L'OSSER ATORE ROMANO V

EDIÇÃO SEMANAL
Unicuique suum
Ano XL, número 32 (2.068), sábado 8 de Agosto de 2009

EM PORTUGUÊS
Non praevalebunt
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Cidade do Vaticano

No Angelus de domingo 2 de Agosto, o Papa recorda a memória dos santos destes dias

Bento XVI volta a reflectir sobre o Ano sacerdotal
O dom da vida de Paulo
VI

O Papa reza pelo fim da violência no Paquistão

permanece na Igreja
meio-dia de 1 de Agosto à meia-noite do dia 2 pode-se obter, sob as condições habituais, a indulgência plenária também para os defuntos, visitando uma igreja paroquial ou franciscana. O que dizer de São João Maria Vianney, que recordaremos a 4 de Agosto? Proclamei o Ano sacerdotal precisamente para comemorar o sesquicentenário da sua morte. Deste pároco humilde, que constitui um modelo de vida sacerdotal não apenas para os párocos, mas para todos os presbíteros, prometo falar na catequese da Audiência geral de quartafeira próxima. Depois, no dia 7 de Agosto, será a memória de São Caetano de Thiene, que costumava repetir: «Não se purificam as almas com o amor sentimental, mas com o amor dos factos». E no dia seguinte, 8 de Agosto, a Igreja indicar-nos-á como modelo São Domingos, de quem foi escrito que «abria a boca para falar com Deus na oração, ou para falar de Deus». Enfim, não posso deixar de recordar também a grande figura do Papa Montini, Paulo VI, de quem a 6 de Agosto se celebra o 31º aniversário da morte, ocorrida precisamente aqui em Castel Gandolfo. A sua vida, tão profundamente sacerdotal e rica de muita humanidade, permanece na Igreja um dom pelo qual devemos dar graças a Deus. A Virgem Maria, Mãe da Igreja, ajude todos os sacerdotes a ser totalmente apaixonados por Cristo, seguindo o exemplo destes modelos de santidade sacerdotal.

Recordando os santos, cuja memória é celebrada nestes primeiros dias de Agosto, Bento XVI voltou a falar sobre o Ano sacerdotal, durante o encontro com os fiéis presentes no pátio do Palácio pontifício de Castel Gandolfo para o Angelus. Queridos irmãos e irmãs Voltei há poucos dias do Vale de Aosta e agora com profunda satisfação encontro-me no meio de vós, dilectos amigos de Castel Gandolfo. Ao Bispo, ao pároco e à comunidade paroquial, assim como às Autoridades civis e a todos os habitantes de Castel Gandolfo, juntamente com os peregrinos e os veraneantes, renovo com afecto a minha saudação, unida a um sincero agradecimento pela vossa recepção sempre tão cordial. Obrigado também pela vossa proximidade espiritual, que muitos me demonstaram quando em Les Combes me aconteceu o pequeno acidente no pulso da mão direita. Caros irmãos e irmãs, o Ano sacerdotal que estamos a celebrar constitui uma preciosa ocasião para aprofundar o valor da missão dos presbíteros na Igreja e no mundo. A este propósito, da memória dos santos que a Igreja nos propõe diariamente vêm-nos pontos de reflexão úteis. Nestes primeiros dias do mês de Agosto, por exemplo, recordamos alguns deles que são verdadeiros modelos de espiritualidade e de dedicação sacerdotal. Ontem foi a memória litúrgica de Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja, grande mestre de teologia moral e modelo de virtudes cristãs e pastorais, sempre atento às necessidades religiosas do povo. Hoje contemplamos em São Francisco de Assis o amor ardente pela salvação das almas, que cada sacerdote deve nutrir constantemente: com efeito, celebrase o chamado «Perdão de Assis», que ele obteve do Papa Honório III,

no ano de 1216, depois que teve uma visão, enquanto se encontrava em oração na pequena igreja da Porciúncula. Jesus, aparecendo-lhe na sua glória, tendo à direita a Virgem Maria e ao redor muitos Anjos, pediu-lhe que exprimisse um desejo, e Francisco implorou um «perdão amplo e generoso» para todos aqueles que, «arrependendo-se e confessando», visitassem aquela igreja. Depois de receber a aprovação pontifícia, o Santo não esperou qualquer documento escrito, mas correu até Assis e, tendo chegado à Porciúncula, anunciou a boa notícia: «Meus irmãos, quero mandar todos vós para o Paraíso!». Desde então, do

