TÉCNICA

Conheça a mágica dos caracterizadores de personagens
Uma publicação da Aver Editora - 16 a 31 de Julho de 2009 - Ano I Nº 7 R$ 5,00 O visual do elenco de “Hairspray”

A loucura em cena
Adalberto Lima / Divulgação

Pág. 15

Dizem que de loucos, todos temos um pouco. Com a classe artística não é diferente. Afinal, as artes, muitas vezes, se manifestam como o limiar entre loucura e razão. É o que acontece, por exemplo, no Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, onde, atrás da ocupação de espaços ociosos, artistas encenam montagens e promovem ensaios e oficinas. É através de peças teatrais que a esquizofrenia, a bipolaridade, a psicose e outras formas de insanidade mental são retratas, dando vida à personagens atormentadas, que gritam, choram e, por que não, emocionam. É no teatro que os dramas provocados pela loucura são mostrados, debatidos, encenados e... curados.
Págs. 12, 13 e 14

Atrizes do grupo XIX de Teatro, durante a peça “Hysteria”, interpretam as vidas de mulheres internadas em asilos psiquiátricos

FORMAÇÃO

Escola de Teatro da UFBA: um templo da história da arte baiana
Pág. 19

ENTREVISTA

PRÊMIOS
Divulgação APTR

Fábio Toledo

RIO DE JANEIRO

As muitas histórias de Betti
Aos 56 anos, o ator Paulo Betti fala, em entrevista exclusiva ao Jornal do Teatro, sobre sua vida, sobre sua carreira e sobre a coragem de sempre dar a cara a tapa, seja nos palcos, nas telas ou, até mesmo, na política. Eclético, garante não ter medo de nada. Nem de se reinventar e voltar às origens, como fez durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), quando andou pelas ruas da cidade vestido de árvore, em encenação para a peça “Sonho de uma Noite de São João”, para alegria de seu filho, João Betti.

Parabéns com muita música e dança para o Theatro Municipal
Pág. 16

Sérgio Brito (de óculos): o melhor ator

VIDA E OBRA

A arte na visão do ‘pernambucano’ Ariano Suassuna
Nascido na Cidade da Parahyba - hoje João Pessoa (PB) - Ariano Suassuna é considerado o paraibano mais pernambucano que se conhece e um decifrador de brasilidades, que faz da arte nordestina um ideal.
Pág. 21

APTR premia em 12 categorias
Os melhores do teatro, em 2008, foram premiados pela APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro), dia 6 de julho. Destaque para “Inveja dos Anjos” (espetáculo e iluminador) e Sérgio Brito (melhor ator).
Págs. 6 e 7

Política também faz a cabeça de Be i

Págs. 10 e 11

2

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

Arquivo

Editorial

3

Briga de Meninas
Inaugurado no di Inaugurado no dia 14 de julho de 1909, naugurado gur do d dia de julho de julh julho h o Theatro Municipal comemorou seus 100 anos com pompa e circunstância Pág.: 16

Rio de Janeiro

Índice
PRÊMIOS...........................................................6 e 7
APTR
Associação do Rio de Janeiro celebrou, em 12 categorias, os melhores do teatro em 2008 e homenageou Tônia Carrero pelos 60 anos de carreira

1 ENTREVISTA............................................................. 0
Paulo Betti
O ator, símbolo de versatilidade nas artes cênicas, fala sobre política, engajamento, ideologias e convicções no meio artístico

REPORTAGEM............................................. 12 a 14
A loucura em forma de arte
Montagens abordam a insanidade em suas mais distintas formas e questionam o conceito de loucura nos dias de hoje

FESTIVAIS...................................................17 e 18
Festlip, FIL e Porto Alegre em Cena
Programação dos eventos promove o intercâmbio cultural e de linguagens através das artes cênicas

No início de julho, uma polêmica envolvendo “Essas Meninas” e seus direitos autorais invadiu as páginas dos cadernos de cultura dos principais jornais do País. Ao estrear o espetáculo “Essas Meninas”, no Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, a autora da peça, Maitê Proença atiçou a fúria, ou melhor, a insatisfação da autora original do texto, a escritora Lygia Fagundes Telles, membro da Academia Brasileira de Letras. O título das obras é idêntico, mas o texto em si e o processo que os levou ao público é bastante distinto. A escritora confessou que pensou em levar a decisão para os tribunais quando soube da notícia – até por já estar em produção a representação do seu já reconhecido texto para o teatro, com adaptação de Maria Adelaide Amaral. Aliás, já havia até uma data para a estreia, outubro – como foi divulgado durante a leitura do texto por Barbara Paz em São Paulo. Do outro lado da polêmica, há um espetáculo em cartaz com histórias confessionais escritas pela atriz, que se comprometeu a mudar o nome. Segundo revelou para jornalistas, Maitê trocou emails com Lygia provando que não conseguiu trocar o nome a tempo, por questões que envolviam patrocínio. Ou seja, a cortesia encerra quando Maitê diz que não perderia o patrocínio, pois “Essas Meninas” trata-se de um nome muito genérico. Se assim fosse em todas as artes, o número de distorções em relação à “nomes simples” seria absurdo. Na hora de nomear uma obra, os autores seriam prevenidos: “Evitem as formas simples, diretas, objetivas e que se façam entender”. Surgiriam “O Grito” em pop-art mostrando um Carnaval, ou “Chega de Saudade” contando a história da Jamaica em um belo tango. Lygia abriu mão do processo, mas confessou que teve vontade de ir à estreia, subir no palco e chamar a atriz de ladra. Sem a ação judicial, nada vai acontecer em favor dos direitos do verdadeiro autor. Prova da necessidade de reorganização em um tempo no qual a ética e a propriedade na arte perdem espaço para as relações de mídia e patrocínio.

VIDA & OBRA..........................................................21
Ariano Suassuna
Saiba o que pensa e o que diz o homem que é considerado um decifrador de brasilidades e apaixonado pelas artes nordestinas
Email Redação: redacao@jornaldeteatro.com.br Presidente: Cláudio Magnavita Diretores: Jarbas Homem de Mello, Anderson Espinosa e Fernando Nogueira Redação: Rodrigo Figueiredo (editor-chefe), Rodrigoh Bueno (editor) e Fernando Pratti (chefe de reportagem) Rio de Janeiro - Alysson Cardinali Neto, Daniel Pinton, Douglas de Barros e Felipe Sil São Paulo - Danilo Braga, Ive Andrade e Pablo Ribera Barbery Brasília - Dominique Belbenoit e Sérgio Nery Porto Alegre - Adriana Machado Florianópolis - Adoniran Peres Salvador - Paloma Jacobina Arte: Ana Canto, Bruno Pacheco, Gabriela de Freitas e Valeska Gomes Marketing: Bruno Rangel (brunorangel@avereditora.com.br) Comercial: Washington Ramalho (ramalho@avereditora.com.br) Administração: Elisângela Delabilia (elis@avereditora.com.br) Colaboradores: Adriano Fanti e Luciana Chama Correspondência e Assinaturas: Redação São Paulo: Rua da Consolação, 1992 - 10º andar - CEP: 01302-000 - São Paulo (SP) Fone/FAX: (11) 3257.0577
Impressão: F. Câmara Gráfica e Editora

Rodrigoh Bueno Editor do Jornal de Teatro

Redação Rio de Janeiro: Rua General Padilha, 134 - São Cristóvão - Rio de Janeiro (RJ). CEP: 20920-390 - Fone/Fax: (21) 2509-1675 Redação Brasília: SCN QD 01 BL F America Office Tower - Sala: 1209 - Asa Norte Brasília (DF) - CEP: 70711-905. Tel.: (61) 3327-1449 Redação Porto Alegre: Rua José de Alencar, 386 - sala 802/803 - Menino Deus - Porto Alegre (RS). CEP: 90880-480. Tel.: (51) 3231-3745 / 3231-3734 Redação Florianópolis: Av. Osmar Cunha, 251 - sala 503, Ed. Pérola Negra, Centro Florianópolis (SC). CEP: 88015-200. Tel.: (48) 3224-2388 Redação Salvador: Rua José Peroba, 275, sala 401 - Ed. Metrópolis, Costa Azul, Salvador / BA. CEP: 41770-235 Tel.: (71) 3017-1938

Presidente: Cláudio Magnavita Castro magnavita@avereditora.com.br Vice-presidentes: Helcio Estrella helcio@avereditora.com.br Anderson Espinosa a.espinosa@avereditora.com.br

www.avereditora.com.br
Publicações da Aver Editora: Jornal de Turismo - Aviação em Revista - JT Magazine - Jornal Informe do Empresário

w w w. j o r n a l d e t e a t r o . c o m . b r

4
Bastidores
O XXVIII Encontro Nacional de Dança (Enda 2009) acontece nos dias 31 de julho, 1º e 2 de agosto, sexta (às 20 horas), sábado e domingo (às 16 horas e 20h30), no Auditório Simon Bolívar do Memorial da América Latina, em São Paulo. O tradicional evento, realizado pelo Sindicato dos Prossionais de Dança do Estado de São Paulo (SindDança), apresenta um atual panorama da dança para o público paulistano. Esta edição do Encontro vai reunir 110 apresentações, distribuídas em cinco espetáculos. Os grupos - oriundos de diversas cidades paulistas - mostram coreograas de até 6 minutos de duração (cerca de 20 por sessão, com as mais variadas formações). A mostra se caracteriza pelo dinamismo nas apresentações e pela variedade nos estilos de dança, que promete agradar a todos os gostos. O público vai apreciar espetáculos de balé clássico, moderno e contem-

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

Renato Hatsushi

MEMORIAL DA AMÉRICA LATINA RECEBE ENCONTRO NACIONAL DE DANÇA
também no Memorial), quando será entregue os prêmios em dinheiro, e bolsa de estudos no Brasil e Exterior para aqueles que obtiverem as maiores notas do júri. Pode ainda haver o Prêmio Revelação, mas este dependerá de excepcional qualidade técnica e artística dos concorrentes. Neste ano, as personalidades do mundo da dança que compõem a banca julgadora são: a coreógrafa Sara Debenedetti (Milão, Itália), Silvio Lemgruber (coreógrafo da Rede Globo), Fernando Calvozo (Diretor de Atividades Culturais do Memorial da América Latina) e Norma Masella (ex-primeira bailarina e ex-diretora do Theatro Municipal de São Paulo). O Encontro funciona como uma eliminatória para o Grande Gala Enda, a festa de apoteose, que acontece no mesmo ano, quando os vencedores são homenageados e apresentam as coreograas campeãs em um grande espetáculo. Mais informações em www.memorial.sp.gov.br.

CENTRO TÉCNICO DO TCA REALIZA CURSOS DE CENOTÉCNICA E COSTURA CÊNICA EM SALVADOR O Centro Técnico do Teatro Castro Alves (TCA), em Salvador (BA), referência em engenharia de espetáculo teatral, promove curso técnico de Cenotecnia, ministrado por Adriano Passos e Israel “Gão” Luz, e de Modelagem para Costura Cênica, ministrado por Lina Lemos. Os interessados podem realizar suas inscrições durante os dias 13 e 24 de julho, das 14 às 18h, no Núcleo de Produção do TCA, mediante apresentação do currículo e fotocópias da carteira de identidade e CPF, e pagamento da taxa de inscrição no valor de R$ 10. O número de vagas é de apenas 15 por ocina. O curso de Cenotecnia é voltado para iniciantes em tecnologia da arte cêDivulgação

Inscrições de 13 a 24 de julho

porâneo, dança folclórica e de salão, sapateado, jazz e hip hop. O Enda conta com um corpo de jurados que avalia o desempenho dos grupos e escolhe aqueles que mais se destacam. No encerramento do evento serão conhecidos Os Melhores dos Melhores de 2009: premiação que inclui participação garantida no Grande Gala Enda 2009 (dias 3 e 4 de outubro,

nica, enquanto o curso de Modelagem para Costura Cênica tem como público alvo gurinistas e costureiras, com o objetivo de aperfeiçoar a modelagem e o corte, visando o conforto e a segurança para os intérpretes. As aulas acontecem entre os dias 27 de julho e 21 de agosto, sempre às segundas, quartas e sextas, das 9h às 13h nas instalações do próprio Centro Técnico.

O Centro Cultural São Paulo será a casa dos bonecos entre os dias 8 e 30 de agosto

Fabian Vitor Damiani

BONECOS DO SERES DE LUZ SE APRESENTA NO CCSP GRATUITAMENTE Em comemoração aos quinA companhia já se apresentou na Inerte (ocina de técnicas de ze anos de existência do Teatro Noruega, na Suíça, na República manipulação nos dias 11 e 12 de Bonecos Seres de Luz, o gruTcheca, na Espanha, na Itália, na de agosto) e Várias couraças e po apresentará o seu repertório Bolívia no México, na Colômbia, um nariz (ocina de clown nos entre os dias 8 e 30 de agosto na Argentina, no Equador, no dias 13 e 14 de agosto). Ainda, no Centro Cultural São Paulo, Peru, e foi o único representanuma mostra fotográca reunipróximo à estação Vergueiro do te da América Latina em Taiwan rá várias fotos da trajetória do metrô. Entre os espetáculos adulno Festival International de Kagrupo, como espetáculos, viatos e infantis, estão “Espalhando osiung. Selecionado entre mais gens, e imagens de seus princiSonhos”, “Pipistrello”, “O Acrode 370 grupos para representar o pais mestres. bata”, “Cuando Tu No Estás”, País, “Cuando Tu No Estás” foi O grupo, contemplado “A-la-pi-pe-tuá” e o recente o premiado do 13º World Festipelo Prêmio Funarte de Teatro “Convocadores de Estrelas”. val of Puppet Art Praga 2009 na Myriam Muniz 2008 foi fundado No evento, serão ministracategoria melhor criação artístiem 1994 por Lily Curcio e Abel das duas ocinas gratuitamenca, em maio de 2009 na RepúbliSaavedra. Representou o País em te ao público. A presença do ca Tcheca. diversos festivais internacionais.

Beth Goulart faz palestra no CCBB em Brasília, com entrada franca

CONFIRMADO: “SIMPLESMENTE EU. CLARICE LISPECTOR” EM BRASÍLIA A edição brasiliense do Palco Aberto terá a apresentação do espetáculo “Simplesmente Eu. Clarice Lispector” e uma palestra da atriz Beth Goulart no dia 31 de julho, às 14h, no teatro do CCBB, com entrada franca. A peça foi extraída de depoimentos, entrevistas, correspondências de Clarice Lispector e trechos dos livros “Perto do Coração Selvagem” e “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, além dos contos “Amor” e “Perdoando Deus”. O monólogo conta a trajetória da escritora em busca do entendimento do amor, de seu universo, suas dúvidas e contradições. A direção, adaptação e interpretação é de Beth Goulart, sob a supervisão de Amir Haddad, iluminação de Maneco Quinderé, cenário de Ronald Teixeira e gurino de Beth Filipecki. O espetáculo permanece no espaço até o dia 2 de agosto. As inscrições para o workshop devem ser efetuadas pelo telefone (61) 3310-7420.

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

5
530 VAGAS PARA OFICINAS GRATUITAS EM VITÓRIA De 21 a 25 de julho, a Escola de Teatro e Dança Fa, em Vitória (ES), está com inscrições abertas para ocinas nas áreas de teatro, dança e circo. Serão oferecidas 530 vagas e o início das aulas será em agosto. A coordenação das ocinas é de Lilian Menenguci. Os interessados podem se inscrever nas ocinas de consciência ao movimento para a terceira idade; dança contemporânea; balé; dança de salão; jogos dramáticos; iniciação teatral; preparatório para qualicação teatral; técnica circense; teatro para terceira idade; teatro brasileiro; construção de personagens (ator e formas animadas); e oralidade e educação vocal para professores. As ocinas são gratuitas, incluindo a inscrição para os cursos.
Inscrições: de 21 a 25 de Julho Informações: (27) 3381-6922 / 3381-6924

Bastidores
Arnaldo Torres / Divulgação

A NOITE DO BARQUEIRO O espetáculo “A Noite do Barquei- deserta, à espera do dia amanhecer para ro” faz única apresentação no dia 19 seguir viagem. Enquanto o tempo pasde julho, domingo, no Teatro Cacilda sa, ele reete sobre a vida e questiona o Becker, de São Bernardo do Campo sentido de sua existência. (SP). A montagem é um solo com o No mesmo dia, o autor e diretor Saator Hélio Cícero, vencedor de prê- mir Yazbek ministra o Workshop de Dramios teatrais como Mambembe, Ape- maturgia, abordando o processo de criatesp e Inacen, que comemora 30 anos ção de “A Noite do Barqueiro”, das 13 às de carreira com esse texto de Samir 15 horas. O encontro será na Biblioteca Yazbek, que também assina a direção. Guimarães Rosa (Av. João Firmino, 900, O enredo da peça é um recorte Assunção/SBC). Mais informações no na vida de um homem que, após uma Teatro Cacilda Becker – São Bernardo do tempestade, encontra-se em uma ilha Campo (SP). Fone: (11) 4348-1081.
Gil Grossi / Divulgação

BEM CASADO Entre os dias 17 e 19 de julho, a paulistana Juliana Moraes e a carioca Márcia Milhazes dividem o palco do Teatro de Dança, em São Paulo, para apresentar suas coreograas no programa “Bem Casado”, uma série de apresentações de dois espetáculos na mesma noite, sendo sempre artistas-criadores de cidades diferentes. Para iniciar as apresentações, Juliana Moraes estará no palco com “3 Tempos Num Quarto Sem Lembranças”. Em seguida, Milhazes mostra a coreograa “A Moça”, inédita em São Paulo. Mais informações: www.teatrodedanca.org.br “Teatro se não ca bom é muito constrangedor (...) quando é chato, é muito chato”, disse o cineasta Fernando Meirelles, diretor da série “Som e Fúria”, da Rede Globo, ao portal G1.
Divulgação

FESTIVAL DE CENAS CURTAS A Cia. de Teatro Contemporâneo realiza em julho, no Rio de Janeiro, o II Festival Contemporâneo de Cenas Curtas (em parceria com o Espaço Tápias Escola de Dança). O objetivo é abrir espaço para novas propostas e para novos artistas nas áreas de dança, teatro, poesia e performance. Mais informações em www.ciadeteatrocontemporaneo. com.br ou pelo fone: (21) 2537-5204

O palco do Teatro Easy, em São Paulo, apresenta durante a primeira quinta-feira de todos os meses o “Trixmix- Cabaret Contemporâneo”, uma releitura dos espetáculos do nal do século XIX. Revezam-se no palco artistas de várias vertentes, em apresentações autorais de aproximadamente 10 minutos cada. Na edição de 6 de agosto já estão conrmadas as atrações: William Amaral e Fábio Espósito - atores cômicos; Álvaro- músico e ator do Jogando no Quintal; Mariana Duarte – tecido burlesco; show de Geórgia Branco e a Banda Trixmix; Canal 3- esquetes cômicas; e a participação da drag-queen Stefany di Bourbon. Mais informações: Tel (11) 3611-3121 FIQUE ATENTO! O premiado espetáculo “Inveja dos Anjos” terá temporada em São Paulo no início de agosto. O local ainda não foi conrmado, mas tudo indica que o palco será o do Sesc Consolação, na região central da cidade. “Inveja dos Anjos” venceu a edição carioca do Prêmio Shell de Teatro 2008, nas categorias de Melhor Atriz (Patrícia Selonk) e Melhor Autor (Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes); e o Prêmio APTR 2008, nas categorias de Melhor Espetáculo e Melhor Iluminação (Maneco Quinderé). “TEMPORADA SESC DE TEATRO” LEVA GRUPOS INTERNACIONAIS PARA CAMPINAS O evento começa no dia 15 de julho, em Campinas, e segue em diversas unidades do Sesc do interior do estado, em parceria com o Festival Internacional de Teatro de Rio Preto (FIT). A programação vai até o 21 de julho e conta com apresentações de grupos nacionais e internacionais. No Sesc Campinas, a temporada será aberta com uma estreia local, a peça “Brasil Menino” da Cia. Berro D’Água. As apresentações seguintes são de grupos teatrais vindos de Salvador, Rio de Janeiro, Londrina e Argentina. O encerramento ca por conta da companhia espanhola Los Corderos S.C., com o espetáculo “Crónica de Josó Agarrotado”. Mais informações em www.sescsp.org.br.

