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UNIVERSIDADE ESTADUAL

DOCENTE: ROSANE LUSTOZA

DE

LONDRINA
PSICOLOGIA

FUNDAMENTOS DE PSICANÁLISE

5PEP003

DISCENTE: HERNANI PEREIRA DOS SANTOS

T.: 1000

A TRANSFERÊNCIA DE FREUD A LACAN
O texto A transferência de Freud a Lacan1, de Jacques-Alain Miller, trata,
principalmente, de nos dar uma idéia do fenômeno da transferência presente na obra de
Sigmund Freud e sua multiplicidade, até a proposição de Jacques Lacan do sujeito
suposto saber.
De partida, Miller2 já nos demonstra que, ao contrário do que se pensa, a
transferência é um fato raro, apesar de ser tida, pelo consenso dos analistas, como o
motor terapêutico e o princípio de poder da psicanálise. Ademais, ele discorrerá sobre o
modo como os psicanalistas atuais utilizam-se da conceitualização freudiana e mesmo a
lacaniana: esses autores funcionam como o sujeito suposto saber; assim, seus
“discípulos” tratam apenas de utilizar seus conceitos sem levar a cabo um raciocínio
crítico sobre esses mesmos conceitos: Lacan o fez com Freud, mas não se o faz com
Lacan atualmente. Isto é, pensa-se que estão de posse do saber que os concerne. Por
conseguinte, demonstrar o que é o conceito de sujeito suposto saber é o objetivo de
Miller3 neste texto.
O sujeito suposto saber é estabelecido por Lacan como uma função inédita no
fundamento da transferência. Esta função não está presente em Freud; na verdade, ela
será o “pivô” dos fenômenos da transferência. A partir da suposição de saber do
analisante ao analista; é a partir daí que se fundamenta a análise. Miller4 dirá que o
sujeito suposto saber é transfenomênico: o seu fundamento é diferente daquele dos
fenômenos produzidos na transferência, já que trata de articular conceitualmente esses
fenômenos. O sujeito suposto saber trata de articular as três formas de transferência
delineadas por Freud: 1) aquela identificada à função de tropo, de deslize de sentidos
provocado pelo desejo; 2) aquela identificada à função de resistência, na dificuldade de
1

MILLER, Jacques-Alain. A transferência de Freud a Lacan. In:______. Percurso de Lacan: uma
introdução. Trad. Ari Roitman. 2.a.ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002.
2
Idem.
3
Idem.
4
Idem.

Edição Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. isto se deve ao fato de o discurso psicanalítico ter modificado o inconsciente. Esta primeira elaboração freudiana se refere ao deslocamento de sentido pelo desejo. A primeira corresponde à transferência como tropo. nos diz Miller que “o caso Dora é também o caso Freud” 9. Aliás. 10 Idem. no sentido lingüístico em que há deslize de sentidos. 61. ou seja. assim. ao contrário. cit. para dar uma nova. O analista aparece. 60. Porém. como aquele que dá significação aos significantes emergentes. Em seguida. Por isso. p. Miller6 enfatizará que o próprio discurso psicanalítico mudou a natureza do inconsciente. está no centro dos casos que relatou. na operação psicanalítica: o psicanalista está implicado. o sujeito suposto saber. 1912/1996. 8 Idem. 6 Op. p. é daí que se tem o descobrimento da transferência. em que o recalcado é deslocado para uma representação aceitável para a consciência. Dizer hoje que o analisado ama a mãe. em vez de sua pessoa. após o caso Dora esta elaboração adquirirá o sentido da ligação do desejo à pessoa do terapeuta. simplesmente. O desejo trata de aglutinar-se aos significantes sem conteúdo significativo. na função de ingresso do analista no complexo inconsciente do analisando. algo de fora do inconsciente. 7 Idem. O analista ocupando parte da economia psíquica. Esta elaboração já está presente em A interpretação dos sonhos.caminhar a análise. o que implica dizer também que o inconsciente não é algo no âmago de alguém. como não sendo. o psicanalista também faz uma psicanálise sua. Estas três formas de transferência podem ser claramente vistas em A dinâmica da transferência5. 9 Idem. ao significante do analista. ou melhor. Por conseguinte. Rio de Janeiro: Imago. um texto de 1912 de Freud. em cada sonho e em cada significante o significado é idiossincrático. despindo-lhes a significação. e 3) aquela identificada à função de sugestão. 60. Freud. de significantes. Vol. Sigmund. não surtirá efeito algum na terapia. fazendo parte dele. p. em 1. por exemplo. ele só surge com Lacan. . por exemplo. Miller7 tratará de explicar as três designações de transferência dadas por Freud. 5 FREUD. “o analista é uma formação do inconsciente” 10. o analista absorvido pelo desejo do analisado funcionará como aquele que “imanta as cargas liberadas pelo recalque” 8. mas o sujeito suposto saber não está ali presente. então. isto é. In:_______. XII. o próprio analista. O desejo se apodera de formas. por conseguinte. A dinâmica da transferência.

