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1 A FAMÍLIA

1.1 UM NOVO CONCEITO DE FAMÍLIA SEGUNDO A CONSTITUIÇÃO FEDERAL E DO NOVO CÓDIGO CIVIL

O conceito cultural e etimológico de família, diz que a família é a instituição mais antiga que existe na sociedade, pois desde os tempos mais remotos o homem constitui uma família, seja para fins afetivos, ou seja, para fins de perpetuação de seus descendentes.Analisando o contexto historio do sentido literal do que é família encontramos a seguinte opinião doutrinária de José Bernardo Ramos Boeira (1999, p. 19): Biologicamente, família éo conjunto de pessoas que descendem de tronco ancestral comum, ou seja, unidos por laços de sangue. Em sentido estrito, a família representa o grupo formado pelos pais e filhos. No âmbito legal, no que diz respeito a direitos e proteção jurídicao significado de entidade familiar passou por um grande processo de transformação, onde há duas diferentes visões. A primeira, compreendida pelo Código Civil brasileiro de 1916, ligava a família ao matrimônioe ao parentesco, como se o casamento fosse a única forma aceitável de constituição de família, ou seja, era uma definição baseada na cultura de uma sociedade extremamente tradicional. Orlando Gomes (1978, p.13) sintetiza com louvor o que definia o código civil de 1916: “Direito de Família é o conjunto de regras aplicáveis às relações entre pessoas ligadas pelo casamento ou pelo parentesco.” É fácil perceber, que este conceito tradicional de família

inevitavelmente deveria ser reformulado, haja vista que a sociedade constantemente passa por transformações, uniões sem casamento passaram a ser compreendidas e aceitas pela sociedade, e com isso, cada vez mais novos modelos de famílias estruturaram-se. Diante dessas transformações sociais, questões como os direitos da união estável e de filhos havidos fora do casamento começaram a sufocar este conceito precoce de que a família legalmente reconhecida era aquela oriunda unicamente do casamento, exigiram da lei uma maior proteção, de acordo com as palavras de Silvana Maria Carbonera:
Buscando a realização pessoal, o ordenamento foi posto em segundo plano e os sujeitos se impuseram como prioridade. Formaram-se novas famílias, marginais e excluídas do mundo jurídico, mas ainda assim se formaram. A

verdade social não se ateve à verdade jurídica e os fatos afrontaram e transformaram o Direito. (CARBONERA, Silvana Maria.1998, ps. 289 e 290)

Se por uma lado o código civil dava ênfase a garantia de estabilidade das normas, algumas leis especiais as alteravam sem cerimônia, visando à garantia de objetivos sociais e econômicos definidos pelo Estado, constituindo sua segunda fase interpretação:
Não há dúvida que a aludida relação estabelecida entre o Código Civil e as leis especiais, tanto na fase da excepcionalidade quanto na fase da especialização, constituía uma espécie de monossistema, onde o Código Civil era o grande centro de referência e as demais leis especiais funcionavam como satélites, ao seu redor. Com as modificações aqui relatadas, vislumbrou-se o chamado polissistema, onde gravitariam universos isolados, que normatizariam inteiras matérias a prescindir do Código Civil. Tais universos legislativos foram identificados pela mencionada doutrina como microssistemas, que funcionariam com inteira independência temática, a despeito dos princípios do Código Civil. O Código Civil passaria, portanto, a ter uma função meramente residual, aplicável tãosomente em relação às matérias não reguladas pelas leis especiais. (TEPEDINO, Gustavo, 2001, ps. 11 e 12)

A Constituição Federal de 1988 trouxe mudanças significativas ao consagrar a dignidade da pessoa humana em seu artigo primeiro como fundamento da República Federativa do Brasil. Com isso, os princípios da igualdade e da dignidade construíram um novo modelo de família, nesse sentido é a lição de Flávio Tartuce, in verbis:
Especialmente quanto à interação família-dignidade, ensina Gustavo Tepedino que a família, embora tenha o seu prestígio ampliado pela Constituição, deixa de ter valor intrínseco, como uma instituição meramente capaz de merecer tutela jurídica pelo simples fato de existir. Mais do que isso, a família passa a ser valorizada de maneira instrumental, tutelada como um núcleo intermediário de desenvolvimento da personalidade dos filhos e de promoção da dignidade de seus integrantes (A disciplina..., Temas..., 2004, p. 398)

O princípio da igualdade acabou de vez com a diferenciação que o Código Civil de 1916 fazia quando condicionada o direito de família ao casamento e ao parentesco, como explica Silvana Maria Carbonera.

[...]a proteção a todos os sujeitos da família deve ser feita de forma igualitária, uma vez que a desigualdade fere a dignidade. [...] Ademais, tratar da dignidade e da igualdade significa também abordar sua coexistência num ambiente divido por duas ou mais pessoas: se ambas têm direitos idênticos, significa que a convivência somente será possível se houver a limitação da liberdade individual pela lei.(CARBONERA, Silvana Maria1998, ps. 295 e 296).

É dever da família. Corrigiu alguns equívocos e incorporou orientações pacificadas pela jurisprudência.. prioritária e integral da criança e do adolescente. 227. 226. aptidões e qualidades. diz que: A família – não importa sua espécie – ganha função que anteriormente não lhe era reconhecida. à educação. com absoluta prioridade. foi dado o devido amparo legal àqueles que em virtude das determinações do antigo código civil. [. passou a considerar como família não só aquela advinda do casamento. o direito à vida. [. em janeiro de 2003 entrou em vigor o Novo Código Civil com um texto legal totalmentereformulado e em harmonia com os dispositivos constitucionais. 31): O Código Civil de 2002 procurou atualizar os aspectosessenciais do direito de família. Guilherme Calmon (2003.. O responsável . à saúde. com a centralização na pessoa dos filhos menores.]. [. diante da acolhida expressa da doutrina de proteção absoluta.] § 3º .Com efeito... à cultura.] § 8º . A família. da sociedade e do Estado assegurar à criança. ao adolescente e ao jovem. violência.como não mais determinar compulsoriamente a exclusão do sobrenome do maridodo nome da mulher. de maneira inevitável e diante das inovações trazidas pela constituição federal. permitindo que eles possam ter os meios necessários – materiais e imateriais – para desenvolver plenamente suas personalidades. 420) ao tratar da família pós CF/88. é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar. encontravam-se totalmente desamparados: Art. Art. discriminação. ao respeito. à profissionalização. devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. com isso. também. Assim. mas também aquelas oriundas da união estável e ainda a chamada de família natural. Além de ratificar e fortalecer o princípio da proteção à família.Entende-se. à alimentação. base da sociedade. a fim de se adequar aos novos princípios constitucionais. a legislação constitucional vigente através de seus artigos 226 e 227..Para efeito da proteção do Estado. criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.o Código Civil de 2002 considera o afeto como elemento volitivo de sua formação. § 4º . a família formada por apenas um dos genitores e seus filhos e até mesmo a família substituta. a de servir aos seus integrantes. exploração. p. além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência. como entidade familiar a comunidade formada por qualquer dos pais e seus descendentes. à dignidade. crueldade e opressão. ao lazer. tem especial proteção do Estado.O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a integram. Segundo Dias (2007.. à liberdade e à convivência familiar e comunitária. p.

