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CONSTITUCIONALISMO 1. O que é constitucionalismo? Há dois sentidos para o termo constitucionalismo, um mais amplo, outro mais estrito.

Em sentido amplo, constitucionalismo está associado à existência de uma Constituição em um Estado. Esse sentido não é o utilizado geralmente pela doutrina. O termo constitucionalismo geralmente é utilizado em sentido estrito, com referência a duas idéias básicas:  Princípio da separação dos poderes;  Garantia de direitos como instrumentos de limitação do poder do Estado, consagrados com o objetivo de proteger as liberdades fundamentais. Essas duas idéias são meios, instrumentos, para atingir o objetivo último do constitucionalismo: proteger as liberdades fundamentais do indivíduo contra o arbítrio do Estado. Karl Loewenstein – “A história do constitucionalismo é a busca pela limitação do poder absoluto”. O constitucionalismo se contrapõe ao absolutismo. Surge para superar o absolutismo. 2. Fases do constitucionalismo a) Constitucionalismo antigo Da Antiguidade até o final do século XVIII. Neste período houve a primeira experiência constitucional. Por que nesta fase podemos encontrar experiências constitucionais? Neste período, é possível identificar 4 experiências principais nas quais existe um conjunto de princípios limitadores do poder do Estado. São elas:  Estado hebreu Primeira experiência constitucional, em que o poder do Estado foi limitado: no Estado hebreu, que era teocrático. Os dogmas religiosos limitavam o poder do Estado.  Grécia  Roma  Inglaterra A regra são os Estados Absolutistas. No entanto, existem essas 4 experiências, que limitam a atuação do Estado, afastando o Estado Absolutista. Características desta fase:  Constituições consuetudinárias. Não existiam Constituições escritas. As Constituições eram baseadas nos costumes e nos precedentes judiciais.

Por que o Judiciário se fortaleceu? .  Criação do controle difuso de constitucionalidade O que é o controle difuso? É aquele que pode ser exercido por qualquer juiz ou tribunal. Aponta-se como a origem do controle difuso de constitucionalidade o famoso caso Marbury x Madison. a norma suprema era a emanada do Parlamento. Controle  supremacia formal  rigidez: estão inter-relacionados.  Alguns Estados são fortemente influenciados pela religião.  i. pressuposto indispensável para o controle de constitucionalidade. b) Constitucionalismo clássico ou liberal Do final do século XVIII (quando ocorreram as Revoluções Liberais) até o fim da 1ª Guerra Mundial. decorre da rigidez. A supremacia formal da Constituição (em relação à forma de elaboração. Hoje. resultado da ideia de supremacia da Constituição. acima do plano das leis). Vem da experiência norte-americana esse fortalecimento. A vontade é do Legislativo e ele não tem a força para impor suas decisões. O Poder Judiciário sempre foi considerado o mais fraco dos 3 Poderes. proferida pelo juiz Marshal.  Fortalecimento do Poder Judiciário É uma característica marcante do constitucionalismo atual. precisando do Executivo para isso. Supremacia do Parlamento. rígida e dotada de supremacia (formal). Qual é o fator que faz com que se tenha uma nova fase do constitucionalismo? O surgimento de Constituições escritas no final do século XVIII. o Judiciário está no nível dos demais poderes. O que caracteriza uma Constituição rígida? É o processo mais solene de alteração. Não há a ideia de supremacia da Constituição. Há duas experiências que vão influenciar as demais: Experiência norte-americana Principais contribuições:  Surgimento da primeira Constituição escrita (1787). decisão de 1803. Foi a partir dessa Constituição que surgiu a ideia de rigidez constitucional. Nessa época.

o modelo de Constituição foi diferente. presidencialismo e regime democrático Karl Loewenstein fala que o federalismo não foi criação norte-americana. As Constituições prolixas atuais são influenciadas pelo constitucionalismo francês. regulamentares ou prolixas. O povo (burgueses e população carente). Com o passar do tempo. fora das Constituições. de 1791. As idéias básicas vêm do constitucionalismo francês. Antigamente. Trata apenas dos princípios fundamentais.  Declaração de direitos Em 1776 foi elaborada uma importante declaração de direitos. Os norte-americanos desconfiavam do Executivo e do Legislativo. Com a Revolução Francesa. Nos EUA. É o Poder que exerce o controle de constitucionalidade. houve. Mas na maioria dos livros. Os governantes da Inglaterra foram os principais responsáveis pela violação de seus direitos. a Constituição é extremamente concisa. chamado de 3º estado. ii. Principais contribuições:  Criação de Constituições escritas. os autores colocam o surgimento do federalismo nos EUA. as declarações ficavam em texto autônomo. É quem dá a última palavra (pelo menos provisória): determina se uma lei é ou não constitucional. .  Importância atribuída às idéias de separação dos poderes e garantia dos direitos. clássica. Sustenta que já havia federações em Estados menores. as declarações passaram a ser incorporadas nos textos constitucionais.  Federalismo. tomou o poder. surge a segunda Constituição escrita. a “Virginia Bill of Rights”. Estão presentes na Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789). Se as Constituições não consagrassem essas idéias. no artigo 16. Experiência francesa Na França. Na França. em 1789. a Revolução Francesa.É o Judiciário o responsável pela garantia constitucional. na mesma época das Revoluções Liberais.  Supremacia do Parlamento A desconfiança dos franceses era em relação ao Poder Judiciário. não poderiam ser consideradas autênticas Constituições.

