Uma publicação da Aver Editora - 1 a 15 de Junho de 2009 - Ano I Nº 4 R$ 5,00

Memórias do teatro na Casa dos Artistas
Bruno Pacheco / JT

A vida segue com tranquilidade para os , habitantes do Retiro dos Artistas, no Rio
Pags. 12 e 13

Divulgação

ESPECIAL

‘Gloriosa’, com Marília Pêra, chega a São Paulo
Em seus 90 anos de atividade, Vila já recebeu 837 ex-artistas e hoje tem capacidade para abrigar 55 pessoas
Funarte / Centro de Documentação Jarbas Homem de Mello

ç que Peça, q fez sucesso no Rio de Janeiro, estreia na capital Janei paulista com atriz tendo a difícil missão de “cantar mal”. d
Pag. 21

Ó HISTÓRIA

Teatro de Comédia do Paraná: quatro décadas de sucesso
Pág. 22

EDITAIS

Vianninha: arte e contestação

Ivan Cabral, um dos fundadores do grupo Satyros: teatro visceral e polêmico

Programa de fomento ao setor abre inscrições em São Paulo
Pág. 14

VIDA & OBRA

ENTREVISTA

A arte de Oduvaldo Vianna Filho
Dramaturgo, diretor de teatro e de televisão, Vianninha entrou para a história por sua criatividade e ousadia
Págs. 20 e 21

Ivan Cabral, do pop ao erudito
Em entrevista ao Jornal de Teatro, um dos idealizadores do grupo Satyros fala dos 20 anos do grupo e revela o próximo passo da companhia: o cinema
Págs. 10 e 11

MARKETING CULTURAL

Prêmio Carequinha estimula artes circenses no País
Pág. 7

SALVADOR

Teatro da Zona Leste de SP recebe reforma
Em agosto, a capital paulista ganha uma nova opção para encenação teatral: a Academia Brasileira de Teatro Musical
Teatro está localizado no Tatuapé

Divulgação

POLÍTICA CULTURAL

Teatro Castro Alves foca na captação de profissionais
Pág. 8

Pág. 6

Plano Nacional de Cultura perto de ser aprovado
Pág. 15

2

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

Bruno Pacheco / JT

Editorial

3

Limitando Marília Pêra
Reportagem
Ex-artistas moradores do retiro da Casa dos Artistas contam histórias do teatro brasileiro e do cotidiano na instituição Págs.: 12 e 13
Uma das últimas matérias a carem prontas desta edição do Jornal de Teatro foi justamente a que teria um destaque na capa, falando de Marília Pêra. Como apresentar a atriz sem cair nos elogios clichês ou nas centenas de adjetivos que já foram atribuídos a ela nas últimas décadas? Como dissociar o papel de fã e escrever sobre uma mulher que conquistou o respeito de uma nação com trabalho e paixão? A única solução que encontrei foi agarrar características de dois grandes homens também presentes nesta edição: a verdade de Oduvaldo Vianna Filho e a ousadia de Ivan Cabral. Vianinha não tinha medo de ser autêntico. Seu trabalho é ousado e moderno, exatamente por mostrar a complexidade que há nas simples relações. Familiares, amorosas, trabalhistas e outras tantas. Essas relações que podem até nos tirar o sono, mas que enchem nossos pulmões antes do grito. Um Vianinha de outros tempos seria Ivan, principalmente quando se vê a paixão com que fala das diculdades que o seu Satyros enfrentou durante os já 20 anos de história e da frequente renovação que alimenta o grupo. É ousadia insistir na arte que acredita? Pois se a resposta for armativa, estes são três belos exemplos de que “remar contra a maré” pode mudar a história de muita gente. Estivemos com Marília Pêra na coletiva de lançamento da temporada paulista de seu espetáculo, “Gloriosa”. Como o musical já teve temporada no Rio de Janeiro, as informações sobre a peça já estavam disponíveis antes mesmo da atriz subir ao palco acompanhada dos atores Guida Vianna e Eduardo Galvão. Mas a presença da atriz falando da construção de mais uma personagem vale este editorial. Como se conversássemos com uma iniciante, ela diz que possui muitas limitações em cena e por isso busca tanto aperfeiçoamento a cada nova mulher que apresenta ao público. Diz ter medo que sua voz, seus gestos e sua imagem se repitam em diferentes peças e que ainda sonha com um grande papel no cinema. Deixa escapar que, mesmo com a concentração quase exagerada no palco, por hora se perde entre as gargalhadas do público e tenta arrancar ainda mais. Enm, mostra-se uma atriz “orgânica” como outras tantas. Os experientes Eduardo Galvão e Guida Vianna também mostram que mesmo estando ao lado de um dos nomes mais fortes da dramaturgia brasileira, ainda sentem uma grande insegurança todos os dias ao pisar no palco. Isso porque “é sempre diferente a maneira que você vê, da maneira que os outros vão ver”, diz Marília. Pois quando não houver insegurança em relação ao que o público vai pensar, não há espetáculo, Marília. Quando não houver mais o que se questionar, não há dramaturgia, Vianinha. Quando não houver mais tesão, não há teatro, Ivan.

Índice
MARKETING CULTURAL..............................................7
Ministério da Cultura lança edital do Prêmio Carequinha
Inscrições já estão abertas para projetos de artes circenses em todo o País, que concorrerão a sete categorias

1 ENTREVISTA............................................................. 0
Ivan Cabral, idealizador do grupo Satyros
Grupo de teatro completa 20 anos neste mês e projeta novas empreitadas, como a incursão ao cinema

ESPECIAL................................................................17
Marília Pêra se consagra em “Gloriosa”
Atriz inicia temporada paulista de comédia musical sobre Florence Foster Jenkins, considerada a pior cantora do mundo

Rodrigoh Bueno Editor do Jornal de Teatro

18 FESTIVAIS.................................................................
Festival de Rio Preto promove debate
FIT, que será realizado no mês de julho, destaca-se pela variedade de informação e de conteúdo cultural
CONFIRA OS PONTOS DE DISTRIBUIÇÃO DO JORNAL DE TEATRO EM SÃO PAULO Festa Gambiarra - Rua João Adolfo, 126 - Centro Restaurante Planeta´s - Rua Martinho Prado, 212 - Centro Luna Di Capri - Rua Martinho Prado, 187 - Centro D’Amico Piolim - Rua Augusta 311 - Centro Gigetto - Rua Avanhandava, 63 - Centro Café Noir - Rua Augusta, 331- Centro Espaço Cultural Satyros - Praça Roosevelt, 214 – Centro

VIDA & OBRA..........................................................20
Vianninha e a arte de contestação
Autor entrou na história do teatro por fazer arte de qualidade sem esquecer seus ideais políticos ligados à esquerda

Presidente: Cláudio Magnavita Castro magnavita@avereditora.com.br Vice-presidentes: Helcio Estrella helcio@avereditora.com.br Anderson Espinosa a.espinosa@avereditora.com.br

Presidente: Cláudio Magnavita Diretores: Jarbas Homem de Mello, Anderson Espinosa e Fernando Nogueira Redação: Rodrigo Figueiredo (editor-chefe), Rodrigoh Bueno (editor) e Fernando Pratti (chefe de reportagem) Rio de Janeiro - Alysson Cardinali Neto, Daniel Pinton, Douglas de Barros e Felipe Sil São Paulo - Danilo Braga, Ive Andrade e Pablo Ribera Barbery Brasília - Alexandre Gonzaga, Dominique Belbenoit, Renata Hermeto e Sérgio Nery Porto Alegre - Adriana Machado e Felipe Prestes Florianópolis - Adoniran Peres Salvador - Paloma Jacobina

Email Redação: redacao@jornaldeteatro.com.br Arte: Ana Canto, Bruno Pacheco, Gabriela de Freitas e Keila Casarin. Marketing: Bruno Rangel (brunorangel@avereditora.com.br) Comercial: Diego Silva Costa (diego@avereditora.com.br) Administração: Elisângela Delabilia (elis@avereditora.com.br) Circulação: Davi Machado Lopes (davi@avereditora.com.br) Correspondência e Assinaturas: Redação São Paulo: Rua da Consolação, 1992 - 10º andar - CEP: 01302-000 - São Paulo (SP) Fone/FAX: (11) 3257.0577
Impressão: F. Câmara Gráfica e Editora

Redação Rio de Janeiro: Rua General Padilha, 134 - São Cristóvão - Rio de Janeiro (RJ). CEP: 20920-390 - Fone/Fax: (21) 2509-1675 Redação Brasília: SCN QD 01 BL F America Office Tower - Sala: 1209 - Asa Norte Brasília (DF) - CEP: 70711-905. Tel.: (61) 3327-1449 Redação Porto Alegre: Rua José de Alencar, 386 - sala 802/803 - Menino Deus - Porto Alegre (RS). CEP: 90880-480. Tel.: (51) 3231-3745 / 3231-3734 Redação Florianópolis: Av. Osmar Cunha, 251 - sala 503, Ed. Pérola Negra, Centro Florianópolis (SC). CEP: 88015-200. Tel.: (48) 3224-2388 Redação Salvador: Rua José Peroba, 275, sala 401 - Ed. Metrópolis, Costa Azul, Salvador / BA. CEP: 41770-235 Tel.: (71) 3017-1938

www.avereditora.com.br
Publicações da Aver Editora: Jornal de Turismo - Aviação em Revista - JT Magazine - Jornal Informe do Empresário

w w w. j o r n a l d e t e a t r o . c o m . b r

4
Bastidores

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

Fotos: Divulgação

Comédia “Advocacia Segundo os Irmãos Marx” estreia em SP
Heloísa Perissé divide a cena com os atores Roberto Guilherme, Fernando Caruso, Marcelo Adnet, Gregório Duvivier e Rafael Queiroga
A comédia conta as hilárias situações vividas por Yasmim Robalo, uma advogada incompetente e corrupta, interpretada pela atriz Heloísa Perissé, que vive rodeada por assistentes preguiçosos e golpistas, mas muito simpáticos. Com direção de João Fonseca, o espetáculo é formado por 32 personagens, femininos e masculinos, que são divididos entre os 5 atores que compõem o elenco. São 5 esquetes escritos por Bernando Jablonski, baseados em textos dos Irmãos Marx, o quarteto mais louco do cinema. Como armado pelo genial Chaplin, o humor tem uma importante função social. E quase ninguém soube tão bem quanto os Irmãos Marx fazer uso dele para denunciar com maestria as mesquinharias e as vilezas do dia-a-dia. O texto foi montado experimentalmente no Tablado no início dos anos 1990 e desde então, Heloísa e Bernardo acalentam a vontade de montá-lo prossionalmente. Especicamente nesta peça eles investem contra a hipocrisia social a partir das vivências de um “famoso” advogado e suas peripécias no trato com juízes, noveaux riches, pretensiosos pedantes, malucos e safados de um modo geral. Mas nada disso valeria a pena se a peça não fosse engraçada, terrivelmente engraçada. Através dos cinco esquetes, extraídos basicamente de programas de rádios levados ao ar nos anos de 1932 e 1933, a personagem principal, cercada por toda sorte de incompetentes e preguiçosos, busca alguma maneira de se dar bem na vida, ainda que apelando para estratagemas não lá muito éticos. O espetáculo estreia no dia 6 de junho no Teatro Folha (Shopping Higienópolis), em São Paulo

Julia Lemmertz (rainha Maria Stuart) e Lígia Cortez (rainha Elisabeth)

“Maria Stuart” em curta temporada no Teatro Municipal de Niterói
A partir de 12 de junho, reestreia no Teatro Municipal de Niterói, para uma curta temporada, a mais nova montagem do clássico de Schiller “Maria Stuart”, com Julia Lemmertz no papel-título e Ligia Cortez como a Rainha Elizabeth, sob a direção de Antonio Gilberto, também idealizador do projeto ao lado de Julia Lemmertz. A tradução utilizada é a de Manuel Bandeira, e completam o elenco Mário Borges, André Correa, Henrique Cesar, Clemente Viscaino, Amélia Bittencourt, Renato Linhares, Maurício Souza Lima, Silvio Kaviski, Thiago Hausen, Maurício Silveira e Ednei Giovenazzi, em participação especial. A peça fala do histórico conito entre as rainhas, primas e rivais Elizabeth, da Inglaterra, e Mary Stuart, da Escócia. A motivação do diretor Antonio Gilberto para trazer ao público brasileiro deste início de século XXI a tragédia de Schiller escrita em 1800 é sua atualidade: “Por falar de sentimentos e conitos tão comuns a nós seres humanos, essa obra de Schiller é um clássico. Por ser um clássico será sempre oportuna e interessante uma nova montagem de Maria Stuart”, arma o diretor. A encenação de Antonio Gilberto concentra seu foco na relação humana dessas duas rainhas e dos personagens que giram em torno das mesmas. A montagem não pretende julgar essa “luta” entre essas duas mulheres, mas sim apresentar os conitos que zeram parte da relação das duas e que culminaram com a morte de Mary Stuart. Construído a partir da história real destas rainhas, o texto de Schiller promove o – jamais ocorrido de fato - encontro entre as duas. Elas governam a mesma ilha, personicando caráter e ideias de feminilidade opostos, e representando monarquias estabelecidas por poderes considerados divinos. Maria Stuart (Julia Lemmertz), rainha católica de Escócia, e Elizabeth (Ligia Cortez), rainha protestante de Inglaterra, são protagonistas de um drama que envolve sexo, poder, ambição, intriga política e uma rivalidade só resolvida com a morte. Como rainhas regentes, enfrentaram o preconceito de um mundo dominado pelos homens, foram deploradas por sua feminilidade, comparadas uma à outra e cortejadas pelo mesmo homem. Em toda sua vida, Elizabeth revestiu-se de coragem para provar ao mundo que tinha coração e a mente de um homem, tão consciente era da convencional inferioridade de ser apenas uma mulher. Mesmo agindo assim, tendo na sua masculinidade a sua força, possuía todas as paixões de uma mulher e as expressava através da manifestação de seu amor pelos seus favoritos e pela ternura por seu povo. Já Maria era vista como imprudente, emocional e suscetível a colapsos nervosos. De temperamentos diferentes, essas rainhas se igualavam no vigor de suas ambições.

O drama escrito por João Fábio Cabral expõe a sensibilidade de um trio masculino cheio de incertezas

‘Tanto’ discute amor, amizade e saudade entre os homens
Qual o verdadeiro valor de uma amizade? Saudade é sinônimo de melancolia? Com base nesses preceitos Fábio Rhoden, Guilherme Gonzalez e Gustavo Haddad estreiam no dia 11 de junho, sob a direção e autoria de João Fábio Cabral, o espetáculo “Tanto”. Próximo ao m do ano, três homens verbalizam e vivenciam suas inquietudes e angústias através de histórias que se cruzam e criam entre si um princípio unicador: o amor. Um escritor recémseparado, um enfermeiro que cura suas fraquezas através da bebida e por sua adoração por Elis Regina e um jovem recémchegado à cidade cheio de sonhos constroem a narrativa de “Tanto”. Três homens, três vidas, a mesma história. Num pequeno cenário que pode representar os vizinhos ao lado de cada um de nós, esses três homens questionam o quão dilacerada pode ser a imagem de alguém que se percebe cheio de saudade, de amor e de desejo próximo ao m de ano. Uma época em que a maioria das pessoas costuma colocar suas vidas em xeque. Um livro de Caio Fernando Abreu como presente serve como o condutor para o despertar de uma paixão. As diferenças individuais entre amigos reforçam como a amizade pode ter o valor de um amor incondicional.

