* J E A N - MAXIMILIEN L U C A S

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T R ATA D O DOS TRÊS IMPOSTORES

MO I SÉ S - J E SU S - MA OM É

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O E S P Í R I TO D O S E N H O R S P I N O Z A

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INTRODUÇÃO Manuel Dias Duarte Se o ateísmo é a atitude natural e espontânea do ser humano, a crença nos deuses apenas se torna um hábito quando legitimada pelo poder e incutida pela educação. No Ocidente, tais práticas começaram bem cedo, no século VIII a.C, com a difusão das primeiras teologias antropomórficas, nas quais os deuses homéricos, com as suas virtudes e os seus vícios, são os principais personagens. Mudados os tempos, mudadas as vontades, em consequência do impacto da sabedoria naturalista das Escolas jônicas, os teólogos do período pré socrático apressaram-se a substituir as velhas narrativas míticas por novas teologias astrais (Pitágoras, mas principalmente Platão). Porém, os solistas do século V a.C. continuando na linha de Xenófanes de Cólofon (século VI a. C) a investigar a natureza das coisas e, particularmente, dos deuses, sou3 beram desde cedo chamar a atenção para a origem política e social da religião e para a importância do papel dos legisladores-teólogos (os profetas e adivinhos). Crítias tornar-se-á famoso ao defender a ideia de que os deuses foram inventados pelos reformadores políticos para impedir que os homens não praticassem às escondidas o que o Direito lhes proibia coactivamente. Desde então – e até ao fim da Antiguidade Clássica (muito depois de Luciano, por exemplo) – entre os filósofos da linhagem Jónica, os sábios ou sofistas naturalistas sempre souberam encaminhar toda a discussão sobre a origem, a natureza, o valor e os objetivos das religiões, para o terreno histórico, psicológico e sociológico. Neste contexto, foram de suma importância todas as críticas que se teceram em torno das opiniões, sentenças

e atitudes políticas daqueles que se apresentaram como profetas ou reformadores religiosos. Em plena Idade Média, no meio de sanguinários conflitos político-religiosos, de novo se reavivaram as antigas críticas contra as teologias antropomórficas, desta feita, cristã, muçulmana e judaica, partindo-se da análise da ação e do pensamento dos seus fundadores. Célebre ficaria a obra que deu pelo nome de De trilius impostorilius antepassada do presente Tratado dos Três Impostores: Moisés, Jesus, Maomé. Desde o século XIII até ao século XVIII, numerosos foram os autores a quem se atribuiu a paternidade de tal escrito. Com Averróis e o imperador Frederico II (ou o seu secretário Pierre des Vignes) à cabeça, seguiram-se-lhe Tomás Escoto1, Boccacio, Erasmus,
1 Em Averroès et Vaverroisme, 1852, citando o Dictionnaire historique et critique de P. Bayle, a lenda atribui a Averróis a afirmação: "Há três religi-

Pomponazzi, Maquiavel, Pedro Aretino, Miguel Servet, Rabelais, Jérôme Cardan, Giordano Bruno, Campanella, Vanini, Hobbes, Espinosa, Toland e até o barão de Holbach. Como vemos, uma plêiade de pensadores humanistas, de libertinos eruditos e de filósofos naturalistas. De concreto, sabemos que o papa Gregório IX acusou Frederico II, em 1239, de blasfemo por defender que Moisés, Cristo e Maomé não passavam de três grandes impostores. De acordo com E. Renan, Tomás Escoto foi acusado por Álvaro Pais (in Colírio da fé. Parte V) de "celerado", "ímpio", "imundo concubinário", "máximo entre os hereges", pois defendeu que Cristo não passou de um mago, fazedor de milagres. Adepto da tese dos "três impostores", segundo Álvaro Pais, heresia que pululou nas Escolas de Lisboa, defendida publicamente.
ões... uma das quais é impossível, é o cristianismo; uma outra é uma religião de crianças, é o judaísmo; a terceira é uma religião de porcos, é o islamismo".

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Escoto acabou preso e condenado à morte. (veja-se: Manuel Dias Duarte, História da filosofia em Portugal. conexões políticas e sociais, Lisboa, Livros Horizonte, pgs. 27/28). Como só se conhecem duas versões do De trilius impostorilius, chegou a admitir-se que tal obra medieval nunca existiu, tendo apenas feito fortuna o título saído da opinião ou de Frederico II, grande admirador do racionalismo e da ciência árabe e adversário do Papado, ou de Averróis, filósofo republicano e seguidor do naturalismo aristotélico. Essas duas versões conhecidas são, a mais antiga, um manuscrito em latim, datado de 1688, e atribuído a Johan Joachim Muller, com o título De imposturis religionum breve compendium e que só foi impresso por volta de 1753; a segunda, feita, de acordo com a tradição, a partir de um manuscrito roubado na biblioteca dos príncipes da Saxónia, é a célebre La vie et l'esprit de M. Benoit Spinoza, 5

publicada em 1719 e reeditada a partir de 1721 com o título de Traité des trois inposteurs e hoje consensualmente atribuído a Jean-Maximilien Lucas (1636-1697). Também conhecida pelo título Traité des trois imposteurs: Moise, Jesus, Mahomet /L'esprit de Spinoza, a obra deve a sua fama, por um lado, por ser composta de extractos provenientes dos Dialogues de Vanini, da Ética e do Tratado teológico político de Espinosa; por outro, pela suma importância que viriam a adquirir as ideias críticas do filósofo luso-holandês na Alemanha de Lessing, na filosofia política de muitos socialistas e comunistas utópicos, particularmente ingleses, e na crítica da religião revelada. Os resultados das investigações de Louis Massignon, dados a público em "La legende De Tribus impostoribus et ses origines islamiques" (in Revue d’histoire dês Religions LXXXII, Julho 1920, pp. 7478), vieram mostrar que, se não a obra, pelo menos a ideia saiu da pena do chefe qarmata

Abu Tahir al-Djannabi (princípios do século X), que afirma numa circular confidencial destinada aos seus seguidores: "Neste mundo três indivíduos corromperam os homens, um pastor, um médico e um cameleiro. E este cameleiro foi o pior escamoteador, o pior prestidigitador dos três". Estávamos então no alvores da Idade Contemporânea, com as Revoluções Americana e Francesa em incubação, revoluções feitas em nome da igualdade, da liberdade e da fraternidade. A obra nunca foi editada em língua portuguesa. Porquê apresentála agora e finalmente ao público lusófono? Nenhum historiador concordará que a Idade Média tenha terminado em 29 de Maio de 1453, dia em que os Turcos entraram em Constantinopla. Não obstante, muitos desses historiadores não deixariam de concordar que o 11 de Setembro de 2001 marca verdadeiramente – mais do que a queda do muro de Berlim – o fim da Modernidade. O fim da Modernidade anun6

ciaria o fim inadiável da filosofia e do pensamento dicotômico, feito de oposições e de contradições. Referimonos à velha tábua pitagóricaaristotélica: ímpar/par; macho/fêmea; finito/infinito; perfeito/imperfeito, desenvolvida posteriormente pela lógica formal e pela dialética (tese/antítese/síntese). Com a Pós-modernidade, estaríamos, pois, a assistir (impotentes ou satisfeitos) ao fim da divisão do mundo político e social em dois blocos antagônicos (esquerda/direita; capitalismo/comunismo, etc), reaparecendo em sua substituição a velha divisão por "culturas" ou "civilizações" caracterizadas cada qual pela religião dominante (cristã, islâmica, judaica, confuciana, hindu ou outra). O fim da história e o conflito inevitável de civilizações que parecem perfilar-se no horizonte do século XXI, com o regresso às guerras políticoreligiosas anteriores à Modernidade, só serão possíveis se chegar ao seu termo a destruição da razão, destruição que

tem vindo a ser realizada em nome da fé, do sentimento, do ela vital, do instinto de sobrevivência e da vontade. Como no final da Antiguidade Clássica e nos alvores do Medievo, a razão é intimada a ceder o seu lugar à fé e a filosofia à religião, tão belicosos se mostram os atuais fundamentalismos cristão, judaico e islâmico. Seriamente ameaçada, recusando-se a ser mera serva da Teologia, à Filosofia, não tar-

da, só lhe restará refugiar-se dentro de novos círculos de entusiastas, tal como ocorreu nos séculos XVI, XVII e XVIII, começando as suas obras, impressas em pequenas tiragens, a passar de mão em mão. A não ser que o debate se reabra e que a discussão, inspirada no exemplo dos admiradores de Espinosa, se generalize. Começando por uma reflexão exigente apoiada em obras de referência.

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Se do afamado Spinosa não se pôde ter A arte de um pincel para as feições pintar A Sabedoria, por imorredoura ser, Os seus escritos sempre irá guardar.

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AVISO Nada haverá, talvez, que dê aos espíritos fortes um pretexto mais plausível para insultar a religião do que a maneira como agem os seus defensores. Por um lado, tratam as objeções com o mais extremo desprezo, e, por outro, exigem, com o mais ardente zelo, a supressão dos livros que contêm essas objecções, que consideram tão desprezíveis. Há que convir que este procedimento prejudica a causa que defendem. Com efeito, se estivessem seguros da sua bondade, acaso temeriam que ela sucumbisse se fosse, apenas, sustentada por boas razões? E, se estivessem cheios daquela firme confiança, pela verdade inspirada naqueles que crêem combater por ela, recorreriam a falsas vantagens e a vias nefastas para a fazer triunfar? Não descansariam tão-só na sua força, e, seguros da vitória, não se disporiam a um combate igualitário contra o erro? Teriam qualquer problema em conceder a toda a 9 gente a liberdade de comparar as razões de uma e de outra parte, assim ajuizando de que lado se encontra a verdade? Retirar essa liberdade não leva os incrédulos a imaginar que se temem os seus raciocínios, e que se pensa ser mais fácil suprimi-los do que mostrar-lhes a sua falsidade? Mas, apesar de estarmos convencidos de que a publicação do que escrevem de mais forte contra a verdade, longe de a prejudicar, serviria, ao invés, para tornar o seu triunfo mais estrondoso, e a derrota deles mais vergonhosa, não obstante, não ousamos ir contra a corrente, tornando público O Espírito do Sr. Benedito de Espinosa. Imprimimos tão poucos exemplares que a obra será tão rara como se nunca tivesse deixado de ser um manuscrito. Só às pessoas mais sagazes, capazes de o refutar, será distribuído o escasso número de exemplares. Não duvidamos

de que se empenharão no combate do autor deste escrito monstruoso, destruindo, de uma ponta a outra, o ímpio sistema de Espinosa no qual se fundam os sofismas do seu discípulo. Eis o objectivo da publicação deste tratado, no qual os libertinos vão beber os seus capciosos argumentos. Editamo-lo sem quaisquer cortes, nem amaciamentos, para que esses senhores não

possam dizer que castramos as dificuldades, para facilitar a respectiva refutação. Aliás, as injúrias grosseiras, as mentiras, as calúnias, as blasfêmias, que serão lidas com horror e execração, refutamse a si próprias, e só podem conduzir à confusão daquele que as enunciou com tanta extravagância quanta impiedade.

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PREFÁCIO DO COPISTA

Baruch ou Benedito de Espinosa adquiriu um renome tão pouco honroso, tanto pela sua doutrina como pela singularidade dos seus sentimentos em matéria de religião, que quem queira escrever sobre ele, ou a seu favor, tem de se esconder com tanto cuidado e ter tantas cautelas como se estivesse à beira de cometer um crime. No entanto, não faremos mistério de confessar que copiamos este escrito de acordo com o original, cuja primeira parte trata da vida dessa personagem e a segunda dá uma ideia do seu espírito. Na verdade, o autor é desconhecido, ainda que aquele que o compôs tenha sido um dos seus discípulos, como o próprio esclarece.

Todavia, se fosse legítimo deduzir algum fundamento de conjecturas, poder-se-ia afirmar, quiçá com certeza, que toda a obra é da lavra do falecido Senhor Lucas, tão famoso pelas suas quintessências e mais ainda pelos seus costumes e pela sua maneira de viver. Seja como for, a obra é suficientemente estranha para merecer ser examinada por pessoas de espírito, o que justifica o trabalho de fazer uma cópia. Eis o único fim que nos propusemos, deixando aos outros o cuidado de fazerem as reflexões que julgarem propositadas.

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HEREM PRONUNCIADO CONTRA SPINOZA EM AMSTERDÃ

“Os senhores do Mahamad fazem saber a vossas mercês: como há dias que, tendo notícia das más opiniões de Baruch de Espinosa, procuraram por diferentes caminhos e promessas retirá-lo de seus maus caminhos; e que, não podendo remediá-lo, antes, pelo

dito Espinosa, de que ficou convencido, o qual tendo tudo examinado em presença dos Senhores Hahamín, deliberaram com o seu parecer que dito Espinosa seja excomungado e apartado de toda nação de Israel como atualmente o põe em Herem, com o Herem seguinte: Com a sentença dos Anjos, com dito dos Santos, com o consentimento do Deus Bendito e o consentimento de todo este Kahal Kados, diante dos Santos Sepharin, estes, com seiscentos e treze parceiros que estão escritos neles, nós
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contrário, tendo a cada dia maiores notícias das horrendas heresias que praticava e ensinava, e das enormes obras que praticava; tendo disso muitas testemunhas fidedignas que depuseram e testemunharam tudo em presença de

Excomungamos,

aparta-

ror de Adonai e seu zelo neste homem e caia nele todas as maldições escritas no livro desta Lei. E vós, os apegados com Adonai, vosso Deus, sejais atento todos vós hoje. Advertindo que ninguém lhe pode falar oralmente nem por escrito, nem lhe fazer nenhum favor, nem estar com ele debaixo do mesmo teto, nem junto com ele a menos de quatro côvados, nem ler papel algum feito ou escrito por ele”.

mos, amaldiçoamos e praguejamos a Baruch de Espinosa, como o herem que excomungou Josué a Jericó, com a maldição que maldisse Elias aos moços, e com todas as maldições que estão escritas na Lei. Maldito seja de dia e maldito seja de noite, maldito seja em seu deitar e maldito seja em seu levantar, maldito ele em seu sair e maldito ele em seu entrar; não queira Adonai perdoar a ele, que então semeie o fu-

6 de Ab de 5.416 (27 de julho de 1656)

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A VIDA DO FALECIDO SENHOR DE SPINOSA POR UM DE SEUS DISCÍPULOS

1. Nosso século é muito esclarecido, mas nem por isso é mais eqüitativo em relação aos grandes homens. Embora lhes devam suas mais belas luzes, e dessas se aproveitam por sorte, não podem suportar que os louvem, seja por inveja ou por ignorância; e é surpreendente que se faça ocultar, para escrever sua vida, como se faz para cometer um crime; particularmente se esses grandes homens se tornaram célebres por vias extraordinárias e desconhecidas das almas comuns. Por que então, sob o pretexto de fazer honrar as opiniões recebidas, por mais absurdas e ridículas, eles defendem sua ignorância, e sacrificam as mais sadias luzes da razão, e por assim dizer, a própria verdade? Porém, por mais

risco que alguém corra nesta carreira tão espinhosa, eu teria bem pouco proveito da Filosofia desse grande homem de quem eu empreendo escrever a vida, e as máximas, se temesse engajar-me. Eu receio pouco a fúria do povo, tendo a honra de viver numa república que deixa aos seus sujeitos a liberdade de sentimentos, e na qual os próprios desejos seriam inúteis para sermos felizes e tranqüilos, se as pessoas de comprovada probidade não fossem vistas sem ciúmes. Se esta obra, que consagro à memória de um ilustre amigo, não for aprovada por todo mundo, pelo menos que a seja por aqueles que amam somente a verdade e que tenham alguma espécie de aversão ao vulgar impertinente.

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I JUVENTUDE E EXCOMUNHÃO 2. Baruch de Spinosa era de Amsterdã, a mais bela cidade da Europa, e de origem muito modesta. Seu pai, que era judeu de religião e português de nação, não tendo o meio para desenvolvê-lo no comércio, resolveu lhe fazer aprender as letras hebraicas. Esta espécie de estudo, que é toda a ciência dos judeus, não era capaz de satisfazer um espírito brilhante como o seu. Ele não tinha quinze anos e já formulava dificuldades que os mais doutos entre os judeus resolviam a duras penas. E embora uma juventude tão grande não seja quase nada para a idade do discernimento, já era suficiente para ele se aperceber de que suas dúvidas embaraçavam seu mestre. Com medo de irritá-lo, ele fingia estar muito satisfeito com suas respostas, contentando-se em escrevê-las para delas se servir em tempo e lugar mais adequados. Como ele não lia nada além da Bíblia, tornou15 se logo capaz de não necessitar mais de intérprete. Ele fazia reflexões tão corretas que os rabinos somente lhe replicavam como os ignorantes que, vendo sua razão exaurirse, acusam àqueles que lhes pressionam demais, de ter opiniões pouco conforme a religião. Tão estranho procedimento lhe fez compreender que era inútil instruir-se com a verdade. “O povo não a conhece; aliás, acreditar cegamente nos livros autênticos é”, dizia ele, “muito amar os velhos erros”. Resolveu então consultar somente a si mesmo, mas não poupando nenhum cuidado para descobrila. É necessário ter o espírito grande e de uma força extraordinária, para conceber, aos vinte anos, um projeto desta importância. Com efeito, ele logo fez ver que não tinha nada empreendido temerariamente: porque começando a ler a Escritura toda de novo, ele penetrou sua obscuridade,

dando a conhecer os mistérios, e revelando a luz através das nuvens, atrás das quais tinham lhe dito que a verdade estava escondida. Após o exame da Bíblia, ele leu e releu o Talmude com a mesma exatidão. E como não tinha ninguém que o igualasse na compreensão do hebreu, ele não encontrou nada difícil, nem nada também que o satisfizesse. Mas ele era tão judicioso, que quis deixar amadurecer seus pensamentos antes de aprová-los. 3. Contudo, Morteira, homem célebre entre os judeus, e o menos ignorante de todos os rabinos de seu tempo, admirava a conduta e o gênio de seu discípulo. Ele não podia compreender que um jovem com tanta perspicácia fosse tão modesto. Para conhecê-lo a fundo, ele o testou de todas as maneiras, e admitiu, depois, que jamais encontrou nada a repreender, tanto em seus costumes, quanto na beleza de seu espírito. A aprovação de Morteira aumentou a boa opinião que se tinha de seu discípulo, não a ponto de 16

lhe causar vaidade. Apesar de tão jovem, por uma prudência precoce, ele pouco se apoiava na amizade ou nos elogios dos homens. Além disso, o amor à verdade era de tal modo sua paixão dominante, que ele não via quase ninguém. Mas, qualquer precaução que tomasse para se esquivar dos outros, há encontros que não se podem honestamente evitar, embora sejam eles freqüentemente perigosos. 4. Entre os mais ardentes e os mais dedicados em estabelecer relações com ele, dois jovens, que se diziam ser seus amigos mais íntimos, suplicaram para que ele lhes dissesse seus verdadeiros sentimentos. Eles lhe mostraram que quaisquer que fossem ele não teria nada a temer da parte deles, a curiosidade tinha como único objetivo esclarecer suas dúvidas. O jovem discípulo, surpreendido por um discurso tão pouco visto, ficou algum tempo sem responder-lhes; mas, vendo-se acossado por sua inoportunidade ele lhes disse rindo, que “eles tinham Moisés e os Pro-

fetas que eram verdadeiros israelitas, e que eles tinham decidido tudo; que os seguissem sem escrúpulos, se eles eram verdadeiramente israelitas”. “A crer neles”, respondeu um dos jovens, “eu não vejo que haja um ser imaterial, que Deus não tenha nenhum corpo, nem que a alma seja imortal, nem que os anjos sejam uma substância real. O que lhe parece?” Continuou ele, dirigindo-se ao nosso discípulo. “Deus tem um corpo? E existem os anjos? É a alma imortal?” “Eu vejo”, disse o discípulo, “que não encontrando nada de imaterial ou de incorporal na Bíblia, não há nenhum inconveniente em crer que Deus seja um corpo, e tanto mais, que Deus sendo grande, assim como fala o rei Profeta2, é impossível de compreender uma grandeza sem extensão, e que, por conseguinte, não seja um corpo. Quanto aos espíritos, é certo que a Escritura não diz de modo algum que sejam substâncias reais e permanentes, mas simples fantasmas, nomeados anjos, porque Deus se
2 Davi (cf. Salmo 48,1).

serve deles para declarar sua vontade, de tal maneira que, os anjos e toda outra espécie de espírito, somente são invisíveis em razão de sua matéria muito sutil e diáfana, que só pode ser vista como vemos os fantasmas num espelho, em sonhos ou à noite; da mesma maneira que Jacob viu numa escada, dormindo, os anjos subirem e descerem. Eis porque não lemos que os judeus tenham excomungado os saduceus por não terem acreditado em anjos, pois o Antigo Testamento não diz nada de sua criação. Quanto à alma, por toda parte em que a Escritura se refere a ela, a palavra ‘alma’ é empregada simplesmente para exprimir a vida, ou para tudo o que está vivo. Seria inútil procurar nela alguma coisa sobre a qual se possa apoiar sua imortalidade. Pelo contrário, ela está visível em cem lugares, e não há nada mais fácil de provar; mas este não é o tempo nem o lugar de falar disso”. “O pouco que acaba de dizer”, replicou um dos amigos, 17

“convenceria os mais incrédulos. Mas isto não é suficiente para satisfazer teus amigos, que precisam de alguma coisa mais sólida, e acrescente que a matéria é muito importante para ser considerado superficialmente. Nós somente iremos deixá-lo agora com a condição de retomála uma outra vez.”. 5. O discípulo, que não procurava outra coisa do que terminar a conversa prometeu tudo o que eles queriam. Mas, na seqüência, ele evitou cuidadosamente todas as ocasiões nas quais ele se percebia que eles procuravam reatá-la; e se recordando que raramente a curiosidade do homem tem boa intenção, ele estudou a conduta de seus amigos, na qual encontrou tanto a repreendêlos, que rompeu com eles e não quis mais lhes falar. Seus amigos, ao se aperceberem do desejo que ele tinha, se contentaram em murmurar entre eles, enquanto acreditaram que era para testá-los. Mas, ao se verem sem esperança de poder dobrá-lo, eles juraram se vingar; e para fa18

zê-lo mais sensivelmente, começaram por desacreditá-lo junto à opinião popular. Publicaram que “era um abuso acreditar que este jovem pudesse tornar-se um dia um dos Pilares da Sinagoga, que ele parecia mais o seu destruidor, pois tinha somente ódio e desprezo pela lei de Moisés; que eles o haviam freqüentado baseados no testemunho de Morteira; mas que tinham reconhecido que era um ímpio, e que era um abuso o rabino ter dele uma boa opinião, seu encontro lhes causava horror.”. 6. Este falso boato, semeado na surdina, tornou-se logo público, e quando viram a ocasião propícia para aviválo, fizeram seu relatório aos juízes da sinagoga, aos quais agitaram de tal maneira que eles pensaram em condená-lo sem tê-lo entendido. Passado o ardor do primeiro fogo (os sacros ministros do templo não estão isentos de cólera como todos), ele foi intimado a comparecer perante eles. Ele, que sentia que sua consciência não lhe re-

provava nada, foi alegremente à Sinagoga, onde os juízes lhe disseram com a face abatida, e como que roídas pelo zelo com a casa de Deus, “que após as boas esperanças que tinham concebido de sua piedade, eles tinham custado a crer no maldoso boato que circulava sobre ele, que o chamaram para saber a verdade, e que era com um aperto no coração que o citavam para dar conta de sua fé; que ele era acusado do mais negro e do maior de todos os crimes, que é o desprezo pela lei; que eles desejavam ardentemente que ele pudesse se justificar; mas, se estivesse convicto, não existiria suplício suficientemente severo para puni-lo.”. Em seguida, eles lhe rogaram a dizer se era culpado; e, quando o viram negar, seus falsos amigos, que estavam presentes, avançaram, depuseram descaradamente que “eles o tinham ouvido ridicularizar os judeus, como gente supersticiosa, nascidos e educados na ignorância, que não sabiam o que é Deus, e que no entanto tinham a audácia 19

de se dizerem seu povo, sem levar em consideração as outras nações. Quanto a lei, ela tinha sido instituída por um homem na verdade mais hábil que eles em matéria de política, mas que não era quase nada mais esclarecido que eles em Física e nem mesmo em Teologia; que com uma onça de bom senso se podia descobrir a impostura, e que era preciso serem tão estúpidos quanto os hebreus do tempo de Moisés, para confiarem neste galante homem.” 7. Isto, acrescido por seus libertinos ao que tinha dito de Deus, dos anjos e da alma, e que seus acusadores não esqueceram de revelar, abala os espíritos, e lhes fazem gritar Anátema, antes mesmo que o acusado tenha tempo de se justificar. Os juízes, animados por um santo zelo para vingar sua lei profanada, interrogam, pressionam, intimidam. Ao que responde o acusado, “Que suas caretas lhe causavam piedade, que confessaria o que foi dito no depoimento de tão boas testemunhas, se para

sustentá-lo não fosse necessário somente razões incontestáveis.”. Entretanto, Morteira sendo avisado do perigo em que estava o seu discípulo, correu imediatamente à sinagoga, onde sentou junto aos juízes, e lhe perguntou “se ele se lembrava do bom exemplo que havia lhe dado? Se sua revolta era o fruto do cuidado que teve com sua educação? E se ele não temia tombar entre as mãos do Deus vivo? Que o escândalo já era grande, mas que ainda havia tempo de se arrepender.” Depois que Morteira esgotou sua retórica, sem poder abalar a firmeza de seu discípulo, com um tom mais ameaçador, e como chefe da Sinagoga, lhe pressionou a se determinar pelo arrependimento ou pela pena, e assegurou-lhe de excomungá-lo, se não desse agora mesmo provas de arrependimento. O discípulo, sem se espantar, replicou-lhe que “conhecia o peso de suas ameaças, e que em troca do trabalho que ele tivera para lhe ensinar a lín20

gua hebraica, queria também lhe ensinar a maneira de excomungar”. A estas palavras, o rabino em cólera vomitou todo seu fel contra ele, e após algumas frias reprovações, encerra a assembléia, saiu da Sinagoga, e jurou que só voltaria a ela com o raio na mão. Mas, por mais juras que tivesse feito, ele não acreditava que o seu discípulo tivesse a coragem de esperá-lo. Ele se engana em suas conjecturas; a seqüência dos fatos lhe fez ver que se ele estava bem informado da beleza do espírito de Spinosa, ele não estava de sua força. Após o tempo que se empregou para mostrar-lhe o abismo em que estava a precipitar-se tendo passado inutilmente, fixaram o dia para excomungá-lo. 8. No mesmo instante em que soube, ele se dispôs a se retirar, e bem longe de se assustar, disse a quem lhe trouxe a notícia: “Em boa hora! Não se está forçando-me a nada que eu não tivesse feito por mim mesmo, se eu não tivesse temido o escândalo. Mas, já que querem dessa forma, entro com alegria no caminho que

me é aberto, com o consolo que minha saída será mais inocente do que foi a dos primeiros hebreus fora do Egito, embora minha subsistência não esteja melhor assegurada do que a deles. Eu não levo nada de ninguém, e de qualquer injustiça que se me façam, posso me gabar que não têm nada a reprovar-me.”. 9. O pouco convívio em geral que teve por este tempo com os judeus o obrigou a fazê-lo com os cristãos, pelo que travou amizade com pessoas inteligentes que lhe disseram do dano que era não saber nem o grego, nem latim, por mais versado que fosse no hebraico, no italiano e no espanhol, sem falar no alemão, no flamengo e no português, que eram suas línguas naturais. Ele compreendia suficientemente por si próprio como lhe eram necessárias estas línguas cultas; mas a dificuldade estava em encontrar o meio de aprendê-las, posto que não possuísse nem bens, nem linhagem, nem amigos nos quais apoiar-se. Como pensava constantemente nisso e comentava com todos, Van 21

