Texto: MOREIRA, V. De Carl Rogers a Merleau-Ponty, cap.4: “Fundamentos Filosóficos da Psicoterapia de Base Humanista.

” Cap 4 – Fundamentos Filosóficos da Psicoterapia de Base Humanista Da necessidade de fundamentação Muitos leigos acreditam que a formação do psicoterapeuta humanista é mais fácil e que o aluno teria que estudar menos, uma vez que o que vale é a vivência das emoções. Mas isso é irreal. A abordagem centrada na pessoa cada vez mais vem se fundamentar, principalmente no final do século XX para se defender das acusações de inconsistência, bem como para desenvolver o seu trabalho de maneira mais competente. Com isso, autores oriundos de uma formação humanista têm desenvolvido teoria e tecnicamente a psicoterapia através de pesquisas com base fenomenológica e existencial. No Brasil a psicoterapia humanista, para se fundamentar, encontrou seu caminho principalmente por meio da filosofia de Buber, de Nietzshe e de Merleau-Ponty. O fundamento Fenomenológico-Existencial O surgimento da fenomenologia e do existencialismo se produz na primeira metade do século XX, tendo um efeito importante no pensamento psicológico europeu. Fenomenologia – Encontra-se sua base, principalmente em Husserl, mas desde Santo Agostinho já se percebe um olhar fenomenológico, o qual influencia a psicologia. Existencialismo – encontra suas bases em Kierkegaard, no século XIX e, posteriormente, floresce como um movimento filosófico na Europa durante o período compreendido entre as duas guerras mundiais. A fenomenologia entrou na teoria de Rogers em 1951, com a introdução do conceito de campo fenomenal (campo de experiências pessoais), como uma primeira tentativa de elaborar teoricamente a relação terapeuta-cliente. O existencialismo entrou na teoria de Rogers em 1961, após o mesmo relatar o conflito entre sua educação no positivismo lógico e a abordagem existencial que orientou seu trabalho. Rogers sentiu-se atraído pela ênfase na experiência, tornando assim sua abordagem em experiencial. Não se pode considerar a teoria de Rogers como toda fenomenológica, uma vez que adotou esta denominação tardiamente e nunca tentou praticar uma abordagem fenomenológica intencionalmente (não tomou para sua teoria todos os conceitos da fenomenologia). Quanto ao existencialismo em Rogers, percebe-se a presença de um existencialismo norteamericano o qual não está permeado da melancolia de guerra que atinge o pensamento europeu. O vínculo da ACP com a Fenomenologia Existencial se manifesta pelos seguintes aspectos: Ênfase na experiência vivida no presente; Valorização dos sentimentos; Refutação das explicações causais e Visão holística do ser humano. Denominador comum das várias linhas teóricas e terapêuticas humanistas-existenciais: - O respeito à pessoa; - O reconhecimento da totalidade e unicidade do outro; - A intolerância frente a todas as manifestações de tendências deterministas; - A ênfase na relação humana como forma de crescimento.

de crescer. de sujeito a sujeito. É um símbolo de um impulso de vida (que move o homem) para alcançar sempre mais. uma vez que o homem não suporta manter um envolvimento tão intenso constantemente. do vínculo entre a experiência vivida (ação) e a reflexão (pensamento). ela. como possibilidade. . Aparta-se e recolhe-se. A fundamentação da Filosofia de Nietzsche Advincula traça um paralelo entre os conceitos de tendência atualizante em Rogers e a vontade de potência em Nietzsche. esquecendo-se da alteridade como condição básica para qualquer relação. A relação Eu-Isso se tornaria negativa somente quando submetesse o homem. para transformar-se num encontro entre duas pessoas. de entender e intensificar a vida. onde desaparecem as peculiaridades e contradições individuais. Relação Eu-Tu – é uma experiência que não dura muito. proporciona uma sensação de segurança. A relação terapêutica – nela o psicoterapeuta atua numa alternância entre o conhecimento objetivo e a intuição categorial.ato mútuo entre duas pessoas.aqui e agora. É uma vontade de durar. de ser um mero vínculo Eu-Isso entre um cientista e seu objeto. a presença recíproca garante a alteridade. Reciprocidade . A compreensão da realidade humana – se dará através do prisma do diálogo. embora ela tenda a ser relegada a um segundo plano. As concepções de Buber sobre o encontro propiciam uma proposta de relação terapêutica sob o prisma do Eu-Tu. Responsabilidade – entendida como capacidade de resposta Relação Eu-Isso: É caracterizada pela separação e distanciamento entre o Eu (egóico) e o Tu (isso. numa totalidade caracterizada pela integração dos opostos. Vontade de potência em Nietzsche – é o mais forte de todos os instintos que dirige a evolução orgânica. é rara e difícil. ele). entre o raciocinar e o existir como totalidade. 4. A relação Eu-Isso não deve ser encarada como algo negativo.A fundamentação na filosofia de Buber Enfatiza o contexto da relação terapêutica afirmando que existem duas atitudes básicas. considerada como prejudicial e como um vínculo objetivante e frio. 2. Aspectos essenciais referentes à relação Eu-Tu: 1. A relação psicoterápica deixaria. Presença .ou o momento da reciprocidade. portanto. onde o terapeuta estaria agindo sobre o paciente como se fora um objeto manipulável. uma vez que é mais estável. Imediatismo . Cria-se um pudor em relação ao saber científico como se este propiciasse relações mecânicas e pré-determinadas. de vencer. duas formas de existir ou de ser no mundo que se alternam durante a existência humana: Relação Eu-Tu – o homem integra-se completamente com o mundo. entre o atuar sobre o cliente e ser com ele. então. tendendo a transformar-se em Isso. com primazia do vivido. entre o passado e a presentificação. 3. mais duradoura e. permanecendo em estado latente. entre o Eu-Isso e o Eu-Tu.

