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Revista Científica de Información y Comunicación Número 3, (2006), Sevilla SECCIÓN CLAVES

José Rebelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa ISCTE

Os acontecimentos mediáticos como actos de palavra

Resumen
Este trabajo parte de la afirmación de que el acontecimiento no puede ser reducido a mera construcción mediática. Aunque los medios de comunicación social logran habitualmente reducir la discontinuidad que todo acontecimiento implica, el autor cree en la posibilidad de una acción colectiva, que se expresa a través de acontecimientos inaugurales - no mediatizados – que abren nuevos campos problemáticos.

Abstract
This paper states that the event is not just a media construction. Although the media picture events without their inner diversity, the author believes in the posibility of a positive action, based on piecemeal events that give way to new dilemas.

Palabras Claves
Acontecimiento / mediación / medios de comunicación / asuntos públicos / acciones colectivas.

Keywords
Event / mediation / mass media/ public affairs / colective actions.

Não partilho teorias de natureza construtivista que reduzem o acontecimento a uma mera produção mediática (1). Pretender que um acontecimento existe apenas em função da sua mediatização é ignorar o cruzamento das mais elementares dinâmicas sociais. Suponhamos uma aldeia que nunca chamou a

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1. Daí o seu potencial de relevância. onde se enraízam as línguas. segundo os potenciais de relevância e de pregnância (2) que ele manifestar. logo denunciarão o absurdo. Da qual nunca se falou em qualquer estação de rádio. No nosso Lebenswelt. Que nunca teve honras de publicação num qualquer jornal. Daí o seu potencial de actualidade. Que nunca foi vista. em qualquer canal de televisão. Sociologicamente. Nem todas as ocorrências são acontecimentos. A ocorrência tem mais probabilidades de ser considerada um acontecimento quando se produz no nosso espaço e no nosso tempo. [18] _ Información y Comunicación . Mas. de um grupo ou de uma colectividade. Que significa isso? Que nunca qualquer acontecimento se produziu na aldeia referida? Pergunte-se aos seus habitantes que. afirma Louis Quéré. também. as condições que permitiram ao acontecimento produzirse com as particularidades que apresenta. A ocorrência tem mais probabilidades de ser considerada um acontecimento quando provoca uma ruptura no nosso quadro de vida. para falar como Goffman (1991). através do pensamento. A ocorrência tem mais probabilidades de ser considerada um acontecimento quando nos incita a reconstruir esse nosso quadro de vida momentaneamente perturbado pela ocorrência inesperada. ou se viu. postulo que uma ocorrência se torna acontecimento segundo o potencial de actualidade mas. Daí o seu potencial de pregnância. o mesmo autor esclarece: “Esta descontinuidade surpreende e afecta a continuidade da experiência porque a domina. Interessa. as normas e os comportamentos comuns. Por isso. conceito que Habermas foi buscar à fenomenologia de Husserl para designar esse nível profundo. No nosso quadro experiencial. logo a seguir. estes. não estão conectados aos que os precederam nem aos elementos do contexto: são descontínuos relativamente a uns e a outros e excedem as possibilidades previamente calculadas.José Rebelo atenção dos media. definir o conceito de “acontecimento” antes de nos debruçarmos sobre o processo da sua eventual mediatização. rompem a seriação da conduta ou a do correr das coisas”. Descontinuidade e procura de sentido “Quando [os acontecimentos] se produzem. restauramos a continuidade no momento em que a ruptura se manifestou” (2005: 61). pois. fazemos tudo quanto está ao nosso alcance para reduzir as descontinuidades e para socializar as surpresas provocadas pelos acontecimentos: reconstruímos.