Den Enden, que ensinava com sucesso o grego e o latim, lhe ofereceu seus cuidados e sua casa, sem exigir-lhe outro reconhecimento senão o de ajudá-lo durante algum tempo a instruir seus alunos, quando se tornasse capaz de fazê-lo. 10. Entretanto, Morteira, irritado pelo desprezo que seu discípulo manifestava por ele e pela sua lei, transformou sua amizade em ódio, e saboreou, fulminando-lhe, o prazer que encontram as almas vis na vingança. A excomunhão dos judeus não tem nada de muito especial. Todavia, para nada omitir do que possa instruir o leitor, eu citarei aqui as principais circunstâncias. O povo estando reunido na Sinagoga, esta cerimônia que eles denominam de Herem, inicia-se acendendo uma grande quantidade de velas negras, e abrindo o Tabernáculo, onde guardam os Livros (Tábuas) da Lei. Após, o coro, situado num lugar um pouco elevado, entoa com voz lúgubre as palavras da execração, enquanto um outro coro toca um corno,

e viram-se as velas para as fazer cair gota a gota em uma cuba cheia de sangue. O povo, animado por um santo horror e uma raiva sagrada à vista deste negro espetáculo, responde amém em tom furioso, e que testemunha os bons serviços que acreditam estar prestando a Deus, se despedaçassem o excomungado; o que sem dúvida fariam se o encontrassem nesse momento lá, ou ao saírem da Sinagoga. Sobre isto, cabe assinalar que o som do corno, as velas viradas, e a cuba cheia de sangue, são circunstâncias que somente se observam em caso de blasfêmia, e que, fora esta, contenta-se em fulminar a excomunhão, como se fez com Spinosa, que não foi acusado de ter blasfemado, mas sim de ter faltado ao respeito com Moisés e com a Lei. A excomunhão é de tal importância entre os judeus que nem os melhores amigos do excomungado ousariam prestar-lhe o menor serviço, nem mesmo lhe falar, sem incorrer na mesma pena. Assim, aqueles que receiam a doçura do isolamento, e a im22

pertinência do povo, preferem sofrer qualquer outra pena que o Anátema. 11. Spinosa, que tinha encontrado um asilo onde acreditava estar a salvo dos insultos dos judeus, não pensava em outra coisa que avançar nas ciências humanas, na qual, com um gênio tão excelente quanto o seu, não podia duvidar que fizesse em muito pouco tempo um progresso bem considerável. Entretanto os judeus, transtornados e confusos por ter falhado o golpe, e ver que aquele a quem eles tinham ousado perder, estava fora de seu alcance, imputaram-lhe um crime do qual não haviam podido convencê-lo. Falo dos judeus em geral, pois, ainda que aqueles que vivem do altar não perdoem jamais, não ousaria dizer que Morteira e seus colegas eram os seus maiores inimigos fossem os únicos acusadores nesta ocasião. Ter-se subtraído a sua jurisdição, e subsistir sem sua ajuda, são dois crimes que lhes pareciam irremissíveis. Morteira, sobretudo, não po-

dia gostar, nem tolerar que o seu discípulo e ele vivessem na mesma cidade, depois da afronta que acreditava ter sofrido. Mas como fazer para lhe expulsar? Ele não era chefe da cidade, como o era da Sinagoga. No entanto, a malícia é tão poderosa, quando associada a um falso zelo, que este velhote o conseguiu. 12. Eis como ele o fez. Ele se fez escoltar por outro rabino de mesmo temperamento, foi encontrar os magistrados, aos quais representou que se ele tinha excomungado Spinosa, não havia sido por razões comuns, mas por execráveis blasfêmias contra Moisés e contra Deus. Exagerou a impostura por todas as razões que um ódio santo pode sugerir a um coração irreconciliável, e demandou como conclusão, que o acusado fosse banido de Amsterdã. Vendo o ímpeto a maneira do rabino e com qual animosidade ele declamava contra seu discípulo, era fácil julgar que era menos um zelo piedoso que uma secreta raiva que o incitava a se vingar. 23

Assim, os juízes ao se aperceberem disso, procuraram esquivar-se de suas queixas, enviando-as aos ministros. Porém estes, após examinarem o assunto, se sentiram embaraçados. Na maneira que o acusado se justificava, não encontravam nada de ímpio. Por outro lado, o acusador era rabino, e o cargo que ele ocupava os fazia lembrarem-se do seu, de tal forma que, tudo bem considerado, eles não podiam consentir em absolver a um homem, que seu semelhante queria perder, sem ultrajar o ministério. E esta razão, boa ou má, lhes fez dar sua conclusão em favor do rabino. Tanto é verdade que os eclesiásticos, de qualquer religião que seja, gentios, judeus, cristãos, maometanos, são mais zelosos de sua autoridade do que da equidade e da verdade, e que estão todos imbuídos do mesmo espírito de perseguição. 13. Os magistrados, que não ousaram contradizer-se por razões fáceis de adivinhar, condenaram o acusado a um

exílio de alguns meses. Por este meio o rabinismo foi vingado. Mas é verdade que assim foi menos pela intenção direta dos juízes, do que para se livrarem das queixas importunas do mais irritante e do mais incômodo de todos os homens. De resto, esta decisão, bem longe de prejudicar a Spinosa, ao contrário, secunda o desejo que ele tinha

de deixar Amsterdã. Tendo aprendido das humanidades o quanto um filósofo deve saber, ele tinha a intenção de se desprender da multidão de uma grande cidade, quando vieram inquietá-lo. Assim não foi a perseguição que o expulsou; mas o amor ao isolamento, onde não duvidava em absoluto que encontraria a verdade.

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II MATURIDADE: DE 1661 A 1673 14. Esta forte paixão, que não lhe dava descanso, o fez deixar com alegria sua pátria a cidade que lhe havia visto nascer, por um povoado chamado Rijnsburg, onde, longe de todos os obstáculos, que só poderia vencer pela fuga, entregou-se inteiramente à Filosofia. Como havia poucos autores que fossem do seu gosto, recorreu as suas próprias meditações, estando determinado a provar até onde elas poderiam desenvolver-se. No que deu uma tão alta idéia da grandeza de seu espírito, que há seguramente poucas pessoas que tenham penetrado tão longe quanto ele nas matérias em que tratou. 15. Permaneceu dois anos neste retiro, onde, apesar de toda precaução que tomasse para evitar qualquer contato com seus amigos, os seus mais íntimos amigos iam vêlo de tempos em tempos, e somente o deixavam a duras penas. Seus amigos, cuja 25 maioria era composta por cartesianos, lhe propunham dificuldades, que eles pretendiam que não pudessem ser resolvidas a não ser pelos princípios de seu mestre. Spinosa evitou que incorressem num erro em que os sábios estavam então, satisfazendolhes com razões inteiramente opostas. Mas, estranho é o espírito do homem e a força dos preconceitos; seus amigos, ao retornarem para suas casas, estiveram a ponto de serem espancados por terem afirmado em público que Descartes não era o único filósofo que merecia ser seguido. 16. A maior parte dos ministros, preocupados com a doutrina deste grande gênio, zelosos do direito, que acreditavam possuir, de serem infalíveis em sua escolha, clamam contra um boato que os ofende, sem nada esquecer do quanto sabem para sufocá-lo na fonte. Mas, apesar de seus

esforços, o mal crescia de tal maneira, que estava a ponto de estourar uma guerra civil no império das letras, quando determinaram que se rogasse a nosso filósofo explicar-se abertamente em relação a Descartes. Spinosa, que não queria nada mais do que a paz, concordou de bom grado dedicar-se a este trabalho algumas horas de seu lazer e o fez imprimir em 1663. Nessa obra, ele prova geometricamente as duas primeiras partes dos Princípios do senhor Descartes, como diz no Prefácio pela pluma de um de seus amigos. Mas, o que quer que tenha dito de bom a respeito do célebre autor, os partidários desse grande homem, para desculpá-lo da acusação de ateísmo, fizeram depois tudo o que puderam para que caísse o raio sobre a cabeça de nosso filósofo, usando nesta ocasião a política dos discípulos de Santo Agostinho, que para se lavarem da crítica que se lhes fazia, de se inclinarem para o calvinismo, escreveram contra esta seita os livros mais violentos. Mas a perseguição que os cartesia26

nos incitaram contra o senhor Spinosa, e que durou toda a sua vida, bem longe de abalálo, fortificou-o na procura da verdade. 17. Ele imputava a maior parte dos vícios dos homens aos erros do entendimento, e com medo de cair neles, se afunda ainda mais na solidão, deixando o lugar onde estava para ir a Voorburg, onde acreditou que teria mais repouso. Os verdadeiros sábios que encontravam algo a questionar, assim que não o viram mais, prontamente o desenterraram, e o sobrecarregaram com suas visitas neste último povoado, como haviam feito no primeiro. E ele, que não era insensível ao sincero amor das pessoas de bem, acedeu à insistência para que deixasse o campo e fosse para alguma cidade onde eles pudessem vê-lo com menos dificuldade. Ele foi habitar então em Haia, que preferiu à Amsterdã, pois o ar lhe era mais saudável, e ali morou o resto de sua vida. 18. De início ele só foi visitado por um pequeno número de amigos, que o faziam mo-

deradamente. Mas este lugar agradável não ficava nunca sem viajantes, que procuravam ver o que merecia ser visto, os mais inteligentes dentre eles, quaisquer que fossem suas condições, acreditavam ter perdido a viajem se não tivessem visto Spinosa. E como os efeitos respondem ao renome, não havia sábio que não lhe escrevesse para ter esclarecidas suas dúvidas. Testemunha disto é o grande número de cartas que fazem parte do livro que foi impresso após sua morte. Mas tanto as visitas que recebia quanto as respostas que devia dar aos sábios que lhe escreviam de toda parte, e suas obras maravilhosas, que fazem hoje nossa alegria, não ocupavam suficientemente este grande gênio. Ele empregava todos os dias algumas horas a preparar lentes para microscópios e telescópios, no que era excelente, de forma que se a morte não lhe tivesse sobrevindo, é de se crer que tivesse descoberto os mais belos segredos da ótica. Ele era tão entusiasmado pela busca da verdade, que, apesar da saúde muito 27

débil e da necessidade de lazer, o fazia, no entanto tão pouco, que ficou três meses inteiros sem sair de casa; até ao ponto de recusar ensinar publicamente na Academia de Heidelberg, por medo deste emprego lhe distrair de seu desígnio. 19. Após ter-se esforçado tanto para retificar seu entendimento, não há porque se admirar de que tudo o que tenha produzido é de um caráter inimitável. Antes dele a Sagrada Escritura era um santuário inacessível. Todos os que haviam falado dela, o haviam feito como cegos. Somente ele fala dela como um sábio em seu Tratado de Teologia e Política, pois é certo que jamais homem algum conheceu tão bem quanto ele as antiguidades judaicas. Embora não exista ferida mais perigosa que aquela da maledicência, e nem menos fácil de suportar, jamais se lhe ouviram falar com ressentimento contra os que o despedaçaram. Mesmo com muitos tendo se esforçado por des-

crever esse livro com injúrias plenas de fel e amargura, no lugar de se servir das mesmas armas para destruí-los, ele se contentou em esclarecer os trechos dos quais eles tinham dado um falso sentido, temendo que sua malícia ofuscasse as almas sinceras. Se esse livro lhe suscitou uma torrente de perseguidores, não foi porque é somente hoje que se interpreta mal o pensamento dos grandes homens, e que a grande reputação é mais perigosa que a má. 20. Ele teve a vantagem de ser conhecido pelo senhor pensionário J. De Witt, que quis aprender com ele as matemáticas, e que com freqüência lhe dava a honra de consultá-lo sobre matérias importantes. Mas tinha tão pouco empenho pelos bens da fortuna, que depois da morte do senhor De Witt, que lhe dava uma pensão de duzentos florins, depois de mostrar o documento de seu mecenas a seus herdeiros, que alegavam dificuldades em mantê-la, lhes entregou este com tanta tranqüilidade como se tivesse outros fundos com que contar. 28

Esta maneira desinteressada os fez refletirem, e eles lhe concederam com alegria o que tinham acabado de negarlhe. E era esta a sua melhor fonte de subsistência, pois do pai não herdara mais do que certos negócios emaranhados. Ou, antes, os judeus com os quais este bom homem tinha negociado, pensando que seu filho não teria a paciência de desfazer os emaranhados, o enredaram de tal maneira, que ele preferiu abandonar tudo, que sacrificar seu repouso a uma esperança incerta. 21. Era tal a sua inclinação a não fazer nada para ser percebido ou admirado pelo povo, que após sua morte, recomendou que não se colocasse o seu nome em sua Moral, dizendo que tais sentimentos eram indignos de um filósofo. 22. Sua reputação era tal que não se falava em outra coisa nos círculos intelectuais. O príncipe de Condé, que estava em Utrecht ao começar as últimas batalhas da guerra de 1672, lhe envia um salvoconduto com uma carta gentil,

para o convidar a ir vê-lo. Spinosa tinha o espírito muito bem formado e sabia bem o que devia a pessoas de tão alto grau, para ignorar neste encontro o que era devido à sua Alteza. Mas como jamais deixava sua solidão a não ser para a ela retornar o mais rapidamente, uma viajem de algumas semanas o deixou indeciso. Enfim, após algumas delongas, seus amigos o determinaram a pôr-se a caminho. Entretanto, uma ordem do rei de França havia chamado o príncipe a outro lugar; e o senhor de Luxemburgo, que o recebeu em sua ausência, lhe fez mil agrados, e lhe assegurou da benevolência de sua alteza. Esta multidão de cortesãos não surpreende em absoluto nosso filósofo. Ele tinha uma educação mais próxima da corte, que de uma cidade comercial, como aquela em que

havia nascido, e da qual podemos dizer que ele não tinha nem os defeitos, nem os vícios. Ainda que esse gênero de vida fosse inteiramente oposto à suas máximas e a seu gosto, ele se sujeitou a ele com tanta complacência quanto os próprios cortesãos. O Príncipe, que queria vê-lo, mandou várias vezes que o esperasse. Os curiosos que o apreciavam, e encontravam sempre nele novos motivos para apreciá-lo, estavam encantados com que sua alteza o obrigasse a esperar. Após algumas semanas, quando o Príncipe comunicou que não poderia retornar a Utrecht, todos os curiosos dentre os franceses se desgostaram; pois, malgrado as ofertas obsequiosas que lhe fez o senhor de Luxemburgo, nosso filósofo no mesmo instante despediu-se deles e retornou a Haia.

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III APOLOGIA DE SPINOSA: VIRTUDES E FEITOS 23. Ele possuía uma qualidade tanto mais estimável quanto que raramente se encontra num filósofo: era extremamente limpo, e jamais saía sem que se notasse em seus trajes o que distingue o homem íntegro do pedante. “Não é”, dizia ele, “este ar sujo e negligente que nos torna sábios; ao contrário”, acrescentava, “esta negligência afetada é a marca de uma alma baixa na qual a sabedoria não se encontra em absoluto, e na qual as ciências não podem engendrar mais do que impureza e corrupção”. Não só as riquezas não o tentavam como também não temia as conseqüências desagradáveis da pobreza. A Sua virtude o havia colocado acima de todas estas coisas; e embora não estivesse nas boas graças da fortuna, jamais a adulou nem murmurou contra ela. Se sua fortuna foi das mais modestas, sua alma, em recompensa, foi das maiores e 30 das melhores dotadas de tudo aquilo que faz os grandes homens. Ele era liberal numa extrema necessidade, emprestando do pouco que tinha pela bondade de seus amigos, com tanta generosidade como se estivesse na opulência. Tendo sabido que um homem que lhe devia duzentos florins tinha ido à bancarrota, bem longe de se chatear, disse sorrindo: “é preciso retirar do meu ordinário 3 para reparar esta pequena perda; é a este preço”, acrescentou ele, “que se compra a firmeza”. Eu não relato esta ação como algo de espetacular. Mas, como não há nada em que o gênio apareça mais do que nestes tipos de pequenas coisas, eu não a pude omitir sem escrúpulo. 24. Ele era tão desinteressado quanto menos desinteressados eram os devotos que mais gritavam contra ele. Nós já vimos uma prova de seu de3

Nota Ádvena – Mantença cotidiana.

sinteresse; vamos agora reportar uma outra, que não lhe fará menos honra. Um de seus amigos íntimos, homem em boa situação financeira, queria dar-lhe de presente dois mil florins, para que pudesse viver mais comodamente, ele recusa com sua polidez habitual, dizendo-lhe que não os necessitava. Com efeito, era tão moderado e sóbrio, que mesmo com bem poucos bens, não lhe faltava nada. “A natureza”, dizia ele, “contenta-se com pouco, e quando ela está satisfeita, eu também estou”. Mas não era menos justo que desinteressado, como veremos. O mesmo amigo que quis lhe dar dois mil florins, não tendo esposa e nem filhos, planejou fazer um testamento a seu favor e lhe instituir seu legatário universal. Ele lhe falou disso e quis seu consentimento. Porém, longe de dar sua aprovação, o senhor Spinosa lhe argumenta tão vivamente que ele estaria agindo contra a eqüidade e contra a natureza, se em prejuízo de seu próprio irmão, ele dispusesse de sua suces31

são em favor de um estranho; por mais amigo seu que fosse, que seu amigo se rendesse a estes sábios conselhos e deixasse todos os seus bens a quem devia naturalmente ser seu herdeiro, mas com a condição, todavia, de que este assinasse uma pensão vitalícia de quinhentos florins a nosso filósofo. Admiremos também aqui o seu desinteresse e sua moderação; ele considera esta pensão muito alta, e a reduz a trezentos florins. Belo exemplo, que será pouco seguido, sobretudo pelos eclesiásticos, pessoas ávidas do bem alheio, que, abusando da fraqueza dos velhos e dos devotos que eles envaidecem, não somente aceitam sem escrúpulo as heranças com prejuízo dos herdeiros legítimos, mas recorrem mesmo à sugestão para obtê-las. 25. Mas, deixemos estes tartufos e retornemos ao nosso filósofo. Por não ter tido a saúde perfeita durante toda a sua vida, havia aprendido a sofrer desde sua mais tenra juventude; assim, homem algum jamais entendeu melhor esta ciência do que ele. Não

buscava o consolo mais que em si mesmo, e se era sensível a alguma dor, era à dor do outro. “Crer que o mal é menos rude quando ele nos é comum com muitas outras pessoas, é”, dizia ele, “uma grande marca da ignorância, e é ter bem pouco bom senso, utilizar como consolo as penas comuns”. 26. É com este estado de espírito que derramou lágrimas quando viu seus concidadãos despedaçarem seu pai comum; e ainda que soubesse melhor que ninguém no mundo do que os homens eram capazes, ele não deixou de estremecer a vista deste horrível e cruel espetáculo. Por um lado, via cometerem um parricídio sem precedentes e uma ingratidão extrema; por outro, via-se privado de um ilustre mecenas e do único apoio que lhe restava. Era demasiado para abater uma alma comum; porém, uma alma como a sua, acostumada a superar as perturbações interiores, não temia sucumbir. Como ele era sempre senhor de si, rapidamente superou 32

este terrível acidente. A um de seus amigos que, tendo testemunhado esta atitude, surpreendera-se, replicou nosso filósofo: “De que nos serviria a sabedoria, se, ao cairmos nas paixões do povo, nós não tivéssemos a força para nos restabelecermos por nós mesmos?” 27. Como não estava comprometido com nenhum partido, não tinha que pagar a nenhum. Ele deixava a cada um a liberdade de seus preconceitos; mas ele sustentava que a maior parte era um obstáculo à verdade; que a razão era inútil, se nós negligenciássemos em usá-la, e que se proíbe o seu uso, quando se trata de escolher. “Eis”, dizia ele, “os dois maiores e mais comuns defeitos dos homens, a saber, a preguiça e a presunção. Uns afundam debilmente numa crassa ignorância, que os coloca abaixo das bestas; os outros se erguem como tiranos sobre os espíritos dos simples, lhes dando por oráculos eternos um mundo de falsas idéias, ou falsos pensamentos.

Eis aí a fonte dessas crenças absurdas das quais os homens são presunçosos, e o que os divide a uns e outros, e que se opõe diretamente ao objetivo da natureza, que é o de tornálos uniformes, como crianças de uma mesma mãe. Eis porque, ele dizia, que somente aqueles que tinham se libertado das máximas de sua infância, poderiam conhecer a verdade, que era necessário fazer esforços extraordinários para superar as impressões do hábito e apagar as falsas idéias, das quais o espírito dos homens estão cheios, antes que seja capaz de julgar as coisas por si mesmo. Sair deste abismo era”, segundo dizia, “um milagre tão grande quanto o de ordenar o caos.” 28. Não há porque então surpreendermo-nos por ele ter feito durante toda sua vida guerra à superstição. Além de ser dotado para isso por uma inclinação natural, os ensinamentos de seu pai, que era homem de bom senso, contribuíram muito para reforçá-la. Este bom homem havia lhe ensinado a não confundi-la com a sólida piedade, e que33

rendo pôr a prova o seu filho, que não tinha ainda dez anos, ordenou-lhe ir receber um dinheiro que lhe devia certa mulher velha de Amsterdã. Ao entrar na casa dela, viu que estava a ler a Bíblia; ela fez-lhe sinal para que a esperasse terminar sua prece. Quando ela terminou, o menino disse-lhe de seu encargo, e esta boa velha tendo contado seu dinheiro, disse: “Eis”, mostrando-lhe o dinheiro sobre a mesa, “o que eu devo a seu pai. Possa você ser um dia homem tão honesto quanto ele; ele jamais se afastou da Lei de Moisés, e o céu não te bendirá, enquanto não o imitares”. Ao acabar estas palavras ela pegou o dinheiro para colocá-lo na bolsa da criança. Mas ele, que se recordava de que esta mulher tinha todas as marcas da falsa piedade, da qual o seu pai já o tinha advertido, quis contar o dinheiro depois dela, malgrado a sua resistência; e encontrando dois ducados faltando, que a piedosa velha havia deixado cair numa gaveta por uma fresta feita para isto abaixo da mesa, ele confirmou seu pen-

samento. Inflado pelo sucesso desta aventura, e de ver que seu pai lhe aplaudiu, ele observava esta espécie de gente com mais cuidado que antes, e delas fazia troças tão finas que todo mundo se surpreendia. 29. Em todas as suas ações a virtude era o objetivo. Mas, como não fazia desta uma pintura horrível, à imitação dos estóicos, ele não era inimigo dos prazeres honestos. É verdade que os do espírito eram o seu estudo principal, e os do corpo o tocavam pouco. Mas quando se encontrava com essas espécies de divertimentos, das quais não podemos honradamente dispensar, ele as tomava como uma coisa indiferente e sem perturbar a tranqüilidade de sua alma, que preferia a todas as coisas imagináveis. Mas o que mais estimo nele é que, tendo nascido e sido criado no meio de um povo grosseiro, que é a fonte da superstição, ele não tenha mamado a amargura, e que tenha purgado seu espírito dessas falsas máximas das 34

quais tantos se vangloriam. Estava inteiramente curado dessas opiniões insípidas e ridículas que os judeus têm de Deus. Um homem que sabia o objetivo da sã filosofia, e que, com o consentimento dos mais hábeis de nosso século, a punha melhor em prática; tal homem, digo, não era de se temer que ele pudesse imaginar de Deus o que este povo imagina. Mas, por não crer nem em Moisés e nem nos Profetas, quando se acomodam, como ele diz, à rudeza do povo, é uma razão para condená-lo? Eu li a maior parte dos filósofos, e asseguro de boa fé que absolutamente não há quem dê as mais belas idéias da divindade do que aquelas que o falecido senhor Spinosa nos dá em seus escritos. Ele diz que: “quanto mais conhecemos a Deus, mais nós somos mestres de nossas paixões; que é neste conhecimento no qual encontramos a perfeita aquiescência do espírito e o verdadeiro amor de Deus, no que consiste nossa salvação, que é a beatitude e a liberdade.”

30. São estes os principais pontos que segundo nosso filósofo são ditados pela razão, tocante à verdadeira vida, e ao soberano bem do homem. “Comparemos com os dogmas do Novo Testamento, e veremos que é tudo a mesma coisa. A Lei de Jesus Cristo nos conduz ao amor de Deus e do próximo, o que é propriamente o que a razão nos inspira, segundo o sentimento de Spinosa. Donde é fácil inferir que a razão pela qual São Paulo chama a religião cristã uma religião racional, é que a razão a prescreveu, e é o seu fundamento: o que se chama uma religião racional é – conforme relato de Orígines –, tudo o que está submetido ao império da razão. Acrescente-se que um dos antigos Padres Teofrasto, assegura que devemos viver e agir segundo as regras da razão.4”
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Eis aí os sentimentos que segue nosso filósofo, apoiado pelos pais da igreja e pela Escritura. Entretanto, ele é condenado; mas o é aparentemente por aqueles a quem o interesse leva a falar contra a razão, ou que jamais a conheceram. Eu faço esta pequena digressão para incitar os simples a sacudir o jugo dos invejosos e dos falsos sábios, que, não podendo suportar a reputação das pessoas de bem, as acusam falsamente de ter opiniões pouco conformes à verdade. 31. Para retornar a Spinosa, ele tinha em suas conversas uma aparência tão simpática, e fazia comparações tão justas que insensivelmente fazia todo mundo aderir à sua opinião. Era persuasivo, ainda que não ostentasse falar nem polidamente e nem elegantemente. Ele se tornava tão inteligível, e seu discurso era tão repleto de bom senso que era quase impossível alguém não entendê-lo, ou não ficar satisfeito. 32. Estes belos talentos atraíam a sua casa todas as pesso35

Nota Ádvena - Este parágrafo parece ter sido interpolado pois diz justamente o oposto do que pensava Spinosa a propósito da Bíblia. E o mais surpreendente: religião racional... contradiz tudo o que vai se ler daqui para a frente.

as razoáveis; e, a qualquer tempo que fosse, ele se encontrava sempre com o mesmo humor agradável. De todos aqueles que o freqüentaram, não havia absolutamente nenhum que não lhe testemunhasse uma amizade particular. Todavia, como não há nada mais fechado do que o coração do homem, viu-se a seguir que a maior parte dessas amizades era enganosas, aqueles que mais lhe deviam, sem nenhum motivo, nem aparente nem real, o trataram da maneira mais ingrata do mundo. Esses falsos amigos, que aparentemente o adoravam, o caluniavam às ocultas, seja para cortejar os poderosos, que não amam as pessoas de espírito, seja para adquirir reputação, armando insídias. Um dia, tendo sabido que um dos seus maiores admiradores esforçava-se para sublevar o povo e os magistrados contra ele, respondeu sem emoção: “Não é de hoje que a verdade custa caro; não será a maledicência que me fará abandoná-

la”. Eu gostaria de saber se já foi visto alguma vez mais firmeza, ou uma virtude mais pura? Ou se jamais algum de seus inimigos fez algo que ao menos se aproximasse de tal moderação? Mas eu vejo bem que sua infelicidade foi ser demasiado bom e muito esclarecido. 33. Descobriu a todo mundo o que se queria manter oculto. Achou La Clef du Sanctuaire, no qual antes dele somente viam mistérios vãos. Eis porque, apesar de ter sido o homem de bem que foi não pôde viver em segurança. 34. Ainda que nosso filósofo não fosse uma pessoa das mais severas, daquelas que consideram o casamento como um impedimento para o exercício do espírito, ele não contraiu matrimônio no entanto, seja porque temia o mau humor de uma mulher, seja porque o amor à Filosofia o ocupasse por inteiro por se entregar inteiramente à Filosofia e ao amor à verdade.

