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LEITURA LITERÁRIA NA ESCOLA Célia Regina Delácio Fernandes (UFGD) Para que ensinar literatura?

Antonio Candido, num clássico artigo intitulado A literatura e a formação do homem(1972), apresenta três funções exercidas pela literatura, que no conjunto denomina de função humanizadora da literatura. A primeira é chamada de função psicológica porque decorre da “necessidade universal de ficção e de fantasia” (p.804). Tal necessidade permeia o cotidiano e se expressa na literatura desde as formas mais simples, como a anedota, a adivinha, o trocadilho, o rifão, até outras mais complexas, como as narrativas populares, os contos folclóricos, as lendas, os mitos. Com o surgimento da imprensa, a literatura passa a se manifestar nas formas impressas (poema, conto, romance etc.) e, depois, com o avanço tecnológico, na comunicação oral ou visual (cinema, radionovela, fotonovela, história em quadrinhos, telenovela e até na publicidade). Assim, a literatura é apontada como uma das modalidades mais ricas da fantasia. Todavia, para o autor, a fantasia está vinculada à realidade, relacionada ao mundo concreto que é integrado e transformado pela criação literária e, por isso, as criações ficcionais podem atuar como uma força poderosa na formação das crianças e dos adolescentes. Com efeito, além de exprimir o homem, a literatura também atua na formação do indivíduo, como instrumento de educação, exercendo a segunda função identificada por Candido: a função formadora. O autor adverte, no entanto, que a função formativa é mais complexa do que pressupõe a visão da pedagogia tradicional, que a vê como um veículo transmissor da ideologia dos grupos dominantes, procurando instrumentalizá-la como condutora de virtude e boa conduta. Candido compara a ação da literatura com a da própria vida, queensina com todas as ambivalências e riquezas que a compõe, que possibilita o contato com realidades que a pedagogia oficial deseja banir, cuja força consegue romper com os aprisionamentos: Paradoxos, portanto, de todo lado, mostrando o conflito entre a idéia convencional de uma literatura que eleva e edifica (segundo os padrões oficiais) e a sua poderosa força indiscriminada de iniciação na

essa força poderosa da literatura abarca uma terceira função. porque faz viver (p. a escola rompe suas limitações. mas. Integrando-se a este projeto libertador. No conjunto. O leitor participa de uma representação. nesta medida. Com efeito. as funções da literatura identificadas por Candido justificam a presença da literatura na escola. transformar o trabalho com a literatura infantil. ao interagir com a obra literária. a literatura possibilita uma maior compreensão em relação ao mundo da vida. com uma variedade nem sempre desejada pelos educadores. tornando ambas as instituições espaços de reflexão para a criança. Ao representar uma dada realidade social e humana. portanto. como sugere Antonio Candido. o leitor adquire um novo conhecimento de si próprio e do mundo por meio da experiência vivida no universo fictício. que aponta um conhecimento de mundo. é levada a realizar sua função formadora. A literatura infantil. trazendo livremente em si o que chamamos o bem e o que chamamos o mal. que é a função de conhecimento do mundo e do ser. Aproveitada em sala de aula na sua natureza ficcional. o que representa um acesso à circunstância individual por intermédio da realidade criada pela fantasia do escritor. Ela nãocorrompe nem edifica. na sala de aula. em um meio pelo qual é possível libertar a escola de sua vocação doutrinária. que não se confunde com uma missão pedagógica. Nessa direção. ela dá conta de uma tarefa a que está voltada toda a cultura  a de “conhecimento do mundo e do ser”. que está entrelaçado ao mundo real. humaniza em sentido profundo. É esta possibilidade de superação de um estreitamento de origem o que a literatura infantil oferece à educação. o que é a finalidade implícita do saber. Zilberman (1987) propõe pensar numa inversão do modelo de submissão da literatura infantil à escola. E vai mais além  propicia os elementos para a emancipação social. procura reconhecer seu mundo nela e incorpora essa visão da realidade à sua experiência pessoal. Por fim. Em síntese.806).vida. inerentes à situação com a qual se comprometeu na sua gênese. e não enquanto súdita do ensino de boas . ou seja.

