...

PUBLICAÇOES D.\ BIBLIOTECA
REIMPRESSÕES
II
MARCO
PAULO
O LI\'HO DE :\lAHCO P;\llLO- O LI-
\"HO DE l\ICOLAO \"E?\F ro- C.\HTA
DF DE ESTEV.:\\1
conform\! a imprcssiio de Vah.:ntim Ft:rnandcs,
fci ta cm I isboa cm 1So2; com trcs jtc-símiles. introduç,lo c indict:s
I'OR
FlU='Cisco 1\l.\IH \ E::;..-r:vr:s  
BIBLIOTECA
• NACIONAL·
LISBOA
LISBOA
ÜfiCINAS GH \FICAS DA BIBLIOTI:.C\ ;\ACIONAL
192:l
INTl\ODUÇAO
O liYro, conhecido na literatura portuguesa pela denominação
de Jlarco Paulo, con1preende tres obras, que conten1 noticias acerca
dos poYos do Oriente, especialmente da lndia. Os seus títulos, con-
forme se lcen1 no principio de cada uma delas, são:
I.-Liuro de .J.'larco Paulo de f,..enc\a, das condiçoóes e cusfw1ll!S
das gentes e das terras c prouincias orientacs.
II.- Liuro de .J.\'icolao J"cneto, da J'ida c custumes da gente de
India e de todallas regiões orientaes.
III.- Carta que Jenmimo de santo L"stc:uam escreuc:o de 1i·ipoli
a Julzam Jacome Jlayc:r em Baruti.
A prin1eira destas obras, que é a principal pela sua in1portancia
e pela sua extensão, deu o lH>nle ao liYro.
O .Jlarco Paulo foi impresso en1 Lisboa por \"alentinl Fernandes
alen1ãn, que o concluiu a 4- do mcs de Fc' creiro de 1 5o2; o litn,
por que Yalentin1 Fernandes empreendeu a impressão destas trcs
obras, foi, como ele nll'smo declara, «a serYiço de Deos c aYisa-
nlcnto     que agora Yáo pcra as ditas lndias)). é
passar en1 silencio, que as tres obras reunidas neste liYro, c im-
pressas e publicadas passados apenas dois anos, dL'pois que \"a'\co
da \.ama tinha Yindn do descobrin1ento do caminho n1aritimo da
lndia, são as relações· de Yiagens de alguns Italianos, que nos se-
çulos xm c xv haYian1 chegado por Yia de terra [t, regiões Ja India.
11
O Jlarco Paulo foi o terceiro li\ ro impresso cm linguagem por-
t ugucsa por Yalcntim Fcrn andes; é por tanto um monumento prc-
ciosissimo da arte ti pogratica cm Portugal, c lambem uma cspccic
hibliografiLa de grande raridade, porque dele é conhecido pequeno
numero de cxcn1plarcs .. \las se o livro tem muito grande \·alor bi-
bliograflco, o seu assunto é da maior importancia para a hi..,toria da
geografia, pela influencia que exerceu sobre o progresso dos dcsco-
brinlcntos feitos pelos Portugueses nos scculos xv c xvr, c mostra
"
que eles possuían1 completo conhecimento das noticias, que entre as
. nth;óes ocidentais ha\·ia úccrca das gentes c terras do Oriente .. \lén1
disso este li\TO contem a Yersão portuguesa da relação das YÍagens
de 1\1arco Paulo, a qual foi terceira tradução que se fez da mesma
relação; a Yersão portuguesa da relação das Yiagens de ~ i c o l o dei
Conti, cujo texto latino poucos anos antes tinha sido impresso; c
cmfin1 a Yersão portuguesa da carta de Jcronimo de santo Estc-
Yanl, cujo original, proYaYcln1ente escrito em italiano, é até agora
desconhecido. En1fin1 o .Jfarco Paulo é um notaYcl texto da lin-
guagenl portuguesa dos prin1ciros anos do seculo xYr, conhecido
sútncnte dos bibliografas c de poucos eruditos. Por todas estas ra-
zões se en1prccndeu a rcin1prcssão do n1csmo liYro com o fim de
pc>r á disposição dos historiadores, gcografos c cultores da literatura
portuguesa, un1a obra notavel por tantos titulos.
No que se segue não nos ocuparemos em referir as condíções
particulares de Yida dos Italianos, cujas relações de Yiagens são
rein1prcssas adcante, nen1 en1 identificar os nomes dos paises, ilhas,
c cidades nelas n1encionadas: esse trabalho já tem sido feito por
notaYcis escritores, con1o Ranu1sio nas ~   ... al'igationi e viaggi, e Yulc
na sua obra n1onun1cntal e exhaustiYa acerca de !\I arco Paulo ( 1 ).
Aqui lin1itar-nos-hen1os a considerar o destino e influencia que as
n1csnu1s relações tiYeranl na literatura portuguesa. Para facilitar as
inYcstigações juntou-se un1 indice ren1issiYo dos nomes proprios.
(1) Tlze book of ser ...\!.trco Polo tlze renetian concerning the Kingdoms and mar-
t•els of tlze E.1st, translated and edited by Colonel Sir Henry Yule. third edition, reYised by
Henri Cordier. London. 19oJ (dr)is Yolumes). Esta obra magistral deye ser consultada cons-
tantemente para a compreensão das Yiagens de :\larcu Paulo. em tudo o que respeita ao
ori
0
inal da relaç;"io das mesmas Yiagens, suas versóes: manuscritos e impressóes.


I.- nESCRIÇÁO J)() J>.lLErJTJCO
O exemplar do .Jiarco Paulo pertencc.·nte ú Biblioteca 'acional
de Lisboa ( 1 ), onde tcn1 a numeração de resen·ado -t-3 1 (antigo B-64),
é um Yolunle do formato de 4-.
0
• encadernado, sendo as pastas cober-
tas de carneira de ct>r de castanha. O liYro tem 1 oG folhas dispostas
en1 dezasetc cadernos, sendo o primeiro de quatro folhas duplas, os
quinze seguintes de tres folhas duplas, e o. ultimo de quatro folhas du-
plas. A.s folhas ten1 o,
111
2jS de altura e n,
111
1   de largura, mas foran1
aparadas pelo encadernador; o papel das folhas é de linho encor-
pado, un1 pouco an1arelado, com a marca de agua de tres linhas re-
tas paralelas de alto a bai\.o .
. \ pagina inteira de texto ten1 3 5 linhas; a linha completa tl'nl
o
10
, 1 3o de comprimento, e em n1edia 5o letras. As linhas formam uma
se'> coluna de <>,
111
21 ó de altura; e alén1 d'estas linhas ha outra na
parle superior, con1 o titulo da obra, que con1eça na pagina Yerso c
termina na pa"ina reto se'Tuinte.
t') tl
pagina reto de cada folha ha ainda, na parte superior ú di-
reita, a indicação da folha em n tlllleração ron1a1HL 'a parte
da pagina reto de cada folha estú marcado o registo do caderno
com as letras do alfabeto a, b, c, . . . q. seguido da da
folha do caderno cn1 numeração romana. En1 algumas folhas falta
esta ultima n tm1eração.
A correspondencia da nun1eraçüo dos cadernos c das folhas é a
segumte:
::'\ umo:rao;ão Jos cnJano"
1.° CaJcrno: .\, .\ij, .\iij, .\iiij, .\\.} ,._
\
. \ .. \ ... .,ao tem .
• \"), . VI), .: \"IIJ • •• • •• • •• • • • • ·
o C I ·· ... .... . J Foi. j, Fui. ij, Foi. iij, Foi. iiij, Fui. v,
2. .alo crno: a, aq, :.uq, auq, a,·, a\'J·I L' I .·
r O • \ J·
3.° Caderno: b, bij, biij, hiiij, lw,fFol. vij, Foi. viij, Foi. ix, Fui. x, I·ul.
bvj ......................... } Foi xij.
(t) As provas do .\l.rrco J>.wlo foram l'"r um.t copia llo c\.cm-
plar da Biblioteca Nacional, feita cm
JV I ·ç.\o
Joa cndnuos 'umrraçáo das f•,Jhaa
0
(' J .. ... .... . I Fol. xiij, l:ol. l'ol. xv, J'ol. X\ J,
.a ernu: c, CIJ, CIIJ, CIIIJ,cv,cvJ.I
1
.
1
·•
1
. I ···
• (J • X\'1), · CJ • XVIlJ.
S.° Caderno: J, dij, diij, Jiiij, dv,J Fui. xix, Foi. Fui. xxj, Fui.
U\ i ........................ -I l'ul. Foi. xxiiij.
().° Caderno: e, cij, eiij, ciiij, C\',J Foi. Fui. Fui. XX\ij, Fui.
e\·j ........................ -l xxviij, Foi. Fui.
(
. J f
1
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1
....
1
..... f.
1
.. · I Foi. xxxj, Fui. F(Jl. xxxiij, Fui.
i·" .a erno: , •J, 11), IIIJ, ,, 'l·l ···· I.' I I' 1 ·
XXXlllJ, rO. XXX\·, "(J. XXXV).
o o C d .. ... .... . I Fui. xxxvij, Foi. xxxviij, Fui.
''· .a crnu: g, g•J, g11J, g111}, gv, gvJ.l L' I ·I L' I 1· L' ·I 1··
r u . X , r O • J, r o . X IJ.
o(' J
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··
1
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. J Foi. xliij, Fui. xliiij, Foi. Foi.
q. erno: 1, liJ. lllJ, llllJ. 1\', n·J.l
1
·
1 1
.. L" I I ···
- · ' X \' J, r u . \'1 J, r O • \ \ 11 J •
o C d · .. ... .... . . . f Foi. x1ix, Foi. 1, Foi. Ij, Foi. Iij, Foi.
10. .a erno: 1, IJ, IIJ, lliJ, n·, I\ J .. l I ... F, I I ....
IIJ, O • IIIJ.
o C d I I ·· I ··· I ···· I k . f Foi. h·, Foi. Ivj, Foi. Ivij, Foi. lviij,
1 1. a crno: \., \.1}, \.IIJ, \.III}, \.\·, .,.,.l I
1
.. F, I I·

r O • IX, O • X •
o C d I I.. I...
1
....
1
I . I Foi. lxj, Fui. Ixij, Foi. hiij, Foi. Ixiiij,
I'.!. a erno: , IJ, IIJ, IIIJ, ,., ,.,.l F l I .. L, I I .. ·
O • X\, r O • XVJ.
I3.° Caderno: m, mij, miij, miiii,I Foi. lxvij, Fol. lxviij, Foi. lxix, Foi.
m,·, nwj .................... -l lxx, Foi. lxxj, Foi. hxij.
q .. ° Caderno: n, nij, niij, niiij, nv,f Foi. lxxiij. Foi. lxxiiij, Foi. lxX\·, Foi.
nvj ........................ -l Jxx,·j, Foi. lxx,·ij, Foi. IxX\·iij.
I 5.° Caderno: o, oij, oiij, oiiij, ov, I Foi. lxxix, Foi. hxx, Foi. Ixxxj, Foi.
o\·j ........................ -l Ixxxij, Foi. lxxxiij, Foi. Ixxxiiij.
IG.° p, pij, piij, piiij, pv,{ Foi. }xxx,·, Ixxx,·j, F?l.
P' J . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . f ol. lxxxniJ, Foi. lxxx•x, f ol. xc.
o C d .. ... .... j Foi. xcj, Foi. xcij, Foi. xciij, Foi. xcdiij,
Ij. a erno: q, LllJ, • qulJ, F
1
L, I .· FI .·· I
. .. ... l O.XI...\,rO.Xl..\J, O.XI...\IJ,rO.
q'·J, qnJ, qnq................ . _ ...
. XI...IIJ.
As letras, con1 que cstú in1prcsso o Jfarco Paulo, são do tipo
denon1inado n1eio gotico, c de trcs corpos:
1 .
0
n1onacal: neste corpo são in1pressas: a letra inicial da pa-
laYra Jiarco do rosto, a letra inicial do texto da epistola, as letras
iniciais do texto dos prin1ciros capitulas das trcs partes do Livro de
Jiarco Paulo, e as letras iniciais do texto do Lh,ro de     Ve-
neta, c da Carta de Jeronimo de santo Estevam.
2.
0
n1aior: neste corpo são impressos o rosto do liYro, cxceto as
palaYras 1.liarco pau/o, e os títulos das obras c dos capitulas.

INTRODU CÃO v
.
3.
0
menor: neste corpo são impressos o texto, as tavoas dos
capitulos, a numeração das folhas, c o registo dos cadernos.
Além destes corpos de letra, a primeira letra de cada capitulo
é un1a capital, induida dentro de um rctangulo adornado con1 ara-
bcscos. A segunda letra é maiuscula do corpo n1cnor.
O titulo da obra, que está na parte superior das paginas, é
. .
tm prcsso cn1 corpo n1cnor.
Dos sinais de pontuação só é cn1prcgado o ponto; geralmente,
quando o ponto corresponde á virgula ou ponto c virgula, a pala-
vra seguinte começa por letra n1inuscula; c quando corresponde ao
ponto final, a palavra seguinte con1cça por n1aiuscula.
Os pcriodos são separados uns dos outros geralmente por n1cio
do sinal anteposto ú primeira pala\Ta; umas vezes logo cm se-
guida {t ultima palavra do pcriodo precedente, outras vezes con1e-
çando linha nova.
O contcudo do livro é o seguinte.
H.osto do livro: na parte superior a esfera arn1ilar dentro de
un1 rcctangulo de linha dupla.
Ao n1cio o titulo principal do livro: i\Iarco pau/o, cn1 gran-
des letras do tipo n1onacal, sendo a primeira adornada con1
ramos.
Logo cn1 seguida, cn1 duas linhas de corpo n1aior.
Ho liuro de J'encto.
Ho Ira/lado da carta de huú genoues das ditas terras.
Ao fundo cm quatro linhas de corpo n1aior:
priui/egio de/   noSSO senhor. que llen/llllÍ faça a Ímpres-
sam deste liuro. nem lw J'enda em todo/los seus regnos e senhorios sem
liçença de T""a/entim fernande\ so pena contenda na carta do seu preui-
legio. Ho preço dei/e. Cento e de\ reaes.
Á direita da esfera armilar ha o carimbo da antiga Real Bi-
blioteca Publica, c ao fundo da pagina o carin1bo da Bibliothcca
acional de Lisboa.
Não é para passar sen1 reparo, que na pagina do rosto são
dados són1ente os nomes de Paulo, c de Vcneto, scn1
os titulos das respectivas obras; do que resulta que ficam sem ante-
cedentes as palavras das ditas terras, con1 que é _enunciada a carta
de .leronimo de Este\'am, e que são certamente a Judia e
oric:nlais
1
ljlle constam dos títulos Jo l.il•ro de: .Jlarco Paulo c do f.ivro
de: }\yicolau J,.c:nelo.
I Foi. .\, 1'-.\i j, 1•]: l:):>istola sobre a tralladaçáo do /iuro de
. .l/arco pau/o feita pc:r l,.alc:utim Fc:nzande;.
l Foi. 1•-.\iij, 1_']: Introducçam c:m o liuro de . ..l/arco pau/o pot
T'Yalentim Fc:nw nd C:).. ·
[Foi. .\iij, 1'J: Capitulo.\' das prouincias du titulo Real de 1'o.Ha
Sc:nlruria.
[Foi. .Aiiij, r-AY, r]: ])as Ethiopias.
[Foi. Ax, r-Ax, 1']: Da prouincia de Arabia.
[Foi. A'", 1']: Da prouincia de Pc:rsia.
rFol. AY, 1'-· AYj, 1']: Da India.
[Foi. AYj, 1'-AYij, rJ: Prologo daquele que tralladou o Jlarco
pa ulo da liugoa ytaliana em latim.
[Foi. AYij, r- AYiij, 1']: Ta uoa dos ct:tpitulos do liuro pri-
mc:zro.
[Foi. j, r-xx.Yj, ;.] : Liuro primeiro de paul o, en1 sessenta
c sete capítulos.
A pagina recto da folhaj, onde con1eça o Lil'ro de   Paulo,
c profusamente ornan1entada. parte superior ha un1
lirnitadn por linha dupla; dentro do é desenhada uma nau
armada de artilharia c tripulada, naYegando sobre as aguas do n1ar.
Aos lados do rcctangulo ha duas tarjas co"n1 ornatos de anitnais de
fantasia e plantas. Ao n1cio cn1 corpo n1aior estú o titulo con1plcto
do liYro prin1eiro c do capitulo prin1eiro; c a seguir o principio do
capitulo prin1ciro.
As nlargens da pagina são cobertas COlll tarjas, as quacs
são adornadas con1 anin1ais de fantasia, ratnos c flores. canto
direito a tarja inferior é substituída por un1 escudo de linha dupla,
cujo can1po está cm branco.
lFol. XXYJ, r·- xx.Yij, 1']: ·Tauüa dos capitulas do liuro se-
gundo.
INTRODUCAO Vtt
.
[Foi. xxYiij, r- h·ij, 1']: Liuro segundo de .Jlarco pau/o) en1 se-
tenta capítulos.
[Foi. lviij, r c v J: Tauoa dos capítulos do /iuro terceiro.
lFol. lix, v- Ixx,·ij, 1']: Liuro terçeyro de ...l/arco pau/o, en1 cin-
coenta capítulos.
l Foi. lxx,·iij, r -lxxix, 1']: l.iuro de   Veueto. Prolu:mio.
!Foi. lx:\Í:\, J'- lxx'., r]: l)rologo de Pogioflorentim.
I Foi. lxxx, r-lxxxYij, 1'J: Liuro de .• Yicolao Veneto.
[Foi. hxx,·ij, 1'- xc,·, JJj: J)a 1'Ída e custumes da f{Cilte de Judia.
I Foi. xcYj, r- :\cYiij, r]: carta do ge1wues.
Enccrran1ento do liYro: Foi. xcYiij, 1'.
Na parte superior da pagina está mna estampa, que é a divisa
do impressor Valentin1 Fernandes-; esta diYisa ten1 por empresa un1
leão coroado assente sobre as patas posteriores, erguido, con1 a
cauda, en1 parte bifurcada, leYantada até ú altura da corôa, apre-
sentando un1 escudo sustentado por n1cio de uma correia con1 ti-
vela lançada por trüs da cabeça c ton1ado pelas patas anteriores.
1\o escudo corno muto está a letra \, en1 cujo angulo inferior tcr-
nlina uma haste que a dois terços da altura tcn1 un1a fita ou 1la-
nlula, c na parte superior uma pequena cruz. Do escudo pende un1a
fita con1 as letras ISY\\.H; por baixo da 1lta ha un1 olho, da qual
G.tenl cinco lagrin1as. A diYisa é cercada por unHl grega c depois
por un1a linha forn1ando rcctangulo. Por ti>ra do rectangulo ha tar-
jas adornadas de anitnais c aYcs de fantasia, c de plantas con1
H ores.
A letra V é certan1entc a inicial do non1e Yalentim do impres-
sor; n1as não saben1os a da legenda da ti ta.
O impressor jú tinha usado esta divisa no cncerran1ento do
livro Jfisturia de respasiauo, impresso por ele en1 I -+9().
A letra Y c a haste volteada da tlan1ula e ternlinada cm cruz
encontra-se no sinal publico feito pelo proprio Valcntin1 Fernandes
cn1 seguida ao registo da carta, pela qual cl rei D . .\lanucl o no-
meou interprete e corretor dos n1ercadores alemães, residentes en1
Lisboa, datada de :! 1 de feyerciro de I 5o3. rC/wnce/ari"a de/ rei
JJ. Jlauue/
7
Ii,·. 35, foi. 53.)
\III I N rtHJI>liCÁO
.
Por baixo da divisa segue-se a subscrição cm cc'rpo menor,
que tcrn1ina assim:
Imprimido per Jraleutym fernandci.. al/cmaão. l:"m a muy nobre
çidadc Lyxbo.1. l:"ra de Jlil c quinhentos c dous an1ws. Aos quatro
dias do mes de F'curcyro.
" :\o rosto do ... l/arco Paulo o impressor Yalcntim Fernandes de-
clara, que cl rei D. lhe concedeu o privilegio de que nin-
guem fazer a in1prcssão do mesmo livro, nem vendê-lo cm
todos os seus reinos c senhorios, sem licença do mesmo impressor
sob a pena conteuda na carta do seu privilegio. Esta carta, pro-
YaYeln1cnte ah·ará, não se encontra registada nos Ii vros que restam
da Chancelaria de/ rei D .  
O preço do livro foi taxado en1 cento e dez reais, como se de-
clara no rosto.
é sabido o nun1cro de exemplares da edição do
Paulo, n1as é de supor que fosse pequeno, con1o de todos os li,Tos
i111prcssos na prin1cira n1etade do seculo xn; com tudo o livro parece
ter-se espalhado não só no país, n1as tamben1 fóra dele. Do li,To
foi feita un1a tradução cm latin1 por Simon Grinaeus, impressa em
Basle cn1 I 53 2, no ;..\rovus orbis r e gionum (I); e dele se utilisou João
Batista Ran1usio para estabelecer a recensão italiana publicada no
segundo ,-olun1c das .1Yavigationi e l'iaggi, in1presso em Veneza em
I SSg (2).
Os exemplares do .... liarco Paulo são extren1amente raros; são
conhecidos os seguintes:
1. Biblioteca acional de Lisboa, resen-ado 43 I (antigo B-64).
2. Biblioteca Publica de Evora, Gab. E. 5.- C. 1. d. n.
0
26 (3).
3. Biblioteca :\acional de Paris.
4· .Museu Britanico de Londres.
(1) Yule. The book o! ser _\f.Irco Polo, I. p. g5 e g6.
(2) Yule, The book of ser J/arco Polo, I, p. g6 a 101.
(3) Antonio Joaquim Lopes da Silva Junior, Os reservados da Bibliotheca Publica
de El'or,l, Coimbra, •so5, p. 131.
INTRODUCÁO
• >
5. Biblioteca particular de Alfred H. Huth, Biddesden, An-
doYcr, Inglaterra (1).
:\a Biblioteca da Academia das Sciencias de Lisboa e:\.istc un1a
copia nú1nuscrita do .Jlarco Paulo, feita de un1 e:\.en1plar do in1presso
cn1 i ;J .Sn2 .. n1anuscrito ( n.
0
3, 1·... 1 o, 11.
0
3) é un1 liYro de
fonua{o ·de folio, de 14-G folhas ntm1eradas en1 293 paginas (falta a
pagina O liYro é de papel aln1asso branco, pautado de azul,
con1 n1arca de agua. Cada pagina cotnpleta tcn1 35 linhas en1 un1a
sú coluna, lin1itada por do1s traços a lapis deixando pequenas rnar-
gens. A letra é do n1eaJo do scculo ( 2 ).
(1) 1\lax B:ihme, J>ie grosseu Reises.wmllungen des 16. J,tlzrlumderls. und ihre Be-
deutung, Strasshu rp;. 1 p. 3.
(2) No fim do livro, ao fundo da pagina está escrita a lapis a seguinte nota do
encadernador.
Zeferino+·
Titulo pedido.
Na guarda lto fim está escrito a lapis.
Eugenio da Fonseca Peixoto.
Preço 2rJ.'t!moo.
O livro estLi. tendo as pastas e lombada cobertas de carneira de cór
de castanha com malhas; na lombada tem sobre carneira preta o titulo seguinte a letras
douradas:
Histori.t d.t /ndi.t I de Jl.trco P.wlo I e o lit•ro I de I .\'icul.w l'eudo.
Nesla copia corrigiram-se alguns erros da impressão, dc:sti;:eram se as abrevi.J.turao;
cm conformidade com a ortografia usual, c a algumas palanas deu-se a forma moderna.
r:: provavcl que esta copia t;nha sido feita com o intento de reimprimir o Jl.:zrco P.wlo.
Segundo informações prestadas pelo livreiro-editor Sr. Zeferino, esta copia foi feita
por uma pessoa, que tinha boa caligrafia, e a quem disseram que poderia facilmente ven-
de-la. O mesmo Ii,·reiro editor se encarregou de mandar encadernar o livro, o que se fez
no encadernador Lisboa, que te,·e estabdecimento no Largo lto Carmo .. \ copia foi feita
depois de 18tio.
11
INTIHJI>UC:AO
.
II.-() 1.\/J>RJ·:SSOR V.II./·,'.\"TJ.\1 FFJ<XA.\'/JI·:S (a)
O impressor do livro de Jlarco Paulo designa-se a si mesmo
pelo nome de Valentino de na subscrição do primeiro livro
da J ri/a Clzristi terminado cm 14 de .-\gosto de 149S; pelo de \. alcn-
tino de llH>ravia na subscrição do Ji,-ro da llistoria de Trespasiano,
terminado en1 20 de Abril de 1496; c por Valentim fernandcz alc-
nHtão na subscrição do livro ....\Iarco Paulo, terminado en1 4 de Feve-
reiro de 1 5o:!, c na dos Autos dus Apostolus tern1inados
cn1 1 G de Dezembro Je 1 5o5.
(I) :\l:erca dt: Valt:ntim Fernandes \'eja-se:
Diogo Barbosa Machado, Bibliotlzcc.t lusitana_. tomo III; p. 768.
lnoccncio F. da Silva, Diccionario bibliogr.tphico portugue;: tomo I; p. c 3y8;
tomo \'I, p. 128.
Antonio Ribeiro dos Santos, Jlemori.t sobre as origens d.1 typogr.tphia cm Portugal
110 secztlo xv: nas Jlemorias d.t litteratura portuguc;a da :\. R. S. L, tomo \'111. p. 1 - 7G:
e l'.Jemori.t p.tr.t .t lzistori.t d.t typogr.1plziJ portugue;a no seculo xv1, ibid::m; p. 77- q+
(dr. Venancio Deslandes), Do.:umentos par.1 .1 historia d.t t_ypogr.tplzia porwguer.t
nos xn e xv11. Lisboa; 188J-I882, p. 3 a 6.
V enanc i o Deslandt:s, Documentos par .:I a historia da typogr.:1phia cm Portugal no.;
secztlos xn c Lisboa; 1888: I. p. 1 a ;.
Xa,·it:r da Cunha, Xoticia de um precioso livro d.1 Bibliotheca S.tcion.tl de Lisbo.1
(Reportorio dos temposj, Coimbra; 1888.
Luciano Pereira da Sih·a. As t.tbu.ts nauticas portugues.1S e o Almmzach perpetuum
de Ztcuto. Coimbra. 1916.
Cond-: de Sabugosa. A R.1inh.1 D. Leonor. Lisboa, (1921). p. 3oo a 3o8.
Obras complet.ts do Cardeal Sar.th•a ( D. Francisco de S. Lui;). Lisboa; 1876, tomo
YI, 11.
0
13+
Gabriel Pereira. As ilh.ts do .ltl.mtico, chronic.ts de Valentim Fernandes, allem:io.
(Separata da Revist.1 Portugue;.t coloni.tl e m.tritima).
Gabriel P-:reira. Diogo Gomes, As relações do descobrimento d.t Guiné: e d.ts illz.1s dos
Açurcs, Jladcir.1 e C.tbo l"erde. (Sep3rata do Boletim da Socied.tde de Gcogr.tplzia de Lisboaj.
Dr. Schmdler. l eber l"alentin Alem.í, wzd seine S.wzmlzmg von .Y.tch-
ridzten iiber die Entdeckwzgen und Besit;ungen der Portugiesen in Afric.t und Asicn bis
;um J,tlzrc I5o8. :\lunchen. I8-t-7·
Friedrich Kunstmann. lr.1lentin Ferdin.m.is, Besclzreibung des ll"estkiiste Africas
bis ;um Senegal.
Ernst Volger, Die ,'i/tcsten Drucker wzd Druckorte der Pyren.iischen H.1lbinsel,
.\'eues Lausit;er .U.tga;in. Bd. 49·
von Hantzch. Dcutsclze Reisende des 16. J.thrhundcrts, Leipziger Smdien. 189S.
K. Haeblt:r, lberic.1 dei siglo XV, Leipzig, 1902. p. 72 e 73.
1\la:\ B"ihm-:. Die grossen Reises.tmmlungen der 16. J.tllrlumderts rmd ihre Bedeu-
twzg. Stra-.hurg.  
INTRODU CÁO 'XI

Yalcntim era o seu non1c proprio; Fcrnandci' c o patronimi(o
que ele adoptou ú n1ancira dos Portugueses, pro,·a,·cln1entc porque
seu pai se chanlé:n· a Fcrdinand; .\I ora ,-ia indica o paiz donde era
natural, 1\lührcn, na \ustria; cnfin1 era a denotnina\ã<>
porque usualn1cnte era (onhccido cn1 Lisboa ( 1) por ser natural da
A llen1anha. Yalcntin1 Fernandes ,·eiu con1 outros in1prcssorcs al-
lemães para l >ortugal   a sua profissão; não se sabe o ano
da sua ,·inda, n1as foi antes de 14-9<>.
\ alentin1 Fernandes estabeleceu-se en1 Lisboa   a sua
profissão de itnprcssor; primeiramente foi associado (0111 :\i(olao de
c imprin1inll11 Cl11 I 490 o BreJ'iario l:'borCilSL' <..'n1 latin1, c cn1
14-9S a Tí"ta C/zristi cn1 português. Depois, s<'>, in1prin1iu cn1 149G a
1 listoria de respasiano Cl11 português, cm I 5oo as obras de Cata/do
Siculo cm latim, cm 1 So2 o li \TO J1larco Paulo cm português. De-
pois novan1cnte associado con1 João Pedro Buonhomini, de Crc-
111<>na, imprin1iram cn1 1 5o-+ o Catecismo peque11o de doutrina, c
novamente só, in1primiu cn1 1 5oS os Actos dos .!posto/os cm por-
tuguês.
Por aln1rú de 22 de fevereiro de 1 5o3 el rei D .. \lanucl conce-
deu-lhe o pri,·ilcgio da in1pressão dos livros dos Regimentos dos Jui-
;:cs e Q!ficiaes ( 2 ).
El rei D. 1\lanuel contratou con1 Yalentin1 Fernandes, provavel-
111cntc cm 1S 12, a in1prcssão de mil cxcn1plarcs dos cinco Ji,Tos das
Ordenações; o primeiro <.los cinco Ji,-ros foi acabado a 27 de Dczcn1-
bro de 1512; c a impressão de todos os outros csí.a,·a tcrn1inada em
1 5 •-+; c os exemplares foram entregues ao Hospital de Todos os
Santos, ao qual cl rei O. \lanuel os doara.
\' alcntim Fernandes traduziu do castelhano, c pron.n·eln1cntc
in1primiu o Rcportorio dos tempos, do '-}tHtl todt.n·ia a mais anttga
impressão de que h a notícia é de 1 5 21.
(I) Cf. Schmellcr, obr.t cit.tda, p. 7-8. rclluü homem de Lagos, que se .:hama\'a Pcro
.\llcmam. nom sey se por sccr natural daquella terra de .\llemanha. se por alcunha que
lhe poscrom.u (G. E. de Zurara, Clzronica do descobrimento e conquist.1 de Guiné, p. 2tÍ2).
(·l) .\ obra conhecida. por impressões posteric,rcs. soh o titulo Regimento du as-
trol.Jbio c do qu.tdrmltc, de que os na,·egadon.:s se havi:\m '-\c prm er para as suas 'iasens.
fui impressa por ·
-----
I NTHOI>I ·ç.:\o
Valentim Fernandes não foi um merr' t:om pnsitor ti pografh:o
c impressor; parece ter possuído instruçã(, I iteraria,
dassi(a, mais do que vulgar. \lém Ja sua língua materna sabia
a língua latina, c suficiente conhecimento das línguas por-
tuguesa c castelhana. Traduziu do latim cm pnrtugues o /Jivro de
... Vicolao rendo, c do castelhano cn1 portugucs o Reportorio dos Tem-
pos composto por André de Ly, de Saragoça; traduziu, ou talvez
-n1clhor, c:\.trahiu de un1 livro cn1 latim as breves noticias acerca das
proYincias do titulo dei rei D.   isto é, de Ethiopia, Arabia,
Persia c India. Escreveu crn português o prolzemio da Vüa Clzristi,
a epístola c introdução ao Lil,ro de Jlarco Paulo, o prolzemio do
LiJ,ro de .. Y"icolao Veneta, c o prologo do Reportm·io dos tempos.
Como Valcntin1 Fernandes se interessava muito pelas desco-
bertas dos Portugueses (2), con1pôs cn1 portugucs uma obra, que tem
por titulo Chronicas das ilhas do Atlantico, con1prcendendo nela
ilhas Canarias, !\ladeira, Açores, Cabo Ycrde, S. Thomé e Anno
Bom. Esta obra é un1a con1pilação de noticias acerca das mencio-
nadas ilhas, que alcançou de relações escritas, e do que ouviu con-
tar a alguns n1arinheiros, e algun1as vezes refere os nomes dos seus
inforn1adorcs . .\lartim de Bohemia, que no con1eço do seculo XVI estava
en1 Lisboa, escreveu cn1 latin1 a relação que lhe fez Diogo Gomes, al-
n1oxarife do paço de Sintra, acerca do descobrimento da Guiné, e das
ilhas Canarias, Açores, Madeira e Cabo Yerde. Valentim Fernandes
juntou cn1 un1 volume n1anuscrito as duas mencionadas obras,
Chro11icas das ilhas do Atlautico, c as Relações de Diogo Gomes, pro-
vavehnente con1 intenção de o in1prin1ir, o que não teve efeito; mas
(2} Fernão Lopes de Castanheda. Historia do descobrimento e conquista da lndi.1
pelos Portugueses: liv. I. cap. xxviii) conta. que um Valentino dizia ter achado,
aos 9 dias de Agosto de I5o5. nas raizes do monte da lua, a que chamam agora a rocha
de Sintra, junto da praia do mar. debaixo da tres colunas de pedra tendo
cada uma em uma das faces letras romanas. que sómente em uma das colunas podt!ram
ser lidas, por as outras estarem gastas do tempo: e que as letras formavam um titulo e
quatro versos tudo em latim: em que a Sibila profetizava. que quando o ocidente vir as
riquezas do oriente. o Ganges, o Indo. e o Tejo seráo cousa maravilhosa de ver. segundo
outra narração as mesmas pedras haviam sido achadas se:s anos antes, ficando aban-
donadas na praia do rio das Maçãs. poucos dias antes de :\!icohu Coelho ter chegado a
Cascais, vindo diJ descobrimento da lndia com Vasco da Gama. do qual se apartara e
adeantara para dar a el Rei D. Manuel a noticia que seria tanto do seu agrado.
INTRODUCÁO XIII

o n1anu-;crito existe ainda na Biblioteca de 1\lunich. do qual foi
extraída un1a copia que está depositada na Biblioteca Nacional de
Lisboa ( 1 ).
Valentin1 Fernandes em I 5o2 era escudeiro da Rainha D. Leo-
nor, viuva de cl rei D. João II, e foi non1eado corretor e interprete
dos n1ercadores alcn1ães residentes en1 Lisboa, por carta dei rei D.
Manuel datada de 2 I de fevereiro de I 5o3; c en1 I 5o6 serviu de in-
terprete ao Dr. Jcronin1o   fisico dei rei D. Igno-
ra-se o ano do seu falecin1cnto, mas sabe-se que era falecido en1 4
de .1\laio de I 5 I 9 (2).
A assinatura c sinal publico de Valentim Fernandes existe cxa-
rada en1 seguida ao registo da carta dei rei D.   acin1a nlcn-
cionada, na Challcelaria do n1esn1o rei, liYro 35, foi. 53.
( 1) Gabriel Pereira, As illz.ts do .-ttl.mtico, dzronic.ts de l".tlentim Fern.mJes, alem:io:
Lisboa. s. d.; Diogo Gomes, As rel.tções do descobrimento d.t Guiné, e J.ts i/lz.ts dfJs .lço-
res, .\!.tdeir.t e Cabo Verde; Lisboa. 1899·
(2) Consta por um auto de demarcação dos pinhais de D. Isabel de \lbuquerquc.
cm .\lhos Vedras, datado de 4 de 'laio de 1519, que o pinhal do Esteiro pania com her-
deiros de Valentim Fernandes. e çom outros de: 1.>. Isabel de: .\lbuquc:rque. (.·lrchi,•o llistu-
rico Portugues, vol. p. 160).
'\I\' I NTHOI>UC:ÃO
.
III.- F/·.".\"1   IJI·: (JI E /'R() /.\/F/J/.1
1 /R. l/H ·(:.to 1'01< /"CGl "J·."S.l /J() .\/.lRC(J /'AI L()
C:onforme declara o proprin \·alentim Fernandes (foi. Aij, v),
os capitulo'\ relatiYos ás pnn·incias do titulo real de D .. \lanucl,
e, acerca da Ethiopia, \rabia, Persia c lndia, foram tirados (tradu-
zldos) para a linguagcn1 portuguesa, de um livro cm latim, que foi
enYiado de Hnn1a a cl rei D. João II. Este liYro certamente foi incor-
porado na li Yraria real, c é de presumir que \T alentim Fernandes o
lesse ali no ten1po etn que se ocupava da in1pressão do Jfarco Paulo,
isto é, pelos anos de 1 5o 1 c I So2. São conhecidos os títulos dos
liYros que constituian1 a livraria dei rei D. em I 522, por um
n1anuscrito atualn1entc depositado no Arquivo 1 Casa da
Coroa n.
0
I 58). Entre os liYros n1cncionados cncontran1-se os se-
guintes (I) :
1 o. Liuro da terceira parte do Especulo estaria/, em latinz, coberto
de J'eludo roxo, com !mas brochas pequenas de prata.
9S. Liuro grande Tolomeu esprito de pena enz purgaminlzo.
possível que Yalentin1 Fernandes coligisse destes livros as
noticias acerca das n1encionadas regiões, Ethiopia, Arabia, Persia e
lndia; comtudo con1o ele pron1ete a tradução con1pleta do mesn1o
liYro que era escrito en1 latin1, não parece pro,·avel que fosse nenhun1
daqueles que acima são n1encionados.
Paulo, de Yeneza, fez as suas viagens pelas terras do
oriente nos anos de 1270 a 1296; c quando depois de voltar a Ye-
neza, foi feito cativo na batalha de Curzola, c levado para Ge-
nova, ele ditou a relação, do que vira e ouvira acerca das gentes e
paizes do oriente, a Rusticiano de Pisa, seu con1panheiro no carcere
do cativeiro, o qual a escreveu en1 francez. Esta primeira redação foi
trasladada en1 língua toscana, e desta passada a latin1 por Frei Fran-
cisco Pipino.
(t) Sousa Vitcrbo. A livraria real. especialmente 110 reinado de D. JI.muel, Lisboa:
19o1, p. 13 e 23.
XV

Frei Francisco Pipino, natural de Bolonha, religioso da Ordem
dos Pregadores, fez a versão latina da relação da viagen1 de
Paulo, cn1 cumprimento da ordcn1 dada pelos seus superiores, pro-
vavchnentc no Capitulo geral da Ordcn1 celebrado en1 Bolonha cm
I 3 I 5. Frei Francisco Pi pino dividiu a sua obra cn1 trcs li,-ros, pondo
no principio do primeiro livro a parte que constitue a introdução.
O pritnciro livro consta de sessenta c sete capítulos; o segundo de
setenta; c o terceiro de cincocnta; n1as faltan1 no fin1 da obra os ca-
pítulos n1eran1cnte historicos. Parece que esta versão latina fói feita
pelos anos de I 32o, isto é, nos ultin1os anos de vida do proprio
1\larco Paulo. O texto latino é redigido en1 forn1a de con1pcndio ou
rcsun1o, c contcn1 algmnas incxatidõcs.
A versão latina de Frei Francisco Pipino foi in1prcssa cn1 Lllll
voltnnc de 74 folhas de fonnato de 4.
0
, scn1 titulo ncn1 paginação. c
com os n1csn1o tipos con1 que foi itnpresso o Iti11erarium de Jc:mz
de Jlandc:JJille, isto é, por (icrard de Lccn, cn1 Anvcrs, pelos anos de
1485. Este hvro é extremamente raro, c a mais antiga versão latina
que se conhece; c:\istc na Biblioteca :\"acional de Paris, o-2- I, Hé-
scrvc. Desta versão latina e>..isten1 l-ii versos na Biblio-
teca de S.   de Veneza, Cla. X, cod. lat. LXXll; no \luscu
Britanico, Harleian .\lss. 5t 15, Arundcl XIII.
A versão portuguesa do LiJ,ro de _jfarco Paulo foi feita do tc"\.to
latino de Frei Francisco Pipino, cotno claran1cnte resulta do pro-
logo de Frei Francisco Pipino. cuja tradução precede a versão por-
tuguesa. C01no o texto latino, a versão é tatnhcnl divi-
dida cn1 trcs lin·os; o primeiro tcn1 sessenta c sete capítulos, o
scgttndo setenta, c o tcr("eiro cincocnta. A versão portuguesa é pois
con1plcta. Tanto quanto se pode a,·aliar pela ("Onlparação do te-xto
latino con1 a versão portuguesa na parte correspondente ao pro-
logo, aos prin1ciros quatro capítulos do livro prin1ciro, c ao cap. :\iij
do li' ro terceiro, unicos cujo tc:xto latino alcançamos, a versão por-
tuguesa é a tradução literal do texto latino de Frei Francisco Pi-
pino, scn1 outras tnnditicaçõcs que as usuahncnte l'111prcgadas pc-
los escritores portugueses do scculo X\", que traduliranl obras da
lingua latina.
O Li1•ro de ... \7colao Tpcndo é a da relação da viagem
• •
li
I
'\ \ I h I I<OIJLJC" AO

que '\icolo dei Co11ti, natural de \"cnc;a, fc.1. a JnJia na primeira
tnetadc do scculo x , .. Esta rclaçã(J foi escrita cm latim por
Braciolini, natural de Florença, c Jo papa J:ugcnio 1\.
( 1 43 1-144 7), c por ele na obra l}l a c compús cm latim, inti-
tulada Ilisloria de J'aridale for/una•; aquela obra compreende não
sú a narração Ja ,·iagcnl llllc :\icolo dei Conti, fel á lnJia,
cmno as noticias que ao n1esn1o Poggio deu acerca da vida c cos-
LI.JlllCS Jos lndios; Jnas tmnbcn1 as acen:a da Tartária,
que o mcsn1o Poggio obteve Jc um homem que veio a Florença,
c a1irmava ter sido cn,·iado ao papa pelos christãos da sua terra;
c c1ntin1 noticias acerca da Ethiopia, que Poggio tamben1 obteve
de alguns hon1ens naturais deste país, que vieram a Florença, c
alirmantm scrcn1 enviados ao papa pelos christãos da sua terra
para tratar das cousas da fé. A relação de "'\icolo dei Conti foi
impressa en1 latim pela prin1cira vez cm 1492, sob o titulo de ln dia
rccognita, seu De JJarictatc fortuna!; mas a obra completa de Poggio
sún1cnte foi publicada, segundo un1 manuscrito de I 4So, sob o titulo
Historia de J'aridate .fortuna:, en1 Paris en1 I 72J.
O LiJ•ru de .1\Ticolao T"eneto é uma tradução muito verbal do
texto latino da relação con1posta por Poggio Braciolini, provavel-
nlente feita sobre u edição impressa en1 I 492; e as pequenas dife-
renças, que se notan1 entre o texto e a versão portuguesa, deven1 ser
consideradas con1o liberdades que os tradutores daquela epoca se
pcrmitian1. Se na Yerdade a tradução da relação de Kicolau Veneto
foi feita pelo proprio Yalentim Fernandes, con1o ele declara ( 1 ), e de
crer que tenha sido corrigida por un1 letrado que conhecia bem a
linguagen1 portuguesa, porque nela não se notam os barbarismos,
que se obscn·an1 etn outras obras escritas pelo impressor Yalentim
Fernandes ( 2 ).
A Carta que Jeronimo de santo EsteJ•am escrCJ'ell de Tripoli a
Jolzam Jacome       em a I de seten1bro de 1499, contem
a relação da YiageJn que o n1esn1o Jeronin1o de santo EstcYam fez
(1) Veja-se o Prohemio, foi. 78, J'.
(2) Cf .. ls ilh.1s do Atl.!lllico, chronicas de Vale111im Fcnz.mdes, allem:iu, publicadas
}"H Gabriel Pereira, Lishoa. na Re1•ist.1 Portuguesa, coloni.1l e 11z.1ritima.
INTHOr>UÇÃO XVII
cm con1panhia do seu con1patriota .leronimo -\Jorno üs rcgic>es das
Indias orientais ( 1 ) .
.Jeronin1o de santo Estc,·an1 c .leronin1o \dorno cran1 nego-
ciantes Genova, que empreenderam a viagen1 pro,·avehnentc
levados do desejo de visitar as regiões, donde pro,·inham as nlercado-
rias indianas, sohre tudo_ as especiarias c as pedras preciosas. Par-
tiram de Gcno,·a pelos anos de 149-1-, c depois de n1uitas ,·icissitudcs
atingiram o Pcgu, onde faleceu Jcronimo Adorno a 27 de dezembro
de Jeronimo de santo Estc,·am, de regresso ao seu país, es-
te\ e cn1 Tripoli da Siria, donde a 1 de scten1hro de 1499 escrcYcu
ao seu an1igo Joáo Jacon1e 'laycr, que estava en1 Bairut, c pro,·a-
,·elnlcntc dali ,-cio para Geno,·a.
Jcronimo de santo Estevam parece ser o mcsn1o que o patrício
Nicolo Oderigo recon1endou a Cristovan1 Colombo, para que o faYo-
rcccssc, como se depreende da carta deste de 2 1 de n1arço de 1 So2.
De Jeronin1o Adorno não ha outras noticias que as contidas na
carta; pnn·aveln1cnte pertencia ü patricia Adorno, da qual
trcs irn1ãos ,-icranl para Portugal no principio do scculo xn, c de-
pois se estabeleceram no Brazil, onde se dcdican1n1 ü planhh;ão da
cana de açucar c ü cxtraçáo dele, com o que adquiriran1 grandes
nquczas.
O non1e do dcstinatario da carta é na Ycrsão portuguesa Joham
Jacon1c mas Hamusio corrige 'laycr cm ;\laincr, no que é se-
guido por De Gubcrnatis, .\n1at Jc S. Filippo e Prospero Pcragallo.
A troca do non1e explica-se supondo que no original a
palavra \layncr era escrita c que o con1positor tipogratico.
por não ter a letra _f, cn1pregou _r-, assin1 con1o náo tendo 'i conl-
põs pãiço cn1 ,-ez de paíço (2); c que, sendo \'alcntim Fcrnanl.ics alc-
nláo, lhe era mais conhecido o apelido 'laycr que \layncr. O apelido
era usado de algunHlS famílias de Gcnova; c é provavel que
alguma pessoa de fmnilia deste apelido recebesse a carta do seu pa-
1 1) Prospero P.:ragallo. Vi.lggio de Geronimo Je S.mto Stej.:mo e di Jeronimo
.ldorno m /ndi.t 11el r .   no Bolletitw ddl.t Soâel.l Geogr.tfic,l /t.t(i.nl.1. H om
• p. 2f-f0.
l:!) Yeja-sc li' ro prinwiro. cap. :\.ÍX c 'ü'iiij,
"\\'III I "'\THOUI JCÁO
.
rente .loham Jacomc .\laynl:r, c que uma copia, ou P('r
\·cntura o original, a algum seu contcrranco cstahclcciJo cm  
como negociante, c este a comunicasse ao irnprcssor Valentim Fer-
nandes, que inseriu na sua obra a tradução portuguesa.
"
INTRODUCÃO

IV.- CO.\IU O LIJ"RO DF: JIARCU P.-lf"I.O FOI TRAZIDO -l POR.Tl'G.tL
O LiJ,ro de 1\farco Paulo foi conhecido cn1 Portugal na prin1cira
n1etadc do seculo xv, certan1entc pela versão latina de Frei Fran-
cisco Pipino. Cnn1 efeito na relação dos livros do uso dei ret
D. Duarte (1433-1438), que é contida no Codicc da Cartuxa de
Evora, le-se a seguinte Ycrha ( 1):
.Jiarco Paulo latim e lingoagenz em hum J'olumc.
Conforme a un1a tradição corrente cn1 Lisboa no tln1 do scculn
-xv, c referida por Yalentin1 Fernandes, o LiJ,ro de ...\[arco Paulo foi
trat.ido para Portugal pelo infante D. Pedro, filho dei rei D. João I.
Eis cnn1o Valcntin1 Fernandes refere esta tradição na epistola
dirigida a el rei D. (2): cc Sobre csto ou ui nesta vossa çidadc
Rcy prudcntissin1o. que o presente liuro os \ cnczianos teucron1 es-
condido n1ujtos annos na casa do seu thcsouro. E no tcn1po
ho llfante Don1 Pedro de gloriosa n1en1oria vosso tyo chegou a Yc-
nct.a. c dcspois das grandes festas c honrras que lhe foran1 fcit<.ls
pcllas liberdades que ellcs ten1 nos vossos rcgnos. con1n por ho cllc
n1ercçcr. lhe offercçcron1 cn1 grande presente o dito liuro de
paulo. que se regesse por cllc. pois descjaua de vccr c andar pcllo
n1undo. Ho qual liuro dizcn1 que esta na torre do   c csto se
assy he qucn1 ho sabcra n1elhor que a Yossa real Senhoria,,.
Esta tradição é verdadeira na parte que respeita ü cxistcncia
do liYro de Paulo na liYraria dei rei n . .\lanucl. Conl efeito
no inYctltario do guarda roupa dcl rei D . .\lanucl, H.uy Leite con-
fessa ter recebido, en1 23 de dczcn1bro de 1 5 22, entre outros artigos
o seguinte (3):
Item. Outro liuro de letra de pena que se chama Jfarco Paulo
coberto de J'eludo cremcsym com Ju.1s brochas de prata anylada.
O tnodo de encadernação deste liYro n1ostra que era tido cm
grande cstinu1çãn, provaYeln1entc por ter sido dado a rei ou príncipe.
(1) Nacional de l.ishoa. Cod. foi. :\1i.
(2) .\I,Jrco PLTulo, fui. Aiij. v.
{3) .-lrchivo historico portu;; uc:;, vrJiumc II p.
11
I Ã<)

() li,To cm latim era sem duYida da 'cr-,ão latina de
Frei Fran(isco Pi pino, feita pelos de 1 c que muitc, se vul-
garisou cm ltalia, c depois f(,j impressa cm A parte do livro
cm linguagem   era a Yersão do texto latino de Frei
Pipino, á qual cstén·a junta.
Depois do reinado dei rei O .. \lanucJ não ha notióa do
LiJ•n, de Jlarco Paulo, que pertenceu á Ji,Taria real, e atudln1cnte
nJo existe na Biblioteca da Ajuda. é sabido de todos grandes
,.i(issitudcs porque passou a liYraria real; alén1 das partilhas que
se 1izcram por n1ortc de alguns reis, contribuiran1 para desbaratar a
antiga liYraria real, a anexação de Portugal a Hespanha, a
dos cxercitos de 1\apolcão, a ida da família real para o Brazil, c os
tren1ores de terra c os incendios que se lhe seguiram. proYa,·cl
que cm 1101a destas perturbaçóes o liYro desaparecesse; c não
ha noticia da sua cxistencia f<>ra de Portugal, é de presumir que
fosse destruido pelo incend i o de 1 7 55.
INTRODUCÃO XXI
>
V.-Al'TOR D.l l.ERS.ÍO PON.TCCl't:S.l DU LH'RO MARCO PAI LO
:\áo se sabe ao certo '-lucn1 fosse o autor da Yersao por-
tuguesa do Lil,ro de Jlarco Paulo. Esta tradw;ão é atribuída por
alguns escritores ao prnprio infante n. Pedro (I); c de n1CSI110 diz '-}UC
para C<.lYalciro c náo letrado, entendia ral.oaYdnlcntc o latim (2);
segundo refere Huy de Pina, o D. Pedro ccfoy ben1 latinado,
c assaL n1ystico en1 cicncias c doutrinas de letras, e dado tnuyto ao
estudo; cllc tirou de latin1 cn1 linguajcn1 o Regimento de  
que Frcy Gil Corrcado con1pos, c assy tirou o li,-ro dos Ojl)--cius Jc
Tullio, c Ycgccio De lle .Jlilitari, c cmnpos o liYro se di1. da
J rirtuosa Ben!fe_yturia COlll Ullla a qualquer L"hristão 111UY
proycytosa" (Cizrunica de ]). ca p. 1 2 5) (3). &\ de
outras obras esc ri tas cn1 latin1 encarregou a alguns letrados da cork,
principaltncnte ao Dr. \·asco Fernandes de LuL"cna (-tl En1 ao
LiJ,ro de Jlarco Paulo náo ha nenhun1a noticia positiYa; n1as con:-.i-
dcrando a extensão de:-\ta obra c o seu especial assunto, é pro,·ayd
que t(>ssc tradu1ida cn1 linguagcn1 portuguesa por ordcn1 dele, n1as
por algum dos seus letrados.
Antonio H.ibeiro dos Santos é de parecer '-}llC o /Jh•ro de Jlwco
Paulo, e o de l\icolau \·cneziano, c a carta de un1 gcnoYês f(n·an1 tras-
ladados cn1 linguagen1 pelo in1prcssor Valcntin1 Fernandes (5).
O Card\?al D. Francisco S. Luiz diz, que scn1 cn1bargo de
( 1) llm manuscrito dei las (das Viagens dt: :\hrco P.aulo] füra otft:n.:cido de
1 ..pX ao infante D. Pedro. que o depositou na li' r.1riu de seu irm;í.o cl rei
panh<mlio CStl! C\.cmplar latino com uma \ crsáo sua, 'iUC i.llll.h\ .I .adjunta. ( rcoliltJ Braga.
Poet.rsp.1i..Tci.mos. Porto. 187.!. p. 1q.).
(2) C. 1\l. dt: \·asconccllos e T. Braga. Gesdzichte ,ler J>m·tugiesisdtetz l.illt'r,rtur.
p. :q.ti. n. 9·
(3) l'ma copia Ja.. traduç;ío do linu oj/iâis Tullio pelo infame 1>. Pcdru
na livraria da Academia Real de llistoria em :\l..tdrid (O Li1•ro ,f.l .. r Rt•m-
Jeitoria do l11j.mte D. Pedro, Porto. prologo de José Pereira de
(4) O li, ro Je Cícero I>e Seuet·tutc!, c o P.megirico .fe Ji·.rj.mo ror Plínio toram
tradu.t.idos pelo Dr. Vasco de li, rode Ciccro /)e .lmidti.t foi tra-
duzido pelo prior do Com t:nto Jc S. Jorge de Coimbra. (Gt•schic:llte der
l.itter.llur. p. 3-t-6. n. -h S. 6).
(5) .Hemori.t p.tr.:z ,t /zi:;tori.t .f,r tipogr.tphi.t portu;: llt'S.t 110 sc?culv \.\ 1. p. Cf. Conde
Sabugosa, .1 R.tiulz.t l>. Leonor. p. c Jo1.
XXII h IHOUU(' ÁO
parecer pelas que se Icem na rubrica Ja cpislola dirigida a
cl rei I>. \lanuel, que \ alcntin1 Fernandes foi o traductor do  
de .Jlarco l)auln, tem por nutis pn)\·avcl yuc não escreveu senão
a l'fÍslula c a introdução do mesmo liYrt!, c que o corpo da r,hra foi
traduzido por outrem, c é Jc data n1ais antiga ; c Já cnn1o razão
encontrar-se no catalogo dos Ji,-ros do uso dei rei D. Duarte lnen-
cionado un1 volun1c do LÍJ'ro de Jiarco Paulo por linguagem; c que
"
se esta é, con1o parece a tradução in1pressa cm 1 So2, não é vcrisimil
que a n1es1na tradução fosse feita por \"alcntin1 Fernandes cerca de
setenta anos antes do tempo em que ele a imprimiu ( 1 ).
Innnccncio Francisco da Sih·a diz que não é provaYcl que o
impressor Yalcntin1 Fernandes, que haYia pouco tempo viera para
Portugal, tivesse adquirido conhecimento para empreen-
der por si n1csn1o a tradução do LiJ,ro de .Jiarco Paulo; c que
tah·ês se servisse de algum manuscrito que lhe fosse confiado
da liYraria real, onde existia cm um manuscrito a tradução cm 1in-
guagen1 portuguesa do Li1
1
ro de ... liarco Paulo desde o tempo dei rei
D. Duarte (2).
1\lax Bohn1e atribue, con1o era de esperar, a tradução por-
tuguesa do LiJ,ru de Jiarcu Paulo ao proprio impressor Yalcntim
Fernandes, acrescentando que a fizera nas suas horas de des-
canso (3).
O in1pressor Valentim Fernandes declara, que os capítulos rela-
ti,·os ás províncias do titulo rial, isto é, Ethiopia, Arabia, Pcrsia
c India, foran1 tirados por ele de um liYro em latin1 para a lingua-
gen1 portuguesa, e pron1cte trasladar todo o n1esn1o liYro, quando
esteja desocupado, e se tiver reconhecido que a sua trasladação não
é desagradaYcl (Aiij, JJ). Egualn1cnte na rubrica do prolzemio do Li-
J'ro de JYicolao Veneta, tan1ben1 Yalentin1 Fernandes diz ter trasla-
dado do latin1 cn1 linguagcn1 portuguesa o n1esn1o Livro de 1\ ... icolao
r .. ellefo; C 110 prolzemfo declara que trasladou e ajuntOU este }iYrO ao
de Paulo por julgar fazer serYiço a el rei e aos seus subditos
(•) Obras completas do Cardt•al S.-zr.tiva (D. Francisco de S. Lui:;). 187G,
tomo VI: 11.
0
13+
(2) Diccwn.trio bibliographico portugues. tomo '"'· p. 128.
(3) l\lax Bühme. Dze grosscn Reises.wmzlzmgen wzd ihre p. 5.
fNTH.ODUCÂO XXIll

(tol. 78, P). Analoga declaração se faz na pagina verso da folha de
rosto do Reportorio dos tempos (edição de 1 55 2, por (iern1ão < ialhar-
do), c certan1ente estava no rosto da prin1itiva edição; naquela se
diz q uc foi trasladado do castelhano en1 portugues por Valcntin1
Fernandes, alen1an1 ( 1 ).
A rubrica da epistula dirigida a el rei D. !\lanucl con1eça assin1:
(( Con1eçase a e tola sobre a tralladaçan1 do liuro de arco Paulo.
Feita por Valentyn1 Fernandez t.•scudcyro da exçcllentissin1a l{aynha
Dona Lyanor. Enderençada ao Scrcnissin1o c Inuictissimo Hcy c Se-
nhor Don1 En1anucl o prin1e) ro. » As palavrasfí:i/a c endcrenrada são
coordenadas; c se a palavra feita poderia rcferír-se tanto a epistola
con1o a lralladaçam, a pala' r a cndercnçada destaz a l.ILI\ ida. c n1os-
tra que a epistola foi feita por \. alcntin1 Fernandes, c não a tralla-
dacam.
>
Con1tudo en1 nenhun1a passagcn1 do Lil'ro de Jlarco Paulo,
ncn1 na epístola a el rei D .. \lanucl, nen1 na introduçâo do /Jivro de
},[arco Paulo, diz que ele fez a tradlh;ão do [iJ,ro de Jlarco Paulo, nu
qucn1 a tez. Ainda declara no prohemio do LiJ'ro de rc:neto
qne se lhe fazia Inuito gn1vc, isto é, lhe era ri1uito diticil traduzir do
lati1n cn1 linguagem portuguesa, por desconhecer a signitkação Jos
,·ocabulos. E na carta cn1 q uc dedica a . \ntonio Carneiro, secreta-
rio dei rei D. 1\lanucl, a tradução do Reportorio dos tempos. diz:
«Detrrn1inci entretanto de trasladar este presente Reporlorio [dos
tempos] de Castelhano cm Portugucs sendo cu alhco en1 a lingoa.
n1ais que en1 a vontade, trabalho recebo nisso querendo cu apro-
veitar aos sin1prizcs que en1 a lingoa não san1 tan1 es-
pertos.» (2)
Cotnparando a linguagcn1 da versão do !Jil'ro de
Jlarco Paulo con1 a do /Jeal Conselheiro dei rei D. Duarte. escrito
antes de t-t-38, c con1 a da Cronica do descobrimento e conquista de
Guiue por Gon1es de Zurara, concluida antes de t-t-53, re-
conhece-se que a linguagcn1 da versüo portuguesa do Lil'ro de Jlan.:o
( 1) XaVJcr da Cunha, 1Yotic:i.t de um precioso livro d.t Biblioteca \",rc:ion.tl de Lisbo.r,
( Reportorio dos Tempos por V.rlentim Fernmrdes .tlem.wr.I.ishoa. 15 5:!). Coimhra,   p. ti.
(2) Reportorio do<; tempos. de 15ri_l, foi. 1. v. (Hcsen ado da Biblioteca :\a-
cional n." .ft)O).
X\IV 1 JH Wl1C Ão
.
}Jaulo c mais moderna do que a Por outra
parte como na vcrsJo do I.ÍJ'nJ de \/arco }Jaulo 'c
observam formas de uma mesma palé.n-ra,
a cpocas diferentes da lingua portuguesa ( 1 ), é licito yuc para
a impressão da ,·crsão portuguesa do /.iJ•nJ de ...\!arco }Jaulo, o impres-
sor \'alentim Fernandes se scn·iu de algum copia do
que existia na lin·aria real, cuja escrita foi modificada para a púr
ern conformidade com a linguagem usada no tempo da impressão,
ficando, por lapso ou descuido do escri,·ão da copia ou do rcYisor, as
fornu1s antiquadas que se encontram no Ji,-ro impresso.
De tudo o que fica dito conclue-se que a tradução do LiJ,ro de
.J,.),farco Paulo impressa não foi feita por \' alentim Fernandes, porque
se ele fosse o tradutor, tc-lo hia declarado, como fez para os n1cncio-
nados capítulos, c para o LiJ,ro de   T'"eneto, c para o Reporto-
rio dos tempos. Deve ainda obsen·ar-se, que esta conclusão é con-
firmada pelo facto de se cncontraren1 na versão in1pressa do Li1'1·o
do Aiarco Paulo as frases: Cambalu em nossa fingoa quer di1_er a
cidade do senhor Oiv. II, cap. x); Quinsay. que quer dii_et· em nossa
lingua çidade do çeeo (liv. II, cap. lxiiij); sollzado, que se chama e11tre
nos cuberta (li v. III, cap. j); que era chamado em a nossa lingoa Velho
(liv. I, cap. xxviij); que não poderian1 ser usadas por Yalentim Fer-
nandes que era alen1ão, pois que se a tradução fosse dele diria:
que em lingoagenz portugues quer di{er, como se lê na rubrica do
prohemio do LiJ,ro de .1\Ticolao T"eneto. Alén1 disso a linguagem e es-
tilo da Yersão portuguesa do LiJ'ro de .... \Iarco Paulo revelam, que o
seu autor possuía conhecin1ento da língua portuguesa e cultura !ite-
raria n1uito superior á do autor da epistola e introdução do Livro de
Paulo e do prohemio do LiJ•ro de .• Yicolao Ve11eto.
Por outra parte sabe-se que Yalentim Fernandes era muito
aceito da rainha D. Leonor, YiuYa dei rei D. João II, e irmã dei
rei D. N1anuel, e da qual se intitulaYa escudeiro ( 2); pode pois su-
por-se con1 grande Yerisinlilhança, que, por interyenção da n1esma
(1) Como por exemplo pouoraçom e pouoaçom (liv. I, cap. xx), arçam do verbo
arder (liv. II. cap. lxiiij) e feçam do verbo feder (liv. III. cap. xv).
(:l) Yt:jam-sc as rubricas da episto/.1 e do prolzemiú do Livro de Sicolao lreneto.
{r-;THODLJCAO

rainha O. Leonor, o in1pressor \'alcntin1 Fernandes akançassc un1a
copia da antiga versão portuguesa do IA.J'ro de .Jlarco Paulo, que
existia na livraria rial. Todavia no fin1 Ja introdução do 1JiJ
1
nJ de
.J.l!arco Paulo (Aiij r, J') parece deprcenJcr-st· que o in1prcssor nüo se
sen·iu, para a impressão, do n1anuscrito en1 linguagen1 portuguesa.
que andava junto do livro e1n latin1. c existia na livraria real
o tcn1po Jcl rei D. Duarte.
A suposição, de que a Yersão portuguesa do LiJ'ro de ...\/arco
Paulo foi feita pelo in1pressor Yalentin1 Fernandes, parece que
abandonar-se, porque nela se obscrvan1 forn1as   de algu-
nlas palavras, c não se notan1 os barbarisn1os que são trcqucntcs en1
utna oh r a escrita pelo im prcssor \ alentin1 Fernandes ( 1 ).
(t) .-ls ilhas do .ltla11tico, chro11ic.ts dt• l .1le11tim Fern.wdes, .11lt•m.1o. por
Gahriel Pereira. l.isboa. separata do n.
0
3:z a 311 da Re1•ist.1 a•loui,II e m.1ritim.t.
J\.X \ I Jr.n IH>I>IiÇÁO
VI-     IJ() //\FAX'/ /J. fJ/·.'J)JU) ft)
O infante 1>. Pedro, quarto filho dei rei D. João I c da rainha
D. Filipa de LcnLastrc, nasLCU cn1 Lisboa a 9 de dezembro de 1392.
:\a sua adolcsccncia recebeu cuidadosa educação moral c religiosa,
c no cxcrLicio das letras c das arn1as. Acompanhou cl rei pai
na frota, con1 que empreendeu a conquista da cidade de Ceuta, indo
"cotno capitão das galés de alto bordo. Depois que a cidade de Ceuta
foi tomada cm 2 I de agosto de 14 I 5, cm do n1csn10 foi armado
cavaleiro por cl rei seu pai na mesquita da n1esma cidade que tinha
sido consagrada cn1 igreja. Quando a frota regressou ao reino, cl
rei con1 os infantes c fidalgos desembarcaram cm Tavira; c ali o in-
fante D. Pedro foi feito duque de Coin1bra. Em 1 1 de outubro de
1420 el rei fez-lhe doação da vila da Covilhã, c dos lugares de Tcn-
tugal, Pereira, Condeixa c Monte-mór o \'elho. O infante D. Pedro
pelo seu genio e pelo seu aspeto tinha grandes semelhanças cotn
a rainha D. Filipa de Lencastre, sua n1ãe; era honesto, prudente c
de grande autoridade; e o chronista Ruy de Pina (Cizronica de
D. Afonso cap. 1 2S) descrevendo as suas feições, diz que o infante
D. Pedro tinha «Os cabelos da cabeça crespos, e os da barba algum
tanto ruyvos cotno Y ngrés».
Levado do seu genio cavaleiroso ( 2 ), tendo alcançado licença
(1) Acerca das viagens do infante D. Pedro veja-se:
Leal Conselheiro por el rei D. Duarte, cap. 43 e 44·
G. E. de Zurara, Cronic.r do Conde D. Pedro, li v. cap. 13, 27 e 38.
D. Antonio Caetano de Sousa. Historia genealogica da Cas.1 re.rl Portugues.1.
tomo II, Lisboa, 17J6, p. 69 e seguintes.
Oliveira Martins, Os filhos de D. Jo:io I, 2.
8
edição, tomo I, p. t 1S e seg.
Chronica do Inf.mte D. Pedro, por Gaspar Dias de Landim, Lisboa, 1882.
Resumo /zistorico da vida, ações, morte e ja:;igo do Infante D. Pedro, duque de Coim-
bra, Regente do rei11o de Portugal na menoridade de el rei D. A.ffonso V, pelo .\bbade .\.
D. de Castro e Sousa, Lisboa, 18-4-J.
Cma obr<l inedit<1 do Condestavel D. Pedro de Portugal, (Tr.1gedi.1 de l.r hzsifJIIC
reina Doíi.1 Isabel), publicada por Carolina Michaelis de Vasconcellos, na Homenaje .i
.\lenender )" Pelayo, Madrid, 18gg, tomo p. 637-7h, especialmente p. 67o-68o.
Sousa Viterbo, Dois companheiros do bifante D. Pedro, na Revista militar, tomo 5-+
(1902), n.
0
21, p.
(2) A obra conhecida pdo titulo de Livro do Infante D. Pedro de Portugal, o qu<ll
andou .rs sele partidas do mwzdo, por Gomes de Santo Estevão, hum dos doze que foram
INTROI>lJCÁO XX\"11
,
dcl rei seu pai, ofereceu os seus serviços ao in1pcrador Segisnumdo.
rei da Hungria c da Bohcn1ia, cujos estados cran1 an1caçados pelos
Turcos.
O imperador Scgisnumdo aceitou o ofcrecitnento, c por carta
datada de 27 de fevereiro de I-t-I8, feita cn1 Constancia, doou ao
infante D. Pedro o ducado (marka) de Treviso ( 1) a ele c seus des-
cendentes, con1 o soldo anual de 20 mil ducados ou florins de ouro
a contar do dia cn1 que o infante partisse de Portugal para a corte
da Hungria. O infante não prestou pcssoahnentc o juran1cnto de
vassalagcn1 ao in1perador, tnas deu procuração a João Telles para
esse fitn, o que este fez totnando conta do ducado en1 non1e do infante.
são conhecidos os tnotivos '-}liC rctiveran1 o infante en1 Portu-
gal; n1as é certo que ele não saiu do reino senão en1 1425. O in-
fante D. Duarte seu innão deu-lhe un1 conselho por escrito, c
D. Pedro partiu con1 pouca tenção de voltar a Portugal.
O infante saiu do reino cm 1-1-2 5; con1 ele foran1 alguns fidal-
gos, entre os quais cnlnl Alvaro Vaz de .Alnulda. c;onçalvcs
de Ataidc, c alguns hon1cns de armas, entre eles Vasco Pires Gantc,
de Elvas, que era escudeiro dcl rei D. João L
O infante dirigiu-se de Portugal para Inglaterra, onde foi hon-
radatnentc recebido c festejado por cl rei Henrique Yl, seu sobrinho,
que lhe conferiu a ordem da Jarreteira (OrJcr of thc Gartcr); n1as
só n1ais tarde, a 22 de Abril de 1427, foi eleito cavaleiro entrando no
lugar vago de Thomaz Beaufort, duque do Exctcr, que falecera
cn1 27 de Dczen1bro de L..f.26 (2).
cm sua companhia. é a rcla._:<.ío de atribuídas ao infante 1>. Pedro .. \li
confunde-se o infantc D. Pedro com l> .. \tfonso, conde de 11arcelos: fillv, natural dei rei
l >. João I. o '-)Ual efectivamente fez uma viagem ú Terra Santa antes de q.1S (G .. \. de
Zurara. Cronica da tomada de Ceut.t, cap. \"III). A mencionada ohra foi composta pro-
vavclmt:ntc no scculo X\"1. servindo-se liaS noticia' das ;i Terra Santa t;ío frc-
'-JUentcs no fim da edade m:dia .. \ mais imprcss;ío. de '-JllC ha noticia. e de 155-t.
( 1) O ducado (marka) de Treviso era situado entre a Italia oriental t: os paiJ'es '-)Ue
ncram a pertencerá Austria; e estendia-se p..:las planiccs entre o litor.\1 \encto. no fundo
llo .\driatico, c os primeiros socalcos da cordilheira dos Alpes. Era fre'-)uente naqude
tempo os reis aos soldados de fortuna. que vinham ajulla-lns na-; guerras. pra._:as
lias fronteiras para as guardarem c defenderem.
(.!) llcnry   l.id.l do Infante /). 1/en,.ique de J>ortu!{.ll. trad. ptJrtugucsa. !.is-
boa, 1X7t'i. p. 11S-117.
'<X \'III J SlltOUIJCÁO
De Inglaterra o infante a Flandres a vi.,itar o dth.JliC de
Borgonha.   cm C h tende; c estava ali cm 22 de Dezem-
bro de 142S. dia da sua chegada c no seguinte o "ienado da ci-
dade ofereceu ao infante a taça de vinho d•: honra. segundo o tra-
dicional costun1c dos Flan1cngos, repetindo-se a mesma cerimonia
no dia de H.cis, fi de Janeiro de 1426. dia o infante foi en-
contrar-se com Filipe, duque de Borgonha no castelo de \\ eynau-
dach, onde lhe estaYa preparada uma caçada de monte. ultimo
dia de .J anciro a cidade de Bruges ofereceu-lhe o espectaculo de um
torneio no Bucrch, un1a reccção no senado, c á noite um sarau. De
Bruges o infante escreveu uma larga carta a seu irmão o infante
D. Duarte (r).
En1 Abril, depois da Pascoa, o infante foi para Gand, onde o
duque de Borgonha o cspcraYa, hospedando-o no seu proprio palacio
En1 n1cado deste ano o infante chegoll á corte do imperador
Scgisn1undo, que então estaYa na Hungria; e o assistiu nesse ano c no
seguinte de 1427. Durante este ten1po o infante acompanhou o in1-
perador en1 n1uitas guerras contra os Turcos en1 Balafia (Bohen1ia)
e Russia, onde n1ostrou seu grande valor e experiencia das cousas
da guerra, e en1 que alcançou não pequena gloria.
Não se saben1 os n1otiYos que o infante teYe para abandonar o
scn·iço do in1perador Segismundo; mas é certo que o deixou, des-
contentando-o pelo que lhe reYogou a doação do ducado (marka) de
TreYiso. Con1 o infante Yeiu un1 certo ..\Iatheus, natural da Polonia.
prin1aYera de 1428 o infante estaYa em Yeneza, onde lhe
fizcran1 grandes honras e festas pelas liberdades (priYilegios) que os
Ycnezianos gozayan1 cm Portugal, con1o por ele o merecer. Diz-se,
( 1 J Lil•ro da Cm·tuxa de Evor.1. copia manuscrita da Biblioteca "\'acional deLis-
boa. L-ti-...J-5, foi. 3:.!.. r. a -1-7· r. ;'\Jo fim desta carta o infante D. Pedro diz : <<Senhor dt:
muitas destas cousas eu bem creo que atee agora fui grande pane ajudador. mas prom·esse
a Deos que todos tin:ssem tal nmtade de ser emendado que eu tenho. e com a sua ajuda
entendo que o seria em hreYe temr•o; e se me de la parti: hüa das razões foi por mais
n<io ser em culpa delles; e ainda que eu bem sey que por azo de minha partida o Senhor
H.ey e HJj tendes agora mais en.:arregos. se me Deos encaminhar bem. e minha Yida aja.
ou ala tornar de socego. cu c-.pcro nclle de yos es.:usar daquelles que por meu aso tendes
de presente. e ajudar em toda outra cousa que eu sentir que he Yosso sen iço: e emenda
daL]UCstes .:mpachos.•'
'
INTHODUCÁO ).XIX
>
que ali lhe foi oferecido con1o grande presente o l.i1•ru das J'iage11s
de .Jlarcn l'aulo, para que se regesse por ele, pois desejava ver c an-
dar pelo mundo. De \'cncza, passando por Chioggia, Ferrara c
Padua, ,·eiu a l{oma, onde f(>i benignamente recebido pelo papa
1\lartinho V, que, por Bulia de 1 o de _\la io de concedeu aos
reis de Portugal a faculdade de scrcn1 ungidos na sua coroa\ão,
como os dos reinos de Frant;a c de Inglaterra, c de os infantes
poderem reger o reino como filhos primogcnitos, c havcrêm coroa
como de rei.
De Homa vciu a Barcelona, onde esta nt cn1 Julho de 1 42R; dali
passou a Aranda dei Ducro a visitar cl rei D. João 11, seu primo, e
a Penafiel visitar o rL·i de En1 Sctcn1hro era jü cm Portu-
gal, assistindo, cm 22 do n1csmo n1ez cn1 Coimbra, ao casamento do
infante D. Duarte, seu irn1ão, con1 D. Leonor de Aragão ( 1 ).
1 1) \" eja se a ( :.1r1.1 Jo IJom .·hu-riqw.' .t e/ Re_i /)om Ju.;, Je bo.1 memnri.t
seu p<rj d.md"llre cnuta de cnmn ::e .fi;er.t em Coimbr.t o c,umm•utn Jo /). /)u.trle.
:H:'II /rm:io. datada de 22 lh: !f:!X. fHihli•,tc'-·a :"Jal'ional lk l.i,hoa. \ts. :'1:
1 - 2ti. foi.   r- r).
XXX fN IIHJIJIJC'Áo

\'11-0 .\l.lla:n /'.11"1.0 X.t 1./TFR.lTf'R.l /'fJJ<1t·r;I"J·:S.1
AO \IF.tno /J() SJ.;r:t·J.() XVII
,\ mais antiga referencia, que se encontra na literatura portu-
guesa, acerca do <irão Cam (Khan), imperador dos Tartaros, de cujo
poderio c grandezas dá tantas noticias o Jfarco Paulo, C"-Ístc cm
uma tro,·a do (..,ancioneiro do Vaticano (I I 98) ( 1):
Joan Ba,·cca c Pcro d'Ambrôa
ar departiran logo no Gran Can
e pclcjaron sob'rcsto de pran.
Esta tro,·a é de Pedr' An1igo de Sevilha, que ftoreceu no rei-
nado de D. Afonso III, pelos anos de I 260. A indicada referencia
não póde provir do Lil,ro de .J..liarco Paulo, porque é anterior ás
viagens do celebre Yeneziano; n1as refere-se á do califado
de Bagdad, c á fundação do in1perio dos Tartaros na Pcrsia, que
tanto ecoaram en1 toda a Europa (2).
É na Chronica do descobrimento e conquista de Guiué, escrita
por n1andado dcl rei D. Afonso Y, pelo cronista Gomes Eannes de
Zurara, que se encontra a prin1eira referencia do Lil,ro de .. ..\Iarco
Paulo. Antes de tudo deve obsen·ar-se que Zurara escreveu a men-
cionada Chronica en1 Lisboa, e que ele serda na livraria rial,
onde podia ler o Livro de Paulo em latin1 e linguagem
portuguesa; c que parece ser nesta lingua que o leu, porque o cita
pelo non1e de .J.\Iarco Paulo, con1o se lê na versão portuguesa im-
pressa. O n1anuscrito da n1esn1a cronica é datado de 18 de Fevc-
de I453, o que n1ostra que na primeira n1etade do seculo xY o
Li1
1
ro de ...liarco Paulo já existia na livraria rial. Con1o as citações
feitas na n1cncionada cronica são de grande in1portancia para a re-
solução do problen1a literario acerca do autor da versão portuguesa
do LiJ,ro de .J.\Iarco Paulo. parece con,-eniente trans(revê-las aqui.
(1) C,mcioneiro do V.1licano. v. 1S-17; d. Carolina :\liclüidis de Vasconctllos.
R.md![losse, GS.
(2) C. l\1. llc Vasconccllos, Cancioneiro de   II. p. 53I-53..J.
I NTRODOCÁO XXXI

A primeira citação é tcita no texto da cronica ( 1 ): (I E alguús dis-
scrom dcspois que ouYiram a alguús daqucllcs ,\louros que per
accrtamcnto vicron1 a nosso poder, que os seus parceiros comcron1
aquclles mortos, c como quer que alguús outros dissessem o con-
trairo, querendo scusar seus parceiros de causa tam cnorn1c, toda-
vya hc certo que seu costume he de con1crcn1 huús aos outros os
figados, c bcbercn1 o sangue, c csto di1cn1 que nom fazem gccral-
n1cntc, se non1 a alguús que lhes n1atatn seus padres, ou filhos, ou
irmaãos, contando csto por húa nuty grande YÍngança. E csto n1c
parece que nom hc de duvydar, que no livro de arco Paullo se di1,
que gccralmcntc se costun1avam estas cousas antrc nutytas naçoõcs
daqucllas partes oricntaaes. c ainda vejo que hc antrc nos comuú
fallan1cnto, quando nuoamos dalguú hnn1cn1 que tem odyo a outro,
que tanta ma voontadc tem a aqucllc seu contrairo, que se podcssc
lhe con1crya os ligados, c hchcrya o sanguc>l.
Parece que a passagcn1 do LiJ•ro de Jlarcn Paulo, a que alude
Zurara é (2): ((Os n1oradorcs da ylha de Cipangu quando prendem
alguú hon1cn1 estranho. se ho catiuo se pode rcn1ijr por dinheiro. sol-
tanl ho dcspois que rcçcbcn1 o dinheiro. c se non1 pode aucr o preço
pcra sua rcndiçan1. n1atamno c comcrnno cozido. E pcra este con-
uitc conuidan1 os parentes c an1igos que comcn1 de muy hõa mente
as tacs carnes. dizendo que as carnes hun1anas son1 111ilhorcs. c de
n1uyto n1ilhor sabor q uc as outras carnes».
A segunda citação é cm nota ü seguinte passagcn1 do to (3):
((As molhcrcs som acerca COI11UÚCs, c CotllO alguú YCI11 onde estÜ o
, '-
outro, logo lhe dü a n1olhcr por gasalhado, c contam por n1al a qucn1
o contrairo faz)).
E cm nota: (\Diz 1\larco Paullo que nos rcgnos do <iram Tar-
taro, ha outros hon1cés semelhantes, os quaacs quando recebem seus
hospedes, pensando de lhe fazer pn.llcr, lhe suas n1olhcrcs
(•) <i. E. Je Zurara. Chronic.t do descobrimento e couquist.r de Guirré.   1Kp •
..:.tp. H VIl. p. 226-227.
(2) l.i1•ro de Jl.rrco P.wlu. liv. III. cap. VIl; d. II. 67. e III. '7·
13) (i. E. Jc ( 'lzrunic.r do de.:;cobrimt'rrto t' CtJII,]'tist.l de Guiné.   1.\:X:'\.
"Q "'8
p . .JoO-.l I.
4 ••
I "'TIHJIJI"C:Ál)

que assy (omo lhe cllcs fazem cm c-,tc munJo, lhe
faram os dcoscs no outro. E C!',lO tccm porltUc !',(JJ1l que
nom tem lcy, soomcntc 'i,·cm nayucllas
São Juas as passagens do Lil'ro de Jfarco l'aulu, a yue parece
aludir Zura_ra. A pri1ncira é: <
1
( )s   Jesta prouincia
Cayndu] som yJolatras. c cm tal n1ancyra pelos ) JrJios
tirados do seu syso. que (rccm Je aucr !',lia graça se as prnprias mo-
.)hcrcs c filhas dcrcn1 aos cmninhantcs. porque yualqucr caminhante
que per elles passa c se for a (asa de qualquer dcllcs. loguo ho
nhor da casa chama a i11olhcr c filhas. c toJas as outras molhcrcs
que tcn1 en1 casa. e mandalhcs que cn1 todallas cousas obedcçan1
ao hospede e a seus companheiros. e dcspoys deste n1andado par-
tese c leixa en1 a propria casa ho estrangeiro (001 seus companhei-
ros assi con1o senhor della. nen1 presume n1ais tornar em quanto
este outro hy quiser n1orar. E ho estrangeiro dependura ante as
portas ho son1brcyro ou a touca ou alguú outro synal. E quando ho
senhor da casa se quer tornar pensando per ventura que sería ja
partido. se vijr ho sinal ante a porta logo se torna. E assi ho estran-
geiro pode hy estar dous ou tres dias. E esta çiguidade e abusan1
tan1 E.?:rande de receber assi os estranaeiros hc o-uardada por toda a
L' > b b
prouincia de Cayndu. e isto notn he teudo por alguú Yituperio. E
esto fazen1 por honrra dos seus deoses. e creen1 que por esta beni-
gnidade que fazen1 aos can1inhantes n1ereçeratn auer dos seus deo-
ses dos fruytos da terra>> ( 1 ).
A passagcn1 do Livro de Jiarco Paulo é: <<Os homées
daquella terra [da província de Can1ul] ... son1 ydolatras e assi son1
pcllos seus ydolos do seu cntendin1ento tan1 derribados longuo tempo
per aca que se alguú can1inhante passa por aquella terra e quer
pousar en1 casa de alguú cidadão de Catnul. elle ho reçebe leda-
n1cnte. c n1anda aa sua n1olher e a toda sua fan1ilia que lhe sejan1
obedientes en1 todallas cousas en1 quanto elle quiser com elles estar.
E assi a n1iserauel de sua n1olher obedece en1 todas as cousas ao
>
seu hospede assi con1o a seu n1arido. As n1olheres desta terra son1
(1) LiJ'rO de Jlarco P.wlo, livro cap. xxxviij.

