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“DOS CRIMES CONTRA A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA”.

“PECULATO DE USO: FATO TÍPICO OU ATÍPICO?”.

Moisés Magno Manso de Oliveira Pós-graduando da UNED – MT

RESUMO: Trata-se o presente artigo em abordar sobre a tipificação ou não do crime de Peculato de Uso, partindo do que está previsto na Constituição Federal de 1988, e baseando-se em lei específica, no caso o Código Penal, onde o mesmo reservou em Capítulo exclusivo de forma objetiva os Crimes que ocorrem Contra a Administração Pública. A preocupação abordada aqui é em relação aos Bens Públicos, sendo eles móveis ou imóveis, os quais são tutelados com vigor pelo Código Penal e em leis esparsas. O assunto chama atenção em virtude da ausência de criminalização para Peculato de uso, prova disto, é que já existe em tramitação na Câmara dos Deputados, um projeto de lei n°. 4435/2008, o qual vai ao encontro com a preocupação abordado aqui, ficando demonstrado que realmente precisa discutir a situação atípica do Peculato de Uso, pois, se torna mais uma das lacunas que existe em nosso ordenamento jurídico. Portanto serão apontadas aqui as indicações imprescindíveis, bem como opinião de juristas e doutrinadores em relação a tipificação do Peculato de Uso, e ainda debater nesse artigo qual a importância e repercussão que terá para a sociedade.

PALAVRAS-CHAVE: Peculato de Uso, Fato Típico e Atípico, Crimes Contra Administração Pública, Bens Públicos.

1 – INTRODUÇÃO

A Constituição Federal de 1988, por força do princípio da legalidade, combinado com o Código Penal, limita o conceito de crime, prescrevendo que não há crime sem lei anterior que o defina. Nesse sentido, faz-se necessário aprimorar a regulamentação de novos fatos que ocorrem em nosso dia-a-dia, de forma a não se violar esse princípio. Há uma série de crimes contra a Administração Pública que estão tipificados no Código Penal, e um deles é o crime de Peculato. Ultimamente tem se discutido a possível inserção da modalidade do Peculato de Uso no Código Penal, de forma a tipificá-lo como crime, pois, hoje ainda é um fato atípico. Apesar de o Legislador ter positivado em Lei os crimes que o funcionário Público poderia praticar contra o Estado, ainda foi detectada nessa pesquisa, e conforme observância aos fatos que incidem de forma despercebida por alguns, a necessidade de solucionar a ausência de uma nova previsão legal em relação ao crime de Peculato de Uso. Devido a necessidade de adequar as mudanças que acontecem no comportamento da sociedade, a lei penal precisa se tornar mutável, pois, o que hoje é definido como crime, talvez em alguns anos ou décadas atrás, alguma infração não era considerada crime, ou seja, não era tipificada no código penal, e assim vice-versa, tendo em vista a constante mudança e evolução que ocorre na sociedade. O Estado deve zelar pela aplicação da lei e preservação de seus bens, para que assim haja a convivência harmoniosa na sociedade e a garantia da ordem pública. Deste modo, começando pelos próprios atos de seus agentes públicos, faz-se importante a existência da punição exemplar, no que diz respeito aos prejuízos que seus administrados podem incorrer, com comportamentos ilícitos, seja eles comissivos ou omissivos, mas que ao final poderão violar o direito de cada cidadão. Existe, no Congresso Nacional, projeto de lei com vistas a criar a figura do Peculato de Uso na legislação nacional. Referido projeto tem relevante importância, uma vez que, ainda que o funcionário público (lato senso) não tenha a intenção de ter o bem para si, o fato de usar de forma indevida já configura a quebra de confiança, a falta de probidade no trato com a coisa pública. Tendo em vista a necessidade de resguardar os Bens Públicos e acima de tudo, atender ao interesse social, visa-se aqui a discussão sobre a inclusão ou não da nova

modalidade na norma penal para o crime de Peculato frente ao Projeto de Lei n°. 4435/2008. Este artigo de cunho bibliográfico e investigativo busca conhecer por que o peculato de uso é atípico e por que o legislador ainda não se preocupou em tipificá-lo no Código Penal e ainda discorrer sobre a infração de Peculato de Uso praticado corriqueiramente por agentes do Estado, apresentando idéias e opções, bem como opiniões de juristas, sobre a tipificação de peculato de uso, saber o que estabelece a doutrina no entendimento jurisprudencial sobre a definição e o motivo pelo qual o Peculato de Uso ainda é fato atípico e se este deve ser ou não tipificado no código penal. Busca ainda conhecer o pensamento da sociedade em relação a tipificação do peculato de uso, avaliando as opiniões e sugestões das pessoas em relação ao assunto e o motivo pelo qual a infração é atípica, pois, a sociedade cada vez mais tem exigido transparência nas ações da Administração Publica, principalmente no que tange a punição aos funcionários do Estado.