é preciso que a literatura esteja presente de modo significativo. o semelhante”.249). dado seu aspecto lúdico e ficcional. apresentando-nos diferentes modos de vida social. Se. Reconhece o relevante papel da literatura e defende a utilização dos textos literários não como ferramenta. em todos os anos de escolaridade.25-26). De acordo com Candido (1995. O outro nos diz respeito de nós mesmos – é na relação com o outro que temos oportunidade de saber de nós mesmos de uma forma diversa daquela que nos é apresentada apenas pelo viés do nosso olhar (p.maneiras (de se comportar e ser ou de falar e escrever). o letramento literário torna-se uma necessidade fundamental nas escolas. a leitura literária. por um lado. indicando-nos que podemos ser diferentes. Como se vê. Assim como muitos outros pesquisadores. socializando-nos e politizando-nos de várias maneiras.. Em vista disso. Goulart (2007) indica as dificuldades da escola brasileira para conseguir alfabetizar a população com competência e as questões que envolvem o problema. desde a educação infantil. dado seu . que favorece mais a descoberta de sentidos que outros tipos de textos. a sociedade.. Para que todos tenham o direito à literatura. a história e a singularidade. Podemos pensar sobre o letramento literário no sentido de que a literatura nos letra e nos liberta. p. apresenta-se como um possível chamariz. “a literatura desenvolve em nós a quota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza. p. porque nos textos literários pulsam forças que mostram a grandeza e a fragilidade do ser humano. ela se apresenta como o elemento propulsor que levará a escola à ruptura com a educação contraditória e tradicional. que nossos espaços e relações podem ser outros. [. muitos especialistas sugerem que a capacidade de ler pode ser mais bem desenvolvida por meio do texto literário. por outro lado.64-65).] (ZILBERMAN. 1987. mas “como um grande centro de força” nas classes de alfabetização para a formação de leitores críticos. entre outros contrastes.

p. p. em grande parte. devemos assumir essa formação não apenas como desenvolvimento de habilidades leitoras e de atitudes positivas em relação à leitura. A condição necessária para que isso ocorra de forma crítica e criativa.31). O aprendiz experimenta a aventura de preencher os vazios literários. 2008. adverte . e que não apenas lemos os livros. A primeira entende o acesso à leitura como “uma condição para uma plena democracia cultural”. possibilitando ao leitor do texto literário conhecer diferentes mundos e culturas. é tambémdemocratizante. para poder arriscar-se a uma participação efetiva no mundo da vida (FERNANDES. além de contribuir para formação do gosto do leitor.conscientes de que.aspecto polissêmico e denso. compreender a si mesmo e transformar-se. experimentar diferentes sentimentos. apresentar uma existência melhor. Com isso. as leituras literárias proporcionam. A responsabilidade é que.20) discute as relações entre leitura literária e democracia cultural sob duas perspectivas: a da responsabilidade social e a da formação do indivíduo. Magda Soares (2008. solidário e democrático. O papel do professor como mediador de leituras literárias O professor é o principal responsável para mediar a relação entre o leitor aprendiz e o livro no contexto escolar. nós. particularmente a leitura literária. aguçar os sentidos para a vida. ao mesmo tempo. p. além de dever ser democratizada. enquanto a segunda concebe a leitura como “instrumento de promoção da democracia cultural”. Em suma. mas também somos lidos por eles (SOARES. prazer e conhecimento. a literatura é importante na escola por se tratar de um direito inalienável. num texto polifônico e democrático.32). 2007. transformar a realidade num mundo mais humano. somos o que lemos. como possibilidade de democratização do ser humano. com o dever de possibilitar a todos as possibilidades de leitura e o direito à literatura. os educadores comprometidos com a formação de leitores. mas também. talvez sobretudo. exige uma participação ativa do leitor na construção de sentido do texto. Também considerando a literatura um direito de todos. reconhecendo que a leitura.

