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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ
INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA ARTE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ARTES
DISCIPLINA: PESQUISA COMO MOVIMENTO CRIADOR
ENTRE RESPIROS: POTÊNCIAS DE COMICIDADE FEMININA EM FOCO
Andréa Flores1
Orientadora: Wlad Lima2
[...] gênero- palavra duvidosa ou esquiva por sua
utilização para coisas diferentes-, neste caso, a
feminilidade, a condição da mulher de muitos rostos,
que não apenas espera e tece (o tempo, a nostalgia, a
fidelidade,
etc.),
mas
que
atua
sobre
condicionamentos
(restrições)
e
obstáculos.
(CARRIÓ, 2010, p.13)

Respirar: olhar para dentro até não caber mais e, em seguida, perceber-se em
relação ao outro, para fora, até que falte o ar. Meus respiros carregam visões de mundo,
percepções de mim. Moléculas entremeadas a vibrações, que irão percorrer, desde as
narinas, um corpo que está em vida, a encontrar-se com outros corpos viventes.
Compreendo que o ar impelido para dentro e fora de meus pulmões tem íntima relação
com minha existência, esta condição tão infinita quanto o ar. Existo em palhaçadas há
cinco anos, na cidade de Belém do Pará. Para dentro, observo o riso que provoco, as
bobagens de minha palhaça, Bilazinha da Mamãe. Para fora, volto ao mundo, entrego
expirações impuras, parte de meu corpo que se vai e já não é só minha: outras palhaças
atuam neste mesmo território amazônida onde estou.
Inspiro. Oxigênio, fumaça de carro, vapor do asfalto, o rio. Cheiro de peixe, de
ervas, frutas doces, fumaça de ônibus. Carne crua, suor. Ar de feira. Cheiro da borracha
de que é feito meu nariz de palhaço, misturada àquela dos pneus. Encontro-me,
Bilazinha da Mamãe, nas feiras livres de Belém. Nestas flanagens, enquanto pesquiso
afetos resultantes dos encontros com a rua, registrados em Flores (2011), noto algo
diferente no ar. Seria cheiro de pirataria? Ares do esgoto mal cheiroso? A isto tudo
estou acostumada, não é relevante. Refiro-me a uma sensação nunca antes registrada:
quem está na feira é a palhaça, gênero feminino.
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Mestranda do Programa de Pós Graduação em Artes (PPGArtes/ICA/UFPA). Especialista em Estudos
Contemporâneos do Corpo: criação, transmissão e recepção (UFPA). Palhaça, atriz, terapeuta
ocupacional.
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Doutora em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia. Atriz, Diretora e professora da Escola
de Teatro e Dança da UFPA (ETDUFPA).

identificações para compreender a comicidade feminina e este território amazônida onde atuo. Utilizo como sinônimos. sem nariz vermelho. em busca do palhaço que todos temos dentro de nós. Certa vez. brasileiras ou não. no entanto. Em meio ao grupo maior. um mergulho em si mesmo. a princípio. junto a incontáveis mulheres cômicas. eu sou uma das integrantes. Longe das ruas. por tanto tempo. Passei a procurar sentidos pessoais de mulher palhaça. ar que vai para o mundo. Expirando. sempre no masculino. rompe esse turpor: era a primeira vez que palhaças amazônidas faziam parte da programação oficial do festival. de volta à mesa de trabalho em Belém. que também foi um dos primeiros a sistematizar um treinamento para o ator encontrar seu palhaço. configurando. a respiração acelera. Ao mesmo tempo. o fato da cena ser desenvolvida por um palhaço ou por uma palhaça era irrelevante. além das oito palhaças paraenses que foram comigo ao evento. Despertencimento. o clown resulta de uma descoberta pessoal. a não ser que ampliássemos o entendimento para outras dimensões além da arte.2 A partir de então mudaram os ares. Segundo o autor. no IV Festival Internacional de Comicidade Feminina. Enquanto uma nova identificação de mulher palhaça percorre minhas veias. despertando-me. chamei Bilazinha da Mamãe de palhaço. um pesquisador experiente disse-me que. concordando com Maués (2004) e Burnier (2009). o que imediatamente levou-me a questionar os motivos e a relembrar as dificuldades de participação dos artistas da Amazônia nos circuitos de circulação cultural pelo país. meu clown pessoal3 ou simplesmente o clown4. Concordei. os pulmões que respiram são femininos. Algo. E não estou sozinha. Tomei consciência de minha diferença. retirando-o de mim e deixando-o recair sobre outras mulheres palhaças que também atuam por aqui. já não olho somente para mim. encontro-me. Resumo esses movimentos em uma busca por referências para minha atuação. reconfigurando. a palavra é pertencimento e a sensação é muito gostosa. Que implicações isto poderia significar? Expiro com força e alívio. Reconheci-me mulher palhaça como um dos resultados dessa pesquisa anterior e ganhei novas inquietações. desloquei o foco do olhar. . com apenas uma ressalva: acredito que a pesquisa em arte ocorre o 3 O termo clown pessoal foi criado por Jaques Lecoq (2003). 4 Não é meu objetivo alongar-me na discussão entre os termos clown e palhaço. observo cada uma delas como mestres e camaradas. meses depois. Os pés nas ruas da feira são de mulher. tentava compreender por que. Para dar conta do rebuliço em meus pulmões. termos que designam o mesmo ser cômico popular. indagava sobre o espaço real de oportunidade e participação para artistas da Amazônia. para a arte.

