01/11/13

Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional | Chá com bolachas...

Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional 30abr07
Trabalho escrito como conclusão do Grupo de Estudos de Economia Política Internacional Leonardo Fontes

Chá com bolachas…

Introdução

O objetivo deste trabalho é tentar oferecer uma conceitualização alternativa da idéia de hegemonia, criticando a “teoria da estabilidade hegemônica” de Gilpin e Kindleberger. Para tanto, partiremos da idéia de que toda teoria tem uma função social, pois parte de alguma visão específica da sociedade e, portanto, não pode ser chamada de neutra. Da mesma forma, destacaremos a diferenciação entre uma teoria que pretende manter o status quo, apenas se preocupando com o seu funcionamento adequado e uma teoria que busca encontrar as formas possíveis de transformação da realidade. Assim, após uma breve apresentação da teoria em discussão e das críticas contra ela levantadas, pretendemos esboçar uma nova idéia a respeito da hegemonia no sistema internacional. A partir da idéia de Antonio Gramsci de uma hegemonia da classe dominante, que combina coerção e consentimento, sendo portanto, uma hegemonia muito mais do que militar e econômica, mas uma hegemonia das idéias, tentaremos, apoiado nas idéias de Robert Cox, transplantar essa hegemonia para o cenário mundial. A conclusão deste trabalho vai no sentido de entender a teoria da estabilidade hegemônica como normativa e defensora da ordem vigente. Ao contrário, o conceito de hegemonia Gramsciano está muito mais preocupado com as mudanças no sistema, podendo assim ser classificado como uma “teoria crítica da sociedade”.

Neutralidade e Normatividade nas Ciências Humanas

Antes de tudo, é importante que esteja claro o ponto de onde partiremos. Para tanto, é fundamental distinguir dois conceitos diferentes de ciência que irão guiar este trabalho. O primeiro, nas palavras de Max Horkheimer é definido como “teoria tradicional”, e seria “uma sinopse de proposições de um campo especializado, ligadas de tal modo entre si que se poderiam deduzir de algumas dessas teorias todas as demais.” Ainda segundo o mesmo autor, a validade dessa teoria residiria “na consonância das proposições deduzidas com os fatos ocorridos.[1]” Nesse sentido, “Na medida em que o conceito de teoria é independentizado, como que saindo da essência interna da gnose, ou possuindo uma fundamentação a-histórica, ele se transforma em uma categoria coisificada e, por isso, ideológica[2]”
chacombolachas.wordpress.com/2007/04/30/hegemonia-e-a-normatividade-na-economia-politica-internacional/ 1/10

