DIGRESSÃO SOBRE O ADORNO1

Georg Simmel

O desejo que o homem tem de agradar os que o rodeiam, contém em si entrelaçadas duas tendências opostas, em cuja alternativa se realiza em geral a relação entre os indivíduos. Por uma parte há o desejo positivo de proporcionar aos outros uma alegria. Por outra, há também o desejo de que esta alegria, este agrado, redundem em aceitação e estima e sejam computados como um valor da nossa personalidade. Este desejo se acentua de tal modo que chega a contradizer completamente o primeiro movimento, o altruísta, que é o de agradar. Por conta do agrado que produzimos, pretendemos distinguir-nos dos demais, queremos ser objeto de uma atenção não outorgada a outros, produzindo a inveja. O agrado se torna assim um meio a serviço do desejo de poder, e evidencia em algumas almas uma curiosa contradição que consiste em necessitar justamente das pessoas sobre as quais predominam pelo seu modo de ser e sua conduta, para construir sobre o sentimento de inferioridade destas, a sua auto-estima. Estes motivos se combinam de maneiras ainda mais específicas quando se trata do adorno, entretecendo-se nelas o exterior e o interior de suas formas.O seu sentido reside em fazer ressaltar a personalidade, acentuando-a como algo que se sobressai, mas não por uma manifestação imediata de poder, não por algo que se imponha de fora, mas pelo agrado que no outro se desperta e que, portanto, contém algum elemento voluntário. Esta é uma das combinações sociológicas mais admiráveis: um ato que serve exclusivamente para acentuar a personalidade do sujeito e para aumentar sua importância, alcança seu fim por meio do prazer que proporciona a outros, por uma espécie de gratidão que desperta nos demais. Pois mesmo a inveja que o adorno produz, não significa outra coisa senão o desejo do invejoso de conseguir para si o mesmo acato e admiração provando até que ponto estes valores estão articulados ao adorno.
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Traduzido por Simone Carneiro Maldonado, professora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba.

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O adorno é de um egoísmo máximo quando destaca o seu portador dando-lhe um sentimento de satisfação à custa dos demais (já que o mesmo adorno usado por todos a ninguém adornaria individualmente). Mas ao mesmo tempo, é também uma forma elevada de altruísmo, pois o agrado que produz é experimentado por outros, e o seu proprietário só desfruta dele como um reflexo, que é o que dá valor ao adorno. Na criação estética de modo geral, as manifestações vitais que na realidade se apresentam como indiferentes ou como inconciliáveis, terminam intimamente aparentadas; do mesmo modo na luta entre o egoísmo e o altruísmo do homem, o elemento estético do adorno representa o ponto em que as duas correntes opostas remetem uma à outra, servindo alternativamente como fim e como meio. O adorno acentua ou amplia a impressão que a personalidade produz e atua como uma irradiação dela. Por isso costuma ser feito de materiais brilhantes e de pedras preciosas que são “adornos” no sentido mais estrito do que a roupa ou o penteado, os quais não obstante também “adornam”. Poderíamos falar aqui de uma radioatividade do homem. Ao redor de cada indivíduo há como que uma auréola resplandecente maior ou menor em que submerge tudo o que com ele se relaciona. Esta auréola contém, inseparavelmente fundidos, elementos corporais e espirituais. Do homem partem influxos perceptíveis que recaem sobre o ambiente. Estes influxos são de certo modo portadores de um resplendor espiritual e atuam como símbolo do indivíduo, ainda quando são meramente exteriores e deles não flui nenhum poder de sugestão ou de importância pessoal. O que emana do adorno, a atenção que desperta, aumentam ou intensificam a aura que rodeia a personalidade. Por assim dizer, a pessoa é “mais” quando está enfeitada. Juntese a isso o fato de que o adorno costuma ser também um objeto de valor considerável. Constitui, pois, uma síntese do ter e do ser do sujeito. Graças a ele, um simples objeto de posse se converte numa intensa manifestação sensível do homem. O mesmo não acontece com o traje cotidiano; este não nos parece uma concretude individual, nem no aspecto do ter nem no aspecto do ser. Só o traje requintado e, sobretudo, adornado de coisas preciosas que condensam seu valor num ponto mínimo, convertem o ter da pessoa numa qualidade visível do seu ser. E isto acontece apesar de ser o adorno algo “supérfluo”, talvez justamente por isso. Aquilo que é imediatamente necessário

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vem estreitamente unido ao homem e circunda o seu ser com uma auréola mínima. Já o supérfluo, como o termo indica, “flui em excesso”, isto é, derramase além da sua razão de ser. Mas como também adere ao sujeito, traça ao redor do estritamente necessário outro círculo mais amplo e em princípio indefinido. O conceito de supérfluo não encerra em si nenhuma limitação. À medida que o supérfluo aumenta, aumentam também a liberdade e a independência do nosso ser. Mas este acento sobre a personalidade ocorre justamente mediante um rasgo de impessoalidade. As diferentes coisas que podem “adornar” o homem, estão ordenadas em escala, a depender de se a personalidade física está mais ou menos estreitamente ligada a elas. O adorno mais imediato, sem dúvida, são as tatuagens dos povos primitivos. O extremo oposto está nos enfeites de metais e pedras preciosas que são absolutamente impessoais e que todo mundo pode usar. Entre estes extremos se encontra a roupa, nem tão definitiva e pessoal quanto as tatuagens, nem tão impessoal e destacável quanto os “adornos” propriamente ditos. A elegância está nessa impessoalidade. O maior encanto do adorno é que a condição dura e pouco maleável do metal e da pedra não se relaciona a nenhuma individualidade, mas se vê forçada a servir à personalidade. A elegância por excelência evita o excesso de individualização, rodeando o homem com uma esfera de coisas gerais, estilizadas, abstratas por assim dizer, o que naturalmente não é obstáculo ao refinamento com que essas coisas gerais se ligam à personalidade. Se a roupa nova produz uma impressão de elegância, é porque ainda está “rígida”, isto é, não se acomodou ainda ao corpo individual de um modo tão incondicional quanto as peças muito usadas, que tendo recebido uma forma peculiar em virtude dos movimentos do seu portador, lhe evidenciam a individualidade. Este “ser novos”, essa

impossibilidade de modificar-se e adequar-se segundo os indivíduos se mostra muito claramente nos enfeites de metal. O metal não envelhece; permanece frio e inacessível, acima da singularidade e do modo de ser do seu portador, coisa que não acontece com a vestimenta. Uma roupa usada fica de tal modo afeita ao corpo, tem tal intimidade com ele, que contradiz a essência da elegância. Pois a elegância é para os outros, é um conceito social cujo valor vem da aceitação geral.

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não pode ter uma natureza individual. algo referente a outros e que é acatado por eles. Ao contrário. O luzir da pedra preciosa parece dirigir-se ao outro como o brilho do olhar. o adorno tivesse que ser uma obra de arte individual. e sim uma maneira se sentir ampla. Graças ao instinto que faz compreender isso. o ser para os demais. O estilo é sempre geral. todo olhar que nele se detenha. a dedicação aos outros. que aumenta a importância do sujeito. Todo o conteúdo da vida humana – ao contrário da obra de arte que se encaixa no geral da vida. este meio consiste no “esplendor” do adorno. Nessa radiação está contido o significado social do adorno.Assim. sozinho no mundo diante dela. mas que tem o individual como base ou círculo de irradiação. o adorno sempre foi estilizado de modo relativamente severo. pois a obra de arte se destina à personalidade do contemplador que se encontra por assim dizer. social e histórica. além de uma estrutura material. sendo ela mesma um mundo – haverá de rodear o indivíduo com esferas concêntricas cada vez mais amplas que a ele se destinem ou que dele partam. que assim carregada a ele volta. o adorno emprega um meio material para conseguir a sua finalidade social. deve ter estilo. Seria um erro supor que pelo fato de serem sempre indivíduos os que se adornam. A essência da estilização está na dissolução da marca individual numa generalização que ultrapassa a peculiaridade pessoal. Os raios deste círculo assinalam por um lado a distância que o adorno põe entre os homens. que seja possível ordenar no sistema de vida de muitos indivíduos. justamente por ter que servir ao indivíduo. nos seus produtos não se estará expressando uma alma única. aquilo que chamamos arte industrial. assumindo uma forma mais geral e típica. Na obra de arte propriamente dita. Diferentemente. destina-se a uma pluralidade de pessoas. pois que um deles pode dizer: “eu 4 . encaixando os conteúdos da vida e da criação pessoal em formas compartilhadas por muitos e acessíveis a muitos. pela sua própria finalidade utilitária. o estilo vai nos interessar a depender da peculiaridade pessoal maior ou menor da vida subjetiva que nela se expresse. em virtude de que seu portador se converte no centro de um círculo de irradiação que inclui tudo o que esteja próximo. se o adorno amplia a esfera do indivíduo com algo transindividual. assim como não podem ser obras de arte individuais os móveis em que nos sentamos ou os utensílios com que comemos. Além da sua estilização formal.