2 – O PROJETO DE LEI N°. 4435/2008 Fundamenta-se o projeto de lei em prever sanção ao funcionário público que incorrer no peculato de uso, que é a utilização indevida, pelo de bens, rendas ou serviços públicos. Esse uso pode ser feito em proveito próprio ou alheio. Atualmente, tal conduta só é considerada crime quando cometida por um prefeito. Para o autor da proposta, o senador Demóstenes Torres, 2009, diz que o argumento de que o agente não teria "ânimo de ter a coisa para si" não é suficiente para acabar com a conduta criminosa, e ressalta que o objetivo é "corrigir a insuficiência das penas de alguns crimes contra a administração pública". (Projeto de Lei nº. 4435/2008) O projeto altera as penas dos crimes de servidores e inclusive prefeitos, aumentando a pena do Peculato de Uso, e de vários crimes cometidos por servidores públicos. Já aprovado pelo Senado, o projeto também altera várias penas para os crimes de responsabilidade cometidos por prefeitos. O projeto inclui o novo crime no Código Penal e no Código Penal Militar e amplia a punição para os crimes de emprego irregular de verbas públicas, concussão, prevaricação, condescendência criminosa e advocacia administrativa.

Demóstenes Torres reconhece que não se pode, por uma questão de proporcionalidade, punir o peculato de uso com a mesma pena do peculato-apropriação ou do peculato-furto, já que, no primeiro caso, o agente restitui a coisa utilizada indevidamente. Por esse motivo, ele propõe uma pena de reclusão de dois a seis anos e multa. Atualmente, a legislação prevê o crime de peculato, que tem pena de reclusão, de 2 a 12 anos, e multa. Se o crime for culposo (não intencional), a pena é reduzida para detenção, de 3 meses a 1 ano. Em relação as verbas públicas, a proposta altera a pena para o crime de emprego irregular de verbas ou rendas públicas. Atualmente, a legislação estabelece pena de detenção de 1 a 3 meses, sendo que a proposta amplia para 1 a 3 anos, porém, a multa atual não sofreria alteração pelo projeto. O crime de concussão, ou seja, o ato de exigir para si ou para outrem, dinheiro ou vantagem em razão da função, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de assumi-la, mas em razão dela, vantagem indevida, cuja pena prevê reclusão de 2 a 8 anos e multa, passa, pela proposta, a ser punido com reclusão de 4 a 12 anos e multa. No caso do crime de prevaricação, que consiste em retardar ou deixar de praticar devidamente ato de ofício, ou praticá-lo contra disposição expressa de lei, para satisfazer interesse ou sentimento pessoal, passa a ter pena de detenção de 1 a 2 anos, além de multa. Atualmente, a prática é punida com a detenção de 3 meses a 1 ano e multa, e na infração de condescendência criminosa passa a ter pena de detenção de 1 a 2 anos. A atual lei pune a conduta com detenção de 15 dias a 1 mês. O projeto altera e pune também a advocacia administrativa, que é patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a Administração Pública, valendo-se da qualidade de funcionário, penalizando com detenção de 1 a 2 anos. Atualmente, a prática é punida com detenção de 1 a 3 meses. No caso de o interesse ser ilegítimo, a pena passa dos atuais 3 meses a 1 ano para 4 a 8 anos, também em regime de detenção. A multa permanece. No caso dos crimes de responsabilidade dos prefeitos, a proposta mantém a atual pena para a apropriação indevida de bens ou rendas públicas - reclusão de 2 a 12 anos - e diminui a pena para o crime de uso indevido de bens, rendas e serviços públicos. Da atual reclusão de 2 a 12 anos, a conduta passa a ser punida com reclusão de 2 a 6 anos. Para Demóstenes Torres, é preciso observar o princípio da proporcionalidade, "de modo a não

apenar igualmente condutas de gravidade diferenciada, e tampouco apenar desigualmente condutas de mesma gravidade". Nos demais casos, as penas são modificadas - de detenção para reclusão - ou têm seu prazo ampliado. Em alguns casos, a multa também foi acrescida. Segundo o autor da proposta, não há razão para que as penas previstas no Código Penal sejam mais brandas do que as previstas no Decreto-Lei 201/67, que estabelece os crimes de responsabilidade dos prefeitos. "Pretendo romper, assim, com o nivelamento por baixo da lei vigente, acolhendo parâmetros mais ajustados ao grau de reprovação dos crimes praticados por prefeitos municipais", esclarece Torres. Por fim, o Projeto além de alterar as penas de outros crimes, ele visa tipificar o crime de Peculato de Uso de forma a inserir no código penal como mais uma nova modalidade do crime de Peculato, proposta que tem por objetivo tutelar os bens públicos, prevendo novas sanções ao funcionário público que venha a praticar os delitos supracitados.