INTHOIHJCÃO XXXIII
:>
frcmosas to. n1as os n1aridos deli as todos por seus Jeoses som
assi çeguos cm aquella sandiçc. que cllcs n1csmos lhes contam por
honrra ho que suas n1olhcrcs scjan1 sogeitas aos cmninhantes dos
quais son1 tcudos por   çiuces c ,·ijs)) ( 1 ).
Se as de   Eanncs de Zurara fossen1 te:\tuais, po-
deria reconhecer-se se a 'crsão portuguesa do /JiJ•ro de Jlarco
Paulo, publicada em 1 5o2 por Valentin1 Fernandes, era a tradução
l'11l lingua{(cm que anda,·a junto do te:\to latino desde o reinado
dei rei n. Duarte; infelizmente as citaçóes não são te\tuais, 11HlS
sún1cnte por e\.trato c quasi de n1cn1oria. c por isso não podem pro-
Yar a conjetura indicada acitna, ainda que a sen1elhança de lingua-
gem c o en1prego de certas palaYras a tornan1 muito proYaYcl (2).
l\o reinado de D. João 11, o /JÍJ'nJ de Jlarco Paulo era lido na
corte, n1as parece não se dar grande credito a algtmu1s das suas
narrações. CristoYam Colombo, italiano de nação, Yciu a Portugal
oferecer-se a el rei D . .João 11 para fa7cr o descobrin1ento da ilha
de C i pango; con1o cl rei nüo aceitasse o oferecin1ento por não se
dar credito ü narração do IJiJ•ro de Jfarco Paulo (3), Colon1bo foi
oferecer os seus serYiços aos reis de ( :astclla, que depois de muito
importunados lhe deran1 alguns naYíos, cotn os quais Colombo des-
cobriu as Antilhas, que ele julgou ser a ilha de Cipango. Ruy de
Pina (Chronica de/ Rei D. João II, cap. lxvj) c Garcia de Resende
(Chronica de/ Rei D. João II. cap. cl:xv), contam que CristoYan1 Co-
lon1ho, Yindo desta descoberta arribou ao porto de Lisboa a f) de
de 1493, do que el rei f-icou n1uito anojado.
João de Barros (Dccada I, liv. Ill, cap. XI"! refere as cousas rc-
latiYas ao oferecimento de Cristo,·an1 Colon1ho quasi pelas n1esn1as
palaYras de Garcia de H.esende; depois acrescenta: c' Segundo todos
{I} Livro de .Varco Paulo. li\'fO I. cap. xh j.
(2) O texto latino do l.iJ
1
rO de .U,trco P.wlo continuou a fa7er pane da livraria
rial; isso resulta de que o mesmo livro existia na mesma livrari.t no tempo dei rei
1>. Manuel. tYeja-se illras r· "-IX. nota 3). par.t notar que não e\.istissc entre os liHOS de
1>. Pedro, de Ponugal. c depois rei de .\ filho do infante ll. Pedro. o
Veja-se o seu catalogo ( re()filo lfistori.t .i.1 l"uiJ•cr·si.i.tdc. tomo I. p.

(3) Li1•ro de Jf.1rco P.wlv. li\". m ij.
XX"-IV
atirn1am Christovão Colom era de   hon1cm  
eloquente c bon1 latino, c n1ui c1n seu!') ncgodos. L l:omo
naquelle tcn1po húa das potcnl:ias de ltalia llllc mais na,·cga' a por
razão das suas c (onlcrdo, era a Cicnocs: te
seguindo o de sua patria c n1ais !')lla propria indinação andou
navegando por o mar de Levante tanto tempo, té que 'eo a estas
partes Je Hcspanha, c deu se á na vcgação do mar Ol:cano scguindc,
a orden1 de vida que ante tinha. E vendo ele que cl rei D. João ur-
dinarian1cnte n1andava dcs(obrir a costa de Afril:a com intenção de
per clla ir ter ü India, l:Onlo era hon1cn1 latino c curioso cm as cou-
sas da gcographia, c lia por .\larco Paulo, que fallava modcrada-
nlcntc das (OUsas oricntaes do reino de Cathayo c assy da grande
ilha Cypango, veo a phantasiar que por este n1ar O(cano occidcntal
se podia navegar tanto te que fossem dar nesta ilha Cypango c
outras terras incognitas. . . El rei por que via ser este Chris-
tovanl Colon1 hon1en1 fallador e glorioso cn1 mostar suas habilida-
des c mais fantastil:o c de in1aaina(ócs l:Onl a sua ilha Cvpan''O
' I:) , - t> '
que certo no que dizia, dava lhe pou(o credito. Con1 tudo á força
de in1portunações n1andou que estivesse com D. Diogo Ortiz
Bispo de Çepta, e com mestre Rodrigo c n1estrc Josepe, a quem
clle (OOletia estas cousas da cosn1ographia e seus descobrimentos;
c todos ouverão por vaidade as palavras de Christovão Colom, por
tudo ser fundado cm n1aginações e cousas da ilha Cipango de
Marco Paulo, e não en1 o que H yeronimo Cardan o diz ( 1 ). E com
este desengano espcdido dei rei se foi pera Castella, onde tambem
andou ladrando este requerimento em a corte dei rey D. Fernando
scn1 o querer ouYir: té que por n1eio do Arcebispo de Toledo
D. Pero Goncalves de el rev o ouuio. Finaln1ente rece-
, , .J
bida sua otfcrta, el rey lhe n1andou armar tres caraYelas em Paios
de   donde partio a tres dias de Agosto do anno de 1492».
Con1o quer que fosse, parece que tanto a versão latina de Pi-
pino, con1o a versão portuguesa do LiJ•ro de Jlarco Paulo, caiu en1
desuso pelo n1eado do seculo xv1, oú porque sendo pequeno o nu-
(1) Hierunymu Cardanu, physico (medicu) de \lilátJ. nu linu que compoz, De
sapientia.
I!'JTROI>UÇÁO :\X\. V
n1cro de exemplares da impressão feita por Yalcntim Fernandes, cm
brCYC dcsaparCCCSSCnl, OU r<:>rquc no\·as ediçÕeS mais
se vulgarizassem; o facto é que a partir de João de Rarros, os es-
critores portugueses do scculo XYI, que se o(uparanl dos descobri-
mentos . dos Portugueses, lcran1 o LiJ,ro de Jlarco Paulo, não pela
versão latina de Frei Francisco Pi pino, ou pela versão portuguesa
in1prcssa por Yalcntin1 Fernandes, nu1s pcia rcccnsão ítaliana de
João Baptista Hamusio, cuja primeira edição foi publicada en1 I 559.
cs(ritores nacionais, '-luc contan1 os feitos dos portu-
gueses no Oriente, (itan1 as relações das Yiagcns de \lar(o Paulo c
de T\icolao V e neto; entre eles mencionaremos Jo,\o de Barros r J)eca-
das da Asia), Diogo do Couto ( J)ecadas da _-l.'iia), João de Lucena
(Vida de 5;_ Fi·ancisco XaJ•ier) c .\lanucl (;odinho de Hcrcdia r J)es-
crição de Jfa/aca); aqui porém súmcntc nos rcfcrircn1os a Diogo do
Couto, l'orquc ,·iycndo muito tcn1po na lndia portuguesa. teve c>Lasião
de verificar a cxatidão das noticias dadas pelos Yiajantcs venezianos,
  con1 as narrações dos gentios c sua:-, escrituras .. \n-
tcs de tudo dc,·c observar-se que Diogo do Couto emprega sempre
as dcnon1inacõcs italianas de .\larco PoJo Vcneto c .\liccr de Conti
'
lDcc. 1\, li,·. IX, cap. \"1), o que mostra que ele não se serviu da
versão portuguesa das relações dos mcn(ionados Yiajantcs, mas da
rc(cnsão italiana de João Batista H.amusio.
Entre as de Diogo do Couto apenas transcrc,·crcmos
as trcs seguintes, porque nelas são indicados o livro c folha cn1 que
leu a passagem.
De(. 1\", li v. X, cap. 1: .\I arco PoJo \ cncto no scf!undo li-
\TO do seu ltincrario, foi. I G, falando da pro,·incia de Tcndur. diz
que junto dclla ha duas regiões chatnadas Og c \lagog, e os que ncl-
las n1oram se chan1an1 l Tng c .\longal. 1_Cf. l.iJ•nJ de Jlarco Paulo.
li,·. I. (ap. Jx,·, foi. 24, r).
Dcc. 1\', Ji,·. X, (ap. II: Este [Tamochin1l ajuntando grandes
cxercitos sahio daqucllas partes de (;corza c Bargu, nos annns de
n1il cento c sessenta c dous de Christn (segundo a conta de
Polo. li,·. 1, fol. I 4), c entratll.io pelas proYincias c Ca-
thayo, a poucos golpes as sojciton com seu n1uito saber c esforço, c
assentou sua C<.ll.icira na cidaJc '-ic Camhulcc. que cngrandccco c
  Yl I NTlHJf>lj(" ÁO
.
reformou. (C :L I.ÍI'nJ de Jlarco Pauln. li'. lij c liij, fn1. ,. c
1').
.
Dcc. V, li v. \"I. l.:ap. li: .\\arco Polo \ encto, livro terceiro tc,lio
cincocnta c cinco, Jiz yue ten1 os .\louros pcra que debaixo
daquela pedra estava o sepulcro Jc \Jan1. E diz n1ais que _os C JCn-
tios naturacs contayan1, que hum filho de hum rey chamado '-;ngo-
nlombarcão, desprezando o reyno, se recolhera aqudla serra a fazer
YÍua santa, c que dalli sobira aos Ccos. que no tc:xto
de Rusticiano se lêcn1 na descrição da ilha Je Ceilão (cap. dxxiij;,
faltmn Ycrsão portuguesa (Cf. LiJ,ro de .Jlarcu Paulo, Jiv. 111,-cap.
XÀij, foi. b.iiij, 1').
INTRODUC:\.0 XXXVII
>
\'III- 1.\IPOR1.lXCI.l .W.'/f·:.\TJFICA /JO /./1" RO /JH J/.l/?.1 .'0 P.-1 rJ.U
O LiJ,ro de }Jaulo contcn1 graa1dc nun1cro de noticias
rclath·as aos países do Oriente, que náo cran1 conhecidos dos oci-
dentais no fin1 do scculo xm, qu'-mdo o li\To foi escrito. As noticias
refcrcn1-sc üs gentes que habita,·anl os n1csn1os paiscs, aos seus
usos, costun1cs c religi<Jcs; aos aninulis c plantas, que ali se crca-
vanl; c aos produtos naturais, sobretudo especiarias c drogas, tnctais
c pedras preciosas. Por isso o n1csmo livro, que se di,·ulgou tnuito
entre todas as nações da Europa, incitou alguns viajantes c tncrca-
dorcs a visitar aqueles paiscs, uns levados do desejo de n:r gen-
tes novas c não conhecidas, outros pela cubiça de alcançar grandes
riquctas pelo cmncrcio das especiarias c pedras preciosas.
Alem destas noticias, o n1csn1o li,To contcn1 indicaçôcs, pelas
quais se pode reconhecer o grau de cultura c ciYilisação dos poYos
do Oriente. Não seria possível aqui dar ideia da sua ciYilisação; so-
nlcntc nos rcfcrircn1os a algun1as noç6cs de costnografia c de tun cga-
çáo n1aritin1a ( 1 ), contidas no livro, cn1 razão da sua grande im pnr-
tancia para a historia das scicth.:ias.
O liYro terceiro do LiJ•ro de Jlarco Paulo é cspccialn1cnte de-
dicado a descrever as diversas regiões da lndia, c as ilhas que a cir-
cundarn. En1 primeiro lugar (cap. i) dú-sc utna acurada descrição das
naus usadas na naYegação dos n1arcs da India, tanto ao longo das
costas, con1o entre as ilhas dispersas nos n1csn1os n1ares. Depois
refere-se (cap. :\lij), que as ilhas são en1 tão grande nun1cro, que entre
pon>adas c licspovoadas se contan1 doze n1il c setecentas ilhas; c
al.Tcccnta-sc que as Londiçõcs dcllas não poderiam ser contadas por
algun1 homcn1 l.lUC vÍYa, segundo atirman1 os marinheiros c grandes
can1inhantcs daquelas terras, c que isto ccsc ha por escritura c nota
dos con1passos do mar da InJia". Esta brc,·c nota n1ostra que no
tin1 do scculo xm os marinheiros da India possuíam periplos. porlu-
lanos, ou roteiros, nos quais eram dl.·scritas as costas dos cotlti-
(I) Acerca da maritima dos lndios   /nJi.m Sllipping .t llistOI:l''
oJthc sea-bvrne tr.tde and ,,..,,.;time .tctiJ•it_r o{ til e Jndi.ms from thc_ t?.u·liest timl's. Ra-
llnakumull \lookcrj i. l.ollllon. 191 '.!. espc: .. o li\ m 11. p. 18S-:.w+
....
\X\. VIII
nentes e das ilhas. Esta ultima Jl(Jticia, ainda qne JaJa Je um
modo generico, é confirmada por outra:-. indicaçúe:-.
precisas, c muito interessantes. \s noticias acerca Ja.., ilhas c reino..,
supocm uma 'iagen1 da ilha de .lava a   \larco Paulo
desl:rcvcndo a ilha de .Java a menor (cap. xiij), diz que ilha
está situada tanto ao n1eio dia (sul), que nela se não pode \'er o
polo artico, isto é, a estrela do norte. Tratando da província de
tnn1ar (cap. X:\xij), diz que navegando da ilha de Java até á pro-
víncia de Com ar, não se pode ver a estrela do norte; mas que
tando no n1ar a trinta n1ilhas de Con1ar, a dita estrela rarccc es-
tar clcvaJa sobre o n1ar a n1edida de um covado. l\o reino de
:Vlelibar (cap. xxxiiij), que é situado na parte ocidental da lndia
n1ayor, vê-se o polo artico, isto é, a estrela do norte, elevada sobre
o n1ar na altura de duas braças (leia-se covados). reino de Cu-
zurath (cap. que é vizinho do reino de \Jelibar, c situado na
parte ocidental da lndia n1aior, vê-se a estrela do norte cm altura
de sei:-\ covados. En1fin1 no liv. I, cap. lxij, diz que partindo da cidade
de Corocoram para a parte do aguian1. depois de quarenta jornadas
se chega ao n1ar oceano; c que naquele n1ar ha ilhas, que são tão
chegadas á parte do aguian1, que a estrela, a que chamam polo ar-
tico, c que nós dizcn1os estrela do norte, lhe é á parte do meio dia ( 2).
1'\ão entraren1os en1 disquisiçóes acerca dos instrumentos nau-
ticos usados pelos n1cstres dos navios da India para medir a altura
da estrela do norte, ncn1 acerca da unidade de medida empregada;
son1cnte observarcn1os que a unidade de medida, pela qual é indi-
cada a altura da estrela polar na versão portuguesa é o covado, na
versão latina é o cubitus, e no texto francês de Rusticiano é o glwe (3).
(1) A navegação entre o Guzerat e as ilhas de Ja,-a e Sumatra é muito antiga. re-
monta pdo menos ao seculo \" de J. C., como o prova o monumento de Boro Budur, em
J;n·a. e como resulta da narraç;."io ft:ita no .ll'Jd.ín.l de Suparaga. xn· do Dh:y.ív.1d.ln.1.
(2) i\larsden conjetura que isto significa que as estrdas da cauda da Crsa menor: ou
talvez as gunrdas da C rsa maior. parecem estar ao sul ao observador colocado nas men-
cionadas ilhas. (Marsden, The Tr.1vels of JI.1rco Polo, London. 1904. p. 123). Comtudo
como a polar do .1/ja da Ursa menor, no ano de 1290, era -1-
0
23', a mesma estrela
podia ser Yisra ao sul por um observador colocado em lugt1r cuja latitude fosse maior
do que 85°3J'.
(3) Veja-se Recuei/ de voyages et de memoires. tomo 1, Paris: 182-J-. texto latino:
liY. m. cap. 31. 33 c 3-J-; e franccs cap. 1Fl1. 1R3 c 1X-1-; c o glossario p. 51J.
fNTRODUC.\0 XX\IX
.
Esta ultin1a pala \Ta é i ntcrpretada coudL:c nu bras se; mas é pnssivcl
que a f{W'l' represente a imperfeita tradução de um termo
arahico ou malaio, usado pelos mestres dos na,·ios da lndia.
'"o roteiro dos mares da lndia, dcnon1inado .Jlohit ( 1 ), compi-
lado pelo almirante turco Scidi r\ li, pelos anos de 1 5 S4, a situação
gcografica das cidades, portos c ilhas, é fixada pela altura a que
en1 cada um deles é observada a estrela alfa da L.Trsa menor; c esta
altura é c\prcssa cn1 uma unidade, que cn1 arabc tem o nome de
isba ·, que significa dedo polegar, polegada. Esta medida foi conhe-
cida dos pilotos portugueses no do scculo '\ ,.1. L"omo resulta
de lmla passagem Ja carta do n1cstrc João (2), que foi na armada,
en1 que Pedro ..-\h·arcs Cabral partiu para a lndia en1 1 Soo. A tncs-
nla n1cdiJa é escrita no 'lunJi de \lfrcdo Can-
tino, datado de r So2. Eu conjecturo que a unidade de n1cdida das
alturas da estrela polar, n1cncionadas no LiJ'ru de Jlarco Paulo. de-
nominada COJ'ado (cubitus, glwe) não é outra cousa senão o isba'. de
que 1\1 arco Paulo poderia ter tonH.ll.fo c.onhcLimento pelo roteiro
do n1cstrc do 1un·io cn1 que fez a ,·iagcnl de Java a ( iu1.crat.
Con1tudo sahc-sc que no scculo xv, os marinheiros, que se rc-
gulaYanl na sua derrota pela estrela Jo norte, costuma,·anl indicar
a elevação aproximada da n1csnu1 estrela comparando a sua aitura
com a dimensão li ncar de un1 objecto bem conhecido ( 3).
(1) Die topogr.tphischen C.tpitel des Indischen Mohit, ühcrsct.lt ,·on llr.
:\1. Bittencr, mit von dr. \\". Tomaschck. \Yicn p. a3 c SCJ.!,S.
(2) Solamcntc mando a Vosa .\ltc.la como c:.tan situadas las dei [p(Jio an-
tartico]; pcro cn que grado esta cada una. non lo hc podidr, sahcr. antes me pa1 csçc ser
inposihlc. cn la mar, tomarsc altura de ninguna cstrd.t; por"lue yo trahajc mucho cn
cso c por poco que el na\ io cnhalan"e. o;c yerran quatro o çinco de "'UC
se 11()11 pucdc faLcr synon cn ticrra; c otro tantr, casy digo de Ja, tahla:. de la lndia. que
se non puedcn tomar con cllas. synon con mui mucho trahajo, "lliC \"r sa .\ltc/a su-
pycssc cnmo dcsc<,nçcrra,·an todas cn las   rrcyryu ddlo m.1:. que: dc:l cstrolahio.
(l:.Jrt.-J do b.tch.Jrcl mestre Jo:Zo .1 el rei lJ .• \l.rmu.'l, de 1 de m.Jio de J5o(), cm .ll:![uus Jo-
CIIIIIt'lllos Jo .lrchh•o S.rciuu.tl d.J Torre Jo Tumbo, l.isbr,a. 1 X92. p. 1 :n).
(3) :'olos dias que estivemos na emhocadura deste rio. n:iu 'imos mais "'uc hum a \"c/
a estrdla do ;'\I une: apparccia muito baixa sobre o mar. c crJ. nc:ccs:.ario para n 'cr e'tar
o tempo muito claro. parecendo levantada ddlc somente: cousa de huma la1Ka de altura.
(.V.n•t•g.tçilt•s .te /.ui; .te f.'ad.wwsto. navcgaç:ío primeira. cap. -xxúd.
I 'i I"IH JDUCÁO
-
IX -I\JJ>Ju-:ss.ío /J{) J>.1J.J·:OTIJ>(J JSrn
Os livros impressos cn1 Portugal, desde a introdução da im-
prensa até ao n1cado do scculo xv1, tem disposição muito semelhante
ú dos manuscritos de caracter monumental, que então eram cm
uso, não s() na forn1a da letra (n1cio-gotica), c dos sinais diacriti-
\os c de pontuação, n1as tan1ben1 na extensão das   na dio;-
posição destas cm uma ou duas colunas cm cada c no agru-
pamento das folhas cn1 cadernos.
Áccrca do n1odo como as palavras eram escritas nos livros ma-
nuscritos, c depois foram compostas nos li" ros impressos, observam-se
particularidades, que merecem atenção. Algumas letras tem forma
diversa conforn1c estão no principio, no n1cio, ou no fim da pala' ra;
alguns fonen1as ( 1) são representados por letras diferente'> conforme
são no principio, no n1eio ou no fim da palavra. O comprimento
constante das linhas de in1pressão, e a sua justificação, obrigavam
ao en1prego de tipos de impressão representativos de grupos de le-
tras (abreviaturas) c ao uso frequente do sinal diacrítico da nasala-
ção (til).
En1 seguida são indicadas as particularidades do emprego das
letras.
YOGAIS
r 0
11
ats orats \
. . { sitnples: a, i_. u.
t'l con1postas: e, o.
A vogal i inicial de palavra é representada pela letra J.
A vogal i final de palavra é representada pela letra y.
A vogal u inicial de palavra é representada pela letra L'.
Dtaaratos .
. . {das vogais sin1ples: aa, ii, uu.
t'l das vogats con1postas : ee, ou.
O diagrafo ii é escrito U para evitar a confusão con1 a letra u.
A nasalação das vogais, sin1ples c con1postas, é indicada por
(•) Dt:nomina-s<:: fonema um elemento da voz humana produzido por uma só ins-
piração ou expiração do ar arrayez da laringe: boca e fossas nasais. (A. R. Gonçalves
Vianna. Exposiç.1o d.1 pronuncia normal portuguesa: Lisboa: 1892, p. 3).
ÍNTRODUC.Ã.O xu

111, 11, scn1 distinção da letra ou pelo til, cn1prcgando-sc este
ulti1110 sinal quando na linha cscaccia o espaço. <\. nasalação dos
diagrafos é indicada por 111, 11_. scn1 distinção da letra se-
guinte, ou pelo til, sendo este ultin1o sinal colocado sohrc un1a das
yogais, geral111cntc sobre a segunda.
. . I ascendentes: ai, ei, oi, ui.
Dtton
11
os orats .
t"l descendentes: au, eu, zu, uu.
A Yogal i subjuntiva dos ditongos orais ascendentes é repre-
sentada por y no final das palavras, sobre tudo nos monosilabos,
pay, ley,   muy; no n1eio da palavra a vogal i subjuntiva do di-
tongo ui é representada por j ou y, para e,·itar a confusão de ui con1
m, muyto. A vogal u subjuntiYa dos ditongos orais descendentes é re-
presentada por o no fin1 das palaYras, pao, cumdeo. partio; 11Hts 11Utn-
tcnl-se o uno pronotne eu, c nos pronon1es possl.'ssin>s meu, teu, seu.
A nasalação dos ditongos é indicada por 111, 11. sen1 distinção
da letra seguinte, ou por til, sendo este ultimo sinal colocaLlo sobre
a Yogal inicial do ditongo. A ,-ogal subjunti"a do ditongo nasal as-
cendente ãi é geralmente e, assin1 mâe.
CONSOANTES
t. <) f<men1a c Juro é representado pela letra sitnples c.
O fonenut de c brando é representado por ç, n1esmo antes das
. .
'ogms e c z.
2. O di grafo ff inicial de palavra é usado no n1onosi la h o Jfi·;
talvez este digrafo esteja pela n1aiuscula /··.
3. O fonema g duro é seguido de 11 antes de a c o. como antes
de e c i.
<) f{)ncnut g brando é algunuts vezes representado por ge. cotno
angeu (anjo).
4· A letra lz é cn1pregada:
a) no principio das palavras, que con1cçan1 por vogal, sobre-
tudo n1onosilabicas, lw (o). lza (a}, lze (é), lzi (ahi), lw roll), lzu (onde).
h) para indicar que duas vogais consecutivas não tonnan1 di-
tongo, calzio (caiu), saldo (saiu) para distinguir de cáiu. sáiu.
XJ.IJ
c) para palatií'ar o c cm eh, I cm /h, 11 cn1 nh.
< > fonema eh era   africado.
5. O digralo 11 é empregado no meio das palavras proveniente
da assimilação, con1n todo/los, c na silaha final a/ tonica, con1o {.{era/1,
Por/11 f.{a/1. tal/, qual/.
(} .. \ letra q é seguida sempre d'-! u, antes das ,·ogaes a, e, i, o;
este u não se pronuncia cm geral, se se lhe segue e, i, o, como que,
" . . .
qt11s, quocu'ute; nuts pron uncta-sc, se se segue a, como quatro, quan-
tidade, c algumas vezes, se se segue e, como jreque11te.
7. <) foncn1a r brando é representado por un1 se) r; o tonem a
r duro (forte) é representado por dois rr, n1esn1o inicial de pala' ra,
c n1edio depois de consoante, rregno. tenrro.
O rr dobrado inicial de palaYra parece repre<.;entar -a letra
nHliuscula, elrrey (e/ Rey).
8. () fonen1a s é representado por un1 s simples no principio c
tl.n1 das palavras; no n1eio das palaYras é representado por un1 s
sin1ples depois de consoante, e por s dobrado entre Yogais. () fo-
nema s é provaYelmcnte sibilante.
9· O fonema de 1' é representado por v no principio das pala-
Yras, c por u no n1eio. n1anuscritos c'tc fonctna era represen-
tado por un1 b, cuja haste era inclinada para a esquerda.
I o. A consoante x parece ter sempre o som chuintantc, pro-
ximo (proclzinw), exemplo (echemplo).
1 I. As consoantes dobradas dd. jj, gg, 1111. pp, são ra-
ran1cntc usadas.
Os grupos plz c t!z são raramente usados.
PONTUA CÁO
>
Os sinais de pontuação usados são: Yirgula (,) un1 traço incli-
nado; dois pontos (:); ponto final (.); con1eço de período
ENCLITICOS E PROCLITICOS
Os pronon1cs pcssoacs con1plen1entos dos verbos juntan1-se aos
yerhos con1o sufixos: disse/lze, assentou se. .\1 ui tas yezes este uso
J\.1 III

produz algun1a l:onfusão, que é desfeita faciln1cntc pelo sentido, as-
sim alet•alllouos, pode ler-se alePanto-J•os c. alevantou-os.
A preposição de, regendo non1c que l:<>111cça por ,·ogal, junta-se
a este nome l:Omo proditico scn1 o e ncn1 apostrofe, dauer (de ha-
(de m•er); c se o nome con1cça por letra tnaiuscula. é a partícula
proditica que começa por n1aiuscula, assim lJa.frica (de A.frica).
LETRAS QUE 1\1.\IS DE U!\1 \ FOH.!\1A
A letra r tcn1 duas fórmas: r (r c r (r romawú; no di-
grafo r r a prÍI11\!Íra letra era geralmente o r gotico c a segunda o
r romano.
A letra s tem duas formas:;· (s alto ou de haste) c o s (s baixo).
O s alto cn1prcga-sc no principio c no n1cio das palavras; o s
só se emprega no fim das palavras.
ESTADO DO TEXTO
O texto do .J.llarco Paulo é suficicntcn1cnte l:nrreto para a sua
perfeita cnn1 preensão ( 1); c o nun1ero considera vcl Je erros, q uc se
notan1 na l:omposição tipografica, são fal:ihncntc l:orrcgidos pelo
leitor.   o n1odo porque cada palavra é escrita ntío é constante;
c esta falta pode ter tido diYersas causas. Os escritores do scculo xv
c xn não se prcocuparan1 n1uito cm escrever sempre as palavras de
uma n1esma n1ancira, antes se observa certa Ínl:onstancia ou indeci-
são; esta inconstancia pol.ic ter sido augn1entada por inad vertcncia
pelos esc ri vães que fizeram as copias succssi ,-as. \las outra causa
influiu n1tiito mais para tornar inconstante a esl:rita das palavras: a
necessidade que os escri,·ãcs, c depois os compositores tipograficos,
(I) Comtudo nomes proprios paizes. cidades e ilhas estão
Diogo do Couro (Decada IY, liv. IX, VI) diz: Pelo discurso da hisrona mostraremos
muitos nomes proprios cidades. vilas. rios. promonrorios, c muitas outras cousas, que
andam adulteradas nos esc ri rores iralianos. que á lndia 'icram antes dos Porrugucses,
foram Marco Polt, \'cncto, Comi, c outros; porque de cm tradu-
,·indo a mudar silabas e ldras, p!.!rdcram de tudo os nomes c: muitrJ
dos que dles nomeam são hoje neste Oriente.
XIlV
tinham de nH:tcr cm linha certo numero de pala\·ra-; completa-,
ou de silabas completas; c era indispcnsavel
compositores tipograticos para justificação da'i linhas. Para ohtcr
esse resultado fizeram reduções: os aã.
eé, m), uíí foram rcdutidos a ã, é, ó, fi; os digrafos 11, r r, s s, a /, r,
s; a n>gal y, suhjuntiva do ditongo   foi substituída por j c rara
,·etcs por i. Para poupar espaço fez-se frequente uso das abrcvia-
de e, de,per,pra,pre,pri, pro, qua, que, qui,pello,-os,-us;
c para indicar a nasalação da ultima silaba das palavras empregou-se
l11UÍtas YCZCS O ti/ cn1 YeZ de 11l OU 11.
INTRODL'CÁO
.J)
-
X- Rt:J.\/J>J<ESSAO
Con1o a reimpressão do .Jlárco Paulo tem por principal intento
di,·ulgar o antigo texto con1o ele foi itnpresso por Yalentin1 Fernan-
des, este texto foi reproduzido conforn1e con1 o do paleotipo de 1 5o2;
mas para tornar nl<Ús facil a tipografica e a leitura tizc-
ranl-SC as seguintes:
1. Desfizeran1-se as abre,·iaturas reprcsentati,·as de e, de, per,
pra, pre, pri, pro, qua, que, qui, pello,- os, -us.
2. .\dotou-se a escrita plena, cm Yel da abrc,·iaJa, das se-
guin tcs palaYras: n·· ( Deos), (Cizristo), .'\.paão (clzristaão), Jluí
(Jizesu), .\'pó (.\prito), Selo (Saneio); (po . tempo).
3. Representou-se por m c 11 a das ,·ogais orais; e
mantc,·e-se a dos ditongos por meio do til.
4· Separou-se a partícula proditica de dos nomes. c restabele-
ceu-se a n1aiuscula do non1e: J)aji·ica (de
5. :\dotou-se para as letras r c s un1a s(> forma (r ron1ano c s
baixo).
ti. l'ão se ctnpregaranl 'h.:cntos hifen.
7· Empregou-se letra n1aiuscula na iniciul dos non1es proprios.
:\os non1cs de pessoas, compostos de duas pal<l\Tas, s<ín1cntc
se empregou n1aiuscula na inicial do prin1ciro non1c, con1o no pa-
lcotipo: assin1 .Jlarco pau/o, J'ellelo.
8. Conscr\"(Ju-sc a pontuação do palcotipo.
9· ( :orrigiram-sc os erros ti pograticos cYidentes, dando-se no
tin1 da pagina a lição do paleotipo.
Alguns outros erros da con1posição tipogratlca do paleotipo
deYerianl ainda ser corrigidos, c outros terão sido 'h..:rcscentados na
reimpressão, apesar do cuidado que houYc na rc,·isãn; n1as o leitor
beneYolo os quererú en1cndar. é perfeito.
l.isboa, 20 de Janeiro de    
FRA!'Cisco 'I.'\ R L\ Ls n:YES PEREIR.\.
fftwo liuro ne iRycohlo "tneto.
«r® tranano na cgrra ne buú gcnoucs nas l.'ítas raras.
«r Ló p1iuílcgío iRcr nofTo fenbol.q nenbufi faça a jmplef
fdm odlc lluro.nc llo l't:noa cm rooollos fe' rcgnos "1
nos fem liçéça ne fcrnãnc;fopena cõtruM na cgr
r a oo f cu plcuileglo, nao t'f;  
Marco paulo
._1 Hn liurn de ~ v ~ n l   n vcnctn.
~ ~ () trallado da carta de huú gcnoucs das ditas terras.
Cmn priuilcgio dei H.cy nosso senhor. '-}UC ncnhuú f   ~   a inlprcs-
sanl deste liuro. ncn1 ho Ycnda cn1 todollos seus rcgnos c senho-
rios scn1 liçcnça de Yalcntin1 fcrnandez so pena contcuda na car-
ta do seu preuilcgio. Ho preço dcllc. Cento c dez rcacs.
a epístola sobre a tralladaçan1 do liuro de
.\\arco paulo. Feita por Yalcntyn1 fcrnandcz csLudcyro
da Haynha Dona Lyanor. Endcrcnçada
ao Scrcnissin10 e lnuiLtissimo Rcv c Senhor Don1 Etna-
nucl o pritnciro. Hcy de Portugal c dos Alguarucs. Ja-
qucnl c alem n1ar cm AfriLa. Senhor de ( .iuyncc. E da
conquista da c cmncrcio de Ethiopia .. -\ra-
bia. Pcrsia. c da India.
\'imos marauilhosas. Luc c . \". capitulo. E quaacs som estas
cousas marauilhosas Rey Illustrissimo que ,·imos ojc e cada dia as vemos.
Em verdade nom podem ser outras maiores que as cousas nouas c maraui-
lhas das terras c gente noua e das suas cousas. E que cousas mais maraw-
lhosas H.cy strennuissimo. que ,·ermos os 'ossos cathulicos rcgnos. que antre
os outros dos christaãos eram quasi hlls dos pequenos. c alongados dos
outros. cm os dtimos fyms d:> mundo. assy que apenas os alonguados
dclles tinham noticia. E agora som feitos tam grandes. que num soomente
h o vosso senhorio se estende em Europa c \ frica. mas ajnda ja vosso nome
sooa em .\sya atcc as postumciras partes Ja lndia. assy como em as
innumcrauecs prouincias de Ethiopia. da qual a mayor parte he do ,·osso
senhorio. das prouincias da qual tr<.uem ho mais fyno ouro que ha nu mundo.
c cm tanta auondança que sobrcpojaes a todollos outros rcys. E onde em
outrn tempo os Yossos regnos nom f(,rom sabi •. :los. ja som conhecidos c
.soados per todo ho mundo. c dysso se temem os mouros. se espantam
os Indianos. c todo ho "niucrso mundo se marauilha. F que cousas ma1s
marauilhosas. que mudar ho nomé do famosíssimo ryo :'\ylo cm· l'eyjll,
1 J. vosos.- 17 .. \tfri(a.- :!:! . ..:onhc..:idas.- 2:;. s•J   :!5. marauilhas.
Aj
v .
J\ ij
r
\
Aij
v
por onde a mais   ri<Jllczas das lndias soyam \ijr a, Cayro. c .\lex.m-
Jria. c dalli aas terras dos christaãos. Em verdade   som cousas maraui-
lhosas que vcemos. as pedras preciosas c as cspecias       \'ijr a
mercar nos \·ossos regnos. aqucllcs que \'endcndoas a todo ho mund'J
fartauam. () LJUe cousa tam mara I uilhosa. que ho \·osso muy nobre porto de
l.yxhoa hc ja fcytu porto da India. ho qual num soo sobrepuja todollos portos
da nossa Europa. mas ajnda os Jc .\frica c Asya. Ca a elle nom soomcntc
"'vem os A larucs. os Lybicos. os _\lauritanos. e Ethiopcs com ho seu prczadcJ
ouro. mas os de Arabia felix c petree. os da muy nobre prouincia de Pcrsya.
a elle ja de toda lias ln dias começam de vijr. e nom menos de todallas \'lhas
du mar Indico. O nobre porto de I .yxboa. que cousas tam grandes ; tam
marauilhosas Deos quis mostrar em ty. Tu em Yerdade podes ja ser chamado
porto de Colchud. porto de Tauriz. porto de Mecha. de Gyda. e Adem.
porto de Alexandria. Baruti e Veneza. A ty nom soomente os da   do
mar de leuante e poente. mas aa tua muy nobre çidade vem a buscar os do
sertaão. de terras muy alongadas .s. de Alemanha a alta. do rcgno de
Vngria. Bohemía Polonia Rossya Tartaria. O que cousa tam marauilhosa
que vymos oje. de como el Rey dom Joham o segundo. de gloriosa me-
moria vosso anteçessor com todas suas forças trabalhou pera emtrar em
esta terra de promissam a vos e aos Yossos sucçessores prometida. E lhe
aconteçeo como a .1\loyses. que tantos annos tinha trabalhado pera entrar
em a terra da promissam. e em fim do monte de 1\ebo olhou pera ella e a
vyo. Assy aconteçeo ao dito Rey dom Joham que do cabo de Boóa espe-
rança oulhou pera esta outra. O que cabo tam nobre. o que renome de es-
perança. posto nom per humano entendimento. mas per diuina prouidençia.
profetizando Bertolomeo diaz. da vossa magnifica senhoria. que traz a dita
esperança por diuisa. de ser digno como Josue de entrar em aquelle mundo
nouo. que bem podemos chamar a terra da promissam. E que proueyto
trouue este tam nobre cabo de Bóa esperança. Certamente muy marauilhoso.
s. ho achamento daquella terra de promissam. onde ha crauo. canella. gingi-
ure. noz nozcada. maçes. pymenta preta. branca. e longa. galangua. reubarbo.
cardamomo. cassiafistola. agarico. turbith. noz de India. balsamo. almisque:re.
ambra liquida. do estoraque tres maneyras. benjoy. almeçega. oppopomaco.
galbano. camftora. bdelij. serapino. ençenso. e myrrha. Dally ho ligno aloe.
ebano. brasil. sandalo branco. vermelho e çitrino. mirabolano. jndio. bele-
rico. etc. Alli ha aljoffar. perlas. diamantes. rubijs. esmeraldas. amatistas.
topasias. jaçintas. çaffiras. turquesas. etc. Alli ha alifantes acostumados e
brancos. vnicornios. papagaios I brancos vermelhos e de muytas coores. O
que cousas tam marauilhosas. Ha hy per ventura outra riqueza no mundo.
Certo nom. saluo ouro. ho qual como disse que Yos trazem das Yossas
Ethiopias em tanta auondança que sobrepojaaes todollos reys do mundo. O
7· Affrica.- r6. sonaão.- r8. da gloriosa.
que tam marauilhosa. adwrem christaaos no outro mundo. os quaaes
com tanta alegria preguntauam pcllas nossas terras. como os nossos pcllas
suas. Onde fica agora o sapicntissimo rcy Salomom com sua prudcncia c
potencia. que nom pode chcguar dcs o roxo da ylha .\siungubcr
onde fa1.ia sua armada ate e ( )rphir. sem ajuda dei rcy lran rcy de Damasco.
ho qual vossa muy jndita magcstadc. nom digo do .\lar se nom
aqucm trcs mill lego as e mais. dcs ho \·osso mar .\ thlantico que se começa
em Ccpta chegou alem do Mar roxo c Syno pcrsico ate o Syno cokhico.
que som açcrca de quatro mill lcgoas sem fauor nem ajuda de nenhuü
outro rey saluo do Emanuel eterno Ocos. cujo lugar \"ossa potcntissima
senhoria possuy cm a terra. Onde fica Alexandre magno com o seu capitam
( )nesecrito. ( )nde os virtuosos Homãos com o seu mandado que lizcrom
que nenhuli passasse as colunas de Erculcs. pcra que nom fossem priuados
do titulo da sua monarchia. Passou vossa senhoria nom digo soomcnte toda
a linca equinocçial. mas ajnda 3.os vhimos fims de ocçidcnte c começo de
oriente ate as terras do gram Ch.tnl onde ja começa de soar vosso poderoso
nome. onde jazem as muy nobres rrouincias Tcnduch. Tanguth.
etc. o principio das quaaes segundo o meu pequeno saber achou o muy
honrrado tidalguo Gaspar corte real. E assy acreçenta vossa senhoria a
lfc christaã per todas as partes do mundo ho que num sento de ncnhuú ou-
tro rcy christaão. pouorando ajnda as ylhas dcspouoadas. undc o nome do
alto l>cos hc honrrado louuado bento c o qual rogo que pclla sua
santissima piedade me lcy\e chegar ao tempo que possa \·ccr a vossa poJe-
rosa senhoria acrcçentada com titulo imperial Je toda a monarchia .. \men.
Con1cçasc a introJu(çam cn1 o liuro Jc :\lar(o paulo
fcyta pcllo Jito Yalcntin1 fcrnand.cz.
Porque segundo faliam as cscripturas antijguas e çertas muytos raróes
andarom o mundo com vontade de vcer as terras alhcas. pcra contentar
hüa vez os oulhos das nouas que ignorauam em suas moradas. como
reçita o muj eloquente c sancto varom doctor Jeronimo na cpistula a Pau-
tino. que Platom andou todo Egypto c toda ltalia. e Pythagoras os  
ticos vates. que forom os sahios c padres antijguos de Babilonia dito Cay I ro. Aiij
pella scicncia de astrologia. ho . .\ polonio segundo nalgo nigromantc. segundo r
os sabios grande tilosofo. andou per muytas terras e regnos atee que passou
o monte Caucaso c penetrou Etyopia onde vio a mesa do Sol. Pois os sobre-
ditos ror contentar soo a vista do que auiam primeiro lijdo tanto anJarom.
3. su prudcncia.- 8. rosso- 21. pauorando.- 2J. posso. 33. astrologio.
lle muyto mais digno ju .... to c que alem da<; grandes riquc1.as cnçima
decraradas. as quaacs ha cm aqucllc numdcJ nouo achaJ(J por industria
de \·ossa Senh(Jria. h} r c semear a pallaura de l>cos. c tirar tam grdndc
mulridom de gentes Jos seus crrorcs aa fc christaã. Ca (]triste, ( )u-
tras ouuelhas tenho que num som dc!-.tc curral. Joh. x. E por e!)S(J Deus todo
poderoso   a grande multidom daquclla gente. c o acrcçcnta-
mcnto que os mouros faliam cm a seita de .\lafomcde cm aqucllas terrac;
pclla \ e1.inhança. nom quis yue maldita sccta c eh e a de pccadcJs cm-
peçonhentasse todas aqucllas terras. quis dar rcmcdio. resuçitando a cxçcl-
lentissima senhoria ,·os.sa. pera que mandasse la homés doctos e letrados
pcra os tirar dos seus crrores e ydolatrias. c chegar ao caminho da ver-
dade. E porque os nomes das prouincias çidades e lugares. c nom men(JS
as ylhas por longuos tempos mudarom seus nomes. Outrosy os latmos em
sua· cosmografia poóe as ditas prouincias c terras tacs nomes. que ho sim-
prez e nom letrado os nom pode entenJcr. assi como o vosso regno de Pur-
tugual h e chamado pello latim I usitania. e a çidadc de Seu ilha H yspalis. e
a yiha de lngraterra Albion. E assi mesmo corrompem os taes vocabulos
pella diuersidade das lingoas que desuairadamente pronunçiam os ditos Yo-
cabulos. e despois as tralladações dclles de hüa lingoa em outra. c sobre
todo taaes vocabulos se corrompem dos ignorantes escriuâes. que com
pouca· diligençia e muy incorrecta os escreuem. e assy se huú mal escreue
sobre ,·e é o outro e escreue to peyor. polia qual ficam taes Yocabulos
corruptos. ou per ,·entura fora do seu \'erdaJeiro principio. E esto despois
causa grande duuida em os autores quando nom concordam em os taaes
yocabulos. pello qual suplico humilmente e rogo a todos aqudles que Yaá
pera aquellas terras. Jas quaaes ho presente Iiuro faz mençam. que taes
\·ocabulos queiram emendar na Yerdade como oje se chamam e perdoem
e esto mesmo digo no fim do liuro. E porque ho presente autor .s.
paulo falia tam craro do gram Cham de Cathayo assy das suas riquezas
como da sua potencia como homê que bem ho sabia. porem alguüs que-
rem dizer. que mais pareçe cousa fingida que Yerdadcira. por nom acharem
alguüs autores que escreuam delle nem façam mençam. Sobre esto ouui
nesta vossa çidade Rey prudentissimo. que o presente liuro os \-enezianos
.\iij teuerom escondido mujtos an I nos na casa do seu thesouro. E no tempo
v que ho lffante dom Pedro de gloriosa memoria Yosso tyo chegou a Yeneza.
e despois das grandes festas e honrras que lhe forom feitas pellas liber-
dades que elles tem nos vossos regnos. como por ho elle mereçer. lhe
offereçerom em grande presente o dito liuro de )!arco paulo. que se regesse
por elle. poys desejaua de Yeer e andar pello mundo. Ho qual liuro dizem
que esta na torre do tombo. E esto se assy hc quem ho sabera melhor que
a vossa real Senhoria.
ti. 2S.
princtpto Jcstc liuro punho hL'tas aJiçócs .s. de Ethyopia. \rabia.
Pcrsia. c lndia. c de como estas pruuinçias som repartidas .. \s <..tuaacs adi-
ções tircy de huü liuru de latim cm linguagem portugucs. hu <..tual liuro foy
cnuiado de Ruma a cl Rcy dom Joham o scguudo. cuja alma Deos tem.
Ca dcspuys que cst"uer desocupado c ,-ijr que a minha grosseira trallada-
çam num seja molesta aa vossa lllustrissima c aos ,-ossos subdi-
tos. cu acabarcy hu dito liuru de todo tralladar. E num ponho aqui estas
adiçócs pera emendar a presente vbra. que tam boóa e pcrfecta hc. mas
porque os simprizes c nom letrados melhor sejam informaJus das repartições
daqucllas pruuincias do vosso titulo real. ho nosso Senhor \·ullu aac-
çcntc. c a vossa muy Sereníssima pessoa real cunseruc c prospere. com a
senhora a Raynha. com toda gceraçam c sangue real per longuos tempos.
Amcn.
.\cabasc a introducçam cm ho liuro Jc paulo. scgucnl'.;c
çcrtos capítulos das prouincias do titulo real de vossa Senhoria. F
primeiramente de Ethiupia.
Das quantas som c atcc onde se cstclh.lcm.
Ethyopia hc huü comuü vocabulo Jc muytas pruuincias. das quacs a
primeira se começa cm a vossa   nu Cabo \·crdc. seguindo a costa
do mar atce o estreyto do todas estas prouincias se chamam
Ethyopia cm a escriptura. pdrcm cada hüa Jcstas tem alguü outro suhrc-
nomê. Ca ho Ptulumco chama a vossa Guynce Ethiopia austral. Em e:-.ta
Ethiopia do Cabo \·erdc atcc o ryo de Casamansa som todos fanados. c a
mayor parte dcllcs som da seita de 'lafomcdc. E as mayurcs duas geera-
çócs de Ethyopcs som Gylofos c \landingas .. \s quaacs comuümcntc tem
huü grande rcy o qual chamam .\landimansa. Ca a terra de :\landinga cha-
mam Mandi. e mansa que quer dilcr senhor. c assi o chamam
Este rey hc senhor de muytos \ assallos. c a clle paguam muytas parias. E Yiuc
dentro no sertaão bem quatroçcntas lcgoas. cm hüa çidadc çcr\:ada de taypa
a que chamam Jaga. E este rcy hc negro. c tem muyto ouro e prata. e de
todallas mercadorias que se tratam cm Adem c I· os Ethyopcs dalli
auantc comümente todos som dolatras. atec passado o cabo de Bõa espe-
rança onde outra ,-cz se começa a sccta mourisca. a fura a pruuincia grande
de . .-\. yual u \osso anteçcssor cl H dom Joham o
cuja alma Dcos tem. grande parte tem conuertido aa tré (atholi(:a.
.\iiij
r
:\ lem Jestas   pcllo scrtaáfJ estam os montes muy altos cha-
mados da I ,üa. as cahcças dos quacs sempre som   de ncuoa. E
em as ra\-zcs destes montes alem contra a <JUtra banda naçc ho famo!-to ryu
.Nylu. E .esta terra hc chamada Ethynpia dalcm do Egypto. e pollo arabigo
.\h as. c os moradores de !la .\ bassinos. Esta terra tem cm S\· a v lha de
- o/
c os rios Tacuy c Astaborã c outros muytus ryos yuc entram no
dito ryo 1"\ylo. c mujtas outras rcgioões yuc se estendem contra o meu
Jia c oriente. E todos moradores desta prouincia som christaãos. e
ferrados segundo seu custumc na façc. E nom se baptisam com fogo como
mujtos dizem e cuydam. mas baptisamse com agoa. em ho nome do Padre
e Filho c Spritu sancto. E estes christaãos tem ho error dos .Jacobitas.
Estes christaãos segundo alguús alem de serem baptizados se çircunçi-
dam e guardam ho sabado e nom comem carne de porco. E alguús delles
Aiiij tomam muytas I mulheres. e dizem que mantem ambas as leys. E dizem que
v ho seu rey dellcs traz seu começo dcl rcy Salomon c da raynha dos rcgnos
de Sabba e da Ethiopia. Estes morto ho rcy enlcgcm huú dos filhos ou
do linhagem real. c os outros ençarram em huú monte. porque nom façam
diuisam neste regno. E este he aquelle rey que nos outros tcemos por Preste
Juham c nom no he. Ca ho Preste Joham hc la em a terra de Cathayo.
ajnda que ho gram Cham ho matou c tomou suas terras. porem sempre fica
huü da sua geeraçam que da parias ou tributo ao gram Cham. E este hc
christaão nestorino e de sam Thomc. E este outro he christaão jacobita.
nom Indiano. mas Eth!opiano. nom Preste Joham. mas seu titulo hc Rcy de
Ethiopia. Este rey he muy poderoso. c tem outros rcys debaixo do seu se-
nhorio. e tem continuadamente guerra com os mouros. Assy que a suas
gentes non leyxam tractar fora das suas terras. nem por mar nem por terra.
E por ysso aprouue a diuina clemencia que a \·ossa muy real senhoria lhes
fosse Emanuel contra os imijgos da ffe. tornandoos aa sua liberdade c man-
dandoos cnsynar a ffe verdadeira e catholica. tyrandoos dos seus crrorcs.
assy que ellcs de nos outros. c nos delles nos possamos aproucytar pcra
sermos huús menbros em huü corpo. e per conseguinte huú pastor e hul'1
corra I.
A Ethyopia interior e asyatica segundo os escriptores arabigos se
chama Zeuz. E se estende das fontes do N do e os montes da Lúa contra
oriente atee o syno Barbarico. e esto junto com huú braço do ryo que
vem dos ditos montes. E escreuem que soomente ho ryo antre os
outros rvos entra cm ambos os mares .s. no mar oriental e occidental. E
>
estes Ethiopes todos com os seus senhores som mouros. E ho trabalho
delles he cauar ouro da terra ho que acham em grande auondança.
Ajnda ha hy outra Ethyopia chamada Tragoditica. E esta prouincia
se estende desta outra Ethyopia ja dita. atee ao estreyto do   roxo. E
:.1. cobertos.- 1 R. nesta.- 23. eth10pano.- 33. escrpitores.- 3+ dos fontes de.
estes ja huü poU(O tiram aa brancura. E hu senhor dclla com todo ho
pouoo som mouros. .A gccraçam destes senhores e prinçipc pruçede de
Arabia fclix que passarom este estreito c tomarum esta (Osta dos nossos
Ethiopcs christaãus .\bassinus per força. F att:c oje os roubam c sal-
tt:am. porem muy escundídamcntc c num (Om guerra pruui(a. Ca este rcy
dos .\bassinos ditem que hc tam poderoso. que hu Soldam de Ba I bilonia ou
Cayru lhe da grande tributo. E esto hc que cm çyma disse. que clle (um
ajuda de vossa senhoria tornara a re(upcrar as suas terras marítimas. Ca
us mouros mesmos h o dizem. que por mal dcllcs \ ussa senhoria tem a(hado
<lllucllas terras. hu qual apraLa a lkos tudo poderoso que seja assy.
Da prouincia d<· \rahia atcc onde se estende. c quantas
son1 as Arabias.
A Arabia cm gecral por arabigo he chamada .\rab. E aquclla que hc
anu·e ho Mar roxo e ho .Mar persi(u clles chamam GesirJclarab. que quer
dizer ylha de Arabia. E esta que he quasi ylha Jus gregos he chamada
Endcmon. e dos latinos Arabia fclix. por respccto do ençcnso que hy nasçe.
E aquella que he de fora ou alem desta .\rabia hc de duas maneiras.
Aquclla que se estende da enseada de Toursim. que hc do monte de Synay
atce as regioões do I\lar morto. em a qual os filhos de Israel tanto tempo
crrarom. e esta de nus outros ht: (hamada _\rabia pctrcc. de hüa sua
    A outra que se t:stcn.:ie antre a Syria c ho ryo Eufrates contra a
çidadc de l.epo. esta Arabia he chamada .\rabia Sam. que quer diLcr
de SHia. e estu antrc cllcs. mas antrc nus úutros hc chamada :\rabia
deserta.
Porem melhor he repartida a :\rabia fclix segundo os (usmugrafus
.\rauigos. us quaes a repartem cm duas partes .s. hüa que he interior. esta
he aquclla que \·aa teer alem de pcra riba atce seu (abo. F aquella
propriamente hc chamada a \rabia felix. c do melhor ençcnso. que quer
dizer a prouincia de Olibano. .\ qual cm a nossa cscriptura he chamada
Sabca. onde foy a Haynha de Saha. E tem diucrsos pouuos. c diuersas
hcrcgias da sccta do .Mafomcdc. que antre sy tem repartida esta terra. E
toda a outra parte desta terra .s. da \rabia feli::\. he chamada Hagces. Em
esta he ho porto de Gyda. em que se descarrcgua a mer(adoria de lndia.
e he do Sold:.un. c assi mesmo o porto de   E nom muy longe Je
.\ \'
r
Sabea no mar alto contra ho mco dia I jaz a ylha chamaJa Sc:(Utera. onde Av
naçc hu ligno aloe Se(Utrino. r. he pouuada de   · V
21. bo ryo.- 31. Mi.ltfomcdc.- 35. alta.
Da prouincia de Pers,·a .
.:\ prouincia de Pcrsia hc propriamente assy chamad.t. porque jaz na
L:osta Jo syno ou enseada do Mar pcr.sico. a qual cm outro tempo muyto
nobre. mas agora hc muyto destruyda. Desta prouincia de Persia cscreuc o
paulo no presente liuro .j. Capitulo .:xix. fol .vij.
Da lndia atee onde se estende. c do rcpartimento della.
A lndia antre os nossos L:osmografos se reparte em aquella que hc
alem do ryo Indo c aqucm do o Gangc. c cm aquella que hc alem do
dito ryo Gangc. os L:osmugrafos oricntaes pclla cspcriençia da verdade.
aaquella soo que hc aquem do ryo Gange atribuem aqucllc nome Hynd.
que quer dizer lndia. E aquella repartem cm tres partes .s. primeira.
segunda. c a terçcira. Esto he India ba-ixa. meaã. e alta .
.A ·primeira India hc a baixa. c he chamada Ca\·sarat. E se estende do
ryo Hynd. que he u ryo Indo atee o emporeo ou porto de Cumbaya
indusiuc. Em a qual he que foy em outro tempo çidade real. Ho
rcy desta parte da lndia he mouro. e açerL:a a quarta parte do puuuo. e os
outros adoram os ydolos. E quasi desta condiçam he a çidade de Dyle que
he sytuada no sertaão contra ho norte. em a qual soya estar ho emperador
dos mouros. o qual a esta parte de lndia senhoreaua. e a outras
regiões.
A segunda lndi:1 o a meaã h c com sobrenome chamada   E
L:hegua atee ho synu Colchico inclus1ue. E desta vem a mayor parte de
gingiure c pymenta. esto he dos seus muy fremosos portos .s. Colocud.
Coulcn. Hely. Fatenour. assi mesmo de Colongur. em a qual prinçipal-
mcnte som rnuytos christaãos nestorinos e judeos. Em esta parte e na
seguinte alguüs mouros começam a 'iuer por L:ausa do trato da merca-
doria. Porem os moradores naturaaes da terra com o seu reY som Ydolatras.
- -
Contra a parte do norte deste regno h e a çidade muy nobre chamada ze-
neguer. da qual assy mesmo u rey e ho pouou som ydulatras e de todas suas
reg1ooes.
Avj I A terçcira lndia que he a superior ou alta L:om sobrenome chamada
r Nlahabar se estende atee Cand1. que quer dizer Ganges ou açerL:a delle.
Ern esta naçe canella c aljofar. E ho pouoo com ho seu rey.adoram o boy.
Em esta India he o cabo grande chamado Chory. do qual nom muyto longe
esta o porto de :\'lelampur. que quer dizer o porto de   onde sam
l
. II " . G """ I '
7· os.-10. aaquc c-u. pnmcrra.-1. açcra--Ij. autros.-.>.>.0 10).
Thome apostolo com sru mart\'rio c sepultura glorifkou a Christo. E
desta greja moram ajnda nestorinos. mas .. \lem
deste regno contra h o norte e.sta huü outro (;hamado Tcll   que h e assi
mesmo daquella fce cl rcy com o pouoo como os outros. em o:-. montes do
qual se os dyamantcs.   ajnda nom longe das bocas do ryo
Ganges huü rcgno na costa do mar muy chamado Bengala. o qual os
oricntaaes cum engano e per força darmas aa seita de
.. \aquem deste regno he huü outro chamado Orilf.t. o qual ajnda
nom podcrom constranger aa sua   Em fronte do sobredito cabo esta
aquella famosíssima çidadc c ylha l.ic Taprobana. a lJUal agora hc chamada
Seylam. cm a qual cl rcy com o seu puuoo adora os yJolos. o qual traz seu
dal}Uella moral de Brahamcna .s. dos bragmanos. Em redor
desta ylha ho jazem muytas ylhas. c cm alguüas dellas som
.xxx. casas c cm outras çcmo. c dizem que som .x.ij. miL E pellu seu
nome som chamadas D,·ab. H o senhor deli as h e mouro. A I cm destas ,-lhas
-
contra o meo dia o mar he Dollcmet. que quer dizer tenebroso.
porque Ieua as naaos assi l}U_c pareçe que scram  
·\ terra que hc alem d6 ryo Ganges he de nos outros lndia.
c dellcs la hc   E tem dcsuairados senhores dados aa
ydulatria seus pouoos. dos quaaes alguüs dam tributo ao gram Chan"'
de Cathayo. Em a dita terra he Aurco que he quasi
ylha. a qual o presente autor paulo chama 'langy. onde no porto de
Zcyton soyam estar dous mocstciros dos 'tenores. c agora esta hLia rua
de mouros antrc os moradores ydolatras da terra. Deste porto
naucguam a muytas ·ylhas de homés bestiaacs. das quacs as se
G,·ana c G,·ariha.
- -
F toda a outra terra o oriente que dcsçe contra o srno grande.
- .
c ao \'ltimo mar de India atce as terras hc dtamada Sn1 c  
. -
ajnda que chamam toda esta terra G-ata. que quer dizer Catayo. pella \'ni-
dal.ic l.io scnho:-io. que os nossos simpri1cs todo lndia scptcntrional.
2. açcra.- R hnü.- J5. dcllc:..- 16.  
Avj
v
Seguese o prologo daquelle que tralladou o .!\larco paulo
da lingoa Ytaliana em latim.
\. "'
Som constrangido eu frey Pipino de Bolonha da ordem dos frades
pregadores de muytos jrmaãos padres e senhores meus. ho liuro do pru-
dente honrrado e fiel dom ~   arco paul o de Veneza das condições e custumes
das terras do oriente per elle fielmente composto e ytalico esaito. a reduzir
per verdadeira tralladaçam de tingoagem a latim por tal que aquelles que
se mais deleitam no fallar do latim que do lingoagem. e ajnda por aquelles
que por desuario das lingoas. ou pella differença dos lingoagés nom podem
de todo ou ligeiramente a propiedade da lingoa entender. o leeam mais
deleitosamente e mais liuremente o tomem. e çertamente elles este trabalho
que me assy constrangem ou constrangeram tomar. per sy mesmos poderam
mais compridamente obrar. mas ocupados em mais alta contemplaçom.
prepoendo as cousas mais altas aas mais baixas. assy como refusarom as
cousas terreaes saber. ass\· as refusaram de escreuer. ~   a s eu consentindo
a seu mandado todo o que este liuro conta fielmente e enteiramente o trella-
dey em craro chaão latim. segundo o stilo da materia deste liuro requeria.
E pera que ho trabalho delle nom pareça seer vão e sem proueito. consij-
rey que pello esguardamento deste liuro os fiees homés poderam percalçar
do Senhor mereçimento de mujtas graças. e esto ou porque na desuairada
fremosura e grandeza das criaturas. veendo as marauilhas de Deos. pode-
ram a sua virtude e sabedoria mais marauilhosamente esguardar. ou veendo
os pouoos dos gentios em tanta treeua de çeguidade e em tantas çugidades
enuoltos dariam a Deos graças que os seus fiees alumeando da luz de sua
verdade quis chamar de tam perijgosas treeuas ao seu marauilhoso lume. Ou
doendose da ignorancia delles rogaram ao Senhor por alumiamento dos
8. lingogem.- 12. cõstrange.- '7· requerio.
seus corações. ou daqui sera confundida a pigriça dos christaãus conhcçidos
por quanto os pouoos infices som mais promptos pcra adorar os ydolos
que alguús daquelles que som do synal de Christo som promptos
pera honor do verdadeiro Deos. ( )utrosy puderam prouocar os corações de
alguüs religiosos pera acreçentamcnto da fee christaã que o nome de nosso
senhor Jcsu Christo dado esqueçimento em tanta multidom de pouoos tra-
gam. dandolhes o spritu do Senhor fauor e conhcçimento as nações çeguas
dos inficcs. anu·c os quacs a messe he mujta e os obreiros som poucos. E
pera que muytas cousas num ouuidas nem atltre nos acustumadas as quaes
em este liuro sam cm muytos lugares recontadas. nom pareçam au I desaui-
sado leedor dcllas. que se num deucm nem podem crecr. Saybam todos os
que este liuro Icem. o sobredito   pauto recontador destas marauilhas
seer homem prudente fiel e dcuoto afrcmosentado de muytos e honestos
custumés e auido de todos seus familiares por de boõ testimunho. cm tal
maneira que pello seu multipricado mereçimcnto a sua relaçam seja digna
de crccr. Outrosy seu padre dom antre todos os da prouincia muy
honesto. Todas estas cousas fielmente recontaua seu tyo. do qual faz mcn-
çam este liuro. homc mltrosy maduro dcuoto sabedor c capaz. scendo cm
o artijgo da morte. disse a seu confessor em ho familiar falamcnto affirmou
com toda sua firmcsa todallas cousas em este liuro contheudas serem Ycr-
dadc. Por as quacs cousas eu tomey trabalho com mais segura flrmc1a
açcrca da tralladaçom delle. pcra consolaçom nossa c louuor de nosso senhor
Jesu Christo. criador de todallas cousas Yisiuecs c nom vcsmccs.
Este liuro se parte cm tres partes. as quacs som repartidas per
seus propios capítulos. nos começos dos quaes liuros os titulos dos
capítulos som notados. pera as cousas em cllcs contheudas serem mais
h·gc\Tamentc achadas.
. ... -
S. do nosso.- 26. conthcudss.
.\vij
r
a tauoa dos capitulos do liuro primeyro.
De como e em que maneyra dom ::'\ycolao paulo de \" eneza e dum .\laf-
fco seu se passarom aas partes do oriente. Capitulo prirneyro. Fui. j.
Em como se forom aa corte do muy grande rey dos Tartaros. Ca-
pitulo .ij. Foi. j.
De como acharom graça açerca do subredito rey. Capitulo .iij. Fol. ij.
I Em como forom enuiados desse mesmo rey ao papa de Roma. Ca-
pintlo .iiij. Foi. ij.
De como esperaram em Y eneza a elecçom do papa. Capitulo . Y. Foi. iii.
De como se tornarom ao rey dos Tartaros. Capitulo . vj. Foi. iij.
De como furom re.;ebidos do gram rey dos rartaros. Capitulo. ,-ij. F ol. iij.
Em como .Marco filho de dom :\ycolao creçeo en1 graça ante ho gram
rc\·. Capítulo .Yiij. Foi. iiij.
Como e porque depois de muyto tempo akançarom dei rey pera se
tornarem a sua terra. Capitulo .ix. Fui. iiij.
De como se tornarom a Yeneza. Capitulo .x. Fol. iiij.
Da decraràçom das terras do oriente. e primeyramente de .\rmenia
a menor. Capitulo .XJ. Fui. iiij.
Da prouincia de Turquia. Capitulo .xij. Foi. Y.
Armenia mayor. Capitulo . x.iij. Foi. v.
Da prouincia de Zurzania. Capitulo .xiiij. Foi. v.
Du regno de 2\Iorful. Capitulo .x,-. Fui. ,-j.
Da çidadc de Baldach. Capitulo .x,·j. Foi. vj.
Da çidade de Taurizio. Capitulo .xvij. Foi. vj.
De huü milagre que foy em aquella terra. de transmudacum .ie huü
monte. Capitulo .n·iij. Fui. Yj.
G.   17. lh: uricntc.
Da prouinçia de Pcrsya. Capitulo .xi x. Fui. vij.
Da çidadc de .Jasdym. Capitulo .xx. Foi. \·ij.
Da çidade de Quermam. Capitulo .xxj. Foi. ,·ij.
Da çidadc de Camdu. e da terra de Rcubarie. Capitulo .xxij. Foi. vij.
Das campinas fremosas e de hüa çidade chamada. Cormos. Capi-
tulo .XXII). Foi. ,·iij.
Da terra que esta em meu antre Cormos e a çidade de Qucrmam.
Capiwlo .xxuq. Foi. ix.
Da terra que esta cm mco antre a çidadc Jc Colwna c Qucrmam.
Capitulo .xxv. Foi. ix.
Da çidade de Cobyna. Capitulo .xxvj. Foi. ix.
Do regno de Tymochaym. c da aruorc do Sul. a qual comul'm1cnte
hc chamada aruore seca dos latynos. Capitulo .xn·ij. Foi. x.
l Do tyrano chamado Y e lho das montanhas. e dos seus que
quer dizer acutclladores. Capitulo .xx\·iij. Foi. x.
Da morte do sobredito tyrano. e da destruyçam daqucllc seu luguar.
Capitulo .xxix. Foi. xj.
Da çidade de Sopurga e das suas terras. Capitulo. x x x. Foi. xj.
lJa çidade de Balachay. Capitulo .xxxj. Fui. xj.
Do castcllo de Taycham. Capitulo .xxxij. Foi. xj.
Da çidadc de Scassem. Capitulo .xxxiiJ. Foi. xij.
Da prouincia de Balastia. Capitulo .xxxiiij. Foi. xij.
Da prouincia Je Baschia. Capitulo .XXX\". Foi. xiij.
Da prouincia de Tesmur. Capitulo .xx x vj. Foi. xiij.
Da prouincia de Bocham. c dos montes muy altos. Capitulo .xxx\·ij.
Foi. xiij.
Da prouincia de Caschar. Capitulo .xxxviij. Foi. xiij.
Da çidade Je Samarcham. e do milagre da coluna to cm a grcja de
sam Joham baptista. Capitulo .xxxix. Foi. xiiij.
Da prouincia de Carcham. Capitulo .xl. Foi. xiiij.
Da prouincia de Cotham. Capitulo .xlj. Foi. :-.iiij.
Da prouincia de Pcym. Capitulo .xlij. Foi. xiiij.
Da prouincia de Çyardtiam. Capitulo .\.liij. Foi. XL
Da çidade de Lop. e do deserto muy grande. Capitulo . \.Iii j. I· ui. X\'.
Da çidadc de Sadlion. e do custumc dos pagaãos. c do mamemo
dos corpos dos mortos. Capitulo .xh·. Foi. xvj.
Da prouincia de Camul. Capitulo .xh·j. Foi. X\·ij.
Da prouincia de Chinchitalas. Capitulo .xh ij. Foi. n·ij.
lla prouincia de Sucuyr. Capitulo .xh·iij. Foi. \.\'IIJ.
Da çidade de Campyçion. Capitulo .xlix. Fui. \\IIJ.
Da çidadc de Ezyna. c de outro grande deserto. Capitulo .1. Foi. \\ IIJ.
7.   -   fci ta.
.\\·iij
r
Aúij
v
Da çidadc de CoromcJram. e do OJmcço d,, :,cnhuno d o ~ Tartaros.
Capitulo .lj. Fui. xviij.
Do primcyro rcy dos Tartaros chamado Chinchis. c da discordia que
ouuc com ho seu rey. Capitulo .lij. Foi. xix.
Da batalha dos Tartaros com aquclle rcy c da victoria que üuucrum.
Capitulo .liij. Foi. xix.
Dd conto dos rcys dos Tartaros. e em que maneyra os corpus dcllc-;
som s<:pultados no monte de Alchay. Capitulo .liiij. Foi. xx.
I Dos gaaaes custumcs e manhas dos Tartaros. Capitulo .lv. Foi. xx.
Das armas e \·cstiduras dclles. Capitulo .lvj. Fui. xx.
Dos C:)muús manjares dos Tartaros. Capitulo .lvij. Fol. xxj.
Dos ydolatras c errorcs dellcs. Capitulo .h iij. Fui. xxj.
Da ardideza e industria e forteleza dos Tartaros. Capitulo .lix. Fol. xxj.
Da ordenança do exerçitu ou batalha. e a maneyra de pelejar dos Tar-
taros. e de como som sages em a peleja. Capitulo .lx. Fol. xxij.
Da justiça e juyzo delles. Capitulo .lxj. Fol. xxij.
Das campinas de Bargu. e das estremas ylhas do aguyam. Capitulo .lxij.
Fol. xxij.
Do regno a que chamam Eguermul. e da çidade de Singuy. Capi-
tulo .Ixiij. Foi. xxiij.
Da prvuincia chamada Egregaya. Capitulo .lxiiij. Fol. xxiij.
Da prouincia de Tenduch. e de Gog e de ~ l a g o g   e da çidade de
Cianguamor. Capitulo .lxc Fol. xxiiij.
D:1 çidade de Cyandu. e da mata real que esta açerca della. e de
algúas festas dos Tartaros. e dos enganos dos magicos. e dos seus sacrifi-
Cios. Capitulo .lxYj. Fol. xxíiij.
De alguüs monjes que som ydolatras. e da vida delles. Capitulo .lxvij.
Fol. xxc
Acabase a tauoa ou registro do liuro primeiro.
11. tarraros.- 2S-26. sacrifios.
Comcçasc ho Liuro Prin1ciro de pauto de Ycncza
das condiçoócs c custun1cs das gentes c das terras c pro-
uincias oricntacs. E primcyratncntc de con1o c cm que
Oon1 nlarco pauto de \ cncza c Don1 .\Iattco
seu jrmaão se passaron1 aas partes do oriente. Capitulo
. .
prnnctro.
Xu tempo que Balduuino Rey guuernaua ho cmpcrio de C0nstantino-
pul1. E esto fuy no anno da cnLarnaçam de nosso senhor .Jhesu Christo de
mill c: duzentos c. çinquoenta annos. dous nobres honrraJos c prudentes
jrmaãos. çidadaãos e moradores da muy nobre çidadc de Y encza. poendo
r. r
por seu aLordo no porto da dita ç!dadc de \.c I ncza de entrarem cm hüa sua  
propria naao carreguada de dcsuayrajas riquezas c ,·entando
boõ vento c guyandoos Dcos se forom pcra a çidadc de Constantinupoli .
. \o maior destes per chamauam e ho outro .. \
qual gecraçam delles era chamada a casa de Paulo. E sccndo cllcs cm a
çidade de Constantynopuli forom cm brcuc tempo bem descmbarguados c
despachados. L dalli nauegando se forom com a graça de Deus c mais
prospero ,·ento atcc que dtcgarom ao porto de hua çidadc de .\rmcnia que
hc chamada Soldadia. na qual fazendo prestes preciosas joyas segundo os
conselhos que forom dados. se forom adyantc c Lhcguarum aa corte de huü
grande Hcy dos Tartaros a que diziam Barca. e otrercçendolhc doócs de
LOUsas que Lonsiguo lcuauam. forom dcllc bem e benignamente rcçcbidos.
de, qual per essa mesma maneira reçcberom muj grandes c mais larguos
doões. E scendo clles assi per huü annu no seu regno. c querendose tornar
pcra \ cncza. antre ho He\· c outro Hn do:;
. .
5. c a pi tollo. - 7. gunc rnaua.
I I o I 11" IH} I' H I \I E .. IH)
Tartaros per nome dtamado \ lan. se lcuantou laúa noua c grande Ji.,cordia.
e pelejando os excrcitus dellcs ambos huú contra ho ulllr(J \ lan ficou \ cn-
çcdor. E ho e:xtTcitu dei Hey Barca foy JcrribaJ,, per grc.1m quccda. Pclla
qual razam vistos os perijgos     caminhos foromlhcs cmpachadfJ\ os luga-
res de tornar a sua terra per onde primeiramente vicrom. F aucndo seu
conselho como se poderiam tornar a Constantinopuli. ncçessc.1rio de
rodear ho regno de Barca. per caminhos nom çertos. e assi cheguarom aa
chamada l>uchata. E partindose dalli passarom ho ryo de Tygris. que
he huü Jus l)Uatro ryos do paraiso tcrreal. 1·. passarom per huú deserto
per .x,·ij. jurnadas. sem vccr çidadcs nem lugares ate que chcgarom a muy
nobre çidade chamada Bothara. que esta em a rcgi(Jm_ de Persya. na qual
çidadc era senhor huü Hcy chamado per nome Baratath. e alli esteuerom
per trcs annus.
Em con1o se foron1 aa corte do muY grande Rcy
Tartaros. CD pitulo . ij.
Em aquclle tempo huü homc cumprido de toda prudencia enuiado
do sobredito Rey Allan ao muy grande Rey dos Tartaros chegou aa çidade
2, r Bothara. e alli achou os· sobreditos barões ,-enezianos. os qua ! aes ja
razoadamente souberom a lingua dos Tartaros. ho qual se alegrou muyto.
ho porque ajnda nunca ,-ira homes latinos. que mujto desejaua os veer. E
auendo com ellcs per muytos dias falia c companhia. e conheçendo os seus
graciosos e boõs custumes. cometeolhes que se fossem com elle ao muy
grande Rcy dos Tartaros. prometendolhes que reçeberiam delle muy grande
honrra e muy grandes beneficias. E elles veendo que se nom podiam aa sua
terra sem trabalho tornar. cncomendandose a Deos foromse com elle.
auendo consiguo christaãus familiares por companheiros que trousserom
consiguo de Y eneza. e per espaço de huü anno cheguarom ao Rey muy
grande de todollos Tartaros. que era chamado Cublay. ho qual em sua lín-
gua chamam gram Cam. que em a língua latina quer dizer gram Rey dos
reys . .1\las a ra.wm de tanta rcrlonga em hindo foy esta. por quanto pellas
neues e enchimentns dos ryos e dos regatos lhes foy neçessario desperar
no caminho. atee que as neues que sobreuierom c as aguas que encheram
minguassem. Ho caminho delles foy aquelle anno seguindo ho vento de
aguyam. ho qual os Yenezianos chamam em seu linguagem tramontana. E
as cousas l)liC ,·irom ho caminho seram em este iiuro per urdem decra-
radas.
35-3G. dccra rados.
J))·: \).\HCO I'Ali.O
De como acharom do sobrcdito Hey. Capi-
tulo .iij.
Quando ante a presença do gram Cam forom apresentados. Este Hey
que era muyto benigno os reçebeo alegremente. e muitas ,·ezes lhes pre-
guntou pt>llas condições das partes do oçiJente. e do emperador Romaão. e
dos reys e príncipes dtristaãos. e em que maneira se guardaua nos seus
regnos a ju!-.tiça. E em como se auiam ainda açerca das cousas das bata-
lhas. Preguntou outrosy com diligençia pcllos costumes dos latinos. e sobre
todallas cousas diligentemente inquirio do papa dos christaáos. e do cultu
da lfe christaã. 1·. elles assi como homés prudentes sagesmente e ordena-
damente a cada hüa das cousas responderom. pella qual cousa muytas Yezes
os mandaua ante sy Yijr. e assi eram muito açept<·s e em graça diante os
seus olhos.
Em (omo forom cnuiados desse n1csn1o Hcy ao papa
de Homa. Capitulo .iiij.
H uü dia h o sobredito Cam. auiJo primeiro conselho com seus barões. 2, ,.
rogou aos sobreditos baroóes \ enezianos que pello seu amor tornassem ao
papa com huli dos seus priuadus que era chamado Cogatal. pera rogar de
sua parte ao Papa que tiuesse por bem de emuiar a elle çem sabcJores
christaáos qu\! soubessem amostrar aos seus sabedores razoauel c pruden-
temente. se era ,·erda3c que a tre e creença dos christaáos fosse melhor
antre tuJas. e que os deuses dos Tartaros fossem diaboos. c que ellcs e as
outras gentes Jo oriente eram emganados na cultura dos seus deuses. Ca
certamente ellc desejaua muyto de ouuir per 'iua ra1.om e daramcntc qual
tfc dcuera com mayor razom ser seguida e creida. (h quaes humilmcnte
asscntaJos em gyolhos respondiam. "-Jlle a todos seus mandados estauam
prestes. E logo manJou csaeuer h:tras pcra lw Papa em ho linguagem dos
Tartaros pcra aucrem Je ser lcuaJas ao Papa \.ic Roma. c mais lhes mandou
dar a tauoa Je ouro testimunhaucl esculpida c assignaJa do synal real sc-
gun J,J custume do seu poderio. a qual tauoa tudo aquellc que h a leu a Jeue
st'r guiado c lcuado seguro com toda sua companhia. Jc lugar em lugar
Je to...-follos das terras Jc Tartaria e sujeitas ao seu imperio. e em
qLnnto lhe aprouucr Jc estar cm algüa çidadc ou lugar Jcuclhes de ser en-
te· ramcnte prouijdo das despezas c Jc todallas cousas neçessarias.
Joulhes outrosy ho dito que lhe tromtes!'-.cm do oleo da alampada "-JUC
pende ante ho st'pukro Je nosso cm Jherusalcm quando tornassem.
+ mui w era.- 5. de 12. a.:cpt•l.- 22. t• ''-''':;.-   3t1, dfJ nosso.