outras. Fixemo-nos nas narrativas mediatizadas. Não há explicação. A primeira fase corresponde à emergência da ocorrência propriamente dita. A expressão “Oh my God” é desprovida de qualquer valor de ancoragem.Os acontecimentos como actos de palavra Resumindo: o acontecimento opera uma ruptura inesperada na ordem das coisas. dos nossos projectos. Corte. escreve Paul Ricoeur (1991: 41-55). E. Diversos textos centram-se numa frase curta e simples que se ouve em fundo das primeiras imagens. o sentido reduz a irrationalité principielle de la nouvauté”. ISSN: 1696-2508 _ [19] . Não há. para uma procura de sentido. Previsibilização pela domesticação do imprevisível. Num número de Dossiers de l’Audiovisuel. obtidas ocasionalmente por um cineasta amador. exemplo acabado dos mega-acontecimentos que acabámos de referir. afinal. A segunda corresponde à procura de sentido. Corte e desordem que impelem. o acontecimento “abre uma falha na minha própria aventura” (1998: 45). umas. Provoca um corte na trama dos nossos hábitos. narrativa mediática. Não fixa qualquer sentido àquilo que as imagens nos mostram. Daí que Ricoeur distinga três fases na génese e no desenvolvimento do acontecimento. Na feliz expressão de Claude Romano. fixemo-nos nas narrativas mediatizadas ou mediatizáveis pelos órgãos de comunicação social de massas. Passagem do possível imprevisível ao possível previsível. E como se materializa essa procura de sentido? Através da construção de narrativas sobre o acontecimento. por enquanto. Narrativas não mediatizadas. A terceira à diluição do acontecimento na narrativa construída a seu propósito (3). das nossas rotinas diárias. ou mediatizáveis: as únicas susceptíveis de transportar o acontecimento para lá dos limites da comunidade onde emergiu. em torno do que poderíamos chamar os “mega-acontecimentos” (4). Apenas “Oh my God”. o sujeito. Ultrapassagem da incerteza. para citar Jocelyne Arquembourg-Moreau (2003). Restauração de um mundo. acrescenta Ricoeur (1991: 43). Umas e outras que permitem a passagem do possível imprevisível ao possível previsível. “Instaurando uma nova ordem. Que é. das nossas recordações. Narrativas mediatizadas. coordenado por Daniel Dayan (Julho de 2002). dentro destas. procura de controlo. é analisado o processo de previsibilização inerente à cobertura mediática do «11 de Setembro». logo desordem. na qual o acontecimento será inscrito. que nos dão o embate do primeiro avião com a primeira torre: “Oh my God”.

2. 2001: 104). Negada a hipótese de acidente. Denunciam-se os objectivos. prolonga esses caminhos prevendo as consequências. então. Dá-se. no contexto do passado e do futuro. ao funcionar como máquina de organização do tempo e ao assentar numa lógica da causalidade. acrescentam. adiantam pressurosos alguns comentadores. pelas analogias que sugere. Descreve um movimento para trás. em seguida. fica ligado à recordação que se guarda do súbito. O inacreditável deixa de o ser. Indomáveis. contudo. Reconstitui. portanto. o antes e o depois que constituem os dois pilares de uma espécie de normalização a que Lotman. Por um lado. resolve-se o enigma: acto de terrorismo. coincide. com a contiguidade. quanto é certo que os serviços secretos norte-americanos tinham já alertado para essa eventualidade… O acontecimento como ponto de chegada de uma causalidade em cadeia: o processo de factualização está consumado. reivindicado o sucedido. De um segundo avião. Dewey citado por Quéré. numa lógica em que a causalidade se funde. qualquer organização tivesse. aquilo era previsível. assim. os caminhos possíveis. Coincidência a mais. O presente factual constrói-se. Num ápice. desde as causas detectadas até aos efeitos observados. Por outro. Tanto mais. no sentido de descobrir algumas causas provisoriamente apresentadas como primordiais. ou melhor. Uma narrativa que gera sentido. Do futuro. note-se bem. Uma narrativa que integra o acontecimento num “todo contextual” (J. Do passado.José Rebelo Rapidamente. Sem que. Afinal. de inevitabilidade. a narrativa jornalística comporta uma tripla projecção no tempo. A tempo de registar o segundo embate. a narrativa do acontecimento. entretanto. citando Yuri Lotman (2002: 15-16). outros operadores de câmara afluem ao local. Entre a “necessidade retrospectiva” e a “contingência prospectiva” Como salienta Alain Flageul. pelas antecipações que permite. Arrasta consigo diversas temporalidades interpretativas. aquilo a que Santos Zunzunegi chama a “suspensão do inacreditável” (2002: 16-21). chama “processo de [20] _ Información y Comunicación . Inicia-se. Enunciam-se os meios. adquire uma dimensão de predestinação. sublinha Jorge Lozano. Tudo se explica. Recordação e predestinação. Porquê? Porque múltiplas relações de causalidade. segundo Lozano. Na segunda torre. Baliza-se entre a “necessidade retrospectiva” e a “contingência prospectiva”. Um segundo embate. diz Ricoeur (1991: 50). do inesperado. Por último. irrompem. Designam-se os autores. num artigo incluído no número de Dossiers de l’Audiovisuel já evocado (2002: 21-25).