ou legitimado. supervenientes a adoção (art. 1. de 1977). [. uma mudança importante e significativa que pôs fim a um termo carregado de discriminação. essa situação só veio a ser corrigida quando foi promulgada a Lei 6.pela separação não tinha direito a alimentos. ao estabelecer em seu artigo 126 que: Art 126 .] No entanto.. a começar pela constituição federal de 1937 revogou o art. Para os efeitos da sucessão. não trouxe grandes vantagens. da condição e dos direitos dos filhos ilegítimos surgiram mais disposições legislativas acerca do assunto. 368). 1605 do código civil de 1916 que diminuía o direito dos filhos considerados ilegítimos e doas filhos adotados em relação aos filhos naturais (considerados os filhos havidos na constância do casamento). 1. extensivos àqueles os direitos e deveres que em relação a estes incumbem aos pais. aos filhos legítimos se equiparam os legitimados. 1605 do código civil de 1916. perdeu a novaconsolidação uma bela oportunidade de promover alguns avanços. o código civil de 2002 aboliu de vez do ordenamento jurídico a expressão filho ilegítimo. se concorrer com legítimos.737 de 1942. que embora tenha permitido o reconhecimento dos filhos havidos fora do casamento.515 . 358). § 2º Ao filho adotivo. tais como o Decreto-lei 4. pois esse reconhecimento só era permitido após o desquite (separação do casal). pois os chamados filhos ilegítimos somente adquiriram igualdade de direitos após uma trajetória de muitas mudanças ocorridas na legislação.515.605.. além do mais. tendo em vista que a constituição federal já tratava com igualdade todos os filhos havidos dentro ou fora do casamento. Não trouxe aguarda compartilhada. Art. a lei assegurará igualdade com os legítimos. (Revogado pela Lei nº 6. Essa situação perdurou por anos. agora denominadas de uniões homoafetivas. Dando continuidade evolução do tratamento. a filiação socioafetiva. tocará somente metade da herança cabível a cada um destes. § 1º Havendo filho legítimo. Além disso. só a metade do que a este couber em herança terá direito o filho natural reconhecido na constância do casamento (art.mesmo que não tivesse meio de sobreviver.2 A EVOLUÇÃO DA FILIAÇÃO E A NOVA POSIÇÃO DOS FILHOS O art. facilitando-lhes o reconhecimento. os naturais reconhecidos e os adotivos.Aos filhos naturais. não havia mais sentido o uso da expressão filho ilegítimo. não consagrou a posse de estado de filho. nem mesmo normatizou as relações de pessoas do mesmo sexo.

assistência do Estado a todas as espécies de família (art. como demonstra José Sebastião de Oliveira: Proteção de todas as espécies de família (art. até 1988. 230. Hoje. 7º). reconhecimento expresso de outras formas de constituição familiar ao lado do casamento. a concepção eudemonista. há princípios: o da igualdade. 273). Analisando os fatos acima. e art. igualdade entre os filhos havidos ou não do casamento. respeito recíproco entre pais e filhos. reconhecer o filho havido fora desse. a legislação infraconstitucional. 229). Longe. seus princípios vinculantes como regras básicas do Direito de Família. Com a constituição de 1988. §5º). compromete-se pela sua integridade. 226. 227. tem especial proteção do Estado”. Perto. § 6º).de 1977. Constitui “uma Constituição de cunho marcadamente compromissário. ou por adoção (art. interveio nas relações de direito privado. p. p. A constituição federal de 1988 assumiu de vez o papel de lei fundamental da família. (FACHIN. LIRA. dissolubilidade do vínculo conjugal e do matrimônio (art. O primeiro destaque é o art. dever de a família. equiparando-a e reconhecendo efeitos jurídicos à união estável entre homem e mulher (§ 3º) e ao grupo monoparental. dever da família. 2º. da não discriminação e da neutralidade. I. ao regulamentar os temas que antes eram tratados exclusivamente pelo Código Civil: O conjunto de princípios e regras que se enquadram no Direito Privado apresentam certas fontes formais. surge uma nova etapa de valoração e interpretação para o Código Civil.criá-los e educá-los. caput. (OLIVEIRA. filhos ou netos (§ 4º). igualdade entre os cônjuges (art. da Constituição que. caput). Princípios que não são meros enunciados programáticos. § 5º). Acima das fontes formais em sentido estrito. § 6º). 226. em conjunto. ao longo de seus parágrafos. durante o matrimônio.). Luiz Edson. ampararem as pessoas idosas. 4º. 226. 226. 1999. 227. que permitiu a qualquer dos cônjuges. José Sebastião de. velando para que tenham uma velhice digna e integrada à comunidade (art. 5º. ao prever que “a família. §§ 1º. a base positivada fundamental. a sociedade e o Estado garantirem à criança e ao adolescente direitos inerentes à sua personalidade (art. a Constituição Federal. 47). mas que erigiu a dignidade da pessoa humana à condição de fundamento de . de maneira que uma surgia para revogar expressa ou implicitamente as determinações da lei anterior. 226. dignidade da pessoa humana e paternidade responsável (art. §§ 3º e 4º). era o Código Civil brasileiro. temos que durante muito tempo. Ricardo Pereira (coord. 226. enquanto menores é dever daqueles assistilos. todo esse conjunto de leis e mudanças alteraram a estrutura do código civil. sociedade e Estado. por meio de testamento cerrado. e destes o de ampararem os pais na velhice. o direito civil passou a ser regulamentado através de uma série de dispositivos. Adota. 2002. § 8º). em que vive apenas um dos genitores e descendentes. uma vez que o novo texto constitucional unificou sistema através de um rol de princípios constitucionais de Direito de Família. base da sociedade. 226. CF). caput. 5º. como as uniões estáveis e as famílias monoparentais (art. carência ou enfermidade (art.

Na incompatibilidade. a legislação infraconstitucional acaba sendo recolhida. op. tentando operar uma separação entre o poder da Igreja e o poder do Estado. não há recepção por inconstitucionalidade superveniente. pelo capítulo da família na Constituição Federal. portanto. com isso. O art. 227. 35-37) . Ricardo Pereira (coord. § 6º. enfim. 1999. não podem ser submetidos a tratamento discriminatório e arbitrário. ao consagrar que marido e mulher são iguais em direitos e obrigações.). Sérgio Gischkow. Ingo Wolfgang. ao igualar os efeitos jurídicos de todas as situações existentes dentro da família. LIRA. Outrossim. Em 1988. Ingo Wolfgang 2001. consistente em “punir” os filhos ilegítimos por eventos no tocante aos quais não têm eles qualquer responsabilidade! (PEREIRA. O princípio da isonomia foi inserido pela constituição federal de 1988 no instituto da família. p. há uma guinada fundamental. ou por adoção. 89). de efeitos perniciosíssimos. toda e qualquer ofensa ao princípio isonômico na sua dupla dimensão formal e material.. mesmos direitos e deveres. Filhos tidos dentro do casamento. (SARLET. sexo. a Constituição trazia um dispositivo sobre a matéria. mesmos direitos e deveres que os tidos fora do casamento.nosso Estado democrático de Direito”. no plano dos princípios básicos. constitui pressuposto essencial para o respeito da dignidade da pessoa humana a garantia da isonomia de todos os seres humanos. (SARLET. p. e colocou de vez um fim à problemática referente à filiação ao estender o conceito de família ao amparar o direito dos filhos havidos fora do casamento que por serem considerados como ilegítimos eram desamparados pela lei. razão pela qual não podem ser toleradas a escravidão.. na opinião de Fachin: Marido e mulher. ps. A Constituição de 1824 tratava somente da família imperial. a constituição protegeu os direitos dos filhos como integrantes do grupo familiar. e proclamada a República. 80). a lei fundamental da família era o Código Civil brasileiro. § 6º. a constituição federal de 1988 também revelou nítida preocupação com a proteção da dignidade humana. p. terão os mesmos direitos e qualificações. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação”. Luiz Edson. Assim. da Constituição Federal é magnífico pelo que representa de avanço no Direito de Família pátrio. e até a Constituição Federal de 1988. que. mar. que “os filhos. perseguições de motivos de religião. Assim. havidos ou não da relação do casamento. Assim opera a Constituição de 1988. 150. cit. 1989). fruto recente. a discriminação racial. Quebra uma das mais deploráveis hipocrisias naquele ramo do Direito. Tendência de “constitucionalização” do Direito de Família. foi permitido o reconhecimento da paternidade independente do estado civil do pai. (FACHIN. ao estabelecer em seu artigo 227.

