A LENDA DO GUARDA-CHUVA: PARTE 1 de como eu conheci Giuseppe Minerla, seu guarda-chuva e seu jeito estranho de ser

Giuseppe Minerla é um daqueles tipos dos mais esquisitos de se ver pela rua. Sempre andava com um guarda-chuva preto de ponta fina e prateada. Um casaco, estilo sobretudo preto e fino, porém que pelo calor sempre era carregado ao braço ou à mão. De olhos escuros grudados no rosto. Calças sempre compridas, sempre do mesmo tom de marrom, em um mesmo tom, presas sempre na mesma altura de seu corpo magro e presas sempre por um mesmo cinto com uma mesma fivela prateada. A sua fivela era um desenho, uma figura, difícil de se ver sem se puxar aos olhos. Mas não nos importa por agora. Uma camisa branca de abotoar, com golas grandes, como se pedisse uma gravata, que não fazia parte do vestuário. Seu cabelo é curto, sempre bem penteado e tão preto, quanto uma cabeça de fósforo. Aliás, sua constituição magra fazia com que lembrasse um palito de fósforo. Talvez vestisse o sobretudo para ficar menos esquisito. Talvez em sua cabeça assim funcionasse. Para as outras mentes e olhos era apenas esquisito de qualquer forma. Mas, caso não se lembrem direito do que já foi dito aqui, o que é mais estranho é o seu companheiro constante, o guarda-chuva preto, inseparável, de ponta de cor prata. Não que fosse um esquisito que desse medo ou que as pessoas achassem que ele era um alienígena. Não mesmo. Ele apenas chamava atenção demasiadamente. Perguntavam-se coisas como ‘‘para que o idiota carrega um guarda-chuva em um dia sme nuvens?’’ ou coisas como ‘‘esse imbecil de casaco escuro e tão quente com um guarda-chuva, e olha aquilo, é quase uma arma!’’. Mas devo lembrar que o casaco era fino e nada quente. Mas isso Não justifica. Giuseppe não era normal. Não mesmo. Ser esquisito não é ainda um crime. Talvez o seja no futuro. Talvez esteja virando um crime do presente. Mas no passado que venho contar que é mais presente até do que a expectativa de um futuro, não é. Não mesmo. Anda por Brasília sozinho. Brasília, terra de gente esquisita que, apesar de ser tão esquisita por si só, consegue achar tanta esquisitice, mesmo onde não há. Mas no caso de Giuseppe, ele sem dúvida era esquisito. Mas o que eu sei, afinal, sou de Brasília, e por de cá ser estou habilitado a julga-lo esquisito e contar sua maluca ou talvez louca história que antes foi estória, quem sabe um dia volte a ser como antes? Mas acho que não. De forma alguma. Por que anda por Brasília assim sozinho? Parece nunca ter amigos. Passando de quadra em quadra, de rua em rua, observa colégios, hospitais, bancos, pessoas. Nunca está sozinho de verdade se considerarmos que aquele guarda-chuva nunca o deixa. Mas irei contar o motivo de tanto escândalo por minha parte, afinal, todo narrador deve se dignar a explicar ao seu leitor a razão de seus achares e escreveres, não é mesmo? Um dia eu estava em uma boate, em uma dessas tantas que achamos em tantos lugares diferentes de Brasília. Estava com um grupo de amigos quando esse senhor, muleque ou rapaz entrou. Era de noite e estava suficientemente frio para colocar seu sobretudo sobre tudo. Seu cabelo, óculos, camisas, calça estavam de acordo. Seu guarda-chuva era levado aberto, como era de seus costume, a gira-lo. Devo dizer que isso era bastante inconveniente, afinal, para quem já foi em uma boate qualquer sabe que, em meio a dezenas de pessoas, alguém, com aquela coisa gigantesca aberta, incomoda. Já tinha visto ele perto da UnB, da Universidade aqui de Brasília aonde atualmente estudo. Sempre com o maldito aparato metálico aberto e girando-o. Parecia doido e DEFINITIVAMENTE estranho. Mas o que eu sei? Ele vinha na minha direção e das garotas com quem eu estava, que aliás eram minha responsabilidade, conferida por seus pais. Não eram sem dúvida futuras namoradas, apenas amigas que eu deveria proteger. Quando eu observei o lunático do guarda-chuva se aproximar de nós e, provavelmente, antes de mim delas, me coloquei na frente dele. Ele falou: - Senhor, saia da minha frente, preciso passar. Falou já com tom irônico. Me chamando de senhor, só para tentar ser superior. Maldito estranho, isso ele era com certeza, eu SEI. Olhei nos olhos dele, segurei nas dobras do sobretudo dele, como se brincasse, entrando no jogo dele de superioridade e disse: - Sabe, você é um figura... mas você não disse por favor.