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IV MORTE E PANEGÍRICO 35. Além de não ser de uma negro e cacheado, as sobrancompleição muito robusta, sua celhas da mesma cor, os olhos grande aplicação ajudou ainda pequenos, negros e vivos, uma mais a debilitá-lo; e como não fisionomia muito agradável e há nada que consuma mais um aspecto português. Quanto que o trabalho noturno, seus ao espírito, ele o tinha grande incômodos tornaram-se quase e penetrante, e era de um hucontínuos, por causa da ma- mor totalmente complacente. lignidade de uma pequena fe- Ele sabia temperar tão bem as bre lenta, que contraiu durante brincadeiras, que os mais desuas ardentes meditações. Se licados e os mais severos lhe bem que, após ter definhado encontravam atrativos partidurante os últimos anos de sua culares. vida, ele a terminou no meio 37. Seus dias foram breves; de seu curso. Assim, ele viveu mas podemos dizer, no enquarenta e cinco anos ou em tanto, que viveu muito, tendo torno disso, tendo nascido no adquirido os verdadeiros bens ano de 1632, e tendo cessado que consiste na virtude, e não de viver em 21 de fevereiro de teria mais nada a desejar, após 1677. a alta reputação que conquis36. Que se deseje saber tam- tou com seu profundo saber. bém alguma coisa de seu 38. A sobriedade, a paciência porte e de seus traços; ele era e a veracidade não eram mais de estatura mais para média do que suas virtudes menores. do que para grande, com uma Ele teve a felicidade de moraparência muito agradável e rer no cume de sua glória, sem que insinuava-se de forma a ter maculado com nenhuma imperceptível. Era de estatura mancha, deixando ao mundo mediana. Tinha os traços do dos sábios e doutos o desgosto rosto bem proporcionais, a de verem-se privados de uma pele bem morena, o cabelo 37

luz que não lhes era menos útil do que a luz do sol. Porque, ainda que não tenha tido a sorte de ver o fim das últimas guerras, em que os senhores dos Estados Gerais recuperaram o governo de seu império meio perdido, seja pela sorte das armas, seja por uma má escolha ; isto não foi para ele uma felicidade pequena, por ter escapado da tempestade que seus inimigos lhe preparavam. Eles o tinham feito odioso para o povo, porque ele lhes tinha dado o meio de distinguir a hipocrisia da verdadeira piedade e de extinguir a superstição. Nosso filósofo tem então muita sorte, não somente pela glória de sua vida, mas pelas circunstâncias de sua morte, que olhou com um olhar intrépido, segundo aqueles que estiveram presentes, como se estivesse satisfeito de sacrificar-se por seus inimigos, afim de que sua memória não fosse maculada com um parricídio. 39. Somos nós, os que fica-

mos, que estamos lamentando; são todos aqueles que seus escritos tenham retificado, e a quem sua presença era ainda um grande socorro no caminho da verdade. Mas, já que não se pode evitar a sorte de tudo o que vive, procuremos marchar sobre suas pegadas, ou ao menos, reverenciá-lo com nossa admiração e louvor, se não podemos imitá-lo. É o que eu aconselho às almas sólidas, assim como seguir suas máximas e suas luzes, de tal forma que as tenham sempre ante os olhos e lhes sirvam de regra às suas ações. O que nós amamos e veneramos nos grandes homens, está sempre vivo e viverá por todos os séculos. 40. A maior parte daqueles que viveram na obscuridade e sem glória permaneceram enterrados nas trevas e no esquecimento. Baruch de Spinosa viverá na recordação dos verdadeiros sábios e em seus escritos, que são o templo da imortalidade. Jean-Maximilien Lucas

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O Espírito do Senhor Baruch de Spinoza

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CAPÍTULO I DE DEUS

I. Se bem que o conhecimento da verdade interesse a todos os homens, muito poucos, contudo, a conhecem, porque a maior parte julga-se incapaz de a procurar pelos seus próprios meios, ou não se quer dar a esse trabalho. Assim, não deve espantar que o mundo esteja cheio de opiniões vãs e ridículas, nada sendo mais propício à sua propagação do que a ignorância. Com efeito, só ela é a fonte única das ideias falsas que temos acerca da divindade, da alma, dos espíritos e de todos os erros que delas dependem. Prevalece o costume de nos contentarmos com os preconceitos nos incutidos à nascença e de nos remetermos a pessoas pagas para defender as opiniões recebidas e, por conseguinte, interessadas em transmiti-las ao povo, sejam elas verdadeiras ou falsas. II. O que torna o mal sem remédio é que, depois de se 40

terem estabelecido as ideias frouxas que temos de Deus, ensina-se ao povo a crê-las, sem as examinar, e a sentir aversão pelos verdadeiros sábios, que poderiam mostrarlhe os erros nos quais está atolado. Os partidários destes absurdos tiveram tanto sucesso nesse aspecto que se tornou perigoso combatê-los. Importa-lhes tanto que o povo seja ignorante que não aceitem que o libertem. Assim, vemo-nos obrigados a disfarçar a verdade ou a sofrer a fúria dos falsos sábios e das almas interesseiras. III. Se o povo pudesse compreender em que abismo é lançado pela ignorância, rapidamente se livraria do jugo dessas almas venais que, por mero interesse, tudo fazem para aí o manterem. Bastarlhe-ia, para o efeito, servir-se da razão; é impossível que ao deixá-la agir não se descubra

a verdade. É certo que, para o impedir de a usar, se lhe a apresenta como um guia que conduz à perda daqueles que se entregam nas suas mãos, e como um fogo-fátuo, cuja luminosidade enganadora leva ao precipício. Mas estas pessoas, cujo mister consiste em declamar contra a razão, não deixam, depois do alarido contra ela, e de terem defendido que está completamente pervertida, de fazer todos os esforços para tê-la do seu lado e para convencer que aqueles que não partilham os seus pontos de vista não são razoáveis. Assim, caindo em contradições perpétuas, torna-se difícil saber o que pretendem. O que é certo é que a recta razão é a única luz que o homem deve seguir, e que o povo não é tão incapaz de usá-la quanto se tenta persuadi-lo. Se se fizessem tantos esforços para rectificar os seus falsos raciocínios, e para dissuadi-lo dos seus velhos preconceitos, quantos se faz para mantê-lo nuns e confirmá-lo nos outros, ele abriria os olhos pou41

co a pouco, tornar-se-ia disponível para a verdade e aprenderia que Deus em nada corresponde ao que imagina". IV. Com efeito, não são necessárias altas especulações ou penetrações profundas nos segredos da natureza; um pouco de bom senso basta para perceber que Deus não é nem colérico nem ciumento; que a justiça e a misericórdia são falsos títulos que se lhe atribui; e que, por fim, nada do que os Profetas e os Apóstolos disseram constitui a sua natureza ou a sua essência. Para falar sem cosmética e dizer as coisas como são, não há dúvida de que essa gente não era nem mais hábil nem mais instruída sobre esses temas do que o resto dos homens. Pelo contrário, o que dizem é tão grosseiro que é preciso ser povinho para lhes dar crédito. A coisa é óbvia; mas, para torná-la mais notória, vejamos se há algum indício de que tivessem sido feitos de uma massa diferente dos outros homens.

V. No que respeita ao berço e às funções básicas da vida, estamos todos de acordo de que nada tinham de sobrehumano; que nasceram de homens e de mulheres e que levavam a vida como nós. Mas, relativamente aos seus espíritos, pretende-se que Deus os dirigia através de uma inspiração imediata, e que o seu entendimento estava muito mais esclarecido do que o nosso. É preciso confessar que o povo tem uma forte tendência para se cegar. Diz-se-lhe que Deus amava mais os Profetas do que o resto dos homens; que comunicava em privado com eles, e o povo aceita-o como se a coisa tivesse sido demonstrada. E, sem considerar que todos os homens se assemelham, que todos têm um mesmo princípio, para o qual todos os homens são iguais, acreditam que essa gente era de uma têmpora extraordinária, feita de propósito para debitar os oráculos de Deus. Mas, sem contar que não tinham nem mais espírito do que o co42

mum, nem o entendimento mais perfeito do que o resto dos homens, o que encontramos nos seus escritos que nos induz a ter essa opinião sobre eles? A maior parte do que disseram é tão obscuro que se torna incompreensível, está numa sequência tão desordenada que se vê bem que, eles próprios, não se compreendiam e que eram deveras ignorantes. O que deu lugar à crença que temos sobre eles foi o facto de se gloriarem de que tudo o que anunciavam ao povo lhes vinha diretamente de Deus. Crença absurda e ridícula, porquanto são os próprios a confessar que Deus só lhes falava em sonhos. Uma vez que os sonhos são naturais, para mais em estado de adormecimento, é preciso que um homem seja bem fútil, ou insensato, para se gloriar de que Deus lhe fala nessa altura, e que aquele que lhe dê crédito seja também muito crédulo, para acreditar, contra toda a evidência, que os sonhos sejam oráculos. Mesmo supondo que Deus

tivesse comunicado por sonhos, visões ou outras vias, ninguém, contudo, seria obrigado a acreditar, porque fica sempre a dúvida de que aquele homem tivesse sido enganado por um qualquer impostor, ou que se tivesse iludido a si próprio, ou, enfim, que tivesse o propósito de enganar os outros. Assim constatamos que, na antiga Lei, não se tinha a mesma estima pelos Profetas que se tem hoje. Quando a sua tagarelice, que acabava, a maior parte das vezes, por desviar o povo da obediência devida aos seus reis legítimos, fartava, obrigavam-nos a calar-se mediante diversos suplícios. Jesus Cristo sucumbiu assim, por não ter, como Moisés5, um exército para defender as suas opiniões. Acrescente-se que os Profetas estavam tão habituados a contradizer-se entre si, que, por vezes, de entre quatrocentos, não se encontrava um
5 Moisés mandou matar de uma só vez vinte e quatro mil homens por se terem oposto à sua Lei. (Nm. XXV. Vol.2a9). << E Jesus nunca existiu.>>

único verdadeiro6. Para além do mais, é certo que o objectivo das profecias, como o das leis dos mais célebres legisladores, era a perpetuação da sua memória, fazendo crer ao povo que conferenciavam em privado com Deus. Os políticos mais espertos sempre recorreram ao expediente, ainda que tal manha nem sempre tenha funcionado com aqueles que, ao contrário de Moisés, não tinham maneira de porvir à sua segurança. VI. Isto aceite, examinemos as ideias que os inspirados e os profetas tiveram sobre Deus, e veremos quão grosseiras e contraditórias eram. A fazer fé no que dizem, Deus assemelha-se ao homem, que, segundo eles, fez à sua imagem. Como ele, tem olhos, orelhas, narinas, uma boca, braços, mãos, pés, um coração e entranhas. É susceptível das mesmas paixões, amor, ciúme, ódio, alegria, tristeza,
6 No primeiro Livro dos Reis (Cap. XXII v. 6), Acab, rei de Israel, consultou quatrocentos profetas, que se enganaram todos nas suas profecias.

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prazer, dor, esperança, temor, aversão, cólera, fúria, vingança... Eis a grosseria das suas ideias. Veja-se a contradição. Eles dizem que Deus é um puro espírito que em nada se assemelha ao corpóreo. No entanto, Miqueias vê-o sentado, Daniel, vestido de branco e na forma de um ancião, e Ezequiel7 como um fogo. Nem mesmo o seu Espírito escapou à forma corpórea. João Baptista vê-o na forma de uma pomba, e os Apóstolos na de línguas de fogo. Aliás, atribuem-lhe membros humanos, e dizem que fez o homem à sua imagem e semelhança, como acabámos de indicar. Ensinam que é invisível8, que jamais foi visto por qualquer homem", o qual, se o visse, não poderia sobreviver"; todavia, Jacob, Job, Moisés, Arão, Nadab, Abiliu, os setenta anciãos de Israel, Manoah e a sua mulher, a maioria dos Profetas, e uma infinidade de outros homens, viram-no em vida, os outros
7 I Rs, XXII, 19; Rs, VII, 9; Rs, I, 27. 8 Ex... XX. 5.

vê-lo-ão no outro mundo9, onde o veremos face a face10, seremos seus semelhantes e vê-lo-emos tal como é. Por um lado, dizem-nos que Deus é bom, amável, caridoso, afectuoso, piedoso, benigno, misericordioso, paciente, que não tem qualquer prazer na morte do mau mas antes na sua conversão. Por outro, que é severo, terrível, assustador, um fogo que consome, que tem prazer em fazer perecer os maus, que se ri, goza com a sua desgraça, e que não lhes responde quando clamam por si. No Génesis, o homem é representado como senhor de fazer o bem e de não pecar, São Paulo, pelo contrário, ensina que ele não tem qualquer poder sobre a concupiscência, sem uma graça particular. É dito, no Êxodo11, que a iniquidade dos pais será punida por Deus, nos filhos, até à quarta geração e, em Ezequiel12, que a pena dos pais não
9 Ez... XVIII, 20. 10 Nm., XXIII, 19. 11 Jr. XVIII, 7-10. II. 13. 12 Gn. VI 6. 7. I Sm. XV. 11 Jn., III, 10.

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passará para os filhos. Samuel diz, segundo o Livro dos Números, que Deus nunca se arrepende, Jeremias e Joel, ao contrário, dizem, um, que ele se arrepende do bem e do mal que tinha declarado que faria a uma nação, ou a um reino, o outro, que ele se arrepende de provocar aflição. Para além do mais, ele arrependeu-se de ter feito o homem, de ter feito de Saul rei" e do mal que disse que iria fazer aos Ninivitas. Eis as opiniões que esta gente, com sonhos, inspirações, êxtases, visões, revelações, tem de Deus. Eis aquilo em

que querem que acreditemos. Mas, para acreditar em tais contradições, seria preciso ser tão grosseiro e tão estúpido quanto aqueles que, apesar dos artifícios de Moisés, acreditavam que um bezerro era o Deus que os tirara do Egipto. Sem nos demorarmos nas divagações de um povo instruído na servidão e no meio de superstições, fechemos este capítulo concluindo do que dissemos que a ignorância produziu a credulidade, a credulidade a mentira, de onde todos os erros reinantes saíram.

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CAPÍTULO II RAZÕES QUE LEVARAM OS HOMENS A REPRESENTAR UM SER INVISÍVEL, OU O QUE SE CHAMA HABITUALMENTE DEUS

I. Aqueles que desconhecem as causas físicas têm um receio natural, que provém da dúvida em que estão, sobre se existe um poder capaz de prejudicá-los ou de ajudá-los. Daí, o pendor para inventarem seres invisíveis, ou seja, os seus próprios fantasmas, que invocam na adversidade, que louvam na prosperidade e que acabam por transformar em Deuses. Como as visões dos homens chegam ao infinito, forjaram um número indiscriminado de divindades e imaginaram que lhes eram favoráveis, ou não, consoante o que, eles próprios, faziam bem ou mal. Por exemplo, quando a natureza os afligia com tempestades, secas, pestes e outros acidentes do mesmo tipo, acreditavam que esses males 46

aconteciam por terem irritado com as suas ofensas essas divindades. Este temor quimérico dos poderes invisíveis é a semente das religiões, que cada um molda a seu modo". Os políticos, interessados em que o povo estivesse imbuído de tais medos, fizeram da crença em Deuses vingadores das leis divinas e humanas violadas uma lei fundamental dos seus Estados, e pela antecipação de um terrível futuro levaram os seus súbditos a obedecer-lhes cegamente. II. Uma vez encontrada a fonte dos Deuses, os homens acreditaram que aqueles se lhes assemelhavam, e que, como eles, tudo faziam com uma finalidade. Pois são unânimes a afirmar que tudo o que Deus fez foi para o ho-

mem, que o homem é feito tão só para Deus'. Sendo este preconceito geral, vejamos por que é que os homens têm tanta inclinação para segui-lo, para se mostrar como foi daí que lhes ocorreu uma ideia do bem e do mal, do mérito e do pecado, do louvor e da vergonha, da ordem e da confusão, da beleza e da fealdade... III. Não é este o lugar para deduzir estas ideias da natureza do espírito humano; bastará para o nosso intuito que estabeleçamos como fundamento um princípio que não possa ser negado por ninguém. Esse princípio é o de que todos os homens nasceram na ignorância profunda, relativamente às causas das coisas, e que tudo o que sabem é que têm uma tendência natural que os leva a procurar o que lhes é útil e cómodo e a evitar o que lhes é prejudicial. Do que resulta, primeiro, que os homens sintam o poder de querer, ou desejar, e imaginem, erroneamente, que isso lhes basta para os tornar livres. Erro no qual caem ainda 47

com maior facilidade por não se darem ao trabalho de procurar as causas que os determinam a querer, ou a desejar, pois são incapazes de pensar no assunto, ou de reflectir, mesmo em sonhos. Segue-se, em segundo lugar, que, se tudo o que os homens fazem tem um fim, que é preferido relativamente a tudo o mais, estes só têm como objectivo conhecer as causas finais das suas acções; ao conhecê-las, ficam satisfeitos, não procuram mais, e imaginam que já não há lugar para a dúvida. Encontrando, depois, neles, e fora deles, uma quantidade de meios para chegar ao que desejam, tendo, por exemplo, olhos para ver, ouvidos para escutar, uma língua para falar, dentes para mastigar, mãos para tocar, pés para andar..., frutos, legumes, animais para nutri-los, um sol para iluminá-los, formaram este raciocínio: que nada há na natureza que não tenha sido feito para eles, e de que não possam dispor. Aliás, considerando que não

fizeram o mundo, julgaram-se com fundamento suficiente para imaginar um ser supremo que o tivesse feito para eles, tal como é. Pois, após se terem convencido de que este mundo não se poderia ter feito a si próprio, concluíram tratar-se da obra de um ou mais Deuses, que o destinaram para o prazer e o uso exclusivos do homem. Por outro lado, sendo-lhes desconhecida a natureza dos Deuses, os homens supuseram-nos susceptíveis das mesmas paixões e das mesmas fraquezas que eles, e, nessa base, imaginaram que só tinham feito o mundo para os homens, os quais lhes eram extremamente caros. E como todas as inclinações são diferentes, cada um se esforçou por adorar Deus segundo o seu humor, para atrair as suas benesses ou para pôr a totalidade da natureza ao serviço dos seus apetites. IV. Por este meio, tornado o preconceito em superstição, enraizou-se de tal maneira que os mais grosseiros se supuseram capazes de penetrar 48

as causas finais, como se delas tivessem um conhecimento perfeito; de modo que, em vez de mostrarem que a natureza não fazia nada em vão, acabaram por mostrar que Deus e a natureza sonhavam tanto quanto os homens. Para que não nos acusem de exagero, vejamos, se não se importarem, até onde levaram os falsos raciocínios nesta matéria. Tendo verificado que, no meio de muitas comodidades que a natureza lhes permitia usufruir, um número infinito de incómodos, tais como as trovoadas, os tremores de terra, as doenças, a fome, a sede... vinham perturbar as doçuras da vida, em vez de concluírem que a natureza não fora feita só para eles, atribuíram todos esses males à cólera dos Deuses, que representaram irritados contra eles por causa dos seus pecados. E, ainda que a experiência quotidiana lhes ensinasse o contrário, e que uma infinidade de exemplos lhes provasse que os bens e os males eram partilhados igualmente

por bons e maus, não puderam desenvencilhar-se de um preconceito tão antigo e inveterado. A razão para tal é que lhes era mais fácil permanecer na sua ignorância natural do que renunciar ao velho sistema das causas finais, para inventar um mais verosímil. V. Este preconceito levou-os a outro, que consiste em acreditar que os juízos de Deus seriam incompreensíveis, razão pela qual o conhecimento da verdade estaria acima do espírito humano. Erro no qual ainda permaneceríamos, não tivessem as matemáticas e outras ciências destruído este preconceito. VI. Não são necessários longos discursos para fazer ver que a natureza não se rege por nenhum fim e que todas as causas finais não passam de ficções humanas. Bastar-nosá, para o efeito, mostrar, em poucas palavras, que essa doutrina retira a Deus as perfeições que lhe são atribuídas. Eis como o provamos: Se Deus age com vista a um fim, seja por si mesmo seja 49

por outrem deseja o que não tem, e é necessário reconhecer que houve um tempo no qual Deus, não tendo aquilo em vista do qual agiu, desejou tê-lo, o que supõe um Deus indigente. E, para nada omitir do que possa sustentar este argumento, oponhamos-lhe o raciocínio daqueles que seguem a opinião contrária, e veremos que está apenas fundado na ignorância. Se, por exemplo, uma pedra cai em cima de alguém e o mata, é necessário, afirmam, que essa pedra tenha caído com o propósito de matar esse homem, o que não poderia acontecer senão por Deus o ter querido. Se lhes respondermos que foi o vento que fez cair a pedra precisamente no momento em que o homem passava, perguntam-vos porque é que o homem passava, precisamente, ao mesmo tempo que caía a pedra? Se lhes replicardes que o vento na altura estava impetuoso, pois o mar estava agitado nos dias anteriores, ainda que não parecesse haver no ar qual-

quer agitação, e que esse homem, tendo sido convidado a comer em casa de um amigo, se dirigia ao encontro, ainda vos perguntam, pois nunca se rendem, porque é que esse homem tinha sido convidado pelo amigo nessas condições e não noutras? Fazendo, assim, uma infinidade de perguntas, para tentar forçar a confissão de que só a vontade de Deus, que é o asilo dos ignorantes, é a causa dessa queda. Igualmente, quando vêem a estrutura do corpo humano, ficam em admiração, e, como ignoram as causas de uma tal maravilha, concluem que é uma obra sobrenatural, na qual as causas que são do nosso conhecimento não poderiam ter qualquer papel. Eis a razão pela qual quem quiser conhecer a fundo as causas dos milagres, e penetrar, como verdadeiro sábio, nas causas naturais, sem se divertir a admirá-las como ignorante, passa por ímpio ou herético, em virtude da malícia daqueles que o vulgo reconhece como os intérpretes tanto da natureza quanto de Deus. 50

Estes espíritos mercenários estão bem cientes de que a ignorância que mantém o povo no espanto é o que lhes permite subsistir e conservar o seu crédito. VII Os homens, tendo metido na cabeça a opinião ridícula de que tudo o que vêem foi feito para eles, fizeram da redução de todas as coisas ao seu interesse, ajuizando o seu valor pelo lucro que delas tiram, um princípio da religião. Do que formaram essas noções que lhes servem para explicar a natureza das coisas, a saber, o bem, o mal, a ordem, a confusão, o calor, o frio, a beleza, a fealdade, que no fundo não são aquilo que imaginam. Como, por outro lado, fazem gala de ter o seu livre-arbítrio, acharam-se no direito de decidir sobre o louvor e a vergonha, o pecado e o mérito. Chamam de bem a tudo o que os favorece e que diz respeito ao culto divino e mal, pelo contrário, ao que não convém nem a um nem a outro. Aqueles que ignoram a natureza das coisas, e que dela só

têm a ideia que formam com a ajuda da imaginação, que confundem com o entendimento, representam para si próprios uma ordem do mundo à medida do que imaginaram. Pois os homens são feitos de tal modo que crêem as coisas bem ou mal ordenadas consoante têm facilidade ou trabalho a imaginá-las, quando os sentidos lhas representam. Com efeito, como nos comprazemos, sobretudo, no que cansa menos a imaginação, persuadimo-nos, facilmente, de que temos razão em preferir a ordem à confusão, como se a ordem fosse outra coisa que um puro efeito da imaginação dos homens. De modo que, ao dizer que Deus fez tudo com ordem, está-se a atribuir-lhe, como ao homem, a faculdade da imaginação. A não ser que, em favor da imaginação humana, se pretenda que Deus criou o mundo da maneira mais fácil de imaginar, ainda que haja centenas de coisas que ultrapassam, em muito, as forças da imaginação, e uma infinidade de ou51

tras que a lançam na desordem, por causa da sua fraqueza. VIII. Em relação às outras noções, são puros efeitos dessa mesma imaginação, que não têm qualquer realidade, e que mais não são do que os diferentes modos de que esta faculdade é capaz. Por exemplo, se o movimento que os objectos imprimem nos nervos, por meio dos olhos, é agradável aos sentidos, diz-se que esses objectos são belos. Que os odores são bons ou maus, os sabores doces ou amargos, o que se toca duro ou macio, os sons rudes ou harmoniosos, se os odores, os sabores... tocarem e penetrarem agradável ou desagradavelmente nos sentidos. Até houve quem chegasse a acreditar que Deus era capaz de ter prazer com uma melodia, e que os movimentos celestes seriam um concerto harmonioso. Prova evidente de que cada um acredita que as coisas são como se lhe afiguram, ou antes, que o mundo é puramente imaginário. Por isso, não é maravilha que

não se encontrem dois homens com a mesma opinião, e haja mesmo quem se vanglorie de duvidar de tudo. Pois, ainda que os homens tenham um corpo, que se assemelha em muitas coisas, difere numa série de outras, assim, o que parece bom a um, parece mau a outro, o que agrada a este, desagrada aquele. Do que é fácil inferir que os sentimentos só diferem em relação à fantasia; que o papel do entendimento é pequeno e que, por fim, as coisas do mundo não passam de um puro efeito da imaginação. Mas, se em vez de se remeter para a imaginação se consultassem as luzes do entendimento e as matemáticas, e que não se ultrapassasse o que se pode conceber com o auxílio das luzes naturais, toda a gente chegaria à verdade, e os juízos seriam mais uniformes e mais razoáveis do que têm sido. IX. É, portanto, evidente que todas as razões, que o vulgo costuma apresentar, quando se mete a explicar a natureza, não passam de modos de 52

imaginar, que provam tudo, menos o que pretendem. E, como se dá a essas razões nomes tão reais como se existissem noutro lado que não na imaginação, chamolhes, não seres de razão mas puras imaginações; não havendo nada mais fácil do que responder aos argumentos que se fundam nessas noções e que se nos contrapõem como se segue. A ser verdade que o universo seja um fluxo e uma sequência necessária da natureza divina, de onde viriam as imperfeições e os defeitos que nele encontramos? Por exemplo, a corrupção, que tudo enche de mau cheiro, a quantidade de objectos desagradáveis, tantas desordens, tantos males, tantos pecados e tantas outras coisas semelhantes? Nada é, digo, mais fácil de refutar do que estas objecções. Pois não se deve atribuir mais perfeição às coisas do que aquela que convém à sua natureza e à sua essência, e elas não são nem mais nem menos perfeitas, tão-só por agrada-

rem ou desagradarem aos sentidos, ou serem úteis ou inúteis, à natureza humana. Aliás, só se pode julgar a perfeição de qualquer ser na medida em que se conhece a essência e a natureza. Mas, para calar aqueles que perguntam por que é que Deus não criou todos os homens, sem excepção, de tal modo que se deixassem levar apenas pelas

luzes da razão, basta dizer que lhe sobejava matéria para dar a cada ser o grau de perfeição que lhe fosse mais conveniente, ou, para falar com maior propriedade, porque as leis da natureza eram tão amplas e extensas que podiam servir à produção de todas as coisas de que é capaz um entendimento infinito.

