Família Walsh 5 - Helen não pode dormir Marian Keyes Para o Tony Não me importaria -eis aí a ironia-, mas

sou a única pessoa que conheço que não pensa que seria fantástico ingressar em "um lugar de repouso". Teria que ouvir minha irmã Claire, como se despertar uma manhã e tirar o chapéu em um hospital psiquiátrico fora a experiência mais maravilhosa que alguém possa imaginar. -Me ocorreu uma idéia genial -anunciou a sua amiga Judy-. Tenhamos nossa crise nervosa ao mesmo tempo. -Que guay! -exclamou Judy. -Pediremos uma habitação dupla. -Descreva-me isso -Mmm… Gente amable… manos suaves y cálidas… vocês susurrantes… sábanas blancas, sofás blancos, orquídeas blancas, todo blanco… -Mmm… Gente amável… mãos suaves e cálidas… vozes susurrantes… lençóis brancos, sofás brancos, orquídeas brancas, tudo branco… -Como no céu -observou Judy. -Exatamente como no céu! Desde exatamente como no céu nada! Abri a boca para protestar mas já não havia quem as parasse. -… o gorgoteo de uma fonte… -… o aroma de jasmim… -… o tictac longínquo de um relógio… -… o repique choroso de um sino… -… e nós na cama com um chute do Xanax… -… contemplando, adormecidas, as bolinhas de pó… -… ou lendo Grazia… -… ou comprando Magnum Golds ao homem que percorre as novelo vendendo gelados… -Não haveria nenhum homem vendendo Magnum Golds. Nem nenhuma outra quinquilharias-. Uma voz sábia dirá… -Judy fez uma pausa dramática-: "Solta sua mochila, Judy".

-E uma enfermeira de sonho cancelará todas nossas entrevistas -continuou Claire por ela-. Dirá a todo mundo que não nos incomode, dirá a todos esses bodes ingratos que estamos sofrendo uma crise nervosa e que a culpa é deles e que terão que ser muito mais amáveis conosco se conseguimos sair desta. Tanto Claire como Judy tinham vistas tremendamente ocupadas: filhos, cães, maridos, trabalhos e uma dedicação obsessiva a parecer dez anos mais jovens. passavam-se o dia dando voltas em um monovolumen, deixando filhos no treinamento de rugby, recolhendo filhas do dentista e cruzando a cidade a toda pastilha para chegar a alguma reunião. A multitarea era uma arte para elas: utilizavam os segundos mortos de um semáforo em vermelho para esfregá-las pantorrilhas com toallitas bronzeadoras, respondiam correios eletrônicos da poltrona do cinema e faziam cupcakes de veludo vermelho a meia-noite enquanto suas filhas adolescentes as chamavam "Bruxas velhas". Não desperdiçavam nem um segundo. -Darão-nos Xanax. -Claire tinha retomado sua fantasia. -Que maravilha. -Todo o Xanax que queiramos. E no instante em que o êxtase comece a decair, tocaremos um timbre e uma enfermeira entrará para nos dar outro chute. -Não teremos que nos vestir. Cada manhã nos trarão um pijama de algodão nuevecito, recém saído de seu pacote, e dormiremos dezesseis horas ao dia. -Ah, dormir… -Será como estar dentro de uma grande nuvem de açúcar. Sentiremo-nos ligeiras, felizes, etéreas… Era o momento de assinalar um desagradável defeito em sua fabulosa fantasia. -Estão falando de um hospital psiquiátrico. Claire e Judy me olharam estupefatas. Finalmente, Claire disse: -Não estou falando de um hospital psiquiátrico, mas sim de um lugar ao que a gente vai repousar.

-O lugar ao que a gente vai repousar" se chama hospital psiquiátrico. Calaram. Judy se mordiscou o lábio inferior. Era evidente que estavam pensando nisso. -O que acreditavam que era? -perguntei. -Não sei… uma espécie de balneário -disse Claire-. Com… com fármacos que precisam receita. -Nesses lugares só há loucos -disse-. Loucos de verdade. Gente doente. Outro silêncio. Finalmente, Claire me olhou com as bochechas ardendo. -É uma bruxa, Helen! -exclamou-. Tanto te incomoda que outros desfrutem? QUINTA-FEIRA 1 Estava pensando em comida. É o que faço quando me acho em meio de um entupo. O que faz qualquer pessoa normal, certamente, mas agora que me parava a pensá-lo, levava sem provar bocado das sete da manhã, ou seja, dez horas. Na rádio puseram uma canção de Laddz -a segunda vez esse dia, a isso o chamo eu má sorte- e enquanto a enjoativa melodia invadia o carro, senti um impulso breve mas capitalista de me estampar contra um poste. Mais adiante, a minha esquerda, havia um posto de gasolina com o rótulo vermelho de refrescos pendurando do céu de maneira sedutora. Poderia sair deste entupo e comprar uma rosquinha, mas as rosquinhas que vendiam nos postos de gasolina eram tão insípidos como as esponjas que encontra no fundo do mar. Quase preferiria me esfregar com elas. Além disso, um bando de abutres negros estava sobrevoando os fornecedores de gasolina e me tirando as vontades. Não, decidi, agüentarei e… Um momento! Abutres? Em uma cidade? Em um posto de gasolina?

Olhei de novo e vi que não eram abutres a não ser gaivotas. Gaivotas irlandesas correntes e moedores. Então, pensei: "Não, outra vez não". Quinze minutos depois detive o carro diante de casa de meus pais, tomei um momento para me tranqüilizar e procurei a chave. Três anos atrás, quando fui de casa, meus pais insistiram em que lhes devolvesse a chave, mas eu -com minha mentalidade estratégica- me tinha obstinado a ela. Mamãe falou de trocar a fechadura, mas tendo em conta que ela e papai demoraram oito anos em decidir-se a comprar um cubo amarelo, que probabilidades tinha que conseguissem algo tão complicado como instalar uma fechadura nova? Encontreis sentados à mesa da cozinha, bebendo chá e comendo um bolo. A gente maior. Que vida se davam. Inclusive os que não faziam Tailandês Chi. (Que eu sim farei.) Levantaram a vista e me olharam com mal dissimulado ressentimento. -Trago novidades -disse. Mamãe recuperou a voz. -O que faz aqui? -Vivo aqui. -Já não. Desfizemo-nos de ti. Pintamos seu quarto. Nunca fomos tão felizes. -Hei dito que trago novidades. Essas são minhas novidades. Vivo aqui. O pânico subiu pelo rosto de mamãe. -Você já tem uma casa -bramou, mas estava começando a perder seu aprumo. depois de tudo, seguro que tinha estado esperando-o. -Não -repus-. Desde esta manhã não tenho onde viver. -os da hipoteca? -Tinha empalidecido (debaixo da regulamentar base de maquiagem laranja das mães irlandesas). -O que ocorre? -Papai estava surdo, e se desconcertava freqüentemente. Era difícil saber qual dessas duas incapacidades dominava em cada momento.

-Não pagou sua HIPOTECA -lhe disse mamãe no ouvido bom-. Lhe EMBARGARAM o piso. -Não pude pagar a hipoteca. Diz-o como se a culpa fora minha. De todas formas, o tema é mais complicado. -Temnamorado -disse esperançada mamãe-. por que não te vais viver com ele? -Vejo que a católica implacável está trocando suas idéias. -Bom, temos que evoluir com os tempos. Meneei a cabeça. -Não posso ir a viver com o Artie. Seus filhos não me deixam. -Não exatamente. Só Bruno. Odiava a morte. Iona, em troca, era bastante simpática comigo, e Bela me adorava-. Vós são meus pais. Amor incondicional, recorda? Tenho minhas coisas no carro. -O que? Todas? -Não. -Tinha passado o dia com dois tipos que cobravam em negro. Os poucos móveis que ficavam estavam agora empilhados em uma imensa nave de trasteros de aluguel, passado o aeroporto, à espera de que voltassem os bons tempos-. Somente a roupa e as coisas de trabalho. -Muitos coisas de trabalho, a verdade, pois tinha tido que me despedir de meu escritório fazia um ano. E também bastante roupa pese ao montão de trapos que tinha atirado conforme enchia as caixas. -Quando terminará isto? -perguntou mamãe com voz quejumbrosa-. Quando chegarão nossos anos dourados? -Nunca. -Papai falou com inesperada contundência-. Ela é parte de um síndrome. Geração Bumerangue. Filhos adultos que retornam a casa de seus pais. Tenho-o lido na Grazia. O que Grazia dizia ia a missa. -Pode ficar uns dias -concedeu mamãe-. Mas lhe advirto isso, pode que decidamos vender a casa e ir de cruzeiro pelo Caribe. Tendo em conta quão baixos estavam os preços das moradias, com a venda desta casa provavelmente não lhes chegaria nem para um cruzeiro pelas ilhas Aram. Mas enquanto

retornava ao carro para começar a descarregar caixas decidi não esfregar-lhe A fim de contas, estavam-me dando proteção. -A que hora é o jantar? -Não tinha fome mas queria conhecer os hábitos. -Jantar? Não havia jantar. -Agora que estamos os dois sós já não nos incomodamos em preparar o jantar -confessou mamãe. A notícia me deixou consternada. Bastante mal me sentia já sem necessidade de que meus pais se comportassem de repente como se estivessem na sala de espera da morte. -Então, o que comem? Olharam-se com cara de pasmo e logo olharam o bolo. -Né… bolo, suponho. Em outros tempos semelhante arrumo não tivesse podido me convir mais -ao longo de toda nossa infância, minhas quatro irmãs e eu tínhamos considerado uma atividade de alto risco comer as coisas que cozinhava mamãe-, mas ultimamente não era eu. -Então, a que hora é o bolo? -À hora que goste. Sua resposta não me satisfez. -Necessito uma hora. -Às sete, então. -Bem. Ouçam… vi um bando de abutres sobrevoando um posto de gasolina. Mamãe apertou os lábios. -Na Irlanda não há abutres -assinalou papai-. São Patrício os expulsou. -Seu pai tem razão -conveio energicamente mamãe-. Não viu nenhum abutre. -Mas… -Calei. Para que falar? Abri a boca para aspirar ar. -O que faz? -Mamãe me olhou alarmada.

-Estou… -O que estava fazendo?-. Estou tentando respirar. Tenho o peito obturado. Não há espaço suficiente para que me entre ar. -Claro que há espaço. Respirar é a coisa mais natural do mundo. -Acredito que me encolheram as costelas, como lhe ocorre às pessoas velha com os ossos. -Só tem trinta e três anos. Espera a chegar a minha idade, então saberá tudo sobre encolhimento de ossos. Embora desconhecia a idade de mamãe -mentia sobre ela de maneira elaborada e sistemática, umas vezes fazendo referência ao decisivo papel que desempenhou no levantamento de 1916 ("Ajudei a passar a máquina a Declaração de Independência para que o jovem Padraig a lesse nos degraus do Escritório Geral de Correios"), outras falando maravilhas dos anos adolescentes que passou dançando "The Hucklebuck" quando Elvis vinha a Irlanda (Elvis nunca veio a Irlanda e nunca cantou "The Hucklebuck", mas se tenta esclarecer o agarra carreirinha e assegura que Elvis fez uma visita secreta caminho da Alemanha em que cantou "The Hucklebuck" porque ela o pediu)parecia maior e robusta que nunca. -Respira, vamos, vamos, até um menino pode me fazê-lo respirou-. O que pensa fazer esta noite? depois de seu… bolo? Vemos a televisão? Temos vinte e nove episódios gravuras de Jantar comigo. -Né… -Não queria ver Jantar comigo. Normalmente via dois episódios diários como mínimo, mas de repente estava farta… Sempre era bem-vinda em casa de Artie, mas seus filhos estariam ali esta noite e não me via com forças para conversar com eles. Além disso, sua presença obstaculizaria meu pleno acesso sexual ao Artie. Não obstante, Artie se tinha passado a semana no Belfast, trabalhando, e …vamos, solta o de uma vez… lhe tinha sentido falta de. -Provavelmente irei a casa de Artie -disse. O rosto de mamãe se iluminou. -Posso ir? -Certamente que não! Sabe perfeitamente!

Mamãe estava apaixonada pela casa de Artie. Provavelmente conheça o estilo se os revistas de interiorismo. Desde fora parece uma casita de classe honrada e trabalhadora, encolhida ao mesmo nível meio-fio, tirando o chapéu e conhecendo seu lugar. O telhado de piçarra está torcido e a porta é tão baixa que a única pessoa capaz de cruzá-la com a plena segurança de que não vai partir se o crânio seria um miúdo declarado. Mas quando entra, descobre que alguém derrubou toda a parede do fundo para substitui-la por um paraíso futurista de escadas flutuantes, clarabóias e dormitórios pendentes. Mamãe tinha estado na casa em uma ocasião -um acidente, não queria que descesse do carro mas me desobedeceu descaradamente- e lhe impressionou tanto que me fez acontecer verdadeira vergonha. Não permitiria que voltasse a ocorrer. -Está bem, não irei -disse-, mas tenho que te pedir um favor. -Qual? -Irá comigo ao concerto de reencontro de Laddz? -Está louca? -Louca? Olhe quem fala, você e seus abutres. 2 As casitas diminutas de classe trabalhadora estão muito bem mas carecem de uma prática garagem subterrânea. Demorei mais em encontrar um oco para estacionar que em salvar os três quilômetros que me separavam da casa de Artie. Finalmente encaixei meu Fiat 500 (negro por fora e por dentro) entre dois descomunais todoterrenos e entrei no maravilhoso mundo de metacrilato. Tinha minha própria chave; não fazia nem seis semanas que Artie e eu tínhamos realizado o solene intercâmbio. Ele me tinha dado uma chave de sua casa e eu lhe tinha dado uma chave da minha. Porque nnaquele tempo naquele tempo tinha casa. Deslumbrada pelo sol vespertino de junho, segui às cegas o som de umas vozes e descendi pelos mágicos degraus flutuantes até o pátio de madeira, onde um grupo

Tem que aprender a encaixar uma brincadeira". lhe dê uma pausa -disse Artie. E Vonnie. e ia preparado se pensava que não o tinha notado. Cravei o olhar no ponto onde o braço do Vonnie roçava o de Artie. eu pudesse responder: "Por Deus. -Helen! -exclamou com soma calidez. seria uma imprudência aliená-la. passava freqüentemente por aqui. E eu sou suanamorada. seu companheiro. -Te separe -disse-. seu formosa ex esposa. Todos temos nossos talentos. os Devlin. muitos desprezos. Está muito perto dele. Não esperava vê-la. meu formoso vikingo. Estava sentada nos tablones ao lado de Artie. Posso te pentear? -Bela. ja. -(Para que se alguém me tachava de egoísta e imatura e dizia: "E o pobre Bruno?". Iona. rosa dos pés à cabeça e emprestando a chiclete de cereja. Bela era o membro do grupo mais pequeno e débil. Mas primeiro tinha um assunto de que me ocupar.um quebra-cabeças.) -Em realidade era Artie o que estava apoiado em mim -assinalou Vonnie. se era uma brincadeira. mas vivia perto. -É sua esposa. levava mentalmente a conta de seus muitos. Desde nove anos e de natural carinhosa. Unicamente Bruno se manteve distante. seu ombro magro e moreno pego ao ombro largo dele. estava feliz com minha chegada. Bela. . geralmente com o Steffan. Papai não nos disse que foste vir. -jogou-se em meus braços-. Não obstante. apressei-me a acrescentar-: Ja. por isso agora é meu. Artie.de gente bonita e loira estava fazendo -de todas as coisas aptas para famílias do mundo. -Helen. seus formosos filhos. Helen. ja. -Os maçãs do rosto transexuais do Bruno arderam de indignação… Levava ruge? -Ex algema -lhe corrigi-. Hipócritamente. Um coro de saudações e sorrisos radiantes se elevou por volta de mim e de repente me vi inundada em muito beijos e abraços. Foi primeira em reparar em mim. Bruno e Bela. Uma família cordial. Não me escapava nenhum.

Artie está louco por mim. . Seria uma descortesia lhes pedir que desfilassem? -Gosta de beber algo? -perguntou Artie me sustentando o olhar. -Vonnie se deslocou de bom aspecto pelos tablones até deixar um bom espaço entre ela e Artie. camisa e calça negros e rodeados. Vonnie. o que expressava adotando a moda fascista. tinha aprendido -de acordo com minhas instruções. lustrosas botas negras de cano alta e um cabelo muito. Ao princípio. Artie tinha tentado me proteger dela. Assenti em silêncio. Utilizava deste modo rímel e houvesse dito que tinha começado a ficar ruge. -Esta noite não gostava deste jogo que sempre tinha que jogar com o Vonnie. muito curto com exceção de uma extensa franja uso anos oitenta. Sempre lhe está em cima. -Bem! -Sorri com certa tensão aos rostos ali congregados. muito loiro e muito. eu sabia que tinha uma boa razão para isso: seus pais se separaram quando ele contava só nove tenros anos e agora era um adolescente controlado pelos hormônios da raiva. não podia evitar que me caísse bem. Esperei que se levantasse para poder lhe seguir até a cozinha e olisquearle às escondidas. mas quando Vonnie e eu começávamos nossa resistência de fêmeas dominantes. Apenas me via com forças para reunir as palavras necessárias para continuar com a farsa-. isso tinha feito. o qual fazia que me sentisse terrivelmente humilhada. Embora não era meu estilo. Artie levantou a vista do quebra-cabeças e me cravou seu intenso olhar azul. Deus. Em realidade. A seus treze anos tinha mais mau leite que a mais malvada das garotas. -É como se me estivesse dizendo que ela dá mais medo que eu -protestava.a ausentar de tudo. Quase sempre tinha um ponto taciturno. mas já é hora de que o assuma. isto é.-Memore. e sim. E o que tinha feito Artie enquanto isso? Mostrar um interesse desmesurado pelo ângulo inferior esquerdo do quebra-cabeças. Traguei saliva e em seguida desejei que Vonnie se fora a sua casa e os meninos à cama para poder ficar a sós com ele. o verdadeiro problema era Bruno. -Está bem.

Encontrava surpreendente que lhe pudesse confiar o traslado de uma taça de vinho de uma estadia a outra sem o temor de que a polisse de um gole. Sente-se. hora de jogar! -uivou Bela. -Não era certo. Era o que todo mundo fazia. me desejava muito do mais estranho: por que quereria alguém comer essas bolinhas ásperas de poliestireno que lhe faziam cortes na boca e logo lhe esfregavam o sal nas feridas? -Helen. para sossegar a fome. -Seguro? -Vonnie me olhou de cima abaixo-. Tinha quinze anos.-Eu irei -se ofereceu docemente Iona. como verter leite em uma terrina com o Cheerios. Ou pode que minha mente estivesse tão preocupada que não era capaz de assimilar sorte informação. Até comer pipocas. uma semana. . que apareceu com um pente de plástico rosa e uma marmita rosa repleta de passadores rosas e borrachas de cabelo rosas-. não podia recordá-lo. Não quero que te emagreça mais que eu! -Não há perigo. vi-a descender os degraus flutuantes até a cozinha. Mas talvez o houvesse. Tinha a impressão de que meu corpo tinha deixado de informar a minha mente que desejava comida. Contendo um uivo de frustração. -Já comi. Está um pouco fraca. Não tinha ingerido uma comida decente desde… desde fazia um tempo. Meu estômago se fechou de repente: não ia permitir me que lhe colocasse nada. Talvez se devesse à escassez de dinheiro no bolso. Quando eu tinha quinze anos me bebia tudo o que não estava parecido. -Gosta de comer algo? -perguntou-me Vonnie-. onde habitavam as bebidas. As poucas vezes que a mensagem chegava a seu destino era incapaz de fazer algo mínimamente complicado. pode que mais. não sabia. só sabia que não compreendia a Iona e sua confiável natureza abstêmia. Há salada de erva-doce e Vacherin na geladeira. o que tinha provado a fazer a noite anterior. Nem sequer tinha podido ingerir uma parte do bolo de mamãe e papai.

Pelo menos hoje não tocava o guichê de Matrícula de Veículos a Motor. Durante um segundo considerei o vinho. Preparei-me para o pandemônio que estava acostumado a seguir a essa classe de declaração. assim está bem. os Devlin eram os anfitriões perfeitos.e me afundei em um almofadão gigante. mas tampouco agradável. Deus. incluída a estranha da Iona. Não sabia o que preferiria. mas me disse que não. entre dentes. mas passou sem comentários. Não vê que está estresada? Iona me ofereceu uma taça de vinho tinjo e um copo alto com tintineantes cubitos de gelo. . -Prefere uma Coca-cola light? -perguntou Iona. De todos nossos jogos. Sempre tinham Coca-cola light na geladeira para mim apesar de que nenhum deles a bebia. Bela se ajoelhou a meu lado e procedeu a me acariciar a cabeça. obrigado. Bebi um gole da infusão de valeriana -não tinha um sabor desagradável. Temia que se começava a beber não pudesse parar. -por aí vem sua bebida -anunciou Bela… Logo. obrigado. disse a Iona-: Dásela de uma vez. obrigado"? Se tornou louca!" Esperei a que os Devlin se levantassem todos a um tempo e me imobilizassem a cabeça com uma chave para poder me colocar o shiraz com um funil de plástico. -Tem um cabelo precioso -murmurou. não. e me aterrava a idéia de uma ressaca. Por um momento tinha esquecido que não estava com minha família biológica. -Shiraz ou infusão de valeriana geada caseira. -Veio não. "O que? Não quer vinho? Há dito "Vinho não. mas ela replicava que então não haveria jogo. esse era o pior: eu tinha que fazer fila durante horas enquanto ela permanecia sentada em um cubículo de cristal imaginário. Deus. Eu lhe dizia que se podia fazer por internet. A cabeleireiras.OH. assim que te trouxe as duas coisas. -Não.

Quando? -Hoje. Ou a tristeza. mas o disse em tom de brincadeira. Provavelmente fora a vergonha o que me tinha mantido calada. -Disse mais por Bela que por ele. -E o que pensa fazer? -Bela parecia muito preocupada. não lhe tinha contado a ninguém o que estava passando. Dispunha-me a me embarcar no deprimente relato quando recordei que só tinha nove anos. . mas estou bem. Enquanto seus deditos penteavam e separavam mechas. E para falar a verdade. depois de tudo. Bela pensava que eu o tinha tudo precioso. Mas o fim de semana passado Artie tinha tido aos meninos e depois se ausentou toda a semana. Difícil sabê-lo. tive que deixar meu piso porque não podia pagar as faturas… -O que? -Artie me olhou atônito-. -por que não me contou isso? por que não o contei? Quando seis semanas atrás lhe dava as chaves. pequena amiga rosa. quando compreendi que tinha chegado ao final do caminho -que em realidade o final do caminho tinha chegado fazia tempo mas me tinha negado a reconhecê-lo com a esperança de que os operários chegassem com seu alcatrão e suas raias brancas e me construíram uns poucos quilômetros mais-. e me custava ter conversações sérias por telefone. me esforçando por utilizar um tom alegre-. -Não te faz uma idéia. -Me ponha a prova -disse. -Caray. que relaxante… -Um mau dia? -perguntou-me. fiquei para hoje com os dois tipos da mudança.-Muito obrigado. o país inteiro ia atrasado nos pagamentos de suas hipotecas e estava endividado até as sobrancelhas. -Bom -disse. meus ombros começaram a relaxar-se e pela primeira vez em dez dias experimentei o alívio de uma respiração como é devido: meus pulmões se enchiam completamente de ar e logo o soltavam. Ou o desconcerto. por isso não era precisamente uma testemunha confiável. advertilhe que existia essa possibilidade. Ontem pela manhã.

-voltei para casa de meus pais. E Artie poderia me ver. Estão atravessando uma má rajada nestes momentos e não os sobra a comida. Quando vi de quem era -Jay Parkerquase me cai ao chão. mas em lugar disso tinha uma pele incrivelmente tersa e suave. Bruno me esfaquearia em metade da noite. Distraiu-me uma luz lhe pisquem em meu móvel. O diz mamãe. Tive que fazer provisão de autocontrol para não pronunciar a minha vez: "Jódete você. -Não posso viver aqui. -Ele não faria uma coisa assim. -Sim a faria -assegurou Bruno. Bela me olhou horrorizada. recordei-me. mas não antes de que lhe visse pronunciar com os lábios as palavras: "Que lhe jodan. Um correio eletrônico novo. Verdade. capulla". fascista". Quase seis meses. Olhei com inquietação seu carita espectador. mamãe? -Certamente -respondeu Vonnie com um sorriso irônico. . meio ano. mas passará… -por que não vive aqui? -perguntou-me Bela. Com o intrigante título: "Terei que me desculpar". -E me roubaria a maquiagem. -Bruno sabia o que lhe convinha. -Perdoa. -Bruno! -repreendeu-lhe Artie. Helen. -Porque seu papai e eu recentemente que saímos… -Cinco meses. ia fazer trinta e quatro anos. -E estão bem juntos -continuou com entusiasmo-. A carita sedosa do Bruno em seguida avermelhou de indignação. -Esforcei-me por soar jovial-. Estava sempre tão zangado que o normal tivesse sido que tivesse a cara cheia de grãos -a manifestação externa de sua bílis interna-. deu-se a volta. ou seja. três semanas e seis dias -declarou Bela-.

absolutamente nada -nascimentos. até que finalmente ficou contente com o resultado. "Não. -É certo que os maias inventaram os Magnum? -perguntei. Tinha a sensação de que minha habilidade para falar com outras pessoas estava escapando de mim como o ar de um globo velho. Bela atirava de meu couro cabeludo com seus delicados dedos. Mais infusão. Achava-me totalmente fora de minha onda. preferivelmente de uma série onde se gritasse muito. desejando que todos com exceção de Artie. nada. produziu-se um breve silêncio de pasmo. Demorei menos de um segundo em teclá-la. disse-me. Nem sequer em pleno verão nos afeiçoávamos ao jardim. Helen? . Bom trabalho. -Como uma princesa maia -recalcou Bela. -Parece inteiramente uma princesa maia -assegurou Vonnie-. Estava pior agora que fazia uma hora. Não está muito bonito? -Muito bonito -conveio Vonnie em um tom que soava extremamente sincero.cavassem a asa. Não poderíamos ao menos entrar e pôr a televisão? Na casa onde eu cresci tratávamos "o ar livre" com desconfiança. -Plantou-me um espelho de mão diante da cara. Bela. te olhe. Olhem a Helen -insistiu à multidão-. mortes. Pode que o problema fora eu. A seguir se reatou a conversação como se não houvesse dito nada. embora me mata te dizer isto. sobre tudo porque o cabo da televisão não chegava tão longe. Como podiam os Devlin suportar toda essa conversação? Pode que o problema não fossem eles.Queridísima Helen. por que não esquece o passado e te põe em contato comigo? Uma resposta de uma palavra. matrimônios. embora os olhos da Helen são verdes e é provável que os de uma princesa maia fossem castanhos. Mas o cabelo é exato." Deixei a Bela brincar com meu cabelo enquanto dava goles a minha infusão de valeriana e observava aos Devlin fazer seus quebra-cabeças. -Perfeito! Parece uma princesa maia. Vi meu cabelo recolhido em duas largas tranças e uma coisa tecida à mão atada ao redor da franja-. estalando a língua e resmungando.acontecia sem o som de fundo da televisão. minha deliciosa cascarrabias. E a televisão tinha sido importante para os Walsh. claro. necessito sua ajuda.

tendíamos a nos comportar como se fora uma amiga da família. de seus jogos de mesa e suas rupturas amistosas e suas meias-copas-de-vino-en-la-cena-para-los-niños. o qual era extremamente complicado e cuja premissa básica era que os três filhos passassem exatamente o mesmo tempo na casa de um e outro progenitor. acrescentou-: Pedirei ao Vonnie que se vá. Vonnie. por isso era mais que evidente que me tinha ficado dormindo. Estava desejando ficar a sós com o Artie. não podia mais -ao menos no momento. -Ou a próxima vez que ao Vonnie tocassem os meninos. Mas poderiam demorar horas. mas todos fazíamos ver que eu tinha dormido em uma cama de convidados imaginária e que Artie tinha passado a noite só. Ou. Embora era suanamorada. -por que não fica um momento mais? -E baixando a voz. -Verei-te o fim de semana. Tinha perdido a pista de seu calendário. Ele não estava à corrente do dia que eu tinha tido hoje. por dizer algo. Não obstante. Agarrou-me da boneca. Ou ontem. Será melhor que vá. -Está bem? -Artie começava a parecer preocupado. -Não. e nem sequer podia reunir a energia suficiente para me encher o saco: não era culpa de Artie ter três filhos e um trabalho absorvente. -Não podia contar-lhe agora. obrigado. Artie e eu nunca nos deitávamos antes que eles. Como é lógico. -Sim. -Tenho que ir. ao dia seguinte me encontravam ali. -Levantei-me. Acabaria . -Vai? -Artie me olhou consternado. de sua atrativo e sua gentileza e suas maneiras. -Não podia seguir sentada na terraço esperando a oportunidade de pilhar ao Artie a sós para lhe arrancar a roupa de seu corpo estupendo. a semana que tinha tido. de fato.Para minha surpresa. E os meninos terão que ir-se à cama em algum momento.dos Devlin. os dias variavam de uma semana a outra para que Artie ou Vonnie (as mais das vezes Vonnie. algo que não ia acontecer. em minha opinião) pudessem fazer coisas como tomar umas minivacaciones ou ir a umas bodas no campo.

Encontro as despedidas insoportablemente aborrecidas. tiveste um dia horrível. hei dito… . frente e queixo) de Bela. -Você tem nove anos -espetou Bruno em um tom superdespectivo-. Às vezes me entram vontades de me sacudir do ombro as mãos da gente. Mas os Devlin eram jogo de dados às despedidas exageradas: abraços e beijos dobre inclusive do Bruno. quem propôs que uma noite dormíssemos todos em seu quarto. Como quer que lhe caiba seu pijama? -Temos a mesma talha -replicou Bela. e beijos quádruplos (as duas bochechas. largariame sem dizer nem pio e me encontraria caminho de casa antes de que alguém reparasse em minha ausência. Ela é velha. apertou a palma contra sua camiseta e procedeu a deslizála pelos peitorais em direção aos músculos do estômago. -Seguro que quer estar sozinha? -perguntou-me Artie enquanto me acompanhava à porta-. balbuciaria que tinha que ir ao lavabo. Curiosamente. os Devlin. Duravam uns vinte minutos. -Para. Se por mim fora. Mas primeiro as despedidas. Não levava bem as despedidas largas. Eram todos altos. herança de Artie. Eu era baixa para minha idade e Bela era alta para a sua. em minha mente eu já me fui. sem dúvida. Estou bem. tínhamo-la. -Vaaale. Agarrou-me a mão. não podia liberar-se plenamente de sua educação burguesa. -Emprestarei-te meu pijama de bolos de morangos -me prometeu.estalando. quem. -Apartei-a-. por isso me parece uma total perda de tempo todo esses "Que vá bem" e "te Cuide" e rostos sorridentes. Mas antes de ir tiraremos isto. -Seguro. -Artie. abrir acontecer com empurrões e pôr-se a correr. É absurdo começar algo que não poderemos terminar.

-Bem. e quando finalmente parou me achava em tal estado de êxtase que uma mulher com menos aprumo teria perdido o equilíbrio. pelo ponto rígido onde a nuca se encontrava com o cabelo. Nas últimas semanas tinham adotado uma… enfim. Chamarei-te mais tarde. mas era preferível não acender o fogo. Eu gostava de enredar meus dedos no cabelo de seu cangote e atirar o justo para não lhe fazer danifico. Tenta dormir. -Eu digo que não. -OH -disse-. vou. Passei a mão por sua nuca. 3 . OH -repeti enquanto as mãos de Artie escorregavam por meu maltratado couro cabeludo e procediam a desfazer as duas tranças. -Certo. a blandió e a jogou no chão. -Vonnie diz que necessito um corte. Fechei os olhos e permiti que seus dedos se abrissem passo entre meus cabelos. Minha cara começou a relaxar-se e a dobradiça de minha mandíbula se desobstruiu. Deslizou os polegares por minhas orelhas. suponho que uma espécie de rotina que consistia em manter uma breve conversa justo antes de dormir. -E quanto a sua pergunta -disse-. Não muito. -O que pergunta? -Os maias inventaram os Magnum? -OH… -Sim. Artie inclinou a cabeça e me deu um beijo menos apaixonado do que me teria gostado.Com ternura. retirou a cinta que Bela me tinha posto no cabelo. E aqui dito eu. a frente e o cenho. Consegui me manter direita-. disse: -Eu gosto de seu cabelo. Quando nos separamos. -Esta vez não. os maias inventaram os Magnum. babei? perguntei. é obvio. a resposta é sim.

Se na sábado não ganharem a final do campeonato do condado será o fim do mundo para eles. portanto. mas o instinto me estava dizendo quem era essa pessoa misteriosa. Joguei uma olhada rápida à tela: número desconhecido. tentando impedir que meu peito se fechasse sobre si mesmo. Lancei o telefone ao assento do co-piloto e segui conduzindo. E não tinha a mais mínima intenção de falar com ela. Era como estar dentro de uma pequena borbulha. A esta hora da noite davam Off The Ball. Quando me soou o móvel minha ansiedade alcançou seu ponto gélido. Ao quinto tom saltou a rolha de voz. . E o que para mim é importante não significa nada para vós. Nada tem importância. Ultimamente tinha recebido algumas chamadas desagradáveis. Pus a rádio. Escutei pela metade as declarações de alguns atletas e treinadores. e eu gostava deste estado de não ser. Não me achava na casa que tinha deixado e tampouco na casa a que me tinha mudado. Podia tratar-se de um montão de gente. Eu gostava de conduzir. A possibilidade de perder já os tem atemorizados. Entrei na auto-estrada mas quando cheguei à saída da casa de meus pais me saltei isso e segui reto. Era como se tivesse deixado de existir ao partir e não fora a voltar a existir até que chegasse. Então pensei: "O que para vós é importante me deixa igual. que tinha permanentemente sintonizada no Newstalk. que é o que está acostumado a lhe ocorrer às pessoas que não paga suas faturas. Mas em realidade não tem importância.Assim que pus o carro em marcha caí na conta de que não tinha aonde ir. Por um momento o vi claro. carreiras e coisas assim. Conduzia tentando aspirar baforadas de ar. Já estão praticando seu desespero. um programa esportivo que falava de coisas que me traziam absolutamente sem cuidado: partidos. há algo realmente importante?". e podia ouvir em suas vozes quão importante todo isso era para eles.

e se ele também queria? Bastante duro tinha sido perder o piso para que em cima gerasse mau cilindro entre o Artie e eu. Não recordava ter visto antes formações como essas. efetivamente. soava e calava. O céu tinha um ar catastrófico.e começava a ficar o sol. E se mudava a casa de Artie e descobríamos que. O que tínhamos era frágil. . queria-o já. mas ia bem. Quando queria algo. nos obrigar a considerar a idéia de viver juntos unicamente para descobrir que a ambos parecia muito logo não podia ser bom para nós. tão desesperada por silenciá-lo que parecia que o tamanho de meus dedos se multiplicou por dez e não pudesse pulsar as teclas. permiti-me -durante uma milésima de segundoimaginar como seria viver com o Artie. o crepúsculo se estava eternizando e a luz resistia a partir. simplesmente não podia. Isso poria fim ao Jay Parker. tive uma forte suspeita de quem podia ser. Não podia pensar nisso. Embora estivéssemos simplesmente adiando a decisão. fiel a seu estilo. era muito aterrador. Um sobressalto entristecedor me alagou por dentro. Respirei fundo e segui conduzindo. Depois dos cinco tons de rigor. Claro que Artie tampouco o tinha insinuado. Mas e se descobria que eu sim queria e Artie não? Pior ainda. Ao igual a com a chamada anterior.Voltou a me soar o móvel: número desconhecido. Soava e calava. uma e outra vez. tinha sido uma má idéia? Existia volta atrás em uma situação como essa? Suspirei fundo. Mas essa possibilidade tinha deixado de existir. O telefone soou de novo. Minutos depois voltou para ataque. Oxalá Artie pudesse ficar em minha casa sempre que gostasse. Encontrava-me a meio caminho do Wexford quando o sol desapareceu e me senti o bastante segura para dar a volta e pôr rumo a casa de meus pais. Oxalá não tivesse perdido meu piso. Pensava que não ia poder suportá-lo. davame conta de que tinha estado esperando-o. calou. época em que os dias não acabavam nunca. Estávamos a princípios de junho. Agarrei o telefone. Só Bela o tinha feito. Calou ao quinto tom. Sobre o horizonte flutuavam umas nuvens estranhas. A auto-estrada estava virtualmente deserta a estas horas da noite -perto das dez. Caminho de meu novo lar. Detestava esta luz interminável. Ao final consegui desconectar o condenado aparelho. sentiríamo-lo como um voto de desconfiança. Cortei o pensamento de um guillotinazo.

había inventado una tarifa Jay Parker carísima. Saldo no telefone. -Tirou um maço de bilhetes o bastante grosso para me frear em seco. Gasolina no carro. Pagarei-te o dobro adiantado e em efetivo. inopinadamente.e não tinha trocado um ápice. seus olhos escuros e inquietos e seu sorriso sempre a ponto. perguntei: -Do que se trata? Por força tinha que ser algo chungo. -Sobre todo ahora que. improvisadamente.tinha deixado de existir para sempre. seria muito estranho. jamais funcionaria. Com seu traje ultramoderno de perna da calça estreita. Estacionado diante da casa de meus pais havia um carro esportivo de linhas elegantes e um homem espreitando entre as sombras. -Sobre tudo agora que. Olhei o dinheiro. a idéia de dormir juntos em casa de papai e mamãe era impensável -e não digamos ter sexo com eles ao outro lado do patamar!-. Malditos ares de mudança. -Estive-te chamando -disse-. Não queria trabalhar para o Jay Parker. parecia exatamente o que era: um vigarista. Conheço seus honorários. -Não lhe posso dar isso -Soy demasiado cara para ti. Mas era muito dinheiro. logo o olhei a ele. Receosa. -Sou muito cara para ti. Fazia quase um ano que não o via -o que não quer dizer que levasse a conta. Visita médico. -Pagarei-te. -Adivinha o que? Que sim posso. mas quando desci do carro e saiu da penumbra não foi muita surpresa (categoria: desagradável) descobrir que se tratava de Jay Parker. Alguma vez responde ao telefone? Não me incomodei em deter meus passos. tinha inventado uma tarifa Jay Parker muito caro. Odiava-os por chegar e pô-lo todo patas acima. . Pode que se tratasse de um violador. -O que quer? -Necessito sua ajuda. Não queria ter nada que ver com ele.

mas de repente um par de detalhes cobraram sentido: suas canções na rádio cada quatro segundos e a insistência de minha mãe para que a acompanhasse ao concerto.-Necessito que encontre a alguém. pode que em meados dos noventa. Não tanto como Boyzone ou Westlife. Wayne Diffney. mas quase. São uma mina de ouro. -Cem euros a entrada e artigos de promoção por um tubo -disse Jay Parker com nostalgia-. Seus dias de glória. quinta-feira e sexta-feira. Tinha formado parte de Laddz muito. Laddz era nnaquele tempo naquele tempo um dos grupos pop mais conhecidos da Irlanda. eram história. Por seu semblante cruzaram várias expressões de angústia. e agora seus membros eram tão maiores e risíveis e tinham tão pouco talento que tinham superado a barreira da tolice para ir-se ao outro extremo. Será melhor que lhe diga isso. Wayne Diffney! Tinha ouvido falar dele. lógicamente. muito tempo atrás. converteram-se em uma espécie de tesouro nacional. de repente propinó um chute a uma pedra e esta saiu disparada em um arco amplo e elegante. De fato. -A quem? Vacilou. Como queria que encontrasse a alguém cuja identidade era tão confidencial que não podia develármela? -O que quero dizer é que se trata de um assunto delicado… -Moveu um par de pedras com a ponteira fina de seu sapato-. sabia muitas coisas sobre ele. A imprensa não pode inteirar-se… -Quem é? -Tinha conseguido despertar minha curiosidade. . Olhei-lhe fixamente aos olhos. até tal ponto que a gente pensava neles com grande carinho. -Quem? -insisti. Quarta-feira. -É confidencial. -Suponho que sabe que Laddz se reencontrará a semana que vem para três megaconciertos. -A mierda. Um reencontro! Nem me tinha informado -tinha outras coisas na cabeça.

O Macaco. levado pelo desgosto (ou isso contam) o propinó um pancada no joelho com um pau de hurling e lhe gritou: "Isto é pela Zooropa!". principalmente. Muito tinha chovido desde seus números um. através do cabelo: tinham-lhe obrigado a pentear-se o como se fora o Teatro da Ópera do Sidney e ele se mostrou de acordo. Hailey. que se encontrava casualmente de visita em casa de seu colega Shocko. tentou interceder e Wayne. Depois do tremendo desgosto. a ninguém importou um cominho. O Excêntrico. descobriu que estava grávida do rockero e que não tinha a mais mínima intenção de voltar com ele. A excentricidade do Wayne se expressava. como em todos os grupos de pop genéricos.) Os outros quatro batalharam um tempo e quando ao fim se separaram. O Gay. disso fazia um século. Bônus. O quinteto original de Laddz se transformou em um quarteto quando. depois de um par de anos de êxitos. Wayne tinha sido O Excêntrico. tem cinco tipos: O Talentoso. -… vergonha? -Mas bem… Reparo. Reparo. Direi em sua defesa que nnaquele tempo naquele tempo era jovem. Wayne decidiu que tinha pranchas para reinventar-se . nunca fazia referência a seus turvos começos com o Laddz. Sua esposa. O Talentoso se largou. E O Outro. e nos últimos anos tinha expiado seu pecado luzindo um penteado inteiramente normal. O único tipo que tivesse podido ser pior era O Outro. Naturalmente. Mas Wayne não queria… não quer fazê-lo. Não sente saudades. Dá-lhe… -Calou. estafadorcillo avaro. (E se converteu em uma superestrella mundial que nunca. Quando Wayne se apresentou na mansão do Shocko para recuperar a sua esposa. Enquanto isso. -E? -Sou seu agente.Típico dele. deixou-lhe por uma autêntica estrela do rock. carecia de experiência. a vida pessoal do Wayne sofreu um duro reverso. No Laddz. um tal Shocko Ou'Shaughnessy.

Se tudo sair bem. a volta de Laddz só tinha sido uma questão de tempo. E dedicar certo tempo a ensaiar. faremos uma excursão por todo o país e pode que até consigamos alguns concertos em Grã-Bretanha. Pode que ao princípio sim. a idéia não o fazia muita graça -disse Jay-. Pilharam-no com uma focaccia de figos e um pote da Nutella… Se barbeou a cabeça. -O que? -Chorou durante as rezas. a gente mostrou muito boa vontade para o Wayne e este alcançou certo êxito.como um artista de verdade e se desfez de seus ridículos penteados. Jay Parker me contou então que três meses atrás se apresentou aos quatro moços. mas a semana passada o notei… estranho. um DVD natalino e ou seja que mais… E a esses meninos não iria nada mal a massa. -Ao Wayne. . entretanto. -Muito depende desses concertos -me assegurou Jay-. pronunciou algum que outro tímido "joder" na rádio nacional e gravou um par de álbuns com violão acústica sobre o amor não correspondido. As admiradoras adolescentes e chillonas de Laddz original eram agora mulheres amadurecidas com filhos e ânsias de nostalgia. Bem cuidadoso. Embora sem passar-se. Houve um comprido silencio… mas agora parecia que tinha passado o tempo suficiente: as neves do inverno se derreteram e a primavera havia tornado. Estes últimos dias deixou que ir aos ensaios. Os quatro apostaram pelo projeto e receberam ordens imediatas de cortar a ingesta de carboidratos e correr oito quilômetros ao dia. sei como é) o ouro e o mouro se voltavam a tocar juntos durante uma temporada. mas não deveu ser suficiente porque seu selo o deixou atirado depois de um par de álbuns e com o tempo deixou de soar por completo na rádio. deixou-se cavanhaque. Por isso pude deduzir. o Laddz que não estava arruinado tinha várias exmulheres ou era viciado nos carros clássicos. Devido ao abandono da esposa e a agressão a Bônus. ofereceu-se como seu agente e lhes tinha prometido (estou-o imaginando.

Helen. e todos se desesperados por trabalhar. O rosário. ontem. Pobre Wayne. Wayne há… desapareceu. Seu estrambótico cabelo. John Joseph Hartley -O Macaco. -Me escute bem. largou-se correndo e ao dia seguinte. Prometeume que ia ficar as pilhas. não se apresentou no ensaio. não. provavelmente seja um bom exercício para fomentar a união do grupo. Cantos budistas? -OH. de repente. como se não tivesse nada melhor que fazer. -Que classe de rezas? -perguntei-. E aqui é onde intervém você. O caso é que depois do ensaio telefonei ao Wayne.-Rezas! Jay lhes subtraiu importância com um gesto da mão. -John Joseph insiste. Tinha o móvel apagado. Não respondia nem ao fixo nem ao móvel. De fato. Optamos por ensaiar sem ele. mas esta manhã voltou a faltar ao ensaio.era um homem religioso. Mas estavam no meio do terceiro mistério quando. Wayne começou a chorar. ou pelo menos o tinha sido quinze anos atrás. -Há dúzias de investigadores privados nesta cidade. -Não. Seu célebre cabelo. Quantas vontades devia ter de desfazer-se dele. Não faz nenhum dano. Claro. -de repente ficou veemente-. -Quais? -Eu. -Sim. decidimos. Que se tome o dia livre para que possa ter seu pequeno protesto. suponho. ou seja. basicamente. Poderia contratar a qualquer inepto para que pirateie as listas de passageiros das aerolinhas das últimas . E não estava. E John Joseph. -O do cabelo tem acerto -continuou Jay-. A velha escola. E quando fui a sua casa me encontrei isso com manchas de chocolate na camiseta e a cabeça barbeada. Contrata a um deles. E também o da barriga. Como uma garota. de modo que me apresentei de novo em sua casa.

Mas Wayne… não tenho nem idéia de onde está. tem o dever de contar-lhe a alguém. suspeito que Wayne tinha que estar muito angustiado para barbeá-la cabeça. mas ocorrem. Pode que estivesse colocando ao Wayne em minha cabeça. Isso joga por terra sua teoria. Entretanto. acima e abaixo e a minha redor-. inclusive jogando golfe. Tenho pouco dom de gente. como uma pessoa normal. Mas tenho o pressentimento de que não serviria de nada. Mas tenho momentos brilhantes. Sei que a avareza te pode. Quem há dito nada disso? Ouça. Vêm e vão e não posso depender deles.se está ocultando à vista de todos. . Helen Walsh. Necessito a alguém que pense de forma descabelada. diz? Acaso o vê? Não? Eu tampouco. Ouça. interpretaste-me mau. -Só digo que não está escondido… escondido. Sou vaga e ilógica. -Wayne -prosseguiu Jay Parker. Qualquer outro estaria escondido em algum hotel recebendo massagens e serviço de habitações. isso é tudo. o do Wayne é só uma rabieta… -Não estou tão segura… -Está carrancudo. quando der com ele te parecerá o lugar mais lógico de todos. mas não em um lugar óbvio. Aborreço-me e me irrito com facilidade.vinte e quatro horas. -Conteve um calafrio-. certamente. com seus panos de cozinha e suas marmitas de Laddz. -Fazer-se danifico? -Jay me olhou atônito-. mas se Wayne Diffney anda por aí pensando em fazer-se danifico. e a sua maneira desagradável. Wayne é um tio ardiloso. À vista de todos. é um gênio. Pode. até eu mesmo poderia agarrar o telefone e chamar a todos os hotéis do país. Tinha razão. Está escondido. -Não me diga? -Abri muito os olhos e olhei a esquerda e direita. -E? -Necessito que te meta em sua cabeça. Pode-se ser mais arrevesado? -Jay.

Tarifa dobro. -Não gosta de entrar como uma benjamima. Teria que havê-lo imaginado. mas o que é a vida sem um pouco dessa adrenalina provocada pelo medo? -Tranqüila. tenho uma chave. Tinha pago dez horas. me conceda uma hora de seu tempo e lhe pagarei isso como se fossem dez. Mas o que me estava acelerando o coração não era o estímulo do dinheiro a não ser a idéia de ter algo que fazer. Os Jaguar clássicos revistam conduzi-los "homens de negócios" que se passam a vida maquinando e tendo "problemillas" com Fazenda. de ter um mistério no que me concentrar. Proponho-te algo. -É muita massa -continuou tentadoramente-. Acendi de novo o móvel e procedi a acribillarle a perguntas. Vamos a sua casa para ver que impressão te dá. -Então. que resultou ser um Jaguar com trinta anos de antigüidade. Tinha razão. É ilegal. Era justamente a classe de carro que esperaria lhe ver conduzir. e só faz vinte e quatro horas… Além disso. tarifa dobro. . finalmente. -Tendeu-me um maço de bilhetes e o contei. -Certo. -Não me fariam nem caso. 4 Fomos no carro de Jay. -O que me diz? -perguntou Jay me observando com atenção. tal como tinha prometido. Uma voz em minha cabeça não parava de repetir: "Jay Parker é um mau homem".-Acredito que deveria ir à polícia. deixar de ganhar dinheiro. Helen Walsh. Durante os dois últimos anos tinha sido horrível ver como se esfumava o trabalho. um mistério que me mantivera fora de minha cabeça. Os tempos nunca tinham sido tão maus. Maus tempos para os investigadores privados. -Primeiro a massa. vamos a casa do Wayne? -perguntou. -Algumas vezes sim gostava. Wayne desapareceu voluntariamente. ter menos e menos que fazer cada dia e. a imprensa não pode inteirar-se.

Wayne é um pouco… reservado. E quando passei por sua casa esta noite. -por que tem uma chave? -Aos artistas terá que os ter controlados. mas não encontrei seu passaporte. -Como sabe? Entrou? Entrou em casa de outra pessoa quando a pessoa não estava? Deus. -Facebook? . -Não. -Não nas de meus amigos. Tenho chaves de todos os Laddz. -A voz de Jay gotejava desdém. não estava. -Fiz-o porque estava preocupado. -Drogava-se? -Não. E a chave de seus alarmes. -Tinha pedido dinheiro emprestado a algum autônomo? -Refere a um agiota? Nem idéia. que eu saiba. -Como sabe que desapareceu voluntariamente? -Por amor de Deus. Pode que um pouco intenso. -É você a que ganha a vida entrando furtivamente em casas alheias.-Wayne tinha inimigos? -Muitos cabeleireiros o buscavam por crímenes contra o cabelo. -Aonde crie que foi? -Nem idéia. -Quando foi a última vez que alguém falou com ele? -Ontem à noite. -Tem Twitter? -Não. Eu lhe vi em torno das oito e John Joseph lhe telefonou por volta das dez. não tem vergonha. quem quereria lhe seqüestrar? -Não te cai bem? -É bom tipo. -E esta manhã não foi ao ensaio.

-Não me dê uma mierda de foto de um comunicado de imprensa. Algo um pouco mais real. -Entendo. mas nos últimos anos se sacudiu a vergonha de ter pertencido a um grupo pop e se aberto caminho como produtor. -Essa é a cara que tem. O Macaco. ou pode que de Jordânia….-Certamente. Uma preciosidade de olhos escuros chamada Zeezah. -John Joseph lhe manteve ocupado. de por aí. -Toma. desde que fracassou seu reinvención? -É algo que sempre me intrigou. -Outra vez esse desdém. De fato. -Se publicar algo. Necessitarei um retrato recente dele. -Bronzeado falso? Maquiagem? Cabelo penteado com secador? Careta de esgotamento? Não sente saudades que tenha fugido. John Joseph Hartley. Jay me arrojou de novo a foto. Mas parecia que ia bem. como dizia minha mãe. Um único nome. Produzindo. Incomodava-lhe que uma garota irlandesa não fora o bastante boa para o John Joseph mesmo que Zeezah planejasse deixar o islã e converter-se ao catolicismo. fazia pouco se casou em meio de um grande desdobramento publicitário com uma de seus artistas. uma cantor de Líbano. igual a Madonna. Se quiser que encontre a esse tipo preciso saber que cara tem. A postseparación de um grupo pop. onde ao melhor não eram tão exigentes. Joguei-lhe uma olhada e a devolvi. Qual é o estado atual de suas publicações? -Não sou dukaniano. o que seja. comunique-me isso em seguida. Ninguém sabia como o tinha conseguido. -O que esteve fazendo Wayne os últimos dez anos. digamos que Kylie jamais lhe chamaria. mas não publica nada desde terça-feira. . vá. igual a Hitler. De fato. Trabalhava sobre tudo no Oriente Próximo. Ou. -Lançou-me uma foto. Embora tampouco é dessas pessoas que publicam algo todos os dias. Não de alguém que possa te soar. -Talvez encontremos algo na casa -concedeu Jay-.

Apertei os lábios. -Viu muitas filmes. Ainda não sabia se ia aceitar o trabalho.que tem umnamorado novo. melhor-. a mononombre Zeezah arrasava em lugares como o Egito e o plano de John Joseph era que também triunfasse na Irlanda. -por que? -Necessita uma ordem judicial para essas coisas. Tinha conseguido me enganar. Teria que entrar em seu ordenador. Outra vez. Conhece a contrasenha? -Não. assinalando com isso uma mudança de tema. Como sabia? E quem lhe mandava colocar os narizes? -Em realidade não é tão novo -respondi-. Caray. Ou pode que não… . -ouvi -balbuciou Jay. -Podemos averiguar onde utilizou seu cartão de crédito nas últimas trinta e seis horas? -Talvez. -Interrompi-me. Uaaaaau. Mentia. -Não. -Pode que Wayne fora um desses tipos confiados que deixavam a contra-senha em um post-it amarelo junto ao teclado. verdade? Estava provando sorte. Quanto menos dissesse. Levamos quase seis meses.para demonstrar suas boas intenções. Seja como for. Meses -disse injetando sua voz de fingido assombro-. -Seis. Reino Unido e o resto do mundo. Tem que passar pela pasma. -Sim sabia -assegurou. Algo fez que me voltasse para ele. Referia ao Wayne. -Pois pensa uma. -A quem? Ao Artie? Se tantas vontades tiver de lhe conhecer não tenho mais que lhe chamar. -Em realidade não sabia. ela e John Joseph tinham passado sua lua de mel em Roma. -Poderíamos triangular sua localização a partir das antenas de móveis propôs.

estão acostumados a entremeter-se. Acredito que é porque estão acostumados a contar com o respaldo do poder da lei. Um gênio adolescente com indumentária skateboard que vive fora do sistema. em uma habitação sem janelas e com dezoito ordenadores. têm acesso a toda classe de informação que está fora do alcance de investigadoras como eu. de homens bonitos e desarrumados. e se ainda mantêm boas relações com seus antigos colegas. quando só tinham que mostrar sua placa para que a gente fizesse o que eles queriam. E embora o mundo da investigação privada vai escasso. mas têm uma idéia equivocada. eles não têm mais que telefonar a seu velho colega Paudie "Pés Planos" para que este se introduza no sistema e os passe a informação com todo luxo de detalhes. 5 Pelo general. Não levam bem a transição à vida real. só me ocorreu duas vezes. é menos divertido do que parece. está infestado. onde os cidadãos não têm que responder se não quererem. um homem bonito e desarrumado. com um problema com a bebida e três ex esposa. invadido de ex-polis. e me acredite. Se seu objetivo for que a gente fale e não dispõe de uma ordem judicial ou uma placa de polícia. quando a gente se inteira de que sou investigadora privada se mostra impressionada e inclusive entusiasmada. infelizmente. vê muitas filmes. necessita encanto. Parecelhes a trajetória lógica que devem seguir depois de deixar o corpo. De fato. O fato de ser mulher faz que o pau seja duplo.-Conhece algum Hacker? -perguntou-me Jay-. pirateando o Pentágono por mera diversão? -O dito. Mas em quase todos outros aspectos os ex-polis são um desastre como investigadores privados. É muito estranho o dia que alguém tenta me disparar. em troca. normalmente um poli retirado que abandonou o corpo por motivos algo chungos mas basicamente injustos. não. Se quero saber se uma pessoa possui antecedentes. Todo mundo espera que um sabujo seja um homem. Tremendos. Necessita . não fica outra que me fazer perguntas e conjeturar.