Abrem-se as cortinas de um cabaré contemporâneo

TRIXMIX

www.jornaldeteatro.com.br

Todo o universo do teatro em um só jornal

6
Prêmios

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

E o prêmio vai para...
Em noite de celebração da APTR, novos artistas e atores consagrados comemoram a festa do teatro carioca, que contou com homenagem a Tônia Carrero
Divulgação APTR

Por Douglas de Barros Imprensa na porta, tapete vermelho e até “torcida organizada”. Esses são alguns dos indicadores do sucesso de um dos prêmios mais esperados pela classe artística no Rio de Janeiro, o APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro), cuja terceira edição premiou, na noite de 6 de julho, os melhores de 2008, em 12 categorias. A cerimônia, aberta pela atriz Nicete Bruno e comandada, com elegância e estilo, pela dupla Thiago Lacerda e Zezé Polessa, aconteceu no teatro do Shopping Fashion Mall, em São Conrado, que cou lotado, mas sem a presença mais marcante: Tônia Carrero. Homenageada da noite – pelos 60 anos de carreira –, a atriz não compareceu à premiação (devido a uma indisposição) e foi representada pelos netos Miguel e Luisa Thiré, lhos do ator Cecil Thiré. Mesmo sem a luz de Tônia, o público se emocionou com o vídeo apresentado e as estórias dos anos dourados do teatro nacional. “Dizem que beleza não põe mesa, mas no caso dessa grande atriz, beleza não só pôs a mesa, como marcou o destino de uma das melhores atrizes que o nosso País conheceu”, disse Thiago Lacerda, ao apresentar o ponto alto da noite. Pouco antes, na abertura da cerimônia, o ator e comediante Lúcio Mauro foi chamado para entregar o prêmio Categoria Especial, conquistado pela Cia. Dos Atores. O grupo, formado em 1988 com trabalhos de cunho experimental, tem como objetivo suprir a necessidade de estudar e experimentar novas possibilidades da cena teatral e já realizou trabalhos como “Ensaio. Hamlet” e “Melodrama” entre outras. Ao agradecer, o ator e diretor Enrique Diaz brincou: “somos oito integrantes, o que signicam oito loucuras”, disse, referindo-se aos outros sete “loucos”: os atores César Augusto, Gustavo Gasparani, Marcelo Olinto, Marcelo Valle e as atrizes Bel Garcia, Drica Moraes e Susana Ribeiro. Emocionado, Lúcio Mauro disse que o teatro é feito de muito esforço e incertezas e que o mais importante não

Natália Timberg (a esq.) e Paulo Goulart, cumprimentam a atriz e agora produtora Glória Menezes, vencedora com “Ensina-me a viver”

é ganhar o prêmio, mas saber porque ganhou. “O teatro é tão nobre, que é a única mercadoria que se paga antes de se ver. Poderia dizer que estou tremendo pela minha idade, mas é pela emoção de pisar neste palco. Minha vida começou no teatro, aos 14 anos, e ainda sinto minha voz vibrar como antes’’, revelou o ator, emocionado. Mais uma vez, o experiente Sérgio Britto recebeu o prêmio de melhor ator, entregue pelo também ator Edwin Louise. O ator foi premiado por suas atuações em “Ato sem palavras” e em “A última gravação de Krapp”. Em seu discurso, Britto se disse satisfeito pelos bons resultados em sua carreira. “Nós, atores, passamos muitas vezes

por fases. Fases em que camos meio apagados e fases em que tudo dá certo”, disse o ator. Nathália Timberg apresentou o vencedor de Melhor Atriz. Bibi Ferreira foi eleita por “Às Favas Com Os Escrúpulos”. Bibi, no entanto, foi mais uma a não comparecer ao evento, alegando ser realizado muito tarde e porque iria iniciar, no dia seguinte à premiação, uma temporada de 14 apresentações de seu espetáculo sobre a cantora Edith Piaf. A estátua foi recebida por Nilson Raman. Entre a nova geração, Fernando Eiras (“Noviça Rebelde”) recebeu o prêmio de melhor ator coadjuvante das mãos do ator Lúcio Mauro Filho. Eiras festejou cantando o

amor ao teatro, e, em seguida fez menção aos seus concorrentes de prêmio. “Eu sou Rodolfo Vaz, Marcelo Guerra e Armando Babaioff. Sou a bola da vez, mas como o jogo é toda noite, somos todos vencedores e perdedores”, frisou o jovem ator. Já a atriz Júlia Lemmertz entregou o prêmio de melhor atriz coadjuvante à baiana Ana Paula Bouzas por seu papel em “Dona Flor e Seus dois Maridos”. A jovem atriz agradeceu à bailarina e atriz Marilena Ansaldi. “Uma vez olhei uma pessoa pelo buraco da fechadura quando tinha cerca de oito ou nove anos. Foi então que entendi que a dança poderia ser teatro”, relembrou Ana Paula. Heloísa Perissê foi a esco-

lhida para entregar um dos prêmios mais esperados da noite. a estatueta de Melhor Espetáculo do Ano, que cou com o excelente “Inveja dos Anos”, da Armazém Companhia de Teatro. A peça retrata a vida de personagens sem muitas perspectivas, que moram em uma cidade do interior do Brasil. “Inveja dos Anjos” recebeu, ainda, o prêmio de melhor iluminador para Maneco Quinderé. Outro espetáculo duplamente premiado foi “Traição”, com Ary Koslov, como melhor diretor, e Marcos Flaksman como melhor cenógrafo. Ao receber o prêmio, Koslov agradeceu ao autor Harold Pinter que, segundo Ary, é mestre por sua “habilidade em produzir la-

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

7
Prêmios

cunas a serem preenchidas pelo espectador”. A novidade do ano cou por conta da escolha da melhor produção, única categoria eleita pelos membros da APTR. A Primeira Página Produções Culturais, dos produtores associados Arlindo Lopes, Glória Menezes e Maria Siman, faturou o prêmio por “Ensina-me a viver”. A atriz Glória Menezes, uma das produtoras associadas, foi aplaudida de pé pelos presentes. Emocionada, falou sobre o prêmio e sobre a produção em sociedade no sucesso de “Primeira Página”. “Foi uma soma de acertos. O diretor é um batalhador, um menino que foi sempre atrás do que queria João é excelente diretor e um ser humano maravilhoso” , disse Glória. O prêmio, último a ser anunciado, foi entregue por Eduardo Barata, presidente da APTR e realizador do evento. Barata prometeu mais novidades para 2010. “Ano que vem teremos uma nova categoria, a de apoiador de teatro”, revelou. ‘PRÊMIO DE RESISTÊNCIA’ Mesmo sem a presença de patrocinadores para projetos na área teatral, os membros da APTR (Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro) decidiram pela realização do evento devido à importância da festa para o Rio de Janeiro. Chamado pela entidade como “prêmio de resistência”, trata-se do único no setor teatral concedido pela crítica especializada (a premiação teve sua primeira edição em dezembro de 2006 e a segunda em outubro de 2008). De acordo com o autor Flávio Marinho, responsável pelo roteiro da festa, “o Prêmio APTR surgiu da necessidade de se
Douglas de Barros

preencher um vazio. Criamos o Prêmio APTR de Teatro para celebrar e festejar o nosso meio de vida, dentro das nossas possibilidades”. Este ano, o corpo de jurados foi composto por Barbara Heliodora, Macksen Luiz, Lionel Fischer, Debora Ghivelder, André Gomes, Tânia Brandão e Mauro Ferreira. Já a estatueta entregue aos vencedores foi idealizada pelo produtor Fernando Libonati. SEIS ANOS DE APTR Fundada em julho de 2003, a Associação dos Produtores de Teatro do Rio de Janeiro surgiu a partir da necessidade de produtores teatrais se unirem para promover a união e a harmonia entre os prossionais, além de defender os interesses da classe. A APTR é uma entidade civil, de direito privado, sem ns lucrativos, e que reúne produtores teatrais de relevante atuação da produção carioca e nacional. Dos principais objetivos da APTR destacam-se: a formação, a sensibilização e a ampliação do público teatral; e o zelo pelos interesses coletivos nas políticas públicas, morais, culturais e materiais dos produtores do Estado do Rio de Janeiro e de todo o Brasil. Em seu estatuto, a associação arma que seus membros visam promover a representação dos produtores de espetáculos de artes cênicas perante órgãos públicos e privados, visando garantir, divulgar e incentivar o exercício da produção teatral; bem como desenvolver e incrementar relações com as outras entidades culturais, além de estimular os melhores esforços para promover e dignicar o teatro brasileiro, atuando em todas as áreas na realização de tais objetivos.

Douglas de Barros

Zezé Polessa e Thiago Lacerda foram os mestres de cerimônia na festa no teatro Fashion Mall

PREMIADOS NO 3º PRÊMIO APTR DE TEATRO
AUTOR João Falcão – “Clandestinos” DIRETOR Ary Koslov – “Traição” CENÓGRAFO Marcos Flaksman – “Traição” FIGURINISTA Ney Madeira – “O Santo e a Porca” e “Entropia” ILUMINADOR Maneco Quinderé – “Inveja dos anjos” ATOR PROTAGONISTA Sérgio Britto – “Ato sem palavras” e “A última gravação de Krapp” ATRIZ PROTAGONISTA Bibi Ferreira – “Às favas com os escrúpulos” ATOR COADJUVANTE Fernando Eiras – “A noviça rebelde” ATRIZ COADJUVANTE Ana Paula Bouzas – “Dona Flor e seus dois maridos” CATEGORIA ESPECIAL 20 anos da Cia dos Atores ESPETÁCULO “Inveja dos Anjos” PRODUÇÃO (categoria votada pelos associados da APTR) “Ensina-me a viver” Realização: Primeira Página Produções Culturais Produtores associados: Arlindo Lopes, Glória Menezes e Maria Siman

Lúcio Mauro se emocionou ao entregar o prêmio de Categoria Especial pelos 20 anos de CIA dos atores

8
Por Dominique Belbenoit Criada em 2003, a Cooperativa Brasiliense de Teatro tem, hoje, pouco mais de 100 associados, entre eles, artistas, técnicos de teatro e circo, diretores e vários outros envolvidos nesse segmento. A presidente, Laura Cavalheiro, conta que os objetivos da associação são representar a categoria, gerar emprego e favorecer a democratização do acesso ao teatro. A cooperativa teve um início pré-determinado, conta a presidente, que assumiu o cargo há quatro anos. “Ela foi fundada há seis anos por um grupo de sete companhias de teatro”, revela Laura. Movidos pela paixão às artes cênicas, estas e outras companhias sentiram a necessidade de uma instituição que representasse a categoria e defendesse os interesses comuns. Os sete grupos, compostos de 28 artistas e diretores, resolveram sair às ruas para divulgar seus trabalhos. “Eles criaram o projeto Teatro em Movimento, cujo objetivo era oferecer, durante um período de quatro meses, ocinas teatrais gratuitas em dez cidades satélites. Os próprios alunos montavam e apresentavam suas peças. No total, foram 110 peças apresentadas nessas cidades e no plano piloto”, conta a veterana do teatro. Com isso, os grupos conseguiram mais visibilidade e despertaram o interesse de empresas públicas e privadas para eventuais patrocínios. “O objetivo principal foi a criação de um espaço destinado à categoria, no qual se pudesse fomentar as atividades teatrais em Brasília, formar um público, aprimorar artistas e, principalmente, realizar ações que pudessem contribuir com o desenvolvimento sócio-

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

Dança Sindicais Cooperativa Brasiliense de Teatro apoia projetos e luta por incentivos
Fotos: Dominique Belbenoit

Divulgação

O Balé Folclórico da Bahia resgata a cultura do Estado em suas apresentações

A cooperativa tem um núcleo voltado para as artes cincerses

Balé Folclórico da Bahia valoriza artistas locais
Por Carla Costa A Bahia tem respaldo e destaque mundial no meio artístico. Um dos fatores que comprova isto é o fato do estado ser o único do País a ter uma companhia de dança folclórica prossional de representatividade, com turnês nacionais e internacionais. O BFB (Balé Folclórico da Bahia) se destaca pelos prêmios conquistados e nas respostas que recebe do seu público e crítica especializada, desde a sua criação, em 1988. Atualmente, 38 integrantes, entre dançarinos, músicos e cantores, compõem o quadro do BFB. Devido ao respeito conquistado e ao nível técnico, o grupo vem chamando a atenção dos mais exigentes prossionais e críticos da área de dança do mundo. Para o fundador e diretor geral do BFB, Walson Botelho, o grupo deve seu sucesso ao fato do baiano ser versátil, ter olho diferente e conseguir praticar todos os tipos de dança com grande facilidade, ritmo e descontração. Mas, Botelho revela que apesar de todo este potencial o BFB, desde a sua criação, nunca teve patrocínio e conta apenas com o apoio da Secretaria de Cultura e do Estado para se manter. “Essa falta de incentivo impede a possibilidade da criação de novas coreograas e também na produção de gurinos”, explica Botelho. De acordo com a diretora da primeira escola de balé clássico da Bahia, a Ebateca, Ana Cristina Gonçalves, a falta de incentivo diculta que os bailarinos baianos façam carreira no seu próprio estado. Devido a isso, bons bailarinos se mudam para o sul e para fora do país em busca de uma carreira promissora. “Nós já tivemos e temos ótimos bailarinos, porém essa falta de investimento na arte nos faz perder grandes talentos que são muitos valorizados lá fora, mas apesar disso, todos os meus bailarinos tem orgulho de representar a Bahia. Nós mostramos que não vivemos em ritmo de malemolência, mas muito pelo contrário, temos innitas competências”, diz Ana Cristina.

cultural da comunidade”, diz a presidente, que já está em seu segundo mandato. A cooperativa atua junto a Fóruns de Cultura, de Teatro e ao Fórum de Circo do Distrito Federal. Para fazer parte dessa iniciativa não é difícil. Basta obter o registro na Delegacia Regional do Trabalho e se inscrever na cooperativa. “Só temos prossionais com diploma ou atestado de capacitação dado pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos”. O sustento nanceiro da instituição é oriundo dos próprios cooperados, que pagam meio salário mínimo por ano dividido em 12 meses. O teatro não é o único segmento que faz parte da cooperativa brasiliense. Segundo Laura, existe, também, um núcleo de circo, cuja demanda de projetos aumenta cada vez mais. Prova disso é o projeto de palhaços Doutoras Música e Risos, criado, no ano passado, pela artista especializada em teatro e circo, Antônia Vilarinho. “Começamos como voluntários, nesse projeto, mas, felizmente, conseguimos um patrocínio da Petrobras para este semestre”, revela

a criadora. O projeto consiste em levar alegria para os hospitais do Distrito Federal. As “consultas” são feitas por um grupo de doutoras bem diferentes. Elas chegam cada uma com um estetoscópio e trazem, também, instrumentos pouco usuais no ambiente hospitalar: viola caipira, violão, bongô, cavaquinho, triângulo. No nal das contas, a cura é trazida pelo bom humor. Crianças e adultos são cuidadosamente “examinados” pelas doutoras palhaças Fronha (Antonia Vilarinho), Matusquela (Manuela Castelo Branco), Berruga (Elisa Carneiro) e Savana (Karinne Ribeiro) fazendo graça, palhaçadas e tocando bastante música. “É um tipo de projeto que não poderia ter saído do papel se não fosse a cooperativa. Ela nos dá mais visibilidade e consolidação. Brasília não é fácil para a classe, por isso, é importante fazer parte de uma associação como esta. Eu também lutei pela criação desta cooperativa, mas outras companhias teatrais tentaram criar algo semelhante antes de nós e falharam”, revela.