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CAPÍTULO III O QUE É DEUS

Até aqui, combatemos os preconceitos populares sobre a divindade, mas ainda não dissemos o que Deus é. Se nos perguntarem, respondemos que é um ser absolutamente infinito, do qual um dos atributos é ser uma substância eterna e infinita, porquanto a extensão, ou a quantidade, só é finita, ou divisível, quando a imaginamos como tal. Pois a matéria sendo em todo o lado a mesma, o entendimento não distingue nela partes. Por exemplo, a água, enquanto água, é imaginada divisível, e as suas partes separadas umas das outras; se bem que, enquanto substância corpórea, não seja nem separável nem divisível. Enfim, a água, enquanto água, está sujeita à geração e à corrupção, ainda que, como 54

substância, não esteja sujeita nem a uma nem a outra. Assim, a matéria e a quantidade nada têm que seja indigno de Deus. Pois se tudo está em Deus, e se tudo decorre necessariamente da sua essência, é preciso absolutamente que seja tal como o que contem; uma vez que seria contraditório que seres completamente materiais estivessem contidos num ser que em nada o fosse. E, para que não se julgue que se trata de uma opinião nova, Tertuliano, um dos primeiros adeptos dos Cristãos, afirmou, contra Apeles, que o que não é corpo nada é. E, contra Praxeas, que toda a substância é um corpo, sem que tal doutrina fosse condenada nos quatro primeiros Concílios Ecuménicos e Ge-

rais'13. II. Estas opiniões são simples, e mesmo as únicas que um bom e são entendimento possa formar sobre Deus. No entanto, poucos se contentam com uma tal simplicidade. O povo grosseiro está acostumado à adulação dos sentidos e espera um Deus que se assemelhe aos reis da terra. Esta pompa e circunstância, que os circunda, deslumbram-no de tal modo que tirar-lhe toda a esperança de, após a morte, vir a engrossar o número dos cortesãos celestes, usufruindo dos mesmos prazeres de aqui em baixo na corte dos reis, é retirar-lhe a sua consolação e a única coisa que o impede de desesperar nas misérias da vida. Quer-se um Deus justo e vin13 Foram eles: 1 - O de Nicéia, realizado em 325 sob o imperador Constantino, o Grande e o papa Silvestre; 2 - O primeiro de Constantinopla, no ano de 381, nos reinados de Graciano, Valentiniano e Teodósio, no papado de Damásio; 3 - O primeiro de Éfeso, no ano de 431, sob o império de Teodósio, o Novo, e Valentiniano, e do papa Celestino; 4 - O de Calcedónia, no ano de 451, sob os imperadores Valentiniano e Marciano e o papa Leão 1.

gativo, que castigue e recompense à maneira dos reis, e, por conseguinte, um Deus susceptível de todas as paixões e de todas as fraquezas humanas. Atribui-se-lhe pés, mãos, olhos e ouvidos, e não se quer que um Deus assim constituído tenha matéria. Diz-se que o homem é a sua obra-prima e mesmo a sua imagem, mas não se quer que a cópia seja semelhante ao original. Enfim, o Deus do povo actual está sujeito a mais formas do que o Júpiter dos pagãos. O que é mais estranho é que, quanto mais estas tolices se contradizem e chocam o bom senso, mais são veneradas pelo vulgo. Ele crê, obstinadamente, no que disseram os Profetas, ainda que esses visionários mais não fossem, entre os Hebreus, que o que os augures e os adivinhos eram para os pagãos, e o que, para nós, são os astrólogos e os fanáticos. Consulta-se a Bíblia, como se Deus nela se explicasse ponto por ponto, apesar de estar cheia de fábulas impertinentes 55

e ridículas. Testemunha o que aí se conta sobre uma serpente e uma burra que falaram; sobre uma mulher transformada em estátua de sal; sobre um rei convertido em fera; sobre um Nazareno que esquarteja um leão, mata mil homens com uma mandíbula de burro, arranca as ombreiras e a barra das portas de uma cidade e as carrega aos ombros, rompe as cordas mais fortes, com as quais estava preso, deita abaixo um grande edifício, forçando os pilares nos quais está apoiado, tudo isto graças a uma força maravilhosa que reside nos seus cabelos; sobre um Profeta a quem os corvos traziam de comer duas vezes por dia, que sobreviveu com uma única refeição durante quarenta dias e quarenta noites de marcha, dividiu as águas de um rio batendo-lhes com o seu manto, e o atravessou a seco, que, enfim, foi elevado aos céus por um turbilhão, num carro de fogo puxado por cavalos de fogo; e sobre um outro Profeta que permaneceu três dias e três noites no ventre de um peixe, 56

onde respirava com tal àvontade que pôde cantar um cântico. Apesar de todos estes contos pueris, e uma infinidade de outros semelhantes, de que este livro abunda, obstinamse a canonizá-lo e não se quer atentar que ele é composto de um mero tecido de fragmentos cosidos juntos em tempos diversos e apresentados ao público segundo a fantasia dos rabinos14, que só os exibiram depois de terem aprovado uns e rejeitado os outros, segundo os julgaram conformes, ou repugnantes, à Lei de Moisés15. Sim, tal é a loucura e a estupidez dos Cristãos, que preferem passar a vida a idolatrar
14 O Talmud indica que os Rabinos ponderaram se retirariam o Livro dos Profetas e o do Eclesiastes do número dos Livros da Bíblia. Deixaram-nos ficar pois neles encontraram algumas passagens elogiosas para a Lei de Moisés. Teriam feito o mesmo com as profecias de Ezequiel, que deveriam ter sido banidas do Catálogo Sagrado, se um certo cónego não tivesse a habilidade de conciliá-las com a Lei. 15 Gn., III, 1-5. - Nm., XXII, 29-.10. Gn.. XIX, 26. – Dn., IV, 32-.36. – Jz., XIV, XV, XVI. - 1 Rs. XVII. XIX, 2. Rs.II. - Jn., II.

um livro que receberam de um povo ignorante, um livro sem ordem, nem método, que ninguém percebe, de tal modo é confuso e mal concebido, e que só serve para fomentar as divisões entre eles, tal é, dizia, a sua loucura, que preferem adorar este fantasma do que escutar a lei natural que Deus, quer dizer, a Natureza, enquanto princípio do movimento, inscreveu no coração dos homens. Todas as outras Leis não são senão ficções humanas e puras ilusões forjadas, não pelos Demónios ou pelos maus Espíritos, mas pela esperteza dos príncipes e dos eclesiásticos, aqueles, para aumentarem a sua autoridade, estes, para enriquecerem pelo débito de uma infinidade de quimeras que vendem a alto preço aos ignorantes. Em relação às Leis dos Cristãos, elas não estão fundadas senão num livro16 cujo original não se encontra em lado nenhum, cujas cópias, que possuímos, diferem, em mil lugares, umas das outras. So16 A Bíblia

bre um livro, enfim, que só contém coisas sobrenaturais, quer dizer, impossíveis, e cujas recompensas e castigos que aí são propostos para as boas e as más acções só dizem respeito a uma vida futura, tal é o receio de que a fraude se descubra nesta. É que nunca ninguém voltou do outro mundo para nos dar notícias. Assim, o povo, sempre a oscilar entre a esperança e o temor, é mantido no cumprimento do seu dever, pela opinião que tem de que Deus só fez os homens para os tornar eternamente felizes ou infelizes. Foi esta opinião, nascida da esperança e do temor, que deu lugar a uma infinidade de religiões de que iremos falar.

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. CAPÍTULO IV O QUE SIGNIFICA A PALAVRA RELIGIÃO. COMO E PORQUE SE INTRODUZIU UM NÚMERO TÃO GRANDE NO MUNDO I. Antes de esta palavra Religião, ter sido introduzida no mundo, era-se obrigado a seguir as leis naturais, quer dizer, a conformar-se à recta razão. Só este instinto era o elo ao qual os homens estavam presos. Este elo, simples, unia-os de tal modo que as divisões eram raras. Mas, desde que o medo os levou a suspeitar de que houvesse Deuses, e potências invisíveis, elevaram altares a esses seres imaginários. E, renunciando às luzes da natureza e da razão, que são as fontes da verdadeira vida, ligaram-se, entre si, através de vãs cerimónias e de um culto supersticioso dos fantasmas da sua imaginação. É destes elos sagrados, formados pelo receio, que vem essa palavra Religião, que tanto dá que falar no mundo. 58 Os homens tendo, portanto, admitido, assim, potências invisíveis, que teriam todo o poder sobre eles, adoraramnas, para as comover, e imaginaram, ainda, que a natureza era um ser subordinado a essas potências. A partir daí, representaram-na como uma grande massa, ou como uma escrava, que agia segundo as ordens dadas por essas potências. Desde o momento em que esta falsa ideia surgiu nos seus espíritos, mais não tiveram do que desprezo pela natureza e reservaram todos os respeitos para esses pretensos seres, aos quais chamaram Deuses. Daí veio a ignorância, na qual estão mergulhados tantos povos, e da qual os verdadeiros sábios, por mais profunda que seja, os poderiam libertar, se o seu zelo não fosse impedido por aqueles que conduzem

esses cegos e que só vivem de imposturas. Mas por pouca que seja a esperança de sucesso nesse empreendimento, não se deve, por isso, abandonar o partido da verdade. Mais que não seja por consideração por aqueles que se protegeram dos sintomas de um tão grande mal, é preciso que uma alma generosa diga as coisas como são. II. O temor, que fez os Deuses, fez também a Religião; e desde que os homens meteram na cabeça que existiam anjos invisíveis, que eram as causas da sua boa ou má fortuna, renunciaram ao bom senso e à razão, e tomaram as quimeras por divindades, que cuidariam do seu comportamento. Depois de forjarem Deuses, quiseram saber de que natureza eram, e imaginaram que deveriam ser da mesma substância que a alma. Depois, persuadindo-se de que esta se assemelharia aos fantasmas que aparecem nos espelhos, ou durante o sono, acreditaram que os seus Deuses eram substâncias reais, mas tão finas e subtis que, 59

para as distinguir dos corpos, chamaram-lhes Espírito, ainda que corpos e espíritos sejam, na verdade, uma mesma coisa. Não diferem entre si, pois ser espírito e incorpóreo é uma coisa incompreensível. A razão é que todo o espírito tem uma figura que lhe é própria e está compreendido num lugar determinado, quer dizer que tem limites, e, por conseguinte, que é um corpo, ainda que estreito, solto e subtil. III. Os ignorantes, ou seja, a maioria dos homens, tendo determinado, deste modo, a substância dos seus Deuses, trataram de investigar por que meio esses seres invisíveis produziriam os seus efeitos. Mas, não conseguindo, por causa da ignorância, acreditaram em conjecturas, ajuizando cegamente do futuro pelo passado, se bem que não encontrassem, aí, nem ligação nem dependência. Em tudo o que empreendiam, encaravam o passado e auguravam o futuro em termos de bem ou de mal, consoante esse empreendimento tivesse tido sucesso ou não. Assim,

tendo Formião derrotado os Lacedemónios na batalha de Naupacto, os Atenienses promoveram um outro capitão, depois da sua morte, por ter o mesmo nome; Aníbal, tendo sucumbido às armas de Cipião, o Africano, os Romanos, em virtude desse bom sucesso enviaram para a mesma província um outro Cipião, contra César, o que não serviu nem aos Atenienses nem aos Romanos. Assim, após duas ou três experiências, várias nações ligaram lugares, objectos, nomes e boa ou má sorte. Outras serviramse de certas palavras misteriosas, às quais chamaram encantamentos, e supuseram-nas de uma tal eficácia que poderiam, pela sua virtude, fazer falar as árvores, fazer um homem de um bocado de pão e metamorfosear tudo o que se lhes deparasse. IV. Inventadas, desta sorte, as potências invisíveis, os homens, primeiro, reverenciaram-nas como fazem com os seus soberanos, isto é, através de marcas de submissão e de respeito, como sejam os presentes, as orações e outras 60

coisas do género. Digo primeiro, pois a natureza não ensina a usar nessas ocasiões sacrifícios sangrentos, que só foram instituídos para a subsistência dos sacrificadores e dos ministros destinados ao serviço desses belos Deuses. V. Esta semente de religiões, a saber, a esperança e o temor, à força de passar pelas paixões, os juízos e os diversos conselhos dos homens, produziu esse grande número de crenças bizarras, que são a causa de tantos males, de tantas crueldades bárbaras e de tantas revoluções que ocorreram nos Estados. A honra e os grandes proveitos que se atribuíram ao sacerdócio, como depois ao ministério e aos cargos eclesiásticos, aliciaram a ambição e a avareza das pessoas manhosas, que aproveitaram a estupidez dos povos e captaram tão bem as suas fraquezas, que se tornou insensivelmente um doce hábito incensar a mentira e detestar a verdade. VI. Uma vez a mentira estabelecida, e os ambiciosos fisgados pela doçura de estar

acima dos seus semelhantes, trataram de construir uma reputação, fingindo ser amigos desses Deuses invisíveis que o vulgo reconhecia. Para obter maior sucesso, cada um forjou-os a seu modo e tomou uma tal licença para multiplicá-los que se encontrava um a cada passo. VII. A matéria informe do mundo chamou-se deus Caos. Conferiu-se idêntica honra ao céu, à terra, ao mar, ao fogo, aos ventos e aos planetas. O mesmo se fez com os homens e as mulheres; mas, também, o bezerro, o cão, o cerdo, o crocodilo, a serpente, a cebola, os pássaros, os répteis, em suma, todo o tipo de animais e de plantas tiveram o seu lugar privilegiado. Cada rio, cada fonte tinha o nome de um deus, cada casa tinha o seu, cada homem tinha o seu génio. Enfim, tudo estava cheio, tanto acima como sob a terra, de espíritos, de sombras e demónios. Como não bastasse inventar divindades em todos os lugares imagináveis, julgou-se ofender o tempo, o 61

dia, a noite, a concórdia, o amor, a paz, a vitória, a contenção, a ferrugem, a honra, a virtude, a febre, a saúde... Julgou-se, dizia eu, ultrajar essas belas divindades se não se lhes erguesse templos e altares. Depois, começou-se a venerar o próprio génio, que alguns invocavam com o nome de musa. Uns, com o nome de fortuna, adoravam a sua própria ignorância. Outros baptizavam os seus deboches com o nome de cúpido, a sua cólera, com o nome de fúria; numa palavra, nada havia que não tivesse um nome de um deus ou de um demónio. VIII. Os fundadores das religiões, cientes de que a base das suas imposturas era a ignorância dos povos, nada esqueceram para a sustentar. A adoração das imagens, nas quais fingiram que os Deuses moravam, pareceu-lhes bastante adequada para esse efeito, e dedicaram todos os cuidados para lhe conferir um fundamento duradoiro. Para tal, ergueram altares aos Deuses, que dignavam manifestar-

se aos homens nos seus simulacros, construíram-lhes templos soberbos, em sua honra, instituíram sacrifícios, festas, cerimónias, estabeleceram sacrificadores, padres, ministros para os servirem, atribuíram a esses ministros, para além das dízimas, os melhores pedaços dos animais sacrificados, a melhor parte dos frutos, dos legumes, dos grãos oferecidos nos seus altares, e impeliram assim essas almas baixas e venais a promover um culto que lhes era de tão grande utilidade. E estes sacrifícios, de que os Deuses só recebiam o fumo, estas dízimas, estas oferendas, foram depois considerados coisas santas, destinadas a ser usadas nos mistérios sagrados, para que ninguém tivesse a audácia de cobiçá-las, nem a temeridade de lhes tocar. Para melhor ludibriar os povos, estes padres intitulavamse profetas e faziam crer que antecipavam o futuro, graças ao comércio, de que se vangloriavam, com os Deuses. Como não há nada mais natural no homem do que o desejo 62

de saber o seu destino, estes impostores eram demasiado espertos para não aproveitarem essa tendência e para negligenciarem uma circunstância tão favorável aos seus objectivos. Uns estabeleceram-se em Delos, outros em Delfos e noutros lados, onde, mediante oráculos ambíguos, respondiam às perguntas que lhes faziam. Até as mulheres estavam metidas nisso. Com efeito, os Romanos recorriam, nas grandes calamidades, aos Oráculos das Sibilas17. Os loucos e os insanos passavam por entusiastas e aqueles que fingiam ter comércio com os mortos eram designados necromantes. Outros liam o futuro no voo dos pássaros ou nas entranhas dos animais. Por fim, os olhos, as mãos, o rosto, um objecto extraordinário, tudo lhes parecia de bom ou mau augúrio. O que prova que a ignorância aceita a impressão que se quiser, desde que se tenha o segredo para aproveitá-la.

17 Os quais traziam as previsões sobre os destinos do Império Romano

CAPÍTULO V SOBRE MOISÉS

I. Os ambiciosos, que sempre foram grandes mestres na arte de enganar, seguiram o mesmo caminho na instituição das suas leis. Para obrigar o povo a submeter-se de boa vontade, persuadiram-no, aproveitando a ignorância que lhe é natural, de que as tinham recebido de um deus ou de uma deusa. Foi este o procedimento dos legisladores. Todos atribuíram a genealogia das suas leis a uma qualquer divindade e procuraram convencer os outros de que eles próprios eram mais do que homens. Disto ficará convencido quem se der ao trabalho de ler, sem preconceitos, o que vamos dizer sobre os quatro mais célebres de entre eles, a saber, Moisés, Numa Pompílio, Jesus Cristo e Maomé. II. O célebre Moisés, neto de um grande mago, como relata Justino, o Mártir, tendo-se 63

tornado chefe dos Hebreus, que foram corridos do Egipto por um édito, porque espalhavam a sarna e a lepra de que estavam infestados, foi um dos que usaram com maior habilidade este estratagema. Depois de seis dias de marcha, numa dolorosa retirada, ordenou a esses miseráveis banidos que consagrassem o sétimo a Deus, por um repouso público, a fim de os convencer de que este Deus o favorecia, que aprovava o seu domínio, e evitar que alguém tivesse a audácia de lho disputar. Nunca houvera gente mais ignorante do que aquela, nem, por conseguinte, mais crédula. Dada a esplêndida oportunidade de fazer valer os seus talentos raros, levou-os a acreditar que Deus lhe aparecera, que fora por sua ordem que tomara a chefia, que tinha sido escolhido para os governar, que eles formariam o seu

povo particular, privilegiado, à exclusão de qualquer outra nação, desde que acreditassem e fizessem o que lhes dissesse. E, para acabar de os convencer da sua missão divina, fez alguns truques subtis, que eles tomaram como milagres. Assim, estes pobres infelizes, ofuscados com as suas ilusões, exultantes por serem adoptados pelo senhor dos Deuses à saída de uma dura servidão, aplaudiram Moisés e juraram obedecerlhe. III. Uma vez confirmada a sua autoridade, pensou em perpetuá-la; e, com o pretexto de estabelecer um culto supremo para servir Deus, de quem se dizia o lugar-tenente, fez de Aarão, seu irmão, e dos seus filhos, os chefes do palácio real, quer dizer, do lugar onde se emitiam os oráculos, longe da vista e da presença do povo. Depois, fez o que sempre foi feito nas novas crenças, quero dizer, prodígios e milagres, que deslumbravam os simples e a alguns estonteavam, mas que davam pena aos mais in64

teligentes, que liam nas entrelinhas dessas imposturas. De tempos a tempos, fazia um retiro, sozinho, com o pretexto de ir conferenciar em privado com Deus; e, por esse pretenso comércio directo com a divindade, era respeitado e obedecido sem limites. No entanto, por mais hábil que fosse este legislador, teria tido dificuldade em se fazer obedecer, se não tivesse a força na mão. A intrujice sem as armas raramente funciona. Com efeito, de entre um número tão grande de súbditos, que tivera a arte de dominar, havia alguns suficientemente esclarecidos para se aperceberem dos seus artifícios, e suficientemente corajosos para lhe contestarem que, sob a falsa aparência da justiça e da igualdade, tinha arrebanhado tudo; que, estando a autoridade soberana vinculada ao seu sangue, mais ninguém podia alcançá-la; que, por fim, mais do que pai, era tirano. Nestas ocasiões, Moisés, hábil político, trucidava sem quartel esses espíritos fortes, e não poupava um único que

criticasse o seu jugo. Com estas precauções, e pintando os seus suplícios com o nome de vinganças divinas, manteve sempre o poder absoluto. E, para acabar como começou, isto é, como intrujão e impostor, cavou um abismo, durante os retiros, e nele se precipitou, para que o seu corpo não fosse encontrado e se acreditasse que Deus o tinha levado. Não ignorava, contudo, que a memória dos Patriarcas que o antecederam era objecto de grande veneração, apesar de se conhecerem as respectivas sepulturas. Mas isso era pouco para contentar uma ambição como a dele; precisava de ser venerado como um deus, de quem a morte não se pudera apoderar. Com efeito, era o que já prenunciava o que dissera no início do seu reinado: que era o eleito de Deus, o Deus de Faraó. Depois dele, Rómulo, Elias, Empédocles, e aqueles que como eles tiveram a tola vaidade de eternizar o nome, esconderam o momento da morte, para que os cressem 65

imortais. Rómulo afogou-se nos pântanos das cabras, para que, não aparecendo o seu corpo, se acreditasse que tinha sido elevado aos céus e deificado. Empédocles, célebre filósofo, precipitou-se nas fumarolas e crateras do monte Etna para fazer crer, como Rómulo, que fora elevado ao céu. E Elias, levado num redemoinho aos céus em um carro de fogo puxado por cavalos de fogo18.

18 2 Rs, II.

CAPÍTULO VI SOBRE NUMA POMPÍLIO

I. Numa Pompílio, Sabino dos quatro costados, homem sábio em matéria de Leis, foi escolhido para suceder a Rómulo. Apesar de o povo romano o ter eleito, por unanimidade, e a eleição ter sido confirmada por todos os senadores, quis, ainda, que se consultassem os Deuses sobre essa escolha, e só aceitou a realeza depois de estes terem indicado a sua aprovação, mediante presságios celestes. Empenhou-se, durante um reinado de mais de quarenta anos, em suavizar os costumes cruéis dos Romanos, dirigindo os seus espíritos para a religião. Considerou que a forma mais segura de reinar de modo absoluto sobre homens ignorantes, grosseiros e supersticiosos, como eram os primeiros habitantes de Roma, consistia em inspirar-lhes o maior temor possível dos Deuses. 66

Para consegui-lo, julgou necessária a ficção de um milagre qualquer; e, como lidava com um povo que já admitia como artigos de fé as respostas dos oráculos e as previsões dos augures e dos astrólogos, não lhe foi difícil convencê-los. Persuadiu-os, facilmente, de que a ninfa Egéria lhe ditara as Leis e as instituições que lhes impunha; e, com essa fraude, conseguiu subjugá-los com cadeias tanto mais fortes e respeitáveis quanto eram consideradas sagradas e divinas. II. Mas, se bem que, nesses tempos grosseiros, a credulidade dos Romanos fosse grande, nada era comparada com a dos mesmos Romanos em épocas civilizadas. Com efeito, estes apropriaram-se dos Deuses, das crenças e das superstições de todas as nações que tinham vencido.

Em particular, adoptaram a teologia dos Gregos que acreditavam que Minerva tinha nascido da cabeça de Júpiter e Baco da sua coxa; que Eristónio e Mirra tinham sido concebidos, por este pai dos Deuses, sem mães, e que, ao invés, Vulcano e Marte eram filhos de Juno, sem pais; que Quinaco, Eaco, Hércules, Alexandre e uma infinidade de outros eram filhos de Jú-

piter, e que Perseu nascera deste deus e da virgem Danae. A fecundidade de uma virgem nada teve de incrível para gente que admitia como verdades divinamente reveladas uma infinidade de coisas ainda mais absurdas e contraditórias. Aliás, talvez lhes viesse esta opinião dos Egípcios que acreditavam que o espírito de Deus, pneuina qeon, podia engravidar uma mulher.

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CAPÍTULO VII SOBRE JESUS CRISTO

I. Jesus Cristo, que não ignorava nem as máximas nem a ciência dos Egípcios, divulgou esta opinião e julgou-a adequada ao propósito que cogitava. Considerando quão célebre se tinha tornado Moisés, por ter comandado um mundo de ignorantes, decidiu partir da mesma base e fez-se seguir por uns tantos idiotas, que convenceu de que o Espírito Santo era o seu pai e uma virgem a sua mãe19.

19 Celso diz, segundo Orígenes. que Jesus Cristo era oriundo de uma pequena povoação da Judeia, e que tinha tido como mãe uma pobre aldeã que dependia completamente do seu trabalho. Que tendo sido acusada de cometer adultério com um soldado chamado Pantera, foi posta na rua pelo noivo, que era carpinteiro de profissão. Que depois dessa afronta, errando de lugar em lugar, deu à luz secretamente Jesus. Mais tarde. Jesus, por necessidade, viu-se obrigado a trabalhar como assalariado no Egipto, onde aprendeu alguns desses segredos de que os Egípcios tanto se gabam, voltou à sua terra natal onde, todo orgulhoso dos milagres que sabia fazer, se proclamou a si mesmo Deus.

Estas boas pessoas, acostumadas a viver de sonhos e de fantasias, embarcaram nessa fábula e acreditaram em tudo o que ele quis, tanto mais que um nascimento acima da ordem da natureza era inédito. Com efeito, nascer de uma virgem, pela acção do Espírito Santo, estava, para eles, acima do que os Tártaros dizem sobre o seu Gengis Khan e os Siameses do seu Sommona-Codom, que tiveram, como Jesus Cristo, virgens como mães, mas com a diferença de que estas conceberam por virtude dos raios do Sol. Este prodígio ocorreu num tempo em que os Judeus, fartos do seu Deus, como já o tinham estado dos seus juízes20, queriam ter um visível,
20 No quarto Livro de Samuel (Cap. VII), os israelitas, descontentes dos filhos de Samuel que os Julgavam, pediram um rei, a exemplo de outras nações, que pretendiam imitar.