enquanto revelador daquilo que ele (trans)forma. Lyotard traçava. no mínimo. elas despertam. Explicativo pelo poder que transporta. A actualidade de um qualquer percurso não seria mais do que a confirmação da sua previsão. Ou melhor. A não ser que… Mas é. essa trajectória inverte-se e são as finalidades projectadas no futuro que dão sentido ao presente. Jean-François Lyotard falava já de um «desafio» que. na sua opinião. assim. também. a um futuro cada vez mais predeterminado pela novas tecnologias de informação e comunicação. Repare-se no efeito produzido pela incessante repetição das imagens das torres. Imagens hipnóticas. Imagens que nos prendem. estaria a ser lançado pela tecnologia electrónica às sociedades contemporâneas: o de subordinar o presente. Dão-nos a visão de um mundo a desmoronar-se. objecto da operação de mediatização. explicável e explicativo. produziam efeitos de sentido através dos quais as coisas eram legitimadas e vividas. rompe-se a clássica lógica linear segundo a qual o presente se explicava pelo passado e antevia o futuro. Dão-nos bem mais do que isso. do imprevisível ao inevitável. o configuraria como possível. que deixaria de desembocar num «depois» incerto e contingente. simultaneamente. pode exprimir uma maior insistência no passado ou uma maior insistência no futuro. Segundo os efeitos pretendidos. Decididamente. uma nova perspectiva temporal para as sociedades capitalistas em que tudo seria função de estratégias – os jogos estratégicos – resultantes de previsões suportadas pelas tecnologias digitais. Explicável pela produção de “estórias” que origina. A rememoração (Heidegger) dos acontecimentos fundadores. dava sentido aos acontecimentos em curso. Que geram um sentimento de atracção/repulsão. É ideológica. ISSN: 1696-2508 _ [21] . O regresso ao instante imediatamente anterior ao acontecimento. O presente situa-se. as narrativas míticas. Hoje. Tal confluência de passado e de futuro não é aleatória. Nas sociedades tradicionais.Os acontecimentos como actos de palavra consciência”: passagem do fortuito ao regular. em nós. As imagens do desmoronamento não nos dão apenas o desmoronamento. Em l’Inhumain: causeries sur le temps. ainda de pé. Imagens de um tempo quase sem tempo. de uma repulsão que cresce com a atracção que. ou seja. do estranho ao normal. instaurando uma ordem discursiva do mundo. ou pode (trans)formar. Dessa dualidade temporal resulta que o acontecimento seja. logo seguidas das imagens do seu desmoronamento. cheio de significado a deslocação/instalação da narrativa a montante do acontecimento. é cheio de significado. nas pessoas e nas coisas. o futuro seria antecipado pelo presente que o realizaria ou. cada vez menos. na continuidade do passado.