O grande erro a que incorre essa ciência está em separar o indivíduo da sociedade.] O mundo é visto a partir de um ponto de vista definível em termos de classe. não é neutro. já que está objetividade é uma concepção do mundo.wordpress. o segundo tipo de ciência que vamos tratar neste trabalho. Essa separação é inviável do ponto de vista da “teoria crítica”. tentar separa ser e pensar. isso seria uma contradição em si. pois mesmo suas decisões aparentemente mais neutras e individuais seriam influenciadas por suas experiências e expectativas sociais. Pois “o cientista e sua ciência estão atrelados ao aparelho social. Cox pretende demonstrar aqui o mesmo que vem sendo argumentado neste trabalho. No entanto.01/11/13 Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional | Chá com bolachas. que independa dos pontos de vista particulares ou de grupo.com/2007/04/30/hegemonia-e-a-normatividade-na-economia-politica-internacional/ 2/10 . Assim. Cox diferencia dois propósitos diferentes a que podem servir uma teoria: ser um guia para ajudar a resolver problemas colocados dentro dos termos de uma perspectiva particular. independentemente daquilo que imagina a respeito disso. reificando todo o existente. pois ao considerar a gênese dos fatos e a aplicação prática de seus conceitos como algo exterior.[6]” Assim. de um senso de imobilidade ou de crise presentes de experiências passadas e de esperança e expectativas para o futuro. argumenta de forma clara e concisa que toda “teoria é sempre para alguém e para algum propósito[5]”. compartilha da mesma opinião ao afirmar que “é um erro exigir da ciência como tal a objetividade do real. a própria idéia de que exista essa objetividade é também “uma concepção particular de mundo. de potência ascendente ou decadente. para o autor. por mais que o cientista deseje. O primeiro tipo é o que o autor denomina de problem-solving (que chamaremos aqui de teoria de “resolução de problemas”) que ao tomar o mundo como um dado. Por sua vez. é na separação entre valor e ciência. Dessa forma. ele distingue dois tipos de teoria a partir desses propósitos. suas realizações constituem um momento de auto-preservação e da reprodução contínua do existente. portanto.. atividade e matéria ou sujeito e objeto é cair em uma “forma de religião” ou em uma “abstração sem sentido”. que nenhuma teoria pode se considerar neutra. não é possível a existência de um ponto de vista neutro.[4]” Para Gramsci. Antonio Gramsci. para Gramsci. uma ideologia.. ele não é capaz de se desvencilhar de sua posição política e social dentro da sociedade. em separar o sujeito pesquisador do objeto pesquisado. existiria um “mecanismo social invisível” que impediria o pesquisador de agir segundo suas próprias decisões. Perspectivas derivam de uma posição no tempo e no espaço. entre o saber e o agir que se encontram os limites da teoria tradicional.. servir para a abertura de possibilidades de diferentes perspectivas cuja problemática se tornaria criar um mundo alternativo. Na visão da teoria crítica.. uma filosofia. com as relações de poder e as instituições nas chacombolachas. Robert Cox. essas separações são totalmente impensáveis do ponto de vista da racionalidade humana. ou pense estar.” Portanto. não podendo ser um dado científico. nacional ou social. pensador marxista italiano. Analogamente. pois “Toda teoria tem uma perspectiva. sem enxergar os caminhos para a transformação do presente. Isto que dizer que. homem e natureza. deixa de perceber a importância da história na construção da realidade. de dominação ou subordinação. ou partindo de um processo mais reflexivo. especificamente tempo e espaço social e político [. a objetividade seria uma “realidade que é verificada por todos os homens”.[3]” Ou seja. já que ao ser ponto de vista.

ao se perguntar como a ordem posta foi estabelecida. comprovado por sua primeira frase citada acima (“teoria é sempre para alguém e para algum propósito”). que toda ciência é feita a partir de uma certa visão e tem um determinado objetivo em sua elaboração. Assim.. a idéia de que não existe neutralidade nas ciências humanas. a teoria crítica que. a primeira tarefa que nos cabe é apresentar tal teoria e mostrar como ela realiza tal trabalho de falseamento da realidade. em algum grau. a estrutura de taxas de comércio exterior e as políticas monetárias domésticas dos países. Para Kindleberger. Segundo Kindleberger.01/11/13 Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional | Chá com bolachas. portanto. trata-se de “uma teoria da história. além de gerenciar. Por outro lado. ideológico[8] que serão explorados mais adiante. pois para ele a disputa teórica não está mais em provar que não existe ciência neutra. sobretudo. na visão do autor. a compreensão histórica e filosófica da ordem com o intuito de encontrar as saídas para a transformação e emancipação da humanidade. um nítido caráter normativo e. e que esse objetivo pode ser a resolução de problemas pontuais a fim de manter o status quo funcionando bem ou. O grande salto que Cox nos propõe é a divisão entre teoria de resolução de problemas e teoria crítica. A Teoria da Estabilidade Hegemônica: sua Normatividade e seus Problemas O passo seguinte de nossa argumentação irá no sentido de tentar mostra que a assim chamada “teoria da estabilidade hegemônica” se encaixa no conceito de Robert Cox de “problem solving” e tem. mas com as possibilidades para efetuar uma efetiva mudança no status quo. mas com o contínuo processo de mudança histórica..[7]” Portanto. 1929-1939” que busca na ausência de um “líder” que fosse capaz de garantir a estabilidade daquele momento. lidando efetivamente com fontes particulares de problemas. a inabilidade inglesa e a falta de condições ou de vontade dos Estados Unidos de assumir a responsabilidade pela estabilização do sistema foi o que tornou a crise tão ampla e tão longa. 3/10 Assim. Nesse sentido. o segundo tipo de teoria. a primeira preocupada com o funcionamento da ordem vigente e a segunda em busca de meio para transformar essa ordem estabelecida. para ele isto já está posto. Cox dá passo além do ponto de onde estávamos argumentando.com/2007/04/30/hegemonia-e-a-normatividade-na-economia-politica-internacional/ . tem como objetivo principal o bom funcionamento dessas relações e das instituições. na medida em que está preocupada não apenas com o passado. É a partir dessas duas perspectivas que parte nossa argumentação. se preocupando não com a manutenção do sistema. a liderança (note-se que o autor não usa o termo hegemonia) não chacombolachas. a estabilização do sistema deve se dar em três esferas distintas através da garantia de provisão de bens públicos nessas áreas: a manutenção de um mercado relativamente aberto para a troca de bens. ou seja que toda ciência é normativa na medida em que é capaz de forjar uma determinada realidade. quais elas são organizadas como estruturas prontas para ação. busca uma compreensão histórica da realidade. A idéia de que o mundo ou mais precisamente a economia política mundial precisava de “um estabilizador e apenas um estabilizador[9]” nasceu com Charles Kindleberger em seu famoso livro “The World in Depression.wordpress. a garantia de empréstimos de longo prazo contra-cíclicos. a saber. e a atuação como emprestador de última instância durante as crises.

