidade poderá aparecer tenuamente e acompanhada de alguma culpabilidade. 42]).Guia de Avaliação Psicológica Foram aplicados os 60 itens das matrizes progressivas de Raven (revisão de 1956). TAT A auto-estima parece estar de alguma forma reduzida o que é. bem como um controlo supostamente excessivo e desadequado por parte da estrutura parental. expresso nomeadamente através de uma atitude de submissão. Com alguma frequência os estímulos que deveriam evocar a personagem materna evocam a imagem de uma ama. RELATÓRIO ENTREGUE: Rui Manuel Carreteiro 142 . Considera-se pertinente a realização de um acompanhamento psicoterapêutico de frequência quinzenal que possibilite uma relação terapêutica suficientemente segura a fim de aumentar a autoconfiança e assim poder desbloquear as capacidades da Ana para um desempenho mais adequado. atendendo á idade – 17 anos – situa a Ana no nível médio-inferior (38 ∈ [35. o que constitui uma firma de lidar com a ansiedade. tornando-se clara a necessidade de evitar uma realidade depressiva. Orientação Terapêutica: A Ana apresenta uma auto-estima reduzida o que parece perturbar a capacidade-desempenho. o que poderá remeter para uma mãe ausente e cujas funções aparecem delegadas numa terceira pessoa. A situação de sedução revela-se nitidamente embaraçosa. com repercussões óbvias ao nível da vivência pessoal e sobretudo nos resultados escolares que terão motivado o pedido de avaliação. com alguma frequência este sentimento é expresso pelo seu contrário. A triangulação parece ainda não ter sido completamente conseguida. tendo sido obtido um total de 38 respostas correctas o que.

Numa atmosfera de incentivo e apoio quer ao nível do processo da aprendizagem quer ao nível da motivação para o estudo. No plano emocional necessita de um acompanhamento em apoio psicoterapêutico. A Ana apresenta estatura física e discurso adequado à idade. Rui Manuel Carreteiro 143 . a Ana. Tal poderá justificar-se com uma personalidade que assume alguns contornos depressivos. de onde se realça uma baixa auto-estima com repercussões óbvias na competência-desempenho. O pedido de avaliação psicológica é formulado pela professora do apoio educativo da Escola e fundamenta-se nos baixos rendimentos escolares.Guia de Avaliação Psicológica Nos meses de Janeiro e Fevereiro de (ano). mostrando-se cooperante durante o processo de avaliação. donde a importância e a necessidade de apoio pedagógico. não obstante de alguma timidez inicial. com 17 anos de idade. foi observada no Hospital de Lisboa. a Ana poderá desenvolver capacidades até então inibidas e apresentar melhores resultados. Do ponto de vista cognitivo o seu desempenho situa-se ligeiramente abaixo do previsto para a sua faixa etária.