Nesse sentido. o trabalho do mediador precisa visar. no entanto.48). que pressupõe uma relação entre a leitura do mundo e a leitura da palavra. a metodologia a ser utilizada na sua sala de aula. para estabelecer um diálogo com eles. ou seja. conhecer o repertório dos alunos. Com essa preocupação. o professor ocupa um papel primordial na formação do leitor. No que diz respeito à leitura de textos literários. que não são suficientes para a formação do leitor literário. a imaginação de outros mundos possíveis e a transformação do leitor e de sua realidade. finalidades essas que acontecem quando os alunos vivenciam experiências de leitura literária. dramatizar histórias entre outras atividades similares). saber o que estão lendo fora da escola. as crianças e adolescentes se prendem em leituras de textos sem qualidade. mas é preciso lembrar que essas atividades são apenas um meio para desenvolver a aprendizagem e o gosto pela leitura. p. Para cumprir seu papel de formador de leitores críticos e criativos. participando criticamente do mundo da escrita e posicionando-se frente à realidade”. fazer palavras cruzadas. suas preferências e seus interesses. para além da compreensão. o professor precisa saber quem são os seus alunos e o que estão lendo. apresentando outras vertentes e descortinando novos horizontes com os alunos. o autor propõe uma nova pedagogia de leitura e atenta para cuidados especiais no trabalho de seleção e indicação de textos dos professores. desenhar. é preciso saber identificar a necessidade de cada um. trazer essas temáticas para suas aulas. cuja finalidade se traduz em “ler para compreender os textos. Como se vê.Silva (1991. Não há receitas milagrosas a serem seguidas. selecionar as obras a serem lidas e escolher o caminho a ser percorrido. ele precisa ser um bom leitor para realizar uma efetiva experiência de leitura com seus aprendizes. recortar papel. . Por isso. cabe ao professor apresentar as obras literárias aos alunos. Embasado nessa concepção. é uma mudança na mentalidade dos professores transformada em ações conseqüentes para as práticas de leitura na escola. conhecendo seus aprendizes. o professor pode utilizar algumas técnicas ou estratégias de motivação (contar histórias. isto é. o educador consegue aprimorar a leitura do mundo e da palavra que os educandos trazem em sua bagagem. Na maioria das vezes. discuti-las e buscar ir além.

é importante envolver toda a comunidade escolar no planejamento e desenvolvimento das atividades de leitura ao longo do ano letivo. a ler para comprender e transformar o mundo e a si próprio e assim viverem melhor. É a partir de sua história que o professor pode fazer um trabalho diferenciado com seus alunos. A tarefa de formar leitores requer um profissional com competência leitora e paixão pelos livros. mas as práticas leitoras realizadas pelo professor no contexto escolar que formam os leitores. A discussão sobre leitura. Com efeito. começa dizendo que os profissionais mais diretamente responsáveis pela iniciação na leitura devem ser bons leitores. Um professor precisa gostar de ler. principalmente sobre a leitura numa sociedade que pretende democratizarse. precisa ler muito. Sendo assim. 2002. são apontadas algumas sugestões para o planejamento da leitura de textos literários nas . Articulando esses pressupostos para que o letramento literário se concretize na escola. Para tanto. a seguir. a aprendizagem só ocorre quando há interação da criança com um leitor experiente. prevendo registros dessas atividades e avaliações do projeto durante todo o processo. precisa envolver-se com o que lê. Nesse sentido. como formar leitores críticos? Não é o discurso sobre a importância da leitura e da literatura. 108). (LAJOLO. Se o professor não gostar da leitura e da literatura e se elas não fizerem parte de sua necessidade básica. o professor não é um leitor comum. p.Lajolo (2002) alerta sobre a necessidade de um espaço para leitura nos cursos que formam mediadores de leitura. o professor crie oportunidades que aproximem o aluno da obra literária e a leitura literária cumpra as suas funções na vida dos alunos. A formação de um leitor exige uma riqueza de repertório por parte do mediador. mas um modelo de leitor que tem a responsabilidade de iniciar outras pessoas na leitura. implica familiaridade com diversos tipos de textos. um caminho promissor é que a leitura seja o centro do projeto pedagógico da escola. aproximando-os dos livros para aprenderem a ler. cuja ênfase recai na prescrição de títulos e treinamento de atividades inócuas.