Dessa forma.] Liderança pode ser pensada à primeira vista como persuasão de outros a seguir um dado curso de ação que não seria do interesse do seguidor no curto prazo se ele fosse verdadeiramente independente. Gilpin constrói seu argumento a partir da importância da estrutura na definição do comportamento dos atores. Diante disso. para incorporar valores altamente discutíveis e controversos como “bens públicos”. mas como uma idéia boa no sentido de garantidor da provisão de bens públicos e de responsabilidade. Segundo Gilpin. poder econômico e poder militar passaram a ficar muito próximos.. Gilpin constrói aqui uma armadilha do sistema mundial em que os Estados seriam compelidos a se comportar de forma agressiva. e a segunda afirma que “um Estado vai tentar mudar o sistema internacional se os benefícios esperados excederem os custos esperados[13]”. tais como o livre comércio e a livre mobilidade de capitais. pois o hegemon estaria em uma posição confortável de domínio sobre os demais. a britânica e a americana. a idéia de “liderança rejeita exploração e implica uma freqüente função crítica na provisão de bens públicos [. para isso ele se utiliza da definição de Kenneth Waltz[11]. se tornando sinônimos muitas vezes. que conheceu em Robert Gilpin seu máximo desenvolvimento. a teoria da estabilidade hegemônica. a estabilidade ou ausência de crises. enquanto que os demais países não teriam vontade nem condições de mudar esse sistema. Assim. sempre buscando dominar todo o sistema. Para ela. econômica e política. Assim.. o surgimento de sucessivas hegemonias mundiais..wordpress.com/2007/04/30/hegemonia-e-a-normatividade-na-economia-politica-internacional/ 4/10 “O poder hegemônico deseja e pode estabelecer e manter as normas e as regras de uma ordem . no pensamento de Gilpin. a única forma de que a estabilidade. No entanto. na leitura de Kindleberger. na visão do autor. segundo o qual a estrutura é definida pelo princípio ordenador (anárquico ou hierárquico). seja mantida é por meio de um Estado que assuma tal responsabilidade baseado em sua posição hegemônica. A consolidação dos Estados. o aumento da importância do crescimento econômico e dos avanços tecnológicos para distribuição da riqueza e do poder mundial e a criação de uma economia de mercado mundial permitiu.01/11/13 Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional | Chá com bolachas. a conseqüência imediata é que o único sistema internacional estável é um sistema hegemônico. a especificação das funções entre unidades e a distribuição das capacidades. com o advento do Estado-nação moderno abriu-se a possibilidade de conciliação entre o poder em larga escala (característico dos impérios) e a lealdade de seus membros (típico de organizações localizadas como as cidades-Estado ou feudos). pois os custos de enfrentar o hegemon seriam muito superiores aos possíveis benefícios advindos desse enfrentamento. assim. desejando manter o status quo. Robert Keohane foi quem chamou essa tese de “teoria da estabilidade hegemônica”. Assim.[10]” Portanto. ele parte de duas premissas fundamentais: a primeira é de que “um sistema internacional é estável se nenhum Estado acredita ser lucrativo tentar mudar o sistema[12]”. a liderança (note-se que o autor não usa o termo hegemonia) não deve ser vista com uma conotação negativa. no qual ele afirma que chacombolachas. é em seu outro livro “A Economia Política das Relações Internacionais” que fica mais claro o caráter ideológico da teoria desenvolvida por Gilpin. Em “War and Change in World Politics”. se aproveita de uma idéia tida como universalmente bem aceita..

