Situação dos alunos negros na escola.

Verônica Barbosa Jesus Neta.

Preconceito e Discriminação
Para melhor entender os apontamentos feitos sobre o racismo e preconceito enfrentado pelos alunos negros na escola, conceituam-se o que é preconceito e discriminação racial. A respeito das Teorias raciais do século XIX, Silva explica que a expansão teórica do racismo deu-se em meados do século XIX, a partir das interpretações equivocadas e abusivas das teorias evolucionistas de Charles Darwin. Foi feita uma hierarquização das diferenças de ordem física que se constatam entre os seres humanos, transformando-as em desigualdades, em marcas de superioridade para uns/mas (fenótipo branco/ europeu) e de inferioridade para outros/as (negro/africano) (2001: 76). No Brasil, essas ideias raciais foram muito utilizadas pelos cientistas da época, para justificar a superioridade da população branca e a suposta inferioridade da população negra. Buscaram também, comprovar os malefícios da predominância do negro no país. Silva (2001) comenta sobre o incentivo a imigração estrangeira, europeia/branca, no Brasil com o objetivo de “branquear a raça”.
Vale lembrar que a imigração estrangeira, leia-se europeia/branca, posto que neste período era vedada a entrada no país de pessoas africanas e asiáticas, justificou-se e foi incentivada pela necessidade de “branquear a raça”. Não se pode esquecer ainda que o Brasil foi o país que escravizou o maior número de africanos/as durante o sistema escravista colonial e o último da Américas a pôr fiam à escravidão. Portanto, a população negra era de fato imensa, e isso levou as elites a fortalecer as teorias racistas e a produzir preconceitos contra as pessoas de origem africana, com o objetivo exclusivo de garantir seus privilégios (76).

Nos dias atuais, o racismo tem se manifestado de maneira muito evidente, quando se tenta negar a humanidade das pessoas negras, comparando-as por meio de seus atributos físicos a coisas doenças e animais. Essas comparações são neutralizadas na cultura brasileira, ou seja, de tanto inferiorizar as pessoas negras com apelidos, “piadinhas”, e gracejos, seguidos de “tapinhas” nas costas e comentários sobre os/as amigos/as que até frequentam a casa de pessoas brancas, bem como as trabalhadoras

Para Silva (2001). etc. louvável e quem se indigna é “neurótico/a” (SILVA. o preconceito é basicamente uma atitude negativa (é necessário que haja algum referente positivo para comparação) com relação a um grupo ou pessoa. é uma tática que nos faz fechar os olhos para os preconceitos que permeiam a nossa sociedade. ou a um indivíduo por ser membro dele (p. etc. vende-se a ideia de que vivemos uma “democracia racial”. ora essa ideia não passa de uma falácia.) entendemos não ser mais aceitável encontrar no interior dessa instituição. 2001: 76-77). Foi o que aconteceu em uma escola de Guaramirim. no trabalho.doméstica negras. a docente o teria chamado de "macaco" – “Eu tava virado para trás conversando com o meu colega. É uma psicológica queacentua sentimentos e atitudes endereçados a um grupo como um todo. é comum casos de alunos que são xingados pelos professores e colegas de classe. nas escolas. dos exemplos. Milhares de não-brancos sofrem discriminação racial todos os dias – quando procuram emprego. religiosa. quando ela mandou eu me virar para frente me chamou de macaco. Assim devemos adotar posturas comprometidas com o . “tratadas como filhas”. Ele nasceu no sei da sociedade dominante na tentativa de justificar a superioridade de um grupo e a inferioridade do outro. através das palavras. Esse mito de “democracia racial” está profundamente enraizado em nossas cabeças. Segundo os outros alunos da mesma escola. no interior de Santa Catarina. A escola é um lugar que recebe uma imensa diversidade (étnica. Segundo o estudante de 14 anos. médico. onde o aluno foi ofendido pela professora temporária de língua portuguesa da Escola de Educação Básica São Pedro. de uma infinidade e imperceptíveis ações cotidianas. ambiente onde o racismo deixa cicatrizes que não desaparecem tão facilmente. todo o mundo passa a achar isso engraçado. As ideias racistas são introjetadas nas cabeças. O racismo é guardado nas mentes e vem à tona de formas às vezes sutis ou como avalanches que destroem tudo que esta a sua volta. O racismo não foi criado sozinho. 2012). No Brasil. baseando-se num processo de comparação social em que o grupo da pessoa preconceituosa é considerado um ponto positivo de referencia. racial. não era a primeira vez que a professora insulta os alunos (GÉLEDES.75). Eu saí da sala e não voltei”. Nas escolas. da imitação das crianças. práticas segregatórias e discriminatórias.

