5(6802 Marcos Nobre. professor de filosofia da Unicamp.

sintetiza a politica
brasileira a partir da ideia de "pemedebismo". que designa a fisiologia e a resistência
aos movimentos sociais. O conceito poderia ser empregado a recomposição do PT a
partir da vitoria de Lula. tema do professor de ciência politica da USP André Singer.
NA ABERTURA de "Imobilismo em Movimento - Da Abertura Democratica ao
Governo Dilma" |Companhia das Letras. R$ 36. 208 pags.]. Marcos Nobre diz que o
livro é dedicado "as Revoltas |de Junho de 2013]". Assim mesmo. com maiusculas: as
Revoltas de Junho. Ha outras maiusculas subentendidas no ensaio analitico deste
professor de filosofia da Unicamp e ex-colunista da )ROKD.
Mereceria maiusculas. por exemplo. o conceito que fundamenta toda a avaliação de
Nobre a respeito do funcionamento politico brasileiro. Trata-se do que ele chama de
"pemedebismo". algo mais amplo e insidioso do que o mero "peemedebismo". com dois
"E".
Marcos Nobre não faz referência apenas ao conjunto de praticas e discursos do velho
PMDB; praticamente todos os partidos se incluem nessa entidade. cujos intuitos e
estratagemas justificariam. a rigor. que Nobre empregasse a caixa-alta: o Pemedebismo.
Estamos diante de "uma cultura politica que se estabeleceu nos anos 1980 e que. mesmo
se modificando ao longo do tempo. estruturou e blindou o sistema politico contra as
forças sociais de transformação". Embora o livro de Nobre seja. no geral. muito legivel
e interessante. vale prestar atenção nessa frase. algo enrolada.
Uma "cultura politica" blinda o "sistema politico"? Uma coisa estaria agindo sobre a
outra? Qual das duas? Ou seria o "sistema" que cria uma "cultura"?
Poderiamos entender o "pemedebismo" como um conjunto de fenômenos conhecidos:
fisiologia. fraqueza partidaria. resistência aos movimentos sociais. Mas quais as causas.
as origens. os porquês desse fenômeno? Ou esse fenômeno é causa e origem de tudo?
Por mais antiquado que possa parecer. não conheço modo melhor para explicar essa
"blindagem" do que o recurso a conceitos de inspiração marxista. algo que o livro tende
a evitar.
Se não quisermos dar as classes sociais o papel de agentes. de responsaveis pelo
surgimento do "pemedebismo". seria preciso provar que o "pemedebismo" sufocou não
apenas as reivindicações da esquerda mas também as do empresariado industrial. do
agronegocio. dos banqueiros. Sera?
Mas. quando se afirma que uma "cultura politica" fechou o caminho para reivindicações
sociais. pressupõe-se que os setores financeiro. agroexportador e industrial.
provavelmente nessa ordem. andaram levando a melhor.
Em vez de apontar para esses setores. o que talvez lhe valesse a critica de maniqueismo.
Marcos Nobre prefere atribuir ao "Pemedebismo" o papel de personagem principal de
seu drama. Do lado oposto. sufocada durante 20 anos. mas renascida com as Revoltas
de Junho. estaria a "Voz das Ruas".
So que acabamos em outro maniqueismo. afinal. e um bocado mais vago; ironicamente.
o esquema de "Imobilismo em Movimento" lembra a retorica do velho PMDB (o bom.
o peemedebista com dois "E") no tempo das lutas "do povo" contra o "regime".
Tudo corre o risco de parecer reclamação de torcedor: se nosso time perdeu. o resultado
não é legitimo. Como. no jogo da democratização. os movimentos sociais foram
derrotados. eis um sinal de que o sistema politico não é democratico o suficiente.
Não deixa de ser verdade. Ha pouca participação popular. muitos parlamentares se
voltam apenas para o enriquecimento pessoal. campanhas custam carissimo. a
manipulação dos marqueteiros substitui qualquer debate.
Lembro que as proprias classes dominantes estão longe de se sentir satisfeitas com seus
politicos; no minimo. desejariam que estes cobrassem menos pelo serviço. Pode ser que
seus interesses não estejam sendo atendidos plenamente; mas isso não quer dizer que
não estejam sendo atendidos.