pelo menos. 327): Até hoje. por morte. sempre se esteve a falar em filiação biológica. mudanças essas que colocaram um fim na discriminação que existia com os filhos denominados ilegítimos como consta no art. havidos ou não da relação de casamento. 1597: Art. Todas essas mudanças ocorridas e que levaram a uma evolução da filiação.597. a presunção de paternidade que antes estava diretamente condicionada a família originada e firmada no casamento. 1. Presumem-se concebidos na constância do casamento os filhos: I . 1. a qualquer tempo. mesmo que falecido o marido. então. Em juízo sempre foi buscada a chamada verdade real. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação.596 do código civil de 2002 que diz: “Os filhos. III . direcionando para o estudo da realidade afetiva que liga um filho a um pai.Embora tenha havido muitas mudanças na legislação. Surge. ou por adoção. conforme demonstrado anteriormente. V . que embora ainda não regulamentada por área legal expressa. II . quando se tratar de embriões excedentários.havidos por fecundação artificial homóloga. separação judicial. p. depois de estabelecida a convivência conjugal.havidos por inseminação artificial heteróloga. e é veemente amparada por doutrinadores como demonstrado seguir. desde que tenha prévia autorização do marido.” ainda resta para estes a necessidade de reconhecimento o que não ocorre de maneira automática como no caso dos filhos que são concebidos no casamento. em muitos casos é o único fator capaz de revelar quem são os pais. nulidade e anulação do casamento.1 ASPECTOS GERAIS A filiação sociofetiva é uma espécie de filiação decorrente de laços afetivos. é tão importante quanto a filiação jurídica ou biológica. 2 PATERNIDADE SOCIOAFETIVA 2. terão os mesmos direitos e qualificações. a diferenciação do filho havido dentro e do filho havido fora do casamento.havidos. o aspecto sócioafetivo. . todos esses fatores criaram uma reflexão do que seria a verdadeira paternidade. quando se fala em filiação e em reconhecimento de filho. Segundo Dias (2007. sendo assim considerada a relação de filiação decorrente do vínculo de consangüinidade. Art. que apesar de ser um ente abstrato. como disciplina o art.nascidos cento e oitenta dias.nascidos nos trezentos dias subseqüentes à dissolução da sociedade conjugal. decorrentes de concepção artificial homóloga. IV .

que constituem outros tantos fatos sociais.” Para Fujita (2010. mas aquele que se concebe como jurídico. capaz de estreitar os laços da paternidade.). Não é o vínculo biológico o mais importante para o Direito. mais ou menos institucionalizadas. edificada no relacionamento diário e afetuoso. não excluindo o afeto da relação biológica. Para o professor Luiz Edson Fachin: Os pressupostos imprescindíveis. 475). mas esclarecendo que o afeto não lhe é exclusivo. agora sob argumento outro. a família esta em constante evolução e modificação.Na visão de Welter (2003. entre todos aqueles que de perto ou de longe afirmam compartilhar a mesma filiação existem formas de solidariedade (entreajuda. formando uma base emocional capaz de lhe assegurar um pleno e diferenciado desenvolvimento como ser humano. Pai é aquele quem cuida. presunção que durante muito tempo viveu no direito e que foi afastada pelo argumento de se haver alcançado certeza científica da relação de filiação. deixou de ser considerado filho legítimo aquele havido apenas entre marido e mulher. etc. p. pode ser mítica e existir apenas na consciência dos homens. de maneira que numa sociedade moderna não se pode mais considerar os laços sanguíneos como única forma de determinar o parentesco. p. podendo estar presentes nas relações paterno. . de que ao direito interessa antes o nascimento do que a concepção. Alan Marie (1975. a um certo nível. materno e filiais socioafetivas. a filiação. A evolução da família na sociedade trouxe a necessidade de adequação da legislação. “é aquela que tem origem na convivência diuturna e responsável. 165) a paternidade socioafetiva “é a única que garante a estabilidade social. o qual lhe empresta o nome de família e assim o trata perante a sociedade. observáveis por quem está de fora e que são testemunho da realidade objetiva de um conjunto composto de indivíduos e de grupos que podem não ser biologicamente aparentados. qual seja. a filiação aos poucos foi evoluindo. de forma sólida e duradoura. no entanto essa evolução não parou por ai. passou-se a aceitar a presença e o reconhecimento do filho havido fora do casamento. cede passo novamente. numa relação entre suposto pai e filho. alimenta. p. mas que nem por isso deixam de constituir uma sociedade estruturada com base no modelo e expressa na linguagem do parentesco. 181): A regra pater is est. educa. 14) já anteriormente a CF/88 falava da existência do vínculo afetivo desvinculado ao liame biológico: Finalmente. cooperação ritual.” Segundo Almeida (2008. mas isso é o essencial na medida em que determina e exprime um certo tipo de comportamento efectivo: por exemplo. caracterizadores da paternidade socioafetiva revelam-se no comportamento cotidiano. p.

reconhecer. 2004). alheio. como: optar. acolher. 1996. A afetividade é o laço mais profundo. existia o amor. A adoção é uma questão de consciência. admitir. de ser amado e protegido. é muito mais do que criar e educar uma criança que não possui o mesmo sangue é antes de tudo uma questão de valores. a sua existência é pautada na vontade de ser pai e na necessidade de ser filho. aceitar. Mas o ato de adotar é muito mais do abrigar em seu lar uma criança desconhecida. p. assumir. estranho ou não era conhecido ou cogitado. mais poderoso. adotivo ou filho do coração. uma palavra genérica. agregar de forma total o adotado à família do adotante e. (FACHIN. desde que respeitadas as condições jurídicas para tal. de aceitar (alguém ou algo). uma filosofia de vida. que de acordo com a situação pode assumir significados diversos. É necessário lembrar que antes de existir a biologia e a genética. surgindo assim uma preocupação do adotante em fazer com que a criança ou o adolescente esqueça por completo a sua condição de estranho e passe a ser tido como filho legítimo. seja ele biológico. adotar “é um verbo transitivo direto” (AURÉLIO. 2. Entende-se por processo legal que consiste no ato de se aceitar espontaneamente como filho de determinada pessoa. A adoção prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente tem por principal objetivo.2. observados os requisitos legais. Segundo o Dicionário Eletrônico Houaiss (2001): Adoção é termo jurídico que representa ação ou efeito de adotar. como conseqüência e de maneira imutável ocorre o desligamento deste com sua família biológica. constitui a aceitação.acompanha o desenvolvimento e a formação do filho. 37).2 ESPÉCIES DE PATERNIDADE SOCIOAFETIVAS 2. p. Eduardo de Oliveira Leite citado por Fonseca (2004.e a sua existência independe de um vínculo biológico.1 Adoção Judicial Para a língua portuguesa. escolher. detendo todas as condições para se sentir amado e protegido na nova família. admissão do que antes era externo. entre outros. o ingresso na família do adotante é completo. 95) diz que adoção é: “Ato jurídico solene pelo qual. alguém . reconhecendo-o como filho. o afeto entre as pessoas. depois de findos os requisitos exigidos no Estatuto. com isso. responsabilidade e comprometimento com o próximo.

a mais protegida e livre de desacordos doutrinários é a adoção. havidos ou não da relação do cas amento.” A adoção será regulada pelo ECA (Lei 8.185 do Código de Hamurabi (1728-1686 a. Relator: Luiz Felipe Brasil Santos. terão os mesmos direitos e qualificações. constando do art. pudesse ter um novo lar.estabelece um vínculo de filiação. 343-344) fala a respeito da importância desse instituto: Com a evolução do instituto da adoção. Carlos Roberto Gonçalves (2009. na condição de filho. no interesse destes.” Sobre o assunto segue julgado do TJRS: APELACAO. p.” Welter (2003. destinado não apenas a dar filhos a casais impossibilitados pela natureza de tê-los.). p.069/90). E INCONCEBIVEL RETIRA-LA DA GUARDA DAQUELES QUE RECONHECE COMO PAIS. passou ela a desempenhar papel de inegável importância. ENCONTRA-SE BEM DEFINIDO NA PESSOA DOS APELADOS.” E para não restar dúvidas. Julgado em 14 nov. que em consonância com a CF/88 disciplina no art. NO CONFLITO ENTRE AMBAS. 148) diz que “esse instituto não foi criado recentemente. ASSIM APONTAR O SUPERIOR INTERESSE NA CRIANCA. Dentre as diversas modalidades de filiação socioafetiva. alguém que lhe é estranho. 70003110574. trazendo para sua família.2001). EVIDENCIADO QUE O VINCULO AFETIVO DA CRIANCA. sendo adotado. nela os direitos do menor e do adolescente estão regulados na lei tal como deveria ser nas demais modalidades de filiação desvinculadas do fator genético. guarda e educação dos filhos menores. DESPROVERAM O APELO. JA TENDO COM ELES DESENVOLVIDO VINCULOS AFETIVOS E SOCIAIS. a obrigação de cumprir e fazer cumprir as determinações judiciais. Apelação Cível n. proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação. 20 que “os filhos. transformando-se em instituto filantrópico. A ESTA ALTURA DA VIDA. cabendo-lhes ainda. ou por adoção. ESTANDO A CRIANCA NO CONVIVIO DO CASAL ADOTANTE HA MAIS DE 9 ANOS. (TJRS. Órgão Julgador: Sétima Câmara Cível. UNANIME.C. SEMPRE QUE. DEVE-SE PRESTIGIAR A PATERNIDADE SOCIOAFETIVA SOBRE A PATERNIDADE BIOLOGICA. 22 disciplina “aos pais incumbe o dever de sustento. mas também a possibilitar que um maior número de menores desamparados. . MORMENTE QUANDO OS PAIS BIOLOGICOS DEMONSTRARAM POR ELA TOTAL DESINTERESSE. de caráter acentuadamente humanitário. ADOCAO. o art.