“POR QUE TENHO ESSA FORMA?” PRORROGA TEMPORADA EM SÃO PAULO A pesquisa de mais de vinte anos da coreógrafa Zélia Monteiro resultou no espetáculo “Por que tenho essa forma?”, em cartaz em São Paulo até o dia 30 de agosto. O trabalho é conhecido pela interferência de movimento, música e luz no palco – reunindo artistas de diferentes áreas para discutir temas como corpo, espaço e tempo. O espetáculo está em cartaz no Sesc Consolação, segue para o Cine Olido e depois Centro Cultural São Paulo, ambos no centro da cidade. Pautado pela improvisação, o elenco segue uma estratégia de criação e de composição cênica que investiga modos de criar e de compor textos coreográficos. A subjetividade está presente nos movimentos que diferenciam o instante – inserido entre o passado e o futuro - e a duração – que se constrói durante o percurso. Bailarina e professora desde 1977, Zélia Monteiro estudou dança clássica em Milão e trabalhou com nomes como Maria Melô e Klauss Vianna. Foi premiada em 1987 (APCA), 1988 (Lei Sarney) e 1992 (APCA). Em 1993 recebeu a Bolsa Vitae de Artes para pesquisa coreográfica realizada em Paris, onde deu aulas regulares. Em abril de 2006 recebeu o Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna da Funarte, para realização de pesquisa. Em dezembro de 2006 recebeu o Prêmio PAC Circulação, da Secretaria de Estado da Cultura (SP), para tournée de espetáculo e, em 2007, recebeu o Prêmio Fomento à Dança, da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
Doutoras Palhaças: consultas levam alegria aos hospitais brasilienses. Sem a cooperativa, isso não seria possível

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

Teatro para todos
Há 31 anos em ação, Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz resiste ao tempo e comemora 25 anos de constituição do seu espaço multidisciplinar Terreira da Tribo
Fazer cultura com resistência. O nome do grupo teatral a seguir já diz algo? “Ói Nóis Aqui Traveiz”. Escrito em português não-formal, o nome do grupo emite a ideia da vocação popular, ou seja, de cultura para todos. Essas são apenas algumas das propostas desta Tribo de Atuadores de Porto Alegre (RS). Conhecidos por fazer arte com contestação, eles são destaque entre os grupos de teatro e espaços culturais gaúchos e referência também nacionalmente. Em busca de renovação na linguagem cênica, a Tribo de Atuadores do Ói Nóis entrou em cena no dia 31 de março de 1978 com as peças “Divina Proporção” e “A Felicidade Não Esperneia Patati Patatá”, ambas escritas por Júlio Zanotta. Durante esses 31 anos, o grupo criou uma estética pessoal, fundada na pesquisa dramatúrgica, musical, plástica, no estudo da história e da cultura, além da experimentação dos recursos teatrais a partir do trabalho autoral do ator. Não se limitando à sala de espetáculos, desenvolveu, também, uma linguagem própria de teatro de rua, além de trabalhos artístico-pedagógicos junto à comunidade local. “Atuamos coletivamente em todo processo de cada espetáculo, desde a montagem até a manutenção do espaço. Acreditamos que o teatro, assim como a cultura, é um direito necessário de cada cidadão. Fazemos cultura como instrumento de discussão”, explica Tânia Faria, atuadora da Tribo. Entre as diversas áreas que o grupo desenvolve, destaque para a Escola de Teatro Popular, que funciona desde 2000, e o Projeto Teatro como Instrumento de Discussão Social, desenvolvido desde 1988, com ocinas gratuitas à população. Na área da criação teatral, além do Teatro de Rua, o Teatro de Vivência atua no sentido de experiência partilhada, em que o espectador torna-se participante da cena, inserido em ambientes cênicos junto com os atores, quebrando a divisão palco/platéia. Diante destas atuações, os artistas do Ói Nóis avaliam o teatro como instrumento de desvelamento e análise da realidade e entendem que sua função é social, contribuindo para o conhecimento e o aprimoramento humano. “A lógica do mercado não pauta as ações do grupo. Tendo 31 anos de trabalho continuado, a Tribo recebeu apoio através da Lei Rouanet nos últimos quatro anos. Isto aponta para uma das
Fotos: Cláudio Etger

9

Por Adoniran Peres

Tribo de Atuadores desenvolve ocinas gratuitas a população

Ói Nóis Aqui Traveiz fazem da cultura um instrumento de discussão

Grupo do Rio Grande do Sul busca a renovação da linguagem cênica

palavras chaves da trajetória do Ói Nóis: resistência”, enfatiza Pedro de Camilis, atuador do grupo. COMEMORAÇÕES O último dia 14 de julho foi uma data importante de continuidade desta resistência do grupo, com a comemoração dos 25 anos de constituição do espaço multidisciplinar Terreira da Tribo. Criado seis anos depois da concepção do Ói Nóis, o local também é a sede do grupo desde 1984 e funciona como Escola de Teatro Popular oferecendo diversas ocinas abertas e gratuitas para a população. Para celebrar este dia especial houve uma noite de comemorações na qual foi lançado o sexto número da revista “Cavalo Louco”, produzida pelo grupo. A programação incluiu, ainda, a apresentação dos exercícios cênicos “A Comédia do Trabalho” e “Aquele que diz Sim/Aquele que diz Não”, desenvolvidos através do Projeto Teatro como instrumento de discussão social, atualmen-

te patrocinado pelo Instituto Votorantim. O espaço multidisciplinar não se resume somente a um lugar de ocinas e espetáculos. É também para compartilhamento de experiências com outros grupos, realizando seminários, ciclos de debates, ocinas abertas à comunidade para prática artístico-pedagógica, além de se explorar as possibilidades cênicas produzidas pela Tribo com o intuito de realizar uma investigação atorial, estética e ética. Gerida de forma libertária pelo Ói Nóis Aqui Traveiz, a Terreira da Tribo se tornou peça fundamental para o desenvolvimento do teatro portoalegrense. Várias das suas manifestações já foram apropriadas pela cidade como o Teatro de Rua, hoje com vários grupos atuando regularmente, e as ocinas populares de teatro desenvolvidas em diversos bairros de Porto Alegre. ATUAÇÃO Camilis, atuador do grupo, explica que, atualmente, a tribo

realiza a Mostra Ói Nóis Aqui Traveiz: Jogos de Aprendizagem, um circuito pelos bairros da cidade com os trabalhos desenvolvidos pelos atuadores em ocinas populares de teatro em oito bairros. “Junto a esta Mostra, apresentamos, quase todos os ns-de-semana, o espetáculo de Teatro de Rua “O Amargo Santo da Puricação”. A peça, criação coletiva baseada em Sartre e em Allen Gin – que teve sua montagem censurada em 1980 – estreou em setembro de 2008, durante o 15° Poa em Cena. O espetáculo já foi apresentado em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Curitiba, em Brasília e em Salvador (circulou, ainda, por 15 cidades do interior do Estado, pelo Sesc/RS). Atualmente, realiza um circuito pelos bairros populares de Porto Alegre e região metropolitana. PREMIADO Durante esses anos, o grupo recebeu muitos prêmios com seus espetáculos. Entre eles: “A Doméstica”(1985) e “Fim de

Partida”(1986). Já a criação coletiva “Ostal” (1989) concedeu ao grupo os Prêmios Açorianos de melhor espetáculo, cenograa e produção. De 1990 até 1992 foi encenado “Antígona”, ritos de paixão e morte, que recebeu os Prêmios Açorianos de melhor espetáculo, direção, cenograa, gurino e ator coadjuvante. “Se Não Tem Pão, Comam Bolo!” (1996) foi premiado como melhor espetáculo de Teatro de Rua, e o grupo foi premiado pelo conjunto de sua obra. O espetáculo “Independência ou Morte!” (1996) foi premiado no Festival Nacional de Teatro Isnard Azevedo de Florianópolis (SC). Em 2008, o grupo recebeu os Prêmios Açorianos de melhor cenograa e ator Coadjuvante por “A Missão – Lembrança de uma Revolução”. Neste mesmo ano a Tribo recebeu, também, o Prêmio Shell na categoria especial pela pesquisa e criação coletiva e melhor trilha original de Johann Alex de Souza de “Aos que virão depois de nós Kassandra In Process.”

Paulo Betti – ator

Sem medo de inovar e de dar opinião
Por Felipe Sil

Fabiana Veloso

Entrevista

10

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

Segundo Paulo Be i, ser ator é “acreditar que tudo pode mudar, tudo pode ser de outra maneira”

ator Paulo Betti, 56 anos, já fez de tudo em sua área. Televisão, cinema, teatro... Poucos artistas da dramaturgia brasileira podem dizer que possuem a versatilidade deste profissional. Com o nome e o currículo que tem, poderia viver calmamente, na base de megaespetáculos e trabalhos esporádicos destinados ao grande público. Paulo Betti, porém, continua inovador e mantém as raízes do início da carreira, quando foi um dos fundadores do grupo experimental Pessoal do Victor e aluno da EAD/USP (Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo). Na última edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), surpreendeu o público presente ao andar pela cidade vestido de árvore, em encenação para a peça “Sonho de uma Noite de São João”. O ator também não tem medo de falar sobre política e é conhecido como um dos mais envolvidos no assunto dentro do meio teatral. Nesta entrevista para o Jornal de Teatro, entretanto, garante que todas as suas ideologias e convicções ficam fora de sua arte, apesar de admitir que ela é sempre, no final das contas, um posicionamento político.
Jornal de Teatro – O que você ainda carrega de ensinamentos e lições da EAD/USP, onde começou a carreira? Paulo Betti – A gente aprendia a levar o teatro a sério com disciplina, responsabilidade e ética. O exame de admissão era muito seletivo. Para se ter uma ideia, concorriam 700 aspirantes, eram aprovados 20 e depois de um mês de exames práticos, teóricos, subjetivos... Aí vinham os três anos de aulas. Na minha turma zemos quatro montagens com diretores importantes e eu tive a sorte de participar de muitas montagens do segundo e do terceiro ano, quando ainda estava no primeiro. JT – E como foi tal experiência? PB – Pude ver Eugenio Kusnet trabalhando “Os Pequenos Burgueses”, de Gorki. Trabalhei com Emilio di Biasi, Fernando Peixoto, Sylnei Siqueira, Antonio Mercado Netto, Sylvio Zilber, Miryan Muniz, Fausto Fuser, Luiz Nagib Amary, Jonas Bloch, Celso Nunes, Alberto Guzik, Candida Teixeira, Maria José de Carvalho, Renata Palottini, Mylene Pacheco, Yolanda Amadei, Clovis Garcia, Paulo Mendonça, Lucio Galvão, Leda Cury, tantos excelentes mestres... Mas aprendi muito com Carlos Alberto Sofredini, Elvira Gentil, Laerte Morrone e Armando Azzari. Lembro a voz do Sofredini, pausada, rouca, dizendo “não se poupe”, “não se poupe”, uma espécie de bordão teatral ecaz, absolutamente essência de nossa atividade onde poupar-se, dar menos, é proibido.

O

JT – Como analisa, hoje, sua experiência no grupo experimental Pessoal do Victor, que você ajudou a fundar em 1975? PB – Foi uma espécie de universidade de teatro pra mim. O grupo estudava, pesquisava, fazia montagens sobre temas interessantes como a cultura caipira, o surrealismo, a obra de Kafka... Tudo com a continuidade do trabalho de
Fábio Toledo

Celso Nunes, que nos acompanhou e nos deu de presente a montagem nal de curso, que foi “Victor e as Crianças no Poder” de Roger Vitrac, que deu nome ao nosso grupo. JT – Você sempre teve uma posição política muito forte. Tem o costume de levar essas ideias para sua atuação? PB – Não gosto de levar

“ Nunca vi lugar que se aplaude mais em pé do que o Brasil”

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

Paulo Betti esbanja versatilidade nos palcos, na telinha e até nas ruas
parte do jogo político, mas é um preço alto que se paga. JT – Como você faz a ligação entre política e arte? PB – A política está em toda a parte. A arte expressa o momento histórico, emocional e político de sua época. Toda obra de arte é um posicionamento político. JT – Você acabou de encenar, ao ar livre, em Paraty, o espetáculo “Sonho de uma Noite de São João”, baseado em Shakespeare. Em outras ocasiões você também já se apresentou nas ruas do Rio. Como é essa experiência? Por que é importante e quais as diferenças de não atuar para um público mais selecionado? PB – A rua é o espaço mais livre e mais difícil de se trabalhar. A pessoa assiste em pé. Quando enche o saco vai embora, toma uma cerveja, fala com o amigo... Não tem aquela convenção hipócrita de ter que car até o nal e aplaudir em pé. Nunca vi lugar que se aplaude mais em pé do que o Brasil. Parece até que entendemos pra burro de teatro, porque precisa ser muito entendido para car aplaudindo em pé. Eu tenho verdadeira admiração e respeito pelos artistas que trabalham na rua. Desde o mais sosticado ao mais simples, aquele cara que promete engolir um prego no nal da performance, a Famiglia Milani, O Tá na Rua, do Amir, Galpão Cine Horto, de Minas Gerais; e tantos outros. JT – Viveu alguma experiência anterior, neste sentido? PB – Na Casa da Gávea estávamos nos sentindo aprisionados no nosso pequeno palco. Tive a ideia de irmos para a praça que existe em frente, no Baixo Gávea, ano passado, com o “Sonho”. Foi lindo. Esse ano resolvemos repetir e zemos em Paraty, Quissamã, Piraí e Barra do Piraí. Foi muito legal. Em Paraty parecia que estávamos num autêntico teatro elizabethano. A Igreja de Santa Rita e o casario de Paraty ecoavam uma acústica perfeita para nossa peça. Foi um gosto trabalhar nessa peça. Meu lho me viu trabalhar pela primeira vez. Me viu sentado no meio o, vestido de árvore, suado, com a maquiagem borrando. Ele sacou direitinho o que é o meu ofício. JT – Qual a peça e o personagem que você se recorda com mais carinho? PB – Muitas! Mas “Na Carrera do Divino” foi um momento especial de minha vida. JT – Você também já teve
Ator, apesar de consagrado, costuma encenar peças gratuitas nas ruas, como nas de Paraty recentemente

Entrevista
ro. O sublime e o mesquinho. JT – Que conselho dá para os jovens atores? Ainda é importante fazer arte de vanguarda e buscar experimentações em suas obras? PB – O importante é ler grandes romances, cuidar do corpo, ver grandes lmes, peças... Viver intensamente e não “se poupar”. JT – Em declaração, na última edição do Jornal de Teatro, você armou que todo ator, por uma deformação prossional decorrente do ofício, é vaidoso. Como não deixar a vaidade inuenciar o trabalho? PB – Temos que equilibrar a vaidade e a nossa insegurança. Não deixar que nenhuma sobressaia.
Fábio Toledo

11

grandes papeis na TV. Como foi parar nesse meio e qual produção e personagem te marcou mais? PB – A televisão entrou na minha vida entre 1977 e 1978, quando z a novela “Como Salvar meu Casamento”, na Tupi. De lá para cá, nunca mais deixei de trabalhar no meio. Gosto muito de atuar na TV. Acho um privilégio poder fazer novelas, estabelecer um vínculo forte com nosso povo, entrar em suas casas e contar histórias. Acho a televisão o espaço mais importante da cultura brasileira. Quase todas as informações culturais que o o nosso povo recebe é através dela. JT – Em que meio prefere trabalhar? Teatro ou TV? Quais são as principais

diferenças entre os dois quanto à atuação e à produção? PB – O teatro tem uma produção mais artesanal, requer mais tempo de elaboração, nos prepara e nos corrige. Já a televisão exige mais rapidez. Gosto dos dois. O bom é quando podemos revezar, um no teatro e um na TV. De vez em quando no cinema também. JT – O que é ser ator para você? PB – É colocar nosso corpo, voz e sentimentos para representar um personagem levando distração, divertimento e conhecimento para o máximo de pessoas. É acreditar que tudo pode mudar. Tudo pode ser de outra maneira. É fazer conviver o vaidoso e o insegu-

política para o palco. Não penso na adequação política das peças que faço. Penso na densidade das obras do ponto de vista poético e dramatúrgico. Mas evidentemente que existe um ltro, que é a minha maneira de ver a vida, e nisso incluí a política, a percepção do poder, do jogo, da hipocrisia e tudo mais. Só que não penso, por exemplo, nos Sem Terra e na sua luta quando z “Na Carrera do Divino”, peça do Carlos Alberto Sofredini. No entanto, serve como uma luva para campanhas do MST, por exemplo. Aquilo, para mim, era emoção pura. Um libelo contra a injustiça da perda da terra ancestral, mas era uma preocupação muito mais humana e individual do que política e coletiva. JT – Acha importante para o artista ter posicionamento político bem denido? PB – Não, acho que é importante o artista ser bom no que faz e respeitar seus colegas e sua arte. Isso é mais do que suciente. Quem quiser se meter em política que se meta, leve suas bordoadas, sofra as consequências de expor suas posições, porque posições todos nós temos, e exerça suas pequenas inuências. Alguns de nós, como Antonio Grassi, Beth Mendes, Pitanga, Stephan Nercesian, Antonio Pedro, Hugo Carvana, Celso Frateschi, Gianfrancesco Guarnieri e muitos outros chegam a ocupar cargos elevados na área cultural do governo. Me exponho muito politicamente, defendo as ideias que acredito, acompanho as reviravoltas do jogo político e pago caro por isso. Já fui acusado maciçamente pela imprensa. Eu sabia que era