3 – DEFINIÇÃO DE CRIME A infração penal pode ser conceituada segundo três critérios distintos: formal, material e analítico. Pelo critério formal, a infração penal é aquela definida pelo direito positivo, que corresponde ao fato ao qual a ordem jurídica associa a sanção penal como conseqüência. Em relação ao conceito material, infração penal é a conduta humana que gera lesão ou perigo a um interesse penalmente relevante. O conceito material enfatiza a proteção ao bem jurídico. Pelo conceito analítico, decompõe-se a infração penal em suas partes constitutivas fato típico, antijurídico e culpável, porém, o que predomina é a da teoria finalista da ação, ou seja, o crime seria apenas fato típico e antijurídico, pois a culpabilidade seria pressuposto de aplicação da pena. Além dos critérios mencionados acima, pela concepção analítica de delito, a mesma identifica como elementos constitutivos de crime a conduta humana, sendo que não há crime sem a conduta humana, ocorrendo através da ação ou omissão. A tipicidade é conseqüência do princípio da legalidade e cria o mandamento proibitivo, prevendo abstratamente as condutas puníveis, enquanto o princípio da antijuridicidade é a

contrariedade formal e material do direito, e ainda, a culpabilidade era antigamente concebido como dolo e culpa, atualmente é concebido como um juízo de censura sobre o agente. Além dos elementos ditos genéricos do crime, existem elementos taxados como específicos, que são os elementos ou elementares ou, segundo o art. 30, CP, as “circunstâncias elementares” (várias formas que assumem os requisitos genéricos nos diferentes tipos penais). Não poderia deixar de dizer que para o Direito, existem o sujeito ativo e o passivo, sendo que no primeiro caso, é aquele que realiza o fato descrito na norma penal incriminadora, ou seja, é aquele cuja atividade é subsumível ao tipo legal incriminador. No segundo caso, é o titular do bem jurídico lesado ou ameaçado de lesão pelo comportamento criminoso. Há possibilidade de existirem dois ou mais sujeitos passivos em um mesmo crime, e, às vezes, um imediato e outro mediato, como em vários crimes contra a Administração Pública, que é o caso abordado por este artigo, onde se encontra a tipificação do Peculato.

4.0 – O CONCEITO DE FATO TÍPICO E ATÍPICO Fato típico é o comportamento humano (positivo ou negativo) que provoca um resultado, com previsão legal no código penal. Assim, fato típico do Peculato seria a conduta do funcionário público ao apropriar-se ou desviar valores, bens móveis, em virtude ou razão do cargo. O fato se enquadra na descrição legal simples do art. 312 do CP. O fato típico é ainda composto pelos elementos da conduta humana dolosa ou culposa; resultado (salvo nos crimes de mera conduta); nexo de causalidade entre a conduta e o resultado (salvo nos crimes de mera conduta e formais); enquadramento do fato material (conduta, resultado e nexo) em uma norma penal incriminadora. Deve ser observado que existe crime sem resultado e, então, não há de se falar em resultado e nexo de causalidade material. No formal, não se exige a produção do resultado. No caso do crime de peculato este se configura como crime material, pois, é necessário a consumação do fato. Já no caso da definição de fato atípico se apresenta como um comportamento de um indivíduo frente a uma situação não descrita em lei, e pode-se dizer também que ao se

faltar um dos elementos que compõe um fato típico, estará diante de uma situação em que incidirá em um fato atípico. Portanto, em relação ao assunto abordado por este artigo, o peculato de uso é atualmente atípico, apesar de hoje está em tramitação no Congresso Nacional o projeto de lei em que criminaliza o peculato de uso. Contudo, para o entendimento mais preciso da norma penal, é necessário o conhecimento também da importância do sujeito ativo e sujeito passivo, figuras de valor indispensável para interpretação no processo do julgamento punitivo.