Ao longo do processo de urbanização que se desenvolveu na passagem do século XIX para o XX. de modo a reconstituir-se o mais rapidamente possível e encontrar seu lugar neste magma homogeinizado de subjetividades. amazônida. mas na potência de ser mulher. norte e sul. repetição do mesmo. operado por muitos movimentos situados no plano das reivindicações por direitos sexuais. eles parecem estar à cata de figuras idealizadas para identificar-se. Apoio-me em Deleuze (2006). era configurada uma “nova família”. étnicos. não se observa qualquer esboço de movimento de construção de modos de existência que as corporifiquem. proteção. ela analisa como os valores patriarcais foram se modificando progressivamente ao longo do século XX. ocorre através de um jogo com registros históricos e enfoques sociológicos nas fronteiras das categorias feminino. Rolnik (1996) alerta para este esforço sem resultados. a repetição lírica da realidade. da oposição. composição de redes com outras áreas. convulsionando as figuras estabelecidas. onde identidades e diferenças multiplicam-se ao infinito e os quadros classificatórios sobrem abalos contínuos. repetida. posteriormente. cômico. de apegar-me ao gênero como uma espécie de tábua de salvação. Busco. isto sim. 1996. alimentam sua ilusão de estabilidade e parecem apaziguar-se. contrastantes com a . Atordoados. resolvo assumir o exercício de desviar-me da diferença. Meu esforço diafragmático não quer reafirmar rígidas oposições entre homens e mulheres. raivosamente defendendo-o como vítima do oposto. O direcionamento do olhar-respirar de pesquisa que passei a propor sobre a experiência de mulheres palhaças da Amazônia. amazônida. na qual o amor romântico ganhava espaço: família como lugar de aconchego. da figura cômica.3 tempo todo por ampliações. É nítida sua desvitalização (ROLNIK. ao marido. Quando diferenças irrompem em cena. não cabe no mundo visível. transgredida em comicidade. etc. “esposa” e “mãe”. Através de um olhar sobre a família. Quando conseguem. escapando de suas mãos. mas como potências do mesmo. cuja autoridade estendia-se desde o comando do lar até a manifestação proibida dos desejos e sentimentos particulares da mulher. para compreender a repetição não como generalidade. mas o preço que pagam é ver a vida enquanto potência de diferenciação. recriada. Que sentidos posso atribuir a estas potências? Alio-me a Scott (2012) em registros de passagens percorridas pelo feminino no Brasil. em pequenos avanços que punham abaixo uma ordem onde à mulher cabia apenas obedecer ao pai e. diálogos. o que cai na trama do espectro são personagens correndo esbaforidos de um lado para o outro. desde as identificações da mulher como “filha”. Esse binarismo. Potência feminina na comicidade. no entanto. Ao concordar com a autora. Corro o risco que a autora denuncia. até a conquista de papéis e funções antes impensáveis. p. feito baratas tontas. 2-3).

