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Título: Sabedoria Roubada

Autor: Saulo Henrique Alves Endereço: Rua Arthur Bernardes, nº 608 – Jardim Santa Rosa – Paranaguá/PR Telefones: (41) 8517-7816 / (41) 3423-4211 Profissão: Servidor Público Estadual E-mail: saulo_alves@outlook.com

Sempre fora ávido com os livros. até um monastério que o aceitasse para se tornar um daqueles monges ascéticos. pelo menos enquanto o portão aguentasse os ataques. encarregados dos muitos tomos repletos de conhecimento tanto natural quanto proibido. até mesmo os ascéticos monges encarregados da manutenção do prédio e de suas preciosas obras haviam deixado o lugar. buscando um abrigo seguro. Uma sorte para alguém como ele. curtindo o couro. sempre que um novo suposto mestre o rejeitava. porém contrariando a escolha mais segura ele deixou sua casa e sua família. até a chegada dos adeptos da seita cruel que agora encontravam-se em seus portões. correndo de um lado para o outro. Uma hora perfeita para aquisições raras. Bosques sagrados queimariam tão bem como os templo quando eles entrassem na cidade. Faria com que fosse reconhecido pelos seus feitos. buscando salvação. em alta cota pelos seus templos para o novo único deus que os sacerdotes brancos pregavam. Alguns agarravam-se aos deuses. com todos fora poderia escolher os tomos que desejasse e sair pela porta da frente. mas o barulho poderia ser ouvido a qualquer distância dos grandes portões de carvalho da muralha ao redor da cidade.Você sabe que aqueles portões não vão durar para sempre. porém pobre. Esses bárbaros tinham seu próprio código moral e sua própria divindade que pregava a conquista de povos mais fracos. outra e outra vez. tentando derrubá-los. Os cidadãos estavam em pânico. Sem esconderijos ou saídas furtivas desta vez para conseguir um livro. dias antes do cerco. mas honesto. tinha tempo suficiente para folhear e escolher com calma. Era muito pobre para ser sábio. tinha algo que poucos possuíam. mesmo que não reconhecido. Aldrith sabia que tais preces não seriam ouvidas. . mas uma grande oportunidade para Aldrith Ligeiro. mesmo sendo ditos a uma distância considerável do prédio. Nascera em uma família de poucas posses e sem títulos. Aldrith sempre se considerou um estudioso. A biblioteca ficava afastada o suficiente para estar segura. ecoando pelos grandes corredores e caves do salão. Enquanto os templos da Cidade Branca estavam lotados. Mas todos o rejeitaram. Esperava encontrar um sábio. mas esse plano o levou por caminhos perigosos que lhe trouxeram até a Biblioteca de Rasti. e essa infelizmente era uma questão só de “quando” e não “se”. mas também para estudiosos heréticos por suas obras raras. nem pelos antigos da população do campo.O terceiro dia de cerco se iniciava. seja para seu corpo ou para sua alma. chegando até essa cidade. foi um cruel erro as autoridades do reino não darem importância para seus avanços pelo território. Então ele teve que criar seu próprio caminho em meio a tudo. seria um sábio. um ofício comum. Era uma cidade iluminada e querida por todos. Podia-se ouvir o estrondo das grandes bolas de pedra das catapultas se quebrando juntamente com os prédios mais próximos das muralhas da cidade. ele poderia continuar o ofício do pai. de nascimento comum para ser druida e muito ambicioso para ser monge. a biblioteca estava completamente vazia. Uma pena. A Cidade Branca de Rasti era uma grande cidade do reino. Esses “novos hereges” como os sacerdotes começaram a chama -los não tinham apreço nem pelo novo deus. sabia as letras e elas o fascinavam. o qual não encontrariam. não sabe Al? . ou um druida. As vozes ásperas dos comandos dos soldados entravam. As desculpas deles ecoavam em sua mente.