Por favor senhor, saia da minha frente, preciso passar – disse ele, se sujeitando. Mas ainda achava ele perigoso, deveria ser algum tarado ou algo do tipo, ao menos asism pensava. Ou sei lá se pensava. Admito que fui precipitado e talvez exibido. Queria mostrar que podia segurar ele e continue importunando-o: - Sei não. Você até que foi educado – isso eu falava no tom mais arrogante e abrindo os braços para mostrar que era forte – mas você não pode passar. Faz o seguinte: por que você não fehca essa coisa que ta importunando todo mundo e dá a volta? - Senhor, meu guarda-chuva o incomoda? Poderia ter dado ouvidos à meninas que me falavam para deixa-lo passar. Mas não dei. Estava me divertindo. Quando olho para o passado percebo que fui um idiota, prepotente. Mas era como eu era. Espero ter mudado, Muitos acham que não. Não mesmo. - Sim, me incomoda. Vai embora idiota! - EU fecho ele – falou o alienígena humano em tom um pouco mais agressivo. Em meio às luzes da boate que ocultavam e não ocultavam o corpo dele e o nosso, em um pisca apaga constante, ele fechou o guarda-chuva rapidamente. Aonde ele foi parar? Não via mais. Mas creio que o senti. Um soco na barriga, outro e mais outro. Uma rasteira e caí no chão. Não entendia o que acontecia. Não via nada. As meninas achavam que eu tinha caído, ao menos até me ouvirem gemer. Um soco na cara, outro novamente na barriga. O que acontecia? Fui virado de forma rápida e todo golpe que eu tentava dar era mirado no nada e no nada acertava. De costas tive minha cara batida no chão e meus rins surrados mais algumas vezes. Não conseguia me levantar. Fecho os olhos e todos abriram uma roda para ver o que acontecia. Do meio da multidão ele se destacou, com seu guarda-chuva aberto e colocado no ombro como se o protegesse. Enfiou a mão no bolso. Eu estava sem reação, ou melhor, eu não conseguia reagir. Retirou um pedaço de papel. Enfiou no meu bolso da calça e me desejou melhoras. Pegou um copo de bebida das mãos de uma das meninas e atirou em cima de mim. Quando ele fez isso algumas pessoas estranharam mas foram me socorrer primeiro. Ele sumiu da visão depois. Ao líquido me acertar comecei a me sentir diferente. Era como se cada dor, individualmente, começasse a cessar. Pouco a pouco ia me sentindo normal. E enquanto tentavam me ajudar e só recebiam de resposta gemidos, após uns minutos levantei sozinho, sem um roxo, sem um arranhão, o que pudemos conferir melhor na luz da minha casa. Os seguranças da boate disseram que não viram ele sair e por isso nada puderam fazer, mas me garantiram que sua entrada lá estaria barrada da próxima vez. Um maníaco como aquele não se esquece. Afinal, ele me quebrou todo, eu acho. O estranho é que depois ele me curou... o que estou dizendo? Bem, digo aquilo que eu digo. Entendam e compreendam da melhor forma como acharem. História ou estória? Que bom que hoje é tudo história. Ambigüidade é necessária, afinal, sem ela a vida não teria graça. Ah, sim, antes que me esqueça. O papel em meu bolso colocado por ele era uma espécie de cartão, porém sem endereço e sem indicações de como contatá-lo. Atrevimento da parte dele. Tinham lá o seu nome, que aliás é estranho. Tinha o desenho, como se fosse uma insígnia. Nem adiante explica-la pois não tem significado algum. Ele era em marca d’água. Engraçado notar que sempre via esse maluco pela cidade. Shopping, Lojas, ruas... sempre acontecia de vê-lo em algum lugar. Depois desse dia nunca mais isso aconteceu. Às vezes até pensei em ter visto ele, mas quando olhei ao redor, nada. Espero ter agradado o leitor que uma leitura agradável. Isso é tudo. Silvério Dias

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