a distinção estética. aparência esta que compartilha com as falsificações. é antes algo que se acrescenta à aparência. Este. E como este valor é sempre realizável. a importância do material “autêntico”. Segundo esse edito. diferentemente do que acontece com a imitação bem feita. o homem “autêntico” é alguém em quem se pode confiar. Por isso serve de modo especial à vaidade que precisa dos demais. se acrescenta o valor sociológico de figurar como representante de um grupo e ver- 5 . não só permitem que os demais participem do adorno. tem raízes num solo mais profundo do que a simples aparência. porém que os deprecia. Justamente por isso.A imitação nada mais é do que aquilo que parece ser num dado momento. O encanto do “autêntico” consiste em ser algo mais do que a sua aparência imediata. consiste em ser mais do que aparência. Este exemplo mostra claramente a combinação característica do adorno. o adorno implica ao mesmo tempo em distância e conivência. como é acatado por todos e possui uma relativa independência quanto ao tempo. verdadeiro. Mas por outro lado.tenho uma coisa que tu não tens”. O valor do adorno autêntico vai além. ao encanto que em geral é apanágio do adorno. e ramifica-se nelas. e isso não se vê. como brilham para os demais e só existem realmente para eles. Faz-se necessário agregar no mesmo sentido. cuja satisfação está exclusivamente em si. em símbolo de estima e se encaixa no sistema geral de valores sociais. O valor do adorno então. O adorno de material autêntico. Nele se reúnem a distinção sociológica e estética da personalidade. Por isso o encanto e a distinção com que recobre o seu portador individual se nutre neste solo supraindividual. mesmo que não esteja ao alcance da vista. e o “ser para si” e o “ser para os outros” daí resultam alternativamente como causas e efeitos. tem suas raízes nas idéias de todo o círculo social. Seu valor estético que é um “valor para os outros” se converte pela autenticidade. o adorno acaba sendo algo que está acima da contingência e da pessoa. não é como a imitação. costuma desdenhar o adorno em todos os sentidos. Pela sua matéria. Durante a Idade Média foi editada na França uma ordenação proibindo a todas as pessoas de determinados estratos sociais o uso de peças de ouro. o direito a cativar e agradar não poderiam ultrapassar o que determinasse a esfera social do indivíduo. A bijuteria só vale como adorno pelo serviço momentâneo que presta ao seu portador. Assim. Nisto reside a profunda diferença entre a vaidade e o orgulho.

quer dizer. 6 . ao adorno. A propriedade individual do homem costuma começar pelas armas. revela uma vez mais o seu princípio fundamental. as tendências centrípeta e centrífuga no adorno.se “adornado” com toda a importância do mesmo. se refere. aquilo em que o meu eu se expressa e se realiza exteriormente. o que constitui uma mostra da condição predominantemente ativa e agressiva do varão. esta ampliação da personalidade – formalmente igual. Assim faz sentido o fato de que tenha sido o adorno o primeiro objeto de propriedade privada. no entanto. porque ele determina aquela ampliação do eu. sobretudo. É sabido que entre povos primitivos. Esta forma está em si mesma acima das diversas aspirações humanas. determina a ampliação da sua esfera. traça em volta de nós uma esfera mais extensa que preenchemos com a nossa personalidade e que está constituída pelo agrado e pela atenção do nosso entorno – meio que não se deteria para nos olhar se não estivéssemos adornados. é propriedade minha aquilo que obedece à minha vontade. Para a mulher. pesem as diferenças exteriores – dada a maior passividade da natureza feminina. partindo do indivíduo. Este aparece aqui como meio de transformar a força ou a dignidade social numa distinção pessoal. possuímos mais. Para as grandes aspirações da alma e da sociedade que se compenetram e influenciam reciprocamente – elevação do eu pelo fato de existir para os outros. mas por via da aceitação de que o adorno é objeto. Somos. a propriedade privada da mulher aparece geralmente depois da do homem e. depende mais da boa vontade alheia. que amplia a esfera da sua personalidade sem esperar a vontade dos outros. senhores de coisas mais extensas e distintas. O fato de que nas sociedades primitivas a propriedade primeira das mulheres seja o adorno que essencialmente existe para os demais. em princípio. não se acrescentando ao valor nem à significação do eu. que por esse motivo constitui a nossa primeira e indiscutível propriedade. soma-se o sentido da classe social simbolizada no adorno. e às vezes exclusivamente. Estando o corpo enfeitado. quando dispomos de um corpo adornado. Ora. por assim dizer. Finalmente. E isso se verifica mais completamente do que em qualquer outro lugar no nosso corpo. Ao próprio brilho que. e elevação da existência para os demais pelo fato de nos ampliarmos e nos distinguirmos a nós mesmos – o adorno criou uma síntese própria na forma do estético. se reúnem numa forma particular. toda propriedade significa uma extensão da personalidade.

tanto pode esconder-se totalmente por algum tempo como ausentar-se no espaço mas a sua existência mesma não pode constituir um 7 . Não pretendo prefaciar esta discussão com uma classificação sistemática das sociedades secretas. no contraste e na individualização egoística. porque o objetivo do segredo é acima de tudo a proteção. Nisto a sociedade secreta se distingue fundamentalmente do indivíduo que busca a proteção do segredo. a significação sociológica do segredo se situa no isolamento. Mas tão logo um grupo faz do segredo a sua forma de existência. 1. é a relação entre aquele que detém o segredo e o outro que não. em situações ou para ações muito particulares. quando da contenda das suas manifestações. se ergue como intuição e garantia da sua profunda unidade metafísica. suas categorias essenciais se mostrarão por si mesmas. as atividades e os bens de um indivíduo são secretos. Mas uma vez que mesmo aqui ocorre a exclusão (em intensidades específicas) dos não-iniciados. a mais radical é a invisibilidade. Mas ele também pode caracterizar um grupo na sua totalidade. a sociologia da sociedade secreta se defronta com o complexo problema de fixar as formas imanentes que vêm determinadas pela conduta de um grupo que se conduz em segredo frente a outros elementos. Sempre que a existência. que junto com outras formas de referência. ou melhor. De todas as medidas nesse sentido. seria o caso das “sociedades secretas”. cujo interesse seria tão-somente histórico. O indivíduo só o pode fazer bem.Proteção e Confiança A primeira relação interna típica da sociedade secreta é a confiança recíproca entre os seus membros. o sentido passa a ser externo: o segredo vai determinar as relações recíprocas entre os que o compartilham. constitui esta relação total. Ela é necessária em tão grande medida.que nela encontram não só um campo de convivência tranqüila. é uma determinação sociológica que caracteriza as relações recíprocas entre dois elementos de um grupo. ou seja. A significação do segredo é externa. ********* O segredo como vimos. no entanto. mas aquele apoio mútuo que.

de vez que aquilo que é de conhecimento geral sempre oferece pontos de abertura para maiores questionamentos. nos poupamos disso mediante rodeios. pode em princípio manter-se permanentemente secreto. eles já não precisam. a sociedade secreta é de fato uma transição de que. uma seita religiosa ou um clube fechado que se reúne para orgias sexuais. Nisto se distingue de um outro tipo. O segredo protege menos a este tipo do que ao outro. em vez de combater os obstáculos. suas decisões e regras específicas. estando sujeitos à vulnerabilidade dos primeiros estágios de desenvolvimento. e cuja mera descoberta possa levar à destruição – por situar-se o seu segredo nas alternativas radicais de “tudo ou nada”. e para objetos de valor social positivo. Por outro lado essas sociedades relativamente secretas costumam ter certa flexibilidade. Neste tipo então. que é capaz de vencer os obstáculos e a evitação dos mesmos já não é tão necessária. em que a formação do grupo é amplamente conhecida. 8 . chegando-se mesmo a dizer que um segredo entre dois já não é mais segredo. sendo exemplos disso muitas sociedades secretas de grupos primitivos e a Maçonaria. novas religiões.segredo. a não ser em casos muito pontuais. no entanto. novas moralidades e novos pactos costumam ser frágeis. a sociedade secreta é forma social apropriada para conteúdos que ainda se encontram por assim dizer na infância. e por esta razão. qual seja a força. a proteção oferecida pelas sociedades secretas se bem que absoluta é temporária. elas conseguem resistir a futuras revelações com maior facilidade do que aquelas sociedades cuja própria vida é secreta. A fragilidade das sociedades secretas está em que os segredos não se sustentam para sempre. após um certo período desenvolvimento e de reforço. Novas idéias. o segredo pode se assemelhar à mera proteção que se ganha quando. Por isso. chega o momento em que emerge outro tipo de proteção. necessitando de proteção. Isso é possível. como a sua existência é manifesta em certa medida desde o começo. permanecendo secretos os membros que o compõem. Assim. mas o fato de que constituam uma sociedade – seja uma gangue de criminosos. o que se oculta não são os indivíduos e sim o grupo que eles formam. a sua finalidade. quando se trata de uma unidade social que oculte a sua própria existência. se ocultam. Nestas condições. Seus elementos podem viver nas interações mais freqüentes.

Em geral a sociedade secreta surge como contrapartida do despotismo e da restrição policial como proteção tanto defensiva como ofensiva na luta contra a opressão do poder central – isso não só na política como também no meio da Igreja. foram os seguidores do paganismo moribundo que recorreram à mesma ocultação das suas associações a que haviam votado antes a religião agora dominante. no exercício secreto do direito e do poder. o segredo é uma espécie de transição entre o ser e o não-ser. no senso de honra ou – como no 9 . Mas uma vez que o cristianismo se tornou a religião do estado. em fins da Idade Média as associações comunais alemãs começaram a ser perseguidas pelos poderes centrais fortalecidos. Esta dupla função protetora da ordem secreta – como um estágio intermediário tanto para poderes ascendentes como para forças decadentes – fica mais evidente em agrupamentos religiosos. Quando. parecem predestinados a testemunhar o florescimento de sociedades secretas. tiveram que buscar lugares ocultos para as suas reuniões.sobretudo a ordem dos Iluminados. Nestes casos. a confiança na capacidade de guardar silêncio. Refugiavam-se em assembléias e associações ocultas. O mergulho no segredo é um instrumento para aspirações e forças sociais que estão sendo substituídas por outras. Segundo o seu conteúdo. mas as condições políticas ainda não comportavam o seu surgimento na forma de uma estrutura permanente. Enquanto os cristãos foram perseguidos pelo Estado. dos estabelecimentos de ensino e das famílias. Vejamos o século XVIII. como animais que procuram um abrigo quando estão perto da morte. A esse caráter de proteção – que como qualidade exterior existe na sociedade secreta – se soma a qualidade interna de confiança recíproca entre os membros. Então – só para dar um exemplo – os elementos do partido liberal já existiam na Alemanha. Mas a sociedade secreta tanto protege a decadência quanto a emergência e o vigor. uma confiança muito específica.Assim. na convicção religiosa. no amor. desenvolveu-se entre elas uma ampla vida secreta. os períodos em que se desenvolvem novos conteúdos da vida que se levantam contra os poderes existentes. as associações repousam sobre diversas premissas de confiança: confiança na capacidade nos negócios. seus rituais e a sua própria existência. A ordem secreta foi a forma sob cuja proteção puderam ser preservados e reforçados os germes de uma nova organização . na coragem.