as estratégias conducentes à sua assunção colectiva e à sua colocação no centro de debates. Na maioria das vezes. Desemprego. O perigo do terrorismo. para fundá-lo” (1982: 119). Dito de outra forma: a instituição de um problema enquanto problema é. em grande medida. dizendo com Bourdieu. submetendo-se [ao dominante] da mesma maneira que contribui. deles. exterior a cada um de nós. que faz com que o dominado “se esqueça de si e se ignore. negligenciando a sua condição de dominado. que se propõem resolvê-los. fundamenta. Para converter. enquanto problema. ao reconhecê-lo. se não nos é imposto. 3. ou a simulação das acções. Falta de habitação. É o caso do discurso actual sobre a guerra preventiva cujo pressuposto (Ducrot. Não são «nossos problemas». através da qual o dominado. Do acontecimento ao problema público Segundo Gusfield. em ziguezague. Que faz com que não tenhamos consciência plena da construção de um itinerário que. Problemas que são e não são nossos problemas. esse processo de naturalização que nos faz perder a ideia de exterioridade. Para forjar consensos. o estatuto do dominante. tal como nos são exteriores as acções. Abundam os exemplos dessa justificação de um presente com um futuro anunciado imperativamente. por entre problemas. São «nossos problemas» na medida em que nos afectam directamente. ou nem sequer dela se apercebendo. na medida em que a sua génese nos é exterior. em que. 1972: 5-24) assenta na inquestionabilidade de um perigo. que ele esteja associado a uma acção pública visando a sua resolução. citado por Louis Quéré numa conferência pronunciada no Porto em Fevereiro de 1999 (2001) a verificação de um “problema público” implica: que ele seja assumido. pela sociedade no seu conjunto. e ao reconhecer legitima. a nossa contribuição para a definição de um problema é bem menor do que seria de supor. como por magia. somos vítimas. justamente. Só que. uma história fragmentada. O quotidiano é feito de um eterno trilhar. E é.José Rebelo Regressando à dualidade temporal da narrativa mediática do acontecimento. Para fabricar adesões. Insegurança. Que faz com que se estabeleça uma espécie de cumplicidade entre dominante e dominado. Os media constituem um dos dispositivos mais importantes para o desencadear desses processos de naturalização. reconhece. Ou. O terrorismo enquanto problema público que. não os “consensos comuns” de inspiração Kantiana mas os que ocultam estratégias que Gramsci designaria por “hegemónicas”. são-nos exteriores. urge acautelar. que ele suscite debate contraditório e conflitual. proclamam instâncias de poder. em função de interesses e de [22] _ Información y Comunicación . Trata-se de problemas que conheceram um processo de naturalização. nos é insinuado.

Os acontecimentos como actos de palavra oportunidades. A vitória do Hamas. assim. E nós? Ultrapassados pelos discursos. todas as tragédias humanas acabam por se assemelhar» exclama Elisabeth Lévy. Na narrativa mediática não há. É o vai-e-vem das notícias. os tempos de emissão radiofónica e televisiva. A gripe aviária. há cadáveres aos montes. Comentadas com as mesmas palavras. 1990-1991): momento da mutação qualitativa em que o acontecimento deixa de se situar na curva do interesse decrescente para se situar na curva do crescente desinteresse. o mesmo assunto desaparece. Renunciaremos a compreender. a exclusão do processo global de recepção da informação circulante (5). Depois. Ou das supostas notícias. Unidade que se manifestaria sem interrupções. Unidade consentida e com-sentido entre “o que acaba de se passar” e “o que vai passar-se”. Hoje é o genocídio no Sudão. desenlace. nos ecrãs televisivos uma desgraça segue-se a outra. E a explicação do mundo reduz-se cada vez mais a uma volta ao mundo do sofrimento. crianças que choram. isto é. ouvintes ou telespectadores. Amanhã. O transbordante (Henri-Pierre Jeudi) ou o vazio. Arriscamo-nos a mergulhar na aparente «unidade indivisível». Em função dos respectivos projectos editoriais. a aceitar a amálgama. o fim da narrativa? Arriscamo-nos. os mesmos olhos húmidos. consagrado aos media. a Bósnia e o Kosovo. ISSN: 1696-2508 _ [23] . uma aparente “unidade indivisível”. Porque a alternativa é a descolagem. casas devastadas e unidades de ajuda psicológica que convidam as vítimas a exprimirem a sua dor. Uma amálgama que ganharia sentido dentro de nós. Num bom noticiário de televisão. Os massacres no Ruanda e no Burundi. emitido pela estação France Culture (2006: 78). numa continuidade feita de mutações tão dissimuladas quanto incessantes. do fait-divers ao crime de guerra. os media narrativizam um acontecimento. As caricaturas de Maomé. Criando. Ontem era Ben Laden e o Afeganistão. por vezes inconfessáveis. no interior de nós mesmos. as mesmas vozes graves. aliás. sem hiatos. do atentado ao acidente rodoviário. pela incapacidade de encontrar. A subida eleitoral da extrema-direita europeia. textuais e iconográficos. da representação que constroem dos seus leitores. A ameaça nuclear do Irão. saltamos de notícia em notícia. A integrar a amálgama. enchem-se com um assunto. O processo de paz em Angola. produtora do programa radiofónico Le Premier Pouvoir. Sem que se conheça o seu desenlace (Rebelo. Hoje. 2003). para recorrer ao conceito de Husserl. mães que gritam. as páginas dos jornais. deixam-o cair porque o acontecimento terá atingido o seu momento Kairos (Marin. pelo menos. «Da catástrofe aérea ao ciclone.