4.1 – SUJEITO ATIVO Como este artigo busca discutir a criminalização na Administração Pública, vale lembrar, que na perspectiva do direito penal, sujeito ativo, é o agente público que é enquadrado, em uma tipificação penal relacionado aos Crimes Contra Administração Pública, ou seja, é o executor da conduta delituosa, também sujeito ativo do processo em que é indiciado em virtude da materialidade do crime, sendo um agente, acusado, denunciado, réu ou sentenciado, lembrando que somente o ser humano pode ser sujeito ativo em um fato típico incriminador.

4.2 – SUJEITO PASSIVO O Sujeito Passo é definido como o titular do bem jurídico lesado ou ameaçado, (ex: é aquele que morre no crime de homicídio, é o ferido na lesão corporal, é o possuidor da coisa no furto). Nada impede que, em um determinado delito, dois ou mais sujeitos passivos existam, desde que estes tenham sido lesados ou ameaçados em seus bens jurídicos definidos no tipo penal. Existem duas espécies de sujeito passivo: sujeito passivo constante (ou formal) e sujeito passivo eventual (ou material). Sujeito passivo formal é o Estado, titular do mandamento proibitivo não observado pelo sujeito ativo. O Estado é sempre lesado pela conduta do sujeito ativo. Sujeito passivo material é o titular do interesse penalmente protegido. É aquele que sofre a lesão do bem jurídico de que é titular, como a vida, a integridade física, a honra.

Assim, pode ser sujeito passivo material: o ser humano, o Estado, a pessoa jurídica e a coletividade. Ex: um homem (art. 121, CP - homicídio); o Estado (crimes contra a Adm. Pública, p. ex.); a companhia de seguro, como pessoa jurídica (art. 171, § 2º, V, CP fraude para o recebimento de indenização ou valor de seguro - Estelionato) e a coletividade (art. 286, CP – incitação ao crime). Deste modo, além das figuras dos Sujeitos Ativo e Passivo, a norma penal demonstra tutelar o bem jurídico, seja ele qual for, o objeto jurídico ou o objeto material, sem isso, não há de se falar em ilícito penal.

4.3 – OBJETO JURÍDICO É o bem-interesse protegido pela norma penal, é o que se visa tutelar quando se erige certa conduta como infração penal. Exs: vida, integridade física, honra, patrimônio, etc. Foi o critério escolhido pelo legislador pátrio para dividir em capítulos a Parte Especial do Código Penal. Não há crime sem objeto jurídico, pois, em face do princípio da lesividade, não há crime sem lesão ou perigo de lesão a bem jurídico.

4.4 – OBJETO MATERIAL É a coisa ou pessoa que é atingida pela ação delituosa, aquilo sobre o que recai a conduta. Exs: Bens móveis da Administração Pública, alguém ou um documento. Por vezes, o sujeito passivo do delito pode se confundir com o seu objeto material, como no crime de lesões corporais. Deve-se notar que existem infrações que não possuem objeto substancial, como o crime de ato obsceno e o de falso testemunho.

4.5 – PRINCÍPIO DA ANTERIORIDADE Tratando se da questão da tipificação do Peculato de Uso, não poderia deixar de falar do princípio da Anterioridade seguido pelo Código Penal. Visa este princípio que a aplicação penal só ocorre a um caso concreto se houver previsão legal anterior ao fato, assim como já está previsto no Art. 1º do Código Penal,”não há crime sem lei anterior que o defina”, nem tampouco pena “sem prévia cominação legal”. Logo, para que haja no ordenamento jurídico a punição efetiva para funcionário público, os Legisladores devem se atentar quanto a questão do Peculato de Uso para

inserção do mesmo como uma nova modalidade no código penal, incluindo-o na seção dos Crimes Contra a Administração Pública. Apesar do princípio da Anterioridade, os doutrinadores do direito penal, ressaltam também o princípio da Fragmentariedade, sendo como mais uma premissa na análise criminal.

4.6 – PRINCÍPIO DA FRAGMENTARIEDADE É sabido que a lei é uma das fontes que sustenta o Direito, como também os costumes praticados e usados comumente pelo povo. Em nossa Lei Maior, que é a Constituição Federal, é apresentado que todo o poder emana do povo, sendo assim, a Sociedade é quem define para si o melhor, através dos representantes eleitos que compõem o Legislativo. Analisando o tema Peculato de Uso, onde se discute a tipificação do mesmo no Código Penal, o princípio da Fragmentariedade aborda que nem todas as lesões aos bens jurídicos protegidos devem ser tuteladas e punidas pelo Código Penal, sendo no caso, uma parte de um todo, ou seja, um Fragmento. O Direito Penal deve ser visto como um fragmento que atinja os ilícitos mais gravosos para a sociedade, por isso, o legislador, atendendo a vontade sociedade, deve garantir que a questão do Peculato de Uso seja resolvida, tipificando ou não. Assim, a norma penal se preocupa em tutelar todos os bens jurídicos, mormente no tocante aos crimes mais lesivos, como é o caso dos crimes que ocorrem contra o ente estatal, trazendo a importância de proteger o patrimônio público do Estado.