5(&216758d­2 Estas criticas pontuais ao livro de Marcos Nobre não fazem justiça
ao conjunto. que é principalmente uma reconstrução historica tão aguda quanto
apaixonada das principais decisões de governo nos ultimos 20 anos no Brasil.
As teses basicas. e alguns trechos literais. de "Imobilismo em Movimento" são
retomadas em "Choque de Democracia" |Breve Companhia. R$ 4.99 ]. breve livro
eletrônico que Marcos Nobre escreveu em pleno entusiasmo com as manifestações de
junho.
Entusiasmo e apaixonamento são coisas admiravelmente expurgadas de "Os Sentidos do
Lulismo - Reforma Gradual e Pacto Conservador" |Companhia das Letras. R$ 29.50.
280 pags.]. do cientista politico e colunista da )ROKD André Singer. Ex-porta-voz da
Presidência no primeiro mandato de Lula. Singer é capaz de analisar "a frio" a atuação
dos petistas no poder.
A principal tese do livro. demonstrada com estatisticas eleitorais na dose certa. ja é
bastante conhecida a esta altura.
Desde a democratização. a politica brasileira teve uma caracteristica curiosa: quanto
menor a sua renda. mais o eleitor votava nos candidatos de direita. A simpatia pela
esquerda. e pelo PT em geral. sempre foi maior nos setores mais instruidos. mais
urbanizados e mais ricos da sociedade.
Uma recomposição. entretanto. ocorreu a partir da vitoria de Lula em 2002. As politicas
de aumento do salario minimo. de Bolsa Iamilia e crédito consignado tiveram o condão
de "popularizar". pela primeira vez. a base eleitoral do metalurgico de São Bernardo.
Ironicamente. isso se deu ao mesmo tempo em que o PT abandonava sua pratica mais
radical. aceitando compor-se com forças politicas atrasadas e oligarquicas. Não que
André Singer use vocabulario tão carregado. mas foi esta a "pemedebização" de Lula e
do PT. se quisermos falar como Nobre.
Com isso. e mais o mensalão. o PT perdeu a classe média. mas ganhou forte apoio no
que André Singer --seguindo seu pai. o economista Paul Singer-- chama de
"subproletariado". Na frase ufanista de Juarez Guimarães. que o autor cita
aprovativamente. o partido de Lula se tornou "mais samba. mais negro. mais
nordestino".
Seria o caso de dizer que saiu dai um maracatu do crioulo doido. O importante. e Singer
faz bem em repetir numeros eloquentes a esse respeito. é que a coisa funcionou. em
termos de redistribuição de renda e geração de empregos.
Ioi. entretanto. um "reformismo fraco". como o autor esta pronto a admitir. em que as
concessões iniciais a ortodoxia financeira foram sucedidas por uma espécie de "pacto
produtivista" com as classes empresariais. numa conjuntura também favorecida pela
disparada dos preços nos produtos de exportação.
Todo esse percurso é exposto num tom de firme serenidade. ainda que as concessões a
direita feitas pelo lulismo sejam mencionadas com pouco destaque.
A argumentação de Singer da mais sinais de fraqueza a partir da metade do livro. Em
primeiro lugar. o autor apresenta uma versão um tanto "sacrificial" das atitudes do PT.
Ioi preciso abandonar convicções face a pressão conservadora e. se isso não fosse feito.
haveria o risco de ruptura institucional.
Uma linha de raciocinio alternativa seria a de perguntar se a partir de experiências
concretas em municipios como Diadema. Ribeirão Preto e São José dos Campos. o
ideario do PT ja não estava pronto para transformar-se em simples carapaça.
escondendo acordos corruptos com interesses dominantes locais.
Como o foco de Singer é o desempenho do partido nas urnas. ha o perigo de sua analise
mascarar a questão da "representação de classe". Um eleitorado pobre pode ser
conquistado graças a campanhas carissimas. Como assinala o autor. essas campanhas
deixam de depender da militância. Passam (e isso o autor assinala menos) a ser
financiadas por grupos de outro tipo: bancos. empreiteiras. grandes conglomerados.
Embora recorra ao modelo da luta de classes. neste sentido o livro faz o trabalho pela
metade. Quem um politico representa? Seus eleitores ou seus financiadores? O tom
mais indignado de Marcos Nobre. e dos manifestantes de junho. faz falta aqui.