mas isso não quer dizer que não posso escolher alguns para minha coleção pessoal. um nome estranho e sem autor. . mas era hora de fazer o serviço para o qual foram contratados.Você não sabe o que veio buscar? . mas este já era assustador o suficiente para que não fizessem perguntas demais. Digamos que seria uma das minhas primeiras escolhas para reforçar a milícia da cidade o homem grande com a espada nas costas. Não havia realmente motivos para continuar a discussão. .Sei que não Barton. era certo que o portão principal não aguentaria muito mais.Você está preocupado apenas pelo fato de não parecer um civil. Aldrith quase esquecia do mercenário. Era realmente difícil encontrar mercenários com um pingo de cultura. você realmente não entende meu sarcasmo não é amigo? . mas fora o que o contratante pediu. quando religiosamente amolava sua espada. Você está certo Bart. “O Rei Amarelo”. . Também não questionaram a rota de fuga sugerida por ele através de uma passagem secreta por baixo da cidade. mas foi rápido em destruir o vidro que cobria o livro. Barton levou alguns minutos para seguir o roçar da túnica dele no mármore do piso até o local.É este não é? Então vamos de uma vez e pare com esse olhar de reprovação! Devemos deixar essa cidade de uma vez. vamos achar o que fomos mandados buscar e dar o fora! Aldrith suspirou. por que não pega você? . mas seu companheiro não compartilhava com ele os interesses pelo belo trabalho para conservar o local. Apesar de Barton ser uma presença constante desde que iniciou o caminho à Rasti. Tinha certeza do caminho que escolhera cada vez que tinha tratar com mercenários. . .Sei o que fomos contratados para buscar.É disso que estou falando! . . Mas agora estranhamente as peças se encaixavam. Eles não sabiam quem poderia ser seu contratante.Você é o homem dos livros.Barton. mas sempre era lembrado da presença dele a noite. Aldrith já sabia onde ele estava. Barton não sabia ler as runas inscritas no pilar com as instruções específicas de nunca tocar no livro. Seria uma leitura recompensadora. mas ainda temos tempo. nem de seus estudos. apenas um intermediário tratava com eles. coincidência ou uma distração bem armada. Rapidamente ele ruma pelos vastos corredores até uma cave onde encontrava-se um livro encadernado em couro – um couro tingido de um amarelo doentio – com uma escrita suave e reta em dourado na sua capa. Pegue o livro por favor. Por fim as “Notas de Dantalion” do sábio Delaedon acaba por ser escolhido e vai para a mochila de Aldrith.Não temos tempo para sua “seleção pessoal”! Precisamos sair daqui antes que alguém comece a recrutar civis.Não quero saber do seu sarca-qualquer-coisa. Talvez pelos movimentos silenciosos. Aldrith queria ter tido mais tempo para contemplar o pedestal esculpido e a caixa de vidro antes desta ser reduzida a cacos.A voz de Barton o tirou de seus devaneios.Claro. mas não custava enrolar Barton por algumas horas até decidir o que levaria para si. Coincidentemente haviam sido ambos contratados para buscar um livro em especial. Realmente fora muita sorte o cerco começar logo que entraram na cidade. nem as muralhas. . .