as tentações da traição são muitas. as sociedades secretas – cuja forma rudimentar é o segredo compartilhado entre dois e cuja extensão por todos os lugares e em todos os tempos ainda não foi apropriadamente avaliada. a indiscrição. meio que dispensa qualquer explicação. depende de uma imprudência momentânea. Ao contrário.O Silêncio As sociedades secretas procuram. não podendo ser solicitada na mesma medida em que se pode exigir que a honremos ao ser seus depositários. Porém logo que a sociedade se torna secreta. Mais interessante é uma técnica bastante disseminada que 10 . Em primeiro lugar. e para traí-la é preciso ser positivamente mau. de uma fragilidade ou excitação ocasional de um estado de espírito com acento inconsciente.são uma excelente escola de relação moral entre os homens. esta confiança vem a ser a fé na personalidade. Por esta razão. Em última instância. A preservação do segredo é algo instável. não há outro tipo de confiança que necessite como esta. pois sob o seu conceito podem-se colocar todos os conteúdos da vida comum que se queira. o caminho que vai da discrição à indiscrição muitas vezes é tão contínuo que a confiança incondicional na discrição implica uma preponderância incomparável do fator subjetivo. uma fé que tem caráter mais sociológico e abstrato do que qualquer outra. ela acrescenta a todas as formas de confiança determinadas pelos objetivos da associação. uma vez que esta não se impõe diretamente. acrescente-se que. a chance de “falar”. estão o juramento e a ameaça de castigo. e esta ainda é mais meritória e livre. Em contraste. 2.caso dos grupos criminais – na ruptura radical com as veleidades morais. na honradez ou na discrição de uma pessoa. nem sequer do ponto de vista quantitativo. mais facilmente se produzem fatos em que esta se possa fundamentar reduzindo ao mínimo as possibilidades de desengano. a confiança é “dada”. porque a confiança que se nos outorga contém um uma força por assim dizer compulsória. Pois a confiança de um homem em relação a outro possui um valor moral tão elevado quanto a devida correspondência a essa confiança. meios de favorecer psicologicamente a discrição. a confiança formal no segredo. salvo exceções. de renovação subjetiva tão constante. na moral ou na inteligência. pois quando se trata de crer na inclinação ou na energia. Além disso. como é natural.

o rapaz que solicita admissão não só há de calar tudo o que presencia ao entrar. à indiferenciação espiritual própria deste estágio corresponde a absoluta proibição da palavra num período em que algo específico deve ser mantido em segredo. no caso a que nos referimos. como durante algumas semanas não poderá trocar uma só palavra com quem quer que seja. sobretudo em vista da conexão entre o pensamento e sua expressão verbal que se manifesta nos estágios mais primitivos ( entre crianças e povos da natureza pensar e falar são quase a mesma coisa) é preciso antes de tudo ter aprendido a guardar silêncio para poder esperar que os demais confiem em que haveremos de manter ocultas determinadas coisas. mas ao contrário. com o objetivo de ampliar esse ensinamento. estendendo-a a toda a função de falar. Diante das dificuldades já mencionadas de calar-se completamente. Relata-se que numa ordem secreta na ilha de Ceram. ou a pagar com uma parte desproporcionada dos seus bens por algo que no momento parece justificar tal ônus. Certamente não é só o fator educacional de silêncio absoluto que atua neste caso. a ordem secreta dos Pitagóricos prescrevia vários anos de silêncio aos noviços. e quem conseguisse passar vários anos sem falar. levando o adepto não só a calar-se sobre os segredos da associação. seria também capaz de resistir a outras tentações além da indiscrição. se expressa uma “falta de jeito” específica cuja essência parece consistir na incapacidade de engendrar uma inervação adequada a determinado fim concreto: o desajeitado move o braço inteiro quando para o fim desejado bastaria mover dois dedos ou o corpo inteiro quando um movimento preciso e articulado do braço seria suficiente. nem sequer da sua família. provavelmente pretendia mais do que simplesmente educar para proteger os segredos da ordem – mas não por causa daquela “falta de jeito”. mas também a adquirir autocontrole em assuntos gerais da vida. por outro lado. Por isso. 11 . A ordem objetivava uma rigorosa autodisciplina e uma pureza estilizada no estilo de vida. Se. arquipélago das Molucas.é a instrução sistemática do noviço na arte do silêncio. a associação psicológica intensifica em muito o perigo da indiscrição e ao mesmo tempo não limita a sua proibição ao seu objetivo concreto. Este radicalismo é o mesmo em que povos primitivos usam a pena de morte para casos em que mais tarde um delito parcial recebe uma pena parcial. Em tudo isto.

o qual ia se preparando progressivamente para resistir a essa tentação. digno de revelação. O conteúdo dos seus segredos estava contido particularmente em cantos religiosos que todo druida deveria aprender de memória. produzia-se o hábito gradual da discrição e da habituação ao silêncio. antes de conhecer algo importante. alcançando também assim uma relevância sociológica maior. todos os canais pelos quais passam os conteúdos da vida chegam até ele a partir do meio. Mas as coisas eram arranjadas de tal maneira – especialmente graças à proibição de escrever esses hinos – que era necessário um tempo extremamente longo que poderia atingir os vinte anos. a objetificação do espírito favorece a independência do indivíduo. O fato de que essa provisão acumulada tenha origem em processos sociais é relativamente irrelevante. pelo ensino individual e. tendo ocorrido em gerações que já não mantêm sintonia com os sentimentos do indivíduo. o processo da vida não liga o indivíduo de maneira contínua e exclusiva ao grupo. liga os indivíduos de um modo incomparável com a comunidade e os faz achar que. o indivíduo permanece encaixado solidamente no grupo vivo que o rodeia. No entanto a regra que não permitia que os cânticos fossem escritos alcança uma esfera mais ampla do que a de simples medida protetora do segredo. sobretudo. foi aplicado pela ordem secreta dos Druidas Gálicos. por normas estabelecidas por autoridades pessoais. Enquanto a vida intelectual se faz determinar pela tradição imediata.Outro meio de dar uma base sólida à discrição. O fato de os ensinamentos se basearem no trato pessoal. A tentação de revelar os segredos assim não caía de uma hora para outra sobre o espírito ainda não disciplinado. desprendidos da substância coletiva perderiam a sua própria e nunca a encontrariam em outro lugar. podendo ele nutrir-se de fontes objetivas que não necessariamente se fazem presentes. se interrompe aquela corrente orgânica antes existente entre o grupo e seus membros individuais. Esses processos são bem remotos. Mas quando a tarefa da espécie passa a realizar seus produtos visíveis em coisas duradouras em forma escrita. só no grupo ele encontra a possibilidade de ter paz interior. É possível que não tenhamos enfatizado bastante até que ponto nas civilizações mais antigas. Acima de tudo não obstante. Essa longa duração do aprendizado resultava em que. da fonte da aprendizagem consistir exclusivamente na associação e não em textos escritos objetivos. está a forma objetiva dessa provisão que 12 .

Assim. Uma vez escrito. Nossa consciência tem ao seu dispor uma forma peculiar a que podemos chamar “espírito objetivo”. se fazem necessárias algumas digressões sobre a sociologia da comunicação escrita. mas são independentes quanto à sua validade de por quem e quando sejam apreendidos. A lei moral e jurídica é válida quer seja cumprida quer não. a escrita é dotada de uma existência objetiva que por assim dizer abre mão de toda a garantia de permanecer secreta. Em princípio a escrita se opõe essencialmente ao segredo. que consiste em que as leis naturais e os imperativos morais. A forma escrita torna inútil este requisito. conceitos e formas artísticas estão ao dispor de quem quiser e puder apreendê-los. A Comunicação Escrita Como a carta apresenta um caráter bem peculiar dentro da categoria do segredo.está separada da personalidade subjetiva. é apropriado evitar a fixação dos mesmos na forma escrita. Antes que se a usasse. Os laços especialmente estreitos que unem os membros de uma sociedade secreta (de que falaremos depois) têm a sua categoria afetiva principal na “confiança” o que sugere que quando a sociedade secreta tem como objetivo principal a comunicação de conteúdos espirituais. o conteúdo intelectual recebe uma forma objetiva. quer seja conhecida e reconhecida quer não. 13 . não dependendo a sua significação ou a sua validade da presença ou da ausência dessas realizações na alma dos indivíduos. A verdade como fenômeno intelectual é algo bem diferente do seu objeto efêmero: continua a ser verdade. tinha que ser celebrada na presença de testemunhas. A escrita é um símbolo ou veículo visível dessa categoria tão importante. toda transação jurídica por simples que fosse. uma existência em princípio independente do tempo e acessível a um número ilimitado de reproduções sucessivas e simultâneas na consciência subjetiva. pois implica numa “publicidade” tanto potencial como ilimitada: significa que não só as testemunhas como quaisquer outras pessoas podem eventualmente ter acesso ao conteúdo do contrato celebrado. 3. abrindo assim uma fonte suprasocial dependendo a medida e o tipo do seu conteúdo da sua capacidade de aprender o que está sendo oferecido.

