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14 • CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, terça-feira, 5 de novembro de 2013

Maduro em apuros
Em meio à grave situação econômica e ao desabastecimento, presidente apela cada vez mais para a figura de Hugo Chávez e toma medidas polêmicas, como a criação do Vice-Ministério da Felicidade Social e a antecipação do Natal. Para analistas, governo perde credibilidade
Leo Ramirez/AFP - 7/10/13

» RODRIGO CRAVEIRO ocê tem um capitão que diz não existir nenhum iceberg no radar. Então, o oficial avisa sobre o bloco de gelo e afirma: ‘Nós vamos afundar’. O capitão sustenta que não, e o barco naufraga.” Heinz Dieterich Steffan, um dos ideólogos do chamado socialismo do século 21, usou essa metáfora para alertar sobre a política suicida do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em entrevista ao jornalista Román Lozinski. A nove dias de completar sete meses no poder, o líder da revolução bolivariana cada vez mais evoca a figura do falecido antecessor Hugo Chávez para legitimar-se no poder, em meio a uma grave crise econômica que agudizou o mal-estar social. Nos últimos dias, Maduro divulgou uma fotografia de uma “aparição” de Chávez nas obras do metrô de Caracas, determinou a criação do Vice-Ministério da Suprema Felicidade Social e antecipou o Natal. Milhares de opositores devem tomar as ruas da capital, no sábado, para a Marcha dos Autoconvocados, movimento de contestação social. O economista Diego Enrique Arria Salicetti, ex-governador de Caracas e ex-presidente do Conselho de Segurança na ONU, não poupa críticas às últimas medidas de Maduro. “Elas são uma terrível ironia, de dimensões tragicômicas, à custa de um povo que sofre o maior aumento de mortes violentas na região e um desabastecimento de produtos básicos — como azeite, papel higiênico e leite em pó — comparável a Damasco”, afirmou. No fim de semana, 44 assassinatos foram registrados em Caracas. Segundo Arria, o ex-caminhoneiro vai se manter no poder enquanto as Forças Armadas desejarem. “Os chavistas sabem que estão obrigados a não se dividir. Mas não há nada mais certo do que a precariedade do regime de Maduro”, sustenta. Uma ruptura no Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) colocaria em xeque a plataforma chavista. “Não podemos esquecer que, em todos os desenlaces cívicos para nos desamarrar de ditaduras e resgatar a institucionalidade, as Forças Armadas desempenharam papel determinante. A ditadura cubanizada de Maduro não será exceção”, diz Arria. O diplomata duvida de uma saída democrática que não implique a ação dos militares. “Imagine um país com 60 mil cubanos, cartéis de drogas, mais de 200 mil milicianos afiliados ao PSUV e paramilitares.”

Povo fala
Fotos: Arquivo pessoal

“V

JauRamírez,
24 anos, publicitário, morador de Caracas
“Nicolás Maduro é fraco em todos os setores. Um político discutível para as Forças Armadas. Nas cúpulas do Partido Socialista Unido de Venezuela, provavelmente ele tenha respaldo, mas segue como ‘líder de papel’. São conhecidas suas rivalidades com Diosdado Cabello, presidente do Congresso.”

IvanDanielSandoval,
22 anos, analista de seguros, morador de Barquisimeto, no estado de Lara
“O PSUV ou o chavismo já não é o que era. Esses partidos são un ninho de serpentes. Cada um de seus integrantes espera o momento para dar a estocada. Todos querem o poder e não veem a Maduro como uma figura de mando, mas como um títere.”

DiegoMujica,
22 anos, desenhista gráfico, morador de Valência, no estado de Carabobo
“Maduro não é Chávez, mas o chavismo o apoia, porque não deseja voltar ao passado, quando somente o milionário opinava e tinha direitos. Sempre que seguir com o legado deixado por Chávez, Maduro terá grande parte do povo venezuelano ao seu lado.”

Clarín exibe proposta
O Grupo Clarín, maior conglomerado de meios de comunicação da Argentina, anunciou ontem que apresentou uma proposta para cumprir a polêmica lei antimonopólio, numa tentativa de ganhar tempo e impedir que a agência reguladora determine, por conta própria, quais ativos devem ser vendidos. A Autoridade Federal dos Serviços de Comunicação Audiovisual (Afsca) iniciou, na quinta-feira, o processo de redução do grupo, depois que a Corte Suprema de Justiça considerou constitucionais artigos cruciais da Lei de Meios, contestados durante anos pelo Clarín. O gerente de Comunicações Externas do grupo, Martín Etchevers, disse que a proposta divide o grupo em seis diferentes unidades de negócio. Posteriormente, será entregue um plano de adequação à lei relativo a cada unidade, determinando quais serão as concessões e meios de comunicação a serem repassados. “A transferência da titularidade é uma questão que não está definida neste momento, porque não cabe que se defina neste momento, e sim mais à frente, quando este plano avançar na sua execução”, disse o porta-voz ao canal a cabo Todo Noticias, propriedade do Clarín. “Decidimos nos antecipar e nos apresentar hoje (ontem) na Afsca e na Justiça com um plano de adequação voluntária, a fim de proteger, de maneira urgente e imediata, nossos direitos frente ao atropelo fiscal”, afirmou. Martín Sabbatella, presidente da Afsca, explicou que a agência terá até 120 dias para analisar o plano, e que, depois de sua aprovação, haverá um prazo de 180 dias adicionais para a execução das transferências. A autoridade reguladora pode rejeitar a proposta do Clarín, já que o prazo legal para a apresentação da proposta vencia no final de 2012. O Clarín, que faz forte oposição à presidente Cristina Kirchner, controla a principal operadora de TV a cabo do país, o jornal de maior circulação, as rádios mais ouvidas e dois dos canais de TV aberta com maior audiência, entre outros ativos. O grupo se diz vítima de uma perseguição política, mas o governo atesta que o objetivo da Lei de Meios é democratizar as comunicações e combater monopólios.