como um organismo digno de confiança.a plenificação da vida. e a intensificação das forças (vontade de potência).expansão dos instintos fundamentais. ao optar por um dos pólos. com a sabedoria dos instintos proclamada por Nietzsche. O próprio Rogers.como um fluxo implícito de movimento para uma realização construtiva de suas possibilidades intrínsecas. embora não consiga ir adiante exatamente por ter a pessoa como centro. desenvolve seu pensamento em uma direção fenomenológica. o individual ou o social. ainda que não possa ser considerado fenomenológico. Nietzsche contrapõe o homem intuitivo. doentes e destruidores são reveladores da tendência atualizante. a intensificação da potência. . considerando a vida como valor maior. quando aponta o corpo como fio condutor para o conhecimento. Rogers prioriza o indivíduo e Marx prioriza a sociedade. segundo Rogers.Rogers – defende a sabedoria do organismo e a importância das direções para as quais aponta o experienciar organísmico. Para ambas teorias. o princípio último da vida é a própria vida. presente na tendência atualizante. Mesmo os comportamentos estranhos. e a atualização do ser (tendência atualizante) Na da filosofia Nietzscheana . uma vez que Rogers e Marx provêm de campos epistemológicos totalmente distintos. teóricos tem buscado tem buscado a teoria de Merleau-Ponty como caminho mais viável para o desenvolvimento da psicoterapia humanista. já que traria em si mesmo esta tendência natural a desenvolver-se de uma maneira positiva e construtiva enquanto uma tendência direcional positiva. Nietzsche também reconhece nas expressões dos fracos. Assinala que ao homem conceitual (racional). dos despotencializados. Advincula relaciona o experienciar organísmico inconsciente. Nelas evidencia-se que o fim último da vida é a sua realização: Na ACP . essencialmente. Rogers descreve esta tendência atualizante . propondo o conceito de tendência atualizante como um dos conceitos mais revolucionários de sua experiência clínica. A crítica ética de base Marxista Ao necessitar fundamentar melhor a ACP. Ambos se mantêm no âmbito do pensamento dualista ocidental. o princípio de uma evolução. A Psicoterapia Centrada na Pessoa (ACP) compreende o homem. a manifestação da vontade de potência. uma tendência natural para o desenvolvimento completo e inclusive como uma tendência inerente para desenvolver todas as potencialidades das pessoas e para desenvolvê-las de maneira a favorecer sua conservação e seu enriquecimento.

pode-se elaborar uma prática psicoterapêutica na qual o homem seja mundo e o mundo seja homem. em individual e social. um símbolo no sentido da nomeação de uma vivência espontânea diante do devir da vida. O homem então é concebido enquanto ser no mundo e. pensamentos e discursos. onde a carne é aquilo que o meu corpo é. como tal. A "vontade de potência" é determinada como o mais forte de . Carne não é a síntese homem-mundo. ativopassivo. É o sentido do corpo em sua relação com os objetos. que é a sua própria história e sua possibilidade de transformação: o mundo já não é considerado como objeto. abolindo uma visão de homem dicotomizada. assim como o cliente já não é visto como sujeito. visível e vidente. na concepção de Nietzsche. ao mesmo tempo em que se singulariza com suas ações. Não é matéria nem espírito. fazem parte da mesma contextura carnal. Na medida em que o homem é sujeito e objeto. é uma forma de abordar o ser que escapa à representação. já que para o filósofo o homem não tem uma consciência constituinte das coisas como propõe o idealismo. Ambos.A fundamentação na filosofia de Merleau-Ponty Como tornar o humanismo cultural? A partir de Ponty. Carne – parte da idéia de intercorporeidade. Entende-se o homem como um ser intrinsecamente interligado ao mundo. mistura-se na geléia geral que compõe o mundo. a história. Este homem que está sempre entrelaçado com o mundo. mas está entre ambos. que é um constante vir a ser. o homem. que o divide em interioridade e exterioridade. não é o centro do mundo (centrar na pessoa não tem mais sentido). como fenômeno em mútua constituição com o mundo. o cliente e a sociedade. Este termo é.