Era o principal valor buscado pelas Revoluções Liberais. Por que alguns autores preferem falar em dimensão? Porque geração traz a ideia de que a posterior substitui a anterior. essas liberdades possuem um caráter negativo. A partir da 3ª geração. Por isso. Ideia de que “o juiz é mera boca da lei”. Ex: direito de votar e ser votado. a partir da Revolução Francesa. mas não podem ser consideradas coerentes como na França. liberdade religiosa. com o chamado état legal. Pega de um lado. As gerações estão relacionadas ao lema da Revolução Francesa – liberdade. OBS: O constitucionalismo atual – neoconstitucionalismo – mistura características de cada uma dessas experiências. Paulo Bonavides foi quem difundiu. começa a haver divergência. no sentido de exigir principalmente uma abstenção por parte do Estado. Direitos de 1ª geração ou dimensão São associados ao valor “liberdade”. Quanto à 1ª e 2ª gerações. igualdade. as Constituições prolixas e de outro. fraternidade. No Brasil. Os direitos civis são ligados às liberdades: liberdade de manifestação de pensamento. a garantia do Judiciário. Tanto que o controle de constitucionalidade repressivo só surgiu na França em 2010.Escola da exegese: quando o Código de Napoleão foi criado.  Distinção entre poder constituinte originário e poder constituinte derivado A ideia de poder constituinte surge na França na época da Revolução Francesa. também de Estado de Direito. O principal formulador da teoria do poder constituinte foi o abade Sieyès – “O povo é o verdadeiro titular do poder constituinte”. A Escola dizia isso justamente pela desconfiança no Poder Judiciário. de Paulo Bonavides. Para que o Estado respeite as liberdades. . Neste período surge a primeira sistematização coerente de Estado de Direito. Ao lado desta concretização.  Estado de Direito (ou Estado liberal) A primeira institucionalização coerente e com certo caráter geral ocorreu na França. Os direitos de 1ª geração são conhecidos como direitos civis e políticos. Aqui será utilizada a classificação mais citada. era dito que o juiz não podia interpretar a lei. Permitem que o indivíduo participe da vida do Estado. aconteceram na Inglaterra (Rule of law) e na Prússia (Rechtsstaat). igualdade formal e propriedade. não deve intervir. experiências anteriores. A classificação se tornou mundialmente conhecida quando Bobbio tratou dela em seu livro “A Era dos Direitos”. há consenso.  Direitos fundamentais de 1ª geração ou dimensão A classificação em gerações foi feita por Karel Vazak (1979).

que começa a partir da Constituição Mexicana de 1917. igualdade de condições. A maioria da doutrina não cita esta fase. Com o fim da 1ª Guerra Mundial. agora material. econômicos e culturais. houve uma crise do liberalismo em razão de sua impotência diante das demandas sociais que abalaram o século XIX. Esse constitucionalismo se caracteriza por uma mudança de padrão nas Constituições. a mais conhecida como modelo de Constituição social é a Constituição alemã de Weimar.Características marcantes do Estado de Direito:  O liberalismo político postula o Estado limitado. Os direitos de 1ª geração possuem caráter meramente formal. os escravos de outra: eram pessoas diferentes. Os direitos sociais passaram a ser consagrados de forma clara a partir deste período. Os senhores eram tratados de uma forma. os direitos fundamentais basicamente correspondem aos direitos da burguesia. Alguns sustentam que os direitos sociais sequer são direitos fundamentais. Se há desigualdade social muito grande. c) Constitucionalismo moderno ou social Do final da 1ª Guerra Mundial até o final da 2ª Guerra Mundial – período entre 1918 a 1945. mas era formal. No entanto. desemprego. queda de poder aquisitivo. O que caracteriza as Constituições neste período?  Direitos fundamentais de 2ª geração ou dimensão São associados ao valor “igualdade”. surge um novo modelo de Constituição. assim como as atividades que não despertem interesse da livre iniciativa. OBS: Na Constituição norte-americana não há direitos sociais. É certo que o liberalismo pressupõe uma competição equilibrada. de 1919. Com os prejuízos causados pela guerra. Os direitos relacionados a esse valor são conhecidos como direitos sociais. . exigindo do Estado uma postura abstencionista: postura de não intervenção. torna-se necessária a intervenção do Estado. mas é importante para a compreensão da evolução do constitucionalismo. consideram uma questão política. o papel do Estado deve se limitar à defesa da ordem e segurança públicas. No Estado liberal.  O liberalismo econômico postula o Estado mínimo. ou seja. A igualdade estava consagrada. Não era igualdade que visava reduzir as desigualdades fáticas. no fim da 1ª GM.