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como as outras nações. Como o número de tolos é infinito, encontrou súbditos por todo o lado; mas a sua extrema pobreza constituía um obstáculo invencível à sua elevação. Os Fariseus, ora encantados com a coragem de um homem da sua seita21, ora invejosos da sua audácia, depreciavamno ou elevavam-no, de acordo com o humor inconstante da populaça. Assim, por mais que se falasse da sua divindade, o seu objectivo era inatingível por causa da indigência em que vivia. Mesmo que tivesse feito os milagres que se lhe atribuem, sem dinheiro e sem exército, teria de acabar por perecer. Mas, com finanças e tropas, é provável que tivesse tido o mesmo sucesso que Moisés, Maomé e aqueles que tiveram a ambição de se elevarem acima dos outros. Se foi mais infeliz, não foi menos hábil, e algumas passagens da sua
21 Jesus Cristo era da seita dos Fariseus, quer dizer dos miseráveis. Ao passo que a dos Saduceus era a seita dos ricos.

história atestam que o maior defeito da sua política consistiu em não ter cuidado suficientemente da sua segurança. No restante, não vejo que tenha tomado medidas inferiores às destes dois legisladores, cuja memória permaneceu o árbitro da crença de tantos povos.

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CAPÍTULO VIII DA POLÍTICA DE JESUS CRISTO

I. Haverá algo mais subtil do que o que ele retorquiu sobre o assunto de uma mulher apanhada em adultério? Quando os Judeus lhe perguntaram se deveriam lapidar aquela infeliz, em vez de responder sim ou não, e assim cair na armadilha que os seus inimigos lhe estendiam, a negativa indo directamente contra a Lei, a afirmativa tornando-o culpado de rigor e crueldade, o que lhe teria afastado os espíritos; ao invés, dizia eu, de responder como o faria uma alma vulgar, disse: que aquele que está sem pecado lhe lance a primeira pedra22'. Resposta hábil e que manifestava a sua presença de espírito. II. Numa outra ocasião, perguntaram-lhe se era permitido pagar o tributo a César, ou não. Outra pergunta para o apanhar em falso.
22 Jo, VIII. Mt, XXII. 17-22. - Mt., XXII, 17-22.

Pois, se respondesse que não, tornava-se culpado de lesamajestade, e, se respondesse que sim, poria em causa a liberdade da sua nação. Ele não respondeu nem que sim nem que não; mas disse aos que o interrogavam: mostrem a moeda que se entrega como tributo. Depois, ele próprio, interrogando-os, perguntou a quem pertencia a imagem e a inscrição visíveis na moeda. A César, responderam. Dai, portanto, a César, replicou, o que pertence a César, e a Deus, o que pertence a Deus. Mediante tal resposta bizantina, passe a expressão, elidiu a dificuldade e evitou a armadilha, na qual qualquer outro teria caído. III. Livrou-se, ainda, com grande habilidade, de uma outra armadilha que os Fariseus lhe montaram. Perguntaram-lhe com que autoridade se imiscuía na instrução e catequese do povo. Desde logo 70

entrando na mente deles, percebeu que só procuravam acusá-lo de mentiroso, uma vez que, se respondesse que era por uma autoridade humana, não pertenceria ao corpo sagrado dos sacrificadores da Lei antiga, nem daqueles que tinham a seu cargo a instrução do povo, ou que, se se gloriasse de pregar por ordem expressa de Deus, a sua doutrina seria oposta à Lei de Moisés. Para se livrar desse embaraço, teve a ideia de os embaraçar a eles, perguntando-lhes em nome de quem é que julgavam que João baptizava. Os Fariseus que, por motivos políticos, se opunham ao baptismo de João, ter-se-iam condenado a si mesmos, confessando que baptizava em nome de Deus. Por outro lado, se o não confessassem, expunham-se à raiva da populaça, que acreditava no oposto. Para sair desta situação crítica, responderam nada saber, ao que Jesus Cristo replicou que também ele não era obrigado a dizer-lhes com que autoridade, e em nome de quem, pregava. 71

IV. Tais eram as manhas e as desfeitas do destruidor da antiga Lei, e pai da nova. Tais eram as sementes da nova religião, que foi erguida sobre as ruínas da antiga, na qual, para dizer as coisas com um espírito desinteressado, nada há de mais divino do que nas seitas que a precederam. O seu fundador, que não era, propriamente, um ignorante, apercebendo-se da extrema corrupção da república dos Judeus, julgou que o seu fim estava próximo e acreditou em que uma outra deveria nascer das suas cinzas. O medo de ser ultrapassado por outros, mais ambiciosos do que ele, levou-o a consagrar-se, à pressa, através de meios completamente opostos aos de Moisés. Este começou por criar a fama de ser terrível e formidável aos olhos das outras nações. Jesus Cristo, pelo contrário, atraía-as com a esperança das vantagens numa outra vida, as quais seriam obtidas, dizia, desde que se acreditasse nele; ao passo que Moisés só prometia bens terrenos aos seguidores da sua Lei, Jesus Cristo levou-os a

esperar bens que não teriam fim. As Leis de um só tinham em conta o exterior, as do outro vão até ao interior. Louvam ou condenam mesmo os pensamentos e em tudo se opõem às de Moisés. Do que se depreende que Jesus Cristo acreditou, com Aristóteles, que a Religião e os Estados são como os outros indivíduos que se engendram e corrompem; e, como nada se faz, senão a partir do que se corrompeu, nenhuma Lei sucede a outra, se não lhe for em tudo oposta. Mas, como é muito difícil convencer os homens a passar de uma Lei para outra, e a maioria dos espíritos é muito tenaz em matéria de religião, Jesus Cristo, imitando outros inovadores, recorreu aos milagres, que sempre foram o escolho dos ignorantes e o asilo dos ambiciosos. V. Desta maneira, fundado o Cristianismo, Jesus Cristo, aproveitando-se dos erros da política de Moisés, obteve o maior sucesso nas medidas que tomou para tornar a sua 72

Lei eterna. Os profetas hebreus pensavam honrar Moisés, prevendo um sucessor que se lhe assemelhasse, ou seja, um Messias cheio de virtudes, poderoso nos bens e terrível para os inimigos. Contudo, as suas profecias tiveram o efeito contrário: uma quantidade de ambiciosos aproveitou-se para se intitular o Messias prometido, o que deu azo a revoltas que duraram até à destruição completa desta república antiga. Jesus Cristo, mais hábil do que os Profetas moisaicos, para cortar as veleidades daqueles que se insurgissem contra ele, predisse que um tal homem seria um grande inimigo de Deus, faria as delícias dos Demónios23, seria o esgoto de todos os vícios e a desolação do mundo. Depois destes belos elogios, não haverá, em minha opinião ninguém que queira proclamar-se AntiCristo; e não consigo imaginar melhor segredo do que esse para eternizar uma
23 Mt., XXIV, 4; 3; 24; 2.5; 26. 2 Ts, II, 3 I0. 1 Jo, 18.

Lei - se bem que não haja nada de mais fabuloso do que o que se diz desse pretenso Anti-Cristo. São Paulo dizia, em vida, que ele já tinha nascido, por conseguinte, que se estaria na véspera do advento de Jesus Cristo24. No entanto, passaram mais de mil e seiscentos anos desde a previsão do nascimento desse precursor, sem que ninguém tivesse dado por ele. Confesso que houve quem roubasse estas palavras a Ebion e Cerinto, dois grandes inimigos de Jesus Cristo, por terem combatido a sua divindade. Mas também se pode dizer que, se esta interpretação está conforme ao sentido do apóstolo, o que não é crível, essas expressões apontam em todos os séculos uma infinidade de Anti-Cristos, não havendo verdadeiro sábio que julgue ofender a verdade, dizendo, com Bonifácio VIII25 e
24 Ts., II, 7. 25 O Papa Bonifácio VIII dizia que os homens têm as mesmas almas que os animais, e que essas almas humanas e bestiais viviam tanto tempo umas como as outras. Que o Evangelho, tal como

Leão X26 que a história de Jesus Cristo é uma fábula e que a Lei não passa de um conjunto de fantasias que a ignorância pôs em voga e que o interesse sustenta. VI. Presume-se, não obstante, que uma religião que subsiste sobre tão tíbios fundamentos, e da qual homens ignorantes até à estupidez foram os predicadores, é uma religião completamente divina e sobrenatural - como se se ignorasse que ninguém é mais propenso a dar crédito a opiniões absurdas do que as mulheres e os idiotas. Não é, portanto, maravilha que Jesus Cristo não tenha escolhido sábios e filósofos como Apóstolos.

todas as outras Leis, ensinava várias verdades e várias mentiras. Por exemplo, uma Trindade, que é falsa, a concepção de uma virgem, que é impossível, a encarnação e a transubstanciação, que são ridículas. Acredito tanto na Virgem, dizia, quanto numa burra, ou no seu filho quanto no potro de uma burra. 26 O Papa Leão X, entrando um dia num gabinete onde os tesouros estavam amontoados, exclamou: «Essa fábula de Jesus Cristo bem nos ajuda a enriquecer.»

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Ele sabia que a sua Lei e o bom senso eram diametralmente opostos, razão pela qual clama, em tantos lugares, contra os sábios e os exclui do seu reino, no qual só admite os pobres de espírito, os simples e os imbecis27. É bem verdade que os espíritos razoáveis não se sentem infelizes por não terem de se imiscuir com insensatos. VII. Ultrapassaríamos todos os limites que prescrevemos para este escrito, se quiséssemos relatar aqui todos os outros traços da sua política. Aqueles que queiram saber
27 A crença e a doutrina cristãs são estranhas e violentas para a razão e o juízo do homem. São contrárias a toda a filosofia e discurso da razão, como se pode ver em todos os artigos da fé, que não podem ser compreendidos nem entendidos pela inteligência humana, aliás, afiguram-se-lhe impossíveis e estranhos. O homem, para neles crer e aceitar, deve submeter a sua razão, sujeitando o seu entendimento à obediência da fé, diz S. Paulo; que se quiser consultar e ouvir a filosofia, e medir as coisas com o compasso da razão, abandonará tudo e de tudo zombará, como de uma loucura, É o que Charron confessa num livro intitulado As Três Verdades (p, 180 da Edição de Bourdeaux, 1593).

mais só têm que ler o Novo Testamento. Aí verão com que cuidado evitava fazer os milagres na presença de incrédulos e de pessoas esclarecidas, e com que habilidade soube decalcar a sua Lei na de Moisés. Primeiro, protestou que, longe de pretender abolir esta última, vinha, propositadamente, para a realizar. Mas, à medida que a tropa daqueles que o seguiam aumentava, dispensou-se de cumpri-la, dispensou os seus discípulos, e fazia a sua apologia quando um deles a violava. Imitando assim os novos príncipes, que prometem confirmar os privilégios dos seus súbditos, quando o seu poder ainda não está suficientemente consolidado, mas que violam essas promessas assim que se sentem com força bastante para o fazerem impunemente. Ou melhor, agindo como aqueles hábeis monarcas que, sob pretexto de confirmar e explicar as ordenações dos seus antecessores, abolem-nas completamente e põem, imperceptivelmente, as novas Leis no seu lugar. 74

CAPÍTULO IX DA MORAL DE JESUS CRISTO

I. No que respeita à moral de Jesus Cristo, se se distinguir a que lhe era particular da que tinha em comum com os filósofos, concluir-se-á que a sua tinha dois defeitos consideráveis. Um, exigir dos homens coisas absolutamente impossíveis e contra a sua natureza, testemunham-no a obrigação de se detestar a si mesmo, de amar os inimigos, de não oferecer resistência aos maus... O outro, o facto de ela parecer ter sido imaginada para manter um bando de pedintes e de apátridas, tal como o eram os seus Apóstolos e os seus discípulos. Com efeito, não está cheia de imprecações contra a dureza dos ricos? Não encontramos nela lições para viver às custas de outrem? Formulários de bênçãos para as cidades, burgos, aldeias, casas, pessoas que recebessem bem o bando, 75

e de maldições contra aqueles que não o quisessem receber? II. Em relação à outra parte da sua moral, o que há nela de mais divino do que nos escritos antigos? Ou melhor, o que é que se encontra que não seja um empréstimo, ou, pelo menos, uma imitação? Santo Agostinho28 confessa ter encontrado todo o início do Evangelho segundo São João em alguns dos escritos deles. Acresce o facto de que este apóstolo estava de tal modo disposto a pilhar os autores que não teve problemas em roubar aos Profetas os seus enigmas e visões para compor o seu apocalipse. De onde viria a conformidade da doutrina do Antigo Testamento e da de Platão, senão de os rabinos, e daqueles que compuseram as Escrituras a partir de um amontoado de
28 Confissões, VII, 9; 22.

fragmentos, terem pilhado esse grande filósofo? Decerto, o nascimento do mundo tem mais verosimilhança no Timeu de Platão do que no Génesis. Todavia, não se pode afirmar que tal se deva a que Platão tenha lido os livros judaicos durante a sua estada no Egipto, não os tendo ainda Ptolomeu mandado traduzir, segundo Santo Agostinho29. A descrição que Sócrates faz a Símias, no Fédon, tem infinitamente mais graça do que o paraíso terrestre; e o Andrógino30 é, sem comparação, melhor engendrado do que tudo o que o Génesis narra sobre a extracção de Eva de uma das costelas de Adão. Haverá maior semelhança do que aquela entre os dois incêndios, o de Sodoma e Gomorra, e o que Faeton provocou? José e Hipólito? Nabucodonosor e Licaão? Tântalo e o rico mau? O maná dos Israelitas e a ambrósia dos Deuses? Santo Agostinho31-',
29 Confissões, VII, 9; 22 30 Platão, Banquete, pg. 190 31 Cidade de Deus, VI, XIV.

São Cirilo e Teofilacto comparam Jonas a Hércules, apelidado Trinoctium, por ter passado três dias e três noites no ventre de uma baleia. O Rio de Daniel, representado no capítulo 7 das suas profecias, é uma imitação manifesta do peritlegeton de que se fala no Diálogo sobre a Imortalidade da Alma. O pecado original e a Caixa de Pandora têm grandes parecenças, o sacrifício de Isaac e de Jefta é semelhante ao de Ifigénia, no lugar da qual puseram uma corça. O que se diz de Lot e da sua mulher é em tudo idêntico ao que se conta sobre Baucis e Filémon. Por fim, é voz corrente que se encontra entre os autores das Escrituras e Hesíodo e Homero uma grande relação. III. Mas voltemos a Jesus Cristo. Celso mostrava, de acordo com Orígenes32, que ele roubara a Platão as suas mais belas sentenças: Um camelo passaria mais depressa pelo buraco de uma agulha do que um rico entraria no

32 Contra Celso. VI. Lc, XVIII, 4.

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Reino de Deus33. E à seita dos Fariseus, à qual pertencia, que quem nele acredita deve a crença na imortalidade da alma, na ressurreição, no inferno, e a maior parte da moral, na qual nada se encontra de mais admirável do que na de Epicteto, Epicuro e uma série de outros. Este último era apresentado por São Jerónimo como um homem cuja virtude envergonhava os melhores Cristãos, observando que as suas obras só falavam de ervas, frutos, abstinências, e cuja volúpia era tão temperada que as suas melhores refeições consistiam apenas num pouco de queijo, pão e água. Com uma vida tão frugal, este filósofo, ainda que completamente pagão, dizia que valia mais ser infortunado e razoável do que rico e opulento, mas desprovido da recta razão; acrescentando que é raro encontrar num mesmo sujeito fortuna e sabedoria, e que só poderemos ser felizes e viver com prazer se a nossa felicidade
33 Lucas, XVIII, 25.

for acompanhada pela prudência, pela justiça e pela honestidade, que são as qualidades da verdadeira e sólida volúpia. Quanto a Epicteto, não creio que tenha existido homem, nem mesmo Jesus Cristo, tão austero, tão firme, tão constante e tão despojado de paixões. Nada afirmo que não seja fácil de provar. Mas, com receio de ultrapassar os limites que me impus, apenas apresentarei, de entre as belas acções da sua vida, um exemplo da sua constância. Sendo escravo de um liberto chamado Epafrodito, capitão da guarda de Nero, este brutamontes tinha como fantasia torcer-lhe a perna. Apercebendo-se do prazer que isso lhe dava, Epicteto dis-se-lhe, com um sorriso, que estava visto que a brincadeira ainda acabaria por lhe partir uma perna. Com efeito, tendo a coisa acontecido como previra. Pois bem!, prosseguiu, com o mesmo rosto sorridente, não lhe tinha dito que me partiria a perna? 77

Já se viu constância semelhante? E poder-se-á dizer que Jesus Cristo tenha chegado a esse ponto? Ele que chorava e transpirava com medo ao mínimo sinal de alarme, e que deu provas, no momento da morte, de uma baixeza de alma nunca vista na maioria dos mártires. Se a injúria do tempo não nos tivesse roubado o livro que Arriano34 escrevera sobre a vida e a morte do nosso filósofo, estou certo de que teríamos muitos outros exemplos da sua paciência. Não duvido de que se dirá desta acção o que os ignorantes dizem das virtudes dos filósofos, que se trata de uma virtude que tem como mãe a vaidade, e que, na realidade, não é o que parece. Mas, também, não ignoro que aqueles que têm este discurso o reservam para a carne, sabendo que é aí que bem ou mal eles têm o direito de tudo dizer. Também sei que, quando estas catedrais, estes vendilhões
34 Flávio Arriano – Filósofo e historiador romano, foi discípulo de Epicteto e autor do livro Encheirídion de Epicteto.

de ar, vento, fumaça, declamam com toda a força contra os vingadores da recta razão e da virtude ultrajada, consideram bem ganho o dinheiro que os Estados lhes pagam para instruir o povo; de tal modo é verdade que estão afastadíssimas, dos costumes dos autênticos sábios, as acções dos ignorantes que os difamam e que parece só terem estudado para chegar a um lugar que lhes dê o pão, oficio que idolatram e de que se regozijam quando o obtêm, crendo então ter atingido um estado de perfeição, ainda que não passe, para aqueles que o detêm, de um estado de amor próprio, de bem-estar, de orgulho, de volúpia, no qual a maioria segue tudo menos as máximas da religião que apregoa. Mas, deixemos essa gente, que não sabe o que é a virtude, para examinarmos o dogma da divindade do seu mestre.

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CAPÍTULO X DA DIVINDADE DE JESUS CRISTO

I. Os mais ignorantes dos Hebreus, tendo dado a maior divulgação à Lei de Moisés, foram também os primeiros a correr atrás de Jesus Cristo. E como o seu número é infinito, e que se entendem bem, não é de espantar que os seus erros se tenham espalhado tão facilmente. Não que não haja muito que passar com os inovadores, sobretudo quando estes são pobres e sem poder; mas a glória esperada suaviza as dificuldades. Assim, os discípulos de Jesus Cristo, apesar da miséria do séquito, muitas vezes reduzidos a comer grãos de trigo35 que faziam cair das espigas, excluídos vergonhosamente dos lugares36 onde esperavam repousar, só começaram a rebotar quando o viram nas mãos dos carrascos, impossibilitado de lhes dar os bens, o
35 Lc. VI, 1. 36 Lc, IX, 52-53

luxo, as grandezas que lhes tinha prometido. Após a sua morte, os discípulos, no desespero de verem frustradas as suas esperanças, perseguidos pelos Judeus que lhes queriam dar o mesmo tratamento que ao mestre, fizeram da necessidade virtude e espalharam-se pelos quatro cantos onde, com base no relato de uma mulher37, debitaram a história da sua ressurreição, depois a da filiação divina e todas essas fábulas que determinaram que o imperador Juliano abandonasse a seita dos Nazarenos, quer dizer, o Cristianismo, que se lhe afigurava uma ficção grosseira do espírito humano, por não estar fundada senão numa narração de prodígios. A dificuldade que tinham em progredir no seio dos Judeus levou-os a procurar os Gentios e a tentar ter mais sucesso
37 Jo. XX, 18.

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com eles do que com os da sua nação. Mas, como para isso precisavam de mais ciência do que possuíam, os Gentios, tendo vários filósofos demasiado amigos da verdade para irem em conversa fiada, recrutaram um jovem com um espírito audacioso e activo, um pouco mais instruído do que os pescadores, ou, melhor, mais tagarela. Este jovem, tendo-se associado a eles em virtude de um golpe do céu que o cegou, pois sem isso a manha não teria tido sucesso, atraiu para Jesus Cristo algumas almas simples, por meio do relato dessa visão e do da sua pretensa ascensão aos céus, do medo das penas do inferno, tiradas das fábulas dos poetas antigos, da esperança de uma ressurreição gloriosa e de um paraíso que não é mais suportável do que o de Maomé. De modo que, uns e outros, arranjaram maneira de conferir ao seu mestre a honra de passar por um Deus, o que ele próprio em vida não conseguira. No que a sua sorte não foi 80

melhor que a de Homero: seis das cidades38 que tinham expulso e desprezado este poeta em vida disputaram, depois da sua morte, a glória de terem sido a sua cidade natal. II. Por aqui se vê que o Cristianismo depende, como todas as coisas, dos caprichos dos homens, cuja opinião determina a sua qualidade, consoante o humor do momento. Mas, aliás, se Jesus Cristo fosse Deus, seguir-se-ia, como diz São João39', que Deus tinha sido feito carne e teria assumido a natureza humana, o que encerra uma contradição tão grande como a de afirmar que o círculo assumira a natureza do quadrado, ou que o todo se transformara em parte. Com efeito, o que haverá de mais absurdo do que imaginar, como os Cristãos, que o Altíssimo, como eles dizem, o único ser infinitamente perfeito, tivesse descido do mais alto da sua glória para vir morar no meio de seres que diferem infinita38 Sete cidades disputaram, depois da sua morte, a linha do seu nascimento 39 5 Jo, I, 1-14.

mente mais dele do que os mais vis insectos diferem dos maiores monarcas do universo? Que tenha assumido a fraca, desprezível, miserável natureza desses seres, apenas para resgatá-los da escravatura e da tirania de um dos seus súbditos rebeldes, que mantém acorrentado, como se não houvesse outra maneira de os livrar desse inimigo do género humano, que nada pode sem ele, senão a de se degradar a si próprio, de um modo tão estranho, ainda por cima, para só salvar um desses miseráveis de entre um milhão que deixa perecer? Que se tivesse rebaixado a esse ponto, só para vingar as injúrias que recebera dessas formigas, desses vermes, e para pedir satisfações como se pudesse ter ficado ofendido?

Que, por fim, para obter da sua divindade irritada o perdão pelas pretensas ofensas e satisfazer a sua justiça infinita, que exigia a sua morte, se tenha entregue a si próprio ao suplício mais cruel e infame, em vez deles, como se, supondo que tivesse realmente ficado ofendido, não fosse senhor, ou de abdicar dos seus direitos, ou de reconciliar esses pecadores com a sua divindade, de uma outra maneira, mesmo, de lhes conceder um perdão gracioso? Mas tenho vergonha de perder mais tempo com contradições tão óbvias. Passo, portanto, para Maomé, que bem merece que se fale dele, pois fundou uma Lei em máximas completamente opostas às do legislador dos Cristãos.

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CAPÍTULO XI SOBRE MAOMÉ

I. Mal tinham os discípulos de Jesus Cristo apagado a Lei mosaica, para introduzir a cristã, já os homens, seguindo o seu capricho habitual, se submetiam às Leis de um novo legislador, que se impôs pelas armas, como o fizera Moisés. O título especioso de Profeta e de Enviado de Deus40 tam40

bém não lhe faltou. Igualmente, não lhe faltou habilidade para fazer milagres e para se aproveitar da fraqueza do povo, que gosta do maravilhoso. Primeiro, viu-se, como os outros, escoltado por uma populaça ignorante, à qual debitava os novos oráculos que recebia do céu. Esta gente sensual e grosseira, agrilhoano oitavo dia do Mês de Rabia, uma sexta-feira, refugiou-se em Medina. Ora, foi aí que, dez anos após seu retiro, no vigésimo dia do décimo primeiro mês, sexagésimo terceiro ano da sua vida bendita, chegou ao prazer da presença divina. Uns dizem que nasceu ainda em vida do pai Abdalla, outros depois da morte deste. A Senhora Amina, sua mãe, filha de Wahibe, deu-lhe como ama a Senhora Haliina da Iribo de Beni-Saad. Abdo'lminutalib, seu avô, atribui-lhe o nome bendito de Maomé. Teve quatro filhos e quatro filhas. Os filhos foram Kasim, Ibrahim. Thajib e Thahir, e as filhas Fathima, Ommo Keltum, Rakia e Zeineb. Os companheiros deste augusto enviado de Deus foram Abubeker, Omar, Osman e Ali, todos de sagrada memória.»