Retirou seu alforje e avaliou o mercenário durante o que lhe pareceu uma eternidade. . caindo com um baque surdo pouco tempo depois. Barton praguejou.Esta é nossa saída Al. O que se seguiu foi um trajeto furtivo após sair da biblioteca. e o suor escorria em grandes quantidades pela longa testa do mercenário. Aldrith segurou o mercenário até que os espasmos diminuíssem e o recostou na parede. tanto com a situação da cidade quanto com o cheio pútrido que ergueu-se do buraco escuro no chão.Você primeiro amigo. Passaram-se dois dias no mesmo local até que ele chegasse a conclusão de que não haveria como ajudar Barton. com a situação e provavelmente com o livro. ele tinha um gosto pela cerveja maior que o salutar. mas agora.. Aldrith segurou-se nas bordas e deixou que seu corpo caíssem com mais suavidade. O mercenário sentou-se com as pernas dentro do buraco e lançou o peso do corpo. se esgueiraram pelas laterais dos prédios. prendendo também a tocha a uma arandela vazia na parede. estava muito enfraquecido e mesmo uma das infusões previamente preparadas de Aldrith não pôde dar algum alívio ao mercenário. No estado que estava Bart nem protestou. mas acabou por pegar o livro de forma rústica e enfiar dentro de um dos seus alforjes.E com os bolsos cheios. Vamos andar um bom tempo no escuro. com o cuidado necessário para não topar com uma patrulha da milícia. Apesar dos anos ali exposta à aparente umidade dos túneis a tocha acendeu-se rapidamente. O rapaz dispôs de alguma água à Barton e deixou-o descansar por algumas horas. Ele realmente estava febril. . Alguns minutos procurando e um entalhe cedeu sob a pressão leve de seus dedos e um alçapão abriu-se atrás da fonte. Realmente havia algo de errado.Já tive minha cota de livros por hoje. vamos estar bem longe. Não vamos nos demorar com embaraços pelo odor. mas devemos encontrar uma escada que nos levará a uma saída muitos quilómetros para longe da cidade. entre esta e uma parede repleta de trepadeiras em flor. isso que importa! Os olhos de Barton nunca fora límpidos. . à luz da tocha pareciam febris. mas acabou da mesma forma que Barton.Para onde agora? . Mais rápido do que Aldrith gostaria.Conforme o mapa é só seguir esse corredor e sempre que possível virar a direita. Como você queria Bart. e com certeza você quer rapidez nessa transação. até que decidiu que nada mais poderia ser feito e escorregou o punhal pela pele oleosa de Barton abrindo um corte largo e profundo. mas mesmo depois deste tempo ele não conseguia levantar. Alguns metros à frente e o pesado corpo caiu na pedra úmida derrubando a tocha e se contorcendo em espasmos ferozes. Seu caminho marcado no mapa fora facilmente encontrado e os levaram até uma fonte. quando a Cidade Branca cair. Então faça você mesmo. algo deveras contrastante. friccionando sua adaga a um pedaço de pederneira. felizmente abandonada naquela situação caótica na qual se encontrava a cidade. sentado no chão. . . algo estava terrivelmente errado. apenas por segurança. Com a iluminação que entrava de forma difusa pelo buraco no teto a mais de dois metros do chão o mercenário encontrou uma tocha presa em uma arandela na parede e a acendeu.

onde a luminosidade de tocha se perdia e tornava tudo uma só penumbra.apenas continuou seu soluçar febril até que finalmente parou de se mover em definitivo. mas não queria saber quem. . o sujeito sabia o que estava indo buscar. Ele atirou o alforje para perto do vulto e este inclinou-se e retirou o tomo encadernado em couro doentio. Aldrith esperava que fosse uma besta e que o vulto atirasse bem. e os sacrifícios nem haviam sido assim tão grandes. Com mais cuidado do que o habitual ele aproximou-se e examinou a bolsa. Ele respirou profundamente e levantou-se. O vulto enfiou a mão pelas dobras de sua túnica e segurou algo. de couro cru. Luvas! Ele reparou. Sem demora seguiu de acordo com o mapa emergindo para luz um dia após tudo. Realmente algo de muito errado com o trabalho. Um convite. Deveria apresentar-se logo. O Círculo de Sábios o congratulava por sua entrada em sua ordem. Trabalhara para alguém muito poderoso para conseguir isso. um pergaminho havia sido depositado. só importava agora que seu sonho se realizaria. mas notou que trajava uma túnica longa e um capuz que escondia ainda mais suas feições. pelo menos morreria em menos agonia do que Barton. Aldrith analisou o selo de cera encarnada e o quebrou. Não reconheceu o vulto. abriu-a e deparou-se com o pagamento acertado. trinta peças de prata pelo livro. virou-se e seguiu seu caminho. ao lado da saída. mas para sua surpresa o vulto atirou uma pequena bolsa que retiniu ao bater no chão. encarando um vulto que estava parado.