sobretudo da carta. só é possível em estágios culturais elevados em que os homens dominam a técnica psicológica o bastante para imprimir forma duradoura aos seus pensamentos e sentimentos momentâneos. da nossa vida ideacional e calar o que não podemos ou não queremos dizer. Esta síntese tem outra analogia na mistura de firmeza e de ambigüidade própria da comunicação escrita. pois a carta oferece apenas analogias mínimas. Esta objetivação do subjetivo. objetivo. Só mediante objetividade e diferenciação se pode produzir. o conteúdo lógico ou desejado das suas palavras enriquece e se modifica. algo inteiramente subjetivo. mas na carta jaz uma contradição entre o caráter do seu conteúdo e o da sua forma. Quando os interlocutores estão no mesmo lugar. momentâneo. momentâneo. A mistura destes dois contrastes – a ausência objetiva de qualquer garantia de segredo e a intensificação subjetiva dessa garantia – faz da carta um fenômeno sociológico específico. porém manifesta em mil matizes de acento e de ritmo. e para considerá-los e recebêlos no entendimento de que eles são momentâneos e comensuráveis na perspectiva do estado de coisas em questão. Firmeza e ambigüidade são 14 . de modo algum só quando é uma explosão de lirismo. o caráter pessoal e subjetivo em que o autor da carta (diferentemente do escritor) se apresenta. tolerar e utilizar essa contradição. um dá ao outro mais do que o conteúdo das palavras. Quando um produto interior assume o caráter de “obra”.A carta mais especificamente está desprotegida contra a indiscrição. É principalmente neste segundo aspecto que a carta é uma forma única de comunicação. Quando em presença de outra pessoa penetramos na esfera dos seus sentimentos que nem sempre cabe em palavras. este desnudar o subjetivo de tudo o que no momento não se queira revelar acerca da coisa e da própria pessoa. Mas a característica da carta é ser não obstante. esta forma permanente é inteiramente adequada. A vantagem e o inconveniente da carta consistem em que ela contém em princípio só o conteúdo puro. unicamente pessoal. mas também quando é uma comunicação concreta e perfeita. A forma de expressão escrita numa carta é uma objetificação do seu conteúdo que implica por sua vez por um lado o fato de a carta ser endereçada a uma pessoa específica e por outro a contrapartida deste fato. Talvez seja por isso que nos indignemos tanto diante da indiscrição quando se trata de cartas – de modo que parece ser essa fragilidade que as protege e ao seu segredo. ou seja.

categorias sociológicas de primeira ordem nas interações homem a homem. Superficialmente a manifestação escrita parece ser mais segura no sentido de que parece ser a única de que “não se pode tirar uma vírgula”. e o que é essencialmente ambíguo. Por tal razão. dos desentendimentos. inúmeras vezes o receptor não pode fazê-lo porque mesmo para alcançar o mero sentido lógico precisa-se de algo mais. fica ainda mais claro e distinto na carta do que na fala. o receptor nem sempre se contenta com o sentido puramente lógico das palavras que a carta transmite com muito menos ambigüidade do que a fala. Correspondendo ao nível de cultura em que uma relação ou período de relações baseados na comunicação escrita é possível. sendo a falta de clareza compensada por uma pluralidade correspondente de possíveis interpretações. e que também inclui os imponderáveis deste mesmo falante – a carta oculta este segredo. Pode-se dizer com certa segurança que não há relação duradoura entre indivíduos em que as mudanças nas proporções de clareza e interpretabilidade nas manifestações não desempenhem um papel essencial. sempre que o segredo do outro não esteja em questão. Se o expressamos nas categorias de liberdade ou de sujeição por parte do que recebe a comunicação: a sua compreensão é menos livre. apesar de só nos darmos conta desse papel através dos seus resultados práticos. as características de uma relação assim são também altamente diferenciadas: aquilo que é claro e distinto nas manifestações humanas. mais do que a conversa. mas não audível. e sim da clareza maior ou menor do comunicado àquele que o recebe. No entanto não se trata do mais ou do menos que uma pessoa dá a conhecer a outra sobre si mesma. é mais obscura e multívoca no que a este segredo se 15 . Na verdade. a carta é mais clara do que a comunicação falada. Por isso a carta. mas no que diga respeito à sua significação mais profunda e mais pessoal. expressões faciais – que na comunicação falada são ao mesmo tempo fontes de obscurecimento e de esclarecimento. Podemos dizer que enquanto o discurso revela o segredo do interlocutor por meio do que o rodeia – que é visível. por outro lado. No entanto tal prerrogativa é unicamente a conseqüência da falta de todos os acompanhamentos – tom da voz. fica mais ambíguo. graças à sua clareza é. gestos. o seu entendimento fica mais livre no caso da comunicação escrita do que na fala. o lugar das “interpretações” e. portanto. evidentemente as nossas discussões cabem bem aqui.

Nestes casos. Segredo e Sociação Ao estudar as questões relativas às técnicas do segredo. muitas vezes a própria formação do grupo objetiva garantir que determinados conteúdos permaneçam secretos. estes elementos auxiliares da interpretação de tal modo se fundem com seu conteúdo conceitual que ambos resultam numa unidade intelectiva. do que a interpretação lhe sinaliza. deduções. não se deve esquecer que o segredo não é só um meio sob cuja cobertura se podem fomentar os objetivos materiais de um grupo. No caso da comunicação falada. Talvez seja esta a instância mais decisiva do fato geral de que o homem não é capaz de distinguir o que realmente vê. tornando assim visíveis os vários fatores heterogêneos que constituem o fenômeno aparentemente simples da “compreensão mútua”. o segredo logo se perderia. O segredo e a individualização estão tão estreitamente associados. que a sociação pode desempenhar dois papéis totalmente diferentes quanto ao 16 . ouve. religioso. Um dos resultados intelectuais da comunicação escrita é que esta isola um dos elementos desta ingênua homogeneidade. A sociação contrabalança o efeito isolante e individualizante do segredo. místico.refira. Assim. cuja substância é uma doutrina secreta. os que o detêm formam uma comunidade para garantir mutuamente a ocultação desejada. a sociedade secreta compensa o fator de separação inerente ao segredo pelo simples fato de constituir uma sociedade. mediante adições. Se os iniciados fossem apenas uma soma de individualidades desconexas. o segredo é em si mesmo um fim sociológico. Todos os tipos de sociação deslocam as necessidades de individualização e socialização no interior das suas formas – como se os termos de uma mistura duradoura fossem cumpridos mediante o emprego de elementos cuja qualidade muda constantemente. transformações. Entenda-se por “segredo do outro” os sentimentos e qualidades que não se podem expressar logicamente. um “saber” teórico. mas a sociação oferece a cada um deles suporte psicológico contra a tendência à indiscrição. Isto acontece num tipo especial de sociedades secretas. mas aos quais recorremos inúmeras vezes para compreender manifestações plenamente concretas. averigua. 4.

em razão do conteúdo. Hierarquia A iniciação gradual dos membros à sociedade secreta de que já falamos. A expressão mais visível desta natureza racionalista da sua organização é a sua arquitetura definida e equilibrada. nos elementos de uma sociedade. organizam sua divisão do trabalho e a gradação dos seus membros com finura e sistematização. As sociedades secretas. como pode evitá-la por achar que esta lhe oferece maiores perigos do que o isolamento. pertence a um grupo mais amplo de formas sociológicas dentre as quais as sociedades secretas se situam de modo especial. Em virtude desta. forças organizadoras instintivas são substituídas por uma vontade reguladora constante. Pari passu com esta tendência. Por outro lado. Uma analogia disto é a conexão entre a fraqueza e o medo. qual seja uma consciência altamente desenvolvida que têm da sua vida. a estrutura da sociedade secreta tcheca. “Omladina” que se constituiu sobre o modelo de um grupo de Carbonários e que veio a público em 1893 através de um processo legal. desenvolveu-se no meio deles uma crescente indiferença para com o caráter secreto das lojas que se reduziram a exterioridades meramente formais.segredo. ou diferenciação de graus. A Maçonaria pretende ser a sociedade mais geral. a “associação das associações”. Assim era. em relação a um dos seus traços característicos a que nos referiremos mais tarde. por exemplo. não é contraditório que o segredo seja algumas vezes favorecido. que se deixa ver na pessoa frágil que tanto pode procurar a sociação para proteger-se. Os diretores da Omladina eram divididos em “polegares” e 17 . mais que as outras. e o crescimento a partir do seu interior é trocado por uma previsão construtiva. 5. algumas vezes menoscabado pela sociação – trata-se apenas de formas diferentes em que se expressa a relação entre o segredo e a individualidade. o segredo perde em significação sempre que. a individualização fica fundamentalmente excluída. Trata-se do princípio da hierarquia. o único grupo que rejeita todos os elementos particularistas e quer utilizar como conteúdo exclusivo só o que seja comum a todos os homens de bem. Ela pode tornar-se um objetivo de modo a compensar o efeito isolante do segredo – de modo a satisfazer dentro da sociedade secreta o impulso de sociabilidade que o segredo destrói com relação aos de fora. Assim.