a paternidade socioafetiva é aquela relação entre pai e filho que ao longo do tempo vai criando raízes a ponto de – apesar da verdade biológica – fazer criar uma outra verdade social que o Poder Judiciário não pode ficar alheio. comprovado estado de filho afetivo. não se justifica a anulação de registro de nascimento por nele não constar o nome do pai biológico. uma vez que diz respeito à própria dignidade da pessoa humana. julgado em 16/11/2005). 70012613139. Maria Berenice Dias. embora sejam mais freqüentes os casos de paternidade socioafetiva do que de maternidade: ANULAÇÃO DE REGISTRO DE NASCIMENTO.” Conforme Welter (2003. porém cabe . p. NEGADO PROVIMENTO AO APELO. Rel. Descabe alterar o valor dos alimentos quando não demonstrada a alegada impossibilidade do alimentante em suportá-los. (TJ/RS.] TJ/RS. Apelação Cível n. princípio maior que norteia todo o sistema normativo.. Sendo a filiação um estado social. Embargos Infringentes n. com o tempo. Rel. Narrativa da petição inicial demonstra a existência de relação parental. NEGATÓRIA DE PATERNIDADE.. do CP). 480) “„adoção à brasileira‟ é a que consiste no reconhecimento registral de uma determinada pessoa como sendo filho de outros que não se traduzem como seus pais biológicos.] Logo. ADOÇÃO AFETIVA. ALIMENTOS. IMPOSSIBILIDADE. que prevalece mesmo na ausência de vínculo biológico. livre e consciente.[.2. APELAÇÃO. SEGREDO DE JUSTIÇA (TJ/RS. Em ação que versava sobre direitos sucessórios. parágrafo único. Quarto Grupo de Câmaras Cíveis. não há regulamentação explícita infraconstitucional em nosso ordenamento.. NEGARAM PROVIMENTO. sem obedecer aos trâmites legais. mesmo não o sendo. Oitava Câmara Cível. o Desembargador Rui Portanova do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul destacou a importância da relação socioafetiva como geradora de efeitos jurídicos: [. restou configurada a paternidade socioafetiva. Ademais. IMPOSSIBILIDADE NÃO DEMONSTRADA. julgado em 12/08/2005. Reconhecimento da paternidade que se deu de forma regular. 70012504874. 7ª Câmara Cível. Não restou demonstrada a alegação de erro substancial no momento em que a paternidade foi registrada. cuja conduta é tipificada como crime (art. Os Tribunais pátrios têm reconhecido o valor jurídico do afeto. p..2 Adoção à Brasileira Segundo Fujita (2010. No BrasiPara o reconhecimento da posse do estado de filiação.2. 150) trata-se do caso “em que alguém reconhece a paternidade ou maternidade biológica. Apelação Cível n. 299. AUSÊNCIA DE ERRO. Rui Portanova. julgado em 20/10/2005). PARENTALIDADE SOCIOAFETIVA. 70011650108. mostrando-se a revogação juridicamente impossível.

Importante relembrar que.3 Irrevogabilidade da Filiação Socioafetiva A filiação socioafetiva ainda não foi recepcionada de maneira expressa em nossa Codificação. o vínculo tenha se estabelecido sem atendimento aos requisitos legais de adoção. sendo irrevogável. que apresenta as seguintes espécies de presunção de estado de filiação. o novo comportamento cultural.153): “Considerando que a Constituição Federal engendrou a unidade de filiação. Embora nesses casos. insere o mundo moderno em outro contexto social. em que a função de pai deve ser exercida no maior interesse da criança. 2. b) quando os pais o tratam como seu filho. uma vez consolidada tal situação. Sua existência no plano real. 52): Assim. Portanto. deve prevalecer o melhor interesse da criança. p. dispensando a reunião delas: a) quando o indivíduo porta o nome de seus pais.604 do CC/02 exorta que tal prova somente poderá ser contestada em razão de erro ou falsidade do registro. comparando-se esta com as demais espécies de filiação. e) quando a autoridade pública o considere como tal. De acordo com. no tocante à paternidade. conclui-se que a filiação está estabelecida e apta a surtir seus efeitos. É notório que a adoção formal se processa perante o Juiz de Direito e que existem filas de espera para receber uma criança. c) quando os pais provêem sua educação e seu sustento.603 do CC/02 se tem a filiação prova-se pela certidão do termo de nascimento registrada no Registro Civil. Queiroz (2001. p. sendo apenas trabalhada em sede jurisprudencial. inclusive no dever de prestar alimentos. assim como a irrevogabilidade da adoção. E ainda. que é uma forma de filiação socioafetiva. Pedro Belmiro Welter (2002. conclui-se que a filiação sociológica também é irrevogável”. 1. . e este àqueles como seus pais. Nessa linhagem de pensamento. porém. resulta em interpretação analógica. uma pessoa por sua própria vontade não pode se eximir de observar tais formalidades e futuramente abandonar uma criança ou um adolescente que acolheu e criou como filho esquivando-se das responsabilidades que assumiu. 1. d) quando ele é assim reconhecido pela sociedade e pela família. sem que se atenha à própria pessoa em exercício da referida função. pelo art. Assim. o art.aqui citar o artigo 311-2 do Código Civil francês.

FAMÍLIA .ANULAÇÃO DO REGISTRO CIVIL FUNDADO EM VÍCIO DE CONSENTIMENTO AFASTAMENTO RECONHECIMENTO VOLUNTÁRIO ATO IRREVOGÁVEL – FILIAÇÃO SOCIOAFETIVA QUE EXCLUI A BIOLÓGICA . desfazer o reconhecimento da paternidade de um filho seria uma extremada injustiça. a qualquer tempo. da paternidade. p. sendo esta protegida sobre o manto do estado e por este motivo admite que a irrevogabilidade da paternidade afetiva. mormente quando ausentes quaisquer vícios formais ou materiais maculando a higidez do ato.NEGATÓRIA DE PATERNIDADE C/C ANULAÇÃO DE REGISTRO CIVIL . em seus arts. sedimentado por elos de afetividade caracteriza relação paterna-filial socioafetiva em ato irrevogável. (VELOSO. não pareceria de bom alvitre fosse permitido ao pai desfazer o reconhecimento da paternidade a qualquer tempo. (. Atualmente a doutrina vem reconhecendo a irrevogabilidade da paternidade afetiva. Ilustrando. sobretudo se o dever a ser perseguido for o de alimentar. pudesse. 226. e 227.PROVAS SUFICIENTES . Não há cerceamento de defesa no julgamento antecipado do feito. § 4º e 7º.) permitir que o pai. A CF/88.INCONFORMISMO CERCEAMENTO DE DEFESA – JULGAMENTO ANTECIPADO DA LIDE INOCORRÊNCIA . para que tal reconhecimento por um bel prazer ou qualquer motivo torpe o pai desfizesse este reconhecimento da paternidade de seu filho o que seria uma conduta leviana.VÍNCULO GENÉTICO INEXISTENTE . imoral sobretudo se o objetivo é fugir do dever de alimentos. o afeto como um fator determinante e autônomo. prevalece aquela. há os presentes julgados: DIREITO CIVIL .. ou para evitar o agravante de parentesco num crime.154) No que concerne à paternidade afetiva e sua irrevogabilidade devemos observar ainda o que diz o art 48 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Desembargador relator: Monteiro Rocha.INEXISTÊNCIA DE FILIAÇÃO BIOLÓGICA . Data do . subentendida e equiparada à adoção como também irrevogável. Dessa forma. prevalece no entendimento dos Tribunais..Aliás.029396-7. a seu bel-prazer. com o intuito de manter a unidade da filiação. quando presentes nos autos os elementos indispensáveis ao julgamento da lide. observa os princípios da prioridade e da prevalência absoluta dos interesses da criança e do adolescente. com fulcro no princípio constitucional da dignidade humana .FATO INCONTROVERSO – ALEGAÇÃO ACOLHIDA . Quarta Câmara Civil do Tribunal de Justiça de Santa Catarina.RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. onde expressa que a adoção é um ato irrevogável. A inexistência de vínculo genético entre o pai registral e a filha adotiva não exclui a paternidade socioafetiva demonstrada.EXTINÇÃO DO PROCESSO POR IMPOSSIBILIDADE JURÍDICA DO PEDIDO . (Apelação Cível nº 2007. O reconhecimento voluntário da filiação através de registro civil. § 6º. sendo a paternidade afetiva mesmo não expressa no ordenamento legal. por exemplo. caracterizando um gesto ―reprovável. No conflito entre paternidade socioafetiva e biológica.