O caminhão se deteve frente à casa. Clique. clique. sobre tudo em um caso rural. A classe de banheira capaz de fazer-se valer e ocupar o centro de uma estadia muito maior. e durante os seguintes três dias me atirei treze horas diárias colocada dentro com o objetivo apontando para a casa. Estava transida e aborrecida e não tinha onde mijar. Vivia em uma granja remota e inóspita. Mas ali permaneci até conseguir a prova filmada que necessitava. Basicamente. os ex-polis são pior que inúteis. (Com patas mas moderna. fazia minha câmara desde meu refúgio enlameado. sem um só lugar onde eu pudesse me esconder sem ser vista. os pés eram almofadinhas de aço inoxidável em lugar de garras de cobre. fazia meu vídeo. Necessita astúcia. Muito bonita. muito a meu pesar). E quanto à vigilância. Tempo atrás levei o assunto de uma companhia de seguros a que um homem tinha apresentado uma cuantiosa reclamação por uma perna paralisada. negam-se a descer do carro -muito gordos?.sutileza. procedeu a descarregar uma banheira. e o exterior estava pintado de um estanho prateado. e foi que o sujeito da perna má apareceu com uma escada de mão e a apoiou no muro da casa. subiu por ela com a banheira nas costas e colocou esta pela janela de um dormitório. bebendo o vodca e a Coca-cola light que tinha conseguido penetrar e desfrutando da satisfação de um trabalho bem feito. runrún.) A banheira me tinha tão deslumbrada que quase me perco o que aconteceu a seguir. onde passei uma hora na banheira (do todo corrente. Prova que chegou ao fim quando um caminhão subiu pelo caminho e meu sujeito saiu da casa muito garboso e saltitante para alguém com uma pata supostamente agarre. meu sujeito subiu de um salto à parte de atrás e. com a ajuda do caminhoneiro. com minhas próprias mãos e uma pá. runrún. clique. de modo que na escuridão da noite cavei -sim. e quando ao fim caiu a noite saí do buraco. Não pode te plantar com seus sapatos do quarenta e seis e um sándwich de fatias de toucinho aparecendo pelo bolso e te pôr a ladrar perguntas. e às vezes é necessário.um fosso. Chovia. muito vagos?-. preenchi-o e retornei à pensão. . Arruinou-me a roupa. A terra se empapou e se transformou em lodo.

jamais se tomariam tantas moléstias. Não em Los Anjos. chamam-no. Não abrigava muitas esperanças porque. Oito semanas. A que sobrevivia se levava o prêmio. ("Escaquearse". Meu desejo era conseguir trabalho em filmes cobrindo aos atores de sangue falso. Se alguma vez assistisse a um jantar. mas nunca consegui ser o suficientemente amável para o trabalho. A isto seguiu um breve período competindo pelo título de Pior Garçonete do Mundo. onde atiradores invisíveis disparam ao tuntún simplesmente para te preparar para a realidade de nosso trabalho. depois do qual me formei como aeromoça de vôo. no que a vocações se refere. Inclusive -ao fim me atrevo a dizê-lo. virtualmente tínhamos que brigar a morte. Não na Chechenia. meu pequeno curso era uma classe noturna. em troca. algo que eu não acabava de conseguir. Como já hei dito. Minha resposta é muito singela. A única maneira de sortear a avalanche de maquiadoras autônomas era manter uma boa relação com os contratantes. Essas coisas são um grande tema de conversação nos jantares. acreditam-se por cima de todo isso. Não. Quando terminei o colégio passei um par de anos na universidade tratando de me tirar uma licenciatura em arte.Os ex-polis. me dispararam um par de vezes e embora não foi agradável. tinha provado muitas e fracassado em todas. as quartas-feiras. como no Gladiator. Uma vez à semana. Não a classe de curso em que lhe enviam com seus companheiros a um intensivo de dez dias em uma casa solariega e logo lhe mandam ao bosque. mas me parecia tão estúpida e vã que suspendi todos os exames.) E outra coisa sobre os ex-polis: aterra-lhes que lhes disparem. tenho que reconhecer que resultou interessante. A gente está acostumada me perguntar como me converti em investigadora privada como se se tratasse de um pouco tão misterioso como ser recrutado pela maçonaria. mas sendo autônoma tinha que competir com outras dez mil maquiadoras em cada projeto. A não ser na escola politécnica de meu bairro.estimulante. a cinco minutos em carro de minha casa. . Depois me preparei como maquiadora profissional. muito mais singela do que esperam: fiz um curso.

disse-me. quase por capricho. e à terceira ou quarta semana o aborrecimento fazia ato de presença e fingia um catarro e ficava em casa. -Agarrarei meus pincéis e esponjas e irei. imagino. Vai de listilla e é incapaz de filtrar seus pensamentos… -… e meus pensamentos revistam ser desagradáveis. assim. e para quando chegava a seguinte classe me dizia que já me tinha perdido muita matéria e que melhor o deixava para o próximo outono. Continuando. Inclusive tem dentes. procurando desesperadamente meu lugar. melhor dizendo. Ou. Podia fazer este trabalho. Uma parte era sobre tecnologia. Mas não o é. Meu tipo de personalidade não é o adequado. -Vê-o?.A gente não tende a me contratar. já está outra vez. Uma contratante de um filme me disse. e na Grazia saía um artigo que dizia que os seres humanos estão programados para escolher às pessoas com as facções simétricas mais agradáveis à vista. que minha cara enganava. Davam-me esperança. e pela primeira vez em minha vida consegui não me saltar uma só classe. ao me rescindir o contrato. -Por favor. simplesmente estava respondendo a um imperativo biológico. -É bonita -se lamentou-. Sempre estava começando coisas. O plano de estudos. Mas outra boa parte tratava das restrições que a Lei de Liberdade de Informação e a Lei de Amparo de Dados impunham aos investigadores. a culpa não é minha. Tem as facções simétricas. O professor . verdade? -Espero que não -respondi. -Exato. Encaixava com minha difícil personalidade. contudo. por isso quando sorri parece… doce. Mas estas classes eram diferentes. e a encontrava fascinante. sobre as diferentes maneiras em que podia espiar a alguém. a gente tende a me contratar um período breve e logo me despede. apontei a um curso de Investigação Privada para Principiantes. deixava muito que desejar.

É uma brincadeira -se apressou a acrescentar quando um par de alunos correram a anotá-lo-. todos os bons investigadores privados têm "contatos". Ao parecer.tinha trabalho como investigadora privada. deitar-se com um policial seria uma boa idéia? -perguntei-. Logo. É muito melhor que desenvolvam o caso realizando uma vigilância estreita. mas mesmo assim me alegrei muito de que me contratasse uma das grandes agencia . Helen. Terá que dizer que na Irlanda corriam bons tempos e todo mundo procurava pessoal. embora ainda faltava um mês para Natal. Formávamos um grupo simpático e. etcétera. Levantei uma mão. -Interpretarei como um sim. disse: -Primeiro prova a lhes fazer uma bolacha. mas a que não se podia acessar sem uma ordem judicial. saímos ao mundo.illegalcontacts. no mundo. coroamos o último dia de classe com ponche de vinho quente e pastelitos de carne. armados com nosso título. Uma semana depois -uma semana. Mas ilegal -recalcou-. É uma decisão pessoal. falando com testemunhas. Não queime todos seus cartuchos de uma vez. -Por "contatos" se refere a pessoas que têm acesso a informação a que não se pode acessar legalmente? O professor me olhou com cara de recriminação. Assim e tudo. -Isso o deixo a seu critério. -Então. É ilegal passar a informação mas também é ilegal pagar por ela. entre cotoveladas e piscadas fazia freqüentes menções aos "contatos".dedicava muito tempo a falar do que não podíamos fazer e de toda a informação suculenta que havia aí fora. E com alguém que trabalha no Vodafone? E no MasterCard? Quando já pensava que não ia responder.org -respondeu-. E onde podemos encontrar esses contatos? -Em www.

em um caso sem precedentes. também fazia trabalhos onde me passava três dias metida em um fosso enlameado. pequena. Esta vez muito trabalho de mula.de investigadores privados do Dublín. transbordante de dinheiro e de gente com idéias. E. E as perspectivas eram muito diferentes. é obvio. Não obstante. Suponho que estava -perdão pelo tópico. alguns trabalhos de vigilância eram no estrangeiro. ou seja. Enviaram a Paris e também ali me alojei em um cinco estrelas. naturalmente. de maneira que gente como eu era enviada com um montão de maquinaria que uivava e apitava como uma descosturada cada vez que tropeçava com um microfone oculto sob uma mesa ou um teclado. não me passeando pela rue Faubourg do St. De acordo. vieram a me buscar! Outra agência grande de investigadores privados do Dublín. Mas era grande para tratar-se de uma agência irlandesa. fazer o impossível por obter uma prova. Ansiava o subidón de adrenalina que me produzia trincar ao mau. vigilância. Mas até um mico bem treinado tivesse podido realizar o trabalho. Nada de trabalho de mico.faminta. Entretanto. e logo compreendi que não era isso o que queria fazer. Estava disposta a tudo com tal de obter resultados. estava trabalhando. Enviaram a Antiga. Por exemplo. tal como estava a Irlanda naquela época. quando uma companhia tinha uma reunião importante para falar de algo confidencial. horrorizava-lhe a possibilidade de que empresas rivais ou patifes de seu próprio grupo pusessem microfones. Quando digo grande quero dizer. Honoré comprando sapatos. e quando digo grande quero dizer. em lugar de ser despedida. onde me alojei em um hotel de cinco estrelas.) Estava especializada em rastreamentos eletrônicos. e o certo é que também eu gostava. . Em lugar disso sustentava microfones ultrasensibles contra tabiques. gravava conversações incriminatorias de homens com mulheres que não eram suas algemas e retornava vitoriosa a casa com provas de uma aventura amorosa. (Dez empregados. naturalmente. Durante um tempo desfrutei de uma vida bastante glamurosa. pequena.

O curioso é que nnaquele tempo naquele tempo tivesse podido me permitir algo melhor. com uma situação ideal para a escapada do almoço. trabalhar as horas que quisesse e -o sonho de todos. Choviam-me as ofertas de trabalho. Visitei um escritório precioso junto à rua Grafton. por isso deve saber de que fala. Bastante imundo. e pela primeira vez em minha vida muita gente me queria em suas lista de nomes. Um espaço diminuto no extremo de um edifício de pisos de amparo oficial que gotejavam heroína. Abri-me uma página no Facebook. naturalmente. Tive que investir milhares de euros em uma equipe de vigilância. Adquiri fama de investigadora competente. Mas te direi algo: trabalhar por conta própria não é tão singelo como parece. a levar a contrária. E ela está formada nessas coisas. Mas isso não me deteve. tetos altos. Mas o troquei por pisotear seringas de injeção cada manhã. Ser minha própria chefa.Embora não tudo era abundância.) Diz que tenho uma tendência anormal. desagradável. A partir de então fui com mais cuidado. Não tinha calculado bem o grande perigo que corria. enfurecia-se e tentava me agredir e me romper a câmara. aceitar unicamente os casos que me interessavam. mas optei por fazer o que todo mundo acredita que quer fazer: me estabelecer por minha conta. quase psicótica. Às vezes um adultero me descobria. fiz-me cartões de visita e me montei um escritório pequeno e agradável. e tinha que fazê-lo tudo sozinha. inclusive intrépida. mas não me deteve. sem companheiros que assumissem parte do trabalho ou atendessem sequer o telefone. E o certo é que essa parece ser minha maneira de funcionar. Quando digo agradável quero dizer. tive que sair a procurar clientes novos porque me impediram de me levar a meus velhos clientes. Quando minha irmã Rachel se inteirou. a verdade. .sair antes as sextas-feiras. Tinha carpetes amaciados. declarou que isso confirmava sua análise inicial de que tenho um problema. A primeira vez que me ocorreu algo assim quase morro do susto. Mas o fiz. (É conselheira em temas de vício porque ela mesma é ex-viciada. umas dimensões idôneas e uma loira magra respondendo ao telefone na recepção.

Só tinha doze casas. A casa do Wayne Diffney estava no Mercy Close. mas lhe obriguei a chamar o timbre. -Sim.) Estava tão desconsolada como uma mulher agonizando de câncer em uma cama. Abundavam as influências do vague-deco: janelas altas com o Marcos metálicos e tulipas de vidros de cores sobre a porta de entrada. as casas descansavam detrás de muros baixos. Abriu a porta e esperei a que o alarme soasse. -Obrigado. assenti com a cabeça. De modo que Wayne se partiu sem conectar o alarme. Pequenas mas independentes. Como se fora uma lei. mas não estava conectada a última vez que vim. cada uma com um pequeno jardim. -Não há alarme? -perguntei.6 Sempre é uma surpresa quando um famoso vive em uma casa normal e corrente. depois de chamar seis vezes sem obter resposta. Queria protegê-lo na medida do possível. (O único que me deteve foi que tinha a luz atalho. Jay tirou a chave de seu bolso e procedeu a colocá-la na fechadura. -Pode que Wayne haja tornado -disse-. Só porque alguém tenha saído na televisão já espero que viva em um apartamento de cobertura de couro branco. em . Se aceitava o caso. duas fileiras de seis que se olhavam de frente. me teria gostado de conectar o alarme ao sair esta manhã de meu amado piso por última vez. embora nunca mais pudesse estar aí para ele. -Adiante. uma discreta rua sem saída junto à estrada da costa do Sandymount. O que dizia isso a respeito de seu estado de ânimo? -E não te ocorreu pô-la quando foi? -Por quem me tomaste? Por um segurata? Curiosamente. mas não soou. um pouco de respeito. o que abreviaria o trabalho de interrogar aos vizinhos.

Jay ficou vermelho. como eu gostava dessas cores. Fui direta ao aparador do salão -um precioso espécime embutido no oco que havia junto à encantadora chaminé dos anos trinta. ." (Os telefilmes sempre tinham lugar nos velhos tempos em que ainda existiam as classes de aerobic. Tinha pintado as paredes com pinturas do Holy Basil. "Carinho.e me pus a abrir gavetas." Tosse. -Para sua informação -disse-. nunca leve sapatos marrons. Cores que contavam com minha plena aprovação. agora devo morrer mas. tosse. a escada de Agonia e o salão -se não andava equivocada. e em seguida procedeu a abri-los. que com voz rouca dá a sua querida filha de onze anos conselhos sobre a vida. Mas não lhe importou.) Jay estava recolhendo algumas cartas e folhetos esparramados pelo felpudo do Wayne. -Ou pelo menos dentro das Ilhas Britânicas. por favor. Encrespará-te o cabelo. nunca vá a classe de aerobic depois de te passar o secador. não era de sentir saudades que me invadisse a inveja. e a verdade é que a mim tampouco. Deus." Tosse. Tendo em conta minha recente perda. "Nunca…" Pausa para tossir. porque estava afligida pela beleza da casa do Wayne Diffney. Não demorei nem segundo meio em arrojar um livrinho sobre o escritório. Pequena mas decorada com surpreendente bom gosto. são espantosos. recorda… Aaajacajacajac…. nunca… leve sapatos marrons com bolsa negra. recorda. -Como é possível que não o visse? -O que quer dizer que segue no país. é ilegal transportar com a correspondência de outra pessoa. O saguão estava pintado de Gangrena. Dirão o que queiram da circulação livre de pessoas dentro da União Européia. -Aí tem seu passaporte -disse. "De fato.de Baleia Morta. "Minha pequena. Não me tinha podido permitir isso mas me conhecia o mostruário como a palma de minha mão. tosse. tosse. mas a casa do Wayne era realmente especial.um infumable telefilme. tosse.

Tão unidos que a mãe do Wayne chamou o John Joseph esta tarde preocupada porque Wayne não responde ao telefone. Richard. um agente secreto. Eu gostava de sua cara. -E se tiver um passaporte falso? -perguntou Jay. e o irmão em Nova Iorque. Devolvi o passaporte à gaveta. Connie. -Possivelmente deveria me deixar cair pelo Clonakilty e ter um bate-papo com a mãe do Wayne -disse. E o irmão do Wayne. -Olhe. no County Cork. Os meninos? Provavelmente sobrinhos. Jay suspirou. -De onde quer que saque um passaporte falso? Há-me dito que Wayne é um cidadão corrente. -Pela pinta eu diria que seus pais. e pertencia à classe de homem corrente com atrativo. -Poderia ser um criminoso. -Quem é essa gente? -Nas estanterías do aparador havia algumas fotografa. -Estão unidos. -Wayne está provavelmente com eles. um espião. -Meneou a cabeça-. Essa outra garota é a irmã. -por que ao John Joseph? -Porque é unha e carne com os Diffney. pode que Vicky. Wayne luzia um cabelo totalmente normal. -Estava molesta e assombrada de que Jay não se desse conta do que era claramente óbvio-. Examinei a foto do passaporte. Ninguém. de cor castanha clara. seria muito fácil encontrá-lo. . Jay lhes jogou uma olhada. embora não recordo como se chama. e também a sua mulher. Conheço-lhe. Se estivesse com sua família. Duvidava-o. -Onde vivem? -Os pais e a irmã no Clonakilty. -Acredito que Wayne está no Clonakilty -disse convencida.mas o certo é que se não formar parte de Acordo Schengen não pode ir a nenhum lado sem seu Isso passaporte facilita muito as coisas. Parecem muito unidos. Wayne está fugindo e não é estúpido.

-Me dá no mesmo o que faça. -Frankie." "Ah. John Joseph está histérico. -Filhos? -Tampouco. mas nenhum ia acompanhado de uma mulher. -Wayne temnamorada? -Que eu saiba. ainda menos de uma ex esposa. Tinha vinte e oito mensagens novas. não estava tão segura. -Onde tem o telefone fixo? -Localizei-o na outra ponta da estadia. eu quero encontrar ao Wayne. para cúmulo. O quinto pertencia a uma voz que reconheci pela metade. Esta vez se diria que ao bordo das lágrimas. Os quatro primeiros eram de Jay ordenando ao Wayne que fora apitando ao ensaio. -São desta manhã? -perguntei. . Clonakilty ficava muito longe." Uma voz nova falando com uma mescla de exasperação e carinho. Outra vez Frankie. "Tem que vir. alardeavam disso. Seguinte mensagem. não. Bem pensado. Wayne. Agora que Jay estava de acordo comigo. Além disso era mundialmente conhecido por seu chouriço e eu não podia visitar um povo onde elaboravam chouriço e. nem sequer de uma ex esposa. O Gay e o favorito de todo o mundo. se quiser. Claro! Frankie Delapp." -E este é…? -perguntei ao Parker. Deveria pensar a respeito… Havia uma foto do Wayne e John Joseph Hartley recebendo um prêmio coberto de caracteres que pareciam árabes. -Quem quer que fora parecia muito angustiado-. Jay assentiu. "John Joseph te vai matar. Conduz oito horas até o Clonakilty.

Era possível que Wayne tivesse estado pedindo hora para que lhe arrumassem o destroço que se feito no cabelo? Para comprar uma peruca? Talvez estava vagando pelas ruas com uma cabeça de cachos castanhos. tio -lhe insistia Roger-. As outras três chamadas -realizadas entre as oito e as oito e meia da manhã. O que te faz pensar que desapareceu? Como sabe que não se tomou a tarde livre? -Leva vários dias tramando isto. -Zeezah -me explicou Jay-. -Roger. Nunca era o favorito de ninguém. o telefone do Wayne só conservava o registro dos últimos dez números marcados. Chamei para ver se podiam me dar uma idéia do que Wayne tinha estado fazendo os últimos dias. Soava decepcionada e exótica. A nova senhora de John Joseph.-Quem é? -perguntei. entretanto. mas faz-o pelo grupo. foi-se. Telefonaria-lhes amanhã. tinha desfrutado de uma existência inesperadamente dissoluta. vale?" "Wayne. os sete primeiros números eram do Dominos do bairro. Está falhando aos meninos e isso não é próprio de ti. uma barbearia do centro da cidade. Comendo pizza. não demorei para descobrir. Frankie e Roger. Roger St. "Tem que vir ao ensaio -lhe arreganhava Zeezah-. -Dá a impressão de que esta manhã ainda seguia aqui -disse ao Jay-. ." A voz de uma moça. de Jay. Saiu-me a mensagem gravura de fora de horário.eram ao Head Candy. me acredite. sei que é duro. Era um montão de nada em um traje branco que unicamente fazia de vulto." Havia mais mensagens. embora por que ia chamar se outros já o faziam por ele? Enquanto os escutava consultei as chamadas salientes. De repente uma voz nova falou na secretária eletrônica. Leger. Ninguém podia entender que tivesse conseguido entrar no Laddz. Na vida real. Como podia ser sequer legal? "Vamos. Tinha três ex esposa e sete -e sete!filhos. aliás O Outro. Nenhum de John Joseph.

mas dava a impressão de que tivesse feito algum tipo de bagagem. só alguém pendurando de um móvel. -A que hora chamou? -10. uma parede grafite de Ferido gravemente. as outras três de Decadência. Possivelmente não fora importante. mas era certo. havia um pequeno retângulo de pó com forma de mala. Mierda. -Sua voz soava doce e animada-. Wayne. No dormitório -mais tinja ideais. sou Glória. a porta do roupeiro estava aberto e havia vários cabides vazios. -Desde que número chama? Depressa. Número desconhecido. o teto de Senhor da Guerra. Por isso te pago seus exorbitantes honorários. -Bem! -Subi os degraus de dois em dois.49 da manhã. -Número desconhecido -me informou Jay. como se acabasse de cair na conta de que não era uma boa idéia deixar os detalhes de sua boa notícia em uma secretária eletrônica que poderia escutar qualquer-. debaixo da janela.59 da manhã. -Nem idéia. Às 11."Olá. Wayne se tinha levado a roupa justa para uns dias. Anotei o número. OH… Sabe? Melhor intento te localizar no móvel. Tinha que comprová-lo pessoalmente. Na secretária eletrônica ficava uma última mensagem. antes de que salte a seguinte mensagem. -por que ia querer Wayne desaparecer depois de receber uma boa notícia? -Não sei. -A que boa notícia se refere? -Ignoro-o. -de repente titubeou. a voz automática declarou: "Não há mais mensagens"." -Quem é Glória? -perguntei ao Jay. em um rincão. mas nunca se sabe. Em realidade não era uma mensagem. Ao fim.se respirava nervosismo. ao fim!. tenho uma boa notícia. Ouça. Não lhe acreditei. . Das gavetas penduravam meias três-quartos e cueca.

suspeitava que não. cabelos. dois acendedores -um verde e outro com uma foto de Coliseu de Roma-. Sem entrar em detalhes truculentos. -Tem criada? -perguntei ao Jay. Jay se gaba de que o único livro que tem lido em sua vida é A arte da guerra. Embora não havia signos evidentes de luta. recibos enrugados. embora já chegaremos a isso. Estava começando a entender por que Wayne e Jay não eram exatamente unha e carne. isso não descartava a possibilidade de um rapto. Gaviscon. ladrões. Um seqüestrador provavelmente lhe teria permitido agarrar uma muda. Comprou-o mas nunca o leu. Cymbalta. Joguei uma rápida olhada aos livros que descansavam na mesita. o que significava uma pessoa menos a que interrogar. canetas que perdiam tinta. Quem se levaria uma muda se tinha pensado atirar-se ao mar? (Entretanto. Embora miúda sou eu para criticar. Se estava acostumado a levar-se a gente. e o último ganhador do prêmio Booker. Nada destacável. sempre se agradecia uma mudança de muda. um tubo da Bonjela e algumas caixas de medicamentos. Sério. segundo a cor do cristal com que o olhasse.O que fazia menos provável que se houvesse suicidado. Isso podia ser bom ou mau. simplesmente estava normal. Clarityn. A cama parecia mas o edredom não tinha sido estirado e alisado até obter um acabamento perfeito próprio de um TOC. O Corán. borrachas elásticas. Atirei da gaveta superiora da mesita de noite e encontrei as porcarias de sempre: moedas. O dormitório do Wayne não estava desordenado e tampouco sujo. -Nem idéia. certamente a experiência lhe tinha ensinado que era importante manter a seus prisioneiros limpos e asseados. nada menos. . pilhas gastas. A julgar pela fina capa de pó que cobria o chão.) Não obstante. sim te leva outras coisas. o qual é mentira.

Parecia anatomicamente impossível que alguém pudesse ter uma cabeça que se estendesse tanto ao alto. Um autêntico chateio. Me deu vontade de agarrá-lo e estampá-lo contra a parede. junto à cama do Wayne havia também um CD da maravilha do agora. Aqui o Santo Grial teria sido. largo e comprido. Artie foi quem me fez reparar na cabeça desse homem e agora nossa afeição favorita era nos deitar na cama e vê-lo no YouTube e nos assombrar do espetáculo milagroso do mundo do cacho. o mais pequeno. um dos êxitos de música espiritual do momento. sem lugar a dúvidas. Muito alto em minha Lista do Palazos. 23 H. Algo do tipo: "Pub do bairro. Acalmou-me ligeiramente comprovar que seguia dentro do celofane.Não sou o que se diz uma leitora voraz. Sobre o suporte da janela descansavam duas velas aromáticas consumidas até a metade. O armário e as gavetas estavam vazias. Mas atualmente as agendas eram todas eletrônicas. Se reconhecia ao ganhador do Booker era só porque o autor (um homem) saía constantemente na televisão e luzia o penteado de senhora mais ridículo que vi em alguém. esse CD. formando incontáveis cachos de tamanho médio. O segundo dormitório era pequeno e parecia inutilizado. Que aqueles tempos em que as pessoas desaparecidas tinham canetas e agendas para fazer úteis notas com boa letra. Levava o cabelo penteado com secador para trás. Qual era o caso do Wayne? -Ódio esta casa -disse Jay contemplando as belas paredes com nervosismo-. que ao menos Wayne não o tinha escutado. tinha sido reconvertido em escritório. Só existiam duas razões para que um homem tivesse velas aromáticas em seu dormitório: ou mantinha relações sexuais com regularidade ou meditava. Reunião com traficante de armas internacional". O terceiro dormitório. O que queira que Wayne tinha estado tramando estes últimos dias tinha desaparecido . Tinha as quatro paredes pintadas de Desespero Fica e o teto de 40 Dias no Deserto. uma agenda. Tenho a sensação de que… me observa. homem ou mulher. Não havia nada interessante.

Ouça. Devolvi o móvel à bolsa e procedi a baixar arquivos das prateleiras da parede. Qual poderia ser? -Não sei. Ignorava por que. não o conheço tão bem. não está soando um telefone? Era o meu. mas não podia falar com o Artie em sua presença. as gavetas e os classificadores em busca do pequeno post-it amarelo onde Wayne tinha tido a prudência de anotar sua contra-senha. Às três contra-senhas errôneas o sistema se bloqueia e já é impossível entrar. e deixa que te diga que em que pese a todos esses anúncios que advertem do roubo de identidades. Tem-no tudo protegido com contra-senha.com ele. . Mas não encontrei nada. tudo perfeitamente arquivado. Que coisas gosta? Só temos três oportunidades. a minhas costas. Apressei-me a acendê-lo e enquanto esperava a que arrancasse esquadrinhei as paredes. Gilipollas? -Sério. e transcorrido um momento o ordenador se negou a me deixar continuar. Chamaria-lhe mais tarde. ninguém tritura seus papéis. Que coisas lhe interessam? -Os traseiros? -Tem que ter seis caracteres. Jay revoava nervoso. hei dito. -É inútil que me pergunte isso . Artie. dentro do móvel. Lancei um olhar furtivo ao Jay. -Varri a habitação com o olhar em busca de pistas-. Por uma vez não teria que pinçar em cestos de papéis alheios procurando informação útil. extratos de cartões de crédito. -As madalenas? -Seis. de modo que pensa. Dava uns golpecitos impaciente ao camundongo enquanto. Bem pelo Wayne. -Não posso. Um ordenador descansava sobre o escritório. Terá que perguntarlhe aos outros Laddz. pensa. Tirei da bolsa e olhei a tela. -Abre seus correios -me insistiu. Extratos de contas. me tentando com seus segredos.

-Nenhuma carta aterradora de Fazenda dizendo que débito uma fortuna em impostos? . levava séculos realizando o pagamento mínimo. O pagamento da hipoteca? Ao dia. Na terceira. Deus. entretanto. o qual reduzia as probabilidades de que se partiu sob coação. Cartões de crédito? Três. dois ao limite. A ordem de um pagamento mensal a uma canil. Eu tampouco. Havia vôos e hotéis -o Sofitel no Estambul. O que queria dizer que ao melhor Wayne o tinha levado consigo.Os documentos do Wayne constituíam uma leitura entretida. Curiosamente. A estas alturas já dispunha de suficiente informação preliminar -sobre tudo porque os extratos mais recentes eram de fazia pelo menos duas semanas e não arrojariam luz alguma sobre o que Wayne fazia hoje. sem dúvida… -Helen! -bramou Jay. Nada útil.mas não podia deixar de ler. -Certo. o seguro da casa estava pago.e extrações de dinheiro efetuadas no Cairo e Beirut. que não gastava mais do que ganhava. Um par de cartas de admiradores. A julgar pelas coisas que carregava no cartão deduzi que a utilizava para gastos de trabalho. Bode afortunado. -O que havia no correio que abriu ilegalmente? -Nada. minha irmã Margaret é uma delas. era fascinante ver no que se gastava o dinheiro. como a de qualquer pessoa normal. quero dizer. uma coisa de seu seguro médico dizendo que estava ao dia durante outro ano. O seguro do carro estava pago. Descoberto? Modesto. Estranho. Um cidadão sério e responsável. mantinha-se ao mesmo tempo. aparentemente. Assim é possível recrear uma vida inteira. Uma assinatura à revista Songlines. Um repasse supersônico dos últimos dois anos desvelou que. quarenta e três euros na Patisserie Certorie. por exemplo. rompendo o feitiço. Mas há gente assim no mundo. Ganhos? Esporádicos. ficava espaço: a maioria dos meses saldava a conta. vale… Viu um carregador de móvel por algum lado? -Não. mas os havia.

Um sonífero popular. as paredes de Alarido e o teto de Cristo na Cruz. papel. -Quem não? -Remói-te a consciência. Difícil chegar a uma conclusão. -Não há leite -disse-.um frasquito marrom que continha -estrague!. Esta casa parece um filme de terror. mas as suficientes para receber com os braços abertos os concertos de reencontro do Laddz.-Não. loções para depois do barbeado e demais produtos metrosexuales. Wayne tinha um desses cubos de reciclagem dividida em quatro compartimentos: vidro. Jay Parker rondava perto. Além disso. por conseguinte. analgésicos suaves e -estraguem!. O suporte da janela e as prateleiras estavam repletas de xampus. Fui até a geladeira. de fato. popularísimo em meu caso se não fora porque meu médico se negava a me seguir receitando isso Entraram-me vontades de me colocar o pardo frasquito de inconsciência no bolso. Eu gosto disso em uma pessoa. -Baixei a escada a toda pastilha-. não tinha tantas dívidas para querer desaparecer. -Tem problemas para dormir -disse. suavizantes. Procura você no lixo ordenei ao Parker. fio dental. Cuchillas. Que bonito. -Provemos a cozinha. pois eu não tinha a mais mínima intenção de fazê-lo. Tinha que me colocar nesse ordenador como fora… -Seguinte passo. quarto de banho -disse. mas não podia porque sou uma profissional. filtros revestir. metal e sujeira (ou seja. Bem.Stilnoct. Wayne. Impossível determinar se algo tinha sido retirado recentemente. -O que ocorre às cores das paredes? -perguntou-me Jay-. Deixei o armário para o último. restos de comida). uma prova mais de que Wayne provavelmente se foi de forma voluntária. -O que? . No lavamanos não havia restos de pasta de dente nem carregador. Jay? -Segue.

-Fechei a geladeira de uma portada e me pus com o congelador-. Sempre me teve muito carinho. Coca-cola. Não deveria estar tomando carboidratos. Como deu comigo? -Bati na porta de seu vizinho. -Quem bebe chá? -No café. manteiga fácil de lubrificar. A bílis subiu por minha garganta. Sempre estava magro e plano. Comesse o que comesse. -Caray.-Comprar leite é deprimente. Disse-me que ao melhor tinha ido viver com alguma amiga. Para que serve? -Para pô-la no chá. -Quem põe leite no café? Mais ainda. Não tinha nenhum direito a chamar a minha mãe por seu mote. mami Walsh. então. Olhou-me com a irritação própria de um homem que nunca teve que preocupar-se com seu peso. Examinei as prateleiras da geladeira a toda velocidade. molho pesto. -Queijo. Nada polêmico. Jay Parker possuía um metabolismo tão rápido como um velocista keniano. Ainda lhe sobram três quilogramas. -encontraste um cartão de leite vazio? -Ainda não… Né! Olhe isto! -O que? -Um bolo! -Parker tirou do compartimento sujeira os restos do que parecia um braço de cigano-. Falou-me de sua crise de moradia. assim chamei mami Walsh. quem me contou toda a história. Helen. Coca-cola light. Logo recordei que não tem amigas. e subsistia a base de comida lixo. Em qualquer caso. como sentia falta de suas idéias extravagantes. pode que Wayne tivesse comprado leite e a tivesse atirado antes de pirárselas. ou pelo menos assim tinha sido até fazia um ano. azeitonas. Não suportava a rapidez com que descobria os motes da gente -geralmente . cerveja. vodca. quem bebe café se pode beber Coca-cola light? Uma vez que começa a comprar leite… é um sinal de que te rendeste.

massa. O bastante para desejar lhes esmurrar a cara com uma pá. daí o nome. não teria podido ser mais corrente embora o tivesse tentado. -Não sei do que me fala… -Ouça. filetes de bacalhau. que formava parte da turma. -Ainda tem sua Lista do Palazos? -perguntou Jay. como quando te cai rodando pelas escadas e te parte o fêmur em três sítios." Na seguinte gaveta havia quatro pizzas.demorava menos de segundo meio.e logo os utilizava com tal desenvoltura que todo mundo acabava pensando. -Sinto-o -disse. -Sim. -O que sente? -Tudo. "Sente-se aqui que te porei uma bolsa de ervilhas congeladas e na terça-feira já estará lhe dando outra vez ao Extreme Chocalho. Jay Parker não me importava. Nada suspeito. os armários. arroz. certo. -Todo o que? -Tudo. batatas picantes. Latas de tomate. erroneamente. sempre estava pendente de qualquer informação que pudesse lhe ser útil. Continuando. E de quem era a culpa de que eu não tivesse amigas? Segui denodadamente com minha busca. Minha querida Lista do Palazos continha coisas que me importavam. não podemos… . Mas me importavam. por que sempre ervilhas? por que nos congeladores de todo o mundo se forem asquerosos? Possivelmente os tenham para as lesões. Odiavaas. A gaveta superiora do congelador continha uma enorme bolsa de ervilhas congeladas. Segui baixando e encontrei pão. -Sigo ocupando o primeiro posto? -O primeiro posto? Você? Você nem sequer está.

com as bochechas juntas. A cena tinha um ligeiro ar ao Abercrombie & Fitch -pode que levassem sendos jerséis de cachemira com capuz em cores bolo. Não tínhamos percorrido nem três casas quando Jay disse: -É aquele. Dava a impressão de que se feito a foto eles mesmos. Me tinha escapado algo. Ao fundo uma luz marinha. Olhe. A garota tinha sardas. -Quem é? -perguntei-lhe. Apostava-me o que fora a que era Glória. te Aproxime. em efeito. detrás da cortina (não me faça começar a falar de quão fabulosas eram as cortinas do Wayne) encontrei. Do Wayne e uma garota.Elevei uma mão para lhe silenciar. Daremo-nos um paseíto pela vizinhança para tentar dar com ele. Joguei uma olhada. -Guardei-me a foto na bolsa-. Negou com a cabeça.mas não parecia uma montagem. O sorriso de felicidade do Wayne parecia autêntica. A misteriosa Glória? -Isso pensei. Era uma novela de mistério do mais corrente. Não tinha nada de estúpida. -Está seguro? Pode que haja mais de um Alfa Romeo negro no Dublín. utilizando o automático da câmara. Baixei com a foto e a ensinei ao Jay. Morenos e sorridentes. mas o instinto me dizia que retornasse e. Ignorava por que. Uma foto. -Seguro. . Precisava retornar à habitação de convidados. -Nem idéia. -Bem. Que carro conduz Wayne? -Um Alfa Romeo. dunas e barrón. Volta do reverso. no assento tem um de seus estúpidos livros. Emoldurou sua cara com as Palmas das mãos e olhou dentro do carro. uns olhos azuis faiscantes e o cabelo emaranhado e esclarecido pelo sol.

Eu gostava do carro do Wayne. Era italiano, ou seja, elegante, mas com oito anos já, por isso não resultava ostentoso. E negro, a única cor adequada para um carro. Não encontro que sentido têm outros chamadas "cores". Não é mais que um complô para que baixemos o ritmo. Pensa em todo o tempo que se perde duvidando entre um carro vermelho e a gente prateado. Se eu governasse o mundo, minha primeira medida como déspota seria declarar ilegais os carros que não fossem negros. -portanto, se seu carro seguir aqui e Wayne se largou voluntariamente, existe uma grande possibilidade de que o tenha feito em táxi. -A alma caiu aos pés quando pensei no tremendo tédio de ter que dar sabão aos controladores das dúzias de companhias de táxi do Dublín para tentar lhes surrupiar a informação de suas carreiras. -A menos que… -Esta possibilidade me desejava muito, por outro lado, ainda mais desagradável-. A menos que partisse em ônibus ou no Dart. Wayne é dado a utilizar o transporte público. -Como sabe? -Ignoro-o. Simplesmente sei. -E isso significava que estava começando a me colocar na cabeça do Wayne. Jay me olhou com admiração. -Vê-o? Sabia que foi a pessoa idônea para o trabalho. 7 -E agora? -perguntou Jay-. Muito tarde para sondar aos vizinhos? -Muito tarde. -Poderíamos ir ver o John Joseph. -É meia-noite -disse-. Não estará dormindo? -Não acredito. -Fez uma careta de desdém-. O rock and roll nunca dorme. -Por isso o digo. John Joseph tem tanto de rock and roll como de câncer de próstata. De todos os modos, a hora pela que me pagaste acaba de tocar a seu fim. Se quiser que desloque a outro lugar terá que afrouxar mais massa. Com um suspiro, meteu-se a mão no bolso traseiro e tirou um grosso maço de bilhetes. Arrancou uns quantos.

-Duas horas mais a seu preço exorbitante. -Obrigado. John Joseph, aí vamos. John Joseph vivia em uma urbanização nova do Dundrum. Uma grade eletrônica controlada de um barraco de plexiglás por um guarda de segurança uniformizado nos bloqueou o passo. -Vamos, Alfonso -disse Jay pegando o focinho do carro à grade-. Abre. -Senhor Parker? Está o senhor Hartley à corrente de sua visita? -Estará-o em um minuto. -vou chamar lhe. -Alfonso desprendeu um telefone marrom de aspecto peculiar, como esses que aparecem nos filmes dos setenta, e Jay apertou o acelerador com frustração. -Pensava que tinha a chave das casas de todos seus artistas -comentei. -Assim é. Mas só quando não estão. -E então, o que faz? Entrar às escondidas e te esfregar com suas manoplas do forno? Lamber o queijo e devolvê-lo ao pacote? A grade se estava abrindo e Alfonso nos estava fazendo gestos com a mão. -Muito obrigado -disse Jay em espanhol-. Algum dia, Helen, dará-te conta de que não sou o porco pelo que me tem. -Aquilo dali é a garagem? -perguntei quando passamos frente a um edifício do tamanho de um armazém. A famosa garagem abarrotada de carros de época-. Joguemos uma olhada ao Aston Martin. -Não mencione o Aston Martin. -por que não? Jay encaixou o carro em uma praça situada junto a uma porta enorme. -Porque não. Seu móvel volta a soar. Uma garota popular, por isso vejo. Outra vez Artie. Agora não era um bom momento. Não com o Jay Parker tão perto e a ponto de dar certo impulso ao caso.

Embora não me parecia bem deixar que o telefone soasse sabendo que era Artie, obriguei-me a colocá-lo de novo na bolsa. Chamaria-lhe assim que me fora possível. Quando levantei a vista encontrei os olhos escuros do Parker cravados em mim. Estremeci-me. -Deixa… de me olhar como… -Quem era? Seu menino? Gosta de te ter controlada, a que sim? Ou é ao reverso? -Jay, deixa… -Que lhe jodan. Ninguém controlava a ninguém. -A coisa vai a sério, né? E eu que pensava que ia ser o único homem ao que quereria em toda sua vida. O sangue me ferveu e minha boca se preparou para soltar algumas humilhações cuidadosamente escolhidas, mas eram tantas as palavras que lutavam por sair que, como bêbados em um ataque a um bar abarrotado de gente, enredavam-se na saída e nenhuma conseguia sair. -Era brincadeira! -Riu contra meu semblante emudecido e saltou do carro-. Sei o muito que me odeia. Vamos. -Subiu os amplos degraus de granito ao trote e uma mulher miúda de origem hispana, com um vestido negro e um avental branco, conduziu-nos até um saguão do menos três novelo de alto. -Olá, Infanta -lhe saudou Jay em espanhol com um grande sorriso-. Como está? -Senhor Jay! -Infanta parecia encantada de lhe ver. Estava claro que tinha um olho péssimo para a gente-. Faz três dias que não vem para ver-me! Já lhe sentia falta de! -E eu a ti. -Jay a envolveu em um abraço de urso e empreendeu com ela uma valsa pelo saguão. Observei como dançavam. As mãos me tremiam e a cara me ardia. Ira, suponho. Se aceitava este trabalho ia ter que limitar meu contato com o Jay Parker. Tinha um efeito horrível sobre mim. -Oooh, senhor Jay! -Infanta deteve o vertiginoso torvelinho-. O senhor John Joseph lhe está esperando no salão.

-Apresento a minha amiga Helen Walsh -disse Jay, avermelhado e ofegando pelo esforço. Infanta me olhou com veneração. -Todos queremos ao Jay Parker, tem sorte de que seja seu amigo -disse. -Não é meu amigo -repliquei, e Infanta deu um passo atrás com cara de estupefação. -Adiante, ponha em evidencia a pobre mulher -disse Jay. -Mas é que não o é. -Olhei à mulher-. Infanta, sinto-o muito, mas Jay Parker não é meu amigo. -Está bem -repôs em um fio de voz. Tive que me inundar em meu interior para encontrar a barra de aço que estava correndo o risco de dobrar-se ligeiramente. Aferrei a ela e deixei que me infundisse força. Fazia falta algo mais que o rosto doído da Infanta para conseguir que eu, Helen Walsh, sentisse-me culpado. O salão era gigantesco. Com muita dificuldade se divisava ao John Joseph ao fundo. Estava de pé frente à chaminé, com um cotovelo sobre o suporte, mas o gesto parecia um pouco forçado. De acordo, não era uma chaminé baixa, mas mesmo assim. Parecia ter optado por uma decoração (acredito) de Salão de Nobre Medieval. Muito painel de madeira lavrada e muita tapeçaria além de uma monumental arranha de luzes de três pisos confeccionada com as hastes de alguma besta pré-histórica. Dois cães lobo irlandeses se passeavam perto do fogo e as luzes de umas velas piscavam em spots de chumbo. -Jay! -John Joseph cruzou a estadia a grandes pernadas. Por um momento pensei que ia pôr-se a galopar sobre um dos lobos, e em que pese a ser um famoso de pouca subida, não pude evitar certa emoção. Desde perto parecia um duendecillo ancião. A cara de doces e grandes olhos escuros que tinha funcionado aos dezenove anos estava agora, com trinta e sete, um pouco encolhida e Gollumosa. -Você deve ser Helen Walsh. -Ofereceu-me um apertão de mãos quente e firme-. Obrigado por subir a bordo tão logo. Sente-se. O que gosta de beber?

Tenho por costume que as pessoas me caiam mal do primeiro instante. Simplesmente porque isso me economiza tempo. Além disso, não suporto às pessoas que utiliza a expressão "Subir a bordo" a menos que sejam marinheiros, e obviamente nunca o são. Entretanto, não sabia o que pensar de John Joseph. Era cordial e simpático, e parecia seguro de si mesmo. Em seus olhos havia um brilho sagaz, e seu olhar me percorreu de cima abaixo mas não em plano asqueroso, a não ser assimilando-o tudo. Decididamente, não era o idiota que tinha imaginado. Não era muito mais alto que eu, e isso que eu meço um e cinqüenta e sete, mas a falta de estatura não é obstáculo para impressionar ou inclusive intimidar, ou isso me hão dito. Uma Coca-cola light se materializou ante mim apesar de que não recordava havê-la pedido, e ao Parker colocaram diante um café. Uma engrenagem eficaz, a casa dos Hartley. John Joseph se sentou a meu lado em uma das quatro almofadas do quilométrico sofá. -Adiante -me disse. -Bem, vamos ao grão. Sabe se Wayne se drogava ou se pedia dinheiro emprestado a gente brincadeira? -O que vai. Ele não é essa classe de pessoa. -Faz muito que lhe conhece? -Quinze anos pelo menos. Mais, vinte. Estávamos juntos no Laddz. -Tenho entendido que faz alguns trabalhos para ti. -Muitos, pelo general em temas de produção. Trabalhamos sobre tudo na Turquia, Egito e Líbano. -Caso que Wayne esteja utilizando caixas automáticas ou cartões de crédito, a forma mais rápida de dar com ele seria entrando em seu ordenador. Te ocorre qual poderia ser sua contra-senha? John Joseph inclinou a cabeça e deixou vagar o olhar com expressão sonhadora.

-Estou pensando -disse-. É o botox que Jay me obrigou a me pôr o que faz que pareça um descerebrado. Enrugaria o sobrecenho se pudesse. Não bastou para me arrancar um sorriso mas me fez graça. Ao momento sacudiu a cabeça. -Não. Nem idéia. Sinto muito. -É muito importante. Se te ocorre algo me diga isso Darei-te meu cartão. -Com ajuda de uma caneta, soltei-lhe a deprimente cantinela-: Este número de escritório já não existe. -Tachei-o-. E este número de casa trocou. -Apaguei meu número fixo, meu ex-número fixo, Jesus, que dilacerador, e anotei o número de meus pais-. Deveria me imprimir uns cartões novos… -comentei vagamente. Impossível-. Te importaria me dar seu número? Deu-me um número de móvel e só um. A gente como ele está acostumado a ter como mínimo quatro móveis e uma pletora de contatos para a casa e o escritório, mas unicamente me proporcionou um número. E, a verdade seja sorte, era quanto necessitava para me pôr em contato com ele. -John Joseph, é a última pessoa que sabemos que falou com o Wayne. Telefonou-lhe ontem à noite? Faz vinte e seis horas? Que sensação te deu? -Malote… Wayne não leva bem o do reencontro. Disse que já tinha deixado atrás todo isso do grupo pop, que lhe punha doente cantar as canções, que não podia cumprir o regime e que nunca lhe entrariam os trajes. -portanto, não te surpreendeu que não se apresentasse no ensaio desta manhã. -Em realidade, sim. Ontem à noite me prometeu que acudiria e lhe acreditei. -Está preocupado por ele? -Em que sentido? Refere a se pensar que pôde…? -Suicidarse, sim. -Ao pão pão e ao vinho veio. Não tinha toda a noite. -Meu deus, não! Não estava tão mal. -Crie que alguém pôde lhe seqüestrar? John Joseph me olhou estupefato. -Quem quereria lhe seqüestrar? Wayne não é essa classe de pessoa.

-Quais foram suas últimas palavras? -"Até manhã." -Não são muito esclarecedoras que digamos. Uma pergunta óbvia, mas te ocorre aonde pode ter ido? Negou com a cabeça. -Não tenho nem idéia. Mas a um hotel de luxo ou um pouco parecido seguro que não. Wayne é um pouco… extravagante. -Já o perguntei ao Jay e não pode assegurá-lo, mas é provável que você conheça a resposta. -Dispara -disse. -Wayne temnamorada? -Não. Mentia. Ignorava por que sabia, possivelmente porque tinha respondido com excessiva prontidão ou porque suas pupilas se contraíram, mas possuía uma espécie de mexeriqueiro subconsciente com o que tinha conectado. -Do que vai esta história? -perguntei. -Não há nenhuma história. -Difícil afirmá-lo baixo essa iluminação medieval, mas tive a impressão de que John Joseph tinha empalidecido. O silêncio se prolongou e, indo contra toda minha formação, fui eu a que o rompeu. -Glória. -Quem é Glória? -Sua atitude era tão agressiva, tão defensiva, que quase me compadeci. -Não sabe quem é Glória? -Não. -E se te ensino uma foto? Para te refrescar a memória. -Pincei em minha bolsa e encontrei a foto do Wayne e a garota-. Tenha -disse. Olhou-a segundo meio e declarou: -Esta é Birdie.

-Quem? -A ex-noiva do Wayne. Birdie Salaman. -Nunca ouvi falar dela. -É uma cidadã corrente. Não está metida no negócio que chamamos do espetáculo. Não, não, não diga essas coisas. -Romperam. Não sei, pode que faz nove meses. Nove meses, né? E depois de tanto tempo ainda tinha uma foto dela de barriga para baixo no quarto de convidados, irradiando tristeza. -Tem o telefone do Birdie? -Buscarei e lhe enviarei isso pelo SMS. -Seriamente não tem nem idéia de quem é Glória? -Seriamente. Decididamente, aí havia algo, uma piscada, um tic imperceptível a simples vista, mas existia. Não obstante, teria que voltar para ele mais tarde, agora mesmo não conseguiria surrupiar nada ao John Joseph. depois de um tempo neste trabalho aprende quando tem que pressionar e quando tem que afrouxar. Hora de trocar de tática. -falaste com os pais do Wayne? -Sua mamãe me chamou esta tarde por volta das seis, preocupada se por acaso sabia por que Wayne não respondia ao telefone. Seus pais não têm nem idéia de onde está. Tem uma irmã, Connie, que também reside no Clonakilty, e um irmão, Richard, que vive no estado de Nova Iorque, ao norte. Chamei-lhes, mas tampouco está com eles. -Já, mas… se Wayne se refugiou com sua família, duvido muito que eles o delatem, não crie? John Joseph parecia molesto. -Então, por que me chamou a senhora Diffney? E além disso, você não o entende! Faz muito que lhes conheço, estamos muito unidos, sou quase como outro filho para

Deveria verificar pessoalmente esse dado. ensinou-lhe bem. .eles. o deixou faz anos. Embora tivesse um câncer testicular e lhe tivesse cansado um ovo. -Necessitarei os nomes. -Somos homens. Lhe os envio agora mesmo pelo SMS. De modo que os acendedores de sua gaveta eram sozinha para as velas aromáticas. Wayne não está com nenhum deles. qual é sua equipe? -O Liverpool. Mas é um seguidor moderado. nada mais comprar o piso tomei consciência do encanto de aspirar e lustrar. mas soava a certo. Carol. Devolvi minha atenção ao John Joseph. -Tem criada? -Não. Tinha passado a maior parte de minha vida indiferente à porcaria. seguiríamos falando de futebol. Ao menos podia descartar ao irmão que vivia no estado de Nova Iorque. direções e números de telefone da panda de Clonakilty. pois dava a casualidade de que eu também encontrava relaxantes as tarefas do lar. -Padece alguma doença digna de menção? John Joseph se encolheu de ombros. Jay Parker estalou a língua com desdém. -Agora que o menciona. E Wayne diz que limpar lhe relaxa. não um enlouquecido. seu mami. me acredite. do sentimento de satisfação. não me mentiriam. -Estraguem. -Tenho-os -anunciou Jay do outro extremo do sofá-. entretanto. -Wayne fuma? -Não. Sua família está tão preocupada como eu. -Vi que tem coisas de tipo… -odeio tanto essa palavra que até me custava pronunciá-la-… espiritual em seu dormitório. Era impossível que Wayne tivesse podido entrar nos Estados Unidos sem passaporte. Teria sido feliz vivendo em uma sarjeta sempre e quando tivesse SkyPlus. A maravilha do agora e panaquices assim. deveria adiar minha viagem ao Clonakilty no momento. de orgulho… Voltemos para o Wayne. não falamos dessas coisas. Cravei-lhe meu olhar mais gélido.

Essas nádegas me tinham hipnotizada. Calças de montar brancos. a última mulher de John Joseph! De repente perdi o interesse por todo o resto. Sim. olá -respondeu distraída. Santo Deus. não! -respondeu horrorizado. -Fazia… faz… ioga? -Meu deus. não me deixei intimidar. Expulsa de montar negras e lustrosas. e juro Por Deus que jamais vi. Me dei de presente os olhos com ela e armazenei expressões para repetir-lhe às pessoas que me caía bem. mas nunca os lê. Cheguei inclusive a ocultar uma sonrisita de suficiência. -Medita? -Não! Wayne é um tio normal. no! -respondió horrorizado. -Olá. Sim. estava desejando vê-la em sua tão elogiados carne e osso. o melhor de tudo. sim. nem antes nem agora. sei que é uma pergunta horrível mas não fica mais remedeio que lhe fazer isso -¡Dios mío. y Jay se atragantó de la impresión. Jaqueta curta de cintura ultraestrecha. um pandeiro igual. -Ah. Realmente hipnotizada. -Zeezah -disse Jay-. agora é muito sexy. Tão redondo. sim. Zeezah. -Ah. olá -disse mais distraída ainda. Olhar altivo e morritos. Entretanto. . Contorno de lábios tão grosso que semelhava um bigode fino. e Jay se engasgou da impressão. Secado internacional. Mas dentro de dez anos será uma obesa mórbida. agora está tão viçosa e turgente que parece que vás estalar. John Joseph me olhou com soma atenção. aproximou-se da chaminé e com algum pretexto nos deu as costas. Embora tinha visto as fotos nupciais do Zeezah na capa do Hello!. por aí vinha Zeezah. -Ouça. uma vara negra na mão. tão branco. Traziam-lhe sem cuidado esses condenados livros.-Sempre está comprando livros no Amazon. Zeezah -lhe saudou Jay. E. apresento a Helen Walsh. Tem toda a pinta de alguém que acabará palmándola de uma anestesia geral durante uma liposucción.