Por sua vez. Sem que tal acto se deva a convocações partidárias tradicionais. “a ideia dissocia-se do seu autor. Quando se evoca o «11 de Setembro». acrescenta. em todo o caso. do lugar e da pessoa. esse sentimento é muito menos espontâneo do que parece: “ele é. milhões de pessoas em todo o mundo invadem a rua. Em cada manifestação misturam-se línguas. O «15 de Fevereiro» não marca uma data. deixa de ser a expressão de quem fala e passa a ser a expressão da coisa de que se fala” (1981: 198-199). explica Jacques Derrida. essa “marca” distintiva e estruturante dos novos movimentos sociais. Impõe-se-nos. Em cada cidade a causa unificadora é a mesma: “Não à guerra”. autênticas relações de simbiose. em nós. litania jornalística. pois. constitui o quadro explicativo do «11 de Setembro». Por sua vez. em grande parte. Uma causa que atravessou fronteiras e é exterior a todas as fronteiras. mediatizado por uma formidável máquina tecno-socio-política” (2001. de repente. ganha autonomia.José Rebelo Uma vez mediatizado. a mensagens. o problema público constitui o quadro explicativo do acontecimento: é por causa da crise que a fábrica encerra. claro está. Inscreve-se no nosso discurso ordinário. Nunca nada se vira de semelhante. transforma-se numa evidência independentemente do tempo. de maneira aparentemente imediata. Insaciavelmente repetido nos media “numa espécie de encantação ritual. Problema público e acontecimento estabelecem. posicionamentos políticos. sim. como algo de singular. O «11 de Setembro» marca uma data (fait date. apelos e petições que fervilham em rede. aliado ao conceito de “terrorismo”. entre si. a ideia de crise. forma esconjuratória. Assim. 134). enquanto problema público. O «terrorismo». para marcar data é preciso que o acontecimento seja genericamente sentido. p. E quanto maior for [24] _ Información y Comunicación . Mas. salvo. não há quem desconheça o referente. o “11 de Setembro”. o acontecimento vai alimentar o problema público: o encerramento de uma fábrica reforça. refrão retórico” (2001: 134). E quando se evoca o «15 de Fevereiro»? No dia 15 de Fevereiro de 2003. Incorpora o nosso exército de pré-conceitos (Gadamer. o «11 de Setembro» alimenta o problema público chamado «terrorismo» O «11 de Setembro»: curioso processo de datação. 1995: 110). como dizem os franceses). assinala Moscovici. “Pela repetição”. quando não construído e. estilos de vida. Porquê? Porque. Globalização do protesto. idades. Derrida insiste no uso da expressão “aparentemente imediata” já que. etnias. para os militantes mais activos desses movimentos sociais. condicionado.