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

Bastidores
CNAC, a maior escola de circo da França, cumpre curta temporada em São Paulo
O CNAC (Centre National des Arts du Cirque) chega a São Paulo com seu mais recente espetáculo, 20e / Première. Em temporada de apenas cinco apresentações no Memorial da América Latina, a partir de 5 de junho, o grupo apresenta ao público paulista o novo teatro francês, caracterizado pela mistura de gêneros, como teatro, cinema, dança e artes circenses. Com elenco de 12 artistas, a direção é assinada por Georges Lavaudant, exdiretor do Teatro de Odéon – Teatro da Europa. O CNAC é uma das principais escolas superiores de circo da Europa. Ao nal de um período de formação de 3 anos, os alunos criam um espetáculo de conclusão de curso, já com a meta de inserção no mercado prossional. A academia vem ao Brasil, com a apresentação de seu mais novo espetáculo, 20e / Première. O CNAC cumprirá curta temporada, entre os dias 5 e 10 de junho, no Memorial da América Latina. Para dirigir o espetáculo de promoção das turmas, tradicionalmente é convidado um diretor ou coreógrafo de grande relevância para a cena nacional. Para a concepção de 20e / Première foi chamado Georges Lavaudant, renomado diretor de teatro, responsável pela direção do Théâtre de l’Odéon – Théâtre de l’Europe entre 1996 e 2007. Pelo desejo de conferir à coreograa um importante papel no espetáculo, Lavaudant convidou Jean-Claude Gallotta, importante nome da dança contemporânea na França, para assinar a coreograa de 20e / Première. WORKSHOPS O CNAC oferece workshops gratuitos nos dias 12 e 13 de junho, sexta e sábado, para 50 arte-educadores do Fábrica de Cultura, - Programa Cultura e Cidadania para a Inclusão Social (PCCIS) que realiza ações artístico-culturais destinadas a crianças e jovens, entre 7 e 19 anos, moradores em nove distritos com baixos indicadores sociais da Capital. Os workshops, também gratuitos, abertos ao público em geral acontecerão nos 2, 3 e 11 de junho, das 10h às 13 horas, no Tendal da Lapa. Destinado para alunos de escolas prossionalizantes ou prossionais com no mínimo um ano de experiência. As inscrições podem ser feitas pelo telefone (11) 3862-1837, ou pessoalmente no Tendal da Lapa.
Divulgação

5

O grupo francês ‘Centre National des Arts du Cirque’ oferece workshops gratuitos a artistas brasileiros

Da união de 12 grupos teatrais surge a Cooperativa Cearense de Teatro
Depois de anos ensaiando o reerguimento teatral do Ceará, 12 grupos de teatro da região se uniram e criaram a Cooperativa Cearense de Teatro. A principal justicativa para a iniciativa é a longa inércia produtiva e de desenvolvimento que a classe vem encontrando. Estão à frente do movimento Herê Aquino (Grupo Expressões Humanas), Nelson Albuquerque (Pavilhão da Magnólia), Gyl Giffony (Grupo 3 X 4), Thiago Arrais (Independente), Rogério Mesquita (Grupo Bagaceira), Siomar Ziegler (Cia do Batente), Edson Cândido (Grupo Imagens), Joel Monteiro (Teatro Máquina), Almeida Júnior (Cia. Teatral Acontece) e Maninho (Grupo Garajal). Dentre os principais objetivos da parceria estão a abertura de um maior espaço dialógico e propositivo de ações e políticas voltadas ao teatro a partir de um maior contato com as entidades públicas e privadas, a criação de possibilidades de uma ingerência mais direta dos artistas e grupos sobre o seu fazer, a compreensão e exploração das inúmeras possibilidades que o mercado oferece aos artistas e técnicos teatrais, a qualicação da mão-de-obra e da produção local, o incentivo e promoção, juntamente com órgãos públicos e privados, de um intercâmbio cultural entre seus associados e grupos ou entidades de outra localidade através de cursos, ocinas, palestras, debates, festivais e mostras de teatro, em sua área de ação ou em lugares onde haja interesse pela produção teatral cooperativada. O movimento de recuperação do teatro cearense teve início no nal de 2004, durante a Mostra SESC Cariri de Teatro. Na ocasião, vários grupos, insatisfeitos com o panorama artístico cearense, se juntaram e criaram o Conte: Conexão Nordeste de Teatro que, nos anos seguintes, atuou na formação, circulação, intercâmbio e fortalecimento da linguagem teatral local. A Cooperativa Cearense de Teatro se tornou, por conseguinte, uma ideia derivada e aperfeiçoada do Conte e é agora a principal esperança da mudança que se aguarda há anos do cenário teatral do Ceará.

FIQUE DE OLHO
Inscrições abertas para: - O 2º Festival de Teatro Infantil, que ocorre de 20 a 23 de agosto, em Salto - SP Para inscrever-se é necessário enviar material . à Secretaria de Estado da Cultura até dia 22 de junho. Para mais informações jgiannella@sp.gov.br ou (11) 2627-8262. - O XVI Fentepp – Festival Nacional de Teatro de Presidente Prudente. As inscrições vão até o dia 16 de junho. Informações: (18) 3226-3399 ou contato@fentepp.com.br. - A 3ª Miti – Mostra Internacional de Teatro Infantil de Cuiabá. A mostra acontece de 28 de setembro a 4 de outubro e tem sua programação composta por espetáculos nacionais e internacionais, seminários, oficinas, show musical e exposições. Inscrições até o dia 19 de junho. Mais informações: (65) 3028-6285 ou contato@mostrainfantil.com.br. - O II Festival de Diálogos Cênicos, realizado pela Faculdade Campo Limpo Paulista (FACCAMP) entre os dias 27 e 28 de junho de 2009. O festival é composto por cenas curtas e dinâmicas e oferece uma premiação para profissionais e amadores. As inscrições vão até dia 23 de junho - A Cia. Sansacroma promove, dia 23, às 14h, no Espaço Artemanha, audição para selecionar intérpretes para o projeto “Trilogia Militantes do Ideal”. Interessados devem enviar currículo para ciasansacroma@gmail.com até o dia 20. Podem participar atores e/ou bailarinos acima de 18 anos, com habilidades corporais e que morem na zona sul de São Paulo ou proximidades. Mais informações em www.ciasansacroma.wordpress.com

Concurso de Dança do Ventre agita Osasco em junho
As inscrições acabaram rápido e agora ficou a expectativa para o evento que acontece no próximo dia 14. Realizado pelo bailarino e coreógrafo Leandro Assalan, o Concurso Dança do Ventre terá seis baterias de dança em sua primeira edição, divididos nas categorias: adulto avançado e intermediário; infantil; juvenil duplas e grupos. Entre os prêmios está um traje de Dança do Ventre completo e exclusivo, desenvolvido pelo Atelier Tony e Robby – um dos mais consagrados e premiados do mundo da Dança Árabe. O evento acontece no Espaço Silvana (Av. Santo André 2510) e conta também com a apresentação de nomes consagrados no mundo da Dança Árabe como: Nasser Mohamed, Ahmad Armani, Fátima Braga, Grupo Nova Era, Fatima Rellva, entre outros. Mais informações pelo site www.concursodancadoventre.com.br.

6
O 13º Cultura Inglesa Festival realizou na noite do dia 24 de maio a festa de premiação das melhores atrações por área, que foi assistida por seis mil pessoas e encerrada com um show de Jorge Benjor, no Via Funchal. Das mãos do ator e diretor Marco Ricca, os premiados receberam um troféu especialmente produzido para o festival pela artista plástica Ana Maria Tavares e um prêmio no valor de R$ 5 mil. “Foi nossa edição com maior número de público. Resultados parciais demonstram que as atrações foram vistas por mais de 11 mil pessoas”, comemora o coordenador do evento, Laerte Mello. Dirigida por Eric Lenate, a comédia “Celebração”, última peça do Prêmio Nobel de Literatura Harold Pinter, arrebatou o prêmio de Teatro Adulto. Protagonizado por Caco Ciocler, o curta-metragem “Timing”, de Amir Admoni, Felipe Grytz e Débora Mamber, venceu na área de Cinema Digital. Os demais premiados foram: “Como Risco em Papel”, de Marcela Reichelt (Dança); “Enjoy”, do grupo Teatro da Gioconda (Teatro Infantil); e “Dial M for Muder”, de Gisela

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

Prêmio Cultura Inglesa Festival premia as melhores atrações por área
Divulgação

A atriz Juliana Vedovato, de Celebração, proponente do projeto, agradece prêmio em nome do elenco

Motta e Leandro Lima (Artes Visuais). O ator Walter Breda foi homenageado com um troféu especial por seus 50 anos de carreira. As melhores atrações por área foram selecionadas por uma equipe independente de especialistas. Iniciado em 5 de maio, o 13º Cultura Inglesa Festival englobou mais de 20 cidades de São

Paulo, Paraná e Santa Catarina. O evento prossegue até 12 de junho com as exposições “Dial M for Murder” (Gisela Mota e Leandro Lima), “One&Three Words” (Roberto Winter) e “A New Method for Assisting the Invention in the Composition of Clouds” (Marcelo Moscheta), no Centro Brasileiro Britânico (Rua Ferreira de Araújo,

741, Pinheiros). Ao todo, a Cultura Inglesa concedeu R$ 487 mil a título de patrocínio e premiação, além de fornecer sua própria infraestrutura. As 15 atrações por área (Teatro Adulto, Teatro Infantil, Dança, Cinema Digital e Artes Visuais) foram apresentadas para mais de mil alunos de escolas públicas paulistas.

A falta de sentido na vida e as futilidades do dia-a-dia inspiraram o Prêmio Nobel de Literatura, Harold Pinter (1930 – 2008), a conceber “Celebração”, cuja primeira montagem brasileira estreou em 14 de maio, no Teatro Cultura Inglesa-Pinheiros, sob direção de Eric Lenate. O espetáculo evoca cores e caracterizações do cineasta italiano Federico Fellini, mais especificamente em “E La Nave Vá” e “Amacord” que, como no texto de Pinter, apresenta um clima inusitado e absurdo. Encenada pela primeira vez em Londres, no ano de 2000, “Celebração” é apontada como o trabalho mais irônico do dramaturgo inglês, falecido em dezembro de 2008. Num salão de um restaurante refinado, três casais encampam uma batalha contínua de agressão mútua, enquanto exibem a convencional postura de harmonia. A habilidade do autor transforma a simples sátira numa parábola sobre a alienação nos tempos do consumo. Primeiro diretor “formado” pelo CPT - Centro de Pesquisa Teatral, de Antunes Filho, Eric Lenate escolheu diversos ex e atuais atores do CPT: Juliana Vedovato, Domingas Person, Valentina Lattuada, Denise Machado, Carlos Morelli, Luciano Gatti, Pedro Guilherme, Adriano Suto e Alexandre Freitas. A tradução da peça é de Domingas Person e Ivo Müller.

CELEBRAÇÃO

Técnica
Teatro na Zona Leste de São Paulo é completamente reformado
As prioridades da obra se dividem entre conforto e segurança para o público e artistas
Por Ive Andrade É comum ouvir que espaços bem estruturados para peças de teatro são escassos no Brasil. No mês de agosto, a cidade de São Paulo vai ganhar um novo ambiente que irá hospedar não somente uma sala, mas também um local para eventos e uma escola dedicada principalmente aos musicais, a Academia Brasileira de Teatro Musical - ABTM. Localizado no Tatuapé, zona leste da metrópole, o local está fechado há quatro anos e as reformas caram por conta de três sócios que se juntaram para transformar a estrutura. O ator, produtor e diretor, Carlinhos Machado; o cantor e ator André Tonanni - responsável pela ABTM; e o ator Bruno Udovic. Urbano Rangel Pereira é o engenheiro a cargo pela reforma estrutural do projeto. Eles têm o apoio da Universidade São Marcos, que irá ceder salas de aula, verbas e espaço no canal de televisão para os alunos da academia. “A ideia de criar essa escola aconteceu porque o mercado de musical no Brasil está crescendo muito e não existem escolas no País especializadas nisso. Teremos uma escola que combina todas as áreas, algo que ainda não existe”, explica Tonani. A academia terá cursos livres, administrados nas salas da universidade patrocinadora durante as manhãs e tardes. As aulas de interpretação, canto e dança pretendem formar alunos para musicais, mas aulas de televisão também estão previstas. O teatro cará disponível para as apresentações dos alunos, assim como o canal da São Marcos. O principal desao durante a reforma, segundo Carlinhos, é “fazer o ambiente acontecer, administrar o espaço para que ele volte e faça uma história legal”. A ansiedade em ver o projeto pronto não atrapalha na hora de decidir os detalhes. Segundo o diretor, cada um dos sócios traz suas ideias e cada parte do teatro tem a característica de um deles. “Todos opinaram e conIve Andrade / JT

Bruno Udovic, Carlinhos Machado e André Tonanni: responsáveis pelas reformas da sede para escola de musicais

seguiram seu espaço, é um lho de todos nós”, garante. Para o engenheiro Urbano, “qualquer reforma é mais difícil do que uma construção nova porque você encontra surpresas no caminho”. O foco principal do empreendimento é com o conforto da platéia, que antes cava apertada em assentos di-

vididos entre leiras estreitas. As obras dividiram duas saídas, ao invés de uma centralizada, e diminuíram o número de assentos, para que a comodidade prevalecesse. As medidas de segurança são outra prioridade da equipe, que primeiramente fez uma avaliação total e uma vistoria,

para depois começarem as obras. Outros ajustes na luz, no som e na estrutura de palco foram feitos para dar apóio aos atores e ao público, da forma como todos esperavam ver. O teatro está localizado no Shopping Silvio Romero, na Rua Coelho Lisboa, 334 – Tatuapé, São Paulo.

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

7
OS PROJETOS CONCORRENTES DEVEM ESTAR INSCRITOS EM UMA DAS SEGUINTES CATEGORIAS:

Marketing Cultural

A brincadeira está garantida no picadeiro
Ministério da Cultura lança edital 2009 do Prêmio Carequinha de Estímulo ao Circo. Inscrições podem ser feitas até o dia 26 de junho
George Savalla Gomes era integrante de uma família circense, na cidade de Rio Bonito, interior do Estado do Rio de Janeiro. A vida, nada comum, começou no nascimento, literalmente. Sua mãe, Elisa Savalla, fazia performance de trapézio quando entrou em trabalho de parto, em pleno picadeiro. Chegava ao mundo Carequinha, o mais famoso dos palhaços que o País já conheceu, e que, desde os 5 anos de idade – quando iniciou a carreira com nariz vermelho e cara pintada –, levou alegria, de forma ininterrupta, a milhões de espectadores. Mesmo aos 90 anos, quando morreu, em São Gonçalo (RJ), ainda alegrava e educava a todos com suas brincadeiras. Considerado por muitos um patrimônio da cultura brasileira, Carequinha serviu de inspiração para a criação, em 2006, do Prêmio Carequinha de Estímulo ao Circo, uma forma de homenagear o artista por sua vida e obra. Após três anos de sucesso, o lançamento do edital 2009 do Prêmio Carequinha foi realizado no dia 12 de maio, com a presença do ministro da Cultura, Juca Ferreira, na lona circense do projeto social Crescer e Viver (Rio de Janeiro), durante encontro promovido pelo Ministério da Cultura, para debater os novos rumos propostos para
Reprodução

Por Adriana Machado

A. Circo itinerante 1: destinado a circos itinerantes de pequeno porte (com capacidade para até 600 lugares na platéia), esse módulo contempla projetos que têm como objetivo a aquisição de equipamentos, a criação, a renovação ou a circulação de espetáculos. B. Circo itinerante 2: destinado a circos itinerantes de médio e grande porte (com capacidade acima de 600 lugares na platéia), contempla projetos que têm como objetivo a aquisição de equipamentos, a criação, a renovação ou a circulação de espetáculos. C. Trupes e grupos: voltado para trupes, grupos circenses e circos de pano de roda, contempla projetos de criação ou renovação do espetáculo de repertório, assim como sua circulação. Atende, também, a projetos de criação ou experimentação de aparelhos e números inéditos. D. Formação: o módulo foi criado para apoiar escolas e projetos que utilizem a linguagem circense como instruCarequinha, que dá nome ao prêmio, foi o palhaço mais famoso do País

mento de diálogo pedagógico para a transformação social e a construção de cidadania. E. Eventos: módulo destinado a apoiar a realização de mostras, festivais, seminários, debates, encontros e exposições propostas por empresas, associações ou cooperativas que representem a categoria circense. F. Pesquisa: destinado a projetos que tenham como objetivo a pesquisa e a produção de textos teóricos ou históricos sobre a arte circense, assim como levantamento iconográfico ou audiovisual, trabalhos de registro, documentação, organização de acervos, publicações ou criação de biblioteca sobre a área de circo. G. Mérito artístico: destinado a artistas que contribuíram significativamente para o desenvolvimento e a divulgação da arte circense. Deve ser proposto por uma associação, cooperativa ou sindicato que represente a categoria circense.

a Lei Rouanet. O prêmio, criado pela Funarte Fundação Nacional de Artes (Fundação Nacional de Artes), visa apoiar companhias, empresas, associações, trupes ou grupos circenses que queiram adquirir equipamentos, produzir espetáculos, realizar pesquisas, promover mostras e festivais ou homenagear artistas

que tenham contribuído para o desenvolvimento do circo. O processo seletivo está aberto a projetos e interessados de todas as regiões brasileiras. Ao todo, R$ 2,7 milhões serão distribuídos em prêmios e 103 proponentes serão beneciados (a distribuição da premiação será em módulos: Circos Itinerantes, Trupes e

Grupos, Formação, Eventos, Pesquisa e Mérito Artístico). Os interessados em participar do concurso devem enviar seus projetos até o dia 26 de junho de 2009, via Correios, para a Coordenação de Circo da Funarte. A seleção será realizada por uma comissão composta por cinco especialistas em arte circense, um de cada região do

País. A análise levará em consideração a excelência artística do projeto, a qualicação dos prossionais envolvidos, a diversidade da produção circense brasileira e a viabilidade das ações propostas. O edital do concurso também foi divulgado no Diário Ocial da União (Seção 3, página 11 e 12). Palmas para a iniciativa.