Um acordo entre a Iiesp e centrais sindicais. uma aliança entre Lula e um empresario
têxtil como José de Alencar seriam de fato evidências significativas de um pacto entre
classes? Qual a representatividade desses personagens? Seria mais notavel do que as
relações. digamos. entre José Dirceu e o dono da Embratel. Carlos Slim. de quem o ex-
ministro é consultor?
Que seja. Ironicamente. a velha critica petista ao populismo de Vargas. acusado de
mediar os interesses de operarios e patrões. é reinterpretada de uma otica favoravel ao
petismo --ou de seja la o que restou dele.
Para André Singer. algo resta. O "espirito do Sion". como ele denomina o esquerdismo
presente na reunião em que o partido foi fundado. sobrevive por exemplo na Iundação
Perseu Abramo. instituto teorico do partido. Ieita a homenagem. imagino figuras como
Antonio Palocci assentindo gravemente com essa avaliação.
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GUSTAVO PATU
5HVXPR No dia 15. a Republica brasileira chega aos 124 anos e experimenta a versão
tropical do Estado de bem-estar social. Desigualdade e pobreza diminuem no jovem
pais. mas a um alto custo: apesar de a carga tributaria consumir mais de um terço da
renda nacional. o Estado é deficitario. e o crescimento econômico. anêmico.
"A expansão do gasto publico na area das politicas sociais classicas constitui uma
exigência minima de uma sociedade democratica". sentenciava o historico programa
partidario.
Não se tratava de um documento do PT. ainda jovem naquele final de 1982. Intitulado
"Esperança e Mudança" --antecipando em duas décadas e meia os lemas do americano
Barack Obama-- e apresentado como "uma proposta de governo para o Brasil". o texto
foi publicado na "Revista do PMDB".
Inspirado pelas experiências da social-democracia europeia e pela crise da ditadura
militar. o partido lançava a pedra fundamental do que viria a ser a principal obra da
historia recente da Republica brasileira: a versão tropical do Estado de bem-estar social.
A explosão da divida externa havia sepultado o crescimento econômico vendido como
milagroso pelos militares. e uma bandeira caia no colo dos adversarios do regime: era
hora de enfrentar. por meio da ação social do poder publico. a escandalosa desigualdade
entre ricos e pobres.
E curioso que. enquanto ganhava impulso no Brasil. o ideario social-democrata se
enfraquecia na Europa. Cinco anos antes fora dado a luz o manifesto "A Correta
Abordagem da Economia". do Partido Conservador britânico. que consagrava o que se
convencionou chamar de neoliberalismo.
O panfleto apresentava o diagnostico e a agenda que seriam aplicados por Margaret
Thatcher: os excessos do gasto publico exigiam impostos extorsivos. inibiam a ambição
individual e paralisavam a economia; deveriam ser corrigidos com privatização e livre
mercado.
Depois que o PMDB passou de maior partido de oposição a maior partido governista da
redemocratização. ideias neoliberais e social-democratas nativas travaram o maior de
muitos duelos na elaboração da Constituição de 1988. As primeiras se abrigavam em
um bloco parlamentar heterogêneo apelidado pejorativamente de "Centrão"; as
segundas ja haviam batizado um partido. o PSDB. dissidência da nave-mãe
peemedebista.
,1*29(51È9(/ "Carta deixa pais ingovernavel. diz Sarney". foi a manchete da
Iolha em 27 de julho de 88. com o relato de um pronunciamento dramatico do então
presidente em cadeia de radio e TV. no qual se antevia uma "brutal explosão de gastos
publicos".
No começo do mês. o jornal havia noticiado que. com as imposições constitucionais. as
despesas da Previdência poderiam saltar para Cz$ 1.6 trilhão --volume de cruzados.
moeda da época. equivalente a 4º do Produto Interno Bruto.
Lider do PSDB no Senado. Iernando Henrique Cardoso respondia que os beneficios
aprovados eram "o minimo". Ja presidente da Republica. tentou inutilmente conter os
gastos previdenciarios. que hoje rondam a casa de 7º do PIB.
Entre os direitos estabelecidos na Carta. estava o piso de um salario minimo para os
beneficios. inclusive para trabalhadores rurais que nunca contribuiram; assistência a
idosos e deficientes de baixa renda; e acesso universal aos serviços publicos de saude.