No Paquistão, as escolas e as universidades cristãs ficaram fechadas por três dias em sinal de luto, a seguir a um ataque perpetrado por extremistas islâmicos em Gojra, no Punjab, que provocou a morte de oito pessoas, entre as quais quatro mulheres e uma criança. Profunda dor «pelo ataque insensato contra a comunidade cristã de Gojra City», que causou a «morte trágica de crianças, mulheres e homens inocentes», foi expressa por Bento XVI numa mensagem – assinada pelo Secretário de Estado, Cardeal Tarcisio Bertone – enviada ao Bispo de Faisalabad, D. Joseph Coutts. Na mensagem, o Papa dirigiu um apelo a fim de que, «em nome de Deus, se renuncie a seguir o caminho da violência, que causa tanto sofrimento, e que se empreenda a senda da paz», enquanto recomenda fortemente ao Bispo que encoraje toda a comunidade diocesana e todos os cristãos no Paquistão, para que dêem continuidade aos pródigos esforços em vista de contribuir para «construir uma sociedade que, com um profundo sentido de confiança nos valores humanos e religiosos, seja caracterizada pelo respeito mútuo entre todos os seus membros».

Saudação do Santo Padre no concerto da Bayerisches Kammerorchester Bad Brückenau

Nesta hora, tocamos o bem e o belo com o nosso coração
«Toda a criação está repleta de promessas» ressaltou o Papa no final do concerto em sua honra a 2 de Agosto, no pátio interno do Palácio pontifício de Castel Gandolfo. Ilustre Senhor Decano Kemmer Distintos músicos Queridos amigos Hoje, pela primeira vez depois de um concerto tão bonito, não pude aplaudir com vigor. Portanto, estou ainda mais feliz por poder manifestar ao Senhor Albrecht Mayer e aos músicos da Bayerisches Kammerorchester Bad Brückenau o agradecimento e a admiração de todos os presentes. De igual modo, agradeço ao Decano Kilian Kemmer as suas palavras de saudação, bem como a todos aqueles que organizaram e tornaram possível este concerto em Castel Gandolfo. Para nós, naturalmente, a grande fascinação desta tarde foi o som do oboé que Vossa Excelência, prezado Senhor Mayer, nos ofereceu magistralmente. Foi comovedor observar como, de um pedaço de madeira, deste instrumento, flui todo um universo de música: o insondável e o jubiloso, o sério e o faceto, o grandioso e o humilde, o diálogo interior das melodias. Pensei: como é magnífico que num pequeno pedaço criativo se esconde tal promessa, que o mestre pode libertar. E isto significa que toda a criação está repleta de promessas e que o homem recebe o dom de folhear este livro de promessas, pelo menos por um pouco. Na minha opinião, esta tarde convida-nos não só a conservar as forças naturais que nos ajudam a fazer sobressair as energias físicas, que são uma promessa da criação, mas também a conservar as promessas mais profundas que esta música nos indicou, na vigilância do
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Quando se banaliza a vida
Existe uma triste tendência que, pouco a pouco, se está impondo nalguns aspectos da cultura contemporânea: a banalização. Desde a vida até à morte, tudo parece submetido a um mero processo simplificativo que tende a encerrar cada coisa numa esfera privada sem alguma referência às outras. Deste modo, contudo, a consciência adormece e tornase progressivamente incapaz de emitir um juízo sério e verídico.

A aplicação da pílula ru4-86 como técnica abortiva foi uma solução para remediar a recuperação de capitais investidos após a verificação da falência da experimentação que fora prefixada. Já este pormenor "banal" diz muito sobre a finalidade de algumas pesquisas que são realizadas nos laboratórios. Esquecer que a ciência e a pesquisa tecnológica devem ter como primeira finalidade promover a vida e a sua qualidade significa um inevitável deslize, com a consequência de colocar em primeiro lugar a sede do lucro e não a salvaguarda da natureza. Os anúncios sobre a neutralidade da ciência ressoam nalguns momentos especiais com o único fim de dar valor a um produto mais que de recordar a importância fundamental que a pesquisa representa. Não podemos ser cúmplices dessas situações, denunciadas com coragem por Bento XVI na sua última encíclica Caritas in veritate, quando é a vida humana que está em jogo.