12
Reportagem
Fernando Pires

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

Na Casa
c Lou dos

Prédio histórico do Hospital Psiquiátrico São Pedro serve de base para grupos de teatro em Porto Alegre
Por Felipe Prestes As artes, muitas vezes, manifestam-se como o limiar entre loucura e razão. Talvez, pelo detrimento da racionalidade em favor da sensibilidade. Em Porto Alegre, a busca pela ocupação de espaços ociosos levou parte da cena teatral a um contato inusitado com a loucura. Desde 1999, grupos têm utilizado pavilhões que estavam abandonados no Hospital Psiquiátrico São Pedro, pertencente ao Estado, para ensaios, ocinas e atividades como montagem de cenários. O local, além de ser o espaço que tanto as companhias precisam para se manter, proporciona reexão sobre questões sociais que envolvem a oposição entre loucura e normalidade. A parte do hospital utilizada pelas companhias tem ainda o apelo estético que poucos lugares podem oferecer. O então Hospício São Pedro foi inaugurado em 1884, ainda durante o Segundo Reinado. Era o primeiro espaço destinado aos “alienados” em Porto Alegre e em toda a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. O enorme sobrado de dois andares remete ao século XIX. Os portões enferrujados e as janelas em arco dão um charme todo especial para quem faz arte no local. Não poderia haver lugar mais apropriado para que o grupo Falos e Stercus montasse a peça “In Surto”, que abordava a temática da loucura. Foi nesse projeto que, há dez anos, primeiro se levou teatro para o Hospital Psiquiátrico São Pedro. “Sempre tivemos o perl de buscar espaços na cidade para apresentação de nossos trabalhos”, conta Alexandre Vargas, um dos fundadores do Falos e Stercus. O grupo que montou o “In Surto” falou diretamente com a direção do São Pedro, que atendeu o pedido dos artistas. “Coincidiu com um forte debate da luta anti-manicomial. Então foi um momento propício para a entrada do teatro no espaço”, explica Alexandre. No mesmo período, 144 internos foram transferidos para moradias, deixando espaços abandonados. A temporada do “In Surto” teve boa repercussão, mas foi montada do lado de fora do prédio. Os pavilhões cinco e seis do hospital se encontravam cheios de entulhos, como camas e documentos. As apresentações geraram interesse da Bienal do Mercosul. A organização deste evento conseguiu limpar a área para uma de suas instalações e isso impulsionou o pedido do Falos e Stercus para utilizar aquele espaço, novamente atendido pela direção do hospital. Ao longo dos dez anos outros grupos foram ocupando espaços dos pavilhões. Entre estes, está o Oigalê – Cooperativa de Artistas Teatrais, que em 2002 fez um pedido junto à direção do hospital para também utilizar as dependências. “Sem um local como este, nosso trabalho ca inviável. Todos os grupos que estão aqui são de pesquisa, têm um trabalho continuado”, explica Vera Parenza, atriz e produtora que faz parte do Oigalê.

Pavilhões abandonados de unidade servem para ensaios, ocinas e atividades como montagem de cenários. Eles proporcionam reexões sobre os aspectos da loucura e da normalidade

O tipo de utilização do Hospital São Pedro se tornou referência para o projeto Usina das Artes, que foi celebrado como lei municipal em 2009 e cede es-

paços da Usina do Gasômetro, dando a possibilidade que grupos de atuação continuada possam gerir salas do prédio histórico, também em Porto Alegre.

os
GRUPOS PODEM PERDER O ESPAÇO
Para Alexandre Vargas, a atuação das companhias não tem sido vista com bons olhos pelas novas administrações estaduais, desde 2003, quando a Secretaria Estadual de Cultura passou a interferir no local. “Primeiro, uma antiga diretora do Lacen (Instituto Estadual de Artes Cênicas) fez auto-propaganda utilizando o espaço, no qual não fez mais que reformar um banheiro. Depois começaram a surgir boatos de que o prédio seria destinado para uma empresa ligada à fabricação de computadores”, conta. Hoje, há o permanente temor de que os grupos tenham de ser realocados. “Existem boatos de que o governo pretende instalar uma empresa que fabrica computadores aqui, utilizando a Uergs (Universidade Estadual do Rio Grande do Sul) como ponte”, diz o ator. Juliana Erpen, diretora-geral da Secretaria de Cultura do Estado, afirma que a direção do hospital tem planos para a área, sobre os quais não conhece detalhes. Vera Parenza considera que a visão que o atual governo tem para com a saúde mental condiz com a retirada dos grupos. “Quando entramos aqui, havia uma diretoria no hospital que considerava que o paciente precisava interagir com o mundo, que estava ligada à luta anti-manicomial. A nossa presença estava bastante conectada a isso. Agora parece que as coisas estão voltando atrás, no sentido de manter os internos afastados do convívio com outras pessoas”. Por ora, o que tem garantido a permanência dos artistas tem sido as atas das reuniões que são realizadas periodicamente com a Secretaria da Cultura, nas quais este órgão se compromete a ceder o espaço. O que os grupos querem, porém, é poder gerir a área em comodato (contrato gratuito, que cede temporariamente o lugar), o que dificilmente deverá ocorrer. Vera Parenza também lamenta o fim das apresentações e ressalta que se deve a uma mudança no tratamento dos pacientes. “Era super saudável, havia uma troca muito boa. Muitas vezes na entrada do hospital não se sabia quem era espectador da peça e quem era paciente aguardando atendimento”, diz Vera, que conta, também, que a diretoria que acolheu os artistas incentivava as apresentações, por considerar importante este contato entre os doentes e as pessoas ditas normais, e até ajudava na impressão do material de divulgação das peças. As que eram apresentadas para os internos foram uma grande perda, em termos da experiência que proporcionavam. “Eles tinham por nós um grande respeito. Via neles uma ingenuidade muito grande, e havia forte desconstrução sobre o comportamento da plateia”, relata Alexandre. “Era um rompimento da formalidade. Se o interno tinha vontade de se expressar no meio da peça, ele o fazia”, exemplifica Alexandre, acrescentando que a possibilidade de haver maior interface com os “loucos” não é tão simples, pois é necessária uma qualificação especial. “Não basta ser ator para saber lidar com essas pessoas. Existe uma série de cuidados especiais, medicamentos que precisam tomar, objetos que não podem estar por perto”. O escritor também explica como a loucura influencia o teatro. “Não vejo relação entre loucura e teatro, mas há uma certa ‘desrazão’ que precisamos ter ao pensar a arte”. Alexandre relata que tipo de reflexão o trabalho no São Pedro proporciona. “Há uma visão simplista sobre a loucura. Tem muito mais de abandono e exclusão do que propriamente uma doença que obrigue alguém a ficar deste lado dos muros”. Muros que têm significados opostos para “loucos” e artistas. Para os primeiros, a liberdade pode estar do lado de fora. Já os grupos de teatro conseguiram certa autonomia do lado de dentro. Mas os interesses governamentais muitas vezes preferem ver ambos no sentido contrário daquele que pode lhes trazer mais felicidade. Uma loucura!

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

13
Reportagem

Quem é o insano aqui?
A loucura, segundo explica a psicologia, é uma disfunção nas mentes humanas que a faz ter pensamentos não aceitos e entendidos normalmente pelos instrumentos de entendimento e cognição da sociedade em que vive o paciente. Pode ser causada por uma doença ou ser a própria doença tomando conta do corpo do paciente. A interpretação, segundo acreditam alguns atores, é emprestar o seu corpo à uma personagem, que vai gritar, chorar, sentir e existir através do seu corpo. Essa interpretação é uma forma de fugir da sua realidade e adotar para si, outra. Na esquizofrenia, bipolaridade, psicose e em todas as formas de insanidade mental, você empresta o seu corpo para a doença, que possui e domina a sua mente. A sua realidade passa a ser a doença. O interessante acontece quando há a fusão desses dois casos – o ator empresta o corpo à uma personagem que vai sublocar o seu corpo à uma doença ou insanidade. Além de exigir esforços adicionais do ator, um papel como esse exige uma pesquisa e uma sensibilidade ímpar, entre berros, murros e qualquer outra forma em que a loucura possa se manifestar. Certamente não é um traAdalberto Lima

Montagens abordam o tema de diversas maneiras. Afinal, não é louco quem só ri e quem só chora?
Por Danilo Braga balho fácil, mas temos grandes exemplos de montagens onde a insanidade levou o público e a crítica à loucura (esta, no sentido mais ameno da palavra). Um dos maiores nomes quando se pensa em loucura é “Hysteria”, do Grupo XIX de Teatro. A montagem é focada na mulher brasileira que viveu no País na transição entre o rural para o industrial. O texto surgiu da descrição das condições em que viviam as mulheres internadas em asilos psiquiátricos da época. Atualmente está em cartaz pelo Sesc Santa Catarina, em Florianópolis, com o projeto Palco Giratório. “Gotas ao Dia” aborda o tema de outra forma: Lyssa acorda em um hospital psiquiátrico, sob observação. Tenta, ao decorrer do texto, entender o porquê de estar naquele ambiente, em que período da história ela vive, que dia e que horas serão. Foi apresentada no Teatro Augusta, em São Paulo e foi a montagem de estréia do grupo Teatro de Risco. Assim como “Hysteria”, a montagem foi fruto de pesquisa baseada em casos reais de doenças mentais. Outro espetáculo que cuida do tema da loucura é “Toc Toc”, escrita pelo francês Laurent Bafe. Em cartaz até 2 de agosto no Teatro do Leblon, no Rio de Janeiro, a peça apre-

Cena de “ Hysteria”, que retrata a vida de mulheres internadas em asilos psiquiátricos

senta seis personagens com TOC – Transtorno Obsessivo Compulsivo. As personagens que se mostram incomodadas e, de certa forma, até com vergonha de seus transtornos passam a dialogar sobre o assunto e a sala de espera do consultório se torna uma espécie de autoterapia entre os pacientes. Indo nas origens mais profundas da literatura clássica losóca, a encenação “Filosoa

da Loucura”, da Cia. Fuzarca de Teatro é inspirada na obra “Elogio da Loucura”, do escritor, lósofo e teólogo Erasmo de Rotterdam. O espetáculo traz personagens acorrentados por uma cadeia de acontecimentos onde a fé, o amor, a vingança, o ódio e a paixão formam a colcha de retalhos do texto ímpar de Erasmo. Essas montagens levantam uma questão que pode

aparecer no público, eventualmente: onde reside a loucura? Está mesmo embutida em nós como diz o “Elogio da Loucura”? Uma mera característica humana, como sugere “Hysteria”? Fruto da pósmodernidade gerada na vida urbana, como em “Toc Toc”? Todas essas montagens dão vazão à questionamentos perigosos que, por sua vez, podem despertar a loucura em você.

A OBSESSÃO DE NELSON RODRIGUES
Por Michel Fernandes, especial para o Jornal de Teatro Tanto a obra – sejam suas peças teatrais, romances, crônicas, memórias e folhetins, entre outros – quanto a vida do escritor Nelson Rodrigues (1912-1980), considerado, com justeza, o dramaturgo brasileiro mais ousado, criativo e inovador de todos os tempos, o remetem ao obsessivo tema da morte. Mesmo que o adultério, as complexidades sexuais, taras e incestos sejam, também, temas recorrentes, a Morte protagoniza, de uma forma ou de outra, cada uma de suas obras. Mesmo sabendo que a obsessão é apenas um desvio comportamental, que de tal mania possa surgir um desconforto mental para quem a sente ou para aquele que é o alvo do obsedado, concordemos que tal mania exacerbada é potencial condutora da loucura, ou, no mínimo, de atos insanos. Basta seguirmos a trajetória de duas personagens rodrigueanas para constatarmos o quão negativo tem a obsessão que Nelson Rodrigues utiliza para conceber a psique de suas personagens: Moema, protagonista de uma de suas Tragédias Míticas, “Senhora dos Afogados”; e Zulmira, personagem principal de “A Falecida”, tragédia carioca do autor. Tanto uma quanto a outra personagem personicam na morte sua obsessão. Se, por um lado, Moema vislumbra nas mortes que causa o único meio para atingir seu m, por outro, Zulmira acredita que sua morte lhe trará a redenção de seus pecados e planeja seu velório com requintes de quem deseja, a qualquer custo, recuperar a dignidade que sua situação social nunca lhe permitiu exercer. Em encenações que pretendem deixar a vaga localidade carioca e as referências ao cotidiano que, como observou o estudioso David George em “Grupo Macunaíma: Carnavalização e Mito” (série Estudos da Editora Perspectiva), faz a dramaturgia rodrigueana parecer datada e de maior inteligibilidade a alguns nichos sociais do Rio de Janeiro, o diretor Antunes Filho mergulha num universo “mítico e arquetípico” em suas incursões ao universo dramatúrgico do autor. David George aponta a montagem “Nelson 2 Rodrigues” (1984), que condensava as peças “Álbum de Família” e “Toda Nudez Será Castigada” – na realidade a redução do espetáculo Nelson Rodrigues – “O Eterno Retorno” (1981) que trazia mais duas peças do autor: “Os Sete Gatinhos” e “O Beijo no Asfalto” – tão fundamental ao teatro brasileiro quanto a montagem de “Vestido de Noiva” (1943), por Ziembinski. Para David, o “teatro moderno brasileiro poderia ser situado” entre “essas memoráveis montagens de textos de Nelson Rodrigues”. Esse preâmbulo da história de nosso teatro serve tão-somente para notarmos a agudeza arquetípica no tratamento de suas personagens e como Antunes Filho trata com cuidadoso bisturi suas dissecações das mesmas em montagens memoráveis. Assim o fez, ano passado, com a controversa encenação de “Senhora dos Afogados”, elevando a tragédia da família Drummond ao posto da falta de paradigmas que a Instituição Família, e Moema (na montagem vivida pela atriz Angélica di Paula) ao arquétipo do sombrio e vazio vindos com essa ausência de modelos. Esse ano, Antunes retorna a Nelson com “A Falecida Vapt-vupt”, sua terceira incursão a peça “A Falecida” (encenada por ele, em 1965, com alunos da Escola de Artes Dramáticas, e no espetáculo “Paraíso Zona Norte”, em 1989) e ca já a curioDivulgação

Angélica em “Senhora dos Afogados

sidade em saber como ele tratará a obsessão de Zulmira e de cada um dos personagens da obra. Michel Fernandes é jornalista cultural, crítico e pesquisador de teatro. Editor do www.aplausobrasil.com.br

14
Reportagem
Por Paloma Jacobina Juliana (nome ctício) não pôde estar presente ao enterro do seu irmão mais velho e nunca se perdoou por isso. Por mais de 10 anos, um sentimento de culpa e solidão a corroeu por dentro, levando para longe a tranquilidade de uma mente já inquieta. Só mais de uma década depois, a paciente esquizofrênica da terapeuta de família e casal, Isabel Rosana Barbosa, pôde chorar sua perda e, nalmente, enterrar o irmão perdido. Foi no palco dramático, cercado por entes queridos interpretados por colegas de terapia e se despedindo de um caixão ilusório que Juliana se sentiu livre para colocar sua dor para fora. A loucura sempre foi tema de lmes, livros e personagens históricos. Grandes artistas sempre estiveram no limiar entre os devaneios e a realidade do mundo que os cercam, em especial quando mergulham em personagens com carga dramártica pesada. Foi o que aconteceu com o ator baiano Ângelo Flávio na pele do ‘aprendiz de marginal’, Tonho, vivido no longametragem de Paulo Alcântara, “Estranhos”. “O cheiro de pólvora impregnou minha mão por muito mais tempo do que qualquer um imaginaria”, relembra. Ao contrário do que se esperava, o apagar das luzes não suprimiu a dor do malandro Tonho, nem a arrancou do peito do ator. “Construí no Tonho um típico malandro brasileiro, mas também dei a ele hombridade e assassinar a garotinha acabou com ele e comigo também. Ficamos os dois muito mal por muito tempo”, revela. Segundo Ângelo Flávio, é impossível construir um personagem denso sem ter a aura imaculada pela realidade interpretada. “É muito difícil viver sem aprender com os personagens. Isso, porque, para construir personagens completos, abrimos mão dos nossos princípios morais e culturais, e não há como fazer isso e sairmos ilesos. Nesse processo, nós sofremos, aprendemos e nos humanizamos”, concluiu. E nesse jogo de vida e arte, personagens ilusórios se misturam àqueles reais no intuito de emocionar, construir e deformar a nossa realidade. Foi assim que Ângelo Flávio trabalhou durante muitos anos no Hospital Psiquiátrico Juliano Moreira, acompanhando o grupo de apoio psicossocial Gira Mundo e vivendo um pouco da loucura de cada um dos internos como forma de se aproximar deles. É assim que a professora e membro do Conselho Baiano de Psicodrama, Isabel Rosana, trabalha até hoje as pessoas que têm na realidade do dia-a-dia seu maior medo de viver. Defensora da técnica desenvolvida pelo médico romeno Jacobo Levy Moreno para o tratamento de pacientes com os mais variados tipos de problemas psicossociais, Isabel Rosana explica que oferece uma proposta terapêutica, de tratamento. “Você não interpreta uma modalidade teatral, e sim, a sua vida. E isso faz toda diferença. Digo isso, porque, ao