bem como estar contribuindo para a formação de crianças e de adolescentes brancos com um sentimento de superioridade (2012: 32-33). mas a totalidade da sociedade brasileira. que ignora as relações étnicas estabelecidas no espaço escolar. não somente a escola. Cavalleiro aponta que esse ritual pedagógico. pode estar comprometendo o desempenho e o desenvolvimento da personalidade de crianças e de adolescentes negros. Isso acarreta relações cotidianas com pessoas diversas. Nesse sentido. É sabido que a educação presente em nossas escolas é branca. no respeito aos direitos humanos e na noção de cidadania compartilhada por todos os brasileiros. O aprendizado não ocorrerá por discursos. encontramos alunos e professores com diferentes origens. Breves apontamentos sobre o cotidiano escolar dos alunos e alunas negros. No seu interior. Esse formato de educação faz parte da realidade vivida de muitos alunos negros. . nos materiais visuais e audiovisuais utilizados em sala de aula e nos currículos das escolas.desenvolvimento de cidadãos aptos a viver em paz e em meio à pluralidade que habita. baseada na tolerância. a escola deve ser local de aprendizagem de que as regras do espaço público permitem a coexistência. Sentimento de exclusão permeiam as relações escolares. dos diferentes. Os mesmos preconceitos presentes fora dos muros das escolas permeiam as relações cotidianas de alunos entre si e de alunos com os professores. Os ensinamentos repassados nas escolas não comtemplam as vivencias dos alunos negros. Diante dessa realidade apresentada podemos entender que a escola também tem a sua parcela de participação na perpetuação das desigualdades raciais. mas também reproduz relações préexistentes fora dos muros das escolas. e sim num cotidiano em que uns não sejam “mais diferentes” do que os outros. Historicamente o ensino brasileiro pregou. crenças e visões do mundo. uma educação formal do embranquecimento. O trabalho com Pluralidade Cultural se dá a cada instante. Os materiais didáticos carregam os mesmos conteúdos depreciativos e preconceituosos em relação aos povos e as culturas não eurocêntricas. valores. exige que a escola alimente uma “Cultura da Paz”. Essa predileção pela cultura eurocêntrica é vista até mesmo nos livros didáticos. em igualdade. Todavia. e ainda prega. São ensinamentos que em nada positivam o alunado negro e os impõe um ego branco. A escola é um espaço plural. este ambiente não apenas constrói dinâmicas de interação com indivíduos de diferentes valores.