para leitura literária. perto do intervalo ou da saída. duplas etc. Para iniciar a aula de cada dia. coletiva. ele não vai utilizá-lo para preencher espaço que sobra de outros conteúdos. Se o professor considera o tempo da leitura importante. individual. uma leitura fruição. ou seja. o professor faz uma leitura em voz alta de um texto literário. é recomendável que esse tempo assegurado tenha uma duração que possibilite a leitura de um dado texto literário. por meio de uma programação das atividades. em especial. momento em que o aluno está ansioso para sair da classe. em alguns casos. com flexibilidade para serem efetuadas as alterações necessárias e o resultado seja bem sucedido. muitas vezes. silenciosa. Vale destacar ainda que um bom planejamento garante a leitura diária com diferentes gêneros e modos de leitura alternados (voz alta. é preciso selecionar o que vai ser lido e se preparar para realizar uma boa leitura. presentes na sala de aula. apenas quando o aluno já terminou uma atividade proposta pelo professor e aguarda o sinal do recreio ou da saída. O tempo da leitura É importante constatar que embora as obras literárias estejam. Além de reservar um horário especial para a leitura literária em seu planejamento. Planejar a leitura de textos literários Quando se sabe aonde se quer chegar. organizar as atividades e o espaço. a leitura literária acontece sem um tempo determinado. Antes disso. mas vai garantir um horário nobre para leitura em sala de aula. Para tanto. levando em consideração o tempo. logo que os alunos se acomodem em seus lugares. o espaço. as modalidades da leitura e a diversidade da produção literária. ler pelo prazer de . o planejamento dá um rumo ao trabalho. é possível controlar o trabalho. sem o compromisso de deveres.) Os modos de ler A proposta é que todos os dias sejam dias de leitura. é possível estabelecer uma rota e planejar com antecedência os procedimentos a serem tomados para alcançar o destino desejado. um livro ou de um capítulo de livro.séries iniciais. Com isso. é preciso fazer escolhas de acordo com os objetivos traçados. distribuir o tempo.

A leitura em voz alta também pode ser realizada por alunos. mas não de improviso. Para essa atividade é interessante que a leitura seja livre. escolhendo uma obra e lendo junto com os alunos. a vivência de emoções e o alargamento da imaginação. É importante que o professor também participe dessa atividade. que pode ser dividido em capítulos. com envolvimento. contos. que precisa estar atento às falas e formular questões que levem à reflexão crítica sobre o texto e que contribua para a ampliação dos significados do que foi lido. trios e em grupos. em duplas. para auxiliar na escolha e fazer indicações. qual o texto a ser lido e marcar o dia da leitura para que o responsável por ela possa treinar antes de sua apresentação para a classe. Tais atividades requerem uma mediação cuidadosa do docente. possibilitando a compreensão. novelas. Outra modalidade de leitura é a individual e silenciosa. a leitura em voz alta em duplas. o professor pode realizar atividades de compartilhar leituras. Além de o texto ser bem escolhido. caso os alunos desejem conversar sobre o assunto. para prender a atenção de quem está ouvindo. Essa leitura além de desenvolver a escuta atenta dos alunos. discutindo os sentidos dados para o texto. possibilita um mergulho no universo ficcional de maneira prazerosa.ler. em que cada um fala sobre o livro lido ou escutado. é desejável não quebrar o encanto da história com exercícios de interpretação sobre o texto lido. isto é. O professor precisa conhecer a produção literária atual que possa interessar a essa geração. por meio de comentários e impressões. com entonação. fábulas. silenciosamente. assim como as obras da tradição. mas como modelo de leitor autônomo. de maneira alternada. O professor pode escolher um texto curto ou um texto longo. sem nenhuma cobrança. não apenas como mediador das escolhas. que o aluno escolha o livro a ser lido no acervo disponível na escola ou entre os livros já selecionados pelo professor. Em outro momento. É preciso planejar com antecedência quem vai ler. porque seu entusiasmo com a leitura pode incentivar o aluno a aproximar-se dessas obras. procurando deixar o espaço aberto para algum tipo de comentário. É relevante que o professor selecione poemas. Também é possível desenvolver. lendas entre outros de sua preferência. grupos ou no coletivo. A leitura em voz alta precisa ser caprichada. Construir um espaço em que ocorra a discussão das . ele precisa ser bem lido. Ao finalizar a leitura.