principalmente. dilatação[17]. de vencer...) Um pequeno obstáculo é suplantado. visto que esta é uma das funções da "vontade potência". ele dizia: "(. Ela é o impulso interior da força que gera o movimento.. a "vontade de potência". Nietzsche também acredita que a "vontade de potência" é uma expressão que possibilita concretizar em palavras um impulso vital. a "vontade de potência" é vista como um movimento de auto-superação da própria vida e sua dinâmica corriqueira. o prazer de uma conquista. então.[13] Isso se confirma. Segundo a definição que Nicola Abbagnano apresenta em seu "Dicionário da Filosofia". Na verdade. de entender e intensificar a vida"[12].)"[14]. de crescer.)"[11]. define-se como: "um impulso fundamental que nada tem de causação racional: 'A vida.. o qual equivale a querer tornar-se mais forte. compreendida como "vontade de durar. o transbordar do sentimento de potência sobre domínios novos (. o humilde quer ser estimado. ou seja. Aspirar a outra coisa não é senão aspirar à potência. Neste sentido denota-se extravasão. Nietzsche também a define como vida. Contudo não é um "ir além" que tem um fim. devem transparecer a sua presença incessante e atuante. como eu ensino. nota-se que a vida vai ganhando mais dinamismo. como caso particular.. de maneira que o "fio" se torne cada vez mais potente. Sendo assim.. quando Nietzsche diz no Zaratustra: "(. símbolo de um impulso de vida para alcançar sempre "mais"... os adversários suplantados. que parte do interior para o exterior. Essa vontade é sempre o que há de mais íntimo e profundo (.) os ricos e os vivos querem a vitória. visto que só tem um fim. pôr tudo em movimento.) Só onde há vida há vontade. mas que sempre está em movimento. Esta perspectiva da "vontade de potência" deve ser.. por exemplo.webartigos. na incapacidade da vontade em se satisfazer quando sem adversário e sem resistência[19]. no sentido empregado por Nietzsche. da "vontade de potência" é continuar a "tecer a tela da vida".) Há muitas coisas que o vivo aprecia mais que a própria vida. O sentimento de prazer reside precisamente na não-satisfação da vontade.html#ixzz1GsjOBRtw . O prazer não deve ser uma espécie de fim para ela. a tendência de subir. Mas na própria apreciação fala a vontade de poder (. no sentido de finalidade. E a "vontade de potência" é justamente o que caracteriza este desejo. mas tem o potencial de sempre "ir além".)"[16]. Não vontade de viver.. o domínio de si mesmo ou o esforço de sempre alcançar mais potência. aumento. todos os aspectos que se encontram em volta da vontade de potência como.. A vida como fator essencial da "vontade de potência" Dentro das várias perspectivas da "vontade de potência". Não é a satisfação da vontade que é a causa do prazer (. Dessa forma. E isso só é possível dentro de um movimento de constante busca de mais potência.Resumindo numa palavra: é o querer. Já na obra "Assim falava Zaratustra". a vitória sobre si mesma. vontade de poder (. Percebe que o homem quer sempre algo mais.)'". o fraco quer ser forte.)"[18]. Contudo.absurda moeda falsa psicológica das coisas próximas -)..com/articles/15728/1/A-Vontade-de-Potencia-comoVida/pagina1. Os fatores predeterminantes da "vontade de potência como vida" A "vontade de potência como vida" não se trata de uma vontade de viver..quero combater particularmente essa doutrina superficialissima. O objetivo geral. pois a vida é apenas um caso particular desta vontade. mas.2.[15] Nietzsche atesta esta busca quando diz: "(. mas imediatamente segue-se outro que também é suplantado – esse jogo de resistências e vitórias estima ao máximo o sentimento geral de potência (. aquilo que é saciável e que não compreende a dinâmica dela. 2. aspira ao máximo sentimento de potência possível. isto é. Deve-se compreender que ela não é estática. http://www. Um outro aspecto importante e expressivo da "vontade de potência como vida" é a sua insaciabilidade. .. assim.. assim. querer crescer. mas o fato de que a vontade quer ir avante e quer ainda assenhorear-se do que encontra em seu caminho. Para Nietzsche o homem possui um insaciável desejo de mostrar potência. Ela é.. O filósofo alemão reduz todas as funções orgânicas fundamentais à "vontade de potência".todos os instintos que dirige a evolução orgânica... nota-se que Nietzsche tem razão quando diz que todas as funções sadias do ser humano têm a necessidade de um crescimento dos sentimentos de potência: "(.