mais se nos escapa a sua dimensão instrumental. Mas. Mais do que um poder. por completo. perturbado. palavra pouco comum. afectado. os mecanismos de gatekeeping e de newsmaking. Os media comportam-se. A sua arbitrariedade. por completo. pode tirar proveito da “desterritorialização”. decerto. Tal como as novas relações entre sexos modificaram. A sua acção. termos já consagrados na sociologia da comunicação (Rebelo. A sua ambiguidade. 4. capazes de suportar. por sistemas de valor. empreendida no contexto de uma sociedade democrática. de suportar. as representações da vida no planeta. de aguentar. a sociedade envolvente vai também. que são dotados de uma “passibilidade” superior os indivíduos particularmente tocados. de aguentar. actuar sobre os media. como sujeitos e como objectos de uma sociedade onde se entrelaçam experiências. Cada época é marcada. Cada época é marcada por discurso de transcendência (Charaudeau. posto que essa relação de forças é uma relação social. de sofrer o que quer que seja. de sofrer o que quer que seja (2005: 66). no interior dos media. 1997) destinados a delimitar campos problemáticos. Afirmaremos. a des-realização das coisas. eles são um lugar de cruzamento de poderes. Segundo essa relação de forças desenvolvem-se. Dito de outra forma: são dotados de uma “passibilidade” superior os indivíduos que recusam a in-diferença. regras de comportamento. acções colectivas levadas a cabo. ISSN: 1696-2508 _ [25] . as representações da vida em família. E chegamos à questão de fundo. Segundo essa relação de forças. 2002: 36-38). a in-significância. Sistemas de valor.Os acontecimentos como actos de palavra a sua autonomia e quanto mais se nos impuser. Assim. emocionados pelo que lhes acontece e. emocionado pelo que lhe acontece e. perturbados. os media actuam na sociedade envolvente. a expressão de uma relação de forças. discursos de transcendência que invadem as páginas dos grandes jornais. das “linhas de fuga” de que nos falam Gilles Deleuze e Félix Guattari (1976. por conseguinte. Louis Quéré define “passibilidade”. por regras de comportamento que uma sociologia do senso comum pode estudar. em cada instante. Que saturam as grandes cadeias de televisão e as grandes estações de rádio. “impassibilité”: “é impassível aquele que não é susceptível de ser tocado. 1980). portanto. por conseguinte. afectados. por indivíduos dotados de uma “passibilidade” superior. as aspirações ecologistas modificaram. por exemplo. então. Potencialidades e limites da acção colectiva Os media não constituem um poder homogéneo e autónomo. E culminarem na denúncia de processos de naturalização ou na configuração de novos campos problemáticos. São. a partir do seu antónimo. nomeadamente. por seu lado.

Postulámos que nem todas as ocorrências são acontecimentos e que nem todos os acontecimentos são mediatizados. Jean-Claude (2006). Pierre (1982). Brysur-Marne. Postulamos. Jürgen (2004). FLAGEUL. Hermann. Paris. Le temps des événements médiatiques. de iniciação e de esclarecimento. Bruxelas. De Boeck /INA. Gallimard. Jacques e HABERMAS. in Le Débat. [26] _ Información y Comunicación . Fayard. Erving (1991). Patrick (1997). ou mediatizáveis. Nº104 – À chacun son 11 septembre. in Dossiers de l’Audiovisuel. Langage et Vérité. Paris. CHARAUDEAU. DUCROT. “La question médiatique”. todavia. INA. Paris. Gilles e GUATTARI. Oswald (1972). agora. Dialogues à New York (octobre-décembre 2001) avec Giovanna Borradori. Jocelyne (2003). Hans-Georg (1995). DERRIDA. Éditions de Minuit. Dois meses depois foi o que se viu… Enfim. inesperada acção colectiva: «A França aborrece-se». Éditions de Minuit. l’économie des échanges linguistiques. DELEUZE. “De l’assassinat comme genre télévisuel”. Paris. em Março de 1968. Nathan/INA. Julho-Agosto. Paris. Éditions de Minuit. Paris. Ce que parler veut dire. Les Cadres de l’expérience. BOURDIEU.José Rebelo Importa. GOFFMAN. Podem ser fruto duma insuspeita. Dire et ne pas dire. Félix (1976). Félix (1980). de revelação e de interpelação” (2005: 60). GADAMER. Paris. DELEUZE. Bibliografía ARQUEMBOURG-MOREAU. Muitos. GUILLEBAUD. que nem tudo o que é mediatizado é percepcionado como acontecimento. titulava um grande jornalista francês. nem todos os campos problemáticos nascem de um acontecimento mediatizado. Gallimard. Nº138. Capitalisme et Schizophrénie Mille Plateaux. são o começo de algo novo. nem todos os acontecimentos mediatizados alimentam campos problemáticos já conhecidos. Le «concept» du 11 septembre. Rhizome. Gilles e GUATTARI. para sermos mais rigorosos. Paris. Têm essa dimensão “inaugural” de que nos fala Louis Quéré: esse “poder de abertura e de fecho. Paris. Le discours d’information médiatique. nem todos os problemas públicos ou. defendermo-nos de interpretações mecanicistas. Pierre VianssonPonté. Além disso. Galilée. Alain (2002).