Percebo que houve por parte dos meus educadores uma omissão ou um desinteresse em tratar de forma mais positiva a imagem do negro. ele também tiveram suas estruturas psíquicas afetadas (2005:16). Me recordo que as aulas que eram separadas para se falar dos meus ancestrais era sempre do viés escravagista. principalmente branca. segundo ele: O resgate da memória coletiva e da história da comunidade negra não interessa apenas aos alunos de ascendência negra. Ora esse fato não deve estar muito longe da realidade de outros alunos no . Nós alunos negros levávamos a marca de alunos bagunceiros. não sabem lançar mão das situações flagrantes de discriminação no espaço escolar e na sala como momento pedagógico privilegiado para discutir a diversidade e conscientizar seus alunos sobre a importância e a riqueza que ela traz a nossa cultura e a nossa identidade nacional (2005: 15). Diante dessas situações de dor e de impotências os alunos negros se retiram e se isolam. As falas positivadas eram sempre direcionadas aos outros alunos não negros. O pouco que aprendemos sobre os nossos ancestrais é contado do ponto de vista do “outro” seguindo uma ótica humilhante e pouco humana. Nossos pais são sempre chamados nas escolas. Os estereótipos que nos são imposto gratuitamente nos silenciam diante do opressor. Durante o meu período de educação formal nunca ouvi por parte dos meus educadores nenhum discurso que positivasse a minha negritude. Munanga aponta para a importância do resgate da memória dos nossos ancestrais. advertidos suspensos dos nossos direitos de termos aula. Para ele os professores por falta de preparo ou por preconceitos neles introjetados. embora ela esteja presente em mim. pois os nossos comportamentos atrapalham o andamento das aulas. Nosé imposto goela abaixo outra história que não nos valoriza. Munanga comenta sobre o despreparo dos professores em lidarem com essas situações. Por não nos comportamos “certinho” somos punidos. Passamos a maior parte da nossa educação formal diante da imagem positivada do colonizador. conversadores e inquietos. mas para que fiquem mais atentos aos nossos comportamentos. Aprendemos tudo sobre eles é uma espécie de educação que valoriza o esquecimento de nossas raízes negras. pois aos receber uma educação envenenada pelos preconceitos. dos xingamentos e dos risos na escola.Alunos negros são alvos constantes das piadas. chamados não para ouvirem elogios. Interessa também aos alunos de outras ascendência étnica. das chacotas. que valoriza a história dos nossos colonizadores.

cujo objetivo é fazer com que as escola resgatem o legado histórico do povo negro nas áreas sociais. os alunos negros estão fadados a sofrerem vários preconceitos na escola. caricaturados. “juba de leão” . Os alunos sofrem vários preconceitos no interior da escola por não está de acordo com as normas pré-estabelecidas. econômica e politica da história do Brasil. Há uma espécie de negação ao seu grupo étnico e o desejo de pertencer ao grupo branco. um silêncio por parte de muitos professores em tratarem dessa temática. . em consequência a beleza negra passa a ser desejada. Essa prática prejudica severamente a auto estima das alunas. Longe dos padrões vigente. a mulher. A vida escolar de muitos alunos negros é cheia de lembranças desagradáveis. há muita resistência. o cotidiano e as experiências dos segmentos subalternos da sociedade. Outro fato presente nas escolas são os comentários maldosos direcionados as alunas negras sobre a sua característica estética. O preconceito e a discriminação estão intimamente ligados à dificuldade de lidar com o tido como diferente da norma. de modo geral. o negro é associado ao feio. serviçais. “cabelo de espanador”. inteligente. incapaz. são mostrados em situação de inferioridade. como minoria e relacionados a marginalidade. omite o processo histórico e cultural. A lei foi um avanço no processo de democratização do ensino e na luta anti-racista. As agressões racistas contra os alunos negros estão no pátio da escola. Todavia. Chamadas de cabelo de “palha de aço”. os alunos negros se envergonham da sua situação descrita nos livros e negam a sua história. Atento para o fato de que tivemos avanços a partir da promulgação da Lei 10639/03 que obriga o ensino historia e cultura da África e dos africanos no Brasil. como o índio. sob a forma de escravos. “cabelo assanhado”. puro. pois o ideal de beleza que é veiculado no interior das escolas é a imagem branca que é muitas vezes priorizada pelos olhares dos professores. em muitos casos. Nos livros didáticos há uma exaltação ao branco europeu e a tudo que vem da cultura europeia O branco também é representado como belo.atual sistema educacional. o negro. entre outros. nas salas de aula. Muitos alunos negros negam a sua imagem. Os texos presentes nos livros didáticos camuflam e omitem as lutas de resistência do povo negro pela liberdade. são mostrados como culpados da sua própria situação de pobreza. Em oposição ao branco. Essas ideias causam no próprio aluno negro auto-rejeição.