Sorriu com expressão travessa e. sabe de alguém que queria fazer mal ao Wayne? -Wayne é um bom homem.Sacudiu a vara em direção aos cães e estes se encolheram entre gemidos. -Bem. Zeezah ficou em cuclillas e. -Veio. -Não disse débil. Crie que Roger St. Com soma seriedade. -Você o diz. . disse-: Por favor. Está aqui para nos ajudar a encontrar ao Wayne. -E lhes acariciou o focinho. tem que lhe encontrar. Mas até eu pensei que se passou. neném. De fato. odeio aos cães. para minha grande surpresa (categoria: agradável). -Zeezah. -Suspirou e me soltou a mão-. sentou-se a meu lado e inclusive tomou a mão. Os vira-latas a encheram de lametazos de gratidão e adoração. Eu não gosto dos cães. -Crie que Frankie Delapp não come Jammie-dodgers em metade da noite? perguntou-lhe desdenhosamente Zeezah-. -Não é curioso que um pouco de crueldade faça que me queiram mais ainda? disse. -Vêem falar com a Helen -lhe disse John Joseph-. perritos. Mas me dê seu telefone e te chamarei se me vem algo à cabeça. John Joseph parecia morto de calor. -Deixa em paz aos cães. Leger não bebe cerveja? -Não bebe cerveja. -Ninguém diz que não o seja -replicou Jay. Disse que não tinha força de vontade. com voz suave. E lhe dê com os carboidratos. descobri que Zeezah eu gostava. disse: -Sinto muito. Diz que é débil. -Te ocorre onde pode estar? -Não. à defensiva. Idiotas. Bebe vodca e o tem permitido porque é desço em carboidratos. Wayne é um bom homem.

não vá ser que me roube isso e comece a lhe enviar mensagens de texto raivosos-. troquei que idéia. Crie que se repôs para na quarta-feira de noite? -Estamos jogando -lhe recordou Zeezah-. -Glória? -Juro Por Deus que a expressão de sua cara se congelou. Não. com um telefone próprio. . Estou-te enviando meu número neste preciso instante.-De acordo. -Acredito que Wayne está… -disse Jay. posso lhes pedir aos três que deixem voar sua imaginação e me digam onde criem que poderia estar Wayne? Deixem voar quanto queiram. -Bem. Começarei eu. Está em um concurso de ingestão de bolos no North Tipperary.nesse sítio budista do West Cork aprendendo a meditar. Quem é Glória? Não respondi. a amiga do Wayne? -perguntei. se o prefere. conhece glória. -Pão! -uivou Jay. Wayne está… aprendendo a fazer pão no Ballymaloe House. mas o vi-. faço-o através de John Joseph? Cravou-me um olhar severo. Um muito breve instante. Negou com a cabeça. -Terá mau leite-. Aguardei a que ela enchesse o silêncio. onde está arrasando. -Sou uma pessoa independente. como se se tratasse de um jogo. Não. Tem o prêmio assegurado. -Sushi. E se preciso me pôr em contato contigo… disse sutilmente-. -Zeezah. John Joseph? -Eu acredito que Wayne está… em uma clínica para fazer uma liposucción de barriga. Acredito que Wayne está… visitando seus pais e recebendo dose de amor. Quem ia dizer me quando despertei esta manhã atroz que acabaria o dia dando meu número de telefone a uma superestrella. -Não conheço nenhuma Glória. melhor não o digo. -Procurei meu cartão na bolsa. Agora. embora só o fora no Oriente Próximo-. genial… -Espera a que diga a mamãe que tenho o número de telefone do Zeezah. -Sério? -O rosto de Jay se iluminou-.

não estava sendo eu. -Poderíamos provar com o Frankie -disse.Talvez não. Para ouvir suas palavras algo terrível se apoderou de mim. em um esforço por me mostrar cortês. Custame muito ir contra minhas inclinações naturais e ser agradável com a gente. Este planeta estava tarado. provei a emitir um ruidito que semelhasse uma risada. Temia levantar a vista porque estava segura de que veria duas luas. tive a sensação de que me tinha esmigalhado um músculo do peito. depois de tudo. Meditou-o com o olhar perdido e a frente completamente Lisa. -Deixarei-te em casa -disse Jay. em um sentido indefinível mas aterrador. mas agora que o céu tinha escurecido me desejava muito ainda mais ameaçador. funcionava em uma vibração diferente. o qual provavelmente foi uma má idéia porque soei como um leão marinho e todo mundo me olhou alarmado. O que te parece Zeezah? -Soltou uma risita pícara e eu. desesperada-se. Claro que a ausência de rugas na frente podia dever-se a sua idade… -Seis letras? -Seu rosto se iluminou e vislumbrei um raio de esperança-. agora vou fazer te uma pergunta crucial. Tinha-me passado o dia desejando que chegasse a noite. talvez o tinha imaginado. Era sinistro e inquietante. -À uma da madrugada? . Só tinha vinte e um anos. Já sei! -declarou-. -Zeezah. Tem idéia de qual pode ser a contra-senha do ordenador do Wayne? Seis letras. 8 -E agora o que? Encontrávamo-nos junto à mansão de John Joseph. Além disso. Não podia ser que Jay também a tivesse obrigado a ela a ficar botox. Tinha a sensação de ter sofrido uma mudança cósmica catastrófica e estar vivendo em outro planeta que por fora se semelhava à Terra mas não tinha nada que ver com ela. mas é a única maneira de lhes surrupiar informação. Estava esgotada.

mas nos últimos seis meses sua vida tinha experiente um giro extraordinário. Era quente e doce e os espectadores sintonizavam com seu gosto populista. e "O que pensa Frankie?" converteu-se imediatamente em um latiguillo. Envia um SMS ao Frankie. dos paletas até as monjas. Depois se declarou em banca rota. Entre mamãe e Claire as compram todas. Era tremendamente deprimente e com um vestuário péssimo.Frankie se converteu de repente no homem mais popular da Irlanda. Ninguém sabia como o tinha conseguido tendo em conta que virtualmente não sabia nada de cinema e não lhe tinha por uma pessoa com muita faísca que disséssemos. em um desses estranhos fenômenos que acontecem às vezes -como um broto localizado de tuberculosis. -Diz-se adotar. Da noite para o dia todo mundo queria conhecer a opinião do Frankie a respeito de tudo." Todo mundo lhe queria. Da dissolução de Laddz tinha tido uma vida muito agitada. Além disso. Tive que me sair a metade do filme para comprar mais pick'n'mix. passou muitos anos. rejeitado e ignorado. Seu clube de fãs tomou fatal e sua popularidade sofreu um duro reverso. como sabe? -Pelas revistas. Entretanto. Mas o maior escândalo de todos foi quando declarou que era hetero. um programa de entrevistas vespertino de RTÉ. Não são gavetas de plátanos. não só de cinema. Seguro que nessa casa estão todos acordados. Da noite para o dia caiu no ostracismo onde. e pouco depois uma das principais apresentadoras da o Cup of Lha And A Chat desapareceu em uma . Tinha conseguido um posto como crítico de cinema na o Cup Of Lha And A Chat. Tudo os filmes de Jennifer Aniston recebiam automaticamente cinco estrelas enquanto que as oscarizadas só obtinham uma ou dois.-Ele e Myrna acabam de importar dois bebês da Honduras. Frankie Delapp: O Gay. Logo montou um salão de beleza que também fracassou. "Porque me aborreci. Primeiro abriu um restaurante que se foi a rivalidade e acabou devendo um montão de dinheiro. céu.

escutei a mensagem que me tinha deixado Artie. Não seria um exagero dizer que atualmente cavalgava sobre a indústria do entretenimento ligeiro da Irlanda como um colosso amaneirado com nata autobronceadora. Nascida em Vermont. mas estou trabalhando em um caso. ah… a idéia de introduzir minha chave em sua porta. atravessar nas pontas dos pés a silenciosa casa. o momento crucial. Logo.purgação ao estilo soviético. Não vais acreditar o. "Carinho. afastei-me o bastante para poder telefonar ao Artie sem que Jay pudesse me ouvir. Pensa voltar?" Por um momento. Faria-me bem falar com ele. com cachos curtos e cinzas. cruzar a cama e me apertar contra sua pele. Vonnie se foi e os meninos se deitaram. Enquanto esperávamos a ver se Frankie respondia o SMS. está bem? Teria que me haver contado o de seu piso. Mas estava trabalhando.que te tenho em grande estima. e Frankie ocupou seu lugar. ou seja. . mas tínhamos encontrado outras maneiras "irônicas" de transmiti-la-. Ato seguido. Adventista do Sétimo Dia. -Sou eu -disse a sua secretária eletrônica-. Mas. foi-se a dormir. fez-se com o posto de apresentador do The Rose of Tralee e começou a correr o rumor de que se achava entre os candidatos a apresentar Saturday Night In assim que Maurice McNice falecesse. Myrna não sei o que. tinha o telefone apagado. Chamarei-te amanhã… -Agora. um rosto desafiantemente desmaquillado e roupa menopáusica. Lamento te chamar tão tarde. de um dia para outro. Seu casal era uma mulher quinze anos maior que ele. "Ditas o que ditas. evitando a rígida hierarquia de RTÉ. para minha surpresa (categoria: desagradável). sigo sendo teu. em um salto audaz. ou seja o que era isso. me tirar a roupa e me deslizar sob seus lençóis." Pendurei e quando me dava a volta encontrei ao Jay Parker mais perto do que esperava. Como devia terminar a chamada? depois de quase seis meses juntos nenhum dos dois tinha pronunciado ainda a palavra "amor". Tinha-me demorado muito. Já falaremos. Tenha por seguro -disse. quando alguém o fazia rir dizia que era "lhe trunque".

insatisfação existencial. E mais tarde descobriria que ele tampouco. deteve-se na porta com expressão desdenhosa. e fazia isso que fazem os políticos de dizer seu nome quinze vezes em cada frase. uma mulher se interpôs em nosso caminho com um grande sorriso. e Jay dançava muito bem. desejo de ganhar muito dinheiro trabalhando pouco. Ao partir. Eu não estava convidada. Seu salita estava repleta de fraldas. Era muito boa. Durante o trajeto Jay me perguntou: -Recorda a noite que nos conhecemos? -Não.-SMS do Frankie -me informou. Jay. claramente . irritabilidade. -O que diz? Passou-me o telefone e li: Alegra te ouvir Jay céu venham a casa bebem presente d homem em alturas xo mugem. Era evidente que parecíamos o um para o outro. afeição aos hula hoops. Foi em uma festa." É claro que sim que gêmeos. "São adoráveis. Saltava à vista que tínhamos um montão de coisas em comum: períodos de atenção curtos. A primeira vez que o vi estava dançando uma canção de James Brown. Parecem gêmeos. Frankie falava sem cessar. Hansel e Gretel mas em malvado. Uma breve conversação desvelou outros pontos coincidentes: mania aos meninos e os animais. tão moderno e urbano e absolutamente desconjurado com seu traje escuro e sua gravata negra e estreita. Até nada d Wayne? Se n encontramos stamos jodidos com perdão tngo recebo colégio em q pensar tds acreditam q stoy forrado xq saio em tV mas rte + arranca-rabo q Scrooge deus t benza abrzs xoxoxoxoxo. mantitas de atividades e demais parafernália infantil. Jay e eu estivemos juntos três meses repletos de diversão. e levava um trapo de musselina sobre o ombro direito e um fio de vômito leitoso na perna esquerda. logo descobri como era em realidade e tudo terminou. -Vamos -disse. mas a meia canção começou a pedir ao DJ que trocasse de tema.

-Tira as coisas ao chão. Se não fora pelo botox que Jay me obrigou a me pôr. os bebês. fui loja de comestíveis de bênções. -O blues do bebê. mas não estou seguro de que ter gêmeos tenha sido uma boa idéia. bolachas e roupa e o arrojou tudo ao carpete. céu. -Frankie lhe deu as costas e. sabe um pouco do Wayne? . aproximou-se dos lábios um pequeno crucifixo de ouro que lhe pendia do pescoço e lhe deu um beijo-. centrando toda sua atenção em mim. Jay. Seguiu blandiendo o braço até que houve espaço para os dois. Desde outra habitação chegou o gemido lastimero de um bebê. Helen. arrastou pelo sofá mamadeiras. Helen. mas eu prefiro Boney M. está cantarolando por dentro as canções do Wilson Pickett? Sem lhe dar tempo a responder. Frankie. A televisão.horrorizado pelo caos. os concertos de nossa reencontro. um par de anjos. são um par desses anjos dois. babadores. aí me encontrará . -Dirigiu o olhar ao teto. Helen. Helen. -te aproxime. Já te tenho feito sítio." É aí onde está. Helen. canto em silencio para me evadir. -Aqui estou de fábula. céu. céu. olhou-me fixamente aos olhos-. Frankie me agarrou da mão e me levou até o sofá. Mas eu adoraria poder dormir de um puxão. Os olhos lhe encheram de lágrimas. aparentaria quarenta. céu? Eu também faço isso. começa o outro. "Sitting on the dock of the bay. -Não tem a sensação de que está cantarolando por dentro ao Wilson Pickett? Ou ao Otis Redding? Algo tipo soul? Para desconectar deste caos. adiante. -Helen. embora só fossem quatro horas. não penso te obrigar. O homem nas alturas cuida de mim. Adiante. -Como quer. Myrna e eu estamos esgotados. Jay. concentrou-se de novo em mim. Repleto. -Jay se aproximou um pouco mais a sua curva da porta. "By the Rivers of Babylon". dá igual o que seja! -Com um gesto rápido. Helen. Assim que a gente deixa de chorar. -Voltou a cara e disse por cima de seu ombro-: Jay.

como pode ver. mas não será em um lugar óbvio. Tem que encontrá-lo como é. Não me sentia a gosto ali. me diga. -A contra-senha do Wayne? Se em meu estado nem sequer me sei a minha! -nos conte. Devo uma fortuna e agora sou pai de família. . Helen. que classe de homem é Wayne? -Um encanto. Frankie. estava começando a me curvar. Todos adoramos ao Wayne. -Te ocorre onde poderia estar agora? -Nem idéia. qual não seria um lugar óbvio? Um segundo bebê tinha começado a chorar. -Tem idéia de qual poderia ser a contra-senha do ordenador do Wayne? Olhou-me estupefato. Helen. Helen. -Meu senhor. -Isso diz todo mundo. Helen. mas estão muito equivocados. -Porque até quando a gente acredita que está inventando-se algo. Essa gente é mais arranca-rabo que Scrooge. -levou-se os nódulos às bochechas-. Tal como tinha feito com o John Joseph e Zeezah. A gente pensa que nado em dinheiro porque trabalho na televisão.-Isso mesmo ia te perguntar eu. -Tinha razão. ganha mais dirigindo o tráfico escolar. me acredite. Dependo desse dinheiro. dentro das paredes do piso se respirava uma histeria com muita dificuldade contida. mas estou seguro de que tem suas razões… Um céu. era minúsculo e estava até acima de coisas-. um encanto. não é lugar para criar uns filhos. Simplesmente. por muito louco que te pareça. mas. Este piso é de aluguel e. um autêntico céu. pedi ao Frankie que deixasse voar a imaginação. -O que seja. assim é Wayne. Tenho os nervos de ponta. É certo que às vezes se toma as coisas muito a sério e tem dias baixos em que está menos falador e de tanto em tanto se nega a agitar as mãos e diz que preferiria cortá-los dois braços com uma faca de manteiga oxidado e alguém tem que lhe convencer e a coisa se alarga e tem a todos pendentes quando poderíamos estar dedicando nosso tempo a nossos seres queridos. sempre há nisso algo de verdade.

9 Roger St. -São as únicas Glórias que conhece? Era inútil. Estava transbordado e pese ao gesto íntimo de pronunciar meu nome a três por quatro. notava-me acordada e ansiosa. Estava-me resultando impossível monopolizar a atenção do Frankie. e se não tivéssemos conduzido de noite teríamos demorado horas em chegar. mas me há dito que deixasse voar a imaginação. -Quem é Glória? -perguntei de súbito com a esperança de lhe pilhar despreparado. Eu gostava da idéia de ganhar dinheiro e eu adorava a idéia de ter algo que fazer. Senhor. Leger -O Outro. Preferia colocar os narizes em assuntos alheios.foi uma surpresa (categoria: interessante). Vivia no quinto pinheiro. apenas olhava aos olhos. -Gaynor? Estefan? OH. Tirei o móvel e enviei duas perguntas breves.-Acredito que Wayne… -disse Frankie-… alugou uma autocaravana e está viajando pela Connemara fotografando tojos. em um imóvel fantasmagórico. Poderia estar mentindo através de suas trocas capas dentais e não me inteiraria. Ainda não estava segura. -Significa isso que aceita o trabalho? -perguntou-me Jay. fracassados. Convenci ao Jay de que devíamos ir ver lhe porque. -Só tenho que… -Enviar um par de correios eletrônicos. Intercambiamo-nos os telefones e me parti. Turvo. Coquete. embora estava esgotada. mas não queria me implicar neste caso se ia resultar muito delicado. Logo te . Horrorizava-me a idéia de dar voltas na cama enquanto minha cabeça não parava de ter pensamentos catastróficos. Tomaria uma decisão de acordo com as respostas-. -expressou alguma vez interesse pelas autocaravanas? Ou os tojos? -Não. Com esse atrativo próprio dos homens acabados.

-Lê os letreiros. O sofá estava torcido e o carpete tinha manchas de café. mas me diga -continuei enquanto conduzíamos-. -Estava ofendido. Estava-me evitando o olhar e era evidente que não queria responder. Familiar. Roger possuía um ar de menino mau que as fotos e a televisão não deixavam entrever. -eu adoro como te ficou o piso -comentou Jay-. -Onde estamos? -perguntei ao Jay. custava . compreendi.darei uma resposta. reconheço que John Joseph é religioso. possivelmente. Ou pelo menos confiava em que fora café. por que beijou Frankie sua cruz e deu graças ao homem nas alturas? -Porque é um teatrero. -Agora já sabe. Também ele podia senti-lo. Significativo. O que faz levantado? -Estou-me preparando para sair a correr. mas de uma maneira muito diferente de como me tinha cuidadoso John Joseph. Cambaleante. -Isso é Scholarstown. Tinha o cabelo murcho e negro. Ou vivia. não? Onde vive Bronagh. De acordo. tablillado. ao Brian Ferry. era óbvio que ainda não se deitou. -O sarcasmo do trasnochador. De repente o lance de auto-estrada no que nos achávamos se tornou… algo. Não sei a palavra exata. Para ele não tem nenhum significado. E Roger acrescentou em um tom ligeiramente desafiante. Não obstante. e o corpo desajeitado. Ignorava se seguia ali. todos os Laddz são tão religiosos? -Não.ainda menos. O piso de Roger parecia que tivesse sido construído pela Ikea. -Então. Assinalou um grande letreiro azul suspenso sobre os quatro sulcos de tráfico. Quem é? -Olhou-me de cima abaixo. -Já não -respondeu Roger-. frágil e caipira. parecia pó. mas Wayne não -disse-. -Diz que a seguinte saída é Ballyboden -disse. -Está bebendo só? -Jay agarrou uma garrafa de vodca médio vazia.

O que tivessem feito com as pashminas de Laddz que sobrassem? Temos que as vender como é. -E os meios -prosseguiu Jay-. Temos programas. Os ensaios. Fiz-lhe as perguntas acostumadas sobre o Wayne e me deu negativo em todas: nem drogas. -Ah. meu Deus. -Por Deus. -Helen Walsh -disse Jay-. Wayne é de tudo menos excêntrico. O tempo corre. -Roger se afundou em seu cutre sofá-. nemnamorada. Investigadora privada à caça do Wayne. dentro de seis dias. pashminas… -Pashminas! -Estava sendo mordaz. nem idéia de qual era a contra-senha de seu ordenador. a publicidade… Amanhã pela manhã chegarão ao porto do Dublín quarenta mil camisetas de lembrança de Laddz procedentes da China. Roger. Imagina uma pashmina de Laddz. os meios! consertamos entrevistas na rádio e a televisão para o fim de semana. Como vamos explicar a ausência de Excêntrico Wayne. -Nem o sonhe. E -acrescentou voltandose para mim-. as provas de vestuário. nem agiotas. -ficou pálido-. as provas de som. se por acaso o esqueceste. Há tanto que fazer ainda. -Haverá tornado para então -lhe assegurou Roger-. embora tinha começado a suar. Estamos montando uma excursão mundial que começará na próxima quarta-feira. Wayne não é um excêntrico. te relaxe -balbuciou Roger.acreditar que só tivesse trinta e sete anos. além de vinte mil lenços. Quão patética teria que ser para levá-la? -Se Wayne não retornar. . -Já estão pagas -replicou. já havemos apoquinado uma fortuna. -as lançar ao mar -propus. o que faremos com elas? -Jay parecia estar falando para si. dentro de seis dias -repetiu Jay para si-. -E por que as pagou? -Duvido muito que os fabricantes tivessem aceito as fazer em depósito. por que não lhe deixa em paz? lhe dê ao pobre desventurado um par de dias. Verá como volta. Senhor.

-Me escute bem… como há dito que te chama? Helen? Helen.-Onde crie que está? Suspirou. Cai bem a todo mundo. -Salvo ao Frankie. sim. -Então. mas o que outra opção temos? É uma oportunidade de ganhar um pouco de massa. porque estamos todos cortados. olhe o estado deste piso. costa uma fortuna manter o trem de vida dos Hartley. mas me acredite. verdade? -Em certo modo. Demorei um segundo em assimilá-lo. Só fica o Evoque do Zeezah. -Salvo ao Frankie -assinalou Jay. digamos que está endividado até as sobrancelhas. -Vendido -interveio Roger-. provavelmente eu tenha mais dinheiro que John Joseph. que já somos mayorcitos. Este reencontro… A nenhum de gosta de pegar saltos e nos vestir com trajes de primeira comunhão idênticos como fazíamos aos vinte. . o Aston Martin? -perguntei ao Jay. escondido debaixo da cama. E agora que Zeezah deixou seu selo e John Joseph tem que investir massa nela. Surpreendida. -por que o diz? -Ouça. -Conheceste-lhe? Caiu-te bem? Caiu-lhe bem -disse ao Jay-. Os Alfonsos e os cães lobo irlandeses não saem baratos. Sei o que está pensando. o Lambo e os dois Corvette. Para o resto de nós é humilhante. -Um momento. disse: -John Joseph também? Roger soltou uma risada amarga. Como o Bugatti. caiu-me bem mas… -E Zeezah? Adorável. -Provavelmente em casa. que correrá a mesma sorte se as coisas não melhorarem.

-Sim. eu gosto de Wayne. Por urinar na rua. -Deve lhe conhecer bem depois de ter estado juntos no Laddz. -Se eu gostar? Adoro-lhe. ou por fazer-se passar por oftalmologista. pelo que seja. Quase não nos vimos nos últimos… o que? Dez anos? Quinze? Desde que Laddz se desintegrou. lhes vendo todos os dias.Jesus. E era impossível que um jornalista judicial não tivesse reparado no nome do Wayne. Muito legal às vezes. Tive a impressão de que era a primeira vez que considerava essa possibilidade. embora Wayne não é desses. tentando morder aos transeuntes. a verdade. Falava a sério? Lancei um olhar fugaz ao Jay e a expressão de sua cara me confirmou isso. Permaneci muda uns instantes e quando ao fim recuperei a voz. Deixa voar sua imaginação. decidi trocar a direção do interrogatório. Pensa em onde poderia encontrar-se Wayne nestes momentos. Se Wayne tivesse sido detido já saberia todo o país. Wayne e eu não estamos unidos. Embora sejam casos contados. De princípios. -Agora me siga a corrente -lhe propus-. Acredito que Wayne… está vagando pelas ruas como um fugitivo. -Detido por que? -Caray. Há gente que se esquece de tudo. mas aconteceu muito tempo. -Importaria-te deixar a um lado o sarcasmo embora só seja durante cinco minutos? Roger o meditou. -Sim. mas é um tio legal. -Você gosta de Wayne? -perguntei ao Roger. -Não serve de nada te interrogar -disse-. não como o está ao John Joseph. Wayne é como um irmão para mim. Não há por que ser tão estrito na vida. -Ou foi detido e está em um calabouço. . Todos os Laddz o são. -Dizia-o como se fora uma enfermidade-. -Vaaaale. até de seu nome. Era uma possibilidade. Tem uma visão muito cínica das coisas.

Do que se trata? De um vídeo sexual? Não. E justo antes de cruzar a porta. -Do que está falando você? O desconcerto jogou bola entre nós. -Sério? Bingo! Retornei à sala e sentei a seu lado. toda íntima. Vamos. verdade? . De repente parecia triste. -De fato… sim lhe obriguei -disse Jay. -Obrigado por seu tempo. -Não conhece nenhuma mulher chamada Glorifica. ejem. -A tendi-. ofendi a alguém? Noto uma vibração estranha entre vós dois. Pode me dar seu telefone? -Claro! E não duvide em me chamar se puder. Há mais pergunta ou posso baixar já do estrado? -Só uma. No que seja… -Tio verde. -Não ofendeste a ninguém -disse. por que Jay Parker não te obrigou a te injetar botox? Jay e Roger cruzaram um olhar de pasmo. -Teria que me haver visto sem ele -acrescentou Roger com outra de suas risadas amargas. Roger tinha empalidecido. lembranças de Glória. -Me fale de Glória -lhe pedi em um tom sedutor. não… não será outra demanda de paternidade? -Do que está falando? -perguntei-lhe. -Roger soltou uma risada sardônica-. até que compreendi que de bingo nada. por insignificante que seja.-Toma meu cartão. Jay. me Chame se te ocorre algo. disse por cima de meu ombro: -Por certo. -Já. Olhou sagazmente ao Jay Parker-. Roger. te ajudar em algo. Por Deus. -Será melhor que você fale.

-Lhe estou enviando isso nestes momentos. De modo que seguia comprando lenços. Adoro a roupa. nenhum me satisfazia de tudo. para mim ter unicamente um lenço só fez que pôr de relevo todo mundo de lenços aí fora que não possuía. Não paro de comprar lenços. -E a chave de sua casa. -O nome nem sequer te soa e entretanto crie que poderia lhe haver feito um tambor grande? Encolheu-se de ombros. Sou assim em tudo. no caso de que retorne. adoro os sapatos. sua vida melhorou que forma considerável. Tinha que comprar mais lenços. O lógico seria pensar que se passas de ter zero lenços a ter um. Um dia tive a grande desgraça de ver uma garota francesa atar desenfadadamente um lenço da Isabel Marant ao redor de seu elegante pescoço francês e oxalá não o tivesse visto porque arruinou Minha Vida Entre Lenços. saibamos imediatamente. Minha irmã Claire passa a cada segundo que pode em Net-a-porter procurando sapatos que não pode permitir-se e o mesmo acontece comigo com os artigos de espionagem. Não me interprete mal. adoro as bolsas e atualmente me deu pelos lenços. O lógico seria pensar que um lenço é mais que suficiente.-Não. A tecnologia da espionagem. ou pelo menos o fiz até que começaram a me rejeitar o cartão. -Bem-vinda a meu mundo. como eu gosto. Soube que nunca seria capaz . De caminho a casa disse ao Jay: -Necessito o número de móvel do Wayne. mais lenços queria. Farei-te uma cópia. -Quero instalar uma câmara em casa do Wayne para que. -Me dê a tua. e face a quão bonitos eram. Mas quantos mais lenços comprava. -Não. -Farei uma cópia e lhe trarei isso pela manhã. Não obstante.

para minha surpresa (categoria: inquietante). sua elegância genética. estas são minhas condições. isso não me impediu de seguir tentando-o. -E se voltar e não nos inteiramos? -Nestes momentos estou muito cansado para que me importe. Está seguro de havê-lo entendido? -disse-. sua graça inata. -Recalquei-. Em lugar de me jogar a culpa e a minhas deficiências. -Isso sim que não. Nem sequer regateou-. -Agora? -Quando se não? dentro de um mês? Cada segundo conta. São as três da manhã e às sete tenho que estar no porto do Dublín para passar a mercadoria de Laddz pela alfândega. O salário de uma semana. Enfim… -Ouviste-me? -disse ao Jay-. -Já me conhecia esse truque. -Mas… -Digo que o deixemos por esta noite. Terminei com o baço resfriado e por meus esforços fui recompensada com quinhentos euros de lascas para acender o fogo. não imagina a papelada. mas se o aceito. . Assim e tudo. aceitou-as sem pigarrear. Em efetivo. E com isso quero dizer dinheiro de verdade. e o que pagamento sou eu. culpava ao lenço: só com que fora um pouco mais largo ou comprido ou tivesse um pouco mais de seda ou fora um autêntico Alexander McQueen em lugar de uma cópia cutre. Deixemos o do Wayne para depois. -As expus e. -Parecia cansado. e tem que abrir caixas e mais caixas de camisetas para demonstrar que dentro não esconde a uma pobre garota a China. seria perfeito. Helen. não vale de gasolina. -Vaaale. É todo um batalho.de obter sua naturalidade. e há cães rastreadores por toda parte te marcando o traje com seus pezuñas. Em uma ocasião passei trinta e nove horas escondida no alto de uma árvore em um caso de custódia filial. E quero lhe pôr um rastreador no carro. -Agora que o menciona… Ainda não hei dito que vá aceitar o trabalho. Adiantado. -Primeiro temos que acontecer casa de meus pais para agarrar as coisas. Tenho que instalar uma câmara em casa do Wayne.

-Minha irmã maior-. muito provavelmente não haveria concerto. por natureza. Não era nenhuma surpresa. -Logo falei com a Margaret e disse que me acompanharia se não encontrava a ninguém mais. Não vais acreditar te em quem conheci esta noite. -Está enganando ao Artie? -Não estava com o Jay Parker nesse sentido. Estava com o Jay Parker trabalhando. . -Además. muy probablemente no habría concierto. Claire era uma mulher muito.10 Assim que introduzi a chave na fechadura mamãe apareceu no patamar de acima em cachos e camisola. Não sei como me pude perder isso -Eso hace que yo parezca poco profesional. si Wayne Diffney no reaparecía. a fazer favores. Tinham-lhes dedicado um especial na revista RSVP. Por certo. Mas mamãe já estava à corrente dos cães lobo irlandeses e o abajur de hastes. obrigado por lhe dizer que podia me encontrar aqui. -São três e dez… da madrugada. mamãe… -O que? -Isso faz que eu pareça pouco profissional. -falei com o Claire. -Baixou as escadas correndo e o brilho de sua nata facial de noite quase me deslumbrou-. e reacia. se Wayne Diffney não reaparecia. mas não pode contarlhe a ninguém. -Estive em sua casa. -Jay me disse que me conseguiria entradas para o primeiro concerto. Jura-o pela bolsa de homem do Gucci de couro vermelho Batata. E me há dito que não tem intenção de me acompanhar. muito ocupada. Onde estava? -Com o Jay Parker. -Ah. -Além disso. -Ao John Joseph Hartley e Zeezah. Jay Parker me contou que é o novo agente de Laddz. Dizem que nos parecemos. -Como sabe? -Pura dedução.

-Eu sou maior. Meteu-se em seu dormitório e senti o impulso de chamá-la. -Nem que fosse Ashley Banjo. -Estão todas mortas. como se estivesse em estado de shock. às três e quinze da manhã escutando seus queixa. -Peça-se o de todas formas. Quando a conheceu pôs uma cara do mais estranha. ninguém espera de mim que mova bem o esqueleto. Às vezes . as duas vivem em Nova Iorque. Olhou ao Bronagh e a mim com os olhos saídos. Nunca se sabe. ao pé da escada. Procedeu a subir com as costas rígida de recriminação. -Quantas noites de minha vida esbanjei em seus atrozes obra do colégio. Somos cinco em total. mas preferiria ir contigo. -Não tem amigas que possam te acompanhar? -perguntei. -É sua filha predileta. -Por agradável que me resulte estar aqui. Lamento te haver roubado seu valioso tempo. -Minhas outras irmãs. -Mas dança como um pato. como se lhe tivesse cansado um raio. -Peça-lhe ao Rachel. asseguro-lhe isso. Necessitava a alguém com quem falar de quão estranho tinha sido voltar a ver o Jay Parker e o perto que tínhamos passado de casa do Bronagh e o triste que me havia sentido. -Não quero ir com a Margaret -prosseguiu mamãe. mas esta é ainda pior". deixará-me em evidência. Ou a Anna. Era Bronagh pior que eu? Eu houvesse dito que estávamos igualadas.Margaret. também era uma mulher muito ocupada -dois filhos frente aos três de Claire. Embora a mamãe nunca caiu bem Bronagh. anos. e de fato podia ver o que estava pensando: "Acreditava que tinha a filha mais difícil que pode ter uma mãe. suas aborrecidas funções de balé. seus horríveis eventos esportivos? Entre as cinco somam anos. -Se por acaso o tinha esquecido. Olhe. a irmã que vinha depois de Claire. tenho trabalho que fazer. e o único que peço em troca é uma noite… Suficiente. ignoro por que.mas possuía um marcado sentido do dever. -Muito bem -repôs toda rígida-.

vamos. mas não havia dúvida. Estava zangada comigo mesma por me haver deixado aspirar por essa órbita benéfica. tomei como um fracasso pessoal que o tipo me considerasse sequer uma possibilidade. Teria que havê-la visto vir e ter tomado medidas de impedimento pertinentes. tão agradável que cometi um engano fundamental: alguém me tinha pego como por arte de magia. te proponho um trato -disse-. querem caminhar como é devido? Joder. sorteando a multidão. Dava um inclinação brusca para a esquerda e ele fez o próprio. E não alguém qualquer. Por certo. por que não me fala? Fazendo um esforço monumental. com os braços abertos. eu adoro suas esportivas. Ouve-me? São muito fanfarrões. -Fala comigo. Desloquei-me para a direita e o homem me seguiu como se estivéssemos unidos umbilicalmente.conseguia que me olhasse com autêntica admiração. De fato. a não ser um homem de largas rastas loiras com uma tabuleta na mão e um tabardo de plástico vermelho que anunciava uma organização benéfica. de fato. não pode ser tão difícil. ela punha o fita de seda muito alto. Fala comigo cinco segundos. separei-me de seu campo de força e me afastei lateralmente a fim de lhe desejar o pior de uma distância prudente. O pânico começou a apropriarse de mim. A verdade é que encontrava muito agradável soltar tudo esse mau leite. Caminhava para trás. Dez segunditos. Se olhava aos olhos estava perdida. -Pelo amor de Deus -balbuciava-. um dia do verão. terrivelmente irritada com todas as pessoas que não avançavam exatamente à mesma velocidade que eu. Eu ia pela rua Grafton. Baixei a cabeça. -Certo. Como o dia que nos conhecemos. com tanto garbo que parecia que estivéssemos dançando. fala comigo. depois do qual o tipo me gritou para que meio Dublín o ouvisse: -De modo que pode comprar outras esportivas que não necessita mas não pode doar dois míseros euros para ajudar aos asnos paralíticos? Que peeeena me dá! . diante de mim. Ocorreu uns seis anos atrás.

nem sequer eu estava preparada para o que ocorreu a seguir. de minha idade mais ou menos. Teria que ter emprestado mais atenção a vez que me jogaram isso . -A garota lhe abraçou com mais força-. como lhe pegar uma patada de kung-fu ao homem ou lhe agarrar pelos texanos já obscenamente baixos e atirar deles com brutalidade para deixar-lhe à altura dos joelhos. Merece um abraço por ser tão amável com minhas esportivas. Obrigado. não. -Caray… -O tipo soltou uma risita de assombro-. tão concentrada estava na cena. -Ouça -lhe disse melosamente o tipo-.Lamentei amargamente não saber fazer os ruídos que a gente emite quando joga mal de olho. ganhei uma enxurrada de malefícios pronunciados com uma voz hipnótica e gutural. -Suas esportivas também são muito fanfarronas -disse. Seriamente lhe parecem isso? -É claro que sim! Importa-te que falemos um momentito? Aproximei-me devagar. -Não. se não deveria simplesmente provar a emitir sons que semelhassem conjuros a fim de lhe colocar o medo no corpo. e havia algo nela que me insistiu a seguir olhando. mas logo adverti que se tratava de uma mulher. não. -E seu cabelo… -A garota agarrou um punhado de rastas e atirou delas com força-. quando o tipo desviou sua atenção para outra pessoa. com a gente chocando comigo e me soltando bufidos. -Tinha um brilho malicioso no olhar. Entretanto. Pelo cabelo curto e seu corpo ágil e miúdo ao princípio pensei que era um menino. A garota se jogou sobre o tipo e o envolveu em um forte abraço. (Simplesmente por me negar a comprar urze da sorte à senhora de sorriso aterrador e lenço estampado na cabeça.) Estava-me perguntando se não deveria tentá-lo de todos os modos. sabia que essa garota se dispunha a fazer algo drástico. . Leva umas esportivas muito fanfarrões! -Sério? -respondeu a garota-. Leva peruca? -Não… é todo meu. -O homem sorriu com nervosismo e tentou recuar. Pela razão que fora. Mas apenas o notei.

-nos incomodar? nos intimidar é o que fazem! -Isso. por favor. -Aonde vai? -gritou a garota-.-Já. O tipo da organização benéfica tentava separar-se dos braços da garota mas esta se aferrava como um macaco. e até eu tinha começado a sentir pena por ele quando ao fim decidiu soltá-lo. mas… Uma pequena multidão se congregou a seu redor e estava desfrutando de do mal-estar do homem. quero dizer. ao parecer. como faria na creche. São valentões. Custava-me fazer amigos. deveria existir uma lei contra eles. Durante uma grande parte de minha vida tinha tido que me contentar unicamente com minha família. A ele e aos que são como ele. -Isso lhe ensinará -ouvi dizer a alguém-. absorvendo com calma cada detalhe e decidindo. Não estava segura do que fazer a seguir. Pode que no futuro o pensem duas vezes antes de nos incomodar. lutando desesperadamente por tirar-se seu tabardo vermelho de Cadeiras de Rodas para Asnos. mas se largou a Nova Iorque e deixou um grande . porque esboçou um bonito sorriso e disse: -Eu sou Bronagh. -Basta. Aguardei a que seus admiradores se dispersassem para abordá-la. basta. Durante muito tempo minha irmã Anna foi minha melhor amiga mesmo que não fazia outra coisa que me colocar com ela. Pensava que foi meu amigo! Os espectadores prorromperam em aplausos e a garota riu com uma mescla de orgulho e acanhamento. que gostava do que via. em um intento descarado de cercar amizade. O homem pôs-se a correr pela rua Grafton. face ao inepta que a encontrava. -Meu nome é Helen -lhe disse. amigos de verdade. nos intimidar -conveio uma terceira pessoa-. Observou-me durante um minuto. Queria-a como amiga mas ignorava como devia atuar. só porque eles não podiam fugir de mim.

Imprimiria várias cópias pela manhã. Também este chegaria pela manhã. retoquei com o Photoshop a fotografia do Wayne e Birdie para tirá-la a ela e deixar calvo ao Wayne. e o resto aqui. nenhum de utilidade. com a cabeça barbeada. Tampouco nenhum SMS de John Joseph com o número de telefone do Birdie Salaman. mas estávamos em metade da noite. Dois anos antes tinha tido que intimidar a mamãe e papai para que o solicitassem e agora o agradecia. Minhas coisas -minha equipe de trabalho e minhas ferramentas de vigilância. Pode que depois das ordenar me sentisse um pouco mais… -me custava pronunciar a palavra. Consultei meus correios. 11 Subi as escadas. o resultado não foi de tudo satisfatório. entrei no "despacho" de mamãe e papai (antes. terrivelmente irritante. Seguro que me chegava algo pela manhã. quando tivesse conectado a impressora. outras no comilão. umas em minha habitação. . Continuando. -Outro grande sorriso-. Que seja uma Coca-cola light. irritante em plano Lista do Palazos-… um pouco mais conectada à terra. -Tem algo que fazer nestes momentos? -perguntei ao Bronagh-.estavam dispersadas pela casa. Gosta de tomar uma Coca-cola light? Franziu o sobrecenho com certa inquietação. Sabia que Vão Morrison cantava uma canção titulada "Glória"? Provavelmente antes de que eu nascesse. -Bem. Seria-me de utilidade ter fotos de seu aspecto atual. o quarto de Claire) e acendi o ordenador e o exploratório. a cabeça tinha adquirido uma forma algo estranha. Fiz uma busca rápida de "Glória" e obtive um milhão de resultados no Google.vazio em minha vida. nenhuma resposta dos dois que tinha enviado. Por desgraça. inclusive pensá-la. Pelo menos a casa tinha wifi e banda larga. -É bollera? -Não. mas teria que servir.

mas um método infalível para afugentar a alguém é lhe chamar às quatro da manhã. Reservada. um lugar agradável.Com o Birdie Salaman tive mais sorte: saía no Facebook. Nunca se sabe. sem desvelar informação. mas havia uma foto. Encontrei-a na cozinha. Pode que a foto de Abercrombie & Fitch a tivessem feito ali. por isso não estava escondido ali. Vivia na cidade costeira do Skerries. eu adoraria ter uma direção do Birdie. nunca se sabe. Baralhei a possibilidade de lhe enviar uma solicitude de amizade. Mais reservado ainda que Birdie. e a menos que se ocultasse detrás uma companhia. Meu guia estava enterrada em uma das caixas de cartão onde tinha empacotado minha vida. não me pude conter. não era provável que respondesse às quatro da manhã. e em questão de segundos tinha localizado ao Birdie: possuía uma direção e um telefone fixo. Estava desejando telefoná-la. Realizei um rastreamento -totalmente legal. Depois lhe chamei o móvel. Ou deveria esperar a que John Joseph me desse seu número de telefone? Pode que isso me aplainasse o caminho. nem sequer uma foto. Logo facebokeé ao Wayne. Uma última busca. Simplesmente. . Enquanto isso. não virtual. Havia um par de sítios onde podia provar. Mas a paciência não era meu forte. pelo menos na Irlanda e Reino Unido. mas uma vez mais. Também lhe enviei uma solicitude de amizade. por isso enviei a solicitude de todos os modos. Wayne não possuía uma segunda moradia. ao norte do condado do Dublín. definitivamente.do cadastro. uma direção real. Tinha-o desligado e não deixei nenhuma mensagem. no caso improvável de que John Joseph não me enviasse seu número. mas tinha que haver uma na casa. compartilhando armário com dúzias de latas de pêra em conserva e pelo menos duzentos Clubmilks -mamãe e papai pareciam estar provendo-se para o Armagedón-. Então tive uma idéia brilhante: por que não consultava a guia Telefónica? As melhores ideia são sempre as mais simples. era ela.

não acreditava no destino. Eu estava trabalhando em um caso matrimonial e tentando entender os complexos assuntos financeiros de um marido infiel quando alguém me sugeriu que falasse com o Artie Devlin. Conectei o carregador ao móvel e com este tendido a meu lado -uma presença amigafechei os olhos. "É um grande tipo".não tinha nada que ver com os uniformizados de barriga tocinera. disse: -Quem demônios é esse Artie Devlin que todo mundo tenta me agüentar? Pelo visto era polícia. Seguro que entende este cenário de múltiplos conta. . Não mostrei muito interesse porque preferia solucionar as coisas por mim mesma. Conhecemo-nos dezoito meses atrás. mas -a gente se apressou a me esclarecer.Não havia nada mais que pudesse fazer esta noite. e levava ante a justiça a delinqüentes de pescoço branco com grandes patrimônios. mais concretamente. -Forma parte de uma brigada antifraude de alto nível. evasões de impostos e desfalques a grande escala. Artie baralhava grandes somas. sabia de balanços e tinha um máster em direito fiscal. A opinião geral era que Artie era uma falência em fazer cumprir a lei. "Muito bonito e muito. não acreditava em um universo benigno com um plano original. rastreava documentos. Artie Devlin. Em lugar disso. muito sexy". Que sentido tinha trabalhar por minha conta se tinha que andar pedindo ajuda às pessoas? Dias mais tarde seu nome aflorou de novo e não fiz caso porque não acreditava nas coincidências. diziam-me. Não vestia uniforme e não levava porrete. 12 Certo. não ficava outra que me deitar. Trabalhava para uma brigada antiestafa de élite com um nome inócuo que não deixava traslucir a importância de suas atribuições. Assim quando ouvi mencionar seu nome pela terceira vez. E. investigava fraudes.

Perguntou-me se gostava de um café. "Oxalá Homem Algoritmo estivesse aqui!". Comecemos. ("vá procurar a Homem Folha de Cálculo!". que não era uma delegacia de polícia nem nada que lhe parecesse. em que pese a seu porte profissional.e claro. havia algo indômito nele. acabou por cair antipático antes inclusive de lhe conhecer. E temos muito trabalho por diante. como está acostumado a acontecer com os polis. Comecemos já. muito singular quanto ao vocabulário que utilizava para transmitir informação. mas esta gente (em sua maioria homens. titulares de contas fantasma e demais práticas nefandas. Era um homem grande. um pouco potencialmente selvagem. mas transcorrido um momento fiz um clique e o entendi tudo. ou pode que só fora sua camisa sem engomar. com tantas amostras de admiração e respeito.) Artie tinha um escritório acristalado em uma curva do escritório. como se fossem superhéroes da contabilidade. de repente me senti como enjoada. devo reconhecer) estava forte e em forma. Abundavam os librotes sobre direito fiscal e outros equipamento de contabilidade. de modo que ao final telefonei ao senhor Artie Devlin. Olhou-me um instante. Disse-lhe que procurava um favor e me respondeu que tinha uma hora livre na quinta-feira seguinte. -De acordo -disse-. a não ser um escritório grande e aberta cheia de tipos vestidos de rua e olhando fixamente telas infestadas de números. -Não acredito nas bebidas quentes -declarei-. Mas os dias passavam e eu seguia sem poder desentranhar o intrincado alpendre financeiro do marido infiel. . atrativo e reservado. Ficamos em seu lugar de trabalho. Eram temas complexos. inclusive com os que não levam porrete. Plantei minha grosa pasta de documentos sobre a mesa e Artie a examinou com paciência em tanto me falava de paraísos fiscais.

que em uma urbanização criando filhos.respondeu: -estive uma vez. -Pega-te ser de… Médicos Sem Fronteiras. amputando pernas à luz de um farol. cravou-me um olhar azul. Produziu-se um silêncio incômodo. Foi uma grande surpresa (categoria: muito desagradável) descobrir que tinha filhos. E não tinha pinta. -Para te ser franco. Justamente o contrário. alguém que seria mais feliz em uma loja improvisada em primeira linha de um conflito bélico. -Não fazia sol? -Estava trabalhando. -ficou moreno? Depois de uma pausa. e finalmente -a contra gosto. meus filhos. . -Seus sobrinhos? -perguntei. Ninguém me havia isso dito. Distraiu-me uma foto que descansava sobre sua mesa. disse: -Não. e estava me preparando para partir quando se voltou inesperadamente falador. Não tinha esse espantoso tom irlandês que nunca fica moreno e só consegue incrementar seu coeficiente de sardas (sei do que falo). mas segui falando-: Já sabe. -Não mostrou o mais mínimo interesse por meu comentário. -Não -disse-. Três meninos loiros igualitos a ele. Observei-lhe com atenção. alguém a quem gosta da adrenalina. Nunca amputei uma perna. -Não. Mas bem ao contrário.-Conta -disse ao Artie Devlin-. sempre pensei que essa gente de Médicos Sem Fronteiras tem certa pulsión de morte. possuía essa formosa pele de quão suecos adquire um tom dourado e uniforme. vai muito pelas ilhas Jacaré? Levantou a vista dos papéis. azul.

A classe de mentalidade que não tinha nada de divertida se estava no mercado procurando espontaneidade sem compromisso. simplesmente porque tenho que sabê-lo. olhou e olhou. me Diga. -Agora fará dois anos. não queria conversações se desesperadas às duas da manhã sobre como "fazer que o nosso funcione". Me teria encantado acontecer quarenta e oito horas com ele na habitação de um hotel. olhou-me. Tem que ser melhor que querer te acontecer a vida costurando a gente enquanto assobiam as balas por cima da cabeça. Muito. Este Artie Devlin eu gostava muito. o que fazem é genial. -Não -insistiu-.-Sério? -Não me interprete mal. Olhou-me. e era um homem ao que lhe trazia sem cuidado. . é obvio. mas que muito. Mas isso só. e Deus nos libere de que uma mulher seja egoísta. Tem razão. genial. Faz muito. qual é o estado entre a mãe de seus filhos e você? -Estamos divorciados. então. Tempo de sobra para curar as feridas. Não queria que as necessidades de seus filhos importassem tanto como as minhas. Porque isso era o que acontecia quando tinha umnamorado com filhos. -Uma ruptura recente? -Procurei que meu tom soasse empático. -Aaah. -A verdade é que entre sua loquacidade e sua contundência me tinha ficado súbitamente gostada muito-. só havia algo pior que um homem ao que lhe preocupava desgostar a seus filhos. E.) Tinha limitado minha relação com pais separados porque sabia o muito que lhes preocupava a estabilidade de seus filhos e que não podiam estar lhes apresentando umanamorada nova cada cinco minutos. -Certo -disse-. (Às mulheres resulta difícil reconhecer algo assim porque tememos parecer egoístas. Não queria complicações. mas o que tem de mau querer viver em uma urbanização e criar filhos? -Muito -disse-. e finalmente meneou a cabeça e esboçou um leve sorriso.

Margaret e inclusive Bronagh me perguntaram se estava bem da cabeça e me recordaram que não fazia tanto que tinha deixado os antidepressivos. entretanto. e rejeitada. Olhei-o de marco em marco. Houve quem tentou me dissuadir. decepcionada porque Artie não tivesse pilhado a brincadeira. Recordaria-lhe para mim. Nada espetacular. assegurei-lhe que se algum dia podia lhe devolver o favor o faria e -com certo pesar. Sentia-me decepcionada. Depois de lhe dar voltas e mais voltas. Durante as semanas que seguiram tive muitos motivos para pensar no Artie.o meti em uma caixa envolto em metros e metros de plástico de borbulhas e escrevi "Cuidado!" em um post-it amarelo. As explicações que me tinha dado resultaram extremamente úteis porque desbloquearam minha compreensão do caso. e não teria sido possível sem o Artie Devlin. finalmente dava com o obséquio idôneo: um escalpelo. Então li a nota que o acompanhava: . De modo que comprei um escalpelo pequeno e reluzente e -em um ataque de consciência preventiva impróprio de mim. O qual significava que pude lhe dizer a meu clienta quanto dinheiro tinha seu marido infiel e ela pôde lhe plantar cara e receber o que lhe correspondia por direito.assim. agradeci ao Artie sua ajuda. Depois de decidir que ninguém se fatiaria um dedo sem querer. Mas eu me mantive em meus treze: o escalpelo era perfeito para o Artie. nada exorbitante. Uma garrafa de uísque seria mais apropriada. a nossa conversação sobre Médicos Sem Fronteiras. apareceu um pacote em minha mesa. e quando o abri descobri que me haviam devolvido o escalpelo. presa de um abatimento inesperado. uivavam alarmados. Estava segura de que adoraria. e embora Claire. Ou uma caixa de bolachas. escrevi uma nota. eu estava segura de que tinha feito o correto. Quando recebi o último pagamento de minha agradecida clienta considerei adequado enviar ao Artie um presente de agradecimento. breve mas sentida. Quatro dias mais tarde. e basicamente tudo saiu bem.me parti. onde agradecia ao Artie sua ajuda. a não ser algo que fora em certo modo significativo.

baralhei a possibilidade de lhe chamar e lhe dar um pouco a lata. consistente em verificar dados e mais dados. Mas.conheci o Jay Parker. que desejavam saber se seu cônjuge estava fazendo coisas . mas sobre tudo mulheres. É com grande pesar que lhe devolvo isso. e eu gostei da letra. Mas o destino -embora não acreditava nele. com tédio e tudo. temo-me que os funcionários não podem aceitar presentes. e embora agora me parece difícil de acreditar. ARTIE DEVLIN Eu gostei do tom da nota. exatamente ao dia seguinte -pode acreditá-lo?. justamente o ano prévio passei dois dos meses mais aborrecidos de minha vida quando entrei em contato com um grupo de ricachones americanos de ascendência irlandesa que queriam reconstruir sua árvore genealógica e tive que me atirar um montão de dias no tédio de Registro Civil. de repente recordei nosso encontro. Quanto tinha trocado a Irlanda. agradecia o trabalho.Querida Helen: face ao muito que me gostou e as lembranças que me traz de nosso tempo juntos.interveio. mas uma grande parte do mesmo era tremendamente mundano. o sexy que estava dentro de seu estilo reservado e convencional e quão divertido poderia ser desembrulhá-lo. de maneira que. Nos anos do Tigre Celta a gente ia de um lado a outro se desesperada por encontrar algo novo no que gastar o dinheiro. De fato. Ao dia seguinte. em que pese a ter três filhos. sobre tudo que não tivesse desenhado caras sorridentes sobre as íes. Nnaquele tempo naquele tempo me entravam muitos casos matrimoniais: homens ou mulheres. Meu trabalho soava incrivelmente glamuroso quando contava que ia a Antiga ou a Paris. Um abraço. rodeada de pó e penumbra. deixei de pensar por completo no Artie Devlin. 13 O problema com a investigação privada era que os casos de pessoas desaparecidas escasseavam.

porque por muito segura que estivesse de que seu casal a enganava. estaria chorando com a mulher traída. receber a prova podia ser demolidor. Não me correspondia tomar a meu clienta da mão e deixá-la chorar em meu ombro enquanto via como sua cômoda vida se desmoronava ao ser relegada por alguém novo e mais jovem. digamos que como minha irmã Anna. Algumas mulheres tinham verdadeiras razões para suspeitar que estavam sendo enganadas. Se fosse de outra maneira. Fale com sua mãe. e se a vizinha tinha investigador privado. os investimentos imobiliárias na Bulgaria. Fale com seu psicólogo. mas muitas outras o faziam unicamente para não ser menos: tinham o cabelo recheado. que em uma ocasião reconheceu que acreditava que eu tinha um problema. não me diverte dar más notícias. falar com os Samaritanos. não obstante. Assim e tudo. dizia-lhe. aconselhava-lhe. a bolsa de mil euros. Às vezes me agarravam pela lapela e me suplicavam que lhes dissesse o que deviam fazer.que não devia com outra pessoa. por que não deveriam o ter elas também? Tenho como lema utilizar meus poderes para fazer o bem. tem que endurecer o coração. Fale com seus amigas. porque o chá (nem sequer o normal. Mas devia me manter profissional. eu não era mais que a mensageira. Mas às vezes a seção "eu também" obtinha mais do que esperava e tirava o chapéu com provas filmadas de seu marido tendo entrevistas com uma mulher que não era ela. lhe servindo infusões de camomila e lhe assegurando que seu marido era um autêntico bode que lhe tinha arrebatado os melhores anos de sua vida e destruído o chão pélvico. que estava tarada). ofereciam-me . porque queriam o que tinham as outras. e os casos não genuínos. Pagarei-lhe isso à parte. sem ervas) e a empatia não estavam incluídos no serviço. Mas de nada servia falar comigo. porque estavam fartas de ouvir que eram imaginações delas. por isso sempre dizia a clienta que se fora a casa e o meditasse. Até poderia. Em meu trabalho. não o mal. Mas sempre escolhiam seguir adiante: os casos genuínos. E independentemente do que a gente pense de mim (sobre tudo minha irmã Rachel.

por conseguinte. Os investigadores privados são artigos de luxo e eu e as bolsas de marca saímos muito mal parados. porque. Em qualquer caso. A asseguradora me pagava então para me esconder detrás de um sebe com uma câmara de vídeo com a esperança de encontrar ao paciente fazendo filigranas com a bola em companhia de seu neto e luzindo um aspecto do mais são. se um marido andar tonteando por aí. Minha outra fonte de ganhos -que obtinha verificando para empresas o currículo de empregados potenciais. como meu homem da perna "paralisada" que podia subir uma banheira por uma escada de mão.e não tive mais remedeio que personarme cabisbaixa . enfim. Alguém declarava que necessitava seis meses de repouso em cama e. mas eu sempre dizia que não com a cabeça. Permanecer juntos se converteu improvisadamente na essência da questão.às vezes. não vou dizer que não me dessem pena.também a diñó com a crise. Nesses casos abundavam as costas destroçadas. quando estalou a crise fui uma das primeiras opções em cair. ninguém podia permitir-se separar-se porque da noite para o dia suas casas não valiam nada. Hoje em dia. não podia trabalhar e era preciso que a gente de seu seguro médico apoquinara. Um de meus empregadores mais importantes se foi a rivalidade -foi então quando comecei a me assustar de verdade. porque ninguém estava contratando a ninguém. assim. Durante um tempo a queda de casos matrimoniais e verificações para empresas se viu compensada por um incremento das reclamações falsas às asseguradoras. a esposa não quer inteirar-se porque conservar ao marido com suas finanças subindo e baixando como uma montanha russa (mas sobre tudo baixando) é a única oportunidade que fica de salvar-se. mas se começava a senti-lo por uma teria que senti-lo por todas e ao final acabaria me afogando sob tanta tristeza.