que possibilite a formação de uma comunidade de leitores. estabelecendo a melhor posição para as carteiras. sem mobiliário. baú de histórias. é um grande passo na formação de leitores críticos. em sala fechada e livros guardados ou com atendimento feito por professor readaptado que não goste de ler. auxiliam na construção de um ambiente favorável à leitura. nesse espaço o acesso aos livros deve ser livre. bem iluminado e pintura da parede e do teto em tons claros. arejado. a quadra. Esse espaço não pode ser um “depósito de livros” num canto improvisado da escola. Um espaço que não pode ser esquecido – tanto no projeto político pedagógico da escola quanto no planejamento de cada professor – e que deve ser utilizado com regularidade é o da biblioteca escolar. Salas de aula com cores escuras. como o pátio. com mobiliário adequado à faixa etária do usuário. o uso de tapetes e almofadas entre outros aspectos. cadeiras duras. É imprescindível que o mediador que trabalha nesse espaço seja leitor. os filmes assistidos ou os romances lidos. Pelo contrário. Assim como no mundo da vida as pessoas discutem os capítulos da telenovela. lâmpadas queimadas. Desse . é interessante discutir a ocupação de outros espaços ao ar livre. a sombra das árvores etc. com materiais de leitura disponíveis por todos os lados. A organização desse espaço para as atividades de leitura pode ser decidida num diálogo entre o professor e os alunos. entre outros problemas que não contribuem para o sucesso das atividades de leitura. a conversa sobre textos literários permite ao aprendiz construir e ampliar significados sobre o que foi lido ou escutado e sentir o pertencimento a uma comunidade de leitores. O ambiente da classe precisa ser acolhedor. o mundo escolar também precisa construir essa rotina. com espaço físico amplo. com espaço físico limitado. Em resumo. Alguns recursos como varal de poesias. pinturas descascadas ou rabiscadas. confortável.obras lidas. que conheça com intimidade o acervo e possa orientar na indicação de títulos e desenvolver atividades de divulgação do acervo. O espaço da leitura Observamos que o espaço da leitura no contexto escolar muitas vezes não favorece as práticas de leitura. Além das atividades com leitura na sala de aula. mural com a reprodução de capas de livros. cartazes com propagandas de livros etc. bem iluminado.