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

Drama Realdo psicodrama Histórias de superação através
interpretar a própria vida, você leva toda a carga de emoção que viveu para aquele momento e isso vai te ajudar a trabalhar questões que estão dentro de você, te machucando”, explica. De acordo com a prossional, o psicodrama possibilita ao paciente a entrega total a emoções reprimidas. Durante as sessões, divididas em aquecimento, dramatização e comentários, a assustadora realidade é enfrentada com o apoio de prossionais. “A sala é chamada de palco dramático. Nela, surge o protagonista. Por exemplo, na terapia de grupo ou no grupo de várias pessoas, alguém leva um tema de alguma situação que esteja vivendo e esse tema é levado para ser representado no palco dramático”, revela. Diferente do teatro, que leva ao palco a vida dos outros, o texto feito por um autor no psicodrama se leva aos palcos a própria vida. Segundo Isabel, o psicodrama não é só dramatização, mas a base para outras técnicas que se chamam técnicas de ação. “Quando eu falo ‘ir ao palco dramatizar’, não necessariamente seja uma utilização de uma historinha, mas podemos utilizar outros recursos para que o protagonista possa trazer a sua história e possa ser tratada”, revela Isabel Rosana. Segundo a prossional, ao dramatizar a própria vida, o paciente leva para o palco algo que já fez. “Por exemplo, você tem uma relação difícil com sua mãe, então o terapeuta pede para que você entre em cena e dramatize isso. Ao interpretar situações e sensações do cotidiano, você se dá conta do seu próprio personagem naquele contexto”, detalha. É quando o paciente, nalmente, se dá conta das próprias ações, das formas como age e como responde. E isso acontece não só na dramatização. Ao contar a própria história, mas a partir dos recursos que o diretor do psicodrama utiliza, o paciente vai se dando conta do que acontece. É quando ele percebe que atitude tem em relação à mãe. Mas existem restrições no uso do psicodrama em pacientes. Alguns prossionais, inclusive, desaprovam o uso da técnica em psicóticos, apesar da doutora Isabel Rosana armar que elas podem apenas variar, de acordo com a necessidade de cada um. “Algumas técnicas não são recomendadas, mas não existem proibições. Na escola, você tem uma disciplina que é psicodrama para psicóticos. Infelizmente, a sociedade em geral ainda tem pouco conhecimento. Mas isso acontece até nas pessoas da área psíquica. O pior é que associamos essa falta de conhecimento ao preconceito que as pessoas têm. O meu desejo que as pessoas se abrissem mais e pudessem entender, ler e estudar o psicodrama para tirar a visão preconceituosa e preconcebida que existe”, desabafa a especialista. “Não vou usar qualquer recurso com o psicótico, mas o psicodrama tem uma innidade de coisas que podem ser usadas. O psicodrama é mais uma alternativa dentre as outras que podem ser utilizadas para tratamento de pacientes ou é mais ecaz ou mais especíco. Como se encaixa no universo da psicanálise e psicoterapia. Um bom exemplo é trabalhar com objetos intermediários. Trabalhar a dramatização, considerando que a gente não vai esperar que o portador de doença mental aja como um indivíduo neurótico ou normal sem graves problemas psicóticos”, explicou. O uso do psicodrama no tratamento de pacientes com distúrbios psicológicos é hoje tão bem aceito no meio prossional, que o aumento pela procura e oferta de cursos que preparem os prossionais tem aumentado signicativamente. Atualmente, eles podem ser encontrados em vários lugares do Brasil, reunidos em torno da Federação Brasileira de Psicodrama e das associações estaduais. A maioria dos cursos está nas universidades federais, e São Paulo é o local que tem mais escola de psicodrama. Pode ser usada para diversas intervenções. “No caso da utilização para psicóticos eu considero um excelente recurso, inclusive, além da psicanálise. Muito psicanalista não atende pacientes psicóticos, porque acredita que não possui ferramentas para isto. Um paciente com transtorno mental pode ter no psicodrama uma excelente ferramenta para o cuidado terapêutico”, naliza.

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

Formando personagens através da maquiagem
Caracterizadores usam seus inúmeros recursos para dar vida às histórias que vemos nos palcos e traduzir a fiel imagem das personagens
Com quase 20 anos de prossão, o caracterizador Anderson Bueno tem em seu currículo grandes espetáculos como “O Fantasma da Ópera”, “Godspell” e “Victor ou Victória”. Os dois últimos marcaram por serem trabalhos desaadores, verdadeiros divisores de águas em sua carreira. “No ‘Fantasma’ não houve trabalho de criação propriamente dito. Eles trouxeram o material e tínhamos que seguir à risca. Em termos de execução foi ótimo, pois, no Brasil, não temos esse tipo de espetáculo. Ainda estamos caminhando para ter um business de entretenimento como o americano”, explica. Como um dos efeitos que colocam o ator em contato com sua personagem, a caracterização teatral é fundamental na construção de qualquer história. Seja sutil, em uma maquiagem básica, ou agressiva, em um processo de envelhecimento, o papel do caracterizador é tirar a personagem do papel e trazê-la para a realidade. Para executar tal tarefa, o visagista não é a única peça fundamental. “[Em primeiro lugar] ouço a intenção do diretor, falo com o gurinista para podermos seguir a mesma linha e converso com o ator para decidirmos
Fotos: Divulgação

Técnica

15

Por Ive Andrade

qual será a personalidade dessa personagem”, explica Bueno, que, atualmente, trabalha no musical “Hairspray”. Sua equipe, composta por seis pessoas, transforma o ator Edson Celulari em uma dona de casa acima do peso em todas as apresentações. “No caso do Edson, por exemplo, optamos por uma peruca toda desgrenhada, pois é assim que ele está montando a personagem, é uma mulher que não passa um pente no cabelo sequer, totalmente desleixada”. Apesar de sempre atrás das coxias, o caracterizador tem um trabalho desaador: cabe a ele propor uma etapa essencial do físico do personagem, o que inclui embelezar, envelhecer ou até mudar o sexo do ator, mas sem deixar que resultado nal que óbvio. “Hoje em dia, o público não quer ser iludido no teatro. Deseja que o ator mostre atitude e não que escondido atrás de uma máscara”, arma o coordenador do curso de maquiagem, caracterização e improviso do Tuca, Pablo Moreira. “Existe uma busca pela sutileza. Hoje são poucos os teatros com mais de mil lugares em que a maquiagem tem que ser mais pesada, pois o público não ca mais tão distante. E os produtos existentes agora possibilitam essa sutileza”, completa Bueno.

Mas, como é comum no meio teatral, não basta, apenas, talento. “Antes de mais nada, é preciso que exista respeito pela prossão. Acontece muito de o artista querer car lindo, independentemente se a personagem é alcoólatra, um monstro ou um louco. Mas ele deve ouvir as ideias do caracterizador e vice-versa para executar um bom trabalho”, arma Bueno. Além disso, no Brasil, a oferta de produtos de maquiagem é escassa e os materiais existentes geralmente são caros, o que diculta o trabalho dos caracterizadores. Cursos sobre a área ajudam os atores a desenvolver o trabalho básico de caracterização. “Nossa intenção com o curso é mostrar para os prossionais da área o básico, que é possível fazer com muito pouco. O ator deve saber pelo menos disfarçar alguma marca, passar base e lápis de olho. Até porque o caracterizador, muitas vezes, não permanece durante todas as apresentações, isso só acontece nos grandes espetáculos e musicais”, ressalta Moreira, que também explica que a caracterização pode ser simples, mas que sempre deve existir, tanto em atrizes quanto nos atores. “São artifícios que pode não parecer, mas são essenciais”. Muitos caracterizadores

trabalham com cinema, teatro, televisão, moda, publicidade e convivem com as diferenças que essas áreas exigem. No teatro, a exatidão é fundamental, pois o caracterizador não pode entrar no meio da cena para retocar ou corrigir algum erro. Mas é inevitável que algo aconteça em quase duas décadas de carreira, como conta Bueno. “No ‘Fantasma’ tinham próteses e na minha primeira semana sozinho, sem os americanos auxiliando, a prótese começou a descolar do rosto do ator Saulo Vasconcelos, o que estragaria o espetáculo para o público. Ainda bem que o Saulo é um prossional que soube lidar com a situação e a gente remediou rapidamente durante uma de suas trocas de roupa”. Para Bueno, o teatro também possibilita que o caracterizador trabalhe muito mais criativamente e artisticamente. “No teatro, você faz parte do processo de criação, do universo daquela produção. Já na moda poderia ser qualquer outro fazendo seu trabalho”, explica o visagista, que também dá aulas na área corporativa, sobre como se maquiar no seu dia a dia, trabalho que não exige tanta criatividade, mas que exemplica a importância da caracterização, ainda que seja para atuar apenas na vida real.

Bueno (de preto) e o ator Edson Celulari, à carater, antes de subir ao palco em “Hairspray”: peruca desgrenhada para uma dona de casa acima do peso

Marketing Cultural

Cultura Inglesa apoia espetáculos de dramaturgos britânicos
O centro de educação Cultura Inglesa trabalha no Brasil com o propósito de não ser apenas uma escola de idiomas, mas, também, como propagadora da cultura britânica no nosso País. E uma de suas ferramentas para concretizar esse projeto é o teatro. A escola apoia espetáculos realizados por dramaturgos de origem britânica, visando um entendimento maior das pessoas sobre a importância desses autores. “O que fazemos são pequenos apoios a peças em cartaz, para que, assim, a cultura da GrãBretanha seja propagada no Brasil”, disse o gerente cultural da escola, Laerte Mello. Um exemplo é o patrocínio do centro de educação para a peça “DNA”, de Dennis Kelly. No enredo, um grupo de adolescentes comete um grave erro por levar uma brincadeira
Bia Ferrer

Por Pablo Ribera

às últimas conseqüências e, na tentativa de ocultar o ato, se envolve em uma série de acontecimentos que complicam, cada vez mais, a delicada situação. Além de apoio, a Cultura Inglesa promove uma série de espetáculos culturais baseados em autores ingleses. O Cultura Inglesa Festival, realizado anualmente, apresenta formato original, inaugurado em 2004, no qual a cultura britânica é interpretada e recriada por artistas brasileiros das áreas de artes visuais, do cinema, da dança e do teatro adulto e infantil. Com o patrocínio da Cultura Inglesa, os projetos escolhidos por uma curadoria de jornalistas, acadêmicos e artistas das diversas áreas se transformam em 15 atrações produzidas especialmente para o festival. Na última edição, em maio deste ano, a Cultura Inglesa disponibilizou, ao todo, R$ 487 mil para patrocinar a produ-

ção dos projetos selecionados. Dessa verba, R$ 25 mil foram destinados para premiar as melhores produções. O patrocínio para cada um dos três projetos escolhidos por área foi distribuída da seguinte maneira: R$ 36 mil (Teatro Adulto), R$ 31 mil (Teatro Infantil, Dança e Cinema Digital de cção e animação) e R$ 25 mil para Artes Visuais. Uma das peças premiadas foi “Celebração”, do inglês Harold Pinter. A história se passa em um restaurante, onde os personagens Julie e Lambert comemoram seu aniversário de casamento, acompanhados de um casal formado pela irmã dela, Prue, e do irmão dele, Matt. Em outra mesa, o banqueiro Russel celebra seu sucesso pessoal com a esposa Suki. A vulgaridade e insensibilidade grosseira desses personagens é a característica principal da obra.

“Celebração”, de Harold Pinter, é uma das peças apoiadas

Encenadas em português, as peças de teatro adulto devem ser de autoria de dramaturgo britânico ou inspiradas em textos literários ou poéticos de autores britânicos, e ser dirigida ao público jovem (a partir dos 14 anos). Os espetáculos infantis deverão ser voltados a crianças a partir de 7 anos e inspirados na arte ou na cultura inglesa. As montagens poderão seguir padrões convencionais de encenação ou adotar os formatos dos espetáculos de rua e teatro de bonecos. Os projetos

de dança deverão propor coreograas inéditas inspiradas na obra de um ou mais artistas plásticos britânicos. A temática deverá ser dirigida a jovens a partir de 14 anos. Os candidatos podem acessar o site www.culturainglesasp. com.br/festival para conhecer o regulamento do processo de seleção, obter cópia da cha de inscrição e esclarecer dúvidas por meio do e-mail festival@ culturainglesasp.com.br. As inscrições para a 14ª edição do festival já estão abertas.

16
Rio de Janeiro
Fotos: Divulgação

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

C O M E M O R A C E N T E N Á R I O C O M G R A N D E F E S TA
Aniversário de palco histórico foi marcado por muita música e dança
Por Felipe Sil Um dos palcos mais charmosos e históricos do Brasil completou 100 anos com uma festa que esteve à altura do nome do Theatro Municipal do Rio. Inaugurado em 1909, no dia 14 de julho, o local tornouse rapidamente o centro da atividade lírica e teatral da então capital do País. Hoje, é uma das maiores atrações turísticas da cidade. Fechado desde outubro de 2008 para obras de restauração e modernização, com previsão de término para novembro deste ano, o teatro teve seu centenário comemorado na data de seu aniversário com muita dança e música em um grande palco armado na Cinelândia, além de uma grande exposição montada no interior do prédio, que lembrou os principais momentos da casa. A celebração, patrocinada pelo Governo do Estado do Rio através da Secretaria de Estado de Cultura, começou pela manhã, quando cerca de três mil pessoas tiveram acesso ao interior do Theatro Municipal para ver a exposição que reúne fotos de seus grandes momentos, além de documentos, programas e gravações. Às 14h, começaram as apresentações da Orquestra Sinfônica, do Coro e do Ballet do Theatro Municipal. As principais estrelas do Corpo de Baile do Theatro Municipal estiveram presentes, incluindo a consagrada bailarina Ana Botafogo. A programação teve trechos de “Floresta Amazônica”, “O Corsário” e “Coppelia”. Já às 20h, com a presença de dois importantes nomes da música lírica internacional, o tenor argentino Marcelo Álvarez e a soprano coreana Sumi Jo, o Coro e a Orquestra Sinfônica do Theatro interpretaram um repertório franco-brasileiro, com regência do maestro Roberto Minczuk. O objetivo do programa foi lembrar as origens do histórico prédio, nascido no orescer da república brasileira e inaugurado no dia da celebração da queda da Bastilha. É também uma homenagem ao Ano da França no Brasil, comemorado esse ano. A comemoração pelo centenário de um centro de cultura tão importante para o Rio de Janeiro mexeu com políticos e autoridades. “Foi um instrumento fundamental de emancipação do povo. O Theatro Municipal é uma joia nicipal de Portas Abertas, que acontece todos os anos na data do aniversário da casa, foi comemorado mesmo com o prédio em obras. Pela manhã, o público pôde entrar no prédio para apreciar uma exposição montada aos trabalhos de restauração. A história do Theatro Municipal foi contada desde o projeto de sua criação, no início da década de 1900, até os dias atuais, por meio de um grande acervo de fotos digitalizadas. São aproximadamente mil fotos, além de vídeos e seis diferentes partes: os artistas célebres que passaram pelo palco da casa; os grandes espetáculos e eventos que zeram parte da programação do Municipal; documentos que contam a história da casa, como plantas, croquis e programas; imagens da construção do prédio; detalhes de peças decorativas, como as estátuas, vitrais e afrescos que se espalham pelo Municipal; e as personalidades que passaram por lá. Na exposição estavam imagens de artistas da música, da dança e das artes cênicas. São nomes como Enrico Caruso, Toscanini, Nijinsky, Fernanda Montenegro, Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek, Vinicius de Moraes, Tom Jobim e Oscar Niemeyer. A partir das 14h, entraram em cena os bailarinos do Corpo de Baile do Municipal. Eles apresentaram trechos de vários balés consagrados. Os principais dançarinos da companhia como Márcia Jacqueline, Nora Esteves, Filipe Moreira e Cícero Gomes estavam em cena. Às 20h, teve início o grande concerto da noite, com a Orquestra do Theatro Municipal, regida por Roberto Minczuk, e a participação do Coro do Theatro, além dos cantores líricos Marcelo Álvarez e Sumi Jo. O público ainda assistiu a mais dois números de dança dentro desse show especial. No programa noturno, Ana Botafogo e Francisco Timbó dançaram um trecho de “Floresta Amazônica”, com coreograa de Dalal Achcar; e, para encerrar, foi apresentada a peça “Grand Finale”, também coreografada por Dalal Achcar, reunindo no palco Ana Botafogo, Cláudia Mota, Márcia Jaqueline, Francisco Timbó, Filipe Moreira, Cícero Gomes e o Corpo de Baile. Durante as apresentações, os bailarinos foram acompanhados pela orquestra e pelo coro do Theatro Municipal, além da cantora Sumi Jo, que interpretou “Canção de Amor”, de Villa-Lobos, na apresentação de “Floresta Amazônica”.