68e&,$ "Vamos discutir o tamanho do Estado? E um bom debate". dizia o secretario
da Receita Iederal. "Na Suécia. a carga |tributaria] é de 50º. e o Estado oferece tudo;
nos Estados Unidos. a carga é menor. e o cidadão paga tudo; no Brasil. ha essa
desigualdade de renda."
O ano era 2007. e Jorge Rachid. um dos principais tecnocratas do governo de Luiz
Inacio Lula da Silva. tentava convencer uma comissão de deputados a prorrogar a
CPMI. A Contribuição Provisoria sobre Movimentação Iinanceira. ou "imposto do
cheque". havia sido criada em carater temporario para financiar a saude --e aquela altura
era destinada também a Previdência e a assistência.
O argumento se valia do fascinio exercido na classe politica nacional pelo modelo do
"Estado que oferece tudo". cujo exemplo mais lembrado é o sueco. O pais escandinavo
é um dos poucos no planeta capazes de fazer parecer modesta a carga brasileira de
impostos e contribuições sociais. Se la os cidadãos entregam metade de sua renda ao
governo. aqui a conta fica pouco acima de um terço.
As receitas e despesas publicas no Brasil são quase incomparaveis. se considerados os
parâmetros do mundo emergente.
Como exemplo. podemos nos limitar ao peso que têm. em diferentes economias. os
programas de proteção social --nome dado a mecanismos de inclusão social e de
combate a pobreza. como o Bolsa Iamilia (veja quadro).
Na modelar Suécia. estima-se que os gastos em proteção social consumam 21.5º do
PIB. No Brasil. a parcela é de 12.5º. Os EUA. contraexemplo de Rachid. colocam na
area 9.2º. E o México gasta so 2.8º do PIB no setor.
Na historia do Brasil republicano. é notavel o salto dos gastos publicos dos anos 1990
para ca. A carga não passava de 10º do PIB no inicio da Republica; um século depois.
estava na casa dos 25º; em pouco mais de uma década dividida entre os governos IHC
e Lula. saltou para 35º.
+,3(5,1)/$d­2 Em seus primeiros anos. o Estado de bem-estar tropical foi diluido
em uma hiperinflação que corroia o valor dos beneficios. o que permitia ao governo
fechar suas contas. Depois que o Plano Real civilizou a alta dos preços. os impostos
subiram.
Temores neoliberais e esperanças social-democratas se confirmaram: a economia não
reencontrou o caminho do crescimento acelerado e duradouro. mas a concentração de
renda finalmente entrou em trajetoria de queda.
Tensões se acumulam entre os dois polos ideologicos a medida que os movimentos
politicos oscilam entre um e outro. Tucanos e petistas. em meio a acusações. elevaram
gastos e privatizaram. criaram programas sociais e elevaram os juros para conter a
inflação.
O Bolsa Iamilia é um exemplo de vitoria discreta do pensamento liberal que defende
ações focadas nos mais miseraveis em vez das politicas sociais classicas preconizadas
no documento do PMDB.
Uma das responsaveis pelo manifesto. a mais tarde petista Maria da Conceição Tavares.
chamou de "débeis mentais" os economistas da Iazenda do primeiro mandato de Lula
que defenderam a focalização do gasto social.
A agenda social do PT. ao chegar ao Planalto. era ambiciosa e incluia a ampliação das
politicas universais e da reforma agraria; sua principal marca. porém. acabou sendo a
opção mais barata.
O debate nos meios politico e acadêmico em torno dos programas mais decisivos para a
redução da pobreza e da desigualdade segue ainda hoje. Dilma Rousseff. com menos
dinheiro a disposição que Lula. optou por privilegiar educação e Bolsa Iamilia.
72/(5Æ1&,$ Em 2007. aprovada pela Câmara. a CPMI não conseguiu os
necessarios três quintos do Senado e foi extinta. Para Samuel Pessôa. professor de
economia e colunista da Iolha. a derrota sinalizou que a tolerância da sociedade ao
aumento da carga tributaria não é infinita.
Nos anos seguintes. as despesas publicas e o bem-estar social se mantiveram em alta
graças a um ja esgotado ciclo de prosperidade mundial que favoreceu o pais. escreve
Pessôa em "O Contrato Social da Redemocratização e seus Limites". publicado ha um
ano.