o Eques Regii. Todo sistema – a ciência. como. mas é construída. que já em si expressa uma vontade de poder. etc. a sociedade – implica uma manifestação de poder: submete uma matéria alheia ao pensamento. que repassavam as ordens aos membros ordinários por quem eram responsáveis. Apesar de concebida sob princípios maçônicos. oferece um amplo campo de ação ao singular prazer de criação que produzem semelhantes construções arbitrárias. Este segundo polegar se apresentava ao primeiro. o Cavaleiro Escocês. por exemplo. com maior motivo poderá dizer-se da sociedade secreta que não cresce. para construir um sistema de posições e hierarquias. o Eques de Secta Consueta. “o ditador”. soma-se. Prior. que por sua vez mandavam ordens para os dedos a ele subordinados. escolhiam quatro “dedos” que por sua vez escolhiam um “polegar”entre eles. Toda a atividade da Omladina estava dirigida pelo primeiro polegar. Subprior. nos “altos graus” da Maçonaria. escolhidos pelos membros em sessões secretas. 18 . escolhendo entre os demais mais quatro dedos que escolhiam um polegar e assim a organização se organizou e teve continuidade. neste caso. A administração desta sociedade estava a cargo de quinze categorias: Summus Magister. Como exemplo. objetivava a destruição da Franco-maçonaria.o Mestre Escocês. o Irmão Escocês. Summi Magistri Locum Tenens. mas estes não deveriam conhecer-se entre si. Magister. O primeiro polegar conhecia todos os outros polegares. a uma forma elaborada de pensamento. uma incitação específica: a de dispor de um amplo círculo de seres humanos idealmente submissos. Ocasionalmente tal paixão poderá desprender-se de toda utilidade e espraiar-se na construção de edifícios hierárquicos totalmente fantásticos. e que pode contar com menos elementos parciais já formados do que qualquer outro sistema despótico ou socialista. Os “polegares”. etc. a conduta. Os graus da Ordem eram sete: o Aprendiz Escocês.“dedos”. indicarei algumas particularidades da organização da “Ordem dos Mestres Construtores Africanos” que vigorou na Alemanha e França em meados do século XVIII. Ao prazer de planejar e construir. o Eques Silentii Regii. O fato de que a sociedade secreta se deva organizar desde a base reflexivamente e por vontade consciente. Se isto é verdadeiro quando se trata das tentativas de organizar um grupo segundo certos princípios.Os dedos só conheciam aos outros que estavam subordinados ao mesmo polegar. Este informava os outros polegares das ações planejadas.

Muitas vezes os conteúdos são objeto de menos ansiedade quanto à ocultação do que o segredo do ritual. Ritual O ritual evolui nas sociedades secretas em condições análogas às da hierarquia. e que o juramento de segredo se refere exclusivamente às formas do ritual maçônico. mas sobretudo a ansiedade e o cuidado com que se os mantém secretos. O papel desempenhado pelo ritual nas sociedades secretas é bem conhecido. Mais adiante. no mesmo estatuto. Nem precisamos de mais exemplos. o objetivo e a natureza da Ordem estão indicados detalhadamente e sem qualquer tentativa de dissimulação. As motivações sociológicas da conexão entre o ritual e a sociedade secreta são as seguintes. as cerimônias e solenidades. e por outro os mais famosos bandos criminais. Chama a atenção nos rituais das sociedades secretas não só o rigor com que são observados. Entre elas figuram os signos da Ordem e de reconhecimento. desde as ordens religiosas e místicas da antiguidade até os Rosacruzes do século XVIII por um lado. A sua extraordinária liberdade e riqueza de formas derivam do fato característico de que a organização da sociedade não é pré-determinada por antecedentes históricos. Num pequeno livro que descreve a constituição e a natureza dos Carbonários. etc. a enumeração das formulas e práticas da iniciação de novos membros assim como das reuniões. que não há motivo para ocultar o pertencimento a ela. além da alta valorização do uso de fórmulas e ritos e a sua preponderância sobre os conteúdos e fins da associação.6. que não são secretas as suas intenções e suas atividades. como se o seu desvelamento fosse tão perigoso quanto o dos fins e atividades da associação ou o da sua própria existência. estando construída sobre a sua própria base. ocupa 75 páginas. A Franco-maçonaria declara expressamente que não é uma sociedade secreta. 19 . a ordem estudantil dos Amicistas decretava no primeiro artigo dos seus estatutos: ”O mais sagrado dever dos membros é manter o mais profundo silêncio sobre coisas relativas ao bem-estar da Ordem. os nomes dos irmãos. Talvez não haja outros traços externos que sejam tão típicos da sociedade secreta distinguindo-a da sociedade abrangente. Em fins do século XVIII.

Esse tipo de 20 . sejam apenas uma associação de fins. e que vão além de interesses racionais e particulares. liga e obriga mutuamente as individualidades. cujos traços essenciais levam a que estes grupos reúnam os indivíduos unicamente para fins parciais. do seu ponto de vista. quer dizer. repetem eles mesmos as formas das próprias estruturas a que se contrapõem. uma associação de caráter público. Some-se a isso que. tanto subjetiva como sociologicamente. em volta do seu objetivo energicamente reforçado e acentuado.É necessário acentuar particularmente o segredo do exterior porque este não está tão claramente justificado pelo interesse imediato quanto os fins reais da associação. mesmo quando. a sociedade secreta se converte numa espécie de reflexo do mundo oficial. Este fenômeno é semelhante ao que se produz no exército ou nas ordens religiosas. Só uma estrutura que possa ser considerada um todo tem poder bastante para manter ligados a si os seus elementos. O fato de que em ambos os conjuntos o esquematismo e as fórmulas tenham papel tão importante se deve a que estes assumem o homem na sua totalidade. cada um deles projeta a totalidade da vida sobre um plano específico. É amplamente difundida a norma sociológica segundo a qual os organismos que surgem em oposição a outros mais amplos. que a sociedade secreta só se converte em unidade fechada quando introduz um complexo de formas exteriores no segredo da sua atividade e dos seus interesses. constrói um sistema de fórmulas que o rodeiam como o corpo à alma. numa medida muito maior do que faria.Através do simbolismo do ritual que evoca muitos sentimentos vagamente delimitados. pelo seu conteúdo. Esta é também uma aspiração das sociedades secretas. a sociedade secreta haverá de estar constituindo uma certa totalidade de vida. com a mesma finalidade. cada um. mediante tal formalismo. porque só assim se transforma tudo num conjunto harmônico cujas partes se apóiam mutuamente. a que se contrapõe. a sociedade secreta sintetiza estes interesses numa totalidade que recai sobre o individual. um todo. amplia-se o objetivo particular da sociedade secreta numa unidade fechada. assim como através da própria organização hierárquica. Sob as suas categorias características. reúne numa unidade fechada uma pluralidade de energias e interesses. por isso. e põe tudo isto sob a proteção do segredo.O aspecto teleológico deste traço é provavelmente. Graças à forma ritual. exige a assistência do homem inteiro.

conexão orgânica em virtude da qual a mesma corrente de vida flui passando por todos os membros do grupo. quer se trate de conspirações. já é um empréstimo ao todo maior. a cujas formas os membros estavam adaptados. conjurações contra a lei. até alcançar a proporção desejada. na sociedade secreta a natureza do ritual – objetivamente sem sentido e esquematicamente 21 . precisamente os que usufruem de maior liberdade política. bandos de malfeitores. ou ainda dos cultos de mistério. que se exige a mais severa unidade no trabalho e a maior uniformidade no ritual das lojas. o isolamento que caracteriza a sociedade secreta tem sempre um tom de liberdade que supõe sempre a existência um território onde as normas públicas não se aplicam. Nisto.instâncias estranhas aos mandamentos e proibições do círculo maior. a sociedade secreta se impõe voluntariamente uma coerção formal. quando ele não o encontra numa única fonte. complemento da sua vida marginal e da sua independência material. as mesmas condições circundam um outro tema na sociologia do ritual em associações secretas. É interessante notar que é entre os maçons americanos.A essência da sociedade secreta como tal é a autonomia. e dos suportes que a norma oferece. O caráter determinado e o detalhamento circunstanciado do ritual vêm não obstante de certo modo remediar esta falta.É viável que a estrutura menor construa esse todo justamente por imitá-lo nas suas estruturas. 7. Liberdade Finalmente. Toda sociedade secreta implica numa certa medida de liberdade que a estrutura da sociedade maior que a contém. podemos ver mais uma vez quanto o homem precisa de um certo equilíbrio entre a liberdade e a lei e como. Trata-se do seguinte. não oferece. Mas esta autonomia se aproxima da anarquia: as conseqüências do distanciamento da ordem normativa geral são o desenraizamento e a ausência de estabilidade no sentimento da vida. Através do ritual. Em suma. Quer seja a sociedade secreta um complemento das deficiências da justiça administrada pelo círculo político. procura suplementar o que recebe de uma fonte com o que pode encontrar em outra. enquanto na Alemanha a prática envolve uma maior autonomia de cada loja individualmente: isto se explicaria pelo alto nível de integração da Maçonaria à sociedade maior.

por desenvolver-se no seio de uma sociedade já completa em si. que só se propõe a prestar um certo serviço à totalidade pretendendo desfazer-se uma vez realizado este objetivo.A questão é. Mesmo a sociedade secreta altruística. por outro lado. desvinculando-se das normas vigentes no círculo maior que as envolve. pelos seus fins agressivos. No entanto.coercitiva – não é inconsistente com a liberdade que fomenta e que se assemelha à anarquia. a sociedade secreta está tão caracterizada pelo seu segredo. O elemento secreto nas sociedades é um fato sociológico primário. de modo a restaurar o equilíbrio na balança do ser humano. Mas o fato de que se possa formar com tal caráter só é possível à condição de que já exista uma sociedade. como outras – ou elas mesmas – se caracterizam pelas suas relações de superioridade ou de subordinação. ou ainda pelo seu caráter imitativo. esta oposição tem sempre um caráter de isolamento. uma reação nascida da necessidade de liberdade. em que medida estas sociedades representam modificações quantitativas essenciais dos traços típicos que se dão na sociação de modo geral.Traços da Sociedade Secretas como Modificações Quantitativas dos Traços do Grupo Geral Estas últimas reflexões conduzem aos princípios metódicos com base nos quais quero analisar os traços das sociedades secretas que ainda é preciso examinar. uma qualidade formal de relacionamento. a sociedade secreta é um fenômeno secundário. 8. qualquer que seja o objetivo da sociedade. Colocando as coisas de outro modo.A fundamentação da sociedade secreta nos leva a considerar mais uma vez a sua posição no todo complexo das formas sociológicas. necessita 22 . em suma. ela se oporá como um círculo mais restrito. vai determinar a forma dos elementos do grupo ou do próprio grupo. Pelo contrário: na medida em que a difusão das sociedades secretas é um sintoma de pouca liberdade. Dentro deste círculo mais amplo. de um ponto de vista histórico. um tipo particular de convivência.Na interação direta ou indireta com outras qualidades. a regulamentação ritual interna dessas sociedades reflete uma medida de liberdade e de desvinculação da sociedade maior que encompassa a contra-norma deste mesmo esquematismo. de uma tendência ao patrulhamento e à opressão política.