3. O prestígio que se há de conferir ao princípio da dignidade da pessoa humana não faz com que se suprima do ordenamento jurídico infraconstitucional normas que estabelecem o dever alimentar a partir da relação de paternidade/filiação. Oitava Câmara Civil do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.tj. IMPOSSIBILIDADE.gov.tj. (Segredo de Justiça). pressupõe a existência de uma relação jurídica que lhe dê causa no caso. por maioria. descabe a fixação de pensão alimentícia a ser paga pelo pai biológico. por Maioria. no âmbito do Direito de Família. ela apaga a paternidade biológica.br Acesso em: 21 maio de 2009. ao prevalecer a paternidade socioafetiva. 2009. (Segredo de Justiça). Data do julgamento: 14/12/2007. RECURSO ADESIVO. Desembargador relator: Luiz Felipe Brasil Santos. Caracterizadas a adoção à brasileira e a paternidade socioafetiva. à unanimidade.julgamento: 22/04/2009. o dever de sustento dos pais com a prole ou de um parente em relação a outro (Arts. 2. PATERNIDADE SOCIOAFETIVA RECONHECIDA. IMPOSSIBILIDADE JURÍDICA. A sentença admitiu a prática de ato hígido de reconhecimento de paternidade. 1. Desembargador relator: José Ataídes Siqueira Trindade.br Acesso em: 21 maio.634). Apelação provida. Nosso ordenamento jurídico equipara a paternidade afetiva e o ato de registro irrevogável. Negaram Provimento aos Embargos Infringentes. bem como reconhece a parentalidade socioafetiva entre o autor e o pai e mantém a paternidade registral. No julgamento dos embargos infrigentes sobre a investigação de paternidade apreciado pela Quarta Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul no dia 14 de dezembro de 2007. INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE CUMULADA COM ANULAÇÃO DE REGISTRO CIVIL.sc. à unanimidade. ALIMENTOS A SEREM PAGOS PELO PAI BIOLÓGICO. o que impede a anulação do registro de nascimento do autor. uma vez que. foi firmado o seguinte entendimento: EMBARGOS INFRINGENTES. A instituição de obrigação de natureza alimentar. DECLARAÇÃO DE PATERNIDADE BIOLÓGICA AO EFEITO DE ATRIBUIR OBRIGAÇÃO ALIMENTAR AO INVESTIGANTE. Agravo retido provido. pois o sujeito o fez por vontade própria e criou com o filho . (Apelação Cível nº 70017530965. Disponível em http://www. não podendo co-existir duas paternidades para a mesma pessoa. Desse modo.rs.br Acesso em: 21 maio. 1. Data do julgamento: 28/06/2007. ANULAÇÃO DE REGISTRO NEGADA. Recurso adesivo desprovido. Disponível em http://www.gov. INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE.rs. Quarta Câmara Civil do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul.gov.566. Disponível em http://www. impossível atribuir seqüelas jurídicas para instituir dever de alimentar a quem tão somente mantém identidade genética com o autor. 1. ADOÇÃO À BRASILEIRA E PATERNIDADE SOCIOAFETIVA CARACTERIZADAS.) Em Apelação Cível nº 70017530965 julgada pela oitava Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul em 28 de junho de 2007 firmou entendimento a cerca da paternidade socioafetiva conforme a ementa que segue abaixo: APELAÇÃO CÍVEL.tj. 2009. (Embargos infrigentes nº 70021199468.

preservando sempre a formação dos laços afetivos na relação paterno-filial. visto a família eudemonista recepcionada pela Carta Magna. filho de outrem.4 Os efeitos jurídicos decorrentes da paternidade socioafetiva A Lei Maior. Por essa razão. am seu benefício.610 do Código Civil vigente. Sendo assim. na maioria dos casos. Nesse sentido. é dever dos pais zelar pela sua assistência. 2. a própria torpeza. os filhos maiores têm o dever de ajudar os pais na velhice.. a família existe enquanto local onde persiste a reciprocidade. que serão examinados neste capítulo. Mesmo que venha o pai a saber que registrou como seu. a existência do vínculo afetivo. pode verificar-se em razão de erro. que atingiu e atinge a todos. No tocante aos filhos menores. tal compromisso torna-se irretratável. que ―nem uma simples pressão psicológica. 229. ao proibir a revogação do reconhecimento até mesmo quando feito em testamento. permitem a visão exata das repercussões geradas por uma norma que tem um único fim: aniquilar as discriminações. Professa João Baptista Vilela. 1. através da norma insculpida no seu art. dada a sua aplicação imediata e homogênea. 154. criação e educação e. uma vez edificada a posse de estado de filho. inversamente. inconcebível se requeira a anulação de um registro por qualquer interesse menor à saúde emocional de uma criança. 2002. ganha importância a disposição contida no seu art. uma vez que atribui . que ―este ato só poderá ser invalidado se restar comprovado que a manifestação não foi por vontade livre. podemos dizer que a irrevogabilidade é um ato ao qual protege de forma envolvente os direitos daquele que afetivamente possui vinculo não biológico o qual se denomina vínculo afetivo e que deve ser resguardado. o que não dá azo à desconstituição do registro. coação simulação ou fraude. (WELTER. 227 § 6º. Os efeitos desta unificação. 155) Como demonstrado. Alerta. prevalece na doutrina e nos Tribunais Superiores a verdade socioafetiva sobre o vínculo genético. páginas:134. produzida por coação ou erro (.. não sendo justo que por mero capricho tal vínculo seja cortado o que seria grande injustiça ao filho afetivo. É de sabença geral que ninguém pode alegar. nesse sentido. O reconhecimento de paternidade evidencia de pronto. estabeleceu a paridade entre os filhos. dolo.afetivo um laço paterno-filial. Contudo. Assim prevê o art.) ―A exemplo do que ocorre com os demais atos jurídicos. a invalidação. concedendo uniformemente os direitos advindos da relação paterno-filial. uma vez que o reconhecimento é irrevogável. Cristian Fetter Mold. de nenhum modo pode ser comparada a uma coação.