Theatro Municipal

“ Floresta Amazônica”, de Villa-Lobos, é encenada em comemoração aos cem anos de Theatro

THEATRO MUNICIPAL: CEM ANOS DE GLÓRIA

1

2

3

4

5

6

7

8

9

1. Ballet Corpo de Baile do Theatro Municipal. 2. Getúlio Vargas no Carnaval de 1951. 3. Leskova, Tatiana e Tamara-Taumanova no Theatro Municipal. 4. Cacilda Becker, Manoel Bandeira e Cleyde Yaconis. 5. La Travia a de Ze reli de 1979. 6. Orquestra com Violeta Coelho Ne o de Freitas. 7. Funcionários na década de 60. 8. Postal colorizado do Theatro Municipal. 9. Postal do Theatro Municipal com a Praça Marechal Floriano, no Rio

da coroa do Rio de Janeiro. Comemorar o seu centenário é comemorar história e emancipação com o prazer que o Theatro gera ao nosso povo”, festeja o governador do Rio, Sérgio Cabral. A secretária de Estado de Cultura, Adriana Rattes, também não cansou de tecer elogios ao prédio histórico. “O Theatro Municipal é um pilar da cultura brasileira e poder comemorar seu centenário com uma reforma histórica, que o devolverá a seu viço original, é também uma forma de homenagear o trabalho de todos os artistas que trabalharam ou trabalharão no teatro e de presentear o público do Rio de Janeiro”, celebra. A celebração do centenário do Theatro Municipal incluiu,

também, os lançamentos de uma moeda e um selo comemorativo da data. Diversos funcionários da casa foram homenageados por serviços prestados em um cerimônia que contou com a presença dos atores Sérgio Britto e Fernando Eiras. “É uma honra e um presente estar à frente do Theatro num momento tão importante de sua história, conduzindo uma obra que vai devolver ao Municipal toda a nobreza que ele tem e que merece ter intacta. É muito bom poder estar ao lado da equipe bárbara que tenho aqui, essencial para que eu possa executar tarefas tão importantes, não só na parte da programação, mas como todo o trabalho de restauração, que

é muito delicado. É um orgulho estar aqui neste centenário. Agradeço a secretária Adriana Rattes e o governador por terem entregue a joia da coroa em minhas mãos”, diz Carla Camurati, presidente da Fundação Theatro Municipal. No momento, o teatro passa não só por uma reforma em sua parte estrutural (hidráulica, elétrica, etc), como também por uma grande modernização. A ideia é reabrir o Theatro Municipal para o público em novembro com todo o charme centenário do prédio intacto, mas com um atendimento ao público e aos artistas dignos do atual século. PROGRAMAÇÃO O tradicional Dia do Mu-

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

Festlip promove intercâmbio cultural entre países lusófonos
Divulgação

Festivais
Espetáculo “Psycho” - texto de Valódia Monteiro e direção de Herlandson Lima Duarte De Guiné Bissau: - Grupo Teatro do Oprimido – Bissau GTO Espetáculo “Nó Mama – Frutos da Mesma Árvore” De Moçambique: - Grupo M’BEU Espetáculo “O Homem Ideal” texto e direção de Evaristo Abreu - Grupo Tijac Espetáculo “Mar Me Quer” texto de Mia Couto e direção de Mickael Fontaine De Portugal: - Companhia Teatral Primeiros Sintomas Espetáculo “Lindos Dias” - texto de Miguel Castro Caldas e direção de Bruno Bravo - Companhia Teatral Artistas Unidos Espetáculo “Uma Solidão Demasiado Ruidosa” - texto de Bohimil Hrabal e direção de Antônio Simão

17

Por Daniel Pinton
Se por um lado a aplicação do Novo Acordo Ortográco da Língua Portuguesa trouxe a equiparação da escrita entre os países colonizados por Portugal, a segunda edição da Festlip (Festival de Teatro da Língua Portuguesa), ocorrida de entre os dias 2 e 12 de julho, no Rio de Janeiro, celebrou as diferenças culturais entre Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e Portugal. Além de 11 espetáculos teatrais, abertos ao público, encenados por grupos destes países no Espaço Sesc, no Sesc Tijuca e no Teatro Sesc Ginástico, eventos temáticos foram promovidos pela cidade em busca de maior intercâmbio de informações entre os representantes da língua lusófona. “Um dos objetivos do festival é justamente tornar possível este diálogo entre as linguagens de trabalho em diferentes culturas, de tornar viável um encontro de irmãos de língua para uma comunicação sem fronteiras. Se a unicação do idioma é uma questão complexa, a unicação pelo teatro também é, mas tem se tornado realidade. Através das artes cênicas, pode-se reetir sobre esta questão. A ideia é, inclusive, criar um banco de dados com os

ESPETÁCULOS ENCENADOS
De Angola: - Grupo Elinga Teatro Espetáculo “Kimpa Vita: A Profetiza Ardente” - texto e direção de José Mena Abrantes - Grupo Horizonte Nzinga Bandi Espetáculo “Sobreviver no Tarrafal” - texto de Antônio Jacinto e direção de Adelino Caracol Do Brasil: - Cia. Luna Lunera (Belo Horizonte-MG) Espetáculo “Cortiços” - concepção da Cia. Luna Lunera e Tuca Pinheiro e direção de Tuca Pinheiro - Cia. de Teatro Antroexposto (São Paulo-SP) Espetáculo “Complexo Sistema de Enfraquecimento as Sensibilidade” - texto e direção de Ruy Filho De Cabo Verde: - Grupo de Teatro do Centro Cultural Português de Mindelo Espetáculo “No Inferno” - texto e direção de João Branco - Companhia de Teatro Solaris

Mia Couto é o homenageado e ganhador do Troféu Festilip-2009

atores de língua portuguesa e, no futuro, dar origem a uma cooperativa de prossionais de teatro”, projeta Tânia Pires, idealizadora e produtora do Festlip. O movimento artístico do festival, no entanto, não cou restrito apenas aos palcos teatrais. No dia 4 de julho, o Estrela da Lapa recebeu o Festlipshow, uma série de apresentações musicais com artistas lusófonos como Fidjus e Mario Lucio, de Cabo Verde; Abel Duerê, de Angola; DJ Falcão e Bongar – Coco da Xambá, do Brasil. A gastronomia dos países também se fez presente desde a abertura do fes-

tival e pode ser conferida até o dia 31 de julho, durante a Mostra Gourmet – O Sabor da Língua Portuguesa, no Restaurante 00 Cozinha Contemporânea, na Gávea (anexo ao Planetário). “Ainda existe, no Brasil, o não despertar para o conhecimento e consumo das culturas dos nossos irmãos de língua. Enquanto isso, a cultura brasileira adentra sem grandes diculdades e permeada de aplausos em todos os países da língua lusófona. Na primeira edição do Festlip, cou claro que a unicação da língua falada é algo intangível. A peculiaridade das expressões e vocabulários

é a referência mais forte de um povo. Essa distância só tem um caminho a ser quebrada, através do intercâmbio cultural entre esses países”, justica Tânia. Nesta edição do festival, o homenageado e ganhador do Troféu Festlip – 2009 foi o pre-

miado escritor e dramaturgo moçambicano Mia Couto, protagonista de expressiva contribuição e aprimoramento do teatro em seu país. O prêmio revelação cou com o grupo português Artistas Unidos pela peça “Uma Solidão Demasiado Ruidosa”.

Com sucesso, FIL leva programação multicultural a São Paulo
A sétima edição do FIL (Festival Internacional Intercâmbio de Linguagens) não apenas trouxe mais uma vez ao público carioca seu anual conceito holístico de arte, mas também, pela primeira vez, levou a São Paulo sua programação multicultural. Celebrando o Ano da França no Brasil, o evento apresentou, entre os dias 2 e 7 de julho – no Rio de Janeiro –, e entre 7 e 12 de julho – em São Paulo –, grupos teatrais nacionais e franceses. Na edição carioca, participaram sete companhias francesas, sete companhias brasileiras - com direito a um work in progress de binacionalidade, quatro ocinas gratuitas, uma mesa-redonda e um workshop. Os espetáculos foram encenados no Centro de Referência Cultura Infância/ Teatro Municipal do Jockey, no Centro Cultural Banco do Brasil (Teatros 1 e 3), Teatro Planetário, Teatro da Caixa Econômica Federal, Centro Cultural Oi Futuro e Teatro Carlos Gomes. “A resposta do público foi acima da esperada. Tivemos muita procura. Cada vez mais buscamos trabalhos que mostrem inovação e ousadia sempre aliados ao renamento da percepção do imaginário e das agradáveis sensações humanas. Desta forma, nosso festival é el ao público já conquistado e abre as portas e jaJackeline Negri

ESPETÁCULOS APRESENTADOS
- Cia. Caixa do Elefante (Rio Grande do Sul) Espetáculo “Banda Salsicha Recheada” - criação de Cia. Caixa do Elefante - Cia. Eolienne (França) Espetáculo “Les Jardins d’Eden” - direção de Florence Caillon
“ A lenda do príncipe que tinha rosto” fez sucesso no festival

e direção de Fernando Escrich - Cia. Scénes de Cirque (França) Espetáculo “9.81” - roteiro, performance e direção de Eric Lecomte - Cia. de Teatro Artesanal (Rio de Janeiro) Espetáculo “A Lenda do Príncipe que tinha Rosto” - texto de Gustavo Bicalho e direção de Gustavo Bicalho e Henrique Gonçalves - Cia. Teatro Jovem (Rio de Janeiro) Espetáculo “O Homem da Cabeça de Papelão” - texto de João do Rio adaptado por Eduardo Bakr e direção de Tadeu Aguiar - Cie Arcosm (França) Espetáculo “Lulu et la Malle Aimée” - roteiro, performance e direção de Eléonore Guisnet-Meyer - Fábulosa Cia. de Bonecos (Belo Horizonte) Espetáculo “João e o Pé de Feijão” - texto de Charles Perrault adaptado por Eduardo Felix e Márcio Gouvêa e direção de Junia Melillo - Fedegunda (Rio de Janeiro e França) Texto e direção de Karen Acioly

nelas para os novos espectadores. Nossa intenção é a mistura. O encontro possível de linguagens, público e gerações. Só é possível transmitir cultura e identidade se a recebermos desde pequenos”, comenta Karen Acioly, idealizadora e diretora-artística do FIL. Em São Paulo, apesar do número menor de apresentações e do período mais curto de exibição do festival, o FIL deu, em sua estreia, seu primeiro passo em busca de popularizar o evento na cidade com a exibição dos espetáculos “A Lenda do Príncipe que tinha Rosto”, do Brasil; “Fedegunda”, binacional; e “9.81”, “Lulu et la Malle Aimée”, “Un Petit Chaperon Rouge” vindos da França. “No ano passado tivemos um público de 14 mil pessoas. Estamos muito felizes por chegar a São Paulo. Mesmo que em um formato tímido, foi um espetáculo. Su-

perlotou. Queremos plantar uma semente. Mostrar o que se produz de diferente e inovador para toda a família”, explica Karen. Mesmo com o sucesso do FIL na chegada à mais nova sede do evento, a organização do festival descarta incluir mais uma cidade, por enquanto, para suas apresentações. A ideia é primeiro consolidar o festival em São Paulo para, depois, seguir para outros locais, assim como aconteceu quando começou no Rio de Janeiro, em 2002. Para 2010, o festival volta a receber grupos não apenas vindos da França, mas também de nacionalidades diversicadas. “Convidaremos grupos de vários países. Ano que vem nosso formato volta ao normal e queremos uma presença bem forte da nossa brasilidade e da América Latina”, projeta a idealizadora. (Daniel Pinton)

- Cia. Étant Donné (França) Espetáculo “Papotages – Tagarelices” - criação de Frédérike Unger e Jérôme Ferron Espetáculo “ZigZag” - criação de Frédérike Unger e Jérôme Ferron - Cia. Florence (França) Espetáculo “Un Petit Chaperon Rouge” - direção de Florence Lavaud - Cia. Jérôme Thomas (França) Espetáculo “Duo” - performance de Jérôme Thomas e Jean François Baez e direção de Jérôme Thomas - Cia. Mamulengos Só Riso (Recife) Espetáculo “Folgazões & Foliões” - texto e direção de Fernando Augusto Gonçalves - Cia. Le Plat du Jour (São Paulo) Espetáculo “Chapeuzinho Vermelho” - texto de Le Plat du Jour

18
Festivais

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

PORTO ALEGRE
Porto Alegre em Cena divulga a programação de sua 16ª. edição, com mais de 50 espetáculos
tralização da cultura e ruas de Porto Alegre. A 16ª edição promete não ser diferente. O espetáculo Quartett, do diretor Bob Wilson, será protagonizado pela atriz francesa Isabelle Huppert, encerrando o evento, nos dias 23, 24 e 25 de setembro, no Teatro do Sesi, com capacidade para 1.790 pessoas. Outra estrela internacional que brilhará na capital gaúcha é Patrice Chéreau, marcando o Ano da França no Brasil. Entre os grupos nacionais destaca-se Amok Teatro, com a peça O Dragão, retratando o conito entre palestinos e israelenses, a dança Dolores (do Mimulus, de Belo Horizonte), livremente inspirado na obra de Pedro Almodóvar e os balés Les Noces e Serenade, da São Paulo Cia de Dança. Também vão concorrer ao Prêmio Braskem (um dos patrocinadores desta edição) dez espetáculos locais. “O evento colocou a capital gaúcha no mapa mundial, trazendo alguns dos melhores encenadores do século 20. O Em Cena foi crescendo de importância, é assim que se trabalha a arte”, arma Luciano Alabarse, curador e coordenador do festival. Na coletiva de imprensa, realizada no dia 7 de julho, no Solar Paraíso, em Porto Alegre, estiveram presentes autoridades locais, como o prefeito da cidade, José Fogaça, o secretário municipal da cultura, Sergius Gonzaga, um dos homenageados, Luiz
Fotos: Divulgação

S U C E S S O S M U N D I A I S N O S PA L C O S D E

Por Adriana Machado Fanáticos, apreciadores ou simplesmente simpatizantes do teatro devem car atentos e anotar na agenda a extensa programação prevista entre 8 e 21 de setembro. Nestes dias, a capital gaúcha será, literalmente, palco de mais de 50 espetáculos, entre nacionais e internacionais, da 16ª edição do Porto Alegre em Cena, festival organizado pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre e que ganhou projeção fora do País graças à excelência de sua programação. Prova disso é ter sido selecionado, este ano, pelo Ministério do Turismo, como um dos grandes eventos geradores de uxo turístico e propagação da imagem positiva do Brasil. Realizado pela prefeitura da capital gaúcha, o Em Cena traz, anualmente, reconhecidas montagens (incluindo de música e dança), muitas delas com diretores e atores que raramente vêm ao Brasil, além de mostrar um signicativo recorte da cena local. O Théâtre du Soleil, presente na programação do Em Cena, em 2007, é um dos exemplos, assim como as vindas de Peter Brook, Nekrosius e a grande atriz argentina Norma Aleandro, entre tantos outros encenadores, atores, bailarinos e musicistas. Esses espetáculos movimentam a cidade durante duas semanas e ocupam teatros, espaços públicos das regiões da descen-

“Rainha(s) - Duas atrizes em busca de um personagem” será destaque

DIVERSIDADE CULTURAL PARA TODOS OS GOSTOS
“ O Dragão”: Guerra gera reexão

Paulo Vasconcellos, jornalistas, diretores e atores locais. Segundo Fogaça, o Porto Alegre em Cena liga a cidade com o que há de ponta no mundo cultural do planeta. “O evento ganhou signicado nos últimos anos pela elevação dos seus espetáculos”, acrescentou o prefeito. “É sempre importante revolucionar a cidade, compartilhar a energia criadora, esta lava vulcânica repleta de muitos diálogos e atores fora do País”, completou Carlota Albuquerque, diretora da Terpsí Teatro de Dança. Luiz Paulo Vasconcellos, por sua vez, gostou da programação. “O mais importante de tudo é surpreender”, disse. O diretor teatral até citou a presença do espetáculo gaúcho “O Sobrado” como uma escolha acertada.

Adaptação de Lya Lu , “O silêncio dos amantes”aborda as dores da falta de comunicação humana

França e Canadá serão os dois países mais presentes e representativos do 16º Porto Alegre em Cena. Sem desmerecer os espetáculos nacionais, com certeza a atração mais importante é a peça Quartett, que trará pela primeira vez um espetáculo de Bob Wilson para o Estado, ao lado de grandes nomes do teatro mundial, integrantes da programação em edições anteriores, tais como Peter Brook, Eimuntas Nekrosius e Frank Castorf e Ariane Mnouchkine. A montagem francesa de Quartett, texto do alemão Heiner Muller, será marcada pela presença da atriz Isabelle Hupert, presença marcante em filmes cinematográficos. Outra presença francesa é a do cineasta Patrice Chéreau, do filme Rainha Margot (1994), atuando como ator em O Grande Inquisidor e dirigindo sua atriz fetiche, Dominique Blanc, em La Doleur, adaptação de obra de Marguerite Duras. Do Canadá são três as opções: Crépuscule des Océans, da companhia Daniel Léveillé Danse; In Paradisum, da Coleman Lemieux & Compagnie´s, e Kiss Bill (paródia do filme Kill Bill), da portuguesa radicada no Canadá, Paula Vasconcellos. Crépuscule é a terceira obra de uma trilogia do coreógrafo canadense Daniel Léveillé. A montagem utiliza corpos musculosos onde cada movimento pode ser percebido. Os bailarinos entram em cena nus ou com roupas de baixo e executam com maestria movimentos ora sutis, ora enérgicos. Tudo sob a trilha sonora das Sonatas Para Piano, de Beethoven, que dão o clima que a peça essencialmente lírica pede. Léveillé é um dos mais conceituados coreógrafos canadenses e sua marca é o vigor físico dos seus bailarinos. O espetáculo In Paradisum, ainda do Canadá, também é dança e uma criação do coreógrafo James Kudelka, montagem cheia de emoções fortes, técnica, humor, sutilezas e olhares marotos, num espetáculo que mostra os bailarinos em duetos, exaltando o amor. Mas o 16º Porto Alegre em Cena trará também algumas curiosidades e outras inovações cênicas, como a apresentação do teatro de bonecos, representado por Giacomina em Voyage, da companhia Is Mascareddas, vinda da Sardenha, na Itália, numa homenagem à ópera de Eugênio Tavolana e Tosino Anfossi. Outra é a montagem uruguaia de um texto brasileiro de Nelson Rodrigues, Los Siete Gatitos, dirigido por Sergio Lazzo. Do mesmo país vem El Ultimo Fuego, da dramaturga alemã Dea Loher, numa visão da realidade atual: a insegurança, o terrorismo, a violência, as drogas e um universo caótico espremido num espaço fechado. Da Argentina, as atrações são Luisa de Estrella contra su Casa, do diretor Ariel Farace, que constrói um retrato da solidão utilizando um cotidiano repetitivo e metódico. Da Colômbia vem Simplesmente el fin Del Mundo, onde, depois de muitos anos de ausência, homem volta para anunciar sua morte para a família, acertar contas e retomar assuntos pendentes antes de desaparecer, com direção de Manuel Enrique Orjuela Cortés. E do Chile, o grupo Teatro em el Blanco apresenta duas peças: Diciembre (obra de ficção política) e Neva, livremente inspirada no histórico massacre nas ruas da cidade, fato conhecido como Domingo Sangrento. Não menos importantes, a programação contará também com as atrações nacionais em espetáculos vindos de diversas regiões do País tais como Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, São Paulo, Pernambuco, Bahia, Rio Grande do Sul, Belo Horizonte, Goiás e Rio Grande do Sul. Os temas abordados são os mais diversos possíveis, espetáculos livremente inspirados em grandes obras (Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa), e no trabalho de dramaturgos no porte de Nelson Rodrigues e William Shakespeare, em histórias marcantes, surpreendentes, ousadas, que farão refletir e emocionarão o público de todas as maneiras.