Mesmo estre as primeiras políticas públicas de massa voltadas para as populações urbanas. Como “rainha do lar”. em choque com o ainda existente papel social padrão para o feminino.200. No entanto. definido pelos papéis que a ‘natureza’ lhes havia determinado e pela moral imperante na época. ampliando a circulação pelos espaços sociais. Avalio que a mulher palhaça está inserida justamente nesse movimento transgressor do imaginário social. 2012). Prosseguindo. denunciando as construções de pensamento históricas e sociais. mulheres passaram a ser agregadas como mão de obra nas indústrias. até mesmo. formando uma visão de mundo resultante de influências compartilhadas no espaço social. fadas madrinhas. as mulheres tinham um espaço de realização muito restrito. sempre de caráter passivo. as possibilidades da mulher eram delimitadas por um paradigma social. depois de casadas. a vida das mulheres que optavam por um comportamento ‘não conformista’. Esse fluxo estende-se. voltada inteiramente ao espaço doméstico. reconheciam publicamente a escolha equivocada. inclusive. de 19 de abril de 1941. O domínio público era próprio dos homens.21) afirma que Como se vê. a transgressão desse ideal de mulher continua acontecendo. acerca do sentido de nascer menina. a falência do seu matrimônio e optavam pela separação. o significado subliminar com o qual ainda convivemos remete ao feminino enquanto elemento social de segunda categoria. enfermeiras. Scott (2012. Todo e qualquer desvio de comportamento poderia gerar críticas. p. arraigado historicamente. no qual atribuía-se às mulheres a necessidade de serem “afeiçoadas” ao casamento e “desejosas” da maternidade. se prestarmos atenção. por épocas distantes. picadeiros e ruas. A autora prossegue. marginalização social. “livres de vícios”. Identifico nessas vias o caminho através do qual hoje encontramos com facilidade mulheres em cena. por exemplo.4 “poluição” do mundo exterior. cabem brincadeiras em que são cozinheiras. Concordo com Moreno (1999) quando ressalta que construímos nosso pensamento com base no imaginário de nossos pares. na década de 30. desqualificação e. como aquelas que. marginalizado. Nossas conquistas nas décadas que se seguiram delimitaram novas possibilidades de realização. Para ela. . cabendo-lhe também a formação moral dos descendentes. porém seguindo hábitos de rotina doméstica. cabia manter a família “higienizada” e a descendência saudável (SCOTT. a mulher deveria ser uma mãe dedicada aos filhos. Entre as classes populares. fazendo comicidades nos palcos. assinado pelo então presidente Getúlio Vargas. das quais nem sempre temos recordação. Às meninas. Não era fácil. mães que limpam seus filhos. explícito no Decreto-lei 3. seu por excelência. Ao feminino.

entre outros. porta-voz do demônio. independente de gênero. A palhaça está mais próxima do grotesco. maquiagem desmedida. CASTRO. atitudes bobas. como os bufões. que. passiva. por ter dificuldade em ficar calada diante da imposição de papéis fixos para a mulher que tentava ensinar-me e por questionar sua posição política. Pela lógica. passividade e responsabilidade com o lar. quando adolescente. no século XVI. . como. indicando sua suposta ocupação primordial de cozinhar. por vezes sexualmente exacerbadas. embora a figura do palhaço seja sempre transgressora. Essa transmissão imaginária de papéis e obrigações sociais sexistas e androcêntricas permanece delegando à mulher atribuições de leveza. mas também bastante malicioso. braço direito. é ainda pouco aceitável para o feminino. Tinha um jeito grosseiro. charlatões e saltimbancos das feiras da Idade Média. Sofreu influência de outros personagens. tendemos a fazer uma associação mais fácil com o masculino. o palhaço e seus precursores são sempre seres que se comportam a margem do padrão. bobos. de acordo com o padrão com o qual aprendemos a conviver. Quando pensamos nesse comportamento em uma mulher. foi se desenvolvendo cada vez mais como personagem risível e motivo de chacota dos outros. 2003. dona do lar. Sempre considerou-me “atrevida”. Ingênuo. Aqui. para pôr em relevo comparações com a palhaça. as imagens de mulheres nos livros geralmente aparecem associadas a atividades do lar. 2005). são características que. avalio que pode ser socialmente compreendido como um perigo à forma feminina com a qual ainda convivemos. constrasta com a mulher contida. críticas a meu jeito. moderação. em algum nível. não moderação e indisciplina de qualquer palhaço. etc. situada à margem desses signos. etc. a partir da figura do Vice. Na escola. desejo compartilhar algumas memórias pessoais. conforme nossa educação. o que não era sua obrigação. Embora tenha sofrido modificações. assemelhado ao camponês pobre. limpar. grosseiras. personagens da Commedia Dell’Arte italiana. não são femininos. com o passar do tempo. Roupas extravagantes. segundo ele. ouvi veementes repreensões de meu pai a minha resistência em pensar no casamento como meta de vida e as críticas constantes que sempre fiz a sua falta de envolvimento nos serviços domésticos. Trago essa discussão acerca dos imaginários sobre a mulher. rústico. A desordem. gestos fora do comum. (BOLOGNESI. acrescidos de pequena dose de memórias pessoais.5 enquanto os meninos brincam desempenhando papéis mais agressivos. As origens do ser que conhecemos hoje como palhaço remontam ao teatro de moralidade inglês. medroso e supersticioso.