Um dia essas histórias foram escritas em livros e continuaram a perambular pelo mundo. para que as práticas de leitura efetivadas sejam significativas (FERNANDES et. liberdade etc. um espaço de descobertas e aprendizagens que precisa envolver a comunidade escolar em sua organização. de boca em boca. ódio. Em vista disso. problemas e sensações compartilhados pela humanidade como. 2002). inventar o mundo. 1993. programação e utilização. por exemplo. é importante respeitar a recusa do leitor por determinadas obras e explorar com maior profundidade aquelas que causarem interesse. língua e idade. Em outras palavras. os clássicos são aqueles livros que deixam marcas profundas. não se pode esquecer de falar da importância dos clássicos na formação do leitor e apresentar uma proposta de atividades com a finalidade de conquistar o leitor de menor idade para a leitura de obras clássicas. Elas ultrapassaram fronteiras de tempo. dor. Contudo. rivalidade. justiça. viajaram pelo mundo afora ultrapassando todas as fronteiras. uma obra clássica . Antigamente essas histórias foram narradas em volta das fogueiras e depois.. das verdades mais profundas e sugere formas de superar conflitos. Para finalizar. poesia. apresentar aos aprendizes a multiplicidade de autores. biografia. estilos e temáticas que a literatura nacional e estrangeira abarca. inveja. espaço. O professor precisa mostrar os diferentes jeitos de a literatura dizer as coisas. livro de imagem entre outros. A diversidade da produção literária Há uma grande diversidade de gêneros literários presentes na produção destinada às crianças e aos jovens: textos narrativos. De acordo com os estudiosos (CALVINO. morte.al. diário. amor. peça teatral. memórias. de buscas. gênero epistolar. um Centro Cultural. Proposta de atividades com os Clássicos universais Os clássicos universais são histórias que conseguem permanecer vivas na memória e no coração do leitor. MACHADO. traição. ilustradores. porque tratam de experiências humanas universais.modo. concebemos a biblioteca escolar como um lugar dinâmico. olhar a vida. que permanecem na memória. 2007). uma obra clássica deixa impressões na alma do leitor porque fala de coisas essenciais.

9) E. Ana Maria Machado e Ítalo Calvino têm razão quando afirmam que essas obras precisam ser lidas por amor e não por dever. por meio da atraente adaptação de Lobato: “Só algum tempo depois eu as reconheceria como bicos-de-pena de Gustavo Doré. mais tarde. como. é preciso concordar com o que diz com a escritora Ana Maria Machado. ao ler as aventuras por conta própria em outra edição – O Dom Quixote das Crianças.] nunca vou esquecer as Aventuras de Dom Quixote que meu pai foi me contando aos poucos. os jovens têm dificuldades de acesso à linguagem mais elaborada.nunca envelhece.9) Como trabalhar com os clássicos universais com as crianças? Pode-se começar listando os contos de fadas que as crianças conhecem e verificar qual é a sua personagem inesquecível. por isso.. enquanto me mostrava as ilustrações. tornam-se consagradas. cobrança de prova e exercícios enfadonhos.. p. quando defende o uso de uma boa adaptação para o primeiro contato da criança e do adolescente com um clássico. em cada tempo e em cada lugar. Em seguida. Há também obras modernas consideradas clássicas porque apresentam essas características e. em voz alta. mas se renova a cada leitura. na adaptação de Monteiro Lobato. Sabe-se que atualmente a maioria dos jovens só lê essas obras-primas em função do vestibular. por exemplo: 1) Leia diversos contos de fadaspara e com a turma. Uma outra atividade que pode ser feita é distribuir folhas de sulfite para os alunos ilustrarem a personagem de conto de fadas com o qual mais se identificam e pedir para que justifiquem a escolha. com entonação. apresentam para o grande grupo seus desenhos e suas justificativas. A experiência da escritora revela como o contato com uma obra clássica na infância foi feita pela mediação do pai. A escola tem um papel fundamental na formação de leitores e não pode matar o prazer da leitura com a obrigatoriedade. Há muitas outras possibilidades.” (2002. com suas próprias palavras. e depois peça para que as crianças ditem (ou escrevam) . Mais uma vez. no entanto. Por serem obras densas. Esse patrimônio cultural precisa fazer parte da educação escolar desde a Educação Infantil.” (p. tornando a história inesquecível: “[. Uma das saídas encontradas pelos jovens e pelos professores têm sido as adaptações como uma ponte para chegar aos textos integrais. de maior complexidade.