3, r
ffo J.JI"IHI 1'1<1\11 YIHI
La certamente elle cnja Cltri!-.1'' ser huü no ccmto dos deu.,es. 1-.
pois que assy forom no paaço dei Hey honrradam<.:ntc rcçcbida
licença dei Hey començarum seu camir1ho. leuand'J letra., c a
tauoa de ouro. r caualgando toJos juntos por de . \. x.   ho
baram Cogatal que com ellcs hya fcJy grauementc enferm(J pdlo qual per
\ oontad<.:' deli c mesmo. e per consdlw de muytos ho leyxar,Jm c
seu cumcçaJu caminho. E pella tauoa de ouro que tinham forom em todollu"
h.tgarcs muyta rcucrcncia sem algüa contradiçam. mds pdla
multidom das beiras que no caminho c cm lugarc<i lhes
foy neçcssario seu caminho per muytas Yezes ser retardado. Ca certamente
cll<.:'s poserum trcs annos no caminho antes que chcguassem ao porto da
çidade de Armcnia I a que chamam GlaLa. c partind,Jsc da Gla1a chegarom
a nu mcs de abril. annu de nosso Scnllúr de mill. lxxij.
ne (01110 csp..:raron1 Cl11 Yencza a elecçanl do Papa.
Capitulo x.
que dles assi cntrarum em .\cdwn. ouuirom que o senhor
papa Clemente era morto rouco auia. na qual cousa furom muy tristes. E
estaua emtom em Acchon huú delegado da see apostolica .s. o senhor Teo-
baldo. huü dos biscundes Prasença. ao qual todallas cousas
porque eram enuiados. ho conselho do qual foy. que em toda maneira
esperassem a elccçam do padre E por esso se foram a Yeneza per a_
yeer os seus e pera ficarem hy atee que ho papa fosse enlegido. E quando
cheguarom a Veneza. dom :\"icolao sua molher morta que ficara
prenhe na sua partida. e achou huú filho que auia nome ho qual ja
era de hidade de .:x:Y. annos. que naçera depoys da sua partida de Yeneza
da dita sua molher. Este h e aquclle o que este liuro. ho qual
de como e em que maneira soube todas estas cousas em bay:x:o se demos-
trara. mas a elecçam du Papa tanto tempo foy prolongada. que ficarom dous
annos em Veneza esperando cada dia.
De con1o se tornaron1 ao ReY dos Tartaros. Capitulo .Yj.
Despois de dous annos os mesegeiros do sobredito Rey temendo que
ho Rey seria enojado por sua grande tard:mça. c que cuydaria que elles a
clle nom qursessem mais tornar. tornaram c se forom a leuand(,
lYE ... \ 1.-\RCO PAC L<)
consiguo ho sohrcdito c \ isitandu de do delegado ho sepul-
cro de nosso Senhor cm Jherusalcm. c tomarom du olco da lampada do
sepulcro segundo hu llLIC ho Rcy pidira. E des que rcçebcram letras do
delegado pcra cl cm que daua tcstimunho que elles fielmente traba-
IIIarom. que a Je Homa ajnl.ia num era pruuciJa Je pastor. foromse
a Glaza. l\las como se partirom de Iugo hu sohredito delegado
rcçcbco mcsscgciros dos cardcacs que elle era cnlcgiJ.u em papa. c posse
nome Grcgor!o. E cnuiando Iugo cm pus ellcs mcscgeiros mandandoos
chamar. E elles assi tornados rcçcbcoos com grande alegria. c dculhes outras
letras pera hu Rcy Jos Tartarus. c mandou com elles Jous frades sabedo-
res e letrados da urdem dos preguaJorcs l}Ue cstauam em   dos
quaacs a huü I frcy Jc Yinccnçia. c au outro frey Guilhclmo
Tripolitano. E quando todos juntamente chcgarom a Glaza. ho gram Soldam
de Babilonia com grande hoste era entrado cm .\rmcnia. ho qual estes
frades temendo que por os pcrijgos das guerras c furtunas Jos caminhos.
nom poderiam a dteguar ao dito Rey Jus Tartaros. ticarom cm .-\rmenia
com hu mestre do Templo. os quaaes çcrtamentc muytas vezes forom
postos cm pcrijgu de morte. :\las os mcscgciros pocndosc a todo pcrijgu
com muy grandes rrabalhos ao Rey. hu qual cm hüa
çidaJc que chamam Clcmcnfu. E estcucrom no caminho des o porto de
G lat.a ate Clemcnfu tres annos c mco. que çertamcnte do seu caminho no in-
uerno pouco se podiam aproucitar. pellas grandes ncucs c fortes aguas c muy
grandes frios. :\las ho Hcy Cublay de longe ouuindo a tornada dcllcs. man-
Jou mcsegciros que os fossem a rcçcber a quorcnta jurnal.ias. os quaacs
per especial mandado dcl Hey lhes dcrom prouisam pcra ho caminho lwn-
rradamentc Jc todallas cousas neçessarias.
De (0111<> ioron1 do gram Hev dos Tarlaros.
Capitulo .\·ij.
Quando dles a dei depois que cntrarom a ellc
dcitaromse com !!rande rcuerencia ante ellc. o L]Ual alc!Trcmentc.
l • , , n
mandou que se leuantasscm c lhe contassem Jc como lhes fora pello
nho. c Je todo o que h/erum ho papa. ( )s quacs deaarandulhc per
ordem todallas cousas. c as letras do Papa Grcgorio. El
as reçebco gram prat.er. c louuou a fiel diligencia dclles. c ho oleo
da lampada do sepulcro de nosso senhor .lhl'su ( :lu·isto tomou grande
c manJouo com granJc homTa guardar. I>cspoÍ!-t prcguntou o
rcy Jo mançcbo Marco quem era. c Jcs que soube lJUC era filho de dom
colao rcçchcoo com lcJo c prat.cntciro semhrante. :\om menos trc!-t
contou antrc os seus familiares por mais honrraJos. pollo qual os cortcsaãos
os tinham cm grande rcucrcncia.
En1 como   filho Je Jom :'\y(olao (reçeo cm graça
ante ho gn1111 Hey. Capitulo .Yiij.
4· r Marco cm brcue tempo aprcndeo os custumês dos Tartarus. c nom
menos quatro línguas dcsuairadas. assi que cm cada húa dcllas cs-
crcuer e lccr. cl rcy quis pruuar por cspcricncia sua prudcncia. man-
douo a hüa terra muy alongada. aa qual nom pudia chegar cm menos es-
paço de seys meses. por huú negocio do rcgnu. mas ellc se ouue assi sa-
gesmcntc cm todallas cousas que ho rey folgou muyto com ho que cllc fizer a.
E porque ho rey se dclcitaua em ouuir nouidades c manhas c bóus custu-
mes dos humcs. e as condiçoócs das terras. por ysso por onde quer
que passaua assi preguntaua sobre tacs nouidades pcra ser bem enformado
per a contar e comprazer aa \·oontade dei rcy. por a qual cousa foy dcllc
amado que cm .x\·ij. annos que fuy feito seu familiar que continuamente
ho cnuiaua por grandes ncgocius do regno . E esta hc a razom porque assi
ho dito aprendeu todas as nuuidades das terras do oriente. as quacs
ao diante com maior diligencia seram ditas c dccraradas.
Con1o c porque depois de tnuyto tcn1po alcançaron1 del
Rey pera se tornarem a sua terra. Capitulo .ix.
Despois dcsto desejando os sobrcditos senhores de se tornar a Y encza.
per muytas vezes pidirom licença ao rcy pera se hirem. Hu qual pello
grande amor que lhes tinha nom se podia mouer pcra lhes consentir a sua
tornada. Em aquellc tempo tres grandes priuados de huú rey dos lndios
chamado Argon. chcguarom aa corte do gram rey Cublay. dos quaes a huú
chamauam Outalay. e ao outro Alpusta. c ao tcr.;ciro Coyla. E pediam da
parte de seu senhor que lhe desse mulher de sua geraçam. por quanto sua
mulher a raynha Balgana morrera pouco auia. E ho rev Cublay os reçebco
21. ao adiante.
DE .\1.\RCO PAl'I.O
..:om grande honrra. c olfcrcçeolhcs hl'ia· moça de .xvij. annos de sua gcc-
raçam lJUC auia nome Cogatim. os quacs rcçcbcndoa graciosamente cm nome
de seu senhor. E sabendo outrosi que os senhores Nicolau e   c :\larco
dcsejauam de se tornar a sua terra. suplicarom c pidirom ao rcy por mer-
çee que por honrra do rcy .\ rgon cnuiasse aqucllcs tres com a raynha. E
que se dalli yuiscsscm tornar pcra sua terra que se tornassem. o qual \·en-
çido pelio aficado roguo de tam nobres homcés nom pode contradizer a
seu pititorio. cmpcro a sua pctiçam lhe deu triste ..:onsintimcnto.
Oc como se tornarom a \ cncza. Capitulo .x.
Quando se ouucrom de partir. fez cl H.cy aparelhar .XIIJ. naus com
todallas ..:ousas neçcssarias. c mantijmento pcra dous annos. c cada húa
auia quatro mastos com suas ,·elas. E quando finalmente se rartirom dei
Rcy. muyto lhe dcsaprouuc a sua partida. dculhcs duas tauoas de ouro.
pcra que cm todollos regnos sugcitos a seu senhorio lhes dcucsscm prouccr
· cnteiramcntc de segurança e dcspczas. c dculhcs cnbaxadas per a ho I \tpa c
pcra alguüs rcys christaãos. E naucgando por tempo de trcs meses chcgua-
rom aa ylha a que chamam Jaua. c alli entrarom ao mar lndi..:o. c a caho
de anno c meo chegarom aa corte do rey Argon. ho qual acharam morto.
mas a moça que lcuarom pcra el rcy .\rgon. tomoua seu filho por molhcr.
E ally feito o conto da companhia que morrerom cm ho caminho. acharom
fora os marinheiros. quinhentos e .lxxxij. os l)Uaes forom per todos fora
os marinheiros scysçcntos. E dali seguindo seu caminho adiante rcçcbcrom
do príncipe chamado Acatu. ho l)uc.tl guucrnaua c regia ror ho moço ho
regno. porque ajnda nom era rerteçentc pera ho reger. quatro tauoas douro.
pcra que cm todo seu regno fossem a..:atados honrrados c leuados seguros.
a qual cousa lhes foy muy bem feita. Dcspois de mujto tempo c passados
muytos trabalhos guiandoos Dcos chcguarom a Constantinopoli. c dally
com muytas rilJUczas c grande companlua saãos c saluos se tornarom a
Ycncza .s. no anno do Senhor de mill .cc. e .x..:vj. dando graças ao muy
alto Dcos. que os de tantos trabalhos e pcrijgos liurou. Todas estas cousas
por tanto som escritas no começo deste liuro. pcra llUC conheça aquelle
que este liuro lcer. onde e como dom :\larco paul o de Y cnct.a podi<l saber
estas cousas que adiante som conteudas. E fuy o sobrcdito   paulo
nas partes do oriente .XX\j. annos. contado por ellc com diligencia todo
ho sobrcdito tempo.
Jc: \"c:nc:La.- 'i· Jana.- :10. feita.- 3+ cr,ntanJo.
·h v
fi o I 11" I( O I' H I \JJ·: \  
O a dcclaraçom das terras do oriente. c prin1cyramcnte
de .\rmcnia a menor. Capitulo .:\j.
Feito hu rccc_,ntamcnto dos nossos caminhos. agcJra nos acheguemos
a contar aqucllas cousas que \'Ímos. E primeiramente demoMrdrcmor.; cm
l'rcuc de .\rmcnia menor. Som duas Armcnias .s. maior c mcn<,r. Ho rcgno
Jc A rmcnia menor h e tributario aos Tartaros. A IIi achamos ho rcy que
5. r rcgno guardaua cm muyta jus ti I ça. E este regno em si contem tas çida-
Jcs c lugares .. \ terra he auondosa e pra.tcntcira .. \IIi ha munas caças de
animalias c de aucs. ho aar nnm hc mujto saüo. Os deMd .\r-
mcnia que antijguamcnte tinham fama de grandes c ardidos guerreiros. c
agora som feitos bcbcJos c temerosos. esta sobre ho mar húa çidadc a
que chamam Glaza. c tem huü porto do mar. ao qual vem muytos mercado-
res de \. cneza. de Genua. e de outras muytas terras a ellc. Trazem daquella
terra muytas mercadorias de especiarias de desuayradas maneiras e rrecio-
sas riquezas. E ajnda todos os que querem entrar as terras do oriente. da
çidade de G laza cheguam primeiro.
Da proumcta de Turquya. Capitulo
Turquya contem em sy pouoos de gente mesturada .s. Gregos .• \r-
menios. e Turcos. Os Turcos tem língua propria. e tem a ley do abomina-
uel .\lafomede. Som homés ydiotas e rudos e de pouco entender. Yiucm
nos montes e nos ,-alies segundo que acham os paçeres. porque tem gran-
des manadas de bestas e de guaados. Alh som os cauallos e os muus de
grande valor. .\las os .\rmcnios e Greguos que hy som 'iuem nas çidades
c lugares. c estes obram muy nobremente em rgo. Tem muytas çi.:iades.
antre as quaaes som Gomo. Caçeria. e Sebasta. onde o glorioso sam Bras
rcçcbeo ho seu martírio por Jhesu Christo. e som sogeitos a huú dos re,·s
dos Tartaros.
De Arn1enia maYor. Capitulo .xiij.
Armenia mayor he muj grande prouincia. e tributaria aos Tartaros. e
contem em sy muytas çidades e lugares. A çidade metropolitana e principal
he chamada Arthinga. onde se faz muy nobre bocasym . .-\IIi naçem aguas
5. Ja .\rmc.:nia.- li. tributaria.- 12. Glaça.
IH·: .\1.\RCO PACI O
feruentes crn que fc:11:em muj nobres banhos. lkspois de .\rtinga hay outras
duas çidadcs pr!nópaes .s. Agirom e Darizim. ;\o vcraão viuem alli muy-
tos Tartarus com os gaados c bestas. porque tem alli os paçcres muy auon-
dosos. E no nuerno partemse da iii por azo das muy grandes   ;\os
montes desta .\rmcnia esta a arca de :-\oc. Esta prouincia da parte do
I oriente he Yezinha aa prouincia de -'lorsul. Contra ho aguyam parte com a 5. v
pruuincia de Zurzania. :-\u estremo desta prouincia contra u aguyam ha
hlla grande fonte de que sahe huü liquor que hc semelhante ao oleo. nom
hc pruueitosu pera comer. mas \·samnu pcra \"11turas e pera lampadas. 1·:
todas as gentes cumarcaãs vsam este liquor per a lampadas e \   ca
em verdade tanta auondança daquelle liquo•· mana daquella fonte que as
\"etes se carreguam dclle çem naues juntamente.
Da prnuin(ia de /:ot7ania. Capitulo .:\IIIJ .
.-\ proumc1a de Zurzania tem rcy tributario ao Hcy dos Tartaros. E
,Jizem que os reys dos Zurzanus antijguamcntc nüçiam com synal de aguya
sobre hu ombro. ( )s Zurzanos som fremusus homés ardidos em armas c
buõs archeiros. Som christaãus. e guardam a mane!ra Jus Gregos. Trazem
os cahcllos curtos como os crcrigos Ju ocçidente. Ditem que .\ li\an-
Jrc ho grande querendo passar por a terra dos Zorzanos e nom pude. por-
que hc neçessario aos que quiserem emtrar na dita prouincia da parte do
oriente. que passem por huü caminho estreito que ha cm longuo quatro
legoas. e he çarrado de hüa parte do mar. e da outra parte de montes. cm
tal maneyra que poucos homcs ·podem defender aquella entrada a muytas
gentes que nom possam entrar. E elle a elles num pode chcguar.
  defender que tam pouco nom sayssem c Yiessem pera clle. F por
ysso no começo daqucllc caminho fez hüa torre muy grande c muy forte.
aa qual pos nome Torre de ferro. prouincia ha tas çidadcs 'illas
c castcllos. Ellcs tem abastanÇa de syrguo. 1·: alli fa.t.em muy fremusos
pannus de syrgo c de ouro. Alli ha muy buós açores .. \ terra he
de frui tos. Os homés dela som mercadores e otliçiaacs. \ lli esta huü moes-
te iro de sam Leonardo dos monges do oriente. \çerca do qual esta hüa
muy grande lagoa que se fa.t: du ajuntamento das agoas dos montes. em
que tomam peixe em grande   des hu primeiro dia da l]Uoresma
atec ho sabado sancto. em todo ho outro tempo do anno nom hi
a(:har pcxcs em ncnhüa maneira. Chamam aaquelle laguu ho mar de (;he-
luchelam. e tem em derrador açcrca de seisçcntas milhas. c he alunguadu
de todo ho mar per I doze jornadas. Fm lagos entra ho ryo Eufrates. 1;, r
1."/. Jo fl!tTO.
))o f.ll 'JH) I' H I \I L '\IH J
que he hull dos quatro J,J parayso terre:1l. e muytos ryos. dos
quaaes todos se fazem lagos. Estes lagos ,!o,Ofll çcrcado.!\ de todo de
montes. Em aquellas partes adwm tluc pollo lingoagem dclle he cha-
ma'-lo Chella.
Do regno de .\lorsul. Capitulo .X\".
he huü rcgno situado da parte do oriente. no extremo de .\r-
menia a maior onde moram .\rabes que adoram a Mafomedc. Ha hy muy-
tos (hristaãos nestorynos e jacobitas. dos quaes he senhor huú grande pa-
triardw a que chamam Jacolith .. \IIi fazem muy fremosos pannos de ouro
e Je syrguo. Nos montes daqucste regno ,-iuem homés aos quaes chamam
Cardi. e huüs som christaãus nestorinos e outros jacobitas. os outro.,
todos som seguidores da seyta de   e estes todos som muy gran-
des roubadores.
Da çidadc de Raldach. Capitulo .xYj.
Em aquellas partes he hüa muy grande çidadc a que chamam Bal-
dadt. a qual em a sancta escriptura he chamada Susis. Alli "Viue ho maior
prelado dos mouros a que clles chamam Calitf. Ally fazem muy fremosos
pannos de ouro c brocado de desuayradas maneiras. e bem assi de syrgo e
seda .s. de cremesn1 de veludo e damasco. etc. Baldach hc a ma\·s nobre
w -
çidade daquella terra. Xo armo da cncarnaçam de nosso senhor Jhesu
Chisto de mill e duzentos e çinquoenta. huü grande Rey dos Tartaros que
auia nome .\llan ha çercuu e ha tomou per força num enbargando que
fosem dentro da çidade passados Je çem mi!l de cauallo. mas ho exercitu
del Rcy era grande muyto. Ho Calitf que· ali era senhor. tinha hüa torre
chea de ouro e de prata c de pedras preciosas. e de outras cousas maraui-
lhosas de muy grande Yalor. mas por quanto era auarcnto nom se soube
perçeber de sufficientc cauallaria. nem soube dar nem partir com os seus
(aualleiros que tinha dos seus beês. e portanto cayo em confusam. Ca ho
Rey Alan tomou a çidade e prendeu a Calitf e mandou ho ençarrar em a
torre do seu inestimaucl thcsouro. negandolhe ho comer ao qual ainda disse.
6. ,. O aua I rento cubijçoso. se a'iueste teu thesouro com auareza e cobijça nom
guardaras a ty mesmo puderas liurar c a çidade. mas agora ajudate do teu
tesouro ao qual tanto am Jste. e ao quarto dia pcreçco de fame. Outrosy
:l. lagoas bis.
DE l\L\RCO 1'.\CI.O
pella çidade de 13alda(.h passa huü ryo muj grande pollo qual podem hyr
nauios ao mar de India que he alonguado da çidade de Baldadt per espaço
de .xYiij. jornadas. Per este ryo pera çyma e pcra bayxo leuam c trazem
merLadorias sem conto. E aLabase este ryu em a çidade que dtamam Chisa.
F no meo antrc Baldad1 e Chisa esta húa outra çidade a que chamam
Balsera a qual hc     de matas de palmas. Alli ha grande auondança
de tamaras.
Da çidade de Thaurizio. Capitulo .xYij.
Thauritio he naquellas partes nobre çidadc. onde se tractam mer-
cadorias sem conto .. \IIi ha auondança de pertas e de todas as pedras pre-
ciosas .. \IIi ha pannos de ouro c de syrgo de muj grande \ alor .. \ çidade
esta po"ta em muy nobre lugar. pollo qual acudem a ella mercadores de
muytas partes do mundo .s. da lndia de Baldach de .:\lorsul de Cremosor. e
ajnda da terra dos Latinos e de outras jntijndas terras c comarcas .. \IIi
enrriqucçem mujtos mercadores. Esta terra hc pouoada de grande moltidom
de gentes .. \IIi som christaãos jaLobitas e nestorinos c pcrsianos. Os çida-
daãos de Thauri/io adoram ho .:\lafomedc. Esta çidade he cercada de mll\
. -
nobres pomares. cm os quaes ha mu\· nobres fruytos de dcsuayradas ma-
ne\Tas.
De huú milagre que fny em 3l.]Uella terra de transmuda-
çanl de huú monte. Capitulo .xYiij.
Em aquellas terras .s. .mtrc Thaurizio e Baldach esta huü monte ho
qual cm outro h:mpo foy mudado myllagrosamente do seu lugar ..!lll outro per
,·irtude de Deos. Ca os mouros queriam demostrar ser \·aüu o euangelho de
Chisto. por ho que ho disse. Se : ouuerdes tl"ee assi L011l0 lluú graão
de mostarda. e disserdes a este monte. trespassare   trcspassarse ha.
e nom sera a n>s cousa algüa impossiud. por tanto disserum os mouros
aos dtristaãos que morauam sob seu senhorio naquellas terras. Tre:-.passae
aquellc monte cm nome de Jhesu Christu. ou HJS Coliuertedc todos pera
  ou por a espada morrereis todos. L emtom huü lwmé dtris-
tianissimo e deuoto confortando os   e feita oraçam ao senhor
Jhesu Christo com grande dcuoçam e humildade. c cm prcsenç.t c \ista de
muy grande multidom de pouoo mudou ho monte ao lugar   per
a qual cousa muytos dos mouros se LOnuerterom aa ll"e de Christo.
11. cllc.-18. as quacs.- 3o. morircis.- 33-3+ pcra a I.}Ual.
v
j (o I.ICHO I'Hl\U. \ JH)
Da prouincia Jc I )crsia. ( :apitulo . .xix.
Pcrsya he muy grande   a qual foy em outro tempo to
nobre. mas agora he do . .; Tartaros dcstroida. Em húa parte Jco;ta tcrr.t
adoram o foguo por dcos .. \ prouincia de Pcrsia contem em sy .\iij. rcy-
nos. dos quacs ao primeiro chamam   ao segundo Curdistan. ao
\crcei ro Lo o r. ao quarto Quicstan. ao quinto btanch. ao . vj. Zerazi. ao . \ ij.
Sonchora. ao . viij. que esta no estremo de Pcrsia c chamamno Tymochaym.
Todos estes rcgnos se estendem contra ho mco dia fora ho rcgno de Tymo-
chaim. onde ha muy boós cauallos grandes c muy frcmosos. que ho
preço Je huü boõ cauallo chcgua ate .cc. liuras turoncscs. e os
da terra os leuam aa çidadc de Chisim e de Curmosa. as quaacs estam
sobre ho mar de India. c dalli os leuam a India. \lli nom menos ha\· asnos
. -
muy fremosos. e pella grande fremosura delles dam por huú asno .>..>..
marcos de prata e mais. andam fremosamente e correm muy beê. Em
estas terras som muy maos homcs c peruersos e buscam continuamente
arruido c som roubadores e homicidas. e munos   sum matados
e roubados daquclles ladrões. pollo qual a clles compre que Yam juntos c
arm<h.ios cm grande companhia. E estes tem a ley de :\lafumede. Em as çida-
des ha muy boõs officiaes que obram muy nobremente cm uuro c sirguo de
obra de agulha. Alli ha grande auondança de algodom. de sirguo. de tri-
guo. çcuada. milho. paãiço. e de todos legumcés e ,-inho e de todollos outros
frunos.
Da çidadc de JasdYn. Capitulo .xx.
Jasdyn he hlia grande çidade em essa mesma terra e de trauto
de mercadoria. A \li os officiaes obram mu\· nobremente de toda seda. Ali i
tanbem adoram a   E alem de Jasdyn per sete jornadas hyndo
tra nom ha pouor<tçam. e som alli matas em as campinas. per as
quaes podem liuremente andar ou caualgar. onde ha muyta caça .. -\lli acham
asnos monteses. e codorni7cs em grande multidom. E despois chcguam a
Querman.
Da çidade de Qucrn1an. Capitulo .x:xj.
Querrnan he húa çidade. em os montes da qual se acham muyras
pedras     Alli tcrn mynas de aço e de pedras de çcuar. -\lli ha
muj nobres falcões e muy ros em 'oar c em em cabo. Empero
DE .\1.\RCO 1'.\l "1.0
cllc.s som mais pequenos que os fakões chamados :\lli cm Quer-
man ha\· otliciaes que fat.em armas e freos. esporas e estribos. secllas.
das. arcos. coldres. c de todalbs outras fcyçõcs de armas. segundo custu-
mc da terra .. \s molhcrcs da çidade obram muy nobremente maãos de
muytas cous:ts fazendo coçadras muy fremosas. e cabeçacs de grande fre-
mosura açedrenchados. c trauesseyros laurados. De Qucrman vam per hlla
campina per sete jornadas. onde ha algüas subidas. e ha hy çidades c castdlos .
. \I li se acham perdizes cm muy grande auondança. E depois das sete jorna-
das se hu[i gram descendimento. assi que per duas jornadas sempre
Ya:io pera fundo. onde som tas aruores e fructifcras mujto. Empcro
nom ha pouoraç<tm. se nom de pastores. mas ha hi no cnuerno tam grande
frio que se nom pode soportar.
Da çidadc de CamanJu c da t<:rra Jc Rcobarlc. Capi-
tulo .xxij.
lkspuys destu chcguam a hüa grande canpina onde ha a çi\.iade de
Camandu que cm outro tenro foy muy grande. mas agora he destruida dos
Tartaros .. \quella terra hc chamada H.cobarlc .. \lly ha tamaras c ncspcras
c rnançaãs do parayso cm rnuy j grande auondança. E outros muytos fruytos R. r
creçcm ally os quaes nom ha antrc nos outros . ..\lly ha hüas aucs a que
chamam francolinos. c som mcscrados de duas coorcs .s. de branco c de
negro. mas os pccs c os bicos tem Ycrmelhos .. \lly ha muj grandes buys c
tem os cabellos muy aluos pequenos c chaãus. c os cornos tem pequenos c
grossos. mas nom tem puntas agudas. Sobre os ombros tem huü gybo ou
corcoua assy como camelo. som muj furtes c lcuam muy grande carrcgua.
c quando os ham de carregar ahaixamse assy como os camelos. c dcspois
que som (arreguadus lcuantanse assy como som cnsynados pcllos homés.
( )s carncyros daquclla terra som tam grandes como asnos. os quaes tem ho
(aho grande c ancho. de peso por a maior parte de x. libras. Som
gordos c frcmosos mm·to. c mu\· boõs c saborosos de comer. Ern esta can-
. - -
pina ha muytas çidades c lugares que tem muros muy fortes c grossos de
taypa feytos. c esto he por\.1ue cm terra ha muytos ladroóes c rou-
ha..iores c salteadores dl' caminhos. aos quacs chamam caroanas. c tem huü
rey. c som muy grandes fcytiçciros. I· quando quer que querem hyr a rou-
bar ho aar de dia muy escuro por grande espaço com sua arte dia-
boli..:a. que ncnhuü os pode Yccr. E muytas ,-e7cs f;ucm que tal cscu-
lhes dura per espaço de .\ij. dias. E cmtom   ladroi)es.
: :.. ()ndc de ha- 211. pelos.- 31. fcytas.- • lhes tur.t.
I f f) I II"HO I'HI\IEYIH'
e muytas n:1.cs ddlcs cm coJll•' .\. mill. c ordcnansc per longua!'oo .t/t:!'t. huú
açcrca do outro cm grande largura cm tal mancyra l)UC \"CZt:!-t h a
que ho que per hy passe que n•Jlll caya cm !'o.Uas maá•J!'t. Filham os homcé(i
c as suas   c vendem os mançcbos c matam os velhos. F cu
paulo hLÜt passando por ally cahy cm aquclla cscoridom. por-1uc
era açcrca do castcllo a lJUC chamam Canosalim. c fugy pcra ellc. ma'i muy-
tos dos meus parccyros cahyram nas maáos   dos quaaes alguús furom
    c outros mortos.
Das (ampinas frcmosas c de húa chamada Cor-
n1os. Capitulo .xxiij.
v Este111..icsc a sobredita campina contra ho meo dia cinco jornadas. e
dah· \·am a huü caminho que esta cm huú descendimento per que deçem
continuadamcnte per .xx. milhas c he muy maao caminho. por a1.o dos la-
drões muy perigoso. c dcspois dest•J chcguam as campinas muy fremosas
que som cm longura de duas jornadas. e he chamado aqu"elle lugar Ormesa.
onde ha ryos c aguas muytas. e palmas. E ha alli em grande abastança de
francolinos papagaio.:i c outras aues de desuairadas maneyras. das quaes
num nos ha aquem do mar. e daly cheguam ao mar oÇeano. na ribeyra do
qual esta a çidadc de Cormos . ao qual porto vem mercadores lndias
que trazem especiarias c pedras muy preciosas. e pannos de sirgo e de ouro.
dentes de alifantcs e outras cousas preciosas. Esta cidade he real. e tem sob
sy cidades castellos e ,-illas. Esta terra he muy quente e doentia. E se alguú
mercadtJr estranho morrer em ella. ho rC\
7
da terra toma todos seus bês. Alli
fazem vinho de tamaras e de outras muj nobres especias ho qual he muj boõ.
empero se algüs delle bebem que nom forom a elle acustumados padeçeram
corrença de \entre. mas depois aproueita e faz engordar os homês. Os mora-
dores da terra nom comem pam de trigo nem carnes. porque nom poderiam
Yiuer se comessem taaes manjares. mas comem datiles. pexes salgados çebol-
las e toninhas pera serem saãos. Tem naucs perigosas. e ho porque nom tem
pregadura de ferro. mas as tauoas som ajuntadas com tornos de pa:10. e cosem
as com fyus que sam feitos das codeas das nozes de India. ca confazem aguei-
las cortiças como coyro daquelle fyo da dita codea. e ajuntam os fyos com
sedas de cauallos. c aquelles fyos som assi rijos que suportam bem a forta-
1 ez:t da   do mar. c conseruamse per muyto tempo. empero a firmeza do
ferro he milhor. A nao soomente huü masto e húa \"ela. nem tem mais
de hüa cuberta c huü tymom ou guuernalho. Aquellas naos nom som brea-
l>E .\\.-\HCO 1'.-\LLO
das .:um breu. mas suumcntc som vntadas ..:om olc:o de pc\c:s. c despuys
que puscrom e ordcnarom as ..:arrcgas no nauiu .:obrem as com   so-
bre os quaaes poocm os ..:auallos que lcuam a lndia. Daquellas naucs muy-
tas pcrcçcm. por <.JUC ho mar hc muy brauo c tempestuoso mujto. c as na-
ucs nom som afirmadas ..:om ferro e os tornos afroxam c assi se perdem
de ligeiro. I Os moradores daquesta terra som negros. e adoram a )lafo- g, r
mede. :\o tempo do cstyo nom muram em as çidadcs por a destemperada
quentura. mas tem fora da çidade muytos virgcus e ri..:os. c cm .:ada huü
dos \·irgeus som tragidas as aguas por .:anos c canas. c em aqudlcs \'Ír-
gcus moram no veraão. da parte de huü deserto onde nom ha
senom sabro. venta huü 'cnto hrte muy queymantc. o qual qucymaria os
homés se nom fugissem. mas quando sentem ho primcyro mouimento dclle
logo .:urrem pcra as aguas. nas quaaes entrando tanto moram cm cllas ate
<.JUC a<.Juellc vento hc passado. c assy se liuram do seu ardor. Em ac..Juclla
terra por a muy grande qucc:ntura semeam seus paãcs no mcs de nouembro.
e colhemnos no março. e ass\· mesmo neste mes amadurcçem todolos
fruytos. afora as tamaras que no meio de mayo som maduras. e dcspois do
mcs de março toJ,tlas folhas c hcruas se se..:am cm tanto que dcs alli nom
se acha folha algüa. Em esta terra quando morre huü homé que tenha mu-
lher clla .:hora sua morte ate quatro somanas todolos dias hüa \'eZ no dia.
E ajuntamsc ao pranto na .:asa do dito morto os parentes e vczinhos e braa-
dam fortemente cm seu pranto qucixandose muy duramente ..:ontra a morte.
na terra que esta C111 111CCO amtrc CornlOS c a çidadc de
Capitulo .xxiiij .
. \gora porque cy de falar de outras terras primeiramente me tornarcy
a Qucrman. pcra que dally pcrsigua as outras terras das quacs quero es-
..:rcuer. porque cm outro lugar deste liuro se escrcucra da lndia. Quat11..lo
tornam de Cormus pcra a çidadc de Qucrman per outro ..:aminho hc
hlla frcmosa c grande ..:ampina. cm que ha auundança dl:' mantijmentos . .:a
tem trigo cm abastança. mas o pam da,Juclla terra num hu poJem ..:umer
aqucllcs <.JLIC a cllc per muytos tempos num som a..:ustumados. c C!'.to por-
que amarga por azo das aguas que som a margosas .. \IIi ha perdizes ncs-
peras c tamaras. c outros frui tos cm grande abastança .. \IIi ha banhos muj
quecntcs c muy nobres que aproucitam pcra tirar a sarna c bustclas c
frcima falsa que naçc nas pernas c pcra outras mujtas enfermidades c

2j. ll(fll.
Jfo I IIJHO I'IU\11-:\ lU I
Da terra que cm meco amtrc Cohina c <lucrman.
Capitulo .X\Y.
ndo de Qucrman pcra c.,hina achasc huí .. caminho muv mJ.ao.
c tem cm longura jornadas. quacs cm nenhúa ra .se pod<.·
aucr se nom cm alguü em muy pouca quantidade a yudl he sal-
c c de coor Yerdnengua. cm tal maneira que mais pareçe
çumo que agua. c por ysso ncnhuü pode dclla beber. E se alguú
della beber alguüa \·ez. padeçera corrença de ventre. ca por húa suo Yez
qw: beba sera prouocado ao Hu\.o dct. ,-ezcs. E bem assi aconteçeria se
alguí't comesse do sal que se dclla fat. c por ysso compre aos caminhantes
que consigo agua leuem pera beber. c ajnda as bestas de muy maamentc
bebem aquclla agua com sede. c quando per angustia de sede som cons-
trangidas pera beber bem assi padeçem c corrcnça de \"entre. Em
aquellc deserto nom ha pouoraçam de homés nem ajnda de bestas feras
se nom soumentc de onagrus som as'1os monteses. c isto pello dcsfallc-
çimento du.mantijmcnto c do beber.
Da çidade de Cobina. Capitulo Yj.
Cobina he cidade grande ha auondança de aço e ferro c de uutrvs
mctaaes. .\lli fa1em espelhos daço fremosos e muy grandes. Alli fazem a
tutya que amet.inha os olhos. e bem assi spodium. E a mancyra de como
se faz hc esta. Acham hy hüa ,-ea em a das minas. a qual pocm cm
hüa fornalha cubcrta de hüa grade de ferro. e ho Yapor da terra açesa se
leuanta. c se apcgua aa dita grade e a\.1ucllo he chamado tutya. e tiramna
e guardamna. F a matcria mais grossa que fica no fogo ou na fornalha
cha111am spodium. Os morc.tJores desta terra seguem a ley ou seyta do
abominauel .Mafumcde.
Do rcgno de Tyn1ochain1. c da aruorc do sol. a qual co-
111Úmcnte he chamada an.wrc seca dos latinos. Caritu-
lo .xx,·ij.
w, r Dcspois que se partem de Cobina he achado huü deserto que ha cm
longuo ·' iij. jornadas onde ha grande secura. c por ysso careçe de aruorcs
e de fruytos .. \s aguas que alli se acham som arnargosas. das bebem
12-d.     23. apul:gua.
I>E P.\l"I.O
as bestas de maa \·oontadc. c por tanto que os lcucm
agua consigo. Dcspois passado este deserto ao rcgnu de Thy-
mochaim. onde som muytas cidades c castcllos. aquella rcgiom esta situada
em as pustumeyras fyms de Persia contra ho aguyam. Alli ha húa grande
campina em que esta a aruore do sol que comümente antre os latinos hc
chamada aruore   esta aruore he muy grossa e grande. c tem as folhas
de hlia parte brancas e da outra \·crdcs. num faz fruytu. cmpcro fa1. ouriços
assi como castanheiros. c dentro delles num ha fruito alguü. hu paao desta
aruorc he maçiço e forte de coor amarcllo como buxo. F da húa parte desta
aruore nom naçe outra aruore ate . x. milhas e das outras ylhargas a tuJa
parte de todo em todo nom ha aruore algüa ate çcm milhas. Alli di1.em que
fov a batalha amtre el rcv Alexandre e Dario. Toda a terra do regno de
- - .
Thimochaim he muj pouoraJa e muy farta e auundosa c de temperado aar.
Os homés cm clla som 111U\' frcmosos. c as mulheres mU\' mais frcmosas.
Empcro todos adoram a  
Do tYrano chan1ado \ elho das n1ontanhas c dos seus
J
sicarios que lJUCf dizer acutclladorcs. Capitulo .xxYii j.
he hüa regiom onde scnhorcaua huü muy maao príncipe. ho qual
era chamado Y c lho das montanhas. do qual cu paul o de \" cneza
reconto aqucllo que a muytos ouuj daquella terra. cmpcro aqucllc príncipe
com todo ho pouou que tinha sob seu senhorio era seguidor da scyta de
:\\afomcdc. Este cuydou húa malícia nunca ouujda em os homés pelc-
jadores fizesse ardidos e sem temor. os quaes do pouoo asasinos som cha-
mados. por tal que pella audacia dellcs de toJos fosse temido. e que ma-
tasse quaesquer que quisesse. Em huü vallc muj fremosu que hc
de mon I tcs muy altos fez huü grande e frcmoso Yirgeu. cm que auia auon-
10
, v
dança de todas aruores heruas frulcs c frui tos deleitosos. \IIi cstauam huüs
paaçus muy frcmosos pintados e dourados de dcsuayraJas c marauilhusas
maneiras. pera hy corriam ryos diuersos c desuayraJus dagua de ,·inhu
mel e leytc. \IIi eram guardadas molhcrcs mançcbas as mais frcmo-
s:Is do mundo c muy bem apostadas que eram ensynadas a bailar dançar
tanger cantar cm todallas maneiras dos musicos. c tinham yestiduras de
desuairadas feitas de ouru c pedras preciosas de grande valor c
guarnidas de marauilhosu aparato. H o oflicio ddlas era criar homês man-
çebos que alli eram postos cm todollos deleites e prazeres do mundo .. \IIi
allla auondança de vestiduras de de mantijmcntos. e de todalas cuu-
amarclho.- 10. ylargas.- 22 • .\lafoma. - 33. (•ro.
--
sas que Sl: podL"m dl:sL"jar. alli non aa fL"ita m..:n'Tam Jc nl:11húa
nem pertcu1cia a nL"nhui:i Jc se ocupar se n(Jm cm joguos c;ola/cs c Jclcitct-
çiíes. Da entrada deste vyrgcu huü castelo muj fortt. que era guar-
dado com muy grande diligencia. nem podiam per outr(J caminho aucr en-
pera aqucllc lugar nL"m sayda se nom por ellc. E bem tJU<: era
chamado cm a nossa lingoa \"elho. mas ho seu nome era \luadvm. Tinha
. -
elle no seu paaço fora daqucllc lugar mujtlJS mançcbos os quaes a ellc pct-
l'cçiam fortes c aptos pcra o que clle os quis. e a estes ensynar cm a
seyta do abominaucl Ca prometera ho dcsaucnturadu de
mcde aos seguidores da sua que na outra vida aucriam taes deleitaçoóes e
prazeres como dito h e. E quando aquelle Y clho queria fazer alguús daquelles
mancebos acutillaJorcs muno ardidos e sem temor. faLialhes dar huú bebe-
, -
ragem. o qual tomado logo adormeçiam de muj graue sonno. e emt(.Jm os
kuauam ao Yirgeu. c acabo de pouco cllcs acordados do sunno. e
postos antre tantos ddcitamcntos pensauam que ja possuyam os prazeres
do parayso. segundo ho promitimento do .:\lafomede. E despois
de alguüs dias Luia adormentar quacs da.lucllcs queria com ho semelhante
e tiralos daly. c quando acordauam cntristeçiam fortc:mente.
\"ccndose apartados de tanta consolaçam. E este tyrano que se dizia· ser
prophcta de Deos. dizialhes que se morressem sob sua obediencia e man-
dado logo sc:riam alli tornados. por a qual cousa desejauam de morrer sob
'':r sua obe I. diençia. e entom lhes mandaua que matassem aquelJe homé ou
aquellc outro se pudessem s-=m reçco. c que nom temessem perijgo alguú
de morte. ca logo seriam leuadus aa gloria dos deleitos. E elles despoen-
dose a todo perijgo de morte com grande prazer. alegrandose de se verem
dignos de serem matados por sua obediencia por auer ho que lhe era pro-
metido. E assi ho que elle mandaua comprir de matar grandes homês ou
pequenos. trabalhauamse de ho fazer sem temor de morte. mas desejandoa.
E per esta arte longuo tenpo enganou a gente daquella terra. A qual cousa
muytos poderosos e grandes barões temendo perijgo de morte e trayçam.
forom feitos seus tributarios e sogeitos.
Da n1orte do sobrcdito tyrano c da dcstruyçan1 daquellc
seu lugar. Capitulo .xxix.
anno de nosso Senhor de mill duzentos e .lxij. Alan Rey dos Tar-
taros sua hoste connra aqudla terra e çercou aquelle lugar em que
era aquelle maluado príncipe chamado Y elho das montanhas. querendo
  'Ltfoma. 1 1. 13. a toma\.la.- 21i. cn:.
UE \1 \HCO PAI"I O
tyrar tanto perijgo e engano e traiç:am da terra. E despois de trcs annos
que hu assi teuc çercado tomou .\loadyn .s. o \ clho com todolos seus. ca
lhes falleçiam ·os mantijmcntos. e ho matou com todolos seus assassinos c
Jculhe s•.:u gualardom. E lugar foy d..:struydo atcc us fundamentos.
Da \idade de Sopurga c de suas terras. Capitulo X\X.
Ikspois da partida do sobrcdito lugar hc achada hlia terra frcmosa.
cm que ha outeiros e campos c pasçeres muy nobres e de muyws fruytus.
c chea de todolos mantijmentos ajnda que em algulis lugares nom tem agua
per çinquoenta ou sasenta milhas. mas compre que os caminheiros a lcuem
consiguo. e os cauallos e o:..uras bestas padeç:em hy muyta sede. E por
tanto neccssario he passar com pressa por aqudla secura. ou leuar agua
pcra as animalias ... \ longura daquclla terra se estende ate .Yj. jornadas.
I 'ora :cllcs lugares I estcriles de agua tem aquella rl.:'giom mujtas çidades
e lugares. cmpero todos adoram a E dcspoys desto cheguam aa
çidade de Sopurga. onde ha auondança de todos manujmcntos. c principal-
mente ha hy pepinos cm grande abastança.   que ho pouoo
chama melões. os quacs ellcs talham em l(lngo. c pooé aqucllas talhadas
em fyos ou correas pera as secar. assy como fazem as cabaças. os quacs
des que som secos leuamnos aas çidades mais cheguadas pcra Yendcr em
grande auondança. que som muyto prezados do pouoo pera comer. ca som
assy como mel. Em aquella terra ha caças mll\·tas de aues e de
animal ias.
Da çidadc de Balachay. Capitulo  
E passando dally acham hüa chamada per nome Balachay. que
cm outro tenro foy grande c tinha muytos paaços de marmores. mas agora
he destruyda dos Tartaros. Em esta çidade d;7em que \lyxandre tomou a
filha de Dario por molhcr. \lly he adnrado ho abominaucl .. \qui
da parte do aguyam se a\:aba a prouincia de Persya. 1-" dcspois andam per
antre a parte do aguyam e de oriente por espaço de duas jornadas onde se
num ad1a pouoaçam alglia. porque os moradores do lugar por azo dos la-
c roubadores fogem aas montanhas por \'iuercm seguros. .\IIi ha
aguas muytas. e muy grandes caças de bestas .. \lly ha l.yõcs. E assy com-
5. t.:apilollo.- 9· os kucm.- :w. Jc pouoo.- ;:S agy.tm.
I I, \'
I I " 1. w 1< o "to'"" ' 1< o
pre aos caminhantes que per a<.1uellas dua'i lcucm seus mantijmcn-
tus cunsyguo.
Do castdlo de Taychan1. Capitulo .xxxij .
. \cabados os ditos dous dias se acha ho castcllo a que chamam Tay-
cham. onde ha auondança grande de paães. Esta he húa rcgiom muy frc-
mosa. os montes da qual som de muy buõ sal contra ho mco dia. c som
muy altos c muy grandes. l--.. segundo dizem dariam sal auondosdmcntc a
12, r todo ho mundo. mas tanta hc a I daquellc sal que nom podem tyrar
ddlc se nom com martellos de ferro. Despoys dcsto andam per trcs jornadas
antre a parte do oriente c ha do aguyam chcguam aa çidadc de Scassem.
mas ante pello caminho acham muytos lugares onde ha de vinho c de
pam c de outros fruytos grande auondança. Os moradores adoram o abo-
minauel .Mafomedc. empero bebem vinho e som muj grandes bebedores. ca
todo dia se ocupam em beberes. E tem vinho c Jzido muj nobre. mas som
homeês muy maaos. e som grandes caçadores. e tomam muytas animalias
saluageês. Nas cabeças nom trazem outra cousa algúa. se nom que cada
huú homê traz huú cordam de longura de dez palmos atado a derrador da
cabeça. As pclles das bestas saluageês que tomam confazem. daquelle coyro
se vestem e calçam. e nom tem outras calças nem outras vestiduras.
Da çidade de Scassen1. Capitulo .xxxiij.
A cidade de Scassem esta em chaão. em os montes tem mu\"tos cas-
, -
tellos. e per mco da çidade passa huü grande ryo. :\"aquella terra ha muy-
tos porcos spins. e quando os caçadores os seguem com os caães. ajuntados
em banda os porcos em grande sanha com as spinhas que trazem se sacu-
dem. e cada hüa das espinhas que tem no biscoço e nas ylharguas lançam
em os caães e em os homês. e a meude ferem muytos. Esta gente tem
propria lingoa. Os pastores desta rcgiom moram em os montes. e nas suas
couas e lapas fazem suas moradas. Depois desto vaão per tres jornadas
ate a prouincia de Balastia. e em aquellas tres jornadas nom ha pouoraçam
algüa. nem se podê hi auer de comer nem de beber. e por ysso leuam os
caminhantes consigo de comer e de beber.
+   7 oucmdosamc:nre.- 10. de oriente. - !3. granJas.- 25. ylarguas.
DE .\\.\HCO 1'.\l"I.O
Da prouincia de Balastia. Capitulo .XX\IllJ.
Balastia he grande prouinóa. c tem propria lingoa. Tem os rcys Jc
hlia gceraçam que soçedcm huús aos outros per herança. E di.t.cm que
trouucrom seu naçimcnto e primeiro começo da gccraçam dei rey .\lyxan-
dre. A IIi adoram o abominauel   Em os montes daquella prouin-
çia se acham pedras preciosas tinas c frcmosas e de grande valor que som
chamadas Balasses segundo ho nome daquella terra. E se alguü cauassc
tacs pedras sem licença do I rcy mataloyam por dlo. E se alguü lcuassc rz, v
sem sua licença fora da terra assi mesmo perderia a vida. e seriam todos
seus bccs perdidos ca todas estas pedras som dcl rey. e elle as manda aos
reys c príncipes as que lhe apraz cm presente ou por pagua de
tributo. F muytos delles da e troca por ouro e por prata. Certamente tanta
he a moltidom daquellas pedras. que se as el rey lcyxassc liurementc
tomar ou leu ar ou scambar. as si seriam menos prezadas que elle pouco
ou nada guanharia. Fm huü monte desta prouincia se acha pedra de
azul. da qual     a.t.ul fyno que he ho melhor que se acha no mm11..io.
e se acha em minas como ferro. e ajnda acham prata em aquellas minas.
Aquella terra he muj fria. Caualos ha hy muytos e muj boõs ligeiros e
grandes. que tem os pees assi duros maçiços e fortes que nom ham mes-
ter de serem ferrados. ca elles vam e correm per montes fragusos c
rochas. c ncnhuli mal nem nojo reçebem nos pces. Outrosy ha alli hcro-
dios ou falcões muj fremosos e boós. os quaes chamam antre nos sagres
ou lamcrios. Ha alli cacas de animalias e de aues muv mu,·tas. l"cm ou-
, - -
trosy a prouincia de Balastia muy boõs trigos cm grande auondança. c bem
assy <.lllonda em çcuada. e tem outrosy abastança de milho e de paãiço.
Num tem oliucyras. mas fat.cm olco de nozes e de gergclin. I lo gcrgclin
nom scmcam cm aquelles rcgnos nem cm as terras ddlcs .. \s
entradas daquclla prouincia som estreitas e fragosas que as nom poJem os
jmijgos conbatcr nem por cllas passar .. \s suas çidadcs e castcllos estam
em montes muy altos e firmes. Som estremados archeiros e muy furtes.
e muj boõs caçadores. Yestcmsc pclla maior parte de coyro. porque as
,·estiduras de laã ou de linho nom as podem aucr em ncnhüa maneira. ou som
muy caras. As molheres nobres daquella terra acustumam de trazer hraguas
de linho ou de algodom. E cada hüa dcllas cm suas ca!'-as tem çcnto ou
oytenta ou setenta braguas de panno. E aquella se tem ou hc auida antre as
outras por mais nobre ou mais galana que dcmostrar dcs a çinta pcra
bayxo ter mais ancha grossura.
2. rcycs.- 7· chamados.- 9· perdi ria.- 1 1. reycs.
f fo l.li'HO t·Ht\IJ'YJH)
Da pro ui ncia de Baschia. Capitulo .x X:\, ..
13, r I Basdtia he alonguada por .x. da prouincia de B ...
tia. llc terra muy quente. Os sum nella pretos e  
Tem propria lingoa. Trazem cm as orelhas \Íucos de ouro e de prata com
Redras preciosas. Comem carnes e arroz. L som ydolatras. ocupamse cm
encantaçoócs dos diaboos.
Da prouincia Jc Tesmur. Capitulo xxx'·J.
Tesmur he prouincia alongada da prouincia de por .x. jorna·
das. Cujos moradores tem língua propria. E som ydolatras. c ac •.
com os ydolos. e reçebem dclles per engano do dyaboo e fazem per
arte dos diabos escureçer h o a ar. Som baços. esto h e nom perfeitamente
negros. que ha terra he temperada. Comem carnes e arroz. empero
muyto magros. Estes taes propriamente som chamados beguinos quasi
demonios. H a h i çidades mujtas e Yillas e castellos mujtos. Tem rey que
nom he tributaria a rey alguü nem teme algué. porque tem der-
rador de sy que som muj fortes e he a entrada a elles de toda a parte.
Em esta prouincia ha huüs jrmitaães que seruem aos ydolos em moesteiros
ou em çellas. e fazem grandes em comer e beber. por honrra
dos seus deoses. e muyto se guardam de offender a clles por nom trespassar
os seus maos mandados. A. estes jrmitaães he feita grande reuerença do
pouoo da terra.
Da prouincia de Bochan1. c dos n1ontes muY altos. Ca-
pitulo .XXXYÍj.
Se quisesse mais pello caminho direito hyr conuinhame de entrar em
lndia. mas porque no terçeiro liuro se tractara da India. e por esso hiremos
per outro caminho contando do outro extremo da prouincia de Balastia.
Partindosc de Balastia Yam antre a parte do aguyam e do oriente per duas
jornadas sobre arriba de huú ryo. onde he senhor ho jrmaão do rey de
Balastia. _\ lly se castellos muytos e Yillas. Os homeés dos lugares
1 no.
DE .\ l.\ CO P.\ CI ()
som boós. e I cm armas ardidos c fortes. F adoram a   E depois t3, v
de duas jornadas he achada a prouincia de Bocham. a qual ha propria lin-
e:oa. E he sobacita ao rev de Ualastia. 1-: ha cm lom!llra c largura trcs
... J .. l..1 '-
jornadas. E bem assi tem a lcy de: !\lafomcdc. Os moradores daquclla
terra som estremados c valentes guerreiros. .\ lly som as caças muy
grandes. porque a terra ha em sy bestas monteses sem conto. 1-: depois
partindose da suhredita terra \ am por trcs jornadas contra a parte do
oriente sempre subindo per montes ate que cheguam a huü muy grande
monte que di? cm st·r ho mais alto do munJo ·cmçima dn qual esta hüa I agua.
Amtre dous montes esta hüa fremosa campina cm que esta huü ryo muj
fremuso. e som alli muj bós paçercs. Certamente se ou cauallo magro.
ou qualquer animalia hy for posta a paçer. cm doze dias hc feita muy gorda.
Alli som mu\·tas animalias monteses. Som ajnda alli achados carneiros mon-
teses muy grandes que tem os cornos longuus de scys palmos c de quatro.
de que fazem scudcllas c outros \·asos. E ajnda os pastores fazem daquellcs
cornos as suas casas. Tem aquella campina cm longura doze jornadas. c hc
chamada Pamcth. mas hu caminho da entrada hc dc!->ertu. nem ha hi murada
ncnhüa. nem acham ahy herua. os caminhantes que per hy passam lcuam
consiguo mantijmento. hi nom parcçe aue ncnhüa pcllo grath.ic frio c multi-
dom das ncues. c porque num poderiam hi achar mantijmcnto. E quando
acontcçc a alguc de fazer hy ho foguu pclla muy grande frialdade da terra.
num he assy luzente que parc.;a em outro lugar. nem tam pouco tt'm tanta
\ irtudc pera cozer como em outras partes. Despuis Jestu quem qui1cr hyr
ou caminhar antre a parte do oriente e do aguyam. lhe hc forçado de hyr
per montes e outeiros e vallcs per quarenta jornadas. onde som achados
muytos ryos. E aquclla terra he chamada Bclor. :\o caminho daqudlas quo-
renta jornadas num ha pouuraçam algüa. nem crcçcm hy heruas. F por ysso
hc ncçessario aos que por hy passam. que leuem consiguo mantijmentos.
porem nos montes muy altos ha muytas de ) dolatras cruces c
muy maaos. e \·iucm de caças. c \·estcmse de coyro.
Da prndncia de Caschar. Capitulo .xxxYiij.
Despois desto chcguam aa prouincia de Caschar que tributaria he ao q. 1
gram Lam onde som Yinhas frcmosas mujto. pomares muytos c quintaás e
herdades frutíferas. ha auondança de algudom c de syrgo. Os homcs
daquella terra tem prupriu linguuagcm. Som mercadores c mcstciraaes. c
+ ali i.- 5. gucrrcrus.- 1 ;.     sena.
)fo I II"HO 1'1<1\IU HO
muyto trabalho tum.tm pellao.; mercadorias. Som .IUarcntus. e poiJa auareLa
escassamente \'illl'lll. E tem a lcy J,, miscraucl .\lafümcde. Süm pürem hi
christaãos ncsturinos. os quacs tl'm propriao.; )grejas. Tc.1da ayuclla terra se
estende per çinco jornadas.
Da çiJadc de San1archan1. c do milagre da coluna fcyto
cm a ygrcja de sam Joham   Capitulo .xxxix.
Samarcham hc çidadc nobre c muy grande cm aquclla terra. a qual
he tributaria ao neto do gram Cam cm que moram juntamente christaãos. e
outros que adoram a 1\lafomedc. que se chamam mouros. Em aquesta çi-
dade foy feito em aquelles dias huú n1ilagre per virtude de Jhesu Christo.
Huü jrmaão do gram Cam a que chamauam Ciguatay que era senhor desta
terra. enformado pollos christaãos e ensynado reçt:beo baptismo. E cmtom
os christaãos auendo fauor do príncipe. edificaram húa grande ygreja em a çi-
dade de Samarchó.m em honrra de sam Joham baptista. E foy por tal enge-
nho edificada pellos mestres. que toda cubertura da ygreja era firmada sobre
húa coluna de marmor. que estaua em meo della. a qual a ygreja sostinha.
E quando auiam de começar aquella obra. tomaram os christaãos húa pedra
que era dos mouros. da qual se fez ho fundamento ou liçeçe. sobre que
afirmaram a coluna. os mouros que auiam odio aos christaãos muyto
se doeram da pedra que lhes assy fora tomada. empero temendo ho prir.-
cipe Ciguatay nom forom ousados ao contradizer. Aconteçeo despois que
morreo ho príncipe. ao qual soçedeo seu filho. mas nom em creença e ffe. E
os mouros com maldade empetrarom dclle que os christãos fossem cons-
q, v trangidos que lhes ouuessem de tornar sua pedra. E os christaãos I ofiere-
çendolhes grande preço pella dita pedra. ho qual dinheyro os mouros engei-
tarom. desejando muyto que tirada a pedra que estaua debaixo da coluna
que cahisse a ygreja. e per conseguinte a ygreja ficaria destruída. po-
dendo os christaãos auer remedio alguü sobre esta cousa. começaram de
chamar ho bemauenturado sam Joham baptista com lagrimosas orações e
rogos. E cheguado ho ·dia que a pedra auia de ser tirada debaixo da co-
luna. pollo qual os mouros esperauam a queda de toda a ygreja. Loguo per
disposiçam e poderio diuinal a coluna foy tirada do liçeçe bem por espaço
de tres palmos. e assi leuantada se tem no aar sem ajuda e sustentamento
de cousa algüa ate o dia de oje.
5. f...:yra.
DF PALI.O
Da prouincia de Carchan1. Capitulo .xl.
Partindonos ajnda dally a prouincia de   que se es-
tende em longuo per caminho de jornadas. a qual uutrosy tun a seita
de Mafomede. E he sogeita ao senhorio do neto do gram Cam. Onde uu-
trosy ha alguüs christaãos nestorinos. tem auondança de todollos man-
tijmentos.
Da prouincia de Cothatn. Capitulo .
. \d1asc a prouincia de Cotham alem da prouincia de Carcham. antrc
a parte do oriente e a do aguyam. a qual hc sogeita ao senhorio do gram
Cam. E tem çidadcs e Yillas. \ prinópal çidade deste rcgno he chamada
Cotham. Estendcse cm longo esta rrouincia por . ,·iij. jornadas .. \IIi h a
alg<kiom c mantijmentos cm auondança. Yinhas ha alli muytas e muj bõas.
Os homes daquella terra nom som perJ a guerra. Ellcs som oflióacs c mer-
cadores. E tem a muy torpe ley de :\lafomede.
Da prouincia de Pcyn1. Capitulo :xlij.
Proseguindo mais por aquclla partida entramos cm a pruuincia de Peym.
que tem longura de çinco jornadas. a qual tambem he sogeita an gram Cam.
E adoram ho :\lafomedc. Elia tem mujtas çidades e castcllos. cm 1 pero a r.:-, r
mais nobre das çidades he Peym. onde ha huü ryo em que adwm
pedras preciosas .s. jaspes c calçadonias. Os homes da terra som
e mercadores. c ham auondança de algodom c de mantijmcntos. dita
prouincia de Pcym hay huü tal que se alguü lJUe tenha molhcr. c
se passar a outras terras por qualquer cousa que seja pera hir aucr de morar
alem de .xx. dias dcspois da partida ddle. a molhcr pode lcixalo c casar
outro. e o marido outrosy pode tomar outra mulher. segundo aquclle
mao da terra.
I lo 1 o 1 •1<1 \li·. HH)
Da pruuincia de Ciarchiam. < :apitulo .:\liij.
l>espois desto aa de ( que he
rio do gram ( :am. onde som muytas çidadcs c ca:-.tcl111s. dc1s yuacs a mais
principal çidade he chamada Ciarchiam. hi ha ryos cabcdaes. nus quacs
:;uundosamenle ha pedra-; .s. jaspes c calçadunids de gram valcJr.
as quacs som lcuadas pcllos mercadores aa prouincia de Catayo.
pruuincia de Ciardtiam he toda arenosa. c tem mujtas aguas
num embarguando que em muytos lugares aja bõa agua. assi mesmo antre
Cotam e Peym hc toda a terra areosa e E quando algúa hoste
a prouin(:ia de Ciardtiam. todos os homês daqudla terra com as molhcrcs
e filhos e com todas as animalias e crianças se passam a outra tura por duas
jornadas ou tres onde possam achar paçeres e agua. e alli estam atee que ho
exerci tu seja passado. ca o vento esconde as peguadas dcllcs. assi que o exerci tu
nom os pode seguir. e passada assi a se tornam pera sua terra. E se
per ventura o exercitu dos Tartaros a que som sogcitus passa. num fogem
os homcs. mas todas as animalias passam a outro lugar. porque os exerciws
dos Tartaros num querem pagar os mantijmentos que tomam por onde quer
que passam. Dcspois partindo de Ciarchiam vam .\-. jornadas per sabro
onde ha muy maa agua e amar:zosa. empero dentro em aqucllc termo acham
algüa bõa agua. c assi cheguam a çidade que chamam Lop. E todas as
prouincias açima postas .s. Cascar Carcham Cotam Peym e Ciarchiam att
a çidade de Lop. som çer(:anas ao senhorio do gram Tur(:o.
Da çidadc de Lop. c do deserto tnuy grande. Capitu-
lo. xliiij.
1.:-, v Lop he çidade muj grande aa entrada do gram deserto. que esta antre
a parte do oriente e a do aguyam. Os moradores desta çidade tem a seita
de .i\lafomede. Em esta sidade os mercadores que querem passar o deserto
aparelham todas as   que lhes som neçessarias pera seu caminho. em
a .._1ual os mercadores ante da sua partida folguam alguús dias. e alli carre-
guam asnos furtes e camelos de mercadorias e de mantijmentos. e assi vam
seu caminho pelo deserto. E quando acabam de guastar os mantijmentos de
alguüs daquelles asnos ou camelos. ou os matam. ou os leyxam no deserto.
porque os num podem proueer de mantijmento ate ao lugar onde ham de hyr.
cmpero de melhor voontade guardam os camelos. porque som de pouco
+ uas.- 18. jorndadas.
llE   1'1\l"J.O
mantijmento e leuam grandes ..:arrcguas. :\o dito deserto se acham aguas
amargosas em tres ou quatro lugares. cmpero cm outra parte cm esse
deserto cm .X::\ viij. lugares acham agua doçc. c ha pela mayor parte húa jornada
de hüa agua aa outra. mas nom abasta pera todos. que algüas vezes po'-iera
abastar a çinquocnta mcr..:adorcs. e outras vezes a çento. mas cm .::\::\X. jor-
nadas a fym do deserto atraucssando pela largura. mas a longura
ddlc '-lizcm os da terra que hc tamanha que cum dcficuldadc poderam che-
guar do começo ate a m em huü anno. E polia mayor parte aqucllc deserto
hc montuoso. mas os chaãos c ..:ampinas dellc som areosos. porem gecral-
mentc sterilc de todo cm todo. nem ha animalias algüas por ho dcsfal-
lcçimcnto dus mantijmcntos. .\luitas illusõcs c escarnhus de dcmonios se
vem c ouucm de noytc c de dia alli. por isso he ncçessariu que se guarJt:m
com auisamento os que per ally vam. que se num afastem dos colllpanhei-
ros. c que nom durma alguü em ho ..:aminho fora da companhi:t. c que nom
tl.quem de tras. porque se os companheiros trespassam diante cm tanto que
per montes ou outeiros nom possam ser vistos. cousa trabalhosa hc aos que
ficam tornar mais aos seus companheiros. que ouucm alli vozes dos diabuus.
que us chamam per seus propios nomês. c fingem vozes dos que vam
dia!lte. c ellc seguindoos som per ellcs lcuados aos ros caminl10s.
E per este tal engano pcrcçerom ja muytos cm aquclle passo. porque nom
souberom tornar mais aos seus compa I nheyros. E ajnda algüas vezes som r
alli ouuido'i no aar suõs de estromcntos de musica. c mu\·to a mcudc de ata-
baques. E ass\' aquellc ..:aminho hc mu\· trabalhoso e pcrijguosu muno.
Da de Sachion. c do custun1c dos pagaãos. c do
quciman1cnto dos corpos dos n1ortns. Capitulo xlv.
\..:abado ho caminho do deserto cheguam aa çidade de Sachion. que
esta na entrada da grande prouincia de Tanguth. onde ha poucos ..:hristaãos
nestorinos. c alguüs moradores da çidadc guardam a lcy dn abominauel
.\lafnmedc. c os outros todos sum dolatras. E os homés yJolatras que alli
moram tem propria Iingoagcm. Todos os moradores-desta çidadc nom ..:uram
mercadorias. mas soomcnte viuem dos frunos da terra. Em a cidade d\!
- ,
Sachion ha mu\'tos mocstciros consagrados a dcsuairados yJolos. L)Uaes
fazem grandes sa..:riti..:ios. e lhes hc feita grande rcucrcncia do seu pouoo.
Quando ao homé ydolatra nasçe filho. logo ho cn..:umenda a alguü
a honrra do qual cria em sua cas.t aquellc anno huü carneiro. e ..:omprido
ho anno da nascença do tilho. em a primeira festa dr., y'"lulo que depois
7·   1 1. illusióes.- 15. trespassem.
ff o I II"HO l'lll\11·.\ UO
do anno \ icr. ofl'crcçc aaqudlc ) Joio ho filho c ho ro com grande
rcucrcncia. Jcspuis Jcstu cozem as cc.1rnes J,, cc.1rneiro c ofJ"ereçem as
ao ydolo c per tanto espaço diante ellcs. atcc que clles aca-
bam as suas maliçiosas orações. as quaes fazem segunJ<J hu custumc da
sua çcguiJadc. I: pede hu pay muy Jcuotamente au ydolo. que lhe queyra
guardar c cunscruar h o filho. F assy crcem vcrdaJcyramente que ho ) dolo
entrctanto come do caldo daquella carne ..... acabado assi oficio. lcuam
  carnes assi sacrificadas a huú outro lugar. c ajuntados <JS pdrentc!)
dt.:llc. comem todos juntamente aqucllas carnes com grande reuerencia.
c guardam honrradamentc aqucllcs ossos em huú vaso pera aqucllo pcr-
tecnçentc. Outrusy quando quer que alguú morre. aquelles aos quaaes hos
corpos dos mortos pertençem. fazem os queimar. nu queimamento dos quaes
se guarda tal ordenança. Primeiramente demandam conselho aos astrologos
tli, v quando aqudle corpo ser utfcreçido ao queimamento. I E elles pregun-
tam pcllo mes e dia c hora da sua naçença. e achada pera a constellaçam
daquclla hora. lhe assignam e demostram hu dia quando deue de ser quei-
mado. c as vezes fazem deteer ho corpo morto sete dias. e as vezt:s per
huü mes. e outras \'ezes per seis meses. c em tanto ho guardam em casa
em tal maneira. T cm húa arca de tauoas muy grossas as si artificiosamente
feita e composta que nom pode fedor alguú della sahir. a qual outrosy de
fora he muy fremosamcnte pintada. e alli poem ho corpo morto mesturado
com specias bem cheirantes e cobrem a caxa com huú panno fremoso. E
cada dia em quanto assi guardam ho corpo em casa. a hora do jantar apare-
lham huúa mesa açerca da caxa com ,·inhos e manjares delicados. ho qual
tanto tempo tem assi prestes ate que nenhuú homê ,-iuo possa mais jantar.
Afirmam a alma do morto comer daquellas cousas que alli som postas no
seu nome. E lhes dam conselho outrosy aquelles astrologos. per qual
parte da casa ho corpo do finado ha de ser leuado fora della. E dizem que
alguúas vezes em a feitura desta ou daquella outra porta careçia de bõas obras.
por a qual cousa demostram ser nom perteençente que os corpos dos mor-
tos per ellas sejam tirados. pollo qual mandam que per outra porta ou per noua
abertura da parede seja tirado ho corpo do morto pera queimar. E quando
assi he lcuado fora da çidade ou lugar pera queimar. fazem no caminho em
muytos lugares cabanas de paos e cubertas de pannos de ouro ou de syrguo.
aas quaes quando cheguam com ho corpo morto. pousam a caxa em que
Ycm anue a cabana. e lançam em a terra diante da caxa Yinhos e manjares
delicadus dizendo aquelle morto auer reçebido em a outra \ida outro tal
jantar. l\las quando vam pelo caminho vam diante aquella caxa todollos
instrumentos musicos da çidade. no soom dos quaaes he muy grande ale-
gria. Despois que cheguam ao lugar onde ha de ser queimado. tem corta-
das em folhas de papel ymageês de homês e de molheres. de cauallos. de
2. offrcreçcm.- 5. Ic queira.- 2G. morre.
UE I'Al"l O
camelos. e de muytos dinheiros. as quaes cousas queimam todas com ho
cOrpo morto. E dit.em que aquellc morto ha de aucr tantos scruidorcs. e
seruidoras. c animalias. c dinheiros cm a outra Yida. quantas forom as yma-
gces com clle queimadas. e que assi viucria alli cm riquezas e honrra.
Aqucsta sandiç:c c çcguidadc dos pagaãos guardam em todo lugar nas par-
tes do oriente no queimamento dos corpos mortos.
Da prouinLia de Can1ul. ·capitulo .xh·j.
Camul hc hüa prouinda que esta cm a muy grande pruuincia de Tan-
guth. que hc sogeita ao gram Cam. onde ha ç:idades c Yillas. Esta terra de
Camul esta arure dous desertos .s. antrc hu grande de que cnçima foy dito.
c outro que ha em longo trcs jornadas. Em esta prouincia ha mantijmcntos
auondosamcntc. tanhcm pcra os moradores como pera os caminhantes quaaes-
qucr que sejam. Os homcês daquclla terra tem propria linguagem. c hc gente
alegre. nom pareçc que se ocupam cm outra cousa se nom cm joguos c pra-
zeres. E som ydolatras. c assi som pellos seus ydolos do seu entendimento
tam derribados lunguu tempo per aca que se alguü caminhante passa por
aquella terra e quer pousar cm casa· de alguü çidadão de Camul. cllc ho
rcçebc ledamcntc. c manda aa sua mulher e a toda sua família que lhe sejam
obedientes cm todallas cousas cm quanto cllc quiser com cllcs estar. Estu
dito partcsc ho senhor de casa pcra mais nom tornar a ella cm quanto ho
hospede qui1cr hi estar. assi a miscraucl de sua molhcr obedcçc em todas
as cousas ao seu hospede assi como a seu marido. As mulheres desta terra
som frcmosas muyto. mas os maridos dcllas toJos por seus deuses som assi
çeguos cm aquella sandiçc. que ellcs mesmos lhes contam por honrra ho
que suas mulheres sejam sogeitas aos caminhantes. dos quaes som tcudos
por homcs çiuecs c Yijs. )las no tempo que regnou Mangu Cam grande Hcy
Yniucrsal de todollos Tartaros. uuuindo tanta sandice dos homês de Camul.
- >
mandoulhcs que jamais nom presumissem suportar tam maa cousa. antes
guardando a honrra de suas molheres. c proucessem aos caminhantes Jc
pousadas apartadas. cm tal maneira que ho pouoo da ... 1uclla prouincia jamais
nom fosse de tal torpeza cnçugcntado. F os homés de ( amul ouuindiJ tal
mandado do Hev. forom mm· tristes. c enlegcrum çertos emba\.adores. man-
- - .
dandcos a cllc com dinheiros. c pidirum all"icadamcnte. que tam
mandado reuoguasse. porque elles tinham aquclla doctrina dos seus mayores
e mais antijguos c por custume. E que em quanto clles fit.esscm esta benigni-
dade aos hospedes. cm tanto elles percalçarom graça dos seus dcoscs. c
as suas terras dariam sempre frui tos auondosos. E hu Hcy--'Lmgu apruuuelhe
I·   q.   25. sogcitns.- 3+ ciJ,,s.- 3;.
•7, r
f(o III'UO 1'1<1\IJ:'dHJ
consentir a seus rogos c rcuogou h(J m.md.tdo di1cndo. ff,J que a my
· 7· ,. pcrtcnçc cu otiLJC cujl.la do de volo mandar. mas P'Ji!) tam \ itupcrauel doc'tto
açcptacs pu r honrra. ho \ itupcriu que desejacs c (h cmbaixa-
Jores quando se tornarum com as cartas de chcguandú ao puuoo
"-)liC por aqucllo estaua loguo se fa muy alegre. E a-;si guardam este
dctcstaucl custumc ate ho dia de ojc.
Da prownua de Chinchitalas. Capitulo .xh·ij.
Dcspois da prouincia de Camul se acha a prouincia a que chamam Chin-
chitalas. que h c \'e7inha ao deserto da parte do e h a em longo . "í\ j.
jornadas. e hc sob senhorio do gram Cam. Ha hy mujtas çidades c castellos.
E som alli alguCts christaãos nestorinos. e outros que adoram a
E todo ho outro pouuo desta prouincia aduram os ydolos. F em esta prouin-
cia ha huü monte und.c estam minas de aço c de salamandra de que fazem
p::mno. ho qtnl posto que ho lançem no foguo nom poJe ser queimado.
E· fa1csc este panno de terra segundo aprendi de huú meu companheiro
turco homcé muy prudente chamado Zurficar. ho qual per comissam do
gram Cam foy senhor em aquella terra em a obra das minas. Este
contaua que na-..1uelle monte auia hüa mjna de terra que tem huús fios assi
como laã. e secam aquelles fios ao sol c depois pisamnos em huú almofariz
de arame. Jespois lauamnos em agua. e apartamnos da terra que som ape-
guados aa gordura della e fiam os despois fazem os pannos. E estes
pannos feytos e tirandoos do tear nom som aluos. mas lançamnos no foguo
e deyxamnos estar no foguo per hüa hora. e despois os tiram e som feitos
tam aluos como neue. nem se guastam no fogo. ha qual cousa fazem per
esta mesmJ. quando quer que os homeês ho ham de lauar. nem
lhes dam outro lauamcnto pera tirar as maguoas ou çugidades. :\las da sala-
mandra serpente a qual dizem que ,·iue no foguo nom ouuj cousa algúa nas
partes do oriente. mas todo aquello que da salamandra aprendi fielmente
escreuj. que em Roma esta hüa toalha de salamandra em que he
enuolto ho sudario de nosso Senhor. o qual dizem auer enuiado huú rey dos
Tartaros ao papa.
Da prouincia de StKUYr. Capitulo .xh-iij.
1
8, r I .eyxaJa a proumcra de Chinchitalas. \·am contra oriente per dez jor-
nadas. continuadas. nas quaaes nom he achada pouuaçam algúa. saluu cm
Jo. do    
..
J>E 1\1 AH\0 PAUl O
poucos lugares. as quacs passadas acham a prouincia de Sucuyr. cm que
h a muytas çidadcs c da qual a mayor çidadc h c chamada St11:uyr.
Em esta prouincia som algulls christaãos. mas todos os outros moradores
prouincia som ydolatras. c som sogcytus ao gram ( .am. E nom som
mercadores mas \·iucm dos fruvtos da terra. Em todollos montes desta
prouincia se acha rcubarbo cm grande auondança. E daly hc leuado por os
mercadores aas outras partes do mundo .
. •
Da çidadc de Can1piçion. Capitulo
Campiçion hc hí1a çidadc muy nobre e muy grande c a mais principal
de toda a prouincia de Tanguth. H y h a algulls christaãos. e outros que tem
a seyta de -'lafomedc. mas todollos outros çidada:.1os som ydolatras. Em
esta çidadc estam muytos mocstcyros. em que he adorada multidom de
ydolos. dos quacs hulls som de pedra. e outros de paao. c outros de barro.
c todos som sobredourados .. \ lgutJs dclles tem cm grandeza dez passos. os
quacs pareçcm jazer. c açcrca dcllcs som postos outros ydolos pequenos
que parcçe que lhe fa1..cm rcuerencia. Som outrosi alli huüs religiosos ydo-
latras. os quaacs antrc os outrns ydolatras ,·iucm mais honestamente. c destes
alglls guardam castidade. c muyto se cauidam que nom passem a ley dos
seus dcoses. Todo ho anno cnteiro contam per lunaç<"lcs. nem tem outros meses
nem somanas. E algí•s daqucllas lun:.Jçócs guardam çinco dias continuados.
em que nom matam auc nem besta. nem comem carne que fosse matada
em <H.JUCllcs çinco dias. \"iucm cm aquellcs çinco dias mais honesta-
mente que em todullus outros dias do anno. Em c-;ta çidadc cada huü ydo-
latra pode aucr .:\XX. mulheres ou mais. e se seus bés pudem sopor-
tar. empcro a primeira hc auida por molhcr mais lidima. E ho marido num
rcçebc dote da mulher. mas ellc lhe asina dote em suas animalias ou dinhei-
ros segundo o estado de sua pcrsona. Se a mulher for cnojosa ao marido.
licitamente ha pode lcyxar segundo ho aprazimento de sua ,.o<.mtadc. Tomam
por mulheres as parentas do graao. c bem assy I as madrastas. tX. ,.
E muytos que som açerca de nos graucs pecados. clles os ham por licitos
e honestos. F certamente quanto cm muytas cousas bestialmente \"iuem. -'leu
padre dom :\icolao e dom -'Iatfeu seu jrmaão. c cu   estiucmos por
alguüs negoc10s cm aquclla   de Campiçion por huü
anno.
Jf O I IIJIU J I'ICI\IEYUO
Da de Lzina. c de outro grande deserto. (:a pi-
tuJo .1.
Procedendo adiante da çidade de Campiçion vam pcJr .xij. jornadas. c
despois acham a çidade de F1.ina que he tanhem ,.i1.inha ao deserto
contra u aguiam onde ha muytos camelos e outras animalias mujtas de outras
rl'1aneiras. Alli ha hcrodios c falcões e larncrios muy boõs e sagro\ cm muy
    multidom. Os homcs de Ezina som ydolatras. nom curam de mer-
cadorias. mas viuem dos fruytos da terra. Em esta çidadc se perçcbcm os
caminhantes de mantijmentos pera quorenta dias. E os se qui-
serem passar ho deserto que hy esta contra ho aguyam. pello qual passam
em .xl. dias. e nom ha hy pouoaçam nem morada. saluo nos montes ou cm
alguüs vales em que moram alguüs homcs no Yeraão. Em aqucllc deserto
poucas Yczes hc achada herua. empero cm alguús lugares som aigúas an!-
malias. especialmente asnos monteses em grande multidom. Outrosy cm
aquelle deserto ha muytos pinhos. Todas estas prouincias sobreditas e çida-
des .s. Sachion. e a prouincia de Camul. c a prouincia de Chinchitalas. e a
prouincia de Sucuyr. c a çidade de Campiçion. e a çidade de Ezina perteen-
cem aa gram prouincia de Tanguth.
Da cidade de Corocoran1 e do con1eco do senhorio dos
> >
Tartaros. Capitulo .lj.