Em entrevista. Pessôa opinou que o proximo governo pode ser obrigado a lidar com
uma repactuação desse contrato. seja com a revisão da politica de valorização do salario
minimo. seja com uma nova rodada de alta de impostos.
A ofensiva do prefeito de São Paulo. Iernando Haddad. pela elevação do IPTU pode
funcionar como balão de ensaio para a segunda opção. "se ele não se machucar muito".
especula o pesquisador da Iundação Getulio Vargas (RJ).
Previsões de que o aparato de proteção social levara a um colapso das contas publicas
têm sido contestadas por estudiosos como Eduardo Iagnani. da Unicamp.
"O projeto inspirado nos valores do Estado de bem-estar social foi progressivamente
tensionado de 1990 em diante. Abriu-se um novo ciclo de contrarreformas antagônicas a
cidadania social recém-conquistada". escreveu em artigo para a revista petista "Teoria e
Debate".
A argumentação seguida por Iagnani identifica os juros pagos aos credores da divida
publica. entre os mais altos do mundo. como a real ameaça a estabilidade fiscal e a
origem de interesses contrarios a expansão da seguridade.
O mais novo embate se da em torno das transformações demograficas do pais. Um lado
calcula que o envelhecimento da população levara a multiplicação das ja generosas
despesas com aposentados; o outro atribui a recuperação da economia o papel de
produzir a receita necessaria.
Debate econômico a parte. a politica da redemocratização ensina que. se pode tornar o
pais ingovernavel. a expansão do gasto social tem sido a garantia da governabilidade --
mais ou menos como uma aliança com o PMDB.
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Odorico Paraguaçu vestia o paleto as pressas quando recebia um telefonema do
governador.
Mas. se a novela "O Bem-Amado" (1973) se passasse hoje. o prefeito de Sucupira
talvez não se mostrasse tão reverente: estaria acostumado a tratar diretamente com a
Presidência da Republica de assuntos relativos a creches. postos de saude e Bolsa
Iamilia. Até o célebre cemitério que pretendia inaugurar poderia receber verbas de
algum convênio com o governo federal.
Prefeitos com mais verbas e poderes são a mais recente inovação do federalismo
brasileiro. cuja historia se confunde com a da Republica. Em contrapartida. os Estados
se encontram enfraquecidos.
"As Provincias do Brasil. reunidas pelo laço da Iederação. ficam constituindo os
Estados Unidos do Brasil". estabelecia o segundo artigo do decreto numero 1 de 1889. o
inaugural da era republicana.
Sob obvia inspiração da bem-sucedida experiência norte-americana. procurava-se levar
a sério a ideia de Estados autônomos para formular as proprias leis e cuidar de sua
administração. a ponto de seus governantes serem chamados inicialmente de
presidentes.
Um século depois. o Brasil seria mais original. ao decidir alçar também os municipios a
categoria de entes federativos. em um modelo inédito de autonomia local. Na pratica. as
cidades ganharam um Executivo. um Legislativo e o fim da tutela dos Estados. Em
termos ainda mais concretos. houve uma multiplicação do numero de prefeituras e
câmaras municipais. mais atribuições e mais recursos.
Segundo levantamento do economista José Roberto Afonso. pesquisador da Iundação
Getulio Vargas. desde a Constituição de 1988. os municipios elevaram de 13.3º para
18.5º sua participação nas receitas publicas do pais --via arrecadação propria e
repasses obrigatorios feitos pelas instâncias estadual e federal. No mesmo periodo. a
fatia dos Estados no bolo tributario caiu de 26.6º para 24.6º.
Nessas contas não entram as crescentes verbas transferidas voluntariamente da União e
dos Estados para os municipios. "Cada vez mais ha uma ponte direta entre governo
federal e governos locais. sem envolver os Estados; em federações tradicionais. isso é
impossivel ou proibido". observa Afonso.
*8(55$ Se a logica federativa supõe a cooperação entre seus entes para promover
politicas publicas e desenvolvimento econômico. ha algo de anormal na experiência
brasileira. Basta dizer que o principal tema de discussão entre os governadores do pais é
a guerra fiscal: a disputa entre os Estados pela atração de investimentos por meio de
incentivos tributarios.