ilustrador. por exemplo. transformando também a realidade inspirado nos mundos tornados possíveis pela literatura. adaptador. de dentro de uma caixa. e posteriormente. Com relação às narrativas mais longas. índice etc. 5) Outra sugestão é comparar a versão que as crianças já conhecem com a versão do conto de fada lido. carta. Feito esses preparativos. A seguir. procure ler em voz alta um capítulo da obra por dia. Ao final dessas reflexões. pedaços de papel com nomes de personagens. conflito e desfecho para a história a ser criada e apresentada para a turma. Marisa Lajolo. para repensar as práticas com o letramento literário na escola. trabalhar com outros suportes como a audição de um conto de fada em CD e a sua exibição em DVD. e deixe todos na expectativa do que vai acontecer amanhã. especialmente. A atividade pode ser para que a criança escreva uma manchete de jornal para os acontecimentos dos contos de fadas lidos. que participa da vida de quem lê e forme um leitor para quem a leitura faça sentido em sua vida e possa transformá-la. levantando as semelhanças e diferenças junto com os alunos. Com certeza. contracapa. título. com a finalidade de aprimorá-las e construir uma leitura literária significativa na escola. será uma experiência de leitura inesquecível! Palavras finais De modo geral. Regina Zilberman e Magda Soares.. tradutor. 3) Cada grupo/dupla retira. . mostrando capa.. foram discutidas questões importantes para a formação do leitor literário na escola a partir das contribuições teóricas de Antonio Candido. manchete de jornal etc. autor. para fins de ilustração. a sugestão é de que o professor faça uma conversa inicial com os alunos. espera-se colaborar. 4) Também é possível trabalhar com outros gêneros textuais. apresente a obra para as crianças. ou então uma carta para alguma das personagens da história. 2) Solicite que as crianças desenhem as histórias a medida que são lidas. procurando fazer uma atualização do(s) tema(s) a ser(em) tratado(s) na obra para o contexto do aluno. comente algum episódio interessante da vida do autor e compartilhe algum trecho da obra que tenha sido significativo para você.. de alguma maneira.um conto de fadas para averiguar se eles se apropriaram das características da linguagem desse gênero. como na novela da TV.

Brasília: MEC. p.17-32. Regina. Aparecida et.Vários escritos. . In: PAIVA. São Paulo: Global. Belo Horizonte: Ceale. ______. Aracy Alves Martins. CANDIDO. Ítalo.Referências CALVINO. Leitura. Fascículo 4. Ezequiel Theodoro da. Aparecida et. ed. Organização e uso da biblioteca escolar e das salas de leitura. ed. In: Pró-Letramento: Programa de Formação Continuada de professores dos anos/séries iniciais do Ensino Fundamental – alfabetização e linguagem. Londrina: EDUEL. (orgs. 2002. Ana Maria. literatura infanto-juvenil e educação. ZILBERMAN. Literatura: saberes em movimento. Belo Horizonte: Autêntica. In: ______. Leitura e democracia cultural.9. GOULART. al. (orgs. 1993. FERNANDES. 1987. 2007. MACHADO. Cecília. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. São Paulo: Companhia das Letras. e ampliada. p. (orgs. p. 17-48. 2002. SOARES. SEB. Por que ler os clássicos. Rio de Janeiro: Objetiva.235-263. 2006. ______. Magda. 2007.. v. Do mundo da leitura para a leitura do mundo.) A escolarização da leitura literária: o jogo do livro infantil e juvenil.rev. 57-91. Autêntica. 6. In: EVANGELISTA. 2008. set. et.rev. SILVA.803-809. 1972. A literatura infantil na escola. Marisa. In: Ciência e cultura. 1991. Belo Horizonte: Ceale. e ampl. A escolarização da literatura infantil e juvenil. ed. A literatura e a formação do homem. Autêntica. et. In: PAIVA. ed.24. São Paulo: Ática.). São Paulo: Ática. Antonio. De olhos abertos: reflexões sobre o desenvolvimento da leitura no Brasil. São Paulo: Duas Cidades. Célia Regina Delácio. al. 2. O direito à literatura. 2007. ______. n. Democratizando a leitura: pesquisas e práticas. 1995. LAJOLO. Alfabetização e letramento: os processos e o lugar da literatura. p. 6. al. al. p. ed. 3.).