Nº6. in Le Débat. in Dossiers de l’Audiovisuel. Seminário na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Notícias Editorial. Paris. REBELO. Galilée. L’Âge des Foules. 2 Conceitos introduzidos por René Thom na sua teoria semiótica da regulação biológica e retomados por Patrick Charaudeau (1997). “La construction des problèmes publics et l’action collective”. ISSN: 1696-2508 _ [27] . in Raisons Pratiques. Entre o facto e o sentido: a dualidade do acontecimento”. “Sémiotique de l’événement et explosion”. Nº104 – À chacun son 11 septembre. ROMANO. Lisboa. José (2003). les médias et l’accident de Three Mile Island. Brysur-Marne. Minuit. Jorge (2002).Os acontecimentos como actos de palavra LÉVY. Gallimard. Sémantique des systèmes représentatifs. Eliseo (1981). com maior ou menor fidelidade. Bry-sur-Marne. Paul (1991). Paris. Casa das Letras / ISCTE. in Trajectos. LYOTARD. A Comunicação: Temas e Argumentos. Julho-Agosto. Fayard. Paris. QUÉRÉ. L’événement et le monde. 1 “Os acontecimentos sociais não são objectos surgidos algures na realidade e dos quais os media nos dariam a conhecer. Paris. INA. 1981). Eles existem. José Manuel (2006). Nº2 – L’événement en perspective. MinervaCoimbra. MARIN. Paris. RICOEUR. “Événement et sens”. in Trajectos. Louis (2005)“. Lisboa. as propriedades e as transformações sofridas. Julho-Agosto. Lisboa. na medida em que os media os modelam” (Eliseo Veron. “Le futur antérieur”. Claude (1998). Santos (2002). Paris. apenas. Louis (1990-1991). SANTOS. Paris. Casa das Letras / ISCTE. in Dossiers de l’Audiovisuel. QUÉRÉ. Nº138. MOSCOVICI. Louis (2001). “Le rapt du réel”. Nº6. Serge (1981). PUF. Coimbra. Lisboa VERON. “Da perca do mundo à sociedade dos (mega)acontecimentos”. José (2000. Universidade Aberta. REBELO. 2ª edição 2002). Construire l’événement. O Discurso do Jornal. l’Inhumain: causeries sur le temps. ZUNZUNEGI. LOZANO. Notas. Nº104 – À chacun son 11 septembre. Élisabeth (2006). à posteriori. Cultura e Sociedade. Uma Tensão entre o Global e o Local. INA. École des Hautes Études en Sciences Sociales. in Discursos – Língua. Jean-François (1988).

reflectem o grau de contingência existente no interior dos sistemas e são. 5 Jean Claude Guillebaud. até. Os segundos. Trata-se de nunca deixar instalar-se nem a calma. automaticamente digeridos por eles. sugestivamente. sacrificial. ocorrem no interior dos sistemas e obrigam-nos a reagir. nem a quietude nem a saciedade. a existência de micro e de macro acontecimentos. para não dizer de beatice. ensaísta. toda a teimosia subjectiva podem aparecer como obstáculos ao funcionamento fluido da sociedade de mercado. Apoia-se na ideia de falta e de mobilidade.José Rebelo 3 José Manuel Santos fala. sem atingirem a dimensão e os efeitos dos mega-acontecimentos. retirando-lhe a agressividade e fazendo cessar a irritação” (2006: 82). mas pela produção de nácar que envolve esse intruso. Nesta óptica. verificar-se-ia a mesma celeridade e a mesma fragmentação: “A sociedade de mercado fundamenta o seu dinamismo numa insatisfação e numa inquietação que apenas o trabalho e o consumo conseguirão resolver. Aderimos à religião da instabilidade” (2006: 100). por conseguinte. antigo jornalista do «Le Monde». [28] _ Información y Comunicación . o bivalve não reage através de um gesto físico de afastamento ou fuga. de um efeito de pérola: “face à perturbação causada por um intruso vindo do meio ambiente (que pode ser um parasita ou uma simples poeira). toda a crença reforçada. 4 Niklas Luhmann considera. Os primeiros fazem parte do nosso quotidiano. O consentimento que damos a um modo de vida tão absurdo. A calma é inimiga do mercado. também. Num caso e noutro. o servilismo que manifestamos a injunções tão idiotas só é possível porque nos encontramos num estado de devoção. compara a narrativa mediática com o modelo económico ultraliberal hoje prevalecente nas sociedades economicamente mais desenvolvidas. A competição económica é uma religião disciplinar e.