(Douglas Adams diz que as reclamações às asseguradoras demonstram que viajar no tempo está possível.nas asseguradoras que tinha rejeitado durante os tempos de bonança em que me chovia o trabalho. E sendo a Irlanda como é. Que tenha um bom dia. não estamos obrigados a lhe soltar um céntimo. a ponto de enlouquecer. que baralhava a possibilidade de deixar tranqüilo ao cliente das . Feito isto. Para falar a verdade. mas unicamente para te enviar uma insolente carta onde diz: "Remeto-lhe à cláusula taltal de seu documento. Quando lhes alaga a casa e vão a sua companhia de seguros. sim. senhora". Nunca pagam e nas estranhas ocasiões em que não fica mais remedeio que soltar uma soma mesquinha. esta consegue milagrosamente dar com uma pequena e prática cláusula segundo a qual. efetivamente nos toca assumir os danos por inundação. olhando o documento com cara de desconcerto e te perguntando: "Como é possível que não recorde esta desatinada cláusula sobre as bicicletas negras? De havê-la visto jamais teria assinado". Eu gostava de obter resultados. E você está aí. retorna à presente. que ocorre constantemente. fazer controles para asseguradoras era a parte de meu trabalho que mais me desagradava.) O dito. ou alguma parida similar. nunca é suficiente. e dado que sua bicicleta é negra como nossos corações. e havia vezes que me entravam vontades de jogar-lhe aos capitalistas. todo mundo sabe. conta. a qual nos exime de toda responsabilidade pelo roubo de bicicletas negras. vai assim: você apresenta sua reclamação à asseguradora -algo tão corrente quanto lhe roubaram a bicicleta [que dá a casualidade de que é negra]. mas só nos casos em que a água "não esteja molhada". descobrem o equivocados que estavam. A coisa. mas os casos das asseguradoras estavam começando a me fazer sentir mal comigo mesma. Porque as companhias de seguros são umas cabronas. de fato. umas cabronas. Gente que leva toda a vida pagando um seguro do lar com a idéia de que se lhes chegarem tempos difíceis haverá alguém ali para lhes ajudar. lembravam-se perfeitamente de meu desprezo e receberam encantados a oportunidade de burlar-se de minha precária situação para logo me dar porta.e a companhia viaja para trás no tempo e modifica o documento original para fazê-la responsável pelo roubo de todas as bicicletas "salvo das negras".

e uma escuridão ainda mais pesada me oprimia por fora. Despertou a dor nas costelas. Não estou orgulhosa disso. De modo que se tinha que escolher entre sentimentalismo e ter Coca-cola light na geladeira. Não importa o que dissesse John Joseph. como se estivesse descendendo em um elevador. Perguntei-me se não deveria empreender a busca do Wayne imediatamente. muito cedo para esta classe de ginástica mental. sentada frente ao ordenador do escritório. A escuridão me estava invadindo por dentro. Dava-me medo me enfrentar ao que pudesse haver fora -o dia estava terrivelmente nublado. que ao parecer era quanto podia dormir ultimamente. uma opressão no peito tão forte que tive que deixar de levar prendedor durante um tempo. mas o que outra coisa podia fazer? SEXTA-FEIRA 14 Dormi três horas. decidi deixar a visita ao Clonakilty para mais adiante. Então recordei meu desacertado intento de ontem à noite de rir em casa de John Joseph e pensei esperançada: "Pode que só se trate de um puxão muscular". O problema é que se apresentar muitos informe a favor dos clientes deixam de te contratar -as asseguradoras só querem provas de que as estão extorquindo. mas mais medo me dava ficar na cama. rebobina. Mamãe se achava ao outro lado do patamar. via-me obrigada a escolher o segundo. Assim indo contra minha intuição.e eu tinha faturas que pagar. subir ao carro e conduzir durante umas quatro horas até o Clonakilty. lhe fazer uma visita a sua família seria o mais óbvio… Um momento. um clima absurdo para junho-. Mas sabia que era algo mais."costas destroçada" que fazia filigranas com a bola e informar à sinistra companhia de que dito cliente estava tendido na cama pedindo morfina a gritos. A menos que se tratasse de um dobro farol do Wayne e de óbvio que era deixava de resultar óbvio… Deus. subindo desde meu estômago como um veneno oleaginoso. O mais óbvio… A gente não parava de me dizer que Wayne não estaria em um lugar óbvio. . O mesmo que havia sentido a última vez. pois era muito óbvia.

-O que você diga. -Parece que esteja de pé sobre uma tabela de surfe -me informou olhando fixamente a tela-. -Duvido muito que o Santo Pai lhes desse sua bênção. Quatro meses entre conhecer-se e casar-se. -por que não? -Já o tinha começado. Estava-o. denominaram-no os periódicos. Joga uma olhada -me convidou-. mamãe refletiu e eu escutei porque não tinha energia para falar. E há um ginecologista convexo de barriga para cima sobre a tabela tentando lhe fazer uma citologia. Mas fascinante. -Vendo essa putilla no YouTube. -Que putilla? Tinha os lábios tão apertados que mal podia falar. posso ouvir a brincadeira em sua voz. Pensava que esses ulemas lhe davam na cabeça com um cano de bambu se acidentalmente te escorregava o burka e um homem alcançava a verte uma sobrancelha. -Volto-o a pôr? -perguntou-me. -Zeezah. Está muito escuro aqui. mas olhe o comportamento escandaloso de sua mulher. Podemos acender a luz? -Está acesa. E não diga "Santo Pai" nesse tom.-O que faz? -perguntei-lhe. e ela quer que a faça mas as ondas lhe fazem perder o equilíbrio todo o momento e ao final consegue agarrar-se e baixar para provar de novo… Não entendo essa história do islã -continuou-. -Mas acaso não vai converter se ao catolicismo? Não foram a Roma de lua de mel? Não foram bentos pelo Santo Pai? -Disse "Santo Pai" com sarcasmo. Não o entendo! Refletimos um pouco mais sobre as contradições do Islã. É repugnante. -por que se casou John Joseph com uma garota muçulmana sendo um católico devoto? E por que aconteceu tudo tão depressa? -"Um idílio relâmpago". . Provavelmente ela necessitasse o visto. Bom. mamãe.

Lemos os periódicos.-Quer tomar o café da manhã? -perguntou-me depois de ver o clipe do Zeezah três vezes mais. -Menos mal. Estão pendurados de umas barras. tomei uma decisão. conectei minha impressora ao ordenador e imprimi cinco fotos do Wayne com a cabeça barbeada para mostrar-lhe a testemunhas potenciais. -E por outras coisas. -por que? -Porque não há nada. Mordi-me o lábio. Pode vir conosco se prometer não roubar os periódicos e nos morrer de calor. assim. Parecemos europeus. Não tinha sentido lhe contar que já me tinha esquecido do lenço de Alexander McQueen. -Então não tudo é mau. Os e logo os devolve às barras. De repente. Me manter ativa. -Cada manhã vamos ao CaffeinePeople e pedimos café com leite e madalenas de farelo de cereais desce em gorduras. -por que não? -Seguia sem querer tomar o café da manhã mas me doía que não cumprissem com suas obrigações parentales. -Pelos abutres? Assenti. essa era a maneira de passá-lo. quase me pilhando por surpresa. acredito que irei ao médico. -Que coisas? -Já sabe… -deste de presente seu lenço de Alexander McQueen? Neguei com a cabeça. -De fato. Neguei com a cabeça. .

que possivelmente não fora uma boa idéia tentar falar com ele. Ao fim -ao fim!. Bem.58 da manhã.Feito isto decidi telefonar ao Artie. quinta-feira e sexta-feira próximas. Não obstante. assim que me pus a olhar lenços na rede enquanto o tempo passava odiosamente devagar. Pode que tivesse saído a correr. Mas se tratava de uma simples palmilha de sua companhia de discos e a informação se atia a dados impessoais: os álbuns que tinha tirado. hora de pôr a atenção em outra coisa. Enfim. os concertos onde havia tocado. depois de tanto cilindro tinha o móvel apagado. E se entrava em sua página Web? Talvez me desse uma pista da classe de pessoa que era. estava apagado. mas de repente me assaltou a dúvida. . Eram as 7. Pode que estivesse passando um momento agradável com seus filhos frente a um café da manhã -crepes. Custava-me aceitar o fato de que por muito que Artie me quisesse.30. nem rupturas nem uniões entre famosos. uma hora aceitável para chamar uma casa. Wayne seguia planejando atuar no MusicDrome na quarta-feira. mas aos três tons saltou a rolha de voz. Tem que aprender a tolerar minhas raridades". Segundo a página. Pode que já estivesse no trabalho e metido em uma reunião. tão desconectada do mundo. Um assunto difícil que seunamorado seja um pai devoto. Mas não havia nada na rede que merecesse a pena. o tempo o diria. essas coisas. Ignorava tudo quão normal seria capaz de estar e não queria lhe assustar. possivelmente.preparado por ele. nunca poderia ser a pessoa mais importante de sua vida. Ao imaginar os sentados ao redor da mesa com seus arándanos e seu sirope me assaltou uma emoção desagradável que finalmente identifiquei como ciúmes moderados. de modo que transcorridos uns minutos me disse: "Que demônios. chamarei-lhe de todos os modos. Filtro de chamadas? foi-se a trabalhar? Ou seja. Voltei a chamar o móvel do Wayne. Sentia-me tão estranha. E se lhe assustava? E se não era capaz de me agüentar assim? O que seria de nós? A idéia era tão desagradável que preferi não correr o risco: evitaria a chamada e tentaria falar com ele mais tarde.deram as 8. muito logo ainda para chamar o Birdie Salaman.

Tudo te dá igual. Que maravilha falar contigo. estava esmurrando o teclado e parecia arrasado. o doutor Waterbury mal levantou a vista. Como está? -No ponto gélido de minha saúde física e mental -respondi-. Casaste-te já? Deveríamos ficar uma noite as três para tomar uns vinhos e descansar dos filhos. Hoje a tem a batente. respirei fundo. Tenho que reconhecer que era dezembro. é muito gracioso -disse-. -Caray. que agora tem quatro filhos. Logo o deixou tudo a um lado. Por desgraça. Quando finalmente entrei no escritório. verdade? Teria que trocar de médico se ia ter que acontecer cada vez que necessitasse uma entrevista. -Helen Walsh! Justamente o outro dia estive falando de ti! Encontrei-me com o Josie Fogarty. seguia ali e adorou ouvir minha voz. em dezembro de 2009. não desde que podemos googlear nossos sintomas e fazer nossos próprios diagnósticos. Não suportava aos médicos maiores. Calvo. me dê seu telefone e te chamarei. -Estou olhando a agenda -prosseguiu-. Shannon não era seu ajudante então. por isso eu gostaria de uma entrevista com o médico. Isso eu gostei. atuavam como se fossem deuses e já não o são. como se lhe interessasse seriamente: .Deixei uma mensagem. Sempre foi. Era-o outra pessoa. seu recepcionista. -Começou a teclar e me introduziu em sua base de dados. -Helen… ah… Walsh. chamei o doutor Waterbury e rezei por que tivesse se despedido do Shannon Ou'Malley.dois anos e meio atrás. face à falta de cabelo. temporada alta para os médicos. Tinha-me mudado a meu apartamento novo fazia seis meses e ele era o médico de cabeceira que ficava mais perto. A primeira vez que fui ver o doutor Waterbury foi -fiz um cálculo mental. mas verei se posso te fazer um oco. não era tão major como outros médicos. e disse: "Lembra-te de quão assobiada estava Helen Walsh?". uma mulher a que não conhecia e que me fez esperar mais de quarenta e cinco minutos. como um favor especial a uma velha amiga. com a que tinha ido ao colégio. olhou-me fixamente aos olhos e me perguntou.

não recordo a última vez que fui capaz de comer frango.-Como vai? -Diga-me isso você -respondi-. -Tanto como antes? -Hum… Sempre me compro sapatos em dezembro. -O que gosta de fazer? O que lhe dá prazer atualmente? -Nada -disse-. E da noite para o dia deixou que me importar o argumento do True Blood. sem pedir permissão.44. Expor-lhe a situação. -por que pensava que lhe estava pagando sessenta euros?-. -Bolsas? -Está roçando a condescendência. como se fora uma brincadeira. Pode me programar para exploratório? -Enjôos? Brilhos? Vista imprecisa? -Não. já sabe. Me acordado cada manhã às 4. -Olhei-lhe quase com admiração-. altos e brilhantes para as festas. simplesmente tiro as coisas de sua bolsa e as meto em minha porcaria de bolsa e o deixo aí para que o encontre enquanto eu fujo com a bolsa nova. -Muito boa. imagino que não tem nem idéia mas é fabuloso e eu sempre tomo emprestados suas bolsas novas. Para isso é o perito. e agora que o menciona. este ano nem me incomodei. -Algo mais? -Acredito que tenho um tumor cerebral. embora fico a bolsa todo o tempo . Mas em meu caso é normal. -Dor de cabeça? Lapsus de cor? Daltonismo? -Não. Sou bastante resmungona por natureza -Nada absolutamente? A música? A arte? Os sapatos? Levei-me uma surpresa (categoria: agradável). Minha irmã Claire tem uma bolsa do Mulberry novo de pele de poni de um cinza quase negro. doutor. eu adoro os sapatos. -Então caí na conta de algo-. acredito que está pressionando alguma parte de meu cérebro e me voltando um pouco estranha. não posso me alimentar como é devido.

-Está à corrente dessa história que aparece em todas as notícias? a dos quatro adolescentes que morreram em um acidente de carro no Carlow? Sei que é muito forte o que vou dizer lhe. Desear la muerte sin tener necesariamente un plan para provocarla. E esta vez não o tenho feito. Caray. o temor por minha integridade física. a falta de oportunidades de ir ao lavabo. e pensei que mais me valia dizer-lhe -Lo que acaba de contar. E depois de que dois meses atrás um homem ao que estava vigiando-me propinara um murro na barriga não me sentia tão a gosto espiando aos maus. não o amor a meu trabalho. -Isso diz todo mundo. tudo somado… -Ocorre-lhe algo mais? -perguntou. quase contente de que alguém expressasse com palavras meus estranhos e aterradores pensamentos-. mmm… -consultou meu formulário-… investigadora privada. Soa interessante. -É-o. -As largas jornadas. -Alguma outra ideación suicida? -O que é uma ideación suicida? -O que acaba de contar.que posso. mas me teria gostado de ser um deles. -O que me diz do trabalho? Vejo que é você. Desejaria estar morta . me surpreendendo com sua perspicácia. a tensão de não saber se ia obter ou não resultados. Anotou algo em seu bloco de papel. perdão) fome inicial parecia ter diminuído. De fato. meu (perdão. -Deve ser muito estressante -disse. -Isso é exatamente o que sinto -disse. -Levantou a vista-. Desejar a morte sem ter necessariamente um plano para provocá-la. O que me tinha impulsionado a seguir devolvendo chamadas e indo às reuniões era o medo a ser pobre. Havia outra coisa. -E o é? -Hombreee… -Em realidade fazia tempo que não me entusiasmava a idéia de me esconder em uma sarjeta.

mas não saberia como fazê-lo. mas a terá no caso de que troque de opinião. Isso não era razão para tomar pastilhas ou pedir uma desce no trabalho ou ingressar uma temporada no Santa Teresa. essa era a padre. -Respirava-o várias vezes ao dia. a barbearia a que Wayne tinha chamado três vezes ontem pela manhã. tolerarei a intervenção. -vou receitar lhe um antidepressivo. eu adoraria sofrer um aneurisma. em que era mais seguro ficar na cama. . Como se houvesse dito: "Acredito que sofre de um broto de asas de fada nas costas". -Leve-a receita de todos os modos. -Não me engane. -Não se incomode. se o chegar ou seja. dias em que o mundo nos desejava muito hostil e agressivo. Efetivamente. "Façam por mim. pensava para lhes infundir entusiasmo. respondeu uma garota. "Vamos. Madalenas. Madalenas e batatas fritas e televisão diurna e algumas compra impetuosas no ASOS. -Não trocarei de opinião. por isso possivelmente tivesse sorte. mas as terei que abriam às oito para a gente que queria dar um golpe de secador antes de ir trabalhar. falava com os copos sangüíneos de meu cérebro. Sentia-me… assustada. como a gente fala com as novelo. Todos tínhamos dias em que nos sentíamos fofos e destemperados e pobres e cansados. 15 Enquanto esperava a que Shannon Ou'Malley me telefonasse marquei o número do Head Candy. não parece provável que tenha um tumor cerebral. Mas a vida era assim. Não precisa que a preencha se não querer. Existia a possibilidade de que voltasse a me sair a secretária eletrônica porque muitas barbearias não abriam até as dez ou as onze. Tolerarei a quimio. não me importa. -Eu diria mas bem que o que tem é uma depressão. A depressão não existia. Estalem! Estalem!" -Bem -disse-. e lhes animava a estalar. moços". só quero me curar. eu não me sentia deprimida. Deus. Em qualquer caso.

retornou para mim. seu protocolo é tão inquebrável e sagrado como o de um samurái. Wayne perdeu seu móvel e acredita que pôde deixar-lhe em sua barbearia. mas isso é o que ocorre quando chama uma barbearia. Não.-Head Candy. e o caso é que eu sabia que a garota não estava atendendo outra chamada ou falando com um cliente a não ser olhando o infinito e martilleando sobre o mostrador com suas unhas de leopardo. "Vamos. -E procedi a falar depressa. está ali. -antes de que pudesse protestar ouvi um clique e tubo que suportar noventa segundos de rhythm and blues. agora mesmo ocupa o primeiro posto de minha Lista do Palazos. -A artigo seguido conectou o código das barbearias e disse-: Um momento. A cláusula 14 do código de Recepcionistas de Barbearia diz que é obrigatório manter uma conversação com uma pessoa corpórea enquanto está ao telefone com uma imaterial. Wayne pediu hora com a Jenna ontem à uma da tarde mas não se apresentou. Olá. a secretária do Wayne Diffney. -Ouça." -Mas se não ter estado aqui. sou… -Como queria me chamar hoje?-… Pánfila Shankill. jovencita -disse alagando minha voz de ternura-. na outra prateleira. assimétrico e duro como o merengue. Quer te levar hoje algum produto? Não? Laser? Não. -Como? Que Wayne não foi? -São quarenta e cinco euros. Tinha hora com vós. Transcorrido o comprido e devidamente insultante período de espera. por favor. não? Para eles é tabu te tratar com cortesia e não há maneira de que troquem. cabeça de merengue. É fundamental atuar com rapidez quando acaba de lhe faltar o respeito a alguém. me diga se lhe viu. -Quando a pediu? . A chave está em não lhe dar tempo a recuperar-se-. -Que deseja? -Em minha mente podia ver com total claridade a mecha azul elétrica em meio de um topete branco albino de trinta centímetros de alto. o de acima de tudo.

tenho uma manhã muito ocupada -disse-. e Jenna jogou uma bronca de revide. mas Jenna não podia lhe agarrar até a uma. -Perfeita em que sentido? -Os dois são… já sabe… muito divertidos. -Pensava que Artie você gostava. -Não entendo por que você e Jay Parker romperam. Como podia saber eu que Wayne faria algo assim? Nunca nos tinha dado plantão. -Sério? -Parecia alarmada. -Era próprio do Wayne pedir hora no último minuto? -Não. Nada mais abrir. -Faz que soe como o pior dos insultos. -Parecia incômoda. me foste que grande ajuda. -Obrigado. Ontem às oito e meia. . O que quer dizer é que não está todo o dia te dando adulação. Doía-lhe dizer coisas boas de suas filhas. assim funcionavam os de sua geração. Foi tudo um movimento lhe fazer um oco. Dá a casualidade de que eu tenho a auto-estima muito alta. Faziam um casal perfeito. Olhei-a fríamente. Queria vir-se já. mas tive que me batalhar isso e se essa gente o tivesse descoberto lhe teria gerado muitos problemas a mamãe. Acredito que em seu tempo se aprovou uma lei que processava às mães irlandesas cujas filhas mostrassem sintomas de auto-estima alta. Pôs olhar sonhador. Wayne é um tio tranqüilo. Por nada do mundo quereria nos alimentar a auto-estima. e tudo para que logo não aparecesse. Jay Parker tem que vir a me trazer uma chave. como faz Jay Parker. Poderia meter-se em problemas por isso? Mamãe tinha reaparecido para me persuadir de que fora ao CoffeeNation com ela e papai. soltou: -Artie tem idéias próprias. -Não posso. além de ir ao médico.-Introduz seu pin. depois de um comprido silencio. Não está acostumado a curvar. -Chamou para anular a hora? -Não.

não o somos. Tinham-me escrito meus dois contatos. são… -Me esforcei por encontrar a palavra-. digamos que só más notícias. Bela me adorava. enfim. por que aceita os filhos de outro? Três. mas que o de Artie e Vonnie não fora um pouco terminado não estava entre elas. -Preocupavam-me muitas coisas. -Nós somos de classe média e não nos comportamos assim. -E a pequena Bela te adora. Consultei meus correios. Mas três filhos é muita responsabilidade para ti. -Disse-o com certa satisfação-. não deveria haver lhe contado isso. -São amigos. Não. É extremamente factível acessar aos registros de chamadas ou os detalhes bancários de um indivíduo. Simplesmente gosta do estilo neonazi. -Está sempre metida em sua casa. -Eu não tenho nenhuma responsabilidade. nada menos. É totalmente ex. -Então. . E isso era uma preocupação. -Acredito que nós somos um tipo de classe média errôneo. o qual era mau. -Dar adulação e ser um encanto são coisas muito diferentes. Com ex esposa que de ex não têm nada… -Pois o é. Boas notícias e más notícias. -Em realidade não é neonazi. passamo-lo de fábula na cama… -OH! -uivou mamãe tampando-os olhos com a blusa de lã. -o de Artie é. o qual era bom. Vejo o Artie. são civilizados. De classe média. -Não faça isso! -E se quer ter filhos? -Não quero. nós. Não queria que ninguém começasse a depender de mim. -Não.-Não todo mundo pode ser um encanto. Eles são liberais. é obvio. complicado. O caso é que não tinha sido de tudo sincera quando disse ao Jay Parker que via muitas filmes. e os dois se negavam a me ajudar. e um deles neonazi.

E dado que uma grande parte deste negócio se apóia na confiança.são muito caros. De tanto em tanto despedem ou inclusive processam a alguém por passar pedacinhos de informação. Não recorria muito a eles porque meus clientes não acostumavam a ter tanta massa. de fato. como os antecedentes penais de um indivíduo. carreguei-me duas relações magníficas. mas da Lei de Amparo de Dados as coisas trocaram. Não sei nada desses dois contatos salvo que operam fora de Reino Unido e provavelmente pela natureza altamente ilegal do que fazem.pelo que não pude pagar a minhas fontes. A seu matrimônio não acontecia nada. Eu lhe tinha ajudado com algo e como recompensa se emprestou a fazer as apresentações. Isso me complicou muito o trabalho. Houve um tempo em que a gente com acesso a informação confidencial de outras pessoas não tinha nenhum reparo em passá-la -em troca de dinheiro. como qualificou a informação. mas quando me ameaçou me vendendo a poli tive que atirar a toalha. mas meu clienta -uma mulher que suspeitava que seu marido a enganava e se guardava dinheiro. foi a panela e sem consultar-lhe primeiro a clienta falei com os dois contatos. E se não te incomoda infringir a lei. tudo ia bem e certamente não queria saber nada dessas "mentiras repugnantes". por isso ao final. Não obstante. a gente especializado em telefones e o outro em bancos. faz uns dezoito meses estava trabalhando em um caso matrimonial e me dando de narizes contra um muro a cada giro. porque o investigador . Retornaram com relatórios bancários e telefônicos certamente esclarecedores. naturalmente. negou-se a me pagar -tivemos um tira e afrouxa durante semanas.entrou em fase de negação. Três. Mas anos atrás.Se estiver disposto a pagar o suficiente. claro-. Não em pessoa. favores ou "presentes". presa da frustração. um próspero investigador privado do Dublín situado muito por cima de mim na hierarquia me tinha apresentado a dois contatos muito sérios.

é justo: se alguém tirar o sarro. não perca o tempo te fazendo mau sangue mas tampouco lhe dê uma segunda oportunidade. Ontem à noite no carro. interessante. pelo visto. Pulsei "Enviar". Veráte daqui a um quarto de hora se consegue chegar. Contudo. e não tinha nem idéia do que havia em cada uma delas de quão nervosa tinha estado enquanto empacotava minha vida. nem sequer um SMS para me informar de que não tinha encontrado nada. Não o tinha feito. Um quarto de hora. Já só ficava esperar. Leger. Até o último objeto que possuía estava metida em caixas dispersadas por toda a casa. necessitava que essas fontes me dessem uma segunda oportunidade. me vestir. . sim. um a meu informante telefônico e o outro a meu informante bancário. Logo consultei meus SMS enquanto me perguntava se John Joseph Hartley teria procurado a informação sobre o Birdie Salaman. caminho de casa de Roger St. nos que lhes prometia que lhes pagaria minhas dívidas pendentes e o dinheiro adiantado por informação nova. entretanto. Tudo estupendo. por isso tinha algo com o que trabalhar. da consulta do doutor Waterbury. Boas notícias. parecia-me… não sei. -Helen. Soou-me o móvel. representou um problema. de modo que decidi lhes escrever outro correio lhes oferecendo um esbanjamento de desculpas e. não ter tido notícias de John Joseph.privado que me tinha apresentado me retirou a palavra. Graças a meu esforço pessoal dispunha de uma direção e um telefone fixo do Birdie. Além disso. pelo menos em teoria. assim era. E. Porque não nos enganemos: o mau sangue pode ser extremamente atraente. de acordo com meu código moral. tinha enviado sendos mensagens implorantes. sou Shannon. Mas não abrigava muitas esperanças de que me tivessem perdoado. Genial! Isso significava que não dispunha de tempo nem para fingir que considerava a possibilidade de tomar banho. O qual. o mais importante. mais dinheiro.

Não sou Alexa Chung. por que me tinha incomodado em guardá-lo?. marrom normal e marrom escuro). tinha-as adquirido unicamente por aquele breve revôo que teve que comprar poucos objetos mas de qualidade. Para falar a verdade. Se pudesse. As blusas de lã de cachemira não são meu estilo. mas sua roupa era tão fabulosa que estava disposta a arregaçar e remeter o que fizesse falta. Claire media uns trinta centímetros mais que eu. Telefonei a minha irmã Claire e me saiu a rolha de voz. tinha-o sempre metido em sua bolsa NeverFull em meio de uma confusão de coisas. mas não podia me passar o dia vestida com roupa de pessoa maior. mescla entre o Mad Men e Glee. Para cúmulo. Levantei outra tampa e me descobri contemplando três blusas de lã de cachemira que nunca devi comprar. Necessito roupa. -A suficiente para um par de dias -prossegui-. Posso acrescentar um toque amarelo ou laranja sempre que ocupar uma superfície reduzida: por exemplo. Poderia me trazer algo? Olhe também no quarto do Kate. caramelo e tofe (em outras palavras. e me perguntei quantas semanas de sua vida tinha esbanjado escutando mensagens. Tinha dado com a seção canção. Até que me organize. vestiria-me como a casa do Wayne Diffney. Enquanto falava abri uma das caixas e atirei das primeiras capas de tecido. nunca chegava a tempo. tinha uma filha de dezessete anos muito bem vestida e de minha estatura. E as cores não podiam ser mais desacertados para mim: butterscotch. Nunca respondia ao telefone. Eu nunca levo marrons nem seus variantes. Eu gosto do negro e o cinza e às vezes o azul e o verde muito escuros. umas esportivas. marrom claro. O chão se encheu de cores vivas. biquinis.Para minha noite de sonho tristemente breve tinha tido que utilizar um pijama de papai que tinha encontrado no planchador. Segui pinçando e desenterrei um peculiar vestido de ponto de uma cor simplesmente espantosa. sempre e quando forem quase negros. mas os nomes me confundiram. esqueci que estava comprando blusas de lã e não cupcakes. -Sou eu -disse-. . teria que havê-lo atirado. lhes para.

como Claire. -Está bem? -perguntou-me. Tinha um trabalho. Em seguida vou para lá com algumas coisa. Era uma mulher multitarea digna de um prêmio. -tive que me mudar a casa de mamãe e papai. de todos os pescoços o segundo mais atroz. Digamos que se fizesse frio e quanto houvesse à mão fora um pulôver trancado de lã acrílica cor mostarda. Sempre responde. Não porque fora vaga e informal. -Agüenta -disse-. eu e… Claire. muito ocupada. Estava-me curvando. não precisa -me apressei a dizer. Até certo ponto. Margaret o poria. -Não necessito que me traga nada -insisti-. De por si. é muito aplicada. Passa-me quase trinta centímetros. Não tenho nada que me pôr. um marido atrativo e três filhos. enquanto que qualquer pessoa sensata preferiria perder um braço por congelamento. mamãe. instalaremo-lhe em seu quarto e lhe poremos isso bonito. certamente. Não. Às vezes pergunto a que se deve sua falta de interesse pela roupa -até mamãe a encontra insípida. Somente te chamei para te chorar.e me digo que se deve a que ela sabe quem é e com isso lhe basta. Seu estilo poderia chamar-se depravado. muito. que respondeu ao primeiro tom e médio. Pertence a essa categoria desconcertante de mulheres que pensam que a roupa só serve para tampar-se. -Contaram-me isso. -Irei mais tarde. Desembalaremos suas coisas. simplesmente estava muito. se é que o da Margaret pode chamar-se "gosto de". não. superado em imponibilidad unicamente pelo pescoço voltado folgado. não podia dizer o mesmo da Margaret: temos gostos completamente distintos. -Não. e nem sequer pediria desculpas. Segui rebuscando e tirando mais gosta muito estranhas… até que disse basta. Seria incapaz de me pôr a roupa da Margaret. O qual está bem. Titubeou ao dizer "Claire" porque Claire era a incógnita em todas as equações. Telefonei a minha irmã Margaret.e por que havia trazido este pulôver de pescoço cisne?. e enquanto estava desejando aceitar a ajuda de Claire. -Toda minha roupa está em caixas. entre eles uma adolescente que parecia uma bomba .

Tinha conseguido me manter um passo por diante dela enquanto fazia chamadas e googleaba. disse-me.em constante explosão. Acrescenta a essa mescla o compromisso de combater a perimenopausia desde todos os frontes e terá a receita de uma mulher sobrelimitada. E o lenço de ontem. Mas não a roupa interior de ontem. Se por acaso isso fora pouco. golpeoume com toda sua força. Abri outra caixa e segui atirando de mangas e pernas das calças. -Lhe sentimos falta de na reunião de antigos alunos -disse em tom acusador-. respondi-me. Estava-me resultando tão difícil permanecer sentada e não sair correndo que estava me retorcendo na cadeira. Terá que te conformar te escovando os dentes. . por que o fazem? por que não lhe tratam como um adulto e lhe comunicam de antemão que terá que esperar? Pergunta: Como sabe que a recepcionista de um médico está mentindo? Resposta: Porque move os lábios. inclusive agressiva. mas assim e tudo tive que esperar outros vinte e sete. -Esteve genial -prosseguiu-. -Até mais tarde -disse Margaret. E a camiseta de ontem. a entristecedora sensação de estar me afundando que tinha tido desde que despertasse aumentou de repente. e em um golpe de sorte inesperado. mas agora que estava quieta e sem nada com o que me distrair. -Pendurei e enfrentei aos fatos. 16 Cheguei à consulta em treze minutos. o conteúdo de minha gaveta da roupa interior caiu esparramado pelo chão. Está de coña. E as esportivas de ontem. Depois de ocupar meu assento na sala repleta de doentes. Isso seria muito. Agora a maquiagem. -Certo. a atitude do Shannon Ou'Malley tinha passado de histéricamente cordial a doída. E obrigado. Não ficava mais remedeio que me pôr os texanos de ontem. Foi fantástico voltar a ver às pessoas. por que não veio? Fiquei olhando-a sem saber o que responder.

Quanto sabia de mim? Tinha lido meu expediente? com certeza que sim. dez anos que parecem cinqüenta… Aborrecida. tremendamente aborrecida. Uma alma sábia onde as haja. Teria que conhecer meu filho de dez anos. mas uma vez mais meu cérebro foi incapaz de elaborar uma resposta. estaria explicando-lhe até o fim dos tempos e seguiria sem pilhá-lo. se quer saber o que é estar ocupada. Assaltou-me a terrível ocorrência de que a culpa de que não tivesse amigos fora minha. Pode que não te lembre do Kristo Funshal porque sua carreira de ator sofreu após uma . estivesse tarada. Então recordei que sim tinha tido uma amiga e que tinha sido uma amiga excelente. -Imagino que estava ocupada -disse Shannon em um tom (e eu sou primeira em reconhecer que minhas interpretações não são de tudo confiáveis) quase desagradável. -O subidón me durou dias -assegurou em atitude quase desafiante. Olhei-a dúbia. prova a ter três filhos.Calou a fim de me deixar o espaço para dizer algo. Tentei desconectar recordando algumas das palhaçadas do Bronagh e me veio à cabeça uma realmente boa. dão tantas satisfações. Pode que. Bronagh e eu tínhamos ido a uma festa em que também estava Kristo Funshal. Como podia trabalhar em um lugar com um montão de informação confidencial sobre pessoas que conhecia e não lê-la? -Embora. Não obstante. uma amiga de verdade. por que não podia ser uma pessoa normal e ir às reuniões de antigos alunos em lugar de sentir que antes preferiria me orvalhar com gasolina e prender um fósforo? Até a idéia de jogar a "Minha vida resultou ser melhor que a teus" com esses pobres diabos com os que tinha suportado cinco anos de um tédio demolidor era mais do que podia suportar. por outro lado. Claro que. como dizia Rachel. -Seu tom era agora um pouco menos hostil-. Com razão não tinha querido ir à reunião de antigos alunos se este era o tipo de personalidade em oferta. se contasse ao Shannon Ou'Malley por que era tão divertida.

começarei com "espode" e logo acrescentarei palavras de minha própria colheita. -Viu isso? -exclamei-. e o sorriso de suficiência do Kristo era tão descarada que dava vontade de vomitar. -Sério? -Sim. -Cruzou a estadia atirando de mim e se plantou. atraindo sua atenção. passavam por seu lado com olhar coquete e risitas detrás da mão. todas as garotas. Vi como olhava a esta pequena frisbee. disse ao Bronagh: -Vê e fala com ele. -Está muito espode esta noite -disse Bronagh. salvo Bronagh e eu. Indignada. "Você atrairá aos homens para as duas. Em seguida soube que havia um "E". Não tem que dizer "espode". mas naqueles tempos gozava de um êxito modesto e. -E coloca a palavra "espode" em cada frase durante dez frases. Ela me chamava "a ceva". Assim é. e com isso quero dizer que parecia que fosse feito de mogno e látex. diante do Kristo. "É bonita". toda fanfarrona e miúda. lambendo-se-. Vamos. Era um ator de cinema atrativo." E tinha razão. Virão por ti mas ficarão comigo. -Certo. deitava-se com toda a que punha a tiro. pode escolher outras palavras sempre e quando as disser sem tom nem som e flipe com elas. Sua presença na festa estava causando bastante revôo. -O que significa espode? -Nada. -Frisbeeeeee -repetiu Kristo. Em um momento dado me fez gestos com o dedo para que me aproximasse. -Olá! -Kristo ignorou ao Bronagh e me obsequiou com um sorriso enjoativo. muito espode. Que asco de tio. embora estava casado. estava acostumado a me dizer. . -E…? -O vê? Não lhe escapava nada. Irei contigo e te fiscalizarei.morte de tudo merecida. Bronagh se encolheu de ombros. Kristo me fez outro gesto com o dedo. acredito que não existe.

abutres. pato! Não precisava mais. como a última vez? . junta os cocos.-Esta noite há tenaz nova -prosseguiu alegremente Bronagh-. Sabia que tinha perdido a batalha. -Abutres? Se não recordar mau. -Ah. Um. porque quando é médico ninguém vem a verte porque queira compartilhar contigo uma boa notícia-. o qual. dois. se o pensar bem. Voltei para o Shannon Ou'Malley. apito! Vamos. por isso me apressei a desconectar de novo. dando outra palmada-. -Pode estar orgulhoso de sua memória. -Morcegos gigantes. junta as batinas. um. Shannon seguia falando enquanto eu olhava a porta do doutor Waterbury e suplicava que se abrisse. assinalando desdenhosamente ao Bronagh com a cabeça. o tédio estava em seu ponto gélido. três. não há muita diferença. Gaivotas. Como está? -Direi-lhe como estou. Preferia não ter nenhuma amiga a ter que escutar todas essas gilipolleces. Ontem acreditei ver um bando de abutres sobrevoando o posto de gasolina. Esquadrinhou-me com o olhar. -Assobiada? -disse-. Finalmente disse as palavras mágicas: -Receberá-te agora. necessitam seu espaço -estava dizendo. -… já sabe como são os meninos. a última vez foram morcegos gigantes. Helen! -O doutor Waterbury parecia contente de me ver. é um pouco estranho. Seguro que a gente fica lâmpada. disse: -De que fala? -Pato! -exclamei eu. Sente-o em seu galão. De que penugem fala? Todos juntos agora. Pato! -Deu uma forte palmada e Kristo pegou um salto. É que não o sente? -Sente-o em seu nimbo -lhe insistiu Bronagh-. Olhou-me e. Bronagh dava cem voltas ao Shannon Ou'Malley. -Como se estivéssemos no aprendiz. três. dois. dois. pato! -Que tal se te desfaz desta assobiada? -propô-me Kristo. três. não crie? Dou por feito que não eram abutres. Girou sobre seus talões e partiu. um. olá.

Às vezes tenho a sensação de que já ocorreu. dá-me igual o que me ponho. a de meu piso… me cortaram a luz. voltei para minha cama. Se alimenta de sándwiches de salada-russa de couve e queijo. -Quanto faz que lhe passa? -Uns dias. -Ocorreu-lhe algo que tenha podido provocar esta recaída? -Não é uma recaída. O mundo me parece… estranho. -Sério? -Sério. como se algo terrível fora a ocorrer. Que mais lhe ocorre? Com a voz entrecortada respondi: -Custa-me falar com a gente. Em abril. -Algo mais? Que tal dorme? -Sigo com minhas três horas de sonho. Às vezes me custa respirar. em realidade não quero estar com ninguém. mas tampouco quero estar sozinha. diria eu. um par de semanas. Tenho que voltar para meus Sunny D'S. deme meus Sunny D's e irei. -Algum outro sintoma? -Não exatamente.-Gaivotas. -Agora o recordo -disse-. doutor. É passageiro. Tenho uma dor no peito. -Custa-lhe dormir? Ou despertar cedo? -As duas coisas. Por favor. Sinto-me estranha. Tudo me parece um mau augúrio. Muito estranha. -Sua cama? . -Calei-. -Como está de apetite? Quando foi a última vez que comeu como é devido? -Né… -O meditei-. Não gosta de tomar banho. Mas nunca fui que me sentar e comer quente. -Alguma perda recente? Algum trauma? -Bom. Bom.

por que não o pergunta a sua mãe? -Está maior. -Não me passei sete anos na universidade para responder a essa classe de perguntas. Consideraria a possibilidade de voltar para…? -Não! -Nunca. Helen… pergunte a outra pessoa. não meu terapeuta. -Isso significa que cheiro mau. e não. -Não cheira mau. me Diga. É meu médico. Ouça. Não soa muito bem que digamos. mas eu adoraria pilhar um vírus estranho e palmarla. Alguma ideación suicida? -Mmm… agora que o menciona. Mas Seroxat lhe funcionou. o era. Voltaremos a prová-lo e começaremos com uma dose elevada. . Não é que o esteja planejando. -Falando de terapeuta. -Já. muito longe para uma leitura precisa-. -ficou a teclar no ordenador. segue vendo-a? Era Antonia Kelly. Desejava que essa parte de minha vida não tivesse existido-. me Diga. -por que não? -Porque estava melhor. Ontem tive que voltar para casa de meus pais. daqui não. verdade? -Sim. já não a vejo. -Não gostou de escutar isso-. Helen? -OH. Não podia nem pensar nisso. sim. mas tinha que sabê-lo-. Antidepressivos. Effexor não foi bem a última vez. Não tem sentido correr riscos. -Talvez lhe conviria voltar a vê-la. -Não me resultava fácil lhe fazer esta pergunta. cheiro mau? Soltou um suspiro. doutor. não comece com isso. isso conta como um trauma? -Você o que crie. Não tem o olfato de antes. -Vejamos. Ou Aponal. Voltou-se para a tela com outro suspiro. Tampouco Cymbalta.-É complicado. Pelo menos. -Mas estava a mais de um metro de mim.

eu adoraria dormir. vomitaria. Nestes tempos demandistas as farmacêuticas temiam tanto ser demandadas que seus sedativos levavam um assento de ejeção incorporado. comprei meus antidepressivos e me traguei o primeiro aí mesmo. doze circulitos brancos de alívio. E ao melhor tinha tomado a moléstia de escrever notas de despedida. mas tinha muito poucos. Me teria encantado tomar quatro ou cinco de repente e dormir como um tronco dois dias seguidos. Ah. mas tinha significado muito para mim. mas ninguém lhe garantia isso. uma caixa de um dormitório no quarta andar de um edifício de obra nova. Incríveis as coisas que pode descobrir em internet. mas eu estava pensando no fármaco como em um escudo protetor que poderia me impedir de cair de novo no… horror. provavelmente seria a forma que a maioria da gente escolheria para terminar com sua vida. não. do desesperada que estava por me colocar isso no organismo. o inferno… como quer chamá-lo. quando podia confiar em um punhado de soníferos para te inundar em um sonho eterno. Basicamente porque sabia que não funcionaria. deixar de existir. Era muito difícil que estirasse a pata. Meu ex-piso não era grande coisa. Pode que até tivesse agradável algumas de suas coisas. 17 Fui direta à farmácia.-Já que está com as receitas -disse-. De repente me assaltou uma profunda tristeza. sem água. Importaria-lhe acrescentar alguns soníferos? Prometo-lhe que não tomarei uma overdose. Que vergonha. Uma overdose de soníferos: se fizesse um estudo. Waterbury. Como muito. como de costume. Não só pelo prazer de viver . Também me apropriei de doze soníferos. tinha-me recalcado que demorariam três semanas em me fazer efeito. Já não era como antigamente. Subi ao carro e me encontrava a meio caminho de meu apartamento quando caí na conta do que estava fazendo. não podia esbanjá-los. Claro que sempre podia te engasgar com seu próprio vômito e diñarla. Entretanto. não poderiam estar mais equivocados. Poderia te encontrar na violenta situação de ter que pedir a sua irmã que te devolvesse seu lenço de Alexander McQueen.

antes de me mudar Claire já me estava bombardeando com revistas de decoração e todo mundo falava de "abrir" as reduzidas habitações e "introduzir luz e ar". Tinha passado tantos anos de minha vida caindo mal às pessoas e tendo que me moderar para sobreviver. mas agora que tinha uma hipoteca que pagar ia justa de dinheiro. Fechei-o. Ou pelo orgulho de poder pagar uma hipoteca. naturalmente. feliz de que por fim me fora de casa. a trastes velhos. -A passar o dia -disse-. até uma colher para servir gelado. bicando fruta confeitada. Quando digo antiguidades me refiro. Que foi pelo que acabei com um espelho de corpo inteiro em perfeito estado salvo por algumas mancha e um precioso jogo de aguamanil com alguma que outra greta. Podemos comer ali. ouvi que fazem umas almôndegas suecas muito bons. bebendo madeira e vendo America's Next Top model enquanto na gélida capela as paliduchas noviças se ajoelhavam sobre ervilhas congeladas . ofereceu-se a alugar uma caminhonete e propôs que fôssemos todos juntos a Ikea. Papai. Procurei vendas de heranças nas que compras uma caixa enorme de porcarias vetustas por nada e menos. antes de que existisse a ducha. que converter meu piso em um lar era minha grande oportunidade de ser plenamente eu. Fiz-o íntimo e interessante e o enchi de antiguidades. fui ao outro extremo. Mas em lugar de decorar meu piso ao estilo limpo e luminoso da Escandinavia. pode que pertencesse à mãe superiora. era bastante ostentosa para umas monjas que supostamente tinham renunciado aos bens terrestres. mas onde alguma que outra vez encontra algo útil ou bonito. Eu gostava de imaginar a comodamente deitada na recarregada cama. Compraremos tudo o que necessita. Era o fato de possuir algo no que não tinha que ceder. Imagina?) Minha cama saiu de um convento que estava fechando o chiringuito. geralmente repleta de abajures roda e espantosos óleos de cavalos.sozinha. o qual para uma pessoa irritável não tem preço. (Jogo de aguamanil: jarra e terrina de cerâmica para lavar-se nos velhos tempos. De mogno com incrustações de laca negra no cabecero e os pés.

Atirei o jogo de aguamanil gretado porque era um jogo de aguamanil. Sobre a janela da sala de estar coloquei um grande leque de plumas de pavão para que filtrasse a luz e a tingira de azul. Como já hei dito. não podia me permitir a gama do Holy Basil. A cor da pintura o escolhi com supremo cuidado. Obcequei-me conseguindo um jogo de capas de edredom de cor negra e me passava horas em internet destrambelhando contra The White Company. em um leilão. mas me esforcei por encontrar imitações trocas e não há dúvida de que o consegui porque Tim. Não podia pensar em nada mais. Bronagh. As coisas tinham ido muito longe.) O pesado aparador de teka resultou ter caruncho. meu novo lar se achava em permanente evolução. Logo comecei a ter dúvidas sobre meu quarto de banho cinza couraçado. Convidava a passar às pessoas com cautela. eram muito grandes para a sala e a barra acabou abrangendo todo o largo da parede. tropecei com duas cortinas decoradas com perus reais e pensei que iriam que nem pintadas com as plumas. e com alguns foi assim e com outros não. Logo o tirei. desenvolveu uma forte dor no lado esquerdo do rosto depois de passar uma manhã pintando meu dormitório de vermelho escuro. assim que o pintei de amarelo. do Holy Basil se chamava Fedor a Morte. Durante um tempo não fiz outra coisa que trabalhar em meu piso para fazê-lo ainda mais fabuloso. e o tive dois dias de baixa.) -Estou tomando Migraleves como se fossem Smarties -me disse. ai. Claire o encontrou fabuloso. e Anna murmurou: "Vozes . Bem cuidadoso. Mais adiante.sonhando com uma comida de água fervida. Era como estar apaixonada. E. Queria que gostassem tanto como a mim. E gretado. Com os meses fui acumulando mais móveis. de maneira que quando fechava as cortinas tinha a sensação de estar em uma gruta. joguei um véu sobre o espelho de corpo inteiro para fazer que meu reflexo semelhasse um espectro. encontrou-o fabuloso. quase idêntico. Isso me provocou um leve ataque de revisionismo. é obvio. (Nomeie oficial: Ranúnculo. E a toalha de felpilla verde musgo. um pouco cutre.o encontrou fabuloso.) (Mas Gangrena no mostruário do Holy Basil. papai -inesperadamente. (A cor. Em um arranque de inspiração. a verdade. o pintor. Mas. mofo.

Não tinha mais que ver como tinha reagido com o dos abutres. . Quanto devia lhe contar? Nada. não melhorou meu estado. não gostou muito. entretanto. Rachel disse que meu piso era a manifestação de uma mente doente. Quando o céu está tão abafado a cabeça me pesa. -De plátano e pacanas. Assim que pôs um pé em meu saguão azul marinho soltou uma gargalhada desdenhosa e disse com pesar: "Já o vi tudo". o que interpretei como algo bom. -Quando ocorreu? -Leva assim toda a manhã. A Margaret. E quando Jay Parker entrou em minha vida comentou que passar meia hora em minha sala de estar vendo Top Gear era como estar enterrado vivo. Durante sua primeira visita contemplou as paredes verde hera com inquietação e disse: "Dão medo". Olhei pela janela. Segui inquieta. o céu estava azul. Duas semanas depois me comunicou como se tal coisa: "Não quero que meus filhos vão a sua casa. frio e desumano.distantes". mas te importaria prová-la? Parece um pouco… -Estou bem -disse-. em troca. Isso. O céu espaçoso me desejava muito duro. só que de outra maneira. decidi. Não poderiam haver posto algumas nuvens para suavizá-lo um pouco? -O que te há dito o médico? -perguntou-me mamãe. Sei que não tem muito boa cor. Pôs cara de estranheza. -O céu está azul. Não dormiram bem depois da última visita". 18 Mamãe me estava esperando em casa com uma madalena. Mamãe não queria que isto estivesse acontecendo. São as nuvens.

manter a mente em movimento. Queria me manter ativa. -… o que ocorreu exatamente entre o Jay Parker e você? -Não lhe poderia dizer isso -He reprogramado mi base de datos… -Claro que pode. Eu estava aterrorizada. -Não pensava lhe contar a ninguém o que ocorreu com ele. minha mente sabia mesmo que meu coração não pudesse senti-lo. deixou Jay Parker uma chave para mim? -Não. por último. Ninguém podia entender o que me estava ocorrendo e quando compreenderam que não podiam me ajudar se sentiram impotentes. Mierda. mas uma vez que me repus -o que felizmente ocorreu depois de seis meses infernais. -Estava-me perguntando… -disse mamãe. logo culpados e. Eram mais das dez. Como é óbvio.ninguém queria que recaísse. . -Só aconteceu um ano -protestou mamãe-. queriam-me. Sim. Estarei bem. Vindo de um embusteiro informal como ele. Estávamos todos muito assustados. Não o tinha contado a ninguém quando rompemos e não pensava fazê-lo agora. -Desterrei que minha consciência -disse em tom alegre. manter os pensamentos a raia. quando pensava me dar a chave? Enviei-lhe um SMS e respondeu que estava em caminho. e também eles. todos queriam que me repusera. Ouça. podia significar algo. mas uma pequena parte deles estava zangada. -tornou a me dar Sunny D'S. Esqueci-o por completo. -Não posso. Não pode havê-lo esquecido.Dois anos e meio atrás aprendi a deixar de desejar que a gente de meu redor me consolasse porque não podia fazê-lo. Como se eu tivesse eleito me deprimir e me estivesse resistindo deliberadamente à medicação que devia me reparar. ressentidos. Em seguida soube o que se estava perguntando.

-Trouxe-te roupa. em minha defesa. É o que passa quando tem uma filha adolescente. Mamãe tem uma forte veia teatral e se mete realmente no papel. plataformas de vertigem e um braço coberto de braceletes de prata com orações hindus. -Está muito fraca -disse sem poder apagar a inveja de sua voz. Para minha surpresa (categoria: incerta). como uma zeladora em um cárcere de mulheres. conduzindo como um bólido e investindo portas com o ombro. Enquanto lhe espero me obrigue a tomar banho e me lavar o cabelo. Reacia a deixar o tema de Jay Parker. Tinha um aspecto estupendo: o cabelo comprido e sedoso e o bronzeado falso ao dia. Mas direi. comportando-se como se fôssemos detetives de televisão. mas ajudava ao Claire a manter sua imagem ao dia. ao sair do quarto de banho tropecei com o Claire. uma camiseta diminuta com o desenho de um personagem Anime. Kate seria um pesadelo hormonal. Levava uma calça pirata. Fazia duas semanas que não a via. . -Sorri-lhe com doçura-. depois de um breve hesitação disse: -Está bem.-Mas… -Hei reprogramado minha base de dados… -Mas… -… e reescrito minha própria lembrança do passado. A verdade é que também eu tinha pecado um pouco disso. Meteu-me no quarto de banho com mão dura. que só nos primeiros tempos. -Possuo uma vontade de ferro. quando me passava o dia localizando microfones em salas de juntas e me perguntando quando teria uma vida mais emocionante. Vêem comigo. Tenho feito o que pude. -Lançou-me uma bolsa-. Em meus piores momentos me tinha ajudado em meu trabalho e se deixou levar pelo entusiasmo. -Não pode fazer isso! Ninguém pode. Nisso sou afortunada.