no qual a transferência não deverá mais funcionar como obstáculo. Noutro ponto. O psicanalista é. através da resistência. através do inconsciente estruturado como linguagem. A partir deste ponto. como o significante o qual fará guiar os significados. os sintomas são ressignificados. em que a transferência está identificada à função de resistência. cit. Freud dirá que os sentimentos carinhosos da transferência. Miller13 falará da neurose de transferência. porém os impulsos eróticos reprimidos funcionam como resistência. p. Não que a psicanálise vise manipular o analista. que quase pode ser tida como uma quarta forma de transferência por ser uma doença artificial da psicanálise. O psicanalista funciona. e. cit. aqui. interrompendo-as. 12 . Miller dirá também que. a qual é oposta à repetição da transferência. É aqui que a transferência mostra a sua dupla face: de um lado. Chega-se. Ao contrário. de outro. 64. assim. a transferência positiva pode ser erótica ou amável 12 – a qual convém ser apoiada. o amor da transferência é tão verdadeiro quanto o amor da 11 Idem. em última análise. de fato. enquanto a transferência negativa não é psicanálise. É mediante o pedido de associação livre – que não tem nada de livre. 13 Op. porque. colocado no centro dessa repetição. Podemos ver essa distinção mesmo em Freud (Op. isto é. através da repetição. É essa transferência amável que permite operar no paciente por meio de sugestão. Podemos ver aqui como a transferência aparece como um percurso. em 5). o que fica demonstrado com a teoria de Lacan – o teórico da passividade do analista – de que “compete ao analista ser paciente” 11. isto só será possível mediante o amor do analisado por ele. Assim. à terceira forma de transferência: a transferência de sugestão que consiste na influência do terapeuta no paciente. sendo este o seu lugar na cura. Inventar uma doença talvez tenha sido a melhor tarefa da psicanálise. pois obedece a processos inconscientes bem definidos – que o analista solicita a rememoração.O segundo ponto da transferência é que ela é um obstáculo à cura. o que demarcará um (novo) ponto. pois. como o receptor do sintoma. na sexualidade. o qual lhe possibilita operar sobre o sintoma. que favorecem a análise. estabelece-se um conflito entre a libido do paciente e a demanda do analista. em 1. Aliás. Na função de resistência. esta “agressão” transborda seus limites. a transferência faz o paciente recuar do analisar do analista. mas como alavanca. de interrompê-la. funcionando como uma “tampa” para as associações inconscientes. a possibilidade de se fazer a análise. assim como a transferência negativa. têm sua gênese me fontes eróticas. nela.

ou seja. A psicanálise nos proporciona. a saber. sem ser detido pela decência ou pelo desprazer18.Transferência como resistência. sofre desprazer. “o sujeito suposto saber não é algo que se observe” 17.. como sugestão e como repetição. figura o termo compulsão à repetição. uma lógica que depende desse princípio posto no início pelo analista. Miller15 que o inconsciente não oferece resistência contra a rememoração. Pode-se retomar agora uma frase de Lacan citada por Miller. em 1. 67. estando até mesmo sobre o conjunto da cura. . assim. . o sujeito suposto saber é transfenomênico. isto é. . que tem a ver com convite que se faz ao paciente para dizer tudo em desordem. como tropo. ela está fundada no próprio dispositivo de cura.] o pivô no qual se articula tudo o que se relaciona com a transferência” 19. Lacan apud p. Com Freud.. então. ele é [.] um princípio que toca na própria lógica da psicanálise. ser plenamente entendida: “o sujeito suposto saber é [. Idem. propriamente. resistência e sugestão. mas que. o qual. Idem. Op. ao contrário.existência. . em Além do princípio do prazer.. 14 15 16 17 18 19 Idem. Idem. o saber de que “a vida é fundamentalmente uma repetição” 14. . a qual está presente no inconsciente. então. Relembrará. pode-se dizer que a resistência do eu se contrapõe à compulsão à repetição do recalcado. o sujeito suposto saber no polimorfismo da transferência. 69. ao contrário. pela liberação do recalcado. como resistência. que engloba repetição. p. p. De fato.Transferência como repetição. sem reter nada.O sujeito suposto saber (categoria lógica dos fenômenos da transferência). tendo ambos seus protótipos na infância. Poder-se-ia até mesmo fazer uma representação gráfica do sujeito suposto saber como pivô: . Ibidem. Na verdade. cit.Transferência como sugestão. as resistências provêm do eu (moi). Assim..Transferência como tropo. a qual pode. 56. Miller16 dirá que não há. ele é o fundamento ou alicerce de toda a diversidade dos fenômenos da transferência.