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

19
Formação

Da Bahia para o Brasil
Em agosto, a Escola de Teatro da UFBA (Universidade Federal da Bahia) comemora 53 anos de funcionamento. Criada em 1956, foi a primeira do Brasil construída dentro de um espaço universitário e ligada a uma instituição de nível superior. Outro ponto de destaque da escola baiana é o fato de ser a única do País a possuir quatro espaços de artes separadas. Na instituição, é possível encontrar, além da graduação em teatro, a formação em dança, música e a escola de belas artes. O antes e o depois da criação da Escola de Teatro da UFBA modica totalmente a história do teatro baiano, já que sua existência tem proporcionado novas possibilidades para que o papel do encenador, tipos de atuação e o uso da iluminação elétrica sejam trabalhados sistematicamente nas artes cênicas de Salvador. O projeto, na época inovador, foi idealizado pelo reitor Edgard Santos, que buscou a identidade da universidade a partir da cultura e da arte, bem como sua integração com a ciência. Para concretizar seus objetivos, o reitor convidou o diretor e cenógrafo Martim Gonçalves para dirigir o espaço artístico-pedagógico que ajudou a prover uma formação universitária e artística experimental e prossionalizante, modelar e, sobretudo, contemporânea. De acordo com o dramaturgo, arte-educador e doutor em artes cênicas pela UFBA Raimundo Leão, o vínculo à universidade deu maior ascensão à escola. “É possível comprovar isto pela documentação existente e registros dos jornais e revistas da época”, explica. O que, para ele, possibilitou, também, que outras instituições universitárias se mobilizassem para criar cursos de teatro. Leão explica que, inicialmente, a Escola de Teatro funcionou no porão da reitoria. Depois passou a ocupar o casarão onde hoje está situada uma unidade da Residência Universitária. Atualmente ocupa o casarão do antigo Solar Santo Antônio. O edifício é um projeto do arquiteto Rossi Baptista, construído para ser a residência do comendador Bernardo Martins Catharino. Nos anos 1940, funcionou nas instalações de um antigo hotel. A construção foi adaptaFotos: Divulgação

Criada em 1956, Escola de Teatro da UFBA foi a primeira do País ligada a uma instituição de nível superior
Por Carla Costa
ção”, diz Raimundo. À frente da Escola de Teatro desde 2008, o diretor Daniel Marques explica que a escola de teatro possui três habilitações (direção, interpretação e literatura) lecionadas em sete semestres. Nos últimos anos, a instituição recebeu nota máxima (seis) na avaliação realizada pela Capes, em sua pós-graduação (Mestrado e Doutorado), assim como nota máxima (cinco) em seus cursos de g-raduação, avaliação realizada pelo Guia do Estudante, publicação que há 12 anos avalia as instituições de ensino superior brasileiras. “A Escola de Teatro da UFBA é hoje, assim como no passado, um centro de referência da arte teatral no Brasil”, arma. O gestor revela que o número de inscritos no processo seletivo deu um salto dos anos 90 para cá. Para ele, o aumento na procura, ao passar dos tempos, é o reexo da mudança da sociedade que, no decorrer dos anos, mais precisamente após a ditadura, passou a dar mais atenção às áreas sensíveis e desperta o interesse na formação de ator. “A gente não quer só comida, diversão e arte! Ainda bem que o homem do século XX é um homem completo e que tem ânsia por diversão”, arma Daniel. Anualmente, cerca de 20 espetáculos são montados por professores, alunos e artistas convidados. As apresentações são realizadas nos espaços culturais da cidade, mas para o diretor, ainda assim, é quase que impossível a inserção desses prossionais no mercado de trabalho. “É difícil, não só aqui em Salvador, que os atores e diretores, mesmo após a formação na faculdade, consigam emprego e possam se sustentar ao longo da vida. Digo para meus alunos essa realidade e sempre deixo claro que eles devem sempre fazer um trabalho diferenciado, criativo e, acima de tudo, honesto”, diz. Daniel revela que, para ele, o principal motivo para a falta de emprego é a falta de vontade política. “Deveria ser realizado um encaminhamento melhor dos alunos para a prossão. Por que não criam concursos públicos para que os estudantes formados passem a ensinar a alunos de escolas públicas? É tão simples resolver isso, mas ninguém faz nada”, desabafa o educador.

Escola de Teatro da UFBA é única do País a possuir quatro espaços de artes separados

Teatro baiano pode ser dividido entre o antes e o depois da UFBA

da e aparelhada para ser a escola, construindo-se o Teatro Santo Antônio – inaugurado em 1958. A encenação de “Senhorita Júlia”, texto de August Strindberg, sob a direção de Martim Gonçalves, marcou a abertura da nova sede. A partir desse momento, o pequeno teatro concentrou as produções do grupo A Barca da Escola de Teatro. Após os sete anos de reforma, o teatro foi totalmente reestruturado e reformado, passando a ser chamado Martim Gonçalves, em homenagem ao seu primeiro administrador. Ao longo de sua trajetória, a instituição passou por diversas fases e esteve sempre presente na vida cultural da cidade. Por ela passaram diversos nomes de destaque no cenário artístico brasileiro como os atores Milton Gonçalves, Roberto Assis, Nilda Spencer, Geraldo

DelRey, Lia Mara, João Gama e Othon Bastos. “Estudar aqui foi uma das coisas mais importantes da minha vida. Eu tive a sorte de aprender com ótimos prossionais e hoje, como professor desta unidade, faço questão de manter a qualidade de ensino que tive”, revela o ex-aluno da Escola de Teatro nos anos 60, Arildo Deda. Mesmo nos momentos de crise, o teatro não deixou de apresentar a sua produção artístico-pedagógica ao criar um estreito vínculo não apenas com o público universitário, mas acolhendo diversos segmentos da população soteropolitana. “De 1956 até o surgimento da Sociedade Teatro dos Novos (1959), responsável pela construção do Teatro Vila Velha, a Escola de Teatro foi o centro irradiador da produção teatral baiana”, explica Rai-

mundo Leão. Segundo ele, depois da criação da Escola de Teatro, pensando no teatro que se fez na Bahia, houve uma mudança radical na maneira de se encenar. “O espetáculo tomou outra dimensão e fazer teatro deixou de ser uma atividade diletante para se tornar uma prática organizada por outros códigos. As plateias passaram a ver espetáculos de qualidade estética inegável”, frisou. Atualmente, Salvador possui cinco escolas de teatro, além das ocinas que são ministradas em outros espaços e acontecem durante todo ano, proporcionando o contato dos interessados com os temas e conteúdos da arte teatral. Para Leão, não existe diferença entre o que se ensina nas escolas de teatro do eixo Rio-São Paulo. Ele explica que pode haver apenas diferenças de disciplinas ou no conteúdo didático, além da disponibilidade de instituições de ensino para o exercício da atividade. “O que há de peculiar no Sul é a quantidade de espaços destinados ao ensino do teatro, tanto os públicos quanto os particulares. Ao cursar o bacharelado e a licenciatura, o aluno recebe um cabedal de informação que lhe dá segurança para atuar e produzir conhecimento na área, isso incluindo os programas de pós-gradua-

20
Opinião
Por Gerson Esteves Outro dia eu vi uma entrevista no Jô com aquela atriz que foi modelo. (Como é o nome dela? Não tem importância.) É uma que faz sempre e só novelas do mesmo autor, dirigidas pelo mesmo diretor. Essas novelas que têm homem sem camisa o tempo todo. O negócio é que ela estava lá ridicularizando os cursos de teatro que zera nos anos 70 nos States. E sacaneou com o Living Theatre! Logo o avô do teatro alternativo, o pai do offbroadway, uma das grandes invenções do teatro norte-americano no século XX (houve teatro americano antes do séc. XX?). Ficou um tempão fazendo piada dos exercícios, da pesquisa, das ferramentas de descoberta de uma nova cena, de um novo tipo de ator, mais corporal, por vezes mais visceral e talvez até menos técnico. Um ator criativo e, sobretudo, senhor da sua criação. Então me lembrei da Judith Malina e do Julian Beck, fundadores do Living Theatre. A Judith Malina é a memorável vovó da “Família Adams I”. E o Julian todo mundo conhece como aquela gura assustadoramente magra no “Poltergeist 2”. Pois é... Eles revolucionaram o teatro e caram lembrados por esses dois lmes de segunda! São os mistérios

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

Pensamentos insignicantes sobre os tais laboratórios
da mediocridade, do lugarcomum, do esculacho que é a memória cultural de todo canto, em qualquer lugar. Entre nós, é inevitável lembrar-se de nomes como o de Maria Alice, que cou conhecida pelo grande público como a velhinha que andou dando uns tapas na Pantera! A Maria formou artistas, participou da montagem histórica do “Rei da Vela” no Ocina, fundou os dois núcleos do Teatro do Ornitorrinco, se apresentou por todo o mundo, fez cinema e até deu o ar da sua graça na TV. E ca reduzida a uma bizarra velinha maconheira!? Uma grande brincadeira, claro. Que ela só topou graças à sua conança na juventude e nas novas ideias. À sua maravilhosa loucura sã! Em sua autobiograa nãoautorizada, Maria diz: “Os artistas tendem a intuir o futuro, deixam o inconsciente livre, permitem o vir-a-ser. Isso me torna aventureira, sabendo que ninguém é dono de uma única verdade, e eu deixo uir a minha intuição, gozo com ela principalmente quando encontro um outro que também embarca nessa... Percebo nisso um caráter espontâneo de solidariedade. Tudo já foi dito de outras maneiras. A gente, no máximo, pode reorganizar aquilo que já foi expresso. Dessa forma poderemos sempre completar o que o outro começou. O “ser mestre” é a gente começar a perceber que nossa vivência é mais épica do que psicológica. O ator é um privilegiado. A vontade de ser ator é o desejo de se desprender. Quem estiver numa boa escola ou grupo de teatro não precisa fazer terapia.” É a mesma loucura que movia a Myriam Muniz. Um dia eu a vi, numa sala de aula, protagonizar uma das cenas mais fortes e delicadas que já presenciei no ensino do teatro. Ela colocou um jovem ator em pé e disse pra ele com a sua voz italianadamente rouca, de quem fumava e bebia uma boa cervejinha... Ela disse: “eu vou fazer uma coisa em você e você reage”. Daí ela pôs as mãos no peito do jovem e deu um empurrão. A reação dele foi apenas de afastamento. Ela deu um passo em direção a ele e deu outro empurrão. Novo afastamento. Isso se repetiu algumas vezes até que ela começou a bater o pé e o jovem começou a car acuado. Num dado momento, ele começou a correr em círculos e ela correndo atrás dele. Até que ela parou, virou-se e apenas esperou que ele viesse correndo até o seu encontro, completando o círculo. Nesse instante, diante do susto do aluno ao dar de cara com a mestra, ela o amparou e disse
Fotos: Divulgação

Gerson Steves tem 25 anos de atividades teatrais na cidade de São Paulo, tendo atuado como diretor, dramaturgo, ator, produtor e professor. Portanto, fez muita pesquisa na vida.
com a mesma voz, só que ternamente: “você só sabe fugir, né? Não precisa ter medo... isso aqui é só teatro... é tudo de brincadeirinha, bobo!” Judith Malina, Maria Alice e Myriam Muniz... todas fundadoras, atrizes e diretoras de um teatro vivo, investigativo, instigante. Um teatro sem verdades absolutas, sem certezas. De onde brotam as dúvidas, de onde saem as respostas, de onde nascem as verdadeiras obras de arte e os grandes atores – e não a pasteurização dos enlatados. É por essas e mais aquelas que prero não usar a palavra que arrepia – laboratório. Nunca usei. Sempre optei pelos termos pesquisa, investigação, experimentação. Um velho professor dizia mais ou menos assim: “nos anos 60 a gente fazia tanto laboratório... misturava os ingredientes, não anotava a fórmula nem as condições de experimentação... feito cientista maluco que, um dia, acaba mandando tudo pros ares!”

A experiência de quem viveu a loucura (nos palcos)
Por Gabriel Miziara “Loucura” é um espetáculo que advém de uma pesquisa sobre este tema que a mim sempre foi inquietante. O “louco” muitas vezes é colocado como um ser que perdeu o contato com a realidade e me pergunto: será? Ele pode simplesmente enxergar com novos olhos coisas que simplesmente não queremos olhar, dada a sua profundidade, sua intensidade. Um “louco” é um homem perdido em si, perderse em si é entrar no labirinto do Rei Minos sem o o de Ariadne, é encontrar o Minotauro, meio homem, meio bicho e ser devorado. A porção animal vem à tona e tudo que é imposto como bons costumes, regras sociais e acordos se desfazem. O “louco” de nosso espetáculo não segue as regras, não tem superego que lhe diga o que é certo ou errado, ele é id puro; pulsão e potência. Sempre tive na literatura uma aliada – poesia, prosa, dramaturgia, biograa – são mundos que se abrem, ampliam a imaginação do ator, nos colocam em lugares que sozinhos muitas vezes não visitaríamos. Nos apresentam facetas, espelhamentos de nós espalhados nas personagens e nas vidas de Shakespeare, Camus, Beckett, Brecht, Jung, Rilke, entre tantos outros. E foi a partir deste território, do imaginário desses autores, que nasceu o espetáculo. Conjuntamente com Marcelo Lazzaratto, diretor e mais que isso, um grande companheiro de vida e de palco, mergulhamos nesta pesquisa, entrevendo nas páginas desses autores trechos que iluminassem a “Loucura”. Seis meses depois, em dois ns de semana, entre pilhas de livros e textos, conseguimos o esqueleto dramatúrgico da peça. Optamos por a peça acontecer em uma revolução solar, ou seja, um dia na vida deste “louco” que nunca nomeamos, ele apenas é. O que se tem no palco é um tablado branco e um ator. Um dia esse “louco” foi colocado neste espaço – seria uma cela? – e ali é abastecido por livros, comida, um urinol para as necessidades siológicas e no momento de revolta uma camisa de força, claro. O que ele busca? Ele é um homem que avidamente se questiona, que purga suas dores através de palavras e circunstâncias alheias a ele. Nesse sentido podemos estabelecer uma relação desse louco com o trabalho de ator. Será que no ofício do ator, de algum modo não encontramos essa mesma busca? Importante salientar que durante o processo optamos por não fazer visitas a instituições psiquiátricas queríamos descobrir como a “loucura” em mim se manifestava. Em 2001 estreou “Loucura” monólogo da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico. Como escreveu Alberto Guzik em sua crítica no jornal “O Estado de São Paulo”: “Loucura é o mais verbal dos espetáculos físicos e o mais físico dos espetáculos da palavra”. O que é apresentado ao público em 50 minutos é pulsão e potência dentro de uma partitura física rígida e desta colcha de retalhos textual elementos que indicam a fragmentação deste homem. Contabilizo no corpo pontos no queixo, uma artéria estourada no braço, calos, luxações. Muitas vezes sai do espetáculo absolutamente esgotado física e mentalmente. Este território exige visceralidade, exige o não poupar-se. Levei sim “o personagem pra cama”, muitas noites de insônia, pesadelos, exaustão. Durante o período de ensaios muitas vezes zemos três “gerais” e o terceiro era sempre o melhor, pois desta exaustão brotava a verdade deste homem, exausto por debater-se consigo mesmo. Eu era muito jovem na época, estreei “Loucura” com 23 anos, recém saído do Teatro-escola Célia Helena – onde me formei e onde hoje dou aula. Olhando a trajetória desde a estreia até hoje e contabilizando mais ou menos 150 apresentações, o espetáculo foi se modicando, mas se modicando por dentro, visto que as inquietações mudam, novas perguntas são feitas. Em “Loucura” não procuramos responder, dar um diagnóstico sobre o tema e sim dividir perguntas, propor questionamentos. Muitas vezes escutamos que o espetáculo deveria se chamar “Sanidade” e não “Loucura”, exatamente por isso.

Gabriel Miziara é ator e diretor, membro da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico que ano que vem comemora dez anos de existência. “Loucura” foi seu primeiro monólogo.