Acabado ho caminho do dito deserto cheguam aa çidade de Coroco-
ram. que esta da parte do aguyam. onde ouue começo ho senhorio dos Tar-
taros. que morauam primeiramente em as campinas daquella terra. onde
19, r nom auia çidades nem castellos se nom paçeres j soomente e ryos muytos.
nem auiam senhor da gente delles. mas eram tributarias ao gram Rey que
era chamado Bucham. ao qual os latinos chamauam Preste Joham. de que
falia todo ho mundo. mas despois que creçeo ho pouoo dos Tartaros e foy
multipricado muyto. c temcose aquclle Rey que poderia reçeber alguú mal
daquella multidum. se per ventura quisessem ser reuees. c por isso cuidou
de hos apartar huüs dos outros e mandallos a desuaira.jas regiões e terras.
por tal que ho poderio delles fosse menos pequeno. mas cllcs nom se que-
rendo per ncnhüa apartar huüs dos outros. passaram todos junta-
mente hu deserto contra a parte do aguyam. e Yieronse apousentar onde mais
num ternerom u sobredito Rey. ao qual despois nom quiserom dar tributo.
3o mandallas.
DE \\ \HCO PAl ·1 O
Do pri111eiro Rey dos Tartaros chmnado ChiiH.:his c da
discordia que ouue co111 ho seu Hey. Capitulo .Iij.
lkspois de annos de de todos estabele-
çcrom anrrc sy rey. huli barom dos seus discreto e prudente. a que
mauam ( :hinchis. E csto fo\· feito no anno de nosso senhor .Thesu Christo
de mill e çcnto c     E despuis da sua todullos Tartarus yue
eram espalhados per outras terras. \ ijnduse a elle se sujugarom a seu
sl'nhorio de boõ coraçom. E clle guucrnou ho pouoo que lhe era assi sogeito
muy sagesmentc. e em breue tempo tomou .viij.   F quando por
tomaua algúa çidadc ou   despois da \ icturia nom lcixaua ma-
tar nem roubar alguü se se Iugo queria ao seu impcriu sojugar e se elle
hyr a tt1mar as outras çidades. pella qual de todos marauilhosamentc
era amado e querido. E veendose assy em tanta gloria lcuantado enuiou a
seu Rey   pidindulhe sua filha por mulher. E esto foy no anno
de nosso Senhor de mill e duzentos . .\las ho seu Hey tomou esto por grande
cnjuria. e respondeu asperamente dizendo. que ante lançaria sua filha l'll1
huü foguo. que ha dar a seu scruu por molher. c lançou os mcsscgcirus
de Chinchis \·ilmente fora da sua presença dizendo. Dilcc a \·osso senhor.
porque presumiu de se alcuantar a tanta soberba que pidisse a filha de seu
senhor por mulher. que eu ho morrer per amarguosa morte.
Da batalha dos Tartaros co111 aquclle Hcy e Ja victoria •9· v
que ouuero111. Capitulo .liij.
Quando aqucstas cuu!'>as ouuio muj sanhudo. c ajuntado
grande hoste foyse aa terra do rey Budwm. que hc dwmadu Preste Joham.
c assentou seu arayal em húa grande a que d1amam   c
enuiou diler ao dito rcy que se pcrçcbcsse e defendesse. I lo qual
grande cxerçitu dcsçendco aos açerca da hoste dos Tartaros per
.xx. milhas. Emtom rcy dos Tartaros mandou a seus
c astrologos. que lhe dissessem que 111 auia de auer aquella batalha. E os
astrologos parti rum emtom hüa ao longo pclla metade. e puserom aqucl-
las duas partes em terra. e hüa   e a outra
budtam. c disserom a el rey. :\os cm lecndo c os deoses. por
mandado dclles estas pelejaram hüa com a oUTra. c aquclle rey aucra
YÍ(tl)ria cm a batalha. parte subira sobre a parte. de outro. E assi
21. Capnolo.
Jf O I li" lU J I'ICJ\11- lI<()
ajuntada ta gente pcra vccr cm quant() o\   lij.tm pvr ho liuro
de suas cnc_ant.açõcs. as partes das canas m(JUcrom c p.treçiam que
alcuantauam c pclcjauam hl'ta contra a outra. Empcro a parte de chinchis
sobio sobre a Jc bucham. \ qual cou!'la vist,t. c secnJo çcrt,, os Tar-
taros Ja victoria que auiam de aucr. forom muy esforçados. E ao terçciro dia
foy cometida a batalha. c pcrcçcrom muytos dos cxcrçitus de cada huú dos
rcys. empcro ( ticou victorioso c 'cnçedor. c ho rcy Bucham foy
morto. c os Tartaros sojugarom de todo cm todo seu rcgno. E regnou
( :hinchis dcspois da morte de Bucham seys annos. em os quacs dle pcrcal-
çou muytas prouincias. F despois dos seis annos em combatendo com os
seus huú castello. e cllc cm pelejando c cheguandose ao dito castello. foy
ferido em huü joelho com huúa sceta. da qual ferida ha poucos dias se mor-
reo. E foy sepultado no monte de 1\.lchay. onde se enterram dcs alli todos
os grandes reys dos Tartaros. e os que som da gecraçarn delles. E se ho
gram Cam morresse em alguü lugar que fosse alonguado do dito monte de
Akhay per çcm jornadas. a este lugar traeriam seu corpo a sepultar.
Do conto dos reys dos Tartaros c cm que os
corpos delles son1 sepultados no monte de .\lchay. Capi-
tulo .liiij.
Ho primeiro Rey dos Tartaros foy Chinchis. ho segundo Cyn. ho ter-
ceiro Hathyn. ho quarto Rotam. ho quinto :\langu. ho sexto Cublay ho
qual agora regna. cujo poderio he mayor que foy de todollos seus anteçes-
sores. E çertamente ho senhorio delle soo he mayor que som todollos regnos
e senhorios de todollos reys christaãos e de todollos mouros. segundo se
mostra neste liuro craramente. quando leuam ho corpo do gram Cham
ao monte a sepultar .s. ao monte de Alchay. aquelles que ho acompanham
e vam com a sepultura. matam com espadas todollos que encontram
no caminho dizendo. Hyde Yos com ,-osso senhor rey. e seruide ho na
outra vida. E çertamente em tam grande sandiçe e crueldade som induzidos
per sathanas. que clles crecm que aquelles que assi som mortos daquella
maneyra. por a dita razom em outra Yida lhes ham de ser dados em senii-
dom. E bem assi matam todollos cauallos que encontram e tambem os
cauallos do rcy morto. os melhores c escolheitos. por tal que cm a outra
Yida hos reçcba \'iuos. E quando ho corpo do gram Cham assy foy leuado
ao monte. os caualleyros que leuauam ho corpo por a sobredita razom mata-
rom mais de .xx. mill homés.
J2-I3. mon:co.- J3. Jakavm.- J5-I6. dalcha,·.- :w-21. tcrccro.- 22. eus.
. . .
I>E .\1:\RCO PAU O
Dos geeraes (Ustumes c manhas dos Tartaros. Capi-
tulo .lv.
Os Tartaros comuümentc criam muytos gaados .s. boys cabras oue·
lhas. e todas outras alimarias. pclla qual cousa moram com seus gaados
nos lugares dos paçcrcs. E no verão viuem nus montes e lugares frios. undc
possam achar mantijmentos pcra suas alimarias. Tem casas pequenas a
maneira de tcndilhóes muy çarrados de feltro. as quaes trat.cm consiguu per
onde l.JUer que vam. som assi artificiosamente que ligeiramente
se podem prcguar estender alçar ajuntar c leuar. F sempre pocm as portas
dcllas contra ho meo dia. Quando as casas leuantam tem outrosy carrl'tas.
as quaes tiram camelos. bem I assi anitic:osamcnte cubcrtas de feltro. em tal 2o, v
maneira que posto que sobre cllas choua todo dia nom se pode sob cllas
algüa cousa molhar. Semelhantementc leuam sob cllas as mulheres e filhos
e todas as suas alfayas. c todas as cousas ncçessarias. As mulheres dos Tar-
taros som antre elles muj leaes aos maridos. nem he cousa de ouuir nem de
suportar em ncnhüa maneira que nenhuü home presuma de chcguar a mu-
lher de seu E com grande diligcnç;a se guardam que cm cu:.!sa
nom façam enjuria huüs aos outros. mas cada huü delles seu cus-
tume tantas mulheres pude auer per conto quantas possa mantecr. Empcro
a primeira molhcr he chamada a mais principal e a mais honrrada. Todas
as parentas e da linhagem trauessa tomam por mulheres. tirando as jrmaãs .
.!\torto ho pay ho filho pode tomar a madrasta por molhcr. E morto o
jrmaão toma ho jrmão a cunhada. e fazem solennes vodas quando as reçe-
bem por molheres. Os maridos nom reçebem dotes das mulheres. mas pcllo
contrairo elles assynam dotes a ellas c aas suas madres. E assi polia multi-
dom das mulheres tem os Tartaros filhos sem conto .. \s mulheres dos Tar-
taros pouco custo fat.cm aos maridos. porque per seus trabalhos guanham
muyto. E pera a gouernança da família som ajnda bem sollicitas. c pera ho
corregimento dos comeres. Outrosy todollos seruiços da casa fazem cum
grande studo e diligcnçia. Compram e \·endem quaesqucr LOUsas que som
de ,-ender e de comprar. Os maridus dcllas ieyxam todo o cuydado de casa
aas mulheres. e nom se ocupam cm outras cousas se num em caça e C}.er-
cicio de armas e batalhas.
Das arn1as c Yestiduras ddles. Capitulo .h·j .
. \s armas de que se os Tartaros armam. som de forte e enteiro coiro
cozido. ora seja de bufaros ou de outras alimarias l.}Ut: tenham coyro duro.
  d<t:, comeres.
fio I ll"JH) J•JW\fl HHJ
Tr:tll'lll maças de ferro c espadas. r(JfCm sr.brc todo de arC•JS como
Turcos c frcd1as. c som muy grandes archeiros c mujto çcrtciros. e cnsinad'J'
de sua moçidadc c acu-;tumados ao cxcrçiçio dos arcos. homés ricos
h usam vestiduras de pannos d1 'uro c de brocaJ,J c de ou de seJa. I:
tra1cm sob as vcstiJuras pcllcs delicadas .s. de dcsu..1iradas ou de
arminhos. husam uutrusy pcllcs de alimarias que chamam tcbclijs que som
prcçiosas c mu\"to prezadas.
.
Dos comuús n1anjares dos Tartaros. Capitulo .lvij.
Os comuüs manjares dos fartaras som carnes e leite .s . .carnes de
animalias que tomam nas caças. e assy de outras animalias limpas c nom
limpas. que elles comem cauallos e caães e outras animalias que chamam
em seu lingoagem ratuforóes. e som achadas em grande auondança nas
campinas daquella terra. Bebem outrosy leyte das eguas. ho qual corregem
em tal maneyra que pareçe ser vinho branco e hc muy saboroso. e he cha-
mado em sua linguoa chems.
Dos ydolatras c dos errares delles. Capitulo .lviij.
Os Tartaros adoram por seu deos huú que chamam Yatygay. ho qual
pensam ser deos da terra que tem cura delles e dos fruytos da terra e dos
filhos c de seus guaados. E este falso deos elles tem em grande reuerencia.
e cada huü Tartaro tem em sua- propria casa huú ydolo daquelle deos
feyto de feltro ou de outro panno. e poéno em luguar honrrado. E creem
çertamente que elle tem molher e filho. aos quaes assi mesmo fazem ydolos
de feltro. Ho ydolo da molher de Vatigay pooé aa parte seestra. e ho ydolo
do filho pooê ante elle. Estes ydolos honrram assi muyto. F quando vam a
jantar ou aa çeea. untam primeiramente as bocas dos deoses com a gordura
da carne cozida. E a parte do caldo ou da agua em que som cuzidas as
carnes entornam ou lançam fora da casa por honrra delles. pera que os
ditos dcoses reçebam sua parte. a qual cousa assi fcyta vamse aa mesa.
Outrosy se ho filho de alguü Tartaro morre que num teue molher. e de
outro morre algüa moça que nom tcue       ho padre do moço morto
.Ja a moça morta por mulher a seu filho. porem cum con.,entimento du
DE .\1.\HCO 1'.\l'I.O
padre da moça. c fazem dcsto assy cscrcucr huü cstormcnto. E pintam cm
hüa carta ho moço morto c a moça. c \cstiJuras e dinheiros c alfayas
muytas_ c dcsuayraJas. E dcspois queimam no foguo o cstormcnto c as
pinturas. E assi enguanaJos per çcguiJadc do diaboo crccm que aqucllcs
finados casam cm ho outro mundo. L)Uando Yccm ho fumo das cartas
qucymadas sohir no aar. E per a csto fa1.cm ainda solcnnes \ oJas. c Jcrra-
1 mam ou lançam ddlas pera huüa parte c pera a outra. pera que ho esposo 21, v
e a esposa rcçebam c comam sua parte daqucllas \ oJas. I· dali i os padres
c os parentes dos tinados assi se ham por adteguaJos. assi como se aquclle
casamento fosse feito de verdade.
Da ardideza e industria c forteleza dos Tartaros. \.api-
tulo. lix.
Hos Tartaros som cm armas cxerç:itaJos ardidos c fortes. e nas bata-
lhas Yictoriosos. que nom som homés ddicados. ma-i trabalhosos muytu.
assy que quando por azo das batalhas ou de outros neçessarius do excrçitu
lhes conucm de suportar algüas fortunas e trabalhos sobre todolos homés
som mais ligcyros e mais fortes. Per huú mes cnteiro se mester fezcr. nom
comem outra cousa nom leytc de bestas e carnes de animalias que tilham
nas caças. E assi seus cauallos com a henta simprcsmentc que acham nos
pasçeres se suportam. Nem lhes hc ncçessario cm tal caso que lhes busquem
çeuada nem lhes correguam outro comer. 'luytas ve1.cs os Tartaros arma-
dos toda a noyte estam sobre os cauallos. e nom lcyxam porem os caua\lus
de pasçer onde quer que acham hcrua. Som homcés de muy grande traba-
lho c contentes de pouco. E sabem muy bem filhar as çidades c lugares
fl>rtcs sem temer a morte. Quando lhes conucm por ratam de algüas bata-
lhas fazer alguü caminho grande. Jas casas num leuam consiguo algüa
cousa se nom as armas e huü pequeno tenJilham cm que se metem quando
E caJa huú traz comsiguo Jous barrijs Jc coyro cm que leuam
aquellc lcytc contrafeito que bebem. e hüa panella pequena pcra coLer as
carnes. E se algüa ,·ez lhe for ncçcssario Je hir a pressa a alguü lugar
aionguado per dias se suportam sem comer cousa cu.lida. se per aazo
Jc cozer da YÍanJa lhes ouuesse seu caminho ser retardado. Trazem o
lcyte seco a mancyra de hüa pasta. ho qual lançam cm aguoa em hüa
panclla. c mexem ho tanto com huü raao atec que se Jc.sfaz toJo. c aqucllo
comem e bebem. I·: muytas \"C/cs por daquellas cousas
sangram os c bebem ho sangue Jelles.
1 1-12. Capitolo.-  
Da ordenança do <:\<:n;itu ou batalha. c a mancyra de
dos Tartaro:-,. c Jc LOI1lo :-,om sage:-, cm a peleJa.
Capitulo .h.
·\ gouernanca dos Tartaros e ordenanca do cxerl·itu. c a mancvra de
"\ ', , • T ""
pelejar hc tal. QuanJo alguü duque he capitam de alguú exerçitu de çem
mill caualleiros. loguu escolhe ddquelles que lhe pareçem pera offiçios. assy
como tribunos. esto he que sera alguü J.aquelles capitam de mill de cauallo.
e çcnturios. c dezanc;rus. assi que todo e:x.erçitu se ordena per mil e çento
c dez. E ajnda sobre de7 mill he huü capitam. Estes taes capitães do
exerçitu som conselheiros desta maneira. que aquellcs dez dos quaes cada
huü tem debaixo de sy dez mill. som conselheiros dei Rey. E aquelle que
tem debaixo de sy mil som conselheiros daquelles que tem dez mil. E os do
çento som conselheiros daquelles de mil. E os dos dez som conselheiros
do çento. Assi que nenhuü capitam nom auera conselheiros alem de dez. E
aquesta maneira se guarda assi no ex.erçitu grande como no pequeno. f ...
quando aquelle que he capitam de çem mil. quer enuiar gentes a alguú
lugar manda a huü que he capitam de dez mil. que enleja mi! dos seus. e
aquelle manda ao tribuno que enleja çento. c cada çenturio enleje dez. e
cada dezenario da huü. E per esta maneira som enleitos mil de dez mil. E
esto se guarda com tam grande ordenan.;a que todos ygualmente per sua
vez sejam enuiados. E que outrosi saiba cada huú quando de direito rera
esto ha de ser enleito. mas cada huü como he enleito logo obedcçe. que
em todo o mundo nom som achados homês tanta obedien.;ia a seu'i
senhores como som os Tart<tros. E quando quer que ho exerçitu se moue
de huü lugar pera outro. sempre as quatro partes delles som du7entas
guardas ou mais. em conuinhauel afastamento cm tal maneira que nom
possam supitamente acorrer sem serem vistos. E quando pelejam cm campo
com os emmijgos fingem muytas vezes com arte que fogem. hindo por ende
tirando tras sy com as seetas. atee que leuam os imijgos que os seguem ao
luguar onde ellcs querem. E entom \ olucndose todos juntamente contra
ellcs. muj mujtas \·ezes ham dellcs victoria. ror esto muytas Yezes os
imijgos ficam confusos que pensam que \·cnçem e ficam vençidos. Os seus
cauallos som assi acustumados que ligeiramente os voltam a húa parte e a
outra segundo a \·oontade dos que os caualguam.
3.   - 27. rosam.- pclajam.
I>E .\ l.-\IH:O 1'.\l"l.()
Da justiça c juyzo delles. Capitulo .lxj.
Em esta maneyra fazem justiça dos malfeitores. Se alguü furta algüa
cousa de pequeno valor. pollo qual nom mereça ser morto. fcrcmno com
huú paau sete veLes. ou ou ou .\xxvij. ou <.JUC
segundo a grandeza do pecado. c hê hu conto ordenado das feridas atcc
çcntu. cmadcndo sempre de.l. Empcro muytas \"C7cs morrem alguús lLqud-
lcs feridos. 1--. se algué furta cauallo ou outra cousa de 'alia. polia qual
mcrcçc ser morto. cortamnu com huú cutcllo traucssandoo polia mectadc Jo
\entre. c assi ho matam. E se per 'entura ho ladram pode c quer paguar a
noucada .s. alem do furto nouc por hüa hc liurado da morte. Aqudles <.JUC
tem boõs cauallos c camelos poccmlhe suas marcas nos cabcllos e lançam-
nos a pasçcr aas campinas sem pastor. E quando tornam. se alguü antre
suas animalias achar alimaria que seja de outro dono ou senhor. Iugo se
trabalha de prl·guntar por sua morada pcra logo reçchcr ho que seu hc.
porem ho guaado mcudo pocm cm guarda do pastor. Ellcs ham animalias
mu\· frcmosas cm cabo. E estes som os comuüs custumcs dos Tartaros.
mas por quanto agora som antrc muytos pouoos. lcyxam
ft)S dos seus custumes. conformandosc em as prouincias ao dos
outros.
Das campinas de Bargu. c das estremas ylha:-\ do aguyam.
Capitulo .b..ij.
:u, , ..
Dt•spois que cm parte fallamos dos custumcs dos Tartaros agora nus
cheguemos de dccrarar de algúas regiões outras. l>cspois que vam J.a
çidaJc de Corocoram. e do monte a que chamam Akhay contra a parte do
  pcllas campinas J.c Bargu. que h;.hll . \I. jornadas cm longo. c os
moradores Jc.quelle lugar som chamados e som sogcitos ao gram
Cham. c tem os custumcs dos Tartaros. c som homés sah agés. c comem
carnes das. alimarias monteses que tomam cm as caças c c:-.pcçialmcntc J.c
\·cados. J.c que tem grande auondança. os quacs outrosy amansam. E os
feitos mansos caualguam cm dles. tem trigo ' nem vinho. F no 2J. r
verão ham grande auondança de caças de animalias siluestres c de aucs. L no
nucrno pdlo grande frio J.aquclla krra partcmsc Jclla as alimarias c as
aut•s. .\cabadas aqucllas . \I. jornadas chcguam ao mar ôcçeano. do
ffo I.JI"HO I Hl\ln HO
qual estam montes em que hay açores herodios e falcões percgriJs. c tem
ali i ninhos em que CI iam. e dali i os leuam aa corte do gram ( :ham. 1-"
naquelles montes nom som a(:hadas outras aues algúas nom s,,hredi-
tos falcões. e hl"ta outra maneyra (Jll geeraçam de aucs a que chamam bar-
gelach. das quacs se mantcn1 os falcões .. \quellas aucs S(Jm assi grandes
perdizes. tem os pees assi cc,mo de papaga) o. c tem h(J cabo as!\i
çomo de falcam. c som ligeiros no voar. Em as ylhas da .. ]uclle mar naçcm
girofakos cm grande auondança. os quacs Jcuam ao gram Cham. E (JS giro-
falcos que trazem da terra dos christaãos aos Tartaros. nom os leuam ao
gram Cham porque tem muytos. mas lcuamnos aos outros   que
som ve/.inhos aos Armenios e aos Cumanos. Em aquellas partes ha
que som tanto cheguadas aa parte do aguyam. que ha estrdla a que chamam
polo artico a que nos dizemos a estrela do norte lhes he a parte do meo dia.
Do regno a que chatnan1 Eguernnll. e da çidade de
Synguy. Capitulo .b..iij.
Aqui nos compre outra ,.e7 de tornar aa çidade de Campiçion. de
que ja foy feyta mençam. pera escreuermos as outras prouincias a ella
vezinhas. Despoys da partida da çidadc de Campiçion contra ho oriente. ,·am
per jornadas. e em muytos lugares daquelle caminho ouuem Yo7es de
dyaboos. Despois destas jornadas he achado ho regno de Eguermul.
hu qual he na grande prouincia de Tanguth. e he sogeyto ao senhorio du
gram Cham. Alli ha christaãos nestorinus c ydulatras. e outros seJ;uidores
' • L
da Ie,· de ha hi muytas cidades e castellos. E dalli ao sueste .s.
- - >
amtre a parte do oriente e do meo dia Yam aa prouincia de Catayo. empero
primeyro a çidade a que chamam Singuy. tributaria ao gram Cham.
onde outrosy ha christaãos nestorinos e ydolatras. e outros que adoram a
Alli ha boys monteses rnuy fremosos grandes e marauilhosos.
assy como alyfantes. E per todo o corpo ham cabellos bran(:os e pretos de
23: v longura de tres 1 palmos fora ho lombo. mujtos daquelles boys som mansos
e acustumados pera trazer grandes carreguas. e as Yezes os trazem ao
arado. e por a marauilhosa força delles em pequeno tempo acabam grande
obra de terra em arar. Em aquella terra he ho melhor almiscre que ha em
todo ho mundo. ho qual ham de hüa alimaria mujto fremosa. sua grandeza
he tammanha como gato. e tem os cabellos grossos como çeruo. e os pees
I
17. rcra de cscrcucrmos.- 1X. campiçiom.- 20. dt!stes.
OE PAul O
como gato. c tem quatro dentes. dous cm çima c dous cm fondo de lungura
de trcs dedos. E açcn.:a do ynbijgo antrc hu l..":oyro e a l..":arne tem húa hi\igua
chca de sangue. c aqucllc sangue hc ho almisquirc de que sal1c tanto udur.
destas animalias ha hy grande multidom. Os moradores daquclla terra sum
ydolatras c seguidores de c comuümcntc som humés gordos. o narit.
tem pequeno c os cabdlos pretos. c som desbarbados c sem barbas. c
suomcnte tem cabcllos nos bebedoiros .. \s mulheres som frcmusas c aluas.
Os homés ante buscam mulheres fremosas que nobres ou ril..":as. que huü
homc nobre c grande toma pur nwlhcr hlla pobre se for frcmosa. ante t]UC
hüa fea c ril..":a. c tal homé da o dutc aa madre daquclla mulher .. \IIi ha muy-
tos mcrl..":êh.iorcs c oflióacs. E esta prouinl..":ia ha cm longo jornadas. c hc
muy auondusa. H a h i faisaãcs maiores cm dobro que cm ltalia. c tem os
cabos longos de nouc palmos ou de oito ou menos. Tem ajnda outros fa)-
sãcs tlllc cm grandeza som semelhantes aos nossos. Tem outras muytas
aucs nm\· fremosas de desuayradas maneiras que tem muy frcnwsas pcnnas
c de muv frcmosas \.":oures.
Da prouinLia chamada Egrcgaya. Capitulo .hiiij.
Dalli passadas oyto jornadas alem da prouinl.":ia de Egrimul l.":ontra a
parte do oriente se acha a prouinda a que dtamam Egrcgaya. cm que ha
mujtas çidadcs c castcllos. c hc hüa terra da grande prouinda de Tanguth.
E a mais prinl.":ipal çidade dclla hc chamada Calal.":ia .. \s gentes dclla som
ydolatras. tirando algulls christaáos ncstnrinos. os quaes tem ahy trcs ygrc-
jas. 1·. som todos sogeitos ao gram Cam. !\a çidade de Calacia f<llcm pan-
nus a que chamam l.":hamalutc. de laã L· ranca e de l..":abcllos de camelos. os
mais frcmosos que se fat.cm nu mundo. os t]Uacs lcuam os mcrl.":adon:s pcra
outras prouinl..":ias.
Da prouincia de l'cnduch c Jc Cog c de .\lagog c da :q. r
'"·idade Jc Cianguatnor. Cé:l pi tu lo .h'"-
( )utra 'cz lcyxando a prouincia l.":hamada   dtcguam l.":ontra a
parte Jo oriente aa rrouincia dlamada Tendu..:h. UI Jc lu muytas c
  a dare.- Jti. frcmosos.- 22 algüs.
fi q 1.11"1<0 1'1<1\lf:\ HO
l>alli So) a ser .H.]Ucllc grande rc) mU) lo non"'cadtJ pdlo mundo a
que chamauam os latinos .Joham. ma!'\ agora al)Udla prouincia hc
tributaria ao gram Cam. porem ha hy huú rcy Ja gccraçam do sobrcdito
rcy. ao lJual ajnJa chamam Preste .Joham. cujo nome hc Jorge. porque
pois Ja morte daqucllc que na batalha foi morto per Chinchis gram
Cam. dcrom suas filhas aos rcys por molheres. mas nom embargante que
aja alguús ydolatras. c alguús que \ iucm segundo a ley de .\lafomeJe.
Lmpcro a maior parte do pouoo daquella terra tem a fe christaã. e estes
christa<Íos som senhores de toda a terra. Emrcro antrc cllcs ha húa gente
a que dizem .\rgon. a qual tem os homês mais e sages cm
merc:tdorias que outros l)Ue possam ser achados cm outra parte de tuda
aquclla prouincia. :\ aquellas partes ha húas terras a que chamam Gog c
agog. e em sua língua nomcam por G11g üng c por .\lagog .\longul. Em
estes lugares acham a pedra de azul de que fazem aLui muy fino. Alli fa/cm
chamalotes de cabcllos de camelos. Em esta prouincia fazem pannos douro
c de sirgo de muytas maneiras. Alli ha hüa çidade a que chamam Findagui.
onJc fazem armas muj frcmusas c muj bõas de tuJas maneiras pcrten-
çente pcra guerras. :\"os montes desta prouincia ha grandes minas de prata.
H a h i outrusy muy grandes caças pclla multi dum das alimarias monteses.
c chamam aquclla rcgiom montes de ldifu. Alem desta çidadc a trcs jorna-
das se <:Kha a çidade a que chamam Ciangamor. cm a qual esta huú grande
paaço c frcmoso. no qual pousa o gram Cam quando Ycm aaquclla çidade.
que muytas Yczcs vay la. porque açcrca da çidadc estam lagoas em que ha
cirnes c grous. fcyzãcs c perdizes. e outras aues en1 auondança grande. c
alli se recriam deleitosamente. onde hu dito Re\' com falcões e herodios nu
afilhamentu daqucllas aucs toma muj grande prazer e desenfadamentc. Ca
som. alli grous de çinco   A primeyra maneira tem aas grandes. e
som de tudo negros assi como contos. A segunJa maneira tem os grous
:q .. v mayorcs que os outros I c som brancos e fremosos. c as pcnnas das aas
delles som chcas de olhos redondos. c som de cour de ouro e de resplandor.
assi como antrc nos os cabos dos pauoócs. Tem outrosy os olhos de cour
dcsuayrada .s. de negro c branco c azul. terceyra maneyra tem os grous
semelhantes os nossos de Italia. A quarta maneira tem os grous pequenos.
e tem as penas muy frcmosas mcsturadas de cuur negra c Yermelha. .\las
a quinta maneira tem os grous da cour de çinza. e tem os olhos negros c
Yermclhos. c som grandes. Açerca desta çidade ha huú ,-alie. no qual som
mujtas casas pequenas. nas quaes ha perdizes cm granJe multidom que som
guardadas per humcs assignados pera cl Rcy dcllas aucr cm auondança
quando quer que aa dita çidadc \·Icr.
: 1. · :.!fi. dcsafaJamcnto.
I) E   P.u·r O
Da çidade de Ciandu. e da n1ata real que esta açerca
della. e de algúas festas dos Tartaros. e dos enganos.
dos magicos. e dos seus sacriticios. Capitulo .lxvj. ·
Dcspoys da partida da çidade de Cianguamor a tres jornadas contra
a parte do aguyam. he achada a çidade a que chamam Ciandu. a qual
edificou ho gram Cam Cublay. cm que esta huü paaço de marmor
grande e muy frcmoso. As salas c camaras deste )'aaço som guarneçidas
de ouro e pintadas de marauilhosa e de desuairada pintura. \çerca do paaço
esta hl'aa mata real çercada de toda parte de muro. t' tem cm rcdondcta
• X\". milhas cm que estam fontes e ryos e mujtos prados. .\IIi andam
çeruos e guamos e corços r'cra mantijn'!ento dos gyrofakos e fakócs.
quando os alli guardam em sua muda .. \s yezes estam cm aquella muda
quatro mill g;rofakos e mais. E cl Hey em pessoa os visita cada somana.
muytas vezes anda el Rey caçando por ali i. c sobre ho cauallo em que \·ay.
leua tras sy huü lyam pardo manso e domestico. ho qual lançam aos çcruos
ou guamos. E despoys que assi toma algüa alimaria. da c reparte ha aos
gyrofakos. E assi per muytas ve.1.es se delcyta cm este sola.1.. E no meo
daqucllc monte tem el Rey hüa casa muy frcmosa feyta de canas de dentro
I c de fora toda dourada. e de dcsuairadas pinturas frcmosei1tada. as quaes 2S. r
pinturas som per çima tam diligentemente enuernizadas que se nom podem
com chuyua desfazer em nenhüa .. \ casa outrosy toda he composta
com tanta c arte. que se pode tirar e compoer e dcsfa.1.er sem alguü
pcrjuyzo. I ...: quando ha aleuantam e ordenamna em maneira de tenda. c
sustentam ha mais de du.1.entas cordas de seda. mas as canas de que
casa he feita ham em longuo .xv. passos. c em grosso tem mais de trcs
palmos. l>ellas fazem as colunas e as trauc7inhas e os çarramentos. c ajnda
ddbs he cuberta de çima toda a casa. Talham outrosy as ditas cana" per
açerca dos noos. c cada parte talham per meo. e de cada parte fatcm duas
telhas. as quaes ordenadas sobre a casa defendem na da ua e a
agua ao fundo. Em este lugar mora ho gram Cam trcs meses nu annu .s.
Junho Julho e :\gosto. por'-1ue alli ha grande temperança do aar. F nom ha
hy no Yeraão grandes quenturas. Fm estes meses esta a suhredita casa
alçada. mas cm todollos outros meses tiramna dally e atre pera
outro anno. E aos . :n. Yiij. -dias de .\gosto parte se h o gram Lam da çidade
Ciandu. e Yaysc a huü outro luguar pcra fa1cr sacritiLio aos seus deoses.
pensando que por esto rcçebera delles que molheres c tilhos e todallas
outras cousas que poussuye sejam guardadas. E tem ho dito  
manadas de cauallos brancos. em as quacs tem mais de dez mill t•guas.
2. \.:'nganhos.- 24. susrcn;Í ha.- :.!11. a ajnda.- 3_;, atcc por. - 3+ Cham.
Jfo I llii<O J•HJ\IE\"IU)
mas cm e-; te dia da festa fat.cm prestes muy granJ<.: auonJ.mça de te de
cguas cm \'a:-.os lf) honrraJo!'.. L <.:SSO lllC!-.111() d p(Jr suas
maãos derrama to daquclle te per hüa parte e per.t outra por honrra
Jus seus "deuses. I·: dizem os que os Jeo!-.cS ht:bem ho leyte
derramado. c que per este guardam e todas as
que a dlc pcrtccnçem. l>cspois do el Hcy bebe du lcyte
das e num deyxam alguú outro em aquellc dia beber de tal
  se num soo os da sua gceraçam. E os homés da terra daquelle pouuo
que hc dtamadu lleriadt. ao qual puuuo fuy outurguado este preuilegio por
gram Cam. cm hunrra de hüa grande   que aquelle pouoo
'2J. v per honrra Jaquelle Chinchis. E assi he I guardada pera de
fazer aos .xxYíij. dias de Agosto aqudla grande solennidade.
aquellas eguas sum auidos do pouou em tanta
reuerençia que quando passam pollos onde paçeres yuc
nenhuü nom he ousado de passar por alli. atee que todalas mana-
das Jcllas passem. Em esta comem as carnes dos homeês que sum
per justiça morto!-.. as daquelles que morrem de
enfirmidade nom as querem Outrosy ho gram Cam tem ou
que por arte do dyabuo fazem ho aar e sobre ho paaço
dei Rey fazem luz. E ajnda muytas \·ezes quando el Rey esta em a mesa.
fazem por arte dos diaboos que os seus Yasos de ouro que estam no meo da
sala em hüa que se leuantem e sem ajuda de nenhuú hume se 'am
poer ante elle na sua mesa. E dizem que elles podem esto fazer per virtude
de suas E quando os fazem festas aos seus deuses.
reçebem dei Rey que tem as negras. e lenho de alues. c
ençenso pera otlereçerem aos deoses bem e carnes
otfereçem aus ydolos cum grande canto e alegria. E ho em
que se a:-. L.arnes. espargem ante os ditos ydolus. e affirmam que assi
mouem aa pied<lde hos seus deuses. que lhes praza dar auondança e ferti-
lidade da terra.
De alguús n1onjes que son1 Ydolatras. e da Yida dellcs.
Capitulo . Ln·ij.
terra som muytos monjes dados ao seruiço dos ydolos. E
ha huü muy grande moesteyro ho qual polia sua grandeza pareçe ser huú
pequeno luguar. alli ha de dous mill monjes que seruem aos ydolos.
que alem dos dos leygos rapam as barbas e as e \·estemse
2. pr•1pias.- q. 1R. Cham.- 19. de dyaboo.- 3+ he huü.
DE .1\]AHC() 1'.\lll.O
de vestiduras mays religiosas. Estes fatem muy grandes cantus nas festas
dos seus ydolos. e açendem no seu templo muytas candeas. Som cm
outra parte daquella terra muytos outros monjes afora   desuayra-
dos ydolatras. dos quaes alguüs tem muytas mo I lhercs. e alguüs viucm :.!.
11
, r
castamente. 1·. por honra dos seus deoscs guardam muy aspcra ,·ida. nom
comendo se nom farello mcsturado com agua. c jcjüam muyto. c vcstemsc
de pannos muy \·ijs e muy asperos de coor preta. e dormem sobre tojo ou
muy grossa palha c muy dura. \las outros monjes som hy ydolatras que
tem outras mancyras de \·iuer mais larguas. Estes monges ydolatras que
assi asperamente \"Íuem. ham estes outros por hereges. di1.endo que nom
honrram os seus deuses segundo turma deuida.
Acabasc ho liuro pnmeyro do mm· honrrado paulo de \e-
ncza. a l>cos louuores.
2. açendcn- Som c cm.
Comcçasc a tauoa dns Lapitulns Jo liuro -.;cgunJ().
Da granJc1a e poderio do muy grande Hcy Joo; Tartaros. ( apitui'J
p1\meyro. Foi. >..).\·iij.
Em como .1\ayam presumio Jc se aleuantar contra ho seu sobrinho
d Hcy Cublay. Capitulo .ij. Foi. xxviij.
Em como el Hcy Cublay se fez prestes pera hir onde eo;taua seu tyo
1\ ayam. Capitulo .iii. Fui. x X\·iij.
Em como pelcjarom ambos. e de como :\a\·am fo\· \·ençido. Capi-
tulo .IIIJ. Fol. xxix.
Da morte de ayam. Capitulo . \". Foi. xxi)..
Em como el Rcy Cublay mandou aos judeos c mouros que calassem
c nom falassem em doesto contra a bandeyra da vera cruz. Capi-
tulo .\·j. Foi.
De como hu gram Cham gualardoa seus caualleyros quando ham algúa
\·ictoria. Capitulo ·' ij. Foi. xxx.
Da feytura e semelhança do gram Cham. e das suas mulheres e filhos
e mançebas. Capitulo .Yiij. Foi. xxx.
Do seu marauilhoso paaço que he na çidade de Cambalu. e da grande
fremusura do lugar delle. Capitulo .ix. Foi. xxxj.
Da dccraraçam da çidade de Cambalu. Capitulo .x. Foi. xxxj.
Dos arraualdes e da:' mercadorias da grande çidade de Cambalu. Capi-
tulo .xj. Foi. xxxij.
2ti, v I Em como a pessoa do gram Cham magnificamente he guardada. Ca-
pitulo .xij. Foi. XX).ij.
Da magnificencia dos conuites del Rey Cublay. Capitulo .xiij. Foi. xxxij.
Da grande festa da nascença dei Rey e da magnifi..:encia das Yestidu-
ras dos caualleiros da sua corte. Capitulo .xiiij. Foi. xxxiij.
De hüa outra festa grande que se faz no primeyro dia de Feuereyro.
Capitulo . x L Foi. xxxiiij.
Das alimarias monteses que os caçadores em çerto tempo do anno
mandam a corte do gram Cham. Capitulo .x,·j. Foi. xxx\·.
Dos lyóes rcaaes e leopardos. onças e aguyas acustumados aos homes
pera caçar. Capitulo .x,·ij. Foi. xxxv.
Da magnifica montaria dei Rey quando ,·ay as grandes e fortes anima-
lias. Capitulo   Foi. xxxY.
Da sua ca;a que se faz aues com aues. Capitulo .XI\:. Foi. xxx,·.
1. 2. capitluo.- 12. • :.!8.
Das suas marauilhosas tendas. Capitulo . xx. Foi. :\:\x\·j.
Da moeda do gram Cham e do seu grande c incstimaucl thcsuuru.
Capitulo .xxj. Foi. xxxvij.
Dos doze das pruuincias. c do otlicio c do palacio ddlcs.
Capilll lu . X:\ ij. Foi. xx x ,·iij.
Dos caminhciros do gram Cham. c da multidom e ordenança dos
estaaos feitos pcra ddlcs. Capitulo .:\xiij. Foi. :\:\ \viij.
Do auisamcnto dd Hcy pera apruuccr cm os tempos da famc e da sua
piedade aos seus subditus c proucs. Capitulo ,:\:\ÍÍij. Foi. :\Xxix.
Du beber que se fal cm a prouincia de Cathay cm lugar de vinho.
Capitulo .XX\. Foi. xxxix.
Das pedras que ardem como fogo. Capitulo .:\x\·j. Foi. xxxix.
Do grande ryo chamado Polisachio. e da sua muy frcmosa ponte. Capi-
tulo .xxvij. Foi. xxxi\.
H C. a breue dccraraçam de h lia prouincia que hc parte da prouincia de
Cathay. Capitulo .xxviij. Foi. :\1.
Do rcgno de Camfu. Capitulo .xxix. Foi. xl.
Do castcllo chamado Ca,·cu\'. c de como ho rey deli e foy preso per
trayçam c dado a seu imijgo Preste Joham. Capitulo .:\:\X. Foi. :\I.
Do ryo chamado Coromoram. e da regiam de sua comarca. Capi-
tulo .XXXJ. Foi. xlj.
I Da çidadc de Qucmgyanfu. Capitulo .:\xxij. Foi. xlj. 27. r
Da prouincia de Cunchim. Capitulo .xxxiij. Foi. xlj.
Da prouincia de Achabalcch mangy. Capitulo .xxxiiij. Foi. xlj.
Da prouincia que chamam Syndifu. Capitulo .:\X:\V. Foi. \lij.
Da pruuincia de Tcbcth. Capitulo .xxxvj. Foi. :\lij.
De hüa outra regiom da prouincia de Tcbeth. 1: de huü maao e torpe
custumc della. Capitulo .XXX\ ij. Foi. :\liij.
Da prouincia de Cayndu. Capitulo .XXX\ iij. Foi. xliij.
Da prouincia de Carayam. Capitulo .xxxi:\. Foi. \.liiij.
Da pruuincia de Carayam em que ha serpentes. Capi-
tulo .\.I. Foi. :\)v.
Da prouincia de .\rdat11..lam. Capitulo .xlj. Foi. \h·j.
Da gram batalha que foy antr·c os Tm taros e huü rcy de :\lycn c da
\ icturia dos Tartaros. Capitulo .:\lij. Foi. xh ij.
Oc hüa terra montanhosa c da prouincia de :\l ycn. Capitulo . xliij.
Foi. xl\"iij.
Da çidade de :\lycn. c do lrcmoso sepulcro do rc\· dclla. Capi-
tulo .xliiij. Fol. xl\"iij.
Da prouincia de Bangala. Capitulo .xh·. Fol. :\h·iij.
Da prouincia de Canguiguy. Capitulo .Xl\'j. Foi. \.h·iij.
7·  
Da Je .\mu. ( 'apitulo .\lvij. Foi. xlix.
l>a pruuinóa Je CcJioman. Capitu),, .xh·iij. Fol. xlix.
Da prouinda Je c da çidadc Sufulgu. Capitulo . \lix.
Foi. xlix.
I>as çiJaJes de Cacamfu. Cianglu. c Ciangli. Capitulo .1. FcJI. I.
Das çidaJcs Je CanJinfu c Singuimatu. Capitulo .lj. l"ol. I.
De huü grande ryo chamado Coromoram. c das çidades de guam
c" Je Layguy. Capitulo .lij. Foi. I.
Da muy nobre prouincia Jc   c primcyramcntc da piedade e
justiça Jo della. Capitulo .liij. Foi. I.
De como Bayam prindpe do C\crçitu Jo gram Cham perc1lçou a
de l\langy e ha sojug.1u a seu senhorio. Capitulo .liiij. Fui. lj.
Da çidade de Coyganguy que he a primcyra em a prouincia de  
Capitulo :h·. ' Foi. lij.
2
7·'" Das çidades de Panchy e Caym. Capitulo .lYj. Foi. lij.
Das çidades Jc Çynguy e Yanguy em que -'I arco pau lo era regedur.
Capitulo .h·ij. Foi. lij.
De como a çidade de Sianfu foy tomada por engenhos. Capi-
tulo .hiij. Fol. lij.
Da çidade de Singuy c do ryo grande chamado Quyan. e de muy
grande multidom dos nauios que hy som. Capitulo .Jix. Fol. liij.
Da çidade de Cayguy. Capitulo .lx. Fol. liij.
Da çidade de Çingianfu. Capitulo .lxj. Foi. liij.
Da çidade de Chinchiguy. e de como forom matados todollos cida-
daãos della. Capitulo .lxij. Foi. liij.
Da nobre çidade de Çinguy. Capitulo .lxiij. Fol. liiij.
Da muy nobre e marauilhosa çidade de Quinsay. Capitulo .lxiiij.
Fol. liiij.
Das rendas e proueitos que reçebe ho gram Cham da prouincia de
. .\langy. e da çid:.llle de Quinsay. Capitulo .lxv. Foi. h·j.
Da çidade de Tampiguy. e de outras muytas çidades. Capitulo .ln·j.
Foi. lvj.
Do reg no de Fuguy. Capitulo .lxvij. Fol. h·ij.
Das çidades de Quilifu e Y nquem. Capitulo .lxYiij. Fol. h·ij.
Da çidade de Fuguy. Capitulo .hix. Foi. lvij.
Da çidade chamada Zeyton. e do muy nobre porto della. e da çidade
de Tínguy. Capitulo .lxx. Fol. h·ij.
Acabase a tauoa ou registo do liuro segundo de pau]o de
Veneza. E se segue ho seu Jiuro segundo.
Comcçasc ho Liuro de \larl:O paulo. que falia

  r
da grandcí'a c poderio do nuty grande l{ey dos Tarta-
ros. Capitulo primcyro.
Terey em diante cuydado de demostrar no I.}Ue se contem em este
segundo liuro .s. da grandeza e poJerio de Cublay muy grande rey dus
Tartaros. ho qual regnou atce os tempos Ja composiçam deste liuro. cujo
poderio se Jemostra ser mayor cm riquezas c senhorios de terras e de
presidcnçia de multidom de pouoos. que ncnhuü outro n:y ou princir'c de que
todos os tempos passados seja contado. segundo se demostrara craramcnte
nos capitulas que se adiante seguem. Este Cublay hc ho gram Cham que
quer di7er senhor sobre os que se ascnhoream. c hc de gccraçam do Hcy
Chinchis. c he ho sexto Cham segundo mostra pelas cousas suso
ditas. E começou rcgnar no anno d.! nosso senhor Jhesu de m=ll c
duzentos e cinquocnta e scys. c per sua sabedoria c bon..i:tdc pcrcalçou o
regno. ca alguüs dos seus jrmaãos e parentes se trabalhauam de ho c:mbar-
guar que nom regnasse. empero a ellc pe:-tcençia de direito possuyr ho
regno. Este era cm armas mu,· ardido. cm 'irwdc robusto c forte. em
' .
conselho auantajado. em a goucrnança do cxcrçi!u auisaJo c discreto. 1·:
ante que tomasse a coroa d.J rcgno muytas \"czcs saya aas batalhas como
forte caualleyro e arriscado. e em todallas cousas de s\· mostraua auanta-
. .
gem. nns despois que ouue ho rcgno nunca fuy mais que hlla \·ez t:m
batalha. mas seus filhos c barões a sem:.:lhantes.cousJs.
16. no.-- 17. posuyr.- 20.
li() I ll HO SJ-.C rl"r•WO
Em (omo :'\ ayam de se allcuantar (ontra
sobrinho cl Hcy Cuh1ay. Capitulo .ij.
1\ razam porque el Hey foy a batalha aquclla soo vez. que elle regnou
fov esta. No anno de nosso senhor Jhesu Chri-.to de mill e e
oytenta e seys. huü seu tyo per nome chamado I\ayam de hydade de .xxx.
2
8, v 1 annos. ho qual era senhor de muytas terras e pouoos. cuydou seendo em
hidaJc de moço de se leuantar supitamente contra seu sobrinho el Hey
Cublay com muy grande exerçitu. t-... pera esto requereo a huú rey chamado
CaynJo que era neto del Rey Cublay. mas auia ho em auorreçimento. ho
qual dando consentimento aaquella reuelliam. e rrometeolhe que hiria em
pes!'oa com elle com çem mill caualleiros. E ordenarom de se ajuntarem
ambos em huü com seus exerçitus em huü campo. pera despois juntamente
auerem de conquistar as terras dd Rey Cublay.       ajuntados
quatroçentos mill caualleiros. cheguou ao luguar assignado. e alli esperaua
a vijnda do rey Cayndo.
En1 con1o el Rey Cublay se fez prestes pera hir onde es-
taua seu tyo Nayan1. Capitulo .iij.
Em tanto ho rey Cublay soube todas as cousas que per aquelles
eram ordenadas. e sem auer alguú espanto da sobredita trayçam. jurc.,u
que nunca trouuesse coroa real se se delles e da sua audacia nom vingasse.
Em .xx. dias ajuntou trezentos e .lx. mill de cauallo. e de pee quatroçentos
mill daquelles que eram mais açerca da çidade de Cambalu. A razom por
que nmn ajuntou maior e:x.erçitu. foy porque supitamente quis hir sobre os
im;jgos sem mais esperar. que no ajuntamento de mayor hoste fizera mayor
tardança. e viera a noticia de :r\ayam. porque ou se tirara dalli. ou mudara
seu exerçitu pera outro luguar mais seguro. E por tanto non1 quis mandar
chamar seus exerçitus a que tinha enuiado a conquistar outras prouincias.
que çertamente en1 poucos meses tanta multidom de caualleyros e pióes
podera ajuntar. que pello espanto de gente sem conto pareçeria ser húa
cousa que se nom poderia creer. E em tanto mandou el rey guardar todol-
los caminhos com tanta Jiligençia que 1\ayam nom podesse ante saber seu
perçibimento nem sua vinda. e todos os que hiam ou vinham eram retiudos
pellas guardas del rey. em tal maneira que :Kayam num pode ser sabedor
w. mil.-- 18. algu.
I>E 1\<l.\HCO PAULO
de sua ,·inda. El rcy Cublay se aconselhou com seus astrologos sobre a
sayda de seu caminho. ao qual Jc comul"i conselho rcspundcrom. que com
sua honrra aucria 'icturia de seus imijgos.
En1 co1no pelejaron1 an1bos. c de con1o :\ayan1 foy Ycn-
çido. Capitulo .iiij.
Dcspoys que Cublay uuuc ajuntado seu cxerçitu se foy com sua hoste.   r
c cm .xx. dias chegou ao campo onde 1\ayam cspcraua ho c\.crçitu do rcy
Cayndo. e a noyte folgou ho cxcrçitu de Cublay açerca de huü outeiro.
mas ho pouoo de r\ayam era espalhado pclla campina desarmado e ocupadu
cm sulazes e prazeres. nom se pcrçcbcndo do perigo que tinha tam açerca.
E quando \'eo a manhaã el rey Cuhlay subio ao outcyro. c partio toJos de
cauallo do seu c\.crçitu cm .xij. azcs. em tal mal'lcira. que cada hüa aaz
tiuessc .XX\.. mill de cauallo. e pus os de pcc açcrca dos de cauallo. em
tal ordenança que ern algüas azcs fossem postos dous homés de pec com
suas lanças nas ylhargas de cada huü dos de cauallo. huü de hüa parte c
outro da outra. atec que ho conto dos de pcc fosse comprido. El rey hya
cm huü marauilhoso castello de paao. ho qual lcuauam quatro alifantcs cm
que estaua a real. E quando ho e-xcrçitu de i\ ayam yyo aparcçer
h o exerçitu dei rey Cublay. ouuc supitamente grande tcn"!or e espanto. pontue
aynda nom viera hu excrçitu de Cayndo que cspcrauam cada dia. I·
Nayam ho qual era sob huü tendilham com hüa sua barrcguaã que
trouucra consigo dormia. c cspertado pdlos seus num ouue pequeno
temor. cmpero ho mais presto que pude ordenou suas aazcs cm quanto os
outros descendiam. E el rcy Cublay se pos arrcJor do cxcrçitu del rcy
Nayam. E he custume de todollus Tartaros primeiramente tanger as
trombetas rijamente e toJos os cstormcntos. c toda a gente do excrçitu
bradar c cantar c apupar alta voz. como quem dit.. pcrçebe,·us. E despuis
ao soom dos tambores do rey ou príncipe começam a batalha. E assy
acabadas as cantiguas de ambos os e-xcrçitus. os tamborys Jcl rcy Cublay
dcrom seu soom. E emtum as partes mouendo huüs contra os outros
começarom a batalha. E no aar era tanta multidom e tam sem conto de
scctas. que mais parcçia clnllla que desçcndia que scctas. as quaacs despe-
sas c acabadas cumcçarom a pelejar com espadas e lan'Yas e maças. Com
tudo Nayaam era christaáu per prufissam. mas num era seguidor das obras
da fc. e na sua principal bandeira trazia ho signal da cruz. c muytos chris-
taáos trazia consigo. e fuy cometida a batalba c durou dcs a manhaã ate
  Caydu.- 20. Cayndu.- 2-f.- Cublai.
  o I mco dia. c pcrcçcrom muytos assy de hl'w p.trte e d.t ,,utra. Empcro
dcsfallcçcndo a gente de i\: ayam e ,·irandq as fugind•J. el rey Cublay
ficou vcnçedor. E cm a dita fugida multidom foy mnrta de
homcés. c I\ayam foy preso c apresentado a el rey l.ublay.
Da morte de :\ayan1. Capitulo .Y.
El rey Cublay mandou loguo que matassem 1\ayam assy como tree-
dor c reuel a seu senhor. mas porque era de sua gceraçam. nom quis que
ho sangue da linhagem real fosse derramado. nem que a terra bebesse ho
sangue dei rey. nem que soomente ho sol nem ho aar ,·isse alguú _da real
geeraçam matar. e fez ho enuoluer e atar em huú tapete. e assy atado que
ho trouuessem e lançassem de húa parte pera a outra atee que ho baffo de
todo tirado morresse. _Morto Kayam todollos barões e pouoo que poderam
escapar. se sojugarom de todo em todo ao senhorio del rey Cublay. antre
os quaes forom muytos christaãos. E loguo ouue el rey as suas quatro
proumctas. os nomes das quaaes som estes. Cauli. Yorsos. Sichim e
Etnigui.
De con1o cl rcy Cublay n1andou aos judeos e n1ouros
que calasscn1 e non1 fa1lasscn1 en1 doesto contra a ban-
deira da Yera cruz. Capitulo .vj.
Os judeos c mouros que eram do exerçitu c!el rey Cublay. doestauam
aos christaãos que Yiewm com Nayam a batalha dizendo que ho seu Christo
cuJa cruz Nayam trouuera na bandeira nom pode dar ajuda a elle. nem aos
seus. e assy cada dia sem reuerençia escarneçendo ho poderio de Christo
faziam grande nojo aos christaãos. l\las os christaãos que Yierom a corte e
obediencia del rcy Cublay fazendolhe queyxume desta injuria. E elle cha-
mando judeos e mouros com os christaãos e disse aos christaãos. Se ho
vosso Deos nem a sua cruz nom quis dar a 1\ayam ajuda. nom queiraaes
vos por esto auer Yergonha. porque ho boõ Deos nom deue aa maldade e
a injustiça dar tauor nem ajuda. Nayam ho qual foy treedor. e injusta-
3o, r mente rcuell a seu senhor demandaua em sua I malícia ajuda do \·osso Deos.
1\las ho \"osso Dcos porque he boõ. nom quis dar fauor a seus pecados. E
5. a sangue.-t5. dos quaaes.
()E 1'.-\l "1.0
por ysso mando a todos judeus c mouros e que daqui em diante
nenhuü presuma. nem seja ousado de blasfemar ho \osso Deos nem a sua
cruz. sob pena de emenJ.a por ellv reçeber. E foy feitv a-;si que ellcs çessa-
rom d,) dito doesto e enjuria. E despois cl rey Cublay se tornou com pra-
zer a sua çidadc de Cambalu. nem sahio mais com cx.crçitu contra cnmij-
guos. mas mandaua com os exerçitus filhos e barões prudentes. quando
quer que cumpna.
De con1o ho gran1 Chan1 gualardoa seus caqallciros
,Fiando ham algúa Yi(toria. Capitulo .Yij.
Quando os capitács da sua hoste percalçam \'ictoria nas batalhas. cm
esta maneira os honrra. que aquclle que tem sob seu regimento çcm caual-
leiros. logo o faz capitam de mill. E assi de grau cm grao promoue
todollos outros c dalhes vasos de ouro c de prata. e tauoas de priuilegios
c de mcrçccs douro c de prata. e qualquer cousa de graça ou merçee que
lhes pellas ditas tauoas seja outorguado som enprimidas ou talhadas na
dita tauoa de hCta parte c outra. E ho teor das letras que estam cm hüa
parte da dita tauoa hc este. Pella ,·inude de dcos grande. e pella grande
graça que deu a nosso empcrador ho nome do gram Cham seja beento. I·,
da outra parte he esculpida hüa ymagem de lyom com sol e lüa. ou a
ymagem de girofako ou de alguas outras alimarias. E qualquer que ouuer
a tauoa com lyom sol e lüa. quando sahe cm pruu;co lcuam sobre huü
manto de grande autoridade. E aqucllc que tem ymagem de girofako pode
lcuar consiguo de huü lugar pera outro muy grande cauallaria de
ou rcy. E as si des a todallas cousas som muy bem re-
partidas. cm as quacs ham Je obcdcçcr aaquelles que km as tauoas. E se
alguü em todallas cousas nom obedeçer segundo a \·oontaJ.e de aquellc que
tem a tauoa. e segundo a autoridade della requere. morrera morte assi
como rcuell ao gram Cham.
Da feitura ou scn1clhança Jo gran1 Chan1. c suas molhc-
res c filhos c n1ançebas. Capitulo .Yiij.
Ho gram Rey Cublay he fremoso mujto de pessoa c de mea statura.   v
nem grosso muyto nem magro. a tl'm vermelha e spranJ.eçentc. os
1. hlastfcmar.- 10. gc:rfako.
I lo ur:uo  
olhos grandes e pretos. ho narit. muy frcmoso. c a cctda hul'a dos mcnhros
do corpo tem muj bem proporcionados. E tem quatro molhcres as quaes ha
por lijdimas. I lo primogcnito da primeira ho ha de soçcder no regno. E cada
hüa daqucllas quatro molhcres tem por sy sua corte e propr:o
paaço. E cada hüa dcllas tem quatroçentas mançebas es,olhidas. e mujt0s
seruidorcs c famiiiares sem conto. em taJJt J que na familia de cada húa
dcllas ha antre homês c molhcrcs açerca dct. mill. .\lcm destas molheres
t'cm cl Rey muytas mançebas ou harreguaãs. ( .. a antre os Tartaros ha huúa
geeraçam que chamam Vngrach que tem muy frcmosas molhcrcs guarn=das
de muy nobres custumes. das quaes tem e! Hey no paaço çentu escolheytas.
e som postas· sob cura de nobres donas. que tem diligente cuydado açerca
da guarda dellas. Ca lhes conuem que com muy grande diligencia vejam se
tem algüa enfermidade ou magoa. E aqucllas cujos corpos careçem de
semelhante desfalleçimento som guardadas pcra el Rey. E seys dellas tem
a guarda da camara dei Rey tres dias com suas noytes. E quando el Rey
entra a dormir ou a folguar e quando se leuanta estam ante ellc. e em a sua
camara dormem. mas ao quarto dia vem outras seys que soçcdem a estas
primeiras. e som ocupadas no mesmo seruiço outros tres dias e noytes.
E a.5si hüas despois das outras de tres em tres dias. seys soçedcm outras
seys primeiras. ate que se acabe ho conto çentenario delas. das sobre-
ditas quatro molheres tem el Rey .xxij. filhos. E ho primogenito da primeyra
he chamado Chin,his. que ouucra de soçeder ho emperio despoys do seu
padre. mas porque primeyro morreo que seu padre pertençe a seu filho
Temur ho soçedimento. por quanto he filho do primogenito. Este Temur
he nobre e ardido e muy prudente. e ouue ja muytas ,·ictorias em batalhas .
. l\las das mançebas tem Cublay .xxv. filhos muyto honrrados. os quaes som
todos grandes senhores.
Do seu n1arauilhoso paaço que he na çidade de Cam-
balu e da grande fren1osura do luguar delle. Capitulo .ix.
El Rey Cublay viue em a mm· real çidade de Cambalu tres meses
contínuos .s. Dezembro Janeyro e Feuereyro. Em aquella çidade esta huü
tal paaço real. Primeiramente ho muro de todo ho paaço contem em çerco
quatro milhas. assi que em cada quadra ha húa milha. E ho muro do paaço
he muy grosso. e tem em altura dez passos. cuja façe de fora he pintada de
coor branca e \·ermelha. E t>m cada huú canto do muro esta huü paaço
grande e fremoso. E bem assi em meo de cada húa das façes dos muros
2. propor.:ionado.- + huü- 29. capitolo.- 31. feureyro.- 3G. fazes.
DE PACI O
principacs esta huli paaço. c assy som per esta maneira derrador oyto
paaços. Em estes som guar-dadas as armas Yasos pcra pelejar .s. arcos
scctas coldres esporas seclas freos lanças maças cordas pcra arcos. e todas
as outras cousas que som pcra as batalhas c guerras. e
soomcntc som guardadas cm huü paaço armas de hüa maneira. l\las a façe
do paaço que esta contra mco dia tem çinco portas. das quacs ha da metade hc
mayor que todas. c nunca se abre se num per a el Rey entrar ou sahir. que
nom h e dada emtrada por ella a alguü se nom soo mente a el H.ey. E tem
outras duas portas mais pequenas de hüa parte e doutra pcra que pas-
sem os que som ou \'em com el Rcy. E cada hüa das outras trcs taçcs
das paredes tem cm mco hüa soo porta. per a qual pode entrar quem qui-
ser. Os subrcditos paaços que estam nas façes do primeiro muro som orde-
nados cm conuinhaucl espaço. outro muro se segue cm a maneira deste
outro. h o. qual bem assi tem oyto paaços. cm que se guardam outros vasos
e alfayas preçiosas e joyas do gram rcy. Mas no meo espaço mais de dentro
esta ho paaço real. cm que mura el Hcy. Este paaço num tem sobrado. mas
ho ladrilho do chaão delle hc mais alto que ho chaão de fora dez palmos.
e ho telhado hc muy alto e muj nobremente pintado. c as paredes das salas
e camaras dcllc som cm toda a parte cubertas de ouro c de prata. hy som
pinturas muy frcmosas e estorcas de batalhas pintadas. E por este orna-
mento c pinturas ho paaço hc muy splandcçt!ntc. mas I na sala mayor junta- 31. v
mente podem estar assentados a mesa ate scys mill homés. E de dcmru
antre os sobreditos muros c os paaços estam Yirgeus cm que ha prados e
pornarcs de aruores que dam fruitas dcsuairadas e muy nobres. Em estes
virgcus andam animalias saluagês .s. çcruos aluos. e aqucllas animalias cm
que he achado alri1isquirc. segundo ja no primeiro liuro hc cscripto. c outrosy
cabras monteses e guamos dcsuairados. c outras animalias muytas. E da
parte do aguyam açcrca deste paaço esta hüa alagoa cm que se criam muy-
tos pe\.cs c muy nobres. que alli som trazidos de outras partes. dos quacs
pex.es cl H.ey ha auondança segundo sua ,-oontadc. Em a dita lagoa entra
huü ryo. cm cuja entrada e sabida som postas grades de ferro que os pcxcs
nom possam sahir.   fora do paaço hüa lcgoa esta huü monte pequeno
que ha cm altura çcm passos. no seu çcrco ha hüa milha plantada de aruorcs
que "sempre ha folhas Yerdes. E se d Rey ouuc de algüa aruorc frcmosa
logo manda por clla. e com as rayzes juntamente lcuar em çima de alytantcs
pera ho dito monte e plantar. c ajnda das muyto de longe. E por ysso
ha hy em aquclle lugar muy fremosas aruores cm cabo. E todo este monte
hc gracioso e cuberto de herua ,·erdc e todas as cousas hy som \'erdcs.
E por tanto he chamado Fm çima deste monte esta huü
paaço todo pintado de coor Ycrdc. Em este pequeno monte folgua muytas
vezes ho gram Cham dclcytosamente .. \çcrca do sobrcdito paaço fez el H.ey
10. fazes. - I I. pcra qual. - 12. faJ.:cS. - 21}.
Cuhlay outro paaço <:111 todo s<:melhantc a ellc cm que \Íllc Tcmur que
Jcpoys ddlc ha de regnar. ho qual tem magnifica corte real. c çem bulas
impcnacs. e scllo cmperial. Lmpcro nom r:..tmentc C(Jmu tw gram
Cham s..:u auoo.
Da dccraraçon1 da çidaJc de Camhalu. Capitulo .x .
. \ çidade de Cambalu esta sobre lmC1 grande ryo cm a prouinc·a de
Cathayo. a qual outro tempo foy nobre c real. Cambalu cm nossa lingoa
quer dizer a çidaJe do senhor. Esta mudou ho gram Cham a outra parte do
ryo. porque lhe diziam os astrologos q•Je auia de ser por çerto tempo a seu
32. r senhorio reucll. Esta çidade he qua I dr ada. c cstenJ.cse cm re jor . \_Xi1ij. mi-
lhas. em tal mancyra que a façe de cada hüa quaJra temem longuo seys mi-
lhas. Tem os muros de taypa branqueados de fora de altura de .xx. passos.
e a parte mais baixa dclles tem cm ancho dez passos. e quanto mais sobe
por alto tanto mais som J.elguados. em tanto que na mayor ahura soomcnte
lu tres passos. E tem .x:j. portas principaes .s. em cada húa quadra tres.
c sobre cada hüa Jas portas tem senhos paaços. E em tudollos cantos dos
muros bem assi tem paaços. nos quaaes estam muj frcmosas salas em que
guardam as armas d<quelles que guardam aquclla çidade. Tem outrosy a
dita çidadc ruas anchas e direitas em tanto que por a rua ser direita veem
hüa porta aa oEtra porta que pareçe estar cm direito della. Tambem dentro
da çidade estam muytos paaços e fremosos. e outras casas fremosas e
muytas. E em meo da çidade esta huü paaço grande cm que esta huü grande
syno ou com ho qual fazem tres synaes em todallas tardes. despois
dos quaes nom conuem a algué sayr fora da casa atee que seja dia. se nom per
neçessidade de alguü enfermo. ou dalgüa molhcr que quer parir. E conuem
a todollos que de noyte andam polia çidade que traguam lume. E cada
hüa das portas da çidade he cada noyte guardada de mill guardas. e nom
por temor dos enmijgos. mas por ho dos ladrões. que muyto estuda el
Hey e com diligencia faz casnguar os ladrões.
Dos arraualdes e das n1crcadorias da grande çidade de
Cambalu. Capitulo .xj.
Fura da çidade de Cambalu estam .xij. arraualdes mujto grandes a
cada hüa das rortas. nos quaes som reçebidus quaesquer estrange•ros
12.   I..J.· dt:lc:guadas.- 31. capitü10.- 3.!. :J.raualdes.
DE   1'.\l'LO
mcn.::adures. pOr<..JliC mujto puuoo continuamente con...:orre aa çidadc pella
curte Jel H.ey. c por as mercadorias sem conto que alli som trazidas. i\os
arraualdes delles Yiuc grande multiJom de pouoo. F ha nelles paaços muy
frcmosos c tam grandes como os de dentro. a fora soomentc ho paaço real.
Em esta çidadc nom enterram morto alguü. ca os corpos mortos de tullullos
ydolatras fura Ja çidade queimam. E os corros dos outros que nom deuem
ser queimados enterramnos fura da çidade e arraualdes. E por a multidum
dos cstran 1 geiros que aa çidadc vem. ha hy mulheres mundairas atce .:\X. 32 v
mil!. as quacs Yiucm cm os arraualdcs. porque c!e dentro dos muros da çidaJe
nom lcy:\am \"Íuer algüas dcllas . .:\aquesta som trazidas tantas c tam grandes
mercadorias que na quantidade dellas clla sobrepuja qualquer çidadc de
toJo ho mundo. Ca ahi trazem pcJras preciosas e aljofar syrgo c especiarias
em grande auondança da terra da lndia e de Mangy e de Cathay. c de outras
terras mujtas .. \ ç!dadc hc posta c muy bem assentada em muy frcmoso
chaáo. c por ysso de ligcyro \Cm a clla infijnda gente das terras cumarcaãs.
porque hc no mco de muytas prouincias. c aynda de grande cstimaçum
pcllos mercadores da terra. Nom ha dia nu anno em que os mercadores cs-
u·anhos nom traguam a clla mais Jc mill carretas de sirgo. porque hi
obras infijndas Jc ouro c syrguo.
En1 (Onln a pessoa do grmn Chan1 n1agnifiLmnente he
guarLbda. Capitulo .xij.
H o gram Cham tem em sua corte . xij. m'll homês de cauallo asolda-
dos que som chamados Quisitim. que quer dizer ficcs cauallcirus do senhor.
E som quatro duques capita.:les destes caualle\Tos. e caJa huü dclles he
capitam de tres mill. Ho otlicio destes hc guardar a pessoa Jo gram Cham
de dia e de noytc. E da corte do Hey rcçebcm as Jespezas. E departcm
suas guardas cm esta ordenança .s. huü d11quc com seus tres mill humcés
esta nu paaço pcra guarda dcl Rcy trcs dias com suas no) tcs. c os outros
folguam cm tanto. c dcspois Jc trcs dias outros outros trcs dias
pera guardar suas guardas. E assi guardam aL]uella urdem dc:-pois toJo ho
anno. Esta guarda se faz por honrra c nugniti(cnçia real. c num por Hey
algué temer.
+ os dentro.- 7· arraualcs.- J..:pois.
-
I fo LII"HO sEGCsno
Oa tnagnificcn(ia do<.; conuite<.; dei Hey Cuhlay. Capi-
tulo .xiij.
A solennidade que se guarda nos conuites reaaes he tal. (}_uando ho
Hev gram Cham por festa ou por algúa ra1.om quer em a gram sala teer
'tvnuite. a corte se assenta aas mesas em tal ordenança. Primeiramente a
n, r mesa J.cl H.ey ma:s alta se põe de todallas outras mesas. I e em tal maneira
posta. que el Rey secndo aa parte do septcmtriom da sala tem a façe contra
ho meo dia. E aa sua parte sestra açerca dellc esta a Raynha mayor .s. a
sua primeira molher. e a sua parte direita estam seus filhos e netos. e os
que som da sua emperial geeraçam.   as mesas destes em tanto som
postas mays bai-xas que a mesa real. que as cabeças delles abranguam os
os pees do gram rey. E todos os outros assi como barões e caualleiros bem
assy som postos em mesas mais baixas. E per esta mesma ordenança estam
aa parte seestra as outras Raynhas e as molheres dos nobres e grandes
baroões. E cada huü principe e baram tem a ordenança sua
geeraçam. e assi as molheres delles. Ca todollos nobres que comem na
corte nas solennidades del rey. trazem suas mulheres consiguo aos conuites.
Todallas mesas sem postas de tal maneira que ho gram Cham possa do seu
luguar juntamente veer todollos que estam assentados aas mesas. E sempre
a estas solennidades vem aos ta2s conuites e sala real mu,- grande multidom.
- <
1\las fora das paredes da sala dei rey som outras salas ajuntadas em que ou-
trosy comem nas solennidades del rey as vezes quatro mill homês. a fora
aquelles que som da corte del rey. E tambem muytos daquelles que tem me-
nagem e regimentos das suas regiões e terras. e outrosy jograes sem conto.
e aquelles que trazem joyas e outras cousas nouas e desuayradas Yem aa
corte del rey em taes festas reaaes. Em meo da dita sala real he posto huü
vaso douro que leuara tanto como huü tonel cheo de Yinho ou de outro
preçioso beber. açerca do qual de húa parte e da outra som outros quatro
tonees de ouro muy fino quanto quer mats pequenos que aquelle grande. em
os quaes corre ho vinho daquelle vaso grande. e destes tonees tiram ho
vinho em pichees de ouro que poem antre dous nas mesas dos que estam
no real conuite. E cada huü destes pichees he tam grande que pode teer
vinho que auondara a oyto ou dez homés. Outrosi cada huü bebe por húa
grande copa de ouro que tem pee ou outra cousa em que esta cie ouro.
Todos estes vasos som de muy grande valor. ajnda na corte del rey ha
outra tam grande multidom e sem conto de vasos de ouro e de prata que se
nom pode estimar que todos os que ho ,-em se espantam. e os que ho nom
33, v 'eem de marauilha i ho podem creer aos que ho contam. Os seruidores que
1-2. capitolo. -- 22. conucm.
DE   PAUl O
seruem a el Rey quando come som grandes barões. e cada huú delles tem
a boca cuberta com huü panno de sirgo muyto dclguado. por tal que ho
bailo de tal seruidor nom aconteça tocar ho manjar ou beber dei rey. E quando
el rey tem ho vaso na maão pera beber. todollos que tem estromcntos musi-
cos que estam ante el rey tangem seus estormentos. e todollos barões e ser-
uidores que seruem na sala poem os gyolhos em terra. Dos manjares e
yguarias que tra1.cm aa mesa nom compre fallar. porque cada huú por sy
pode pensar que em tam corte larguamente e auondosamente sejam
aparelhados. E acabado ho comer leuantamse os tangedores todos e fazem
suas sonadas e doçes tangeres. e aynda pcllos Jograes e nigromantcs se fazem
grandes joguos e s0lazes ante ho rcy e os outros que em a sua corte comerom.
Da grande festa da nasçença Jel Rey. c da n1agnificen-
cia das vestiduras dos caualleiros Je sua corte. Capi-
tulo .xiiij.
Ho cuo.;tume he de todollos Tartaros ho dia da sua nasçença solenne-
mente çelcbrar .. \ festa da nasçença do gram Cham Cublay hc aos .xxYiij.
dias de setembro. no qual dia fa1. mayor solcnnidade que <.'m outro dia do
anno. tirando a festa do primeyro dia de feuereiro. que he dia que elles tem
e honrram por começo do armo. que o mes de feucreiro açerca dclles he
ho primeiro antre os meses do anno. na festa da sua nasçença el Hey
se veste de vestidura de ouro a qual he preciosa muyto em cabo. Tem
outrosy em sua corte barões e caualleyros per conto dez mil!. que som clÚl-
mados os mais cheguados ou fices do senhor. Estes todos veste consiguo de
semelhante vestidura em todallas vezes que faz festa. que som no anno
treze. nas quaes outrosy da aos sobreditos çintos douro de grande valor. e
calçadura muy fyna de soleta coseyta com fio de prata muy. sotil broslada.
Em tanto que cada huü dclles com tal guarnimento apostado real pareçe
ser huú grande rey. que nom embargante que a vestidura del Hey seja mais
preciosa. empero as vestiduras destes caualleyros assi som preciosas. que
muytas dcllas so I brepojam valor de dez mill peças douro daquel!as de 3-l· r
bisanço. Em esta maneyra cada huú armo a seus baroóes e caualleyros per
todo som vestiduras preciosas feytas de ouro e de aljufar e de pedras precio-
sas com çintas e calçaduras sobreditas. per conto çento çinquoenta scys mill.
Estas vestiduras destes caualleiros som daquella mesma coor. de que he
a vestidura do gram Cham. Na festa da nasçl·nça do gram Cham. todollos
revs e principes e baroóes que som sojeitos ao seu senhorio. mandam a el
7· compra.- 18 e 19. fcurciro.- 24. roJollos.
Hcy Joóes. F os lJUe querem pcJir graças (JU   dam petiçoóes ct
Ju/c barc)()es que per.1 este Sf1l11 ordenaJ,Js c   E por
estes se Ja a reposta a toJallas cou:-,as. conucm que todullos puuoos
Jc qualquer lfc que sejam. ora sejam christaãus. ora judeos. ora mouros.
ou Tartarus c todos os outros pagaãus chamem c roguem com solemnidadc
seus deuses polia \ida c saudc do gram Cham.
De húa outra testa grande que se faz no pnme1ro dia
de Feuereiro. Capitulo .x,·.
Nu dia das kalendas de fcucreiro .s. primeyro d: a do anno segundo ho
conto dos Tartaros. Ho gram Cham c tudullos Tartaros onde quer que som
fazem grande festa cm est•.! dia. El Rey c os seus baroões e caualleyros. e
aynda assi outros Tartaros. homés como molhcrcs. se pudem todos aquelle
dia se \·estcm de Yestiduras aluas. E chamam a solcnnidade deste d=a a
festa alua. E dizem que esta \'estidura dcmostra boõ fado. e por esto enten-
dem que ham de auer aquellc anno bóa ,·entura. Em este dia os senhores
das terras e regidores que alguü regimento tem por el Rey ihe otlereçem
duóes de ouro e de prata. aljofar pedras preciosas. e pannos muy fremosos
de coor branca. ou cauallos brancos. E as yezes em esta festa som
otfereçidos a el Rcy cauallos brancos per conto çem m=ll. E bem assi todollos
outros Tartaros em este dia mandam huüs aos outros doóes brancos. e
comuümente se alegram huüs com os outros pera que desp0is desta festa
3-J, v todo ho anno Yiuam todos ledamente. Em esta festa , trazem aa corte todollos
alifantes del Rey. que som no conto cinco mil. os quaes som todos sobre
vestidos de cubcrtura muy fremosa e desuairada. sobre a qual som coseitas
de pannu ymagees de animalias saluages e de aues. E cada huú destes aE-
fantes traz duas grandes caxas muy fremosas. em que som Yasos de ouro e
de prata dei e muytas cousas pera a dita festa alua neçessarias.
E aynda mujtos camelos cubertos de pannos trazem alli. os quaes pera a
dita festa muytas cousas trazem neçessarias. E todallas animalias carregadas
som trazidas ante a YÍsta dei Rey. porque todo ysto yeer he cousa maraui-
lhosa e de prazer. Em a manhaã ante que as mesas sejam postas. todollos
reys duques baroóes caualleiros. fisicos astrologos. e todollos capitães das
terras e dos exerçitus. e os outros grandes officiaes del Rey se ajuntam em
aquella sala del Rey. E os que em ella nom podem ser assentados pella
grande multidom ajuntamse em salas açercanas. onde podem ser bem ,·istos
del Rey que esta em huü assentamento alto. E som assentados todos ordena-
damente segundo a dignidade de seu graao e officio. E emtom se alleuanta
8. Feureiro.- Capit<Jlo.- 9· feureiro.- 16. offreçem.
DE \1.\RCO I'ACI O
huü cm mco c brada a :tha Yoz dit. assy. Indinadc\·os c adoray. F feita assi
esta \'OZ. allcuantamse todos trijguosamcnte e puemse cm gyolhos. e com a
fronte baixa cm terra adoram ao He\' assy como a deos. e esto fazem
. .
quatro vezes. E acabada esta maneyra de adorar \'amse todos em sua
ordem a huü altar que esta posto na sala. sobre ho qual esta hüa tauoa
pintada de coor vermelha. em a qual esta escripta ho nome do gram Cham.
E desy tomam huü thuribulo muy fremoso que hy tem prestes. em que som
postas defumadoras c cnçcnso aa honrra do gram Cham. cnçensam a dita
tauoa com muyta reuerencia. dcspoys se tornam a seus luguares. Acabada
assy esta maldita maneyra de ençensar. cada huü otrcreçese ante el Rey
com seus proprios doões de que ja em çima fallamos. 1· dcspoys destas
cousas corregem as mesas. c fazem solenne jantar com grande prazer e
alegria. E despuys do jantar os jograes e truhaães fazem grandes solat.es.
Em estas festas trazem ante el Rcy huü lyom manso. bo qual jaz ante os
pees dei Hey tam manso como cachorro. e ass1 ho conhe.;:e como a seu
senhor.
Das animalias n1ontcscs que os cm 35, r
tcn1po do anno n1a1h.iam a corte do gran1 Chan1. Capi-
tulo .xvj.
Em aquelles tres meses que ho gram Cham \·iue cm a çiJade de Cam-
balu .s. dezembro jane;ro feucreiro. per estatuto dei Hcy todollos caçadores
deuem ser ocupados em caçar cm todallas partes darredor da de
Cathayo ate .lx. jor:1aJas. E toJallas grandes animalias assi como çcruos
vssos cabras porcos monteses guamas. c tod.1s outras semelhantes anima-
lias ham de apresentar a seu Sl·nhor. E se som alonguaJos da corte dei
Rey per .X:\X. jornadas ou menos. tirados os das animalias dcucm
de as mandar ao gram Cham cm carreta ou em barca. F aquellcs que som
alonguados da corte alem de .xxx. jornadas. suomente manJam os co\TOS
que som compridoirus pera as armas.
Dos h·oócs rcaacs c leopardos onças c aguyas at:ustu-
nladas aos homés pcra caçar. Capitulo
Pera ho prazer da sua caça tem ho gram Cham muytos leopardos màn-
sos que som acustumados as com os homés. e som muj boós pera as
21.   33. mnj.
--
ditas c:tças. c tomam muitas animalias siluestres. Tem bem   onças en!'ly-
naJas pcra caçar. Tem outrúsi lyóes grandes e mui mayores
os l}UC ha cm Bahilonia. Estes tem nu cJbcllu das pelles vnhali ao longuo
de .::oor dcsuayraJa .s. de negro branco e vermelho. os quaes per essa
mesma maneira som cnsynados com os homcs a caçar porcos monteses
vssos çeruos c asnos nwnteses e boys monteses. E quando os caçadores
querem consiguo lcuar os lyócs pera caçar. duus dell<!s leuam em a carreta.
cada huü dcllcs tem por cumpanheyro huú cam pequeno. fem el Rey isso
mesmo aguyas mup:as mansas. que som assi fortes que tomam lebres
cabras guamas raposas. E antre estas som de tanta audacia que com ho
grande ímpeto arremetem os lobos. que se nom podem os lobos de sua
força defender que nom sejam dclles filhados.
Da n1agnifica ri1ontaria dei Rey quando Yay as grandes
e fortes anin1alias. Capitulo .xYiij.
Dous grandes barões do gram Cham que som jrmaãos. dos quaes huü
he chamado Bayam. e o outro Ungam. som capitaães da montaria dei Rey
cm esta maneyra. que cada huü delles he senhor de dez mill homés. os
quaes criam grandes caães a que nos chamamos mastiJs. e por ysto som
chamados em linguoa dos Tartaros. Cauier. que quer dizer caãcs dos mes-
tres do capitam. E como ho gram Cham quer tomar prazer na caça com
solennidade. leuam comsiguo estes dous baroões .xx. mill caçadores com
seus caáes. E quando cheguam com el H.ey aos campos onde a caça se
ha de fazer. cl Rey com seus baroões se poõe no meco. c huú daquelles
capitães \'ay aa parte direita do Rey com seus dez mill. E ho outro com seus
outros dez mill \'ay aa seestra. E todos os caçadores som assy departidos
huús dos outros. que os dez mill som \·estidos de Yestiduras Yermelhas. e
os outros de \'estiduras de coo r do a ar. a que nos chamamos çelestim. E
fazem ha az longua. e pooemsc polia anchura dos campos. huú açerca do
outro em pequeno espaço. e assy tomam a terra de húa jornada teendo
consiguo seus caães. E despoys que a esta ordenança som postos assy caçando
proçedem soltando os caáes que tem aas alimarias monteses de que hy ha
grande multidom. e poucos podem escapar das suas maãos. pella multidom
e endustria dos caçadores. E yeer esto assy he grande prazer aos que se em
ca-;ar deleytam.
23. barões- 26. ontros.- 29. teemdo.
nt·: 1\lARCO PAl"I.O
Da sua c   ~   que se faz aues con1 aues. Capitulo .}..ix.
No mcs de março partindosc ho gram Cham da çidadc de Cambalu.
vaysc aos campos ate ho mar ocçeano ~ o m seus falcocyros. Em este prazer
se guarda tal solenidade. Sabem com dle os falcoeyros em conto de dez
mill que tem falcões pcrcgrijs c sagres e muy 1 tos açores girofalcos ate qui- 3ti, r
nhentos. todos estes se estendem polia terra de hüa parte c da outra. E
quando veem as aues. de que hy ha grande multidom. soltam os girofalcos
açores e falcões e outras per a as filhar. E as aues que tomam lcuamnas
pclla mayor parte a cl Hey. E d Hey per pessoa Yay com clles assentado
cm hüa muy frcmosa camara feyta muj nobremente de madeira. a qual he
posta artiflciosamente sobre quatro alifantcs. \ parte de fora he cuberta de
pdlcs de lyoões. e de dentro he toda dourada. e alli tem pera seu solaz
alguüs barões consiguo. c tem quin1e girofalcos escolhcitos. Esta camara
he cuhcrta de pannos douro e de syrgo. E açerca dos c.tlifantes que leuam
a dita camara caualguam muytos barões e caualleyros que se num partem
dcl Hey. os qu<Jes l]Uando veem faysaães e grous e outras aues passar.
amostranmas aos falcoeiros que vam com el Rey. e clles fazem ho logo
saber a el Hey. e elle fazendo descobrir ho sobre çeeo da camara. manda
soltar os girofalcos aqucllcs que lhe apraz. e elle assi ficando no seu lugar
folgando vee e olha ho joguo das aues. como som acapcladas e apelotadas
dos falcões .. \ynda el Hcy tem mais outros dl·z mill homés os l]Uaes cm
aqudla caça som espalhados dous e dous per aqucllas campinas de húa
parte e doutra. hu ofticio destes he oulhar por os falcões açorcs e gyrofal-
cos onde Yoam. c acorrem lhes se ti1er mester. Estes som chamados em a
lingua dos Tartaros castaos .s. guardadores das aues. c cada huü delles
tem seu rolo e caperam pera poderen1 chamar as aues quando Yccm que
desuiam ou soubem e auellas. 1\em pcrtcnçe aaquellc que sohuu a aue que
ha sygua. que estes som cntentos e sollicitos que as aues se nom percam uu
danem. Porque muytas Yet.cs se lhes nom acorrem som maguoados das
aues. Por ysso aquelles que som mays chcguados aa aue som theudos de
lhe acorrer quando for ncçessario. Outrosy cada hüa auc de cuja quer que
for tem huüa tauolcta de prata no pce. ~ o m h o sygnal de seu senhor.
ou do falcocyro per a ser restituyda a seu senhor se se per ,·entura perder.
E qLwndo ho synal nom for conheçido leYamna a huü baram pcra este
otlicio ordenado que hc chamado Bularguzi. que quer dizer guardador das
aucs perdidas. E este guarda fielmente todallas aucs que lhe som entregues.
ate <.1ue sejam demandadas do seu dono. E csto se I faz assy dos cauallos. 3ti. v
E assi qualquer que pl·rde ~   u   l l o ou outra cousa algüa cm esta caça.
rccurresc aaquellc guardador. E assy se num pude hy algüa cousa perder.
1. capitolo.- 8. c sa aucs.- 9· csscntadu.- J3. camcr.t.
flq I.H"UO SI·.Cii':'•WO
'Lt:-. em qu.mto este assi tiul!r a   fa/ Jclla muy ncJhremcntc pens.1r.
E quall)lll'f que a cou..,a a.:ha·Ja nom a «,<:u Juno. uu au dito guar-
dador. he auido por la ... lram. mas a.Juclle guarda.Jur I!Scolhe ho lugar mays
alto pcra cllc estar. c no mais visto c apart:çcnte fa/ puer sua bandeira. pera
mais ser achado. por aquellcs que a cousa perdida querem
demandar uu fa7cr saber. uu l)UC uütra ve.1. se podem torndr se ho que bus-
cam sena achado.
"
Das suas n1arauilhosas tendas. Capitulo .xx.
Dcspoys dcsto hindo assi solazando com as aues cheguam a húa grande
campina a que chamam Caçyamurdin. onde estam as tendas do gram Cham
e da sua corte mais de dez mill muyto frcmosas. As tendas do gram Cham
som estas. Primeiramente he hüa grande tenda. sob a qual podem estar mill
de cauallo. e tem a pürta contra meo dia. sob a qual estam barões e caual-
leyros. Contra a parte do oriente esta outra tenda. em a qual he a grande
sala del rey. onde outrosy esta h o consis torio quando quer com alguüs fallar.
e esta sala he ajuntada da outra parte a camara onde elle dorme. e a estas
aynda som ajuntadas outras salas e camaras. mas as duas salas sobreditas
.s. a sala dos caualleyros e ho do consist orio dei Rey e a camara grande
del Rey som desta manevra. C:1Ja hüa destas tres se sostem sobre tres
- -
coluna" de paos bem cheirames. e som lauradas de joguos muy fremusos e
muy nobremente afigurados. e de fora som de toda parte cubertas de pelles
de lyoões de dcsuairada coor .s. branco e preto. Estas coorcs som
naturaes. que muytos lyões ha hi assi colorados em aquellas terras. As
tendas nom se podem destruir com Yento. nem com chuiua. por serem
cubertas de tam rijo e forte coyro. mas de dentro ho panno das salas e da
camara he cuberto de pelles darminhos e as quaes som pelles I!luy
nobres. que tanta quantidade de pelles zebelijs quanto abasta por huú enteyro
J7. r vestido de huü caualleyro che I gua a valor de dous mill peças douro dos que
acustumam em Bisanço. se he de pelles perfeytas e finas. e se he de pelles
comuüs. sobe a valor de mill bisanços. E as animalias de que estas pelles
som chamadas rondes. e som de longura de huü palmo. E som aquel-
las pclles assy artificiosamente compostas. e em desuayradas diuisoóes húas
com as outras ordenadas que he cousa mujto marauílhosa e deleytosa de
Yeer. As cordas que se sostem estas tres tendas som de seda. Açerca das
sobreditas tendas som as tendas das molhcres c filhos e man.:ebas del Re,·.
. -
c S
1
Ji1l frcmosas muyto. Assi mesmo por gyrofakos açores falcões e outras
12. sob qual.- 2ti • .;o berra.- 3o. mil.- 3o. chamados.- 3t-32. aqut:lt:s.- 36. outas.
I> E .\'} AHCO PAUl O
animalias de sortes lhes som armadas suas tendas. Tanta hc hy
a multidom das tendas que pareçe ser hlia çi'-iaJc .. \ lly \·cm de hkla parte
muy grande multidom de gente aaquelle solaz. E som hy outrosy fisicos dei
Hey. astrologos falcoeiros c todos outros otliciaes assi apuuscntados e urde-
nados como som na grande çiJade de Cambalu. Em esta campina esta el Hcy
per tudo ho mes de março continuadamcnte em os subrcJitos prazeres. E
assi em estas c:tças som filhadas mU\·tas animalias e infijndas aues. E uutrosv
- -
pcllo mandad1) dei Hcy que he em todallas prouincias açcrca da prouin-
cia de Cathayo a . x \ x. jornadas ncnhuü mercador. otlicial popular. çiJada<Ío
ou laurador he ousado de teer caães nem aues de caçar. E aynJa mais
conucm a nenhuü grande nem pequeno caçar dcs ho começo de março atce
hu mcs de octubro. nem lhes conuem per alguüa maneira ou engenho tomar
cabras nem gamos nem corços ou lebres. nem outras semelhanh:s alimarias
monteses. E se alguü presumisse fai'er ho cuntrairu seria punido. E por esto
as lebres gamos c outras semelhantes animal ias muytas vezes passam per ante
os homés. t! nom h c alguü ousado de as filha r. Despuis destu tornase cl H.cy
com toda sua companhia aa çidade de Cambalu. per aquellc caminho per
que foy a campina. filhando as alimarias e aues. E <..Juando chegua aa çiJade
per tres dias tem cm seu paaço real! grande curte e grande prazer. Despoys
os que pera estas cousas forom chamados tornamse pcra seus pruprios
lugares.
Da n1ocda do gran1 Chan1 c de seu grande c incstinlé.t-
ucl thcsouro. Capitulo .xxj.
A mueJa real do gram Cham cm esta maneyra se fa/.. de tres cudl:'as 3,, v
daruore nroreira tomam as codeas Ja meetadc. c confai'cm as c ajuntam as
assy como folhas de papel. c despois as talham per partes grandes e peque-
nas a semelhança de dinheiros. e cunham as do sygnal real. cmprimemlhes
dcsuairados synaes. segundo os quaes o dinheyro ha de \·aler. que vai huú
pequeno dinheiro valor ou preço Je huü pequeno tornes. e outro   \·alor
Je meo grosso veneziano. ho terçciro sobe ate dous venc/.ianos grossos.
outro a çincu. outro a dez. outros ha que sobem ou chcguam a peça douro de
hisanço. c outro a ntlor de dous ou tres ou cinLu ou dez. e assi desta moeda
faz el H.ey fazer na çidade de Cambalu em grande quantidade c auundança.
1\om conucm a alguli so pena dt• morte cm toJollos rcgnos sogeitos a sua
juridiçam fazer nem despender outra moeda. ou esta cngeitar. nem poJe
algull de outro regno dentro cm as terras do gram outra moeda dcs-
14. paui'-lo.- •ti. J4. algü.- da morte.
6
ffo I ICHO
nhciro guc vem açerLa. logo sem tardança se o,rrcgc huü   e toma a'i
letras da maão do que n·m. c do tabdlam do lugar húa carta
ud com ho seu assinado e corre .tssi como ho primeiro ate outra pousada.
c assi se despocm os caminhciros huú antre os outros por todollos lugares
onde as letras ham de ser leuadas. E per esta maneira despacham cm
breuc tempo grande espaço de caminho. e as Yczes rcçebe el Hey antre dia
e noyte nouas e fruytas frescas de espaço de dez jornadas. Todos estes
sobrcditos caminheiros som enxentos por el Hey. qne nom paguem alguú
tributo. e alem desto rcçehem merçee da corte dei Hey por seu trabalho.
Do auisatnento dei Rey pera prouecr en1 os tcn1pos da
fan1e. c da sua piedade aos seus subditos e proues.
Capitulo .xxiiij.
1\'landa ho gram Cham em todollos annos os seus messigeyros
pelas prouincias a elle sogeytas. que preguntem se algúa terra por razom
de gafanhotos ou laguarta. ou de quaesquer bichos. ou de outra qualquer
pestenençia ou sterilidade aquelle anno perde seus paães. E quando lhe for
mostrado tal dano dalgúa prouincia ou çidade. quita daquella terra ho
tributo daquelle anno. e dos seus grandes çillcyros faz la leuar tanto pam
quanto lhes he neçessario pera seus mantijmentos. e semt:nte. tempos
da grande auondança compra el Rey muyto a meude muytos trigos. os
quaes se guardam em seu çilleiro per tres ou quatro annos com tal diligen-
cia que nom apodreça. assi de todo pam em tal maneyra se perçebe. que
todos seus çilleiros sejam cheos. pera nos tempos da esterilidade ou careza
poder proueer aos que ouuerem mester. E quando em tal caso se vendem
os t:-iguos dei Rey. tanto preço reçebe daquelle que compra per quatro
medidas quanto recebem os outros que vendem por húa medida. E bem
assi quando ho anno for da pestinençia dalimarias e mortijndade de guaados
quita ho tributo em aquelle anno aaquelles que tal dano padeçem. Empero
esto he segundo mais ou menos segundo for a perda e dano delles. ajnda
que faz vender dos seus guaados. Faz outrosy el Rey plantar aruores em
toda lias estradas pelas prouincias de Cathay. e pelas outras prouincias
derrador em pequeno espaço de húa a outra. por nom aqueçer aos cami-
nhantes desuiarem do caminho direito. E per estes synaes som enderença-
dos. Faz aynda outra obra nom pouco digna de louuor. fez escreuer o
conto e nomes dos proues da çidade de Cambalu que nom colhem pam nem
h o podem comprar que som muy nuijtos. ·aos quaes faz dar pam neçessario
3. corrn:.- + trJtiolos.- 11. fama.- r3. manda gram cham.
DE l'Al'L<)
per tudo hu annu de dentro de seus çilleyros. Aynda mais que na sua corte
nunca hc ncguado pam a quem quer que ho pede. nem passa dia em todo
ho anno. cm que num cheguem homés c molhcres pobres a pedir pam
passados de .xxx. mill. Empcro pam nunca he ncguado a alguü pobre. E
por ysso ho gram Cham he auido dos pobres assy como deus.
Do beber que se faz en1 a prouincia de Cathay en1 lugar     v
de vinho. Capitulo .:\x\·.
Em a prouincia de Cathay se faz hüa beberagem muj nobre cm lugar
de vinho. a qual se fa.t. de arroz e de desuayradas outras espccias aromati-
cas. a <..Jual he muj crara c sobrepuja a duçura do ,·inho. faz mais asHlha
embebedar os que ha bebem que ho Yinho.
Das pedras que ardcn1 assi con1o lenha. Capitulo .xxvj.
Por toda a prouincia de Cathay s(Jm achadas húas pedras negras que
sacam ou talham dos montes. c lançadas no fuguo ardem assi como lenha.
c tem fogo per grande tempo dcspois que som açesas. que çertamentc se as
açcndercm a tarde ellas guardam ho fogo toda a noite. nom cmbarguando
que em aquclla prouincia ouuesse mujta lenha. cmpcro d3qucllas pedras
husam pela mayur parte. puryue a lenha hc mais cara.
Do grmn ryo chmnado Polisachio c da sua muy frcmosa
ponte. Capitulo .xxvij.
Acabadas as cousas de que atcc aqui falley da prouincia de Cathay.
e da çidade de Cambalu. c ysso mesmo da magnificcncia do gram Cham.
Agora brcuementc entendo de cscreucr das terras comarcaãs. Em huú
tempo ho gram Rey mandou a my paulo pera terras muj alongua-
das por huü negocio de seu imperio. E eu tomando meu caminho da
çidaJe de Cambalu c andcy quatro meses continuados em caminho. c pu r
7· .:apitolo.- 12. com o.- 1ti. cllcs.- 20. capitolo.
sso aquellas cousas que achey cm ndo c tornando dc:crar.Jrcy.  
da partida lia çidal.le de: ( :arnbalu. a de/ milhas hc a·.:haJ,J huf1 grande ryo
a que chamam Polisachio. ho qual se acaba no mar ocçeano. Per o
som lcuados muytos nauios com muy grandes mercadorias. Fm clle es1a
hüa ponte de marmorc. que ha cm longuo tre1cntos   c cm ancho
oyto. pclla qual podem hyr de/. de cauallo. huú aa ylharga do
Esta ponte tem .)>.:-..iiij. arcos. c cm a aguoa tem outros tantos pilares
4-
0
• r de: marmorc. mas ha abobada da ponte e do muro das ylharguas I he
tal. I'\ a cabeça da ponte de húa banda esta hüa coluna de marmore que esta
sobre huü lyom de marmore. c por çima da coluna esta huú outro lyom de
marmorc. E alem desta coluna a espaço de huú passo esta outra coluna
que tem outros dous lyões como a primcyra. E antre estas duas
esta hüa abobada de marmore de cor gris. e assy proçedem de ambas as
bandas da ponte dcs ho começo atcc fym. Assy que per esta maneira som
os lytíes de marmorc bem mil e .cc. pello qual esta ponte he muy fremosa
e muno custosa.
Húa hreue decraraçon1 de húa prouÍn(Ía que hc parte
da prouin(Ía de Cathay. Capitulo .xxYiij.
Quando vam alem da ponte per . xxx. milhas acham continuadamente
muytus c outras casas fremosas e vinhas fremosas e terra de to
trigo. e acabadas as .xxx. milhas he achada a çidade de Gyoguim grande e
fremosa muyto. onde ha mujtos moesteyros de ydolos. Alli se fazem pan-
nos muy fremosos e nobres douro e de sirgo e lenços delgados. E ha hi
pera hospedes muitos estaos commuüs. Os çidadãos som comúmente offi-
ciaes e mercadores. E alem d<>sta çidade a húa milha ha dous caminhos
dos quaes hüu passa polla prouincia de Cathay. e ho outro se estende
contra ho sueste e Yaa contra o mar pera as partes das regiões E
assi Yam pela proumcia de Cathay pela mesma parte .x. jornadas. e conti-
nuadamcnte a.:ham çidades e castellos. onde ha muytos e muy boõs agros.
pomares mujtos e muy fremosos e tos mercadores e muy boõs officiaes.
e os homes daquella terra som muyto mansos e amtgauees.
Do rcgno de Can1fu. Capitulo .xxix.
Despois de dez jornadas da çidade de Gyogym he achado ho regno de
Canfu ·grande fremoso e deleitoso. Alli ha muytas Yinhas e fremosas. que
5. marmor. ·-- 8. marmor.- bobcda.- 33. jornas.
t>E _\\.-\H.CO PAl"f.()
em toda a prouincia de Cathay nom crcçe vinho. mas desta terra ho lcuam
la. E ha hi muytas amoreiras pelo sirguo de que ha hy grande auondança.
Alli se fazem muytas mercadorias. c hi ha muytos ofticiaes. fazem mujtas
armas pcra os exerçitus do gram Cham. E dalli hyndo per sete jornadas
contra a parte do ocçidentc hc I achada continuadamente   terra e
muytos castellos. e muy fremosas çidades em que se fazem muy granJcs
mercadorias. F alem destas sete jornadas hc achada hüa çidadc a que
chamam Pianfu grande e de muy grandes riquc1as. onde ha muy grande
auondanç:a de sirgo.
Do L:astello chan1ado CayL:uy. c de con1o ho rcy dellc
foy preso per trayçan1 c dado a seu jn1ijguo Preste Johan1.
Capitulo .xxx .
.Alem da çidadc de Pianfu a duas jornadas esta huü castcllo muy
frcmuso chamado Caycuy. ho qual edificou huü rey per nome Dario. que
foy jmijguo do gram rcy que chamam Preste Joham que por fortcleza de
seu luguar pouco dano poderia reçd1cr daqucllc rcy. Era muyto anojado
ho dito Preste Joham daqucllc rey Dario. por nom poder vençer huü rcy
tam pequeno. E forom achados em sua corte sete mançebos. os quaacs
promctcron1 que lhe dariam catiuo em suas maãos o sobrcdito rcy Dario.
aos quacs cllc promctco dar grandes cousas se ho pusessem cm obra hu
que prometiam. Estes fingirom que se partirom dcllc pur algüa razom. c
cheguarom aa curte de Dario. olfcrccendose a ellc pera ho sentirem. Ellc
nom entendeu sua trayçom reçebeoos a seu scruiço. c por duus annos que
com ellc andarom num podt!rom comprir a malicia do seu coraçom. e
confiando assi el rey Dario muyto ddlcs. huü dia caualguando cl rey com
elles e com outros poucos por r a folguar fora do castello a hüa milha.
cmtom os tredurcs veendo que aquella hora era pcrtcnçente pera a malicia
que traz!am pensada. tirando as espadas das baynhas sobre elle prcnde-
romno e lcuarom ho catiuo a Preste Joham. segundo lhe tinham prometido.
ho qual ouue muj grande pra7er. e por synal de sua grandeza fez ho assy-
nar por guardador dos guaados. fazendoo muj bem guardar. E dcspois de
dous annos. os quacs andou com os pastores. mandou cl rcy que o trous-
sessem ante elle cm vestidos reaaes. e di.:iselhe. .\gora per cspericncia
podestc conheçer que ho teu poderio he nenhuú quando te fiz prender nu
teu reg no e por dous annos te pus com os guaados · e podcrtia matar se
R my grandes.- 12. capitulo.- 13. hü.- 24. no.
l
I
I
40, v
J f O I.JijJH) SJ·:ca 'f'OO
  c nom ha mortal que te tirar de mioha maJo.
cllc todas estas cousas humildosamente out•Jrgúu. Emtom l10 rey
.p, .r Joham disse. : por quauto por tua propr!a boca que cs nada a
respectu de my. qucrutc daqui cm diante aucr por amiguo. E por \ ictoria
me abasta que te puderia matar. Emtum lhe deu cauallos e companhia que
ho leuarom com lwnrra ao seu castello. E clle em quanto viueo
deu grande hunrra ao Preste .Joham. c cm tod.allas cousas lhe (Jbt:Jcçco.
" '
Do n·o chan1aJo Coron1oran1 c da rcgion1 de sua co-
n1arca. Capitulo .xxxj.
H indo pdo caminho alem do castcllo de Caycui a .xx. m:lhas hc
adwdo ho ryo Coromoram. sobre ho qual nom esta ponte algúa pela grande
largura dellc c he muj fundo. c chcgua atcc ho mar ocçcano. Sobre este
ryo estam muytas çidades e castellos. em que ha muy grandes mercado-
rias. Na qual terra açcrca do ryo de hüa parte c da outra creçc gingibrc
em grande auondança. H a hi outrosy sirgo muy auondosamcntc. Tanta mul-
tidum ha hy de aues que he cousa de marauilhar. que alli dam trcs tayzãcs
per huü pequeno dinheiro de prata. que sobe a 'alor de huü d:nheiro de
Veneza. Despois de duas jornadas alem do ryo he achada a nebre çi-
dade de Casianfu onde ha mujto sirgo. E fazem hy pannos muy fremosos
douro e de   Todos os moradores do lugar e de toda a prouincia de
Cathay som ydolatras.
- -
Da çidade de Quen1gyanfu. Capitulo .xxxij.
E dali per . 'IIJ. jornadas som achadas çidades e castellos. e agros
muj fremosos e muytos pomares e por aazo do sirguo ha hy muytas mo-
reiras. e os homes som ydolatras. e ha hy muy grandes caças de alimarias e
de aues. E despois das oyto jorn3das he achada húa grande çidade a que
Quengianfu. que he a çidade principal de todo este regno de Qucn-
gianfu que foy em outro tenpo regno muyto rico e nobre. Alli esta huú rey
filho do gram Cham a que chamam 1\Iangala. Alli ha muy grande auondança
de sirgu e de todallas cousas que pera a vida dos homes som neçcssarias. Alli
se f:vem açerca dos muros muy grandes mercadorias. Os moradores da
3. rropia.- 5. podria.- 9· capirolo.
OE .\fAHCO PAULl}
terra som ydolatras. Fora da çidadc cm I a campina esta ho real paaço de .p v
Mangala. ho qual tem os muros largos. que ho çcrco derrador se estende
per çinco milh3s. De deste muro ha ryos fontes e lagoas. :'\'a praça
da meetadc da çidade esta huü paaço muy frcmoso. e dentro he dourado
todo. Açerca do sobredito muro mora ho cxerçitu dei rey. ho qual cm
caçar de animalias e aues c:m aquella regiom to se deleyta.
Da prouincia de Cunchin1. Capitulo
E dalli os que partem daqucllc paaço ,·am per tres dias per hüa fre-
mosa campina. onde ha muytas çidades e castellos e grandes mercal.brias.
Tem sirgo mur auondosamentc. E acabadas aquellas trcs jornadas de cami-
nho he achada hüa terra montuosa. c antre os montes som grandes vallcs.
em que estam çidades c castellos muytos. E bem assi nos montes estam çi-
dades e castcllos e som da prouincia de Cunchim. Os homés daquclla terra
todas som ydolatras. e som todos lauradorcs. Som outrosy grandes caça-
dores. ho porque em aquclla terra ha mujtas animalias monteses. assi como
Ivóes \ ssos ccruos c outras desuairadas maneiras de bestas. E estcndcsc a
dita terra per .xx. jornadas. e os caminhantes que passam per os montes c
matas e acham muitas çidades e pouoraçõcs e muy bõas pousadas.
Da proumcta de .\chahalcch nutngi. Capitulo .XXXlllJ.
Dcspois das sobreditas . xxx. jornadas h e achada a prouincia de \cha-
balech mangy que he contra a parte do ocçidente. onde ha muytas çidades
e castellos. E a mais principal çidade chamam .\chabalech mangi. porque
he vezinha aa prouincia de Esta prouincia em as primeiras trcs jor-
nadas ha húa campina alem da qual despois ha montes grandes c muy gran-
des valles e matas mu,·tas. Estendcse esta prouincia atee .x.x. jornadas. e
tem muytas çidades e Os moradores desta regiom som ydolatras.
e oll"yciaes e lauradores. e som muy boós caçadores. que alli ha lyõcs ç.er-
uos vssos e onças. e aquellas pequenas animalias de que se tira ho a'mis-
quire segundo cnçima foy dito. Em esta I prouincia creçc 111Ll) grande auon- . .p. r
dança de gingibrc. que leuam a prouincia de Cathayo. H a outrosy triguo c
arroz cm grande auondança.
:lli.   a castcllos.
I fo 1 II'HO sHilll\1>0
Da proumcta a que chamam SYnJifu. Capitulo .xxxv .
. \cabadu ho caminho das .xx. jornadas he acl1.1da cm huúa campina a
prouincia de Syndifu. que hc bem assy \"CJ.inha da prouincia de   da
qual a mais principal çidade he chamada Syndifu. Esta çidadc foy em outro
grande e muy rica. cujo çcrco auia .xx. milhas. I· tinha rey muy rico
muy poderoso que tinha trcs filhos. estes suçedendo ho n·gno despois da
morte do pay. partirom ho em trcs partes. e bem assi a çidade partirom
cm tres partt.'s. das quaes cada hüa scbre sy çercarom de muros. empero que
todos de dentro do primeiro muro. i\las ho gram Cham ouue a d1ta
çidade c rcgno. Per meco desta çidade passa huú ryo a que chamam Quianfu.
que hc cm andw per hüa mea milha. e ht muy fundo. e tomam em dle
muytos pexcs. Sobre este ryo estam muytas çidades e castellos. que alon-
gua atee ho mar ucçeano per .lxxx. jornadas. Passam por elle nauios e mer-
cadores em tam grande mui ti dom. que de ventura se pode creer aos que h o
contam. se com proprius olhos nom vee. Em a çidade de Syndifu sobre
ho dito ryo esta hüa ponte de pedra. cuja longura ha húa milha. e ha em
ancho oy to passos. e de çima esta cuberta com telhado de madeira muy
nobremente pintada. que se sostem em colunas de mm·more. Sobre esta por.te
estam muytas casas de madeyra pequenas ou tendas pera officiaes de des-
uayrados officios. as quaes alçam pela manhaã. e de noyte as tiram e as
ajuntam em huü. Aynda ha hy outra casa mayor. onde moram os offiçiaes dei
rey que reçebem os dinheiros da passagem e portagem por el rey em a dita
ponte. que sobem segundo dizem em cada huú dia a valor de mil bisanços
de ouro. Os homes desta terra som ydolatras. E alem çinco jornadas estam
castdlos e 'i lias onde fazem lenços. e outros\" ha munas animalias mon-
teses.
Da prouincia de Tebeth. Capitulo .xxxYj .
.. p, v E passadas as ditas çinco jornadas. achase a prouincia de Tebeth. a
qual ho gram Cham em pelejando e conquistando destruyo. que mujtas
çidadcs som destruídas e castellos derribados. Estendese em longuo esta
prouincia per .xx. jornadas. E porque he assi destroyda e despouoada he
neçessario que os caminhantes leuem consiguo mantijmentos per .xx. jor-
nadas c aynda mais. porque cüreçe de pouoaçóes. foram alli multipricadas
alimarias monteses em grande multidom. pella qual cousa he muyto peri-
goso de passar por alli. espeçialmente de noyte. e por ysso os mercadores
1. capirolu.- 1S. propios.- 17. coberto.- 18. marmor.- 22. do passagem.
hE .\1.-\RCO PACf O
e caminhantes ham tal remediu. En1 aquella terra ha muy grandes canas.
que hüa dellas comuümcnte tem em longuo .xv. passos. e na grossura della
tres palmos em dcrrador. c ho espaço antre dous noos he de tres palmos.
E por ysso os caminhantes que querem de noyte repousar. fazem xcs
daqucllas canas verdes. e pera arderem toda a noytc lhe poem ho
foguo. 1·. despois que som ygualmcnte esquecntadas torçem as de hüa parte
pera outra. c ellas quebram e arrebentam muj fortemente cm tal maneira
que ho seu qutbrar e soom he ouuido a muytas milhas. F quando as es-
pantosa:. bestas ouuem aquelle som espantoso. com tanto temor e pauor se
espantam que loguo começam fugir. e nom çcssam ate que cheguem a lugar
onde aquclle espantoso som nom possa ser ouuido. e assi escapam os mer-
cadores de noytc. que se de tal remediu se num pcrçcbesscm nom poderia
hy alguü esc:tpar nas noytes por a multi dom das bestas brauas .. -\ ynda
quando os homcs primeiramente ouuem este som tomam grande espanto c
os cauallos e ai imarias dos caminhantes. ante que sejam acustumados este
som. assi se espantam que Ioguo fogem. E per esta maneira mujtos mer-
cadores nom bem auisados perderam muytas alimarias. E por ysso cumpre
que os cauallos sejam primeyramente per seus pccs cautelosamente e com
diligencia presos e trauados. porque muytas vezes rompem as prisoócs e
fogem quando ouuem quebrar as canas. se primeyro e com diligencia nom
forem atados.
De húa outra regimn Ja prouincia Je Tebeth e de huú
n1aao e torpe custun1c della. Capitulo .XX:\Yij.
cabo de .xx. jornadas da prouincia de som achados castel- 4J. r
los tos e \"illas. onde h a huüa abusam que nom hc de ouuir nem pera
vsar. a lJual naçe da çeguidade de ydolatria. Em aquclla terra hume alguü
num quer tomar molher que seja virgem. antes requere cada huü que
aquclla que quer tomar por mulher seja primeiramente de munos homes
conheçida. que di1em que cm outra maneyra tal molher nom   pcrtcnçcnte
pcra ho casamento. t- por ysso quando oo.; mercadores ou outros caminhantes
quacsqucr que por aquella terra passam se apousentam com suas tendas
açerca dos ditos castellos ou villas. as mulheres daquellc luguar que tem filhas
pera casar. as trazem a elles .s. xx. xxx. ou .xl. segunJo he a pouquidade ou
multidom dos mercadores. c roguamlhes que cada huü delles tome a sua
e ha tenha em sua companhia em quanto ahy estiu.:'rem. E cllcs
aqucllas que querem que lhes mais apra.l. e continuadaml'ntc as tem l:Onsi-
7· fort,ltncntc.- 2J. capitohJ.- Jt) aqud!C's.
J f O I JCUO
guo. auc.:nJo com clles companhia cm quanto hy estam. E quando
partc.:m nom lc.:yxam leuar dcllas conucm que as entreguem a
seus parentes. E cada huú he tcudo dar algúa joya aa moça que teue pera
dia podc.:r auc.:r clara proua pcllas ditas joyas cm como foy amada ou
husada de: muytos homés. c csto pcra assi poder mais asinha c mais nobre-
mente ser casada. E quanJo as ditas ·moças se querem mostrar. despois de
bem conçertadas c bem vestidas com todas as joyas que lhes assi som
daJas Jus ditos caminhantes trazem ao collo. pera dcmostrarem como
furom aos caminhantes graçiosas. E aquclla que traz ao collo mais signaes
he julgada por mclhur e mais prezada. c mais ligeyramentc pode ser casada.
Empero despois que som casadas mujto sum amadas de seus maridos.
nem as leyxam nem consentem mais chcguar a outros homés estrangeiros
nem aos do mesmo Juguar. que muyto se guardam os homés daquella terra
que nom façam injuria huüs aos outros em esta cousa. Os moradores desta
terra som ydolatras e cruees. nem ham por pecado roubar e husar de
Jadro:çes. Viucm dos fruyros da terra e de caças. Em esta terra ha muytas
animalias de que fazem ho almisquire. c som chamadas gaudcri. E os
..J-3, v moradores daquella terra tem muytos caães pera caçar que filham 1 aquellas
alimarias. pella qual ha hi almisquire em grande auondança. E vestemse
de cuyro e de pelles de bestas ou de bocasin. ou de canabaço cruu ou
grosso. Tem propria linguagem. e outrosy moeda. e pertençe aa prouincia
de Tebeth. c som vezinhas a grá prouincia de   Esta prouincia de
Tebeth he muy grande. partida em oyto regnos. Tem muytas çidades e
castellos. e he muyto monranhosa. Tem lagoas e ryos em que acham ouro
a que chamam de paglola. Outrosy ha hy coral por moeda que compram
em caro preço. porque todas as molheres daquella terra trazem coral no
collo. E bem assi a todollos seus ydolos dependuram coral no collo. que
esto ham por grande gloria. Em esta terra de Tebeth ha caães grandes
assi como asnos que tomam as alimarias   e outros caães tem de
desuairadas maneiras pera caçar. e falcoóes e herodios ha hi muy boós.
Em esta prouincia naçe em muy grande multidom de canella. e muytas
outras especias aromoticas ha hy que nom som trazidas a nos nem forom
nunca vistas em nossas terras. Fazem hi chamalotes e outros pannos de
ouro e de sirgo. Toda esta prouincia he sogeita ao gram Cham.
Da prouincia de Cayndu. Capitulo .xxxYiij.
Despois da prouincia de Tebeth he achada a prouincia de Cayndu
contra o ocçidente. e tem rcy. e he sogeita ao gram Cham. Ha hi mujtas
12. os lc:ixnm- 18. cat:es.-2J.Iingoagem.-28. caeés.
DE !\lAHCO I'AlJI.O
çidades c castcllos. c ha hi hl'1a lago:1 em que som as pcrlas cm tanta
auondança. que se ho gram Charn as lcixasse liurcmentc tomar e lcuar.
nom as aucriam cm stima. c assi se perderia ho valor dcllas. \-<. se alguü
prcsum:s!'c pescar pedras prcçiosas sem liçcnça dei rey seria preso c morto.
Em esta lagoa ha hy pcxcs cm muy grande auondança. Em esta prouinda ha
gram n1tlltid' m1 de gaudcrios de que tiram h o almisquirc. H a hy outrosy
lyõcs muytos vssos çcruos c onças cm muj grande multidom. E ha hy
aues de dcsuairadas maneiras cm muy grande multidom. ="om crcçc hy
vinho nem ha hy vinl1:1s. mas de triguo e de arroz e de espeç:ias
fazem muy nobre vinho. E ha hi crauos muy muytos que colhem cm aruorcs
pequenas que tem os ramos pequenos e fazem a frol br;mc:t c pequena assi
como hc ho crauo girofe. Ha hi gingibre auondosamentc c canclla c outras
muytas cspccias I aromaticas que nom som tra1idas as nossas terras. 1\os 44, r
montes desta prouincia som achadas hüas pedras ct que clnmam turqucscs
fremosos muyto c em grande auondanç:a. as quacs alguü nom pode cauar
nem lcuar sem liçença do gram Cham. Os moradores desta prouincia som
ydolatras. e· cm tal mancyra pelos seus ydolos som tirados do seu syso.
que crccm de aucr sua graça. se as proprias molhcrcs c filhas derem aos
caminhantes. porque qualquer caminhante que per ellcs passa c se for a
casa de qualquer dcllcs. loguo ho senhor da casa chama a molhcr c f.lhas.
e toJas as outras molheres que tem cm casa. e mandalhcs que cm todallas
cousas obedeçam ao hospede e a seus companheiros. e despoys deste
mandado partese e leixa em a propria casa ho estrangeiro com seus com-
nheiros assi como senhor della. nem presume mais tornar cm quanto este
outro hy quiser morar. E ho estrangeiro dependura ante as portas ho
sombreyro ou a touca ou alguü outro synal. F quando ho senhor da casa
se quer tornar pensando per ventura que seria ja partido. se vijr ho sinal
ante a porta logo se torna. E assi ho estrangeiro pode hy estar dous ou
tres dias. E esta çiguidade e abusam tam grande de reçeber assi os estran-
geiros hc guardada por toda a prouincia de Cayndu de todos. e ysto nom he
teudo por alguü vitupcrio. E esto fazem por hor.rra dos seus deuses. e creem
que por esta benignidade que fazem aos caminhantes mereçeram auer dos
seus dcoses auondança dos fruytos da terra. A moeda tem desta mancyra.
Fazem vcrguas pequenas de ouro sob çcrto peso. e estas despendem por
dinheiro. e segundo ho peso da vcrgua assy he ho preço dclla. c esta hc
a moeda mayor que corre. :\las a menor hc tal. Cot.cm sal em caldeira c
lançam a despois em formas pequenas e coalha. e tal moeda meuda
despendem. E oytenta destes dinheiros meudl>s de sal valem hlla vcrgua
de ouro. Despois dcsto ,·am per dez jornad·ts. c adtam castellllS e ruas
muytas cm aquclle caminho. onde os custumcs cm todallas cousas
como tem a prouincia de Cayndu. :\IIi ha outrosy muyta de       c
li o I 11 'H fJ I·.C   I H)
de aues. L as dt·/ jornadas he a...:hado hul'r ryü a <JUC d1amam Brim •.
onde se a prouincia de Cayndu. no <JUal ryo se acha cm grdndc
4-h v auondança de ouro que he chamado de pa . glola. I-" rihas do ryo
naçc çynamomo muy auondosamcntc. .\cabase este ryo nü mar ocçcarw.
Da prouincia de Caravan1. Capitulo .xxxix.
Como passam ho dito ryo loguo entram em a dita prouincia de
Carayam. cm que ha sete regnus. he sogeita au senhorio do gram Cham.
da qual ho rey he filho de Cublav chamado per nome Essentemur. varom
prudente e furte e poderoso e muy rico que em seu regno guarda muyto
bem a justiça. Os moradores desta terra som ydulatras. proseguindo
mais alem do ryo per çinco jornadas sum achadas muy muytas çidades e
castellus. E naçem em aquclla terra cauallos muy nobres. H a hy proprio
lingoagem mujto graue e difiçel. Despoys das ditas çinco jornadas he
achada a mais principal çidade do regno. a que chamam Jazi. grande c
nobre. onde se tratam muytas n1ercadorias. Alli viuem alguús christaáos
nestorinos. mas poucos. muytos outros que adoram o   Ham
triguo e arroz em grande auondança. mas os homes nom comem pam de
triguo. porque tal pam nom he hy sam. mas fazem pam de arroz. E fazem
beber de desuairadas especias. que faz embebedar mais asinha que ho
Yinho. Em lugar de moeda porçellanas que acham no mar. e
oytenta dellas dam por húa peça de prata que sobe a valor de dous
de Veneza. e oyto daquellas peças de prata sobem a valor de huú sagio de
ouro. Em esta çidade se faz sal de aguas de poços em grande auondança.
de que ho rey ha grandes rendas. Em esta terra os homes som assi dou-
dos. que nenhuú delles nom toma por desprazer se outro se achegua a sua
molher. com tanto que seja primeyro com consentimento della. Em esta
prouincia ha hüa lagoa que tem derrador çem milhas. em que tomam pexes
e muy grandes. Os homcs daquella terra em esta maneyra comem as car-
nes cruas. primeyramente as cortam muyto meudas. e despois as poem em
huú muy nobre sabor ou salmoro feyto de alhos e de muytas nobres espe-
cias. e depoys as comem. assi como antre nos outros comem as carnes
 