Escola Picolino de Artes do Circo faz bonito em Salvador
Fundada há 24 anos, em Salvador, a Escola Picolino de Artes do Circo foi uma das primeiras beneciadas com o Prêmio Carequinha de Estímulo ao Circo. Detalhe: durante dois anos seguidos. Com a verba da premiação, o grupo realizou eventos importantes para a categoria: promoveu, em 2007, o encontro de escolas de circo do Brasil e uma mostra de circo baiano. No ano seguinte, em outro encontro, reuniu os artistas baianos. “Graças a estas iniciativas criamos uma cooperativa de artistas circenses na Bahia”, comemora Anselmo Serrat, fundador e coordenador geral da Picolino. A união de interesses tem permitido a criação de empregos, a regulamentação da prossão e outras vitórias. “Seis grupos do interior do Estado foram contemplados pela Funarte com a aquisição de lonas e outros equipamentos”, reforça Serrat. Terceira escola de circo mais antiga do Brasil, a Picolino, hoje, é uma ONG sem ns lucrativos que mantém atendimento, através de parcerias, a pessoas de todas as idades (incluindo 180 crianças) em situação de risco social. Os participantes são encaminhados, por projetos sociais ou turmas particulares, e vão ao circo para manter a forma ou se divertir (têm em comum o encanto pelo mundo mágico). A outra parte desta comunidade é formada pela equipe, pelos parceiros e pelos amigos que criam as condições para que os projetos se realizem. Na ponta do movimento encontra-se a Companhia de Circo Picolino, composta por artistas formados na própria escola e que apresentam espetáculos como Panos, Batuque, Guerreiro, cenascotidianas@circ.pic, 2002 Brasa e Família Picolino.
Divulgação

Integrantes da bicampeã Escola Picolino de Artes do Circo em cena com o espetáculo “Cenas Cotidianas”

8

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

Salvador

TCA é o pai velho do teatro baiano
Criado como o maior teatro brasileiro da época, o Castro Alves hoje foca na capacitação de profissionais baianos pela sobrevivência da arte
A história do maior teatro baiano quase acabou antes mesmo das cortinas serem abertas. Cinco dias antes de ser inaugurado, no dia 9 de julho de 1958, o prédio que abrigaria o maior teatro do Brasil, na época, foi destruído pela chamas. O fogaréu reduziu às cinzas o sonho baiano de possuir uma casa de alto nível. Do desastroso incêndio até a recuperação total, o Teatro Castro Alves passou nove anos fechado. Pouco depois da reabertura, já nos anos 70, o TCA garantia seu lugar de destaque. Produções memoráveis, como o show com Caetano Veloso e Chico Buarque, que resultou em disco gravado ao vivo, e a audaciosa apresentação de Caetano e Gilberto Gil, na despedida do Brasil, antes da partida para o exílio, na Inglaterra, iniciaram a construção da história do seu palco. Hoje, o TCA se destaca pela inovação que propõe ao seu público e aos prossionais de teatro. Desde os espetáculos a preço simbólico de R$ 1, aos nais de semana, que atuam na formação de plateia, às grandes produções que saem, anualmente, do Núcleo de Teatro do Teatro Castro Alves, a casa avança no tempo a passos largos. Desde que assumiu a diretoria do teatro, há dois anos, o arquiteto de formação, artista plástico e produtor cinematográco por vocação, Moacyr Gramacho, implanta mudanças impactantes no Teatro. O TCA. Núcleo é a maior delas e, hoje, trabalha focado em ações de pesquisa, formação artísticotécnica e produtos de excelência na área das artes cênicas. Dentro desta estrutura também está o Centro Técnico TCA, que responde pela execução de gurino, cenário e toda a parte visual dos espetáculos. Trabalho que pode ser acompanhado através do blog www. centrotecnicotca.blogspot.com. Pelo centro técnico já passaram nomes de respeito no teatro mundial como Pamela Howard, diretora teatral, curadora de exposições, produtora de eventos e professora emérita da University of The Arts London. Segundo os organizadores, a ideia é criar oportunidade a prossionais que iniciam a carreira a se qualicarem e participarem de grandes montagens. Proposta que já vem mostrando resultados. No ano passado, a 13º montagem do Núcleo levou cinco nomeações no Prêmio Braskem de
Fotos: Divulgação

O Centro Técnico do Teatro Castro Alves responde pela execução de gurino, cenário e toda a parte visual das peças encenadas no centro cultural

Teatro. “Policarpo Quaresma” foi a primeira produção dentro do novo formato e venceu como Melhor Espetáculo de 2008, Melhor Direção (Luiz Marfuz), Melhor Atriz (Cláudia Di Moura), Melhor Atriz Coadjuvante (Elaine Cardim) e Revelação (Rodrigo Frota). “Enfrentamos muita resistência para implantar esta

nova forma de trabalho. Neste segundo ano, em que os medos já foram vencidos, estamos com mais força”, arma Gramacho. Agora, o TCA. Núcleo está em fase adiantada da nova produção: “Jeremias, Profeta da Chuva”. Com um orçamento apertado, mas com muito jeitinho baiano, o corpo diretor do

TCA tem uma série de projetos que acontecem paralelamente. A Série TCA, por exemplo, abriu sua 14º temporada com nomes de peso, como o Balé Nacional de Cuba e a maior companhia de dança norte-americana da atualidade, a Pilobolus. No projeto Conversas Plugadas, nomes de destaque do

teatro nacional e mundial são convidados em suas passagens pela capital do Estado para falarem sobre seus trabalhos. “Estamos trabalhando para garantir que esses conhecimentos passem dos mais velhos para os que estão chegando. Isso só vai nos ajudar a crescer com o teatro baiano. Talento, nós já temos”, concluiu Gramacho.

JEREMIAS, PROFETA DA CHUVA É A APOSTA DO TCA PARA 2009
Com estreia marcada para 6 de junho, a montagem da diretora Adelice Souza trará novidades cenotécnicas que têm sido desenvolvidas dentro do Centro Técnico do TCA, considerado referência em engenharia de espetáculo teatral. Todo em madeira, couro e sisal, o cenário faz referência ao lugar onde a história acontece: o sertão nordestino. Sobre o palco do Jeremias, Profeta da Chuva, flutuarão ex-votos, esculturas entalhadas em madeira de partes do corpo humano feitas como forma de agradecimento a um milagre, que são bastante comuns nas igrejas do Nordeste. Bonecos feitos de couro, retalhos e madeiras que serão manipulados pelos atores, e silhuetas feitas em papel que serão projetadas atrás de um pano para fazer sombra, também fazem parte do espetáculo. Tudo isso está sendo produzido nos ateliês do Centro Técnico sob a coordenação de Olga Gomez. O projeto Jeremias foi selecionado entre sete propostas inscritas por uma comissão e teve o processo de escolha dos técnicos acompanhado pela diretora. Das oficinas ministradas por grandes profissionais do mercado saíram os nove componentes da equipe técnica. A produção também envolveu a criação de uma oficina de objetos cênicos e uma audição pública com 187 candidatos para a escolha do elenco.

O cenário de ‘Jeremias’ será feito em madeira, couro e cisal

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

Salvador

9

Moacir Gramacho: “ Este ano há menos dinheiro, mas não deixaremos de realizar nenhuma atividade”

Porque baiano não nasce, estreia!
Moacyr Gramacho é um arquiteto conhecido por seu trabalho como cenógrafo em espetáculos de teatro e de dança. Atuou em montagens como “Ensina-me a Viver”, “Comédia do Fim - Quatro Peças e uma Catástrofe”, “Alvoroço”, “Sagração da Vida Toda” e “CO2 - Cinco Sentidos e um Pouco de Miragem”. Também levaram sua assinatura o cenário de “Devir”, coreograa que marcou os 25 anos do Balé do TCA. Há dois anos, ele está à frente do maior teatro do Nordeste brasileiro e promete colocar a Bahia em destaque no cenário teatral nacional.
O TCA é um dos melhores do País em engenharia de espetáculo teatral

Jornal de Teatro – O Fundo Nacional de Cultura é apresentado como mecanismo para a melhor distribuição do dinheiro de incentivo. Sabe-se que 80% dos recursos estão concentrados no Sul do País, com 3% das produções recebendo mais da metade do dinheiro investido. Você acredita que o novo sistema vá mesmo ajudar a distribuir este dinheiro? Moacyr Gramacho – Fazer como São Paulo fez, ao emprestar uma grana pesada para uma companhia de dança, que é quase o orçamento todo que a Bahia tem de dança para o estado, não está certo. A nossa opção é, em vez disso, apoiar todos os projetos. Acredito, inicialmente, em reestruturar a sociedade para, a partir daí, ela buscar seu próprio caminho. JT – Você concorda com a criação de critérios para distribuição dos recursos? Relevância cultural ou análise objetiva? MG – Responderia isso com o formato que temos do núcleo, que tira a escolha da máquina. O Estado, que é o Teatro Castro Alves, não se mete no artista. A escolha é democrática, realizado por um júri composto por

representante da associação cultural, representante da sociedade civil e quatro outras pessoas relacionadas à área de teatro do País. A relevância é a democratização do processo com foco na transformação. Claro que o governo tem que ter regras para a distribuição dos recursos, concordemos ou não.

JT – Quais os critérios usados pelo TCA para a escolha dos espetáculos convidados? MG – Meu pensamento como gestor é de que a máquina tem que funcionar para a sociedade em todos os níveis. Se sobrar um dinheirinho, tentamos trazer um espetáculo importante, que não é um espetáculo de público, mas é um espetáculo de formação. Um exemplo foi a vinda de um dos diretores mais importantes da história deste País, Antunes Filho, que levou 20 anos sem vir à Bahia. Na época do lançamento do espetáculo Pedra do Reino, há dois anos, soube que ele achava que a Bahia nunca teve interesse que ele viesse, porque ele era tido como maldito. Daí, trouxemos o espetáculo para Salvador e tivemos lotação bacana. A produção quase se pagou.

JT – Para tudo isso você precisa de dinheiro. Como está a situação nanceira do teatro? MG – O teatro custa de R$12,5 milhões por ano. Esse dinheiro vem, basicamente, do Estado. Mas, além disso, nós recebemos o apoio de R$370 mil da Odebrecht e fazemos parcerias que acabam complementando nosso orçamento.

Claro que o governo tem que ter regras para a distribuição dos recursos de incentivo, concordemos ou não.

JT – O dinheiro é suciente para manter a estrutura teatral e também estimular a criação de outras produções? MG – Apertadinho. A gente faz mágica, mas precisava de muito mais. Só pra vocês terem ideia de parâmetro, o governo paulista investiu R$12 milhões em um projeto de orquestra juvenil, ligado a orquestra de São Paulo, cujo orçamento deste ano é de R$ 44 milhões. Todo o TCA custa o orçamento da orquestra juvenil. Daí, surgem as parcerias. Estamos estudando a máquina para torná-la mais eciente. Estamos requalicando o espaço. JT – Há algo que deixou de sair por falta de dinheiro ou questões burocráticas? MG – Não posso dizer que sim. Se algum projeto deixou de acontecer, foi por minha falta de entender melhor a máquina, não por falta de dinheiro. Algumas medidas são importantes para o complemento. Um exemplo foi a parceria que o Espetáculo Jeremias fez com a Ocina de Bonecos. JT – A crise econômica tem afetado muito as produções de 2009?

MG – Com a crise se aprende muito. Este ano, há menos dinheiro. Na verdade, é uma retenção para quando passar a crise. Mas não deixaremos de realizar nenhuma atividade que já está em vista. Devemos aproveitar para formar novas parcerias, como a da orquestra sinfônica, que terá uma parceria público-privada (PPV). JT – A aproximação do público com o teatro vem sendo trabalhada há muitos anos na Bahia. Vocês já sentem o reexo disso? A venda de ingressos está aumentando? MG – Em alguns domingos, quando temos promoções para ingressos, já alcançamos números surpreendentes, como 30 mil visitantes. São pessoas que vêm de vários pontos do interior. Há algumas semanas, por exemplo, recebemos um ônibus de Irará que veio só ver o Teatro, foi emocionante. Para este ano, estamos esperando grandes nomes para o domingo e acreditamos que esses números têm tudo para crescer ainda mais.

10

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

Entrevista
Ivan Cabral – idealizador do grupo de teatro Satyros

A ousadia do recomeço
Por Rodrigoh Bueno e Jarbas Homem de Mello O grupo Satyros completa seus primeiros 20 anos no próximo dia 12. As celebrações aconteceram ao longo das últimas duas décadas e seguirão nos palcos e na nova empreitada que o grupo pretende seguir: o cinema. Assumindo o lado pop que a Praça Roosevelt – local onde se encontra a sede do grupo – conquistou, um dos fundadores do Satyros, Ivan Cabral, recebeu a equipe do Jornal de Teatro em seu espaço e revelou: “Essa história toda da praça não pode ofuscar o nosso projeto artístico, que é muito mais poderoso”. Acompanhe a trajetória da companhia. Passado, presente e futuro de um dos grupos que mais dividem a opinião do público brasileiro. Jornal de Teatro – Como surgiu o Satyros? Ivan Cabral - Foi a partir do meu encontro com o Rodolfo (Garcia Vazquez), em 1989 na USP. Ele fazia mestrado em sociologia do teatro e eu vinha de Curitiba, recém-formado no curso de artes cênicas que na época era ministrado na PUC. Naquele momento o curso era diferente, era uma tentativa do Teatro Guaíra de formar uma turma de excelência, com aulas de Fernanda Montenegro
Roberto Reitenbach

e Paulo Autran, por exemplo, que passavam pela cidade com espetáculo e acabavam dando umas aulas para a gente. Vim para São Paulo para estudar e, logo que conheci o Rodolfo na Universidade, larguei os estudos – retornando recentemente no doutorado. Foi neste momento também que conhecemos a Silvanah Santos, também de Curitiba. Hoje somos compostos de diferentes núcleos, inclusive o da educação. JT - E como vocês foram parar em Portugal? IC - Em 1992, três anos depois de fundado o grupo, descobrimos algo que foi fundamental na nossa história, que é a importância de ter uma sede. Em 1990, tivemos muita diculdade em encontrar um local para apresentar a nossa obra, baseada em Marques de Sade. A estreia foi no teatro Guairinha e foi um escândalo em Curitiba, um absurdo. O teatro intelectual dizia que era teatro pornográco, e o pornográco que era intelectual – então caímos no limbo. Isso foi bacana porque descobrimos que precisávamos criar nosso próprio espaço, e criamos o teatro Bela Vista, na rua Major Diogo (São Paulo), que hoje não existe mais. Trabalhamos lá até 1992, quando surgiu o convite para festivais na Europa. Encontramos melhores condições de trabalho e camos. Na

volta para o Brasil, fomos para Curitiba, que foi terrível para o Satyros. Infelizmente, por ser minha terra, mas foi um lugar onde a gente nunca foi provocado. Acho o teatro curitibano, na essência, um grande teatro, mas queríamos fazer lá o que acabamos fazendo aqui e em Portugal, modicar o espaço. Mesmo com peças ótimas, o projeto não vingou. JT – Qual a relação do Satyros com a Praça Roosevelt? Vocês têm a intenção de modicar o entorno? IC - É uma obrigação nossa como artista. Nós, atores, sempre pensamos em fazer uma peça linda, com o melhor texto, pois somos os melhores, vamos car ensaiando um ano inteiro escondido e estreamos para uma temporada... Não é nesse teatro que eu acredito, a arte tem que entrar nas entranhas das pessoas, tem que vibrar, tem que reverberar, então não posso chegar na Praça Roosevelt, abrir meu espaço e ele não signicar nada para o meu vizinho que mora no segundo andar, não faz sentido. É quase religioso, uma obrigação do artista invadir a sociedade. Essa coisa mofada que a arte se tornou nos últimos tempos é culpa de artistas que não provocaram. Em todos os sentidos, pode ser uma provação superdelicada e sosticada, mas que tem que ser provocação. Quando surgiMarcos Camargo

mos incorporando o dionisíaco nessa história, a embriaguez, o sangue, a visceralidade, o público brasileiro não reconhece e não quer olhar para isso. Foi muito difícil e é obvio que essas peças têm por quebrar paradigmas. Tem um horror embutido que vai permanecer. Quem viu o Sade em 1990 e frequentou o teatro Bela Vista não esquece o que viu. Duvido que seja uma coisa que passe batida. JT – Sendo assim, qual o signicado do Satyros para a região? IC - O que tinha acontecido com o grupo em São Paulo, na Major Diogo, foi muito bom. Foi a nossa primeira experiência de fato em interagir com o entorno. O que se fala da Praça Roosevelt aconteceu em Lisboa também. O bairro da Bela Vista, nesse momento, começava a viver uma grande decadência e a Major Diogo, que tinha sido uma rua de teatros, já vivia também uma decadência. Em 1990 quando a gente chega ali, um movimento acontece. A primeira Satyrianas, que é o evento de 78 horas e tal, surgiu em 1991 na Bela Vista e naquele momento a gente era mais pop do que hoje. A Ilustrada (caderno de Cultura da Folha de São Paulo) nos descobre e acabamos várias vezes sendo capa, página inteira, apadrinhado pela Folha. Foi muito bom começar uma história sendo recebidos desse jeito.