Um amigo do célebre Golius, tendolhe perguntado o que é que os Muçulmanos diziam do seu Profeta, este sábio professor de árabe enviou-lhe o extracto que se segue, o qual contém um resumo da vida desse impostor, tirada de um manuscrito turco. «O Senhor Maomé Mustafa, de gloriosa memória o maior dos Profetas, nasceu no ano quarenta do império de Anurschirwan, o justo. A sua Santa Natividade deu-se no décimo segundo dia e na segunda série do mês de Rabia. Ora, após passar o quadragésimo ano de idade, foi inspirado divinamente, recebeu a coroa da profecia e o manto da legação, que lhe foram trazidos, da parte de Deus, pelo fiel mensageiro Gabriel, com a ordem de chamar os homens para o islamismo. Depois dessa inspiração de Deus, permaneceu em Meca durante treze anos. Com cinquenta e três anos,

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da pelos prazeres correspondentes aos seus gostos, que esse impostor lhe prometia num paraíso, no qual a felicidade daqueles que tivessem cumprido a sua Lei consistiria, em parte, no que mais estimula os sentidos, espalhou o seu renome por todos os lados, e exaltaram-no de tal modo que o dos seus antecessores diminuiu pouco a pouco. II. Assim que começou a elevar-se e o seu nome a tornarse célebre, Coreis, poderoso árabe, invejoso por um homem vindo do nada ter a audácia de enganar o povo, declarou-se seu inimigo e atravessou-se-lhe no caminho. Mas, a família de Coreis tendo perdido, Maomé passou a ser seguido por uma multidão de povos que, crendo-o divino, abraçaram às cegas a sua nova Lei. Livre de um inimigo tão temível, só temeu o seu companheiro. Com medo de que este descobrisse as suas imposturas, pensou em precaverse; para o fazer com segurança, divertiu-o com belas pro83

messas e jurou-lhe que só queria ser poderoso para partilhar com ele um bem para cuja aquisição tanto contribuíra. Atingimos, disse-lhe, o cume da nossa ascensão. Somos seguidos por um grande povo que conquistámos; mas é preciso consolidá-lo com o artifício que tão airosamente inventaste. Ao mesmo tempo, convenceu-o a esconder-se na fossa dos oráculos, no fundo da qual fingia habitualmente a voz de Deus. Esse pobre homem, enganado pelas doces palavras deste falso, fingiu, como de costume, o oráculo; e, quando ouviu a voz de Maomé, e o rumor da multidão que o seguia, pôs-se a gritar como combinado: Eu, que sou o vosso Deus, clamo que instituí Maomé Profeta de todas as nações. Dele aprendereis a minha verdadeira Lei, porque os Judeus e os Cristãos alteraram a que lhes dei. De há muito que este homem fazia esse papel; mas acabou por ser pago com uma grande ingratidão. Pois Maomé, ouvindo a voz que o proclamava homem divino, virou-se para essa gente, enfatuada pelo seu

falso mérito, e ordenou-lhe, em nome de Deus, que o reconhecera como o seu Profeta, que enchesse de pedras o fosso de onde tinha saído em seu favor um testemunho tão autêntico, em memória da pedra que Jacob erguera outrora, numa ocasião semelhante, em sinal de que Deus lhe tinha aparecido. Tal foi o funesto fim desse miserável que tinha contribuído para a exaltação de Maomé; e foi sobre esse amontoado de pedras que o último dos mais célebres impostores instituiu a sua Lei41.
41

Esse fundamento era tão sólido que, depois de mais de mil anos de reinado, não se vêem sinais de abalo. III. Assim se elevou Maomé. Mais feliz do que Jesus Cristo, viu em vida os progressos da sua Lei. Mais feliz, mesmo, do que Moisés, o qual, por excesso de ambição, antecipou os últimos dias, morreu em paz, cumulado de glória e certo de que a sua doutrina sobreviveria à sua morte, porque a adaptara ao temperamento dos seus sectários, nascidos e educados na ignorância e na sensualidade. Eis, leitores, o que se pode dizer de mais notório sobre estes quatro célebres legisladores. Eles foram como os pintámos. A vós cabe decidir se são dignos de que os imiteis, e se vós tendes desculpa para vos deixardes conduzir por guias que a ambição engrandeceu e que a ignorância eterniza. Para dar mais peso ao que dissemos sobre as religiões, os legisladores, os políticos,

Naudé relata este facto de um modo algo diferente. Diz que Maomé convenceu o mais fiel dos seus criados a descer ao fundo de um poço próximo de um grande caminho, para que gritasse quando passasse com a multidão que o acompanhava normalmente, Maomé é o bem-amado de Deus, Maomé é o bemamado de Deus, e, tal tendo acontecido como combinado, agradeceu de repente a divina bondade por um testemunho tão ilustre e pediu ao povo que o seguia para encher imediatamente esse poço e sobre ele construir uma pequena mesquita, em memória de um tal milagre. E com tal invenção, esse pobre criado foi morto e enterrado sob uma chuva de calhaus que lhe retirou o meio de vir a descobrir a falsidade do milagre. Mas a terra e as canetas boateiras tiveram ecos do acontecimento.

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os supersticiosos e a tola credulidade do povo, ser-nos-ia fácil mostrar que os nossos pontos de vista estão perfeitamente conformes aos dos melhores autores, tanto antigos como modernos, que escreveram sobre estes temas. Mas, como tais testemunhos ocupariam demasiado espaço, limitar-nos-emos a expor o que escreveram dois célebres Modernos42 sobre estes artigos. Ainda que ambos fossem eclesiásticos, e, por conseguinte, terem de pactuar com a superstição, não deixará de ser manifesto que, através dos arranjos e do seu estilo católico, dizem coisas tão livres e tão fortes quanto as nossas. Ides vós próprios julgar, lendo nas páginas a seguir, o que extraímos fielmente das suas obras.

42

Pierre Charron e Gabriel Naudé.

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Os capítulos seguintes, do XII ao XVII, reproduzem palavra a palavra as obras “Três Verdades” de Charron e, “Sobre a Sabedoria” e “Considerações Políticas sobre os Golpes de Estado” de Naudé.
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CAPÍTULO XII SOBRE AS RELIGIÕES

I. Há cinco religiões que tiveram grande crédito e reputação, como principais e mestras, introduzidas uma a seguir à outra, de acordo com a ordem seguinte, e o que é mais espantoso é terem sido concebidas praticamente na mesma região: A Natural começou com o género humano na Palestina; A Gentílica, inventada depois do dilúvio e pouco depois de a horda temerária que construía a Tone de Babel ter sido dispersada pela confusão das línguas, posta em prática na Caldeia cerca de dois mil anos antes de Jesus Cristo, é assim mais recente do que a Natural e o Mundo; A Judaica, concebida no tempo de Abraão, por ele próprio, cerca de cem anos depois da Gentílica, na Palestina, ou seja no mesmo lugar da Natural; 87

A Cristã, concebida por Jesus Cristo, cerca de quatro mil anos depois do nascimento do mundo, no país da Palestina; E a Maometana, na Arábia, seiscentos anos depois da Cristã. Estas cinco religiões capitais, as mais famosas do mundo, abrigam várias e diversas espécies de religiões: a Gentílica, principalmente; como teve grande extensão, impacto e duração, pois não só admitia diversos meios de servir e honrar a divindade como se dividira em várias seitas com opiniões e crenças diferentes. Podem encontrar-se três formas principais, que São Paulo parece ter querido designar, ao compará-la com a Judaica. Nem Grega, nem Judia, nem Bárbara, nem Cita. A dos Bárbaros, sem Lei, sem regra, ou cerimónia certa e prescrita, adora e serve qualquer falsa divindade, de cada um segun-

do a sua fantasia. As duas outras têm os seus sacrifícios e serviços prescritos e certos, mas diversamente. A Cita tem-nos cruéis e sangrentos. A Grega (assim se dá este nome geral, mas o mais célebre, a qualquer seita que não seja a Bárbara ou a Cita) tem-nos mais políticos e humanos; e também aqui diversificados, segundo as nações e os seus autores. Os Gregos, nomeadamente, instruídos pelos seus poetas e filósofos, os Egípcios pelos seus sacerdotes, os Gauleses pelos seus druidas, os Romanos pelos seus Livros das Sibilas, e as Leis de Numa, os Persas pelos seus magos, os Hindus pelos seus brâmanes e gimnosofistas. A Cristã ultrapassa todas as outras nesse aspecto. E muito se teria de fazer para enumerar e inventariar todos os membros e respectivas diferenças que pertencem ao Cristianismo. Primeiro, pelo que respeita à diferença entre algumas nações, quanto a certos pontos da doutrina, e principalmente quanto ao 88

culto e serviço de Deus: grega, latina, etíope, síria, arménia, hindu, moscovita e outras. Depois, no tocante às opiniões sobre a doutrina e a crença, tantas heresias e tantas seitas. Finalmente, em relação às cerimónias e aos meios externos, há uma grande variedade de ordens, profissões e maneiras de viver. E todas essas grandes diferenças estiveram, e ainda estão, sob a bandeira comum do seu chefe, e sob a designação de cristão. II. Estas religiões discutem entre si e querem proibir e autorizar pelas mesmas razões. Cada uma alega os seus milagres, os seus santos, as suas vitórias; neste âmbito, são armas comuns. Em particular, cada uma arroga-se, contra as outras, de um direito ou prerrogativa. A Natural, da sua origem, antiguidade e simplicidade; a qual, supondo-se suficiente, considera tudo o mais adição e sobrecarga, matéria para discussões e debates. A Gentílica, mais polida, vangloria-se das ciências, dos belos discursos e dos regulamentos morais e políti-

cos, pelos quais, e com um estilo gracioso, é representada a imagem da virtude: toda a república está bem constituída e dirigida, A Judaica, e depois a Maometana, alegam a seu favor, a simplicidade de um Deus, tanto na crença quanto na representação externa, contra a Trindade cristã e a Pluralidade gentílica. Mas a Judaica ainda se vangloria da antiguidade e da nobreza das suas gentes e da raça, dos milagres e favores celestes, tanto na sua instituição e fundamento quanto no seu progresso, e da grande sequência de Profetas. A Maometana, a mais recente, sente-se inchada com a sua prosperidade e as grandes vitórias, tendo arruinado, em pouco tempo, a grandeza das outras, mesmo da Cristã, que prevalecia isolada no momento do seu surgimento; a tal ponto que toda a gente a teme. III. Por outro lado, cada uma é vítima das críticas das outras: a Natural, que não se trata propriamente de uma religião, sendo vaga, incerta, e nada tendo a prescrever ou a ordenar; a Gentílica, por cau89

sa dos sacrifícios com corpos humanos, da adoração de coisas mudas, da infame multidão, genealogia e relações dos seus Deuses, e do vil e ingrato esquecimento do verdadeiro Deus soberano; a Judaica, que é cruel com os Profetas, e que se trata de uma religião supersticiosa, odiosa e desagradável a todas as nações; a Cristã, que atribuiu um filho e um companheiro a Deus, adora imagens, e que a vida dos Cristãos está toda infectada pelo jogo, a sorte, os adultérios e as blasfémias; a Maometana, por causa da grosseira e carnal vaidade que transporta, o Corão estando cheio de tolices insuportáveis, e por causa do seu progresso e do seu procedimento, todo marcado pela espada, pelas guerras, pelos homicídios e pelos saques. Entretanto, os professores odeiam-se mutuamente, desprezam-se e desdenham, considerando os outros cegos, malditos, condenados e perdidos; isto é, perseguem-se como cães furiosos e enraivecidos.

CAPÍTULO XIII SOBRE A DIVERSIDADE DAS RELIGIÕES I. Ainda assusta mais a grande diversidade de religiões, que existiu e existe, do que a estranheza de algumas, tão fantasiosa e exorbitante. É maravilha o entendimento humano ter podido ser tão fortemente embrutecido e embriagado com imposturas. Pois parece nada haver no mundo, em cima ou em baixo, que não tenha sido deificado, num sítio qualquer, e que não tenha encontrado um lugar de adoração. II. Todas concordam com certas coisas, têm quase os mesmos princípios e fundamentos, acordam-se quanto à tese, têm progresso idêntico e andam em compasso. Também tiveram origem quase nos mesmos climas e ares. Todas encontram e oferecem milagres, prodígios, oráculos, mistérios, sagrações, profetas, festas, certos artigos de fé e crença necessários para a salvação. Todas começam pequenas, fracas, humildes, 90 mas, pouco a pouco, por um séquito e uma aclamação contagiosa dos povos, com as ficções a animar, firmaram-se e legitimaram-se, de tal modo que todas são consideradas com veemência e devoção, mesmo as mais absurdas. Todas defendem e ensinam que Deus se apazigua, se verga e se conquista com orações, presentes, votos, promessas, festas, incenso. Todas acreditam que o principal e mais agradável serviço aos olhos de Deus, o poderoso meio de o apaziguar e de suscitar as suas boas graças, seja penar, inventar, impor e assumir uma tarefa difícil e dolorosa. Como testemunho, em todo o lado, em todas as religiões, tantas ordens, companhias e confrarias destinadas a certos e diversos exercícios, assaz penosos e de profissão exclusiva, rasgam e esquartejam o seu corpo, e pensam que assim merecem muito mais do que o comum dos outros, que

não se metem nessas aflições e tormentos como eles. Todos os dias surgem novas, e nunca a natureza humana deixará, e acabará, de inventar meios para se castigar e atormentar. O que decorre da opinião de que Deus tem prazer e satisfação com o tormento e a desgraça das suas criaturas, o que justifica os sacrifícios, que foram universais antes do nascimento da cristandade, exercidos não só sobre animais inocentes, que eram massacrados com efusão do seu sangue, como um presente precioso para a divindade, mas (coisa estranha da embriaguez humana) sobre as crianças, pequeninas, inocentes, e os homens feitos, tanto criminosos quanto homens de bem, costume praticado com grande religiosidade por todas as nações; gestos que, entre outras cerimónias e sacrifícios, despacham para o seu deus Zalmonix, de cinco em cinco anos, um homem de entre os seus, para lhe pedir as coisas de que precisam. E, para que morra imediatamente, expõem-no a uma morte reprovável, lançando-o 91

sobre as pontas de três dardos verticais. Atiram vários em fila, até que um deles se espete mortalmente e expire subitamente, sendo esse considerado eleito e sem mácula e os outros não. Persas, como prova Amestris, mãe de Xerxes, que de uma só vez enterrou vivos catorze jovens das melhores casas, segundo a religião do país. Antigos Gauleses, Cartagineses, que imolavam a Saturno as suas crianças, na frente dos pais e das mães; Lacedemónios, que mimavam a sua Diana, chicoteando rapazes, muitas vezes até à morte. Gregos, como testemunha o Sacrifício de Ifigénia, Romanos, como testemunham os dois Décios. Quae fuit tanta iniquitas Deorun, ut placari à Pop. Rom. non possent, nisi tales viri occidissent. Maometanos, que cortam o rosto, o estômago, os membros, para gratificar o Profeta. As Novas índias, Orientais e Ocidentais, e a Temistitano, alimentam os seus ídolos com o sangue de crianças. Que alienação do senso, julgar que se lisonjeia a divinda-

de com a desumanidade, que se paga a bondade divina com a nossa aflição e se satisfaz a sua justiça com a crueldade. Justiça, portanto, esfomeada de sangue humano, sangue inocente, vertido e espalhado com tanta dor e tanto tormento, ut sic Dii placentur, quemadmodum ne homines quidem saeviunt43 De onde poderá vir tal opinião e crença de que Deus tem prazer com o tormento e a desfeita das suas obras e da natureza humana? De acordo com essa opinião, de que natureza terá Deus de ser? III. As religiões também têm as suas diferenças, os seus artigos próprios, e à parte, pelos quais se distinguem umas das outras, e cada uma é escolhida, e se rotula como a melhor e a mais verdadeira, e se reprovam umas às outras, e, assim, se condenam e rejeitam. IV. Mas, como nascem uma após a outra, a mais recente, sempre construída sobre a sua antecessora, não a melhora,
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nem a condena, de uma ponta a outra, senão não lhe dariam ouvidos e não teria crédito, mas limita-se a acusá-la, ou de imperfeição, ou de ter chegado ao seu termo, e que, assim sendo, vem sucedê-la e aperfeiçoá-la, e, desse modo, vai minando-a, pouco a pouco, enriquecendo-se com os despojos, como a Judaica fez, com a Gentílica e a Egípcia, a Cristã, com a Judaica, a Maometana, com a Judaica e a Cristã ao mesmo tempo. Em contrapartida, as antigas condenam completamente as mais jovens, e tomam-nas por inimigas capitais. V. Todas as religiões são estranhas e horríveis para o senso comum, pois propõem e estão construídas com peças que, umas afiguram-se ao juízo humano baixas e indignas, que um espírito um pouco mais forte ridicularizaria; outras, excessivas, estrondosas, milagrosas e misteriosas, sobre as quais o homem nada pode saber. Ora, o espírito humano só é capaz de coisas medíocres, despreza e desdenha as pe92

Séneca

quenas, espanta-se e estremece com as grandes; o que torna improvável que não se afaste, desgoste e despeite de qualquer religião na qual nada haja de medíocre e vulgar. Pois, se for forte, desdenhála-á e tomá-la-á como tema de risota; se for fraco e supersticioso, espantar-se-á e escandalizar-se-á. Praedicamus Jesum Crucifixum, Judaeis scandalum, gentibus stultitiam. O que explica a existência de tantos descrentes e irreligiosos, os quais consultam e escutam excessivamente o seu próprio juízo, querendo examinar e julgar os assuntos da religião, segundo o seu alcance e capacidade, e tratá-la com os seus utensílios próprios e naturais. É preciso ser-se simples, obediente e complacente para se estar apto a aceitar a religião, a acreditar e submeter-se às suas leis, por reverência e obediência, sujeitar o seu entendimento e deixar-se levar e guiar pela autoridade pública, captivantes intellectum in obsequiam fidei. 93

VI. Mas, fora necessário proceder assim, de outro modo a religião não teria o respeito, nem sequer a admiração, que lhe é devida. Ora, é preciso que ela seja dificilmente, autenticamente e reverentemente, aceite e jurada. Se fosse conforme ao gosto humano, e natural, sem estranheza, seria mais facilmente, mas com menos reverência, aceite. VII. Ora, sendo as religiões e as crenças estranhas ao senso comum, ultrapassando, em muito, o alcance e a inteligência humanos, não devem, nem podem, ser aceites, nem permanecer em nós por meios naturais e humanos (senão tantas almas grandes, de hoje e de outrora, teriam lá chegado), mas é preciso que sejam trazidas e instaladas por revelação extraordinária e celeste, tomadas e recebidas por inspiração divina, e como vindas do céu. Assim procedem todos aqueles que as seguem e nelas acreditam e usam deste jargão que não provém dos homens, nem de nenhuma criatura, mas de Deus.

VIII. Para falar verdade, sem nada dourar ou mascarar, não é nada disso; elas são, diga-se o que se disser, dirigidas por mãos e meios humanos. Testemunha-o a maneira como as religiões foram recebidas no mundo, e ainda são recebidas, todos os dias, pelos particulares. A nação, o país, o lugar decidem a religião; segue-se aquela do lugar onde se nasceu e cresceu; somos circuncidados, baptizados. Somos judeus, Muçulmanos, Cristãos, antes de sabermos que somos homens. A religião não é da nossa escolha ou eleição. Provam-no a vida e os costumes tão mal acordados com a religião, as oportunidades tão humanas e tão ligeiras que vão contra o teor da religião de cada um. Se estivesse sustida e plantada com uma estaca divina, nada de mundano nos faria oscilar; essa estaca não se partiria com tanta facilidade; se houvesse toque e raio da divindade, apareceria por todo o lado e teria efeitos palpáveis e milagrosos. Se tivésseis uma só gota de fé, removeríeis montanhas. 94

Mas que proporção e conveniência há entre a convicção da imortalidade da alma e de uma recompensa futura tão gloriosa e feliz, ou tão infeliz e angustiante, e a vida que levamos? A simples apreensão das coisas de que se diz acreditar tão firmemente faria perder o tino. Já a ideia e o temor de morrer às mãos da justiça, em público, ou por via de outro acidente vergonhoso e deplorável, fez perder o tino a muitos, e levou-os a posições assaz estranhas. É este o preço da religião que ensina o futuro? Será possível acreditar na verdade, esperar essa imortalidade bem-aventurada, e temer a morte, passagem necessária para aquela? Temer e antecipar esse castigo infernal e viver como o fazemos? Trata-se de historietas, coisas mais incompatíveis do que o fogo e a água. Eles afirmam que nelas crêem; fazem crer que crêem, e querem convencer os outros, mas é tudo falso, e eles não sabem o que é acreditar. São trocistas e provocadores, dizia um antigo.

CAPÍTULO XIV DAS DIVISÕES ENTRE CRISTÃOS I. O que sempre achámos estranho e pestilento na religião cristã, que mais nos surpreendeu e ofendeu, foram as grandes divisões que sempre houve, e há, no seu seio. Pois, não só os estrangeiros e os descrentes, seus inimigos, fizeram questão de não a seguirem e de por ela não alinharem, mas os seus serviçais escandalizaram-se, e alguns aproveitaram-se para os seus maus desígnios. Ficamos a saber, pelo Livro dos Actos dos Apóstolos, e por várias passagens de São Paulo que, desde o começo da cristandade e já no tempo dos Apóstolos, que foram a Igreja primitiva, havia uma forte diferença, cismas e divisões, não só de organização mas também de doutrina. Pouco depois São Clemente de Alexandria, mestre de Orígenes, escrevia que os Judeus e os Gentios criticavam aos Cristãos que estes se atribuíssem a verdade e o conhecimento da 95 salvação. Todos se entreacusavam e se condenavam por erros e heresias. Pelo que só deveriam acreditar e procurar a verdade neles próprios, sendo tão discordantes. Depois, o imperador Juliano, o Apóstata, verificando as dissensões entre Cristãos (afirma o seu historiador Marcelino), procurava fomentá-las para os enfraquecer, de modo a que não pudessem revoltar-se contra ele e vencê-lo. A seguir, o imperador Valente, cristão, mais tarde convertido ao arianismo, alegava (diz a História Eclesiástica), como desculpa da sua apostasia, as grandes diferenças, cismas e debates existentes entre os Cristãos. Depois destes, St. Agostinho afirmava que, na sua época, a Igreja de Jesus Cristo tinha chegado a uma tal altura, em matéria de autoridade, que todos os seus inimigos e maledicentes tinham sido confundidos e

calados, e que nada mais lhes restava dizer contra os Cristãos senão que estes não estavam de acordo e que os Gentios que ainda existiam nada tinham a objectar senão as suas dissensões. Não deixa de ser estranho que a religião cristã, única verdadeira no mundo, a verdade revelada por Deus, não esteja unida na fé, só existindo um Deus e uma verdade, mas esteja, ao invés, dilacerada em tantas partes e dividida em tantas opiniões e seitas contrárias, de tal modo que não houve artigo de fé, ou ponto doutrinal, que não tenha sido debatido e usado em vários sentidos, tendo havido tanta heresia e tanta seita contrária. E o que aumenta a estranheza é que, nas outras religiões falsas e bastardas, Gentílica, Pagã, Judaica, Maometana, tais divisões e parcialidade não se dão. E, caso haja divisões, são em pequeno número, ligeiras e de pouca importância, como na Judaica e na Maometana, ou, tendo sido numerosas como na Gentílica, entre os filósofos, pelo menos não provocaram efeitos e 96

abalos tão fortes e estrondosos no mundo. Tudo isso nada é, ao pé das grandes divisões perniciosas que, no início e sempre, marcaram a cristandade. II. Pois, se atentarmos nos efeitos produzidos pelas divisões da cristandade, é coisa assustadora. Primeiro, relativamente à administração e ao Estado, deram-se frequentemente alterações e subversões das repúblicas, dos reinos e das raças, divisões de impérios, até uma mudança universal do mundo, com investidas cruéis, furiosas e mais do que sangrentas, para escândalo, vergonha e reprovação da cristandade. Sob a capa do zelo e da dedicação à religião, cada parte odeia mortalmente as outras, e parece-lhe possível praticar todos os actos de hostilidade, coisa que não se vê nas outras religiões. Só aos Cristãos é permitido serem homicidas, pérfidos, traidores e atacarem-se entre si por todas as formas de desumanidade, contra os vivos, os mortos, a honra, a vida, a memória, os espíritos, as se-

pulturas e as cinzas, pelo fogo, ferro, libelos assaz picantes, maldições, banimentos do céu e da terra, desterros, espoliação de ossos e de monumentos, desde que seja para a segurança ou o incremento do seu partido e o retrocesso do outro; e tudo isto sem compostura, com uma tal raiva que são atropeladas quaisquer considerações de parentesco, aliança, amizade, mérito, obrigação. Aquele, que ontem houvera sido elevado aos píncaros com louvores, descrito como grande, sábio, virtuoso, sensato, passando, hoje, para outro partido, é desacreditado, proclamado ignorante, malvado, infeliz. Aqui se vê onde está o zelo e o ardor da religião, fora disto, e mesmo que se observem todos os preceitos, só há frieza. Os que se dedicam com moderação e contenção são suspeitos de tibieza e falta de zelo. É uma falta abominável mostrar uma cara simpática e tratar amavelmente os do partido contrário. De tudo isto, uns ficam es97

candalizados, como se a religião cristã ensinasse a odiar e a perseguir, e nos servisse de intermediário para negociar e fazer valer as nossas paixões de ambição, avareza, vingança, ódio, despeito, crueldade, rebeldia, sedição. As quais, aliás, não são facilmente controláveis, tendo sido despertadas pela religião. Muitos consideram que não se deve atribuir esta situação à religião, mas aos religiosos; e estes dizem que, de acordo com a regra da caridade, e o discurso da razão às faltas do entendimento e do juízo, que se chamam erros, e opiniões falsas, que não se deve ser dominado pelo ódio e o rigor, mas pela piedade e compaixão; e tratar essas pessoas erróneas e descrentes como se trata os coxos, os surdos, os cegos, os frenéticos, que não se odeia, mas se lastima; temse piedade e presta-se-lhes socorro. Basta comportar-se assim com eles, tanto mais que não se aprovam as suas opiniões. Não se deve nem evitá-los, nem cumprimentálos, o que seria uma expressão de ódio, de incivilidade e

de inimizade, e ainda menos manifestar qualquer forma de hostilidade contra a pessoa, mas expressar uma desaprovação, um desacordo aberto de opiniões e de crenças. A outros parece-lhes que há boas razões para se proceder assim, a saber, que os cristãos aderem e abraçam a sua religião como uma verdade dada pela mão de Deus, da qual são ciosos e extremamente cuidadosos; assim, quem quer que seja que faça alguma coisa contra ela para a perturbar, ofender, injuriar, detestam-no e lançam-se a ele como a um inimigo, confesso e capital, de Deus, da sua salvação, e de tudo o mais. A seu ver, neste aspecto, não podem, nem devem, comportar-se com frieza e moderação, sem trair a causa de Deus e a sua própria. E, se o mesmo não se passa nas outras religiões, é porque os outros não dão a mesma importância às suas religiões, nem fazem delas um tal caso,

por saberem que a religião é coisa humana, recebida da mão de homens. Não dizendo respeito à administração e ao Estado, mas à alma e à consciência, resultam outros efeitos ainda piores, que são problemas de consciência, interesse cego pela religião, desordens dos costumes e da disciplina, a tal ponto que, por fim, vários, fartos e maçados de tantas divisões e contrastes, não sabendo o que escolher e defender, abandonam tudo, mantêm-se neutros e acabam por desprezar e abandonar a religião. Pois, estamos fartos de saber que a apostasia, o ateísmo, a irreligião são os produtos e os pequenos bastardos das heresias. Aliás, sabemos que as divisões, que se deram na cristandade de Oriente, serviram de pretexto e, muitas vezes, abriram as portas a Maomé e ao seu Corão.

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CAPÍTULO XV SOBRE OS SUPERSTICIOSOS, SOBRE A SUPERSTIÇÃO E A CREDULIDADE DO POVO I. O supersticioso não deixa em paz, nem Deus, nem os homens; concebe Deus, lúgubre, despeitado, difícil de contentar, enfadonho, a irritar-se, demorado a apaziguarse, examinando as nossas acções, à maneira humana de um juiz assaz severo, espiando e apanhando-nos em falso; o que comprova pelas formas como o serve. Treme de medo, não se pode fiar ou assegurar, temendo nada ter feito de bem e ter omitido alguma coisa, por cuja omissão tudo o mais de nada valerá; duvida de que Deus esteja satisfeito, procura, por todos os meios, bajulálo para o apaziguar, tê-lo do seu lado, importuna-o com orações, votos, oferendas, inventa milagres, com facilidade acredita e aceita os supostos milagres de outros, entende e interpreta todas as coisas naturais como feitas de propósito e enviadas por Deus, 99 cai em tudo o que se diz, como um homem assaz solícito, duo Superstitiosis propria, nimius timor, nimius cultus44. Mas o que é isto, senão, com afinco, vileza e sordidez, jogar com Deus, de modo mais mecânico do que se faria com um homem honrado? Geralmente, toda a superstição e a falta em matéria de religião resulta de não se ter suficiente estima a Deus: puxamo-lo e rebaixamo-lo a nós, julgamolo segundo nós próprios, carregamo-lo com os nossos humores. Que blasfémia! II. Ora, este vício, e doença, é quase natural e temos uma forte inclinação para ele. Plutarco deplora a enfermidade humana que nunca sabe manter-se meã e firmar-se em bases próprias.
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Duas coisas são inerentes ao supersticioso: demasiado temor e excessiva adoração.