-por que não tem celulite nos braços? -perguntei-lhe. não sei se me entende. me deixando franja. A verdade é que nem sequer sei por que me incomodo. -O que te conta? -Não paro. -Obrigado. Nunca falamos de livros. Não teria . Puxando por uma tela de abajur no EBay. A velocidade de meu metabolismo cairia em picado. embora com a Helen vendo abutres e negando-se a comer e seu pai cada vez mais surdo… -Esquece-o. lhe poderia ler isso para na segunda-feira e me contar do que vai? -Tentarei. mas não por muito tempo. me perguntando se poderia enviar ao Kate a um desses reformatórios para adolescentes problemáticos. o de sempre. Pincei em meus pensamentos e achei a causa: em algum lugar dessas caixas havia fotos. O que? Desembalamos as coisas da Helen? Algo se apoderou de minha alma. Procurando uma receita para um tajín de cordeiro vegetariano. Uma inquietação diferente da inquietação que havia sentido desde que me tinha despertado essa manhã. Quando as pastilhas começassem a fazer efeito. -Não. Pinçou em sua bolsa e tirou um livro que entregou a mamãe.Estava-o. Uma inquietação. Sempre ao pé do canhão. cem. tanto a enfermidade como a padre. -Tirou uma pastilha do Nicorette e a meteu na boca-. apoderaria-se de mim um desejo irrefreável e insaciável de carboidratos. Levando a cão a castrar. carinho. Estou deixando o tabaco. Alguns dias. Bom. -Mil exercícios de bíceps todos os dias. Do Artie. a cara me poria como uma torta e a barriga me encheria de cilindros de gordura de um dia para outro. Era um mau cilindro total. é de meu clube de leitura. Quão único fazemos em classe é beber vinho e nos queixar de nossos maridos. Nunca devemos nos render. Converteria-me no boneco Michelín. Nu e desinhibido. Fotos comprometedoras.

Seguro que Margaret se passará por aqui. Blake.que as haver passado a papel. -Crie que voltará? -perguntou mamãe algo quejumbrosa. Todo mundo tinha adorado ao Jay Parker: minhas irmãs. Volto em cinco minutos. dentro de uma bolsa. todo mundo. Baixou a lhe receber e a segui a um passo mais lento. dentro de uma cajita. Bronagh. papai apareceu no saguão. -Olha -disse mamãe com patente admiração-. por aí vem Jay Parker! Olhei pela janela. Não podia permanecer afastado da televisão durante muito tempo ou algo mau poderia acontecer. -Tenho que sair um momentito a comprar farinha para massa -anunciou Claire-. Esta noite tenho convidados e quero fazer orecchiette. em efeito. com seu uniforme habitual de traje estreito. -Lhe sentimos falta de. camisa branca e gravata fina negra. separou-se cirurgicamente de sua poltrona frente a Setanta Sports para saudar o Jay. papai se preparou para partir. em um acontecimento milagroso. Há uma loja italiana ao final dos York Road. Mas estavam bem escondidas. mas neste rincão do país é impossível conseguir farinha para massa. Envoltas em uma camiseta. acredito. deveria as haver deixado no móvel e me haver conformado com isso. -A quem lhe importa? -exclamou mamãe-. Era Jay Parker. E desapareceu com um golpe de juba. -Papai tinha adorado ao Jay Parker. -Não importa. . Mamãe também tinha adorado ao Jay Parker. Para minha grande surpresa. -E que o diga -conveio mamãe iludida como uma menina. Tem tanto… qual é a palavra? Carisma. Parecia a pessoa que tinha que introduzir os números na trampilla no Lost. o marido do Bronagh. tão galo de briga que caminhava virtualmente pavoneando-se. depois de uns minutos cruzando tolices. Ninguém as encontraria.

Contemplei os números que Wayne tinha eleito como chave -0809. Tenho o dinheiro. o problema são essas malditas máquinas. Mas quem ia ao banco hoje em dia? De fato. . é tudo o que me deixou tirar a caixa. -E o dinheiro que tinha ontem à noite? -Dava-lhe isso quase tudo.-Vêem nos ver logo -disse. e tenho outros gastos. Jay Parker se voltou para mim e com gesto solene me tendeu uma chave e um papelito. E ao outro. -A isso ia agora. como se eu estivesse insinuando que era dos que tentavam escaquearse de pagar suas faturas. ainda era possível ir a um banco? Não acontecia todo o relacionado com o banco em búnkeres subterrâneos de atenção Telefónica do tamanho de um estádio de futebol? -Poderia te fazer uma transferência do total a sua conta -acrescentou astutamente-. -E meus honorários? -perguntei-lhe. a despedida teve lugar sem incidentes. mas supus que preferiria cobrar em efetivo. embora o tente. -Poderei tirar outros duzentos manhã -replicou-. Durante um momento angustiante deu a impressão de que ia abraçar ao Jay. Tinha-me pilhada. mas depois de um breve hesitação. que me fez eterno. Tinha tal descoberto que qualquer dinheiro transferido a minha conta desapareceria automaticamente. Precisava cobrar em efetivo. Tirou um maço de bilhetes de vinte euros-. Aqui tem duzentos perus. Fulminei-o com o olhar: tínhamos acordado que me pagaria o trabalho de uma semana adiantado. porque ninguém escolhe nada inteiramente ao azar. E depois de amanhã. -Teve a audácia de fazer o ferido. -A chave e a chave do alarme do Wayne. muitos gastos. Poderia ir ao banco e tirar dinheiro.e me perguntei o que podiam significar.

Dizem que aparecerá em um dos três concertos. mas nunca se sabe. aliás O Talentoso. Eu não digo nada. Docker fazia anos que era uma superestrella internacional. -Jay se deu uns golpecitos em um lado do nariz-. Por Deuse diretor de cinema. mas se recuperou tão depressa que virtualmente podia ver a engrenagem girar. É informação confidencial. Existiam tantas probabilidades de que Docker. De fato. ou Shane Dockery. Onde demônios ouviste isso? -Sai em todos os foros. aparecesse em um reencontro de Laddz como de que os porcos voassem. como tinha sido conhecido em outros tempos. Que melhor maneira de gerar espera e disparar a venda de entradas que pondo em marcha o rumor de que Docker.-Do que vai isto? -perguntou-lhe mamãe-. Mamãe nos olhou. não sabendo se insistir ou não. a detentos políticos e eu o que sei a quem mais. Vivia em um universo que nada tinha que ver com o dos Laddz. É certo? Era evidente que Jay não tinha nem idéia. -Estou desejando que chegue o concerto da quarta-feira -disse emocionada. mami Walsh. -E me diga -mamãe se aproximou um pouco mais ao Jay-. inesquecível. Viajava de avião privado. -Se pudesse contar-lhe a alguém. mami Walsh… -Jay meneou tristemente a cabeça-… esse alguém seria você. Está sendo cruel. -Jajajá! Ao melhor. com . já não era cantor a não ser ator de Hollywood -ganhador de um Oscar. é certo que Docker aparecerá como convidado surpresa? -Docker? …-perguntei-. -Será uma noite inesquecível. era padrinho de um dos filhos da Julia Roberts e sempre estava fazendo boas obras. defendendo aos cultivadores de soja verde de Comércio Justo. -Basta -lhe recriminei-. poderia aparecer nos concertos? -Os cinco Laddz outra vez juntos -disse mamãe. Que trabalho te está fazendo Helen? -É confidencial -disse. Até o John Joseph. mas finalmente se rendeu.

Não sou feito de dinheiro. Isso significa que não poderia tê-la até na terça-feira. -por que tenho que pagar a fatura de outro? -Porque esse outro se nega a fazê-lo e terá que saldar a dívida para poder encarregar outro trabalho. -Preciso te comentar um par de coisas. e não estou dizendo que o tenha. Cada . e após não tinha encontrado um substituto satisfatório. -Quanto? O disse. mas te custará dinheiro porque terá que pagar duas coisas: uma fatura pendente de um velho caso que tive e este novo trabalho. Poderia conseguir o telefone e os extratos bancários do Wayne. e não estou dizendo que o seja. Estão a sexta-feira.seu vestíbulo de nobre medieval e sua carreira de produtor. mas se tinha licenciado o verão passado e de repente conseguiu um bom trabalho e lhe entrou medo a que a detiveram. -Olhou-me alarmado-. -Está bem -disse ao fim-. quanto demoraria para obter a informação? -Se fosse possível consegui-la. três ou quatro dias. Suspirou. Meditou-o comprido e tendido. Deus sabe que o tinha procurado. Se tivesse o dinheiro. Crie realmente que Wayne não haverá tornado para então? -Não tenho nem idéia. a típica estudante de informática feliz de me ajudar em troca de dinheiro para taças. -Joder -balbuciou consternado-. dava pena ao lado do Docker. -Não pode entrar em seu ordenador? Esquivar a contra-senha? Sério. não conhece algum Hacker bem disposto? Conhecia uma. -Levei-me ao Jay ao salão-. E seguia nisso. mas se fosse possível. mas se o tivesse. -Tanto? -Jay contou os dias com os dedos-. -Toma-o ou deixa-o.

se o prefere. -Ou.dois meses fazia um sondagem no Technology College de CityWest. pode contratar a outro investigador -continuei-. a ver que encontro. duvido-o. Vou a casa do Wayne. ou pelo menos os nomes pelos que eu os conhecia) queriam trabalhar comigo. -Tem que te decidir já. Depois de uma larga pausa. Jay disse: -Poderia me plantar agora mesmo no Technology College e seguro que em cinco minutos encontro a um estudante de informática disposto a forçar a contrasenha do Wayne. -Bem -disse-. . seria um prazer não ter que me relacionar contigo. Jay Parker teria pago em troca de nada e isso só podia ser bom. mas lá você -disse-. mas até a data não tinha conseguido nada: os preparados não eram corruptibles e os corruptibles não eram preparados. Me traz sem cuidado. Boa sorte. De fato. mas teria muitas mais probabilidades uma vez que cobrassem. Olhou-me de marco em marco. E se não queriam? Nesse caso. É sexta-feira. Mas eu não sou uma mulher débil. Uma mulher mais fraco que eu certamente se teria tido piedade. Jay Parker -lhe açulei-. -Tendo em conta que as classes terminaram faz duas semanas. onde convidava a beber aos estudantes de informática e tentava avaliar seu nível de inteligência e corruptibilidad. Farei as transferências durante a próxima hora. devemos efetuar as transferências bancárias hoje ou nos cairá em cima o fim de semana e não poderemos fazer nada até na segunda-feira. Não. disse: -Crie que algum dia poderá superá-lo? Crie que algum dia poderá me perdoar? -Eu? -Campeã mundial do rancor e inventora da Lista do Palazos?-. Ainda não estava segura de que Tubarão e Homem do Telefone (os "nomes" de meus contatos secretos. Jay se encolheu como se lhe tivesse esbofeteado. -De acordo -aceitou quedamente-. Exasperado.

A mensagem de Glória era o penúltimo. é obvio. as belas cores da casa do Wayne. Depois chamava alguém que em seguida pendurava. Gangrena.e em meio de um leve ataque de pânico consultei o papelito com a chave e teclei o número. tendo em conta que não se levou o carro. que seu desaparecimento fora voluntário e não lhe tivesse recolhido um amigo. Imediatamente. Reproduzi as últimas mensagens e escutei o de Glorifica com soma atenção. Procedi a tomar o pulso ao lugar." . Continuando. Ao quinto tom saltou a rolha de voz. Era a última chamada que Wayne tinha recebido em seu telefone fixo. Quem era? Que boa notícia era essa? Tinha que encontrar a Glória. e uma paz momentânea me envolveu. me arrancando quase a cabeça. o alarme começou a uivar -tinha obrigado ao Jay a pô-la-a noite antes. deixa sua mensagem.19 O carro do Wayne seguia no mesmo sítio. que voltaram a me impactar com sua audácia. naturalmente. empregando a chave que Jay me tinha dado. porque se encontrava a Glória encontraria ao Wayne. Os uivos cessaram e saboreei o súbito e bendito silêncio. E. o velho truque do fio de cabelo na porta". Certamente Wayne não tinha voltado para casa mas pulsei três vezes o timbre se por acaso as moscas. O correio de hoje não continha nada interessante e não havia mensagens novas no telefone fixo. Era um número de móvel e pressentia que podia pertencer a um taxista. o saguão era sem dúvida Gangrena. "Sou Digby. A voz algo áspera de um homem maior. entrei. existiam muitas probabilidades de que se partiu em táxi -caso. Sabia que ninguém o tinha movido porque tinha colocado um papelito debaixo da roda traseira esquerda. Sabia.e hoje em dia os taxistas sempre chamam para avisar de que estão diante da casa porque são muito vagos para descer do carro e caminhar os dois metros até o timbre da porta para anunciar sua chegada. Tirei meu móvel e marquei o número. Com razão somos um país de gordos.

quando na quinta-feira pela manhã recolheu ao Wayne Diffney no Sandymount. O caso é que Wayne perdeu algo e acredita que poderia haver o deixado no assento traseiro de seu carro. Tem meu telefone. Algo nada fácil para a gente como eu. Ou a menos que Wayne lhe tivesse lubrificado bem para que não contasse a ninguém onde o tinha deixado. Perto do Mar. Se por acaso o perdeste. fazendo que todo mundo se sentisse especial e recebendo um salário decente-. Talvez chamava. isso normalmente lhe leva a acreditar que são amigos e que tem o dever de te ajudar. (A carta de uma admiradora dirigida ao "Adorável Wayne. não seria investigadora privada. que talvez sofria um princípio prematuro de Alzheimer-. naturalmente. mas o caso é que se eu tivesse realmente uma personalidade alegre e extrovertida. Irlanda". toda uma proeza até em meus melhores momentos. uma como Deus manda)-. Está junto à estrada da costa do Sandymount. -Obriguei-me a falar com um sorriso nos lábios. ou aprendia a rir como é devido ou deixava de fingir. Digby. Se chamas diretamente a um desconhecido atua como se já lhe conhecesse. no… -Qual era a maldita direção? Procurei a toda pressa a correspondência de hoje. Digby.-Digby. Dublín. e oferece uma recompensa. Essa não me servia. Estaria trabalhando de Relações Públicas. À maioria da gente adora a idéia de receber uma recompensa. é o… -Lhe recitei meu número de móvel. -Não o tinha. As permutações . mas o esforço valia a pena. Pequena. que não te permitirá te mudar a São Bartolomé… -Soltei uma de minhas gargalhadas de leão marinho e as costelas me vibraram. não te faça muitas ilusões. e agora já só ficava esperar. Ouça. A menos que Digby se cheirasse a torrada. Assim quando puder me chame. com saltos e sorriso Profident. mas se lhe dizia que o tinha pensaria que nos conhecíamos e que o tinha esquecido. No 4 do Mercy Close. sou Helen. estava-me prejudicando-. Encontrei outra carta. A menos que soubesse que no carro não havia nada e temesse que lhe acusassem de ficar coisas. Sério.

não me interessa a música. só uma hipótese. uma das paredes estava forrada por inteiro de CD. Muito concerto e muito ler The Word e muito falar de "violões discordantes" e "baixos substanciosos" e panaquices pelo estilo.pintado. E se não era assim. o tempo corria. era uma hipótese. Tivesse devido me pôr a tirá-los para ver se me davam uma pista sobre o Wayne. que bonita. Para te ser franco. e pode que não fora assim. Pus-se a andar pelo corredor. Jesus. (O que aborrecidas são as cadeiras Eames. Sempre desconfio das melómanas. os armários pintados de Sinistro e as paredes de Congelamento. Assim que pescam um. O homem tinha um gosto impecável. lhe tirar o penugem. mas tampouco era uma dessas estadias exageradamente masculinas. a cozinha. mas estava tentando "sentir" ao Wayne. Não a desprezaria chamando-a "acolhedora". Voltei a admirar a sala. não me acredito isso. este espaço perfeitamente estudado tinha um sofá fantástico. À direita da chaminé destacava um aparador embutido -muito bonito. mas tenho a sensação de que simplesmente fingem interesse para conseguir umnamorado. mais me valia averiguar onde estava. como está acostumado a ocorrer com os homens. de cantos retos e cadeiras Eames de couro marrom.) Não. E te direi algo mais. Não me interessam os CD. Impecável. mas não gostava.e uma janela alta com marco metálico -também tinha que ser a original. embora me teria jogado a vida.eram infinitas e todas se apoiavam no suposto de que Wayne tinha desaparecido voluntariamente. escorrem-se sob a cama para recuperar seu póster do Michael Bublé. . um trabalho de grande qualidade. Havia uma chaminé -tinha que ser a original. Entretanto. devolvê-lo a seu lugar na parede e lhe plantar um grande beijo.e persiana veneziana. Preciosa. Aborrece a mais não poder. do Má Circulação do Holy Basil. nem muito masculino nem muito feminino. no fundo acredito que a nenhuma mulher gosta da música. e duas poltronas com tapeçarias diferentes mas harmoniosas. que pouco imaginativas.

muito perigosa. Entrei de novo e dez segundos depois meu móvel apitou com um SMS que me informava que uma pessoa tinha entrado em casa do Wayne. Agora disponho desta pequena maravilha. instalei um dispositivo de rastreamento no flanco do carro do Wayne. era diminuto e se sustentava com um simples ímã. Virtualmente invisível. e subi a ela. e está uma muito mais segura saltando de aviões e conduzindo bólidos em estradas de curvas-. Arrastei uma pelo corredor. a casa é muito.em meu móvel e a partir daí poderia seguir cada movimento do Wayne através de minha tela.As cadeiras da cozinha eram da Ikea mas Wayne tinha sabido as escolher bem. confiando em que aparecesse. E se ativava com o movimento. Por um momento desejei com todas minhas forças cair ao chão e me golpear a cabeça e começar a sangrar e morrer antes de que alguém me sentisse falta de -depois de tudo. Saí à rua e. Quando digo minúscula quero dizer que não era maior que a cabeça de um alfinete. mas conhecendo minha sorte seguro que me rompia o tornozelo e passava quatro dias na sala de urgências suplicando calmantes e sendo ignorada em favor dos afortunados bodes que se pilharam a língua no gancho de sua panificadora e corriam o perigo de morrer sangrados. Tive um subidón de adrenalina. Porque quão abafadiço seria que Wayne retornasse e se as pirara em seu precioso Alfa negro enquanto eu achava a só uns metros dele? O rastreador. Estirei-me e peguei no teto uma câmara minúscula. até a porta de entrada. Uma maravilha! Desse modo. a maioria dos acidentes acontecem em casa. pareciam feitas para este Paraíso do Holy Basil. Como funcionava? Assim que o carro começasse a mover-se eu receberia um SMS -sim. nada mais cruzar a porta -não lhe o eu perca receberia um SMS em meu móvel! Houve um tempo -não muito longínquo. ao igual à câmara. se Wayne voltava para casa.em que em um caso de desaparecimento como este tinha que te passar vários dias metida no carro diante da casa do sujeito. . outro. digamos que para recolher uma muda. fingindo indiferença se por acaso havia alguém olhando.

E menos ganhos significava menos dinheiro para comprar tecnologia. já não me pude permitir isso Nnaquele tempo naquele tempo competia com dois grandes agencia com muita massa. constantemente apareciam novos inventos e no jogo da investigação privada tem que estar ao dia. Pelo menos dois anos e meio antes. fui a bem-estar social e me perguntei que desculpa utilizariam para me rejeitar. se não tivesse sido isso teriam saído com outra coisa: que levava o cabelo comprido. Mas não nos enganemos. A solução mais óbvia era vender o piso. A única maneira de conseguir uma ajuda social é não ter trabalhado nunca. como eu gostava. . a máquina de lavar roupa se rompeu e assim ficou. cancelei-o-. que de pequena pensava que todos os gatos eram meninas e todos o cães meninos e se casavam entre si. Mas esta vez deixei de ter ganhos virtualmente de um dia para outro. até que me lotearam isso e compreendi que me passaria o resto de minha vida em perda patrimonial. Mas faz dois anos aproximadamente. Mas eu seguia atirando. Embora levava tempo recortando gastos -tinha fechado o escritório e quando me tocou renovar o seguro do lar. nunca abandoná-lo. que nasci em terça-feira. quando estava muito mal para poder trabalhar. tinha recebido alguns euros de um par de agências que me tinham semicontratada. Assinaturas grandes. quando a recessão começou a fazer racho de verdade.até que caí na conta de que essa pessoa era eu e que cada vez que entrasse em casa do Wayne receberia essa mensagem. lenços e bases de maquiagem caras. tudo trocou radicalmente: renunciei a luxos como barbearia. o que a sua vez significava menos trabalho.a situação se fez insustentável. por isso perdi vários trabalhos. Como centenas de milhares de pessoas. Escolheram o fato de que era autônoma. seguia com a cabeça fora da água. Nem um céntimo. Não obstante. Tecnologia de vigilância. Claro que a recessão nos tinha salpicado a todos. Sofri uma infecção ocular e uma visita ao Waterbury ficava descartada. minha escova elétrica passou desta para a melhor e não pude substitui-lo. Meu conselho é que passe diretamente do colégio à parada e nunca. alegrou-me comprovar que o sistema funcionava. operadores autônomos… todos tiveram que reduzir suas tarifas. até que um ano atrás -e não sou a única investigadora privada a que lhe ocorreu. Não me entrava dinheiro algum.

Com o tempo as faturas deixaram de chegar e foram substituídas por envelopes amarelos de aspecto oficial. Fiz exatamente o que todo mundo aconselha que não faça. A situação econômica de Artie era provavelmente sólida. tinha que dispor de telefone -era minha corda de salvamento. em um arranque de valentia. Além disso.Comecei a priorizar os poucos ganhos que ganhava: tinha que pagar o imposto sobre a renda porque não queria acabar em chirona. meus pais. Ficar sem teto. mas se somava todas suas dívidas certamente devia mais que eu. Quando alcancei o limite tive que parar. era questão de tempo e a essas alturas devia uma soma aterradoramente exorbitante em meu cartão de crédito e nem sequer era capaz de satisfazer os pagamentos mínimos. Claire conseguia fazer malabarismos com o dinheiro. tinha que conservar o carro porque o necessitava para trabalhar. a ser possível. não pude . Um homem com óculos me disse -em um tom acusador. As únicas pessoas solventes que me ocorriam eram Margaret. estava sozinha nisto. Claire e Artie. se as coisas pioravam sempre poderia viver nele. Mas ao marido da Margaret acabavam de lhe despedir e a mamãe e papai lhes tinham reduzido a pensão e não andavam muito flutuantes. Estava tão assustada que decidi me abster de abrir as faturas. mas isso dava igual porque jamais pediria dinheiro a ele. havia tantas pessoas atrasadas no pagamento de suas hipotecas que o governo tinha concedido uma anistia temporária. utilizar o cartão de crédito para pagar a hipoteca. Presa do pânico. não corria um perigo iminente de acabar na rua.e. contudo. isto é. Embora não esperava muito. pedi hora com um desses assessores de dívida subvencionados pelo governo. Não. pensei em pedir um empréstimo a alguém. mais que a comida ou a Coca-cola light. abri um e descobri que foram levar me a julgamento como morosa. Como consolo. Ignorei os três primeiros até que.

que tinha sido uma inconsciente e que minha situação era nefasta. Enquanto isso. mas vale dois milhões de euros. -Isso digo eu. tinha tentado vender minha equipe de vigilância no EBay. Esse homem me odiava sem haver-me proposto isso sequer. E agora vá-se. Serviria isso? Lhe iluminou a cara. espantoso trabalho de levar meu lixo a casa de mamãe e papai. Enquanto saía refleti sobre a facilidade com que conseguia me fazer inimigos. Homem. -Jajá -disse em tom lento. em nenhum momento deixei de procurar trabalho e me saiu alguma que outra coisa. -Consegui me controlar as vontades de acrescentar em um tom carregado de desprezo: "Cretino". E uma casa no lago Como. Já não podia me permitir que me recolhessem o lixo e tinha que fazer o espantoso. mas todo mundo acabava fechando o negócio antes de poder me pagar. por favor. mas imediatamente recuperou a seriedade. O último mês o tinha dedicado exclusivamente a localizar às pessoas que me devia dinheiro. -Aconselho-lhe que escreva a seu credor e lhe proponha pagar sua dívida em pequenos prazos -disse o afetado-. segui batalhando. nada de insultos -repôs remilgadamente. Não obstante. -Ativos? -disse-. A situação seguiu piorando. mas o dinheiro que ofereciam era tão irrisório que decidi conservá-lo. De fato. tenho um iate.evitar sentir. Logo me perguntou se possuía "ativos" que pudesse vender. Cortaram-me a televisão digital e só ficou a infumable televisão terrestre. -O que? Diz-o pelo de cretina? "Cretina" não é um insulto. jajá. É pequeno. A data do julgamento chegou e não acudi porque pensava que não serviria de . Não acredita que se estivesse sentada em uma montanha de ativos provavelmente já me teria passado pela cabeça vendê-los? Tomou-me por uma cretina? -O rogo. segui seu conselho e a gente do cartão de crédito me respondeu que meus pequenos prazos não eram o bastante abundantes e que mantinham sua intenção de me levar a julgamento. "Cretina" é um término médico.

Decidi que podia viver sem ela. Não poderia ver DVD e. Dez dias atrás chegou a minha rolha a última reclamação de minha fatura elétrica: se não pagava em menos de uma semana me cortariam isso. os travesseiros e até os lençóis negros . tinha chegado a acreditar que teriam piedade e durante um tempo fariam a vista gorda. um deles me entregou uma folha. perguntando-se o que levar-se a seguir. tiraram uma caixa de ferramentas elétricas e desarmaram a cama da Mãe Superiora em um visto e não visto. Três homens fornidos aguardavam fora. valente até o final. e de repente sorriram: tinham reparado em minha cama. Sim. levaram-se os pés e o cabecero com as incrustações laqueadas.nada. nem água quente nem sucos mágicos atravessando a parede para reativar meu móvel. Decidiram que podia valer alguns euros. tentar lhes deter. Os homens olharam a seu redor. O sofá. vi como a tiravam. as poltronas e a televisão saíram pela porta a uma velocidade de vertigem. lhes cuspir. nem luz. Li-a: tinham falhado em minha ausência e vinham a levar-se objetos do valor de minha dívida com o cartão de crédito. convidei aos moços a passar e lhes ofereci minha máquina de lavar roupa avariada. o que é pior. Rejeitaram-na e tampouco mostraram especial entusiasmo pelos óleos eqüinos. Assim e tudo. não necessitava calefação nem luz e nunca cozinhava. Podia tomar banho com água fria e me arrumar isso sem geladeira. era verão. Com soma eficiência. Muda de humilhação. o colchão. E gostaram. gostaram muito. Poderia ter feito o que faz muita gente: lhes atacar. A gente da companhia elétrica cumpriu sua palavra: aos sete dias cortaram o fornecimento. Ao dia seguinte despertaram uns golpes na porta. Era tudo inteiramente legal. Mas não. pareciam ligeiramente flipados com o apartamento. levei-me um forte impacto. disse-me que já me arrumaria isso. Como não me teria servido de nada resistir. Mesmo assim. portanto. o edredom. Mas os empurrões e murros não teriam trocado as coisas. De fato. teria que ir a outras casas para carregar o móvel.

Depois passei ao outra poltrona e também eu gostei muito. tendo perdido minha casa tão só o dia antes. Devia ir com cuidado. e no silêncio deixado por sua partida compreendi que me achava em um piso sem luz. perguntei a um dos homens: -Que tal dorme? Olhou aos olhos e disse: -Bastante mal. em procurar trabalho. 1) Encontrar a Glória. agora que tinha comigo a chave do Wayne e a chave de seu alarme. Logo me sentei em uma das poltronas e também desfrutei da experiência. 5) Ir ao Clonakilty para falar com a família do Wayne. 3) Falar com o Birdie. a verdade. E nesse momento decidi me render. o qual podia ser um perigo porque. sem cadeiras. o taxista potencial. Contendo as lágrimas. atirar a toalha. sem seguro e sem cama. Tinha investido tanta energia em conter o desastre. 2) Medir aos vizinhos. em tentar ser otimista. Nem sequer me incomodei em chamar aos da hipoteca para lhes dizer que me tinha ido -não demorariam para averiguá-loe contratei discretamente a dois homens e uma caminhonete para que embalassem o que ficava de minha vida e o levassem a um depósito. Então caí na conta de que me estava apegando ao lugar. sem sofá. . Tinha uma lista de coisas que fazer. que não ficavam forças para seguir lutando. Bem. estava convalescente.que tanto me havia custado conseguir. de não me descobrir me instalando em sua casa sem me dar conta. 4) Encontrar ao Digby. sentei-me no sofá do Wayne e desfrutei da experiência. sem recolhimento de lixo. Mas ainda não. Para afugentar tão lúgubres pensamentos. Foram-se com o mesmo aparato com que tinham chegado. como quer chamá-lo. Não até que deixasse de me parecer um passo óbvio.

Ou sim? Me tinha passado algo por alto no veloz exame de suas finanças? Tinha que voltar para seu escritório para jogar outra olhada. quanto mais tempo mantinha retido a alguém. teriam seqüestrado ao Wayne na quarta-feira mesmo. Em voz alta perguntei: -Onde está. devolver o dinheiro… Seria um autêntico caos. como não. pois as razões pelas que uma pessoa desaparece revistam ser dois: dinheiro e sexo. . Sempre existia. onde estava? Passeando-se pela Connemara em uma autocaravana e fotografando tojos? Ou lhe tinham seqüestrado? Não tinha considerado seriamente essa possibilidade porque Jay e outros Laddz estavam convencidos de que se tratava de um manha de criança. Se alguém tivesse querido realmente sabotar o concerto.ou aos promotores. Pode que neste preciso instante Wayne se achasse embutido em um traje branco mal entalhado e encadeado a um confidente rosa em uma masmorra com tapetes e almofadões. acredito que os chamam. caí na conta de que existiam outras razões pelas que poderia ter sido seqüestrado. decidi me deitar no chão da sala de estar. mais probabilidades tinha que lhe pilhassem. outra!". E se o resgate não era a causa. Alguém que a tivesse jurada ao Jay -seguro que centenares de pessoas. em lugar de sair disparada pela porta com minha lista de deveres. e contemplar o teto (pintado. a probabilidade do louco. cantando os êxitos de Laddz uma e outra vez enquanto seu raptor misterioso (suspeito que uma mulher) gritava: "Outra. Talvez alguém desejasse sabotar a volta do Laddz. Wayne? Isso. lutar com a imprensa.Entretanto. osadamente. Desse modo não haveria tempo de encontrá-lo. sobre um belo tapete. Mas seria absurdo raptar ao Wayne a tantos dias do primeiro concerto. mas de repente me assaltou a imagem do Wayne metido em um zulo com as pernas e os braços amarrados com cabo elétrico.tivesse cansado em uma devoção tipo Misery e se apropriou do Wayne. Mas quem quereria lhe seqüestrar? E por que motivo? Não podia dizer-se que lhe sobrasse o dinheiro. de Aborrecimento). Pode que um admirador obsessivo -"chupaventanas".

mas se realmente tivesse estado morto de preocupação. Não obstante (por razões muito complexas que não vêm ao caso). que era uma boa pessoa.Ou acaso todo este assunto era uma artimanha orquestrada pelo Jay para disparar a venda de entradas? (Que tal se estavam vendendo?. Era como um tio adorável . Teria que averiguá-lo. mas precisava fazer ver que estava tomando medidas. Basicamente. mas desejava lhe ajudar. e se Jay Maldito Parker me estava manipulando de igual modo. Anos atrás me contrataram para obter provas fotográficas de uma mulher infiel.) Era possível que Jay estivesse marcando um dobro farol? Acaso ele mesmo tinha feito "desaparecer" temporalmente ao Wayne e logo me tinha contratado para "lhe encontrar"? Contratado porque me tinha por uma inútil? Existia a possibilidade de que sua obsessão por manter a imprensa a raia fora pura comédia? De que em um par de dias os detalhes sobre o "desaparecimento do Wayne" se filtrassem à imprensa e a demanda de entradas para ver se Wayne aparecia ou não no concerto se disparasse? Não tinha mais que recordar quão resistente Jay se mostrou ontem à noite quando quis instalar os monitores na casa e o carro do Wayne. Ainda hoje me arde recordá-lo. sem ir mais longe. Suponho que pensava que parecia boa pessoa. posto que não nos conhecíamos. agora devia pensar no Wayne. o… Da ira passei à desolação. Tinha algo que me recordava ao dono do botequim que Bronagh e eu freqüentávamos quando estivemos de férias no Santorini. Se não soubesse o bode que tinha sido. deu-me o trabalho porque pensava que eu era muito inepta para tirá-lo adiante. poderia pensar. perguntei-me. mas agora não podia pensar nisso. Não sabia por que. Olhe ao Stalin. a pessoa que me contratou não queria provas. com seu bigode e seus olhos marrons de urso. não teria querido que o fizesse imediatamente? O motivo de meu suspicacia era que já me tinham tendido uma armadilha dessa natureza em outra ocasião. O qual é uma forma um pouco absurda de julgar a alguém. Encontraria a forma de lhe castigar. Certo que era tarde e parecia caldo e não tivesse passado nada por esperar umas horas.

Preciso falar contigo. em que pese a tudo. Possuía informação que eu seria incapaz de obter por outros meios-. o mesmo caso para o que me tinham contratado por minha inépcia). não pode esbanjá-los em coisas inúteis. Nunca atendia pessoalmente suas chamadas. passou muito tempo. em certo modo. Poderia estar tão equivocada com o Wayne como com o Stalin. mas estava muito bem relacionado. Harry. Os favores são como o dinheiro. decidi que Wayne o merecia. mas agora que sabia o dos telefones cravados. que é: "Déspota paranóico responsável pela morte de vinte milhões de pessoas". Só um par de perguntas. Tanto Harry como eu saímos maltratados do lamentável assunto. Harry se negava a fazer negócios por telefone. estava em dívida comigo. Sempre os tinha odiado. -Poderia lhe haver dado uma resposta ocorrente. Marquei o número do Harry e ao sexto tom alguém disse: -Sim? -Harry? -perguntei surpreendida. Eu dispunha de um contato no mundo criminal. Tínhamo-nos conhecido anos atrás. Tem que estar muito segura de que deseja o que vais obter. E detrás meditá-lo atentamente. . mas resistia a lhe chamar. compreendia sua postura. -Já sabe que não deve utilizar meu nome por telefone -replicou secamente. Harry sempre me tinha parecido um tipo algo ridículo. Antes pensava que eram manias de homem duro. decidi que merecia a pena explorar a possibilidade de que Wayne não tivesse desaparecido voluntariamente. -Esqueci-o. mas essa não era a razão de que odiasse aos cães. quando seu ajudante me contratou para trabalhar em um caso (curiosamente. de que tivesse entrado em contato com tipos de má índole. assim. mas não era boa idéia lhe encher o saco.e muitas vezes nos convidava a beber. Harry Gilliam. Um cão me mordeu o traseiro. em lugar de retroceder e pensar o que deveria estar pensando. em meu caso literalmente. por isso o trauma durou pouco. cada vez que vejo uma foto do Stalin me comovo e penso: "Ouzo grátis!".

Tão atrativo. Observei-lhe atentamente. mas tanto dá. Por desgraça. ver a televisão do Wayne me fazia sentir como se estivesse abusando. Estava começando a aceitar o fato que Wayne poderia não retornar nunca. A maioria de polis lhe dirão que se não encontrar a uma pessoa desaparecida nas primeiras quarenta e oito horas. Como é lógico. Estava calculando mentalmente quanto tempo me levaria falar com os vizinhos do Wayne. A fim de afugentar esse deprimente pensamento pus a televisão. depois de pendurar me vim abaixo. e pode que Wayne simplesmente estivesse escondido em algum lugar. -Posso ir agora? -perguntei. Receberá uma chamada. etcétera. Optei por ir ver o Harry. embora não sabiam nada remotamente útil.-Posso ir verte? -perguntei. Ou te encontrava com autômatos de rosto inexpressivo que "não queriam meter-se em problemas" e lhe fechavam a porta nos narizes ou. Que demônios lhe passava? Acaso não queria que encontrasse ao Wayne? Apaguei a televisão -em certo modo. Custava acreditar que fora irlandês. Quem aparecia na tela? Nada menos que Docker! Uma crônica no Sky News de Bônus e ele e outros dois benfeitores famosos entregando uma carta no número 10 do Downing Street em nome de um país oprimido. de que poderia estar morto. ficavam a tagarelar e conjeturar como periquitos ("Crie que poderia ser membro do-Qaeda? Porque alguém tem que sê-lo"). etcétera. Melhor pássaro em mão. tão radiante. referem-se a pessoas que não desapareceram que forma voluntária. Eu te indicarei quando. o mais seguro é que a haja palmado. pior ainda. Impossível sabê-lo. . a qual descansava nas elegantes prateleiras ensambladas no oco da chaminé.e John Joseph respondeu ao terceiro tom. tão bem feito. -Não. 20 Sabe o que? Ainda não tinha tido notícias de John Joseph e já era quase meiodia. Uma inesperada casualidade fez que me incorporasse no sofá. falar com os vizinhos -qualquer vizinhoera pelo general um peñazo. voltava-lhes loucos a idéia de participar de um caso e.

No Swords. Poderia agarrar o carro e ir e acossá-la na comodidade de seu próprio lar. Nossa relação nunca foi estreita. exatamente? Ignorava-o. Suspeitava que estava… o que. E se não o fazia? Bom. por aí vem meu queijo cottage. As engrenagens de meu cérebro não estavam girando à velocidade devida. carinho. C) Não me chame carinho. Ah. Helen. Melhor deixar acontecer um tempo. eu nem sequer a conhecia mas já tinha encontrado uma direção. e D) Não me chame carinho. carinho. Estava claro que John Joseph não queria que falasse com o Birdie Salaman. sinto muito. OH. Sinto muito. Só sabia que não devia remarcar-lhe ainda não. Eu estava vivendo no Cairo quase todo o tempo que Wayne esteve saindo com ela. vou comer. -Tem idéia de onde trabalha? -Não. -Sei. -Sabe onde vive? -Ao norte. seja a hora que seja… Pendurei pensando: A) Não me chame carinho. . -Não o tenho. Em realidade só coincidi com ela um par de vezes. B) Não tome por imbecil. vamos. Ver se Birdie ficava em contato comigo. sabia onde vivia. Portmarnock. um desses lugares. -É uma lástima -disse sem me alterar. Agora tenho que te deixar. -John Joseph? Birdie Salaman? Tinha que me enviar seu número de telefone. o sinto. o qual era uma pena porque até esse momento me tinha cansado bem. algo que possa fazer por ti. -Como ganha a vida? -Nem idéia.-Olá. Não obstante.

-Claro. -Isso me dizia. O fato de havê-lo perdido… Deveríamos falar disso. você adorava. Como ocorreu? -Ontem à noite. depois de que Artie me devolvesse o escalpelo e eu tomasse a decisão de fazê-lo meu. Sabia que Artie não estaria de acordo com a mudança de tema. muitas situações estranhas.Durante minha conversação de tudo imprestável com o John Joseph me tinha perdido uma chamada de Artie. tenho muito que fazer. De fato. Contemplei o telefone enquanto refletia sobre quão imprevisível era a vida: Artie Devlin era meunamorado. Não queria que nos passasse sequer pela cabeça. É genial. tinha visto quão difíceis tinham sido as coisas para mim. -Está bem. conheci o Jay Parker naquela festa a que nenhum dos dois tivesse devido acudir. Pode acreditar que tenho um caso? -disse animadamente. Havia muitos mudanças em marcha. um destes dias -me apressei a responder. Falamos mais Isto tarde. O caso de um desaparecimento. e foi tal a impressão que me produziu que me esqueci por completo de Artie. -Soltou uma risita e pendurou. carinho? -por que o diz? -Tinha reparado no estranha que me estava voltando? -Pelo piso. Era-o desde fazia -como bem tinha famoso Belaquase seis meses. Sob nenhum conceito desejava uma conversação que pudesse tirar reluzir a opção de que me fora a viver com o Artie. recebe uma cordial saudação. assim que lhe telefonei. e queria me aferrar às coisas boas sem correr o risco das romper-. -… E você meu mais sincero afeto. Que estranho que nossos caminhos houvessem tornado a cruzar-se. Inclusive depois de romper com o Jay segui sem pensar nele. . Devo te deixar. recebi uma chamada. -Sou eu -disse. mas se sentiria como um mal educado se não celebrava comigo que me tivesse saído um trabalho. -Em certo modo foi assim como começou-. quando me parti de sua casa.

adoro-as. mas quanto mais cutres eram as feiras benéficas mais encanto lhes via. comprei uma réstia de números. Fora. Sou eu ou é certo que o estalo das agulhas está entre os sons mais sinistros que existem? E as estranhas coisas que surgem delas. mas dada sua incapacidade para me proporcionar uma resposta satisfatória. tudo por uma boa causa-. vinte Marlboro Lights. as põe alguém? O temor que me inspirava a mulher me induziu a fingir que examinava sua coleção de artigos com pinta de picar muito. Uma calcinha muito Mona tecida à mão. no estacionamento da igreja. Adoro as feiras benéficas. Os poucos homens sãs do comitê paroquial os envolviam com tecido metálico e os transladavam aos porta-malas.Então. Às pessoas lhe surpreende que a uma pessoa avinagrada como eu goste de semelhante desdobramento de aficionados -as toscas bolachas e os mitones de lã áspera que uma vez examinados de perto resulta que só entram na mão esquerda-. as árvores natalinas se vendiam como rosquinhas. cortada como estava. -O que é isto? -perguntei com desconcerto sobre algo que parecia um colarinho peludo. como um oligarca russo. Dentro do vestíbulo o ambiente era ligeiramente festivo. No posto das geléias e os chutneys interroguei à mulher sobre a diferença entre ambas as coisas. -Uma calcinha -disse zangada-. parti-me -para seu grande alívio. mas juro que podia notar como a pele me punha de galinha. Além disso. prova-lhe isso manterá-te o pescoço calentito. possuíam o atrativo adicional de que tudo custava tão pouco que podia me permitir comprar o que quisesse.sem comprar nada. duas semanas antes de Natal se montou uma feira benéfica no vestíbulo da paróquia de meu bairro. o que me fazia sentir rica e arrogante. A mulher a cargo do posto de ponto estava tricotando. um cilindro de zelo. Não obstante -tudo por uma boa causa. -Um pasamontañas para minha sobrinha neta -disse tecendo a toda velocidade com petulante orgulho. Por Deus que eram irrisórios: uma garrafa de refresco de cevada. . Comprei um bizcochito de chocolate caseiro e me detive inspecionar os prêmios da tômbola. Soava música natalina e eu me passeava pelos postos.

que saia The Rapture e o diga) sem que os caçadores-recolectores das cavernas . O que me recorda outro artigo de minha Lista do Palazos: a gente que treme exageradamente e diz "AAAJJJJJ" ante a idéia de que outro ser humano tenha podido tocar algo. dirigi a meu posto favorito: as bagatelas. A maioria dos clientes se desviam bruscamente ao chegar a ele. -Leão pouco -disse. Que eles eram mais exigentes com a limpeza que você? Que você foi mais suja que eles? O caso é que a raça humana sobreviveu muito tempo (muito tempo em minha opinião. Me havendo deixado o melhor para o final. Cinqüenta por cinco euros. -Eu também. -Acredito que acaba de saltar um ponto no pasamontañas de sua sobrinha neta -disse. -Cinco por um euro -me ladrou a puestera-. um posto abarrotado de livros de bolso amarelados. Doze por dois euros. É uma autêntica humilhação que te toque vigiar esse montão de sucata. o medo patológico aos gérmenes. Pode te levar a mesa inteira por dez. uma autêntica Siberia.e não estava segura do que a gente tentava demonstrar com ela. mora-se um inverno cru. uma mão de morteiro sem morteiro. Era uma afetação importada recentemente dos Estados Unidos -extremamente irritante. pratos lascados. Os gérmenes. Não só é impossível orgulhar-se da mercadoria mas sim é um posto solitário. um patim solitário. Tradicionalmente é um posto cheio de autênticas porcarias: velhos adornos quebrados. Não há dúvida de que a mulher do comitê paroquial que acaba recebendo este posto cometeu alguma falta imperdoável durante o ano.Tinha que me largar dali sem demora. Vinte por três euros. mas poderia utilizá-los para acender a chaminé. e aproveitei o pânico que seguiu para me transladar a seguinte mesa.

você os agarrou primeiro. como se tivessem pertencido a uma menina do século XVIII que tinha morrido de febres palúdicas (talvez a tivesse salvado um tubito de desinfetante com aroma de granada). Apressei-me a devolvê-lo a seu lugar. Joguei-me sobre eles -já eram meus. Havia algo triste e horripilante neles. Uma escova de prata com um espelho a jogo. Provavelmente era a máxima ação que tinha presenciado em toda a manhã. -Não! -exclamou a puestera. Não sei se posso pagá-los. alguém me adiantou. (É já uma lei? Se não o for. Nem sequer devemos expressar nossos desejos ou necessidades em sua presença. . para minha surpresa. não tão pequena. muito estupefata para ceder. Terá que lhes dar tudo o que pedem. Serviria de algo mencionar que eu não acreditava na justiça? Estava disposta a lutar por eles.levassem tubitos de desinfetante com aroma de granada debaixo do tanga.quando. Uma menina pequena. Fica os por favor. -Não é meu -repôs a menina-. Já verá. gostou do que viu-. logo o será. Você! -Assinalou-me com um dedo acusador-. -Queria-os eu -disse. Pincei entre as bagatelas e tubo um breve momento de emoção quando vi um jogo de saleiro e pimentero. que poderia ser uma possibilidade. Até que o levantei e vi quão horrendo era. Alguém de mão miúda e unhas pintadas de rosa chiclete. A esperança apareceu e morreu um instante depois nos olhos da puestera com suéter e jaqueta de ponto. No meio do mar de cacarecos vislumbrei improvisadamente algo que possivelmente não fora uma completa porcaria. Sei que neste estranho mundo no que vivemos os meninos são os reis. -A menina olhou aos olhos e. e ficariam muito bem em meu dormitório algo triste e horripilante. Não devemos lhes negar nada. com forma de camelos. de uns nove anos. Agarrou a escova e o espelho e os apertou contra seu peito rosa. -OH. Pequena. Eu o vi. Estava claro que me tinha pego mania por lhe haver criado falsas esperazas com os camelos-. ao parecer. bom. Devolve à menina o que é dele. -Tendeu-me a escova e o espelho e (sim!) agarreis.) -Pertencem-lhe por justiça -interveio a puestera.

muito obrigado. por baixo que fora. Não imagina as forças escuras que são capazes de desatar. -Helen Walsh. -A mulher abrangeu com um gesto amargo da mão sua lastimosa mercadoria-. seguro que pode pagá-los. -Não é incrível? -exclamou a puestera-. -Acredito-te. lhe criticar o bolo a alguém é quase tão terrível como lhe dizer que seu bebê tem cara de assassino em série. -Vá.Me acredite céu. nota-se que tem bom coração. A pequena me olhou com olhos limpos. Paguei a seus puestera cinco euros e esta me premiou com um cenho amargo como o limão. O que quer dizer? -De onde saíram? -De uma caixa de cartão junto com estas outras intrigas. A puestera estaria disposta a vender-lhe a qualquer preço. -Procedência? -perguntou a puestera-. com tal de que não me ficasse eu. -Estou comprando presentes de Natal a minha família. A pequena tinha tirado um moedeiro rosa. uma forma de combate particularmente selvagem. . Perguntei-me o que tinha feito para merecer este a não ser. É evidente que você também. Justamente o que custam a escova e o espelho! -Qual é sua procedência? -perguntou a pequena como se estivéssemos no Sotheby'S. -Bela Devlin. Como quer que saiba? Eu queria estar no posto de ponto. -Dará a esta escova e este espelho um bom lar? -Sim. Posso me gastar cinco euros em cada um. Não elogiar o suficiente o sándwich Vitória feito pela presidenta do comitê? Guerras de bolos. pensei. -Tendeu-me uma manita educada e soltei minhas bagatelas para poder estreitar-lhe -Ya nos conocemos -dijimos al mismo tiempo.

-Quantos anos tem. E ele tem -assinalou ao Artie com a cabeçaquarenta e um. -Papai -disse Bela. -Está bem -disse-. embora deva te advertir que vivo em um piso. Está casada. Você tem trinta e três. O Homem Escalpelo. estão dentro da mesma franja de idade. Ah! -Divisou a alguém por cima de meu ombro e seu rosto se iluminou-. por aí vem papai. -Temas de trabalho -respondi. OH. -Já nos conhecemos -dissemos ao mesmo tempo. Helen? Tem marido. Levantei a vista para olhar ao Artie. impaciente por lhe dar a boa notícia-. Dava-me a volta e ali estava. Vamos a minha casa. ou pode que quinze. então? -Pelo visto Bela pensava que ela e eu tínhamos aproximadamente a mesma idade. mas agora vejo que não era uma boa idéia. tentando levar a Deixa em paz a Helen. -Sério? Do que? -Bela não podia acreditá-lo. Artie Devlin. Finalmente seu rosto se iluminou e disse toda animada: -O que te parece se formos a sua casa e vemos como ficam a escova e o espelho? -Já vale. Não me dava conta de que… -Se retirou a uma pequena curva de sua mente e quando retornou se adaptou à nova situação-. o policial que estava para molhar pão. filhos e todas essas coisas? -Não. Pensava dar de presente-lhe a meu irmão. Estava comprando uma árvore de Natal. -Trinta e três. Na cabeça de Bela pareceram ter lugar outras elucubraciones. Meu deus. Bela -se apressou a repreendê-la Artie. Artie baixou a vista para me olhar a mim. -Seriamente? Acreditava que tinha quatorze. apresento a minha nova amiga. Helen Walsh. . É perfeito.-Me alegro de que lhe você fique -disse Bela-.

Depois de percorrer as habitações -o que não lhe levou muito tempo. o que podia dizer? Tinha saído de casa para comprar alguma que outra bagatela e voltava com uma família inteira. Se me parava a pensá-lo. Queria te falar dele. Preocupa-lhe que nós. -É-o? -Bom. Por isso não temnamoradas.-Quando? -Artie parecia surpreso-. Mamãe estaria muito interessada em sua decoração. Incluso posso lhes oferecer bolacha. É incrível o muito que vai a este piso. Você é muito mais sutil. Sentou-me diante do espelho de meu penteadeira e procedeu a me pentear. . -A ruptura com mamãe foi amistosa. um tio genial. Agora lhe pentearemos com sua escova nova. acrescentou-: Mamãe é interiorista. E não temnamorada. Convidarei-lhes a um copo da Coca-cola light do tempo. estava jogando toda precaução pela amurada-. Oficialmente. verdade. -Né… -Caray. papai? -E voltando-se para mim. O que? Agora? -Estraguem.declarou: -Parece que se morreu alguém aqui. seus filhos. Parecem feitos o um para o outro. Sempre estamos juntos. a situação era um pouco estranha. mas no bom sentido. acreditam um vínculo emocional com suasnamoradas e que logo a relação se acabe. Trabalha muito. -Bela suspirou e de repente falou como uma adulta-. É perfeito. Mamãe temnamorado. E intuo que você e eu temos muitas coisas em comum. Não é a situação ideal. Bela insistiu em ir em meu carro. A Bela voltou louca meu piso. seria um excelentenamorado para ti se estivesse interessada. se isso for o que se preocupa -continuou Bela-. Aqui é Halloween todo o ano! Não estou insinuando que seja gótica. de modo que não me parei a pensá-lo. Disse que não cabia no de Artie porque a árvore ocupava muito espaço. -Mas foi um truque -confessou assim que partimos-. Mas é muito simpático. mas terá que aceitar as coisas como vêm.

azuis. Mas o peso do casaco do Artie o derrubou. -Logo. -Tenho um perchero -anunciei com orgulho-. um objeto escuro e pesado. desejei tanto a um homem. tem que me levar a casa de mamãe! Hoje é sua festa de Natal. Circular. Helen. Pássaro. -Bela me disse que tinha que voltar -declarou quando lhe abri a porta e entrou arrastando o frio inverno com ele-. -Enquanto Artie teclava em seu móvel. Bela me agarrou do braço e. elevando a voz-: Adeus. Um. Helen. Sei que voltaremos a nos ver. Tenho previsto que fique um momento.Artie estava apoiado na parede do dormitório. bom. De repente. baixando a voz. Bela exclamou: -Que horas são? -Tirou sua pequeno móvel rosa de seu bolsito rosa e disse-: Papai. Como. Eu servirei os tuiles de époisse caseiros! Intercambiemos nossos números. Fez-o em trinta e um. e lhe ajudei a tirar-lhe Era a primeira vez que lhe tocava. -Me permita te tirar o casaco -lhe disse-. Artie me disse: -São uns vinte minutos até casa de sua mãe. a sua família. O tinha comprado a um defunto do Glasthule. Sacudiu-se o casaco. O martírio durou um bom momento. ardendo de desejo. foi um prazer te conhecer. olhando meu reflexo em silencio com seus olhos azuis. Livre. Prorrompemos em uma risada histérica e me dava conta de que ele estava tão nervoso como eu. Tenho que reconhecer que é uma experiência nova que minha filha de nove anos me faça de fanfarrão. Timidamente. O que significava que estaria de volta em quarenta. vimo-lo cair ao chão. Os percheros me pareciam artigos muito civilizados. Nunca. Com cara de pasmarotes. Bela me acariciava o cabelo e Artie e eu nos sustentávamos o olhar através do espelho. . disse-: Este fim de semana a meus irmãos e nos toca estar com minha mãe. nem antes nem depois. na venda de uma herança. Papai estará livre como um pássaro. Você nos diz o teus e nós lhe enviamos o nosso.

enquanto fora o céu invernal. Não estou simplesmente te dando conversação -acrescentei-. -O que pensa de meu piso? -perguntei-lhe-. esgotados. Resposta correta. que belo era. face ao violenta que é esta situação. Deus. Não suportava mais tanta espera. -Tranqüilo -disse-. Muito rápido. Ao pouco momento o fizemos de novo. Já estava bem de paquera ou de aquecimento ou como quer chamá-lo. Fazia muito tempo. -É muito pequena -disse-. descendi sobre ele mas em questão de segundos o tinha arqueando o quadril para cima e contraindo o rosto. se quer -disse. Artie já estava tirando-a camisa. a cozinha e o dormitório. e finalmente disse: -Imagino que não é do gosto de todo o mundo. tomando nota de todos os detalhes. Grande. carregado de neve contida. Ficamos ofegando em silêncio. Mas -acrescentou com um brilho nos olhos que produziu uma descarga de sensações em minhas partestampouco o é você.-O que te parece -propôs Artie. -Preocupa-me minha cama -disse. forte. estava vez como é devido. Roupas fora. Também para mim. sexy. -Pode deixar o casaco no sofá. Tendi-o sobre minha cama. Outra descarga de sensações em minhas partes. o nosso não podia sair bem.se decidirmos não interpretá-lo como um mau presságio? -Certo. -Sinto-o -disse me atraindo para si e escondendo a cara em meu pescoço-. . Artie se passeou em silencio pela sala de estar. -OH. Porque se não gostava de meu piso. -Artie arqueou uma sobrancelha. E se não caber? -Né… -Somente há uma maneira de averiguá-lo.