JT - Porque a Praça Roosevelt? IC - Nós voltamos para São Paulo em dezembro de 2000. A gente nunca pensou em um espaço na Vila Madalena, Vila Mariana, Jardins. Sempre quisemos o centro da cidade. Acho que é questão de linguagem, somos muito metropolitanos, e quando a gente sai do Brasil e vai trabalhar fora, a questão urbana ca ainda mais presente. A geograa da Praça em 2000 era marcada por um bar, que tinha sido fechado por conta de uns assassinatos, e uma padaria 24h que fechou porque o lho do dono também matou uma pessoa lá dentro. Então esse terreno era muito maldito e muito opressivo. Não tínhamos luz, mas, ao mesmo tempo, é um lugar onde a cidade se encontra. Tem vias pra todos os lados da cidade - um grande cruzamento com uma igreja em cima. Não existe geogracamente na cidade outro ponto parecido com esse. JT - E a resposta da vizinhança? Da igreja, por exemplo? IC - Não acontece nada lá. O problema deles é que eles te cercam. A igreja roubou um grande espaço da Praça com toda aquela grade que ela pôs em volta e foi roubando espaço que era público e acabou se isolando. A gente propôs exatamente o contrário, eu quero que essa mesa que na porta,

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

Entrevista
com um elenco de mais de dez. JT - E o que sustentava o teatro? IC - Ele nunca se sustentou, na verdade. Ultimamente, o bar paga o aluguel. Se você pensa que vai ter uma equipe artística trabalhando e que ela vai ganhar, vai viver de percentual de bilheteria, ela não sobrevive. Criamos outra máxima: a gente está muito pop e já não ganhamos fomento nenhum, porque acho que ca essa névoa de que estamos nos dando bem, somos famosos, temos grana... A partir de agora teremos que começar a brigar muito por isso, pelo projeto artístico mesmo, e que é um puta projeto artístico que poucos grupos, não só em São Paulo, mas no Brasil, tem tão consistente quanto o nosso. Essa história toda da Praça não pode ofuscar o nosso projeto artístico, que é muito mais poderoso. Nesse momento convivemos com isso, brigando com a nossa própria história, porque essa história da praça está maior que a gente, e não pode. JT - Como se resolve isso? IC - Eu não sei. O artístico não atrapalha, esse será sempre intocável, mas acho que a visibilidade atrapalha - isso sim a gente tem que pensar, em como tornar mais visível esse artístico. A gente está migrando para o cinema nesse momento. O Satyros começou uma história de audiovisual na televisão, na TV Cultura, mas o nosso grande projeto é o cinema. Acho isso legal, porque você reinventa uma história. Sei que uma hora a imprensa se interessa em falar comigo, da mesma forma que daqui a pouco eu posso car mandando meus releases e vocês falarem ‘quem é esse chato?’. O artista precisa se reinventar! Eu sempre pensava que, ao contrário dos meus colegas todos que foram buscar na televisão um lugar possível para seus trabalhos, o lugar nosso era o cinema. Só o cinema pode sustentar a ideia de uma companhia de teatro, por exemplo. JT - E a televisão? IC - Estamos pelo terceiro ano no programa “Direções”, da TV Cultura. Inicialmente foi um convite do Antunes Filho, que estruturou e começou o projeto com uns 16 caras. Depois caram oito. Nesta nova fase, de minissérie, cada mês um diretor diferente apresenta o trabalho. Agora estamos com “Além do Horizonte”, com roteiro meu, direção do Rodolfo e os atores do Satyros em cena, em quatro capítulos. Depois disso pode rolar outro projeto em televisão, que será como uma preparação para o cinema. A gente já tem nosso projeto de cinema, está sendo trabalhado, pré-produção, roteiro feito, deve começar a rodar ano que vem. Tem muita coisa vindo por aí que a gente pode fazer como companhia de teatro, onde essa equipe pode atuar. É complicado, às vezes, não ter condições adequadas de trabalho, mas quem tem? JT - Como vê a relação que algumas pessoas fazem do grupo, lembrando apenas de espetáculos como “Filosoa na Alcova”?

11

Ivan Cabral, um dos fundadores do polêmico grupo Satyros

que ao passar por aqui você sinta que é seu também. Ao demarcar território, ela está nos excluindo. Isso é signicativo e era exatamente o contrário do nosso projeto, porque a gente queria os travestis aqui dentro, as putas, os michês, e muitos chegaram a trabalhar com a gente. Desde o começo da carreira foram 1200 atores em 65 peças. É muito, né? E sempre com elencos monstruosos em lugares pequenos. Por exemplo, aqui (Satyros 01) cabem 60 pessoas e o nosso núcleo tem sempre 10 atores no mínimo, 15 é a média nas nossas peças. Além disso temos temporadas muito longas. Apostamos em temporadas, deixando as peças praticamente um ano em cartaz. JT - O interessante desse espaço é que o palco talvez seja três vezes maior que a plateia... IC - Eu nunca tinha pensado nisso. Desde que a gente chegou aqui, pensamos que o espaço deveria estar aberto às outras pessoas em condições igualitárias. Parece para alguns

que a gente está tentando ganhar dinheiro em cima dos coitadinhos, não existe isso. Muitas pessoas que trabalham aqui são nossos parceiros, nós não alugamos os espaços. O Satyros não está para ser alugado, não é essa a nossa intenção. Ele está aqui para ser dividido e compartilhado. Isso é o que interessa mais para a gente. E é uma coisa que a gente jogou desde o início da nossa vinda para a Praça, porque, em dezembro de 2000, o roteiro teatral da cidade era assim: as peças, as temporadas, eram de sexta a domingo e ainda estava deixando de existir a sexta. As grandes produções só faziam sábado e domingo, porque não tinha público, a cidade estava muito violenta, muito transito... E quando a gente inaugura, é de segunda a domingo. E nem sempre a gente tinha público pra ver nossas coisas. Aliás, nesse primeiro momento, a primeira peça que estreamos foi vista por umas 200 pessoas no máximo, em uma temporada de um ano. Mas nossa máxima era nunca cancelar um espetáculo, mesmo que fosse uma pessoa,

IC - Eu adoro ser associado, porque esse era meu grande espetáculo naquele momento. “Vamos fazer uma peça que vai mudar o mundo. Vamos contar uma história que vai abalar os nossos contemporâneos e a sociedade louca em que a gente vive”. Quer dizer, a gente quis isso, isso era projeto de vida, projeto artístico. Tudo isso foi estrategicamente montado e pensado. Talvez a partir de agora comece a mudar, mas por exemplo, o ar condicionado chegou aqui depois de cinco anos. As pessoas vinham no verão e morriam de calor. Não queríamos ar condicionado, porque a gente tem que reetir uma forma de trabalho que é a nossa forma, a gente não tem grana, não tem produção, não tem estrutura, os atores que trabalham com a gente não ganham dinheiro. Prestem atenção nisso, somos um grupo conhecido, que está na mídia toda hora, imagina o cara que não tem essa visibilidade, esse cara está condenado. Então não é uma forma egocêntrica de pensar arte, “eu tenho um teatro lindo, foda-se o outro”, ele tem que ser reexo disso. JT - Quem pode se apresentar no Satyros? IC - Aqui todo mundo pode. É o espaço mais democrático que você possa imaginar. Odeio preconceito e quero que todo mundo venha aqui, do cara que tem a visão mais... Enm, todo mundo, não existe barreira (eu acho). A Satyrianas é um pouco disso. De Adriane Galisteu a Gerald Thomas. Do erudito ao pop, juntos e em um mesmo projeto. Esse é o meu projeto de vida no teatro.

Lenise Pinheiro

12

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

Reportagem

Fecha-se a cortina dos palcos
Por Bruno Pacheco Eram nove da manhã de uma quinta-feira quando cheguei ao meu destino. Confesso que estava um pouco preocupado com a forma que daria à matéria, anal, o tema não era tão novo. Essa, sem dúvida, teria de ser uma pauta diferente. O endereço: Rua Retiro dos Artistas, número 571, em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O meu desao era contar sobre o trabalho realizado pela Casa dos Artistas, famosa e pioneira instituição de amparo a prossionais carentes e idosos do cinema, da televisão, do teatro e do circo. Atualmente é presidida pelo ator e vereador Stepan Nercessian. Passei pelo portão principal e me surpreendi com o silêncio, a tranquilidade e, principalmente, o clima agradável em pleno dia de sol e muito calor na Cidade Maravilhosa. Era o prenúncio de que aquela manhã seria diferente para mim, acostumado com a correria do dia-a-dia e o frenético ritmo urbano. A minha proposta era mostrar algumas histórias do teatro nacional através de residentes do retiro. Porém, dos atuais 52 ex-artistas que estão

Arthur Maia escreveu, dirigiu e atuou em “Dona Patinha Vai Ser Miss”

A simpática senhora da foto quando avistou a câmera interrompeu o passeio e fez pose.

no local, apenas duas foram atrizes de teatro. Por um momento achei que não atingiria meu objetivo. Minutos depois mudaria de ideia. O diretor social da Casa, Hênio Lousa, já me esperava e na hora marcada, levou-me ao encontro dos

personagens. RUA NAIR BELO Uma das peculiaridades do Retiro dos Artistas que mais me chamou a atenção é a distribuição das casas, dormitórios e instalações pelo amplo terreno.

Cada ruela e vila tem o nome de uma personalidade ou artista importante do País. Indo ao encontro dos meus personagens pela Rua Nair Belo, perguntei ao guia Hênio quem era o mais antigo morador e o mais recente. Enquanto ele me respondia

que Dalila Saavedra, gurinista de 94 anos, era a moradora mais velha, por coincidência, encontramos o mais novo membro. Era Arthur Maia, de 75 anos, um simpático senhor que se mostrou um ótimo contador de histórias. Para minha

“Meu bom senhor, cuidai para que os atores sejam bem tratados. Estais ouvindo? Tende cuidado para que os tratem com o maior cuidado, porque são o resumo e a breve crônica dos tempos. Seria preferível que tivésseis um mau epitáfio, depois de vossa morte, a um mau renome junto aos artistas enquanto viverdes.”
Trecho de Hamlet de Willian Shakespeare citado no texto de abertura do site da Casa dos Artistas

A Casa dos Artistas, inaugurada em 19 agosto de 1918, foi idealizada pelo ator e empresário Leopoldo Fróes, considerado um dos mais importantes artistas brasileiros do início do século XX. Apoiado por outros artistas e jornalistas, entre eles Irineu Marinho, Eduardo Leite, Francisco Souto e Mário de Magalhães, o jovem idealista inspirou-se no exemplo da Maison de Repós des Artistes Dramatiques Français, criada pelo Barão Taylor em Paris. Nascia, então, uma associação sustentada por artistas com o propósito de acolher temporária ou definitivamente artistas brasileiros, que naquele momento, ainda não tinham a profissão reconhecida. Em pouco tempo, o grupo conseguiu a doação de um terreno para a construção e instalação do Retiro dos Artistas. Inaugurado em 1919 na Rua Campos das Flores em Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro, os primeiros moradores foram o casal de idosos Madalena e Domingos Marchisio. Eles eram de coristas italianos. Em 1931, a Casa recebeu do recém criado Ministério do Trabalho uma carta sindical e passou a ser o representante oficial dos artistas no Brasil. O atendimento sindical e assistencial permaneceu até 1964 quando foi fundado o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro – Sated/RJ. Com o surgimento desse novo orgão de classe, impulsionado pela situação política determinado pelo golpe militar, a Casa dos Artistas voltou a se dedicar apenas ao atendimento assistencial. Com 89 anos de existência, a Casa dos Artistas permanece sendo a única com este tipo de trabalho no país, escrevendo uma rica história artística, social e assistencial.

A CASA DOS ARTISTAS

Getúlio Vargas: Em 1928, ainda como deputado federal, apresentou projeto para a formalização prossional da classe artística

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

Reportagem

13

s, abre-se o camarim da vida
Fotos: Bruno Pacheco

. As casas da Rua Nair Belo tem sala, banheiro, cozinha e até dois quartos

Isa Rodrigues e Gigi: acima foto com amiga Dercy Gonçalves e abaixo sua cha de sócia efetiva do retiro

sorte, ele tivera sido produtor, ator e diretor de teatro. Por ali mesmo eu quei. Arthur estava no retiro há apenas um mês e ainda nem havia terminado a sua mudança. “Eu morava em Araruama. Sempre fui sozinho. Estou chegando aqui na vertical e só saio na horizontal”, brincou o artista. Durante a meia hora de bate papo, entre uma história e outra, contoume sobre a sua dedicação à dramaturgia infantil. A peça “Dona Patinha Vai Ser Miss”, foi o seu trabalho mais importante, cando longo tempo em cartaz. No m da carreira dedicou-se à cenograa, trabalhando por alguns anos em agências publicitárias. “Nesse período ganhei muito dinheiro, mas fui lesado como milhares de pessoas pelo governo Collor” revelou o ex-produtor. Perguntei se ele sofreu algum tipo de censura no período do golpe militar nos anos 1960 e Arthur respondeu que não. Porém, soube a pouco tempo que era acompanhado de perto. “Um amigo disse que eu era vigiado, mas não acredito”. Arthur Maia também é artista plástico, pinta quadros e confecciona luminárias. Ele mostrou a que fez para presentear o presidente da Casa, Stepan Nercessian. “É um agradecimento”, nalizou. Despedi-me de Arthur, pois ainda tinha mais visitas a fazer. Fui ao encontro de Isa Rodrigues, 81 anos, atriz que fez

parte do Teatro de Comédia e da Companhia Walter Pinto, a mais importante do teatro musicado e que revelou uma geração de atores, músicos e compositores. Acompanhada por sua inseparável cachorrinha Gigi, Isa me recebeu com muita alegria e boas histórias. Isa Rodrigues foi casada com o ator Carlos Mello e tiveram a sua própria companhia de teatro. Ela começou a carreira muito jovem e representou para a sua época o que a menina prodígio de Sílvio Santos, Maysa, é hoje. “Eu sapateava como ninguém. Dançava muito”, orgulha-se. Isa contou que decidiu morar no Retiro dos Artistas depois de uma conversa com uma de suas melhores amigas, a imortal Dercy Gonçalves. “Quando ainda estava em atividade, eu já colaborava com o retiro, por isso já conhecia tudo aqui e sabia que seria bom pra mim”. Durante toda a conversa Isa deixou bem claro o quanto ama morar no retiro. “Viver aqui é ótimo. Não temos despesa e trabalho algum. Roupa lavada, alimentação, médicos e exames, além de muito lazer”. Sobre a amizade com Dercy, revelou uma curiosidade. “Era uma grande amiga, muito verdadeira e engraçada. Sempre lembro de quando saíamos das peças e íamos comer no Angú do Gomes. Ela adorava”, entregou Isa. Antes de encerrar a entrevista, Isa trouxe algumas fotos para que eu

pudesse conhecer melhor o seu trabalho. Fiz questão de fotografá-la com a Gigi. Ela, é claro, atendeu ao pedido. Parti para o último encontro daquela manhã. Quem me esperava era Maria Vitória dos Santos, a Vitória Régia, 79 anos, moradora da última casa da Rua Nair Belo. Bati palmas, chamei, toquei à porta e nada. Pensei que ela pudesse ter desistido, anal, artistas costumam ser temperamentais. Mas bastou a cachorrinha da antriã latir para, em seguida, a ex-vedete atender cheia de disposição. Com a experiência de quem já concedeu muitas entrevistas, a maranhense contou tudo sobre a sua carreira sem que eu zesse uma primeira pergunta. Segundo Vitória, ela encenou espetáculos mais populares que exaltavam, entre outras coisas, a beleza da mulher brasileira. Protagonizou peças de nomes sugestivos como “Fogo na Jaca” e “Fogo no Pandeiro”. Foi uma das mais importantes vedetes do Teatro de Revista. Através dos palcos, pôde viajar pelo Brasil e Europa. Contou-me que antes mesmo do Papa eternizar o ato de beijar o chão ao chegar no País, ela o havia feito quando retornou de uma de suas viagens. O gesto foi matéria de jornal na época. “Não foi o teatro que me abandonou, eu que o abandonei. Mas os artistas nunca deixam de ser artistas. Estamos sempre no camarim aguardando o cha-

mado”, disse a vedete, armando que participa de todas as atividades oferecidas pelo retiro. “Sempre somos convidados para churrascos, homenagens, participações em produções, eventos e estreias do teatro.” Com certeza, Vitória

não perderá a tradicional Festa Julina do Retiro dos Artistas que acontecerá nos próximos dias 2 a 5 de julho. Já era quase meio-dia quando encerrei as entrevistas. Passei mais uma vez pelo portão principal. De volta ao mundo cão.