. passando a regular relações trabalhistas. Características:  Reconhecimento definitivo da normatividade da Constituição Influência das experiências norte-americana e francesa. no constitucionalismo europeu. transportes. é garantir os direitos de determinadas instituições. Em que pese o constitucionalismo norte-americano sempre ter tratado a Constituição como norma jurídica (de caráter vinculante).. econômico e laboral. 3. fazendo uma análise descritiva. O Estado liberal é substituído por um novo modelo:  Estado de Direito Social (ou apenas Estado Social) Características:  Questões que antes eram restritas ao âmbito individual passam a ser assumidas pelo Estado. Ademais. e não prescritiva. já que hoje o termo neoconstitucionalismo tem várias concepções diferentes. tanto prestações materiais quanto jurídicas. Tão importante quanto garantir os interesses dos indivíduos.. Na 2ª geração. os de 2ª dimensão possuem um caráter positivo. a interferir na economia (a “mão invisível” é superada). funcionalismo público. Construção de escolas. # O que são garantias institucionais? São garantias atribuídas a determinadas instituições consideradas fundamentais para a sociedade. Significa dizer que vão exigir prestações do Estado. a força . O modelo de Estado abstencionista é substituído por um modelo de Estado que atua intervindo no âmbito social. que se transforma em um verdadeiro prestador de serviços. imprensa livre..Esses grupos de direitos passam a ser consagrados nas Constituições: direito ao trabalho. segurança pública. O papel do Estado passa a ser totalmente diferente do papel no constitucionalismo liberal.. tem uma carga valorativa muito forte. assistência judiciária gratuita. Constitucionalismo contemporâneo (neoconstitucionalismo) A partir do fim da 2ª Guerra Mundial. Ex: família. previdência social. Novelino prefere falar em contemporâneo.. hospitais. Agora o Estado passa a interferir nas relações que eram de livre iniciativa. Ao contrário dos direitos de 1ª dimensão. surgem as garantias institucionais. autonomia universitária. O modelo de Estado deste período é estruturalmente diverso do modelo anterior...

ordem econômica e financeira. Kelsen: o legislador tinha que obedecer aos procedimentos. O controle de constitucionalidade hoje não leva em consideração apenas a constitucionalidade formal de uma norma. previdenciário. de conteúdo. Eficácia horizontal dos direitos fundamentais. na verdade. não são propriamente de Direito Constitucional.normativa da Constituição só passa a ser plenamente reconhecida a partir da 2ª metade do século XX.  . O controle material. Hoje em dia. os princípios consagrados na Constituição têm seu caráter normativo plenamente reconhecido. Nenhum país europeu reconhecia as declarações como vinculantes. hoje. Quando se fala em constitucionalização do Direito. e sim dependiam dele para serem obrigatórias.  Supremacia formal e material da Constituição Hoje. é admitido plenamente. virou corriqueiro. Refere-se à prolixidade das Constituições. O reconhecimento da normatividade dos princípios se deve a dois autores: Ronald Dworkin e Robert Alexy. A Constituição era muito mais um instrumento político do que jurídico. princípios e normas eram coisas diferentes.  Centralidade da Constituição e dos direitos fundamentais “Constitucionalização do Direito” é resultante da centralidade da Constituição e dos direitos fundamentais. OBS: A primeira vez que o STF declarou uma emenda materialmente inconstitucional foi em 1994. O que não era algo comum. Antes. sistema tributário. à forma de elaboração da lei previstos na Constituição. As normas jurídicas são o gênero. processo penal. As declarações de direitos na Europa não limitavam o legislador. a supremacia da Constituição é plenamente reconhecida. Aplicação desses direitos nas relações entre particulares. 3 aspectos identificam esse fenômeno:  Consagração nas Constituições de um expressivo número de matérias próprias de outros ramos do Direito. Foi unida a força normativa da Constituição (influência norte-americana) às constituições prolixas. Administração Pública. Os princípios não eram vinculantes. O legislador não era visto como inimigo dos direitos. era o responsável pela implementação desses direitos. etc.  Rematerialização das Constituições Característica influenciada pelo constitucionalismo francês. mas também na Europa. processo civil. de que são espécies os princípios e as regras. não só nos EUA.

por exemplo) são levadas ao Judiciário. constitucionalidade da lei da ficha limpa. Questões eminentemente políticas (como deve atuar uma CPI. fidelidade partidária. Interpretação conforme a Constituição. muitos temas antes restritos à esfera política passam a ser debatidos pelo STF.  Fortalecimento da jurisdição constitucional e do Poder Judiciário (mecanismos de controle de constitucionalidade) Característica do constitucionalismo norte-americano. Quem vai assegurar a força normativa da Constituição.. Após a CRFB/88.. STF decidiu sobre a verticalização. . A denominação “judicialização das relações políticas e sociais” ilustra esse fenômeno. Princípio da interpretação conforme. a centralidade dos direitos fundamentais. é o Poder Judiciário.