o fato formal da sociação praticamente não desempenha papel nenhum. Em comparação com outras associações. Os conteúdos da sociedade secreta poderão ser irracionais. a sociedade secreta não permite que seus membros percam de vista a consciência enfática. pois. este limite a reúne. Na sua consciência de ser uma sociedade – consciência esta que é constantemente reforçada não só no seu período formativo como no decorrer da sua vida – ela se opõe a todos os grupos espontâneos em que a adesão é apenas a expressão de elementos que cresceram juntos. místicos. Por outro lado. nenhum há cuja constelação sociológica o force a acentuar tanto a sua autonomia quanto a sociedade secreta. Fazem falta à sociedade secreta o crescimento orgânico. neste caso é a paixão do segredo – algo que se trata sempre de preservar – que confere ao grupo uma significação que chega a ser superior ao significado do conteúdo. tendo raízes comuns. clara e acentuada de que constituem uma sociedade. Consciência Dentre os muitos grupos menores rodeados de outros maiores. Formalidade. O seu segredo a envolve como um limite fora do qual nada mais há do que forças materialmente ou formalmente opostas. da parte dos seus membros. Em grupos de outro tipo. numa unidade acabada. as ações dos membros em termos de direitos e deveres. Este estado de coisas torna compreensível por que as características formais do desenvolvimento dos grupos em geral costumam ser especificamente intensificadas na sociedade secreta e por que alguns dos seus traços sociológicos essenciais se desenvolvem como meras intensificações quantitativas de tipos de relações. todo o sentimento ingênuo e inquestionado de formar um grupo e de ser uma unidade. [a] Separatividade. A sua forma psicosociológica é claramente a dos grupos de interesse (Zweckverband). mas a sua formação é sempre consciente e produzida pela vontade. [b] Reclusão: Sinais de Reconhecimento 23 . o conteúdo da vida grupal. emocionais ou o que mais se quiser. as expansões instintivas.inexoravelmente recorrer ao isolamento temporal como técnica para a realização dos seus objetivos. e. pode então ocupar a consciência dos mesmos de modo que normalmente.

Estes sinais só eram conhecidos dos membros legítimos que por sua vez através deles os legitimavam onde quer que o grupo existisse. uma associação que tivesse ramos em vários lugares diferentes. a associação perde a sua significação interna junto com os seus meios de manifestação externa. O homem da natureza. Note-se que. com a sua concepção sensual e indiferenciada. No entanto.Já caracterizamos a coesão nas sociedades secretas que utiliza a reclusão contra o meio que a envolve. Esta forma de sociedade secreta corresponderia à mentalidade primitiva. só tinha estes sinais para excluir pessoas não-autorizadas. e para garantir que só certas pessoas pudessem receber benefícios e comunicações. [c] A Motivação Aristocrática 24 . no momento em que se dão conta de que aquelas aparições tenebrosas nada mais são do que os seus maridos. O objetivo da reclusão fica bem claro no caso das ordens secretas entre povos da natureza. Assim se explica por que o isolamento do todo se torna inválido uma vez quebrado o segredo da máscara e por que então. antes de que houvesse uma difusão mais geral da escrita. O grupo não faz algo secreto. mas ao homem inteiro. Esta função encompassa sinais muitas vezes complicados de reconhecimento mediante os quais o indivíduo se legitima como membro. quando os seus outros usos sociológicos se tornaram mais importantes do que a mera legitimação. guardando-os em absoluto segredo. tornando-se invisíveis. às vezes elas descobrem o segredo. Seus membros só aparecem mascarados e as mulheres são proibidas de aproximar-se deles sob severas penalidades. Este é o modo mais elementar e mais radical da ocultação: aquele em que o segredo não se refere a uma atividade concreta do homem. as ordens perdem o seu significado e se banalizam. sendo a totalidade dos seus membros o que se faz secreto. No que diz respeito às inscrições das pessoas. para a qual a personalidade como um todo se vê absorvida em cada atividade particular. estes sinais eram ainda mais indispensáveis do que depois. São ordens constituídas só por homens. a mentalidade primitiva não objetiva uma ação específica nem lhe confere caráter distinto do sujeito total. não pode imaginar separação mais perfeita do que a dos que se desejam ocultar. especialmente em sociedades tribais africanas. O seu objetivo primeiro é marcar a diferenciação entre homens e mulheres. Quando isto acontece.

muitas vezes confere a estes grupos um caráter “especial” no sentido honorífico. o segredo funciona como um muro de isolamento que como dissemos. Este valor tem levado à formação de grupos por toda parte. Em Esparta se guardava o maior segredo possível acerca do contingente de guerreiros. Chegou-se a ponto de ocultar inteiramente o círculo dos mais altos dignatários.No âmbito das sociedades secretas. O mesmo tentouse em Veneza mediante um decreto determinando que todos os nobili (nobres) usassem um simples traje negro. o princípio aristocrático se associa ao princípio da publicidade com a tendência a ditar leis gerais e fundamentais. Pois estas leis se aplicam a um número indefinido de sujeitos. para que as roupas revelassem o pequeno número de poderosos ao povo. trabalhando no sentido de ocultar a insignificância numérica da classe dominante. Em algumas aristocracias suíças. Nestes casos. poderoso e terrível. Esta significação do segredo como intensificação do isolamento sociológico é bastante visível nas aristocracias políticas. a valorização de algo a que não se tem acesso. os ocupantes dos cargos mais importantes se chamavam “os Secretos”.Mesmo nas salas de aula pode-se observar como alguns alunos formam círculos reduzidos estreitamente integrados. fazendo-lhes sentir a sua superioridade. sendo públicas pela sua 25 . portanto. acentua o caráter aristocrático do grupo. hostilidade e inveja. fortalece e por assim dizer amplia a posição e a autoconsciência dos mesmos. estes bem diferentes dos que se formam com propósitos objetivos. que se consideram uma elite diante dos demais que não se organizam como eles -unicamente pelo fato formal de constituírem um grupo separado. e em Friburgo as famílias aristocráticas se denominavam “as estirpes secretas”. as aristocracias se aproveitam do fato psicológico de que o desconhecido parece ameaçador. o isolamento é a expressão de um valor:as pessoas se separam porque desejam diferenciar-se das demais. que os elegia. O fato de que a associação e o isolamento se entreteçam com o motivo aristocrático. os nomes dos três inquisidores do Estado só eram conhecidos pelo Conselho dos Dez. O segredo sempre foi um dos elementos estruturais do regime aristocrático. Reunindo-se. esta valoração se vê reforçada pelos próprios excluídos do grupo que a legitimam com a sua animosidade. reconhecendo. Em primeiro lugar. aqueles que desejam marcar esta diferenciação levam a que se produza uma aristocracia que ao próprio peso da soma de indivíduos. Em contraste.

Neste aspecto. e por assim dizer. uma vez que o real conteúdo ou objetivo da sociedade se torna acessível ao neófito – quer este propósito seja a purificação e a santificação da alma mediante a consagração de mistérios ou a absoluta supressão de toda barreira moral. que se distancia da multidão. Nesta perspectiva. quando se mostra sem ela não o compreendem.própria essência. sequer o vêem. o uso do segredo pelos regimes aristocráticos nada mais é do que a exaltação suprema do isolamento a que se propõem e as imunidades em virtude dos quais a aristocracia costuma se opor a uma legislação geral e isenta de exceções. No entanto. a relação entre exclusividade e segredo se manifesta em planos diferentes. valendo para todos. se exige do noviço a declaração solene de guardar segredo sobre tudo o que vier a experimentar. Esta separação assume um matiz específico nos múltiplos graus em que se verifica a iniciação nas sociedades secretas. objetivando-se a separação absoluta e formal que essa atitude produz. o segredo é uma concessão. uma maneira de subsumir-se a conduta à apreciação de outros. a “máscara” que muitos consideram como sinal e prova de uma personalidade aristocrática. porque a sua diferenciação é espiritual e a sua consciência dela o torna indiferente a se isso é do conhecimento de outros ou não. até que se alcance os seus mistérios mais profundos. Por isso. Ao contrário. até conhecer todos os objetivos da associação e considerar-se membro da mesma. de maneira contínua e relativa. Via de regra. Quando a noção de aristocracia não caracteriza as idéias de um grupo. A “máscara” do verdadeiro nobre consiste em que. A pessoa moral e intelectualmente diferenciada desdenha toda ocultação. precisando ser posto à prova e educado. A existência destes graus já foi alumiada quando falamos dos traços sociológicos da sociedade secreta. o novo membro ainda se encontra próximo ao estado de não-iniciado. vem comprovar a importância da massa para os que se mascaram. como entre os Assassinos e outros grupos criminais – o isolamento material se dá de modo diferente. Com 26 . [Graus de Iniciação: isolamento formal e informal] A separação de tudo o que esteja fora do círculo é então uma forma sociológica que simplesmente usa o segredo como técnica para acentuar-se. mas uma disposição individual. a se o apreciam ou não ou a como o consideram os demais.