Luiz Edson. 1999. O conceito de igualdade acolhido. assim definido na contemporaneidade como “o conjunto de direitos e deveres atribuídos aos pais. Não há como analisar os direitos provenientes do estado de filho sem atentar àqueles que. em relação à pessoa e aos bens 1 MARQUES. os mesmos deveres. Assim. desse modo. v. Na mesma base. decorrência da constatação dos seus elementos identificadores e derivação do princípio constitucional da igualdade. ligada às qualidades que fazem parte do estado da pessoa.). a paternidade como uma via de duas mãos. ao mesmo tempo. 149. A respeito da paridade de direitos entre os filhos desapareceram os regimes diferentes de direitos e as dissonâncias na sucessão. não só com relação a estes. apresentandose. “Ocorre que essa noção provoca conseqüências consideráveis quando. permite inferir que à mesma tocam os mesmos direitos. mas também. In: Estabelecimento da Filiação e Paternidade Presumida. Igualdade entre Filhos no Direito Brasileiro Atual . permite que se considerem iguais marido e mulher em relação ao papel que desempenham na chefia da sociedade conjugal. no que a Constituição Federal de 1988 igualou os filhos. “O Encontro entre a Verdade Jurídica e a Verdade Sociológica”. p. inclusive como princípio de interpretação às normas infraconstitucionais em matéria de família buscou resgatar a idéia jurídica de isonomia. os mesmos direitos. FACHIN. São Paulo. É ainda a isonomia que protege o patrimônio entre personagens que disponham do mesmo status familiae1 Reconhecida a posse de estado de filho como via de estabelecimento da filiação. 764. só existe a proibição legal de que o essencialmente igual seja tratado de forma diferente. 19. os pais têm direitos com relação aos filhos.à prole o dever de amparo e assistência aos pais. ou seja. espelhando o espírito de colaboração que se assenta no interior de qualquer espécie familiar. VITÓRIA. para os pais. p. essa dicotomia de tratamento jurídico é aquela que. estabeleceu. passa-se a analisar seus efeitos jurídicos pessoais decorrentes. É também a isonomia que se busca na identificação dos filhos de uma mesma mãe ou de um mesmo pai. Maria Cláudia (col. Ora. 2 . CACHAPUZ. 1992.Direito Pós-Moderno? Revista dos Tribunais.). decorrem da condição de pai. como aqueles advindos do pátrio poder. Porto Alegre : Sérgio Antônio Fabris. Ana Paula da Silva (col.”2 O poder familiar. em abstrato. Claudia Lima.

tendo em vista a proteção destes” 3. 398. no caso. com anotações sobre o Novo Código Civil (Lei 10. derivando. e. de 10-1-2002). de vínculo de zelo e de subordinação. tão diretamente. atual. guarda traduz a noção da proteção familiar. Direito Civil. todos reunidos no art.069/90. No entanto. § 5º da CF . de manutenção individual. São Paulo : Saraiva. vem à tona o direito dos pais quanto à companhia e guarda dos filhos menores.ed. isoladamente. v. pois.tê-los em sua companhia e guarda. aí sim. respeito e os serviços próprios de sua idade e condição. Silvio..da relação com seu parceiro. a exemplo: I . 384 do Código Civil de 1916 e mantidos literalmente pelo art.reclamá-los de quem ilegalmente os detenha. como quis o Estatuto da Criança e do Adolescente. exercido pelo pai e pela mãe. na constância da sociedade conjugal .aos termos do art.dos filhos não emancipados.dirigir-lhes a criação e educação.4 Como decorrência do exercício do poder familiar. .conjugal ou não . Na acepção jurídica do termo. só assumindo um com exclusividade na falta ou impedimento do outro. mesmo que não possuísse qualquer vinculação formal de paternidade com aquela prole. Por Francisco José Cahali. 21 da Lei nº 8. após o rompimento . incumbe igualmente guardar.406.ou na constância da união estável . atentando-se à norma do art. Dessa forma. 6. independe de relação conjugal entre eles.634 do novo Código. ao novo Código Civil. posto que compreende o tema desenvolvido. pois diz respeito a apenas um de seus atributos. A guarda de filhos menores não se constitui. é atribuído durante o casamento . tão logo verificado que da relação paterno-filial social também inferem direitos e deveres. . II . passa-se à análise das regras que conglobam os direitos e deveres atribuídos aos pais. 2002. agora. 1. 27. como exercício do pátrio poder. Indaga-se. 384 do Código 3 4 RODRIGUES. desenvolvidos. p. VII . faria jus ao direito de visitação aos filhos deste. E é nessa esteira que se apresenta a sua análise.a ambos os pais. VI . Além de um direito é um dever porque a quem incumbe criar. com a lição objetivada referente ao tema abordado. se o pai não-biológico.exigir que lhes prestem obediência. eis que não dizem. da relação de paternidade. elencados no art. 226..que versa sobre a igualdade de direitos e deveres entre o homem e a mulher. Os demais incisos não serão.

inevitavelmente. o assentimento da criança. entre o menor e o denominado pai afetivo. 97. Luís Paulo Cotrim. em princípio. em nome de uma singela reflexão jurídica. 102) Não se verifica. 2. através 5 GUIMARÃES. quando ultrapassada a tenra idade. o interesse que envolve o menor. pois. qualquer permissivo para o pai afetivo exercer o direito de regular visitação quanto aos filhos de sua mulher ou companheira. Assim como quanto à inexistência de um comando jurídico que reconheça a posse de estado de filho. v. Na falência da relação entre os pais. 2000. ano 1. do ponto de vista das proposições normativas existentes. (LEITE. particularmente nas hipóteses em que a ruptura deste contrato implicaria.Civil de 1916. Observamos. Por seu turno. o término do vínculo conjugal dos pais não extingue o pátrio poder de qualquer destes sobre os filhos.069/90. p. após a edição do Estatuto da Criança e do Adolescente. em relação ao filho da mulher com quem havia convivido. quem dita as normas para a existência de guarda dos pais sobre os filhos menores. surge o direito de visitação. que a interpretação sistemática de nossas legislações. 95-102. são elementos que sustentam a possibilidade do direito de visitação no caso aqui mencionado./jun.5 Sendo derivação do poder familiar. O Direito de Visitação do Pai Não-Biológico. assim efetivada pela moderna doutrina civil. que procura minorar os efeitos da ruptura dos laços entre pais e filhos. p. Assim. “Direito de visitação é um expediente jurídico de caráter compensatório. 6º da Lei nº 8. que poderá ser regulado por acordo entre as partes ou por expressa deliberação em sentença. . passaram a engrandecer e enfocar de maneira mais destacada o denominado “interesse do menor”. é o liame da paternidade. de quem encontra-se afastado. característica desta relação familiar. o art. Revista Trimestral de Direito Civil. 2000. e a demonstração de que o rompimento do contato implicaria em transtornos ao menor. tendo como fundo. em que restou estabelecido um vínculo de afeição evidenciado por atos típicos da paternidade natural. necessariamente. no surgimento de sérios transtornos à formação da personalidade da criança. leva-nos a concluir pela possibilidade de estabelecer-se o direito de visitação do pai considerado afetivo. no decorrer do tempo. nosso ordenamento deve albergar esse direito. 1997. A existência de um vínculo afetivo desenvolvido entre a criança e o interessado. destaca “a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento”. 194) O direito ora pleiteado advém de uma relação de fato surgida. As decisões pretorianas. a inexistência de vínculo biológico entre o interessado e o menor. (GUIMARÃES. bem como o estabelecimento de uma relação de subordinação. p. p. pois permitem a conclusão pelo real interesse da criança. abr.

(TJRS . (TJRS . quando adulto. dos costumes e dos princípios gerais de direito (art 4º. conferem a terceiro sua guarda e cuidados e. Des. Esse é o dever principal que incumbe aos pais. IV do novo Código . Como não há legislação a respeito da paternidade socioafetiva. obriga os pais a matricularem seus filhos na rede regular de ensino . posto que a jurisprudência reconhece o afeto como liame capaz de estabelecer a paternidade. quando já construída com este uma relação de paternidade. de pais que. capaz de propiciar ao filho. ainda. bem como fornecer-lhes educação de acordo com seus recursos. se o réu guarda legalmente em sua companhia o filho de outrem. um meio de ganhar a vida e de ser elemento útil à sociedade. LICC). utiliza-se. trato. 403. 1634. Obediência e respeito são conseqüências automáticas de uma relação calcada no afeto. .art. da analogia. 8ª C. . que é o bem-estar do menor. Entretanto.Apelação Cível nº 70003110574 .de uma interpretação sistemática. através do tratamento. como diz a lei art. criar e educar os filhos menores” e o Estatuto da Criança e da Adolescência. Merece ser abordada. não desejando. p. da condição de filho. eis que ambos os componentes realizam-se nessa interação. (RODRIGUES. de modo que.7ª C. 2002. dispõe em seu art.J .Rel Des. fama. só se legitima. 14.) Trata-se do zelo material e moral para que o filho fisicamente sobreviva e por meio da educação forme seu espírito e seu caráter. Luiz Felipe Brasil Santos . perante a sociedade.11.quando dirigido contra pessoa que ilegalmente detenha o filho. o direito de exigir que lhe preste o filho obediência. além dos princípios constitucionais fundamentais. visando ao reforço dessa obrigação.Apelação Cível nº 70004510483. A Constituição Federal. manter os filhos em sua companhia. por sua vez. provê-los com os elementos materiais para a sobrevivência. 55. pelos mais diferentes motivos. respeito e os serviços próprios de sua idade e condição.31-032013) Surge também como um direito conferido aos pais o de reclamar os filhos de quem ilegalmente os detenha. buscam o judiciário impondo a prevalência do vínculo biológico sobre o afetivo. É o que ocorre em casos como o já explanado no capítulo anterior. dentre as prerrogativas do pai. Não há que se falar em ilegalidade. Rui Portanova.2013) Criação e educação são deveres que integram diretamente a tríade nome.J. Cível . reveladores da posse de estado de filho. São indícios de uma relação de paternidade responsável que permitem. Cível. não há como atender o pedido do autor. Rel. o reconhecimento. partindo do pressuposto de que se deve perseguir um interesse maior. 229 que “os pais têm o dever de assistir. tempos depois.