5.0 – IMPORTÂNCIA DE TUTELAR O PATRIMÔNIO PÚBLICO DO ESTADO A preocupação com os Bens da Administração Pública é definida e positivada em Lei na nossa Carga Magna que é a Constituição Federal de 1988. Apesar de a Constituição ser a lei maior, há a necessidade de leis acessórias que definam e regulamentem deveres e direitos a serem seguidos pelos indivíduos, como os existentes: Código Civil, Penal, entre outros. Na Administração Pública tudo só é permitido através da lei, ou seja, enquanto um indivíduo pode fazer tudo o que a lei não proíbe, o Estado deve agir somente através da lei, obedecendo aos princípios elencados constitucionalmente, são eles respectivamente: a

Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência, sendo no caso alguns dos principais princípios existentes no ramo do direito administrativo. Como este artigo discute a tipificação do Peculato de Uso, conseqüentemente se preocupa com os Bens da Administração Pública, já que o próprio legislador reservou no Código Penal um capítulo específico definindo os crimes que podem incidir em desfavor do Estado. Quando se menciona sobre o patrimônio do Estado, devemos lembrar que o regime jurídico dos bens públicos é um conjunto de preceitos básicos, princípios e normas, que vão caracterizar e nortear a gestão do administrador público. Este regime jurídico compreende as seguintes características: a inalienabilidade, a impenhorabilidade, a imprescritibilidade, a impossibilidade de oneração e a

intangibilidade. Destas cinco características, a doutrina tem atribuído às primeiras três aos bens públicos. Tais características têm como fundamento a sua destinação, necessária à consecução dos interesses coletivos não podendo, desta forma, ficar à disposição do administrador ou responderem pelos atos do Estado em detrimento dos interesses maiores da coletividade. De acordo com o que foi mensurado acima, citemos um exemplo, em uma cidade no interior do Estado, que tem apenas uma ambulância, onde o funcionário responsável pelo deslocamento e atendimento de vítimas esteja utilizando a viatura do sistema municipal de saúde para seu interesse próprio ou alheio. Este funcionário público que utiliza a viatura do hospital, além de estar se aproveitando da situação do cargo para obter vantagem no uso do veículo em proveito próprio, estaria também incorrendo no ato de desvio da finalidade do serviço público. Mas o que na verdade aumenta a amplitude do fato do funcionário público ser totalmente condenável, seria no caso, quando uma vítima necessitasse do atendimento da ambulância e não recebesse o socorro que era necessário, sendo que posteriormente a vítima viesse a óbito, em virtude da negligência do funcionário público, ficando caracterizado pela omissão na conduta que seria esperada e recomendável para um agente público. Não poderia deixar de mencionar a função social que o patrimônio público exerce sobre a sociedade, pois, já que aqui se fala em tutelar os bens da Administração Pública em prol da sociedade, o Direito Penal deve intervir quando alguém ou o Estado sofrem ameaça ou lesão efetiva aos direitos e garantias fundamentais preconizado pela própria

Constituição Federal. O Estado possui a sua natureza e finalidade específica para administrar, desta forma enseja garantir a isonomia para coletividade.

5.1 NATUREZA E FINS DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA A natureza da administração pública é a de múnus público para quem exerce, isto é, a de um encargo de defesa, conservação e aprimoramento dos bens, serviços e interesses da coletividade. Os fins da administração pública resumem-se num único objetivo: o bem comum da coletividade administrada. Toda a atividade do administrador público deve ser orientada para esse objetivo. Se dele o administrador se afasta ou desvia, trai o mandato de que está investido, porque a comunidade não instituiu a Administração senão como meio de atingir o bem-estar social. Ilícito e imoral será todo ato administrativo praticado que não for praticado no interesse da coletividade. O Estado por si só não realiza as atividades necessárias para administrar uma série de Ministérios, Órgãos, Fundações, Autarquias, entre outros. O Ente Estatal precisa de pessoas que realizem o serviço na prática para o bem comum da sociedade, essas pessoas são funcionários públicos, ou agentes públicos, que realizam suas funções também pautadas pela legalidade.