que objetivam viver e manter-se dentro de um grupo maior e se desenvolvem a olhos vistos. que se realiza ou se caracteriza por este egoísmo de grupo. do mais íntimo e essencial da sociedade (como se isso fosse possível). ao nível individual. desprendimento e sacrifícios. é a forma mais pungente desta medida de proteção. Zela-se (como no caso dos Druidas de que já falamos) para que o neófito ainda não confirmado não tenha muito a revelar: no interior do segredo geral que encompassa o grupo como um todo. este egoísmo tem limites. a autonomia sociológica se manifesta sob a forma de egoísmo: o grupo procura alcançar seus fins com a mesma ausência de consideração para com o que esteja fora dele. criam uma densidade gradual à esfera de repulsa que envolve este centro e que o protege com maior segurança do que o faria qualquer alternativa abrupta e radical entre a inclusão total e a exclusão total. O círculo formado pelos parcialmente iniciados constitui uma espécie de fosso que os separa dos não-iniciados. estas revelações graduais levam a uma esfera elástica de proteção por assim dizer. No caso. se chama de egoísmo. que por sua vez exige dos membros individuais.isto. o “intermediário” desempenha a função de unir e separar. [Egoísmo de Grupo] Na prática. Todavia.Na consciência dos membros individuais. não importando com que violência lute contra outras associações dentro da sociedade maior ou contra os fundamentos dessa 27 .consegue-se ao mesmo tempo proteger o coração da associação isolando-o do exterior. e sim enfatizar o isolamento do grupo do seu ambiente maior. Mas não estamos tentando estabelecer qualquer valoração ética. que termina sendo uma só. numa atitude que. Qualquer associação aberta. num grau maior do que o produzido pelo juramento feito por ocasião do ingresso na ordem. a real unidade de atividades superficialmente contraditórias é vista com bastante clareza: precisamente porque os graus mais baixos da ordem mediam a transição para o centro do segredo. essa desconsideração se justifica moralmente pelo fato de que os pressupostos e as finalidades do grupo têm um caráter objetivo e supra-individual. O contraste entre os membros exotéricos e esotéricos. sendo geralmente impossível que um indivíduo usufrua de qualquer benefício advindo da conduta egoística do grupo. como no caso das ordens Pitagóricas.Do mesmo modo. no caso dos círculos pequenos.

uma obstinação no pecado ou por um desígnio particular de Deus. deve sempre afirmar que a realização dos seus objetivos virá em benefício do todo.diminuindo o rigor da distinção. sociais.O caráter incondicional deste isolamento mantém clara a consciência dos seus movimentos.O segundo tipo se encontra em estado bem puro na sociedade secreta. todos os que nasçam no território de um Estado a ele pertencem. o sejam por um acidente histórico. não voluntariamente adquiridas. e a necessidade dessa afirmação de certo modo põe algum limite ao egoísmo efetivo da sua conduta. Por exemplo. delas se encontra excluído. O caso extremo seria uma igreja que pretendesse abarcar em seu seio a totalidade dos humanos. Em certas periferias políticas. O membro de uma determinada classe social está incluído nas convenções sociais e formas de articulação daquela classe.Nada simboliza ou promove o isolamento da sociedade secreta no seu ambiente social tão decisivamente quanto a eliminação da hipocrisia ou da condescendência mediante as quais a sociedade secreta é inevitavelmente integrada à teleologia do seu ambiente. os indivíduos que porventura sejam excluídos da dita associação religiosa. [Inclusão e Exclusão como Princípios] Apesar da delimitação quantitativa que caracteriza toda comunidade real.mesma sociedade. há não obstante uma série de grupos cuja tendência interior é de incluir todos os que não estão explicitamente excluídos. por muito que a razão prática misture os dois. mas dadas pela própria existência. a não ser que circunstâncias específicas os excluam.De um lado fica o princípio de incluir todos os que não estejam explicitamente excluídos e do outro.e as sociedades secretas se baseiam na idéia de que quem não tiver sido expressamente admitido. religiosas.Para reforçar a 28 . o princípio de excluir os que não estiverem implicitamente incluídos. a não ser que se declare voluntária ou involuntariamente dissidente. de sorte que. é passível de ser considerado como ”membro”. todo aquele que satisfizer determinadas condições externas. Tal não se faz necessário no caso das sociedades secretas que pelo menos potencialmente podem contrapor-se a outros grupos ou ao todo. Aqui se evidencia a distinção de dois princípios que indicam claramente uma diferenciação da significação sociológica dos grupos em geral.

sociais e amistosos. são divergentes. a maçonaria assumiu o ideário de abarcar em seu seio toda a humanidade. o constituído pela associação secreta tem sempre uma posição especial frente à qual os demais laços-familiares. Os objetivos que levam um indivíduo a entrar em associação secreta com outros. o que parece é que além das razões mais realísticas em favor da ”paz real”. Toda sociedade secreta – mesmo que só por preencher por si mesma a sua dimensão. De fato. cívicos. o que lhes deixa pouca oportunidade de entrar em conflito como resultante da coordenação da pluralidade de esferas que os grupos abertos representam.sua negativa de ser uma “ordem secreta”. o isolamento da sociedade quanto ao entorno social. já que dificilmente um indivíduo pertence a várias sociedades secretas – exerce uma espécie de império absoluto sobre os seus membros. por variado que seja o seu conteúdo. minimiza toda uma série de possíveis conflitos. Finalmente. O isolamento sociológico da sociedade secreta em grande medida limita colisões.sendo estes apenas dois aspectos ou formas de manifestação de uma mesma atitude sociológica. corresponde neste caso à ênfase na solidariedade interna. A “paz real” que na verdade deveria reinar em toda associação. [Isolamento contra o Exterior e Coesão Interna] A intensificação do isolamento para com os de fora. 29 . religiosos e econômicos. pois seria muito mais difícil substituí-los aqui do que numa associação legítima. De todos os vínculos que o indivíduo assume. têm diferentes tipos e medidas de contato. que os participantes reais e potenciais assumem valor de raridade. Só o contraste com as sociedades secretas deixa ver que as pretensões daqueles vínculos. a própria forma secreta mantém os membros distanciados de outras influências e perturbações. O indivíduo deve então manter-se em bons termos com estes. os interesses originados da sociedade maior são deixados de fora. estando em princípio no mesmo plano. é promovida de maneira insuperável pelas condições peculiares e excepcionais da sociedade secreta.A depender dos seus objetivos e métodos de ação. estando os indivíduos e o grupo igualmente interessados em evitá-la. Além disso. toda dissensão no interior da sociedade secreta acarreta o perigo da traição. quase sempre exclui um setor tão amplo e representativo do círculo social geral.

sendo ainda mais importante para certos tipos . para estar em equilíbrio. As sociedades secretas que por qualquer razão não desenvolverem essa autoridade solidificadora estarão expostas a graves perigos. vendo-se assim constantemente ameaçada pela traição e de abuso se nela não reinar mais uma autoridade rígida que oportunize a coesão. Os Waldenses. ser compensado por um excesso análogo de submissão e de renúncia à vontade pessoal. uma sociedade criminal que se relacionou com a Inquisição entre o século XVII e inícios do século XIX – sociedades cuja essência era contrapor-se à lei e afirmar a rebeldia. Os “Assassinos” da Arábia. Quanto mais criminais forem os fins da sociedade secreta. que é condição vital à sociedade secreta. por 30 . Aqui os extremos se encontram: o excesso de liberdade que este tipo de associação detinha. Nela se encontram exemplos de obediência cega e incondicional aos chefes que – apesar de certamente ocorrerem também em outros lugares – são particularmente notáveis em vista do caráter anárquico dessas sociedades que se negam a todo tipo de lei. seria a necessidade de centralização. Um político inglês certa vez chegou a explicar a força do Gabinete Inglês pelo segredo que o rodeia. corresponde a sua acentuada centralização.facilitando assim o acordo entre eles. a compensação de que há de existir sempre entre as necessidades de liberdade e de norma. necessitava. no que concerne o restante das normas vigentes.Quem tiver atuado na vida pública sabe que é tanto mais fácil conseguir a unanimidade de um número pequeno de pessoas quanto mais secretas forem as deliberações tomadas. [h] Centralização À especial coesão que se produz no interior da sociedade secreta. os Gardunas. Mais essencial. mais ilimitado será o poder dos chefes e mais cruel o seu exercício. se manifesta também na severidade dos rituais. provavelmente. estiveram todas submetidas a um chefe supremo. os ”Chauffeurs”. nomeado em parte por elas mesmas.como os bandos criminais – que vivem do círculo que os rodeia. misturando-se a este de variadas maneiras. compensação que como vimos. e a quem todos se dobravam sem crítica nem condição alguma. um bando de vândalos com uma organização amplamente ramificada que assolou a França especialmente no século XVIII. Para isto contribui sem dúvida.