qualquer que seja o seu vínculo de constituição. 1605. apenas. SABENDO NÃO SER O PAI BIOLÓGICO. por conseqüência. (TJRS . que são aplicados à adoção. visto que aumenta a cada dia em nossas Cortes regionais a questão da paternidade gerada pelos laços afetivos em oposição àquela vinculada aos laços de sangue. hodiernamente. Assemelha-se à única previsão existente em nosso ordenamento para ensejar o reconhecimento da paternidade sócioafetiva . bastando. RECONHECIMENTO. ESTABELECE UMA FILIAÇÃO SOCIOAFETIVA QUE PRODUZ OS MESMOS EFEITOS QUE A ADOÇÃO. os deveres decorrentes dessa são exercidos com a responsabilidade exigida pela lei. mesmo que a filiação não esteja juridicamente reconhecida.) A doutrina e o direito. pois inexiste vício material ou formal a ensejar sua desconstituição.Relator Desa. decorrem os mesmos efeitos jurídicos dos arts. a existência de fortes indícios e presunções quanto à respectiva paternidade. 39 a 52 do ECA. REGISTRA COMO SEU FILHO DE COMPANHEIRA DURANTE A VIGÊNCIA DE UNIÃO ESTÁVEL. Maria Berenice Dias. resultando em uma sólida união. 2003.art. O poder familiar e todas as obrigações daí oriundas dão o verdadeiro sentido da paternidade. 188. g) o poder familiar h) a guarda e o sustento do filho ou pagamento de alimentos. filho e parentes sociológicos. Uma vez julgada procedente a ação de investigação de paternidade e/ou maternidade socioafetiva. i) o direito de visitas etc. Nessa esteira. faz-se pertinente o conhecimento do seguinte pedido de desconstituição do vínculo de paternidade com vistas à exoneração de obrigação alimentar: PATERNIDADE. quais sejam: a) a declaração do estado de filho afetivo. axiológica do sistema trouxe ao universo jurídico dois novos elementos em matéria familiar: o afeto e a função serviente da família. não há que se falar em destituição desse poder. Faz-se imprescindível a análise dos efeitos diretos e reflexos dessa nova realidade também no plano patrimonial. c) a adoção do nome (sobrenome) dos pais sociológicos. p. ATO IRREVOGÁVEL.Embargos Infringentes nº 599277365 .Os efeitos mais relevantes provenientes do estabelecimento da filiação. J. f)a herança entre pais. II do novo Código Civil. Ação negatória de paternidade e ação anulatória de registro de nascimento. e) a irrevogabilidade da paternidade e da maternidade sociológica. Por isso. Embargos rejeitados. QUEM. d) as relações de parentesco com os parentes dos pais afetivos. afirmam possível o filho demandar o pretenso pai para dele haver questões patrimoniais.4º Grupo Cível . O pai registral não pode interpor ação negatória de paternidade e não tem legitimidade para buscar a anulação do registro de nascimento. (WELTER. Toda alteração na estrutura social e. na paternidade advinda do afeto. por maioria. 12/04/2013) . residem na relação pessoal entre pai e filho. b) a feitura ou a alteração do registro civil de nascimento.

7 Não pode-se olvidar que a verdade genética submete-se nesses casos a conceitos como amor. Casos como esse do marido ou companheiro que cria o filho da mulher como se seu fosse. Há outros casos em que.6 O parentesco civil decorrente da adoção hoje em quase nada difere daquele oriundo da consangüinidade. p. consignado na Carta Magna (art. independentemente de existir entre elas qualquer relação de parentesco consangüíneo”.Trata-se de ação em que o réu registrou a autora como filha biológica. Rio de Janeiro : Forense. a construção de uma relação jurídica. Ademais. dos parentes que responsabilizam-se pelo menor órfão. p. Luiz Felipe Brasil Santos. e. repercussão no registro. aos filhos do afeto. Nesse sentido. 1990. a paternidade não é vista exclusivamente como um fenômeno biológico. Rel. mas. a paternidade sócioafetiva foi tratada igualmente à adoção. sendo prestigiada. e nessa igualdade deve ser incluída a paternidade afetiva. visto que seu ato constituiu uma adoção simulada. repercussão no pátrio-poder. Instituições de Direito Civil. Luiz Felipe Brasil Santos. social. 6. assim reconhecida pelos nossos Tribunais.Apelação Cível nº 70004778619. . retratando a posição do egrégio Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul: Ao assumir a paternidade da alimentanda. Destarte. estabelecida uma relação afetiva durante anos. pois. tem repercussão. e sustenta a sua não obrigação alimentar. do patrão que sustenta e afeiçoa-se ao filho de sua serviçal são notórios e vastos. 211. acima de tudo. assumiu todos os deveres inerentes à paternidade. afeto e convivência. E que o vínculo jurídico estabelecido confere. v. os direitos inerentes à condição que desde outrora lhes apresentaram. o próprio filho busca a desconstituição do registro. vedando a Constituição qualquer discriminação relativa à natureza da filiação. repercussão patrimonial. a paternidade sócioafetiva. 18/12/2002. diferença alguma existe entre o filho natural e o adotivo. visando a 6 7 PEREIRA. Outrossim. ao contrário. sobretudo pela jurisprudência deste Tribunal. 226. § 6º). falseando com a verdade registral. em caso similar. face ao princípio da igualdade entre os filhos. Sétima Câmara Cível. Caio Mário da Silva. TJRS . cabe transcrever o voto do Des. 5. é de ver que. na ocasião de seu nascimento. modernamente. por sua livre e espontânea vontade. pois nos dois casos apresentou-se “o ato jurídico pelo qual uma pessoa recebe outra como filho. Des.

RECONHECIMENTO DA PRESCRIÇÃO. que diz com a própria imagem e identidade do ser humano e que se configura como direito fundamental.fins patrimoniais. relega uma paternidade em que foram exercidos os deveres de pai em sua plenitude. tendo. mais do que um fato biológico. não estender a vedação do perecimento do direito aos maiores implica em vedação ao princípio constitucional da igualdade. que. vencida a relatora. para tanto. ainda que permitido. como de regra ocorre. Se há direito sucessório. PATERNIDADE SÓCIOAFETIVA.Apelação Cível nº 70004131520. durante mais de meio século. Apelo desprovido. a investigação de paternidade não leva à desconstituição ou anulação do registro de nascimento. convenientemente. ao início do feito. visto tratar-se de um direito personalíssimo. POSSE DO ESTADO DE FILHO. Conteúdo imoral da demanda. Entretanto. não é capaz de gerar seqüelas de ordem patrimonial se reconhecida que a relação que a autora manteve desde o nascimento com seu pai registral se configurou como uma filiação sócioafetiva. não é reconhecido pela jurisprudência o direito ao patrimônio correspondente a essa relação biológica. já contava com mais de cinqüenta anos de idade. constado como filha do marido de sua mãe. podendo ser equiparada a uma adoção. a busca é referente à sucessão: INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE CUMULADA COM PEDIDO DE ANULAÇÃO DE REGISTRO. Ao depois. (TJRS . a título de reforço: INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE.Apelação Cível nº 70004989562. a qual é irrevogável. a possibilidade de investigação não traz necessariamente seqüelas obrigacionais e patrimoniais. eis que prevalece a verdade social. Não há como impedir uma pessoa de conhecer sua paternidade biológica. este refere-se ao pai afetivo. a fim de obter vantagem de seu pai biológico. (grifo deles) (TJRS . No caso do seguinte acórdão. Estabelecendo o ECA a imprescritibilidade da ação investigatória de paternidade. mais um acórdão merece menção. NO CASO CONCRETO. é um fato social. Rel. Sétima Câmara Cível) A identificação do pai biológico. Por fim. Recurso provido por maioria. Desª Maria Berenice Dias. Sérgio Fernando de Vasconcellos Chaves Porto Alegre. desligando o adotado de qualquer vínculo com os parentes consangüíneos. Reconhecida a filiação sócioafetiva. no caso em tela. que a registrou como tal. Conclui-se. capaz de construir um recíproco feixe de direitos e deveres entre pais e filhos. 22-05-02) Os casos analisados servem para demonstrar a concretude e seriedade com que é vista a filiação social no nosso ordenamento. busca a troca de um pai pobre por um pai rico. pois. Autora que. por maioria. e. formando um . que a prova do DNA não tem valor absoluto como fato gerador de direitos. será apreciada de acordo com o contexto probatório em que se insere. mas se limita a atender à possibilidade de se conhecer a paternidade sem gerar seqüelas de ordem patrimonial . 7ª Câmara Cível. Rel: Des. A filiação.