Em quase 90 anos de vida, o retiro da Casa dos Artistas abrigou 837 ex-artistas. Atualmente, a Casa tem capacidade para 55. Quando alguém falece a vaga é preenchida por outra pessoa. Através de um cadastro e lista de espera são escolhidos os próximos residentes. Hênio Lousa explicou detalhes da estrutura do retiro ratificando a importância das doações para os assistidos. De acordo com ele, para manter o local e suas dependências regularmente, são necessários R$ 75 mil mensais. Ao todo, trabalham 32 funcionários em escalas programadas para o funcionamento pleno por 24 horas todos os dias da semana. A Casa oferece atividades como yoga; fisioterapia ginástica; alongamento; oficina da memória; atendimento médico, odontológico e ambulatorial; salão de beleza; além das atividades de lazer, piscina, o Teatro Iracema Alencar com 304 lugares, lanchonete e capela. “Ainda temos voluntários do VEP (Vara de Execuções Penais) que realizam atividades com os moradores às quinta-feiras e para a comunidade em geral temos uma sala com internet e cursos livres de teatro”, encerrou o Lousa. COMO AJUDAR A INSTITUIÇÃO Desde a sua criação, o retiro da Casa dos Artistas sobrevive de doações e campanhas. No site oficial da instituição, o presidente Stepan Nercessian (foto) diz: “ao longo da sua rica história, o retiro tem feito a diferença entre o abandono e uma vida digna para dezenas de pessoas que vivem situação de adversidade”. São três as formas de contribuir com o Retiro dos Artistas. Através de depósito em conta bancária (Bradesco – 4343-5), ligando para os telefones (21) 3327-4591/ (21)3382 -3730 e tornando-se sócio(com ajuda mínima de R$20) ou se cadastrando pelo site www.casadosartistas.org.br.

NOS BASTIDORES DO RETIRO

Divulgação Divulgação

14
Editais
O BNB (Banco do Nordeste do Brasil) realizará um elenco de oficinas de elaboração de projetos em 44 cidades dos 11 estados da sua área de atuação (Nordeste, Norte de Minas Gerais e do Espírito Santo), em um período de 25 dias (do dia 2, até 26 de junho). O objetivo das oficinas é oferecer maiores oportunidades de acesso aos recursos financeiros do Programa BNB de Cultura 2010 - Parceria BNDES, bem como divulgar o Edital de Microprojetos Mais Cultura (administrado pelo BNB em parceria com o Ministério da Cultura/Funarte e o Instituto Nordeste Cidadania), inclusive com o fornecimento detalhado de informações sobre preenchimento de formulários de inscrição. O ingresso nas oficinas é gratuito e não é necessário inscrição prévia. “Com as ocinas, pretendemos facilitar e estimular a participação do maior número possível de proponentes, além de fornecer orientações pertinentes à elaboração dos projetos diretamente aos artistas,

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

BNB realiza 44 ocinas gratuitas de elaboração de projetos
produtores, gestores culturais e demais interessados”, destaca o gerente do Ambiente de Gestão da Cultura do BNB, Henilton Menezes. Nos onze estados, as oficinas acontecerão nas seguintes cidades e datas: Ceará [Fortaleza (Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza – rua Floriano Peixoto, 941 - Centro - fone: (85) 3464.3108), na próxima terça-feira, 2, às 13h30; Granja, dia 8; Boa Viagem, dia 9; Limoeiro do Norte, dia 10; e Juazeiro do Norte (Centro Cultural BNB-Cariri - rua São Pedro, 337 - Centro - fone: (88) 3512.2855), também no dia 10]; Alagoas (Maceió, 3, Campestre, 4, e Santana do Ipanema, 5); Paraíba (João Pessoa, 3, Catolé do Rocha, 9, Sousa, 10, Pedra Lavrada, 15, São João do Cariri, 16, e Água Branca, 17); Rio Grande do Norte (Natal, 4, Caicó, 8, Pau dos Ferros, 15, e Macau, 16); Sergipe (Aracaju, 4, Tobias Barreto, 15, e Itabaiana, 17); Bahia (Salvador, 10, Mundo Novo, 15, Correntina, 16, Guanambi, 18, e Itamaraju,
Divulgação

Henilton Menezes: “Pretendemos estimular a participação do maior número possível de proponentes”

19); Pernambuco (Recife, 15, Pesqueira, 16, Araripina, 17, Serra Talhada, 18, e Petrolina 22); Maranhão (São Luís, 15, Presidente Dutra, 16, Grajaú, 17, e Balsas, 19); Espírito Santo (Linhares, 15, e Água Doce do Norte, 16);

Piauí (Teresina, 22, Esperantina, 23, Patos do Piauí, 24, e Corrente, 26); e Minas Gerais (Salinas, 22, Capelinha, 23, e Urucuia, 25). Desde o último dia 21, o edital contendo o regulamento do Programa e os respec-

tivos formulários eletrônicos para inscrição de projetos, bem como as instruções para preenchimento e o modelo de relatório para prestação de contas, estão disponíveis no portal do BNB (www.bnb. gov.br)

Fumproarte: inscrições iniciam em julho Programa de fomento ao teatro dança e teatro as inscrições vão Já está disponível no site abre inscrições em São Paulo de 6 a 10 de julho. da Prefeitura de Porto Alegre
Reprodução

o edital 8/2009 da Secretaria Municipal de Cultura para concurso que escolhe projetos contemplados com verba do Fumproarte (Fundo Municipal de Apoio à Produção Artística e Cultural). Para os projetos das áreas de folclore, humanidades e literatura as inscrições de projetos já estão abertas desde 29 de maio. Para as áreas de circo,

Durante o mês de junho serão realizadas palestras que facilitam os proponentes a confeccionar o projeto, nos dias 2, 4 e 9. Somente projetos cujo local principal de realização é Porto Alegre podem pleitear a verba. Mais informações em www2.portoalegre.rs.gov.br/ fumproarte/.

Verba somente para Porto Alegre

Secretaria de Cultura do Distrito Federal publica portaria para o FAC 2009
A classe teatral de Brasília tem até o dia 15 junho para inscrever projetos para receber recursos do FAC (Fundo de Apoio à Cultura) do Governo do Distrito Federal. O FAC é um instrumento de fomento a produção cultural, criado há 18 anos e que, a partir de 2008, passou por modicações e agora está atrelado a Receita Corrente Líquida do DF, cuja lei determina que os recursos destinados ao Fundo correspondam a 0,3% da Receita. Com isso, este ano a SEC (Secretaria de Cultura do Distrito Federal) recebeu cerca de R$ 19,5 milhões em recursos. Deste total, 17,5 milhões serão destinados as áreas de artes cênicas, literatura, artes visuais, dança, música, cinema, projetos especiais, circo, cultura popular, gestão, pesquisa e capacitação. A recém-criada área de Ações de Educação Patrimonial receberá R$ 1 milhão de investimentos e, o R$ 1 milhão restante será voltado para aportes, via concurso, nos 10 “Territórios de Diálogos” - áreas de vulnerabilidade social-, onde a SEC, em parceria com a Secretaria de Segurança Pública, desenvolverá trabalhos contínuos. Essas áreas receberão tratamento diferenciado e, além do acesso ao FAC convencional, será promovido um concurso de projetos, com o Conselho de Cultura, fazendo audições nas próprias localidades. A ideia da secretaria é investir na qualicação dos artistas e produtores locais a partir do próximo edital. Os formulários estão disponíveis na página da Secretaria de Cultura (www.sc.df.gov. br). Os interessados deverão possuir Certicado de Entes e Agentes Culturais, cujo prazo de inscrições terminou no último dia 6 de maio.

O Programa Municipal de Fomento ao Teatro, criado em 2002, recebe até o dia 30 de junho inscrições de projetos de trabalho continuado de pesquisa e produção teatral. O aporte destinado ao edital é de R$ 2.325.427,23, sendo que o incentivo máximo dado a cada projeto não poderá ultrapassar o valor de R$ 638.363,06. Serão selecionados até 16 projetos. Os grupos interessados deverão respeitar algumas condições, entre elas, propor uma única iniciativa e ter situação de

Jefferson Pancieri / SPTuris

pessoa jurídica sediada no município de São Paulo. Outras informações e a íntegra do edital estão disponíveis em www.prefeitura.sp.gov. br/cidade/secretarias/cultura.

Teatro Municipal de São Paulo

Funarte lança Prêmio Luso-Brasileiro em Portugal
A Funarte lançou no dia 12 de maio o edital do 3º Prêmio Luso-Brasileiro de Dramaturgia Antônio José da Silva, promovido em parceria com três entidades de Portugal: o Instituto Camões, a Direção Geral das Artes e o Teatro Nacional D. Maria II. O programa foi criado com o objetivo de impulsionar a escrita dramática em língua portuguesa, incentivar o surgimento de novos autores e reforçar a cooperação entre os dois países. Podem concorrer ao Prêmio textos teatrais originais de todos os gêneros e para todos os públicos, criados por dramaturgos brasileiros ou portugueses. Prêmio:15 mil euros e texto editado em livro e encenado no Brasil e em Portugal. Cada proponente poderá participar do concurso com um ou mais textos. As inscrições se encerram no dia 26 de junho de 2009. Mais informações: premiolusobrasileiro@funarte.gov.br.

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

15
Política Cultural
Pretendo, até o nal de junho, apresentar o substitutivo para, já no segundo semestre, enviarmos para o Congresso Nacional”, explicou Fátima. “Todo o nosso esforço será feito para que o PNC seja aprovado até o nal do ano”. Segundo a deputada, além do PNC, outros projetos precisam ser aprovados para beneciar o setor. “Desejamos concluir, também, a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do nanciamento da cultura, da PEC do Sistema Nacional de Cultura e as mudanças na Lei Rouanet. Esperamos consolidar as aprovações dessas legislações, pois, dessa maneira, dotaremos o Brasil de uma cultura mais forte”, armou a relatora. “Todas as propostas são interligadas, uma precisa da outra, portanto, precisamos que elas sejam aprovadas”. Fátima demonstrou empolgação com o PNC, por conta do favorecimento que o setor artístico terá com a aprovação. “Será uma expansão e fortalecimento da cultura no Brasil. Teremos maior valorização e incentivo do setor. Teatro, música, dança, cinema, todos os segmentos da área cultural serão beneciados”.

Plano Nacional de Cultura: um sonho prestes a ser realizado
Nova relatora do projeto, a deputada federal Fátima Bezerra (PT), espera aprovação do PNC pelo Congresso Nacional até o final do ano
O PNC (Plano Nacional de Cultura), em tramitação na Câmara dos Deputados desde 2006, pode ser aprovado nos próximos meses, o que trará um novo caminho para a cultura nacional. O plano prevê ampliamento do setor, expansão da abrangência das leis de incentivo e cobertura de todas as áreas culturais no Brasil. O Plano Nacional de Cultura é o primeiro planejamento público de longo prazo criado de forma democrática na área cultural. Lançado em junho de 2008 pelo Ministério da Cultura junto à Comissão de Educação e Cultura da Câmara, o projeto visa abranger as demandas culturais dos brasileiros e brasileiras de todas as situações econômicas, localizações geográcas, origens étnicas, faixas etárias e demais situações identitárias. É como se fosse uma “inclusão social” da cultura. A versão nalizada do PNC será apreciada pelo Congresso Nacional para ganhar o status de lei, com dez anos de vigência. Trata-se de um resultado de ampla discussão na sociedade. A batalha para a construção do plano se dá desde 2003 e rearDivulgação

Por Pablo Ribera

Deputada federal e relatora do projeto do PNC, Fátima Bezerra (de rosa), recebe a classe artística em seu gabinete

ma a correspondência da ação do Estado com as dinâmicas sociais. O Seminário Nacional Cultura para Todos, em 2003, foi a primeira de uma série de ações voltadas ao envolvimento das pessoas na avaliação e no direcionamento dos rumos das políticas culturais, além de movimentos nas Câmaras Se-

toriais, instâncias pelas quais os representantes de setores artísticos organizados, instituições e empreendimentos culturais contribuíram para o diagnóstico de demandas e a avaliação de prioridades. A deputada federal Fátima Bezerra (PT), recém-escolhida como nova relatora do projeto

de lei do PNC na Câmara dos Deputados, acredita que o projeto será aprovado em breve. “O PNC foi amplamente debatido entre o Ministério da Cultura, a Comissão de Educação e Cultura e junto aos demais fóruns de cultura do Brasil, além dos gestores, dos artistas e de toda a comunidade do setor.

HISTÓRICO DAS PRINCIPAIS ETAPAS DO PNC 2003 – 2006
Os 20 encontros do Seminário Cultura para Todos reúnem interessados no debate sobre as políticas culturais de várias partes do Brasil. Os resultados das discussões representam o começo do processo de acúmulo de subsídios para a formulação e implementação do PNC. A Agenda 21 da Cultura, aprovada em maio de 2004, em Barcelona, pelo IV Fórum das Autoridades Locais de Porto Alegre pela Inclusão Social, no âmbito do 1º Fórum Universal das Culturas. As Câmaras Setoriais, instituídas a partir de 2004, estabeleceram instâncias voltadas à elaboração de políticas setoriais e transversais de cultura. Os relatórios dos grupos de trabalho das Câmaras são a segunda fonte de subsídios para o PNC. A Emenda Constitucional 48, aprovada pelo Congresso em julho de 2005 a partir da proposta (PEC 306, de 2000) de autoria do deputado Gilmar Machado e outros, determinou a realização plurianual do Plano Nacional de Cultura. Em junho de 2005, foi apresentada pelo deputado Paulo Pimenta a PEC 416, de 2005, que instituiu o Sistema Nacional de Cultura. O Decreto 5.520, de 24 de agosto de 2005, institui o SFC (Sistema Federal de Cultura). Sua finalidade é a integração de instituições e programas relacionados às práticas culturais. Trata-se do primeiro passo para a formação do Sistema Nacional de Cultura, rede que será responsável pela implementação, acompanhamento e avaliação do PNC. A 1ª Conferência Nacional de Cultura foi realizada entre setembro e dezembro de 2005, período no qual ocorreram mais de 400 encontros municipais, intermunicipais, estaduais e setoriais, além de uma plenária nacional. O ciclo de discussões mobilizou mais de 60 mil pessoas, incluindo gestores de cerca de 1200 municípios. As resoluções da CNC compõem o projeto de lei do PNC e são a base de desenvolvimento de suas diretrizes gerais. A Convenção para a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais foi adotada em 2005 pela Unesco. Ratificada pelo Brasil, em 2006, a Convenção é o marco jurídico internacional para as políticas do PNC. Apresentado em março de 2006, pelos deputados Paulo Rubem Santiago, Iara Bernardi e Gilmar Machado, o Projeto de Lei 6835 propõe a instituição do Plano Nacional de Cultura. O Ministério da Cultura lidera, desde 2006, o trabalho de elaboração das diretrizes gerais do PNC, considerando os debates já realizados e o conteúdo de novos encontros de debate, como o Fórum Nacional de TVs Públicas e o Seminário Internacional de Diversidade Cultural (2007). O primeiro levantamento estatístico do Sniic (Sistema Nacional de Indicadores e Informações Culturais) é publicado no final de 2006 pelo IBGE e pelo Ministério da Cultura. Câmara dos Deputados, formada em 2007, passa a abrigar uma série de audiências públicas para o debate de propostas para o Plano Nacional de Cultura. Em setembro de 2007, o IBGE publicou o Suplemento de Cultura da pesquisa de informações básicas municipais. O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) publica dois estudos sobre economia da cultura e políticas culturais em parceria com o MinC. O CNPC (Conselho Nacional de Política Cultural) foi instalado no final de 2007. A partir de março de 2008, uma comissão temática fez uma revisão do caderno de diretrizes gerais do Plano Nacional de Cultura e submeteu propostas de aperfeiçoamento ao plenário do órgão. Esse trabalho deu origem à segunda edição do caderno. Os Seminários Estaduais do Plano Nacional de Cultura foram organizados em todas as capitais do País, em 2008. Uma página na internet oferece a possibilidade de contribuição remota durante a etapa conclusiva de discussão da proposta do PNC. Após a votação pelos deputados federais, o projeto será apreciado no Senado e, uma vez aprovado, seguirá para a sanção presidencial. Em ambas as casas do Congresso Nacional o projeto será analisado na Comissão de Educação e Cultura e na de Constituição e Justiça. Depois da entrada em vigor da lei que trata no PNC haverá a elaboração de programas e planos segmentados e regionais pelos órgãos de gestão das políticas de cultura do País. Essa etapa de planejamento terá como objetivo a tradução das diretrizes gerais do PNC em ações e metas adequadas às especificidades das linguagens artísticas, práticas culturais, demandas de grupos populacionais e identitários e situações municipais, estaduais e regionais. A efetiva implementação do PNC começa com a definição de responsabilidades das organizações públicas, privadas e civis e subsequente execução compartilhada das iniciativas planejadas. Simultaneamente, entrará em funcionamento o sistema de acompanhamento e avaliação do Plano, que resultará em revisões periódicas das rotas inicialmente estabelecidas. A 2ª Conferência Nacional de Cultura, prevista para março de 2010, deverá ser o primeiro grande encontro de debate público sobre as políticas públicas culturais no período de vigência do Plano. Entre outros temas, o encontro deverá estimular a elaboração de planos estaduais e municipais e discutir as estratégias de implantação e os instrumentos de acompanhamento do PNC.