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

21
Vida & Obra

Conhecido como um decifrador de brasilidades, o paraibano mais pernambucano do Brasil faz da arte um dom e encanta a todos
Chico Lima

SIMPLESMENTE IMPERDÍVEL
ABr

Ariano Suassuna:

Por Alysson Cardinali Neto “Arte, para mim, não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte, para mim, é missão, vocação e festa”. Assim pensa Ariano Suassuna, 82 anos, escritor, dramaturgo, músico, artista plástico, advogado, professor, pensador e tantas outras denições que possam explicar a personalidade e o talento deste que é considerado um decifrador de brasilidades. Nascido na Cidade da Parahyba – hoje João Pessoa (PB) –, em 16 de junho de 1927, Suassuna, desde a adolescência, dedica-se, de corpo e alma, à missão de fazer arte e levá-la a um povo faminto não só por comida, mas por conhecimento. Defensor militante da cultura do Nordeste, Suassuna, através de sua vocação para essa arte, extraiu o que há de melhor dela e, com estilo próprio, fez – e ainda faz – a festa de seus admiradores. Detalhe: que se espalham não só pelo Nordeste brasileiro, mas por todo o País, pelo mundo. O Movimento Armorial, criado por Ariano Suassuna, é um exemplo da complexidade e da genialidade de seu autor. O paraibano mais pernambucano do Brasil (Suassuna foi morar no Recife aos 15 anos e, lá, desenvolveu seus estudos – formouse em Direito, em 1950 e em Filosoa, em 1964) é o responsável pela criação de uma arte erudita a partir de elementos da cultura popular do nordestino – que é, antes de tudo, um forte, como dizia Euclides da Cunha. Foi através dos valores da região, com seu vasto arcabouço erudito e teórico, que Suassuna, com sua escrita, reuniu, ao mesmo tempo, elementos do simbolismo, do barroco e da literatura de cordel, fazendo do Sertão o palco ideal de questões humanas que se repetem em qualquer lugar do mundo. A “nordestinidade” está no sangue deste homem de formação calvinista e posteriormente agnóstico, que converteu-se ao catolicismo (gesto que marcaria denitivamente a sua obra) e começou a mostrar seus dons literários aos 18 anos de idade, quando escreveu o poema “Noturno”, publicado em destaque no Jornal do Commercio, do Recife, em outubro de 1945. Não demoraria para o teatro entrar em sua vida. Criador do Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP), Suassuna, entre 1946 e

Ariano Suassuna inspira, há decadas, jovens artistas, como os que encenam “Farsa da Boa Preguiça” em São Paulo

1953, sob inuência direta de Hermilo Borba Filho, começou a escrever peças e a construir uma obra modelar, referência obrigatória para todos os que desejam conhecer a dramaturgia nacional – fundaria, ainda, em 1960, o Teatro Popular do Nordeste (TPN). O romanceiro popular nordestino e a tradição mediterrânea são as características principais do teatro de Suassuna, que fundamentaram toda a concepção moderna de uma dramaturgia nordestina erudita. SALVE O “AUTO DA COMPADECIDA” Entre as suas inúmeras peças conhecidas (e premiadas), destaque para “O Auto da Compadecida”, de 1955, que projetou Suassuna em todo o País e fez o crítico teatral Sábato Magaldi denir a obra como “o texto mais popular do moderno teatro brasileiro”. Esta peça, aliás, abriu as portas da televisão e do cinema para o seu autor devido às adaptações para os dois meios. Outro exemplo do talento de Suassuna é o romance “A Pedra do Reino”, também adaptada para a televisão e que revelou outra faceta de Ariano: seu talento com as palavras. Talento que o levou a ocupar, desde 1990, a cadeira

32 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Por falar em palavras, Ariano, embora aclamado como um dos maiores dramaturgos e romancistas de língua portuguesa, é, também, um poeta de mão cheia. Sua produção poética acompanhou, durante muitos anos, a produção teatral. O estudo aprofundado da poesia popular foi – e ainda é – uma constante na vida deste homem, até porque é partindo principalmente dos folhetos do romanceiro popular nordestino que Suassuna encontrou o caminho para criar toda a sua obra teatral (seus primeiros poemas datam de 1946, 1947 e 1948 como “A Morte do Touro Mão de Pau”, “Beira-mar”, “Os Guabirabas”, “Encontro” e “A Barca do Céu”, entre outros). TRAGÉDIA NA INFÂNCIA A genialidade de Ariano Suassuna é conhecida (e reconhecida) mundialmente, mas sua vida nem sempre foi feita, apenas, de alegria. Uma tragédia familiar marca sua trajetória: a morte de seu pai, João Urbano Pessoa de Vasconcellos Suassuna, em 1930, no Rio de Janeiro. João Suassuna era deputado federal quando, por questões políticas ligadas à Revolução de 1930, foi assassinado. Ariano tinha, na época, três anos de ida-

de, mas viu seu destino ser alterado em razão deste fato. Viúva, a mãe de Ariano, Rita de Cássia Vilar, mudou-se com a família do Sítio Acauã, no sertão paraibano, para a cidade de Taperoá, na região do Cariri do estado. Devido à morte de João Urbano, porém, Ariano e toda a família, para fugir das represálias dos grupos opositores ao seu falecido pai, foram obrigados a fazer uma verdadeira peregrinação por inúmeras cidades antes de se xar no Recife, onde Suassuna daria início à carreira artística, embora, em Taperoá, tenha vivido sua primeira experiência com o teatro, ao assistir a uma peça de mamulengos e a um desao de viola – cujo caráter de improvisação marcaria a obre teatral de Ariano. Hoje secretário de Cultura de Pernambuco, Ariano Suassuna possui como meta apresentar e estimular a produção de uma arte de qualidade, com bases nas raízes do povo brasileiro. Arte de qualidade que é traduzida nas diversas peças do autor que, ainda hoje, são encenadas pelos mais variados grupos teatrais. A mais recente é a comédia “Farsa da Boa Preguiça”, de 1960, uma das mais importantes para o teatro brasileiro contemporâneo. Dirigida por João das Neves (um dos fundadores do Grupo Opi-

nião e que, este ano, completa 50 anos de carreira), com interpretação dos atores Guilherme Piva, Bianca Byington, Ernani Moraes, Daniela Fontan e grande elenco, a peça narra a história de Joaquim Simão (Guilherme Piva), poeta de cordel, pobre e “preguiçoso”, que só pensa em dormir (estará em cartaz a partir do dia 7 de agosto, no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado em São Paulo). Joaquim é casado com Nevinha (Daniela Fontan), mulher religiosa e dedicada ao marido e aos lhos. O casal mais rico da cidade, Aderaldo Catacão (Ernani Moraes) e Clarabela (Bianca Byington), possui um relacionamento aberto. Aderaldo é apaixonado por Nevinha e Clarabela quer conquistar Joaquim Simão. Três demônios fazem de tudo para que o pobre casal se renda a tentação e caia no pecado, enquanto dois santos tentam intervir. Jesus observa e avalia tudo. A partir daí, situações inusitadas e muito divertidas fazem deste texto uma das peças mais divertidas do teatro brasileiro. “Ao encenar esse texto queremos reverenciar o mestre Ariano Suassuna e sua obra. Queremos celebrar, com carinho e alegria, aquilo que somos: artistas do povo brasileiro”, resume João das Neves. Para Ariano Suassuna, a “Farsa da Boa Preguiça” tem outros focos mais importantes do que retratar, apenas, a preguiça. “Não defendo indiscriminadamente a preguiça — coisa que, aliás, não poderia fazer, pois ela é um dos ‘sete vícios capitais’ do Catecismo”, brinca Suassuna, feliz com o resultado obtido pela nova encenação de sua peça, indicada para todas as idades, inclusive jovens e adolescentes. “Farsa da Boa Preguiça” promove, também, o lançamento ocial do catálogo e do “Museu Digital Ariano Suassuna” (www. arianosuassuna.com.br), que apresenta todo o acervo do artista, distribuído em coleções e subcoleções, como bibliograa, exposições, manuscritos, entrevistas, correspondências, obras de arte, fotograas etc. Esse acervo, uma vez convertido em imagens digitais, amplia enormemente seu potencial de fruição, numa proporção impossível de ser atingida pelas visitas locais ao acervo físico. Um presente para os admiradores desse grande mestre e homem.

22
Internacional
Por Felipe Sil Algo inédito no meio teatral. Devido ao avanço da gripe A (H1N1) na Argentina, os teatros daquele país se encontram fechados desde o dia 6 de julho. A ordem partiu do Governo Federal, em conjunto com a associação local de empresários teatrais. A decisão foi tomada após semanas de salas vazias e de muito debate e polêmica na imprensa argentina sobre as medidas ociais tomadas até então (que não seriam unicadas). A Inuenza já causou a morte de 137 pessoas na Argentina (até o fechamento desta edição do JT). “Os teatros privados suspenderam todas as peças teatrais do país, mas não sabemos o que ocorrerá nos teatros estatais”, anunciou, em entrevista coletiva, Carlos Rottemberg, presidente da Associação de Empresários Teatrais, que reúne alguns dos maiores nomes do setor teatral. O dinheiro pago anteriormente deve ser devolvido.

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

Gripe A fecha as portas dos teatros na Argentina
Medida inédita é tentativa desesperada do Governo para deter avanço da Influenza
Para a Argentina, o fechamento de teatros é considerado um desastre no setor econômico cultural. Anal, julho é um dos melhores meses da atividade, por causa das férias de inverno, mas as projeções dos empresários são de queda de 70% nas vendas de ingressos, comparadas com julho de 2008. A associação também divulga que o surto da gripe no país diminuiu em 80% o número de espectadores nas salas. Especialistas em produção teatral armam que o período com as portas fechadas deve causar grandes prejuízos ao setor, na Argentina, que se reetirão por muitos meses. Para se ter ideia da gravidade do assunto, quando procurado pelo Jornal de Teatro para falar sobre o caso, o presidente da Associação de Produtores de Teatro do Rio (APTR), Eduardo Barata, limitou-se a dizer: “Sobre isso, prero nem comentar. Deus me livre um problema desses no Rio”. O avanço da inuenza na Argentina também levou à
Arquivo/JT

O Colón sofre com a nova gripe: 80% dos espectadores fora dos teatros

suspensão de outras atividades culturais, educacionais e esportivas, mesmo onde não houve proibições do governo. Ao menos 20 distritos da província de Buenos Aires cancelaram suas atividades públicas e ordenaram o fechamento de bares, danceterias, piscinas, ginásios, bingos, cinemas, te-

atros e museus. Praticamente estão interrompidas todas as atividades infantis, inclusive as relacionadas às férias de inverno. Outras programações tradicionais neste período no país, como o “Café Cultura Nación”, apresentações da Orquestra Nacional Argentina, balés, coral e bandas tam-

bém estão suspensas. Os cinemas continuam abertos. Há a recomendação, porém, de que os espectadores deixem uma cadeira vazia entre eles, o que é facilitado pela queda de público. Em boa parte do país, as autoridades locais chegaram a adiantar as férias escolares de inverno para conter as transmissões nas salas de aula. Aproximadamente dez milhões de estudantes tiveram o seu descanso estendido para ajudar a evitar que a doença se espalhe. O governo da presidente Cristina Kirchner ainda estuda outras medidas para evitar a propagação da gripe A (H1N1). No comércio varejista, há fortes receios de que a situação na Argentina chegue a um ponto extremo, que levará ao fechamento de todos os lugares públicos. Fato é que vários municípios no interior já cancelaram todas as atividades culturais, sociais e esportivas, além de terem fechado os estabelecimentos comerciais.

Jornal de Teatro

16 a 31 de Julho de 2009

23
Internacional

Direto de Londres, Adriano Fanti apresenta aos leitores do Jornal de Teatro detalhes da estreia do musical sobre Dorian Gray – clássico de Oscar Wilde. Já Luciana Chama aposta na modernidade. De Los Angeles ela divide algumas soluções encontradas por lá para difundir e promover o teatro na cidade.

West End, a place that boasts inspiration!
Dear all, Recentemente, o West End foi presenteado com mais uma obra inspiradora: uma adaptação de muito bom gosto baseada na famosa obra de Oscar Wilde, “O Retrato de Dorian Gray”. Em cartaz no Leiscester Square Theatre, a montagem envolve um elenco de cinco artistas multifacetados que se desdobram para dar vida à “Dorian Gray, a musical drama”. A obra conta a história de Dorian Gray, um jovem da alta sociedade inglesa do século XIX. Imerso em sua vaidade e anseios por juventude eterna, Dorian se apaixona por um retrato seu, pintado pelo amigo Basil Hallward. A paixão acontece depois que a personagem ouve do cínico e hedonista aristocrata Lord Henry Wotton os dizeres: “o senhor dispõe só de alguns anos para viver deveras, perfeitamente, plenamente. Quando a mocidade passar, a sua beleza ir-se-á com ela; então o senhor descobrirá que já não o aguardam triunfos, ou que só lhe restam as vitórias medíocres que a recordação do passado tornará mais amargas que destroçadas”. Tive a oportunidade de prestigiar a peça na estreia e conversar com o elenco na festa para a imprensa, após o espetáculo. Conversei em particular com a talentosíssima atriz Janna Yngwe, que interpreta Syble Vaine no espetáculo. Graduada pela conceituada Guildford School of Acting, Janna falou sobre as peculiaridades desta adaptação, onde todos os atores do espetáculo, além de atuar e cantar, também tocam instrumentos durante a peça. No caso de Janna, além dos números de dança, a apresentação acontece também com um violoncello e o piano presente em cena. O que mais me chamou a atenção nesta montagem que leva como subtítulo um drama musical é a na linha divisória entre teatro musical e teatro convencional (musical e straight bruscas entre canções e texto (tão frequentemente encontradas em pecas musicais) foram feitas de forma tão sutil que quase não é possível classicá-la como musical, e sim, como uma peça habitual com intervenções musicais. Isso é evidente na cena em que Dorian resolve escrever uma carta para Sybel Vaine, após esse lhe ter dito monstruosidades. Na cena, Dorian senta-se ao piano e escreve a carta em forma de uma canção. “A plateia mal percebe a transição entre texto e música”, conta Janna. Isso também se deve à direção de Linnie, que não mirou nenhuma das canções diretamente à plateia, dando um toque singelo aos números musicais. Um paralelo pode ser estabelecido entre “Dorian Gray, a musical drama”, e “A Little Night Music” (fabulosa obra musical de Stephen Sondheim) atualmente em cartaz no West End. Ambas trazem a Inglaterra vitoriana de emoções reprimidas como pano de fundo e

Adriano Fanti
Londres

“Dorian Gray”: musical e drama

play), que é onde a adaptação se encontra. A diretora da peça Linnie Reedman manteve intacto o estilo aristocrata inglês e vitoriano da obra, sem comprometer em momento algum o trabalho de Oscar Wilde. As transições

atores músicos. Mas, apesar de “A Little Night Music” também ter muitos elementos de teatro convencional em estilo e texto, as passagens entre canto e fala são mais estruturadas nos moldes de teatro musical. No entanto, são feitas de ótimo tom. Em geral, o espetáculo foi dirigido visando o total aproveitamento do elenco pequeno. Fica, sobretudo latente, quando Dorian em sua alucinação vê fantasmas em todos os cantos: a sensação é de que realmente há no palco o dobro de atores em cena. Esperta, Linnie economizou uma grana com contratação de atores...

Tupi or not tupi?
Luciana Chama
Los Angeles

Trocar cultura é um processo enriquecedor, então quero começar a entregar algumas dicas de serviços que rolam por aqui, que jogam a favor do público. Iniciando nesta coluna, de tempos em tempos sigo postando sugestões aos “teatrais” de plantão. Goldstar: trata-se de um serviço on-line que estimula pessoas a saírem mais de casa para assistir a teatro, música, dança, eventos esportivos e até wine tasting, aulas de sushi e rodeios. Como? A Goldstar trabalha diretamente com mais

de 3.200 casas de espetáculos espalhadas pelo país e oferece uma lista variada de ingressos com preços pela metade (ou às vezes até mais baratos) para seu mailing list. Ao invés de atolar a caixa de mensagens de seus membros com propagandas desinteressantes, o Goldstar seleciona as melhores dicas culturais e outras divertidas experiências com um acesso fácil e eciente. No site também se encontra notas e opiniões dos assinantes, e dicas de onde estacionar, como se vestir, onde comer, tudo para tornar a noite mais agradável. Para a casa de espetáculo, listar a sua atração com a Goldstar é mais eciente do que gastar tubos de dinheiro num anúncio de jornal, uma vez que o público alvo é garantido e concentrado. Já para o público, o serviço é cômodo, rápido, informativo e funciona! Minhas experiências com o site foram nota dez e pude conferir atrações de nível cinco estrelas como George Benson e Dia-

na Krall no Hollywood Bowl, “Spring Awakening” no Ahmanson Theatre e “Wicked” no Pantages Theatre. Mais detalhes no www.goldstar.com. Twitter: além de informar detalhes íntimos e afazeres do dia-a-dia das pessoas, o bemvindo Twitter é uma poderosa ferramenta de comunicação para quem sabe fazer bom uso dela. Mais uma vez, uma alternativa para quem não tem apoio para investir num anúncio de jornal ou revista, gastar umas horas em frente ao computador colecionando amigos pode se tornar bem lucrativo a médio prazo. A promoção no Twitter é para um público direcionado, seleto e o processo, claro, imediato. Carteirinhas: é verdade que ingressos para espetáculos ao vivo tem um custo um tanto quanto alto para a maioria dos bolsos, hoje em dia. No Brasil, boa parte deve-se à adorada e odiada carteirinha de estudante – ainda não deu pra entender

Arquivo Pessoal

Colunista dá (preciosas) dicas que podem servir para o teatro brasileiro

que o uso desse recurso como lei inexível praticamente dobra o preço dos ingressos? De qualquer forma, é sempre inteligente facilitar a compra e o acesso do público à cultura. Aqui na Califórnia, por exemplo, os programas de desconto para estudantes são encarados como incentivo por parte dos lugares que abrigam cultura;

por não ser uma obrigação, não são todas as casas e cinemas que oferecem desconto, e a redução do valor é de geralmente 10% da inteira, e não 50%. Ao menos dessa forma a carteirinha passa a ser vantagem não só para estimular o consumidor pelas artes, mas como o produtor a beneciar seu público.

24

16 a 31 de Julho de 2009

Jornal de Teatro

Aproveite as férias e conheça o Brasil.
Em qual cidade você pode passar as férias admirando esta beleza natural?
A( B ( C( D( ) Cuiabá, MT ) Manaus, AM ) Canela, RS ) Mata de São João, BA

Se você é brasileiro e não sabe a resposta, está na hora de conhecer melhor o Brasil.
RESPOSTA: C – CACHOEIRA DO CARACOL, CANELA, RS

VIAJE NAS FÉRIAS. É BOM PARA VOCÊ. É BOM PARA O BRASIL.

Consulte seu agente de viagem. www.turismo.gov.br