que pode parecer díspare. cabendo. estranho. do qual sou parte. Aproximo essa visão de um registro feito por Perrot (1988. escondida. a caverna grotesca tende a se parecer (e. em contraste com a visão de pureza. riso. superior. mulher louca. como o envolvimento em situações absurdas. imanente. a eterna busca de palhaços e palhaças.a grota-esco. que não tento legitimar a visão maniqueísta que situa a mulher entre os maus e inferiores. repulsa. visceral. escura. Este último. Realço. em contraste com o homem bom. incompleto. alusão ou exposição das genitais. no sentido metafórico mais grosseiro.] filha do diabo. remete à dimensão do . como quase todos os que escrevem sobre o assunto acabam um dia se sentindo obrigados a mencionar. Essas associações do feminino com o grotesco terreno. encontro uma outra forma de conceber a feminilidade. identificados como corretos. estreitamente associados à mulher.. p. Baixa. moderação. etc. como horror. Para fugir de padrões de normalidade. em estreita associação com o grotesco. embora para mim pareça óbvio. A autora critica o feminismo da década de 1990 por reforçar. identificando-nos com outros paradigmas possíveis para. e que justificava a necessidade de mantê-la subjulgada: “Ora. evoca a caverna. Como metáfora do corpo. na própria origem da palavra grotesco: A própria palavra. Ao que se vê. através deles. assim. a tarefa de conter os instintos femininos.6 Sodré e Paiva (2002) caracterizam o grotesco como a combinação de elementos heterogêneos que desarmonizam o gosto. [. a mulher é fogo.. identificar) como o corpo feminino anatomicamente cavernoso. material e arcaico sugerem uma representação forte e positiva de cultura e feminilidade a muitos autores e artistas de ambos os sexos (RUSSO. etc.. histérica herdeira das feiticeiras de outrora”. espanto. compreender as dimensões sociais da palhaçaria feita por mulheres. Quando entro em contato com Mary Russo (2000). portanto. receitas de comportamentos moralizadores. mesmo que em crítica ao patriarcalismo. Importante ressaltar. p. O que estabeleço é um par de oposto à visão social dominante da mulher. pura e dona do lar. maltrapilho. segundo ela. material. terrena. 2000. onde a palhaça pode estar imersa. o feminismo e os discursos de liberação devem aproximar-se do heterogêneo. que esse fazer.187-188) a respeito de um dos discursos em torno da mulher no século XIX. A relação entre o grotesco e o feminino. disciplina. como sugere o registro acima. talvez não esteja tão distanciada como quer o imaginário discutido acima. há outras feminilidades sobre as quais o imaginário sobre a mulher pode assentar-se. Tal comportamento suscita um certo padrão de reações. no discurso de igualdade.13).