Sem conseguir chegar a um acordo em torno de uma politica que deprime sua
capacidade de arrecadar. os Estados acumulam outros contenciosos. como a repartição
dos tributos arrecadados pela União e das receitas esperadas com o petroleo do pré-sal.
"O que quebrou os Estados foi a crise dos anos 1990". diz o cientista politico Antonio
Lassance. do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Naquela década. o
endividamento excessivo dos governos estaduais foi solucionado por um socorro
financeiro federal. Desde então. os Estados são devedores da União e precisam se
submeter as exigências da credora. Novas dividas. por exemplo. com o sinal verde do
Tesouro Nacional.
O poder e a autonomia dos Estados oscilaram ao longo da historia republicana. O papel
centralizador da União foi exercido de maneira mais notoria em dois periodos
autoritarios. o Estado Novo de Getulio Vargas e a ditadura militar.
Para Iernando Rezende. pesquisador da IGV. vive-se hoje no Brasil. pela primeira vez.
um momento de centralização com democracia. ainda que o espirito da Constituição
tenha sido o de radicalizar a descentralização.
Segundo seu raciocinio. a mesma crise orçamentaria dos anos 90 forçou o governo
federal a reforçar suas receitas a fim de cumprir as metas fiscais impostas pelo Iundo
Monetario Internacional.
Para tanto. os tributos escolhidos foram aqueles que não são repartidos com os Estados
e municipios. em especial as contribuições destinadas a sustentar a rede de programas
de proteção social.
Enquanto interrompia o espalhamento de receitas. a União passou também a encabeçar
a definição de politicas publicas --"uma série de decisões que vão amarrando as mãos
dos administradores estaduais e municipais". nas palavras de Rezende.
O Bolsa Iamilia. por exemplo. tem gestão compartilhada. na teoria. pelas três esferas de
governo; todas as regras do programa. no entanto. são definidas em Brasilia. Mais
recentemente. a presidente Dilma Rousseff tratou de definir como Estados e municipios
vão aplicar as receitas do petroleo.
Para Antonio Lassance. isso não é necessariamente um problema. "A União virou uma
excelente maquina de arrecadação". argumenta. "e as regras das politicas publicas são
pactuadas |com governadores e prefeitos]".
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FERNANDO RODRIGUES
5(6802 As imperfeições do modelo politico brasileiro estimulam o clamor por
amplas reformas. mas intervenções do Congresso quase sempre tornam pior o que ja é
ruim. Encontrar elixir contra todos os males é tarefa quase inexequivel; muitas vezes.
alterações minimas e de resultado a longo prazo podem ser mais eficazes.
Quase ninguém o defende. mas o sistema politico-eleitoral em vigor é o mais
sofisticado e eficiente que o Brasil ja teve em toda a sua historia republicana.
Ha liberdade de expressão acima da média na comparação com outras democracias
jovens como a brasileira (basta olhar em volta. na América Latina). As instituições são
independentes. Os avanços republicanos têm sido cristalizados em leis civilizatorias
como o Codigo de Defesa do Consumidor e a Lei de Acesso a Informação.
Essas normas são votadas e aprovadas pelo mesmo Congresso que de vez em quando
preserva o mandato de um corrupto. mas também volta e meia expulsa um politico
ladrão.
Ha um clamor latente por uma politica de melhor qualidade. até porque o Brasil chegou
tarde. so no final da década de 1980. a democracia estavel. As imperfeições do modelo
produzem a sensação de que a degradação é maior do que a realidade poderia tolerar.
Quase todos então imaginam ter a solução de sistema ideal. Sonham com uma lei que
seja um elixir para curar todos os males da politica.
Encontrar tal legislação é tarefa proxima do inexequivel. Ha uma infinidade de estudos
e analises sobre como é dificil formatar um sistema de democracia representativa eficaz
e justo.
George G. Szpiro. um matematico e jornalista. investigou as opções mais relevantes
desde a Grécia Antiga. Chegou a uma conclusão desalentadora: "Infelizmente. a unica
forma de governo que evita paradoxos. inconsistências e manipulações é a ditadura".
escreveu em seu "Numbers Rule" (Princeton University Press. 2010).
O problema maior das democracias representativas é a velocidade com que as coisas
andam. O modelo tem muitas qualidades. mas um gigantesco defeito: a evolução e a
consolidação das regras se da de maneira muito lenta.