5.2 ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA E SEUS AGENTES Administração pública (ou gestão pública) é, em sentido orgânico ou subjectivo, o conjunto de órgãos, serviços e agentes do Estado, bem como das demais pessoas coletivas públicas (tais como as autarquias locais) que asseguram a satisfação das necessidades coletivas variadas, tais como a segurança, a cultura, a saúde e o bem estar das populações. Uma pessoa empregada na administração pública diz-se servidor público ou funcionário público. Deixando de lado o que a Doutrina chama de sentido formal e sentido material de Administração Pública e Governo, procura-se aqui ter uma visão mais objetiva, a qual sintetiza a essência de tais aspectos doutrinários.

Nesse sentido, numa visão global, a Administração é, pois, todo o aparelhamento do Estado preordenado à realização de serviços, visando à satisfação das necessidades coletivas. A Administração não pratica atos de Governo; pratica, tão-somente, atos de execução, com maior ou menor autonomia funcional, segundo a competência do órgão e de seus agentes. São os chamados atos administrativos, que por sua variedade e importância, possuem diversas funções e competência diferentes. Para haver o funcionamento da Máquina Pública, faz-se necessário que ela seja movimentada, e quem a movimenta são os Agentes Públicos, sendo funcionário público ou não, em serviço temporário ou não, onde o direito administrativo define que o Agente Público é uma designação mais abrangente que alcança os agentes políticos, os servidores públicos e os particulares em atuação colaboradora. Os servidores públicos são referidos como categoria de agentes públicos: são os agentes permanentes, profissionais, a serviço da Administração Pública. Cabe também a própria Administração Pública realizar ou criar uma forma de punir seus funcionários, como o PAD (Procedimento Administrativo Disciplinar), nos casos em que se verifica que o agente incorre em determinados crimes, que se comprovado, além de responder administrativamente no Órgão respectivo, poderá responder também no âmbito civil e penal no Poder Judiciário. Pode-se dizer que Governo é uma atividade política e discricionária; Administração é uma atividade neutra, normalmente vinculada à lei ou à norma técnica. Governo é conduta independente; Administração é conduta hierarquizada. Por fim, Administração é o instrumental de que dispõe o Estado para por em prática as opções políticas do Governo. Portanto, Governo e Administração como criações abstratas da Constituição e das Leis, atuam por intermédio de suas entidades (Pessoas Jurídicas), de seus órgãos (Centros de Decisões) e de seus agentes (Pessoas Físicas investidas em Cargos e Funções), sendo que as ações governamentais agem de acordo com a lei, pois assim, fica garantido para a sociedade um cumprimento das obrigações do governo em função pública para a comunidade, bem como vislumbrar os ilícitos penais praticados por seus agentes.

6.0 – VISÃO DA SOCIEDADE SOBRE TIPIFICAÇÃO DO PECULATO DE USO Foi levada ao público a pergunta sobre a tipificação do Peculato de Uso, porém, como se trata de um assunto relacionado ao campo jurídico, poucas pessoas souberam informar sua opinião sobre o tema. Para não ficar sem um posicionamento da Sociedade, preocupou-se aqui neste artigo com a explicação e o esclarecimento para as pessoas sobre o tema, para que a comunidade exteriorizasse a sua visão, tendo em vista que a nossa Constituição Federal menciona que todo o poder emana do povo. Quando as pessoas tomavam conhecimento sobre do que se tratava o Peculato de Uso, muitas delas opinavam dizendo que realmente o Funcionário Público que tem a responsabilidade em prestar serviço para a comunidade, que se incorresse no crime, deve sofrer alguma sanção, seja, ela administrativa ou penal. Assim, conforme entrevista realizada para algumas pessoas, elas defenderam que para haver a preservação dos Bens Públicos, e a Sociedade tenha a garantia da Prestação de Serviço do Estado, o Funcionário Público que cometer o ilícito deve ser punido.