a deusa livra-se da tristeza e demarca o retorno da alegria e da vida na criação. Alice Viveiros de Castro (2005) registra. os termos equivalentes a “risível” são geloion. ela transgride a ordem simplesmente por nos ensinar quão bobos e derrisórios somos todos nós. As falhas históricas constrastam com a marcante presença de artistas mulheres provocando o riso. algumas . Ao provocar o riso. Ângela de Castro. por muito tempo esse foi um papel desempenhado prioritariamente por homens. nos tempos antigos. como se tivesse se dado conta de sua existência absurda. desde a origem do próprio teatro. no Brasil. e ridiculum. já no século XX. permitindo-se ver pelos fracassos e defeitos. aquele que ri (Deus) e sua gargalhada (a criação. Em virtude do padrão que historicamente foi associado ao feminino. assim. como era chamada). Quanto à palhaça. de autor anônimo. excremento da sociedade patriarcal e substrato do riso. Se hoje é comum nos ver. inteligência e força. absurdo da existência. segundo os documentos oficiais. Nele. ingênuos. é uma mulher que faz o sol rir e voltar de seu esconderijo na caverna onde estivera recolhido. conforme Fo e Rame (2004). bem como atrizes na Commedia dell’Arte. o universo) encaram-se. afinal. Ambos são muitas vezes traduzidos por “ridículo”. Eternamente. grotescos.7 grotesco. louco. a comicidade realizada por mulheres permaneceu pouco registrada e. a qual estabeleceu um jogo bufo para salvar a deusa grega Deméter do desespero. por vezes. ainda. somente na década de noventa. citado por Minois (2003). Ao sorrir e se divertir. a figura feminina do menestrel errante. se expõem da maneira como são. Grotesco. ridículo. Deus não teria criado o universo pela palavra. em grego. a partir de uma crise de riso louco. o que fazem aqui. a existência de mulheres recitando poesias na Grécia antiga. Os autores referem que a tragédia em sua forma primária originou-se a partir de uma mulher. Baubo (“a filha-da-terra”. Antes desse período. perguntando. mas dando gargalhadas. que reconheço como via de questionamento. ridículas e bobas palhaças em cena. Alberti (2002) afirma que. como ensinam Maués (2004) e Lecoq (2003). no entanto. Clowns são seres que se mostram sem medo. Semelhantemente. é que a autora reconhece a emergência da primeira mulher com uma persona clown definida. para que os outros riam de seu ridículo. mal vista. líricos. engraçados. em latim. como sugere o relato da criação no papiro de Leyde datado do século III. O âmago de ser palhaça está em assumir esse ridículo. na origem do Nô japonês. tão centrados em nossa beleza.

minha intenção até aqui. Afinal. o que homens e mulheres não eram e não podiam ser (CASTRO. como se enuncia historicamente. A autora propõe. Resistências. historicidades. rir junto. comum denominá-las de “clownettes”. Poder-se-ia dizer que foi a revolução feminista que possibilitou Judite. Amazônia. qualquer que seja esta cena. esteve intimamente relacionada à tradição. descubro pertencer a imaginários. teatros. meu território.164). REFERÊNCIAS . sempre que vejo uma palhaça em cena. Como consequência da articulação entre elas. assim. ainda. é coisa que só se permite aos iguais. mas não com a mulher. O volume de ar amplia-se continuamente. em sua análise de atuação da palhaça Judite: O corpo exposto da mulher em seu desconcerto cômico traz ao picadeiro uma nova leitura sobre o corpo feminino circense que agora não somente ocupa o espaço do palhaço-macho. O universo clown pode ter em Judite uma boa amostra de que certos tipos cênicos não pertencem exclusivamente ao universo masculino. desejo encontrar registros poéticos para um mapa de comicidade feminina na Amazônia.220). 2005. uma explicação para os silêncios e falhas históricos destes fatos: A Mulher era vista como um Homem incompleto e muito perigoso. p. impelindo-me nessa busca por identificações possíveis. ruas. termo excludente que demarcava sua posição de inferioridade. Quando penso situar-me em circos. sendo. a histórica presença uníssona de palhaços. Passo a compreender. para onde seguirá o texto. que devem continuar-se na terceira. Como uma figura dessas podia ter o poder de provocar o riso? Era possível rir da mulher. que ainda não aparecem nesta escrita. (des)construções. p. Deixo claro. a existência de palhaças no circo é fenômeno recente e acrescenta dimensões políticas à tradição. rir com. gênero masculino. No universo do circo. ideologias. como também soma à sua apresentação novas questões de cunho político. Entretanto. compartilhei alguns respiros concernentes a duas potências. risos acumulam-se entre nós.8 mulheres já assumiam o nariz vermelho esporadicamente. a existência de um intrigante cenário ao redor. momento em que inicio este longo inspirar e expirar. disparada pelo movimento das vozes de mulheres palhaças desta região. conforme argumenta Menezes (2011. condições sociais. o feminino e o cômico. Até aqui. Hermínia Silva (2009) registra que homens e mulheres sempre tiveram papel ativo no espetáculo circense. inclusive.

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