III. Ela também é popular, vem da fraqueza da alma, da ignorância ou do desconhecimento, assaz grosseiro, de Deus; por isso se encontra mais frequentemente nas crianças, nas mulheres (pro devoto foemineo sexu), idosos, doentes, vítimas de qualquer acidente violento. Em suma, nos bárbaros. Inclinant natura ad superstitionem Barbari.45 IV. Para além destas sementes e inclinações naturais para a superstição, vários estendem-lhe a mão e incrementam-na, pelo ganho e proveito que daí retiram. Os grandes e os poderosos, apesar de saberem o que se passa, também não a querem perturbar, nem impedir, conscientes de que é um instrumento muito adequado para conduzir o povo; de onde advém que, não só fomentam e acalentam aquela que já está na natureza, mas, quando precisam, forjam e inventam novas, como Cipião, Sertório e outros qui faciunt animos humiles formidine Divum, depressosque primunt ad ter45

ram. Nulla res multitudinem efficacius regit, quam Superstitio46. V. O povo (entendo por este termo o vulgo reunido, a turba e a escória populares, gente, seja sob que capa for, de baixa, servil e mecânica condição) é um animal com várias cabeças, vagabundo, errante, leviano, sem comportamento, sem espírito nem juízo. Se Postel o persuadir de que Jesus Cristo só salvou homens e a madre Joana deve salvar as mulheres, crê-lo-á, sem pestanejar. Se David Jorge se afirmar filho de Deus, adorá-lo-á. Se um alfaiate entusiasmado e fanático se disfarçar de rei, em Munster, e afirmar que Deus o destinou para castigar todas as potências da terra, obedecer-lhe-á e respeitá-lo-á como o maior monarca do mundo. Se o Padre Domptius lhe anunciar o advento do Anti-Cristo, que terá a idade de dez anos, e cornos, testemunhá-lo-á sem receio. Se impostores e charlatães se intitularem Irmãos
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Plutarco em Sertório.

Curtio

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da Rosa-Cruz, segui-los-á a correr. Se lhe contarem que Paris deverá em breve ruir, fugirá. Que toda a gente deverá ser submergida, construirá arcas e barcos o mais depressa possível, para não ser apanhado desprevenido. Que o mar deverá secar e que carroças poderão ir de Génova a Jerusalém, preparar-se-á para a viagem. Se lhe contarem as fábulas de Melusina, do Sabat dos Bruxos, dos Lobisomens, dos Duendes, das Fadas, dos Paredros, admirar-se-á. Se a matriz atormentar uma jovem, dirá que está possuída, ou dará crédito a um padre ignorante, ou mau, que o afirme. Se um qualquer alquimista, mágico, astrólogo, lullista47, cabalista, começar, pouco a pouco, a lisonjeá-lo, tomá-loá pela pessoa mais sábia e honesta do mundo. Se um Pedro Eremita vier pregar a cruzada, fará relíquias com os pêlos da sua mula. Se, por brincadeira, lhe disse-

rem que uma pata ou um pássaro estão inspirados pelo Espírito Santo levá-lo-á a sério. Se a peste ou a tempestade devastarem uma província, de imediato acusará os batoteiros ou os mágicos. Em suma, mesmo que o enganem hoje, continuará a deixar-se apanhar amanhã, nunca tirando proveito das experiências passadas para se orientar nas presentes ou futuras; e nestas coisas consistem os principais signos da sua grande fraqueza e imbecilidade. VI. Quanto à sua inconstância, temos um belo exemplo nos Actos dos Apóstolos, onde se relata que os habitantes de Listria e de Derben mal tinham avistado São Paulo e São Barnabé, que levaverunt vocem suam Lycaonicè dicentes: Dii símiles facti hominibus descenderunt ad nos; et vocabant Barnabam Jovem, Paulum quoque Mercurium;48 e contudo, sem transição, depois eis que lapi48

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Jean-Baptiste Lulli. O termo aqui está empregado com a acepção de “sodomita”.

Elevaram as vozes e disseram em língua licoaniana; os Deuses desceram até nós sob a forma de homens; e chamavam a Barnabé, Júpiter, e a Paulo, Mercúrio.

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dant Paulum, traxerunt eum extra Civitatem, existimantes mortuum esse.49 Os Romanos adoram Sejano de manhã, e, à tarde... Ducitur unco Spectandus (Juvenal, Sátiras, 10)50. Os Parisienses fizeram o mesmo com o Marquês de Ancre; depois de terem rasgado a veste do padre em Jesus Maria, para conservarem os bocados como relíquias, riram-se delas dois dias passados. Se o povo entra em cólera será como o jovem de Horácio, Iram colligit et ponit temere, et mutatur in horas, (ad Pison)51. Se se lhe depara alguma autoridade, quando está na sua mais efervescente rebelião e sedição, fugirá, deixando tudo para trás; se encontrar um indigente temerário, que lhe reacenda a confiança e deite
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lenha para a fogueira, como se diz vulgarmente, voltará mais furioso do que antes; em suma, podemos atribuir-lhe o que Séneca (de Vita Beata. Cap. 28.) dizia de todos os homens, fluctuat, aliud ex alio comprehendit, petita relinquit, relicta repetit, alternae inter cupiditatem suam, et paenitentiam vices sunt52.

Tendo lapidado Paulo arrastaram-no para fora da cidade julgando que estava morto. 50 Foi arrastado com um gancho para gáudio do povo. 51 Enfurece-se e acalma-se facilmente e está sempre a mudar.

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Está sempre com dúvidas, inventa novas intenções, abandona o que pedira e volta a pedir o que acabara de abandonar: o desejo e o arrependimento dominam-no à vez e possuem o controlo da sua alma.

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CAPÍTULO XVI SOBRE A ORIGEM DAS MONARQUIAS I. Se considerarmos os primeiros passos de todas as monarquias, veremos que todas começaram com umas tantas invenções e embustes, pondo a religião e os milagres à cabeça de uma longa série de barbaridades e crueldades. Tito Lívio foi o primeiro a notá-lo: Datur haec venia antiquitati, ut miscendo humana divinis, primordia Urbium augustiora faciat53. cuidado de a alimentar, levando-lhe uma bicada como fazem com os seus filhotes, e querendo ainda confirmar essa fábula com as últimas acções da sua vida, ordenou que se espalhasse que, depois de morta, fora transformada em pomba e voara, com um grande bando de aves que a tinha vindo buscar ao quarto.

Ainda tomou a decisão de fingir e de mudar de sexo, e, O que demonstraremos, na de mulher que era, tornar-se sequência, como verdadeiro, homem, assumindo o papel mas que, para já, tem de se do filho Nino e imitando-o manter genérico; começare- em todas as acções. E, para mos a nossa prova pela defi- obter maior sucesso nesse nição das quatro primeiras e empreendimento, teve a ideia maiores monarquias. de introduzir um novo tipo de A fama da rainha Semirami- roupa no seu povo, que era de, que fundou o império dos mais adequado para cobrir e Assírios, foi bem montada, esconder o que mais facilpara persuadir o povo de que, mente podia fazer reconhecer tendo sido exposta na infân- uma mulher. Brachiaenim ac cia, os pássaros tiveram o crura velamentis, caput tiara tegit, et ne novo habitu aliquid occultare videretur, eo53 Aceita-se que a Antiguidade, mistudem ornatu populum vestiri rando coisas humanas e divinas, torne jubet, quem morem vestis mais augustas as fundações das cidades. 103

exinde gens universa tenet54, e por este meio primis initiis Sexum mentita, puer credita est. (Justiniano. Initio.)55. Ciro, que instituiu a monarquia dos Persas, quis também tirar partido da vinha que o seu avô Astíages tinha visto nascer ex naturalibus filiae, cujus palmite omnis Ásia obumbrabatur56, e do sonho que ele próprio teve quando tomou as armas e escolheu um escravo como companheiro das suas investidas; mas, ainda fazia melhor uso da história de que uma cadela o tinha alimentado e aleitado na floresta, onde fora abandonado por Harpagão, até que um pastor, tendo-o encontrado por acaso, o levou à mulher e o tratou carinhosamente em casa. Para Alexandre e Rómulo,
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como os seus objectivos eram mais elevados, foi necessário ensaiar mais e pôr em prática estratagemas muito mais poderosos. Eis a razão pela qual começaram como os outros pela fábula sobre a origem; levaram-na, todavia, ao extremo, o que deu a Sidónio a oportunidade de dizer: Magnus Alexander, nec non Romanas habentur Concepti serpente Deo57. Pois Alexandre fizera crer que Júpiter tinha o costume de visitar e satisfazer-se com a sua mãe Olímpia, na forma de uma serpente. E, quando veio ao mundo, a deusa Diana acompanhou com tal afinco o parto que se esqueceu de socorrer o templo que tinha em Éfeso, o qual, nesse intervalo, foi completamente consumido por um incêndio acidental. Que mais? A fim de melhor firmar a opinião sobre a sua divindade na crença dos seus súbditos, dispôs os sacerdotes de Júpiter Amon no Egipto, ut ingredientem Teinplum statim
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Pois cobriu os braços e as pernas com um vestido e a cabeça com um turbante; A fim de não dar a entender que escondia qualquer coisa por baixo destas novas vestes, ordenou que o seu povo usasse vestes idênticas, moda que permanece até hoje. 55 No início, tendo-se travestido, foi confundida com um rapaz. 56 Da sua filha, cuja sombra dos sermões cobria toda a Ásia.

O grande Alexandre e o Romano são supostos terem sido concebidos de uma serpente e de um deus.

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ut Amnonis Filium salutarent (Justiniano. I. 11)58; e, para melhor representar a personagem, Rogat num omnes Patris sui intersectores sit ultus; respondent Patrem ejus nec posseinterfici, nec mori59. Chegou mesmo aos artifícios, ordenando a Parménio que demolisse todos os templos e abolisse as honras que os povos do Oriente prestavam a Jasão, ne cujusquam nomen in Oriente venerabilius quam Alexandri esset60. Acrescentemos que, certos prisioneiros, tendo-lhe revelado o segredo do remédio contra as setas envenenadas dos índios, deu a entender que fora Deus que lho revelara em sonhos. Mas essa insaciável cupidez, tendo-o levado a fazer-se adorar, reconheceu, por fim, pelas censuras de Calístenes, pela obstinação dos La58

cedemónios e pelos ferimentos que sofria todos os dias em combate, que todas as suas forças não seriam suficientes para poder estabelecer esta nova apoteose e que é preciso uma fortuna muito maior para adquirir um pequeno lugar no céu do que para domar cá em baixo e dominar a terra toda. Se se quiser juntar a estas histórias a da morte de seu pai, Filipe, que congeminou com sua mãe, Olímpia, e também a de Clito, que matou com as suas próprias mãos, porque este adquirira demasiada autoridade entre os soldados, chegar-se-á à conclusão de que Alexandre praticava em segredo o que César mais tarde fez às claras: Si violandum est jus, regnandi causa.61 Quanto a Rómulo, construiu o seu crédito com as histórias do deus Marte, que teria frequentado regularmente a sua mãe Réa; com a da loba que o alimentou; com o embuste dos abutres, a morte do seu irmão, o asilo que criou em
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Que, no momento em que ele entrasse no templo, o saudassem como filho de Jupiter Amon. 59 Ele perguntou se não se tinha vingado de todos os homicidas do seu pai, e eles responderam que o seu pai não podia nem ser morto, nem morrer. 60 Para que não houvesse nome no Oriente mais venerável do que o de Alexandre.

Se é necessário violar o direito, é para reinar.

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Roma, o rapto das Sabinas, o assassínio de Tácio, que deixou impune e, finalmente, a da sua morte, afogando-se em águas pantanosas, para fazer crer que o seu corpo fora elevado aos céus, uma vez que não o poderiam encontrar na terra. Ora, se juntarmos a estes golpes de estado de Rómulo os que Numa Pompílio, seu sucessor, efectuou com a história da sua ninfa Egéria e das superstições que instituiu durante o seu reinado, será fácil ajuizar: Quibus auspiciis illa inclita Roma Imperium Terris animos aequavit Olympo (Virgílio)62 Se pretendêssemos examinar todas as outras monarquias e todos os Estados que são inferiores a estes quatro, poderíamos encher um grosso volume com semelhantes histórias. Por isso, bastará, como prova definitiva da nossa máxima, examinar o que Maomé
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fez para a instituição não tanto da sua religião quanto do Império, que é hoje o mais poderoso do mundo. É claro que, como todos os grandes espíritos (Postellus et Alii) tiveram sempre o engenho de aproveitar as desgraças mais notórias que lhes aconteceram, este fez a mesma coisa; de modo que, vendo que estava na iminência de cair de bem alto, tratou de convencer os amigos de que os paroxismos mais violentos da sua epilepsia eram êxtases e sinais do espírito de Deus que estava nele; persuadiu-os também de que um pombo branco que vinha comer grãos de trigo na sua orelha era o Anjo Gabriel, que lhe vinha anunciar, da parte do próprio Deus, o que devia ser feito; depois, serviu-se do monge Sérgio para compor um Corão, que fingia ter-lhe sido ditado pela própria boca de Deus; finalmente, chamou um famoso astrólogo para que este preparasse os povos com as previsões sobre as mudanças de estado que deveriam enfrentar e a nova Lei que um grande Profeta deveria insti-

Por estes meios esta famosa Roma dominou toda a Terra e levou a sua ambição até às alturas do Olimpo.

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tuir, para que recebessem mais facilmente a sua, quando a publicasse. Mas, tendo-se apercebido de que o seu secretário Abdalla Bensalon, contra o qual se irritara injustamente, começara a descobrir e a publicar tais imposturas, degolou-o, uma noite, em sua casa e mandou que esta fosse incendiada, com a intenção de convencer o povo, no dia seguinte, de que tal acontecera pelo fogo do céu, como castigo pelas tentativas do secretário de mudar e adulterar algumas passagens do Corão. Não seria ainda esta a última fineza, pois outra viria completar o mistério, tendo ele convencido o mais fiel dos seus criados a descer ao fundo de um poço, próximo de um caminho amplo, para gritar quando passasse na companhia de uma grande multidão que costumava acompanhá-lo, Maomé é o bem-amado de Deus, Maomé é o bem-amado de Deus. E, tendo acontecido como combinado, agradeceu subitamente a divina bondade, por um testemunho tão

notável, e pediu a toda a gente que o seguia que enchesse o poço com pedras e aí erguesse uma mesquita em sinal de um tal milagre. E, em virtude dessa invenção, o pobre criado foi sepultado sob uma chuva de calhaus, que lhe retiraram a possibilidade de alguma vez descobrir a falsidade do milagre. Excepit sed Terra sonum, calamique loquaces63.

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Mas a terra e as canetas boateiras receberam o eco. (Petrónio nos Epigrainas).

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CAPÍTULO XVII SOBRE OS LEGISLADORES, SOBRE OS POLÍTICOS, E COMO ELES SE SERVEM DA RELIGIÃO I. Todos os antigos legisladores, querendo acreditar, afirmar e fundar convenientemente as leis que davam aos seus povos, não encontraram melhor maneira de o fazer do que publicar, e fazendo crer com todo o engenho possível, que as tinham recebido de uma qualquer divindade, Zoroastro, de Oromasis (Ahuramazda), Trimegisto, de Mercúrio, Zamolxis, de Vesta, Carondas, de Saturno, Mino, de Júpiter, Licurgo, de Apolo, Drago e Sólon, de Minerva, Numa, da ninfa Egéria, Maomé, do Anjo Gabriel; e Moisés, que foi o mais sabido de todos, descreve-nos no Êxodo como recebeu a sua directamente de Deus. Face à ruína total e abolição do reino dos Judeus, mansit tamen, diz Campanella, religio mosaica cum superstitione in Hebraeis et Mahumetanis, et cum reformatione praeclarissima in Christianis64. Foi, julgo, o que levou Cardano a aconselhar os Príncipes, que, em virtude de baixa nascença ou desprovidos de dinheiro, partidários, forças militares, soldados, não pudessem governar os seus Estados com suficiente esplendor e autoridade, a procurarem apoio na religião, como
fizeram outrora, e com grande sucesso, David, Numa e Vespasiano.

II. Mas, como nunca houve mais do que dois meios capazes de levar os homens a cumprir o seu dever, a saber, o rigor dos suplícios previstos pelos antigos legisladores para reprimir os crimes, de que os juízes viessem a ter conhecimento; e o temor dos Deuses e da sua ira, para im64

Todavia a religião mosaica continuou como superstição entre os Judeus e os Muçulmanos, e sofreu uma bela reforma nos Cristãos. In Aforismos Políticos.

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pedir aqueles que, por falta de testemunhas, não pudessem ser convenientemente denunciados, de acordo com o que diz o Poeta Palingenius (in Libra): Semiserum vulgus fraenandum est relligione Poenarum que inetu, nam fallax atque malignum. Illus ingenium est semper, nec sponte movetur Ad rectunp.65 Deste modo, os próprios legisladores reconheceram que nada dominava com maior violência os espíritos do que este último meio, o qual, deparando-se com uma qualquer acção, leva subitamente qualquer perseguição ao extremo; a prudência transforma-se em paixão, a cólera, mesmo que fraca, converte-se em raiva, toda a civilidade esvai-se em confusão, os próprios bens e a vida deixam de ser considerados, se for preciso perdê-los para defender a divindade de uns tantos dentes de macaco,
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de boi, de gato, de cebola, ou de outro ídolo ainda mais ridículo, nulla siquidem res ejficacius multitudinem movet quam Siiperstitio.66 III. Os legisladores e os políticos serviram-se da religião de cinco maneiras principais, nas quais se podem compreender todas as outras: A primeira, mais comum e vulgar, foi convencer os povos de que estavam em contacto com os Deuses, para melhor conseguirem o objecto da sua vontade. Como vemos que, para além dos antigos já referidos, Cipião quis dar a entender que nada fazia sem o conselho de Júpiter Capitolino, Sila, que todos os seus actos eram favorecidos por Apolo de Delfos, de quem trazia sempre consigo uma pequena imagem; e Sertório, que a sua corça lhe trazia todas as novidades sobre as decisões do Concílio dos Deuses. Mas, para chegarmos a histórias que nos são mais próxi66

É pela religião e pelo medo dos suplícios que é necessário refrear a populaça meio selvagem, pois o seu espírito é sempre enganador e maligno, e de si mesmo não atina com o que é de direito.

Nada há que faça agir mais eficazmente a populaça que a superstição. Quinto Curtius, Livro IV.

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mas, não há dúvida de que Jacques Bussularius dominou algum tempo em Pavia, por semelhantes meios, João de Vicença em Bolonha, e Jerónimo Savonarola em Florença, sobre quem temos o seguinte comentário de Maquiavel: “O povo de Florença não é estúpido, não obstante, o irmão Jerónimo Savonarola levou-os a acreditar que falava com Deus67. Não passaram mais de sessenta anos que Guilherme Postei quis fazer o mesmo em França, e, há pouco ainda, Campanella, na Alta Calábria; mas não conseguiram, tal como os precedentes, por não terem a força nas mãos; pois, como diz Maquiavel, esta condição é necessária a todos aqueles que queiram instituir uma nova religião. IV. A segunda invenção usada pelos políticos para recorrerem ao poder da religião consistiu em fingir milagres, descobrir sonhos, inventar visões e produzir monstros e prodígios: Quae vitae rationem vertere
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possent; Fortunasque omnes magno turbare timore.68 Assim, vemos que Alexandre, tendo sido informado, por alguns médicos, da existência de uma panaceia contra as setas envenenadas dos seus inimigos, fez crer que Júpiter lho tinha revelado em sonhos. E Vespasiano arranjava pessoas que fingiam ser cegas e coxas para curá-las pelo toque. Por isso, também Clóvis acompanhou a sua conversão com tantos milagres; Carlos VII exagerou os poderes de Joana de Arc e o actual imperador, os do padre de Jesus Maria, esperando talvez ganhar uma batalha tão grande quanto a de Praga. V. A terceira tem como fundamento os boatos, as revelações e profecias que se põem a correr com o objectivo de aterrorizar o povo, espantá-lo, abalá-lo, ou, ao contrário, para o acalmar, fortalecer, encorajar, conforme as ocasiões. E, a este propósito. Postel dá
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Sobre Tito Lívio.

Que possam mudar a maneira de viver e perturbar todas as fortunas por um grande temor.

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conta de que Maomé mantinha um famoso astrólogo, que mais não fazia do que pregar uma grande revolução e uma grande mudança que adviria, tanto na religião como no império, com uma longa série de todo o tipo de prosperidades, a fim de abrir, com esse estratagema, o caminho ao próprio Maomé e preparar os povos para receberem, com melhor vontade, a religião que ele queria introduzir, ao mesmo tempo que intimidava aqueles que não estivessem dispostos a aceitá-la, através da suspeita de que poderiam estar a combater contra a ordem do destino, opondo-se ao novo favorito do céu, este tendo à partida essa vantagem: Cui militat aether et conjurati veniunt ad Clássica ventfi.69 Foi por meio dessas insanes crenças que Fernando Cortez ocupou o Reino do México, onde foi recebido como se fosse o Topilchin (Topiltzin), cuja chegada todos os adivi69

nhos previram. E Francisco Pizarro, o do Peru, onde entrou com o aplauso geral de todos os povos, que o tomaram pelo enviado de Viracocha para libertar o seu rei do cativeiro. O próprio Carlos Magno chegou longe em Espanha, graças a um velho ídolo, que, como previram os adivinhos, deixara cair uma grande chave que segurava na mão; e, também, os Árabes ou Sarracenos conseguiram, sob o comando do Conde Juliano, invadir o Reino de Espanha. Praticamente não se pensou enfrentá-los, porque se tinha visto, um pouco antes, as suas faces pintadas numa tela encontrada num velho castelo próximo da cidade de Toledo, no qual se acreditava que tinha sido fechada por um grande Profeta. E ouso afirmar, como muitos historiadores, que, sem essas belas previsões, Maomé II não teria conquistado com tanta facilidade a cidade de Constantinopla. Mas haverá exemplo mais revelador do que o que aconteceu em 1613, a propósito de Ascosta, cidade principal da Ilha Magna, a

Por quem o céu combate e os ventos de um comum acordo vêm ao som das trompas.

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qual, tendo-se revoltado contra o Sofi, foi tomada sem grande dificuldade pelo seu lugar-tenente Arcomat, em virtude de uma certa profecia, transmitida por tradição, que dizia que se a cidade não se entregasse a Arcomat seria Arcomatada, quer dizer, que se não se rendesse à Dissipação seria dissipada. Ao passo que, se tivesse querido defender-se, talvez não tivesse sido conquistada, visto que, segundo o relato de Garcias ab Horto, médico português, que aí fora escrito trinta ou quarenta anos antes, a cidade continha cinco léguas de muralha, cinquenta mil armas de fogo70 e rendia ao Sofi quinze milhões e seiscentos mil escudos, cada ano, de rendimento garantido. É, portanto, um caminho amplamente aberto aos políticos, para enganar e seduzir a tola populaça, servir-se dessas
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previsões, para a levar a temer ou esperar, aceitar ou recusar, aquilo que bem entenderem. VI. Mas, o quarto meio, que consiste em ter pregadores e recorrer a homens bem falantes, é o mais curto e eficaz, pois não há nada que não se possa conseguir sem esse estratagema. A força da eloquência, e de uma expressão embelezada e engenhosa, entra com tal prazer nos ouvidos que é preciso ser-se surdo ou mais esperto que Ulisses para não se sucumbir ao seu encanto; deste modo, é verdade que tudo o que os poetas escreveram sobre os dozes trabalhos de Hércules tem a sua mitologia nos diversos efeitos da eloquência, por meio dos quais este homem dirimia todo o género de dificuldades; tiveram, por isso, razão os Gauleses, ao representá-lo com muitas pequenas cadeias de ouro, que lhe saíam da boca e se prendiam nas orelhas de uma grande multidão que assim arrastava consigo. Para falarmos apenas da nossa França, não é do conheci-

Nota Ádvena – Há quem traduza o termo “fogo” a significar “residência de uma família, lar, casa de morada”. Em face ao contexto do parágrafo – defender-se – salvo melhor juízo, “armas de fogo” me soa mais adequado. Entretanto, na edição francesa de 1775 não consta esta passagem.

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mento geral que essa famosa cruzada, levada a cabo com tanto zelo por Godefroy de Bouillon, foi preparada e conseguida pelas arengas e prédicas de um único homem apelidado Pedro, o Eremita, como a segunda, pelas de São Bernardo? Que acrescentar? Houve homicídio mais vil e mais abominável do que o de Luís, Duque de Orleães, perpetrado, em 1407, pelo Duque de Borgonha? Não obstante, mestre Jean Petit, teólogo e grande predicador, arranjou maneira de o paliar, abafar e disfarçar com os sermões que fez em Paris no adro de Notre-Dame, de tal forma que aqueles que queriam defender o partido da Casa de Orleães eram tidos pelo povo como amotinados e rebeldes; o que os forçou a recorrer ao mesmo artifício, pondo-se sob a protecção desse grande homem de bem Jean Gerson, que os defendeu, e conseguir que o Concílio de Constança declarasse a posição sustentada por Petit herética e errónea.

Mas, como Jean Petit provocara um grande mal no reinado de Carlos VI, houve um Frei Ricardo, Cordoeiro no tempo de Carlos VII, que foi também causa de um grande bem; pois, em dez prédicas de seis horas cada, feitas em Paris, conseguiu que fosse queimado, em fogueiras expressamente ateadas nos cruzamentos das ruas, tudo quanto havia de mesas, tabuleiros, cartas, berlindes, bilhares, dados e outros jogos de azar ou de sorte, que levam e obrigam os homens a jurar e a blasfemar; mas, mal este bom homem saíra de Paris, já começavam a menosprezá-lo e a gozá-lo abertamente, e o povo voltou, com maior afinco, a esses reles divertimentos. Nem mais nem menos do que duravam as metamorfoses estranhas e as conversões, por assim dizer, milagrosas, que, ainda há menos de vinte anos, fazia o Padre Capuchinho Giacinto da Casale por todas as cidades de Itália onde pregava, que só duravam o tempo que o Padre permanecia nas cidades para cumprir as suas funções.