7.0 – OPNIÕES DE ESPECIALISTAS DA ESFERA PENAL Seguindo a trajetória sobre a discussão da criminalização do Peculato de uso, não poderia deixar de obter opiniões de quem atua na área e por especialistas de direito, tendo em vista a preocupação com os Bens da Administração Pública no tocante ao interesse da sociedade. Conforme a opinião da Drª. Alessandra Saturnino de Souza Cozzolino, Delegada de Polícia da Gerência de Inteligência Policial da cidade de Cuiabá-MT, ela menciona que no sistema legal pátrio, na esfera penal, vige o Princípio da Anterioridade, com previsão no artigo 1º do Código Penal e artigo 5º, inciso XXIX, da Constituição Federal. Segundo tal princípio, não há crime sem lei anterior que o define, nem pena sem prévia cominação legal. A Drª. Alessandra informa ainda, que o crime de peculato de uso, em regra, não encontra amparo no sistema legal pátrio, à exceção do artigo 1º, inciso II, do Decreto-Lei 201/67, cujo delito está previsto na esfera das prefeituras municipais e câmaras de vereadores. Assim, o artigo 312, do CP, que define a figura do Peculato, refere-se apenas à apropriação ou desvio de valor ou bem público, não abrangendo o campo de incidência

sobre o uso de valores ou bens públicos (sem o desvio). Conclui sua opinião sobre o fato dizendo que a “apropriação transitória” no sistema penal pátrio pode levar eventuais perpetradores a “progredirem” para a apropriação em definitivo, em razão da sensação de impunidade vigente. Na Secretaria de Justiça e Segurança Pública (SEJUSP), alguns técnicos da área jurídica, manifestaram a opinião de que precisa haver nos veículos estatais, uma proibição para fins diversos, e defendem que é necessária uma fiscalização para que o bem seja utilizado somente para fins públicos, havendo uma punição rigorosa quando constatado que o uso do bem não está sendo exclusivo para a administração.

8.0 – DECISÕES JURISPRUDENCIAIS SOBRE O PECULATO DE USO As jurisprudências são decisões uniformes de inúmeros tribunais do Brasil que demonstram um determinado pensamento e interpretação da lei aplicado em uma matéria jurídica. Em virtude do Peculato de Uso ainda não ser crime, e sim fato atípico, não foi encontrado decisões de tribunais em relação ao assunto, entretanto, o que se tem ao menos, é uma exceção que vige atualmente, conforme o Decreto Lei 201/67, que dispõe sobre a responsabilidade criminal e político-administrativa dos prefeitos e vereadores. Para visualização, segue abaixo algumas jurisprudências:
A 2ª (segunda) câmara criminal do TJ/PI condena dois prefeitos por crimes de responsabilidade: Em sessão ordinária realizada nesta segunda-feira, 29/03, a 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Piauí, presidida pelo Des. Sebastião Ribeiro Martins, tendo como membros efetivos os desembargadores Joaquim Dias de Santana Filho e Erivan José da Silva Lopes, condenou os prefeitos Ronaldo Campelo dos Santos, da Prefeitura Municipal de Curralinhos, e a ex-prefeita de Joca Marques e, atualmente Prefeita de Luzilândia, Janaína Pinto Marques de Meneses, por crimes de responsabilidade previstos no Decreto-Lei nº 201/67. O Procurador de Justiça Antônio Ivan e Silva atuou na acusação junto à 2ª Câmara Criminal, requerendo, ao final, a condenação dos gestores municipais, cujas ações penais tramitavam há alguns anos no Tribunal de Justiça do Estado do Piauí. Ronaldo Campelo dos Santos, foi condenado a 06 (seis anos) e 02 (dois) meses de reclusão, bem como à perda do cargo de Prefeito Municipal de Curralinhos,, bem como à inabilitação, pelo prazo de 05 (cinco) anos, para o exercício de cargo ou função pública, e, ainda, suspensão de direitos políticos e inelegibilidade.