17. homes.
DE .\1.\HCO PAUl O
Da prouin(ia de Carayam cm que ha grandes serpentes. -f5. r
Capitulo .:\I.
Dt:puys da partida da çidade de Jazi per Jcz jornadas \ aao pela pro-
uincia de Carayam pcra ourro rcgno. do qual a principal çidade dclla hc
chamada Carayam. onde hc rcy Cogatym filho dei rcy Cublay. Ally adwm
muyto daqucllc ouro a que dizem paglola. ho qual se acha cm os ryos. c
cm outras lagoas e nos montes hc achado outro ouro mais grosso que hc
ho de paglola. c dal}Ucllc dam huü sagio de ouro por scys sagios de prata.
E tem moeda de porçclanas de que ja he dito que trazem de lndi<J. Os homés
daquclla terra som ydolatras. Em esta terra som achadas muj grandes ser-
pentes. c muytas dcllas sum de longura de .x. passos. e dcrcdor cm grosso
tem medida de .x. palmos. e estas som as mayorcs. algüas dcllas tem açerca
da cabeça pernas. c carcçem de pccs. mas cm lugar de pec tem hüa vnha a
maneyra de lyom. c tem a cabeça muy grande. c os oulhos tem tam grandes
como dous paães. A boca tem tam grande que ligeiramente pode cngulir
huü homé. c os dentes tem muy grandes. E por aquella serpente ser assy
espantosa nom aja homé que nom aja medo de cheguar a clla. e as alima-
rias monteses ha temem. A mancyra cm como a tomam os caçadores he tal.
A dita serpente jaz escondida de dia nas grandes lapas sob a terra pola
quentura. e de noyte sahcse e anda buscando alimarias que coma. E
vayse as couas dcllas e lapas onde lyoõcs e Yssos c outras bestas jazem. e
come grandes c pequenas e   que clla pode ad1ar. que nom ha
alimaria que possa soportar sua furia c fortclcza. e dcspois que ha comido
tornasc aa sua propria coua. E porque hc hy a terra sahrcnta. c quando clla
anda polo sabro lançase fortemente sobre cllc csfreguandosc. E porque hc
assy pesada e grossa faz couas grandes no sabro com h o pcyto c \entre.
tanto que pareçe ser vasos grandes cheos de Yinhu que pollo sabro forom
reuoltos. E por ysso os caçadores de dia esguardando bem aqudlo. e chan-
tam por sob ho sabro paaos fortes de hüa parte e da outra polo cham. nas
pontas dos quaes estam fortes espadas daço bem agudas c fortemente pos-
tas. c   despoys cobrem do dito sabro que nom possam ser \"istas da
serpente. E quan I do a serpente de noyte per ahy passa. lançase de pcytos -J.). v
sobre ho sabro c passando por çima do ferro escondido c muy agudo c fe-
rinduse. ou logo morre. ou fica grauemente ferida. E cmtom sohrcucm os
caçadores. e se aynda Yiua a acham matamna de toJo. F cntom tiram-
lhe o fel. ho l}Ual Ycndem por gram preço. porque aproucyta pera muytas
mceLinhas. Que se alguü padeçc mordimento de cam danado. bebendo dclle
huü pouco. s. peso de huü pequeno dinheyro. logo sera c_ompridamente saão.
2. c a pi tolo.- 20. sahemse.- andam. - comam.- 22. he.- 2+ pro pia.- 25. h a.-
27. tano.- 3o. das.- 3I. do dito- 32. pera hy.
l
I lo LII"HO  
1·: a mulher 'Jlle <:!-.tiuer cm door<:s de parto. tümanJo huú pellucno ddlc.
logo hc do parto. 1·: a:IlJUelle que tiu<.:r algúa post<.:ma. se com este
fel ,·ntar ho lugar d:1 infirmiJa.Je s·:ra cm brcuc tempo saraJo. E as carnes
Ja serpente aqucllas \"enJem. porque som boóas pcra comer. c assy folguam
hos homeés muyto de as Cümer. Em esta prouincia nasçcm muyto'i e boós
cauallos. os quaes cauallos dos mercadores som leuados pera a lndia. E
outrosv a tod·>llos cauallos desta terra tiram dous ou tres noüs dos üssos
db rabo. porque cm correndo ho caual!o rabeando nom fira ou derribe ho
caualguante. c tambem que num lançcm ho rabo de húa parte c outra em
quanto corre. que esto tem em aguella terra no cauallo por muyto mao
custume. Os caualleyros desta terra acustumam de trazer os estribos longuos
assy como açerca de nos os Françcscs. Em as guerras acustumam c o i raças
fcytas de dos buffaros. Num menos elles acustumam paueses e tam-
bcm lanças e beestas. e a todallas frechas ou seetas poem henta ou poço-
nha. Amtc gue Cublay ho gram Cham esta prouincia. os homeés
della faziam esta abominauel cousa. Que quando alguú home e!:ltrangeyro
passaua por a terra delles que fosse de boõ pareçer e de boós custumes e
sesudo em as pallauras. e assy mesmo nos feytos. tal se com elles pousaua
matauam ho de noite dizendo. que a prudencia e eloquencia e boõs custu-
mes. e boõa graça. e aynda a sua alma ficauam em aquella casa. polla qual
cousa muytos forom ally matados. Porem ho gram Cham despois que este
regno debayxo do seu senhorio. a esta piedade tam maa e sandiçe de
toda aquclla terra tyrou e de todo fez esqueeçer.
Da prouincia de Ardandan1. Capitulo . xlj .

46, r Quando se partirem da prouíncia de Carayam a çinco jornadas he
achada a prouincia de Ardandam que he sogeyta ao gram Cham. E a mais
nobre çidade deli a h e chamada Y nçiam. Em esta prouincia dam por moeda
ouro a peso. Cada huüa onça ou sagio de ouro dam por çinco onças ou
sa_gios de prata. que nom se acha prata em aquellas terras atee muytas
jornadas. E por tanto vem alli os mercadores que com elles trocam ouro
por prata. e assy guanham muyto. Despendem outrosy porçellanas que tra-
zem da India. Elles comümente comem arroz e carnes. Fazem muv boõa
potagem de arroz e de espeçias aromaticas. Os homees e molheres desta
terra trazem os dentes forrados ou cubertos de ba,-x:o de taaes sotijs chapas
douro. que assy som dispostas que com os dentes som muy nobremente
encaxadas. Todollos homees som guerrcyros. c soomente se ocupam em
9· no.- d.no.-23. fi.t.-31.
I>E .\1 :\HCO I'Al'I.O
cauallaria c em armas c cm l:aças de alimarias c de aucs. 1·. as mulheres tem
cura c cu\'dado de todallas cousas que pertccnçem aa sua fat.cnda. Ellcs tem
seruos coml"r<hios que a cllas ajam de sentir. Em esta prouincia h e custu·
me. que dcspoys que a mulher pare. Jcyxa o seu lcyto ho mais asynha que
pode. c allcuantandosc tem cuydadu da guuernança da casa. E ho marido
dclla lançasc no lcyto c jaz ally per quorcnta dias. c tem cuydado de
pensar ho filho que lhe nasçeo. E a may da criança nom tem outro cuydado
dcllc. saluo de lhe dar ho leytc. Em tanto os amiguos e parentes visitam
ho marido lJUC jaz cm a cama. E dizem que esto fazem porque a molhcr
que traz ho filho c pare. e longuu tempo muyto trabalhou c pcllo qual julguam
ser cousa conucnicntc que clla folgue por quorenta dias da cura do filho.
Empero clla traz de comer ao marido aa cama. F esta prouíncia nom ha
outros ydolus se num que cada hüa família adora ho primcyro padre de lJUC
nasçe. Esto hc aquclle de que todos os outros da mesma família nasçcrum.
:Moram cm lugares de grandes matas. onde ha muy grandes montes c
aruoredos muj grandes. Aa ...1uellcs montes nom Yam homés de outras
terras que nom poderiam hy viucr polia grande çarraçam do aar. I Careçcm
4
r,, ,.
de letras. mas seus contractos e ubriguaçõcs fazem cm talhos de paao. c
cada huú guarda sua metade da talha. c dcspois ajuntadas huüa com a
outra conl:ordam cm os synaes mcudos. Em esta prouinôa c nas outras
duas ante nomeadas .s. Cayndu c Carayam. nom ha tisicos. mas quando
alguú hc enfermo chamam os seus magos ou fcytiçcirus que adoram os
ydolos. aos quaes ho enfermo decrara a sua enfermidade. c cmtom os magos
ordenam hüa dança. e tangem instromcntos de musica aa honrra dos ,·dolos.
' . .
dos quaes fazem grandes cantijgas. c esto fazem tanto tempo atcc que ho
demo fylha huü daqucllcs na dança. e emtum leyxam de dançar c prcgun·
tam aaquellc que jaz demuninhado. porque razom padcçe al}Uellc enfermo.
e que lhe ham de fazer pcra ser saão. E ho demo por suas repostas pelo
dcmoninhado d.it.endo. que por ysso hc aqucllc enfermo. porque otfendco
aquclle ou aqucllc outro dcos. Emtum os fcitiçeiros fazem sua uraçom. que
ho dcos lhe pcrduuc a-1ucllc pecado. prometcndolhe que cllc lhe otfcrcça do
seu proprio sangue cm sacrificio. E se ho demo dcmostra pelos synacs da
infirmidadc que cllc nom pode ser saão. diz que cllc tam graucmente otfen-
dcu aqucllc dcos que nom se pude amansar por ncnhull s a a i f i ~ i o   1-: se de-
mostra que pode escapar. emtum dit.. H c ncçessario que lhe oflcrcça tantos car-
neiros que tenham as cabeças negras. E que lhe faça tantas c tacs bcbcragecs. e
que mande chamar pcra assy tantns magos e tantas fcitiçcyras. per cujas maãos
lhe seja ollcreódu ho sacriticio. c assy scra aqucllc deus amansado. Emtom
os parentes do enfermo todas as cousas que ho demo mandou fazer puoem
cm obra. c matam carneiros c lançam ho sangue dcllcs pcra ho çceo. c
ajuntamsc os ditos feitiçcyros l:Oill suas molhercs. c fat.cm grandes lumici·
... . .... I .
.>:!. prop10 :.anue.- .l/· e1.1-se pcra ssy.
ras. c cnçcnsam tuJa a casa. c fat.em fumo de Jigno alooes. e derramam
pollos aarcs aguas da col'cdura das carnes. c ajnda parte das bcbcragês que
som feitas dcspccias aromaticas. I· emtom turndm outra vez a dançar e
cantar aa honrra du seu ydulo. E dcspois destas etJusac.; preguntam outra
YCZ ao demoninhaJo se hc ja feita satisfaçam ao ydolo per aquellas cousas.
E se hu demo manda que se faça outra cousa. loguo ho seu mandado hc
comprido. E quando d;z que lhe hc feita satisfaçam. AqucJlcs feitiçeyros
47, r iicem a mesa e co i mem as carnes uffercçidas cozidas com grande prazer. e
bebem os beberes que ao ydolo forom oflcreçidos em sacrificio. E acabado
ho comer tornase cada huü pera sua casa. E se aconteçc que per proui-
dcncia de deus que ho enfermo seja saão. aquella cura apropiam ao demo.
ao que os sacriricios forom otfereçidos. Per esta arte he escarneçida sua
çeguidade pelos demonius.
Da gran1 batalha que foy antre os Tartaros e huú rev
de i\Iyen. e da Yictoria dos Tartaros. Capitulo .xlij.
Por azo do regno sobredito de Carayam e do regno de   foy
hüa gram batalha em a regiom ja dita. A qual foy no anno de nosso Senhor
de mill e duzentos e setenta e dous. ho gram Cham mandou huú dos seus
príncipes chamado     com doze mil de cauallo pera a guarda da
prouincia de Carayam. E era ho sobredito :\ascarduy barom prudente e
muyto ardido e os caualleyros que com elle eram. eram outrosy muyto aris-
cados boõs e fortes batalhadores. E os reys .s. de e de Bangala ou-
uindo a sua Yijnda forom espantados. temendo que per yentura Yiria con-
quistar suas terras. e ajuntando seus exerçitus ouuerom antre de cauallo e
de pee atee sasenta mil homês. e alifantes com senhos castellos de pelejar
bem dous mil. E em cada huü castello auiam homês de peleja doze ou
quinze ou .xsj. homês. E Yeeo ho rey de -'lyen com ho sobredito seu exer-
çitu contra a çidade de :'\loçiam onde estaua ho dito e:xerçitu dos Tartaros.
e folgou com seu exerçitu a tres jornadas açerca de :\oçiam. E ouuindo
esto Nescarduy temeose. porque tinha tam pouca gente no seu exerçitu.
empero mostrou que nom temia cousa algüa porque tinha comsigo Yarões
fortes e nobres batalhadores. e sahio lhes em encontro ao caminho em húa
campina da çidade de Noçiam. e alli assentou seu arrayal. e alli açerca de
hüa grJ.m mata em que estauam grandes aruores ordenou suas azes. e por-
que sabia que os alifantes nom poderiam em nenhúa maneira entrar em
aquelle aruoredo da mata. mas o rey de -'lyen Yeo pera entrar no seu e:"<..er-
J>E PAUl O
çito e os Tartaros com grande audacia I vicrom a cllcs cm cuntro. E quando 47, v
os cauallos dos Tartaros '')TOm aos alifantcs yuc eram postos cm a primcyra
a1. com seus castcllos ouuerom tam grande temor e espanto dos alifantcs
que nunca por força desporas nem per engenho os que vinham em çyma
dcllcs os pudcrom fazer cheguar a ellcs. E cmtom dcçcrom todos dos caual-
los e prendcromnos aas aruores da mata. e tornandose assy de pee contra
a az dos alifantcs começarom de lançar cm clles scctas continuadamcnte. E
aquclles que estauam em hos castcllos dos alifantes pelejauam contra ellcs
quanto podiam. mas os Tartaros eram mais fortes e mais valentes que os
outros e mais acustumados a pelejar. E porque assy eram peados geeral-
mentc fcrirom grauementc a multidom dos alifantes com as seetas. pola
yual cousa os alifantes começarom de fugir. assy que cntrarom todos com
arrebatado correr cm a mata que estaua açerca. nem os podendo retecr dos
seus regidorcs que nom entrassem em aquella mata c se num embrenhas-
sem cm ella. Som elles assy espalhados huüs dos outros por húa parte c
pcra a outra. assi que todos os castellos de madeira que leuauam forom
quebrados cm as aruores da mata. porque as aruores eram longuas e es-
pessas. \. cendo csto os Tartaros foromsc per a seus cauallus c subyrom
cm clles. dcyxarom os alifantcs e dcrum os de cauallu cm a a7 dei rc\'.
aa qual auia tomado nom pequeno temor. porque \')Ta a az dos alifantcs
dcstruyda. E foy aquella peleja cruel c mortal muyto. E despoys que cada
huü dos excrçnus guastou todo ho almazcm de todas suas scctas. \'Íerom
aas espadas com que rijamente pelcjauam. I· forom de hüa parte e da
outra muytos mortos e feridos. empero ho rey de "lyen começou de fugir
com os seus. os quaes seguindo os Tartaros matauam muytos daquclles
que fugiam. F dcs que forom Jc todo ,-ençidos. tornaromsc os Tartarus
aa mata pera filhar os alifantes. mas nom poderom algüs ddles tomar.
empero com ajuda de algüs jmijgos ouueram atce duzentos e dcsy
foromse com clles.   desta batalha em diante ho gram Cham tcer
alifantcs nos seus cxerçitus l}UC ante disto os nom auia. E Jcspoys ho gram
Cham ganhou todas as terras dei rey de e as sojuguu a seu senhorio.
De húa terra 1110ntanhosa c da de '1Yen. 41), r
Capitulo .xliij.
Despoys da partida da prouincia de Caravam hc achada húa muy
grande desçida porque deçem Jous dias e mco. onde nom
ha puuoraçom algúa. mas ha hy hüa longua e largua campina. na l}Ual tres
1-f.-   - 1 i. em os aruures.- :q .. ourro.-
......
dias na somana se ajunta muyta gente a feira com mercadorias. que deçcm
mujtos das grandes montanhas daquclla terra. c trat.em ouro que trocdm
por prata. c dam hlla onça de ouro por çinco de prata. muytos mercadores
se ajuntam a IIi de outras terras com prata. mas aos montes onde aqucllcs
por sua seguridade moram. nom pode alguú estrangeiro hir. porque
lugares som muy altos e de grandes aruoredos. e por ysso nom pode
saber dellcs onde seja sua morada. Despois dcsto he achada a prouincia de
-i\ll yen que hc açerca da ln dia contra a parte do meu dia. pela qual ,·am
per .xv. dias per lugares montanhosos e de matas. onde som mujtos alifan-
tes e vnicornios. e outras bestas feras sem conto. e num ha hi pouoraçam
algüa.
Da çidadc de Myen c do frcmoso sepulcro do rcy dclla.
Capitulo .xliiij.
Acabadas aquellas .xv. jornadas he achada a çidade a que dizem  
grande e muy nobre que he cabeça do regno. e he sogeita ao gram Cham.
Os moradores della tem propria lingoagem e som ydolatras. Em esta çidade
foy huü rey muy rico. ho qual morrendo mandou que lhe fizessem huú
sepulcro per esta maneira. em cada canto do moimento mandou fazer húa
torre de marmore de altura de .x. passos. e a grossura della era segundo a
proporçam que sua altura requeria. e em toda çima era redonda. húa
daquellas torres era de todas as partes cuberta douro. e a grossura de ouro
era de huú dedo. E sobre a ponta da torre estauam muytas campainhas
douro que soauam quando lhes daua ho vento. e a outra torre per esta
mesma maneyra e forma foy cuberta de prata. a qual bem assi tinha
campainhas de prata. E este sepulcro mandou fazer a honrra da sua alma.
e por nom pereçer a sua memoria. E em huú dia forom achados na corte
do gram Cham jograes e tangedores e mornos em muj grande multidom. e
48, v chamandoos ! elrey disselhes. Eu quero que com huú duque que vos darey.
e com outro exerçitu que vos ajuntarey me conquistes a prouincia de
l\lien. E elles se offerecerom a todo mandado e obediencia dei reY. forom-
, .
se segundo lhes elle mandou. e conquistaram a prouin.:ia de   e sojuga-
romna a seu senhorio. E quando cheguarom ao dito sepulcro nom presumi-
ram de ho destruyr. se nom que primeiro requerissem ho consentimento do
gram Cham. ho qual ouuindo que aquelle rey fizera aquello por honrra de
sua alma. mandou que aquelle sepulcro nom fosse toca,io. porque custurr.e
he dos Tartaros nom destruyr aquellas cousas que pertençem aos finados.
16. propia.- 20. da su3..- todo.- 3t. pronincia.
DE :\l.-\RCO P.-\LI.O
Em esta prouincia h a ali fantes muytos. grandes e fremosos. boys monteses.
çeruos c outras animalias de munas c diucrsas   cm grande
moltidon.
Da prouincia de Bangala. Capitulo .}.h·.
Bangala hc hüa prouincia que jaz contra ho meco dia açcrca da India.
a qual ho gram Cham ajnda nom sojugara. E quando eu !\larco era cm a
sua corte. mandou clle seus cxcrçitus per a a conquistarem. H a nclla rcy c
proprio lingoagcm. E todos desta terra e prouincia som ydolatras. e man-
tcmsc de carnes e de arroz e de leytc. H a hy algodom cm muy grande
auondança de que se fa/.em muy grandes mercadorias. E auondam de
espiquc e galangua. gingibre c açucJ.r e muytas aromaticas espeçias. ha hi
boys muy grandes que som yguacs aos alifantes em a altura c nom cm
a grossura. Em esta prouincia se vendem muytos homcs aos mercadores
dos quaes mujtos som capados. os quacs dcspois a grandes senhores som
lcuados pcra desuayradas prouincias.
Da prouincia de Canguiguy. Capitulo .xh·j.
Dcspois hc achada a prouincia de Canguiguy contra a parte do oriente
que tem rcy proprio c propria linguoagcm. Ho pouoo della hc ydolatra. e
tributaria ao gram Cham. Ho rey desta prouincia tem mulheres ate<.· trezen-
tas. Em esta pruuincia acham ouro cm grande auondança. c muytas cspcçias
aromaticas. mas I poucas mercadorias se fazem cousas. porque aquclla 49, r
terra h c muyto alongada do mar. A IIi ha muytos alifantes. e grandes caças
de animalias. Os humcs desta prouincia se mantem em carnes lcyte c arroz.
Careçem de vinhas. mas fazem delicados beberes de arroz e despecias
aromaticas. Os humes c mulheres daquella prouincia pintam com hüa
agulha suas façcs e os collos c as maáos c os ventres c as pernas. e fazem
ymagecs de lyões e de dragoõcs c de aues mu\· sotdmcntc. as quacs som
assi firmes na pelle que nunca se pode tirar. E hu que tem destas ymagecs
mats he auido por mais fremuso.
3. capitolo.- S. propio.
l
11 o 1 mun  
Da prouincia de Amu. Capitulo .xh·ij.
1\mu lu: ltüa prouincia que esta contra a parte do oriente. a qual hc
sogeyta ao gram Cham. Us lwmcês Jclla som ydolatras. c tem linguuagcm
propria. c tem muytos guados. c auondança de mantijmcntus. ! cm outrusy
{l1Liytos c fremosos cauallos que lcuam os mercadores a lndia. E ha muytus
bufaros e bvys c vacas em grande auondança. porque us pasçercs hy
muy boós. Os homés e mulheres tra1.em nos braços manilhas douro e de
prata de grande \·alor.
Da prouin(ia Je Coloman. Capitulo .xh-iij.
Despois da partida de Amu contra a parte do oriente a oyto jornadas
esta a prouincia de Coloman. que he sogeita ao gram Cham. e tem propria
lingoagem. e adoram os ydolos. Alli som as homés frtmosos e as molheres
de fremoso corpo. empero som de baça coor. Ha hy muytas çidades e
castellos. e montes grandes e asperos. Os homes som em armas ardidos
boõs. Queymam os corpos dos seus mortos. e os ossos pooem em huúa
caxa de paao. e escondemna nas lapas dos montes. onde nom possa ser
tocada de home nem de besta. Ha hy ouro em grande auondança. e ham
porçelanas da India de que em çima foy ja feita mençam. e estas despendem
em lugar de moeda pequena.
Da prou1ncia de Cinguy e çidade de Sufulgu. Capitulo
.:xlix.
Despois da prouincia de Coloman he achada a prouincia de Cinguy
contra ho oriente. e vam per sobre huú ryo doze jornadas. onde som muy-
tas çidades e castellos. Despois desto he achada a çidade de Sufulgu grande
e nobre. Esta terra he sogeita ao gram Cham. Os hon1es da terra som
ydolatras. Em esta regiom fazem pannos muy fremosos de touas daruores
de que se Yestem no \'erão. Os homes som ardidos em armas e fortes. Em
esta prouincia ha tanta multidom de liões que de noyte nom ousa alguú
sayr fora da casa. porque os lyões comem a quantos acham. Nem os nauios
que leuam pelo ryo nom os atam na ribeira pelo medo dos lyões. mas
estam no meo do ryo porque de noyte entram as vezes os lyões em os
capitolo.- 18. Indi:1.- estes.- 20. çidade Sufulgu.
f)E 1\lARCO PACLO
  que estam junto da terra e matam os que alli ad1am. E ajnda que
os lyóes desta terra sejam grandes c muyto brauos. tambem se a(ham óics
tam audazes e fortes que nom reçeam de pelejar (om os lyóes. empero he
neçessario que sejam dous (aáes juntamente (Om huú homc. E se alguú
homé valente em cauallo · for per (aminho trazendo (Onsiguo dous (aáes
grandes logo pode matar huú lyom como aconteçe muytas ,.eles. Ca quando
parcçe alguú lyom logo os caáes correm pos clle. ladrando muyto seguin-
doas ho homé do cauallo com seu ar(o. e Iugo mordendo os (aães ao lyom
cm as partes traleras. se vira logo ho Iyom (ontra elles. ho qual os cães
conhecendo fugcm c se guardam que lhes nom pode faler mal. cmtom ho
lyom torna outra vez seguir seu caminho. e logo os   ho tornam perse-
guir ladrando e mordendo. E ho lyom reçca c se teme do ladrar que pela
ventura num ,·enham outros caães ou homés cm ajuda destes outros contra
elle. c por esto se vira pera ellcs. E quando elle acha ou vee algüa aruore
grande se assenta ao pee della. porque por detras nom pode ser mordido e
vira o rosto pera os ca<ics. c ho humeé que esta no cauallo nom çessa de tirar
do seu arco. por ysso muytas vezes aconteçe que ho lyom fica muj mal
ferido. que tanto oulha pera os cães a se guardar dellcs que hu homé liure-
mentc pode tirar pera elle. e assi matam ao lyom. Esta prouinda ha
abastança de strguo. e pelo sobrcdito rvo som tralidas grandes c ricas
mercadorias.
Das çidadcs de Cacanfu Cyanglu c Cyangli. Capitulo .l. 5o, r
Dcspoys que se apartam da prouincia de Cinguy per quatro Jornadas
som achadas çidades muytas e muytos castellos. E dcspuis daquellas quatro
jornadas he achada a nobre çidadc de l.acanfu. que pertcnçe ·aa prouincia
de Cathay. e hc a parte do me o dia. onde h a syrgo em muy grande auon-
dança. onde fazem muytos pannos de ouro e de syrgo. e lenços dclguados
em grande auondança. Desta çidaJc contra ho meo dta hyndo per tres dias
he achada a çidadc muy grande de Cyanglu que he tambem na prouincia Jc
Cathay. onde fazem sal cm muy grande auondança. porque hy ha huüa terra
muy salguada de que fazem montes pequenos. sobre os quacs lançam
agua que escorre do sopcc do monte. e fazem ferucr aquclla agua per grande
espaaço cm huú grande caldcrom. c dcspois congclase. c assy se faz cm sal
mcudo e branco. F fora da çidadc de Cyanglu a çinco jornadas esta a çidadc
de Ciangly. per meo da qual passa huü gram n·o. pelo quJ.l naueguam
muytos nauios com muytas mercadorias.
l:.!. capitolo.- 2+ Jaqucllcs.
5o. v
Das çidadcs de Candinfu c Singuimatu. Capitulo .lj.
Ja çidaJc Jc Cianglu per sey"' jornadas pcra meo dia esta a
  granLle Je CanJinfu. que soya tcer rcy que fosse !-logcyta ao
gram Cham. E tem sob sua jurdiçam .xj. çidades nas quaacs todas hc1 tos
pomar cs. c h a hy auondança Jc fruytos c de .. \jnda mais contra ho
?neo dia a tres jornadas esta a nobre çidadc de Singuimatu. per a qual deçe
da do mco dia huü r) o grande que hc partido pelos moradores da
terra cm duas partes. das quacs h lia \'ay per a oriente per a \langy. e a outra
per a OLÇidente per a Cathay. per estes ryos passam nauios sem conto com
mcr(adorias infijndas. E de Singuimatu hindo contra o mco dia per .xvj.
jornadas a(ham continua..:iamcnte çidades e castellos em que se fazem grandes
feiras de mcr(ançias. Todos os moradores daguella terra som ydolatras. c
toda aquclla terra he sugcita ao gram Cham.
De huú grande ryo chan1ado Coron1oran1. e das çidadcs
de Coyguan1. e de Cayguy. Capitulo .lij.
Às sobrcditas .x.\·j. jornadas a(abaJas. a(ham ho grande ryo a que
Lhamam Coromoram. que (orrc das terras daquelle rey. a que chamam
Preste Joham. e he em larguo espaço de hlia milha. e a profundeza delle he
tanta. que as naaos grandes (0111 as suas Larreguas liuremente passam por
ellc. Tomam em elle pexes em grande abastança. Em este ryo a hüa jornada
açer(a do mar OLÇCano estam naaos per (Onto quinze mill. as quaes hy tem
ho gram Cham pera serem prestes quando (Omprir pera leuarcm seus exer-
çitus aas ylhas do mar. E som assy grandes que cada hüa dellas pode leuar
quinze cauallos LOI1l seus (aualguantes e mantijmentos neçessarios pera os
(auallos e gentes e marinheiros. que som em cada nauio çento e .xx. Os
luguares em que se estes nauios guardam som duas çidades. hüa dellas que
hc grande. he posta sobre a ryba do ryo. e a outra que he pequena. esta da
outra parte do ryo. Loguo se mostra a entrada pera muy nobre prouincia
de l\Iangy. cuja magnifiLençia marauilhosa se mostrara em os Lapitulos
scgumtes.
t. capitolo. - 12. mcrcantias
HE :\ l.-\HCO PAC LO
Da muy nobre prouincia de   c prin1C)Tamcntc
da piedade c justiça do rey della. Capitulo .liij.
Em a gram pruuinda de fuy huü rey a que chamarom Farfur.
poderoso c rico muyto. nem era achado cm seu tempo outro príncipe mayor
que ellc. tirando ho gram Cham. Ho seu rcgno era muj forte e auido por
regno que nom podia conquistar nem presumir de hyr contra clle. E por
ysso ho rcy c ho puuoo do regno nom tinha     de exerçitus de armas
nem de batalhas. E caJa hüa çidade deste regno foy çercada de altas couas
cheas de aguoa. c a largura dellas era quanto huü arco pode tyrar. e num
·I tinham cauailos. porque nom temiam alguem. E por csto el rey nom se 5
1
• r
ocupaua se num cm ,-iuer deleitosamente. na sua corte teuc donzccs e
donzcllas atec mill. e viuia muy honrradamente. Este amaua paz e justiça e
miscricorJia. que çertamentc em todo seu regnu era grande   Nenhuü
uusaua enjuriar outro seu proximo. por lJUe ho rey em todos guardaua
justiça. quer granJe quer pequeno. ,·czes as tendas dos otliciaes
eram Iey\.adas abertas nas noites. c nom era alguü que ousasse entrar cm
cllas nem lhe fazer dano. Todos os caminhantes que algüa cousa traziam
seguros andauam c Iiuremcnte de noytc c de dia per todo ho rcgno sem
rcçebcrcm enjuria. Era outrosy el rey piadoso c misericordioso aos pobres
todos. c a todollos que constrangia alF.uÚa mingua ou ncçcssidadc. c fazia
apanhar cada anno os moços engcytados de suas maJrcs atec .xx. mill. os
quaes fai'ia muy bem criar a sua custa. que cm aqudlas terras as mulheres
proucs cngcitam os proprios filhos. lJUe os tomem os outros. se os ellas
nom podem criar. E aquellcs moços que cl rey fazia apanhar repartia os
pollos ricos Jo regno que num tinham tilhos. que os reçcbesscm por filhos
adoptiuos. ou depois que aqucllcs moços crcçiam ajuntauam os per casa-
mento com as moças engeitadas. c partia com elles auundosamcnte.
De como Bavan prin(Ípe do c:xcrçitu do gran1 Chan1
pen:alçou a prouincia de :\langy c ha so1ugou a seu se-
nhorio. Capitulo .liiij.
No anno de nosso senhor Jhesu Christo de mill c duzentos .lx ,·iij. h o
gram Cham Cublay em esta maneyra sojugou ho regno de 'langy sob seu
senhorio. a huú dos seus príncipes chamado· Bayam dlinsa. que
:!. capirnlo -ti. lei.1-se se nom.- 23. pmpios. - 3o. capitulo.
ffo I.IUHO  
quer Ji1cr cm nossa lingoa Bayam de çcm c0mu Bayam que
tem çcm olhos. ao qual assynou muj grande cxcrçitu de cauallo c de pce.
c gram multi dom de na aos. per a que a prouincia de \langy.
J•.ste quando chegou aa dita prouincia. primeiramente rcquereo aos mora-
dores da primeira çidadc a que chamam Coyganguy que übedcçesscm a
•• v seu rcy. I E ellcs nom querendo obcdcçcr. ellc sem outro e<Jmbate que fi-
zesse sobre cllcs partio pcra outra çidadc. a qual por esta mesma maneira
emtom se foy aa terçcira c dcsy aa quarta c aa quinta.
c de todas reçebco semelhante resposta. pero ellc nom temia lcixar atras
sy as çidades suas contraíras c hir adiante. porque seu exerçitu era
grande c muy boõ. que tinha consygo homês nobres e muy ardidos guer-
reiros. E ho gram Cham lhe mandou ajnda outro exerçitu de pus ellc.
E despois se foy aa seista çidade. c com gram potençia e força darmas ha
tilhou. e assy hindo mais auante. em breue tempo conquistou doze çida-
dcs. emtom tremerom e ouuerom grande temor os corações dos varões
de .:\langy. E Bayan cheguou aa çidade real e muy grande chamada
Quinsay. e ali i ordenou seu arraial açerca deli a .. Mas el rey de 'langy que
alli estaua com sua corte. ouuindo a virilidade e forteleza dos Tartaros. ouuc
muy grande temor. e entrou em húa naao com muy grande companhia.
e passouse a húas ylhas que se nom podem conquistar. leuando comsiguo
naaos atee mill. e lcyxou a çidade de Quinsay em guarda da raynha com
grande exerçitu. l\las a raynha auendose sagesmente em todas as cousas
que pertençiam a defensom da sua terra. e diligentemente se occupaua com
seus baroões. E quando ouuio que ·ho principe do exerçitu dos Tartaros
era chamado Bayam chinsa. que quer dizer çem olhos. desfalleçeo toda
sua virtude e esmoreçeo. porque a seus astrologos e feitiçeiros ouuira d:zer.
que a çidade de Quinsay nunca podia ser conquistada de alguú. se nom
daquelle que tiuesse çem olhos. E porque a todos pareçia ser cousa impos-
siuel que em alguú tempo home tiuesse çem olhos. por ysso nom temia a
nenhuú. viuendo em paçifica paz. E por ysso ella mandou chamar Bayam
ho príncipe do exerçitu dos Tartaros. des que conheçeo ho seu sobrenome.
e liuremente obedeçeolhe. prometendo e offereçendolhe ho regno e a çidade.
E quando esto assy ouuirom todallas çidades do regno de vierom
ao mandado do gram Cham. a fora a çidade de Cianfu. que per tres annos
nom quis obedeçer. mas a raynha se foy aa corte do gram Cham. do qual
foy com muj grande honrra reçebida. E el rey Farfur seu marido que pera
as ylhas fugira. nunca dellas quis partir em sua vida e ally morreo.
7· para.- 23. pertençia.- 29. timia.- 31. sen.