Tome-se o caso norte-americano. A Constituição é de 1787 e esta em vigor ha 226 anos.
Em seu livro "Democracia na América" (1835-40). Alexis de Tocqueville nota um
costume ruim dos norte-americanos na primeira metade do século 19. momento
constitutivo daquele pais.
O pensador francês escreveu sobre a inconveniência das alterações constantes de leis.
"um grande mal". E cita uma frase de Thomas Jefferson (1743-1826). presidente dos
EUA de 1801 a 1809. a quem descreve como "o maior democrata" daquele pais: "A
instabilidade das nossas leis é realmente uma inconveniência muito séria. Creio que
deveriamos tê-la evitado decidindo que se deixasse sempre um ano inteiro passar entre a
apresentação de um projeto e a sua aprovação final".
Essa afeição por alterações constantes de leis é. no Brasil. um obstaculo para o
aperfeiçoamento do sistema. O senso comum diz que. sem uma ampla reforma politica.
o pais não tera jeito.
Mas as ultimas intervenções do Congresso brasileiro nesse campo foram de qualidade
duvidosa.
No atual contexto. deixar o modelo vigente decantar. com alterações minimas. seria
talvez uma opção a considerar. Como escreve o especialista David M. Iarrell em um
dos mais amplos estudos sobre sistemas eleitorais ("Electoral Systems "" a Comparative
Introduction". Palgrave Macmillan. 2011). numa democracia que esta funcionando as
vezes é melhor "manter o mal conhecido do que fazer uma incursão pelo desconhecido".
tornando pior o que ja é ruim.
Alterações pontuais foram aprovadas nas ultimas duas décadas a pretexto de diminuir o
custo das campanhas eleitorais. Na pratica. tiveram o efeito de cercear a liberdade de
expressão dos politicos de partidos mais modestos. Desde 1997. o Brasil é um dos
unicos paises do planeta (talvez o unico) no qual é proibido fazer uma camiseta ou boné
na garagem de casa com a foto e o numero do candidato durante uma campanha.
O sistema atual decerto tem defeitos. Mas torna-se quase sempre pior a cada alteração
votada pelo Congresso --seja porque as regras são restritivas ou porque complicam o
modelo. A chamada minirreforma (ou nanorreforma. segundo outra alcunha) que esta
prestes a ser chancelada pelo Senado é tão bizantina que define até a dimensão maxima
permitida (50 x 40 centimetros) de folhetos e adesivos que poderão ser distribuidos em
campanha.
Mas o erro maior dos que defendem a reforma politica é imaginar que seja possivel
implementar mudanças de grande porte como a alteração do sistema de votação (do
atual proporcional para algum tipo de modelo distrital). Ou fazer valer o pilar mais
basico da democracia: "Um homem. um voto" (hoje. os eleitores de Estados pequenos
valem muito mais do que os do Sudeste. pois elegem seus deputados com menos votos).
Antes de tentar empreender uma grande reforma politica é necessario alguma profilaxia
dentro do Poder Legislativo: o Congresso com 20 partidos representados (dos 32
existentes no pais). tem seu funcionamento prejudicado.
Erra quem imagina que o numero de partidos politicos no Brasil é excessivo. O mal
reside no fato de legendas quase sem voto serem tratadas como se gigantes fossem.
No momento em que consegue seu registro. uma nova agremiação. sem nunca ter
recebido um voto. ja tem direito a cerca de R$ 50 mil por mês do Iundo Partidario (as
regras para usufruir dele estão no site do Tribunal Superior Eleitoral) e acesso ao radio e
a TV --tudo pago com o dinheiro dos contribuintes. Se conseguir a filiação de dois ou
três deputados. passa a ter também uma atuação dentro do Congresso com direito a uma
estrutura de liderança (cargos e mordomias).
O impacto desses "sem voto" é nefando no Congresso. A votação de um projeto de lei
se torna muito complexa quando é necessario ouvir a posição oficial de 20 ou mais
partidos e os discursos de cada lider de legenda.
Em anos eleitorais. ha um leilão dos partidos nanicos. que oferecem seus tempos de TV
e de radio nas 27 unidades da Iederação: muitos traficam esse ativo como se fosse uma
propriedade privada.