A ex-Prefeita de Joca Marques, Janaína Pinto Marques de Meneses, foi condenada a 05 (cinco) anos de reclusão, e também à perda do cargo de Prefeita Municipal, bem como à inabilitação, pelo prazo de 05 (cinco) anos, para o exercício de cargo ou "função pública, e, ainda, suspensão de direitos políticos e inelegibilidade, nos termos do Decreto-Lei nº 201/67, sem prejuízo da reparação civil do dano causado ao patrimônio público. O MPF/SP move ações de improbidade e de crime de responsabilidade contra três prefeitos: O Ministério Público Federal em Jales (SP) ajuizou três ações civis públicas por improbidade administrativa e ofereceu três denúncias por crime de responsabilidade contra ex-prefeitos dos municípios de Auriflama, Ouroeste e Estrela D'Oeste, Pedro Matarézio, Edvaldo Fraga da Silva e Pedro Itiro Koyanagi, respectivamente. Também foram demandados pelo MPF na ação de Estrela D'Oeste o tesoureiro municipal José Jorge dos Santos e o assessor de planejamento José Afonso Costa. Prefeito de Auriflama no período de 2001 a 2004, Pedro Matarézio é suspeito de deixar de prestar contas de recursos federais no valor de R$ 30.733,00 destinados à execução de serviços assistenciais do Programa de Apoio à Criança Carente em Creche (PAC) e do Apoio à Pessoa Portadora de Deficiências (PPD). O ex-prefeito de Ouroeste, Edvaldo Fraga da Silva, que esteve no cargo no período de 2001 a 2004, também é acusado de não prestar contar dos R$ 50 mil, originários do Fundo de Assistência Social (FNAS), da União, para a execução do Programa Agente Jovem. Em Estrela D'Oeste, o ex-prefeito Pedro Itiro Koyanagi, o tesoureiro José Jorge dos Santos e o assessor José Afonso Costa, de acordo com relatório de fiscalização da Secretaria Federal de Controle Interno, órgão pertencente à Controladoria Geral da União (CGU), teriam adquirido produtos de empresas que não venceram a licitação no programa Brasil Escolarizado, de apoio à alimentação escolar na educação básica. Os três também estariam envolvidos na má utilização de um repasse feito em 2004 pelo governo federal, no valor de R$12.945,31, para o Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar (PNATE), destinado à aplicação exclusiva no transporte escolar de alunos da zona rural. Segundo o relatório da Secretaria Federal de Controle Interno, a verba foi utilizada em transportes diversos e não apenas no transporte escolar dos alunos, conforme convênio firmado. Em outra acusação que envolve o ex-prefeito de Estrela D'Oeste Pedro Itiro Koyanagi, o tesoureiro José Jorge dos Santos, a contadora Vera Lúcia Ximenes Colete e a engenheira civil Rita de Cássia Miotto Parminondi, foi constatado um pagamento superior à executora da obra de pavimentação asfáltica, que pertence à ação de "Implantação, Ampliação ou Melhoria de Obras de Infra-estrutura Urbana", do governo federal, e está sob responsabilidade do Ministério das Cidades. Nas medições apresentadas pela prefeitura, haveria uma área de 1.987,18 m² a mais de pavimentação asfáltica, o que não corresponde com o local das obras.

Por fim, como acima foram citadas algumas jurisprudências, estas são apenas duas de inúmeras decisões existentes no Brasil.

9.0 – CONCLUSÕES FINAIS Tendo em vista a manifestação da população, e por especialistas da área jurídica quanto a tipificação do Peculato de Uso, foi pacífico o entendimento de todos que a situação exige uma resolução para não haja impunidade para os agentes que praticarem o Peculato de Uso. Infere-se que o ente estatal precisa ter o controle dos seus administrados, punindoos de acordo com a lei, visando no final o bem estar social, pois, além da lei ter que dispuser sobre os delitos, a administração pública tem que se preocupar em tutelar os seus bens para que a população não sucumba que a ausência dos serviços do estado com o seu patrimônio. Portanto, a administração pública deve assegurar a todos o cumprimento da lei, e na ausência da mesma, precisa criá-la ou modificá-la em virtude do bem da coletividade, desta forma se garante a harmonia entre a sociedade e governo, pois, a população quando procura ou espera pelos serviços obrigacionais do estado, ela almeja que as obrigações estatais de fato venham a ocorrer.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS GRECO, Rogério. Curso de Direito Penal: Parte Geral, Rio de Janeiro: Impetus, 2006. PRADO, Luís Régis. Curso de Direito Penal: Parte Geral, 3. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2002, v. 1. NUCCI, Guilherme de Souza, Código Penal Comentado, 9. ed. revista atualizada e ampliada São Paulo: Revista dos Tribunais, 2009. DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 18. ed. São Paulo:Atlas, 2005. BRASIL. Projeto de Lei nº. 4435/2008, altera dispositivos do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal, do Decreto-Lei nº 201, de 27 de fevereiro de 1967, e do Decreto-Lei nº 1.001, de 21 de outubro de 1969 - Código Penal Militar, para prever nova cominação penal aos crimes que especifica e define o tipo de peculato-uso. BRASIL. Decreto Lei 201/67, de 27 de fevereiro de 1967, Dispõe sobre a responsabilidade dos Prefeitos e Vereadores, e dá outras providências. Diário Oficial da União; Poder Executivo, de 14 de março de 1967. GONÇALVES, Victor Eduardo Rios. Coleção Sinopses Jurídicas - Direito Penal - Parte Geral. 12° Edição, vol. 7, Editora Saraiva, 2006. ARAÚJO, prefeitos Dinavan por Fernandes, crimes 2ª de Câmera Criminal do TJ/PI condena Disponível dois em

responsabilidade.

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