OE .\1 \RCO PAU.()
Da çidadc de Coyganguy que hc a pnn1cyra en1 a 52. r
prouincia de .\langy. Capitulo .h-.
A primeira çidade que acham os que entram em a prouincia de :\langy
h e chamada Coyganguy. a qual h e grande c nobre e de grandes riquezas. e
ha hy naaos em grande multidom. porque esta sobre ho rio de Curomoram.
Ahy se faz sal cm tanta auundança que abasta a .xl. çidadcs. de que ho rcy
ha grandes rendas. c ysso mesmo das mercadorias e do porto da ç=dadc.
Todolos moradores desta çidadc e de toda a pruuincia de som
latras. e qucymam os corpus dos mortos.
Oas çidadcs de Panchi c Can11. Capitulo .h·j.
A cabo de hüa jornada alem da çidadc Coyganguy he achada a çidadc
de Panchi grande e muj nobre. em que se   muy grandes mercadorias.
E ha hy muy grande auondança de mantijmcntos e de syrgo. Em esta çidadc
e em toda aquella prouincia se despende a moeda do gram Cham. E ho
caminho per que vam da çidade de Coyganguy a esta çidade de Panchi hc
todo calçado de fremosas pedras. E de hüa parte e outra desta calçada he
muy grande agua. Nem se dcmostra per outra parte caminho per onde pos-
sam entrar nem hir a prouincia de per terra. se nom per este cami-
nho. E na fim da outra jornada esta a ç.idadc de Caym onde ha pexcs cm
grande auondança. Alli som grandes caças de bestas c de aues. Som alli
tantos faysaães que por tanta prata quanta tem huü dinheiro de Yeneza dam
tres boõs faysaães.
Oas cidades de C)'I1
11
UY c Yan"UY en1 l]lle   naulo
t'. t'. t
era regedor. Capitulo .h·ij.
Dcspois desto \·am per hüa jornada. c pclu caminho villas c
muy nobres lauuiras de terras. c cm fim da Jornada esta a çidaJe de Cynguy
a qual nom he grande. mas de mantijmentos tem abastança. Tem outrosy
naaos muy mujtas. que estam açerca do I mar ucçeano a trcs jornadas. Em S2, v
todo aquelle espaço som muytas salinas. c no cabo daqucllas salinas esta
hüa grande çidadc a que chamam Cinguy. E contra a parte de sueste per
hüa jornada vam per muy frcmosa terra. e acabada a jornada he achada a
2. capitolo. - 38. esta.
53. r
I I o r HJHo sJ·:c;vsno
nobre çidade de \ anguy. sob cuja jurdiçdm som çidadc:s per conto .xxvij.
de grandes mercadorias. E cu por mandaJo do gram Cham tiue cm
esta çidade carrcguo de regedor.
De como a çidadc de Syanfu foy tomada com enge-
nhos. Capitulo .lviij.
A a parte do oriente h a húa terra em a prouincia de   que h e
chamada l\ ainguy rica c fremosa muyto. onde: h a pannos de: ouro e de S) rgo.
uutrusy ha auondança de pam c de tudollos mantijmentos. Alli he achada a
çidade de Syanfu. que tem sob seu senhorio .xij. çidades. Esta çidadc esteue
per trcs annos reucll. nos quaes nom pode ser tomada do exerç;tu dos Tar-
taros. quando foy sobjuguada a prouincia de   que nom se pode ante
ella pousar ho arraial. se nom contra a parte do aguyam. porque de todallas
outras partes estam laguoas tam profundas. pelas quaes podiam a ella che-
guar nauios e assi nom podiam auer desfalleçimento dt> mantijmentos. A qual
cousa ouuindo ho rey Cham foy muyto nujado. E acunteçeo em a-l_uelle tempo
que dom Nicolao meu padre e seu jrmaáo e eu com elles.
eram os em :1 corte del rey. e todos a cl Rey. e offereçemonos a
elle de lhe fazer engenhos com os quaaes se tomaria 8. çidade. que em todas
aquellas terras nom sabiam parte nem acustumauam taes engenhos. E nos
tínhamos comnosco ferreiros e carpenteiros christaãos que fizerom tres muy
nobres engenhos que cada huú lançaua pedra de trezentas liuras. E postos
os engenhos em os nauios. mandou os el rey a seu exerçitu. E quando forom
leuantados ante a çidade de Syanfu. a primeira pedra que ho engenho lan-
çou dentro em a çidade foy cair sobre húa casa e derribou grande parte
della. E esto vcendo os Tartaros que eram no arraial espantaromse muyto.
e os que eram dentro na çidade auendo muy grande temor. temendo que a
çidade seria destroida com taes engenhos e elles seriam mortos pollos Tar-
  logo se vierom a obediencia do gram Cham.
Da çidade de Singuy. c do ryo grande chan1ado Quyan.
e da n1uy grande n1ultidon1 dos nauios que hy som.
Capitulo .lix.
Despoys da partida da çidade de Syanfu per .x,·. milhas contra ho sueste.
esta a çidade de Singuy nom muyto grande. mas tem naos em muy grande
5. capitolo.- 12. paryuc.
J>E ..\lAHCO P \U O
multidom. que esta posta sobre ho mais grande r) o que ha no mundo. ao
qual chamam Quyan. ho <..Jual ha cm andw dez milhas. e em alguüs lugares
oyto. c em outro . Yj. e h a mais de çem jornadas cm longuo. Em este ryo
per· conto ha ma;s naues que em tudo mar e ryos de çidades. e mais mer-
cadorias preçiosas trazem por elle que per todallas terras çercanas daquem
mar que em todos seus nauios podem ser trazidas. Que eu vy em ho
porto desta çidade de Singuy naus da dita çidade bem çinco mil. que
naueguam per este ryo. E cada húa das çidadcs que estam sobre este ryo
tem mais r:tauios que a çidadc de Singuy. porque som maiores. E estam sobre
aquclle ryo bem du1cntus pouco mais ou menos. E passa hu ryu per termos
de .xvj. pro,·incias. Todas as naos grandes daquellas terras som feitas de
hlia cuberta. nem tem a naao se nom huü masto pera ho treu .. \ carregua
da naao chcgua muytas vezes a peso de quatro mill cantaros. Empero alguüas
lcuam peso de doze mil cantaros. tomando ho cantaro segundo a mancyra
das naaos de Yeneza. E assy a carregua das naaos he antre quatro mill e
doze mill cantaros. antre os ditos contos ou minguando segundo
a grandeza da naao. Nom husam cordas de linho akancme. se nom pera
gúarniçom da naao e pera ho trcu della. mas fazem cordas de canas.
de que he fcyta mcnçam. que tem quinze passos em longuo. e com
estas cordas tiram as vezes as naaos pelo ryo. Ca cortam as c;.mas. e as
cortaduras atam em huü huüas com as outras. c fazem cordas muno lon-
guas. que alguüas tem longura de trezentos passos. e som mais fortes que
as cordas de linho akaneme.
Da çidadc de C.aygui. Capitulo .h.
Cayguy he hüa çidade pequena sobre ho dito ryo contra a parte de
syrodw que he ho sueste. em que todollos annos se faz grande colheita de
triguo e de arroz pera despoys dalli leuar ao gram Cham pera a çidade de
Cambalu. que passam deste lugar aa prouincia de Cathay per ryos e lagoas.
que ho gram Cham mandou fazer cauas grandes e muytas em muytos lugua-
res que possam passar as naaos deste luguar de huú ryo cm outro e chcguar
a a prouincia de Cathay. E pur terra podem hyr de a prouincia de
Catha\·. Mas a corte do gram Cham pela mayor parte ha grande auondança
de pam. de aquclle que se apanha no porto da çidadc de Cayguy. E ante
da çidade de Cayguy ha huüa ylha onde esta huü moestcyro de monjcs que
serucm os ydolos que ahy muytos ydolos. l· em moeste)TO
'iuem monjes ydolatras açerca de duzentos e mais.   aquelle moesteyro he
cabeça e regra de muytos moesteyros cm que sentem aos ydolos.
1J. alguüs.- 12. alcanemo. - :n. alguüs.
53, v
ffo I JI"HO  
Da Je C i ngianfu. Capitulo .lxj.
Cingianfu he hüa çidaJe d..t pruuincia de '1angy. em que faLem
muytas obras de ouro e de sirguo . .Ally duas ygrcias de chr"staãos
ncstorinos. as quaes edificou ho :sturino. ho qual pcrcalçou do
gram ( :ltam ho bispado cm aquela çidadc. no annu de Christu de mill.cc.lxxviij.
(\'!ln OS.
Da çidadc de Chinchiguy. c de como foron1 matados
todolos çidadãos dclla. Capitulo .lxij.
Despois da partida da çidade de Cingianfu vam pera ho sueste duas
jornadas. e som achadas no caminho çidades e castellos de grandes merca-
dorias e officiaes mechanicos. e despois alem tres jornadas esta a çidade de
S4, r Chinchiguy. muy nobre e grande. em I que ha grande auondança de todollos
mantijmentos. Quando Bayam prinçipe do exerçitu do gram Cham mandaua
sua hoste a conquistar e sojuguar as çidades de -'langy. mandou a esta
çidade de Chinchiguy muytos christaáos que eram chamados Alarios. e
combatendo elles fortemente a çidade. e os que estauam em a çidade eram
por força vençidos daquelles que os combatiam. lhes derom liuremente a
çidade. e todo ho exerçitu entrou paçificamente em a çidade. nom fazendo
ma:s dano alguü. porque prometeram liuremente obedeçer aos mandados do
gram Cham. l\Ias os ditos Alarios que vençerom a çidade acharom nella
muy nobre Yinho e em grande auondança de que beberom tam. sobejamente
que todos se embebedaram. E a noyte agrauados do ,-inho e vençidos de
grande sono dormirom todos juntamente e nom fizerom guarda alguúa em
a çidade. E esto veendo aquelles que os em paz reçeberom. derom sobre
elles que dormiam e juntamente todos matarom que nom escapou alguú
delles .. Mas Bayam ouuindo esto mandou contra elles grande exerçitu. e
tomada a çidade per torça. mandou que todollos çidadaáos com suas pro-
prias espadas fossem matados em signal de vingança de tal trayçam e infiel-
Jade. a qual cousa foy assy feyta como elle mandou.
Da nobre çidade de Cinguy. Capitulo .lxiij.
Cinguy he huüa çidade muy nobre. cujo çerco tem em redor quorenta
milhas. E ha em ella muj grande multidom de pouoo. E bem assi he
J. capitolo.- 8. opitolo.
DE MAHCO PAl'I.O
pouoada a prouinl:ia de   que se ho pouou fosse csfor'Yado em armas
poderia conquistar c vcnçcr todo ho mundo. mas ha hy mercadores e
ofliciacs mechanicos muytos. c muytos philosophos e tlsicos ha antre elles.
Em esta cidade ha muytas pontes de pedra. a'Yerca de scys mil!. F som de
tanta altura que por sob cada húa dellas liuremcnte podem passar galees.
E aynda por sob muytas dcllas podem juntamente passar duas galees. 1\o
monte desta çida.:lc nace rcubarbo e gingibre em tanta multidom. que por
huú real de prata de Veneza aueram .lxxx. liuras de fino gingibre. E esta
çidade tem de sua jurdiçam .xvj. çidades I de grandes mercadorias e ofliçiacs. 5-t-. v
Os çidadaãos de Singuy Ycstcm pela mayor parte sirgo. ca alli fazem
nmytos pannos de syrguo. E esta çidadc he chamada Synguy. que quer
dizer çidade da terra. mas outra çidade muy grande he chamada Quinsay.
que quer dizer çidade do çeco. E som assy ditas porque som no oriente
muy nobres çidades.
Da n1uv nobre c marauilhosa \idade de Quinsay. Ca-
pitulo .lxiiij.
Despoys da partida da çidadc de Singuy. andam per cinl:o jorna-
das e acham çidades mujtas e grandes em que se tractam grandes mer-
ctdorias. e despoys chcguam a muy nobre çidade de Quinsay. que quer
dizer em nossa língua çidade do çeeo. A qual hc a mayor çidade de todo ho
mundo. e he em a prouincia de a mais principal. Eu .\larco foy em
esta çidadc. e com grande cuydado e diliscncia preguntcy pelas l:ondiçóes e
custumes della. os quaes em soma cu breuemente contarey assy como as
achey. Ho çerco desta çidade tem derrador çcm milhas. e tem doze mill
pontes de pedra. c som de tanta altura que hüa grande naao por a mayor
parte per sob ellas pode pas-.ar. E esta çidade esta sytuada cm hüa lagoa.
assi como a çidade de Y cneza. e se nom tiuesse pontes nom poderiam h ir
por terra de hüa rua pera outra. e por tanto hc neçessario de serem alli
tantas mill pontes. Em esta çidade ha doze artes mcchanicas as mais princi-
paes. e pera cada hüa dcllas ha em a doze mil tendas. em que os
otficiaes dos mesteres obram. e em cada hüa destas tendas som antre mes-
tres e obreiros .xv. ou .xx. e som em algüas dellas .xl. E tanta e tam grande
hc a multidum de mercadores e oflil:iaes mechanicos que som sem conto.
assi que aquelles que ho num Yirom pareçerlhes ser cousa impossiucl e de
num creer. E assi os homês em esta çidade Yiucm deleytosamcnte. E os ricos
que som prinçipacs cm as tendas dos seus of11cios viuem honrradamcntc.
que ellcs e suas mulheres nom obram per suas maãos. que fazem obrar os
-t-· muyros.- 29. tantos.
seus obreiros <.IliC hc orJcna..;am J., rcgnu c hy a.:u ... turnado antijAUO
55, r tempo. que caJa ltuü cm sua casa tenha I tenda c ofliciu que ho ti-
nha antes seu paJrc. porem se hc rico num he que trabalhe por
suas proprias mãos. Em csla çiJaJc som as molhcrcs muyto c
criaJas cm muytos viços c Jele:tes. Em esta çiJade contra ho mco dia esta
huü lago granJc que tem dcrrador .xxx.. milhas. Em este circuitu so-
bre ho lago muytos paaços e muytas casas grandes de nobres. e de dentro c
de fora marauilhosamcnte guarnidas. E ha hy ygrejas de ydolos. :\a mectade
deste la_jUO estam duas ylhas pequenas. e cm cada húa dcll.ts esta huú paaço
frcmoso e muito nobre. onde estam todolos currigimentos c alfayas que
compre pera vodas ou solenne conuite. que se alguú quer teer em alguú
lugar solenne conuite vaysc alli. e hy pode teer seu cunuite ou Yodas com
sua honrra. Aynda que na çiJade de Quinsay ha muytas e muy fremosas casas
pcllas ruas desta çidade. som nom menos pera ho comum proueyto edifi-
cadas torres de pedra pera quando ho fogo per ventura se açende. possam
os cidaJaãos poer suas cousas nas sobreditas torres que nom arçam. por-
que na çidade ha muytas casas de madeyra. e muytas ,·ezcs se açende hy
fogo. Em esta çidade adoram os ydolos. e comem carnes de cauallos e
de todas alimarias. despendese hy a moeda do gram Cham. Em esta çi-
dade se faz muy grande guarda per mandado do gram Cham. por tal que
nom presuma de reuellar ou por se nom fazerem hi furtos ou homicídios. e
por esto em cada ponte desta çidadc estam quatro guardas de dia e de noyte.
Em esta çidade esta huú monte. e sobre elle esta húa torre. e sobre a
torre estam tauoas. E quando se açende fogo na Yilla. se as guardas da
torre esto podem \'e e r. ferem as tauoas con1 huú maço de paao. por tal que
ho soom seja ouuido de húa parte e da outra. que accorram os homes pera
dar ajuda. E bem assi se faz. se per algüa outra cousa he feito mouimento
ou arroydo na çidade. Todallas ruas som calçadas de pedra. em tal maneira
que toda a çidade he muj limpa. Em esta çidade ha estufas bem tres m1ll muy
fremosas. em que se os homes banham muyto a miude. que muyto estudam
cm limpeza corporal. Aalem da çidade de Quinsay a .xxs. jornadas contra
oriente he ho mar ocçeano. E alli sobre ho mar esta a çidade chamada
Guianfu. onde esta mui nobre porto ao qual Yem nauios em muy grande
multidom de India e de outras terras. E da çidade atee ho mar corre huú
muy grande ryo per que os nauios vem a ç!dadc. ho qual ryo passa per
55, v outras muytas pro I uincias. Ho gram Cham partio a prouincia de
em .ix. regnos dando proprio rey a cada regno segundo aprazymento de
sua ,·oontade. e os reys som todos muito poderosos. pero som sogeitos ao
gram Cham. e conuemlhcs que cm todollos annos dem conta aos officiaes
do gram Cham de todas as rendas e despezas e regimentos dos seus regnos.
Huü daqudles reys viue continuadamcnte em a çidade de Quinsay. que tem
+ proprias.- 2S.  
OE PAUl O
sob sua jurdiçam .o.l. çidadcs. que a prouin..:ia de Mangy tem per todas
mill c .cc. çidadcs. E cm caJa hüa Jcllas som postas guardas pelo gram
Cham. que nom de rcucllar .. \ multidorn destas guardas hc sem
conto c de marauilhar. cmpero nom som todos Tartaros. mas de des-
uairados cxerçitus. c asokiadad•Js do gram Cham. Em esta çidadc de
Quinsay c aynda cm to.Ja a prouincia Jc hc costume que logo como
ho menino 113ÇC seu pay e may f:11.cm cscrcuer ho dia c a hora da nas-
çença. c so qual praneta foy nado. que cm todos seus caminhos c feitos se
regem per jui1os de astrologos. c por ysso querem saber ho dia e a hora da
sua nasçcnça. Quand•, cm esta prouincia morre alguü. seus parentes se
\'Cstem de sa..:os de canauaço. e queimam os corpos dos mortos com gram
canto. e com ymagccs de seruos c de cauallos c de dinheiros. e
todas estas cousas som feitas de papel. 1·. cn·cm que todas ho :mera
\·crdadciramcnte na outra vida quaes em semelhança forom com cllc qucy-
madas. Dcspois dcsto tangem cstormcntos de musica com grande alegria. por
tal que os seus dcoscs ho rcçebam com tal honrra com qual os corpos dcllcs
som Outrosy cm esta çidadc de Quinsay ha huü paaço muy ma-
rauilhoso cm que Farfur cm outro tempo rcy de tinha sua corte. c tem
huü grande lago arredor do çcrco do muro. do qual muro a altura hc muy
grande. c ha cm redor noue milhas. \ntrc estes muros estam pomares muy
frcmosos com suas fruitas delicadas. hi ha fontes c lagoas cm que ha muy-
tos e muj nobres pcxcs. Em meo do spaço mais dentro esta huü paaço
frcmoso c mayor que ha no mundll. Este tem .\ \.. salas todas de hüa gran-
dc.w. c cm cada hüa ddlas podcram juntamente comer mil! homcs
assentados segundo dcuida ordenança. E as salas som pintad<lS c douradas
de muy frcmosa obra. dito paço ha camaras açcrca de mil!. Em a
çidade d:! Quinsay ha foguos c famílias segundo a maneira do fallar de
ltalia em tam grande conto que s<,bc cm soma de Çl'llto c .lx. comanos. c
cada huü comano tem dez mil!. E assy som per todo as famílias c fogos.
mill Yezcs mil!. c seys I çcntos mil!. 0:-. paaços desta çidadc som muitos c 56, r
frcmosos. Em toda esta çidadc esta hüa grcja d.! christaãos ncs-
torinos. Em toda esta çidadc c cm a prouincia de conuem que
qualquer senhor da casa faça seu nome c da mulher c de todollos
da sua fami!ia sobre a porta da sua casa. e aynda ho conto dos cauallos.
E quando alguü da familia morre ou se parte ou muda a casa. ante que
seja fora da casa. conuem que seja tira.Jo ho nome do morto ou do que se
parte ou muda. c que se cscrcua hy ho numc de qualquer que nouamcntc
naçe ou se achcgua nouamcntc a família ou casa. e per esta maneira ligei-
ramente se pod.! saber o conto dos lwmcs que som cm a çidadc. c bem assi
os cstalajadciros escreucm todos os només de todollos caminhantes que cm
sua pousada rcçebcm. e em que mcs e em l}Ue dia entrara cm sua estalagem.
juizes.- 1J. fciros.- 1S.   - 16.
8
li fJ I 11"1<0 SHillr\1>0
Das c proucitos que rcçcbc h(J Cham da
prouin(ia de .\lang). c da çidade de   Capi-
tulo .lxv.
Agora conucm de das rendas que rcçcbc ho gram Cham da
çiSadc de Quinsay. e de toda a prouincia de segundo se segue. llu
gram Cham rcçcbc todollos annos de sal que se faz em a çidade de Quin-
say c termos dclla. oncnta comanos de ouro. E cada huú comano scJbe a
- -
valor de oytenta mill sagios douro. e assi multipricam oytenta comanos
douro em soma de çinco m;ll milhões e sasenta mill sagios douro. e cada
huü sagio douro tem mais peso que huú frolim. De outras cousas e de merca-
dorias a fora ho sal. reçebe tributos sem comparaçom. Em esta prpuincia
ha mais de açucar que em todallas outras prouincias do mundo. E ha hy muy
grande auondança de espeç;as aromaticas. e de todas outras semelhantes
cspcçiarias. E de quacsquer espeçias reçehe ho gram Cham de çem medidas
trcs e mca. e assi de todallas mercadorias que se faLem de medidas. E de
vinho que se faz de arroz e de quaesquer especias. E outrosy das .xij. artes
mechanicas que som cm Quinsay e em toda a prouincia tem grandes rendas.
E assi mesmo do caruom muy grandes proueitos. E do sir5o de que ha em
muy grande auondança. reçebe de çem medidas dez ante que se \'ende.
e de muytas outras cousas reçebe de çem medidas dez. Eu .:\larco paulo ouui
56, v contàr a soma das rendas que reçebe I ho gram Cham do regno de Quinsay
que he a .ix. parte da prouincia de e foy achado que sobiam cada
huú anno estas rendas a fora ho sal a quinze mill milhões e .lx. mill sagios
de ouro.
Da çidadc de Tan1piguy. c de outras n1uytas çidades.
Capitulo .Ixvj.
H indo n1aís alen1 da çidade de Quinsay per h o sueste. continuada-
mente acham pomares per hüa jornada e muy boõas lauoyras das terras. E
despois desta jornada he achada a çidade de Tampiguy. a qual he grande
nobre e muy fremosa. Alem daquella çidade a tres jornadas esta a çidade
Y guy. E per outras duas jornadas per a sueste som achadas çidades e
castellos que som tam acheguadas e tam continuadas que pareçe ao cami-
nhante que vay per húa soo çidade. r\lli ha muy grande abastança de todos
19 . .Mangi.
\
m·: .M .\HCO P.\l '1.0
os mantijmentos. E alli ha as mais grossas canas que ha cm toda outra
prouincia. que tem em ancho quatro palmos. c cm longuo .xv. passos.
Alem duas jornadas esta a çidadc de Ghcnguy grande c frcmosa. E despoys
vam per quatro jornadas pera o sueste c acham continuadamcntc çidades
c castellos. Em aquclla terra ha muytos lyões brauos c grandes. Em esta
rcgiom c assi mesmo cm a prouincia de -'langy nom ay carneiros. mas boys
e cabras. vssos c porcos cm grande auondançu. per aqucllas quatro jornadas
hc achada a çidadc de Ciangiam muyto grande. que hc situada em huü
monte. ho qual monte parte ho ryo em duas partes. que despois correm
pera as partes a elles contraíras. E despois vam outra vez per tres jornadas
e acham a çidadc de Cuguy que he a postumcira cm o senhorio da çida.Je
de Quinsay.
Do regno de Fuguy Capitulo .Jx,·ij.
Como se partem da çidadc de Cuguy logo entram nu regno de Fuguy.
e he caminho de seys jornaJas pcra o sueste per montes c Yalles. c som hi
achadas muitas çidadcs c castcllos. c ha hy muy grande auondança de
mantijmentos. H a hi grandes caças de animal ias c de aucs. c ha hy lyões.
Alli naçc gingiurc em muy grande auondança. que por quanta quantidade
de prata quanto tem huú dinheiro de Veneza da ! ram .lxxx. liuras delle. Alli s
7
, r
ha hu[i frol que parcçc açafram. porem nom no he c hc do mesmo preço.
Em esta terra comem os homcs muj gulosamente as carnes dos lwmcs.
cmpero quando aquelles homcs nom morrem de sua propria morte. c estas
carnes ham por muy bóas. E qu::mdo vam as guerras. cada huü põe assy
mesmo huü synal em a fronte com huü ferro qucente. c num vay alguü
dcllcs a cauallo a batalha se nom o duque. llusâm lanças c espadas e som
muj entes homcs em cabo. F quando em as batalhas matam os homcs
bebem o sangue dellcs. c comem suas carnes.
Das çidadcs de <,luclifu c Ynqucn1. Capitulo .Jx,·iij.
Em meu das sobreditas seis jornadas esta a çidadc de Quelifu mu\·
grande c muy nobre. c sta sobre huü n·o que tem tres pontes de pedra de
çima guarnidas de colunas de marmorc. as quaaes rontc.s tc:m em longo
2J. lci.1-se a ssv. - 3o. sta .
.
li O I I C I< O  
hua milha. c cm to li a hy gingiurc c galangua. c s=rgo cm
muy gr.mde auonJança. < )s homés c molhcrcs çidadc St.Jm muyto
frcmosos. I I a h i galinhas que num tem pcnnas. mas tem cabellos como
gatos. som todos de coor preta. pocé ouus muy boós. taes como os das
nossas gaEnhas. ( )utrosy pclla grande multi dom dos liões que hi ha. hc
mujto pcrijgosa cousa andar caminho. E alem das ditas . vj. jornadas a .X\.
militas sta a çidaJc de Y nquem. onde h a açuquar cm muy grande  
" tança. c dally ho lcuam aa çidade de Cambalu pcra a O.Jrte do gram Cham.
Da çidadc de Fugr1y. Capitulo .lxix.
Passando mais alem per outras .xv. milhas he achada a çidadc de
Fuguy que hc cabeça no regno de que hc hüa das terras da pro-
uincia de 1\langy. Em esta çidadc mora o cxcrç.itu do gram Cham pera
guarda da terra. pera ser logo prestes a pelejar. se algúa çidade presumisse
de reuelar. Per mco desta çidade corre huü ryo que ten1 cm ancho hüa
milha. E em esta çidade se fazem e estam muytas naaos que naueguam por
este ryo. H a hi outrosy açuquar cm grande abastança. H y se fazem merca-
dorias nmy grandes de pedras preçiosas que trazem de India. que esta çidadc
sta açerca do mar ocçeano. e tem auondança de todos os mantijmentos.
Da çidadc de Zcyton1 c do n1uy nobre porto della c da
çidade de Tinguy. Capiutlo .lxx.
Dcspoys de passadà do ryo sobredito per h o sueste. \ am por . \. jor-
nadas por hüa campina. e adwm per o caminho çidades muy bóas e mui-
tos castellos e Yillas cm que ha auondança de todollos mantijmentos. E tem
a. terra montes e matas cm que som aruores muytas de que se co-
lhe a canfora. E despois de . , .. jornadas he achada a çidade de Zeytom. a
qual he grande muyto e tem nobre porto a que Yem naaos de lndia com mer-
cadorias em muj grande multidom. Ca qualquer naao que yay com pimenta
pera Alexandria pera despois dalli ser leuada aa terra de christãaos. a este
portu \·em çento. Ca este he huü dos dous melhores e mayores que som no
mundo. E pdla mult:dom e grandeza das mercadorias que em elle som tra-
zidas. ha ho gram Cham do dito porto muy grandes rendas. Ca cada hüa
J)E \l.\HCO PAn.O
naao pagua das suas mercadorias de cada çcntcnairo   medidas. c a naao
rcçebc de seu frete das mercadorias sotijs dos mercadores .xxx. medidas
pcllo çentcnairo. mas da pimenta reçcbe .:xx. do çentenairo. c do ligno alocs
e sandalos e de outras grossas mercadorias reçebe . xl. do çcntenairo. pclla
qual cousa os mercadores paguam per todo. contando ho tributo dei rey e
frete dos nauios a metade de todas suas mercadorias que ao porto sobredito
leuam. Em esta çid,tde ha muy grande auondança de todos mantijmcntos.
Em esta rcgiom sta a çidade de Tinguy. onde fazem scuddlas muj frcmo-
sas de barro a que chamam porçcllanas. Em esta terra que hc hl'1a das .ix.
partes de 2\langy. h a propria t;nguagcm. Deste rcgno h a h o gram Cham
grandes rendas. yguacs ou mayorcs como do rcgno de Quinsay. E dos ou-
tros rcgnos da pronincia de lcyxo de escreucr por abrcuiar. porque
grande seria a prolixidade deste )iuro. se ouucssc de cscrcucr de cada hüa
por sy de todollos rcgnos dclla mas conucm de passar a India. onde cu !\larco
mais larguamente fuy. e donde som grandes cousas c n,arauilhosas de contar.
Acabasc ho liuro segundo. A Ocos louuorcs.
10. hancs. -- 1S. larguamete.
5S, r
Con1cçasc a tauoa dos capítulos Jo Iiuro tcn;cyro.
Da lndia. e primeiramente a decraraçom das naaos della. Capi-
tulo primeyro. Foi. lix.
Da ylha grande de Cypangu. Capitulo .ij. Foi. lix.
De como ho gram Cham mandou hu seu exerçitu que lhe conquistas-
sem a ylha de Cypangu. Capitulo .iij. Foi. lx.
Em como as naaos dos Tartaros forom quebradas. e como muytos do
exerçitu fugirum. Capitulo .iiij. Foi. lx.
Em como os Tartaros sagesmente tornarom a   ~ pangu. e tomarom a
prinçipal çidade da dita ylha. Capitulo . \'. Foi. lx.
Em como os Tartaros forom çercados. e de como entreguarom a
çidade que tomarom. Capitulo .Yj. Foi. h.
Da ydolatria e crueldade dos homes de Cypangu. Capitulo .Yij. Foi. lxj.
Da multidon1 das ylhas daquelle mar e c o m a r ~ a delle. e dos fruytos
dellas. Capitulo .Yiij. Foi. lxj.
Da prouincia de Cyamba. Capitulo .ix. Foi. lxj.
Da ylha a que chamam Jaua a mayor. Capitulo .x. Foi. lxij.
Da prouinçia de Loachim. Capitulo .xj. Foi. lxij.
Da ylha de Penthayn1. Capitulo .xij. Foi. Ixij.
Da ylha a que chamam Jaua a menor. Capitulo .\.iij. Foi. lxij.
Do regno de Ferlech. Capitulo :xiiij. Foi. lxij.
Do regno de Basman. Capitulo .xY. Foi. lxij.
Do regno de Samar. Capitulo .xYj. Fol. lxiij.
Do regno de Dragoyam. Capitulo .xYij. Foi. Ixiij.
Do regno de Lambri. Capitulo .x,·iij. Foi. lxiiij.
Do regno de Fanfur. Capitulo .xix. Foi. lxiiij.
Da ylha de Neucram. Capitulo .xx. Foi. lxiiij.
Da ylha de Anguaman. Capitulo .xxj. Foi. lxiiij.
Da ylha grande de Seylam. Capitulo .xxij. Foi. lxiiij.
7· qw:brados.- •7· hna.- :.w. Jana.
no rcgnu Jc Capitulo .XXII). Foi. b.x.
Do rcgno de Vaar. c dos crrorcs c da ydulatria Jus moradores \.ldla.
Capitulo .xxiiij. Foi. lx\ j.
Dos dcsuairados custumcs deli a. Capitulo .:\X\'. Fui. h vj.
De outros custumcs d,t dita terra. Capitulo .xxvj. Fui. h\·ij.
I Da çidadc onde jaz ho corpo de Sam Thomc apostolo. c Jus mila-   v
grcs que se faLem por seus mcreçimcntos. Cap:tulo .:\xvij. Fui. lxvij.
Da ydulatria dus pagaáus daquclla terra. Capitulo .:\x\·iij. Foi. h\·ij.
Do rcgnu de e de como se acham em cllc os dnunantcs.
Capitulo .xxix. Fui. lx\iij.
Do reg nu de Loadt. Capitulo .xxx. Foi. h ,·iij.
l>o rcgno de Coylum. Capitulo .xxxj. Foi. lxix.
Da prouincia de Comar. Capitulo .xxxij. Foi. lxix.
Do regno .de Hdly. Capitulo .xxxiij. Fui. lxix.
Do rcgno de Capitulo .xxxiiij. l'ol. lxx.
Do regno de CuLurath. Capitulo .XXX\'. Fui. lxx.
Dos rcgnos de Chana. Cambarcth. Semanath. c Hosmuchoram. Capi-
tulo .xxx\'j. Foi. lxxj.
Das duas yihas das quaacs em h[ia dcllas moram os humes sem mulhe-
res. e em a outra mulheres sem humes. Capitulo .XXX\ ij. Foi. lxxj.
Da ylha de Scorea. Capitulo .xxx\'iij. Foi. lx:\j.
Da grande ylha de l\Iadeiguastar. Capitulo .xxxix. Foi. lxxj.
Das aues muy grandes a que chamam ruth. Capitulo .xl. l· ui. lxxij.
Da ylha de Zanzibar. Capitulo .xlj. Fui. lxxij.
Da multi dum das ylhas da lndia. Capitulo .xlij. Fui. lxxiij.
Da prouincia de .\hastia. Capitulo .xliij. Foi. lxxiij.
De huü bispo christaáo que ho soldam de .\dem fct circunç.idar for-
çosamente por injuria da fce christaã. c cm despret.u do rcy de .\ bastia
que ho la mandou. F da grande \'Ínguança que fuy feyta per alJUclla injuria.
Capitulo .:\liiij. Fui. lxxiiij.
De desuayradas alimarias da pruuincia de \ba'itia. Capitulo .xh·.
Fui. lxxiiij.
Da prouinçia de Adem. CJ.pitull> .:xh'j. Foi. lxxiiij.
De hüa terra onde os Tartaros morãm cm a parte scptemtrional. Capi-
tulo .xl\'ij. Foi. lxx\'.
De hüa outra terra do aguyam. a que pello ludo e gelo muy grande nom
pudem hyr se num com muy grande Capitulo .\h·iij. Foi. l:xx\'j.
Da terra das trceuas. Capitulo .xlix. Fui. lxxvij.
Da prouinçia de Rossya. Capitulo .1. Fui. l:xx\·ij.
Fnn \.ia tauua.
Con1cçasc ho Liuro Terçcyro de paulo que falia 5o. r
das lndias. E prirneiran1cntc a dcLraraçon1 das naaos
de lndia. Capitulo prin1eiro.
Ho liuro da nossa tcrçcyra parte contem a dedaraçam das terras de
lndia. Empcro começaremos de falia r das naaos de lndia. H a hy naaos
grandes com que naueguam pello mar de lndia. E estas naaos som de
madcyra de abics ou de no. E a naao tem huü soo solhado. que se chama
antrc nos cubcrta. sobre que estam cumuümentc camaras pequenas ou çdlas
per conto .xl. )·. cada huüa dellas rcçebe bem huü mercador com hu que
pertençc a seu corpo. Tem outrusy a naao huü sou guucrnalho a que chamam
cm I ingoagem themon. c h:m quatro mas tos c quatro treus. mas dous dos
mastos som assi dispostos que J;gcyrameme os possam lcuantar c tirar.
maneira de como som feitas as naaos. Duas tauoas som juntamente lauradas
c cm huü ajuntadas. assi que hüa tauoa pregada sobre outra tauoa. fazem
a naao de todas as partes dobrada. c som as naaos prcgad,ts com pregos de
ferro. e som as tauoas da naao de dentro e de fora juntamente sobrepostas
c calcfctadas de stopa segundo comuü maneira dos nossos marinhc:rus. mas
nom som de çima breadas com breu. porque careçem cm aquclla terra de
pez. mas picam ho linho akanemc bem mcudo. c mcsturamno com ulco de
aruores c com cal. e com esta \mura nnam as naaos. C!'- ta \ ntura hc muj
forte per a tecr c muy bõa per a taes cousas. <.. )utrosy cada na ao grande h a
mester du.t.cnll>S marinheiros c mais. a qual comuümcntc leua scys mill aku-
fa:-, de pimenta. E tem grandes remos. c muytas \·eles ha lcuam remando.
c cada huü remo ha mester quatro marinheiros. Tem outrosy a naao grande
duas barcas grandes. e destas hüa he grande e outra mais pequena. c cada
hüa deli as leu a peso de m ·u akofas de pimenta. e rc\.lut;rese per a   se rui-
I i o I Jl"HO TEHCUIH)

dom .xl. marinheiros. Ca muytas \'czcs tiram a naao grande atada aas bar-
cas remando. c com remos c ,·elas lcuam a naarJ aqucllas barcas onde com-
  v prc. T<:m mais a naao gran I de nauios pcyucnos a que chamam per
conto d<:.t.. pera pescar c pcra alçar as ancoras. c outras cousas em que ser-
ucm nos ryos. Todos c:,tcs batecs som atados de fora da naao grande e
assy leuados todos em as ylhargas della. e quando compre lançam os em
E bem assy as barcas tem batccs. E dcs que a naa.J grande fe/ grande
\·iagem pdlu mar. c naucgou hull anno. conuem pera se refa7cr e rcpairar.
que sobre as primeiras tauoas da naau sobre ponham a terçeira tauoa per
todo cm darredur. c que ha calcfcteam e \·ntem como cm ho começo foy
feyto. A qual cousa aynda se outras ,·ezcs. a!ee que a derradeira a naao
hc sobre de seys tauoas.
Da Ilha grande de Cipangu. Capitulo .ij.
Agora nos cheguemos a dcmustrar e decrarar as terras de India. e
começarey em a ylha grande de Cipangu. Esta ylha da parte do oriente he
alonguada no alto mar da rybcyra de l\langy per miJI e quinhentas milhas. c
he muyto grande. Os moradores della som aluos e de conuinhauel estatura.
Som ydolatras. e tem rcy proprio. mas num som tributarias a outro alguú.
Ha hy ouro em muy grande abastança. mas el rey non1 ho leyxa leuar de
ligeyro fora da ylha. pella qual cousa vam la poucos mercadores. e assy
mesmo muy poucas yezes som lcuadas la naaos de outras partes. Ho rey
da ylha tem huü grande paaço. todo cuberto de ouro fyno. assy como antre
nus som cubcrtas as ygrejas de chumbo . .As freestas deste paaço som guar-
n:das e lauradas de ouro. E ho asoalhamcnto das salas c de munas camaras
hc de t:woas de ouro. as quaes tem em grosso medida de dous de-
dos. Ally ha aljofar cm auondança muy grande. ho qual he redondo e grosso.
e de cour ,·ermelho. que em preço e Yalor sobrepoja ho aljofar bramco. Ha
hy outrosy muytas perlas e muytas pedras preçiosas. E por esto a ylha de
Cipangu he muyto rica a n1arauilha.
De cotno ho gratn Chan1 mandou ho seu cxerçitu que
lhe conquistassen1 a ylha de Cipangu. Capitulo .iij.
Go, r Ho gram Cham Cublay ouuindo as nouas que contauam das riquezas
de Cipangu. mandou la dous seus barões com n1uy grande exerçitu pera
19. mny. 24. asoelhamcnto.
DE .. \lAH.CO PAU O
sojugarcm a dita v lha a seu senhorio. E a huü dellcs chamauam A badwm
e a outro Vonsadtim. ( )s quacs tomando seu caminho dos portos de Zayten
e de Quinsay com muytas naaos c com grande poderio de homés de pcc c
de cauallo chcguarom la. E sayndo cm terra fizcrom muytos danos aos
castellos e villas que eram nas terras chaãs. E naçeo antre cllcs cnucja cm
tanto que huü dcsprczaua ho conselho do outro. pcllo qual lhes ,·cu muyto
mal. que nom podcrum entrar cm çidadc nem castcllo alguü. se num soo-
mente huü castcllo que vençcrom per batalha. 1·. por aqucllcs que eram
dentro em ho castcllo num se quiserom dar. per manJado destes dous
capitaães forom dcgollados. a fora oyto homés que forom achados antrc
cllcs. que tinham cada huü hüa pedra preciosa coscyta no braço antrc ho
coyro c a carne. ho que ncnhuü podia vcer. Estas pedras eram utfereçidas
ao diaboo per maas encantaçoões pera aucrcm huüa tal virtude de obrar. s.
que qualquer que tal pedra trouxesse sobre sy nom podcssc ser morto
nem chaguado com ferro. E porem quando os feriam com os cutcllos. cm
ncnhüa maneira nom podiam ser chaguados. E des que esto conhcçerom os
capitaães. mandarom que os matassem com paaos. c logo furum mortos. E
os capitaãcs tomarom pcra si as ditas pedras.
En1 con1o H$ naaos dos Tartaros forom quebradas c
con1o nHI\·tos do fugirom. Capitulo .iiij.
Aconteçeo cm huü dia que se leuantou grande tormenta nu mar. c as
naaus dos Tartaros com a força dos \"Cntus chcguarom aa ribeira ou pra) a
do porto. c auidu conselho dos marinheiros que alonguasscm as naaos da
terra assi que entrou todo ho c\.crçitll cm as naaos. e a tempestade mais
fm temente crcçcndo. forom tas naaus qud'radas. c os que eram cm
ellas nos pedaços da madeira que qucbraua ou nadando chcguarom a uutra
ylha. que esta a quatro milhas açcrca de Cipangu. E muitas das I naaos que 6o, v
podcrum escapar tornaromsc a sua terra. c os que chcguarom cm saluo a
ylha forurn bem .XX\.. mill. mas purLJUC pcrdcrom os nauios e grande multi-
dom da companhia. c porque outrosi eram açerca da ylha de Cipangu.
temiam de nom lhes poder ,-ij r ajuda ou socorro alguü. e por ysso estauam
amortcçidos. que em a ylha cm lJUC achcguarom num auia pouoraçam
algüa.
3. muitos.- 19.  
I i o I li" HO II·.HC:I·IHO
.
Em como os Tartaros sagcsn1cntc tornarom a Cipangu
c tomaron1 a principal da dita ylha. Capitulo .v.
Cessando a tempestade do mar. os homês da grande ylha de Cipdngu
com muytas naaos c grande excrçitu \ icrom pera cllcs querendo os matar.
aos quaes \'Írom desamparados Jarmas c de outra aJ· uda. I· savndo a elles
-
cm terra lcy:\.adas as naaos na ribcyra. Os Tartaros os alongu.trom sages-
mente da ribeyra metendosc polia ylha. c tornandosc por outro caminho
supitamente se ,-icrom aa ribeira. c entrarom todos em as naaos
os seus imijgos cm a dita ylha. e foromse aa ylha de Cipangu. e tomarom
as bandeiras dos imijgos que acharom cm as naaos. c foromse aa çidadc
que na ylha hc mais principal. E aquclles que ficarom em a çidade quando
virom as bande:r:ts c naaos da sua gente. cuydando que os seus turnauam
com Yictoria. sayrom os a reçeber. F clles entrando loguo em a çidade. c
detiucrom constguo poucas mulheres e todos os outros que ficarum lança-
rom fora.
En1 con1o os Tartaros foron1 çercados. c de como
cntrcguaron1 a LJUe ton1aron1. Capitulo .Yj.
Ouuindo ho rey de Cipangu estas cousas. e buscadas pretesmente naaos
doutros lugares da ylha nauegou com seu ex.erçitu e foysc a Cipangu. e
çercou a çidade que tinham os Tartaros. E com tanta diligencia fez guardar
todal\as entradas e saydas da çidade. que alguü de fora nom podesse entrar
dentro. nem dos de dentro fora sayr. E as si forom çercados per sete meses
G•, r de grande cx.erçitu. que i nom poderom per messegeiro alguü fazer saber ao
gram Cham cousa algüa de sua estada. E assy elles vecndo que nom podiam
auer ajuda dos seus-. toda aquella çidade liuremente entreguarom ao rey de
Cipangu. as pessoas saluas. e dcspois tornaromse pera suas terras. E esto
foy cm ho anno de nosso Senhor de mill. e .cdx.viij.
Da ydolatria e crueldade dos hon1eés de Cipangu. Capi-
tulo .Yij.
Em esta ylha de Cipangu c em aqucllas terras som muytos ydolos que
tem as cabeças de boys. e alguüs de carneiros ou de cam. ou de outras anima-
1   forromse.- 31. outros.
DE \1.-\I{CO 1'.\UJ.O
lias JesuairaJas. L alguüs ydolus ha hy que tem quatro façes cm hüa
c outros aynda que tem trcs .s. hüa sobre ho collu c as outras sobre
os ombros. de hlla parte c da outra. c outros tem quatro maãos c outros
dct.. c outros çclllo c mais. E aqucllc ydolu que tem mais maãus. cuydam
que he de mayur \·irtudc. E quando algucm prcgunta aos moradores de
Cipangu por a ra1om destas cousas. num responder outra cousa. se
num que assy lhes foy dado de seus padres que assi crcerom. c tal cnsynança
tem dclles. a qual querem seguir c creer. a qual uutrusy scguirom
seus padres. Os moradores da ylha de Cipangu quando prendem alguü
h->mé estranho. se ho catiuo se pode rcmijr por dinheiro. soltam ho despois
que rcçcbem hu dinheiro. F se nom pode aucr ho preço pera sua rcndiçam.
matamno c comemno cozido. E pera este cunuite conuidam os parentes c
a111igos que comem muy de hõa mente as tacs carnes. di1cnJo que as
humanas som milhures. c de muyto millwr sabor que as outras carnes.
Da nudtidon1 Jas ylhas daqucllc n1ar c   Jcllc.
c dos fruytos ddlas. Capitulo .Yiij.
Aqucllc mar onde esta a ylha Je Cipangu. hc mar c dwma-
sc Cyn. que quer dit.cr mar de porque a Jc .\langy hc cm
as ribcyras Jcllc. Em este mar onde hc Cipangu som outras ylhas muytas.
as com diligcn..:ia conta 1 Jas pcllus marinhcyros daquclla terra. hc
achado que som sete mill quatroçcntas c quorcnta oyto. Jas quacs a mayur
parte som pouoadas de humés. Em todas as ditas ylhas som as aruorcs bem
nem aeçc hy aruorcdo t}UC nom seja bem chcirantc c proucitosu
muyto. Hy som as especiarias infijndas. A pimenta he hy como
ncuc. ha de pimenta preta muyta c cm grande auundança. cmpcro os
mercadores de outras partes poucas \·czcs \'am la. porque as naaos Jc
as que la \·am. per huú anno entcyro duram em ho mar. porque no
inucrno se \"am. c no Yeram tornam. Jous \·entos suus cm
aqucllc mar. huü nu inucrno. c outro cm ho \·eraãu. F h c esta terra muy
afastada das ribcyras de lndia. c porque cm clla nom foy lcyxo d\! contar
Jella. c tornemos ao porto de Zcytcn. pcra proçcdcrmus aas outras terras
de lndia.
1. fLlzcs. ·- 21.
6t. v
Jf O I.IU I< O I 1': JH.: E i H O
Da prouith.:ia de C\ amha. Capitulo .ix.
Despois da partida do purto de Zeytem. naueguandu per hu suducstc
per mill c quinhentas milhas. chcguam aa pruuincia de Cyamb..t. que he
muyto grande c de n_mytas riquezas. E!-.ta pruuincia tem rcy pruprio c
ling,poa propria. c seguem a ydulatria. Em hu anno de nosso Senhor de
mill c duzentos c .IX\·iij. mandou ho gram Cham Cublay huú dos seus prin-
çipcs per nome Sogato. com grande e\.crçitu que   aquclla prouin-
cia a seu senhorio. c achuu as çidades tam fortes. e muy fortes castellos.
que nem çidade nem castcllo nom pode tomar. mas porque destruya as
aruorcs das terras. prumcteo ho rcy de Cyamba ao gram Cham em cada
huü anno paguar tributo se ho quisesse leyxar em paz. E a concordia feita
partiosc ho exerçitu. E ho dito rey em todollos annos mandaua .xx. alifantes
ao gram Cham. Eu .!\larco foy em esta prouincia. e achey huú rey antijgoo.
que tinha grande multidom de molheres. de que auia <_1-ntrc machus e femeas
per conto .CCC. XX\"j. filhos. dos quaes OS ÇCI1tO C çinquocnta rodiam ja
tomar armas. Em esta terra ha alifantcs. e de lignu aloes em muy grande
auondança. e ha hy muy grandt:s matos de Iigno ebani.
Da ylha a que chmnmn Jaua a n1ayor. Capitulo .x.
Leyxada a prouincia de Cyamba. nauegando ao susueste. e.sto he antre
ho meo dia e ho sueste. per mill e quinhentas milhas. cheguam aa ylha
grande chamada Jaua a mayor. que tem em çerco tres mill milhas. Fm esta
ha rey que nom he tributario a outro alguú rey. H a hi auondança muy
grande de pimenta. e de noz nozcada. de sp:que. galangua. cubcbas. crauos
de girofres. e de todas as outras especiarias. Ally vam muytos mercadores.
onde reçebem grandes guanhos. Todollos moradores desta ylha som ydola-
tras. ho gram Cham nunca ha pode conquistar.
Da prouincia de Loachim. Capitulo
Lcyxada a ylha de Jaua. \ am ao susudueste per seteçentas milhas.
chcguam a duas ylhas. as quaaes chamam Tendur e Condur. F alem
S.lcnguoa.- 17. a ha.-18. 21. zS. Jana.
DE \ AHCO 1'.-\t;I.O
destas a quinhentas milhas hc a pruuinLia de I oadlim. que hc grande c
muy rica. e tem rcy propriu. c prupriu lingoagcm. c nom dam tributo alguü.
saluo a !->CU proprio rcy. c h e muj fortclczado nem lhe pude algucm fazer
dano. Os moradores da prouin(ia som ydulatras .. \Ii adtam crh grande
quantidade ouro. c ha hi muitos. c ha hi porçclana que despendem
por moeda de que se ja disse .. \ csu prouinda puu(uS vam de outras terras.
porque he montanhosa e mal pouoada.
Da ylha de Pcnthayn1. Capitulo .xij.
Dcspoys da partida da prouincia de l.ua(him. naueguam per lJUÍnhcntas
milhas contra ho mco dia. c adtam a ylha de Pcnthaym. que he terra muyto
fragosa. H y ha matas daruores de grande odor c de grande pruucito. Antre
a prouincia de Loadlim c a ylha de Pcnthaym per .Ixx. milhas num se a(ha
altura de mar a alem de dez passos. por ysto conucm aos marinheiros de
alcuantar os gouernalhos. Dcspoys dteguam ao regno de onde ha
espe(Ías aromatkas cm grande auondança. E tem pruprio linguagem.
Da Ylha a que chmnan1 Jaua a tncnor. Capitulo .xiij.
:\I cm da ylha de Penthaym per h o sueste de çcm milhas h c a(hada a
ylha que se chama .Jaua a menor. que cm ho çerco dclla tem duas mill milhas.
Em ella som oyto regnos com scnhos rcys. E ha hi propria lingua. Todollos
moradores da ylha som ydolatras. Ha hy auondança de todas as cspcçias
aromaticas. e de outras muytas espcç: as (Uja semelhança nun(a \"imos a quem
do mar. Empcro esta ylha h e posta atl meo dia. tanh> que se nom pude
em ella veer ho poliu artico. s. aquclla cstrclla a que dtamamos norte. Eu
Marco foy cm seys regnos desta ylha .s. cm FcrlcLh. Basman. Sam:ir. Dra-
goiam. Lambri. c Fanfur. mas cm oLtros dous num foy. porem direy pri-
meiro do regno de Ferled1.
Do reg no de Ferlech. Capitulo .:\.iii j.
Por a1o dos mer(adores mouros. dos quacs ao de Fcrlcd1 ,·cm
muytos. os moradores daquellc n:gno que moram   du mar. tomarom
1Õ. Jana. --- 1.1.. tamo per se.
li O l.llj I< O I J-:IH: H I< O
.
a lcy do abommaucl )lafomcdc. mas aqucllcs 'JUC muram cm os montes nom
tem Jcy. C \ ÍUCI11 COITIIJ bestas. J-" a primeira COUSa que \cm peiJa m.mha.Í
l}ll:tth.io se alcuantam. alJllclla adiJram cm lugar de deus. Comem carnes de
quaacsqucr alimarias. assy limpas cumu ll()Jll limpas. c uutr1Jsy Jus homcés.
Do regno de Basn1an. Capitulo
Ho regno de Basman tem proprio lingoagem. c num tem ley .tlgúa.
1\lli som os humés muytu bestiaes e di7cm que som sogeitos ao gram Cham.
mas nom lhe paguam tributo. Empero algúas vezes lhe mandam juyas de
alimarias monteses. que ha hy alifantcs cm muy grande multidom .. e 'nicor-
nios muytu grandes. que pouco som menores que os alifantes. Os ,·nicornios
tem cabcllos assy como bufaros. e os pces a semelhança de alifantes. e a cabeça
como de porco montes. e sempre ha traL baixa pera terra. folgua muyto no
63, 1 lo...iu I assy cori1o porco. e he alimaria muyto çuja. E em meo da fronte tem
huü corno muyto grosso. e a lingua tem espinhosa. chea de mujtos espinhos
e grossos. Com sua Fngua fere muyto as outras alimarias e aynda os homés.
Em este rcgno ha muytos bugyos de diuersas   e destes alguús som
pequenos. e os rüstos tem semelhantes aos dos homés. e ajnda em tvdollos
outros membros lhes som muyto semelhantes. Os cacadorcs os tomam e
- >
pelamlhes os cabellus. e leyxamlhes soomente os da barba e dos outros
lugares a semelhança de homé. e despoys os poem mortos e em pequenas
formas. e confazemnos com espeçias que nom apodreçam nem feçam mas
que cheirem. e desy secamnos e Yendemnos aos merca.::lores os quaes os
leuam per diuersas partes do mundo. e fazem creer a muytos som homcs
assi pequenos. Em este regno som achados açores pretos assy como coruos.
muy buós caçadores e ligeyros e tilham muytas aues.
Do rcgno de San1ar. Capitulo .:xYj.
Dcspoys do regno de Basmam h c ad1ado ho regno de Sam ar. Em
essa mesma ylha eu estiuc hy meses com meus companheyros.
porque num podemos cm tanto auer tempo de \·iagem. E em
terra. e alli fizemos castellos de madeira cum ameas. cm que estauamos a
mayor parte do tempo. temendo hu bestial pouoo da ...1uella terra. que de muy
21. /ei.1-se fedam.- 31. tepo.
.\L\I{CO I'AU o
bõamcntc comem carnes Jus homccs. Em este rcgno nom hu norte.
nem ahy as yssas mayores. que comuümente chamam carro grande.
Os moradores deste rcgno som ydolatras. e cm :.cus custumcs som mujtu
l'estiacs e saluagcés .. \lly ha pe:\cs muy ho6s em grande abastança. :'\om
nasçe hy triguo. n1<ts de arro/. fat.cm pam. I\ cm ha hi 'inhas. mas cm esta
maneira f.11.cm ,·inho. s. H a hy aruorcs muytas pC ... ]LICnas que parcçcm pal-
mas. das quacs comümcntc tem quatro ramos. e cm çcrto tempo do anno
cortam a-.]ucllcs ramos. E em cada huü ramo atam hu[i pichei de paao. em
que recolhem os humores que escorrem da aruorc. assy como se colhe a
agua ardente. E cm tanta muhidom auonda ;.quclle liquor. que antrc dia c
noytc se
1
enche ho pichei que esta emçima lcguado. dcspuys outra 'c1. tu- 63. ,.
mam pichccs Yasius. c pucmnos scmdhantemcntc. per esta mancyra dura esta
tal vindymia per muytos dias. E dcspuys que a aruurc acaba de lançar as go-
tas do seu çumu. lançamlhc aguoa ao pcc. c logut> a cabo de pouco outra \·cz
começa a lançar aquelle humor. mas nom h c de tan!o \·c.dor como ho outro
primcyro. F este liquor husam por vinho. de que tem muy grande auundança.
c h c de boõ sabor. .\ coor deli e he branco ou 'crmclho a semelhança de
,·inho. Em esta terra ha nozes de lndia cm grande abastança. c som grandes
c boõas. Os moradores desta terra de todas as carnes husam cm ho comer.
no rcgno de Dragoyanl. Capitulo .XYij.
( )s moradores do reg no de Dragoyam som ydolatras. Tem proprio
rcy e proprio linguoagcm. Os homcs deste rcgno som muyto bcstiacs c sal-
uagccs. Ha hy tal custumc. que quando alguü hc graucmcntc enfermo. seus
parentes lhe trazem feitiçcyros c encantadores. c prcguntanlhcs se ho en-
fermo pode ser liurc daquella cmfcrmidadc. E os fcitiçcyros segundo as re-
postas que lhe som dadas pdlos diabous. assi rl.•spondem da sua saudc. ou
da sua morte. l· se dizem que ho cmfermo nom pode scer saão chamam
aaqucllcs que ligeyramcnte .sabem matar os cmfermos. estes tapam a boca
do enfermo cm tal ra que ramentc perca ho batro. Ellc morto
talham as carnes c cozemnas. e ajuntados todos os ddle comem
aqudlas carnes com todos os myollo!'. c dit.em. que se as carnes dcllcs
apodreçcsscm e se tornassem cm bydws. <-}lll:' clles morreriam despoys de
famc. c a alma daqudlc finado padcçcria por cllo muy grandes penas. 1 ... os
ossos soterram em cauas. ou cm luguares dos montes onde nom possam ser
tocados de homc nem de besta. E quando os homcés daquclla rcgiom pren-
dem alguü homé de outras partes estranhas. se se nom pode com dinhcyro
    matamno c comemno.
1!. pocmnas.-- 17. dd!.t hc ou \Crmdh.t. boós.-cnho.-3J.m\"•Jihos.
- 32. morcriam depois.
9
JJo I 11"1<0 "I J-:I<CHIHJ
.
Do regno de Lambri. Capitulo ."-viij.
li4, r I lo outro rcgno da dita ylha hc chamado I .amhri. onde ha muytas es-
pcçias aroma til: as. A IIi naçcm byrços cm muy grande auondança. os quaes
des que som creçidos. dcpocmnos c lcyxamnos cm a terra per tres annos.
c" despoys arrancamnos com as rayzes. Eu ~ l   r c u trousse a \' eneza da se-
Dlcntc dcllcs comigo. c fizcus semear. mas porque requerem terra muj
quccntc. nom podcram nasçcr. Os moradores deste regno som ydolatras.
Em esta terra ha húa cousa muno de marauilhar. ca ha h\· homês muvtos
- - -
que tem rabos assi como caãcs de huú palmo. Estes homés nom som nas
cidades. mas moram nos montes. H a hY outros v vnicurnios mu\·tos e outras
, . .. ..
alvmarias muvtas.
. -
Do regno de Fanfur. Capitulo .xix.
Ho sexto regno desta ylha hc chamado Fanfur. onde nasçe a melhor
canfora que se pode achar. a qual se da por ygual peso douro. Fazem pam
de arroz c nom tem triguo. auondam em leyte que muyto comem. Fazem
vinhos daruores segundo ençima foy dito do regno Sam ar. Em esta terra
ha muytas aruores de grande grossura. que tem a toua muy delgada. e de
sob aquella toua tem hüa farinha muy boóa de que fazem delicados manja-
res. dos quaaes eu muytas vezes comy. Kos outros dous regnos da ylha non
foy. e por ysso nom fallarey dellcs.
Da Ylha de Ncucran1. Capitulo .xx.
Da ylha de Jaua partindo da parte do regno de Lambri vam pello mar
atee .cl. milhas. e se acham duas ylhas .s. Keucram e Angamam. Ho pouoo
da ylha de Neucram nom tem rey. e viue muy bestialmente. que os mora-
dores desta vlha assi homês como mulheres andam nuus. nem se cobrem
em parte algüa do corpo. e som ydolatras. Ha hy matos daruores de san-
dalos vermelhos. e de nogueiras da lndia. e de crauos girofes. e de outras
desuairadas espeçias aromaticas.
17- muytos.- :.1.:!. Jana.- rartndo.
I>E .\1.\HCO 1'.\l"f.O
Da ylha de r\nguaman. Capitulo .xxj.
\ outra ylha hc channJa .\ngamam. a qual hc grande. I lo pouoo ti.J: v
della adora os ydolus. e Yiucm muy bestialmente. Os homés som saluagés
e muy cruccs. Comem arroz e lcytc c carnes. 1\cm auorrc.;cm carne algüa
cm seu comer. mas ante comem as carnes dos Som ln· homcs muv
- -
feos. ca os dentes c os olhos tem Cl>mo caães. Ha hy auondança de cspcçias
aromaticas e fruytos d.csuayrados e de muytas mancyras. que som mu\ to
dcsasemclhauecs dos fruytos daqucm mar.
Da ylha grande de Scylan1. Capitulo .x:\ij.
Dcspuys da partida da ylha de .\ ngamam Yam per mi li milhas crmtra
ho suducstc c he adl<h:la a ylha de Scylam que hc híia das melhores c mayorcs
yllns do mundo. que ha em dcrrador duas mill c quorcnta milhas. Empcro
que em outro tempo ja fosse mayor. porque segundo he a fama comuú cm
partes. ho seu çerco abrangia trcs mill c quinhentas milhas. mas
Yeeo huü grande \'ento da parte do norte. e assy fortemente per muytos
annus com muy grande fortuna deu cm a ylha. que muytos montes daçcrca
do mar cayrom em cllc. c pcrdcose muyto da ylha. e os mares ocuparom
os lugares da terra. Esta ylha tem huü rcy muy rico. que nom hc tributario
a alguú. Os humés da ylha som ydolatras. c andam toJos nuus. c as molhe-
res ysso mesmo. Empero cada huü cobre a sua Ycrgonha. ::'\um tem pam
alguü saluo arroz. .:\Iantemsc cm carnes c cm lcyte. c tem auondança de
sementes de girgilim de que fazem olco. H am hirçus os melhores do mundo
que nasçcm hy. lia h i outrosy \·inho das aruores. segundo cmçima fuy
dito do rcgno de Samar. Em esta ylha som achadas pedras prcçiosas a que
chamam rubijs. que num ha cm outras terras. I I a hy outrosy muytas saphi-
ras c topazcos c muytas amatistas. c outras muytas pedras prcçiosas. I lo
rcy daquclla ylha tem ho mais fremoso rubij. que nunca foy Yisto em ho
vniucrso mundo. que tem longura de huü palmo. c da grossura tem cm me-
dida de huü braço I de huü homé gordo. e hc resplandcçente a marauilha sem 65, r
magoa algüa. em tanto que pareçe ser fuguo ardente. H o gram Cham Cublay
mandou la seus messegciros roguar a ...1uellc rcy que lhe doaçam da
dita pedra e que lhe daria valor de hüa çidade. Ho qual lhe respondco. que
aquella pedra fora de seus antcçessores. e que nunca ha daria a homé nenhuü.
Os homés desta ylha nom som guerreadores. mas som muyto Yijs. E quando
tem guerra com alguüs. de outras partes chamam e ham outra gente a sold1J.
especialmente mouros.
2S. muytos. -zaphiras.-   tccm bis.
ff O I llJHfJ TI HCJ-.IIlO
Do n:gno de .\laahar. Capitule,
Alem da ylha de Scylom a .lxx. milhas hc a prouincia de
har. que se chama India mayor. e nom hc ylha. mas hc tcrr.t firme. Em cMa
prouincia ha çinco rcys. c he prouincia muyto rica a marauilha. I lo primeiro
rcgno desta prouincia hc chamado Sardcrba. no qual regno ha aljoflar em
auondança. Em ho mar de ta prouincia esta huú braço do mar ou
hlla cmscada antre terra firme e hüa ylha. onde as aguoas num som altas
alem de dez ou doze passos. c cm alguüs lugares aalem de dous. c alli se
a.:ha h o Jito ai joll ar. mas os fa1.cm dcsuayradas companhias
huüs com os outros. c tem muytos nauios grandes c pc'-)uenos. e aluguam
homês. os quaaes amergulham ao fundo das aguas. e tomam as cm
que se acha ho aljolfar. E quando estes amergulhadorcs n(1m podem sopor-
tar a aguoa. tornamse pcra çima. c tornam amergulhar. e assi continuam
pci· todo o dia. Em <quella enseada ha pcxcs grandes que matariam os
pescadores que amergulham. mas os mercadores de tal perijgo os proueê.
Trazem consiguo os mercadores feytiçeyros que os a que chamam
Bramanos._ que com suas encantações e arte diabolica constrangem e espan-
tam aaquellcs pex.es em tal que nom possam a alguú daquellcs pes-
cadores empeeçer. E porque aquella pescadaria se faz de dia e nom de noytc.
fazem as encantaçoóes de dia. as quaaes loguo em ha se-
G5, v guinte noyte desfazem. temendo os ditos feitiçeiros que alguem per furto
1
e
sem licença dos mercadores amergulhe cm ho mar. e tome ho aljotfar. )las os
ladroões temendo os pex.es nom ousam entrar ho mar. nem he achado alguú
que sayba estas encantações fazer. se nom a que chamam Bramani.
que som alugados pellos mercadores. Esta pescaria se Ltz em aquelle mar
por todo ho mes de abril. atee metade du mes de mayo. e emtom ha hy de
aquelle aljoffar infijnda multidom. ho qual despoys mandam os mercadores
pel!o mundo. E os mercadores que compram esta pescaria a el rey. soomente
lhe dam a dizima parte do todo aljolfar. e aos feytiçeyros que encantam os
pexes. damlhes toda a Yigesima parte. e aos pescadores satisfazem muy bem.
despoys da meetade do mes de mayo nom acham alli mais aljotfar. mas
em outro lugar que he afastado da .... 1uelle per duzentas milhas ha aljoffar per
todo ho mes de setembro atce mcetade de octubro. Todo o pouoo desta
prouincia anda nuu em todo mas cobrem suas Yergonhas huú
panno. E hu rey deste regno bem assy anda nuu como os outros. mas tras
ao collo huü colar de ouro. cuberto tudo de çaffiras e rub;js e esmeraldas. e
de outras muy prezadas pedras preç;osas. ho qual colar he de grande preço.
E bem assy tras pendurado huü cordom de syrguo no seu em que som
çento c quatro pedras preçiosas. fcytas aa maneyra de contas de coor gris e
•. r.:\'cS.-:!t.   .
"T " •
DE .\\.\H CO I' AlTO
\'ermclhos. q11e lhe conucm. que cm cada huü dia digua çcnto c quatro ora-
çoões relia manhaã aa honrra dos seus deuses. c aa tarde outras tanta:-;.
Tras outrosy ho dito manilhas de ouro cm cada braço. c assy
cm as pernas. que som cobertas de pedras   1-: nos dedos das maãos
e Jus pccs traz pedras preçiosas. Vakm as pedras que este rcy
traz cuntinuadamcntc sobre   h lia nobre çidadc. Outrosy daquclle aljoll ar
que se ally toma. el rey toma pcra sy ho melhor c mais grosso. Tem mays
ho dito rcy quinhentas molltcrcs. e tomou hüa a huü Jc seus jrmaãos. mas
ellc temendo sua jra. dcsimulou a cnjuria.
Do rcgno de Yaar. c dos l:rrorcs. c da ydolatria dos mo-
radores ddla. Capitulo .xx i iij.
Os moradores do regno de Yaar som todos ydolatras. c muytos dei- GG, r
Ics adoram hl) boy di1endo. que hc cousa sancta. 1\cm matam os hoys. nem
comem as carnes dcllcs por rcuerença. F quando morrem os boys. tomam
ho scuo dcllcs c \·ntam suas casas com ellc. antre os yJolatras ha al-
guüs de outra seyta. que som chamados Boni. estes num matam os boys.
mas se cllcs morrem ou os outrem mata comem as carnes ddles. I>izcsc
em aqucll a terra. que aquell es som da gccraçam dos que matarom a sam
Tome apostolo. F ncnhuü dclles nom pode entrar em a ygrcja onde jat. ho
seu corpo. que dc1 homrs nom podem meter huü daquellcs em aquclla
ygreja. Em esta prouincia h.t muytos fcytiçeyros. que se ocupam cm agoy-
ros c cm encantações c cm adiuinhaçoões. Em esta terra ha muytos mocs-
tciros de ydolos. cm que estam muytos ydolus. Jcllcs ptlr mayor
reucrencia otl"crcçcm aos ydolus suas tilhas. cmpcro as moças ,·iuem cm casa
de seus padres. e quando os monjcs dos ydolos querem fazer algLias festas
solenncs. Lhamam as moças aaquclles ydolos   c ellas Iugo \·cm
c fazem danças ante os ydulos com grandes cantares. Yczes as ditas
moças trazem consiguo manjares. c pocm mesas ante os ydolos. c Icyxam
as estar per tanto espa.;:o ante cllcs. quanto huü granJc prinópe LO-
mcr. c entre tanto cantam c bailam. E crccm que cmtom coima aquellc deus
ho caldo das carnes. e dcspois comem ellas com rcucrença na dita mesa.
E estas cousa'\ assi acabadas todas se tornam pera suas propias casas. F
tal custumc guardam as moças de sentir a seus ydolos atce -lliC casem. Em
esta terra quando ho rey morre c se ha de qucymar ho corpo dcllc segundo
ho seu costume. alguüs cauallciros que com clle cuntinuadamcntc estauam e
caualgauam. pensando que na outra Yida seriam seus l:ompanheiros. se lan-
3. l'érllas.- ..:ohcrrns.- :q. .      
\<llll cllc ,·iuos no f, 'WJ c queimam as si mesmos o,m o corpo do rcy
morto. c que cm a o11tra \ida podem ser apartad(JS da com-
panhia dei rcy. E quando algul'1s outros hom( s morrem cm aquclla terra.
muytas de suas se lançam c !-.e l]Ucymam per sua propria voüntade
cllc. porque quando assi morrem juntüs crcem que em a outra \ida
ham de ser suas molhcres. c as que ysto fat.cm som muyto lüuuadao; d(J
}\OUoo. Em esta terra ha huü custumc. quando ham de matar alguú per ri-
li6, ·.- gor de justiça per sentença dei rcy. pede por graça 1 que clle pus!-. a ma-
tar assy mesmo a honrra de alguü ydolo. E dcs que lhe tal licença assi hc
dada. ajuntamsc a cllc tudos seus parentes c lcuam ante dlc que vay as-
sentado cm hüa cadcyra. dct. ou doze cutcllos agudos p<.lla çidadc bradando
alta ,·oz c dizendo. Este homc de bem por honrra de tal deos quer matar
assi mesmo. E quando chcguam ao lugar onde se faz a publica justiça. dlc
toma huü cutcllo cm a maão c brada alta \'Ol e dit.. Eu mato a mv mesmo
por amor de tal deos. E csto assi dito chagua c firc graucmcnte ass\· mes-
mo. e tomando outro da em sy outra ferida. e assi multiprica cm sy
as feridas. a ferida mudando ho cutello atce que morre das ditas feri-
das. E os parentes delle queymam ho com grande alegria. f)s ho
mes ta terra nom tem por nenhüa de luxuria.
Dos destWYrados custumcs daquella terra. Capitulo
.XX:Y.
Ho rey desta terra. e todollos outros homês grandes e pequenos se
assentam no chaão ou em terra. E quando som reprehendidos dos estran-
geyros porque nom seem mais honrrosamente. respondem assy. Da terra nas-
çemos. e em terra nos auemos outra ,-ez de tornar. e por tanto queremo-s
honrrar a terra. que nenhü ha dcue desprezar. Elles \'alem pouco pera armas.
E quando ham de hir aas pelejas nom husam armas nem vestiduras. mas
soomente leuam comsiguo e lanças. l'\om matam alimaria algúa.
mas quando querem comer carnes. fazem as matar per homês de outra terra.
Todos os homcs c mulheres duas yezcs no dia Iauam ho corpo. e todo aquelle
que ysto· leyxa de fazer. seria antre elles auido por hereje. Em este regno se
faz grande justiça dos e ladrões. l\om presumem de beber ,·inho.
c aqucllc que antre cllcs he que bebeo Yinho he infame. e sera em
qualquer feito lançado fora de todo testimunho. nem reçebem outrosy por
testimunhas os que se em nauios no mar metem. porque dizem que som
homcs desesperados.
1.   13. di. lei.,l-Se a ssi.- 3. algus.- R •   2n. capttolo.- 21. honorosa-
mcntc.- :.q-25. nsaçcmos. - 3+ testimüho.
l>E .\L\RCO PACI.O
De outros (Ustunles c (ondiçóes desta tncsnul terra. Ca-
pitulo .xxvj.
Em este reg no num nasçem cauallos. e por ysso ho rcy de \'a ar e os G
7
r
outros quatro reys da prouincia de guastam cm todullos annos
muyto dinhcyro cm cauallos. Ca çcrtamentc os subrcditos rcys compram
em cada huü anno passante de dc.l mill cauallos. E nas regiões .s. de Cor-
mos. Chisi. Oarfur. Sar. c Edcm ham munos cauallos e boós. e dali\' os
. .
trazem a prouincia de l\laabar. c cnriqucçcm desto os mercadores muyto.
porque dam pella mayur parte huü cauallo por de quinhentos sagius
de prata. que sobem a \·alor de çcm marcos de prata. Em aqucllc rcgno os
cauallos todos morrem em huü armo pclla mayor parte. ca nom podem hy
muyto \'iuer. c por csto cm todollos annos lcuam la outros. e tem poucos
alueitarcs ou nenhuüs. E os mercadores se auisam quanto podem que nom
vam la alueitarcs de outras terras. ca aquclles lndios per sy mesmos num
sabem curar Jus cauallos. Outrosy ho aar daquella terra hc mujtu contrairo
aos cauallus. Se algüa cguoa grande hy conçcbcssc de grande cauallo. nem
por ysso num faria cauallo se nom pequeno e de nenhuü valor c com os pees
tortos. assi LJUC num pode ser pcrtençente pt:ra caualguar. Em esta prouincia
dam a comer aos c:.lllallos carnes cozidas com arroz. c an1da lhes dam ou-
tros manjares cozidos . ...\IIi num naçe outro pam se num arroz. porque a
qucentura hc hy muy sobeja. c por tanto andam nuus. Nunca ham diUua
se num cm Junho. Julho e .Agosto. e se num fosse aqucsta duma destes trcs
mt:scs que da temperança ao aar. nenhuü nom poderia hy viucr pella sobeja
quentura. Em esta terra som todas as aues num semelhantes aas nossas. po-
rem as alimarias querem parcçcr aas nossas. Ha hy açorcs pretos assi como
coruos. e mayorcs que os nossos e sabem muy bem caçar 1-. ha hv
huüs mnrçcguos grandes assi como açures.
Da çidadc onde jaz ho corpo Jc san1 T01ne apostolo. c
dos n1ilagres que se fazen1 por seus tncrcçin1cntos. Capi-
tulo .XXYij.
A prouinc!a de 1\laabar .s. na lndia mayor ja.l hu do apostolo sam
Tome que rcçebcu cm aquclla prouincia martirio por Christo. l-lo corpo he se-
pultado cm húa pequena çidadc. a qual poucos mercadurcs 'am. porque : 6;, v
num esta cm lugar pertençentc pera mercadorias. lia hy muytos christaãos e
tos mouros de aquellas terras. que a mcudc visitam .a sepultura do apos-
1. outras -ti. mil.- 11. ca\·allus. · q. ynJios.-   22. cn .Junho.- fosc.
li O I 11 IH J ·1 I·.IU "EIIH J
t"lo. c ho tem cm grande n:ucrcnça. ca ditem (]Uc clle loy buú granJe propheta.
c l:hamamno que quer dite r homé sanct,J. E ü!-t que visi-
tam ho apostolo. tomam da terra onJe o apiJstoi(J foy morto ()UC hc \ermclha.
c lcuamna cons:guo c Hll rcuercnça c muytas \ ctcs com clla !-.C fatem to,!,
milagres. E essa mesma terra cm vi11ho (Jll cm aguoa quacS-JUer
enfermos que csto bebem. som liurcs de muytas c grande!-. enfermidades.
anno de nosso Senhor Jc mi li c Jui'entos e tenta oyto. huú gram
príncipe daquella terra apanhou no tempo das nou=dadcs grande multidüm
de arroz. c porque num tinha casas a sua ,·oontadc onde ho pooer. ocupou
todas as casas que pcrtençem aa ygreja do apostolo poendo em cllas seu
arroz contra voontadc dos guardadores do lugar. que ho roguauam que nom
ocupasse os lugares onde os peregrinos que visitam a sepultura do apostolo
auiam de ser H o apostolo lhe aparcçeo húa noyte em visam. tcendo
huü pedaço de ferro cm a maão. c poendolhc sobre a garganta jazendo cllc
dormindo. c disselhe. Se nom liurarcs logo as minhas casas que a tua so-
berba injuriosamente acurou. forçado te sera de morrer maa morte. Elle
acordandt> logo comprio ho que ho apostolo mandara em aquclla visam.
E os christãos deram ao bemauenturaJo apostolo confortados da sua
Yisam. CJ. clle publicamente contou a todos aquella visam. )luytos outros
milagres e marauilhosos se fazem ally a roguo do apostolo em louuor da tfe
christaã.
Da vdolatria dos pagaaos daquella terra e das suas leYs.
Capitulo .xxviij.
Em a .rroumc1a de 'Iaabar todos os moradores assi homes como mo-
lhcres som negros. empero nom nasçem assy de todo negros. mas por arte
emadcm em sy a ncgrcgura per fremosura. Ca Yntam os meninos trcs ,-e-
J'es em a somana de olco de girgilim. e por esto se fazem muyto negros.
E aquellc tem por muyto mais fremoso que for mais negro. Os ydolatras
G8, r que som antrc clles. fazem as ymagecs I dos seus deoses muy negras. E di-
zem que os deoscs c os sanctos som todos negros. e pintam ho diaboo bram-
co. dizendo que todollos diaboos som brancos. E quando aquelles que ado-
ram ho boy Yam aas batalhas. cada huü leua consiguo dos cabellos do
boy montes. E os caualleYros atamnos aos cabellos do biscoco de seus ca-
. - .
uallos. c os homês de pee os atam aos seus proprios cabellos. ou em as
coxas. E crcem que ho boy montes he de tanta santidade. que qualquer
que sobre sy teuer dos seus cabellos. sera seguro de todo perijgo. E por
ysso os cabellos dos boys monteses som antre clles de grande preço.
9· orwz.- poecr.-   teem.- 29. negros.
DF .\1 \HCO I'Al"l O
Do regno de c de con1o se adHHll en1 clle os
d) mnantcs. Capitulo .:\:\ix.
Alem do rcgno de !\babar ndo pcllo 'ento do norte per mi li
lhas hc achado ho regnu chamado .Murfili. ho qual num hc tributario a al-
guu. 0:' moradores d.cllc comem lcyte carnes c arroz. F som ydolatras. Em
alguüs montes deste rcgno se acham pedras preciosas dyamantcs. que
pois das chuuas vamse os homrs aos ryos. porque dcsçc agua dos montes. e
poys que se seca a nos ryos. buscam anu·c as arcas c acham muytos dia-
mantes. E bem assy no verac.ío em tempo de grande qucentura as ham em esta
maneira. Sobem aaquclles montes que som grandes. com muy grande
pena c trabalho pella muy grande quentura que hy ha. E pcrijgosa cousa hc
sobir a cllcs pcllas grandes serpentes de que hy ha grande multidom .. \IIi som
uutrosy antre os montes alguüs \·alies assy çercados de todallas partes de
rochas c penedos aos quacs ncnhuü homé pode chcguar. Em aqudles
lcs ha muytas pedras dyamantes. E cm os ditos montes ha muytas aguyas
brancas que alli moram. porque se mantem das sobrcditas serpentes. E por
tanto aqucllcs que querem aucr os dyamantes daquellcs vai !cs. lançam muy-
tos pedaços de carne cm ellcs. que pclla mayor parte cahem sobre os dya-
maiHcs. F as aguyas quando \'Cem as carnes. ou as comem ally. ou as tra-
zem aos penedos. e comcmnas. E os que estam aguardando as aguyas. c se
as \·cem sob ir aos montes com as carnes correm per a aly. se h c luguar onde
I ellcs possam hyr. c as aguyas dalli fura lançadas tomam as carnes cm as
quaes acham os dyamantes t]UC ,·em apccguadas em cllas. E se as aues
comem as carnes nos vallcs. \"amse despoys onde as aguyas dormem. E
porque cm comendo soem as veLes de engulir os diamantes que cm cllas
som apcguados. c a..:ham os cm ho lixo dcllas. E per esta maneira se acham
os dyamantcs cm grande multidom. nem se podem a..:har cm outra parte de
todo ho mundo. Os rcys e senhores desta terra cumpram os dyamantcs me-
lhores e mais frcmosus pcra sy. e os outros mandam os mercadores pdlo
mundo. Em esta t{'rra se f.tz bocas\· mais sotil c mais frcmusu que seja cm
ho mundo. Em esta rcgiom sum os carncyros mayorc'\ que cm todo hu
mundo. porque hy ha muy grande abastança de mantijmcntos.
Do rcgno de Load1. Capitulo .:\XX.
Quando outra \'ez Jesçem da prouincia de do onde jaz
ho corpo do apostl'lo sam Tome. e ,·am pcllu \·cnto hc a..:hada a
q.   17.   pcJJ,,.-21. h·.-:.!1;. ap..:gu:•da..;.
ff () I Jl!rH> T EHU·:J U O
prouincia a que chamam l.oach. unJc 'iucm os Bram.mus. os lJU3C\ muyto
auorrcccm a mentira. que por cousa que fussc nom diriam mentira. Som
outrosy muyto castos. c caJa huü se contenta de sua propria molhcr.
se guardam muy bem de roubar c de lcuar nenhüa cousa alhea. Elles nom
bebem ,·inho. nem comem carne algüa. nem matam alimaria algúa. Som
yJolatras. c seguem os a:;oyros. Quando querem algúa cousa auer ou com-
prar. primeiramente consijram a sua propria sombra no sol. e segundo
do seu error lhes dizem. assy proçedcm em aquella mercadoria. Som
muyto escassos no comer. c fazem grandes abstinençias. som muyto.
l\luytas vezes husam hüa hcrua cm ho comer que muyto aproueita aa diges-
tom. Nenhüas ,·czes se tiram ho sangue per sangria. Antre elles ha alguús
religiosos naquclla terra c som } dolatras. que por rcuerença dos seus ydolos
fazem muy aspera YiJa .. \ndam de todo nuus. nem se cobrem algúa parte
do corpo. e di.lcm que nom ham \·ergonha de andar nuus por quanto care-
  r çem de todo pecado .. \doram hü boy. e cada huú I delles traz huü boy pequeno
Jc cobre atado na fronte. E todos se ,·ntam com muy grande reuerença de
hüa vntura fena dos ossos do boL 1\om vsam escudellas nem talhadores.
. .
mas todos seus manjares pooem sobre folhas secas. que som dos pomos que
chamam do parayso. ou sobre outras folhas grandes secas. mas sobre folhas
esplandeçentes e Yerdes nom comem. nem tam pouco rayzes verdes. nem
fruytos nem bentas verdes comem. porque dizem que estas cousas
\·erdes tem alma. e por tanto nom as querem matar. temendo ser grande
pecado cometerem a morte dellas. nem matam per essa mesma razom ali-
maria algüa per ncnhüa marreyra. nem cometem pecado alguú contra sua ley.
Sobre a terra nuua dormem. e queymam os cnrpos dos mortos.
Do regno de Coylun1. Capitulo .xxxj.
Per outra parte quando se apartam do regno de contra ho vento
sudueste a quinhentas milhas he achado ho regno de Coylum. onde ha muytos
christaáos e judeos e ydolatras. H a hy proprio lingoagem. E el rey de Coy-
lum nom he tributaria a alguü. Em esta terra naçem grandes byrços e comi-
nhos. c lymões muy boõs. H a hy pimenta em n1uy grande abastança. que
os montes e campos som cheos della. Empero as aruoresinhas em que a
pimenta nasçe som domestiguas. E colhemna em mayo junho e julho. H a
ln· outros,· muna Yrsella e mu'' bõa da qual husam os tintore\TOS em
.. .. .. .. ..
grande auondança. E se faz desta maneyra de herua. a qual colhem. e
poemna em grandes ,·asos com agua. e ley:xam ha tanto tempo estar atee
que a benta seja muy bem molle assy como podre. c despoys desto ha pooem
20. cspl and,;cn tcs.
()E .\\.<\HC<> P.-\1"1 O
ao sol. que em aquclla terra muj ferucntadamcnte csqucenta. c polia grande
queentura a herua fcruc c qualha e se ajunta em huü. E dcspoys aqudla
materia partem cm migualhas assy como ha tra1em a nos. Gram pena
hc viuer em aquclla terra por a muy grande queentura que hy ha. Ca se
huü uuo for posto cm aguoa. em hüa hora pequena sera muy bem
Em esta terra ha muytas pello qual vam la muytus  
rcs de dcsuayradas na I ç<3es pella grande guanançia que hy ha. Em esta v
som alimarias mujtas num scmclhauecs aas alimarias de outras
regiuões. Ha hy lyõcs negros de todo. c papagayos a ncue.
cmpcro os pces e os tem \'ermelhos. H a hy outrosy outros papaagayos
de desuayradas maneyras mays fremosos que aquelles que a nos som tra-
zidos. H a galinhas que nom rareçcm as nossas. Esta regi um tem
todallas cousas desasemelhadas das nossas e das outras terras .s. aucs bestas
e cspcçiarias. e esto porque he quecnte s0bejamente. Nom ha hy outro pam
se nom arroz. Fazem \'inho daçuquar. Dos outros mantijmentos ha h\· em
grande auondança .. \strologus c fisicos ha hy muytos .. \ndam todos nuus
homcs molheres. cmpero todos suas \·ergonhas huü
panno fremoso. )·. som mujto luxuriosos. e todos tomam por
suas mulheres as parentas do terçeiro grau c bem assy as madrastas dcpoys
da morte do pay. E mortos os jrmãos as que tomam por
mulheres. E estu fazem por toda a India.
Da prouincia de Comar. Capitulo .:x:\xij.
Comar hc huüa rcgiom cm a India. donde se pode Ycer a cstrella do
norte. Ca des a ylha de Jaua num se pode \·eer atcc aquelle lugar. E se
alguü estiucr dentro no mar de Comar a .xxx. milhas daly \·era a
dita estrella que pareçe estar sobre ho mar a medida de huü Esta
terra hc mujto montanhosa. as alimarias della som dcsasemelhadas das
outras regiões. cspeçialmentc em os bogyos. ca som alli muytos bogios <.JUC
tem semelhança de homés. Ha hy gatos a que chamam paulcs muyto dcs-
uairados dos outros. Ha hy lyopardos c onças cm grande multidom.
Do rcgno de Helly. Capitulo .X:\xiij.
Dcspoys partindo de Comar contra a parte do ocçidcnte a tre7entas
milhas hc ho reg no de H elly ho qual tem rey proprio. c linguagem
proprio. Os moradores da terra adoram os \·dolos. H o r c v hc mu\· e
1J. de nossas.- 20. conh:tllas.- 2-1-. Jann.- 3-t-. marnJ01 cs.
\ ff o I li" HO "I UH :J:II((,
;o, r tem muy grandes thcsouros. cmpe I ro nom hc furte IH:m r(Jdcr(JS() cm multi-
dum nem fortclcza de gentes. mas a terra hc cm tam forte. que se
nom pode dos imijgus conquistar. Lm esta prouincia ha abastança de mu\·ta
pimenta c gingyure. c de outras nobres espcçiarias .. \las quando algúa naaü
que per hy por fugir a fortuna c do mar. ou pür úutra
cousa qualquer. e entra em tJUalqucr porto desta prouincia. que cheguam
la a(:aso c nom com Yoontadc e proposito proprio \"am a dlcs. os homés
J?tquesta terra per força tomam qualquer cousa que acham cm a naao. e
dizem. \"os quisestes com vossas mercadorias hyr pcra outra terra. mas ho
nosso deos c a \ ossa fortuna \·os mandarom ca a nos. E por ysso tomamos
pera nos ho t)Ue dcos nosso c a \·ossa fortuna nos quizcrúm ca mandar. Este
mal se faz cm toda esta prouincia. Em esta terra som estas c outras mu\·ta!o-
bcstiaes c custumcs.
Do regno de Capitulo
Despoys dcsto cheguam ao rcgno de que he em a lndia mayor
contra a parte do ocçidente. E tem proprio rcy c proprio linguagem. ::\om
he tributario a outro alguü rey nem príncipe. Os moradores do regno ado-
ram os ydolos. Em esta terra se \·ee outrosy ho polo esto he a estreJia
do norte. sobre o mar altura de duas braças. Em este regno e cm ho regno
de Cozurath hc açerca delle ha muytos cossairos. que em cada huú
anno destes dous regnos saaem ao mar nauios de ladroões mais de çcnto.
e tomam e roubam os nauios de todollus mercadores que passam em ho
mar. Trazem consiguo molhcrcs c filhos grandes e pequenos. E per todo ho
,-eraão som cm ho mar. e fazem com seus nauios escalas grandes no mar.
por tal que as naaos que passam nom possam escapar de suas ma-los. As
ditas escalas se fazem em esta maneyra. Pcllo traues daquelle mar húa naao
daquclles cossa:ros se alongua da outra per espaço de çinco milhas. Assy
·que .xx. naaos tomam çem milhas de mar. E quando estas naaos dos cos-
sayros Ycem alguü nauio passar. com foguo ou fumo. ou outros synaes ho
7n. v fazem saber a seus yczinhos. e aquelles ysso mesmo ho fa I zem saber aos
outros seus \·ezinhos. E assy se ajuntam quantos som neçessarios. e rou-
bam todo ho que acham em os nauius. E por esta maneira nom podem as
naaus delles escapar. mas aos homés que tomam nom lhes fazem dano nas
pessoas. mas tomamlhes os nauius e todos os bees que lhe acham. e poem-
nos vat.ios cm rybeira do mar. e d;zcmlhes. H ydeYos e trabalhae por enri-
outra \·cz. por \ entura guanhares. e assy com outras mercadorias
10. fortlía.- 12. f01tulía.- 11i.   tee:m.-1g.leia-se Jous couuoo".-22. cn ho.
- 3 1. a seus.
DE .\L\1{("() 1'.\l'l o
turnareys pera nos. Em esta terra ha marauilhosa auonJança Je pimenta e
Je gingiure. e de cabaaças. c das 1101.es de JnJia. e fcuese hy muy fremosu
bocasym. Das çida.Jes deste regnu num cscrcuo. porque hu nussu liuru se
estenderia muyto cm lunguo.
Do regno de Cuzurath. Capitulo. xxxY.
Outro regno lJUe he ,·ezinho ao regno de he chamado Cul.u-
rath. em ho qual ha rey proprio e lingoagem proprio. c esta aa parte do
ucçidentc no mar da lndia a mayor .• \IIi apareçe a cstrella do norte sobre hu
mar cm altura de scys couudos. Alli os mayores cossayros do mar yue
ha em toJo ho mundd. E quando cllcs tomam os mercadores no mar. dam-
lhes a beber tamaranJas com agua do mar. polia qual cousa padeçem cor-
rença de 'entre. E cstt) faLem ellcs. porque os mercadores quando veem de
longe os nauios dos ladrócs. custumam de engulir ho aljotfar c pedras pre-
çiosas. F assy per esta maneira ham os cossairos todallas cousas. e os
mercadores nom podem cous:t algüa esconder. Em esta prou:ncia ha auun-
dança Jc pimenta c de ging=urc. E ha hy aruores de que colhem grande
abastança de alguoJum. E a aruore que lança ho alguodom. creçe cm altura
comuümente de seys passos. c per .\X. annos da fruyh). e dcspoys dos.\\.
annos num ,·ai mays cousa alguüa. mas ho alguodom que saae da aruore
apruueyta atec doze annos. c hc hoú pcra teçer lenços delguadus. ca se pude
bem tia r. E ho outro que naçc dos doze annos pera auante 'ai pera cousa
mais grossa. como pera colchas c jubúcs dobrados. c outras taaes cousas.
Em este regno ha abastança de muy nobre coyro .. ca hy ho sabem muy bem
correger c aparelhar.
Dos regnos de Chana. Cambareth. Sctnanath e de Hos- 7'· r
nH>Lhor .. tm. Capitulo .:x:xx,·j.
I>cspo=s dcsto chl'guam por mar aos rcgnos de Chana. Cambarcth.
Scmanath. c de Husnwchoram aa parte do ocçidcntc. cm os quacs rcgnos
se tratam mercadorias muy grandes. E cada huít destes quatro rcgnos tem
pruprio rcy. c linguagem proprio. F som cm a India mayur. "'om ha hy
outras cousas que pcrtcnçcm ser cscriptas em ho nosso liuro. :\cm
menos cscrl·ui do mar de lndia. se nnm dos rcgnos_ c terras   ja7clll
J I() I.IIJJ(() ., EIH" LI I< O
.
açcrca do mar. ena de algl"aas tpac som cm aqucllc mar. porque cs-
crcucr daqut·llas terras que som dentro da terra de lndia. tra-
c se faria grande prolixidade nu liuru.
Das duas ylhas das quacs cm húa Jcllas moram ho-
més sem molhcrcs. c cn1 a outra n1olhcrcs scn1
Capitulo .xxxvij.
Alem do regno de Rosmuchoram. a quinhentas milhas nu alto mar
contra hu mco dia. sum duas ylhas a .xxx. milhas húa açerca da outra. Em
hüa Yiuem os homeês sem molhercs. e chamase por seu Iingoagem ylha
mascurna. E em a outra som as mulheres sem homês. e chamase \'lha fe-
minina. Os que em estas duas ylhas viuem som todos juntamente chris-
taãos. As molheres nunca vam aa vlha dus homés. mas os homês vam a
vlha das mulheres. e muram com ellas tres dias e tres meses contínuos. e
mora cada huü em sua casa com sua propria molhe r. E despois tornamse
aa ylha masculina. onde cuntinuadamente estam todo hu outro tempo do
anno. As mulheres criam e tem cumsiguo os meninos machos atee qua-
torze annos. e dcspoys os mandam aos seus padres. e as filhas ficam em
guarda dcllas. Estas molheres nom tem outro cuydado e trabalho. se nom
de criar a seus filhos e de çertos fruytus desta ylha. e os maridos pruueem
de mantijmentu assi e aos filhos e as molheres. Elles som muy boós pes-
7., v cadores. e tomam muitos I pexes os quaes frescos e assy mesmo secos ven-
dem aos mercadores. e guanham muytu daquelle pexe. e tomam e guardam
pera sy mesmos dacpclles pexcs em grande auondança. Elles se mantem
em leyte em carnes em pescados e em arroz. Em este mar ha grande abas-
tança de ambra. porque tomam ahy muytas e muy grandes baleas. Os ho-
mecs desta ylha nom tem rey. mas conheçem a seu bispo por senhor. e
som sogeítus ao arçebispo de Scurea. e tem proprio linguagem.
Da ylha de Scorea. Capitulo .xxxYHJ.
A ylha de Scorea se acha a quinhentas milhas despoys da partida das
ditas duas \'lhas contra ho meo dia. Os moradores som christaãos. e tem
arçebispo. Em esta ylha ha grande auondança de ambra. Alli se fazem pan-
nos de alguodom muy fremosos. Ha hi mercadorias muytas. e espeçialmente
de pe:xes. Comem carnes leite e arroz e pe:xe. nem tem outro pam saluo de
10.   q. propia.- •7·   20. lei.1-se a ssi.- 29. jlha.
OE .\1.\HCO 1'.\L'I.O
arroz. Andam tudus nuus. ,\ esta ylha chcguam muytos e trazem
as cousas que roubam em ho mar e alli vendem todo. e os outros de bóa-
mente as compram por que som roubadas aos ydolatras e aos mouros e nom
aos christaãos. Em esta ylha ha muytos encantadores antre aquelles christaãos.
e se algüa naao passa ou parte da ylha de Scorea. aa qual os feitiçeiros
quisessem que tornasse pcra a ylha. por muyto boõ tempo que lcuasse.
fazem os encantadores por arte diabolica leuantar ho vento aa naao
cm tal maneira que lhe conuem tornar atras.
Da grande ylha de .\ladeigastar."Capitulo .xxxix.
Qullndo se partem da ylha de Score:1 contra ho meo dia. alem de mill
milhas he achada a ylha de que he hüa das mayures e mais
ri ·as que som em ho mundo. H o çerco della tem em derrador (}Uatro miiJ
milhas. ( )s moradores desta ylha som mouros. que tem a ley do abomina-
uel Mafomcde. Nom tem rey. mas todo ho regimento daquella ylha he
encomendado a quatro ançiaãos muy prudentes. Em esta ylha ha mais ali-
fantes que em outra terra algüa possam ser achados em toda a redondeza
do I mundo. i-'. em todo ho mundo nom ha tanto mercado de dentes de alifantcs j2, r
como ally. e cm a ylha a que chamam Zanzibar. Em esta ylha nom comem
outras carnes se nom de camelos. porque as acham a elles serem mais saãs.
Ca em clla ha multidom de camelos tam sem conto que pareçe cousa que
se nom podcra creer. pello espanto da multidom nom ouuida. se num ,-issem
per propria vista:. Em esta ylha som muytas matas de sandalos vermelhos.
de que ha hi aruores grandes de que se fazem grandes mercadorias. Ha hy
auondança de ambra. porque cm aquelle mar tomam a meude baleas de que
se apanha. .\IIi ha lyopardos e onças em grande multi dum. e lyõcs muyto
grandes. Som hy outrosy muytos çeruos e gamas. e grandes caças de ani-
malias e aues. mas as aucs daquclla terra som muyto desasemclhauees das
nossas. c de outras feyçoões e de muytas outras que em as nossas
terras nom temos. .\ esta ylha pellas mercadorias que em ella hay vem
naaos sem conto. as outras ylhas alem desta contra ho meo dia. poucas
vezes vam naaos. se nom aa ylha de Zanzibar. pellas muy gn,ndes corren-
tes de aguoa do mar. que ligeiramente ,·am as naaos pera la. mas a tornada
vem com muy grande dificuldade. (:a essa mesma naao que do regno de
:\laahar vaa aa \"lha de cm .xxx. dias. com trabalho de  
• L
guastar pode tornar aa em tres meses. porque as correntes forço-
sas daquellc mar sempre correm pera o meo dia. L nunca se tvrna pcra
parte contraíra ho seu curso.
  idolatras.- 10. mil.- ni. achadas .