um forte poder de persuasão. existiria uma contradição inerente à economia mundial liberal. dentro da dicotomia proposta por Cox. ao afirmar que “o crescimento e o dinamismo da potência hegemônica servem como exemplo dos benefícios do sistema de mercado. uma vez em funcionamento tende a criar uma dinâmica própria. como prevê a teoria da estabilidade hegemônica. mesmo nos momentos de maior legitimidade e paz hegemônica. ou “hegemonia internacional” ajudam a compreender a estabilização e o funcionamento “normal” do Sistema Mundial. Dessa forma. os conceitos de “liderança”. precisa ser mantido no longo prazo pelas ações da economia dominante[16]”. “A teoria da estabilidade hegemônica argumenta que uma economia de mercado aberto representa um bem coletivo ou público[15]”. o funcionamento do hiper-poder global norte-americano.. “O poder hegemônico deseja e pode estabelecer e manter as normas e as regras de uma ordem econômica liberal. Gilpin acredita que o mercado internacional. e com seu declínio essa ordem se enfraquece muito” e que “a ordem liberal não poderia florescer e alcançar seu pleno desenvolvimento sem a presença de um poder hegemônico[14]” Esta passagem é central para entender a normatividade da teoria de Gilpin que está no desejo de estabelecer e manter uma ordem plenamente liberal no mundo.com/2007/04/30/hegemonia-e-a-normatividade-na-economia-politica-internacional/ 5/10 . sem dúvida alguma. A grande dificuldade de explicação se encontra no paradoxo de que as principais crises do sistema foram provocadas pelo próprio poder que deveria ser seu grande pacificador e estabilizador. “Presume-se que um sistema econômico liberal não pode ser auto-sustentável . como se todos tivessem as mesmas condições de desenvolvimento em uma economia de livre mercado[18].. sem discutir a questão. ficando claro o sentido normativo da tese. A situação que se apresenta é de inteira preponderância de uma única potência (hegemon) que. depois de 1991. minando o poder hegemônico. ele deixa claro o caráter ideológico da teoria. seria capaz de funcionar como estabilizador mundial.01/11/13 Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional | Chá com bolachas. aqui explicita-se o caráter de solucionador de problemas de sua teoria. caso contrário não poderíamos chamá-la de ideológica. o que vemos é o chacombolachas. a função do hegemon é garantir o bom funcionamento do sistema liberal. portanto. Assim. Fiori deixa claro que a teoria da estabilidade hegemônica não consegue explicar o que vem ocorrendo no mundo atualmente. pois na ausência de qualquer verossimilhança ela não poderia se pretender verdadeira. No entanto. pois o funcionamento do sistema de mercado tende a destruir as bases em que ele foi estabelecido através da difusão do poder econômico. mas não dão conta das suas contradições e do desenvolvimento tendencial dos conflitos que existem e se mantém ativos. Da mesma forma.Ou seja. militar e tecnológico do núcleo para os países em ascensão situados na periferia ou em outras posições do sistema. idéia que ele toma à priori como algo bom. Contudo. ela deixa algumas perguntas não respondidas. Assim. funcionando como um motor de crescimento para o resto do sistema[17]”. pois por meio de um exemplo tenta-se falsear a realidade. Portanto. Por fim. José Luis Fiori[19] mostra que apesar do consenso que foi criado a respeito da estabilização do sistema internacional por um hegemon. Algumas perguntas não respondidas A teoria da estabilidade hegemônica tem. vem contradizendo estas teorias. principalmente se observarmos os últimos dez anos de nossa história.wordpress. Essa dinâmica leva a uma transformação do contexto político. Gilpin também parte da idéia de que a potência hegemônica é responsável pelo suprimento de bens públicos.