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VII A quinta invenção, que foi sempre a mais frequente e subtilmente praticada, consiste em empreender, em nome da religião, o que mais nada poderia validar e legitimar. Com efeito, o provérbio habitualmente ursupado pelos Judeus, in nomine Domini committitur oinne malum71, não é menos verdadeiro do que a observação do Papa Leão, ao Imperador Teodósio, privatae causae pietatis aguntur obtentu, et cupiditatum quisque suarum religionum habet velut pedisequam72. Uma vez que os exemplos são tão vulgares, de que todos os livros estão cheios, limitarme-ei, após ter falado bastante dos nossos Franceses, aos Espanhóis, seguindo pontualmente Juan de Mariana, o mais fiel dos seus historiadores. Ele diz, então, referindo-se
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aos primeiros Godos que ocuparam a Espanha, e às guerras que efectuavam para correrem uns com os outros, que estes se serviam da religião como pretexto para reinar, e o seu refrão usual era optiinum fore judicavit religionis pretextam73, referindo-se ao Rei Sisinando, que pediu ajuda aos Borgúndios arianos para afastar o rei Suintila; e, quando trata dos Reis de Chintila, con species religionis obtenderetur74; como ao descrever de que modo Erviges perseguiu o Rei Vamba, Optimum visum est religionis speciem obtendere75; e, quando dois irmãos da casa de Aragão, violento imperiosi Pontificis inandato76, pegaram em armas um contra o outro, este bom padre nota, com pertinência, que nada havia de mais inumano do que violar assim as Leis da natureza, sed tanti fides reli73

Sob o nome de Deus comete-se toda a sorte de mal. 72 Tratam-se os assuntos privados a coberto da religião que cada um põe ao serviço das suas ambições.

Considerou que o pretexto da religião seria muito bom. Livro VI, Cap. V. 74 Quando se fazia parada da religião. Cap. V. 75 Foi considerado bastante bom fazer parada da religião. Cap. VII. 76 Por uma ordem violenta que um papa imperioso deu. (Era Bonifácio VIII).

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gioque fuere77; e o mesmo, ainda falando da Navarra, que Fernando immensa imperandi ambitione78, destituiu a sua própria sobrinha, acrescenta como desculpa, sed species religionis praetexta facto est, et Pontificis jussa79. Mas por que não teria fim a alegação de todas as passagens onde este corajoso autor Mariana fez considerações semelhantes, atesto que o seu livro está todo cheio delas. Passando a Carlos V, apresentarei como prova contra ele o que Francisco I dizia, na sua apologia de 1573, que Carlos quer invadir os Estados sob as cores da religião. Falando da guerra da Alemanha, o imperador, a cobro da religião, e armado com a Liga dos Católicos, quer oprimir o outro e abrir caminho para a coroa, o que foi assaz justamente notado pelo Senhor de Nevers.
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Finalmente, quando o falecido rei Tiago foi chamado à coroa de Inglaterra, o rei de Espanha apressou-se a estabelecer uma estreita aliança com ele; enviou o Condestável de Castela, assinou o acordo, e Rovídio, senador de Milão, declara que essa aliança é uma obra pia, reconhece o rei de Inglaterra como um mui santo príncipe cristão, põe à sua disposição, da parte do seu senhor, todas as forças marítimas e terrestres, e clama que o rei de Espanha o faz divina adinonitione, divina voluntate, divina ope, non nisi magno Dei beneficio.80 Como é da natureza da maioria dos príncipes tratar a religião como charlatães, e de dela se servirem como de uma droga para manter o crédito e a reputação das suas comédias, não se deve, parece-me, censurar um político por recorrer a tal expediente, mesmo que seja mais honesto dizer o contrário, e que, para falar correctamente,
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Mas a fé e a religião tiveram tanta força. Livro II. Cap. 1. 78 Pela imensa ambição que ele tinha de mandar em todos. 79 Mas cobriu-se com o pretexto da religião e das ordens do Papa. Livro XXV, Cap. Ultimo.

Por um aviso divino, pela vontade divina, pela assistência divina, e como uma grande graça de Deus.

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Non sunt haec dicenda palain, prodendaque vulgo, Quippe hominum plerique mali, plerique scelesti81. E já chega, na minha opinião, para realizarmos a nossa apologia junto daqueles que nos acusam de termos ido demasiado longe. Retomemos agora o fio do nosso discurso, que nos desculparão de termos interrompido desta maneira. Com efeito, para lá de os extractos de Pierre Charron e Gabriel Naudé, que apresentámos, serem excelentes, não podiam convir melhor ao fim que nos propusemos neste escrito, o de combater a superstição. Para vos curardes desta doença, lede o que se segue com um espírito aberto, mas lede com atenção, e sentireis infalivelmente que se trata da pura verdade.
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Não se deve descobrir nem revelar tais coisas ao povinho, visto que entre os homens há tantos malvados e celerados. Palingenius, in Libra.

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CAPÍTULO XVIII VERDADES SENSÍVEIS E EVIDENTES I. Moisés, Numa Pompílio, Jesus Cristo e Maomé, tendo sido como os apresentámos, é certo que não é, nem nas leis, nem nos seus escritos que se deve procurar a verdadeira ideia de Deus. As aparições e as conferências divinas do primeiro, do segundo e do último e a filiação divina do terceiro são imposturas de que vos deveis afastar, se amardes a verdade. II. Deus é um ser simples, ou uma extensão infinita, que se assemelha ao que contém, quer dizer, que é material, sem, contudo, ser nem justo, nem misericordioso, nem invejoso, nem nada do que se imagina, e que, por conseguinte, não é nem castigador nem remunerador. Esta ideia de castigo e recompensa só tem cabimento no espírito dos ignorantes, que não concebem este ser simples, ao qual se chama Deus, senão com imagens que nada têm a ver com ele. Mas, aqueles que se servem do entendimento, sem misturar as suas operações com as da imaginação, e que têm a força de se desfazer dos preconceitos de uma má educação, são os únicos a ter uma ideia sã, clara e distinta. Estes encaram-no como a origem de todos os seres que produz sem distinção, um não sendo mais do que outro ao seu olhar, e não lhe custando mais a produzir um homem do que um verme ou uma flor. III. Por isso, não se deve acreditar que esse ser simples e extenso, que é o que habitualmente se chama Deus, faça mais caso de um homem do que de uma formiga, de um leão que de uma pedra, e de qualquer outro ser do que de um feto. Que aos seus olhos nada haja de belo, nem de feio, de bom, nem de mau, de perfeito, nem de imperfeito...

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Que queira ser louvado, solicitado, procurado, adulado. Que se emocione com o que os homens fazem ou dizem, susceptível de amor e de ódio, em suma, que pense mais no homem do que no resto das criaturas, seja lá de que natureza forem. Todas estas distinções não passam de puras invenções de um espírito limitado. A ignorância inventou-as e o interesse fomentaas. IV. Assim, qualquer homem que faça bom uso da razão não acreditará nem no céu nem no inferno, nem na alma, nem nos Deuses, nem nos diabos, da maneira como deles se fala vulgarmente. Todos estes palavrões foram forjados apenas para cegar ou para intimidar o povo. Ficareis convencidos disto, se vos derdes ao trabalho de regredir connosco à fonte do erro que originou as falsas ideias que foram associadas a estas palavras e se as substituirdes pelas verdadeiras. V. Uma infinidade de astros que vemos acima de nós levaram-nos a admitir a existência

de corpos sólidos onde eles se movem, de entre os quais houve um destinado à corte celeste, onde Deus é como um rei no meio dos seus cortesãos. Foi aí que se estabeleceu o lugar dos bem-aventurados, e onde se finge que as boas almas são elevadas, ao abandonarem o corpo e este mundo. Mas, sem nos determos numa opinião tão frívola, que nenhum homem de bom senso admite, é certo que o que se chama céu mais não é do que a continuação do nosso ar mais subtil e mais depurado, onde esses astros se movem sem serem sustentados por qualquer massa sólida do mesmo modo que a terra, que está efectivamente suspensa no meio do espaço, é movida e agitada. VI. Como se imaginou um céu que é, ao que se diz, a morada de Deus e dos bemaventurados, como para os pagãos os Deuses e as Deusas, representou-se, como eles, um inferno ou um lugar subterrâneo, onde se diz que descem as almas dos maus

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depois da morte, para aí serem atormentadas. Porém, esta palavra inferno, tomada em sentido próprio e natural, não indica senão um lugar baixo, que os poetas inventaram para opor à morada dos habitantes celestes, a qual

supunham bem alta e elevada. É o que designa a palavra Inferus ou Inferi, em Latim e o Hades em Grego, ou seja, um lugar obscuro, tal como um sepulcro, ou qualquer outro lugar baixo e tenebroso.

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CAPÍTULO XIX DA ALMA I. A alma é uma coisa mais delicada e difícil de tratar do que o céu e o inferno. Por isso, justifica-se que, para satisfazer a curiosidade do leitor, dela falemos mais demoradamente. Para esse efeito, antes de dizer o que é, relataremos o que pensaram os mais antigos filósofos, e fálo-emos em poucas palavras, para que seja retido com maior facilidade. rebro e se distribui pelos nervos. De modo que a origem da alma, segundo estes últimos, é o coração, onde se engendra, e o cérebro é o lugar onde realiza as funções mais nobres, por aí estar mais depurada das partes espessas do sangue. Enfim, houve quem negasse a existência das almas. Eis as principais opiniões que os antigos filósofos tinham sobre a alma. Para torná-las mais compreensíveis, distinguiremos aqueles que a consideraram corpórea daqueles que a consideraram incorpórea.

Uns disseram que a alma é um espírito ou uma substância imaterial, outros, uma parcela da divindade. Alguns, um ar muito subtil, alguns outros, um vento quente, outros, um fogo, outros, um II. Pitágoras e Platão dissecomposto de água e fogo. ram que a alma era incorpóEstes, um conjunto fortuito de rea, isto é, capaz de subsistir átomos, e, aqueles, um com- sem a ajuda do corpo, e que posto de partes subtis, que se pode mover-se por si mesma. evaporam e exalam quando o Que todas as almas individuhomem morre. Houve quem a ais dos animais são partes da fizesse consistir na harmonia alma universal do mundo. de todas as partes do corpo, e, Que estas partes são incorpóoutros, na parte mais subtil do reas, imortais e de mesma sangue, que se separa no cé120

natureza dessa alma universal de que são partes, semelhantes a cem pequenos fogos, que têm a mesma natureza daquele maior de que foram tirados. III. Estes filósofos acreditavam que o universo estava animado por uma substância imaterial invisível, que tudo sabia, que estava em constante movimento e que, nos seus sistemas, era a fonte de todo o movimento existente no mundo e de todas as almas que, segundo eles, são partículas dessa substância. Ora, como essas almas são muito puras e infinitamente acima dos corpos, não se unem, dizem, directamente, mas através de um corpo subtil, depois, de um outro mais grosseiro, e assim sucessivamente, até se poderem unir aos corpos sensíveis dos animais, nos quais entram, como em prisões ou sepulturas. A morte da alma, acrescentam, é a vida do corpo, no qual aquela está como que sepultada, e onde só muito fracamente exerce as suas funções mais nobres. Ao contrário, a morte do corpo é, segundo eles, a

vida da alma, porque se liberta da prisão, livra-se da matéria e volta a unir-se à alma do mundo da qual saíra. Assim, segundo esta concepção, todas as almas dos animais são da mesma natureza, e a diversidade das suas funções resulta apenas da diferença entre os corpos nos quais entram. Aristóteles, para além da alma do mundo, admite um entendimento universal, comum a todos os homens, que opera, em relação aos entendimentos particulares, como a luz em relação aos olhos, de forma que, como a luz torna os objectos visíveis, o entendimento universal torna os objectos inteligíveis. Este filósofo, que estabelece os quatro elementos como princípios de todas as coisas, não podendo relacionar as operações da alma com nenhum dos elementos, acreditava que havia um quinto princípio, que seria a sua origem. Não atribuiu propriamente um nome a esse quinto princípio; mas atribuiu um novo à alma, que significa um movimento perpétuo ou uma potência que se move

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eternamente, e define-a como o que nos faz viver, sentir, conceber e mover. Mas, como não diz o que é esse ser que é a origem e o princípio dessas nobres funções, não é nele que encontramos o esclarecimento das dúvidas que temos sobre a natureza da alma. IV. Dicearco, Asclépio e, em certo sentido, Galeno, também conceberam a alma incorpórea, mas de outro modo. Com efeito, afirmaram que não se tratava de outra coisa senão da harmonia de todas as partes do corpo, ou seja, o que resulta da mistura exacta dos elementos e da disposição das partes, dos humores e dos espíritos. Assim, dizem, como a saúde não é parte daquele que está saudável, ainda que esteja nele, do mesmo modo, ainda que a alma esteja no animal, não é uma das suas partes, mas um mútuo acordo de todas aquelas que o compõem. O que nos leva a notar que estes autores crêem a alma incorpórea com base num princípio oposto à sua intenção. Pois afirmar que não se trata de um corpo, mas apenas de algo inseparavel-

mente ligado ao corpo, quer dizer, em boa escolástica, que é completamente corpórea, uma vez que se chama corpóreo não só o que é corpo, mas tudo o que é forma e acidente que não possa ser separado da matéria. Eis os nomes daqueles que acreditaram ser a alma incorpórea ou imaterial que, como vedes, não estão de acordo consigo mesmos e por conseguinte não merecem crédito. Passemos aos que ensinaram que ela era um corpo. V. Diógenes acreditou que a alma era feita de ar, como se infere da necessidade de respirar, e define-a como um ar que passa da boca pelos pulmões para o coração, onde é aquecido e, a partir daí, distribuído pelo corpo. Zenão, fundador da seita dos Estóicos, acreditou que a alma ou o espírito era um fogo. Leucipo e Demócrito também o seguiram nesta concepção, mas acrescentaram que, como o fogo, é composta de átomos que penetram facilmente nas partes do corpo e o fazem mover.

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Hipócrates afirmou que ela era composta por água e fogo, Empédocles pelos quatro elementos. Epicuro acreditou, como Demócrito, que a alma é composta de fogo, mas acrescentou que nesta composição entra ar com vapor e uma outra substância que não tem nome e que é o princípio do sentimento. Que destas quatro substâncias diferentes formase um espírito muito subtil, que se espalha pelo corpo, ao qual se deve chamar alma. Aristóxenes, filósofo e músico, afirmou que a alma é um acorde de todas as partes do corpo, ou uma harmonia semelhante à que resulta da diversidade das vozes e dos instrumentos que as acompanham. Todos estes filósofos, tendo notado que a alma crescia e perecia com o corpo; que era fraca na infância, vigorosa na força da idade, senil na velhice, sonhadora no sono, embrutecida na embriaguez, abatida na doença... e, para além do mais, que era corpórea, acreditaram, como aque-

les que viveram antes de Ferecides, que era mortal82. VI. Xenócrates, segundo Cícero83, negou a existência de almas, e Dicéarco pôs na boca de um velho chamado Ferérates que a alma não é senão um nome vão que nada significa. Que não existe nem alma, nem espírito, nem no homem, nem nos animais. Que essa potência, em virtude da qual agimos e temos consciência, é igual em tudo o que vive, que é inseparável do corpo, e que mais não é do que o próprio corpo, modificado de tal modo que subsiste pelo temperamento que a natureza lhe deu. VII O senhor Descartes de82

Ferecides, nativo da ilha de Ciros, que viveu no reinado de Sérvio Túlio, sexto rei de Roma, foi, segundo relato de Cícero (Tusculantis, Livro I), o primeiro dos filósofos que sustentou que as almas eram imortais. Foi seguido por Pitágoras, seu discípulo, que esteve em Itália no reinado de Tarquínio, o Soberba. Mais de cem anos depois, Platão, tendo frequentado durante a sua viagem a Itália os filósofos pitagóricos, e entre outros, Filolau, Eurito, Arquitas e Timeu, não só acolheu o pensamento de Pitágoras sobre a imortalidade da alma como imaginou novas razões para sustentar esse ponto de vista. 83 Tusculanas, Livro I, cap. X.

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fende, mas lamentavelmente, que a alma não é material. Digo lamentavelmente, pois nenhum filósofo pensou tão mal sobre este assunto como este grande homem. Eis o modo como defende a imaterialidade da alma. Desde logo, diz, é necessário duvidar da existência de todos os corpos, e acreditar que não existe uma tal coisa, depois raciocinar do seguinte modo: não há corpo, portanto não sou um corpo, por conseguinte só posso ser uma substância que pensa. Primeiro, a dúvida que instala é completamente impossível, pois, se bem que, por vezes, possamos pensar que não existem corpos, é, no entanto, impossível duvidar de que existam, quando pensamos neles. Segundo, quem acredita que

não há corpos deve certificarse de que não tem um, ninguém podendo duvidar de si. Ora se se certificou, a dúvida é inútil. Terceiro, quando diz que a alma é uma substância, ou uma coisa que pensa, não nos está a dizer nada de novo, pois é o que qualquer um aceita. A dificuldade está em determinar o que é essa substância que pensa; e ele não o explica. VIII. Para não enviesar, como ele fez, e para dar a ideia mais sã possível da alma, fazemos notar que, antes de mais, ela tem a mesma natureza nos animais e no homem, e que a diversidade das suas funções decorre apenas da diferença dos órgãos e dos humores. Posto isto, eis o que, segundo pensamos, é a alma.

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CAPÍTULO XX O QUE É A ALMA I. É certo que existe no mundo um espírito muito subtil, ou uma matéria muito depurada e sempre em movimento, que tem origem no Sol e que está espalhada por todos os outros corpos, mais ou menos, segundo a natureza deles ou a sua consistência. Eis o que é a alma do mundo, eis o que o governa, o que o vivifica, e cujas partes são distribuídas por aquilo que o compõe. II. Esta alma é o fogo mais puro que existe no universo, não arde por si próprio, mas arde e faz sentir o seu calor, graças aos vários movimentos que imprime às partículas dos outros corpos, onde está inserto. O fogo visível contém uma maior quantidade desse espírito que o ar, este que a água, e a terra tem muito menos. Entre os mistos, as plantas têm mais do que os minerais e os animais ainda mais. Por fim, este fogo, estando fechado nos corpos, torna-os capazes de sentimentos; e é o que se chama alma, ou espíritos animais, que se espalham por todas as partes do corpo. III. Não há, portanto, dúvida de que esta alma, sendo de natureza idêntica em todos os animais, se dissipa com a morte do homem tal como dos animais. Do que se segue, que o que poetas e teólogos nos cantam sobre o outro mundo é apenas uma quimera que forjaram e debitaram por razões que não é difícil adivinhar.

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CAPÍTULO XXI SOBRE OS ESPÍRITOS CHAMADOS DEMÓNIOS I. Apesar de termos falado amplamente da maneira como a crença nos espíritos se introduziu entre os homens, e de termos mostrado que esses espíritos não passavam de fantasmas existentes apenas na imaginação, no entanto, como os homens fizeram dessa crença um artigo fundamental da sua religião, considerámos pertinente tratar o assunto de uma maneira mais aprofundada. Para o efeito, analisaremos o que os filósofos e os poetas do paganismo acreditaram sobre os espíritos, mostraremos que os Judeus foram aí buscar as suas crenças e os Cristãos herdaram-nas destes. Por fim, provaremos aos Cristãos, pelos seus próprios princípios, que não existe Diabo. fantasmas; no entanto, não deixavam de lhe dizer o que pensavam. Uns, vendo que se dissipavam e não tinham qualquer consistência, chamavam-lhes imateriais, incorpóreos, formas sem matéria, cores e figuras, sem serem, contudo, corpos, nem coloridos, nem figurados, acrescentando que podiam revestirse de ar, como de um hábito, quando queriam tornar-se visíveis aos olhos dos homens. Os outros diziam que eram corpos animados, mas feitos de ar ou de uma outra matéria mais subtil, que espessavam à vontade quando queriam aparecer.

III. Se estes dois tipos de filósofos se opunham, quanto à concepção que tinham dos fantasmas, estavam de acordo sobre os nomes que lhes atriII. Os antigos filósofos não buíam: todos lhes chamavam estavam suficientemente es- demónios. No que erravam, clarecidos para explicar ao tão grosseiramente quanto povinho o que eram esses aqueles que crêem ver a dormir as almas dos defuntos, ou 126

a sua própria alma, quando se olham num espelho, ou que as estrelas que vêem reflectidas na água são as almas dessas estrelas. IV. Depois desta imaginação disparatada, caíram num erro não menos intolerável, quando acreditaram que esses fantasmas tinham um poder ilimitado. Crença absurda, mas comum entre os ignorantes que julgam que o que desconhecem é um poder infinito. V. Mal esta ridícula opinião tinha sido divulgada, já os soberanos a usavam para apoiar a sua autoridade. Instituíram uma crença, no tocante aos espíritos, à qual chamaram religião, a fim de que, como já insinuámos, na senda de um célebre historiador da Antiguidade84, a fim
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de que, dizia, o temor que os povos teriam dessas potências invisíveis os subjugassem. E, para lhe dar ainda maior peso, distinguiram os demónios em bons e maus, aqueles, para incitar os homens a cumprir as suas Leis, estes, para os conter e impedir de infringilas. Mas, para ter uma ideia do que são os demónios, basta ler os poetas gregos, e sobretudo o que deles diz Hesíodo na sua Teogonia, onde trata amplamente da geração e origem dos Deuses. VI. Os Gregos foram os primeiros a inventá-los, e, a partir das suas colónias e vitórias, transmitiram-nos à Ásia, ao Egipto e à Itália. Foram os Judeus, dispersos por Alexandria e outros lugares, que tiveram conhecimento deles. Serviram-se deles com sucesso, como os outros povos; mas com esta diferença: que não lhes chamaram demónios, como os Gregos, aos bons e aos maus espânicos do outro mundo, que os antigos introduziram com tanta prudência para esse efeito.

Foi Polibio. É preciso, disse, confessar que se fosse possível formar uma república só com homens sábios, todas as opiniões fabulosas sobre os Deuses e os Infernos seriam completamente supérfluas. Mas como não há Estados cujo povo não seja como o vemos, sujeito a toda a espécie de desregramentos e de acções malévolas, é necessário recorrer, para o reprimir, aos medos imaginários que a religião inculca, e aos terrores

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píritos indiferentemente; mas só aos maus, reservando a um único demónio bom o nome de Espírito de Deus, e chamando Profetas os que tinham esse bom espírito. Para além disso, chamavam Espírito Divino o que se lhes afigurava ser um grande bem, e Cacodemónio, espírito maligno, ao invés, o que estimavam um grande mal. VII. Esta distinção entre bons e maus espíritos levou-os a chamar demoníacos aos que nós chamamos lunáticos, insensatos, furiosos, epilépticos, bem como aqueles que falavam uma linguagem desconhecida. Um homem mal feito e mal cuidado estava, na opinião deles, possuído por um espírito imundo, um mudo, por um espírito mudo... Enfim, estes termos tornaram-se-lhes tão familiares que os usavam em todas as ocasiões. De onde se torna evidente que os Judeus acreditavam, como os Gregos, que os fantasmas não eram puras quimeras ou visões, mas seres reais, que existiam independentemente da imaginação.

VIII. Daí que a Bíblia esteja recheada dessas palavras, espíritos, demónios, demoníacos. Mas nada diz sobre como ou quando foram criados. Omissão que não se pode perdoar a Moisés, o qual, ao que se diz, se imiscuiu na explicação da criação do céu e da terra, dos homens, dos animais... E Jesus Cristo não tem maior desculpa, pois, tendo constantemente falado de anjos e de espíritos bons e maus, nunca disse se eram materiais ou imateriais; o que mostra claramente que ele não sabia mais do que aquilo que os Gregos tinham ensinado aos seus antepassados. Que, se sabia mais alguma coisa, é tão reprovável que não o tenha ensinado aos homens, como o é recusar a todos a virtude, a fé e a piedade que garante poder dar-lhes. Mas, para voltar aos espíritos, não há dúvida de que estas palavras, demónio, Satã, diabo, não são nomes próprios que designassem um indivíduo, e que só os ignorantes puderam acreditar nisso com base na palavra dos Gregos, que as inventaram, e dos Judeus, que

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as adoptaram. Depois de estes terem sido infectados, atribuíram esses nomes, que significam malvado, enganador, manhoso, adversário, inimigo, acusador, caluniador, destruidor, exterminador... ora às potências invisíveis ora aos seus próprios inimigos, ou seja, aos Gentios, que diziam habitarem o reino de Satã, só eles, na sua opinião, habitando o de Deus. IX. Como Jesus Cristo era judeu, e, por conseguinte, estava imbuído destas opiniões insípidas que a sua nação roubara aos Gregos, lê-se por todo o lado nos Evangelhos, e nos escritos dos seus discípulos, estas palavras de diabo, de Satã, de inferno, como se fossem uma coisa real e efectiva. Quando a verdade é que, como já o mostrámos, nada é mais visionário. Mas, se o que dissemos ainda não chegar para o provar, basta-nos duas palavras para convencer os mais opiniosos. Todos os Cristãos estão de acordo com que Deus é o primeiro princípio e a origem

de todas as coisas, que as criou, que as conserva e que sem a sua ajuda cairiam no nada. Seguindo esta premissa, é certo que Deus criou o que se chama Diabo e Satã, tal como o fez com todas as outras criaturas. E, quer o tenha criado bom ou mau, o que não vem ao caso, segue-se que, se ele subsiste, por pior que seja, como se diz, só pode ser por meio e permissão de Deus, que o quer. Ora, como se pode conceber que Deus mantenha uma criatura, que não só o amaldiçoa sem parar mas o odeia mortalmente; mais, que se esforça por debochar os seus amigos, pelo prazer de o amaldiçoar com uma infinidade de bocas? Como, digo, se pode compreender que Deus sustente, conserve e deixe subsistir o Diabo, para que este lhe faça o pior possível, o destrone se puder, e afaste do seu serviço os seus eleitos e favoritos? Qual é o objectivo de Deus com isto tudo? Ou, antes, o que se pretende, quando se fala de Diabo e de Inferno? Se Deus pode tudo, e nós nada podemos sem ele, como é que

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o Diabo acabou por odiá-lo, amaldiçoá-lo e roubar-lhe os amigos? Ou ele está de acordo, ou não está; se está, é certo que o Diabo, ao amaldiçoá-lo, está a fazer o que deve, pois só pode o que Deus quer, e, por conseguinte, não é o Diabo, mas o próprio Deus que se amaldiçoa pela boca do Diabo, o que, na minha opinião, é completamente absurdo. Se não concorda, é falso que seja todo poderoso. E se não é todo poderoso, será necessário admitir não um, mas dois princípios, um para o bem e o outro para o mal, um, que quer uma coisa, e o outro, que quer e faz o oposto. Onde leva um tal raciocínio? A confessar, sem réplica, que não existe nem Deus, nem Diabo, nem alma, nem céu, nem inferno, da maneira como os pintam, e que os teólogos, quer dizer, aqueles que debitam fábulas como se fossem verdades divinamente reveladas, são todos, à excep-

ção de alguns, ignorantes, pessoas de má-fé, que abusam maliciosamente da credulidade do povo, para insinuar o que lhes agrada, como se o vulgo só fosse capaz de quimeras, ou tivesse de ser alimentado com essas carnes sensaboronas, onde só se encontra o vazio, o nada, a loucura, e nem um grão do sal da verdade e sabedoria. De há muito que estamos enfatuados com esta máxima absurda que a verdade não foi feita para o povo e que ele não é capaz de a conhecer; mas, em todas as épocas, também houve espíritos sinceros, que se opuseram a uma tamanha injustiça, como nós o fizemos neste pequeno tratado. Os que amam a verdade nele encontrarão, sem dúvida, uma grande consolação; e é só a estes que queremos agradar, sem nos preocuparmos minimamente com aqueles para quem os preconceitos são oráculos infalíveis.

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FIM

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