Jl o 1.11 'HO I LHCI 11<0
.
Das muy grandes a l}IIC (hamam ruth. Capitu-
lo. xl.
As naaos segundo se disse que per força ou contra sua \ ontadc \·cm
a;qucllas polia gram corrente do mar muy trigosa. cm çcrto tempo
dCJ anno se demostra ally hüa marauilhosa maneira de auc.!) que se chamam
ni'th. c som semelhantes a aguyas em ligura do corpo. purcm som cm
trema grandura. Ca aflirmam aqucllcs que as \'irom. que as pernas de húa
tem cm longuo. xij. passos. mas a grossura das pernas e do corpo corres-
pondem segundo ordenada medida. E aquclla aue hc de tanta força. que
7"1-· v hüa destas aues I sem ajuda de outra aue. filha huü alifante c alevanta ho em
alto no aar. c desy ho leyxa por tal que caya c se quebrante. e s
desçc sobre ho corpo e comclhe as carnes. E eu i\Iarco paulo quando csto
primeiramente ouui contar. cuydcy que aqucllas aues fossem griffos de que
se diz. que tem parte de aues. c em parte semelhança de besta. mas aquel-
lcs que as ditas aucs ,·irom. firme dizem que aquclla aue num tem seme-
cm parte algüa de besta. mas soomente os pees e todallas cousas tem
como a.1es. Ho gram Cham Cublay mandou mcssegeiros aqucllas ylhas
pera fazeram Iiurar huü seu messegeiro que hy fora catiuo. E sobre todo
lhes mandou que cm sua tornada lhe soubessem recontar as condições e
marauilhas daquella terra. Os quaes em se tornando trouuerom aquelle que
hi fora catiuo. e antre as outras cousas que daquellas ylhas contauam di-
ziam. que alli auia porcos monteses grandes como buffaros. e que alli eram
gyrafas e asnos monteses em grande multidom e outras animalias das quaes
semelhantes nom auemos em as nossas terras.
Da ylha de Zanzibar. Capitulo .xlj.
Despoys he achada a ylha de Zanzibar. que tem derrador duas mill
milhas. Tem proprio rey e proprio lingoagem. Todollos moradores da ylha
som ydoiatras. c som grossos em os corpos. e a altura e a grossidom do
corpo nom conucm deuidamentc aaqudla sua pruporçom. Ca se teuessem
a altura como a grossura ddlcs requere. sem duuida pareçeriam giguantes.
Empero som muy furtes. que huü dellcs tanto peso leua quanto puderam
leuar quatro homês de outra terra. E ass\· mesmo huü delles come tanto
    çincu dos nossos. Ellcs andam nuus. e som negros. porem cobrem
sua Yergonha. E tem hüa crespidum de cabellos tam espessa. que de Yen-
tura se 11uderiam com aguoa estender. A boca tem mu\· grande. e as Yen-
, . '

OE   P.-\LJI O
ta:ís dos narizes tem reuoltas contra a fronte .. \s orclha'i grandes. c os olhos
tem espantosos. ( hnrosy as mulheres dellcs per essa mesma maneyra som
muyto fcas. Ca tem a boca muy grande. as \·enta:is dos nar"zes gros I sas. c 73, r
os oulhus muyto sacados. E as maãos tcem quatro Yczcs mays grossas que
as molheres de outras terras. Este pouoo se mantem com arroz. carnes c
leyte c tamaras. \'inhas nom tem. mas fazem beberagem pcra seu comuü
beber de arroz c açuquar. c de outras dei i c adas c conuenientes espeçias. II a
hy muy grandes mer..:adorias. cspeçialmcntc de ambra. c dentes dalyfantcs.
ca som hy muytos alyfantcs. E no mar desta ,·lha se tomam grandes baleas.
Os homés desta ylha som muy Yalentcs e ardidos guerreadores c muy
crucc·s. c nom parcçc cm cllcs que temem a morte. Cauallos nom tem. mas
com alifantcs c camelos vam aas batalhas. ca fazem sobre os alifantes cas-
tellos de madeira de tanta altura. que sobre huü castello pelejam .x,·j. ou
.xx. homcs armados pera a batalha com lanças c espadas c pedras. E som
os ditos castcllos cubcrtos de tauoado. E quando ham de hyr aas batalhas.
primcyro dam de beber aos alifantcs a.Juclla nobre beberagem que os po-
uoos pcra sy fazem. pcra serem mais audazes a se acheguar sem reçco. c
csto por azo do dito beber. Em esta ylha som muytos lyões desascmclha-
dos dos lyões das OLJtras terras. H a hy lyopardns c onças cm muy grande
multidom. E assv as alimarias desta \"lha som desascmelhadas das alima-
. -
rias que h a cm outras terras. H a hy \'eruetas brancas. que tem a cabeça
preta. e taacs som todas as que ha em aquclla ylha. E ha hy muytas gyrafas
que tem ho collo longuo per tres passos. as dyanteiras pernas tem longuas.
e as trazeiras tem pequenas. c as cabeças ysso mesmo tem pequenas. c a
coor dcllas hc desuayrada .s. branco c vermelho. F tem per todo ho corpo
rodas distintas c per todalas partes espargidas. Som alimarias mansas as
ditas gyrafas nem f:.fzcm mal a alguü.
Da tnultidmn das ylhas de lndia. Capitulo .xlij.
Nom embarguante que cm muytas da India cscrcuessc. cmpcro
nom escreui se nom das mais ylhas. que das ylhas que lcyxey
de fallar som sogcitas aas uutras ylhas per my declaradas. F çertamente a
muhidom das ylhas hc tanta que I as condições ddlas nom se poderam per 73, v
alguü homé que \'iua de contar. segundo aftirmam os marinhcyros
c grandes daqucllas terras. esto se ha por escritura c nota
dos compassos do mar de lndia. Em este mar de India som as ylhas todas
em numero do7e mill c scteçentas ylhas. ass\· di1.em pouoadas e nom
pouoadas vniucrsalmcnte contando.
lO
I lo LIIJJ<O "I EIH_:J-JH()
Da prouincia de   Capitulo .xliij.
De(.raradas sumariamente as principaes ylhas e regiões da India mayor.
que se estendem da prouincia de :\laabar atce ho rcgno de H.osmochoram.
c outrosy da India menor. cujos estrcmos som do regno de Cyamba atcc
ho rcgno de :\lorfili. Agora brcucmcntc descorramos pcllas terras mais
da India mediaã. a que per cspeçial noiJlc chamam .\bastia.
OnJe Abastia hc hüa grande prouincia que se parte cm sete rcgnos. cm
que ha sete reys. dos quacs huú que hc senhor de todos he christaão. E os
outros som partidos cm duas partes. Os tres dclles som e os
outros trcs som mouros. Os christaãos desta terra tem huú svnal douro
em a fronte cm maneira de cruz que lhe pooem quando se baptizam. E os
mouros destas terras tem huú sygnal cm a testa longuo atee ho nariz. E
ha cm esta prouincia muytos judeos. que com ho ferro queente som signa-
dos em ambas as queixadas. Ho mayor Rey e os outros reys christaãos
viuem dentro na prouincia. mas os mouros moram em os regnos dos extre-
mos da prouincia contra a prouincia de Adem. Em esta prouincia de Adem
preegou ho bemauenturado apostolo sam Thome. que muitos pouoos
conuerteo a Christo. E despoys se passou ao regno de   onde des-
poys que muytos conuerteo foy de martyrio coroado. E alli he sepultado
ho seu sancto corpo segundo em çima he ja dito. Em esta prouincia os
christaãos som muy boós caualleyros valentes e ardidos em armas. que
açerca ham continuadamente guerras com ho soldan1 de Adem. e com os
Nubianos. e com outros mu,·tos que som em as terras de todollos cabos
em rrcdor e (.Omarcas.
De huú bispo christaão que ho soldan1 de Adem fez cir-
cunçidar forçosamente por injuria da tfe christaã. e em
desprezo do rey de Abastia que ho la 1nandou. e da
grande vinguança que foy feyta per aquella injuria. Ca-
pitulo .xliiij.
Em ho anno do nosso Senhor de m!ll e .cc. lxxxviij. ho principal rey
desta prouincia de Abastia quis hyr visitar ho sepulcro do nosso Senhor
em Jerusalem. E decrarando ho preposito de sua deuaçam a seus barões.
foy per elles aconselhado que nom fosse la per pessoa. porque temiam que
lhe viesse algüa cousa em contrairo no caminho. por quanto auia de passar
PAULO
por terra Jc mouros. E que por tanto lhe   que cnuiassc huú
san(:to bispo daquclla terra ao san(:to scpukro. c que per cllc mandasse os
doóes c olfcrcçimcntos Je sua deuaçam. l· clle (:OnscntinJo a seus conselhos
manJou I a com solcnnc olfcrta ho dito bispo. H o qual tornanJosc e pas-
sando polia terra del rcy de .\dcm. cujos moradores som mouros. c ham os
christaáos cm grande odio. I lo dito rcy de .\Jcm prendeu ao dito bispo ou-
uindo que era christaáo c cmba xadur dcl rey de .\hastia. E quando h o bispo
foy apresentado ante cl rcy. h o rcy h o ameaçou duramente. dizcndolhc que
se nom ncguassc h•J nome Jc Christo e reçcbesse a ley de 1\Iafomedc. que
morreria por cllo. ho bispo com forte coraçom cm a ffcc pcrscucranl.lo.
per (:rara voz c de voontade se olfcrcçia a morte. ante que ser partido da
lfcc c caridade de Christo. l·. cmtom ho soldam de .\dem ,·ccndou assy firme
no prcposito. per força ho manl.iou cir(:Ltnçidar cm desprezo da lfcc (:hris-
taã e do seu rcy de .\bastia. E ho leyxaJu c assy ja dr(:unçidadu che-
gou ao seu rey de .\ bastia que era christaáo. E quando el rey ouuio as (:OU-
sas que açcr(:a delle eram feytas per aquclla muy grande indignaçom. foy
yrado. c ajuntado grande cxerçitu de gente c alifantcs com (:astellos moucosc
com sua hoste contra as terras do rcy de .\dem. ho soldam de Adem
auendo cm sua companhia dous reys outrosy com grande lhe ,·eco
em(:ontro. c (:Omctcrom batalha huü (:Ontra ho outro. E seendo muvtos mor-
tos do rey de .\dcm. ho rcy I de \bastia fi(:ou vcnçeJor. E loguo scguyo ao 7-b v
dito rey de .\dcm e foy tras clle atce dentro cm sua terra. os mouros
qucrcndolhcs (:ontradizer que nom entrassem. em tres lugares forom sem-
pre vcnçidos do exerçitu do rey de .\bastia que os scguya. I· dcspoys das
victorias todas anJou per huLi mes dcstruyndo continuadamentc as ditas
terras. com grande honrra se tornou a seu proprio regno. E ass\· foy a
cnjuria dcl rey de .\de"m muy bem Yinguada.
De dcstta\Tadas alin1arias da prouinLia de .\bastia. Ca-
pitulo
H o pouoo de .\bastia se mantem cm (:arnes. lcyte. arroz. c azcytc de
girgilim. ·\ lly h a muytas çidadcs e vi lias. e grande multidom de h ornes. li y
se tra(:tam grandes mercadorias. E ha hy pannos de bocasym e de a!guodom
muy ri(:os e cm grande auondança. \lly som mujtos •alifantcs. e nom na-
çem hy. mas traLcmnos de outras ylhas de India per a ally. \lly naçcm
muytas gyrafas e lyopardos. onças c outras alimarias desascmelhadas das
m.ssas . .:\ lly h a asnos monteses. c aues de dcsuayradas. mancyras. as l}Uacs
10. :morcria.- 26. aa seu.- 2R de csuayradas.- 3-t-- tratcmnas.
fio I llli<O "I EIH Ell<O
.
nos norn aucmos. li a hy galinhas muy fremosas. c caãcs grandes como as-
nos. Ally ha caças de animalias c Jc aucs. r outrosy de papagayos ha hy
muytos c frcmosos Je desuayradas maneyras. E som alli bugios de muytas
maneiras c guatos paulcs. c guatos mcym(Jóes. que de todo parcçc que tem
semelhança de homcês.
Da prouincia de Aden1. Capitulo .. \h·j.
A prouincia de Adem tem proprio rcy. ao qual cllcs chamam soldam.
Todos os moradores desta terra som mouros. e tem grande odio aos chris-
taãos. Ally som muytas çidades c castellos. Esta aHi outrosy huú nobre
porto. ao qual concorrem muytos nauios de lndia. que trazem muytas espe-
çias aromaticas. E os mercadores que as ally compram. dalli as leuam a
7S, r Alixandria. E dos I nauios deste porto as mudam em nauios pequenos. e per
sete jornadas as leuam per huü ryo. despoys as poeem sobre camelos. e
per .xx. jornadas Yam com os camelos atee que cheguam ao ryo de AI yxan-
dria. e alli as poem outra yez em nauios. e as leuam atee a Alyxandria. E
este he ho caminho mais ligeyro e mais breue que os mercadores podem
fazer que leuam as. mercadorias e espeçias aromaticas da India pera Alyxan-
dria. E per este mesmo caminho leuam os mercadores muytos cauallos a
India. E por ysso ho rey de Adem reçebe em este porto grande renda das
mercadorias que leuam a India per sua terra. que aquellas rendas e prouey-
tos som sem conto. e por esto dizem que he huú rey dos mais ricos reys
que som em ho mundo. Quando ho soldam de Babilonia çercou a çidade
de Acchom. e ha combatva no anno de mill e duzentos. ho soldam de
Adem lhe mandou em ajuda delle .xxx. mill homeês de cauallo. e quarenta
mill camelos. E nom fez csto por amor que elle assy ouuesse ao soldam
de Babilonia. mas soomente porque com muy grande odio auorre.;ia os
christaãos. Alem do porto do regno de Adem a quorenta milhas. esta húa
muy grande çidade chamada per nome Esterim dessa mesma prouincia. a
qual he posta aa parte septemtrional do regno. que tem sob sy muytas
çidades e castellos. e he sogeyta ao senhorio de Adem. Aç:erca desta çidade
esta huü muy nobre porto. E todollos moradores desta terra som mouro.s.
Daqueste porto leuam os mercadores tanta multidom de cauallos e tam sem
conto aa India. que de tanta multidom de Ycntura ho poderiam creer aquelics
que ho contam. Em esta prouinc!a ha muy grande abastança de ençenso
branco. ho qual saae em gotas de hüas aruores pequenas. que som seme·
lhantes as aruorcs chamadas abies. Ca os moradores da terra fazem muv-
12. os mudam.- 3+ leia-se a que ho contam.
l>E ARCO PAVIO
tas cortaduras cm as touas daqucllas aruores. c daqucllas cortaduras saacm
fora as gotas do ençensu. E essu mesmo posto ttue lhe num façam aqucllas
cortaduras. muyto daqudle liquor corre dcllas. polia muy grande quccntura
de aquella terra. e dcspoys como se qualha cndurcçe. H a outrosy muytas
palmas. que auondosamentc dam boóas tamaras. H y I num nasçc pam alguú 75,"
se nom arroz. c daqucllc pouco nasçe alli. e portanto lhes hc ncçessario que
de outras terras lcucm mantijmento pera alli. Pescado ha hy em grande
auondança. e espeçialmente muy buõas toninhas saborosas c grandes. Carc-
çcm de vinhas. mas fatcm muy nobre vinho de tamaras c de arrot c de
açuquar. Fm esta terra som os carneiros pequenos. os quaaes de todo nom
tem orelhas. nem buracos alguüs em luguar de orelhas. mas onde as outras
alimarias tem orelhas. ally tem elles dous cornos pequenos . .As alimarias de
aquclla terra .s. cauallos. boys. ouelhas. c camelos som acustumados a comer
pescado. e aquellc hc ho seu comuü manjar de cada dia. porquanto aquella
terra polla grande queentura he assy seca que nom gcera hcruas nem pam.
pella qual cousa dam aas alimarias pescados a comer. Mas cm tres meses do
anno se faz ally maraüilhosa pescaria de pexes .s. cm .\larço Abril e Mayo.
em tal mancyra que he muy grande espanto de vccr tam grande multidum
de pcxcs. Aqucstcs pexes secam. c per todo ho anno os guardam. c assy
mesmo em todo hu anno ho dam aas alimarias. c assy as ditas alimarias de
aquella terra comem os pexcs frescos assy como os secos. aynda que mays
som acustumadas aos secos que aos frescos. Fazem outrosy os moradores
daquesta terra paães biscoutados dos subreditos pexes cm esta mancyra.
Talham bem meudos aquclles pexes grandes. c aquellas peças meudas
molham e amassam e mcsturam cm sembra. ass\' como se faz de farinha.
"'
quando se cunfaz a massa do pam. E despuys poem aqucllcs paãcs ao sol
c sccamnos. os quaes assy guardam muy bem pcra todo ho anno.
De hua terra onde os Tartaros n1oran1 cn1 a parte sc-
pten1trional. Capitulo .xh·ij .
.Acabadas aquellas cousas que da lndia c de algúas terras Jc Ethiopia
ordency de contar. agora ante que faça fym ao nosso liuro. turnarcy a
algüas terras que estam cm ho   as quaaes estam em as estremas
partes do aguyom. de que em seu I luguar dcyxcy de contar cm as partes de jG, r
çima liuro. por ra1om de abrcuiar. Em alguüas terras que estam
situadas no termo do aguiom alem do polo artico. csto he alem do norte
moram muytos Tartaros. os quaacs tem rcy que hc da gccraçam do muy
12. tem ellas.- 3J. faço.
Jfo I H'I<O 'f J·IH'JIHI)
gt·am rcy dos Tartaros. E!->tcs Tartaros guardam os custumes c çcrimonias
dos seus antcçcssorcs antijguos. os nd:t som verdadeiros c direita-
mente (hamados Tartaros. 1-" S(Jm tod,Js \'dolatras. e hcmrram huú dcos
a que chamam Yatigay. ho qual pensam ser senhor da terra e de todas
aquellas cousas que della s<,m prodLii'Íoas. E p<;r tanto ho chamam da
terra. 1·. aaquestc falso dcos   ydolos c ymagcrs de feltro. segundo ja
outros Tartaros foy dito. Aqueste pouoo !l(Jm mura em çidadcs. nem
em castellos. nem cm villas. mas cm os montes c campinas daquclla regiom
fazem sua habitaçam. E som em muy grande multidom. I: nom ham pam
alguCt. mas mantemse em carnes c em leyte. e 'iuem em grande paz.
porque ho seu rey a que elles obcdeçcm todos os guarda cm bõa paz.
Outrosy de camelos e de boys e de ouclhas c cauallos. e de outras
"' "'
alimarias desuayradas ham em muy grande muhid<;m. Ha hy asnos monte-
ses muytos. e hüas alimarias pequenas a que chan?am rondes. que_ tem as
pclles delicadas muyto. e som chamadas zebelinas. de que ja emçima no
segundo liuro. capitulo .xx. foy feyta mençam. Ally ha veyros em muy
grande auondança. As pellcs dos quaes som muyto delicadas. E em aquesta
terra som hüas alimarias muyto grandes segundo sua geeraçam. que som
chamadas ractifaraonis. E destes filham cm ho tempo do vcraão. e em
tanta auondança. tanto que de 'entura comem outras carnes em aqueHe
tempo. H a hy outrosy em todo aquelle tempo muy grande abastança de
alimarias monteses. porque a terra he muno montanhosa. e por ysso
matam muytas dellas.
De hua outra terra do aguyan1 a que pello lodo e gelo
111uy grande non1 poden1 hyr se non1 con1 muy grande
dificuldade. Capitulo .xh-iij.
76, v f:m as terras Yczmhas da sobrcdita terra esta húa outra regiom ou co·
marca. sob ho senhorio do sobredito rey. em que moram homeês que filham
hüas alimarias pequenas que tem as pelles delicadas. e som rondes de que
ja dissemos. Outrosy arminhos. Yeyros. raposas negras. e outras semelhan-
tes animalias. das quaaes todas hy ha em muy grande multidom e sem conto.
!\Ias os homeês que em os sobrcditos montes moram. assy artificiosamente
com boom engenho as sabem filhar. que poucas podem escapar das suas
maãos. Aaquelles luguares nom podem hyr cauallos. nem boys. nem asnos.
nem camelos. nem outras alguüas alimarias pesadas. porque aquella terra
tem em os chaãos laguoas e fontes e pauus. E pellas muy grandes frialda-
11. porqne.- 3I. mny.
DE 1.\I<CO P.-\l"LO
dcs da terra. que em todo ho tempo faz regelo em aqudlas aguoas daqucl-
las laguoas. em tal maneira <.]UC nau i o alguú num pode por hy passar. nem
ho regelo nom he de tanta fortele1.a que possa soportar cousas poderosas.
ou alimaria pesada. I· num menos cm todo ho outro chaão fora das laguoas.
polias aguoas que correm de muhidom das fonks. assy he chcea de lodo.
que nenhuüa carreta. nem alimaria pesada. nom pode per hy passar. Estende-
se esta terra per doze jornadas. l\Ias por quanto ha hy tam grande muhi-
dom de pelitaria de pclles de grande preço. das quacs se pcrcalçam grandes
guanços. E por ysso os homeés daquella terra acharom hüa tal maneyra
per a os mercadores de outras terras. que a clles quiserem hyr. ordenarom
huüa inuençam desta mancyra. I\ o começo da   ra jornada daquellas
duzc jornadas cm que se estende aquclla terra segundo ja dito hc. esta hüa
rua que tem tas casas cm que viucm homês que trazem e reçcbcm os
mercadores. E cm cada hüa daqucllas casas som criados caáes grandes assy
como asnos. ate quorenta. E estes taacs caães sorn acustumados e ensyna-
dos pcra trazer as corças. a que :1lguüs chamam rojadoyras. c csto hc hüa
cousa que trazem arrastrando sem roàas. assi como cm as nossas terras lm-
sam cm os montes. e a h[ia destas arojaJoyras a que chamam corças atam
scys I caãcs segundo pcrtençe. e sobre aquellas corças pooem pelles de \'ssos. 77, r
subrc as quaes \·am dous homês assentados .s. ho mercador que vaa pollas
pellcs. e ho carrctciro que rege c cndercnça os caães. c sabe ja muy bem ho
caminho. 1·. por quanto aquclla corça he de madeyra. e muyto lcuc. c de
ba\·xo hc chaã e mu\"to lisa. e os caãcs som mu\· fortes e acustumados
- - -
aaquestc otlicio. E nom poocm grandes carrcguas sobre aqudla corça assy
que os caães ligcyramcnte ha tiram pclla lama. assy que aquclla corça nom
pode muyto entrar em aquclla lama por azo de tam rijo tirar. 1·. quando chc-
guam aa outra pouoraçam que h c cm tym da jornada. em tom h o mercador
tuma outra guya que ho leua pera segunda jornada. porque os caáes num
poderiam suportar. nem aturar. por aqucllas doze jornadas cm aquclle tra-
balho. E ho carreteiro com seus caãcs tornase pera sua morada.
E assy aquellc mercador cada jornada muda os caãcs c a corça e a guya.
E assy os mercadores cheguam aos montes e compram suas pclles. E per
essa mesma maneira se tornam com ellas compradas pera sua terra. Da-
quclla pellitaria se fazem cm aqucllc.ts terras grandes proucitos.
J)a terra das treeuas. Capitulo .xlix.
!\as postumeyras partes do regno dos Tartaros. de qut· agora cmçima
fallamos. esta hüa outra terra. nas postumcyras pouo;!ç6::s da parte do se-
•7· arastranJo.- :u. lija.- J7. Jc.
J I o I.IUHO TEHCEIHO
ptcmtriom.     terra he chamada terra de (Jbo;curid(Jm. porque ho sol
nom aparcçe hy grande tempo do anno. c ho aar he ally escuro aa maneyra
dantrc lobo c cam. (h homês desta terra som frcmosos c grandes c de boõs
ccrpus. mas som to amarclüs. tem rey nem príncipe CUJa jur-
diçam sejam so3citos. mas som homês de costume dcslouuados. e viucm
bestialmente. os que viu(:m açcrca destes   muytas ve-
zes entram c conquistam aquclla terra obscura. e os roubam e lhes leuam
"
scl.1s beês c alimarias c lhes fazem grande dano. 1·. por quanto nom se sa-
beriam tornar pcra sua terra pella obscuridom do aar. caualguam em eguas
que tenham. filhos. e os filhos dcllas fazem retcer per guardas na entrada
í7, v daquclla I regiom. E dcspoys que tem filhado a enpreza cm a terra das trec-
uas. e se querem tornar aa terra da luz. soltando os freos aas suas egoas
liuremcntc as leyxam hyr pera onde cllas querem. e as cgoas desejando seus
filhos tornamse aos lug:tres onde os leyxarvm. os que vem sobre
cllas. Os mora...iores desta terra tomam arminhos e veyros e raposas. e ou-
tras semelhantes alimarias que tem as pelles delicadas e brandas. e tem
dellas em grande abastança. e as trazem aas terras da luz. que som mais
açerca vndc percalçam grandes proueitos.
Da prouincia de Rossya. Capitulo .1.
A prouincia dos Rossos he posta rnuy rnuyto contra ho norte. Os rno-
t·adores desta prouincia som christaãos. e guardam os custumes dos gregos
em os officios edesiasticos. Som homes aluos e rnuyto frernosos. e todos
assi homês como mulheres tem os cabellos louros. E som tributarios a huú
rey dos Tartaros cujos vezinhos som contra a parte do oriente. Alli ha grande
n1ultidum de pelles de arminhos. e de zebelinas e de Yeiros e de raposas. Ha
hy outrosy muytas minas de prata. E a terra he !argua. e estendese atee ho
mar ocçeano. En1 aquelle mar som ylhas em que nasçern e tornam girofalcos
e herodios. os quaes despois dalli som leuados a outras desuayradas terras.
  a Deos louuorcs.
pello.- 12. teera.- J8. reralcançun.
Cmneçase ho liuro de "\icolao Vcncto. escripto pello tnuy 7R r
eloquente orador Pogio florentitn. Endcrençado ao Sere-
níssimo c lnuictissimo Rcy c Senhor Dom Emanuel
o pritneiro. Rey de Portugual c dos Alguarues. etc.
Tralladado de latín1 cn1 lingoagen1 portugues per Yalen-
tyn1 fernandez Aleman1 Escudeyro da n1uy exçcllentissin1a
Havnha Dona Lyanor. do qual ho prohen1io se segue.
l>rohen1io.
Todollos homcs que desejam ser melhores que as outras alimarias.
com suma diligencia dcuem trabalhar que nom passem a ,-ida cm silençio
como as bestas. as quaes a naturalcl'a formou inclinadas a ubedeçer aa sen-
sualidade c apetito do \"entre.   toda nossa força sta no animo c nu
corpo. Do animo husamos per a mandar. dn corpo per a ser ui r c obcdeçer.
Em ho huü partiçipamos com a primeira causa l]Ue he Deus. ho outro tecmos
cumuü com as bestas. pdlo l]Ual com as forças do ingenho   glo-
ria. 1--. puys a 'ida que te e mos hc breuc lcyxar memoria de nos a mais
longa l}UC podemos me parcçe melhor que num com as forças do corpo. Ca
a gloria das ril]UC.t.as e fremusura hc transitoria c quebradiça. c soo a Yir-
tudc hc stimada csclareçida c eterna. E assy as cousas por as quaaes os
homccs trabalham naueguam c edificam. todas aa virtude obcdcçcm.  
muytos dos nasçidos forom dados ao ventre c a sono. sem saber policia. c
como peregrinos passarum a \ida. aos quaacs   natura lhes foy dado
ho corpo em prazer c a alma cm nojo. daquestes a vida c a morte cstymo
por huü ygual. porque de húa nem de outra nom se f•!lla. L suo aquelle me
11. indin:u.los.- I..J· partici.;ipamos.
j,HOIIEMIO E\1 110 llüHO IJE \\COI AO \ EI"J-:ro
parc'.YC que \'iuc c se apruucyta da alma. lw qual cm algúa ocupado
busca fama. ou de algüa arte bCJóa ou de algúa esclarcçida façanha. E por
78, v ysso consijrando que a nos I sa vida nom dcuc cm si)cnçio. por
descanso antrc os grandes trabalhos corporacs que tcnhr, por
de ,-ida c honrra cm a 111U) nobre arte imprcssuria. c quis ocupar ho enge-
nho c tralladar este presente liuro de ycolao v e neto de latim cm  
portug11cs. II o qual csacuco h o mu} eloquente orador Pogio florcntim.
Sccrctairo dtJ sanctissimo padre Eugenio ho quarto. Ho qual :\ycolao dcs-
poys di.! .XX\". annos que auia passado cm Asya muytas tribulações por mar
c pu r terra. renegando a fcc de Christu se tornou a \' eneza. c daiJy se foy
ao padre sancto pedindo pcrdom de tam grauc pecado. ho qual lhe deu cm
pcndcnça c com juramento que dissesse a ,-crdadc de todallas cousas que
lhe pudiam lembrar aucr \is tas cm aquellas partes oricntaaes a seu secrc-
tairu Pugiu. Ho qual querendo seguir a do.:trina dos cstuycos sabcdvrcs
\'aróes. que todas as obras dos mortacs deucm ser feitas pera comuú prv-
ucito. e por ysso partio bem seu trabalho. fazendo parte de marauilhas a
mujtos de cousas ignotas c mal conheç ·das. escreuendo os mares c prouin-
cias e regnos por onde ho outro passara. por huú stilo muy mais eloquente
que ho eu tralladcy. E nom pos mentiras nem marauilhas per elle fingidas
mas ho çerto que ho outro vio c tocou. como pessoa a que saber virtude
discreçam c ,-crdadc aconpanhauam. E me moueo de tralladar e ajuntar
ho presente liuro ao de Marco paulo. ho seruiço que nysso espero de fazer
a Yossa Sereníssima magestade. em auisar e amoestar os vossos subditos
de cousas perijgosas que em as Indias ha. c onde ha christaáos e onde mou-
ros uu ydolatras. e dos grandes pruucitos e riquezas .s. pedras preçiosas e
cspeçias aromaticas. ouro e prata. onde e em que lugar cada huú naçe. pera
reçeberem alguü refrigerio e consolaçom aquelles que vossa reall Senhoria
manda em busca dellas por tam longo e trabalhoso caminho. E ajnda por-
que este liuro falia mais particularmente de algúas çidades de India a nos
outros ja descobertas. como som as de Calicud e Cochym etc. E mais por
dar testimunho ao liuro de Marco paulo. que andou em as partes orientaes
no tempo do papa Gregorio hu     e foy ho seu caminho contra a parte do
norte pera as terras do gram Cham. E este outro despoys em ho tempo
79
, r deste papa I Eugenio ho quarto se foy pera parte do sull e achou as sobredi-
tas terras. e estas forom as causas da presente tralladaçam. Ajnda que se
me faz muy graue ho tralladar de latym em lingoagem. conhecendo os defec-
tos que assy cm ho soom das clausulas. como em a Yerdadeira signiricaçom
de muytos vocabulos. que de neçessario Yem as tralladações de hüa lingoa
em outra conuem de fallar per çircunlocuções ou rodeos. Ca ho stilo dos
muy eloquentes oradores he augmentar c diminuir as pallauras pera afremo-
scntar o seu ornado Lltym. E cu que som alheo cm ho fallar e no saber. me
•7- as mares.- 3:L Jt." papa.
fuv ncçessario cm a dita tralladaçum algüas pallauras \.ar c outras ajun·
tar. daqucllas que o autor prcsupunha. com todo nom dando nem tomando
do seu ncnhüa cousa. (:a muytos que de muy duetos querem tralladar suas
obras cm stilo tam alto. que tambcm de muytus ficam rcprchendidos. fazendo
nclles taaes figuras ou rodcus que lhes cnpacham ho entendimento. porque
ho simprc1. lccdor nom pode pcrcalçar ou conhcçer a verdade de sua sentença.
E assy huü por estilo chaão. c outros de muy ornado sempre ficam rcprehcn-
didos. E por yssu bem vejo que ha hi portas patentes aa rcprehensam.
cmpero pur essu nom lei\.arey fulguar a penna. sabendo pur çertu que
nom escusarei ho que ncnhuu escusar pode. pruscguindo u comc.;:ado. c dei-
xando os luuuores que acustumam de poer aquelles a quem cndcrcnçam os
autores suas obras uu liuros. Ajnda que huüs pequenos escreui nu começo
do liuro de Marco paulo das cousas marauilhusas que \ cmos cada dia das
terras nouas por \·ossa Senhoria achadas. porem aquelles louuorcs que aqui
lci:x.o dcscrcucr num perdem csquecçimento. nem a vountade faL menores.
Ca cllcs som tam craros c conhcçidus. tlUC por muyto llUe us quisesse alar-
guar. nom poderia cheguar ao mco dcllcs. nem dar ho assento que mereçiam.
Pur yssu me vai mais cscuytar ho soom dos outros que ho d:guam melhor.
c nom tangendo que se tluebrcm as cordas. Hcçcba Yossa Senhoria real cum
humanidade aqucsta pequena e grosseira tralladaçum. c ha \·eja com alegre
e sereno \ulto. lembrandusc de Cesar que diLia. !\um ser menor virtude au
príncipe reçcher com animo alegre as pequenas cousas. t}UC dar as muy
grandes com maão liberal. Conheçendo que a obra num seja reputada por
digna pcra que deli a auia de ser informada e instruída sua csclareçi I da scnhu- v
ria. mas porque de vossa superhahundante discrcçam c muy henc\·ula no-
brc7a rcçcba autoridade. c seja destribuida aus ndgarcs. c aas pessoas num
tanto ductas c letradas. como de muy piadosu padre a mu\· a111ados filhos.
Con1cçasc ho prologo de Pogio 11orentin1 sobre ho liuro
que escreueo de 1\ ycolao \·e neto das terras orientacs.
Nom crcco ser fora do propusito se afastandumc algul't pouco do acos-
tumado modo de cscrcucr tal fim poscr a este liuro ho qual aja de dar
aos corações dus que ho lerem hlla prazenteira c alegre pur as
muytas c desuairadas cousas que em sy contem. :'\Iom crnbarguantc que se
nom dcue estimar pequena a força da fortuna. a qual hull homé do" '!ti-
mos fyms do mundo per tantos mares e terras cnpuxado. per espaço de
.XX\". annos a ltalia saão c saluo fez retornar. se contam das
1. omros.- J3. libro. - 2S.   3.l. cm se comem.
lndias assy pc:llos antijgos cumo per comuú fama das quaes
mujtas pclla çcrta da vista se ser mais semelhantes a
fabulas que aa verdade. Certamente :\ycolao vcncçiano hc ho que penetrou
as partes estremas da India. c foy a visitar ho papa Eugenio. que cmtom
cstaua cm Florença. por razam de alcançar dc:Ile indulgcnçia de seus peca-
dos. Porque c:m tornandosc elle dos lndios c cheguando pcllo m&r rosso
aos termos de Egyptu. lhe fura forçado de negar a fee. nom soo pcllo que
a pertcençia como por medo da morte. e por escapar a mulher c filhos
que trazia consigo. E cu desejoso de ouuir esse homê. muytas cousas
lhe ouui dizer dignas de serem sabidas. e ysto onde estaua em
ajuntamento de homês letrados. e tambem diligentemente em minha casa ho
prcguntando. me parcçco ser cousa digna e de louuor muytas dellas serem
postas em pera ficarem em memoria perdurauel. Ca do caminho a
taaes e tam afastadas gentes. do situ dos lndios e seus costumes desuay-
rados. e tambem das alimarias e aruores. e assy das espeçerias em que
lugar cada hlia dellas naça grauemente. quer dizer sesudamente elle ho
  r contaua. No que I pareçia cl1e nom fingir as taaes cousas. mas com muyta
verdade pareçia que as sabia. E tam longe foy este homê que çertamente
nom lecmos que alguü dos passados podessc cheguar onde elle chegou. Ca
elle passou ho ryo Gange. e foy muyto alem da ylha de Taprobana. Aos
quaes lugares tiradas duas pessoas .s. ho capitam darmada de Ale\.an-
dre. e ho outro çidadaão de Roma. que no tempo de Tiberio çesar com
fortuna do mar aos taes lugares forom leuados. E nom se acha em escripto
que outro alguü dos nossos ally cheguasse.
Acabase ho Prologo. c se segue ho liuro.
Este mançebo .s. Nycolao de Y cneza se parti o da çidade de Damasco
de Syna. aprendida porem primeiro a lingoa arauiga. se foy com suas
mercadorias em companhia de grande muhidom de mercadores. os quaes
eram atee seis çentos. que ho comuü pouoo chama carauanas. com os quaaes
passou por Arabia que he chamada petree. lugares desertos. despois per a
prouincia de Caldea. ate que chegou ao ryo Eufrates. Em sayndo do
deserto que esta no meo antre estas terras ja ditas. cousa marauilhosa diz
auer acacsçido. Ca açcrca da mea noyte ouuirom grande rumor e estrom-
pido. cuydauam e mujtu temiam que os arauigos ladrões vinham pera os
roubarem. c se lcuantarom todos a perçebcrse pera ho perijgo vijndoiro. e
virom huü gram magote de gente caladamente passar que se forom pera as
tendas de1les sem fazerem mal a alguü. ho qual virom muytos delles que
ti. yndios.- q. yndios.- q-15. desuayradas.- '7· finger.- 23. fortüa.
I\ YCOL.\0 \'Et-;ETO
num menos cm outro tempo os auiam visto c diziam cllcs serem deill<mios.
que per aqucllcs desertos custumauam andar. e assi o atlirmarom. Sobre
ho ryo de Eufrates jaz hüa parte da muy nobre c ant=gua ç;dade Babilonia.
a t)Ual tem cm çcrca .xiiij. mill passos. aa qual os moradores dclla per nouo
nome chamam Baldach .... per meo da dita çidade corre ho dito ryo Eufra-
tes. sobre çima do qual he posta húa ponte feita de .xiiij. muy fortes arcos.
ajuntando cm huü a ç;dadc que esta de hüa parte c da outra do dito ryo. cm
a qual çidade pareçem ajnda muytos pardie=ros e reliquias de edit1cios antij-
gos. No monte da dit:l çidade esta I a fortcleza paaço real muy forte c muy   v
frcmoso. H o rey daquella prouincia he muy poderoso. Em fronte do dito
paaço nauegando pello ryo por espaço de .xx. dias. elle \ io tas e muy
nobres c pouoadas y lhas. Despoys de andadas oyto jornadas per terra
chegou aa çid:tde chamada Balscra. E dalli a cabo de quatro dias arribou
ao s\·no pcrsico. onde ho mar vaza e aa maneira do nosso mar
- .
ocçeano. Pellu qual ellc naucgando per espaço de .\'. dias. entrou no
porto de Calcom. E despoys chegou a Ormesa. que he hüa ylha pequena
do dito syno pcrsico. a qual esta da terra firme doze mill passos. Da qual
hindo pera fora do dito syno pcrs=co contra a India per espaço de çcm mi-
lhas veeo aa çidadc de Calahatia muy nobre porto de Persia. cm a qual ha
gram tractu. e cm ella cstcuc per alguú tempo c aprcndco a lcnguoa dos
Pcrsios. da qual lcngoa despois se mujto ajudou. E assi mesmo sempre
husou dos \·cstidos daquella terra todo hll tempo da sua pcrcgrinaçam. Em
a qual çidadc ellc com çertus companhcir s mercadores de Pcrs:a c mouros
frctarom hC1a naao. feito porem antrc clles primeiro juramento de ticl com-
panhia.
1\ auegando. assy cm aquclla companhia chegou per espaço de huü mes
cntciro aa muy nobre çidadc chamada Combaya. logo na segunda cmseada
dcspoys da boca do ryo Indo. Em a qual regiom dclla se acha a pcdJ'a prc-
çiosa chamada sardonio. onde as mulheres com os maridos juntamente quei-
mam .s. hüa ou mais segundo a dignidade do corpo morto. E aqucUa que
do marido foy ma:s prezada c amaJa. ho braço lançado do pescoço dclle.
e assy deytada com ho marido a queimam. E as outras o fogo açesu assi
mesmas em cllc se lançam. De todas estas çcrimonias se dira abaixo mais
largamente. F passando mais adiante n.lllegou per espaço de     dias.
chegou a duas çidadcs postas em a costa do mar .s. Pachamuria e Hcllym.
Em a rcgiom das quacs naçc gingiure ho qual hc chamado per sua Jingoa
bellcdi gehclli c hclli. ho qual he rayzcs daruorcs daltura de dous couados .
. \ grandura das folhas som assi como da herua campaã. e tem a cortiça muy
dura assi como as rayzcs das canas. as quacs cobrem ho fruyto. c daqucllcs
se tyra ho gingiurc. ho llual mcsturam com cim·a c puocmno ao 1 sol per trcs R1. r
dias. e ass\· ho secam.
ti. ho qual.- 2+   - 32. lei.1-se a ssi.
SI. "
1 r o , wuo ut:
Pú tiose desp•>ys dally ai mguad , do mar per tre/entao, mílhao, veeo
aa çiJaJe muy grande chamada B.\·/.enegucr. ho çerco d.l qual tem sasscnta
milhas darrcJor. posta açerca de alto"\ montes nos valleo, da parte d•J
muro contra os montes çarra a çidade. assy que ho çcrco ddla parcçc
to mayor. c assy h c Jc melhor parcçcr. II a hy cm clla hrm1és que pu-
Jem tomar armas cm numero de noueçcntos mill. Os morad1>res d:1 dita
tomam quantas molhcres querem. e a dias queymam com mari-
dos mortos. El rey delles he muy p.,dcroso c sobrcpoja muyto a outr(J'i
reys. E este rcy rcçebe atce a doze mill molhcres. das quaes quatro mill
seguem a pce ho rey onde quer que vaa. ocupandose soomente açerca dos
seruiços da sua cozinha. E outras tantas som leuadas honrradamente em
pos dei rcy cm muy arrayados cauallos .. \s outras som trazidas em camas
ou cm andas. das quaes duas mill ddlas dizem que reçebe elle por molhe-
rcs con. tal condiçam. que no fogo do senhor cl rey morto. cllas com elle
ao fogo por suas voontades se lançem. e assy com elle se queymam. e esto
lhes hc auido por grande honrra.
A ç!dade de Pclagonga que he do senhorio do mesmo rey. nom he
menos em a nobreza. c tem em çerca dez mill passos. e he arredada de Bi-
zenegucr jornada de oyto dias.
H o qual despoys per terra se foy. e em . x.x. jornadas chcguou a a çi-
dade sytuada cm a ryba do mar chamad:1 Pud;fetania. qual caminho
deyxou duas çidades muy fremosas .s. e Cenderghicia. em as
quacs naçe sandalo Ycrmelho.
Dalh· em diante se fo,· ho dito a húa cidade de mill vezinhos
.. .. .. ,
chamada l\'lalpuria que jaz em a costa do mar no segundo alem do ryo Indo.
onde ho corpo de sancto Thome apostolo honrradamente foy sepultado em
húa ygrcja grande e muy fremosa. E ally os moradores della som christãos
chamados os quaes som espalhados per toda a India aSS) como
antre nos os judeos. E tod:1 esta prouincia he chamada Alem
desta çidade ha hy outra que se chama Cayla. em I a qual colhem aljofar.
E ally nasçe hüa aruore sem fruyto. as folhas da qual som de seys couo-
dos de Iongura. e quasi outro t<mto em anchura. E som tam delguadas e tam
sotijs. que ajuntadas as pode homem leuar em huú punho. As quaes folhas
clles em aquellas terras husam em ho Iuguar de papel no escreuer. E tam-
bem em ho tempo chuua as trazem em as cabeças pera se nom molha-
rem. Ca tres ou qu1.tro caminhantes com huúa daquellas estendida todos
juntamente se cobrem ..
No meo deste syno ou enseada he a muy nobre ylha Seylam. a qual
tem tres mill milhas em redondeza. Em a qual se acham cauando rubijs.
çaffiras. granadas. e aquellas pedras a que chamam olhos de gato. Em
ella naçc canella em grande auondança. Da qual a aruore se pareçe com o
3-+ pane h o muro- 32. delguados.- -J.O.  

'KYCOI..\0 YENETO
salgueyro. porem aos mais grossos. saluo que os seus ramos nom creçem
em alto. se nom que os trat. derramados pellas ylharguas .. \s folhas todas
som semelhentes aas do louro. saluo que som mayores. A corttça dos ramos
he a melhor. e destas a mais delguada. e do tronco ou pt·e a mais grossa.
porem he menor no sabor. A fruyta della he semelhante aa bagua do louro.
da qual tiram oleo muy odorífero pera ynguentos. do qual os Indios muyto
husam pera se \'ntarem. E a madeyra dcl'a tiradas as cortiças ha qucymam.
H a outrosy em esta ylha húa a lagoa. em ho meu da qual esta hüa çidadc
reall. a qual tem em çerco trcs milhas. E num se gouerna nem senhorca
de outrem. se nom de çertos homccs que \·cem de húa linhagem a que cha-
mam Bramanos. a qual antrc wdas as outras som auidos por sabedores.
porque aquelles   estudam toda sua Yida em a arte de tilusofia.
E som muyto dados a astrologia e a Yida mais honesta.
Despoys se foy a hüa ç=dade muy grande chamada Sciamutera. a
qual he porto muy nobre da ylha de Taprobana. a qual tem em çerco seys
milhas. E alh· esteue elle huü anno.
E despoys nauegou per espaço de .xx. dias com boom \·cnto. dey-
xando aa maão d=reyta huüa ylha chamada .\ndamania. I que quer di1cr ylha 82, r
de ouro. A qual tem cm çercu uyto çentos mill passos. Os moradores da
qual som antropofagite. e som assy chamados porLlUe comem carnes hu-
manas. E a esta ylha nom naucguam. saluo aqucllcs a que lança a força
de tormenta a ella. os quaacs em chcguando caaem loguu em poder da-
quclla gente barbara e cruel. dos quaes loguo som arrebatados e cspedaça-
dos amtre elles pera os comerem. Elle affirma auer a Taprobana ante
em roda. dczascys \·ezes çcm mill passos. Os homcs desta ylha som
muy cruccs e de muy asperos custumcs. Elles tem as ourclhas mm·to
grandes todos comuúmente assy os homecs como as molhcres. E em as
ourclhas trat.cm arrecadas de fyo de ouro guarncçido com pedras prcçio-
sas. ( )s seus vestidos som de lenço de linho ou de syrgo cm cumpri-
dom atee os gyolhos. Os homcs reçebem muytas mulheres. Suas casas
som bayxas. pera cuitar e se guardar do grande feruur do sol. Todos
os moradores dclla som ydolatras. Em a dita ylha nasçe pymenta
mayor que a outra. e assy mesmo pymcnta longua c camtrura. E outrosy
tem ouro cm muy grande auondança. .\ aruurc em que a pimenta nasçe.
hc semelhante aa era. os seus graãos som \'crdcs. de como som
os graãos de zymbro. sobre os quaes lançam hüa pouca de çinza e postos
ao sol os secam. Em esta \"lha h a huü fruito \ erde a que chamam .:iu-
riano. em grandura de huü cohombro. em ho qual se acham çinco outros
assy como laranjas. huü pouco longuos de desuayradl> sabor assy como
mantegua qualhada. Em hüa parte desta ylha a que chamam Batcch. mura
gente antropofagita que comem carnes dos homcs. c estes tem continuada-
3. loro.- 6. do qnal.- 12. lilusollia.- 16. c a ally.- 28. arreadas.- 40. moram.
IJ o I III HO I> E
mente guerra com os seus \·et.inh,s. Estes tem humanas por
thesouro. (:a despoys de auei·em presos seus as cortam. e
poys de cumestas as carnes dcllas as guard.tm. F hus.tm por moeda.
E quando ham de mercar algl'm cousa. mcrcamna por hüa ou duas cabeças.
!h, v segundo ho ,·alor I da tal cousa. Porque aqudle que mais cabeças cm sua
casa tem. aqudle hc auido por mais rico.
" Deyxada a ylha Taprobana. a cabo de .xvij. dias andados com gr.tndc
tormenta cheguaram aa çidadc Tcnasserim. a qual esta sobre a boca do ryo
tambem assi chamado. A rcgiom dclla hc auondosa de alifantes.   ally
n açe mm·to b razi 11.
Dcspuys de cllc ter andado muyto caminho por mar e por terra. en-
trou cm a foz do ryo Gange. c per cllc arriba per .xv. dias se fuy a húa
çidadc nu dito ryo muj nobre e muy rica chamada Cernuuem. A an-
chura daqudlc ryo hc tam grande. que naucgando no meo delle de húa
parte e outra a terra se nom pode vccr. cm alguús lugares diz elle ser de
.xv. milhas de largo. Naçem em as rybe:ras de aquclle ryo canas longuas e
tam grossas. que huu homê abraçandoas nom pode cheguar aa redondeza
dcllas. das quaaes fazem batecs assy como almadias pcra pes\:ar. porque a
sua codea he de huú palmo de grossura. e antre noo e noo que hc de com-
pridum de huú homê. e assy fazem esquitfes pera naueguarem no dito ryo.
Este ryo cria cocodrillos e desuairados pexes nom conheçidos a nos. De
hlía parte e outra deste ryo ha hy çidades e lugares e muy fremosos \·ir-
geos e ortas muy ,·içosas. onde naçem huús fruytos chamados musa mais
douçcs que mel semelhantes aos figuos. e de nos outros som chamados
nozes de lndia. E assi mesmo nascem alli frm·tos de desua\-radas mane\-ras .
.) .. .. ..
Subio elle desta çidade per ho ryo Gange arriba. por espaaço de tres
meses. deyxando porem atras quatro famosíssimas çidades. se foy a húa
çidade muy poderosa chamada .Maarazia. onde ha muy grande auondança
de ouro e prata. aljofar perlas e pedras preçiosas. e de ligno aloe.
Partindose desta çidade antre as montanhas que jazem contra oriente
em bu"ca de carhunculos. a cabo de .xij. jornadas tornou outra \'ez aa
çidade de Cernouem. e despois a Pudifetania. da qual hyndo por mar per
espaço de huü mes enteyro chegou aa bocà do ryo Racha. E hyndo per
aquelle ryo açima. e a cabo de seys dias chegou a húa çidade muy grande
83, r chamada du mes I mo nome do dito ryo. ca jaz em arriba delle. Partio-
se desta çidade e se foy per muy grandes montanhas e desertos. E a cabo
de .xvij. dias chegou a húa campina. pellas quaes andando per .xv. dias
entrou huü ryo mayor que o Gan5e. ho qual pellos moradores delle he
chamado Aua. E diz que per nauegaçom de huú mes per ho ryo arriba
ha hi hüa çidade onde elle chcguou. a qual hc de todallas outras a mais
nobre c mais rica chamada Aua. a qual tem em çerco .xv. mil passos. Em
2-3. dspoys.- 32. çidae de Cernoucm.
KYCOLAO VENETO
esta çiJaJc soo ha muytas taucrnas. c ho que aqui aJyantc escrcuo soo-
mente ho cscreuu pur graça c prazer c pera rijr .. \ gente desta çidadc hc
muy viçosa e muyto pratcntcyra. Em esta çiJaJe soo as molhcrcs ,·cndcm
cascauces pequenos. assi como as muj pequenas aucllaãs de ouro c prata c
arame. aas quacs mulheres va:i os hom'?s que querem casar. Ca de uutra
maneira seriam engcytados cm ho casamento. e assi mercam dus ditos
cascauecs. c dcixamsc abrir a pcllc cm a sua vergonha de huü cabo c
outro Jas ditas molhcrcs. c chantamlhcs dentro hüa dozca daqucllcs casca-
uees ou mais cm diuersos lugares do dito membro. c· Jcspois aquclla pclle
bem coseita. dally a poucos dias som saãos. E csto fazem pcra cumprir a
voo:ltaJc das mulheres. porque segundo ditem. que cllas leuam grmh.ic
gosto nu membro assi hinchaJo c cheu daqucllcs noos. E muytos Jclles
andando se dam Jc gyolho e fazem soar aqucllcs cascauccs. assi que os
poJem ouuir. Da qual cousa este daquellas molhcres muytas vezes
foy requerido Jc ho assi fazer. e fa.t.iam cscarnho dcllc porque ho tinha tam
pequeno. porem clle nom 4uis que a sua door fosse pra.t.cr de outrem. .\
esta prouincia chamam os morad,>rcs -'laçyn. c hc chea de alifantcs. c por
ysso d rey dclla cria dez mill Jclles. dos quacs se aproucita cm as guerras.
ca cm çima dcllcs legam castcllos cm que oyto ou   homcs poJem pele-
jar com azagayas arcos c bcestas. .\ maneira que se tomam os alifantcs
disse desta maneira seguinte. cm a qual muyto pareçc concordar com
Plínio. c esto quanto aos saluagcs. tempo que os alifantcs requerem
seus amores. tomam hüa fcmea dalifantc mansa c acustumada pcra yssu. c
leuamna a huü lugar a pasçcr feito pcra ysso çercado de hüu muro. ho qual
lugar tem duas grandes portas. hüa cm a parte da entrada c omra cm a
sayda. E quando ho alifantc semtc que a fcmca esta no dito lugar. entra
pclla porta primeira pcra clla. c logo quando clla ha j.a \·is ta dellc. 83, v
a fugir pera outra porta e saaesc. Em sayndo ella logo çarram ambas as
portas. e estam ally aguardando mill homés ou mais que pera cstu som
chamados c ordenados com suas corJas muy grossas c fort\!s. que entram
lo.;o per çima. c outros por buracos Jo muro. c corregem aqucllas corJas c
laços pcra prender ho alífantc. E quando todo esta bem ordenado c corre-
gido. saacsc ao campo huú homé daquellcs e se dcmostra ao alifantc
contra a parte onde tacs cordas j.tzcm. ,. ccndo ho alifante ao dito homé
s:tacsc rijamente pcra ho tomar c matar correndo tras cllc. cmtra cm as ditas
cordas c   hu qual vccndo os outros ho seguem e logo tiram por cllas
e prcndcmno c atamlhc os pccs tra.t.ciros fortemente muy bem atado. c
atamno a huü paao ou masto muy grande chantaJo muy fundo cm. a
terra. F alli dcyxam aquclla alimaria fera estar assy trcs ou quatro dias
comer c beber c com muyta fame. F passados estes dias lançamlhc
hüa pouca de hcrua cada dia. c assy cm .xv. dias ho amansam. Dcspuys
5. os homé.
11
(ftJ I JI"HO llE
atamno antrc utllros dcJtts alifantcs mansos c tratcmno cada dia per t(Jda a
çidadc. c lcuarnno Jc hull caho pera outro. c assy a cabo de .x. dids he feito
manso como os outros. E Jiz mais que cm outras terras fat.cm os alifantcs
per forl{a hyr a hull vallc pequeno todo çarrado. e apartam as femcas dcllcs.
c alli ficam os machos nom lhes dando de comer. c a cabo de trcs dias os
tiram dalli e lcuamnos pcra lugares cstreytos e aspcros pera
onde os fat.cm mansos. E taacs dcspois mercam os reys pera se
t<l'rcm dcllcs. E mantem aos ditos alifantcs. huús com arroz c mantega.
outros com herua. os saluagcs se mantem daruorcs c bentas que acham.
alifantcs mansos som regidos e goucrnados de huú homé soo. pooendolhes
soomente huü ferro cm darredor da cabeça. Tanta discreçam ha hy nesta
alimaria que as sectas ou outras que sobre elle forem
hml{adas as rcl{ebc com a sola do pee pcra nom serem offendidos os que
estam cm çima dclle. Ho rey daquclla terra he leuado sobre huú alifante
branco. ho qual alifante tra7 húa cadea de ouro no pescoço ornada com
pedras preçiosas que lhe chegua atcc os pees. Os homés daquella terra
com hüa soo molher se contentam. E todos daquella terra ass\· homes
84, r como mulheres ferram ho corpo com i a ponta de huú ponçom de ferro. c
lançam cm aquellas feridas coores desuairadas que jamais se podem desfa-
zer. c assy sempre ficam pintados. Todos adoram ydolos. porem quando
se leuantam da cama Yiramse contra ho oriente. as maãos ajuntadas rezam
assy. Deus em trijndadc e a sua ley nos queyra defender. Em esta terra
ha hy hüa maneira de mançaãs que quer pareçer com as laranjas. e assy
cheas de çumo. mas muyto douçes. Ha tambem nella hüa aruore a que
chamam tal. e tem as folhas muy grandes. em as quaes elles escreuem.
c a em toda a India nom acostumam de escreuer em papel nem ho h a hy.
saluo em a çidade de Combaya. A dita aruore traz huú fruyto semelhante
aos nabos grandes. empero ho que de baixo da codea he he molle assy
como çumo qualhado. ho qual he manjar muy douçe e muyto prezado. pero
de menor preço que a codea. Aquella regiom cria serpentes espantosas
tem grossura de huü homé sem pees. e seys couodos em longura. Os
moradores della aguellas serpentes comem assadas com grande delectaçom e
prazer e teemnas cm grande estima. .Assy mesmo comem húas formiguas
vermelhas que som em grandura de camaróes pequenos adubadas com
pimenta. e csto nom menos tem por yguaria muj prezada. Ha tambem em
a dita terra hüa alimaria a qual tem a cabeça semelhante de porco. e ho
rabo de boy. c na fronte tem huú soo corno como o alicornio. porem mais
corto c tem huü couado em longo. tem a coor e grandura dalifante. com os
quacs sempre tem guerra. E porque com aquelle corno saaram toda cousa
poçonhosa. por ysso he auido em grande honrra. Em ho estremo daquella
regiom contra Cathayo ha boys aluos c negros. e aquellcs som os mais
10.   Jf). chcgu<Í..- \.ksuairadas.
,
prezados que na.;cm com cabcllo c rabo de cauallo. porem os mais cabcllu-
dos e que tem os mais dclguados e sotijs e lcues como húa penna e
que lhe chcguam atcc os pecs. c taacs som stimados a peso de prata. destes
ou fat.cm auanadoiros os quacs husam cm scruiço de deuses c seus reys.
ou os encastoam cm ouro ou prata. e pocmnos cm çima das ancas do cauallo.
e cllcs espalhados lhe cobrem as ancas. Ou pcnduramlhc tacs cahcllos cm
huü cm·dom no pescoço pcra lhe afrcmosentar os pcytos. c csto hc de que
ma·s se husa. ajnda que os cauallcyros trat.cmnas nas puntas das lanças pen-
durado:; Útaes cabcllos. os quaaes dcyxam lcuar diante sy em synal de grande
nobreza. I .\ lcm da prouincia de Maçyn he a melhor terra de todallas ou- 84, v
tras. a qual hc chamada Cathayo. E ho senhor dclla hc gram Cham.
que no seu linguoagem quer dizer cmperador .. \ sua mais real e çi-
dadc chamam Camhalcschia. E esta he feita em quadro. e tem cm
.xx\·iij. milhas. Em ho meo desta çidadc esta hua fortclcza. ou castello muy
forte e muy fremoso. em ho qual esta ho paaço dei rey. 1·: csso mesmo cm
c.tda huü dos quatro cantos daquclla çidadc. sta huü castcllo redondo. feito
pera defensam. e c·h.ia huü dcllcs tem quatro milhas .cm Em cllcs es-
tam armas pera guerras e batalhas. e pcra conhatcr çidadcs. c de todallas
outras feições c maneiras pcra pelejar. que continuadamentc estam corregi-
das c aparelhadas pcra quando quer que as ouucrem mester. E do castcllo
real por çima da çidadc som feitos muros cm arcos pcra cada huu dos ditos
quatro castcllos. pcllos quacs cl rcy pode hyr a cada huü dcllcs. se
por caso cm aquclla çidadc se allcuantar alguü arroyado cllc. .\-
çcrca de .xv. jornadas de caminho desta çidadc jaz a outra muy grande a
que chamam 1\cptay. E esta pouco tempo ha que foy fcyta de nouo daquclle
empcrador. c tem .xxx. milhas cm Esta çidade hc de todallas ou-
tras a mais pouoada e a mais chea de gente. Em ambas estas çidadcs
segundo cllc diz c aflirma. as c paaços. e todos os outros editicios da
çidade e alfayas serem semelhantes aos de ltalia. os homens mansos discre-
tos e scsudos. e mais ricos que os outros ja ditos. Dcspoys se foy de .\ua
pollo ryo escontra ho mar. c a de .X\ ij. dias aa do ryo
onde he ho grande porto que Zcytom se chama. c entrou cm ho ryo. c
em .x. dias chegou aa muy grande e muy pouoada çidadc. a qual os mora-
dores chamam Pauconia. e tem .:xij. mill passos em c alli cstcuc cllc
por espaço de quatro meses. Em soo este luguar naçcm \·ides. e ajnda
muy Ca toda a India carc.;:e de \·ides c Yinho. :\cm tam pouco estes
fa ,.em \·inho de n1as. E estas n1as nasçem em aruorcs. c se as cortam nom
fa .. dcllas primcyro a seus dcoscs. desaparcçem c mais
podem ser v:stas. \IIi naçcm nom menos pinhos. castanhas
c mcloõcs. e estes pequenos c \·erdcs. c sandalos brancos c I Duas 85: r
Ylhas ha cm a lndia interior. açerca dos cstrcmos f\·ms do mundo. c ambas
. . .
5. ·pocmnas. -de cauaJI,>.- R t ra/.l-as. -   ytaiia.- J7. estes 'uas.- delles.
)f O I lU HO IJI·;
ror nome sum chamadas J aua. Jas yuaacs húa h a trcs. c a outra duds mi li
milhas cm dcrrador. c   contra oriente. E pcllo sobrenome de (Jf
ou menor som dilfcrcnçiaJas c cunheçidas hüa da outra. Aas yuaaes ylhas
se foy quando se tornou pera hu mar. F estam alonguadas de terra firme
huü mcs de nauegaçom. E antre hüa c outra das ylhas som çcm milhas
cm ho mais perto. Em as quacs cum sua mulher c filhos c
de sua perigrinaçom folgou per nouc     Os moradores dellas som us
nhis inhumanus c os mais cruccs de tudallas outras nações. Ellcs comem
ratos caãcs gatos. c todas as outras alimarias immundas. Elles ·com sua
crueza sobrepujam a todollus murtaaes. Ca matar huú homê tem por joguo.
nem lhes dam por ysso pena nem castiguo. Os deuedorcs que num tem
pcra apaguar. se dam por catiuos aaquelles a que dcuem. E alguús querem
antes morrer que seruir. e aquestes taaes tomam espadas nas maãos c se
sahem a rua. e matam quantos acham de pequeno coraçom. ate que lhes
sahcm alguús mais valentes que elles. os quaes os matam. E despoys
aquelle cujo ho catiuo era. faz chamar ao juizo aquelle que ho matou. c ally
ho constrange que lhe satisfaça pollo morto de seu deuedur. E se alguú
merl:a alguú terçado ou espada. chantaa no primeiro que acha. e assi faz
sua proua da ponta della e do ferro. nem lhe \·em alguú perjuyzo da morte
de tal homê. E os que passam oulham aquella ferida. c se ho tal homicida
em ferindo açertou bem. e chantou direitamente sua espada. louuamno muyto
de auer dado tam fremoso golpe. Cada huú daquelles homês quantas mo-
lheres quer .toma pera comprir sua Yontade. Ho joguo mais acostumado
antre elles. he ho pelejar de gallos. e assy os trazem de muytas maneyras
pera pelejar. cada huü com esperança ficar ho seu por vençcdor. E assy
mesmo os que estam presentes oulhando pooem dinheiro. cada huú no-
meando aquelle por que poóe. E aquelle gallo que \·ençc a outro. este que
por elle pos leua dinheyro aaquelle que pello outro gallo pos. Em Jaua
mayor se acha muytas yezes húa aue sem pees tam grande semelhante a
pombo. de penna muyto sotil e delgada. con1 ho cabo bem longo. e sempre
-85, v pousa em as aruores. As suas car l nes nom comem. mas a sua pelle e ho
seu cabo teem em grande estima. dos quaes husam pera ornamentar suas
cabeças.
Alem destas per naueguaçom de .x\·. dias mais contra oriente jazem
duas ylhas. hüa dellas se chama Sanday. em a qual nasçe noz nozcada e
maçes que he a frui della. A outra ylha chamam Badam. em a qual soo
naçe h o crauo. e dali i h o leuam a as ) lhas de J aua. E adam cria papagayos
de tres maneiras .s. de pennas vermelhas e ho bico amarello. E outros de
muytas coores os quaaes chamam noros. que quer dizer luzentes. ambos de
grandura de huú pombo. E os terçeyros som brancos de grandura de gali-
nha. a estes chamam cachos. que quer dizer mais preçiosos. ca estes som
1. Jana.- 3. mcmor.- 21. lounãno.- 28. Jana.- 37. Jana.- 39. amarelho.