Queria revisar mais atentamente o dinheiro . Ou muito algo. a filha de quinze. Sou consciente de que sua situação não é a mais idônea. Sei que tem que pensar em seus filhos. Se pensássemos em todas as coisas que poderiam ir mal na vida. De fato. De modo que o tema da esposa ficou resolvido. Obriguei-me a me levantar e subi a seu escritório. E lhe caio bem a sua filha. Não penso ter esta conversação. -Eu também posso impor se me proponho isso. Tudo iria bem. -Não sei o que sou. -deteve-se-. E temos que viver a vida e aceitar os riscos que suporta. A filha de nove anos era uma aliada sólida como uma rocha e seguro que ao filho de treze anos também lhe cairia bem. -E meu ex esposa é… uma mulher que impõe. Sei que não temos garantia de nada. mas seguia tendida no chão da sala de estar do Wayne. -Por Deus! -exclamei indignada-. -O que? -Agora vem a parte em que diz: "O que passará agora?". Não sei o que passará agora. Não sou adivinha. seguro. 21 Ignorava por que. -O bem-estar de meus filhos é muito importante para mim. -O que passará agora? -Não -repliquei-.obscurecia. disse: -Adiante. -Sei. Me está subestimando. -Eu não gostaria de te pôr em uma situação… incômoda. E muito. Quão única poderia dar problemas era Iona. não sairíamos de casa. -É muito sábia. Nem você nem eu sabemos. Finalmente. não sairíamos do útero de nossa mãe. mas eu gosto.

Reconheço que estava abordando o caso não de uma forma sistemática. adverti que o total não coincidia com a quantidade que tinha declarado a Fazenda. mas aí estavam outra vez… cinco mil dólares. quando somei os ganhos do último exercício.do Wayne: possíveis gastos fora do normal mas. das gravações de Laddz. tratava-se de pagamentos esporádicos e variados que podia cotejar com faturas do Wayne. . interessante. em seguida pensei que Wayne estava enganando a Fazenda. possíveis ganhos fora do normal. declarações da renda e faturas. setembro e março. e pode que mais. Não se indicava de quem ou de onde provinha esse dinheiro. Duas vezes ao ano lhe caía outro turno de direitos por seus álbuns em solitário. não? Desci da prateleira alguns arquivos que continham extratos bancários. Tudo estava claro e em ordem e as quantidades eram modestas. Também havia pagamentos procedentes do Hartley Inc. Se estava interessada nele significava que era. E outro no ano anterior. mas seguia constituindo uma boa soma.. A diferença dos ganhos por direitos ou os pagamentos do Hartley Inc. sobre tudo. Pode acreditá-lo? Ainda! depois de tantos anos! cada vez menos. Wayne não ganhava muito. só mostrava como referência uma réstia de números. Havia coisas fáceis de rastrear: direitos duas vezes ao ano. um depósito de cinco mil dólares que se traduzia aproximadamente em cinco mil euros. a não ser intuitiva. Chegados a este ponto tive que baixar outro arquivo. muito menos dinheiro que os de Laddz. E por que era uma cifra redonda? E em dólares? Retrocedi dois anos e ali. Todos os maios durante dez anos. mas os extratos bancários do Wayne se detinham aí. De fato. Quão mesmo eu em um bom ano. por definição. tinha inchado seus ganhos em uns cinco mil euros. Retornei aos extratos de sua conta de economias e aí estava. em maio do ano passado. Mas não. Repassei minhas somas e detrás obter a mesma cifra. Que estranho. e não precisava ser um gênio para deduzir que era a companhia de John Joseph.. Entretanto. uns céntimos em realidade. topei com um ingresso de cinco mil dólares. de novo em maio.

tinha escrito "Lotus Flower" à mão junto ao número de um dos extratos. mas alguém -um contável?. as palavras não eram "Lotus Flower" a não ser "Dutch Whirl". você tem acesso direto aos arquivos do Dutch Whirl? Estava imitando o falar claro e monótono de Agnes Ou'Brien. um auditor fiscal?. -E me diga. e uma rápida busca no Google me desvelou que existia um selo discográfico com esse nome e que dito selo pertencia ao Sony. mas me mandaram de um departamento a outro. Assim chamei o Sony e me fiz passar por uma funcionária oficiosa chamada Agnes Ou'Brien do Departamento de Fazenda que estava realizando um controle das declarações do Wayne Diffney. senhorita. -Maybelle -disse-. desorientada. Com renovado ímpeto. e observei que embora uma pessoa diligente tinha escrito à mão uma explicação junto aos depósitos de cinco mil dólares desses anos. agarrei de novo o telefone e chamei o Maybelle. O que deveria fazer agora? Folheei distraídamente os extratos bancários mais antigos.desde o Dublín até Reino Unido e volta ao Dublín. era um selo. pelas seções menos glamurosas da companhia -como contas por pagar e demais. Pelo general. Além disso. Mas quebrou faz anos. Diz-lhe algo o nome do Dutch Whirl? -Sim. . e demorei um momento em compreender que a gente não estava sendo deliberadamente incompetente. eu gostava de seu nome. se dizia que foi de Fazenda a gente endireitava as costas e colaborava. Sou outra vez Agnes Ou'Brien do Departamento de Fazenda irlandês. de Londres. porque me tinha parecido a menos lelé de todas as pessoas com as que tinha falado.Quem o fazia esses ganhos? Nos extratos só aparecia um número de referência. mas sim estava desconcertada porque o número de referência não coincidia com nenhum dos que apareciam nos arquivos do Lotus Flower. Ao momento me dava por vencida e me sentei no chão do escritório do Wayne.

Deme o número de referência. Eu me tinha informado e não me tinha informado. E além disso. -Ceeero. aqui há algo muito estranho. em um momento . em troca. Faça suas indagações e me chame quando tiver algo. you blow me away. Maybelle. Windmill Girl! O que? Windmill Girl? A canção que tinha feito ao Docker mundialmente famoso? Windmill Girl. O que quero dizer é que me inteirei mas não lhe dava importância. Docker tinha composto a maior parte mas. tinham passado algo por alto. isto é. ceeero. Não podiam sê-lo. que fazia Wayne Diffney recebendo direitos por uma canção do Docker? -Aqui há algo estranho -reconheceu Maybelle sem deixar de teclar. -ficou a teclar entre murmúrios e decidi que soava fabulosa. Wayne e Docker tinham estado acontecendo o momento rasgueando o violão e compondo uma canção. em março e setembro. Eu. eu procurei "Windmill Girl Wayne Diffney" no Google e. Com a emoção quase esqueci adotar a voz monótona de Agnes Ou'Brien. -Não são direitos -disse. Pelo Windmill Girl". que Wayne tinha escrito o estribilho do Windmill Girl". vestia sapatos Ecco e uma blusa de lã folgada azul marinho.-Mmm… vejamos. -Efetivamente. Nueeeve. apareceram milhares de resenhas de imprensa correspondentes a dez anos atrás.) -Aqui está -disse-. Pelo visto. como se levasse sombra de olhos aguamarina ao afro e um desenho incrível nas unhas. pois intuía que Agnes Ou'Brien era uma pessoa muito metódica-. Enquanto ela desempoeirava arquivos. As somas dos direitos variavam segundo as vendas. Os ganhos por direitos se realizavam duas vezes ao ano. não sei se me explico. Ao as olhar reparei em algo interessante: devido ao alvoroço gerado pelo fato de que a um irlandês (Docker) o fora bem nos Estados Unidos e a conseguinte ruptura de Laddz. -São direitos -declarou Maybelle quando ao fim calei-. (Em minha rica imaginação sobre o Agnes Ou'Brien. para minha surpresa (categoria: agradável). -Articulava cada palavra com supremo cuidado. ceeero.

por que se não ia pagar regalias por uma canção da que possuía todos os direitos? Soou-me o móvel. O normal teria sido que ambos gozassem dos direitos pela canção. daí que o pagamento se fizesse através da companhia em lugar de fazê-lo diretamente Docker. mas isso me dava igual. "Windmill Girl" foi o primeiro degrau para o Docker e seu êxito internacional. Imagino que ao lado de uma estrela tão célebre como Docker. Tempo depois. O fundo da questão era que. Dissessem o que dissessem do Windmill Girl" -e a gente dizia de tudo. era irresistivelmente pegajosa. um comentarista declarou que era "tão alegre para te provocar arcadas"-. A recordarei em minhas preces. Não precisava entender os mesentérios legais porque já tinha o que queria. enquanto que o pobre Wayne seguiu compondo incontáveis canções mas nada do mesmo nível. mas Wayne cedeu sua parte ao Docker como presente de aniversário. que os cinco mil dólares anuais provinham diretamente do Docker. do ponto de vista kármico. Tentou me explicar um cilindro técnico de que Dutch Whirl era uma filial do Sony que tinha sido retroarrendada ao Docker. renunciou a seus direitos sobre ela. . E mais curioso resultava que ninguém dissesse: "Caray. senhorita -disse em minha última atuação como Agnes Ou'Brien-. Wayne Diffney é um compositor brilhante". E sabia.de inspiração. Mas o curioso era que Wayne não denunciou ao Docker nem lhe exigiu reconhecimento econômico ou artístico. Porque o era. Era Maybelle me confirmando o que eu já tinha deduzido. Wayne simplesmente ficou reduzido a um zero à esquerda. Docker estava em dívida com o Wayne. O resto da história já a conhece. -Obrigado. Wayne contribuiu o estribilho. Docker grava "Windmill Girl" como cantor em solitário e a canção triunfa em todo mundo. Sou muito devota do Pai Pio. E não há nada que Wayne possa fazer a respeito.

Mas. já sabe. Wayne poderia encontrar-se nestes momentos em qualquer lugar do planeta. -Olá -provei. mais devagar esta vez. Docker em pessoa? Duvidava-o. Em lugar disso me saiu a voz profunda e mal-humorada de um homem e. por um assunto de certa urgência. Manhattan. como o homem. A cidade que nunca dorme. Levantei-me de um salto. Responderam ao segundo tom. em plano "Docker Enterprises. acabo de tomar uma manga insuperável e um chá de hortelã gelado. falava outro idioma. Nada. Docker tinha dinheiro e contatos e acesso a aviões privados. Apressei-me a pendurar e pulsei de novo o número. Saiu-me de novo o homem mal-humorado. Entretanto. Esta conexão com o Docker abria todo um mundo de possibilidades.Estava tremendo de entusiasmo. o prefixo do Beverley Hills e Malibú. a qual sim tinha a entonação jovial que acabam adotando todas as recepcionistas do mundo. A quem de Manhattan tinha estado chamando Wayne? Só havia uma forma de averiguá-lo… No Dublín eram as duas da tarde. portanto. Adoro meu trabalho. Mas havia várias chamadas ao prefixo 212. Magnífico. o mais surpreendente de tudo. tinha tantas probabilidades de consegui-lo como de ter um bate-papo com Deus. Era evidente que tinha marcado mau. Da fatura Telefónica do Wayne escolhi outro número de Manhattan e esta vez me saiu uma garota. . fala-lhe April. as nove da manhã em Nova Iorque. falando em outro idioma. Seguro que já estavam trabalhando. dava com o arquivo pertinente e me pus imediatamente a repassar as chamadas realizadas pelo Wayne. uma coisa gutural e aguda. Preparei-me para uma recepcionista alegre e cantarina. Talvez me ajudassem os registros das chamadas do Wayne. ou seja. ou seja. procurando concretamente o 310. Algo não encaixava aqui. Poderia ter tirado o Wayne do país sem passaporte. precisava falar com o Docker. as condições climáticas em Nova Iorque são ótimas e estou desejando lhe acontecer a chamada".

algo no que teria reparado se não tivesse estado tão emocionada pela idéia de falar com o Docker. Imagino que não sabe nada dele. Com quem deseja falar? -Onde está? -perguntei. apareceu? -Não. Mudança e curta. chamei. -Obrigado. -Demorou menos de um segundo em saltar ao inglês-. E um rápido repasse a outros números internacionais indicou que tinha falado muito com o Cairo e Beirut. Chamo-lhe pelo do Wayne. -Com quem deseja falar? -repetiu Yasmin. -Refiro-me em que cidade. Funky Kismet Group. -Stamboul. Unicamente tinha estado fazendo chamadas de trabalho a Turquia. Ou seja que Wayne não tinha estado chamando o Docker. Em realidade já sabia. O único número dos Estados Unidos ao que Wayne tinha estado chamando com regularidade correspondia ao estado de Nova Iorque. -Em minha mesa. Mierda. e se minha cabeça tivesse estado funcionando como é devido. verdade? O que é? Uma companhia discográfica? -Sim. Para me assegurar. Me há dito que se chamam Funky Kismet. -Meu nome é Helen Walsh. -É o mesmo que Estambul? -Sim. provavelmente o teria recordado. tinham um prefixo de país diferente. Estambul! Claro! Tinha o mesmo prefixo que Manhattan. -Richard Diffney? -Sim. Naturalmente. Meu nome é Yasmin. -Não importa -respondi-. e apostava o que fora a que pertencia a seu irmão Richard. Respondeu uma voz masculina. . Isto… inshallah.-Boa tarde. -Está bem? -perguntou imediatamente-. ainda não.

é importante. Sabe um pouco do Wayne? -Preciso falar com ele. -Mas… -Sei que o tem escondido. -A que se dedica? -Sou chef. por favor. -Não deveria estar trabalhando? -Me ocorreu de repente. lhe avise. Considero que tenho bom olho para reconhecer a um mentiroso. Não tenho nem idéia de onde está. Respondeu em seguida uma mulher de voz doce. Sou… -Sei. -Lhe ocorre onde poderia estar? -Não. existia a possibilidade de que Wayne estivesse com eles. mas inclusive através da voz posso captar as lacunas. John Joseph me falou que você. o sinto. Por muito "óbvio" que parecesse. -O recitei e pendurei. Nem sequer ouvi o Wayne mencionar a uma Glória. decidi telefonar aos pais do Wayne. Pensava que a tinham contratado para dar com ele. importaria-lhe me dar um toque? Darei-lhe meu número. -Preciso me pôr em contato com Glória. era difícil sabê-lo. -Por telefone. mas se trata de algo muito importante. -Sim… -Meu nome é Helen Walsh. Resulta-me mais fácil se o tiver diante. Levada por um impulso.-Não. as . -Não o tenho escondido… -Parecia pasmada-. se tiver notícias do Wayne. -Glória? -Soava certamente desconcertado-. -É você a senhora Diffney? -perguntei. mas sua voz soava sincera. -Hoje me toca o segundo turno. certamente. Não sei quem é. Reprimi um suspiro: tinha merecido a pena tentá-lo. -Sério? Menos mal que o é você e não eu. Ouça.

vale? -E pendurou. Pode que ele e Wayne se comunicassem por correio eletrônico. -Ainda é logo. -De acordo. -Entendo. Mas não me sentia o suficientemente segura para esbanjar nenhuma de minhas três apreciadas oportunidades. Contemplei o ordenador inerte do Wayne. Não se preocupe. A senhora Diffney soava tão sincera como compridos são os dias (e nesse momento eram muito compridos). -Do que quer falar com ele? -Ah. tem o telefone do Docker? -Sabia que não o tinha. -Sabe você algo? Tem idéia de onde pode estar? Estamos… preocupados. senhora Diffney. mas queria lhe humilhar. quase literalmente. inclusive? Todas tinham seis caracteres. É um truque que utilizo para desconcertar às pessoas e conseguir assim que me conte coisas que não quer contar. Aos poucos segundos. -Ouça. Mas se averiguar algo dele. senhora Diffney. Afogou o que soava como um soluço. fique em contato comigo imediatamente. Obrigado por me atender. de nada. Fiz uma chamada rápida ao Jay Parker. Não ficava outra que seguir esperando e tentar me colocar na cabeça do Wayne. Qual poderia ser a ditosa contra-senha? Glória? Docker? Ou Birdie. Bom… -Adeus. -Docker? A superestrella internacional? Esse Docker? -O mesmo. Agora estava convencida de que a família do Wayne realmente não sabia onde se encontrava ele e não podia me sacudir a sensação de que Docker tinha algo que ver com tudo isto. -Ehhh… Em seguida te chamo. tinha que entrar nele como fora. as pausas diminutas que indicam que alguém está tentando me dar gato por lebre. Procedi a devolver os arquivos à prateleira absorta em meus pensamentos. chamou-me. Pode que com o tempo me ocorresse algo. .omissões.

-Que rápido -disse-. -Há mau cilindro entre eles? -Não. Frankie era tan útil como una tetera de chocolate. Você não é meu amigo. acrescentei-: Não queria dizer isso. -Ouça -me advertiu-. o que vai. Frankie era tão útil como uma bule de chocolate. a pesar do relativo êxito de John Joseph. Simplesmente perderam o contato faz anos. meu amigo. -Ouça. foi um lapsus. -por que não? -Porque não o tem. Está um pouco chateado por isso e não quero que se encha o saco. -Está muito equivocado. Chama a todos seus conhecidos e não me telefone até que tenha conseguido algo. bastante difíceis estão já as coisas. -Poderia provar… -Ao Roger? -Eu não me incomodaria. correr-se farras no Yates e visitar desconcertados minifundistas da Ghana. Helen. acreditava que deveriam ser colegas. não te ocorra lhe pedir ao John Joseph o número do Docker. -Já tenho feito os pagamentos -me informou-. Entretanto. John Joseph acreditava que estava ao mesmo nível que Docker. -Incômoda. . -Serviria de algo perguntar-lhe ao Frankie? -Estava brincando. Sabia que não o tinha. Às pessoas dos telefones e a dos bancos. Só queria lhe chatear. Não reconheceria ao Wayne Diffney embora o pusessem diante. -Docker? Está louca? Vive em um universo totalmente diferente do nosso. não precisa ficar… -Necessitamos um contato para o Docker -insisti-. me Envia isso -¿Serviría de algo preguntárselo a Frankie? -Estaba bromeando. Docker nem sequer sabia de sua existência. Para que o quer? -Acredito que Docker poderia estar ajudando ao Wayne. mas John Joseph crie… Entendido.

o taxista potencial -a última pessoa que tinha telefonado ao Wayne ao fixo. 22 E agora o que? Eram as três menos dez. repito-lhe isso. Já tem meu número. Para me assegurar de que não mentia joguei uma rápida olhada a meus correios. Tinha-me parecido. Seja como for. este era seu caso. outra pessoa que não me havia devolvido a chamada. -Digby. pendurei e me concentrei no Birdie Salaman. O número de telefone do Docker poderia ser a menor das surpresas. nos dê um toque. Essa gente era desumana na hora de não deixar pedra sem remover. Digby. ou doente. me trazia sem cuidado. -Obriguei-me a soltar alguma gargalhada mais. mas se por acaso as moscas. decidi lhe chamar e esta vez tive a brilhante ideia de fazê-lo do telefone fixo do Wayne. Assim que a busquei no Google. ambas as fontes confirmavam que tinham recebido o dinheiro e posto mãos à obra. por isso me apressei a reunir toda minha energia para deixar uma mensagem simpática. que era um tipo preparado e enfastiado. sou Helen.não me havia devolvido a chamada para obter sua "recompensa" e tinha o pressentimento de que não ia fazê-lo. Não pode tomar as coisas como algo pessoal. Mas voltou a saltar a rolha de voz. De fato. Ou seja as coisas que encontraria na informação que me enviassem. mas me dava pau fazer toda a viagem até o Skerries e não encontrá-la em casa. Neste trabalho não convém ser suscetível. a amiga do Wayne. Efetivamente. senti um formigamento de emoção na barriga. mas segui passando páginas . Talvez era uma das poucas pessoas que ainda tinham emprego neste país. pela voz. Pode que Birdie estivesse de férias. O melhor seria ir vê-la. embora tinha a sensação de que me estava evitando.Esperava que lhe agradecesse? Ao fim e ao cabo. jajajaja. A verdade é que me aliviava saber que já não estava em sua lista negra. talvez pensava que era Wayne quem lhe chamava e respondia. Seu nome produziu páginas e páginas de entradas relacionadas com santuários de pássaros e salamandras. Ouça.

Pode que tenha saído a comprar batatas fritas. antes de subir ao carro para ir lhe dar a lata telefonei para me assegurar de que estava ali. Segundo o artigo. obrigado. Birdie era chefa de vendas de uma empresa chamada Brown Bags Please com sede no Irishtown. aí estava! Enterrada sob centenas de artigos havia uma menção de uma linha sobre uma Birdie Salaman em uma pequena e conhecida publicação periódica chamada Paper Bags Today. Chamarei mais tarde. a mulher retornou para mim. Pelo visto tinha declarado: "O imposto sobre as bolsas de plástico teve um impacto muito positivo em nossa indústria". Omitiu a última sílaba. um bairro que ficava convenientemente perto. Iria ali em pessoa. . -Não a encontro. como se lhe incomodasse ter que dizê-la. mas sei que anda por aqui. Li a frase com interesse e não pouco prazer. -Não.até que. -Posso falar com o Birdie? -Do que? -De bolsas de papel. -E nem se incomodou em vocalizar o "Please". simplesmente disse: -Brown Bags Please. entretanto. Tinha que ser ela. Em realidade. Respondeu uma mulher e não me soltou o típico cilindro recepcionista. -A passo. de repente. Difícil para quem fabrica bolsas de plástico. Pode acreditar que as bolsas de papel constituam um setor em expansão? Uma história alentadora nestes tempos de recessão. esteve falando antes delas. não chamaria. Depois de vários murmúrios e cliques. Deseja deixar uma mensagem? Teria que procurar uma caneta. o que me fez pensar que BBP era um negócio pequeno.

Estava subindo ao carro quando me soou o móvel. Harry, o criminoso. Ou, mais concretamente, um de seus "sócios". -Harry tem livres os próximos vinte minutos. Vinte minutos! -Caray, não poderia convertê-lo em meia hora? Com o tráfico das sextasfeiras e… -Vinte minutos. Esta noite tem uma briga de galos benéfica… -Já, e tem que bronzear-se com o atomizador, sei. -Ouça, cuidadito… -Em seu escritório de sempre? -Sim. Harry tinha seu centro de operações no Corky's, uma sala de bilhares deixada da mão de Deus, próxima à rua Gardiner. Embora não tivesse tendências suicidas, cinco segundos baixo esses tóxicos fluorescentes laranjas lhe tirariam as vontades de viver. Como de costume, Harry estava ao fundo, cabisbaixo, com os ombros cansados e os cotovelos sobre a mesa de formica. Um homem de aspecto tão corrente -miúdo e anódino, com um hirsuto bigode de cor avermelhada fazendo equilíbrios sobre o lábio superior- que me custava acreditar que pudesse ser tão transgressor. Saudamo-nos com um gesto de cabeça e me deslizei no banco de em frente procurando um lugar que não tivesse toda a espuma arranco. face aos anos transcorridos, a mordida no traseiro ainda pode me dar guerra se escolher um mau ângulo. -Gosta de beber algo, Helen? Não era um convite a animar o ambiente. Harry sempre bebia leite. E dada minha tendência a levar a contrária, eu sempre pedia algo que sabia que ao garçom do Corky's não lhe soava o mais mínimo: um Gafanhoto, um Sambuca, um B52. -Obrigado, Harry, tomarei um Chave de fenda. Fez sinais ao garçom e a artigo seguido me cravou seu olhar engañosamente afável.

-O que posso fazer por ti? -Estou procurando a alguém. Wayne Diffney. Sua cara se manteve imperturbável. -Não tocava com o Laddz? O grupo pop? Era o do cabelo? Depois dos olhos do Harry se acendeu uma lucecita. -Sim, o do cabelo, agora caio. Pobre infeliz. Alguém depositou algo na mesa, diante de mim, com um ruído metálico. Não me atrevi a baixar a vista, temendo que fora um instrumento de tortura, mas quando ao fim olhei vi que era um chave de fenda. Um chave de fenda de verdade. -Bebe -disse Harry com o olhar faiscante. -Genial, obrigado, saúde. -Tinha-me fartado desse jogo. A próxima vez pediria uma Coca-cola light. Percebia no Harry algo diferente… As outras vezes que tinha trabalhado com jamais lhe tinha tido medo. Basicamente porque nunca tinha medo de nada. Não acreditava no medo, acreditava que era um pouco inventado pelos homens para fazer-se com todo o dinheiro e com os trabalhos bons. Mas Harry parecia trocado, mais duro. Possivelmente porque sua esposa lhe tinha deixado e se largou a Marbella com um homem mais jovem para abrir um bar temático dedicado a U2. Ou ao melhor não era Harry o que tinha trocado, a não ser eu. -O que acontece Wayne, o do cabelo? -insistiu-me. -desapareceu. Provavelmente ontem pela manhã. Perguntava-me se você ou seus… colegas sabiam algo. Este é o aspecto que tem atualmente. -Deslizei pela mesa o retrato do Wayne calvo que tinha manipulado com o Photoshop. Harry o observou com atenção, mas fui incapaz de adivinhar se tinha visto ultimamente ao Wayne. -No que andava metido? -perguntou. -Em nada, que eu tenha averiguado. Mas nunca se sabe.

-Perguntarei por aí. Mas o jogo trocou. Muito tio que trabalha por sua conta. Estrangeiros. Sabia do que falava. Ex-soviéticos, ex-militares. Tereis que se colocaram no campo da investigação privada e eram uns completos inúteis, pior ainda que os expolis, que já quer dizer. Esses guris passavam uma noite em um calabouço moscovita por bêbados e de repente se acreditavam Vin Diesel, o mais duro entre os duros. Viviam em um mundo de fantasia e pertenciam a essa classe de imbecis que apareciam em sua foto do Facebook blandiendo uma pistola de brinquedo ao lado de um helicóptero pésimamente photoshopeado. -Interessa-me uma mulher chamada Glorifica -disse. -Glória o que? -Só conheço seu nome de pilha, mas pressinto que se a encontro a ela encontrarei ao Wayne. -Quem te meteu nisto? -Jay Parker, o agente de Laddz. -Repete. -Jay Parker. Harry martilleó o copo de leite de uma maneira que me fez soltar: -O que sabe de Jay Parker? -Eu, Helen? por que deveria saber algo? -repôs com calma-. Deixa o assunto em minhas mãos. Tenho seu número. -Obrigado. -Estaremos em pazes, então? Não terei que voltar a verte? -Não sei, Harry. Talvez algum dia necessite minha ajuda. Olhou-me fríamente. -Né… -balbuciei-. Ou talvez não. 23 -Devo ver ao Birdie Salaman.

A mulher sentada atrás do mostrador de recepção do Brown Bags Please era tal como a tinha imaginado: uma Mãe Descontente que amaldiçoava a cada segundo que tinha que passar aí. Entendia-a. Eu seria igual. -Seu nome é…? -Helen Walsh. -Tem entrevista? -Sim. -Então, passe. -Assinalou uma porta. Alegrou-me muito saber que Birdie seguia aqui. Tinha atravessado a cidade a toda pastilha, fazendo Corky's-Irishtown em um tempo ilegal, mas ao ser as quatro da tarde de uma sexta-feira temi que já se largou de fim de semana. Bati na porta e entrei. Birdie Salaman era muito bonita, mais ainda em pessoa. Levava o cabelo recolhido em um coque sobre a nuca e ia vestida com uma saia de tubo e uma blusa de chiffon amarelo limão preciosa. Por debaixo da mesa vi que se tirou os sapatos: de toupeiras negras e amarelos e talão aberto. -Senhorita Salaman, sou Helen Walsh. -Tendi-lhe meu cartão-. Investigador privado. Posso falar com você de bolsas de papel? -Certamente. -Estupendo! -de repente caí na conta de que não chegaria a nenhum lado com esse enfoque-. O sinto -disse torpemente-. Queria dizer, posso falar com você do Wayne Diffney? Suas facções se endureceram. -Quem lhe deixou entrar? -A recepcionista. -Não penso falar do Wayne com você. -por que não? -Porque. Não. Rogo-lhe que parta.

-Necessito sua ajuda. -Guardei silêncio. Não deveria lhe desvelar informação confidencial, mas do que outra forma ia conseguir que me falasse?-. Wayne desapareceu. -Traz-me sem cuidado. -por que? Wayne é um bom homem. -Bem, se não parte você, partirei-me eu. -Estava medindo o chão em busca de seus sapatos. -Por favor, me conte o que aconteceu. Você e Wayne pareciam tão felizes. -O que? Como sabe? -Vi uma foto. Os duas de cachemira, tão Abercrombie and Fitch. -esteve olhando fotos privadas? -Em casa do Wayne. -Falava depressa. Tinha-me passado da raia-. Não estou lhes espiando! -Bom, sim, mas não de mau cilindro. Birdie já estava na porta, com a mão no pomo. -Tem meu número de telefone -disse-. me Chame se acreditar que… Atravessou de novo o pequeno escritório, rompeu meu cartão em quatro partes e a atirou ao cesto de papéis. Feito isto, retornou à porta. Tinha que ir a por todas, embora era arriscado, poderia me dar um guantazo. -Birdie, onde posso encontrar a Glória, a amiga do Wayne? Nem sequer se incomodou em responder. Cruzou a recepção a grandes pernadas e quase arranca as dobradiças da porta da rua. movia-se muito depressa face aos taconazos. -Aonde vai? -perguntou-lhe a Mãe Descontente. -À rua. -Me traga um Cornetto! 24 Miúdo êxito. Desmoralizada, saí e me apoiei em meu carro para esperar a que me passasse a vergonha e a sensação de fracasso.

Ao momento tirei o móvel. Se não me aguardava já um SMS ou um correio ou uma chamada perdida, cedo ou tarde chegaria algo. Se esperava o tempo suficiente, meu móvel sempre acabava me proporcionando consolo. Morreria sem ele. Não tinha nada me aguardando, assim chamei o Artie, mas saiu diretamente a rolha. Desesperada-se, necessitada de uma voz amiga, chamei mamãe. Respondeu-me carinhosamente, o que queria dizer que não tinha encontrado as fotos de Artie em couros. -Claire não tornou, mas Margaret e eu estamos desembalando-o todo -me explicou-. Te estamos deixando um quarto precioso. Como vai o misterioso trabalho com o Jay Parker? -Né… bem. Ouça, só por acaso, sabe um pouco do Docker? -Do Docker? -Parecia encantada-. O mar de coisas. O que quer saber? -O que seja. Onde vive? -Docker é o que se chama um cidadão do mundo -respondeu mamãe agarrando carreirinha-. Tem casas por todo o planeta. Um piso de setecentos metros quadrados em uma velha fábrica de botões do Williamsburg, um lugar espantoso, People lhe dedicou um artigo, teve que fazer ver que lhe parecia precioso, mas mãe do amor formoso, era… qual é essa palavra que utiliza você? Repugnante, isso era. Com as paredes de tijolo visto, como um centro de refugiados, e um chão de tablones para o arrasto e sem habitações, não sei se me entende, só telas que dividem os "espaços", e é tão grande que para ir do "espaço" de dormir até o "espaço" de assear-se necessita um patim. Lhe poriam os cabelos de ponta se o visse. Uma cisterna com cadeia! Só de me pensá-lo entram vontades de me lavar as mãos. Caberia esperar que com tudo esse dinheiro… -Suspirou fundo-. E em Nova Iorque tem alugada permanentemente uma habitação no hotel Chelsea de Manhattan, e lhe sairiam piolhos só de olhar as fotos. Pode te acreditar que comecei a me arranhar só de mencioná-la? Tem algo que Docker chama "barraco" na ladeira dos Cairngorms. De uma habitação, sem eletricidade nem água corrente. Diz que vai ali para "esvaziar a cabeça".

-E todo isso o tiraste que as revistas? -As leão com avidez e tenho memória fotográfica. -Isso não é certo. Depois de uma breve pausa, disse: -Certo, não a tenho. Não sei por que o hei dito. Seria genial. Sigo ou não? Tem um barraco de chapa de duas habitações no Soweto, seu lugar favorito, diz, e eu digo que um corno. Logo está sua residência em Los Anjos de quarenta e nove habitações com mercado próprio e tudo se por acaso lhe entram vontades de sair a comprar uma maçã irregular… Meu deus, Wayne poderia estar escondido em qualquer desses lugares. Não tinha a mais mínima possibilidade de lhe encontrar. -… e sua casa no condado de Leitrim. -Um momento! Tem uma casa no condado de Leitrim? -Pois claro! -Parecia lhe surpreender que não soubesse-. junto ao Lough Conn. Comprou-a faz seis ou sete anos, embora não esteve alguma vez. Incrível, verdade? Um tipo ostentoso. Alguns de nós, e estou falando com alguém que sabe disto, não temos nem um teto sobre nossa cabeça enquanto que Docker tem tantos que nem sequer esteve debaixo de todos eles -terminou com amargura. -Pensava que te caía bem -repus depressa e correndo. Precisava pendurar e entrar no cadastro já. -E eu, mas agora já não estou tão segura. -Ouça, mamãe, obrigado por tudo. Agora devo te deixar. Com dedos trementes, entrei no cadastro e, efetivamente, sete anos atrás uma empresa constituída no estado de Califórnia tinha comprado uma casa em um terreno de um acre junto a um lago. Docker era seu único diretor. Fiquei olhando a tela enquanto tentava assimilar a informação. O condado de Leitrim era um lugar estranho para que uma superestrella internacional tivesse uma casa. Ou não? Difícil sabê-lo, porque embora não se achava muito

longe do Dublín -pode que a um par de horas em carro- eu não tinha estado nunca ali, nem tinha conhecido a ninguém dali. Pode que ninguém fora dali, pode que estivesse desabitado. Como Marte. Lagos. Isso era quanto sabia de Leitrim, que tinha muitos lagos. Estava infestado, conforme diziam. Quão seguinte devia fazer era procurar a casa do Docker no Google Earth, mas sou reacia a utilizar Google Earth porque ainda me ponho tinta da vergonha. Quando Google Earth apareceu pela primeira vez pensava que era em direto. Pensava que podia te colocar em qualquer propriedade do mundo e ver o que estava ocorrendo em tempo real. Pensava que podia ver às pessoas entrando e saindo e os carros chegando e indo-se. Não sabia que se tratava de uma foto. E a coisa não teria passado daí se não tivesse compartilhado meu engano com uma clienta. -Certamente! -disse toda segura de mim mesma-. Só deme as coordenadas da casa de Escócia e imediatamente poderemos ver em meu portátil se o carro de seu marido está ali. Pode que até lhe vejamos sair discretamente do nidito de amor que tem com suanamorada, canalha infiel. -Está segura? -Meu clienta não parecia muito convencida. -É obvio -respondi aproximando a à tela-. Olhe -Essa disse é a casa e esse é o… por que não se move nada? -perguntei-me enquanto pulsava as teclas de esquerda, direita e centro-. Acredito que a tela se congelou. Espere, reiniciarei o ordenador, só serão uns segundos… Quão único posso dizer é: "Graças a Deus que meu clienta era mulher". me Chame sexista, mas o certo é que as mulheres são muito mais pormenorizadas que os homens no que se refere a meteduras de pata tecnológicas. Presa do mesmo abafado que havia sentido então, encontrei uma foto da casa do Docker. Um telhado impreciso rodeado muito verde salvo por um lado com muito negro que supus era o lago. Passado o perímetro da cerca havia mais verde. Uma casa remota em uma zona remota de um condado remoto. Seguro que Wayne estava escondido ali. Com Glória. Seguro.

e aí que se foram. 25 O tráfico não estava muito mal para ser sexta-feira pela tarde. Decidiram ir no carro de Glória porque… bom. Exato! Glória tinha uma roda cravada! E pensaram que não podiam ir. havia sentido a necessidade de desaparecer uns dias. Pode que simplesmente morrera de vontades por ver uma das casas do Docker. Não convinha as confundir. quem lhe disse: "Sempre estarei em dívida contigo pelo estribilho do Windmill Girl". Era sextafeira pela tarde. Mordisquei-me a mão e tomei uma decisão dificilísima: obrigaria-me a esperar. respondi-me. Pelo menos um par de horas. Quão único tinha que fazer era subir ao carro e me apresentar ali. Pode que Wayne tivesse fagotes de açúcar e não confiasse em suas mãos para conduzir. Pelo caminho me chamou Claire e pus o alto-falante.De repente o vi tudo claro. . tinha sentido. Wayne. suponho. A intuição me estava dizendo que Wayne se achava em casa do Docker. incapaz de suportar a privação de carboidratos e o abafado de ter que cantar as velhas canções de Laddz. já quase tinha chegado-: iria e falaria com os vizinhos do Wayne. Mas então reparou a roda e telefonou ao Wayne e lhe disse: "Boas notícias!". Já lhes detestava por sua inutilidade. naturalmente que pode te alojar em minha casa do recôndito lago Leitrim e te levar a sua encantadora Glória contigo". Agora mesmo estavam no Leitrim. Iria agora mesmo! Um momento… Estavam realmente ali? Merecia a pena conduzir até o Leitrim por uma simples intuição? Sim. de maneira que tinha enviado um correio a seu velho amigo Docker. o tráfico que saía do Dublín estaria parado. Então algo lhes fez tornar-se atrás. De todos os modos. Contudo… existia uma diferença entre a intuição e… e… como o chamaria? A loucura. porque sim. Iria e faria o que deveria ter feito faz horas -depois de tudo.

É um autêntico monstro. . Eram muitas as pessoas que lhe tinham medo. Quando a gente a conhecia. -O que ocorre? -Saltei-me um semáforo em vermelho. mas a ódio. mas outras tantas faziam o possível por cair em graça.-O que acontece? -perguntei-lhe. não são meus chefes. por impressioná-la. -por que? -Porque gostava. dava-te conta de que não sabiam o que pensar. -O que tem feito agora? -Mordeu-me a perna. -Claire. por exemplo. Por exemplo. -Está bem. Margaret. Bronagh ia desafiantemente plaina. -Pendurou bruscamente e me deixou pensando no Bronagh. Que se jodan. -É Kate. joder. de fundo. O que esperam? Joder. É uma jodida zorra. Pior que você a sua idade. -Não penso parar! Tenho PRESSA. não me surpreende que caíssem tão bem. Quando estava com ela se atordoava e se comportava como uma menina. joder. Quase tudo o que fazia constituía um desafio. -Suspirou-. como boa irlandesa era paticorta. porque Bronagh não se esforçava por agradar. Sei que as mães não devem dizer essas coisas de seus filhos. Mierda! -Podia ouvir o uivo de uma sereia e. mas a diferença de outras mulheres paticortas que se passavam a vida tentando ocultar esse defeito cambaleando-se sobre saltos de dez centímetros. com a pressa que levo e agora a jodida poli me segue com a sereia! -Será melhor que pares. para o carro. -Sério? -perguntei com empatia. um barulho irreconhecível. Na antiga a Grécia ou na antiga Roma ou em um desses lugares se teriam liberado guerras unicamente para que algum idiota pudesse deslumbrá-la. -Tão malote como Bronagh! Joder. As pessoas mais inesperadas a adoravam.

enquanto que ao Kate parecia a bomba. Conheço seu jogo. Em troca. Sempre tentando escandalizar às pessoas e lhe ver a cara iluminada como o Empire State Building simplesmente porque chama "dona" ao sacerdote.-É tão graciosa. Necessitava a uma pessoa que estivesse sempre em casa e fora uma entremetida. -Bronagh não tem medo a nada. Bronagh é dura como uma pedra. mas você é um pouco… como o chamaria? um pouco fraco. estacionei frente à porta do Wayne e contemplei as doze casas que flanqueavam a rua sem saída. Que mania com a velhice ativa! Longe ficavam aqueles dias em que no instante em que uma pessoa cumpria os sessenta ficava em casa afligida de artrite reumatoide e a televisão não começava até as seis da tarde. mas o deixava difícil. Ao Bronagh. em troca. traria-lhe sem cuidado. Ao Claire tampouco gostava. Era meu sacerdote e estava me visitando em minha casa. Kate me esquadrinhou com seus olhos perfilados do Kohl através de uma nuvem de fumaça de cigarro (então tinha treze anos). Chapou. Se alguém podia meter-se com ele. Retornei ao Mercy Close em vinte minutos. Por qual deveria começar? A eleição mais óbvia seria uma das casas contigüas a do Wayne -mais probabilidades de que tivessem ouvido ou visto algo-. Mamãe. Não ficava outra que sentar-se em uma espantosa poltrona marrom frente à janela aparecendo seu nariz metomentodo . te importa o que pense de ti. se o prefere. Impossível de rebater. não queria nem vê-la. -Contigo tive mais que suficiente -me dizia-. -Vê-o? -repôs suave como uma serpente. -Eu tampouco -repliquei. em troca. -Pode. O que em realidade precisava era uma pessoa maior das de antes. retirando um fio de tabaco da língua e examinando-a um instante antes de desprezá-la-. Senti-me insultada e assim o fiz saber. -Débil! -Branda. essa era eu. mas as coisas não sempre funcionavam assim.

Tinha que encontrá-lo. magra e briosa. os majores eram um poço inesgotável para a gente que procurava informação. E estavam encantados de que alguém -quem fora. Ninguém se merecia algo assim. uivando "Milhares and Milhares Away". Tinha rugas nos lábios mas uns olhos azuis e brilhantes. um para cada um. Pensa no Wayne. Tampouco havia ninguém na casa contigüa. Mas hoje em dia? OH. Luzia uma calça de vestir cinza claro e uma espécie de blusa de decote vistoso. o maior êxito de Laddz. -Poderia falar um momento com você? -Esta era a parte mais delicada. . Hoje em dia os majores gozavam de férias a todo trem. Uma mulher elegante.ao terceiro intento me abriu um autêntico exemplar da velhice ativa. um superfán que comprou dois dos trajes brancos do Wayne no EBay. Imedeen e adesivos dentais resistentes e compressas discretas. Provaria mais tarde. Imagina ao Wayne e ao superfán cantando com um karaoke. espiando quanto se movia com sua vista assombrosamente clara e recordando detalhes incrivelmente nimios apesar de que a sua avançada idade sua memória era tão de confiar como um coador. não estavam. Imagina que o seqüestrou um gay obeso. embora lhe faltasse tecido por toda parte. uma balada lacrimogênea que terei que interpretar com os olhos e os punhos fortemente fechados. com uma juba murcha cor loira platino. não. Mas ao terceiro intento estraguem!. Como podia lhe interrogar sobre o Wayne sem mencionar seu desaparecimento? -Estou a ponto de sair -disse.se dirigisse a eles. Ou na seguinte. Tal era já meu pessimismo que me entraram vontades de atirar a toalha. Pobre Wayne.pelas cortinas nas pontas dos pés. Tailandês Chi no centro cívico. disse-me. e comprimidos de plâncton para manter ágeis as articulações. Tanto podia ter sessenta anos como noventa e três. Difícil sabê-lo com a quantidade de óleo de pescado que tomavam. Os vizinhos da porta do lado. Oprah pela tarde. Assim cruzei a rua e provei aleatoriamente no número 10. classes de pintura e aerobic. Tendi-lhe meu cartão. Têm tanta liberdade! Antigamente. o número 3. Talvez tivessem um emprego.

. Todos conduzem Yaris. -É certo que devo ir. respondeu: -Para recolher a minha neta na creche. não perdia nada comprovando se na quarta-feira tinha acontecido algo estranho. -E -acrescentou. Porque. -Tinha tirado de algum lugar as chaves de um carro e estava as agitando. sobre o sofá. Entende a que me refiro? Não é terrivelmente irritante? -Nesse caso. Gel KY. outra coisa que acrescentam a seus pulos posjubilación. -Realmente tenho que fazer algo com minhas respostas de cascarrabias insuportável. Ah.-A classe de ioga para gente maior? Depois de um comprido escrutínio. A mulher inclinou elegantemente a cabeça. por cima de seu ombro vislumbrei. não falava a sério. Acabava de terminar seu sudoku. A mulher estava pendurando a bolsa do ombro e conectando o alarme. um periódico dobrado. Achava-me tão por debaixo dela.só tenho sessenta e seis. -Pois não aparenta mais de cinqüenta. Estou um pouco tarada. Lamento meu comentário sobre o ioga. A este passo afugentarei a tudas as testemunhas potenciais-. não teria visto se um táxi recolhia ao Wayne Diffney? Fechou a porta e passou por meu lado em direção ao carro. Ou na quarta-feira de noite? -Embora estava convencida de que Wayne não tinha saído de casa até ontem pela manhã. Suspeito que os subministra o Estado. Acreditava em manter ágil e acordado seu ancião cérebro. de fato. -Esteve em casa ontem pela manhã? -perguntei-lhe-. sim? Antes houvesse dito uma entrevista com o jardineiro. -As quartas-feiras de noite vou a meu clube enológico e as quintas-feiras pela manhã jogo a golfe. Um Yaris. como não. quem quereria separar-se voluntariamente de seu dinheiro por um Yaris? -Não.

Percebi aglomeração e adolescentes ressentidos e uma grande demanda de alisadores de cabelo. quarta-feira e sexta-feira durmo em casa de minhanamorada. Tem quatorze anos e é muito pequena. Estamos em recessão. Seguro que tem que pagar uma cota de manutenção e… -Tentamos vendê-la. . mas não encontramos comprador. detrás dela parecia que houvesse várias Teles acesas. que a jodan! Eu não tenho por que lhe dar explicações de nada. querida. -E na quarta-feira de noite? -As segundas-feiras. tinha que aprender a ser mais diplomática-. passamo-lo muito mal. -E me fechou a porta nos narizes. Demorei uns instantes em me recuperar -decididamente. -Estamos de férias. -Ontem pela manhã estava no trabalho -disse. -Mesmo assim -protestei-. Tenho três adolescentes e os três querem ir a Tailândia. relaxei os ombros e passei a seguinte casa. Tínhamos que ficar até manhã mas a situação era insuportável. ninguém vai a nenhum lado. com ninharias nas orelhas. Ouça. Abriu-me um homem cinqüentão. tornamos antes do previsto. Procedi a interrogá-la mas me cortou em seco. Abriu-me uma mulher amadurecida com pinta de curvada. -Enquanto se afastava com garbo pelo caminito. Não faz nem dez minutos que tornamos. -Férias? -perguntei-. -De repente caiu na conta de algo-. espetou por cima do ombro-: Além de você.-Viu se alguma estranha visitava ultimamente ao Wayne Diffney? Uma mulher que pudesse responder no nome de "Glória"? -Não vi a nenhuma estranha. Como se atreviam ela e sua família a ir-se de férias quando o país se achava ao bordo do colapso? -Temos uma caravana no Tramore -explicou envergonhada-. algo cinza e abatido. Olhou-me como se a tivesse acusado de traição. 26 Dirigi-me ao número 11. se isso lhe faz sentir melhor. Ouça.

estamparam-me a porta nos narizes. O tipo a blandió com energia e Bang! A janela se abombó com a força da portada. Pode que assim me ocorresse algo. quando. Genial. Estavam muito morenos. Não me achava no estado de ânimo adequado. -Estávamo-nos perguntando quando chamaria à nossa! -Vimo-lhe farejar! -Vimo-lhe ontem à noite! -OH -disse recuperando o ânimo. quando (devia pensar em positivo) sentisse-me melhor. Dirigia a casa do Wayne com passo lento quando escutei: -Ouça! Sobressaltada. -Vimos que chamava as demais leva! -disse a garota em um tom jovial. Cain era vendedor de software e levava oito meses em parada. Contemplaria o teto e faria ver que a casa era minha. suspendia os interrogatórios. a última casa da calçada do Wayne. Apresentaram-se como Daisy e Cain e me deram uma calorosa bem-vinda. estava fazendo mais mal que bem e os retomaria se… não.me estavam fazendo gestos para que me aproximasse. -E nós? Um "casal jovem" -uma mulher e um homem loiros de veintitantos.-Você temnamorada? Esta vez não me fecharam a porta nos narizes. Daisy vendia conjunto de torneiras e acessórios de banho e fazia ano e meio que estava sem trabalho. elevei a vista. mas já não nos podemos permitir isso Los estampados de las paredes estaban jugando . -Tomávamos antidepressivos -explicou Daisy com uma ligeireza algo desmesurada-. Tinha tropeçado com o equivalente atual de um casal de anciões metomentodo: um casal jovem na parada. No momento retiraria a casa do Wayne e me deitaria no chão de sua sala de estar. Acabou-se. A chamada provinha do número 6. "de tomar o sol no jardim".

. que curioso otimismo. me estaban deformando la perspectiva.talvez escutavam A maravilha do agora. Estamos aqui para te servir. -E agora temos que nos comer o pregunté. Ao melhor -meu lábio se torceu em uma careta desdenhosa. Nunca estive tão magra. adiante. Nos passamos o dia espiando a nossos vizinhos. Subsistimos a base de sopa de tomate. a casa do Daisy e Cain não era tão atrativa como eles. Que alegria. -¿Cómo puedes ser tan precisa? -le -Mas nos conte o que ocorre -disse Daisy. de maneira que de tanto em tanto a parede se voltava tridimensional e avançava para mim. Estampado-los das paredes estavam jogando malotes passados a meus olhos. -Nos pergunte o que queira -disse Cain-. -Faz-o às vezes -se desculpou Daisy-.malas pasadas a mis ojos. -Adiante. Retrocedi de um salto e levantei um braço para me proteger. -Nem sequer podemos comprar comida -disse Daisy-. Fizeram-me passar à sala. Talvez praticavam a Atitude Mental Positiva. -Nunca saímos -acrescentou Daisy-. Não vamos a nenhum lado. -Tem algo que ver com o Wayne Diffney? -interveio Cain. de manera que de tanto en tanto la pared se volvía tridimensional y avanzaba hacia mí. Não havia dúvida de que a tinham decorado quando os empapelados vintage eram o não vai mais e as habitações resultavam muito pequenas para esses desenhos grandes e audazes. Por desgraça. Nesse momento a parede decidiu tomar carreirinha e equilibrar-se sobre mim. -Não podemos te oferecer nada… -… porque não temos nada que te dar! Soltaram uma sonora e larga gargalhada. Eu nunca quis esse papel. estavam-me deformando a perspectiva.

Separei a língua do paladar. E agora a imprensa lhe persegue e sairá em todas as levadas do domingo. Sobre que hora. às doze e à uma. Por isso se largou ontem pela manhã em um enorme carro negro. Dão três seguidos. Se atou com a esposa de alguém? De um político. a que sim? Por isso se escondeu. respondam com sinceridade. Não respondam o que criem que quero ouvir. -Tinha a boca tão seca que mal podia falar-. era seu carro? -Estava tentando clarificar as coisas-. -Como pode ser tão precisa? -perguntei-lhe. -Um momento. seu carro segue estacionado ali. Havia mais gente dentro. meu sistema nervoso se ativou com eletricidade suficiente para iluminar Hong Kong. -Meditem atentamente a pergunta que vou fazer lhes agora. . De súbito. -Cain pôs os olhos em branco-. Às onze. Viu o Wayne subir a um carro negro? Ontem pela manhã? -Sim. -Não era seu carro. -Acabava de terminar o primeiro programa de Jeremy Kyle. subiu a um todoterreno. -Dois -assegurou Daisy. Daze? Onze e meia? -Onze e cinqüenta e nove. -Certo. -E o que? Pô-lo em marcha e se largou? -Não conduzia ele. -Escondeu-se? -Estraguem. Olhe.-O que tem feito? -perguntou entusiasmada Daisy-. seguro. -O carro ao que subiu Wayne. Homens. Homens! O coração começou a me pulsar com tanta força que quase não podia ouvir minha própria voz. -Quantos homens? -Pelo menos a gente -respondeu Cain com firmeza. Sabem que tem um Alfa negro? Cain negou com a cabeça.

-Referia a se parecia contente ou não. o levava um pouco… desigual. -Sim. Nem sequer estou seguro de que o carro levasse matrícula -replicou Cain com certa atitude desafiante. -Sim -disse ela-. Sim. Um homem ao que estão obrigando a subir a um grande carro negro. Davam a impressão de estar começando a compreender a gravidade do assunto. Cain disse: -Passava-lhe algo estranho no cabelo. Que demônios acreditavam que estava passando? -Anotaram a matrícula? Uma parte ao menos? -Eeeeeh.-Que impressão lhes deu Wayne? Depois de pensá-lo uns instantes. Segundos depois. Cain disse: -Cultivamos maconha no jardim de atrás. -Era óbvio que nem lhes tinha ocorrido-. Quando vê que alguém ajuda a um homem a subir a um carro não pensa nada mau… Por Deus. -Sim. Do que foram estes dois? Um par de fumetas presenciavam o seqüestro de um homem e voltavam como se tal coisa a seu programa de Jeremy Kyle? . -De fato… -titubeou Daisy-. Olharam-se. Cain tragou saliva. Depois de um breve silêncio. voltou-se para o Daisy em busca de confirmação. -E a verdade é que não nos ocorreu que… -acrescentou Daisy-. pode que estivesse assustado. -Sério? Dava a impressão de que estivessem lhe obrigando a subir ao carro? Olharam-se. Cain assentiu. não. -Agora que o diz… -A angústia se apoderou do semblante de Cain. Panaquices. Meu deus! -por que não chamaram à polícia? -uivei. assustado.

corri para o saguão. Teve seu sentido enquanto pensava que Wayne tinha desaparecido voluntariamente. Daisy atirou da manga de minha camiseta para me arrastar de novo à sala. Tinha chegado o momento de me retirar do caso. -O que faz? -Daisy parecia surpreendida. -Para minha maior surpresa. -Olhe como sim posso -repliquei. -Aparta -disse. são todas umas zorras. -Não pode ir -protestou Cain. -Não pode fazer isso -me disse Cain. Ao corno com a insistência de Jay Parker de manter este assunto em segredo. O que estava ocorrendo aqui? O que queriam de mim? Estava confundida e atemorizada. deixa-a ir -disse Daisy-. o de agora era um jogo muito distinto. temos onde escolher. Levantei-me e me pendurei a bolsa do ombro. -Mas… -Não lhe necessitamos. É certo. -Agitou seu móvel-. É uma zorra. vamos chamar a outra! Agora mesmo! Está jodida. rompeu a chorar convulsivamente-. Lutei até recuperar o braço e nesse momento Cain se interpôs entre a porta e eu para me bloquear a saída. Pincei em minhas vísceras até encontrar a barra de aço e a tirei pelas pupilas. Para minha grande surpresa. . uma resposta própria de uma listilla. eu não podia competir com homens duros em todoterrenos negros. Cain tinha as costas pega à porta. -Um homem foi seqüestrado -disse já na porta da sala. Eu tinha minha cara a dez centímetros da sua. A mierda com ela. Alertada por algum tipo de instinto. -Ah. Que a pasma tomasse a substituição.A angústia se apoderou de mim. Vê isto? gritou-me-. -Não posso acreditar que nos esteja fazendo isto -espetou Daisy-. Sustentamo-nos o olhar.