Fica explícito a demonização da religião. A religião está ligada aos negros. em muitas situações. Recorrendo a Cavalleiro. As falas a respeito das religiões afro nas escolas. “macumbeiro”.entre os funcionários e professores. Os alunos brancos recebem um tratamento diferenciado e mais afetivo. são desprezíveis. Acontecimentos como estes são reveladores dos desrespeitos sofridos pelos alunos que se autodeclararam praticantes dos ritos das religiões de matriz afro. evidencia-se um espaço onde é ensinado aos alunos branco uma superioridade. os estudantes negros são expostos diariamente à negação dos educadores. não é um espaço democrático. Termos como macaco. o aluno branco recebe mais atenção e incentivos para se sentir mais aceito que os demais alunos não brancos. Dessa forma. “adorador do diabo”. Simultaneamente. ela comenta que há uma maior interação entre professor/ aluno branco essa relação é caracterizada pelo natural contato físico acompanhado de beijos. negativas. cabelos lisos e branco. à negritude e à África que trazem à tona visões de mundo plurais e politeístas. não há uma satisfação para todos. Os xingamentos. . Neste ambiente. Os xingamentos dentre tantos outros motivos. preguiçoso e expressões equivalentes. pois pode incutir nestes alunos um sentimento de inferioridade e menosprezo pela religião. desrespeitosas e preconceituosas. percebem a preferencia das professoras/os por alunos brancos cuja aparência física é considerada ideal. concebendo e classificando o mundo de maneira diferente da visão cristã. enquanto os alunos o contato com os alunos negros é escasso. comprovando um maior grau de afeto (2012: 72). expressam as agressões sofridas pelos alunos negros na escola. ou seja. já que todos os dias ele recebe provas fartas dessa afirmativa. abraços e olhar. são os tipos de violência que mais levam os alunos negros a desistirem dos estudos Os alunos negros percebem as predileções e os olhares dos professores. Comentários depreciativos são altamente prejudiciais aos alunos candomblecistas. É de se esperar que os seguidores das religiões afro-brasileiras fossem os mais discriminados. macumbeiro. Essas preferencias feitas pelos professores evidenciam a discriminação racial no cotidiano escolar. apontam para a depreciação e desqualificação das religiões de base africana. As estatísticas sobre a educação apontam que os alunos negros são os que mais se evadem ou são excluídos da escola. através da associação entre umbanda e o mal.

2012. Vários professores ao invés de resgatarem os alunos discriminados de relações de interação impostas de forma destrutiva a cerca das identidades raciais destes. Secretaria de Educação Continuada. . Fonte: CAVALLEIRO. A falta de domínio do tema por parte do educador ou sua contribuição para a reprodução de estereótipos discriminatórios presentes no imaginário social podem agravar ainda mais a condição de alunos e negros na relação com sua turma.Nas escolas. Os alunos negros são os alvos principais das piadas. Contexto. preconceito e discriminação na educação infantil/ São Paulo. dos xingamentos e dos risos. Ministério da Educação. Trato na questão das diferenças raciais pode aprofundar imagens preconceituosas sobre o grupo negro quando não é feita com base em conhecimentos mais elaborados sobre o tema. casos de racismo e preconceitos são constantes. MUNANGA. Kabengele (organizador). Brasília. acabam por colaborar com a reafirmação dos modelos de comportamentos que devem ser dados em respostas aos apelidos e xingamentos de cunho racista. 2005. Eliane dos Santos. Do silêncio do lar ao silencio escolar: racismo. Alfabetização e Diversidade. Superando o Racismo na Escola.

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