Populismo
Por meio de seu perfil no microblogTwitter, Maduro anunciou a retomada de várias missões bolivarianas, como são conhecidos os programas sociais implementados por Chávez. Populismo em meio a uma crise econômica de proporções históricas. “A inflação disparou a níveis jamais vistos durante os 14 anos do governo Chávez. O controle do câmbio fomentou o mercado paralelo, no qual o dólar paralelo custa 14,58 bolívares, enquanto a taxa oficial é de 6,30 bolívares”, alertou Tony De Viveiros, cientista político da Universidad Simón Bolívar, em Caracas. De acordo com ele, a situação pressiona o regime, à medida que os produtos encarecem e escasseiam. “Do ponto de vista político, muito se especula sobre as rivalidades de facções dentro do PSUV. Parece que vivemos em um duunvirato, no qual Maduro e Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional, repartem o poder.” Ao assumir o Palácio de Miraflores, em 19 de abril de 2013, Maduro contava com a aprovação de 50% da população. De Viveiros explica que a impopularidade subiu para 70%, um reflexo da falta de carisma. “O PSUV segue como o partido mais forte e importante do país, por ser uma coalizão completa de facções. Precisa manter-se unido para não perder o poder”, observa o especialista. O desenhista gráfico Diego Mujica, 22 anos, morador de Valência, afirma saber do que os venezuelanos precisam para serem felizes. “Devemos nos sentir seguros, ter um país sem tanta delinquência, com mais trabalho e menos inflação, e seguir o legado deixado por Chávez”, comentou pela internet. O publicitário Jau Ramírez, 24 anos, de Caracas, acusa o governo Maduro de apelar ao psicossocial. “Aqui, eles chamam de ‘cortina de fumaça’ a distração dos cidadãos com coisas ridículas”, admite. “As irresponsáveis medidas econômicas, a fraca liderança de Maduro e a repressão são combustíveis da saturação dos cidadãos. O governo sabe disso e tem apelado a bobagens, como a felicidade, o Natal e a idolatria a Chávez, convertido em santo”, criticou Jau.

Nicolás Maduro durante comemoração da reeleição de Chávez, no início de outubro: sem o carisma do antecessor

Aparições e crise
Presidencia/AFP

O presidente Nicolás Maduro garante ter visto Chávez várias vezes, enquanto o país enfrenta grave situação econômica » O passarinho Em 2 de abril, Nicolás Maduro anunciou, durante um evento em Sabaneta — cidade natal de Hugo Chávez —, que o falecido presidente apareceu para ele na forma de um “passarinho pequenino”. “Ele começou a cantar, um assobio lindo”, disse, imitando a ave. “Fiquei vendo-o e também cantei para ele. ‘Se você canta eu canto’, e cantei. O passarinho me estranhou? Não. Cantou um pouquinho, deu uma volta e foi embora e eu senti o espírito dele (de Chávez)”, ressaltou Maduro. » As montanhas Em 7 de junho, durante comício em um estádio de beisebol, em Caracas, Maduro assegurou que Chávez costuma aparecer nas montanhas que cercam a capital. “Observem que bonito de se ver… Chávez e a montanha querem dizer o mesmo. Chávez se fez montanha, Chávez se fez canção”, declarou. » Vice-Ministério da Suprema Felicidade Social O governo de Maduro criou, em 24 de

pátria que está em todos os lados (…) Chávez está em toda a parte” , afirmou. » Natal antecipado Em 1º de novembro, Nicolás Maduro assinou um decreto, por meio do qual antecipou o Natal em quase dois meses. “Hoje, sexta-feira, 1º de novembro, quisemos decretar a chegada do Natal porque desejamos a felicidade para todo o povo, a paz”, declarou o mandatário, durante visita à Feira Natalina Socialista, no centro de Caracas. » “Ataque do Twitter” Também na última sexta-feira, Maduro denunciou que a empresa Twitter atacou seu perfil no microblog, levando-o a perder 6,6 mil seguidores. Ele pediu aos simpatizantes que aumentem os esforços nas redes sociais e ordenou que, caso o Twitter lhe tire 10 mil seguidores, devem conseguir mais 20 mil.

outubro, o Vice-Ministério da Suprema Felicidade Social. O órgão ficará responsável por cuidar dos sem-teto, dos portadores de necessidades especiais, dos idosos e das crianças. A pasta será liderada pelo ex-deputado e médico Rafael Ríos. » A parede do túnel do metrô Em 30 de outubro, Maduro divulgou uma fotografia feita na parede do túnel em obras do metrô de Caracas e garantiu tratar-se da imagem de Chávez. “Olhem a figura, um rosto. Esta foto foi feita pelos trabalhadores, os operários. Quem está neste rosto? Um olhar (…) É o olhar da

» Desabastecimento A inflação acumulada de mais de 40% levou a uma crise de desabastecimento de produtos da cesta básica. Em muitos supermercados da Venezuela, é difícil encontrar açúcar, óleo de soja, arroz, papel higiênico e margarina.

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