Obrigado. Wayne poderia ter morrido cem vezes antes de que terminássemos a papelada. e de repente estava fora aspirando grandes baforadas de ar. a porta abrindo-se. Não imagina o que eram. As mãos me tremiam. Não lhe faria nenhuma graça. e o chiado tinha parado. Ao fim livre. . mas o que lhe ia fazer. pus-se a correr para meu carro. Todo coisas boas. Que demônios tinha sido isso? Acabava de assistir a uma demonstração dos efeitos secundários da erva? Ou acaso a maluquice de Cain e Daisy se devia ao desespero gerado pelo desemprego prolongado? Cheguei ao carro. Estava a salvo e em meu carro e conduzindo. Cain e Daisy. Nunca havia canetas. tudo como em um filme. mas o que me importava a ética? A forma mais rápida de fazer que a poli se implicasse neste assunto era envolvendo ao Artie. Trocavam de volta a metade de frase e tinha que começar de novo com o recém-chegado. Tinham que preencher um sem-fim de formulários. 27 Descobri-me na estrada da costa rumo à cidade.de repente Cain estava fazendo-se a um lado. sem tirar sequer o freio de mão. Não era ético. saí disparada. Estava a salvo desse par de endoidecidos. Existia. Mas Wayne Diffney tinha sido seqüestrado e eu tinha que avisar a poli e a só idéia de tentar lhes explicar o ocorrido me punha os cabelos de ponta. fora o que fosse que queriam de mim. Do salpicadero saía um chiado me indicando que tinha o freio de mão posto. Faziam-no tudo com uma parcimônia lhe exasperem. subi e sem pôr o luz de alerta. uma maneira de sortear o tedioso processo. O primeiro é o primeiro. Podiam passar várias estações e derretê-los calotas polares antes de que conseguisse denunciar como é devido o roubo de uma carteira. Imediatamente. o coração ia a cem e diante de minha cara dançavam pontos negros. Senhor. entretanto. Tirei e o chiado cessou. sem olhar aonde ia. minha mão posando-se no pomo.

-Você é a polícia. -Não. Uns homens. Em conjunto. . um presente para a vista. -Cristais quebrados? Móveis derrubados? Vizinhos que ouvissem gritos? -Escuta bem o que te estou dizendo. levaram-se ao Wayne em um grande carro negro. não o sou. Artie. Fechei a porta. -Viu indícios de luta? -perguntou-me. -Bem -disse aproximando uma cadeira e olhando ao Artie do outro lado disto mesa é o que passou. Com excessiva calma. -No trabalho. -Onde está? -perguntei-lhe. -Não do tipo que precisa -acrescentou. Vou para lá. Ignoro como acostuma Wayne a ter a casa. -E lhe soltei toda a história: Wayne. Bom. Adverti que todos levavam a camisa enrugada. chamei-lhe o móvel e esta vez sim respondeu.Detive o carro. era-o e não o era. Pendurei antes de que pudesse me pôr inconvenientes. dois como mínimo. sinal de que não tinham uma mulher disposta a engomar-lhe Talvez vinha com o trabalho. vai à polícia. Levava sua camisa celeste enrugada e arregaçada e o cabelo muito comprido para um poli. os homens no todoterreno negro… Artie me escutava com calma. Encontrei sentado à mesa de seu escritório acristalado. Pelo escritório principal pululavam muitos de seus colegas machões e não queria que nos ouvissem. -Não te mova. -Em seu escritório? -Sim. Daisy e Cain. -Não sei. -Nesse caso.

-Não. como nãoe Artie lhe falou em tom autoritário durante um bom momento. -Artie. não me farão conta. não me faça isto. Mantive meus olhos fixos nos seus enquanto me perguntava o que estava pensando e quanto demoraria minha tática em fazer efeito e a verdade que bastante impressionada de que estivesse agüentando tanto. sem desviar os olhos de mim. -É meunamorado. levantou o auricular e disse: -Sou Artie Devlin. E quando ouvirem que se trata do Wayne e recordem seu cabelo. Pôs os olhos em branco. partirão-se da risada. Finalmente. Segundos depois alguém importante ficou ao telefone -um homem. -Meneou a cabeça-. se for aos polis normais. sabia que podia fazê-lo o tempo que fizesse falta. Helen. E quando descobrirem que sou investigadora privada farão o que seja por obstaculizar meu trabalho. -Contarei a Bela que me maltrataste. -Não tenho que te ajudar. -Contarei ao Vonnie que me maltrataste. sustentou-me o olhar com os braços detrás da cabeça. junto com "Enclausurado" e "Espiritual". -Tem que me ajudar. Voltou a pôr os olhos em branco e esta vez lhe cravei um olhar suplicante. Suspirou. Esse olhar não funciona comigo. Mas segui lhe olhando. Depravado e firme em sua cadeira. "Incorreto". me ponha com o sargento Coleman. -Helen. Seguro que há mais de um que te deve um favor. Muito acima em minha Lista do Palazos. A maioria são uma panda de vagos.Olhei-lhe severamente aos olhos com a esperança de lhe envergonhar e conseguir que se emprestasse a me ajudar. -Sei que isto é "incorreto" -disse. hei aí outra palavra que detesto. lhe facilitando toda classe .

com capacidade para quinze mil pessoas. -E esboçou um sorriso. -Não te caiba a menor duvida. -Estou em dívida contigo. o melhor seria informar ao Jay Parker dos últimos acontecimentos. não estava preparada para abandonar este caso. a direção do Daisy e Cain. por isso existiam muitas probabilidades de que o encontrasse ali. Agora podia sentir a escuridão que tinha estado me sobrevoando -mantida a raia pela busca do Wayne. Há dois agentes em caminho para interrogar ao Cain e Daisy. minha direção. era gigantesco para os padrões irlandeses. agradecia o trabalho e a distração que me tinha proporcionado. informáticos. tão maliciosa que nunca lamentei tanto que as paredes de seu escritório fossem transparentes. Os Laddz levavam toda a semana ensaiando no Europa MusicDrome. A zona em torno do cenário. técnicos de luzes. todos nervosos. Parecia que não fora a terminar nunca. Eu também irei. E minha preocupação pelo Wayne intensificava essa escuridão. 28 E agora o que? Bom. Degraus e degraus de assentos vazios aguardavam na penumbra com ar vigilante e sinistro. transbordava de luz e gente: coreógrafos. Acabou dizendo: -Agradeceria-lhe que desse prioridade a este assunto. pelo contrário. todos indo de um lado a outro. O MusicDrome. montadores peludos. Um sorriso tão. . Assentiu. minha data de nascimento. E pendurou. Quem o tinha levado? Onde se encontrava nestes momentos? Em um intento de alargar o caso outros quinze minutos decidi dar a notícia ao Jay em pessoa.de dados: a direção do Wayne. Excetuando o yuyu que tinha passado com o Cain e Daisy. encarregadas de vestuário. se quiser que te diga a verdade.à espera de tomar a substituição. meu número de telefone. -Bem -me disse-. o recinto onde foram celebrar se os concertos. Quase todo o espaço interior se achava às escuras. Mas.

em meio das hordas. -O que? -Até o Jay parecia conmocionado. E por que? -Não sei. conseguiu me arrancar um sorriso. perguntou-me em voz baixa: -Encontraste-o? -Não exatamente. Não podia apartar meus olhos dele. tirou-se a americana e a gravata e arregaçado a camisa. Eu abandono. mas era evidente que não o fazia nenhuma graça. Era fantástico. De onde tinha saído? Fechei a boca. a cara de John Joseph apareceu detrás dele. -De acordo. seguida da do Zeezah. Demorei uns segundos em me repor. caí na conta de que era Jay Parker. os Laddz estavam ensaiando um número de baile que. Como não ia dançar bem Jay Parker. escorregadio que era. À me ver. John Joseph punha algo mais de empenho em fazer os passos. -O levaram pelo menos dois homens em um todoterreno negro. Roger St. A confidencialidade do cliente era a confidencialidade do cliente. O tipo da ponta -algum técnico que tinha recebido a ordem de substituir ao Wayne. e não parava de agitar seus quadris de serpente. abrindo muito os olhos e esmurrando o peito. em que pese a meu abatimento. tão ligeiro e coordenado que deixava a outros em ridículo. A seu lado. mas a polícia está agora a cargo do caso. Frankie estava dando-o tudo. deteve em seco a vibração de quadril e vinho a meu encontro. Tenho declarações de testemunhas que viram como Wayne era seqüestrado ontem pela manhã.Sobre o enorme cenário. -Segue falando -insistiu Jay-. . para minha surpresa (categoria: extremamente desagradável). me empurrando para um rincão. Leger mal movia um músculo e respirava desdém por todos seus poros. Entre nós não há segredos. Até que. -Quem quereria raptar ao Wayne Diffney? -perguntou Jay-. -Onde está? De repente.era o único que dava a talha. supus que porque lhe tocava estar diante.

-Estamos muito preocupados com o Wayne -respondeu Zeezah. E me alegrava poder vê-la sob uma luz forte. sendo esquartejado com uma serra mecânica pelos submissos Alfonso e Infanta para jogar o de comer aos cães. Que estranho que não as tivesse eliminado com laser. E se John Joseph e Zeezah fizessem "desaparecer" ao Wayne? E se lhe tivessem assassinado? E se seu corpo se achasse enterrado no jardim de sua casa e amanhã tivessem intenção de lhe construir em cima uma fonte ornamental de concreto a fim de selá-lo para sempre? Ou pode que Wayne estivesse nestes momentos tendido na mesa da cozinha. Inclusive poderia lhe dar de presente um tubo de nata -ficavam dois. Pareciam nervosos. mas bastante peluda. "esperando" a volta do Wayne? John Joseph e Zeezah atraíram de repente minha atenção. Isso é mais importante que o espetáculo de canto e baile que está tentando montar aqui. Espera um momento! O contou à polícia! Disse-te que não o fizesse! -Lhe nublou o semblante.se encontrava uma maneira diplomática de oferecer-lhe -¿De veras? -Artie no era . poderia aumentar a publicidade e a venda de entradas mais do que jamais se teria atrevido a imaginar. Seguia sendo bonita.-O que? -espetou-. Jay me fulminou com o olhar. -seqüestraram a uma pessoa -disse-. Pela mandíbula lhe baixavam umas costeletas que teriam sido a inveja do Elvis em seu período em Las Vegas. muito. Podia ver a engrenagem girando em seu cérebro enquanto tentava decidir como converter esta última informação em uma máquina de fazer dinheiro. afastaram-se de nós e estavam falando em um tom baixo e tenso. Logo seu rosto se iluminou ao cair na conta de que se dirigia bem o assunto. nos devolvam a nosso pequeno"? Ou colocar um tamborete vazio no cenário durante as baladas. e de repente minha imaginação se desbocou. mas a mandíbula não seria mais de cinco minutos. -Não me diga? -Não sabia por que mas não me tragava isso. muito nervosos. Súplicas dilaceradoras dos pais do Wayne nas notícias das seis em plano: "Por favor. Eu me tinha feito as duas pernas e reconheço que a dor era espantosa -ou foi até que comprei ilegalmente por internet a nata anestésica-. -O que ocorre? -perguntei-lhes.

Zeezah.dado a dramatizar. -voltou-se para o Jay Parker-. Tem que nos pôr amparo. Falarei com a poli para que me esclareça o que aconteceu realmente. Roger e Frankie. E te tranqüilize. Quanto demoraria para chegar a casa de Cain e Daisy? -por que? O que ocorre? Esses dois são perigosos. -por que quereria alguém seqüestrar ao Wayne? -perguntou Zeezah. Sobre tudo pelo Frankie. Não o haveria dito se não fora a sério-. Pendurei e me afastei do mar de rostos suplicantes integrado pelo Jay. Saio na televisão. Meu móvel soou. Vigilantes as vinte e quatro horas! -Fecha o pico -balbuciou Jay-. Vós sigam dançando. E sou pai de família. -Seriamente? -Artie não era dado a dramatizar. seqüestraram ao Wayne! Mas por que? E se alguém quer me seqüestrar a mim? Eu sou mais importante que Wayne. mas nem sequer me atrai a idéia de que me seqüestrem. -Não. E estou com eles. -O semblante de Jay começava a refletir certo pânico-. No lo habría dicho si no fuera en serio-. -Basta! -espetei-lhes. -Estou-me encarregando de tudo. Falarei com a polícia e o arrumarei tudo. Seria mais valioso para um seqüestrador. Certo. deram-me um susto de morte. . -Onde está? -perguntou-me-. Ninguém vai seqüestrar te. voy para allá. Parecia Jesus na cruz em seus últimos instantes. Leger se aproximou com parcimônia. Também os agentes Masterson e Quigg. -Já sabem que sou um tio com uma mente aberta e que o provaria tudo ao menos uma vez. Roger St. vou para lá. Era Artie. -Bendito seja o céu! -Frankie Delapp se escorreu na conversação-. incluído o incesto e a cerveja sem álcool. Não vão seqüestrar a ninguém. John Joseph. não o são. tenho filhos que proteger. Certo. Mas acredito que deveria vir quanto antes.

e juntos partimos para o Sandymount. -Acompanho-te -disse Jay. Leger. não queria que chegássemos em turnos-. como nos velhos tempos. Sou uma celebridade. eu serei quão única fale. -Acompanhamo-lhe todos -disse Frankie. -E se lhes deixam estar. É lógico que estejamos preocupados. -Impossível. Eu saio na televisão.-O que ocorre? -perguntou-me Jay. Frankie e Roger se apertaram no assento de atrás de meu Fiat 500. apertei o acelerador e o passamos no momento em que ficava vermelho. Justamente o que eu estava pensando. -Também nós poderíamos estar em perigo -uivou Frankie-. -Está bem! -cedi-. Zeezah. a gente me conhece. entendido? John Joseph. -Precisava ter o controle da situação. Quando nos aproximávamos pelo Waterloo Road a um semáforo âmbar. Leger gritou: -Uau! -Caray -observou Jay Parker-. Quão única fale. E se a poli não lhes deixa estar presentes no interrogatório. Alguém disposto a seqüestrar ao Wayne seguro que quererá me seqüestrar a mim. Conduzia depressa. Roger St. são muitos. não tomem comigo. Mas iremos os seis em meu carro. Jay Parker ocupou o assento privilegiado do co-piloto. Como conseguia que tudo o que dizia soasse depreciativo? Até o sentimento mais tenro-. -Wayne é nosso irmão -interveio Roger St. -A gente que viu o seqüestro do Wayne está agora com a polícia e quer falar comigo. A minhas costas se ouvia muita resistência e discussão pelo espaço. -Certo. Por minha cabeça tinha começado a passar um filme titulado Quando Jay Parker era meunamorado e me descobri olhando uma cena .

Tínhamo-nos passado a noite freqüentando botequins. funcionários. Senti-me tremendamente orgulhosa do grande . reconheço-o. Tinha incontáveis trambiques.em que saíamos Jay e eu neste mesmo carro. -Sou restaurador -me assegurou uma noite. mas um desenlace tremendamente decepcionante. Como filme. Cenas iniciais prometedoras. Sempre estava tirando-se lugares e pessoas novos do chapéu e me soltando coisas inesperadas. 29 Bati na porta de Cain e Daisy e me abriu Artie. e em cada ocasião recebia uma resposta diferente. Eu gostava de ser a misteriosa em uma relação e Jay Parker me levava vários quilômetros de vantagem. Quando Jay Parker era meunamorado tinha resultado ser uma horror. mas no filme parecia eufórica e cheia de vida. Eu não estava ao tanto nem da metade e detestava que me mantivera à margem. banqueiros. Não tenho um horário normal. -Será-o hoje. -Só digo que fiquei com um tipo a tomar uma taça… em Copenhague! Vem te? Enfim. -Sim. bom… -E pôs-se a rir-. discotecas e festas privadas e acumulando e perdendo amigos novos pelo caminho. conduzindo a toda pastilha para chegar a uma entrevista que Jay não me tinha mencionado e para a que me tinha dado muito pouco tempo. "Sempre com suas manobras de última hora!" Eu tinha a lembrança de que nunca deixava de me queixar. e uma seção intermédia interessante. delinqüentes de três ao quartoe sempre andava metido em algum assunto misterioso. Terá que abrir novos horizontes… Nunca deixava de me surpreender a quantidade de gente diversa que conhecia -granjeiros. Depois de jogar uma olhada à turma soltou um suspiro mas não disse nada. porque ontem estava tentando mediar na venda de setenta e cinco colheitadeiras. um esbanjamento interminável de idéias e uma complexa rede de contatos. -Que classe de homem de negócios? -perguntava sempre eu. -Sou um homem de negócios -estava acostumado a dizer Jay para justificar seu comportamento imprevisível-. esteticistas.

olharam-nos boquiabertos. e deduzimos que tinha algo que ver com o Wayne porque Wayne é a única coisa nesta rua que parece . -Chisss! -disse-. Daisy? Daisy falou olhando-os pés. onde os agentes Masterson e Quigg -um homem e uma mulher. Seguimo-lo pelo curto corredor até a sala.e bonito que era. Quando os Laddz. O papel das paredes.se encontravam sentados com o Cain e Daisy. aqui. Nesses momentos fomos onze na estadia. Vós cinco. -Congreguei a minha turma detrás de mim e me detive diante de Cain e Daisy. Fiquei de pé com o fim de manter o controle do interrogatório. pois pensei que era ele quem tinha mais probabilidades de me dar uma resposta sensata-. o que está acontecendo aqui? Dirigi minha pergunta ao Artie. -E eu sou Frankie Delapp. mas preferi não apresentá-lo como meunamorado por temor a que isso pudesse prejudicar de algum modo seu prestígio profissional. que pareciam superavergonzados. corcoveava violentamente-. Bem. -Acreditávamos que foi jornalista. que estavam sentados no sofá. Zeezah e eu nos escorremos na já abarrotada sala. E os agentes Masterson e Quigg pareciam quase tão afligidos como eles. Seguro que me conhece pela televisão. -Faria as apresentações -disse-. por que não começa você. como se eu fora a responsável direta. A mandíbula lhes caiu literalmente ao contemplar os rostos que até esse momento só tinham visto nas páginas das revistas. -Assinalou com a cabeça ao Cain e Daisy-. mas tem proibido falar. -É-o -respondi-. Onde está Wayne? Localizaste-lhe já? -Será melhor que eles falem. Jay. -Eu? -uivei-. E também porque não ficavam assentos livres. mas nos levaria toda a noite. superexcitado com tanta visita. E por que? -Vimo-lhe bisbilhotar e fazer perguntas como uma jornalista. -É… é Zeezah? -Daisy estava tão aniquilada que dava a impressão de que ia deprimir se.

E tratava ao Wayne como… como um colega. -Quantos homens havia com ele? -inquiri-. pagaria-nos mais por nossa história. Negaram com a cabeça. e pensamos que se o exagerávamos um pouco. Mas é que estamos cortados. antes das doze. porque desceu do carro e o homem não tentou lhe deter. Cain prosseguiu com o relato. mas só um. -Reconheceram ao outro homem? -perguntei. Fez-o voluntariamente. -E não era um todoterreno negro -confessou Cain-. Não nos ocorreu que a polícia acabaria envolvendo-se.uma celebridade. pagaria-nos. Também nos inventamos isso. saísse de novo e se sentasse diante. -Então. Pode que fora um amigo. Logo se foram. ao Wayne não o obrigaram a subir ao carro? -perguntei. Um carro normal. mas pensamos que se… que se o exagerávamos um pouco. -Então. No último momento Wayne pareceu esquecer algo. mas ninguém lhe obrigou a subir ao carro. mas sim esperou a que Wayne entrasse em casa. -Um táxi? -Um táxi não. Se é que havia algum. se lhe dizíamos que lhe tinham obrigado a subir e que parecia assustado. Não lhe mentimos no da hora. -Não. -Não o entendo -disse. -É certo que Wayne subiu a um carro e partiu ontem pela manhã. por que não deixavam que me fora? . -É certo que vimos o Wayne subir a um carro ontem pela manhã com uma bolsa de viagem. -Havia. se lhe dávamos o que queria. Era um Totoya azul de faz cinco anos. -Então… não o seqüestraram? -Sinto-o -balbuciou Daisy-. a seu lado. embora não reconheci sua cara.

Cain e Daisy se endireitaram e cruzaram um olhar de estupefação. escondido possivelmente detrás de uns óculos de sol e uma boina de beisebol? . E quem é você exatamente? -Fecha o pico -ordenei ao Jay. -Existe alguma possibilidade de que o outro homem. Artie afiou o olhar com repentino interesse. -Faria falta algo mais que tipos como vós para assustar a Helen Walsh -disse acaloradamente Jay Parker. o homem que conduzia o carro. Frankie e Roger. Certo. Zeezah. sim me assustaram. Era Docker? -Refere ao Docker. -Assentiram solenemente. -Bom. -Desculpa. John Joseph. mas não havia necessidade de entrar agora nisso. fora… Docker? -Docker! Essa singela palavra infundiu energia à sala. -Certo.-Pensávamos que foi jornalista e que te estava largando com nossa história sem nos pagar. -Cain e Daisy. Mantive o olhar fixo no Cain e Daisy. partiu-se com um homem não identificado e ficava uma carta que mais me valia jogá-la. vou fazer lhes uma pergunta e quero que meditem a resposta com atenção. Até a expressão impassível dos agentes Masterson e Quigg se animou ligeiramente. Estava interrompendo o fluxo da conversação. e você é? -disse. -Não me assustaram. Lamentamos muito te haver assustado. -Não me digam o que criem que quero ouvir. Jay se tomou um instante para examinar ao Artie antes de responder com calma: -Jay Parker. ao Docker de Hollywood. Unicamente me digam o que viram. o agente de Laddz. Podia ser ele. Podia notar a minhas costas a eletricidade que emanava de Jay. o ator? -Sim. ao Docker ganhador de um Oscar. e agora o que? O fato era que Wayne seguia desaparecido.

-Isso é tudo o que sabem -disse Artie. -Com esse cabelo não sente saudades. -Mas estava atuando de forma estranha. E aparentava cinqüenta e tantos… -… e era mais baixo que Docker. -E que fazia Docker conduzindo um carro que não era novo? De acordo. Desejavam com todas suas forças que esse homem fora Docker. Mas havia valido a pena perguntá-lo. -É um sarcasmo. verdade? -Tem bom olho. Sempre valia a pena perguntar. Docker tinha trinta e sete anos e aparentava dez menos.Olharam-me com uma expressão quase de angústia. . -Barbeou-se a cabeça? Comia bolos? Nesse caso falarei com o chefe de polícia para que organize uma roda de imprensa em direto para a televisão. -Mais corpulento… -… e calvo. Fez-se o silêncio. Possuía uma testa cheia de cabelo e um ar de estrela de cinema que se recebia um quilômetro. -E o que tem que o Wayne? -perguntei-. -A que se refere? -Barbeou-se a cabeça. -Esteve chorando. Tinha mais probabilidades de aterrissar com um hidroavião no Mercy Close que de conduzir um Toyota de fazia cinco anos. Media metro oitenta e dois e era fraco como um macarrão. muito mais baixo. Estavam desesperados por que isto funcionasse. Como se estivesse angustiado. Fixamo-nos nele quando guardou no porta-malas a bolsa de viagem do Wayne. -Comia bolos. não era Docker. Aonde foi? -Isso é assunto do Wayne -respondeu o agente Masterson. -Não levava óculos de sol -disse Daisy. -Nem boina de beisebol.

Saímos da casa em fila. a mulher polícia-. -Não temos razões para pensar que se encontra em perigo. É uma epidemia. e em algum . -Wayne não devia muita massa. Artie sofria um ataque de Homem Forte e Taciturno. -Obrigado -lhe disse-. um pouco exasperado. Te chamarei assim que me seja possível. e mal dispunham de tempo para estar juntos. uma versão das Classes de Comportamento que repartem nos colégios de senhoritas-. Noiva e algemas se apresentam em todas as delegacias de polícia do país dizendo que seus casais não voltaram para casa. Masterson e Quigg partiram em seu carro patrulha. Não é ilegal… -Tem idéia de quanta gente está fugindo neste preciso momento? -perguntoume Quigg. antes de subir a seu carro e partir. Estava desejando acariciar ao Artie mas não queria ultrapassar os limites mais do que já o tinha feito. Meneou a cabeça e riu. o qual levou seu tempo. Tinha a hipoteca ao dia e pagava religiosamente seus cartões de crédito. Homem de poucas palavras. mas segui lhe cravando até que finalmente consegui surrupiar-lhe -¿Qué pinta Docker en todo esto? -Roger me clavó una mirada sagaz. porque não podem pagar a seus empregados. Artie. Quando comecei a sair com ele demorou várias semanas em me contar por que Vonnie e ele se separaram. Também tinham sorte de que não lhes acusassem de ter um jardim cheio de maconha. -Os agentes Masterson e Quigg estavam incorporando-se dessa maneira lenta e pesada que devem ensinar na Academia de Polícia. E vós dois -se voltaram para o Cain e Daisy.-Os homens choram às vezes. Vonnie embelezando casas e Artie investigando fraudes. Parecia que foram livrar se dessa. Cada vez que tirava o tema. os dois trabalhavam muitas horas. Pelo visto.têm sorte de que não lhes acusemos de fazer perder o tempo à polícia. Os homens desaparecem porque não podem pagar a hipoteca.

formava parte de uma baixela exclusiva que tinha pertencido a um nobre da Suécia gustaviana. mas imagina uma ex-vicaría neogótica de pedra cinza azulada que conserva todo seu caráter original mas goza de todas as comodidades modernas. Cuidar deles era o prioritário. Pratos quebrados. Contudo. Sabia o que queria. sim. não sabia quem era. Artie propôs ir a um terapeuta matrimonial. o mais importante eram os meninos. -E como se sentiu? -insisti. sim. suponho que essa é a melhor maneira de descrevê-lo. como calefação por debaixo do chão . Juro-o. alguns -reconheceu Artie-.momento desse processo Vonnie conheceu alguém. tinha muito senso de humor e era muito divertido. Era um pouco… simplório. Foi demolidor. Vonnie comprou uma casa e acordou com o Artie compartilhar a custódia da Iona. que não era uma obra de arte única grafite a emano pelo Graham Knuttel. Sendo polícia tinha que ser preciso com as palavras-. mas Vonnie se negou em redondo. mas ela se mostrava inflexível. E. não. Dez anos menor que ela. E ao final. mas nada podia fazer a respeito. como não. Eu não me atreveria a romper um prato do Vonnie. Tinha-o visto em várias ocasiões e a verdade é que me caía simpático. não podia imaginar desejando a alguém como ele quando podia ter a alguém como Artie. quem tinha uma habitação em cada casa. -Foi… -Artie se interrompeu. Não houve gritos nem pratos quebrados? -Gritos. -Sonha todo muito civilizado -observei-. Quando nos casamos acreditei que seria… para sempre. Bruno e Bela. Fiz o possível por convencer a de que voltássemos a tentá-lo. (Não entrarei em detalhes. Trabalhava em desenho -assim foi como se conheceram. Queria ao Menino de Chapéu Pork Pie (de nomeie Steffan) e não queria seguir casada com o Artie. mas isso foi ver a dela. a casa do Vonnie! Eu acreditava que a casa de Artie (desenhada pelo Vonnie) era a morada mais bonita da Terra. Não era de sentir saudades.mas às vezes fazia do DJ em festivais e levava o chapéu pork pé dos modernillos. Sem o Vonnie. sem nossa família.

-Um urso -choramingou Frankie-. disseram. Um urso grande e adorável. -Não o sou neste momento. Olhei-os um a um. quando tenho o capricho. Não poderia afirmá-lo. por último. Lhes importaria não lhes desviar do tema? Um homem de cinqüenta e tantos. -Nada. John Joseph. mas para que desviar do tema-. Só estava provando sorte. Jay Parker. -Basta! -exclamei-. Roger e eu celebramos uma reunião improvisada na calçada. Coincide a descrição com alguém que conheçam? -Esperas que conheçamos cinqüentões? -Frankie parecia indignado. Eu mesmo sou gay às vezes. -Alguém de vós crie conhecer esse homem? -perguntei-. Com um desconhecido. diante da casa de Cain e Daisy. Lhes rogo isso. Se chama Artie Devlin. Zeezah. Está tentando me copiar. Poderia ir a sua casa e me passar as próximas horas pulando na cama com ele. -Não era de tudo certo porque estariam seus filhos. mas acredito que empalideceu ligeiramente-. -Fiz uma pausa para me assegurar de que Jay registrava a informação. Zeezah. Frankie. Hoje é sexta-feira pela tarde. esta é a situação. Jay-. John Joseph. O essencial. Bem. e imagino que estamos todos de acordo. mas poderia voltar a sê-lo se quisesse. -Genial -disse-. São uma grande ajuda. fixaram-lhes nele? Pois é meunamorado. todos vós. O que preferem? . -Você já não é gay -assinalou Jay. O homem tão bonito que estava dirigindo o interrogatório.) Às vezes me perguntava se Vonnie tinha deixado ao Artie unicamente porque queria uma casa nova com a que jogar. Frankie. não lhe faltem ao respeito desse modo. Roger e. -Que pinta Docker em tudo isto? -Roger me cravou um olhar sagaz. -É gay? -uivou Frankie-. -Wayne não é gay -disse Zeezah-. é que Wayne se largou ontem pela manhã com um homem. Ou poderia seguir procurando o Wayne. -Não tem nada de mau ser gay -repôs Roger-.e iluminação ambiental multicolorido. esquece-o.

Olhei-lhe fixamente aos olhos. Parker trotou até o carro como um cachorrinho ao que vão tirar de passeio e quando acendi o motor e pus rumo à estrada. "Não o conte"." Mas eu já tinha decidido não contar-lhe John Joseph não me inspirava confiança. mas se mostrou disposto a superá-lo. com que contas? Com o que contava? Com a conexão do Docker. sobe ao carro. -Não -disse. Não obstante. Com a casa de Leitrim. -Ou eu -acrescentou Roger. -Necessitamos que Wayne apareça -disse-. -Nem o sonhe -lhe replicou John Joseph com inesperada veemência.Pareceu-me que ao John Joseph desagradava a idéia de mim e Artie pulando na cama. acompanharemolhe um de nós. -Eu? -uivou Frankie-. mas não quero correr nenhum perigo. Agora mesmo lhe estamos pagando. Não te ofenda. Virgem Muito santo! Eu não quero procurar o Wayne. Claro que queremos que siga lhe buscando. -Sim. de maneira que nos pertence. Seja qual seja sua linha de investigação. -Está bem -disse sem apartar meu frio olhar de John Joseph-. -Eu também preferiria evitar um possível perigo -disse educadamente Zeezah. é adorável. -Que tal Frankie? -perguntei. céu. Eu não gostaria de me passar horas encerrada em um carro com ele. -Prefiro não dizê-lo ainda… Poderia estar equivocada. voltou-se de novo por volta de mim-. Helen. estava-me dizendo. Não atuará por sua conta. Entre o Jay Parker e eu se produziu um estranho cruzamento de olhares. -Ou ele ou eu -disse John Joseph. uma cumplicidade tácita. E eu não gostava. não o conte. -Irei contigo -propôs Parker. "Seja o que seja. Parker. por um momento tive a impressão de que .

a primeira vez que nos víamos desde dia que tropeçasse com Bela na feira da paróquia e terminasse na cama com seu pai.estávamos empreendendo um comprido viaje de carro. mas estava equivocada: telefonou-me ao dia seguinte e me perguntou se podia me convidar para jantar. -Acredito que nos deixamos alguns detalhes. fazia de canguru aos meninos da Margaret. . antes de partir de meu apartamento aquele dia. Era nossa primeira entrevista no mundo exterior. Suspeitava que me encontrava muito problemática. -Caray. por um momento me senti quase eufórica. Esboçou um sorriso torcido e me abriu a porta do restaurante. Tenho aos meninos. eu acreditava que já nos conhecíamos o suficiente -repus. Ficamos para na sexta-feira da semana seguinte. mas eu duvidei de que o fizesse. -O que? Esperava que aparecesse com texanos e esportivas? Mais te vale não me levar a Pizza Express. Artie havia dito que me chamaria. Iria bem na quarta-feira? Justamente na quarta-feira não ia bem. E isso sentou as bases do que aconteceria no futuro. Poderíamos dar marcha atrás. nunca me deito com um homem na segunda entrevista. 30 -Para que saiba -havia dito ao Artie-. Sexta-feira? -Não posso. -Uau -disse. Reservou uma mesa no restaurante e me recolheu em minha casa e pareceu impressionado à me ver com um vestido apertado de cor negra. saltos de vertigem e cabelo de secador. -Quinta-feira? -disse-. -Para nos conhecer um pouco -propôs.

Logo me concentrei no Artie. Muito. -O que você gostaria de saber? -Vamos. Estava muito orgulhosa desse casaco. Artie me desvelou aonde nos dirigíamos. Como diz a gente muito. deveria mencionar). lá vou. O espero. Penso pagá-la eu. algo inquieta: -Pensa pagar você o jantar? -Sim. tratava-se de um restaurante bastante elegante. Entramos e. conta-me o tudo sobre ti". Nesse caso. trouxeram-nos a carta. fala -lhe insisti-. não com categoria de estrela Michelin. não peça caviar. Perguntei-me como tinha conseguido uma mesa a só dez dias de Natal. -Abriu a porta-. -De acordo. conduziram a uma mesa. -Lástima. -Suponho. Eu estava mais que feliz só com o sexo. -Sorriu-. um cinturão com uma fivela plaina chapeada. mas célebre por ser íntimo e caro. Pu-me meu casaco curto e volandero negro uso Mad Men. -Pois tem que saber que eu nunca me deito com ninguém na segunda entrevista. calça negra de alfaiate e. serviram-nos bebidas e tomaram nota. -Estava começando a me impacientar-. o mais sexy de tudo. -Está de sorte. muito irritante. atraía a atenção e fazia que me entrassem vontades de abri-la. suponho. então. que esperas que me deite contigo. Camisa azul marinho ajustada e arregaçada para deixar à vista seus preciosos antebraços. Novo a estrear. -Sorriu de novo-. -Sim. o de que nos conhecêssemos foi tua idéia. -Adiante. um desenho singelo que. homem. tinha-o comprado por dez euros em uma loja benéfica com a etiqueta ainda posta. Prenderia-me fogo antes que comer caviar. . com soma eficiência. Embora possivelmente se devesse unicamente a que já conhecia as maravilhas que escondia dentro. Trabalho. Já no carro (um todoterreno negro. entretanto. antes de entrar inquiri.Ele também estava "uau".

não tinha nem idéia de que fora tão aborrecida. O que faz? Meditei-o. o tempo que passava com seus filhos era sagrado e se assegurou de me deixar isso bem claro. Jogava a pôquer uma vez ao mês com colegas do trabalho. não sou jogadora. por que não? foram passear ao Wicklow. e a única razão que me ocorria de que Kate queria ir ao cinema era para incendiar a sala. -Como… excursionistas? -Preparei-me para agarrar minha cintilante carteira de mão. -Nada? -Nada. Em minha mente tinha feito uma fusão da Iona e Kate. . e atualmente não abunda isso. logo chegou o segundo prato e três quartos do mesmo. Umas semanas antes tinham assistido todos juntos a um curso de fazer pão e a princípios de janeiro tinham planejado outro de cozinha vietnamita de um dia. as coisas que faziam juntos recordavam aos Walton do monte Walton. a filha de Claire. dá-me igual a comida.Pouco a pouco lhe surrupiei sua vida. Foram ao cinema freqüentemente. às vezes com outro tipo chamado Ismael. Em algum momento chegou o primeiro prato e comi isso sem apreciá-lo apenas. assim não faço nada. -Nada. Saía a correr seis quilômetros várias manhãs por semana. -Incluída Iona -respondeu-. Não queria. -Incluída Iona? -perguntei surpreendida. Não obstante. -Incluída Iona? -perguntei de novo. E a verdade seja sorte. -E agora. Interroguei-lhe em profundidade para me criar uma imagem de sua vida em comum. -Claro -disse. acrescentei-: Jesus. -estava-se rendo-. além de trabalhar. Helen. não leio. Não faço exercício. muito irritante. Como gente que sai a passear. vivo de sándwiches de salada-russa de couve e queijo. -Com uma pontada de temor. -Não como excursionistas. não podia me unir a uma turma de excursionistas. conta-me o tudo sobre ti" -disse Artie-. como diz a gente muito.

sim. -Está unida a sua família? Meditei-o. Sobre tudo os cães. Artie. Esta manhã disse a minha mãe que se não deixava de comportar-se como uma velha. -A arte? O teatro? A música? -Não. -Tem amigos? Tema delicado. Detesto-os. "Unida" podia ser uma maneira de descrevê-lo. essa sou eu a grandes rasgos. Não. Isso é tudo. E eu gosto de ver raridades pelo YouTube. porcos barrigões dançando claqué e coisas pelo estilo. E às vezes vou ao cinema. mas a culpa não é minha. -Você gosta dos animais? -Refere-te na vida real. . sobre tudo porque não deixa de perguntar por ti. Mas estamos unidos. Embora dois vivem em Nova Iorque. E eu gosto de comprar. Mas é preferível que não lhes conheça. -E suas irmãs? -A verdade é que também estamos muito unidas. -Nestes momentos não. não no YouTube? Não. sobre tudo lenços. Contarei-lhe isso outro dia. -Artie ficou inesperadamente sério-. E o que me diz de seus filhos? Tenho que lhes conhecer e assistir a cursos de fazer pão? -Não. Agarrei carreirinha. -Estamos unidos -disse com cautela-. Se fizerem um filme policíaca escandinava. -Vejo muitas séries de televisão. Sei que Bela te conheceu e isso pode gerar certo desconforto. mas nos tratamos muito mal. Não. Detesto as três coisas.-É-o tudo menos aborrecida. Eu gosto das séries policíacas escandinavas. sobre tudo a música. apoiaria uma lei da eutanásia em que cada segunda-feira pela manhã um ônibus recolhesse a todos os velhos que se queixavam de que não ouviam a televisão ou não viam as teclas do móvel ou lhes doía o quadril e lhes disparassem um tiro na cabeça.

-"Eu gosto muito. -Que é? -perguntei. muito -repetiu. -Não. está-me interpretando mal -disse-. B) Eu gosto muito. Traguei saliva. De repente. Seu rosto adotou uma expressão de interrogação cortês. E eu não gosto da bagagem que arrasta. -Esqueceste-te a C -assinalou. O que importa é que não o é.-Já. ." -Olhamo-nos fixamente-. saborear sua pele. -Enumerei os diferentes pontos com os dedos-: A) Eu gosto muito. bom. seu carinho e a maior parte de seu tempo. -A ver se o entendi bem. Baixando a voz. Você não é meu tipo. sua faísca. Mas também há coisas boas. como se de uma invocação se tratasse. deixemos claras um par de coisas. Não desejo outra coisa que estar contigo. custava-me respirar. Quer que seja seu cupincha sexual enquanto seus filhos recebem seu amor. mas agora seguro que não. Não quero ter filhos. não. -Eu não o expressaria tão cruamente -repôs. quando for um pouco mais amadurecida. Eu gosto muito. e tampouco quero me responsabilizar dos filhos de outro. -Isso não importa -disse-. Me parece bem. uma garçonete se materializou detrás dele e se levou o cartão de crédito que tinha aparecido por arte de magia em sua mão. -Artie. sua falta de fiabilidad. te acariciar o cabelo. acrescentou-: Não pensei em outra coisa desde que te vi. -Ao menos no momento -acrescentou. Olhou-me um comprido instante. -Minha norma de não me deitar na segunda entrevista fica anulada -disse. -E qual é seu tipo? Em seguida pensei no Jay Parker. beijar sua preciosa boca. Artie elevou um braço pelo espaço entre nossa mesa e a de ao lado e. -Entendo. em sua energia. te tirar a roupa. pode que queira dentro de setenta anos.

Sentei-me e a observei atentamente. Já se tinha vestido. cada condutor indeciso que nos punha diante. Que peculiar. Sei forte e me leve a uma cama ou algo que lhe pareça. era uma tortura. que era o que ia ocorrer se não nos detínhamos. Pode ficar o tempo que queira. Roçando a fronteira do sinistro. Artie introduziu alguns números e imediatamente estávamos nos levantando e ele me estava ajudando a me pôr o casaco da loja benéfica. Artie despertou quando fora ainda estava escuro. Era incrível. Cada semáforo em vermelho. . tentei atrasar algumas reuniões para que pudéssemos desfrutar da manhã juntos. para o carro e antes de me alcançá-lo agarrou e me apertou contra um portal e começou a me beijar e eu a lhe beijar a ele e finalmente tive que lhe apartar. -Geniaaaal. mas era uma planta. Ao dia seguinte. Uma aspidistra de cor verde escura. muito depressa. Não havia nada que dizer. ralentizando nosso avanço. Pelo caminho não abrimos a boca.Segundos depois a garçonete estava de volta com o datáfono. Preparei-te crepes. tão tensa como viajar de carro até um hospital com uma pessoa em estado crítico. Levou-me a sua casa. -Você gosta? -perguntou com nervosismo. -Como é lógico. só tem que fechar a porta com um golpe quando for. -Espera -disse-. -E tenho algo para ti. em plena rua. Pomos-se a andar muito. Tenho que ir trabalhar. quase negro. estava esperando um pênis ereto. Sinto muito. antes de que voltem os meninos? -Não. Meio dormida. E a beleza de Artie mesclada com a beleza de seu lar me sumiu em uma espécie de anonadamiento do que mal podia recordar nada salvo que foi uma das melhores noites de minha vida. quase correndo. perguntei-lhe: -Devo me largar agora. mas foi impossível. eu adoro. A situação resultava quase insuportável. -Caray… não sei o que dizer. Não podíamos fazê-lo aí. -Crepes? -repeti fracamente. -Não.

Não me dará medo. e era espetacular. seu trabalho exigente e seus três filhos-. como se fora uma camponesa da Idade Média que acredita na bruxaria. "Não me dá medo. "Sou mais forte que você". Artie me tinha "pilhada". Mas o que de verdade me interessava eram as fotos da Iona. Possuía um estilo boêmio chique: blusas de estopilla encolhida. mas a estrada não.-Escolhi-a eu -me informou tudo orgulhoso-. que talvez pudéssemos chegar longe. Sem a ajuda de Bela. Então vi uma foto dela com um traje do Vivienne Westwood e carmim vermelho Pomba Picasso e me pareceu tão fantástica que tive que tragar saliva para reprimir o medo. sentia uma grande curiosidade pelo Vonnie. Pensei que ficaria bem em seu piso. E menos mal que dispunha de um. texanos gastos e chinelos. Só terei que olhá-la para saber que pertencia a essa classe de mulheres que sempre estariam magras. É simplesmente perfeita. ausência de prendedor. Como pode imaginar. Era um esconderijo perfeito. mais inclusive que sua filha de quinze anos." 31 Mamãe se empenha em chamar à navegação por satélite "o Mapa Falante". Havia algumas fotos dela aqui e lá. de modo que me passeei pelo paraíso de cristal fazendo de bisbilhoteira forense. porque no obsoleto mapa não falante não aparecia nenhuma estrada no lugar onde se supunha que estava a casa do Docker. Voltei a dormir e quando despertei já era de dia. Agarrei algumas e observei sua juba vaporosa e seus belos olhos distraídos e tentei influir psicologicamente nela. Suspeitava que inclusive com a ajuda do diabólico mapa falante a casa que Docker tinha no Leitrim não ia ser fácil de encontrar. e o fato de que fora a artífice dessa casa maravilhosa só fazia que aumentar minha sede de informação. O lago sim aparecia. disse-lhe contraindo o rosto. Foi assim como compreendi que face aos impedimentos -ou seja. sem ter que fazer sacrifícios. -Tem razão. .

Entre o Docker e Wayne existe uma relação desde "o Windmill Girl". -Como averiguou que Docker tem uma casa no Leitrim? -Não precisa saber isso. -Não beneficiaria a minha imagem de superdetective lhe confessar que minha mãe o leu no Hello! -Onde está exatamente? -Joga uma olhada ao mapa. Ao fim disse: -Vamos ao Leitrim.Levava meia hora conduzindo e ainda não lhe tinha contado ao Jay Parker aonde dirigíamos. acabou-se o jogo. -por que não queria que o contasse ao John Joseph? -Sim queria… -É um embusteiro! -… só que ainda não. Jay estava tentando conter seu entusiasmo. mas este estava alagando o carro. -Me estava debatendo entre a necessidade de me fazer a misteriosa e o desejo de alardear. suponho que simplesmente queria ser cruel com ele. e devo dizer em seu favor que em lugar de me atormentar com perguntas se limitou a jogar aos pássaros zangados em seu móvel. Sabia que tramava algo grande… Caray. . -por que? -Porque Docker tem uma casa ali. sim. é boa. -Mas você e ele não estão do mesmo lado? -OH. demos com ele. Não existia nenhuma razão para semelhante demora. Incorporou-se de repente. certamente. -Que cadela te deu com o Docker? -Encontrei alguns papéis. Jay estudou minuciosamente o mapa e ao ver o longe que estava declarou: -Wayne está nessa casa.

Eram medos indescritíveis. a sua maneira discreta e provinciana. -Deus. Helen. sobre tudo. simplesmente a terrível sensação de . John Joseph tem muitas qualidades admiráveis. tremendo de pura quietude. minha visão. meus pensamentos. ouvi dizer a gente que ter uma depressão é como ser espreitado por um grande cão negro. Lagos de uma cor cinza plúmbea apareciam de forma abrupta. agora fecha o pico. -Fiz que soasse como algo terrível-. Às dez estávamos ao outro lado de Carrick-on-Shannon e a paisagem se tornava cada vez mais fantasmagórico. Ou como estar encerrado em um cubo de cristal. espreitavam a estrada e o sol eterno projetava sobre o condado uma espantosa luz azul lavanda. Jay retornou a seus pássaros zangados enquanto eu escutava Off The Ball. e de repente me acendeu uma lucecita. sempre estava assustada. Eu tinha a sensação de que tinha sido envenenada. Do estou acostumado a brotavam extensões de água cristalina atravessadas por juncos. ocorrido dois anos e meio atrás. -É certo. Mas "seguia" escutando Newstalk. Provei outras freqüências e pilhei uma emissora local que me pareceu. um pingo forçado. tinha a sensação de que os locutores eram meus amigos. meus papilas gustativas e.Seu tom era um pingo tirante. -Desviei os olhos da estrada para lhe cravar um olhar mordaz-. reconfortante. É trabalhador. Sobre tudo muito centrado. John Joseph não te cai bem! -Que coisas diz. de que meu cérebro estava produzindo toxinas marrons que o poluíam tudo. muito bom nos negócios… um homem centrado. Para mim era outra coisa. Campos alagados. Naquele primeiro e terrível assalto. Certo. mas em torno da fronteira de Longford com o Leitrim a estrada se estreitou e perdemos Newstalk. -Segue escutando Newstalk? -Não diga "segue" como se me conhecesse. vou pôr a rádio. Eu gostava de todos os programas do Newstalk.

e saber que com o tempo te passará. Soltei um bufido. quão imbecis encontrava nas classes de ioga. em que o medo se acha em seu ponto gélido. Era como estar padecendo a pior ressaca de minha vida. Estar com ele era como montar em uma montanha russa. o incremento de peso. mas não funcionou.que se morava uma catástrofe. não esta coisa catastrófica. Era como o dia depois de uma noite de farra. Mas não passou. vamos. Temia tudo o que implicava: a medicação ineficaz. Sentia que de um dia para outro tinha descendido mil novelo por debaixo da superfície. Pior que as classes de ioga. sempre era vamos. Viajamos de silêncio até que falar com o Parker me desejou muito menos desagradável que estar a sós com meus pensamentos. o de sempre. não pude escapar dela. passará e voltará a sentir o terror normal. . Agüenta um dia e. em nenhum momento me tinha passado pela cabeça que pudesse me sentir ainda pior. Não pude me separar da escuridão. -O que estiveste fazendo este último ano? -perguntei-lhe. com suas calças folgadas de linho e seu palavrório sobre "centros de energia"… Foi mais ou menos então quando perdemos a emissora local. Além disso. É só uma ressaca. disse-me. Mas no caso de uma ressaca pelo menos pode deixar a um lado os vodkatinis. as classes de ioga. sabe que pode lhe jogar a culpa às substâncias químicas. permaneci mil novelo mais abaixo. e o dia seguinte foi o pior de minha vida. os constantes pensamentos de suicídio. pode deixar a um lado todo o álcool. vamos. Para o Jay Parker era impossível não fazer nada. Sabe que a culpa não é tua. Dado o mal que me sentia já. de fato. e a partir de então lhe agarrei medo a me embebedar. Uma noite tentei apagar o horror me embebedando até quase perder o conhecimento. emocionante até que começa a te enjoar. -Nada. como todas as ressacas. Aferrei-me ao volante e rezei para não cair de novo nesse inferno.

Sempre está tramando e procurando trambiques. Contemplou a paisagem deserto-. Tinha envolto ao Harry Gilliam neste assunto e agora que estava convencida de que Wayne se fugiu voluntariamente. Helen? -O assunto do que te falei. Passeime nove meses sem dar golpe. ia preparado. -Já não. Foi só… uma criancice. já não necessito que o investigue. De todos os modos. Queria saber algo que outra gente não soubesse. Não tenho feito nada. Retomei um tema que seguia me rondando. Harry respondeu ao terceiro tom. vermelhos desbotados e um inquietante ar de abandono. Produziu-se um comprido silencio alagado de cacarejos. -O que acontece. Não podia fazer nada. -É um posto de gasolina? -perguntei-. troquei. Mas estava fechada. Havia tanto cacarejo e grasnido de fundo que mal pude lhe ouvir dizer olá. Helen. embora só fora um momento. Necessito uma Coca-cola light. -Tomou a mão e me obrigou a lhe olhar. Estive um mês sem sair da cama. Precisava fazer uma chamada sem o Jay Parker me respirando no pescoço. Tinha pinta de levar anos fechada. devia lhe dizer que o esquecesse. A sério. -por que não queria que contasse ao John Joseph o do Docker? O que te traz entre mãos? -Nada. troquei. Este trabalho com o Laddz é o primeiro que faço. Da década de 1950.-Falo a sério -disse-. Pintura descamada. Estava destroçado. . Recuperei bruscamente a mão. Seus olhos eram escuros e sinceros-. -Quer que nos peguemos isso? Em metade da paisagem espectral apareceu um edifício. Esquece que te conheço. -Tem algo entre mãos -disse-. Se esperava que me compadecesse. -Sinto interromper sua briga de galos benéfica -disse. Algo à margem de Laddz. desci do carro.

O que tinha feito com elas? as romper? as devolver discretamente a minha roupa interior? Ou tinha inserido uma em um marco floral de Aynsley para pô-la sobre a mesa ovalada com as fotos de seus netos? Com mamãe nunca se sabia. meu deus." Falava entrecortadamente. Helen. Mais cacarejos. meu deus. Umas vezes alardeava de seus princípios morais enquanto que outras gostava de pensar que estava com a juventude. Sobe ao carro. Logo a linha se cortou. "Agora entendo o que vê nele. Nunca. disse: -Encontrou a seu amigo? -Não exatamente. não podia voltar para essa casa. Mais silencio. -Tenho que te deixar. caí na conta do que era esse algo estranho: tinha encontrado as fotos." Meu deus. Sinto-o muito. "Agora entendo…" Se obrigou a continuar. -Vamos -disse ao Jay Parker-. e notei algo estranho em seu tom. Seja como for. -Tome cuidado. -Sinto muito.Finalmente." De repente. . Os cacarejos aumentaram. Era de mamãe. meu deus. Fiquei olhando um momento o telefone antes de me obrigar a avançar. -Já investi alguns recursos no caso -disse. "Margaret e eu terminamos que desembalar suas coisas. Não sei como as arrumava Harry para transmitir tanta sensação de ameaça. "Encontramos umas fotos de Artie em couros. Toca a minha galinha. com espantosa claridade. mas já não acredito que seu desaparecimento seja… preocupe-se. Estávamos demorando para chegar muito mais que as duas horas que tinha calculado. Ao momento caiu a noite e o mapa falante seguiu entrando nesse território deserto e estranho. Tinha uma mensagem de voz. -Está-me ameaçando? Ou é uma advertência? Agora mesmo não me dá bem ler entre linhas.

era evidente que se fechava eletronicamente. Desci do carro com o Jay me pisando os talões e tentei abrir a grade. mas para minha grande frustração estava hermeticamente fechada. Havia um interfone embutido no muro. improvisadamente. e embora mal podia ver na escuridão. o que alcançava a vislumbrar tinha um aspecto muito profissional. Não queria joderla. surpreendida. a ver o que acontece. -Não deveríamos… chamar? A cabeça ia a cem. Não cedeu nem um milímetro. disse-me. até que nos tivéssemos ido? Provavelmente não. Freei. Assinalou o interfone com a cabeça. olhei a um lado e outro em busca de algo com o que me ajudar. À luz alaranjada dos faróis seu rosto mostrava a mesma mescla de triunfo e preocupação que sentia eu. -Sério? -disse eu. Os faróis do carro iluminaram uma grade desalentadoramente sólida do menos três metros de altura. -Chama -disse-. Estava incrustada em um muro alto e hostil.Conduzíamos por estradas estreitas infestadas de curvas fechadas e assustadoras e por caminhos rurais que foram cedendo terreno à areia do lago. muito privado. Necessitávamos o elemento surpresa? Se Wayne descobria que Jay estava aqui. Em duas ocasiões tive que dar meia volta e retornar sobre nossos passos esquadrinhando a lôbrega paisagem em busca de algum pequeno desvio que não tivesse visto. Estava começando a me desesperar quando. Estava emocionada e ao mesmo tempo nervosa. Aproximei a mão mas a retirei um segundo depois. . o mapa falante disse: -chegou a seu destino. Olhei ao Jay. Estava tão perto de encontrar ao Wayne… tinha que entrar nessa casa como fora. retrocedi uns metros velozes e chirriantes e voltei a frear. Não era um fugitivo. A escuridão se estendia vários quilômetros à redonda e comecei a ter a sensação de que Jay Parker e eu fomos as únicas pessoas no planeta. desesperada-se. correria a esconder-se no lago. com a água até o pescoço.

Não sabia dizer se isso era bom ou mau. -Jesus! -Dava calafrios. Possivelmente conseguisse abrir a grade. com pulsações prolongadas. eu tampouco queria. Ou possivelmente não. Talvez.duvido muito que nos deixe entrar. Curiosamente. A grade permaneceu fechada e ninguém nos falou. -Há alguém aí nos olhando? -Jay soava assustado. -Volta a chamar -disse Jay. por isso ao cabo de um momento voltei a chamar. Chama você. Ou pode que só seja um dispositivo que se ativa automaticamente ao pulsar o botão. Aproximei-me do interfone e pulsei o botão. o qual indicava que provavelmente era ativada por um sensor e não por um ser humano. Uma câmara estava girando para me enfocar de cheio. Estava emocionada e nervosa e encontrava toda esta situação muito perturbadora.-Não quero fazê-lo -repôs Jay-. -Se houver alguém aí dentro -disse. Eu não entendia de eletrônica. a do Wayne? a de Glória? Escutei um zumbido sobre minha cabeça e levantei raudamente a vista. mas nada ocorreu. de modo que apertei o botão e contive a respiração enquanto aguçava o ouvido e me perguntava que voz me sairia. A câmara se ativou de novo e girou sobre minha cabeça. Afastei-me do ponto de olhe da câmara e em meio de um silêncio espectador aguardei com o Jay a que o interfone cobrasse vida. nem crave nem botões conseguiam as abrir e era preciso que um homem viesse e reprogramara todo o sistema. Bom. ou pode que emocionado. Quão único sabia era que às vezes meu artefato abria grades eletrônicas e às vezes não. Ainda não. Provei quatro ou cinco vezes mais. . Às vezes as bloqueava e nada. Mas não tinha nada de ilegal chamar um timbre. Nada ocorreu. -O que fazemos agora? -perguntou Jay. -Não sei. levava comigo um artefato eletrônico.