2009 – 2010
A deputada Fátima Bezerra foi escolhida nova relatora do projeto de lei do PC da Câmara dos Deputados, em março de 2009. A parlamentar e sua assessoria passaram a trabalhar, em conjunto com o MinC, na incorporação das diretrizes debatidas com a sociedade ao texto do substitutivo do projeto e na finalização deste.

2007 – 2008
A Subcomissão Permanente de Cultura da

16

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

Especial
Fotos: Divulgação

Gloriosa,
Por Rodrigoh Bueno Embora insista em negar, Marília Pêra já mostrou ser uma ótima cantora interpretando mulheres como Maria Callas, Dalva de Oliveira e Carmen Miranda nos palcos. Além disso, lançou CDs e foi uma das primeiras “divas” dos musicais brasileiros. A anação que sempre buscou agora é a principal inimiga de cena da atriz no espetáculo “Gloriosa”, em cartaz no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo. “A composição desta personagem foi extremamente difícil para mim porque passei a minha vida inteira aprendendo a cantar e me aprimorando. De repente, tenho que fazer justamente o contrário, desanar. Foi uma verdadeira desconstrução da minha voz. E, além disso, há uma transição no nal do espetáculo, quando eu canto, nalmente de forma correta, a Ave Maria. Vou de um extremo ao outro”, diz Marília Pêra, que interpreta Florence Foster Jenkins, uma cantora que não acertava uma única nota musical. Durante os ensaios, a atriz revelou que eram frequentes os erros – quando acertava as notas ao invés de errar, tarefa exigida pelos diretores Charles Möeller e Cláudio Botelho. Além de “ler música”, Marília brinca com a possibilidade vocal no espetáculo, emitindo notas exageradamente agudas que provocam gargalhadas imediatas no público. Além disso, um piano acompanha ao vivo a cantora e é preciso que o desencontro seja mantido, favorecendo a interpretação do ator Eduardo Galvão – que com Guida Vianna completam o elenco. Marília Pêra acredita que Florence tinha uma vaga percepção de que não cantava bem. “Mas ela nem pensava nisso, creio eu, tamanho o amor que tinha pela música e a necessidade de estar cercada do aplauso. Na verdade, acho que ela não queria ter essa consciência, diz ela, que, além da Ave Maria, de Gounod, canta A Rainha da Noite, de Mozart; A Risada de Adele, de Strauss; e A Canção do Sino, de Lackme. O diretor Charles Möeller diz que a escolha da atriz surgiu logo no primeiro contato com a personagem “Há alguns anos Claudio e eu assistimos a uma peça na Broadway chamada Souvenir e imediatamente pensamos na Marília para o papel de Florence Foster. Quando voltamos para o Brasil tentamos comprar os direitos, mas alguém chegou na nossa frente. Logo depois, e por uma incrível coincidência, os produtores Sandro Chaim e Claudio Tizo nos apresentaram a mesma história, desta vez na versão inglesa e com uma outra visão, a do autor Peter Quilter. E não poderia ser outra atriz no papel. Só uma prossional que canta muito bem poderia interpretar uma personagem que canta mal. A Guida Vianna dá um toque cômico muito especial à peça e Eduardo Galvão faz o papel de um sedutor”, conta. Guida se divide em três papéis: ora favoráveis à cantora que ignora a técnica em razão do prazer de cantar, ora desfavoráveis à louca que não conseguiu acertar nem mesmo uma nota em seus recitais, lotados. “Sou um coringa no espetáculo e os personagens são bem diferentes, o que tem me estimulado muito. Tem sido maravilhoso e um privilégio estar ao lado de uma atriz com o talento da Marília. E a história de Florence é fascinante. Chega a ser surreal, se não fosse uma história verdadeira”. Embora a parceria de Guida e Marília tenha sido elogiada na novela “Duas Caras”, da Rede Globo, as atrizes revelam que foi uma grande e grata surpresa o reencontro, proposto pelos diretores. Galvão interpreta o pianista Cosme McMoon. “Meu personagem é um homem que entrou na vida de Florence por causa do dinheiro, anal ele precisava tocar para sobreviver e ganhava relativamente pouco nos restaurantes onde trabalhava. Mas, com o passar do tempo, Cosme adquire um carinho enorme por ela e ca ao seu lado até o m” conta. O espetáculo é el à história de Florence, mas na última cena – talvez como redenção, ou homenagem – Marília dá vida à personagem já morta, mas desta vez anadíssima. FLORENCE FOSTER Florence Foster Jenkins era a piada mais popular de Nova York nos anos 40 do século passado. Os ingressos para os recitais anuais que protagonizava no Hotel Ritz eram disputados a tapa. No meio de seu público, podiam ser reconhecidos Cole Porter e Noel Coward. A eles, ela oferecia um repertório caprichado — Mozart, Verdi, Strauss — com uma peculiaridade: conseguia as piores interpretações que estes compositores já tiveram em toda a História. Florence cantava mal. Muito mal. Tão mal que ganhou o apelido de “a diva do grito”.

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

Marília Pêra
Nascida em 1868, Florence, desde criança, manifestou o desejo de seguir a carreira de cantora lírica. O pai, um banqueiro bem-sucedido, ao notar o resultado das primeiras aulas de canto da lha, recusou-se a continuar pagando seus estudos. Florence não desistiu. Aos 17 anos, fugiu de casa para continuar dedicando-se à arte de cantar. Casou-se, descasou-se e cou na pior até o pai aceitá-la de volta, com a condição de que renunciasse ao canto. Ela topou e foi assim até completar 41 anos, quando o pai morreu e Florence herdou grande parte de sua fortuna. Não havia mais empecilho algum para mostrar ao mundo sua indomável voz de soprano. Três anos depois, ela já estava dando seu primeiro recital anual. Tinha inquebrantável segurança de seu talento e dispunha-se a cantar as árias mais difíceis do repertório clássico. Em 1934, conheceu o pianista Cosme McMoon com quem formou uma dupla até o m da vida. Neste período, manteve o recital no Ritz, agora com McMoon — ela vendia os ingressos pessoalmente para evitar a presença de jornalistas — e gravou dois discos. A renda ia sempre para instituições de caridade. Aos 75 anos, viajando num táxi, sofreu um acidente no trânsito. Os amigos tentaram convencê-la a processar o motorista. Ela preferiu enviar-lhe uma caixa de charutos. Adquiriu a crença de que, depois do desastre, conseguia emitir um fá maior melhor do que nunca. Os amigos temeram também a gravação dos discos. Acreditavam que, se ela se ouvisse, perceberia o quanto cantava mal. Mas Florence não se deu conta. Achava que os discos revelariam seu talento para gerações futuras, seriam como um souvenir de sua arte. Tinha 76 anos quando aceitou se apresentar a um público maior que o dos recitais no Ritz e estrelou um concerto no prestigioso Carnegie Hall. Feito o anúncio, os ingressos se esgotaram em poucas horas. Mais de duas mil pessoas voltaram da porta do teatro, na noite de 25 de outubro de 1944. Quem viu garante que foi uma apresentação inesquecível. E interminável. Entre uma música e outra havia intervalos enormes para Florence mudar de gurino. Sua roupa com asas — ela chamava de “Angel of Inspiration” — tornou-se um clássico.
Jarbas Homem de Mello

Especial
Atriz inicia temporada paulista de comédia musical sobre “a pior cantora do mundo”

17

No sentido anti-horário, a gloriosa Marília Pêra, em três momentos distintos do espetáculo, comprova toda a sua versatilidade na pele de Florence Foster Jenkins. Na foto acima, durante a coletiva de imprensa, a atriz posa junto aos companheiros de cena Eduardo Galvão - que interpreta o pianista Cosme McMoon - e Guida Vianna - ora empregada mexicana, ora Dorothy, ora Verida.

Conta-se que a atriz Tallulah Bankhead riu tanto durante a apresentação que teve que ser retirada do teatro. Um mês depois do concerto, Florence morreu. Há quem atribua a morte à depressão por, enm, dar-se conta da reação do público e da crítica. MARÍLIA PÊRA A atriz, diretora, bailarina e coreógrafa nasceu no Rio de Janeiro, lha dos atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo. Sua estréia no palco foi aos quatro anos de idade ao lado de seus pais, que integravam o elenco da companhia de Henriette Morineau. Dos catorze aos 21 anos atuou como bailarina e participou de musicais como “My Fair Lady” (1962) e “O Teu Cabelo Não Nega” (1963), no papel de Carmen Miranda – que voltaria a interpretar em diferentes momento da carreira, como em “A Pequena Notável” (1972), e no musical “Marília Pêra canta Carmen Miranda” (2005).

Entre seus feitos musicais está a disputa (vencida) com Elis Regina em 1964 em um teste para o musical “Como vencer na vida sem fazer força”. Sua primeira aparição na televisão foi em “Rosinha do Sobrado”, na Rede Globo (1965). Em seguida vieram “A Moreninha” (1966), e os espetáculos musicais “A Úlcera de Ouro”, “Fala baixo senão eu grito” (1969). Além de Florence, tem interpretado grandes mulheres no teatro, entre elas, Maria Callas, Carmen Miranda, Dalva de Oliveira e Chanel. Mas, o trabalho político também está presente em sua carreira. Nos anos 60, chegou a ser presa durante a apresentação da peça “Roda Viva” (1968), de Chico Buarque. Com uma das carreiras mais consolidadas do teatro, cinema e televisão, Marília diz que ainda sonha com um grande papel no cinema “Mesmo tendo na história grandes personagens, como em Pixote e Central do Brasil”, conta.

18
Festivais
O FIT (Festival de Teatro de São José do Rio Preto), sediado na cidade localizada no interior paulista, a 450 quilômetros da capital, comemora seu 40º aniversário. Em sua última edição, o FIT reuniu, aproximadamente, 130 mil pessoas. Foram dez estados brasileiros participantes (Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco, Paraná, Goiás, Rio Grande do Sul, Bahia e Distrito Federal) e sete países de diferentes continentes, entre eles França, Polônia e Argentina. A 40º edição do festival, acontecerá entre os dias 16 e 25 julho. O que caracteriza o FIT como um dos maiores festivais internacionais de teatro do Brasil não é a competição – que deixou de existir com a reformulação do projeto, em 2000 –, mas “um evento voltado à experimentação, à busca de novos conceitos e linguagens que levem ao aprimoramento e avanço das criações teatrais”, segundo o diretor do festival, Jorge Vermelho. A edição de 2009 ainda não tem todos os espetáculos definidos e a organização só divulgará todas as atrações no dia 17 de junho. Para se ter uma idéia da dimensão do festival, mais de 50 espetáculos aconteceram no ano passado. Este ano, mais de 400 grupos se inscreveram para participar, um reflexo de que o evento está em plena ascensão. “A cada ano o festival estabelece-se como um dos principais pólos de discussão teatral contemporânea”, avalia Vermelho. A seleção dos espetáculos é feita através de uma equipe curatorial, que “analisa as propostas e filmagens das companhias de teatro inscritas no festival”, explica o diretor. A comissão que elege os participantes é sugerida pela própria classe teatral e, por isso, o FIT tem forte presença crítica em suas edições. Exemplo
Divulgação

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

Festival Internacional promove debate sobre o teatro contemporâneo
A 40ª edição do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto se destaca pela variedade de informação e conteúdo cultural
Por Ive Andrade

Divulgação

Evento é voltado à experimentação e à busca de novos conceitos e linguagens teatrais

disso é o Painel Crítico, evento realizado todos os anos no qual críticos convidados dão suas opiniões sobre os espetáculos apresentados e promovem o debate dentro do módulo Atividades Formativas. Outra forte postura do festival é justamente a discussão sobre o teatro contemporâneo e sobre o cenário apresentado pelos grupos, colocando o FIT entre uma das referências do teatro nacional, além de promover “troca, intercâmbio, reflexão, circulação de espetáculos e de idéias”, diz

Vermelho. A idéia é que, trocando informações e experiências, os profissionais presentes consigam evoluir ainda mais a cena teatral brasileira e mundial. A realização do Festival Internacional de Teatro de São José do Rio Preto acontece graças à parceria entre a prefeitura de São José do Rio Preto e o Sesc, que custeiam boa parte dos gastos (as entidades contam, também, com apoio de diversos patrocinadores, como a Petrobras, o Governo do Estado e a Caixa Econômica Federal).

Divulgada lista dos espetáculos Cena Contemporânea abre vagas para festival em setembro selecionados para 16º Floripa Teatro
Por Ana Paula Bessa Estão abertas as inscrições para o Cena Contemporânea – Festival Internacional de Teatro de Brasília, que acontecerá de 1 a 13 de setembro. As inscrições para grupos coletivos de teatro, de dança, de circo ou de performance do Distrito Federal vão até o dia 1 de julho. Para participar do processo seletivo os grupos deverão enviar suas propostas, exclusivamente por correio eletrônico, para o endereço cenacontemporanea2008@ gmail.com. A proposta deverá conter apresentação do espetáculo, informação sobre apresentações já realizadas (especialmente no Plano Piloto, Taguatinga e Ceilândia), duração, recomendação etária, tempo necessário para montagem e desmontagem além de críticas. Os candidatos também terão que enviar um DVD do espetáculo ou entregá-lo no seguinte endereço: SCNL 205 Bloco C Loja 25, Cep: 70843-530 - Brasília - DF. Junto com a mídia deverão ser entregues, também, quatro fotos em alta denição do grupo com a informação do crédito do fotógrafo. Os resultados serão divulgados no dia 13 de julho, através do mailing do Festival, do Fórum de Teatro do DF, e pela imprensa. No ato da contratação, o selecionado deverá comprovar registro prossional e recolhimento de contribuição sindical de todos os integrantes do grupo (DRT). Por Adoniran Peres A FCFFC (Fundação Cultural de Florianópolis Franklin Cascaes) divulgou a lista dos espetáculos selecionados para o 16º Floripa Teatro – Festival Isnard Azevedo. Com recorde histórico de inscrições em relação às edições anteriores, o evento, em 2009, terá participação de 30 grupos teatrais de sete estados brasileiros, com 122 apresentações em diferentes pontos da cidade. O 16º Floripa Teatro – Festival Isnard Azevedo acontece de 11 a 23 de agosto, na capital catarinense. Para a mostra, foram selecionados 11 espetáculos teatrais adultos, seis infantis e 13 de rua e circo-teatro. Os participantes farão apresentações nos teatros Álvaro de Carvalho, governador Pedro Ivo e Ubro, bem como na lona montada no largo da Alfândega, na área central. Além desses espaços, o evento deste ano traz novidades. Serão instaladas lonas também no Norte, Sul e Leste da Ilha, com estrutura de arquibancada e apresentações gratuitas. O objetivo é ampliar o acesso da população às artes cênicas, com maior comodidade. Os espetáculos do festival foram escolhidos com base na relevância artística, na diversidade de linguagem proposta dentro da encenação, na originalidade e na excelência da obra.