Da mesma forma. o que diminuiria seus custos. já que temos uma única grande potência internacional. que essa economia liberal possivelmente traga estabilidade para o sistema político e econômico internacional. controlada por essa potência e de regimes internacionais sob sua tutela.wordpress. de reverter as tendências de dispersão do poder e retomar o controle financeiro internacional através do que ela denominou de “diplomacia do dólar forte” que. mas sim na sua capacidade de enquadramento econômico financeiro e político-ideológico de seus parceiros. de 1979 para cá. Nesse sentido. o poder que os Estados Unidos ainda possuíam. a realidade mostra que os Estados Unidos. apesar da crise vivida nos anos 1970. o que mais uma vez coloca em questão se o que estamos vivendo é um sistema hegemônico. aumento das crises e guerras no sistema internacional. O funcionamento da hegemonia americana. presente na teoria da estabilidade hegemônica. como por exemplo. pode-se dizer que é ideológico o fato de a teoria partir de um conceito tido como universalmente aceito. Mas se for isso. ainda desfrutavam de plenas condições de comandar o sistema internacional e controlar o crescimento de seus principais adversários. deu aos Estados Unidos a capacidade de retomar a iniciativa. tem apresentado uma dinâmica de crescimento muito lenta e bastante concentrada em um número restrito de lugares. de que os “caronas” (free riders) seriam capazes de se aproveitarem das condições proporcionadas pelo hegemon para acelerarem seu desenvolvimento. através de sua política econômica interna e externa. apesar de ter mergulhado o mundo numa recessão generalizada. ou que ela gere benefícios a todos os participantes do sistema hegemônico.. ela mostra que esta vitória político-ideológica dos Estados Unidos após a década de 1980 foi precedida por um reenquadramento por parte do governo americano do movimento policêntrico que vinha tendo lugar a partir da transnacionalização dos capitais de origem norte americana. Japão e Alemanha. foi capaz. Tavares derruba a idéia. François Chesnais[21] mostra que a economia mundial. ela traz consigo uma série de outros elementos que são bastante discutíveis.01/11/13 Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional | Chá com bolachas. colocando os rumos da economia mundial nas mãos da potência hegemônica.com/2007/04/30/hegemonia-e-a-normatividade-na-economia-politica-internacional/ 6/10 . possibilitando a ação dos “caronas”. ela coloca como também universalmente aceito o fato de uma economia liberal proporcionar maiores condições de desenvolvimento a todos os países. então porque o crescimento é tão concentrado. a estabilidade. após a década de 1970. Igualmente. Por um Outro Conceito de Hegemonia chacombolachas. Pois a partir de algo que aparentemente é verdadeiro. segundo Tavares. o fato de uma potência hegemônica criar condições para o florescimento de uma economia “liberal”. Ou seja. Maria da Conceição Tavares[20] afirma que a questão da hegemonia americana não se centra nas capacidades econômicas e militares da potencia dominante. No entanto. a teoria da estabilidade hegemônica parece muito mais ter uma função ideológica nas relações internacionais atualmente. não deveria a economia liberal proporcionada pela potência hegemônica trazer um benefício mais generalizado? Portanto. a partir do início dos anos 1990 é uma pergunta que não pode ser respondida pela teoria da estabilidade hegemônica tal como está posta ultimamente. Assim. longe de apresentar uma explicação satisfatória do sistema mundial.. já que poderiam iniciar seu desenvolvimento tecnológico muitos passos à frente. mais do que em qualquer outra época.

