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Livros como objetos materiais: alguns apontamentos sobre o consumo estético do livro

Investigar os processos sociais que envolvem o livro é uma tarefa nem sempre fácil, mas instigante para aqueles apaixonados pela leitura. Como diz Robert Darnton, “seus adeptos se reconhecem pelo brilho nos olhos”. Toda uma aura de misticismo percorre as imensas bibliotecas, os corredores mais escondidos das livrarias, os sebos em que se encontra um livro usado cuja riqueza é as anotações feitas por um estranho qualquer ao pé das páginas. Aqueles apaixonados pelo livro envolvem-se, obviamente, pelas historias ali contidas, mas, mais que isso, os livros por si só já são todo um universo. Deve-se, então, deixar claro: autores escrevem textos, mas livros são produzidos por profissionais do livro. Como diz Hendel, estudioso do design do livro, não é somente o que o autor escreve, o texto em si, que vai definir o livro: “sua forma física, assim como sua tipografia, também o definem. Cada escolha feita por um designer causa algum efeito sobre o leitor ”. Ao se comprar um livro, não se está buscando apenas o conteúdo textual, mas todo o entorno que faz daquilo um objeto único. A pesquisa que venho desenvolvendo tenta dar conta de entender os estímulos estéticos presentes no consumo do livro. O ponta pé inicial para tal investigação parte, como muitas pesquisas, de alguma experiência pessoal que posteriormente se percebe coletiva. A paixão por livros é relativamente disseminada, principalmente no meio acadêmico e artístico. A busca incansável por livros se confunde, muitas vezes, com um contato íntimo com bibliotecas e livrarias. Passa-se a adorar o cheiro, as cores, as letras impressas, a textura do papel, as imagens. Comecei então a perceber que passava muito tempo vagando por livrarias e bibliotecas, folheando os livros, flertando com eles e, muitas vezes, esse flerte se iniciava com um primeiro contato inevitavelmente estético: os livros que mais me chamavam à atenção eram os que se destacavam nas prateleiras. Não por serem coloridos demais ou estranhos demais, mas por terem alguma coisa de zelo e cuidado na elaboração que se deixava perceber num primeiro olhar.

por sua vez. até porque. é possível afirmar que houve quatro mudanças fundamentais na tecnologia da informação desde que os humanos aprenderam a falar: 1) em algum momento. Segundo Robert Darnton. objetos transcendentes e percorrem todo um imaginário fantástico que criamos desde a infância. Essa transcendentalidade dos livros é que dificulta um entendimento material de tais objetos. a estrofe seguinte nos diz: “mas podemos amá-los do amor táctil”.. que data da última década do século XX. Como diz Caetano Veloso (ouvir música aqui =>). Volumem (livro em formato de rolo que antecedeu o códice) . 2) a história do livro levou a uma segunda mudança tecnológica quando o códice (folhas encadernadas) substituiu o pergaminho (volumem). na década de 1450 e. Ora. aquilo não nos parece um objeto qualquer como roupa. Voltando agora para a canção de Caetano. o que facilitaria a comparação de partes diferentes da mesma obra. pode parecer minimamente absurda. colocada fora de contexto. para os apaixonados. Um rápido retorno na historia do livro pode ajudar a ter a percepção clara de tal fenômeno. quando pegamos um livro. os humanos aprenderam a escrever. foi transformado pela invenção da impressão com tipos móveis. por volta de 4000 a. 4) surge a comunicação eletrônica. sapatos. Morris Lessmore). “Os livros são objetos transcendentes”. em que os livros são mágicos e abrir um deles é ser levado a um mundo encantado (sobre o assunto recomento fortemente o belíssimo filme The Fantastic Flying Books of Mr. C.Dessa forma é que me pus a perguntar: que relação existe entre a estética e o consumo de livros? Tal pergunta. de forma bastante simplificada. logo após o início da era cristã. é esse amor táctil aos livros justamente o que queremos entender aqui. óculos de sol ou um tocador de mp3: os livros são. 3) o códice.

Bíblia de Gutemberg. facilitando a leitura) Johann Gutenberg de Mainz inventa a prensa gráfica por volta de 1450. possibilitando que se comparasse partes diferentes do mesmo texto. edição que marca o início da produção em massa de livros no Ocidente .Códice antigo manuscrito (o livro passou a ser encadernado.

Aos poucos se abandona a prática de se reunir em grupo para ouvir a leitura de textos e passa-se a ler sozinho e em silencio. que leve em consideração elementos sociais como distinção. mesmo resumida desta forma. paralela a esta. mas. Fica abaixo algumas sugestões de leitura para um maior aprofundamento sobre o assunto. duas importantes consequências para a história da leitura. Essa discussão ainda teria muito que render. é a passagem de uma leitura intensiva para uma leitura extensiva. segundo Roger Chartier. é fácil perceber que a materialidade do objeto é importantíssimo nos modos de leitura e consumo. Tendo em vista tantas mudanças por que passaram os livros ao longo dos anos. já podemos lançar algumas pistas de para onde essa investigação deve seguir. Ora. É dessa forma que pode ser entendida a influencia da estética no consumo de livro. autores escrevem textos. por isso. Essa modificação abre a possibilidade de se ler com mais rapidez e. Quando se abandonou. já nos possibilita uma conclusão importantíssima: o texto é inseparável da forma que lhe dá materialidade. mas o formato é determinante no modo como aquela obra vai ser utilizada. Outra consequência. disposição estética e todos os elementos sociais que envolvem uma cultura do consumo e o estímulo estético inerente a tais práticas. computador). De fato. Ou seja. mas livros são produzidos por profissionais do livro. . notase que o texto é fundamental. deixa-se de ler exaustivamente o mesmo texto e passa-se a ler superficialmente diversos textos diferentes. gradativamente. estando claro que os livros não se resumem aos textos.A maior circulação do livro. Mesmo com ideias lançadas de forma tão superficial. como foi dito no início. mais textos e textos mais complexos. A primeira diz respeito a passagem de uma leitura necessariamente oralizada a uma leitura silenciosa e visual. O entendimento satisfatório do consumo estético de livros deve passar por uma ampla investigação social que leve em consideração as modificações que o livro vem sofrendo (tendo em vista a digitalização do formato e a concorrência com meios como o cinema. Abre-se um leque de possibilidades investigativas que torna ainda mais enriquecedor o entendimento desse objeto que é motivo de tantos encantos e mistérios para aqueles que se deixam levar pelas mais encantadoras fantasias. decorrente das tecnologias de impressão e formas de encadernação traz. então. e também uma sociologia do consumo e da edição. a leitura no volumem pela leitura no códice. modificou-se uma série de hábitos inerentes à materialidade do texto. já que é aquilo que se deseja transmitir.

Steven Roger. HENDEL. Não contem com o fim do livro. 2006. A Questão dos Livros. I). O Design do Livro. FISCHER. Rio de Janeiro: Record. São Paulo: UNESP. 2010. 2010. História da Leitura. São Paulo: Ateliê Editorial. 2003 (Artes do Livro.Sugestões de leitura ECO. Umberto. Richard. São Paulo: Companhia das Letras. DARNTON. Jean-Claude. . CARRIÉRE. Robert.