Deter-se somente na análise da relação de custos e benefícios para introduzir no mercado a ru4-86 é uma posição semelhante à de Pilatos, sobre a qual se deve reflectir a fim de não cair inclusive noutras formas de hipocrisia. Deve até existir uma autoridade capaz de considerar os graves riscos aos quais as mulheres se submetem no momento em que recorrem a este fármaco. Como podemos evitar o facto de que foram verificados demasiados casos de morte após a ingestão deste medicamento? Como não considerar os aspectos éticos que esta pílula apresenta? Como não dar importância ao impacto que terá nas jovens gerações de moças que recorrerão cada vez mais facilmente a este uso? As interrogações não são óbvias e exigem uma resposta que forneça argumentos para que não se repitam os lugares-comuns. Os sofismas, neste caso, podem servir para uma forma de satisfação pessoal, mas não convencem sobre a dramaticidade da situação que deve ser enfrentada. Inútil tergiversação. A ru-486 é uma técnica abortiva porque tende a suprimir o embrião que se implantou no útero da mãe. Que o recurso ao uso desta pílula é menos traumático que se submeter à operação ainda deve ser demonstrado. O primeiro trauma nasce no momento em que não se quer aceitar a gravidez e é exactamente aqui que se deve intervir para ajudar a mulher a compreender o valor da vida nascente. O embrião não é um amontoado de células nem um pouco de bolor, como alguém teve a coragem de o definir; é vida humana verdadeira e plena. Suprimi-la é uma responsabilidade que ninguém se pode permitir assumir sem conhecer profundamente as suas consequências.

A ingestão da ru-486, portanto, não torna o aborto menos traumático; ao contrário, encerra-o ainda mais na solidão do íntimo da mulher e prolonga-o no tempo. É necessário repetir que quantos a usarem estarão a realizar um acto abortivo directo e deliberado; devem conhecer as consequências canónicas das quais irão ao encontro, mas sobretudo devem estar conscientes da gravidade objectiva do próprio gesto. O aborto é um mal em si mesmo porque suprime uma vida humana; esta vida, embora seja visível só através de uma máquina, possui a mesma dignidade reservada a todas as pessoas. O respeito devido ao embrião não pode ser menor do que o reservado a cada um que caminha pela rua e pede para ser escutado pelo que é: uma pessoa.

A Igreja nunca pode assistir passivamente ao que acontece na sociedade. É chamada a tornar sempre presente o anúncio de vida que, no decorrer dos séculos, lhe permite ser sinal tangível do respeito pela dignidade da pessoa. O caminho que deve ser percorrido torna-se mais árduo em determinados momentos porque é difícil fazer compreender que a via a seguir para que o primado da ética seja mantido não é fornecer com muita tranquilidade uma pílula, mas formar consciências. Esta tarefa é árdua, pois inclui não só o empenho em primeira pessoa, mas a capacidade de se fazer escutar e de ser credível. A nossa oposição a todas as técnicas abortivas serve para afirmar cada dia o "sim" à vida com tudo o que ela contém. Isto significa reafirmar o nosso apelo à urgência educativa para que os jovens compreendam a importância de fazer próprios os valores que permanecem como património de cultura e de identidade pessoal. Jamais poderemos compreender a beleza que a vida contém desde o seu primeiro instante, no qual se faz sentir presente no ventre de uma mãe, até ao momento extremo em que deverá deixar este mundo.

Por este motivo, diante da superficialidade frequentemente ameaçadora, permanece invariável o compromisso pela formação, a fim de estimular dia após dia o empenho a viver a sexualidade, a afectividade e o amor com alegria e não com preocupação, ansiedade e angústia.

Rino Fisichella - Arcebispo Presidente da Pontifícia Academia para a Vida

(Nota: a palavra ‘fadigoso’ publicada na versão em língua portuguesa no penúltimo parágrafo foi alterada para ‘árduo’ pelo autor do blogue)