radicalmente distintas. Mario Rossi.br/pdf/rlpf/v11n2/a06v11n2. jun. hoje. De fato. Contrato narcisista e clínica do vazio. 71. o que era atípico agora se tornara típico: a tradição freudiana parece não dar conta desses novos fenômenos clínicos25. pp. v. O sujeito suposto saber é essa engrenagem central (ressignificando o termo pivô) sobre a qual giram todos os fenômenos da transferência. 2009. como transfenômeno. 25 Idem. é essa engrenagem central e. 23 MONTI. exigiram mudanças no âmbito terapêutico23. cit.2. pp. são graves. BAUMAN. na clínica do vazio. Disponível em: <http://scielo. não eram consideradas patologias. Brasília. 2004. n. O não-dizer aqui não pode ser considerado como resistência. Zygmunt. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. para articular. que. 2009.Assim. as vivências são outras. seguindo a maré.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932004000200006>. v. mas que. Evanisa Helena Maio de. O vazio é o sentimento preponderante nesses casos 20 Op. BRUM. 2008. Cf. por ser assim. As próprias patologias anteriores não são mais vivenciadas como tais: as síndromes dos indivíduos presentes na clínica. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental. Aliás. para finalizar. sendo consideradas patologias. dever-se-ia supor também a existência de novas modalidades de padecimento. 2008. 22 Cf. n. cit. atualiza-se nos fenômenos da transferência.br/scielo. Acesso em: 18 dez. criaria ainda mais resistência27. Trad. como dirá Miller. ao mesmo tempo. À mercê dessas relações fragilizadas. vemos o funcionamento do sujeito suposto saber proposto por Jacques Lacan. cit. porém há uma relativa falta de ansiedade e de sentimento de culpa 24.24. mesmo antes que se saiba o quê” 20. Acesso em: 18 dez. em 22. A sociedade contemporânea está organizada de modo radicalmente distinto daquele vivenciado por Freud e sobre o qual construiu sua teoria. Disponível em: <http://www. 26 BRUM. 24 Idem. Mario Rossi. 21 . 48-53. Patologias do vazio: um desafio à prática clínica contemporânea. Bauman21 nos descreve a migração dos laços sociais concretos para os tênues laços cibernéticos.scielo. Ora. 27 Idem. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadorias.org. em 22. se o fosse. as quais.bvs-psi.11. MONTI. Op. Carlos Alberto Medeiros.2.pdf>. Evanisa. o desejo desses indivíduos. jun. o que reflete na fragilidade dos laços sociais nesta sociedade atual. é não desejar26. surgem as patologias do vazio 22. virtual. “[o] psicanalista está lá para garantir ao paciente que esse exercício sem lucro quer dizer alguma coisa. Rio de Janeiro. Psicologia: ciência & profissão. no início. p. E. 239-253. Desta nova modalidade de vivências. os fenômenos plurais da transferência na clínica. em 1. pois. Op.

São Paulo.com. A clínica do vazio e o amor gelado. Op. 30 Op. 29 Op. Mario Rossi. o interessante caso relatado por Levi Leonel de Souza: SOUZA. Já que. em 22. então. Levi Leonel.pdf>. cit. em 22. em 22. de modo a garantir o funcionamento da análise? 28 BRUM. em referência a esta clínica e à patologia ou ao conjunto de patologias que a define. 2009. os pacientes da clínica do vazio (com patologias do vazio) não falam e já que eles estão intimamente voltados para si mesmos (contrato narcisista). cit. Acesso em: 18 dez. MONTI.clínicos e não mais são descritos meramente problemas relacionados a um conflito28. cit. Op. E cf. Disponível em: <http://www. Evanisa. a transferência de Freud a Lacan hoje.levileonel. segundo Brum29 e Monti30. em 22.br/pdf/CLINICA. como pensar. Outubro 2000. cit. .