recebem de Gramsci o nome de “intelectuais orgânicos do capitalismo”. Portanto. No caso americano. Assim.[22]” Assim. ao alcance de suas respectivas supremacias ideológica e cultural. mas sim da “hegemonia ideológica” sustentada por ele. A instabilidade que vemos em outras partes do mundo é decorrente da adaptação do sistema mundial a um sistema hegemônico que une coerção e chacombolachas. cultural – consegue manter articulado um grupo de forças heterogêneas. militar e tecnológico da principal grande potência. Em suma. que os outros Estados encontrem benefícios em participar dessa ordem. ou seja. para além do poderio econômico. a hegemonia não é meramente entre Estados. por isso. no sentido gramsciano. não sendo apenas política. no nível internacional. moral. Para realizar esse exercício teórico. os caminhos para essa quebra são diversos e vão além do objetivo deste trabalho. no seu princípio. Nesse sentido. a saída para a transformação do sistema mundial está na quebra da hegemonia ideológica dominante. Uma classe é hegemônica. ideológica.. Para além de proporcionar uma economia liberal. a estabilidade econômica e política que conhecemos durante o período da hegemonia britânica e da hegemonia americana se deveu. mas sendo também “um fato cultural. para se tornar hegemônico. consegue impedir que o contraste entre tais forças exploda. havia a crença generalizada pelos países participantes do sistema de que o liberalismo era o melhor sistema econômico para seu próprio desenvolvimento. não basta que ela seja liberal se não houver uma crença nos demais países do sistema de que a ordem liberal é a que lhes mais favorece. teremos mais uma vez que recorrer aos ensinamentos de Gramsci que afirma que a hegemonia é a “capacidade de unificar através da ideologia e de conservar unido um bloco social que não é homogêneo. trata-se de uma ordem dentro de uma economia mundial com um modo de produção que penetra em outros países e articula outros modos de produção subordinados. Há que se destacar também o papel dos intelectuais nesse sistema de dominação. ignorar o poder econômico e militar da potência hegemônica. um Estado teria que fundar e proteger uma ordem mundial que seja universal em sua concepção. não podemos.wordpress.01/11/13 Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional | Chá com bolachas. uma expansão externa de uma hegemonia nacionalmente estabelecida por uma classe dominante. de forma alguma.com/2007/04/30/hegemonia-e-a-normatividade-na-economia-politica-internacional/ 7/10 . uma vez que permitia aos Estados um desenvolvimento que o liberalismo defendido externamente pelos Estados Unidos não seria capaz de proporcionar. que leve à recusa de tal ideologia. o que pretendo propor aqui é uma ampliação do conceito de hegemonia. como propõem Robert Cox[24] sendo. provocando assim uma crise na ideologia dominante. Deste modo. mas sim marcado por profundas contradições de classe. Por ora. Diante disso. mas que ao mesmo tempo hegemonia e estabilidade não são duas coisas que andam tão próximas. A hipótese que pretendemos levantar nesta parte final do trabalho é que a suposta estabilidade trazida pela existência de um hegemon não advém da economia liberal que ele é capaz de proporcionar. até o momento em que – através de sua ação política. uma vez que são eles que produzem as teses que legitimam o sistema defendido pelo hegemon e. o que vem ocorrendo desde o início da década de 1990 é um fortalecimento da hegemonia americana. eles entram como símbolos de sua superioridade e por isso são parte da hegemonia ideológica.. pode-se dizer que. a hegemonia na ordem internacional deve ser entendida. fato que irá coincidir com a crise política das forças no poder. dominante. a hegemonia deve ser entendida como uma combinação entre coerção e consentimento. dirigente. Historicamente. pois nunca o consenso em torno das idéias defendidas pela superpotência foram tão bem aceitas no mundo ocidental. de concepção de mundo[23]”. o keynesianismo teve um papel fundamental para assegurar a estabilidade. nem advém diretamente do poderio econômico e militar que ele possui.

L. In: FIORI. (orgs. “A Finança Mundializada: raízes sociais e políticas. of California Press. Public Goods. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. KINDLEBERGER. and Free Rides”. Robert. Charles. New York: Columbia. 1998. p. “Social Forces. 242 e 243. Bibliografia CHESNAIS. José Luis. KINDLEBERGER. 92 GILPIN. Maria da Conceição. 1929-1939”. 50 GRAMSCI. p. José Luis (org. Vozes. “Dominance and Leadership in the International Economy: Exploitation. In: TAVARES. In: Os Pensadores. 117. TAVARES. In: Os Pensadores. Vozes. “Teoria Tradicional e Teoria Crítica”. 2005 COX. conseqüências” Tradução: Rosa Maria Marques e Paulo Nakatani.). 25.com/2007/04/30/hegemonia-e-a-normatividade-na-economia-politica-internacional/ 8/10 . São Paulo. p. “War and Change in World Politics”.305. “Formação. e FIORI. “Gramsci. “Teoria Tradicional e Teoria Crítica”. Poder e Dinheiro – Uma economia política da globalização. Berkley: Univ. Tradução: Carlos Nelson Coutinho. New York: Cambridge Universitu Prss. 1978 HORKHEIMER. Abril Cultural. “O Conceito de Hegemonia em Gramsci”. COX.. Rio de Janeiro. In: International Studies Quarterly. Antonio. “A Retomada da Hegemonia Americana”. p. vol. Charles. 1980. 119. Brasília: UNB.wordpress. J. Hegemony and International Relations: An Essay in Method”. Kenneth. Millenium. Robert. 2002.. WALTZ. São Paulo. chacombolachas. São Paulo. 1979. n° 2. Luciano. Lisboa: Grandiva. “A Economia Política das Relações Internacionais”. 1978. como defende Fiori. consentimento para expandir sua dominação. Robert. The neorealism and its critics. GRUPPI.01/11/13 Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional | Chá com bolachas. Boitempo. Possivelmente. C. FIORI. JSTOR. Max. p. 2004. Robert. States and World Orders – Beyond International Relations Theory”. “The World in Depression.) O Poder Americano Petrópolis. [1] HORKHEIMER. dado a expansão que vem sofrendo o poderio norte-americano. Edições Graal. configuração. Expansão e limites do Poder Global”. François. Max. “Concepção Dialética da História”. estejamos caminhando. 2002. Robert. Petrópolis. [2] Idem. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. as conseqüências disso e se esse império de fato se realizar já é outra história. “Teoria das Relações Internacionais”. M. 1980. N° 2. GILPIN. para um “império mundial”. Abril Cultural. In: KEOHANE. p.