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

Mais de cinco décadas ensinando teatro
Com mais de 50 anos de história, o Departamento de Arte Dramática (DAD) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), fundado em 1957, é, hoje a principal referência para quem busca formação superior em artes cênicas no Sul do País. O curso de graduação em Teatro oferece duas habilitações para bachareis: interpretação teatral e direção teatral. Há, ainda, a licenciatura em teatro para formar professores de primeiro e segundo grau. Os cursos visam prover ao aluno conteúdos básicos, como visão geral de artes cênicas, cultura e literatura, além de focar nas especicidades das funções de diretor e ator para cada habilitação. A licenciatura em teatro tem foco nas práticas pedagógicas. Coordenador do DAD, João Pedro Gil garante que os cursos procuram fazer o elo entre o ator, o diretor e todos os demais elementos e prossionais que compõem o teatro. Gil destaca, também, a importância do curso de pós-graduação que já tem formado seus primeiros mestres, área em crescimento no País. “Os estudos acadêmicos em artes cênicas no Brasil são recentes. Há pouco mais de dez anos tivemos os primeiros encontros para debater o tema”. VENCENDO A DITADURA O contato com a sociedade é permanente com as mostras de alunos e apresentações de conclusão de curso, entre outros eventos. Mas nem sempre o DAD esteve tão cheio de vida. Ligado à Faculdade de Filosoa, o então Centro de Arte Dramática (CAD) sofreria na pele um desmonte promovido em todos os cursos ligados às humanidades pela ditadura militar, no início dos anos 70. “A vinda do Luiz Paulo Vasconcellos, do Rio de Janeiro, para apresentar a “Ópera dos Três Vinténs”, de Bertold Brecht, em 1969, seria decisiva para a instituição”, conta João Pedro Gil. Vasconcellos relata como o jovem estudante de teatro carioca foi parar em Porto Alegre naquela ocasião. “O Gerd Bornheim, diretor do curso, havia solicitado a Yan Michaslky, crítico do “Jornal do Brasil”, a indicação de um diretor”. Ele explica a importância da apresentação da peça naquele momento. “A escolha, feita por mim e pelo Gerd, tinha algo de provocativo. Anal, vivíamos sob uma ditadura militar e a censura era uma instituição poderosa. Mas havia um detalhe: os espetáculos de alunos de cursos ociais não eram submetidos a ela. Assim, estreamos Brecht em Porto Alegre, em plena ditadura, sem intervenção nenhuma”. Para que a apresentação fosse exitosa Luiz Paulo trabalhou com os alunos, de março a junho de 69, até a estreia do espetáculo. “Foi um sucesso como Porto Alegre não tinha visto ainda com um espetáculo local”. Foram três meses em cartaz, com críticas elogiosas em todos os jornais diários da capital gaúcha. Àquela altura, Vasconcellos já tinha retornado ao Rio de Janeiro para concluir o bacharelado no ConservaDivulgação

Formação

19

Departamento de Arte Dramática (DAD) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) precisou ressuscitar em meio à ditadura militar

Espetáculo “Deus”: direção (Tainah Dadda) e elenco por alunos do DAD-IA/UFRGS no Projeto Teatro, Pesquisa e Extensão, em 2006

tório Nacional de Teatro (hoje UNIRio). Entretanto, aquela experiência fora decisiva em sua carreira. “Saí do Rio Grande do Sul com um convite do Gerd no bolso: retornar em 1970, como professor. Maravilha, eu estava me formando e já tinha trabalho garantido”, conta. Um revés impingido pelos militares faria com que coubesse ao recémchegado professor capitanear a missão de reerguer o departamento. Gerd Bornheim fora demitido, compulsoriamente, juntamente com outros professores que haviam assinado um documento em repúdio ao reitor da Universidade. “Os alunos abandonaram o espetáculo e a expectativa era de que o curso fosse fechado. Coube a mim segurar essa barra, interceder pela manutenção, atendendo a um pedido do Gerd”. Neste período de instabilidade, o antigo CAD passou à nomenclatura atual e deixou de integrar a Faculdade de Filosoa para se agregar ao Instituto de Artes que, desde 1908, formava músicos e artistas plásticos. Luiz Paulo convenceu os alunos a retornarem e solicitou a contratação de recémformados para integrarem o novo corpo docente, com um novo currículo. Montou, também, diversos espetáculos durante os anos 70 que deram notoriedade ao curso e serviram de base para o aprendizado dos alunos, como “Vestido de Noiva”, de Nelson Rodrigues, “Hamlet”, de Shakespeare, e “Casa de Orates”, de Arthur Azevedo. “Ataquei em todas as frentes na luta pela sobrevivência, manutenção e crescimento do curso. Um trabalho do qual muito me orgulho”.

20

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

Vida & Obra
Por Felipe Sil/JT Sua obra não poderia ser mais icônica do que o próprio foi durante toda a vida. Dramaturgo, diretor de teatro e de televisão, Oduvaldo Vianna Filho (4 de julho de 1936 a 16 de julho de 1974), também conhecido como Vianninha, escreveu “Chapetuba Futebol Clube”, “Rasga Coração” e “Allegro Desbum” – todas peças de grande destaque entre público e crítica –, e entrou na história da arte brasileira por sua criatividade e ousadia para polemizar. O sonho de criar um nome na dramaturgia do País, sem perder o espírito combativo, foi constante em toda sua breve vida e, talvez, tenha sido realizado quando conseguiu criar e dirigir, em 1973, na Rede Globo, o sucesso “A Grande Família”. Desde então, a série é lembrada com carinho, como um dos maiores sucessos humorísticos da TV brasileira. Polêmico e audacioso, Vianninha foi participante ativo do Teatro de Arena, nos anos 50, companhia responsável pela renovação e nacionalização da arte sobre o palco. O objetivo era produzir espetáculos de baixo custo, de autores nacionais, e incentivar o surgimento de diretores brasileiros. Tudo em contraposição às obras até então produzidas pelo TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), que se caracterizavam pela alta sosticação de suas produções e pelo pouco contato com a cultura nacional. Para reforçar sua imagem de contestador, é só lembrar que Oduvaldo Vianna também foi fundador do (CPC) Centro Popular de Cultura da UNE (União Nacional dos Estudantes) e do Grupo Opinião. Os ideais defendidos nas peças e seu caráter contestador típico da esquerda da época, no entanto, não se confundiam com o inegável talento e poesia que brotavam da sua mente criativa. Vale destacar o que o dramaturgo Nelson Rodrigues, crítico implacável das posições políticas em voga na classe artística da época, disse sobre Vianninha: “Sua estrutura doce exige o diminutivo. Dos nossos artistas, é o menos sombrio, o menos neurótico, o menos ressentido. O nosso teatro está cheio de víboras. Pois o Vianninha é a anti-víbora”. Por falar de militância política, é importante lembrar que ela foi herdada dos pais. Oduvaldo e Deuscélia Vianna já eram ligados ao PCB (Partido Comunista Brasileiro). Quando tinha apenas nove anos, o lho foi agrado, em plena Avenida Ipiranga, na capital paulista, a distribuir “santinhos” e pedir votos para o pai, então candidato a deputado estadual pelo partido. Nos anos 1950, Vianninha entraria para a União da Juventude Comunista. “Eu, um simples operário, negro, tive a minha cabeça formada por aqueles intelectuais de

Arte com uma pitada de contestação e de sonhos de mudança
Vianninha entrou na história do teatro por fazer arte de qualidade sem esquecer seus ideais políticos

esquerda e acabei entrando para o mundo artístico. Vianninha, talvez, era o mais ativo deles todos. Usava a sua arte para transmitir seus ideais e suas opiniões sobre a realidade brasileira, que ele julgava ser o foco mais importante a ser dado pela classe”, comenta o amigo Jorge Coutinho, hoje presidente do Sated/RJ (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio). “Além de muito ideólogo, outro traço que gosto de lembrar dele é a sua amizade. Recordo que, após ganhar um prêmio, em Cuba, chegou ao Brasil e gastou todo o dinheiro com os amigos. Acima de tudo, porém, era um visionário”. Um marco na sua vida de polemista de esquerda foi o show “Opinião”, que estreou em ns de 1964, no Rio de Janeiro. A obra, escrita em parceria com Paulo Pontes e Armando Costa, tornou-se um marco da resistência cultural à ditadura militar e foi responsável pelo lançamento de Maria Bethânia, chamada da Bahia para substituir Nara Leão, que se consagrou com a interpretação da canção “Carcará”, de João do Vale. O elenco também contava com Zé Keti e João do Vale. “Vianninha é, talvez, o representante mais exponencial de um teatro de intervenção e de participação política. Ele entendia a dramaturgia como centro de produção social e de transformação. Oduvaldo ganhou essa formação do pai dele, que também era dramaturgo e envolvido nessas questões, e aprofundou seus ideais no Teatro de Arena. Só que sua importância para o teatro brasileiro, acredito, transcende essa determinação de transformar a sociedade através da arte”, comenta Macksen Luiz, crítico de teatro do Jornal do Brasil. Talvez por sua intensa participação nos movimentos esquerdistas da época, sua ida para a TV, logo após o início da ditadura militar, lhe gerou críticas de antigos companheiros, amargurados com o que julgavam ter sido uma traição aos princípios que tanto defendiam. O trabalho de Vianninha na televisão, no entanto, não era tão diferente do que vinha praticando ao longo dos anos no teatro. O tom da comicidade projetado pelo autor para as personagens televisivas partia de ambientações projetadas no cenário urbano. Nesses programas, eram comuns as referências ccionais habituais ao exercício diário do cotidiano dos telespectadores. Exemplo é o seriado “A Grande Família”, que foi ao ar na Rede Globo, em 1973, dirigido juntamente com Armando Costa. “Tanto Vianninha quanto Paulo Pontes e Ferreira Gullar, que eram dessa mesma turma, foram para a TV não porque deixaram de acreditar na ideologia que defendiam, mas porque achavam que a televisão já era um meio muito poderoso de

Fotos: Funarte / Centro de Documentação

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

Vida & Obra
LINHA DO TEMPO
1936 Oduvaldo Vianna Filho nasce, em 4 de junho, no Rio de Janeiro. 1937 Com menos de um ano de idade, já participou em filmes dirigidos por seu pai, “Bonequinha de Seda” e “Alegria”. 1945 Aos 9 anos, demonstra proximidade com a militância política, ao distribuir santinhos da campanha de seu pai a deputado estadual, em São Paulo. 1946 Tenta escrever seu primeiro texto, aos 10 anos, “Zé Galinha Ganha no Boxe, Perde no Amor, Sem Conclusão”. 1950 Entra para a União da Juventude Comunista. 1953 Vianninha se matricula na Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie, abandonando o curso em 1955 para se dedicar ao teatro. 1954 Ajuda a criar o TPE (Teatro Paulista do Estudante), ao lado de Gianfrancesco Guarnieri e com orientação do diretor italiano Ruggero Jacobbi. Ambos filhos de intelectuais famosos, foram convocados pelo partido para organizar um grupo de teatro amador no setor estudantil. Nasce, então, o TPE, com a primeira sede no apartamento dos Vianna. Oduvaldo Filho, que estava na Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie, abandona o curso e se envolve mais profundamente com o teatro, para tristeza do pai, que advertia: “Teatro não é profissão que sustente ninguém”. Em 1956, o Teatro Paulista iria se juntar ao Teatro de Arena, que já existia desde 1953. 1956 Estreia como ator no Teatro de Arena, na peça “Escola de Maridos”, de Molière. Foi, porém, por seu trabalho em “Juno, o Pavão”, de Sean O´Casey, que ele recebeu os prêmios Saci e Governador do Estado como melhor ator coadjuvante, em 1956. 1957 Casa-se com Vera Gertel. No mesmo ano, escreve a peça “Bilbao, via Copacabana”, que ganha o Prêmio Caixa Econômica Federal. 1958 Nasce o primeiro filho de Vianninha, Vinícius Vianna. Participa do espetáculo “Eles não Usam Blacktie”, de Gianfrancesco Guarnieri, com direção de José Renato, que tem grande importância para o Arena. O teatro, que estava para fechar, conseguiu recuperar sua imagem e se levantar. Tem início, então, uma verdadeira revolução na arte cênica brasileira. A mudança nos rumos se deu mais pela entrada de Augusto Boal no grupo. Com o sonho de fazer um teatro popular voltado para a realidade brasileira, deixou a instituição nas mãos da juventude. Vianninha atua em “Gente como a Gente”, de Roberto Freire, e “Revolução na América do Sul”, de Boal. 1959 Do Seminário de Dramaturgia escreve a peça “Chapetuba Futebol Clube”, considerada a melhor daquele ano. Vianninha receberia os prêmios Saci, Governador do Estado e da Associação de Críticos Teatrais do Rio de Janeiro. 1960 Apesar de todo o sucesso, sai do Arena. O Teatro vivia um ambiente de desencontros, com atritos e divergências políticas. Escreve e monta a peça “A Mais-valia vai Acabar, seu Edgar”, no Rio de Janeiro, com músicas de Carlos Lyra e direção de Chico de Assis. 1961 Ao lado de artistas que viriam se tornar grandes artistas brasileiros (Leon Hirszman, Francisco de Assis, Carlos Lyra, Armando Costa, Cacá Diegues, Arnaldo Jabor, Paulo Afonso Grisolli, Carlos Vereza, Joel Barcelos, Antônio Carlos Fontoura e, depois, Ferreira Gullar, Thereza Aragão, João das Neves, Pechin Plá e muitos outros), ajuda a criar o Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). Com o centro foi institucionalizado o teatro de rua, que se apresentava em praças públicas, favelas, associações e sindicatos. Seu repertório era, basicamente, constituído por criações coletivas de esquetes relâmpagos e autos como “Auto do Tutu”, “Auto do Cacete” e “Auto dos 99%”. Peças curtas também foram produzidas como “Brasil, Versão Brasileira”, do próprio Vianninha, e “Miséria ao Alcance de Todos”, de Arnaldo Jabor. 1962 Atua no filme “Cinco Vezes Favela”, no episódio dirigido por Cacá Diegues. 1963 “Quatro Quadras da Terra”, escrita por Vianninha, em 1963, ganha, no ano seguinte, o primeiro lugar no concurso de dramatização da Casa de las Americas, em Cuba. 1964 Com o golpe militar de março de 1964, Vianninha e a turma do CPC viram a invasão e o incêndio da UNE. Com isso, o projeto que tanto sonharam era transformado em cinzas. Só que Vianninha voltaria a escrever duas telepeças: “O Matador” e “O Morto do Encantado Saúda e Pede Passagem”, premiadas com o primeiro e o quinto lugares, respectivamente, em concursos no Rio de Janeiro e em São Paulo. Durante a ditadura militar, também escreveu para Nara Leão o musical “Opinião”, também responsável por lançar Maria Bethânia no circuito carioca. 1968 Com o AI-5, a situação de Vianninha se tornara cada vez mais sufocante. Paulo Pontes decide, então, levá-lo para a TV Tupi, onde Bibi Ferreira apresentava o programa semanal “Bibi, Série Especial”. Isso em uma época na qual os intelectuais não viam a televisão com bons olhos. 1969 Escreve a peça “A longa noite de Cristal”, conquistando o Prêmio Coroa como melhor texto do ano. No ano seguinte, a obra conquistaria o Prêmio Molière em duas categorias: melhor autor e melhor diretor. Ainda em 1969, Vianninha escreveria “Brasil e Cia.” com os parceiros Armando Costa, Ferreira Gullar e Paulo Pontes. 1970 Casa-se com Maria Lúcia Marins. Atua ao lado de Glauce Rocha no filme “Um Homem sem Importância”, de Alberto Salvá, e escreve a peça “Corpo a Corpo”. 1973 Convidado a trabalhar na TV Globo, passaria a sofrer pressões do grupo ideológico que fazia parte. Vianninha respondia que a negação para se trabalhar em TV no século XX era “burrice”. Começa, então, um trabalho de adaptações de obras clássicas para telepeças no programa Casos Especiais, da Rede Globo: “Medéia”, “Noites Brancas”, “A Dama das Camélias”, “Mirandolina”, “Ano Novo”, “Vida Nova” e “As Aventuras de uma Garrafa de Champanhe”, além de adaptar um texto de sua autoria, “O Matador”. Em 73, lança “A Grande Família”, em forma de seriado. Baseado em uma sitcom americana, Vianninha escrevia os textos com Armando Costa e o programa tinha a direção de Paulo Afonso Grisolli. Nesse ano, nasce sua filha, Mariana Marins Vianna, e Oduvaldo Vianna luta contra um tumor pulmonar. 1974 Morre em 16 de julho, no Rio de Janeiro. Sua obra “Rasga coração” estreia em 21 de setembro daquele ano, no Teatro Guaíra, em Curitiba, no Paraná.