sem a centralização que mantém juntas as energias dos membros e promove o isolamento próprio a toda sociedade secreta. sendo inclusive hostis entre eles mesmos. o poder da personalidade desaparece também por parte do poder. Permanece então apenas a pura e implacável obediência. em razão do segredo. O fato de que as sociedades secretas costumem ser dirigidas por superiores desconhecidos é apenas uma exacerbação deste princípio formal.Na verdade ele exemplifica a sublimação mais extrema e abstrata da dependência de um centro: a tensão entre o subordinado e o chefe alcança o grau máximo quando o chefe está além do visível. Sem dúvida a invisibilidade eleva a força da obediência a uma autoridade impessoal. todos os elementos relativos e “humanos ”inerentes à personalidade individual e única. pode estar em qualquer lugar. originalmente não foram uma sociedade secreta. Mas o único objetivo do desconhecimento desses chefes não era a preservação do segredo. destituída de matizes pessoais. A Franco-Maçonaria provavelmente deva o retardo evidente do seu poder que não está em relação com a sua difusão e os seus recursos à ampla autonomia das suas partes.exemplo. Isso tornou impossíveis as reuniões regulares. que não têm uma organização unificada. A ordem declinou à falta de um elemento essencial à sociedade secreta: uma centralização efetiva. levando a que a sua doutrina perdesse a unidade e que se produzissem vários ramos que passaram a viver e a se desenvolver separadamente. Isto se dá em primeira instância. e a dominação perde todos os atenuantes. chamado ”o Visível”. Em cada um dos seus vários desdobramentos. nem uma autoridade central. E este propósito pode chegar a extremos como no caso dos Cavaleiros Guélficos que lutaram pela liberação e unificação da Itália. os cavaleiros tinham um conselho supremo de seis membros que não se conheciam e só se comunicavam através de um intermediário.poder que não se vê em nenhuma parte. Refiro-me ao fato de que os graus inferiores não sabem a quem obedecem. A obediência então faz-se acompanhar do sentimento de estar-se submetido a um poder inacessível e sem limites determinados. o grupo se tornou secreto no século XIII. traços de igualdade e de relações pessoa a pessoa. nas diferentes cidades onde existiam. mas quando desaparece a individualidade.Os seus traços comuns cobrem apenas princípios e sinais de reconhecimento. mas que pela mesma razão. A coesão sociológica geral de um grupo 31 . obrigado por pressões externas que os levaram a ocultarse.

32 .através da unidade da autoridade dominante se transfere por assim dizer para um foco imaginário. Isso certamente vinha em favor do segredo. apenas pelo fato de sê-lo. Apesar de em certa medida tratar-se de uma característica de tudo o que é social. fazendo-os desaparecer. A ordem hierárquica só admite o indivíduo enquanto ator de um papel por ela determinado de antemão. que sempre indica que a organização objetiva superou o elemento pessoal nas atividades e contribuições dos membros do grupo. Talvez seja por isso que o costume vigente entre povos da natureza de apresentar-se e assumir certas ações recobertos por máscaras tenha levado a presumir-se a existência de sociedades secretas no meio delas. do que quando o grupo encompassa cada membro enquanto entidade pessoal. e sim por números. A ocultação dos seus membros está na natureza das sociedades secretas. a abrangência e severidade do ritual. [A Desindividualização] O traço sociológico que corresponde a esta subordinação centralista dos elementos individuais na sociedade secreta é a sua desindividualização. acentua-se na sociedade secreta o caráter de despersonalização. Na conspiração irlandesa que se organizou na América do Norte em 1870 sob o nome de Clannagael. a sociedade secreta usa a desindividualização para compensar o caráter diferenciador e individualizante do segredo. Quando a sociedade não tem como finalidade imediata os interesses dos indivíduos. Os próprios chefes podem agir com maior indiferença e objetividade sobre desejos e interesses individuais de pessoas que só são conhecidas por números e cujos nomes seriam desconhecidos até dos outros membros. o desaparecimento da personalidade é muito enfatizado por trás do papel representado na sociedade secreta. os membros individuais nunca eram chamados pelos seus nomes. tendo para cada um deles um traje estilizado que recobre os contornos pessoais. onde atinge a sua forma mais pura e mais intensa. mas ao mesmo tempo exemplifica como esse objetivo suprime a individualidade. Não é menor a influência que tem no mesmo sentido. Mas quando um indivíduo se deixa ver e age claramente como membro de uma ordem secreta e simplesmente não mostra que individualidade está associada com ele. este nivelamento da individualidade pelo qual passa todo ser social. utilizando os seus membros como meios para fins e ações estranhas e superiores a eles.

E não só entre primitivos. Esta despersonalização a que as sociedades secretas reduzem a relação típica que se dá em geral entre indivíduo e sociedade. enfatizando especialmente ”o efeito igualizante que em todas as classes sociais produz a prática comum do que é proibido”.Isto é mais notável nas sociedades secretas de natureza ético-religiosa – que põem grande ênfase na fraternidade – e de outro lado nas de caráter ilegal. que comete todo tipo de transgressão inclusive o roubo e o assassinato contra qualquer pessoa que encontrar. ficando assim a parte mais importante da atividade legislativa. Os sistemas políticos mais refinados se servem deste equacionamento. e sem a qual sobre eles recairiam a vingança e o castigo pelos desacertos cometidos. Isto não contradiz o caráter despótico deste tipo de organização: em todos os outros tipos de grupo. a responsabilidade é algo da ordem do ego) que. oculta aos olhos do público. No entanto ele não é responsabilizado por seus crimes. por exemplo. uma vez 33 . termina por assumir a forma característica de “irresponsabilidade”.[Igualdade dos Membros] Outro aspecto da eliminação da personalidade se encontra nas sociedades secretas que cultivam uma grande igualdade entre os seus membros. o disfarce da pessoa livra-a deste ônus. Nas suas Memórias. No interior das sociedades secretas costuma existir entre seus membros uma igualdade fraternal que se opõe clara e tendenciosamente às diferenças que os possam separar nas demais situações da vida. Esta é uma forma um tanto desajeitada de que estes grupos se utilizam para fazer desaparecer as personalidades dos membros. Isto faz com que a responsabilidade política dos deputados de certo modo seja dissolvida. A maior parte das ordens secretas africanas se fazem representar por um homem disfarçado de espírito da mata. já mediante o uso da máscara. Mas as deliberações dessas Comissões são secretas. Bismarck fala de uma organização de pederastas existente em Berlim de que ele haveria tomado conhecimento quando jovem funcionário judicial. para a mentalidade ingênua. inclusive. Na Câmara norte-americana. o despotismo está correlacionado ao nivelamento dos dominados. A responsabilidade está de tal modo equacionada ao eu (filosoficamente. Também neste caso a máscara é um fenômeno primitivo. as decisões propriamente ditas são tomadas por comissões permanentes e depois levadas a plenário.

faz com que se vejam grandes perigos levando ao terror. desde o momento em que a participação dos indivíduos nas decisões permanece oculta. a sociedade secreta parece perigosa meramente em virtude do segredo. Finalmente esta acentuação uniforme dos traços sociológicos gerais se confirma no perigo que com ou sem razão. comissões. costuma-se coibir as associações. Outro exemplo são as perseguições de que foram alvos as associações de aprendizes por parte do despotismo nos séculos XVII e XVIII. ao contrário. A sua atitude consiste em parte em tratar o desconhecido como se este não existisse e por outro lado. Além disso. Também neste caso a irresponsabilidade é conseqüência ou símbolo da marcada despersonalização sociológica que corresponde ao segredo dos grupos.sendo esta substituída pelo anonimato. de modo que desaparece também a responsabilidade que não pode ser atribuída a um ser inacessível na sua conduta pessoal. É impossível saber se uma certa associação virá um dia a usar as suas energias e os seus recursos em princípio legais. numa ansiosa fantasia que. com propósitos indesejáveis : daí a 34 . independentemente dos seus conteúdos e propósitos. A preocupação do poder central com as “associações especiais” perpassa toda a história política . Raramente o homem tem uma atitude serena e racional diante de pessoas e de coisas desconhecidas ou pouco conhecidas. estes grupos competem com o princípio da centralização que deseja reservar unicamente a si a faculdade de reunir elementos numa unidade. Este perigo das associações particulares para como o todo que as rodeia.que não se lhes as pode imputar por serem deliberações invisíveis e incontroláveis. Simplesmente por ser unidades. O mesmo se pode aplicar a corpos diretores. faculdades. Um exemplo representativo deste tipo de preocupação é a Convenção Suíça de 1481.ponto este que é relevante em muitos aspectos para este estudo. Sempre que a sociedade maior – sobretudo no campo político – deseja instaurar uma centralização acentuada. estas parecem ser obra de alguma instância supra-individual. segundo a qual não podiam ser celebradas quaisquer alianças entre os dez Estados confederados. Um terceiro é a tendência do Estado Moderno de despojar comunidades políticas locais dos seus direitos. o círculo maior acredita haver nas sociedades secretas. administrações. aparece claramente na sociedade secreta. cujas deliberações sejam secretas: o indivíduo desaparece como pessoa. Assim.

As guildas germânicas mais antigas ofereciam aos seus membros uma proteção legal efetiva. As Sociedades Orangistas que existiram na Inglaterra no século XIX com objetivo de reprimir o catolicismo. através de relações e correspondências pessoais. pela mesma razão. Por isso. Só por causa do seu segredo. 35 . Com relação a grupos que têm como princípio a ocultação. vendo nelas um suporte à ordem pública. que se qualifica como tal qualquer associação política indesejável. assim substituindo a proteção que viria do Estado. a suspeita que recai sobre os perigos desse segredo ainda é maior. as ordens secretas se afiguram demasiadamente próximas de uma conspiração contra os poderes existentes. as guildas foram consideradas competidoras diante do Estado e os seus capítulos franceses condenados como conjurações sediciosas. Foi justamente esse comportamento secreto que as fez parecer perigosas: suspeitou-se de que “homens que evitavam expor-se à opinião pública.suspeita e o medo que os poderes centrais votam a qualquer forma de associação dos seus súditos. Mas se trata de uma suspeita exacerbada que em geral as associações despertam no mundo da política. A sociedade secreta é considerada uma inimiga do poder central a tal ponto. os reis dinamarqueses as favoreceram. como bem mostra o exemplo seguinte. evitavam qualquer discussão pública trabalhando sempre em segredo. viessem a tentar um golpe de força”. Por outro lado.

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