p. [20] TAVARES. [14] GILPIN. In: TAVARES.. In: International Studies Quarterly. of California Press. [16] Idem. [10] KINDLEBERGER. [8] É importante ressaltar que usaremos. “Teoria das Relações Internacionais”. “Dominance and Leadership in the International Economy: Exploitation. um falseamento de uma realidade a partir de uma imagem aparentemente verídica. 94. [5] COX. p.305. 50 [13] Ibidem idem. 1979. Public Goods. configuração. ou seja como um conceito crítico que implica em ilusão. pp. 2004. Robert. 92. [3] Idem. States and World Orders – Beyond International Relations Theory”. [15] Idem. “A Economia Política das Relações Internacionais”. New York: Columbia. “Formação. N° 2. pp. [17] Idem. Expansão e limites do Poder Global”. “A Finança Mundializada: raízes sociais e políticas. 242 e 243.) O Poder Americano Petrópolis. conseqüências” Tradução: Rosa Maria Marques e Paulo Nakatani. Charles. [7] Idem. François. e FIORI. Poder e Dinheiro – Uma economia política da globalização. p. [9] KINDLEBERGER. 1929-1939”. [4] GRAMSCI. Robert.01/11/13 Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional | Chá com bolachas. [19] FIORI. ideologia no sentido marxista. Maria da Conceição. Brasília: UNB. Kenneth. [18] São mais que conhecidas as teses que mostram as desvantagens dos países atrasados tecnologicamente dentro de um sistema de livre comércio. JSTOR. Lisboa: Grandiva. In: KEOHANE. Charles. 1998. Robert. vol. p. p. 2002. 22 e 23. [6] Ibidem. José Luis (org. chacombolachas. p. 207.wordpress. Vozes. “Social Forces. Boitempo. [11] WALTZ. [12] GILPIN. J. “War and Change in World Politics”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. (orgs. and Free Rides”. 95. The neorealism and its critics. Antonio. [21] CHESNAIS. p. 2002. 68 e 69. Vozes. neste trabalho. Tradução: Carlos Nelson Coutinho. Petrópolis. Berkley: Univ. In: FIORI. M. C. São Paulo. “Concepção Dialética da História”. Apenas para ficar em um exemplo mais marcante poderíamos citar as tese de Raúl Prebisch sobre a “deterioração dos termos de troca”. p. 96. Tradução minha.).com/2007/04/30/hegemonia-e-a-normatividade-na-economia-politica-internacional/ 9/10 . José Luis. 2005.. p.209. “The World in Depression. “A Retomada da Hegemonia Americana”. L. New York: Cambridge Universitu Prss. Robert. 1978. idem. 25.

Teoria | Deixe um comentário Sem respostas ainda para “Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional” Feed para esta Entrada Trackback Address Deixe um comentário Blog no WordPress. Millenium. 1978. [23] Idem.01/11/13 Hegemonia e a Normatividade na Economia Política Internacional | Chá com bolachas. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Edições Graal. “O Conceito de Hegemonia em Gramsci”.. 70. [22] GRUPPI.com . Arquivo em:escrito por Leo. • O tema Unsleepable. p. Hegemony and International Relations: An Essay in Method”. “Gramsci. Robert. Luciano. n° 2.com/2007/04/30/hegemonia-e-a-normatividade-na-economia-politica-internacional/ 10/10 . chacombolachas. Rio de Janeiro.wordpress.. [24] COX.