pois. sendo a dignidade humana um dos princípios formadores do Estado brasileiro.elo eterno. onde são reconhecidos e garantidos direitos que lhes são próprios. Heloísa Helena Barbosa explica que: O reconhecimento da paternidade afetiva não configura uma concessão do direito ao laço de afeto. 140) Em linhas gerais. Ademais. Afirmam. mas uma verdadeira relação jurídica que tem por fundamento o vínculo afetivo. os valores introduzidos pela nossa Constituição. constata-se que o direito de um filho ter estabelecida sua paternidade é imprescindível para formação de sua personalidade. ao passo que formam uma base sólida de precedentes para a exigência do cumprimento dos direitos que imanam do estado de filho. indestrutível por interesses outros. . Contudo. p. Assim. com eficácia jurídica.1 Do respeito a dignidade da pessoa humana Decorrente do princípio maior da dignidade humana pela nova visão de filiação é dada a proteção integral da criança e do adolescente. A paternidade deve atender sua função e o exercício pleno somente acontece quando há a vontade livre e consciente de querer ser pai. juntamente com a vontade livre de querer ser filho. não permitem que os interesses patrimoniais definam aquilo que se considera família. adquirindo seus deveres e direitos. não basta o reconhecimento biológico ou judicial. mas com a ausência do pai em seu cotidiano. (BARBOSA 1999. é de suma importância a junção do reconhecimento ao afeto. tendo também suas obrigações e direitos em relação ao pai. Não adianta ter em mãos um título. em muitos casos. capaz de permitir à criança e ao adolescente a realização dos direitos fundamentais da pessoa humana e daqueles que lhes são próprios. mas que derivem dela como conseqüência natural do verdadeiro sentido da relação paterno-filial na atual concepção eudemonista. a relação de paternidade-filiação advém do trato socioafetivo em sobreposição ao vínculo biológico. a exemplo do que ocorre na adoção. Visa-se atender o melhor interesse da criança. por conseguinte diretriz de todo ordenamento. 3 O DIREITO DE ALIMENTO DOS FILHOS SOCIOAFETIVOS 3. único.

escolher entre uma filiação jurídica e uma filiação biológica. exerce a função de pai responsável. Assim. amando. dar carinho. mas apenas para fins da personalidade e não mais para fins patrimoniais. reconhecida judicialmente a socioafetividade. mas poderá causar muitos constrangimentos. Uma vez que. desde que para assegurar seu bem estar. com o fundamento de que o interesse da criança deverá prevalecer em toda decisão que disser respeito a sua vida familiar e permitindo. Embora. No entanto. quando o pai declara como seu aquele filho. o direito do filho à conhecer sua origem genética prevalece. e este assume com o reconhecimento da paternidade socioafetiva todos os ônus jurídicos decorrentes de seu ato. se doando sem esperar nada em troca. acompanha o dia-a-dia do filho. a declaração não se sobreporá quando não existir vínculo afetivo entre pai e filho e é ai que surge a problemática do tema aqui proposto. eventualmente. mas que. declarada a manifestação de vontade e constituído o ato. Mais uma vez se confirma a premissa de que pai é quem cria. o registro de nascimento torna-se um instrumento meramente declaratório da filiação e constitutivo da paternidade. bem como. . Com fundamento no princípio da dignidade humana. A doutrina e jurisprudência têm caminhado nessa vertente. educa. essa ausência não impeça a relação entre eles. o direito ao registro civil.Dessa forma. suprindo todas as necessidades deixadas por aquele que apenas contribuiu com seu sêmen. Ser genitor e ser pai são figuras distintas. o porque de não poder ter a declaração dessa vontade livre e consciente de ser pai. É justo que esse pai tenha o direito em ter no registro de nascimento seu nome como pai. zelando pelo seu futuro. É notória a existência de muitos pais socioafetivos que não figuram no respectivo registro de nascimento de seus filhos. sucessórios e alimentares. e constitutivo quando assume as conseqüências jurídicas advindas do ato jurídico praticado. Questiona-se: se o pai socioafetivo. mas não se pode confundir o direito à origem genética com o direito à paternidade. na realidade fática quem exerce efetivamente os deveres da paternidade é outra pessoa. a paternidade não se resume na contribuição de material genético para formação da criança. É comum a existência do registro de nascimento declarar como pai determinada pessoa. conhecer esse pai é constitucionalmente assegurado. não se pode desistir da paternidade. protegendo.

cabendo ao juiz utilizar-se de outras fontes do direito em busca da solução dos conflitos e fazendo-se cumprir o senso de justiça. é constrangedor para uma criança ter que crescer explicando sua vida e sua opção paternal.2 Da solidariedade 3. sobretudo as decisões dos aplicadores. porém. independente da existência de lacunas normativas. efetivamente.asp?id=5321>. O registro de uma paternidade socioafetiva não é condição sine qua non. aplicada por uma norma positiva.Por exemplo. vem sendo corroborada nas decisões judiciais por tratar-se de uma realidade que se impõe a cada dia. Essa imposição jurídica. em especial os atinentes à existência. para sua existência. ao contrário. uma vez que.com. e sua interpretação deve propiciar a solução dos conflitos gerados por novas tecnologias e pelo desenvolvimento social. Luana Babuska Chrapak. é condição indispensável para efetivação da dignidade humana. A dignidade humana é princípio densificador do Estado Democrático de Direito e há necessidade que as normas infraconstitucionais. E quem melhor do que o próprio interessado para atestar sua vontade? As leis devem evoluir com a sociedade.br/doutrina/texto. 3.3 Da igualdade jurídica dos filhos 3. que não se adapta mais a nova realidade social e cultural das famílias modernas. fere a dignidade humana. A tendência que consagra a paternidade socioafetiva como forma de estabelecimento da filiação tomou forma e.5 Do princípio da afetividade . repetindo-se a mesma história: tenho dois pais. deve adequar-se para atender aos seus anseios. A paternidade socioafetiva e a obrigação alimentar. estejam em conformidade com os valores constitucionais. quando há necessidade de se declarar a paternidade. a ele deve ser dado o direito de o fazer livremente. (SILVA. afirmando-se o interesse superior da criança como critério principal. O direito não deve engessar o desenvolvimento da sociedade. Elemento principal e indispensável à solução das questões no âmbito familiar. para matricula na escolinha do filho. dar explicações a um coleguinha mais ousado de quem é verdadeiramente seu pai.4 Da proteção à criança e ao adolescente 3. Se ao juiz é incumbida a obrigação de julgar. construindo um sistema definidor de laços afetivos de família. vinculando pessoas que desejam amar-se e cuidar-se reciprocamente. Disponível em: <http://jus2. Acesso em 10 de maio de 2013) Espera-se que o legislador brasileiro preencha essa lacuna. haja vista não poder se escusar do julgamento.uol.

3.6 A questão alimentar como efeito jurídico do estabelecimento da paternidade socioafetiva .