melhores que os outros. ca aprendem de fallar tam marauilhusamcntc que
sabem responder aos que lhes prcguntam. Em ambas estas ylhas som us
homrs de coo r preta. II o mar alem destas ylhas num hc nauegaucl porque
ho aar estorua muyto os naucgantcs.
Leyxou Nicolao as ylhas de .Jaua. lcuando consiguo ho que lhe
era ncçcssario pcra seu \'iagcm. c se foy pcra ucçidcntc a hua çidadc que
jaz cm a costa do mar chamado Cyampa. cm a qual ha to de ligno .tloc
c canfora. e hc mu\ rica cm ouro. Em este caminho cstcuc cllc per espaço
de huü mcs.
E partindo dalli se foy cm outros tantos dias aa muy nobre çidadc de
Colocm. a qual km em çcrco .xij. mill passos. Esta hc a prouincia de  
libar. cm a qual colhem gingiurc chamado colubi. pimenta bra1.ill c canclla
que hc chamada grossa. Em esta prouincia ha serpentes sem pecs. t}UC
tem scys couados cm longo. c som alimarias espantosas. a ncnhuü
danosas. saluu quando lhes fazem mal. dcleytamse muytu cm vccr meninos.
c por amor dcllcs som trazidas a ,·ista dos homés. E quando som deitadas
parcçcm suas cabeças serem scrnclh:mtcs aas anguyas. porem quando alçam
a cabeça a fazem largua. e cm a trazcira dclla pareçe huü rosto de homé
pintado de dcsua;radas coorcs. Filham as com encantamentos. os quacs an-
tre cllcs som mujto acostumados. e sem fazerem mal a alguú as poucm cm
vasos de vidro pcra esso feitos. e assy as lcuam pcra que as vejam como
cousa marauilhosa. H a nessa mesma prouincia junto com Susinaria outro
linhagem de serpentes que tem quatro pecs. e ho rabo I assaz longo. c som 8«i, r
tamanhas como grandes caães. c tomamnas caçando c comcmnas. e norn
som danosas ma;s que cm as nossas terras as gamas ou veados. c destas
fazem muy bõas yguarias. A sua pcllc he de muytas courcs a qual husam
per a cubcrturas c a parcçcm muy bem c hc frcmosa de Yccr. II a hy cm a
mesma regiom outras serpentes muy espantosas. nom mais que huü couodo
em longuo. c tem aas assi como os morçecgos. e tem sete cabeças ordena-
damente postas cm longuo do seu corpo. E dcllas que muram nas aruores.
som de muy ligeiro voar. c estas sum mais venenosas que todallas outras.
c a com seu bafo sou matam os humês. H a hi tamhcm gatos monteses que
\·uam. os quacs tem hüa pcllczinha estirada no corpo desde os pccs dian-
teiros atee os trazciros. a qual recolhem quando estam em repouso. e esten-
didos os pecs batem com as aas. e assi vam de hüa aruorc pera outra. 1·. a
estes \'cenduus os caçadores perseguem os tanto atce que de cansados caacm.
c assy os tomam. Achase muytas \·ezes em aquclla terra hüa aruorc cha-
mada cachy. da qual o tronco ou pee deli a traz huü frui to semelhante ao
do pinho. porem tamanho que huü homé assaz tem que lcuar cm huü dclles.
A sua hc Ycrdc c huü rija. cmpcrl) chantandulhc hu dedo ha
qucbr<Ul1. E te_m de dentro .ccl. ou .c..:c. mançaãs quc·som como figuos. c
5. Jan:.t.- 11. çcro.- :11i. muytos. --33.     t ímanho.
J f O I I(   i> E
assi douçcs. as quacs som antrc sy com húas dcpartidas. c e!-ttes
tem de dentro outro frm·to \ de sabor c tam Juro como castanhd. e
daquclla mesma maneira a Co/cm. E isso mc!'.mo quando os lançam no fogo
c nom os quebram pr:mciro. arrebentam c saltam do fogo .. \ codca de fora
se Jaa aos boys pcra comer. c esta fruyta de dentro nom tem coruuço a'-
guü. A lgüas vezes cm as ray/es desta arw ,r c dcbay\o da terra se acha deste
fruito. ho qual hc melhor c mais saboroso que ho outro. e por ysto ho acus-
tumam de lcuar a rcys e grandes senhores .. \ aruore hc .semelhante a
grande figueira. c tem as folhas antrctalhadas assi como a da palma. A madeira
dclla parcçcsc com a do c aproucitamse della pera mujtas cousas. c
por isso hc prezada. ( )utro frui to ha hy o qual ha nome amba muyt0
Ycrdc semelhante aa noz. empcro he mayor que pessigo. amargua a sua
codca. c de dentro teri1 sabor de mel. Antes que madureçe corregcmno bem
c pocmno cm agua. c assi ho guardam como nos outros fazemos aas azei-
8G, v tonas Yer I des. Dey:xou a çidadc de Coloem. e a cabo de tres jür-
nadas chegou aa çidade de Colchym. a qual tem .v. mil passos em çerco. e
jaz sobre a boca do ryo Sicham do qual tem seu nome. :\auegando elle
alguüs dias no dito ryo. Yio de noyte em a riba do ryo fazer mujtos fogos.
e cuidaua que eram pescadores. e dizia. que he esto. e que fazem aqui os
pescadores todallas noytes. e assi aquelles que no nauio eram começaram a
rijr e d;sscrom. icipe icipe. Estes som de forma humana ou pe:xes ou mons-
truos chamados. que de noite saaé dagoa e apanham lenha. e ferem húas
pedras com outras atee que saae fogo. com ho qual ençendem c queimam
aquella lenha açerca dagoa. e assi os pexes que som muytos se vem pera
craridadc do foguo. e elles os tomam e comem. e de dia sempre estam em
agoa. Destes tomam elles algüas yezes. e dizem que ncnhüa diferença delles
ha aa forma humana. machos e femeas. Em toda esta regiom naçem os
mesmos fruytos como em Coloem. Despoys se foy daqui e chegou a Co-
longuria çidade. que hc situada sobre a boca de huú outro ryo. E dalli
se foy aas çidades de Paluria e -'leliancota antre elles quer dizer
grande çidade. e assy tem ella milhas em çerco. Despoys se foy pera
çidade de Colchud. que he situada açerca do mar. e tem em çerco . viij. mil
passos. a mais nobre çidade de toda a India de tratfego de mercadoria. Em
esta regiom naçe em grande auondança de pimenta lacear gingiure canella
grossa. quebolos e gedoaria que som fruitos aromaticcs. Em esta soo pro-
uincia as molheres tomam quantos maridos querem. assi que algúas dellas
tem dez. e outras mais. pera comprir as suas Yontades. E estes homês re-
partem antre sy ho que cada huü ha de dar e esto pera contentar a voontade
da molhcr. E aquelle que entra aa casa da molher ley:xa huli synal emçima
da porta. E quando alguü outro vem e quer entrar. e acha o synal se torna
lHT. E fica no liure aluidro da molher de dar os filhos a qual marido ella
10. delle.- 11. prezada.- 20. pesca tores.
quer. os quaacs tilhos nom soçcdcm pera herdarem os bccs do pay. se non\
os netos. Despoys se partio dalli. c a Labo de .:\v. dias d1egou aa çidadc
de Cumbaya. que jaz açerLa do mar LOntra OLÇidcntc. c tem .xij. milhas cm
çerLo .. \qui naLC spiLonardo. laLLar. jndiLo. mirabulanos. e tem syrgu em
muy grande auondança. H a hy huü linhagem de sacerdotes. a que d1amam
BaLhalus. c estes se contentam LOm hüa soo mulher. I a qual por lcy ha de 87, r
ser qucymada LOm seu marido. Estes aerigos nenhüa Lousa comem que
aja \ida. se num fruyta arroz lcyte e legumes. li a hy muytos boys monte-
ses. Labelludos como cauallos. cmpcro tem os Labcllos mais longos. e tem
os cornos tam longos assi que quando abayxam a Labeça pcra tras. d1eguam
atce ho rabo LOP.l elles. E por a grandura dellcs acustumam de lcuar Lom
cllcs pc:llo caminho vasos d1cos de agoa ou outro qualquer beberagem.
Daqui hJrnandose contra Colchud. se foy a hüa ylha dtamada ScLutcra.
a qual jaz Lontra OLÇidcnte de terra firme çem milhas. e tem cm çerLo scys
çentus mill passos. Neste Laminho cstcue ellc dous meses. Em esta ylha
nasçc ligno aloe chamado SeLutrino .. \ mayor parte desta ylha he pouoada
de d1ristaãos nesturinos. Em fronte desta ylha num mais de çinco mill
passos. jazem duas ylhas. çem milhas hüa da outra. Em hüa dcllas muram
os homés soos. c em outra as molhcres soos. 1: alguüas \·ezcs vam os homcs
pcra a ylha das mulheres. e outras vezes e! las vam aa ~ l h   dos homeés.
Empcru antes que se aLabem os seys meses que lhes ja som postos. Lada
huü se ha de tornar pera sua ylha. Ca em outra maneira logo morrem. se
murarem huüs em a ylha dos outros alem do tempo que a ellcs por fado hc
Lunstituido.
Daqui se partio pcllo mar cm diante. e a cabo de çinco dias foy tccr <la
çidade muy rica c muy nobre d1amada .\dcm. ornada de fremosos cditi-
LIOS. Dcspuys se partio daqui pcra a Etyopia. c a Labo de sete dias
arribou a huü porto chamado Barba. E dally despoys de huü mes de na_
ucguaçom chegou no mar Rosso ao porto de G) da. L Jcspuys e m f ~ m de
dous meses por a ditiLuldadc do naueguar açerLa do monte Synay. ellc sayo
cm terra. passando ho deserto d1cgou a Carras çidade de Egypto. LOI11 sua
mulher e quatro filhos. e outros tantos criados. Em a qual lhe morreu a
molher de pcstincnçia e dous filhos e outros tantos Lriados. E assy des-
poys de passados tam grandes trabalhos por mar c por terra LUill duus
ti lhos chegou aa sua patria que he a çidadc de Y eneza.
H;, v
fJo I JI'JH> JH·
Da ,·ida c Lll!-.tllmcs da gente de r nJia c Jc toda   rc-
gii)cs oncntaacs. rc!-.ponJco aos que ho prcguntauam
desta manc\Ta.
lndia. Toda a lndia he partida cm trcs partes. .\ pnmcyra se
dcs de Pcrsia atee ho n·o Indo. .\ outra deste rvo atee ho n·o
- -
Ganges. .\ ra hc aquella que he alem deste ryo. E esta he mujto
melhor. em riquezas. cm humanidade. c cm seus comeres que as outras ln-
dias. Em ,·iuer c regimentos e custumcs som semelhantes a nos outros. E
assi mesmo tem clles casas grandes c bem fcytas como as nossas. e  
nellas muy fremosas camaras .. \s suas alfayas muy limpas e muy bem fey-
tas c corrigidas. c viucm rnuy honestamente. e som fora de toda a cruel-
dade e Yida bestial da gente barbara. Ca he gente muy mansa e piadosa. E
!'om mercadores muj ricos em cabo. Ca som muytos delles. dos quaes huú
soo carregua .xl. naaos proprias de tam rica mercadoria. que cada húa das
naaos he stimada em çinquoenta mill dinheiros douro. Estes lndios soos
acustumam ass,· como nos outros comer em mesas altas com toualhas. E
esso mesmo pcra yguarias e outras cousas se aproueytam de baixella de
prata. Ca todollos outros lndios comem assentados no chaão cm strados e
tapetes. Yides nem vinho nom tem os lndios. mas pisam h(J arroz com
aguoa. e I ançamlhe hüa coo r roxa. e com huú çumo de aruore o tempram.
c esto parcçe propriamente ,·inho. Em a ylha de Taprobana cortam· ra-
mos de húa aruore a que chainam thal. e penduram estes ramos em alto.
dos quaes saae huú çumo muy boõ e muy saboroso. e esto he ho seu acus-
tumado beber. .\ntre ho ryo Indo e ryo Ganges esta húa lagoa. cuja aguoa
he de muy marauilhoso sabor. e se bebe com grande deleytaçam. Todas as
regioões çercaás vam por esta aguoa. e esso mesmo mandam por eJia os
88 r que 'iuem longe deli a. Ca ordenam muytos cauallos ligey I ros pe!Ios cami-
nhos a seus corrcos. assy que cada dia podem auer aguoa fresca. Elles
nom tem trigo nem pam alguü. se num çerta farinha. e ,·iuem todos de ar-
roz leytc queso e carnes. Ellcs auondam cm galinhas capões perdizes fay-
zaãcs. c em mujtas outras aues de caça. Ca ellcs som muyto dados aa caça
e monte. Ellcs num traJem barba. posto que criem grandes cabellos. e
husam de barbcyros assy como nos. Elles trazem cabellos longuos pellas
cspaduas derramados. E quando ham de hyr a guerra atamnos no tuutuço
com huú curdum de syrguo. Elles som homeés em a estatura dv corpo e
em bre,·idade de vida yguuaaes a nos outros. Suas camas som guarneçi-
das de ouro. e tem as colchas muy bem lauradas com que se cobrem dor-
mindo. A fcyçam dos seus ,·estidos pella diuersidade das regiões nom he
gual. E cumulimcntc   todos de laã. Empero auundam muyto en1
R custuml:s.- 35. cstura.
K' COI..\0 \
linho e em syrguo. dos quaaes fa1em seus vestidos. E quasi todos assy homês
como molhcrcs tra1ern dcrrador de sy huü pedaço de lenço que os cobre
atce gyolhos. E nom tem mais que hüa ,·cstidura. e aquclla de lenço ou syr-
guo a qual ,·cstem em çima de outro panno. Os homers tam comprida que
lhes cobrem os gyolhos. e as mulheres atce os artclhos ha trazem. Ca a
sobeja qucentura lhes escusa mai:-i ,·cstidos. F por yssu trazem soomente
solctas com hüas ataduras vermelhas de seda ou ouro. cada huü segundo
seu estado. assy como ho vcemos em as antiguas statuas. As mulheres cm
alguüs lugares tra1cm çapatus de muy delguado coyro. laurados de ouro e
seda. E ellas mesmas trazem por joyas e fremosura nos junto
com as maãos manilhas de ouro. e no pescoço e pernas argolas de peso de
tres liuras. encastoadas de pedras prcçiosas. .\s mulheres pruuicas onde
homé "-lucr as acha loguo. ca ellas per toda a çidade som espalhadas. cada
hüa em sua casinha. em as quacs ellas com seus yngucntos e muy boós per-
fumes c com muyta mcguiçe. a cada hüa hydadc dos homés sabem scruir.
E som muy prestes todallas mulheres yndianas pera prouocar os homcrs a
luxuria. E por tanto da sodomia dos homés com homes nom hc ouuida antre os
lndios. I l-lo toucar da cabeça das mulheres he de muytas   Ca pella   v
mayor parte cmnastram os cabcllos com cordoões de seda. c com huü su-
dayro lauradu de ouro cobrem suas cabeças. Em huüs lugares tomam os
cabcllos cm meo da cabeça. e cm çima no mco dos cabcllos pocm cnxa-
rafas com huü noo douro com cordões de muytas coures. c dcyxam espa-
lhar as pontas dos cabcllos com os cordoõcs pcra bayxo. Outras pocm ca-
bcllcyras de cabello preto. ca quanto mais preto tanto presume mais de
fremosa. Outras cobrem a cabeça com folhas daruores pintadas.
destas molhcres poõc posturas no rosto. se nom aquellas "-Iuc cm Cathayo
Yiucm. Em a India interior nom consentem que os humcrs tenham mais
que hüa molhcr. os outros Indios pella mayor parte tomam quantas
mulheres quiserem. rcra comprir seus maaos desejos. tirando a\.]ucllcs que
som christaãos. os quaaes seu fundamento tomarom do herejc :\cstorino.
por a razom Jo t.}Ual som chamados christaãos ncstor\"llos. E estes sum es-
palhados por toda a India. c fazem sua vida com hüa soo molhcr.
lndios nom fazem suas sepulturas per hüa mesma mancyra. Ca a lndia
dyantcira tem auantajem antrc as outras cm a c çerimonias do
seu enterramento. Ca elles fa1cm couas dchay\.o do chaão. c as paredes
ddlas firmam c afremosentam. c de dentro poocm hn corpo morto em
fremosa cama de cokhoõcs de ouro. F poocm akofas cm darador dellc
chcas de muy nobres vestidos. E lcy\.amlhc anees. assy como quer "-)LIC
aquclle mortu no inferno se ouucra de lograr ddlcs. F a boca daquclla cuua
çarram com muro. de mancyra que ncnhuü possa entrar a clla. E mais fazem
cm çyma muy rica c frcmosa abobada. e ençima dclla fatcm huC. tdhado que
+ compridos.- algüs.- 17. d·,ss.
I I() J Jl"JH) IJJ·:
lança a aguoa longe Ja .:icpultura. assy que pella dita ra ho morto
pude mais tempo ser conscruaJo. Em a lndia meaã lJueymam os homés
mortos c com elles muytas vezes suas molheres viuas no mesmo foguo húa
ou muytas segundo hu cunçerto do casamento. .\ molher primeyra e prin-
cipal. pur lcy ha de ser queymada .. \ynda que tal morto nom teucsse outra
Rg, r saluo aqudla suo. Os humeês I alem da primeira tomam outras molhcres.
c algüas ddlas com tal cunJiçam. que com sua morte que\Tam honrrar as
e;e4uias do seu marido. E csto ham antre cllcs por muy grande honrra.
Poem hu homé morto em sua cama propria muy ricamente c<mçertada. e
clle vestido dos melhores vestidos que tinha. E cm çima e em darredor delle
lançam mujtos paaos que muy bem cheiram e cnçendc.:mnüs. 1--A assi mesmo
a mulher muy bem conçertada c vestida dos melhores vestidüs. antre cha-
ramclas e claroões. e com muytas cantiguas de grande companhia. e can-
tando dia mesma com alegre rosto anda darred0r do foguu. onde se começa
a qucymar ho corpo do marido. Açcrca daqucllc fuguo esta huú crer:guo aos
quaes elles chamam Bachalus. este esta preeguandu em húa cadeira alta c
bem conçertada de pannus ricos. e da aa dita mulher conforto e consc.:lho
com buõas pallauras dizendo. que nom aja medo da morte c que despreze a
vida presente a qual hc pequena e vaá. e lhe promete de alcançar despoys
da morte com seu marido mujtos prazeres. muytas riquezas e vestidos pre-
çwsos. c outras cousas muytas .. \cabando ella de andar muytas \'ezes dar-
redor do fogo. se poõc junto com a cadeyra do crerigo que lhe esta pree-
gando. e despe seus vestidos. ho corpo porem antes muy bem lauado se-
gundo que he custume antre elles. e enuolta em huü lençol muy delgado c
aluo. amoestandoa e confortando ho crerigo que pregua. salta dentro no
fogo. E se algüas ouuerem medo assy como aconteçe muytas vezes. que em
veendo as outras. que jazendo no fogo se dooem. ou pareçe que querem sayr.
desmayam com temor espantoso. e por ysso os que ally presentes estam as
ajudam entrar no fuguo. ou as lançam dentro contra sua vontade. E des-
poys de queymados colhem e alçam a çinza delles. e pooemna em vasos
limpos c fazem muymentos fremusos. cm que os ditos ,-asos poem. e des-
poys de dcsuayradas maneiras choram seus finados.
Os da India interior cobrem as cabeças com sacos. quando lhes alguem
morre. E alguüs alçam varas longuas nus caminhos. c em ellas húas cartas
pintadas e antretalhadas des de çyma atce abayxo. E ally estam per tres dias
chorando c tangendo çertos estormentos feitos de metal. e dam comúmente
8g, v çertas ygua I rias a proues por amor de deos. Outros tres dias contínuos cho-
ram c ajnda ajuntam todos os da família. E ysso mesmo todollos vezinhos
vam aa casa do finado. em a qual em aquelle tempo nom se coze ncnhuüa
Yianda. mas trazemna corregida c cozida de fora. Os parentes e amijgos do
morto em synal de dour nestes dias trazem cada huú húa folha amargosa na
1. sorulrura. - 9· rropia.- l.J..   e erne ellas.- 3g. de família.
.\0
boca. E os filhos quando lhes morre ho pay ou a may. per huü anno cntciro
nom mudam seus vestidos. nem menos comem se nom hüa soo Yez no dia.
nem cortam as vnhas nem cahcllos. nem fazem a barba. E ,-sso mesmo
mujtas molhercs nuas jmbijgo estam cm dcrrador do tinado. e se car-
pem c se dam golpes nos peitos e mamas. e bradam ay ay. E hüa deli as se
lcuanta c cm cantijguas todos scrts louuores reza. aa qual todas as outras
seguem cm redor do' finado cantando e respondendo aqucllo mesmo. c con-
tando os lugares c mancyras onde cllc fez algüa cousa digna de louuor.
tamhcm logo dcspoys de qucymados os mortos tomam a çinza ddlcs
e ha pocm cm vasos douro ou prata. E segundo ho conselho dos seus crc-
rigos ha lcuam cm huü lugar que dizem lJUC hc fcyto c consagrado aos deu-
ses. pcllo qual dizem a cllcs aucrcm entrada. Os Badtalos. estes som os
seus crcrigos. nom comem algüa cousa que aja vida. e principalmente ditem
que ho hoy antre todas as outras alimarias hc ao homé mais proucitoso. ca
dcllcs husam pcra k·uar carrcguas. c por ysso ho matar ou comer dcllc tem
por grande pecado. Estes crerigos se mantem de arrot c hentas. de fruyta
c legumes. E nom tomam mais que huüa mulher. a qual morto ho marido
a queimam com cllc. Ca clla se lança com ho marido morto. dcitandolhc
ho braço debaixo do pescoço. c assy jaz abraçada com cllc. e hc tam
paciente no foguo que nom mostra alguü synal de door. i-,l'r toda a lndia
ha hy huü linhagem de filosofos chamados Bramanos. c todos som dados aa
arte de astronomia. c estudam muyto pcra dizer as cousas lJUC som por
Yijr. E som de honesta c sancta 'ida. c de muy hoõs custumcs. Antrc estes
disse que auia ,-isto huü dcllcs cm hydadc de .ccc. annos. e foy auidu antre
ellcs como por milagre. c por cstu onde quer que hia hu seguiam os meni-
nos. por \·crcm cousa noua ou tam marauilhosa. \\uytos dcllcs husam de
hüa arte chamad;.: 1 geomançia. a qual ellcs tccm experimentada que tam çerto 9o, r
sabem dit.cr ho por Yijr. como se fosse ja acontcçido. F se dam mujto aa
fcytiçeira. assy que fazem vijr tempestades no aar quando querem. c as fazem
hir ou tornar. F por ysso muytos dcllcs comem escondidamcnte tcmcndosc
daqudlcs que os vissem comer. que dcllcs nom lhes desse oulhado ou que-
branto. Contou por verdade ho dito Nicolau que hull mestre de hüa naao
cstcucra na metade do mar com sua naao cm calma sem vento alguü. aucndo
temor dos seus marinhcyros que nom cstiuessem mais tempo alli. mandou
poocr hüa mesa ao pcc do masto. cm a qual fez muytas c cha-
mou muytas ,-czes pello deus Muthiam assi chamado. Em aquello huü humé
de Arabia foy tomado do diaboo c começou com grandes vozes bradar c sal-
tar e correr per toda a naao como homé sem syso. e chegou aa mesa e apa-
nhou e comeo çcrtos carbóes. e pid=a pera beber sangue de gallo. c dcrom-
lhe ho gallu e ho dcgullou. e com sua boca lhe chupou ho sangue. dcspois de
lançado de sy ho gallo prcguntou que lhe dcmandauam, e elles responderom
+ jmhrijgo.- 9· quameymados.-   Jo arroz.- •7· l.!gumés.- 23. costumeés.-
29. fcyriçeria. - 40. degolhou.- a sanuc:.
ff O I ll"HO l>J·:
que piJiam Ycnto. E cllc promcteo de dar dcspoys de trcs dias muy
buú   com que seguramente cheguariam ao porto. Jemustrdndo OJm as
maãos de donde ho vento auia de vijr c amocstandoos que com grande dili-
gencia e auiso esperassem a força do vento. E dalli a pouco ho arauigo dc-
moninhad.o cayu cm terra como meu morto. e do que fizera e dissera num
se lcmbraua cousa algüa. c ao tempo que ellc dissera. veo ho vento. c leuou-
os em poucos dias a boõ porto. Os mais que naucgam cm aquella lndia
se ... regem por as estrdlas do poJo antartico que hc ho sul I. Ca poucas vezes
veem as estrcllas do nosso norte. Ellcs nom naueguam por agulha. mas se
regem e naueguam segundo que acham a estrella do pulo alta ou baixa. e csto
sabem por çcrta medida. E nom menos medem ho curso que fazem. c adis-
tancia que tem de huü lugar pcra outro. e assi sabem cm qualquer luguar
que estiuerem no mar. As naaos fazem algüas de duas mill botas mayo-
rcs que as nossas. e tem quatro velas e tantos mastos h<J de teer. \ naao
debaixo he de tres tauoas feyta e prcguada húa emçima da outra. pera
melhor suportar as grandes hondas daquelle mar. das quacs muyto som
9°, v combatidas. Elles tem as suas naaos repartidas em carnaras I pequenas assy
sutilmente feitas. de tal maneira que se aconteçesse que se quebrasse hüa
parte deli a. que a outra ficasse sã a c salua e fizesse seu \i agem. Por toda
a lndia adoram deuses. aos quaes fazem ygrejas semelhantes aas nossas de
mujta'5 ymageés pintadas. e em os dias de suas festas as ygrcjas ornam e
afremosentam de froles. E em ellas tem ydulos feitos de pedra ou de ouro
ou de prata ou de marfim. e alguüs delles daltura de .h.. pees. A ma-
ne\Ta de sacrificar aos seus ,-dolos he de muYtas maneiras. Ca elles se la-
- - -
uam com aguoa limpa. antes que entram no seu templo. húa vez pella ma-
nhaá. e outra yez aas horas de \'esperas. E alguüs se deitam de bruços no
chaão estendidos de sy cm pees e maãos per alguú espaço rezam e beyjam
a terra. Outros com ligno alue e outros perfumes aromaticos fazem sacrifi-
cios a se os deoses. Açerca d J ryo Ganges os lndios nom tem campaãs
ou S\'nos. se num hüas baçias de latam feitas. as quaes ferem hüas com as
outras. e assy fazem seu soom. E fazem sua offerta a seus deoses yguarias.
segundo ho costume dos gentios antijgos. as quaes Yiandas despoys repar-
tem antre os proues pera que as comam. Em a çidade de Combaya os
crerigos diante ho ydolo de seu deos preeguam ao pouoo.- amoestandoo
pera ho seruiço dos deoses. e como seria açepto a elles. e que conseguyria
grande mereçimento em a outra vida tal homê que quizesse morrer ou se
matar por amor delles. E assi estam ja alli muytos que vierom determina-
dos de morrer. e taaes homés trazem huü colar de ferro ancho em derrador
da garganta. ho qual ferro da parte de fora he redondo. e em a parte de
dentro he feito como naualha aguda. e em a dianteira a parte do colar esta
pendurada hüa cadea que lhe chegua aos peitos. em a qual cadea aquellcs
ft-7. lenouos.- '7· cameras.- 25. tempro.- 38. seruiçio. -41. pendurado.
i'YCOI AO YENETO
humês assentados. cnculhcitas as pernas. c aba;xada a cabeça chantam os
pccs. E dizendo os crcrigos çcrtas pallauras. estendem us pccs pur diante c
a cabeça por dctras se corta ho pescoço. c d;quclla maneyra otlcrcçcm sua
,·ida cm a seus ydolos. c a estes ham por santos. Em Bizcncguer
ham por costume c ordenança. que çcrto tempo no anno lcuam cm meu de
dous carros huú ydolo per toda a çidadc cum grande solcnnidadc c multi-
dom de puuoo. c cm aqucllcs carros andam muy frcmosas moças que can-
tam muytas cantiguas cm I louuor de seu deus. E muytos que som muuidos 9•, r
de dcuaçam cm aquclla tlc. lançam seus corpus estendidos nu chaãu dcbayxo
das rodas daquclles carros pcra lhes serem quebrados os corpus desejando
a morte. c dizem que tal morte hc to açepta a seu dcos. Outros pcra
adorar c honrrar os carros. fazem buracos cm us seus custados. pcllos quaacs
passam hüas curdas. c atam seus corpos ncllas. c dci.xamsc arrastrar cm
pus os carros atcc que morrem. E dizem que csto hc muy açcptu a seu
deus c que ncsto lhe fazem muy grande sacriticio. Trcs festas solcnncs uu
prinçipacs fazem no annu. c cm cada hüa das festas todollos homés c mu-
lheres de qualquer h:dadc que sejam vcstcmsc de \·cstidus nuuos. c lauam
ho corpo primcyro daguoa do mar ou de ryus. c assi per trcs d:as cntciros
nom se ocupam cm ai se num cm cantar c baylar c cunuites. ( )utra ,·cz cm
todo hu tempo pocm muytos c intijndos candicyrus com oleo de gergclim
açesos dentro das suas ygrcjas c de fura atcc cm çima no mais alto dei-
las. os quaes qucymam noites c dias. A tcrçcira \'CZ alçam per todas as ruas
huüs paaos como mastos de nauios pequenos. c cm cllcs pendem de çima
pcra baixo pannos muy bem laurados de ouro. E cm çima dos ditos paaos
cada dia per contínuos nouc dias que a dita festa dura poõc huü homé de
· boó rosto e piadoso e deuoto. que csto de muy boóa Yountadc faz per a que
rogue a deus por ho pouoo. l. que alcançe graça c mcrçe dclle. E sobre
estes lança ho puuoo laranjas lymócs c muytos fruytos e bem cheiran-
tcs. ho qual ellc sotrrc com grande pacicncia. L mais tem cllcs outros tres
dias de festa no c.mno. cm as quacs molham huüs a outros com hüa aguoa
amare lia pera ysso feita. nom dcyxando a cl rcy c a nha de barr'car com
aquclla aguoa. c csto fazem pcra fulguar c rijr. c assy ho tomam todos cm
pra1.cr. .\s suas ,·odas fazem com cantjguas. conuitcs. bailus e trompctas. c
todollos outros estormcntus de musica pcra tanger acustumam assi como
nos outros. t'rando os urgaãus. conuitcs de grandes despesas fazem
noites c dias. cm os quaes cantam tangem e saltam. Ellcs dançam cm roda
cantando assy como nos outros. Outros dançam cantando scguyndo huüs a
outros dous e dous andando cm longo amtc que façam a \'olta. e os dous
dianteiros lcuam duas \"aras nas mãos muy bem pintadas. E estes dam
aqucllas Yaras a outros dous que lhes saacm I encontro. c assy as mudam 9•· v
cada \"CZ que se encontram huüs cum os outros e csto parcçe muy bem. Ba-
25. tura. :..__ 2K pouo.- bós.- 31. amardha. --lei.t-se borrifar.- 35.  
li q I I CIH J I> t
nhos nom Sl! nom a pu:lh:s • que vnacm
alem do ryo Gangc. cmpcro todos os outros se lauam ta!-. \'C.t.cs no dia
agoa fria. I :llcs num tem te. nem alguüs dos nossos fruytos. com•J
pcssigos. pcras. çcrcsas. alrncy\as. c mançaãs. \'ides muy e estas
soo cm hul'1 lugar dito hc. Em a prouincia de I 'udifctania naçc hí-.a
aruorc sem alguü frui tu.· c esta alta suhrc a terra tres cuuudus. c chamam na
de vergonha . .A qual yuandu alguú homé chcguc1 a clla. encolhe os
ramos. e part:ndosc o homé deli a os torna a estender. A I em da çidadc de
Bizencgucr . x v. jornadas de contra a parte do septcntriom esta huú
monte .\ bnigaro todo de lagoas. as quaes som chcas de
peçonhentas bestas. c ho mesmo monte he todo de serpentes. e em
este monte naçcm os diamantes. E por-1ue ncnhuú pode chcguar ao dito
monte. a astuçia dus homês tal remcdio. Ca huú outro monte esta
deste e he huü pouco mais alto. em o qual em çcrto tempo do anno
os homês daquella terra sobem. e lcuam consiguo boys. os quaes cortam
cm pedaços. e assi aqucllas carnes quccntes cheas de sangue lançam com
hüas bcestas pera ysso feitas cnçima do outro monte. e assi se apeguam as
pedras em aquellas pella quecda que faz. F assi quando as aguyas
e abutres por alli passam. c aquellas carnes. tomamnas e leuamnas
ao outro monte. onde serem seguras das serpentes. E
assy despoys os homês que alli estam e paremmentes onde as aues as car-
nes comem. E despo:s de comidas se vam per a la. e colhem as ditas pedras
que cayrum da carne. As outras pedras que se dizem seer mais preçiosas.
achamnas com menor trabalho. Ca cauam junto com os montes areosos em
lugares onde ja sabem que taes pedras ham de achar. atee que acham agoa
mesturada com arca. a lançam cm húa jueira fe:ta pera ysso. c la-
uamna em aguoa. e assy passa por ella toda a area. e se som hy
algüas pedras logo parcçem. E esta hc a maneira que tem de cauar e achar
as pedras preçiosas em todas aquellas regiões. E ham muy grande guarda
sobre ysso os seus senhores. por tal que que cauam. como dos
seus criados que nom furtem dcllas. Ca teem alli guardas que os ,-estidos

  r delles buscam c escoldrinham atec os lugares segre I dos do corpo. E assi de-
fendem o furtar e mal fazer melhor que podem. Ho anno fazem de .xij.
meses. os quaaes chamam segundo os nomês dos .xij. signos do çeo. A era
ou conto dos seus annos em desuairadas maneiras começam. empero a
mayor parte dclles começa do tempo de Octauiano. em o qual tempo foy
paz em todo o mundo. E elles dizem. Era de mil e quatroçentos e nouenta.
onde nos dizemos mil c quatroçcntos. Algüas daquellas regióes nom tem
moeda. mas em lugar della husam hüas pedras. as nos chamamos
olhos de gato. E cm alguüs lugares husam por moeda ferro huú pouco
niais grosso que agulhas. E cm outros lugares km hüa carta escrita com ho
+ 7· vcngonha.- 38. alguüs. -..J.O. gatus.
J'\ 'i COI.:\ O \' ENETO
nome dei rcy. a qual despendem por moeda. Em algul'is lugares da lndia
dianteira som cm huso os ducados de Y cncza. E cm outros tem peças douro
que pesam duas \·ezes tanto como huli florim dos nossos. outros menores.
E nom menos ham moeda de prata e de cobre. E cm alguC1s lugares fazem
pedaços de ouro a çcrto peso. us quaes husam por moeda. ( )s primeiros
lndios husam cm suas guerras azagayas. espadas. guarnições de braços. es-
cudos redondos. c arcos com frechas. E alguüs husam de capaçctcs. cotas
de mallu. e coiraças. Os Indius interiores tem beestas c hombardas. e tem
outros muytos engenhos pertcnçcntes pera combater çidadcs. E estas cha-
mam a nos outros Francos. e a todallas outras gentes chamam çeguos. e
dilcm que clles soos vecm com dous oulhos. e nos com huü olho. c di-
zem que som de mayor prudcnçia que todos os outros. Os de Com-
baya soos acustumam o papel. ca todollos lndios escreucm cm folhas de ar-
uores. das quaacs fat.em liuros muy fremosos. !'\cm cllcs escreucm assy como
nus. ou como os hcbrcos cm ho largo da folha. mas cm longo cscrcuem
dcs cmçima pera baixo. e dcsuayradas lcngoagrs ha antre os ln-
dios. Elles acustumam de tccr muytos scruos. e o diuidor que nom tem
per onde paguar hc dado cm pagamento aaqucllc a quem dcue. Ho homc
que mcrcçe algüa pena de justiça. c num acham tcstimunhas suflicicntcs pcra
ho obrigar aa justiça. damlhe juramento. E os juramentos fat.cm de trcs
maneiras. A primeira. l.euam tal homc ao qual ha de sccr dado o jura-
mento ante ho ydolo. e jura pcllo dito ydolo nom sccr culpado. 1·. logo tem
álli aparelhado huü ferro quecntc que se quer parcçcr com huü machado. c
acabando de jurar. ha de lamber I com a lingoa ho dito ferro. e se escapa de   v
lhe nom fazer mal. liuremcntc ho soltam. Outros o juramento primeiro feito.
ham de lcuar com as maãos nuas çertos passos huü tal ferro quccntc ou
pasta. E se em alglia parte .se queima castigamno como a malfeitor. c se
nom se queima. lcyxamno liure c solto hir de a pena e delito .. \ tcr-
çcira maneira de dar juramento. c esta antrc ellcs comümentc mais se acus-
tuma. Tccm diante o ydolo hC.a panella chca de manteygua fcruentc. c
aquclle que ha de jurar nom ser culpado. chanta dous dedos cm aquclla
manteiga. c atamlhos logo com huü panno de linho. c ascllam o dito panno
com huü sccllo ou synal que se nom tire nem abra tal panno atec o tcrçciro
dia. cntom lhe ·desatam os dedos. e se lhe a.:ham cm cllcs algüa lesam. logo
lhe dam a pena mcreçida. c se lhes acham Icy\.amno hyr liure. Pcs-
tencnça ncnhlia ha hy cm as lndias. nem cllcs sabem parte daqucllas doen-
ças e enfermidades. as quaacs cm as nossas partes aos homrs atormentam.
E por tanto a gente c o pouoo he cm tam grande multidom. c muyto mais
(.b que se pode crecr. C a muytas \·czes saaem cm campo per a a guerra mais
que dez \"Clcs cem mill homrs. E contou de hüa batalha. da qual os ,-cnçc-
dorcs trouxcrum consiguo pcra suas casas com prat.cr dç triunfo .\ij. carros
+ -+ 1. triuntfo.
I {o 1 JüJH) JH:
  de (:ord•)cs Jc ouro c de seda. om1 os t)Uacs   • tratiam
ataJus seus (:abcllos cm a trazcira da cabeça. F disse que algúas \C·
1cs cllc mesmo se auia a(haJu a ltrc cllcs cm algúa parte Ja batalha. c
soo por Lausa de vccr. c que era (onhcçido por cstrangcyru de húa
parte c outra lcixaromno hyr sem pcrijgo alguú. Em a de Jaua que
hc dtamaJa a mayor. naçc h[ia arurJrc. cmpcro putKas dcllas. em u meu da
qual se adw hüa \erga de ferro muy delgada. c tam lungua quanto hc o
tron(o daru:lre. E quaL1ucr homê que cumsiguo trouxer huú pedaço dt) dito
ferro que lhe toque a (arne. tem tal \ irtuJc que tal humê nom pude ser fc-
rido (0111 ferro. E por yssu muytos ddlcs abrem a pellc propria. c
hu dito ferro nu (orpo. c estu ham cm grande styma antrc cllcs. E aqucl-
las (ousas da aue feniçc de que l.a(tatKio escreuc nos seus versos num som
<miJas por fabulas. Porque nos cstrcmos da lndia interior ha hy huúa aue
soo Lhamada scmcnda. Ho seu b\·(:o he fe\·tu ass\· como se esteuesscm
93: r ajuntadas em huü muy I tas com bu;a(os. 1-: quando se achcgua hu
tempo da sua morte ajunta em seu ninho muy seca lenha. em çima da qual
se poõc c com todas suas frautas du bi(:o canta marauilhosamente que da
grande deleitaçam aos que a uuuem. e despois bate rijamente com as aas
atce que se cnçende aquella lenha. em a qual se deixa queimar. da qual
(:Ínza a cabo de pou(:u tempo se gecra huú bi(:ho. e deste bi(:ho naçe aquelia
aue. E os moradores daquella terra em semelhança do bico daquella aue.
fizerom huü estormcnto de tanger muy du.;e e muy suaue. do qual :\'yculao
estaua muy marauilhado. c quando ho \·irom os outros estar assy espantado;
lhe contarum onde c que maneira tal estormento ouuera seu começo. Em
a ylha de Scylam que he cm a lndia dianteira ha huú ryo chamado Arotan.
hu qual he tam d1eo de que sem trabalho os podem tomar com as
maáos. e se despois o homê teuer per pc ... 1ueno espaço tal pexe em a maâo.
lhe vem a febre. E se o lança da maão. hy a pouco tal doente torna ser
sa1o. A qual cousa elles atribuem a hua fabula que contam de seus deoses.
empero podê muy bem ser (:OUsa natural. Ca em as nossas terras ,·eemos.
se alguCt quiser leuar na ma:ío ho pexe que chamam adormete. logo lhe \·em
trcmelega. e a maáo reçcbe door cm ella.
Estas cousas sob reditas de X \·(:olao forom dos lndios recontadas. e eu
que as ajuntey em buli guard:td1 a fe da hystoria per a algua ·ensynança dos
lcentes. De hy a pouco sobre veeo huú outro homê da India superior. que
he contra a rarte do septentriom. o qual affirma seer enuiado ao padre san-
cto. pera escoldrinhar e saber as cousas do ocçidente assi como do outro
mundo. Ca antre elles ha grande fama que em ellas deuem auer christaos.
E dizia que açcrca de Catayo obra de .xx. jornadas de caminho he huú re-
gno. cujo rey e tudollos seus subditos som christaãos. empero todos here-
jes chamados nestorinos. E que a ellc mandara ho patriarcha daque1la gente
1. as '-luacs.- 5. Jana.- 37. de ocçidcntc.
1\: YCOI.AO \'E NETO
pcra ca saber a verdade. c per cllc ser ma·s c milhor çcrtificado de nos ou-
tros. E dizia que as ygrejas dcllcs eram mais grandes c mais fremosas que
as nossas. c todas som cobertas com soo abobada. Ho patriarcha dcllcs he
muy rico cm ouro c prata. Ca de cada huü homé que tem casa c fat.cnda.
rcçcbc de renda cada anno hüa onça de prata. I E quando cu assy com cllc 9J, v
fallcy per hu[i interprete que era homé de .\rmenia. que sabia a lengoa dos
Turcos c latim. soomcntc ho preguntcy dos lugares c da distancia dos ca-
minhos. Ca as outras cousas assy como dos seus custumés c cerimonias c
alimarias. e que os homés folguam ouuir contar. Consijrando que o inter-
prete ho nom sabia. c que o lndio se aguastaua. c nom podia segundo c1
sua \'ontade cm alhca lingoagem dizer ho que queria. deixei de prcguntar.
Empcro dizia que pcllo grande poder que tem aquellc que cllcs ho gram Cham
chamam. <.}UC quer di1cr empcrador de todos. Tem debaixo do seu senho-
rio .ix. muy poderosos reys. c assy ho atlirmou. E este lndio dcspois que
andara alguüs meses pella terra dos superiores Scytas. a qual hc ojc cha-
mada Tartaria. e esso mesmo pclla terra dos Parthos chegou ao ryo Eufra-
tes. E dcspois em a çidadc de Tripol entrou no mar c se foy a Y cneza c
dalli a Florença. E disse auer ,·isto mujtas çidadcs cm editi.cios de casas c
paaços assi de dentro como de fora muyto ma;s frcmosas que as nossas. E
assi eram muytas dcllas de .xx. e de .x. milhas cm çcrco. E esto nom com
pequena autoridade dizia. Este despois que fallou ao padre sancto. se par-
tio e foy por sua dcuoçam \'ccr Roma. Ellc nom pidia ouro nem prata. assy
que bem parcçeo que elle nom era vijndo pcra pedir como muytos acustu-
mam de fazer contando muytas mentiras se nom soomcntc como quem fora
cnuiado a nos outros \'ccr.
E quasi cm aqucllc mesmo tempo. vicrom huús outros homês ao
padre. sancto de Ethyopia. por   da nossa tfc. E cllc.s forom prcgunta_
dos de my per huü interprete do sytu do ryo :\ylo. c onde naçc. c se era
..:onhcçido antrc cllcs. Os quacs disscrom que dous dcllcs eram naç:idos
bem perto das dcllc. Emtom me crcçco grande desejo de prcguntar
c saber aqucllo que aos antijgos escripturcs c filosofos parcçc ser num
.sabido. e nom menos a Ptolomeu. ajnda que clle foy ho primeiro que
cscreuco das fontes dclle. Os quaes do naçer c crcçcr do muytas
cousas inçcrtas conjecturaram. c a.ssi tiucrom por Ycrdadc o que me dcllcs
foy notificado. E dcspois antre outras muytas cousas que dignas forom de
saber. me pareçerom dignas de se pocrem em escripto. Ca di.sscrom o i'J'ilo
naçer em a parte equinocçial. cm as raizes de muj altos montes. as cabeças
dos quaaes sempre estam cubcrtas de ncuoas. E I saac de trcs fontes 9·h r
pequenas das quaacs as duas estam .\.1. passos hüa da outra. e de.spois que
correm quinhentos passos ajuntase a agoa de ambas c fazem huü ryo que
escassamente pode passar ho ,·aao. A tcrçeira fonte tçm mais agoa. esta
8. costumés.- 15. algüs.-38. cubertos.- 3g.  
12
I I ( ) I li . Jt () I H·:
apartada d·ts outras milhas. c a agqa dôta a cabo de .x. mil pasc;tJ'i se
ajunta a a outra das outras fontes. E d;zcm q11c dc..,pois cm () :\do entram
mais Jc mil ryos de húa parte c outra. c assy se fa/. grande ryo.
Em a,ptclla terra nom d10uc se nom soomcntc trcs meses no anntJ .s.
março. abril. c mayo. LLt qual agoa se enchem aquelles ryos cm tal maneira
que L.ti'cm o r\ i lo tanto crcçcr que cobre tudollos campos de agtJa. A agfJa
dv N y lo ante que se mcstura com as outras agf)as h c doçc c muy saborosa.
l\ qualquer que se com clla lauar. di/.cm que saara da sarna c gaffcc. .\lcm
das fúntcs do Nylo .X\'. jornadas som regiões muy frutíferas e muy bõas. c
terras Jc muy grandes pouoações. c cm cllas muy fremosas çidadcs c mujtas.
E alem destas terras dizem que he o mar empcro elles nunca o \'ÍrtJm .
. \çcr(:a donde o :\ylo esta a çidade em qual clles naçerom chamada
Yaruaria. c tem cm çcrca. .xn·. mil passos. pouoada de tanta gente que
conucm que todallas noytes ,-clcm pella çidade mil homés de cauallo pera
amansar e apaçifi(:ar os arroydos. Esta rcgiom hc de aar temperado c muj
auondosa de fruitos. c tem o mais fcrtil chaii.o de todallas outras. assi
que trcs ,-ezes no anno traz hcrua. e duas Yezes paães. Elia auonda em pam
e Yinho. ajnda que a mayor parte daquella Etyopia husa com agoa
confeyta por Yinho. Elles tem figos pcssigos laranjas c (:uhombrus
semelhantes aos nossos lymócs e todos outros fruitus como os nossos.
tirando almendoas que num tem. De mujtas aruores disserom a nos nom
conheçidas nem ouuid:ts. E por a d:ficuldadc do interprete que nom sabia
se num a Iingoa ar<tuiga. nom podia formar taes yocabulos que fossem pera
cscreuer. empcro de hüa soo aruore es.::riui. a qual he de altura de huü
humé e tam grossa quanto huü homê pode abra.;ar com seus braços. c tem
muytas cortiças húa sobre a outra. e a fruita della quer pareçer com a de
castanha. a qual pisada ou moyda fazem pam aluo de muy boõ sabor. o
qual em os conuites husam. As folhas desta aruore som de anchura de
huü couodu e de dous cm longo. Hu ryo Xylo atee a ylha de .:\Ieroe num
se nauega. ca elle corre e caae per muy fragosas rochas e penedos. E
  Y a.]uem de se pode nauegar. empero pellas muytas Yoltas que I faz
<quclle ryu. trazem os nauios por elle assy que seys meses estam em a
Yiagcm. As gentes que Yiuem em as regiões onde hu -:\ylo naçe lhes he o
sul contra a parte do septemtrium. E no mes de tem ho sol ençirna
da cabe.;a. Em toda a,1uella Ethyopia num tem mais de hüas letras pera
cs\·reuer. nella ha Iinguagês muytas pella multidum das prouincias.
Em as regiões cheguadas ao mar contra a lndia naçe gingiure crauo e
a.;ucar. e alguüs delles dizem noz noscada. Antre a Etyopia e Egypto he
ho deserto que tem de caminho çinquoenta e os que per elle
passam. Jcuam cons1go em camelos de comer c beber que lhes abasta. E
cm mu: tos lugares deste deserto andam alarues saluagés riuus caualgandu
1. d..:stc.- r
1
• de Nd->.- 22. ditl.\:ultade.- 26-21. de ca cast3.nha.
1'\' COI.AO YENETO
cm seus camelos de huü lugar pcra outro. F estes soumcntc se mantem
cm lcytc c carnes dcllcs. E assy a qu:.mtus que acham pellu deserto cm
camelos os roubam c lhes tomam os mantijmentos. c por ysso tos
dcllcs morrem de famc. E csto he a causa t}Lie tam poucos Etyo-
pcs vem pera as nossas terras. Todos estes Etyupcs som de mais longa
vida qui.! nus outros. Ca comümcntc viucm aalcm çcnto c     annos. c
mujtos dclles chcguam atec .cl. c cm alguüs lugares passam .cc. annus. .\
terra hc muy pouoada c toda chea de gente. Ca cllcs num tem la enfermi-
dades nem pcstincnças. c por ysso pella hydadc de longa vida crcçc a
multidum de gente. E pclla diucrsidadc das terras num tem os custumés
yguoaacs. Os seus vestidos som de linho uu sirgl>. ca elles carcçcm de
laa. Os homrs c as mulheres cm alguüs lugares vestidos longos
arrastrandoos pcllo chaao. çingidos com çinta de huü palmo cm ancho
laurada de ouro r pedras prcçiosas .. \lgüas cobrem as cabeças com huü
panno laurado de ouro. Outras trazem os cabcllos espalhados. c outras
atados. Ellcs sobrepujam a nos cm auundança de ouro c pedras prcçio-
sas. Os homes trazem anccs. as molhcrcs manilhas todas de ouro entrcta-
lhadas de pedras prcçiosas. Dcs a festa do natal atcc quur\!sma fazem
festas. c todos dias se ocupam cm comer c beber c dançar. Elles acustu-
marn mesas pequenas. assy c..1uc soomcntc dous ou tres pudem seer nclla.
l\lantecs c guardanabus tem assy como nos outros. Ellcs tem huú suo rey
ho qual dcspois de deos se chama H.cy dos rcys. c dizem qu.! cllc tem
tos rcys de seu senhorio. Os boys daquella terra tem corco-
uas. assy como camc I los. c trazem huüs cornos de trcs couodos cm longuo 9S, r
estendidos por de tras. assy que cm cada huü dclles pode leuar huú cantaru
de vinho. Os caacs cm aquclla terra som tam grandes como asnos cm
nossas terras. assy que cadJ. huü ddlcs cm a caça vcnçe huü lyom. I I a
hi mujtos alyfantcs c muy grandes. os quacs ellcs tem c criam pcra fol-
guança c prazer. c alguüs dcllcs pcra se aproucitarcm dclles cm guerras. E
cm a caça dcllcs tvmam os pequenos c os amansam. c os granJcs matam.
Os dentes de alguüs dcllcs som cm longuo seys couados. 1: as si mesmo
cm aquclla terra criam lyócs mansos pcra a magn:ticençia c prazer. H a
hy hüa alimaria chamada hclus. de muytas coores semelhante ao alifantt'.
saluo que nom tem aquclla tromba tam longa. c tem os pces como camelo.
c tem dous cornos de huü couoJo cm lunguo. cada huü com puntas muy
agudas. huü dcllcs traz cm a fronte. e h o outro sobre ho nariz. H a ln-
, .
outra alimaria pouco mayor que lebre. porem nom a clla semelhante.
chamada zcbcd. de tam boó cheyro. que se alguüas ve1cs a(onteçe que se
achcgua a algüa aruorc pequena e se fregua nella. tam nobre c tam hoõ
cheyro fica arcygado no dito lugar d:truorc que dcspuys os que passam
pcllo chcyro ho acham. c curtam aquellc   onde tal alimaria csteuc
10. as costuml:s.- 16. atadas.- 18. de natal.- :zl muYus.
I lo IIUIHJ JH:
arrimada c lcuam a.lucllc paao c CIJrtamno cm pcdaço'i mcudo!). c \Cn-
Jcmno mais caro que ouro. F Jisscrom que auia alli outra alimaria que
tem .ix. couodos cm longo. c cm altura . \ j. c os pccs fendidos C(Jmo boy e
c huü soo couodo cm grossura. cm os cabcllos pareçe CIJm o lyopard'J. c
a cabeça tem de camelo. hu seu pcscoç<J tem quatro CIJUados cm longuo.
clla tem o rabo muy cabclludo. os cabcllos do qual som muy c
auidos cm grande preço. Ca as mulheres hos trazem nos braços guarnidos
  pedras prcçiosas. Outra alimaria ha hy que comem e hc saluagé.
tomamna cm caça. tam grande como huú asn(J. c traz barras em o corpo
de coor \·erdc c Yermclha. tem cornos de trcs couudus cm longuo. rcuirados
de ç:ima pera baixo. Outra alimaria ha hi semelhante aa lebre de coor
\·crmclha e cornos pequenos e salta mais que huú cauallo. Outra alimaria
tem que parcçe com a cabra. tem os cornos estendidos por dctras em
longo mais que dous couadus. e por que ho fumo delles saara as febres.
9S. v por ysso o preço dellcs passa .x.l. dinheiros douro. I Outra alimaria ha hy
semelhante a este outro sem cornos. com cabellos Yermelhos. tem ho pescoço
dous couodos cm longuo. Outra alimaria ajnda ha hy em aquella terra de
grandura de camelo. coor de leopardo. tem ho pescoço estendido de seys
couodos cm longuo e diziam que a cabeça dcllc era propria como a do
capriolo. E diziam mais. que hy ha húa aue de seys couodos em alto. e
tem as pernas muy delguadas. e os pecs de pato. ho pescoço e a cabeça
pequenos. ho bico formado como de galinha; he de pouco voar. mas em
currendo he mais ligeiro que ho cauallo . .\Iuytas cousas outras que disserom
por ser ja enfadado deyxei de escreuer. E assy dizem que em aquelles
lugares desertos ha hy muytas serpentes. E que em lugares ha hy serpentes
que tem cinquoenta couodos em longuo sem pees. E esto causa ho signo de
Scorpiom. e estes taaes comem huú bezerro enteiro por húa yez. E porque
todos nysto concordarom e affirmarom que assy era ho que disserom. E
assy me pareçiam elles todos homés de bem. e por taaes os tinha eu. e
nom tinham causa algúa de mentir. E assy por causa de comuú Ytilidade
me aprouue de ho escreuer pera proueito doutros.
Acabase h o liuro de :K \·colao Y eneto. h o qual escreueo Pogio
tlorentim. a Deus louuorcs.
1. arrimado.- 10. rcuitados.- 19. dizian.-propia.
Trellado de húa carta que Jeronin1o de santo Estcuam     r
es(reueo de Tripoli a Johan1 ja(onle mayer en1 Baruti.
primeiro dia de seten1bro. Era de .\1 iii e q uatroçentos
e nouenta e noue annos.
Açcrca do nosso fortunado viagem. ajnda que me rcnouc door rcpricado.
porem por satisfazer a vossa requesta ,·os contarey co111o he seguido . .Ta
saherces como fomos em companhia Jcronimo adorno e cu ao Ca) ro. e de
comprados çcrtos coraacs. botões c outras mercadorias. nos partimos pera
Suria. e em .xv. dias chcguamos ao Caryl. c a huü porto cha-
mado Canc. E pdlo caminho achamos muytas çidades antijguas desfeitas
com muytos estranhos cdif1cios feitos no tempo dos yJolatras. dos quaaes
ajnda ha muytos templos. Despois nos partimos do dito lugar de Canc per
terra. c caualguamos . ,·ij. jornadas per aquellas montanhas e desertos. per
que anduu e ho pouoo de Israel. quando foy lançado per
cm cabo do qual chcguamos a Coser porto du roxo. E hy entramos
cm naaos cosei tas com cordas. que tinham as 'elas Jc esteiras. F com aqud-
las naueguamos per .XXXL dias. entrando cada tarde cm frcmosissimos por-
tos. mas deshabitados. E em cheguamos a hüa ylha açerca da terra
hüa milha. a qual hc porto da terra do Preste .loham. c ho senhor daquclla
hc mouro. E da dita ylha a cabo de dous meses nos partimos. c naueguando
pcllo mar ao modo de çima outros tantos dias. Yimos mu) tas barcas cm
aquclle mar que pescauam pcrlas. mas essas que se no dito mar achauam
num som muyto bõas. Em tim do dito tempo cheguamos a .\dem lugar de
mouros de grandíssimo tratfego. 1-. ho senhor daquclle lugar he tanto justo
c boõ que ncnhuü outro infiel crco ln hy a elle par. Dl? qual lugar a caho
de quatro meses nos partimos cm hüa naao da lndia coseita com cordas.
A L\HT \ DO (;J·SOI"I:S
mas as vela<.; eram de cotonia. I· naucguamos p(Jr mar c sem \"Ccr terra
.X\.\'. dias. c depois vimos muytas ylhas. mas nom fomo' a cllas. mas antes
  v nauegando nosso caminho ajnda per j .x. dias. Em fim dos quaaes chcguamos
a hlla çidade grande que se chama Lalocuth. E h} naçe pymenta c gingiurc.
E as aruorcs da pymcnta som como de era. que assi crcçc pcllas outras
aruorcs onde se pode aferrar. c tem a folha assy como a era. c os seus ca-
longos de meu palmo ou mais. c dclguados como huú dedo. e os gr.Jos
ao redor muy espessos. E a causa porque nom naçe a pimenta neo;tas par-
tes. hc porque conucm prantar das aruores. c nom he ,·erdadc ho que di-
lClll cm as nossas terras. que a pimenta se queima pcra que nom E
soomcntc como hc madura ha colhem em coor verde como a era. e a poõc
ao sol c secam na. c cm . , .. ou seis dias se torna negra e enuerrugadJ. como
\·cedes. Ho gingiurc. prantam huü pedaço \·erde pequeno fresco. c a cabo
de huü mes torna grande. c he como auellaã seca. c assy tem a· folha.
Ho senhor daquclle lugar hc ydolatra. e assy os seus pouoos c adoram o
boy c o sol. e muytos outros ydolos que fazem. b quando som mortos os
queimam. Som de muytas maneiras. Alguús matam carne de toda ma-
neira saluo de boy nem ,·aca. Dos quaaes se cm aquclles lugares alguü ma-
tasse nem ferisse seria delles morto. Outros ha hy que jamais nom comem
carne nenhúa. nem pexc. nem outra cousa que fosse Yiua. Toma cada mo-
lher sete ou oyto maridos. nem jamays casam com mulheres ,·irgeês. mas
antes quando huú quer casar com algúa moça a faz estar per .X\'. ou .xx.
dias cm poder de alguúa outra pessoa pera que dclla fique corrupta. E em
aqucllc lugar som bem mil casas de christaáos. E chamase India a alta.
Do qual lugar depois nos partimos com húa outra naao feita como a de
çima. E naueguamos per espaço de .xx\"j. dias e chcguamos a húa ylha grande
que se chama Coylen e hy naçe a canella. As aruores da qual som como de
çcreijas. e assi a folha. E hy naçem as granadas c jaçintos e olhos de gato.
e outras joyas nom mujto bõas. Cl mais som em as montanhas. e nom esti-
uemos alli se num huü dia. Ho senhor daquella ylha hc ydolatra. como he
de çima. e assi o pouoo. E outrosy ha hy muytas aruores de nozes de ln-
dia. c assi mesmo em aquelle lugar de Calocuth de çima. e som propria-
mente como as palmas. Partidos dy. a cabo .xij. dias cheguamos a huú
outro lugar chamado Sogolmentil. E ally naçe sandalo \·ermelho. do qual
ha hi tanta copia que fazem casas dellc. E o senhor daquelle lugar he ydo-
97, r latra como aquellcs de çima. mas tem outro I custume. porque quando morre
huü homc. e como hc morto ho queimam. e sua molher com clle ,·iua tam-
bem se queima. c assi he custume antrc elles. Em aquclle lugar esteuemos
sete meses. Depois nos partimos em húa outra naao aa maneira ja dita. e
chegamos a cabo de .xx. dias a hüa grande çidade chamada Pcyjo. E esta he
ln dia baixa. c tem muy grande senhor. c tem mais de .x. mil alifantes e
12. cnn:rrusada.- I5. ydülatro.- 3o. ydülatro.- 3+ dos quaes.- 35-36. ydolarro.
A CARTA DO <.iEI'OCES
cada anno tomam dcllcs mais de quinhentos. hc alonguado este lugar Jou-
tru de Aua .xv. jornadas per terra. Em este lugar de .\ua naç:cm rubijs c
mujtas outras pedras ricas. F ao Jitu lugar queríamos hyr. mas cm aqucllo
se mouco guerra antrc huü senhor c outro pcllo qual num lcyxauam passar
ncnhuú de huCt lugar pcra outro. Onde nos foy ncçcssario que as mercado-
rias que tinhamos \·cndcllas cm aqucllc lugar de Pcyju. E porque a mayor
parte das ditas mercadorias eram que nom pudiam compr.tr se nom o sc-
nlwr. o qual hc idolatra como a-.Jucllcs de ç:ima. c foy a cllc \ en-
deli as. E porque se montauam dous mill ducados. querendo ser Jcllcs satis-
feito por as rcuultas que hy eram das sobrcditas guerras. nos fo) ncçcssa-
rio estar hy huü anno c mco. I\u l]Ual tempo suliçitando cada dia cm
do dito senhor. aas \·czcs a frios c aas \ czcs a calmas com mu\·tos traba-
lhos. seendo Jcronimo adorno de fraca comprcixãu cansado de tantos
lhos. c tambcm por hüa sua enfermidade \ clha. da qual muyto se aqucy-
xaua. da l]Ual cmllm per cspaaço de .h·. dias por mingua de lisicos como a
Dcos aprouuc foy ncç:cssario dar o spritu a Deus. que fuy nu annu de .xcYj .
• XX\'. dias de dezembro. a noite de sam Juham CUangdista. F ajnJa que por
mingua de religiosos num rcçcbcssc os sacramentos da ygrcja. porem cm tanta
c pacicncia. c pclla sua bõa Yida que scnprc tcuc som çcrtu que
Deus tem a sua alma. c assi o roguei c rogo. o seu corpo foy sepultado per
my cm hüa grcja daqucllas. da qual morte \·us atllrmu que per mujtos
meses fiqucy assaz alligido que açcrca num fuy apus cllc. mas conheç:cndo
depois que o nojo nenhuü remediu me Jaua. confortado de algCts homês de
bem busquei de ajuntar o nosso. c assi feito. com grande trabalho c
me parti com hüa naao pcra hyr a F naucgando por mar
dias hCta manhaã nem secndo muy buõ tcmr'o arribamos a hüa ylha muj
grande. a qual ha nome onde naçc pimenta assaz. se da pimenta
longa. bcnjoy sandalo branco. c mujtas outras cspcçias. E ouuc con I sclhu o 97, v
patrom e marinheiros c mercadores. \·ccndo o tempo forte. dclibcr.unus de
dcscarrcguar cm aquellc lugar. Hu senhor do qual hc mouro. mas ditrcrcn-
çiado da lingoa. c assy a outra terra tuJa undc fomos hc a lingoa Jitrercn-
çiada. E Jcscarreguadas nossas mercadorias cm terra. pcr aqucllc senhor nus
foy alcuant3.da hüa bulra di1.cndo que por ser morto o meu pcr-
tcnç:iam todas aqucllas mercadorias a cllc c que as queria. porque era
custumc naquclla terra .s. cm todo lugar onde seja o senhor mouro.
qu<mdo morre ll'JÜ que num tenha filhos ou jrmáos os seus dinheiros o se-
nhor us toma. c que outro tanto a my queria 1·. mandando buscar
toda nossa roupa. primeiramente fez buscar minha pessoa. c me acharom
bem .ccc. ducados cm rubijs que tinha comprados c os tumarom. c
tomou o senhor pcra assi. c as outras mercadorias puseram a hüa lujl·a c
sdlarumnas. atcc que conhcçcssc a verdade. E se nun1 fura huü despacho
+ myor.- 8. jl{Oiotro.-   ni:hú.- 3+   --..J.o./â.t-Sf? pl:ra ssi.
A C'AJ(TA hO fiJ·:l'ol"l·:s
que de Cayro comigo das mercadorias que lcuara com que me
fendi. todo me fora tomado. F porque auia huú ( d..tquclle lugar
amigo. ho qual auia a lingoa taliana. om1 ajuda Oc0s e su.t
me Jesp<Khei   lugar. porem com muyto trabalho c ma!,
as joyas ficarom perdidas com 0utras que trazia. ( )nJe visto
como <hJLiellc lugar nom era to boõ dctcrmincy de partirme. E vendi-
,Pas as mercadorias que tinha. c conucrtidtJ u preço cm tantas sedas e bcn-
joys me party com húa naau pcra hyr a Combaya. I· assy nauegando per
mar .xxxv. dias. H uü dia nom sccndo muy boú tempo ou vento chc!!Ua-
mos a çcrtas ylhas. yuc se chamam as ylhas de Dyna. e sum mais de sete.
uu oito mill. todas habitadas. mas pequenas ylhas e bayxas. As quacs ao
mar a muur parte som de húa milha antre húa c outra e rnuyta gente en-
fijnda em ellas. gente negra c nua. mas de bõa condiçam e consciençia aa fe
mourisca. Som todos debaixo de huú senhor. E em aquellas ylhas naçem
de nozes grossas de lndia. e de aquellas \ iuem c de pexes. e alguú
pouco de arroz. E em aquclle lugar nos foy neçessario estar seys meses a
esperar por tempo. E cm fim do qual tempo nos partimos per n0sso viagem.
mas a fortuna ajnda nom contente de quanto ja aconteçera. mas de todo
determinada de me meter de sob terra como fez. permeteo que a cabo de
oyto dias nos Yeeo tanta tormenta com tanta chuua. que nos durou çinco
dias. a cabo dos quaaes nos entrou cm a naao tanta aguoa que por seer sem
98, r I cuberta. se encheu de maneira que nom auia hi remedio pera a repairar. e
assy num nos ficando remediu a naao se fuy ao fundo. e ficou a gente a
nado os que sabiam nadar e os outros se afugarom. e a sorte coube a rnj
·que fuy huú dos que ficarom em huú pedaço de paao. em que andey des
pella manhaã ate horas de vespera. Como aprouue aa diuina misericordia.
tres naaos as quaaes eram partidas cm nossa as quaaes eram
diante çinco milhas. conheçendo o nosso caso. prestemente nos rnandarom
as suas barcas. as quaaes cheguadas tomarom os homés que Yiuos ficaua-
mos. e nos lcuarom as suas naaos. e nos repartiram segundo a elles pare-
çeo. E a minha sorte tocou hyr a Combaya. ho senhor do qual lugar tem a
fe de he grande senhor. e daquelle lugar Yeern a JacLar e anyl.
Alli achey çcrtos mercadores mouros de Ale)..andria e de Damasco. e del-
Jes fuy ajudado pera minha despeza. E despois me conçertey com huú mer-
cador xeriffe de Damasco. e estiue em seu seruiço huú mes. e foy por elle
a Ormos com çerta fazenda sua. ao qual lugar de Ormos cheguey per mar
em .lx. dias. e alli lhe dcspachey dos direitos as mercadorias que leuaua. e
lcyxeya a huü seu fcytor. e me parti de ali y. Em o dito lugar de Orrnos h a
muytas perlas. e boõ mercado dellas. Do dito lugar me parti em compa-
nhia de çcrtus mercadores Armenios e .Ajemos per terra. e cheguei a terra
dos .Ajemos onde estiue huú mcs por esperar a carauana. E de hy me foy
27. partidos.
,-
A CAHT.\ no <;n.:on-:s
ao Scrraz. no qual lugar pcllas guerras estiue trcs meses. E de hy me foy
a lspan. E Je hy a Casem. E de hy a Soltania. E de hy a     no qual
lugar por hy auer guerra cstiuc h i çcrtos dias. 1--. dij me fuy a J .cpu onde
achei a carauana. E pello caminho ante que a l.cpu chegasse fumos os que
\'Ínhamus salteados c roubados. e assi onde cstaua a dita carauana.
c ajudado de çcrtus mercadores .\jemus ,.y a l.cpo. qual lugar merca-
dores me queriam tornar mandar cm Tauriz pera comprar joyas seJas e
cremesijs e outras cousas. mas por que ho caminho nom era seguro ho nom
fiz. Ouu vos conta do meu viagem. c do que se me scguyo por meus pe-
cados. os quaaes se num forum com hu que tratia bem me pudera conten-
tar. c: cm maneira ficara que de meus yguaacs escusara sua ajuda. ncngucm
pude contrastar aa fortuna. Com todo dou muytos louuores a nosso Senhor.
por me escapar c fater tanta mcreçce como me fez. Senhor seja cm
vossa guarda. Fym.
12. muvtas.
9
R, v .\cabasc ho liuru de I\larco paulo. com ho liuru de   ou
veneziano. c assi mesmo ho trallado de húa carta de huú gcnoues mercador.
que todos escrcuerom das Indias. a scruiço de Dcos. c auisamento daquel-
les que agora vam pera as ditas Indias. Aos quacs rogo c peço humilmente
que benignamente queiram emendar e correger ho que menos acharem nu
escrcuer .s. nos vucabulus das prouinçias. rcgnos. çidadcs. ylhas. e outras cou-
sas muytas c nom menos em a distancia das lcguas de húa terra pera outra.
Imprimido per Valentym fcrnandez alemaão. Em a muy nobre çidade Lyxboa.
Era de .Mil c quinhentos e dous annos. Aos quatro dias do mes de Fe-
urc\To.
f[2Jcabafe bo líuro t'e nearco paulo.cõ f.>o líuro oe iRícolao
nero ou t'ene;iílno. -z affi mefn1o bo rrallaoo oe bíia carta t'e buú
genoues mercaoo2.qu_e rooosefcreuerõ oas a fcruiço
oe ós. -zauífernêro oequdles q ago2a t'an1 per e as Otras
ifos quaes rogo -z peço ounnln1enre q benígnernére quetr9 cm é
oar-zco2reger boquen1enos acbarénoefcreuer.f.  
oas p2ou inçías.regncs.,íoaoes. rlbes. -z outras ccufas n1urres
nó n1enosan a otftãcra oaslegoes oe búe cerra pa o urra.
p2ln1íoo per t1alencrm fernãoe; elemeão. Em a 111Uf nob:eçíoa
t>e lL yrboa. era oe nf)t1-z quinl)entoe -z tJoui3 annoe. i! os. qus
tro oiss oo mes oe tcurerro.
N otnes proprtos do Livro de ,i\'larco Paulo
. \hacham, 3, J.
3 •. {3;   44; 3. 4S.
.\catu. 1. 10.
Acchon. 1, 4: 1. 5; 1. t); 3, 4ti.
Achabalcch • 2. 3+
Adem, 3, 43 : 3, -14; 3, 41i.
Agiron, 1, t3 .
..\ltm, 1, 1; 1,1: 1. lhj 1, 29.
Alarios. 2, 62.
Alchay, 1, 53; 1. S-4-; 1, 62.
..\lexandna, 1, 70: 3, 46.
Alixandre, •, 14: 1. 27; 31; 1, 34.
Aloadym, 1, 2H; 29.
. \lpusta, 1, 9·
. \mu, 2, 47; 2, 48.
Angamam. 3, :w; 3, 21; 3, 22.
Anhamam, 3, 27.
. \rdandam, 2. 41.
.\rgon, 1. 9; 1, 10.
..\rmenia. 1, 1: 1. 4: 1, 6.
Armenia maior. 1. 11: 1. 13; 1, .S.
Armenia menor, 1, 11.
. 1, 12; 1, 62.
. \rthinga. 1. 13.
Dahilonia. 1. 6: 2, 17; 3, 46.
(Soldam de) Rabiionict.. 1,  
Ralachay, 1, 31.
Balasses. 1, 3+
Ralastia, 1. D: 1, 34: 1, 35; 1.  
Baldach, uj; 1, 17: r. 18.
Raldouino: 1, 1.
Ralgana. 1. 9·
Bal.sera. 1. ati.
Rangala, 2, 42; 2. -4-S •
Harathat: 1, 1.
Barca, 1. 1.
  1, ti1.
Raschia: 1, 35; 1, 36.
Basmao, 3, d; 3. 1S; 3. 16.
Bathvn: 1,S+
Bayam, 2, •18: 2. ti2.
Bayam chinsa. 2. 5+
Belo r. 1, 37.
Boctlam. 1. 3j .
Botha.ra, 1, 1; 1, 2.
Bramani., 3, 23 .
Bramanos, So .
(Sam) Bras, r, 12.
Bri us, 2, 38.
Bucham. 1 . .i 1 ; 1, 53.
Bularguzi: l, -19 •
Caasum, 1, 19 .
Caçeria. 1, 12.
Caçyamordim, 'l. :w .
Cac anfu, 2, 5o .
Calacia, 1, 6of..
Califf. 1. 16.
Camandu, 1, 12.
Cambalu. 2, 3; 2, ti; 2, !li 2. w; 2, 11; 1. 11l;
2. 19: 2, 20: 2, 21; 2. 2"l; 2, 23: 2. l.f.: 2.
27: 2. 6o: 1, 6K
Camhareth. 3. 3ti.
( :ampi\ion, 1, 1. 5o; 1. 63.
Camul. '· 4hj 1, 47; 1. 5o.
Candinfu. l. 51.
Canfu: 2. 29.
:\O\II·s I'HOI'Hios IH) LI\'IH) nt-: .\1 PAI'I n
  2
1
41;.
Canosalim. 1. n.
Carayam. 2, :.t, 4o; :.!
1
41; 2. 4:.t; :.t. 4.i.
r, 4o: 1. 41: 1. 4:i.
Cardi. 1. r5.
Caschar. 1
C a si anfu. 2, 3 1.
Catayu, Cathavo, r, 1)3; 2, w; 2. r ti; 2. :to;
"'l. :tl. ,
Catha\·. 2. 11: 2, 2, 2S; 2. :.tti; 27; 2.
2, 2. 3I: 2. 5o; 2, Sr; 2: tjo.
Cauli. 2. 5.
Cavier, 2. 1R.
2. 3o; 2, 3r.
Cayguy, 2. 6o.
Ca\'m, 2. 56.
2, 2: 2. 4·
2, 38: 2. 41.
(Gram) Cam, Cham, 1, ,, 3; 1. 4; I: 3g;
I. 40; I
1
4 l ; l, 42; I, 43; l, 4Ó; I. -J.7 I:
4R I
1
S4; I. 62 I, 63; I, 64; I, 65; I, 66:
.,
2: 1: 2. 7:2. 2. ro; 2, 12:2, u; 2. 14;
2, r5; 2. r6: :?.: 17: 2.. r8; 2, rg: 2, 20; 2.
21 2. n; :.t, 23; 2:24: 2, 27; 2, 29; 2, 32;
2, 2. 2, 37; 2, 2,4o; 2. 41:2.
42; 2. 44; 2. 2, 47; 2. 49; 2, 5r:
2, 5:.t; 2. 2. s
4
; 2. 56; 2, 5
7
; 2. 58;
2: 6t: 2. 2, 65 :.!.: 68; 2. 6g;·z. 70;
3. 3: 3, 6; 3. 9: 3: lO: 3, 15; 3, 22: 3.
40.
Chana. 3, 36.
Chinchiguy, 2: 62.
Chinchis, t. 52; •.· 53: t. 65; t, 66; 2. r; 2, 8.
47; 1, 48; r. 5o.
Chisa. t, 16.
Chisi, 3. 26.
Chisim. I: rg.
Chris t<Íos. t, 39: 2, 6; :.t, 70; 3, 27.
Chrisro, t, 1, t8; 2: 61; 3, 27; 3. 4+
Ciandu, r. 66.
c:anfu, 2, 5+
Ciangamor, 1, ô5; 1. 66.
Ciangiam. 2, 66.
Ciarchiam, 1, 4J.
Ciguatay, •, 3g.
Cüigi anfu, 2. 61 ; 2. t)2.
Cinguy, 2. 2, 5o; 2, G3.
Cipangu. 3. 2: 3. 3: :t 3,5; 3: 6; 3. 7;
8.
Clcmc:nfu. r. ti.
Clemente:, 1, 5.
C•Jbina, 1, z5; 1. 1. lj'.
C•,gatal. 1. +
Cogatim. 1. 2. 4/).
Co)r,man, 2; 2, •
Coma r. 3, h; 3, 33.
Concha. 2.  
Condur, 3. 11.
Constantinr,poli, 1. 1; 1, r o.
Corocoram, 1. 51: 1, fiz.
Corc,moram, 2. J1 ; 2. 52; 2, 55.
Corm(Js. 1: 23; 1, 24; 3. 26.
Corham. 1: 41; t. 43.
Coyganguy, 2, 2, 55; 2: 56.
Coyla, r, 9·
Coylum. 3, 3r.
Cozurath. Cuzurarh, 3. 34-; 3, 35.
Cremosor. r, 17.
Cublay: 1. 2; r, G; r, g; r. 66: z, 1; 2. 2: 2.
3; 2. 4; 2. 5; 2, 6; 2, g; 2, q; 2, 3g;
2, -J.U; 2, 54; 3. 3: 3. g; 3. 22; 3. 40·
Cuguy. 2, 6G; 2, 67.
Cumanos, r, 62.
Cunchim. 2. 33.
Curdistan, t, 19.
Curmosa, r, rg.
Cyamba, 3, g: 3. ro; 3: _..3.
Cyanglu: 2, 5o; 2. 51.
Cyangly, 2, 5o.
Cyn, 1, 5-j.; 3, 8.
Cynguy, 2. S7.
Darfur, 3, 26.
Dario, 1. 27; r, 3t.
Dario, 2, 3o.
Darizim, r. r3.
Dragoyam, 3, t3; 3: 17.
Duchata, r, r.
Edem, 3. 26.
Egregaya, r, 6-1-; 1. 65.
Eguermul, 1. 63: r. 6+
Essentemur, 39.
Esterim, 3. -J-6.
Ethiupia, 3. 47.
Etnigui. 2. 5.
Eufrates. r, q.
Ezina. 1, 5o.
:\oMFS PROPRIOs no LIYHO DE .\ l.-\n.Co P -\ULO
Fanfur, 3. 1J: 3, 19.
Farfur, 2, 53; 2, 54; 1, ti+
Ferlech, 3, 13; 3, 1-J..
FiJangui, 1, 65.
Ficng, 2, 22.
Franceses, 2, 40.
Fuguy, 2. 67; 2,
Gcnua, 1. 1 1.
<ihcla, 1, 1-J..
Ghcluchclam, 1, 14-
<ihcnguy, 2. tiG.
Glaza, 1, 4; 1, ti; 1. :1.
Gog, 1, ti5.
Gomo. t, 12.
Grcgoriu, 1, ti: 1, 7·
Gregos, 1. 12; •, q.
c;uianfu, 2, 6-J..
Guilhclmo Tripolitano, 1, li.
Gyoguim, 2, 28; 2,
llclly, 3, 33.
llcriach, 1, tit).
Idifu, 1, 65.
Jndia, 1, I7j 1, I, 23j 1, 24j I, J7; 2. 11;
2, 40: 2, .p; 2, 4S; 2, 47; 2, 48; 2. ti4: 2,
G9; 2, 7Uj 3, I; 3. 2; 3, 8; 3, 31: 3, 32: J,
·34: 3, 3ti; 3, 42; 3. 45; 3, 4ti; 3, 47·
India maior, 3. 23: 3. 27; 3, 34; 3. 35.
lndias. 1, 23.
(Mar) Indico, 1, 1 o.
Indios. •, 9; 3, 26.
lstanch, •, 19.
ltalia, 1, 63; 1, ti5.
Jacolith, 1, 15.
Janb, 2, 23.
Jasdyn, 1, 20.
Jaua, •, w; 3, 20; 3, 32.
.laua a mayur, 3, 10.
Jaua a menor, 3, I3.
Jazi, 2. 39: 2, 40.
.lcrusalcm. Jhcrusalcm, 1, 4; 1, 6; 3. 4+
Jhcsu Christo, 1, 1; 1,7; 1.12:1. 11i: 1.
I, Jg j I, 52 j 2, I j 2, 2 j 2, 5-J..
(Sam) Joham baptista, 1, J9.
Jorge, 1, 6.).
J udcus, 2, ti.
I. ambri. 3, 1 3; 3, 1 R; 3, 20.
Latinos. 1,2: 1,3; 1,17; 1,51:
(Sam) l.eunarJo. 1, q.
l.oach, 3, 3o.
l.oachim, 3, 1 1 ; 3, 12.
l.oor, 1, 19.
J.op, I, 4J j I, 44·
3, 23; 3, 2ti: 3, 27:3. 2S; 3, 3.
3o: 3. 3 1 : 3, 3. 4J.
3.
1, 1; 1. 9; 1, 49; 2, 58.
I, I 2; I, 15 j I, 17 j I, I R j I. ll} j
1. 20j 1. 23j 1. :!li; 1, 27: 1, :!Hj 1, Jo; 1,
31 ; I, J2 j I, J4 j I. 37 j I
1
JH j I. Jy j I, 40 j
I, -J. I j I, 42 ; I, +f j I, 45 j I, 47 : I, j I,
ti3: I' tiS: 2. 3, 14: 3, 39.
'1 agog, 1, ti5.
2, J2.
Mangu, 1, -1-6; 1, 5-J..
2. 11; 2, 2R: 2, J4: 2. 35; 2, J7; 2,
51:2, 52; 2. 53; 2, 54:2,55:2, 58; 2, tio:
2, ti I ; 2, til ; 2, 63 ; 2, 64; 2, tiS ; 2, titi; 2,
2. 70i 3. 2: 3. H.
:\{ :trCO, I, 5 j I. 6 j I, 7 : I· 8 j I, j I, 2,
45; 2, 57; 2, 58; 2. 2. ti4 j 2, 70: 3.
3, d; J, I(j;.J, 18.
Paulo. 1, w: 1, 22: 1. 2R: 2, 27: 2,
65; 3, 40·
:\larsarch1s, 2, 61.
Mdibar, 3, J4; 3, 35.
l\tclcgur, 3, 12.
1, ti2.
1. tiS.
3, 4:\.
,l,,rsul, 1.13: 1. •5; 1, 17.
1\louros, 2, 6.
'lurfili. 3,  
,\lulctc, 1. 2X.
.\l ycn, 2, 42: 2. 4+
;"';ainguy, 2,
='l.tscarduy. 2. 42 .
2. 2:2.3:2. 4; 2. 5; 2. ti.
Ncstorino, 2, ti 1.
Ncucram, 3. 20.
1. 1: 1. 5: 1, 1. 2. SR
:\icolao de Vinceri ...·ia, 1, ti.
l>I<OI'HIO'i 1>0 LI\'HO DE \lAJH"O PAUl()
Noe, 1. 13.
Noçiam, 2, 42.
( >rmcsa, 1. 23.
Outalay, 1, 9·
Pamet. 1, 37.
Panchi, 2. 5ti.
l,.apn.l.3; 1.4; 1,S.
Paulo. 1. 1.
Pcnrhaym, 12; 3, d.
J>ersya. 1, 1: 1. 1, ·1.7: 1, 3J.
1, p: 1,43.
Pianfu, 2, 2, 3o.
J>olisachio, 2. 27.
1, 5.
Preste Joham, 1. S1: 1. 53; I. tiS; 2, 3o; h.
Quelifu. (iR.
  2, 3:!.
(}uerman. 1. 20: 21: 1, 24: 1. 2S.
<luianfu, 2, 35.
1. 19.
<,!uinsay, 2. 5-t-: 2. G3; 2, (i-+: 2. 65:2. GG: 2.
" ..
70; J, J.
Quisitim, 2. 12.
Quyan. 2, Sg.
Reobarle, 1, 22.
Roma. 1. 4: 1. ti: I. +7·
Romaáo. I. 3.
Rosmochoram. 3, 3ti; 3, 37; 3, -t-3.
Rossya. 3, 5o.
Rossos. 3, 5o.
Rotam, 5+
Sachion, 1. -t-5; I. 5o.
Samar. 3, 13; 3. 16: 3, 19.
Samarcham. 1. 39.
3, 2ti.
Sarderba. 3. 23.
Se assem, 1, 32; 1, 33.
Sco rea, 3, 37; 3, 38: 3, 3g.
Sebasta. 1. 12.
Semanath, 3, 36.
Seylam, 3, 22; 3,
  5.
Singuimatu, 2, 51.
Singuy, I, (.3; 2, 5g; 2, 63; 2, 6+
Soldadia, 1. 1.
Sonclv,rcJ, 1, 19.
s,,purga. I. 3o.
Sucuyr, 1, I, 5o.
Sufulgu, 2, 49·
Susis, 1, 1 ti.
Syanfu. :t. 5H; :t. 5g.
Synditu, 2. 35.
Tampiguy. 2, G6.
Tanguth. 1, 45; 1, 1, 5o; I, 63; 1, 64.
Tartaria, 1. 4·
Tartaros, 1. 2; 1, 4; 1,8; 1.11; 1, 12; a.a3;
I. I9 i I. 22: I. 3 I j I. 43; I • ..J.í: I. 51 : I.
52: I. 53; I: 55; I; 56; I. 5
7
; 1, 58; I. 5g;
I, tjo; I. til; I, 62; 2, I; 2. 4= J., H; 2, 14:
2. 15; 2. 18; 2, 2. 42; 2. ·H.": 2, 54: 2.
SH; 2.ti-t-; 3.4: 3. 5; 3.tj; 3,47; 3.4!]; 3. 5o.
(Rei dos) Tartaros, 1. 1; 1, 2; 1. 6; 1. q:
t6; 1, 29: I • ..J.ti; I. 53: 1: 5+
Taycham. t, 3J..
T ebeth. 36: 2. J7 : 2. 38.
Temur, 2. 8; 2. 9·
Tem pio. I. ti.
Tenduch. t, 53; 1. 65.
11.
Teobaldo, 1. 5.
Tesmur, a, 36.
Thaurizio, t, 17; 1. 18.
Tigris. 1. 1.
Tinguy, 2, 70.
(Sam) Tomé, 3. 27; 3. 3o; 3 • ..J-3.
forre de ferro, I: q..
(Gram) 1. 43.
Turcos, a, 12.
Turquya, 12.
Tvmochaym. 1. 19; 1. 27.
L'ng, 1, 65.
L'ngam, 2, 18.
Unquem, 2. 68.
Vaar, 3, 2-1-: 3, 26.
Vatygay, 3, -1-7·
Velho das montanhas, a, 28; 1. 29.
Y eneza, 1, 1 ; 1, 5 ; 1, 9; 1. 10; 1, 1 1 • 2. 3 1 ;
2, 3g; 2, 56; 2, 5g; 2. GJ; 2, 6-1-; 2, 67: 3,
18.
Venezianos, 2; 1, +
Vguy, 2, 66.
Vnçiam, 2, ..p.
Vngrach, 2. 8.
Vonsachim, 3, 3.
Vorsos, 2, 5.
Yanguy, 2. S7.
?\aMES PROPRIOs no LIYHO DE .\1 ARco PAuLO
Zanzibar, 3, J9; 3. 4'·
Zayten, 3, 3; 3, R; 3. 9·
Zcrazi. 1. 19.
Zcytom, 2, 70.
Zorzania, 1, t3; 1. '+
Zorzano;;, 1. '+
Zurficar, t. -f7·
N otncs proprios do Livro de Nicolau \' eneto
Ahnigaro.   v.
Adem, R7, r.
. \ndamania, 81. v.
A rabi a, Ro, r; 90. r.
Armenia.

v.
. \rotan. g3, r.
Aua, 83, r; 84, v.
Rahilonia, 8o, r.
Rachalos, 86, v; r; 89, v.
Radam, R5, v.
Raldach, 8o. r.
Ralsera. 8o, v.
Barba. 87, r.
Ratech. R2, r.
Rramanos, v.
Ryzcneguer, 81. r; 90. v; v.
Calahatia. Ro. v.
Calcom. So, v.
Caldca. Ro, r.
Cambaleschia, R4. v.
C arras, 87, r.
Cathayo, 8-t-, r; 84, v; SR, v; 93, r.
Cavla. 81, r.
Cendcrghicia, 81, r.
Cernouem, 82, v.
Colchud, 86, v; 87, r.
(Gram) Cham, R4, v; g3. v.
Colchym, 8ti, v.
Coloem, R5, v; 86, v.
Colonguria. 8ti, v.
Combaya, 8o, v; 84, r; 86
1
v:

r.
Cyampa, 85, v.
Damasco, 8o. r.
Egypto, R7. r; 94, v .
Etyopcs, 94· v.
Etyopia, 8;, r; g3, v; r; 94, v.
Eufrates, 8o, r; 93, v .
Florença, 93, v.
Francos, 92, r.
r; 87, v; go, v.
Gyda. 87, r.
Hcllym. 8o v.
lndia, 8o. v; 81. r; 84. r; 84. v; 85, r; Rti, v;
s,, v: 88, v; r; 92· v; g3, r.
lndias, 92. v.
lndios, 87, v; 88, r; 88. v: 90, v: r; 9J. r; 93, v.
Indo, Ro, v; 81. r; 87, v.
ltalia. 84, v.
Jaua, 85, r; 85. v; 92. v.
l.actancio. 92, v.
:\laarazia. 82, v.
:\laçyn, 83. r; 84. v.
:\lahabar, 81. r.
:\I ai pu ria, 81, r.
:\leliancota, 86, v.
85, v.
94· r.
90, r,
;\Jcptay, R+, v.
N.:storinos. H1, r; 8H, v.
Nico] ao, H 1. r; H3, r; HS, v; 8ti.' ; r; r.
Nicolao de Vcnc.w, Xo, r.
:--.Jylo, ,.;     v.
Octauiano, 92, r.
Odcschyria. 81. r.
"
Pachamuria, 8o, , ..
Paluria. l:'li, , •.
Pa rthos. 93, '"-
Pauconia, 84-, v.
Pclagonga, 81, r.
8o, ,. ; 87, v.
Pcrsios, Ro, v.
PI inio, R3, r.
Prolomeo, 93, v.
Pudifdania, 81, r; ,·; 91, v.
Racha, 82, v.
Roma, v.
(.\lar) Russo, '8.7, r.
Sanday, 85, v.
81, '·
Scorpit,m. v.
Se} tas. v.
SccutcrcJ, 87, r.
Sccutrino, 87, r.
Scylam, 81, v; r.
Sicham, 8tj, v.
Su-;inaria. 85, v.
Synay, 87, r.
Syria. 8o, r.
Taprobana, 81, v; r; 82, v; 87, v.
Tartaria, g3, v.
Tenassarim, 82. v.
(Sancto) Thomé, 81, r.
Tripol, 93, v.
Turcos. g3, v.
Varuaria, 94-· r.
Veneza, 87, r; 92, r; g3, v.
Zcyrom, 84-; v.
,•
N otnes propnos
da carta de Jeronin1o de Santo Estevan1
Ade n,   r.
. \;cm 9R, r.
98. r.
Armenios, 9H, r.
Aua, <J7: r.
Barmi. gti. r.
Cady, v.
Calocuth. yG. v.
Cane, 91i, r.
Cariz. 9t). r.
Cayro, 9ti. r; 97, v.
Combaya, 97, v; r.
Coser, 96, r.
Coylen, v.
Damasco. yH. r.
l>yna, v.
Faraão. yfi, r.
India. r; 97, r; v.
lspan. r.
Israel. r.
.h:ronimo ndorno, 91i, r; 9/· r.
J..:ronimo de samo Esrcuam. 9G, r .
(Sam) .loham r.
Joham jacomc maycr, r.
:\laf.,m..:dc. 9R, r.
i\lar roxo. r.
97, r.
;\loyses. r.
Ormos. 9R. r.
Pcyjn. 97· r.
Prcsrc Joham, r.
Samarra, 97, r.
Scrraz, y8, r.
Sogolmcmil, v.
Solrania, 9H, r.
Surin. 96. r.
Tauri7. 98, r.
r ri poli, <Jii. r.