21

veiculação de ideias, apesar de todas as suas limitações. Além do mais, eram prossionais e precisavam ganhar dinheiro. Mesmo assim, a temática política continua, de certa forma, nas suas obras”, argumenta Macksen Luiz. Dentre a produção televisiva, vale lembrar que Vianninha também escreveu o roteiro do lme “O Casal”, dirigido por Daniel Filho, baseado no script que escreveu para TV, de “Enquanto a Cegonha não Vem”, de 1974. Oduvaldo também participou dos lmes “Amor para Três”, dirigido por Carlos H. Christensen, em 1960; e “Os Mendigos”, dirigido por Flávio Migliaccio, em 1963. Ainda no início dos anos 60, também atuou como ator no episódio “Escola de Samba Alegria de Viver”, dirigido por Carlos Diegues, e integrou o lme “Cinco Vezes Favela”, do CPC da Une, em 1962. Toda a produção, no entanto, sempre condizente com o que defendia nos seus escritos teóricos sobre teatro, televisão, cultura e política. Oduvaldo Vianna Filho insistia na necessidade de uma produção artística endereçada à contemporaneidade, ou seja, com implicações reais na vida diária da população nacional. Interessante notar que, apesar de seu

apelo para a criação voltada para o presente da época, seu legado dramatúrgico resistiu ao tempo e, até hoje, suas peças e obras são encenadas em todo o Brasil. O viés ideológico, aspirante a uma sociedade igualitária, portanto, é uma das chaves para se entender a obra de Vianninha. Um aspecto interessante é que boa parte dos personagens do autor, de fato, são personagens esclarecidos e sem privações materiais como a grande maioria da população. O objetivo de Oduvaldo é poder condenar os momentos em que o interesse pessoal prevalece sobre a solidariedade de grupo. Desse ponto de vista, estudiosos e teóricos interpretam o trabalho de Vianninha, na teledramaturgia, como um campo privilegiado de expressão de seus ideais, driblando, assim, a censura que cerceava as atividades teatrais e abrindo novas possibilidades de popularização para sua arte. Oduvaldo, porém, também fez história no mundo da música. Com Francis Hime, por exemplo, compôs a canção “Ave-Maria”, gravada pelo parceiro no LP “Passaredo”, em 1977. Embora não tivesse ocorrido um contato entre Vianninha e David Tygel, a parceria entre os dois também foi marcante. Este foi convidado, em 1979, a fazer a trilha sonora

da peça “Papa Higuirte”, escrita em 1968 por Oduvaldo Vianna e somente liberada pela censura naquele ano. Sua morte inesperada, com apenas 38 anos, aliás, lhe rendeu uma boa dose de obras póstumas. Anal, Vianninha morreu sem ver encenadas suas duas obras-primas censuradas. “Papa Highirte”, escrita em 1968, e montada 11 anos depois. A peça humaniza um herói negativo, um ditador, com esperanças de voltar ao poder no m da vida. As últimas páginas de “Rasga Coração” também foram ditadas no leito de morte do artista. A peça, premiada assim como a outra, também é imediatamente censurada. A obra trabalha com uma multiplicidade de roteiros, que se alternam entre eles para falar da psicologia e das relações familiares de três gerações, de Getúlio ao Golpe Militar. Suas peças, tomadas em conjunto, podem ser consideradas uma síntese das ideias e das realizações de uma geração de artistas comprometidos com a transformação da sociedade. O nome de Vianninha está inscrito neste trecho da história da arte brasileira junto com Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri, Armando Costa, Ferreira Gullar e Francisco de Assis.

22

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

História
Fotos: Divulgação

Em toda a história do TCP foram encenadas mais de 70 produções. A “Megera Domada” e “Schweyk”, ambas com direção de Cláudio Corrêa Castro, estão entre as memoráveis

Teatro de Comédia do Paraná: faz e conta histórias
Por Adoniran Peres Com mais de 40 anos de grandes produções, o TCP (Teatro de Comédia do Paraná), criado em 1963, com a nalidade de orientar e coordenar as atividades teatrais do Teatro Guaíra, em Curitiba (PR), escreve uma parte signicativa da história teatral (e cultural) da capital paranaense. Nomes reconhecidos nas artes cênicas zeram a história do grupo e escreveram a sua própria biograa dentro dele. Tudo começou com um curso de teatro de rápida duração, ministrado por Jaime Barcelos e Gianni Ratto, em 1962. Devido à repercussão e sucesso desta primeira iniciativa, o Teatro Guaíra criou, em 1963, o primeiro grupo ocial de teatro no Paraná. O convidado para idealizar e dirigir o TCP foi o diretor e ator Cláudio Corrêa e Castro, que trouxe de São Paulo os prossionais Nicete Bruno, Paulo Goulart, Leonor Bruno e Sílvia Paredo para atuar na companhia e lecionar no Curso Permanente de Teatro, curso este, organizado, naquele mesmo ano, pelos esforços de Armando Maranhão com o apoio de Pascoal Carlos Magno, de Fernando Pessoa – superintendente do Guaíra naquela época – e do governador, Ney Amintas de Barros. Assim começou a trajetória do TCP. Desde a montagem de “Um Elefante no Caos”, a primeira peça, escrita por Millôr Fernandes, com direção de Cláudio Corrêa e Castro, em 1963, foram encenadas mais de 70 produções, formadas novas plateias e criado um importante mercado de trabalho para diretores, atores, atrizes, cenógrafos, gurinistas, iluminadores, músicos, artistas visuais, pesquisadores, coreógrafos e técnicos. A diversidade das propostas levadas à cena pelo TCP foi apontada em montagens de autores clássicos da dramaturgia, como Shakespeare, Tchekov e Ibsen; a encenação de textos de autores contemporâneos como Max Frisch, Heiner Muller, Augusto Boal e Dalton Trevisan; além da encenação de textos de teatro infantil de Maria Clara Machado e Oscar Von Pfhull. Entre as produções memoráveis apresentadas no auditório Salvador de Ferrante, destacamse “A Megera Domada” (1964), de Shakespeare; e “Schweyk na Segunda Guerra Mundial” (1967), de Brecht – ambas com direção de Cláudio Corrêa e Castro. Destaque também para “O Contestado” (1979), texto de Romário Borelli, com direção de Emilio Di Biasi; “Zumbi” (1984), de Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal, com direção de Oraci Gemba; “Colônia Cecília” (1984), texto de Renata Pallottini e direção de Ademar Guerra; “A Vida de Galileu” (1989), de Brecht com direção de Celso Nunes; “As Bruxas de Salém” (1990), de Arthur Miller e direção de Marcelo Marchioro; “New York por Will Eisner” (1990), de Edson Bueno; e “A Aurora da Minha Vida” (1997),
Divulgação

de Naum Alves de Souza e direção de Gabriel Vilella. Depois da montagem de “Aurora da Minha Vida”, o TCP parou por três anos e, somente em 2000, produziu “Os Incendiários”, texto de Max Frisch e direção de Felipe Hirsch. Novamente outra parada: foram mais quatro anos sem produção. Em 2004, em comemoração aos 40 anos do projeto, foi apresentada a peça “Medeamaterial”, de Heiner Müller, com direção da teatróloga uruguaia Mariana Percovich. Em 2005, a encenação de “Pico na Veia”, dirigido por Marcelo Marchioro a partir de contos de Dalton Trevisan, é apresentada em Curitiba e no interior do Estado. Já em 2006, o diretor carioca Moacir Chaves é convidado para montar a peça “Memória”, com elementos da obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, de Machado de Assis, que cou um mês em cartaz, em Curitiba, e uma semana, no Rio de Janeiro. CURIOSIDADES Momentos importantes para o grupo também caram marcados na história da cidade. Por exemplo, a compra de 1.200 ingressos da peça “O

Patinho Preto”, em 1967, pelo comerciante Adolfo Mazer, para distribuição aos fregueses em sua loja; uma apresentação exclusiva e gratuita da peça “O Santo Milagroso”, de Lauro César Muniz e direção de Cláudio Corrêa e Castro, para religiosos católicos e evangélicos, com debate ao nal do espetáculo; e uma reunião do então superintendente do Teatro Guaíra, Octávio do Amaral, com líderes universitários para discussão de um plano de aumento de frequência dos estudantes ao teatro, em 1966. DONOS DA HISTÓRIA A história do TCP fez parte da vida de muitos prossionais do teatro paranaense que, até hoje, guardam com carinho na memória a época considerada como de ouro para o Estado. É como conta Miguel Esposito, hoje com 64 anos, primeiro sonoplasta do TCP, onde também foi ator. Ele relata ter vivido com muita intensidade o grupo desde a sua concepção. “Tenho boas recordações da primeira peça, que fez grande sucesso: ‘Um Elefante no Caos’. Outra que marcou foi ‘A Mejera Domada’. É emocio-

Depois de três anos de inatividade, o Teatro da Comédia do Paraná voltou com a peça Os Incendiários, em 2000

nante lembrar os aplausos da plateia”, orgulha-se. Esposito explica que no Paraná daquela época, assim como no restante do Brasil, havia muitos espetáculos circenses e a escola dos atores era o próprio circo. “Os artistas não eram selecionados por serem conhecidos. Eles cavam sabendo da montagem da peça, faziam o teste e eram selecionados conforme o seu desempenho. Todos faziam teatro com garra. Apesar de muitos hoje não trabalharem na área, outros tantos se tornaram conhecidos após entrar no TCP”, explica. As apresentações do Teatro de Comédia do Paraná atualmente não ocorrem com a mesma frequência e até perderam a grande projeção. “A falta de patrocínio fez o TCP perder aquele ritmo, mas esperamos que, como em outros países, a cultura no Brasil ganhe o seu devido valor e essa história continue a ser contada”, explica Esposito que hoje é funcionário do Museu da Memória de Curitiba, onde está guardada a história do TCP. Mesmo não vivendo mais naquela época, o sonoplasta e ator ainda fala sobre os velhos tempos. “Recebemos visitantes de todo o País e do exterior. Eles cam encantados com os artigos do TCP”, conclui. A trajetória do TCP é responsabilidade de muitos artistas, de técnicos e de pesquisadores: Cláudio Corrêa e Castro, Nicette Bruno, Paulo Goulart, Lala Schneider, Joel de Oliveira, Armando Maranhão, Miguel Esposito, Sale Wolokita, Maurício Távora, Danilo Avelleda, Sinval Martins, José Maria Santos, Celina Alvetti, Yara Sarmento, Rogério Dellê, Fernando Zeni, Wilde Quintana, Felix Miranda, Edson D’Ávila, Delcy D’Ávila e Sansores França foram alguns dos precursores.

Jornal de Teatro

1 a 15 de Junho de 2009

23
Internacional

Buenos Aires: capital mundial do teatro independente
Por Rodrigo Villarruel Revista Mutis X El Foro O cenário teatral da cidade de Buenos Aires se identica com a ética e a estética independente desde muito tempo: uma lógica que destila exuberâncias de produção, espaços e ofertas, que a coloca como uma das principais no mundo, junto a Nova York, Londres e Paris. O teatro independente argentino se desenvolveu no m dos anos 1930, junto às novas tendências de capacitação, de estudo e de formação de atores, diretores e dramaturgos em voga na Europa daqueles anos. Sua essência se modicou durante os últimos 40 anos de maneira considerável: com Di Tella, nos 1960, e com Parakultural, na década de 1980, depois do happening e da performance, o cenário independente ingressou em um caminho de transformações sociais, legais e cênicas, que derivou na multiplicação de sua realidade em todas as suas matizes. Estima-se que, no primeiro semestre de 2007, um total de 500 obras, incluindo o circuito ocial, comercial e independente, foram estreadas na cidade de Buenos Aires, das quais 65% pertencem ao denominado circuito off. Paralelamente, em Paris, segundo a revista Pariscope, as apresentadas neste lapso foram de cerca de 300 e, em Londres, de 250. A expansão de circuitos alternativos, subalternativos e domésticos nos últimos anos modicou o mapa cultural portenho. Ocialmente na capital federal, há registradas 172 salas de teatro; em Nova York,existem 106; em Paris, 92; e em Londres, 63. Mesmo assim, ao atravessar a variável quantidade de salas com pessoas se ratica essa tendência: Buenos Aires possui uma sala para cada 17 mil habitantes, enquanto Paris tem um teatro para cada 29 mil pessoas. Esta vantagem comparativa se sustenta na grande quantidade de salas independentes em funcionamento e se corre a lógica de mercado que guia ao teatro comercial, pondo o elemento artístico sobre toda norma. Se é é posível medir a assistência às salas, a ampla oferta da cidade ca eclipsada pelas principais capitais mundiais, como Nova York e Londres. Em Buenos Aires, estima-se que mais de duas milhões de pessoas assistiram, em 2007, ao teatro, das quais ao independente concorreram 1,3 milhão, ao comercial, 456 mil; e ao ocial, 345 mil. Durante o mesmo ano, na Broadway, assistiram mais de 11 milhões de pessoas e, no West End londrino, 12,4 milhões, deixando lucro de US$ 938 milhões, segundo a League of Americans Theatres and Producersm, e 400 milhões de libras,

Cena teatral de Buenos Aires chama atenção pela quantidade de salas e de peças independentes, típica de grandes metrópoles mundiais

segundo a Society of London Theatres. O desenvolvimento da atividade comercial nesses países está dirigida a um teatro de grande qualidade, tanto em relação à técnica quanto à produção, apontada a um público massivo no qual predomina o turismo: 57% dos tickets vendidos na Gran Manzana foram a estrangeiros, cada um custando, em média, US$ 78. A grande oferta teatral de Buenos Aires ca concentrada nas realizações independentes, de baixo custo de produção, capacidade limitada nas salas (muitas não superam os 50 lugares) e a preços que oscilam entre 15 e 40 pesos argentinos, segundo a sorte inacionária. Nos epicentros mundiais, os espetáculos teatrais têm carga estética e comercial de grande atrativo para o turismo, acompanhados de uma grande ordem no setor. Mas em Buenos Aires, porém, o teatro apresenta ainda um insuciente marco de contenção ocial e privada, desde o investimento quanto da organização. Os espaços, os elencos e as propostas cênicas se articularam e expandiram sobretudo depois da crise de 2001 – sobre uma autonomia e limites, planos e periferias de um mundo impreciso. Tradução Pablo Ribera

O CONHECIMENTO AVANÇA ENQUANTO A REALIDADE PODE SE QUANTIFICAR
Nenhum dos organismos oficiais encarregados de fomentar o teatro em Buenos Aires realiza trabalhos estatísticos, assim como também não leva a cabo nenhum trabalho orientado até a quantificação da cultura. O único local oficial existente sobre esta temática se encontra no Sistema Nacional de Consumos Culturais que realiza a Secretaria de Meios de Comunicação da Nação. Um trabalho sério em relação a um acercamento numérico da atividade teatral é levado a cabo pela Universal de Três de Fevereiro, no informe de Indicadores Culturais que edita ano a ano. O desenvolvimento desta disciplina em países do primeiro mundo tem sido acompanhado por um registro que marca a realização dos cenários e que ordena sua atividade. Assim, em Londres, a Society of London Theatre leva adiante um trabalho minucioso sobre o mercado do teatro e seu crescimento. Em Nova York, este trabalho é realizado pela League of Americans Theatres and Producers. Um caso exemplar é o da Finlândia. O Finnish Theatre Information Center realiza, anualmente, um indicador estatístico no qual se podem encontrar não só os números da assistência a teatros – que em um país de cinco milhões de habitantes é de 3,6 milhões de dólares ao ano, mas também a sala, dia e horário preferido para concorrer, gêneros mais escolhidos pelo público, proporção de estrangeiros e locais que assistem, quantidade de trabalhadores da área e um desenvolvimento dos investimentos públicos no teatro segundo municípios e cidades, que representa o percurso do dinheiro público e seu investimento.

NOTAS
MUSICAL “BILLY ELLIOT” É UNÂNIME EM PREMIAÇÕES DE NOVA YORK
A peça “Billy Elliot” continua a dominar a temporada de premiações teatrais em Nova York, ganhando sete troféus no Outer Critics Circle, incluindo o de melhor musical da Broadway. Além disso, os três garotos que se alternaram no papel principal, David Alvarez, Trent Kowalik e Kiril Kulish receberam uma homenagem especial por suas performances. No Drama Desk Awards, o espetáculo venceu todos os prêmios das dez categorias em que foi nominado, incluindo melhor musical. A festa é organizada por críticos, revisores e editores de Nova York que cobrem Broadway, Off-Broadway e Off-Off-Broadway. O espetáculo também foi indicado a 15 categorias dos Tony Award.

HUGH JACKMAN E DANIEL CRAIG JUNTOS NO PALCO DA BROADWAY?
Ainda não foi oficialmente confirmado, mas os atores hollywoodianos Hugh Jackman e Daniel Craig podem se juntar, no próximo outono americano, para uma peça da Broadway chamada “A Steady Rain”, um drama de Keith Huff, que faria sua estréia na Brodway. Como o autor, o ator de James Bond, Daniel Craig, também faria sua estreia. O jornal New York Post afirmou que a produtora do espetáculo seria Barbara Broccoli. A peça conta a história de dois policiais de Chicago, amigos desde a infância, que tem suas vidas divididas graças a um acidente. A obra teve seu pico de popularidade em 2007, quando saiu de um pequeno teatro da capital de Illinois para uma grande casa de shows.

24

1 a 15 de Junho de 2009

Jornal de Teatro

Related Interests