Duas medidas ajudariam a mitigar essas aberrações: o fim das coligações para eleições a
cargos proporcionais (de deputados) e uma clausula de desempenho. Elas teriam a
eficacia de uma pré-reforma politica.
/,%(5$/,'$'( A coligação em eleições proporcionais é uma liberalidade brasileira.
Confunde os cidadãos. Vota-se no candidato A. de um partido conservador. mas é
possivel acabar elegendo junto o candidato B. de uma sigla liberal.
O sistema se chama proporcional porque os votos dados a todos os candidatos de um
partido (ou coligação) são somados. A divisão de cadeiras da Câmara é feita para cada
grupo de legendas proporcionalmente ao total de votos que cada uma delas obteve.
Coligações eleitorais são comuns no mundo todo na escolha de representantes do
Executivo. São eleições majoritarias. uninominais. E natural que. em alguma
circunstância. conservadores e liberais decidam apoiar o mesmo nome para comandar o
pais. um Estado ou uma cidade.
No caso de legisladores eleitos pelo sistema proporcional. esse tipo de aliança faz pouco
ou nenhum sentido. Quando o eleitor escolhe um deputado conservador. talvez o faça
porque seja contra a liberalização das drogas. Mas se esse politico estiver coligado a um
candidato liberal. o voto do eleitor ajudara a ambos na eleição.
A eleição de 2010 deu para a Câmara deputados de 22 partidos. Desses. 17 perderiam
vagas se não fossem permitidas coligações nas eleições proporcionais. Haveria menos
fragmentação.
Bancadas maiores para alguns poucos partidos não são garantia de mais coesão interna
no Congresso. Mas esse certamente é um primeiro passo para uma governança politica
mais eficaz.
'(6(03(1+2 Outra providência util para o Brasil seria a clausula de desempenho
ou de barreira. Varios paises ja estipulam um percentual minimo de votos para que
agremiações partidarias possam usufruir de dinheiro publico em campanhas e ter outras
regalias.
No Brasil. adotou-se uma regra muito flexivel quando voltou a vigorar o
pluripartidarismo. no inicio dos anos 1980. Ioi uma reação a violência institucional da
ditadura militar. que. em 1965 passou a permitir apenas duas siglas: a Arena (Aliança
Renovadora Nacional. pro-governo) e o MDB (Movimento Democratico Brasileiro. de
oposição consentida).
Hoje. basta ao partido existir para ter acesso ao radio e a TV a cada seis meses. em rede
nacional. Esse beneficio não é gratuito. E pago com dinheiro publico. As emissoras têm
direito a abater do imposto devido parte consideravel do que deixam de ganhar pela
cessão dos horarios. Em anos eleitorais. a estimativa de renuncia fiscal chega perto de
R$ 1 bilhão (cifra nunca detalhada pela Receita Iederal).
Ha uma discussão antiga no Congresso para endurecer essa regra. Estipular. digamos.
que so partidos com 3º dos votos para deputado federal em todo o pais e em. pelo
menos. nove unidades da Iederação possam ter amplo acesso a TV. ao radio. ao Iundo
Partidario e ao funcionamento pleno dentro do Congresso.
Se a clausula de desempenho existisse hoje. apenas nove partidos teriam passado por
ela. considerados os votos de 2010: DEM. PDT. PMDB. PP. PR. PSB. PSDB. PT e PTB
(veja quadro ao lado).
Ainda seriam muitas legendas. A solução seria determinar um aumento gradual do
percentual. Poder-se-ia até começar com 2.5º (para permitir a entrada de partidos mais
ideologicos como PPS. PC do B e PSOL) na eleição de 2018. Todos teriam tempo para
se preparar. Depois. o percentual poderia ir a 3.5º em 2022. E a 4.5º ou a 5º em
2026.
Com a clausula de desempenho em vigor e o fim da coligação em eleições
proporcionais. o Legislativo tomaria outra feição depois de dois ou três ciclos eleitorais.
Estaria pavimentado o caminho para uma reforma politica mais profunda --se ainda
fosse necessaria.
Para quem julgar esse cronograma lento ou inexequivel. a alternativa é forçar uma
reforma politica ampla por meio de uma revolução. Não é facil. Os protestos de junho
nas ruas brasileiras pediam muitas mudanças. O Congresso se mexeu quase nada para
atender a demanda dos manifestantes.