Estacionei junto ao alpendre. Nem rastro de ninguém. O mais espantoso de tudo: uma cadeira de montar convertida em um tamborete de três patas.a grade começou a ceder com suavidade e sigilo. Tínhamos passado tanto tempo conduzindo por campos ermos que tinha acabado por me convencer de que não daríamos com a casa. Carecíamos de um plano. Wayne e Glória tivessem apagado as luzes e se esconderam atrás do sofá. desci de um salto e em seguida procedi a avaliar a situação. E de repente a casa apareceu ante nós. Embora ao melhor não deveria esperar encontrar a um ser humano em um salão tão horroroso. apertei-o contra o lugar onde intuía que podia estar a fechadura. ao parecer.Se algo assim ocorria agora. O ou a interiorista tinha eleito. Não havia carros. possivelmente?-. Nossa aproximação ativou um foco digno de um campo de concentração que esteve a ponto de nos deixar cegos. pulsei o botão e -para meu grande alívio. embora isso não era razão para desanimar-se. mas sim imponente. vermelhos e laranjas. Não era muito grande. . Das paredes se sobressaíam chifres de vaca e havia muito objeto eqüino. Estava às escuras. o tema vaqueiro. De fato. Adornos de metal. Retornamos ao carro e entramos a toda pressa. veríamo-nos obrigados a saltar o muro. pendiam do teto. estava talher de peles de animal. Pode que para nos ouvir na grade. Diante tinha um salão decorado em marrons. e havia uma chaminé alta como um homem construída com pedras toscas. parecia que na casa não houvesse ninguém. Jargões toscos descansavam sobre os sofás de couro e vislumbrei algo que semelhava uma brida decorativa. de tablones largos. Um edifício de madeira uso Frank Lloyd Wright com janelas de dobro elevada e uma terraço voladiza com vistas ao lago. Mais focos se acenderam automaticamente e nos cobriram de uma luz branca. O chão. Ignorava o que fazer a seguir. Tirei meu artefato da bolsa. de que nunca íamos chegar a este ponto. Mas nem rastro do Wayne. também relacionados com os cavalos -renda. Apertei a cara contra a janela para ver o interior.

Um mar era vibrante e aberto e não podia te ocultar nada embora quisesse. declarou-: Não há sinal. poderiam estar fazendo todo tipo de diabruras e você sem inteirar-se. -Nesse ar puro e sereno sua voz soava incrivelmente forte-. que secretos escondiam em suas escuras profundidades. tampouco dava sinal.reverberou na noite. em troca. O silêncio -a ausência de resposta. -Precisamos entrar para poder falar com ele -disse Jay-. O que te parece se grito seu nome? -Me deixe que pense um segundo. Os lagos eram reservados. Podemos chegar a um ACORDO. Ouça. Provavelmente esteja acima. não tem feito nada MAU. Mas a adrenalina. -Temos que entrar nessa casa -disse Jay. -Mas quando tirou seu móvel. grita. -Chama -disse ao Jay-. De repente me assaltaram as dúvidas. Volta para casa conosco. Está bem. lhe Chame e tentemos falar com ele. WAYNE. Jogavam com as cartas aproximadas ao peito. Nunca sabia o que lhes acontecia realmente. Tirei meu móvel. -Como o fazemos? -perguntou Jay.de repente dava com a solução. -Certo. e nesse momento ainda mais. sou Jay. Os lagos sempre me desejavam muito exageradamente serenos e inquietantes. pôde comigo e de repente todo isso me deu igual e quão único queria era entrar na casa. . em minha opinião. em um dos dormitórios. sempre me tinham parecido um pouco petulantes. o subidón do ter tão perto. Que desolação. Um mar era como um cachorrinho (o que não queria dizer que eu gostasse). Com um mar. Como se soubessem tudo de ti e você não soubesse nada deles. sim sabia a que atenerte. Não tinha inconveniente em reconhecer que os lagos não eram santo de minha devoção. provavelmente deveríamos respeitar sua vontade. como os matrimônios aburguesados jogando aos intercâmbios de casal. -Wayne! -chamou Jay-. Wayne. Se Wayne não desejava ser encontrado. tudo vai bem.

te introduzir por ela sem te enganchar nenhuma artéria em uma parte de cristal extraviado e correr pela casa enquanto o alarme aúlla como uma endemoninhada. porque nunca se sabe. Os aspectos práticos podem representar toda uma provocação. . Pelo general tem que encontrar um objeto contundente. -Chamamos o timbre. Voltei a estampá-la. Pode que pareça divertido. Por sorte. por isso não tinha que me ver as com nenhuma janela. -por que leva uma lata de morangos no carro? -perguntou Jay. -Forçamos a porta. E guardava uma lata de morangos no porta-malas do carro. e fui recompensada com um rangido de cristais. -Martilleé o vidro até que me doeram os nódulos. estar tão perto do Wayne e ter todos esses obstáculos em nosso caminho. -E agora? -perguntou Jay. Caminhei até ela e provei o trinco. Mas não havia timbre. Doía-me um pouco a barriga. -Batemos na porta com educação. Tinha aberto uma pequena brecha com grandes gretas que se estendiam em todas direções. Obviamente. mas entrar na força em uma casa não é uma experiência agradável. neste caso a porta principal era de cristal. introduzi a mão e abri de dentro. Provei de novo e esta vez uma boa parte do vidro se desprendeu do marco. Isto era desesperador. E se não estava dentro…? Golpeei a lata contra o cristal e ricocheteou. -E agora o que? -perguntou Jay. Estava fechada com chave. Hei aí um pequeno exercício de humildade. abri-la. te perfurando o cérebro. Toco.-Abrindo a porta -disse com um gesto arrogante da mão. caiu ao chão do vestíbulo e estalou em pequenos fragmentos letais. Bom. romper uma janela. Utilizei a lata de morangos para derrubar as partes que ainda resistiam ao redor do ferrolho. -Cala. esta vez com mais força.

bolacha de chocolate-. 32 . Possivelmente significasse que ao não ter estado nunca nesta casa. Ninguém tinha passado por esta casa em muito tempo. Pomos-se a correr escada acima. E quando me precavi de que a geladeira estava desligada foi como estelar me contra um muro. queijo. só pó. ovos. Ninguém. não uivou nenhum alarme. Nem Glória. Ou possivelmente significasse uma terceira coisa. Presa do desalento. mas ignora-a e atua depressa. mas não havia nada. O que unicamente podia significar duas coisas: que na casa havia alguém. Uma vez no patamar. começaremos por ali. Talvez pensou que as grades seriam uma disuasión suficiente e se esqueceu do tema. desconcertante. Não havia ninguém nos dormitórios. tudo muito rancheiro.-Assim que abra a porta -informei ao Jay. Se crie que Wayne está acima. Nem Wayne. esmagando os cristais quebrados. Só se ouvia silêncio. Era pó -três centímetros de pó comprido tempo inalterado. um montão de mantimentos frescos -leite.elevando do chão cada vez que nossos pés chutavam a madeira. ninguém debaixo das camas. baixei concentrando na cozinha meu último pedacinho de otimismo. procedemos a percorrer as habitações a tal velocidade -havia três dormitórios.o alarme se disparará e os ouvidos nos seguirão apitando dentro de uma semana.que demorei vários segundos em compreender o que era isso estranho que estava ocorrendo. ladrando como cães e blandiendo seus porretes. Não havia ninguém aqui. Algo estranho ocorria cada vez que nossos pés golpeavam os degraus de madeira. Um silêncio inesperado. Entretanto. ou que o alarme se ativou por controle remoto e estava alertando à delegacia de polícia local. O qual queria dizer que breve um carro patrulha repleto de agentes com barriga tocinera se aproximaria zumbindo pela estrada. o qual era bom (mas também mau porque era evidente que não queriam saber nada de nós). Preparado? Abri a porta e entramos como flechas. me prometendo que ali encontraria sinais de vida. Docker não se incomodou em instalar um alarme.

Aguardei até bem entrada a noite e caminhei até o final do mole do Dun Laoghaire. Tem quase sua mesma textura viscosa. Pelo amor de Deus! Tinha a vida intenção de me humilhar até o muito mesmo final? Com passo desafiante. A água parece realmente tinta. Que me digam isso . Tinha dado por sentado que a água me engoliria imediatamente e me levaria até a terra da não dor. -Poderia te afogar nela -disse Jay-. Estava tão fria que durante um muito breve instante duvidei da decisão que tinha tomado. Todo obrigação nos abandonou e saímos a terraço com os olhos cravados nas águas tranqüilas e impenetráveis do lago. Ficamos um momento em silêncio. mas os pesos ralentizaban meu avanço. Tinha planejado até o último detalhe a vez que o tentei. como se estivéssemos em estado de shock. Na televisão sempre saem anúncios dizendo quão fácil é afogar-se. quando me importava marcar bíceps. Inclusive tinha cheio uma mochila com pesos pequenos adquiridos em outra vida. -Que curioso -disse-. como se não conseguiam entrar esses ferries gigantescos?-. contemplando suas profundidades escuras como a tinta. e tampouco Jay. e mesmo assim não consegui me sair com a minha. -Equivocam-se -lhe contradisse-. onde a água era mais profunda -por força tinha que sê-lo. -Ouça! -chamou uma voz de mulher do mole-. Enchi-me os bolsos com latas de morangos e me pus as botas mais pesadas que tinha. .O anticlímax foi tão atroz que não pude articular palavra. ao redor de um quilômetro e médio. mas o que mais me surpreendeu foi que só me chegasse até a cintura. O que faz na água? encontra-se bem? -Sim -disse-. o mais longe possível da terra e a gente. pus-se a andar para a embocadura da baía. Sozinho estou nadando. e baixei os degraus de pedra viscosa até a água negra. É muito difícil afogar-se.

-Tenho uma lanterna. Quando me deram alcance. me Deixe tranqüila. Pode que esta fora a maneira. Mas a água não estava ganhando profundidade. Um segundo homem disse: -Não está nadando. devagar. iria esfriando até sofrer uma hipotermia. -Estou nadando -vociferei com todo o aprumo que fui capaz de reunir-. O que outra coisa podia fazer ali a essas horas da noite? Segui andando. Está tentando tirá-la vida. Não se metam onde não lhes chamam. Siga passeando a seu cão. Olhe! Uma voz de homem. Um cão ladrou e um feixe de luz avançou pela superfície da água até aterrissar em minha cabeça. na água. Dava-me igual como ocorresse com tal de que ocorresse. Está tentando tirá-la vida. . vai vestida. confiando em me despenhar de um banco e ser arrastada para as profundidades. Pelo amor de Deus! É que não podiam deixar a uma pessoa suicidarse em paz? -Está você bem? -O homem da lanterna parecia preocupado. Os dentes me tocavam castanholas com violência e me notava as pernas e os pés pesados e intumescidos.Provavelmente estava passeando a seu cão. -… ali. Gente imaterial estava falando de mim. -Você crie? -É de noite. -Me deixem tranqüila -protestei ao bordo das lágrimas-. Quão único estava passando era que eu tinha cada vez mais frio. Em lugar de me afogar. faz frio. Segundos depois os dois homens e -o cúmulo da humilhação. um dos homens me tirou a mochila das costas e deixou que se afundasse. -Então será melhor que a tiremos.seus condenados cães estavam trotando pelos degraus e nadando para mim. Umas vozes chegaram para mim na noite fria e tranqüila.

tentar suicidarse não é nenhum delito. Chorando a muco tendido. a mulher e os dois homens não se conheciam.Mas entre os dois me arrastaram até os degraus enquanto os cães formavam uma flotilla feliz a meu redor. -Deveríamos pedir uma ambulância -propôs a mulher. -Logo. eu também. Não conseguirão nada aqui parados. Conforme pude elucidar. A mulher que tinha reparado em mim. a que tinha posto em marcha a missão de resgate. -O que é isso tão horrível que te ocorre para querer fazer algo assim? perguntou-me com cara de preocupação. -Não essa classe de ambulância. Tinham-me salvado a vida e agora não sabiam o que fazer comigo. -Deveríamos chamar à polícia -disse um dos homens. -Tenho uma manta no carro -disse a mulher. E agora que o penso. -Será melhor que voltemos -sugeriu um dos homens-. Não estava morta. ajudou-me a subir os últimos degraus. Sozinho molhada e transida. três de nós soltando água. reconhece que estava tentando te tirar a vida. com as vontades que tinha tido de morrer -. -Estou bem -disse-. simplesmente tinham saído a dar um tranqüilo passeio noturno com seus cães quando se . -Refere-se à ambulância com homens de bata branca? -Né… sim… -Está tiritando -disse um dos homens-. Jorrando e tiritando. Sempre encontrei aos amantes dos cães irritantemente carentes de imaginação. Demoramos uns vinte minutos em percorrer o quilômetro e médio. e a verdade é que formávamos uma turma curiosa. E aí que partimos os quatro. Pobre gente. Seguia viva. -por que? -Estava chorando agora.

Seguro que lhes entrariam vontades de pendurar quando se dessem conta de que voltava a ser eu. -Ainda me caíam lágrimas pela cara. Em seus pais? Em seus amigos? por que não tem em conta seus sentimentos? Como se sentiriam agora se a maré não tivesse estado baixa e nós não tivéssemos estado aqui? Olhei-a com os olhos banhados em lágrimas. 33 Três meses tinham transcorrido. súbitamente zangada-. não tem que suportar que a gente a notificação de egoísta. Não o faço por diversão.precaveram de que estava tentando diñarla. três meses escassos. A isso chamo eu pôr sal na ferida! Se a uma pessoa sai um lupus ou um câncer. Uma semana depois daquela primeira visita não só tinha comprado os antidepressivos. -me parece -disse um dos homens. -Talvez deveria chamar os Samaritanos. não. Estou doente. Os cães. -Não. pelo contrário. -Compadeci aos Samaritanos.que deveria ingressar em um lugar de repouso. mas sim além disso estava de novo em sua consulta suplicando que me aumentasse . estou bem. -Talvez. -Não. Quer que chame a alguém? -Não. que mais podiam lhe pedir à vida? -Tem casa? -perguntou-me a mulher-. e agora se sentiam obrigados a cercar conversação com uns completos desconhecidos. o estavam passando em grande: amigos novos e um mergulho de cabeça inesperado. -pensaste na gente que teria deixado aqui? -inquiriu a mulher. -Tenho uma depressão -expliquei-. -Ficaste-te sem trabalho? -perguntou-me um dos homens. desde minha primeira visita ao doutor Waterbury -em que me tinha mofado de sua receita de antidepressivosaté meu intento de sufoco. -Deixou-te seunamorado por outra garota? -perguntou o outro.

a dose e ansiando saber quando começariam a me fazer efeito. -Mas se de todos os modos não durmo! -protestei. nada segura. . Desassossego era o que melhor descrevia meu estado. enquanto que de noite me entrava um apetite voraz e devorava bolachas. Já não tinha estado muito animada que disséssemos. Necessito algo que me ajude de verdade. Deme soníferos. Tinha a sensação de que as pessoas a meu redor tinham sido substituídas por dobre. enormes pedaços de angústia procederam a desprender-se dentro de mim para sair à superfície. o rogo. e tinha a sensação de estar vivendo em um filme de ficção científica. mas a baixada se voltou de repente muito mais levantada. como se tivesse aterrissado em um corpo semelhante ao meu e em um planeta semelhante à Terra mas onde tudo era maligno e sinistro. Tudo me parecia feio. batatas fritas e uma terrina de cereais atrás de outro. Possivelmente porque o doutor Waterbury lhe tinha posto nome. Não me sentia nada. E também preciso dormir. O homem -amável mas firme. um desassossego elevado à milionésima potência. que não esperasse milagres. não podia comer nada. -Não me diga isso -solucei. que se me afeiçoava muito a eles não conseguiria dormir.me disse que demorariam três semanas em me fazer efeito. agressivo e estranho. me retorcendo diante dele-. Comecei a tomar as pastilhas mas aos poucos dias estava de volta na consulta do doutor Waterbury procurando uma dose maior. -Ocorreu-lhe algo que tenha provocado este… este estado de ânimo? perguntou-me. Comecei a me sentir como se me estivesse rompendo. Durante o dia tinha o estômago fechado. Receitou-me Stilnoct de 10 a contra gosto e me advertiu até ficar sem voz que eram extremamente aditivos. Como um iceberg separando-se de um témpano. O descida ao inferno tinha começado três ou quatro dias depois do diagnóstico.

Assentiu. E os ataques duravam pouco. nem sequer revista. porque se não sabia o que me passava. Bom. Tampouco o falecimento de um ser querido. -Diz-o para me fazer sentir melhor ou pior? -Nenhuma coisa nem outra. porque tinha a concentração pelos chãos. -Não. pode que sim… Alguma que outra. Oxalá tivesse havido algo. Desde não ser pelas séries de televisão no DVD. Esta. Não me tinham atracado nem roubado. não sei se me explico.-Não. ao parecer. Mas não tão mal como agora. -Nada tinha acontecido. E tampouco . Li um blog de uma pobre mulher que estava na cama com vontades de fazer pipí e que demorou sessenta e sete horas em conseguir arrastar-se até o quarto de banho. googleando "depressão". por isso nem sequer era consciente deles. Só lhe informo. nenhum trauma recente ou passado. Eu estava muito alterada. Durante a espera passei horas e horas em internet. Não decidi a propósito deixar de responder os correios eletrônicos. Olhei-o de marco em marco. deixa sem energia e paralisa. O que não queria dizer que conseguisse resultados. Meu caso era diferente. Meu estado atual me tinha cansado como do céu. -A depressão é episódica. -O que significa isso? -Significa que uma vez que aparece tende a repetir-se. como podia me repor e voltar para meu estado normal? -Há-se sentido assim outras vezes? -perguntou-me. Me fui casa a aguardar que transcorressem as três semanas. -Fiz um repasse veloz de minha vida-. Não podia ler. foi só que me teria sido mais fácil subir ao Everest que construir uma frase. e me alarmou descobrir que meus sintomas não encaixavam de tudo com os da depressão clássica. não sei o que teria feito. precisava ter coisas que fazer. Nenhuma ruptura amorosa. de maneira que a pessoa não pode fazer nada. não parar nem um momento.

em troca me animavam.mas não pelas razões adequadas. A gente me chamava para me oferecer casos novos mas eu não podia falar com eles nem lhes devolver as chamadas. Meus soníferos eram um autêntico tesouro. sobre tudo as notícias. às quais mal tinha dedicado atenção com antecedência. e transcorridos uns dias já era muito tarde e sabia que teriam decidido contratar a outra pessoa. mas eu queria morrer. Dizia-me que se havia um terremoto em outro país. eu seguia pensando que tinha mais probabilidades de que me matassem se saía à rua. existia a possibilidade de que também se produzira um terremoto na Irlanda. De fato. ou amanhã. Davam-me esperança. atentados terroristas. preferivelmente debaixo de meus pés. Via muchísima televisão. O dia que o doutor Waterbury cedeu e me estendeu a receita. De algum jeito tinha conseguido endossar a outros os poucos casos nos que tinha estado trabalhando e entrei em um lugar onde não tinha trabalho. tinha toda a intenção de fazê-lo mais tarde. acredito que era de . Mas a temporalidad começou a alargar-se. Sabia que meu estado de ânimo não era lógico. Minhas pastilhas constituíam meu bem mais prezado. em troca eu queria abraçá-lo. chorei literalmente de alívio -bom. O trabalho me deu baixa a mim. Esperava com impaciência a que fossem as onze da manhã para poder tomar meu seguinte antidepressivo e me encontrar um dia mais perto da cura. uma situação que estava decidida a que fora meramente temporário. assim que me lembrasse de falar como uma pessoa normal. Não lhe desejava mal a ninguém mais. queria que o resto da gente sobrevivesse e fora feliz. porque apesar de todas essas estatísticas de que se produziam mais acidente em casa que em qualquer outro lugar. Levava-as no bolso da calça e de vez em quando as tirava para as contemplar. Afetavam-me profundamente as notícias más -desastres naturais. para lhes cravar um olhar de confiança. que estava distorcido e ia em contra do instinto. O ser humano tentava proteger-se instintivamente do perigo. Não me dava de desce no trabalho.tomei conscientemente a decisão de não atender o telefone. não cheguei até esse extremo. cada vez que saía de casa o fazia com a esperança de que algo terrível me acontecesse. Nos foros de internet sobre depressão constatei que às pessoas lhe afligiam enormemente as catástrofes.

Entretanto. os soníferos me produziam sonhos espantosos. era oficialmente uma ameaça ao volante. sabia de antidepressivos mais que ele. Tinham experiente comigo? Tinham-me submetido ao célebre sondaje retal? Embora o sonho induzido quimicamente era preferível a horas intermináveis de espantosa vigília. . Por um lado. de noite. subia-me ao carro e conduzia durante horas. Nem sequer em minha estado de inconsciência me sentia a salvo. os ISRS. Retornei ao doutor Waterbury. poderia me ajudar com meus sintomas concretos. mas despertava me sentindo como se uns extraterrestres me tivessem abduzido enquanto dormia. o qual. as pastilhas começariam a fazer seu efeito. me sentindo como se tivesse feita uma viagem comprido e extenuante enquanto me achava fora de meu corpo. que sempre tinha estado tão orgulhosa de minha condução. todas as diferentes famílias: os tricíclicos. Mais assustada. o sonífero funcionava -me mantinha inconsciente durante sete horas-.e essa noite fui capaz de confrontar o momento de ir à cama sem o pavor acostumado e quatro episódios de Larry David. os IRSN. mas para então chorava todo o dia. Eu. Tinha a sensação de que me passava as noites ascensão a uma montanha russa enquanto gente horrível insultava.alívio. retorcidos e vívidos. mas em duas ocasiões arrebentei o pneumático dianteiro esquerdo por golpear um meio-fio sem querer. Propu-lhe que me receitasse um tricíclico menos conhecido. face ao atrozes que foram esses primeiros dias. os IMAO. depois do qual me olhou alarmado. estavam marcados pela inocência. conforme descobri em minha busca por internet. Às vezes. Tocava-me o traseiro com apreensão. porque então ainda acreditava que a medicação ia curar me. e como tinha passado tanto tempo na rede. dizia-me. mais incapaz de funcionar. Mas as três semanas chegaram e passaram e eu me sentia pior. E pela manhã chocava bruscamente com o mundo. Teve que consultá-lo em um livro. Se conseguia agüentar as três semanas de rigor. Poderia te citar textualmente cada pastilha no mercado. por isso era difícil assegurá-lo.

-Feito. -Chamou a algum dos terapeutas? . Erupções. -Se aceitar. disse: -Se aceita ver um terapeuta. a de estar acordada dentro de um pesadelo. Não passa nada. -Anotou uns nomes em uma parte de papel-. -… e uma mulher de um blog tinha a mesma sensação que eu. Não me importa sempre e quando funcionar e deixe de ter a sensação de estar em um filme de ficção científica. -Três semanas. ataque. sim -convim-. certamente. Negou com a cabeça.-Os efeitos secundários deste antidepressivo são fortes -disse-. Acúfenos. -Homem… Mas as três semanas passaram e tive que voltar. delírio. -Receitarei-lhe Cymbalta. -Estou pior -lhe informei. possibilidade de hepatite… -Sim. -Bem. -Li sobre a outra em internet… Balbuciou algo que bem poderia ter sido: "Maldita internet". e estarei bem. Só me interessavam as pastilhas. sério. -Receita-se pouco -repôs-. Um par de terapeutas que eu recomendaria. é mais seguro. perigo de esquizofrenia. Arrebatei-lhe a receita. receitará-me mais soníferos? Depois de uma larga pausa. e as pastilhas lhe ajudaram. diz. nunca o receitei. -Demorará Cymbalta três semanas em me fazer efeito? -Temo-me que sim. por que não provamos com a Cymbalta? A muitos de meus pacientes lhes deu bons resultados. Mal fiz conta. Eu.

fui ver a Antonia Kelly. você mesmo me poria um travesseiro na cara por pura compaixão.-Certamente que sim! -Faria algo que acreditasse que podia me ajudar-. mas a terapia demorará uma eternidade em fazer efeito. disse-me. Negro. Se refere a um hospital psiquiátrico? -Sim. não sofri nenhum trauma! Oxalá o tivesse sofrido! -Obriguei-me a me tranqüilizar-. é empática. Cai-me bem. Sobre tudo porque tive uma infância feliz. Estava pensando na vez que me tiraram o apêndice-. Depois de uma larga pausa. -Para que? -Era certo que não o pilhava. Mas necessito algo a curto prazo. naturalmente. Meses. pode me dar aquelas das que lhe falei? -De acordo. Mas. e embora odeie essa palavra. -Olhei-lhe com cara de pasmo-. Hão ficado de nos ver as terças-feiras. ao igual às outras. -O que quer dizer? -Quero dizer que se pudesse traduzir minha dor mental em dor física. prometo-lhe que me trabalharei meus traumas embora não os tenha. você mesmo me pegaria um tiro. Não sei se durarei três semanas. Doutor Waterbury. disse: -Acredito que deveria considerar a possibilidade de ingressar em um lugar de repouso. demorarão três semanas em lhe fazer efeito. . Um Audi TT. -E tinha um carro precioso. Gemi. em realidade-. Quero dizer que se fosse um cão. Não temos nada com o que trabalhar! -Seguro que sofreu algum trauma… -Não. Estava disposta a depositar minha confiança em uma mulher com tão bom gosto para os carros-. -Em um lugar de repouso? Do que está falando? -De um hospital. -Deus meu -disse. Pode me trocar as pastilhas? Por favor.

provavelmente com uma encantadora filmagem de minha pessoa. Tinha que reconhecer que às vezes sofria de pensamento monomaníaco -uma vez que aferrava a uma idéia era como um cão com um osso.e me estava custando digerir o muito que me tinha equivocado. Com o segura. oprobio em público. mas sim também tinha irrompido na casa de uma estrela de fama mundial.-Não estou tão mal como para isso! Só temos que acertar com as pastilhas! Deme as pastilhas más. Escreveu a contra gosto uma receita para os tricíclicos. E estava a câmara sobre a grade. mas nos tínhamos ficado tão amassados que nem nos ocorreu. que tão amavelmente a tinha aberto. Foi então quando compreendi que não tinha o que fora que terei que ter para seguir adiante. negou-se a fechála. 34 Jay Parker e eu retornamos de Leitrim em completo silêncio. e estarei genial. embora nunca tivesse estado nela. as que me provocarão ataques e esquizofrenia. quão convencida tinha estado de que tínhamos dado com o Wayne. com todos seus efeitos secundários. a grade! Jay e eu tínhamos tido que nos partir deixando-a aberta porque meu artefato mágico. caminho já do . Embora Docker não vivesse ali. a gente poderosa. não me fizeram sentir melhor. Agora. Teríamos que ter tentado tampar a imensa brecha com cartão e cinta negra -se por alguma improvável casualidade tivéssemos conseguido jogar mão de cartão e cinta negra-. tínhamos deixado a porta principal do Docker feita migalhas. Meu deus. Pior ainda. Dizer que estávamos abatidos teria sido um eufemismo. e embora me causaram uma erupção e uma fase breve (possivelmente imaginária) de acúfenos. Não só não tinha encontrado ao Wayne. não a soltava nem morta. as coisas poderiam ficar feias se decidia ir a por mim: ordens de afastamento. Tentei me tranqüilizar me dizendo que Docker nunca saberia que tinha sido eu. pode descobrir o que se proponha. rabia por parte de seus incontáveis admiradores. Mas a gente como ele.

Seguiria arranhando até que surgisse algo. era muito horripilante. -Você crie? -Seguro. Embora tivesse sido perita em cristais. Mas o faria. -Eu também. Chegamos aos vizinhos do Dublín quando o sol já começava a sair. E ainda tinham que me chegar os informe da gente do telefone e os cartões de crédito. Parecia tão deprimido como eu. Não tudo era mau. -Dormia? -Não. Era preciso arrumar essa porta. E interrogar aos vizinhos com os que ainda não tinha falado.Dublín. Tinha que lhe contar a alguém o da porta. mas a quem? Não tinha o número do Docker nem maneira alguma de me pôr em contato com ele. -Jay? Voltou-se para mim. Teria que conduzir até o centro morcillero de Clonakilty para falar com a família do Wayne. Abri a boca pela primeira vez em horas. onde quer que te deixe? Tinha a cabeça apoiada no guichê e não dava a impressão de me haver ouvido. Jay era sempre tão otimista e positivo que por uma milésima de segundo me deu pena. não me tivesse visto com ânimos de voltar para o Leitrim. a fauna local acabaria instalando-se na casa. caía na conta de que se não se repunha o cristal. -Um esgotamento lhe esmaguem me invadiu quando compreendi que teria que começar de zero. mas eu não podia fazê-lo. Isso pareceu animá-lo. Possivelmente deveria encarregar a um vidraceiro de Leitrim que a reparasse sem lhe revelar minha identidade. ao melhor. -Jay. -Bom. Estava-me perguntando onde demônios se colocou Wayne… Estava seguro de que se encontrava nessa casa. A casa do Docker estava tão inundada nos estreitos e remotos caminhos de Leitrim que já eram as três da manhã. -Encontraremo-lhe -disse. .

Helen. como se o tivessem desligado. -Mami Walsh? Vou a casa de meunamorado. Sabe perfeitamente onde vivo. -Jay acabava de carregá-la pouca boa vontade que tinha cometido o engano de mostrar para ele-. Para quando chegamos a sua casa eram as quatro e o sol já estava no alto. -Temo-me que não. Isso o deixou gelado. -Saúda mami Walsh quando chegar a casa. De repente senti raiva contra ele. por atuar como se pudéssemos desenterrar nossa velha intimidade. Com gélida cortesia. me olhem!" Jay desceu do carro e me obsequiou com uma meia sorriso. De repente ficou inerte.-É genial -disse-. Lembra-te dele? Metro oitenta e sete? Incrivelmente bonito? Trabalho bem remunerado? Ser humano essencialmente decente? . disse: -Terá que me recordar a direção. por irromper de novo em minha vida. É simplesmente genial. "me olhem. -estiveste em minha casa milhares de vezes. mas estava apanhado entre tantas emoções que não lhe saíam as palavras. -Está bem -disse com voz lenta-. Você e eu sempre formamos uma grande equipe. Podia perceber seus esforços por falar. Sempre querendo chamar a atenção. Te indicarei como chegar. o muito puñetero. -O que? -Olhou-me atônito-. por dar por sentado que recordava tudo o que tinha que ver com ele. Era como um menino que queria sair no Glee e não podia deixar de cantar e dançar. Onde quer que te deixe? -Vivo onde sempre. -Não é certo. -Tudo o relacionado contigo foi guardado em caixas e armazenado nas prateleiras mais altas de algum lugar poeirento e inacessível de meu cérebro faz muito tempo.

te esgote se quiser. a bênção das persianas. Entrei nas pontas dos pés no dormitório escuro de Artie -ah. . -Já é amanhã. dada a natureza imprevisível de meu trabalho sempre o levava tudo em cima: a maquiagem. Entrei sigilosamente na casa e me escovei os dentes. agarrou-me e me atraiu para ele. levava toda minha vida sobre as costas.e me despi com sigilo. o braço de Artie saiu disparado para mim. Quando vi duas garotas cambaleando-se sobre seus saltos de volta a casa quase esperei que se equilibrassem sobre meu carro. Pela luz parecia que fora meio-dia. Mas estavam tão concentradas em caminhar direitas que nem me olharam. De fato. Pisei no acelerador e meu carro arrancou com um chiado agradavelmente desrespeitoso. e me permiti me relaxar. Mas não o estava. inclusive o passaporte. De repente. -Estou-o. Era como se tivesse estalado uma bomba que tivesse matado a todo mundo mas deixado os edifícios intactos. entre seus maravilhosos lençóis. Podia sentir o calor de seu corpo dormido e cheirar sua preciosa pele. O sol era uma desumana bola branca em um céu branco. o carregador do móvel. -Falaremos disso manhã. -O que você diga. mas não esqueça que ainda está procurando o Wayne.-Muito bem. -Acreditava que estava dormido -sussurrei. mas as ruas estavam vazias. inclusive nos tempos em que tinha tido meu próprio teto. Sempre levava comigo minha escova de dentes. Deslizei-me com cuidado na cama. Por um estranho golpe de sorte encontrei um oco para estacionar a só duas ruas da casa de Artie. Tinha a impressão de que todos tinham morrido e eu era a única pessoa que ficava com vida. grunhindo em plano canibal. Era como um caracol.

saí da habitação e fechei a porta com cuidado. Um segundo depois recordei com uma renovada sensação de perda que já não tinha casa. estava desejando tomar um e perder o conhecimento um momento. o alívio estalou dentro de mim como uma bomba. Bode afortunado. Havia tornado a dormir. com o braço de Artie sobre mim. depois do qual notei que arqueava as costas e tremia e se esforçava por afogar seu grito de prazer por temor a que os meninos lhe ouvissem. Eu era incapaz de conciliar o sonho. na bolsa. sou um morto vivente… . pequenos beliscões quase o bastante fortes para me provocar calafrios estremecedores. Totalmente às escuras. Não podia seguir aqui deitada. logo o outro. Queria estar em um lugar onde poder dormir sem interrupções e Artie se levantava normalmente às seis. Estava muito inquieta. Esperou a que eu me corresse duas vezes -era um alívio que pelo menos essa parte de mim seguisse funcionando-. Mas o pânico ia em aumento. e logo subiu. Sou um fantasma. percorreu-me com dentadas e beijos todo o corpo. Não falávamos.Ao Artie gostava de seus polvitos matutinos. Mas não aqui. Dava-me conta de que queria ir a casa e assim que essa idéia cruzou por minha mente. Estava esgotada mas a cabeça não parava de me dar voltas. Levantei-me e me vesti às escuras sem fazer virtualmente ruído com a roupa -em que pese a meu péssimo estado. Os soníferos eram muito valiosos para esbanjar os deste modo. e de repente o tinha movendo-se dentro de mim. era todo sensação pura. Obriguei-me a respirar lenta e profundamente e me disse com severidade: "É hora de dormir. até que acreditei que ia estalar. Estou na cama com o Artie e tudo vai bem". até alcançar os dedos dos pés. Começou me mordendo o ombro. Meus soníferos se achavam a só dois metros de mim. Mas não me funcionou. Descendeu por minha clavícula e começou a rodear um mamilo. sou um espectro. Instantes depois sua respiração voltava a ser tranqüila e regular. ainda podia me orgulhar dessa habilidade admirável-. A idéia de me colocar no quarto de convidados de meus pais me desejava muito muito menos apetecível. pensei. rápido e veemente. Baixei sigilosamente a escada de cristal.

-Quando era menina sua mãe a abandonou e teve que viver em um… com o se chama a casa onde vivem as prostitutas? -Bordel. . Tinha uma corcunda nas costas e se fez drogada por isso. Às sete. Tinha visto o filme com eles? -Isso disse mamãe. -Foi um personagem trágico. Mas ela não se converteu em prostituta. carinho. -Esta noite vamos fazer um andaime. -Isso. está aqui! -Deus! -Acreditei que o coração me ia estalar do susto. Hei aí a resposta. Com refresco de gengibre caseiro. -Um personagem trágico? -De quem eram essas palavras? Pareciam do Vonnie. perguntei-me. -Que andaime? São as cinco da manhã. embora tivesse podido. -Sério? -Não estava segura de que Bela estivesse no certo. Amava a um só homem e ao dia seguinte de suas bodas este se matou em um acidente de avião. miúda má sorte. Sério?. mas sobre tudo eu adoraria me largar. -vieste para o andaime? -perguntou-me(churrasco). -Posso te pentear? -Tenho que ir. mas só tinha nove anos. não tinha nada de mau que persistisse em seu engano. Tão triste. Bela estava no meio do corredor com um pijama rosa e um copo na mão com uma bebida rosa.-Helen. Helen. -Genial. -por que não veio ontem à noite? Vimos um filme genial sobre o Edith Piaf. Justo ao dia seguinte? Se assim era. mas agora tenho que ir … -Gosta de uma taça de vinho? eu adoraria uma taça de vinho. Helen. em um bordel.

as cotas aeroportuarias e os custos do hangar? Brinca. Nnaquele tempo naquele tempo Blake era agente imobiliário. Como o caso do Bronagh e Blake. Jamais os teria imaginado juntos. Entretanto. Eu gostaria de te fazer um test. Helen? Os homens inteligentes preferem a participação. Quem me ia dizer para mim que acabaria saindo com um homem que se dedicava a semelhantes atividades? Ou pelo menos com filhos que o faziam? Que estranho isto do amor. E me teria apostado um cruzeiro a que ele tampouco era o tipo do Bronagh. De modo que o tipo não me entusiasmava. Nem em um milhão de anos te teria ocorrido que Bronagh pudesse ser seu tipo. escandaloso e amante do rugby. interrompeu-me imediatamente dizendo: "E pagar a manutenção. Quando começaram a sair quatro anos atrás. e não só porque pensava que sempre seríamos só ela e eu. Blake era um homem com um plano: faria-se promotor imobiliário. Bela. já vê. tem todas as vantagens sem os custos fixos". Vai de nossas coisas e cores prediletas.-Agora tenho que ir. Blake? por que não o avião inteiro?". triunfaria e compraria carros que rugissem e uma mansão no Kildare e outra no Holland Park e uma participação em um avião privado. Elaborei eu mesma pensando em ti. a forma em que unia a pessoas do mais díspares. Quando tentei me burlar dele dizendo: "Só uma participação. Mas nos veremos logo. -Parecia realmente triste-. -Sério? Que pena. fiquei de pedra. Também porque Blake era um machão louco pelo dinheiro. Bronagh jamais seria . mas sempre se apressava a esclarecer que se tratava de um trabalho temporário. de repente loucos o um pelo outro. mas tinha que elogiar seu gosto: entendia perfeitamente ao Bronagh. Deixava-lhe ser a louca que era. o típico tio que se casava automaticamente com loiras provocadoras de pernas largas embora lhes tivessem diagnosticado morte cerebral. verdade? Refresco de gengibre caseiro! 35 Refresco de gengibre caseiro.

e a única explicação possível era que se penetrou no Brown Thomas em metade da noite e o tinha roubado. Em um diálogo especialmente coñazo. uma garota chamada Lorraine apareceu escancarada no chão de sua sala de estar luzindo um casaco da Prada novo. . Largaremo-nos desta gororoba e beberemos uma taça em cada pub que encontremos até o Rathmines. Eu esperava que Blake lhe desse uma cotovelada e sussurrasse: "Chisss! Não diante de meus glamurosos clientes potenciais!". Aos poucos minutos de começar a obra. em lugar de retroceder horrorizados. um homem chamado Louis deu de presente seu carro (um BMW) a um sem teto e ao dia seguinte teve que chutá-la cidade procurando o homem para recuperá-lo. Bronagh se desmamou.uma esposa troféu. onde declarou: -Estou organizando uma fuga. Embora vivesse mil anos.Bronagh conduziu a todos ao bar. começaram a uivar e a chutar o chão qual lobos em lua cheia. A noite começou de forma agradável e civilizada. Quem se aponta? E os glamurosos clientes potenciais. Entretanto. e aí que empreendemos nossa histórica visita a todos os pubs que surgiam a nosso passo. Mas uma vez que ocupamos nossos assentos e as luzes se apagaram. Quando chegou o entreato -estou segura de que aos pobres atores tinha parecido que não chegava nunca. jamais organizaria jantares perfeitos. ainda com a etiqueta do Brown Thomas 1. mas eu também estava convidada.750 euros-. e quando olhei ao Blake. três membros do grupo despertaram no Tullamore sem a menor ideia de como tinham chegado até ali. muito alto: "PELO AMOR DE DEUS!". Blake a incluía como uma parte fundamental de todas as saídas com seus clientes. Uma noite Blake conseguiu entradas para uma peça de teatro no Abbey para alguns de seus clientes potenciais mais glamurosos e não recordo por que. champanha rosado no bar. apertões de mãos e muitos "É um prazer lhe conhecer". o cartão de um doador de órgãos se extraviou e apareceu mais tarde em Filipinas. adverti que estava desternillándose. Desapareceram sapatos. começou a meter-se com os péssimos diálogos. mas não abriu a boca. Bronagh disse em um tom muito.

que estranho. nunca viveria aqui. Convinha-me não esquecer esse pequeno detalhe. Não me importava pôr em risco minha vida -de fato. certamente.) SÁBADO 36 Não me estiraria no sofá. e ainda menos em uma cama. tinha muito do que estar agradecida -um casaco da Prada novo a estrear-. major era a angústia de ter perdido meu piso. (Lorraine. mas me horrorizava a idéia de prejudicar a outra pessoa. Mercy Close estava silencioso e deserto às seis e meia de um sábado pela manhã. Não tinha casa. era todo um prazer-. que não voltou a ver seu carro. Isso não estava bem. Esta não era minha casa. Levava conduzindo das oito de ontem à noite e estava tão esgotada que era um perigo ao volante. Entrei no número 4. desconectei o alarme e senti que me alagava certa calma.Entretanto. Incluído o pobre Louis. Não podia dormir e cedo ou tarde me ia tocar ir. Dez segundos mais tarde me chegou um SMS ao móvel me alertando de minha própria chegada. Bem. Mas não tinha nada de mau deitar-se no chão. como se pertencesse a este lugar. eu não vivia aqui. Depois de partir de casa de Artie tinha decidido ir ao Clonakilty para ver os pais e a irmã do Wayne. Não tinha casa. Tomei a seguinte saída e pus de novo rumo ao Dublín. disse-me. Parecia-me uma boa maneira de aproveitar o tempo. Enquanto estivesse deitada no chão do Wayne seguia trabalhando. embora seja certo que se passou seis meses vivendo com o temor de que a poli se apresentasse em sua casa. Deus. . todos os glamurosos clientes potenciais sem exceção asseguraram que tinha sido a melhor noite de suas vidas. Isso seria abusar. mas quanto mais me aproximava da cidade. o artefato funcionava. Aonde podia ir? Decidi parar em casa do Wayne porque isso contava como trabalho. de modo que por que não agora? Mas depois de quarenta minutos conduzindo por uma auto-estrada vazia comecei a ter a sensação de que sofria alucinações.

Estive um momento me passeando pela casa, notando em coisas nas que não tinha reparado antes. Na geladeira havia um desenho de um homem subido a um carro feito com lápis de cores. Alguém tinha escrito com letras torcidas "Te quero, tio Wayne" e pintado uma larga réstia de beijos. Seguidamente admirei a chaminé do salão durante sete minutos aproximadamente. Muito bonita. Tinha que ser a original, uso anos trinta e preciosas lajes de cerâmica negra com um motivo de cardos violetas e verdes. Wayne parecia um tio fantástico, pensei. Que coisas tão bonitas tinha. Um grande bocejo se apoderou súbitamente de minha cabeça e quase me desloco a mandíbula. De repente experimentei um forte cansaço e o desejo de me estirar. Que tapete tão bonito, pensei enquanto descendia sobre ela, que parquet tão bonito. Tombei-me de barriga para cima, porque enquanto estivesse deitada de barriga para cima seguia trabalhando. Girar sobre um flanco e adotar a posição fetal contaria como descanso, portanto, abuso, portanto, má prática, de modo que permaneceria de barriga para cima, contemplando o precioso teto do Wayne. Desconectaria o móvel uns minutos… Ao momento despertei sobressaltada. O coração me pulsava com força e tinha a boca seca, mas uma parte de mim se orgulhou de seguir deitada de barriga para cima. Sempre tão profissional. Procurei o móvel e o acendi. A uma e quarto. Tinha conseguido umas cinco horas de sonho. Genial, menos dia por diante. Hora de tomar minha pastilha, minha adorada pastilha. Fui me cambaleando até a cozinha, servi-me um copo de água do grifo e rezei para que houvesse uma bactéria mortal espreitando dentro. antes de me tragar o antidepressivo tive umas palavras com ele. "Funciona", insisti-lhe. "me tire esta sensação espantosa." Visualizei que percorria meu corpo aumentando os níveis de serotonina a seu passo. Mas, ah, como eu gostaria de ter um trombo pulmonar! Tratei de visualizá-lo igual a se pede aos pacientes de câncer que visualizem que aniquilam suas células cancerígenas. Minha mente viu como o trombo brotava e crescia e ficava entupido em meu coração e tudo o sangue amontoando-se detrás, como a água em uma presa, transbordandose, e eu perdendo o conhecimento…

Estaria mal que me bebesse a Coca-cola light do Wayne? Estava sedenta e necessitava algo que me animasse e havia uma garrafa na geladeira. Tecnicamente, estaria mal beber-lhe Tecnicamente, seria um roubo. Mas podia repô-la. Podia me beber toda a garrafa agora e comprar outra depois, e quando Wayne voltasse não notaria a mudança. Caso que voltasse. Pela janela da cozinha contemplei o pequeno jardim de atrás e me deixei invadir por esse pensamento: ao melhor Wayne não voltava nunca e eu podia me instalar em sua casa. Ao melhor minha vida estava a ponto de converter-se em um filme estranho em que começava a conduzir o carro do Wayne e a vestir a roupa do Wayne. Pode que até começasse a me comer sua massa e a tomar seu Cymbalta. Talvez era eu, Helen Walsh, a que ia ficar o traje branco e a cantar para os milhares de admiradores as noites da quarta-feira, quinta-feira e sexta-feira, sem que ninguém notasse a diferença. Ao melhor convertia lentamente no Wayne. Ao melhor já estava ocorrendo. Agora sim me estava começando a dar medo. Me prometendo que iria à loja nos próximos minutos, servi-me um copo da Coca-cola light e agarrei meu amado móvel. Tinham-me chegada muitas mensagens enquanto me achava na terra dos sonhos. Um de minha irmã Claire me convidando mais tarde a um andaime em sua casa. Doze -nenhum mais nenhum menos de Jay Parker me perguntando de doze maneiras diferentes se tinha encontrado ao Wayne e me informando a seguir de que John Joseph ofereceria mais tarde um andaime em sua casa e que esperava minha assistência. E um de Artie. Hei soñdo cntgo? Sta nche brbcoa. T apntas? -O que é hoje? -disse em voz alta-. O dia nacional do andaime? É decepcionante ser magnificamente sarcástica e não ter ouvintes. Chamei o móvel do Wayne e o encontrei novamente apagado, mas confiava em que se seguia chamando respondesse em algum momento. Escovei-me os dentes no quarto de banho de acima e lancei um olhar nervoso à ducha antes de cair na conta de que não podia de nenhuma das maneiras. Utilizar a

água quente do Wayne? Isso sim seria roubar. Além disso, não me tinha deitado, por isso não me tinha levantado, por isso não tinha por que tomar banho e, obviamente, o sueñecito de cinco horas no chão do Wayne não contava. Teria que me conformar me lavando a cara e as mãos. De novo na sala, obriguei-me a fazer algo desagradável e inquietante: escrever um comprido correio eletrônico ao Docker. Durante minha cabeçada tinha decidido que preferia aceitar que tinha entrado furtivamente em sua casa a viver atemorizada, olhando constantemente por cima de meu ombro, esperando ser descoberta. Titulei o assunto "Preocupada com o Wayne" e o contei tudo, que Wayne tinha desaparecido e que suspeitava que Docker lhe estava protegendo, que tinha descoberto que tinha uma casa no Leitrim e que, convencida de que Wayne se encontrava nela, tinha quebrado o cristal da porta principal e retornado ao Dublín deixando a casa a mercê dos elementos e que me preocupava que uma turma de esquilos merodeadoras colonizassem a sala de estar e se passassem o dia vendo reposições da família suricata e se negassem a partir. Não mencionei que tudo esquilo que se aprecie se oporia à espantosa decoração vaqueira, pensei que isso só conseguiria atar as coisas. O correio terminava com desculpas múltiplos e a promessa de que lhe arrumaria a porta. Como não tinha maneira de me pôr diretamente em contato com o Docker, enviei o correio a seu agente, alguém (pela menos segundo internet) chamado Currant Blazer do William Morris, que provavelmente recebia milhares de correios ao dia e provavelmente nunca abriria o meu, mas pelo menos tinha feito o correto. Estava convencida de que não havia vidraceiros no Leitrim; de fato, estava quase convencida de que ali não vivia nem uma alma -eu certamente não tinha visto ninguém-, mas uma rápida busca no Google teve como resultado uma larga lista de serviços, não só vidraceiros, a não ser chaveiros, praticantes de Reiki e até especialistas em unhas, tuda na área de Leitrim! Quem ia dizer o! Escolhi um vidraceiro ao azar, um tal Terry Ou'Dowd, telefonei-lhe e lhe contei toda a história, a grade aberta, a porta rota, tudo.

-Entendo… -disse ao auricular em um suspiro-. O estou anotando tudo. -Pela voz parecia sexagenário, lento, algo pançudo mas com uma gordura acolhedora, não uma gordura mórbida-. Esquilos, diz? -Ou possivelmente texugos. -Você-jo-nes -anotou metodicamente. Podia ouvir o roce de um lápis sobre uma folha de papel-. E a direção? A dava. De repente sua voz se animou. -É a casa do Docker! Pensa vir? -Não. -Levamos sete largos anos lhe esperando! -Não irá. -Agora mesmo se encontra em Londres, a um tiro de pedra. Com Bônus. vão apresentar uma petição no 10 do Downing Street em nome de algo. Do Darfur, acredito. -Do Tíbet. -Não acredito que seja do Tíbet. O Tíbet é um pouco 1998. ficou obsoleto, não lhe parece? Talvez tivesse razão. O Tíbet estava um pouco passado de moda. -Mas tampouco é Darfur. É… Síria! -exclamamos ao uníssono. -Graças a Deus que o recordamos -disse-. Do contrário teria me tornado louco. -Poderíamos havê-lo buscado no Google. -É certo. O que seria de nós sem o Google? Suponho que simplesmente teríamos que recordar as coisas. -Que razão tem, senhor Ou'Dowd. -Me chame Terry, Helen. -Terry então. -Traguei saliva. Tínhamos combinado de verdade, Terry e eu, e agora a coisa corria o risco de ficar violenta-. Terry, quanto ao pagamento, meu cartão

de crédito está um pouco… como lhe diria isso? Vá, que o banco a cancelou. Mas te enviarei um cheque bancário a primeira hora da segunda-feira. Enviaria-te um talão se não fora porque lhe rejeitariam isso, mas o cheque funcionará. -Graças aos maços de bilhetes que Jay Parker me tinha dado, embora isso significava ter que personarme em um banco, e suspeitava que neste estranho mundo moderno no que vivíamos algo assim já não era possível. O que faria então? Ao melhor minha frustração seria tal que me penetraria no búnker de concreto de um centro de chamadas situado quarenta e nove novelo por debaixo do chão. Milhares e milhares e milhares de empregados estariam ali sentados com os auriculares, competindo para ver quem fazia esperar mais aos clientes. Ao reparar em mim me olhariam horrorizados, uma clienta em pessoa, de carne e osso, não um infeliz sem cara ao outro lado da linha. Saltariam luzes de alarme vermelhos e uma sereia e se ativariam um montão de alto-falantes. "Alarme, intrusa! Alarme, intrusa! Contaminação! Contaminação! Isto não é um simulacro. Repetimos, isto não é um simulacro." Por Deus, que ocorrência. Melhor pedia a mamãe que me estendesse um talão em troca de dinheiro em efetivo. Possivelmente não pudesse pedir-lhe a mamãe. Não depois do das fotos de Artie. Pode que Margaret se emprestasse a me ajudar. -Então, quanto te devo, Terry? -Tendo em conta que é a porta do Docker e o bem que me tem cansado, só te cobrarei o material. A mão de obra vai por minha conta. Enviarei-te uma mensagem de texto com a quantidade. Só te peço um favor, que a próxima vez que fale com o Docker lhe diga que nos faça uma visita. Poderia fazer muito pelo Leitrim, poderia nos pôr no mapa. -Terry, me tem cansado estupendamente, mas não conheço o Docker. Nunca falarei com ele. -Só me dê sua palavra -disse- de que se algum dia lhe conhecer, falará-lhe de nós. -De acordo, farei. E te enviarei o cheque na segunda-feira. Com sorte te chegará na terça-feira.

-Não se preocupe. Arrumarei a porta hoje mesmo. E tenho um amigo que reparará a grade. Uma coisa menos da que terá que preocupar-se. Pendurei e fiquei um momento olhando o telefone. Às vezes a gente era tão amável que quase me doía. 37 Telefonei ao Artie. -sonhei contigo? -perguntou. Ri-me. -Estive ali um momento, mas não podia dormir… Estou um pouco obcecada com o Wayne, já sabe como são estas coisas. Sabia. Ele era igual. Não me falava de seu trabalho porque era tudo muito delicado e confidencial, mas sabia que se obcecava tanto como eu. -Deduzo, então, que ainda não o encontraste. -Não. -Contei-lhe o fiasco de Leitrim-. Artie, onde crie que está Wayne? perguntei de repente. Guardou silêncio. Estava pensando. Em seu trabalho tinha visto de tudo. Gente fingindo seu próprio suicídio para logo fugir-se com as malas repletas de bilhetes. Gente contratando prostitutas para seus sócios para logo lhes fazer chantagem com as gravações. -Não sei, carinho. Tudo é possível. Tudo. O comportamento humano pode chegar a extremos insuspeitados, não existem limites quanto ao que a gente é capaz de fazer… Mas seguirei pensando. Como leva o de seu piso? -Bem. -Meu tom era desafiante, inclusive combativo, porque isto tinha que acabar. Depois de uma pausa, Artie disse: -Não são conversações para as ter por telefone. -Soava triste-. Embora muitas vezes se diria que é nossa única oportunidade de desfrutar de um pouco de intimidade… Levamos uma espécie de meia vida juntos em que nos vemos mas não nos vemos porque os meninos sempre estão por meio.

-isto Artie está derivando em uma dessas angustiantes conversações sobre "fazer que o nosso funcione" e já conhece minha postura a respeito. -Às vezes tais conversações são inevitáveis. -Deixemos as coisas como estão no momento. -Certo… No momento. O que fará logo? Tenho aos meninos, mas virá de todos os modos? vamos fazer um andaime. -Sei. Encontrei a Bela às cinco da manhã. E refresco de gengibre caseiro, se não o entendi mau. -Exato. Um plano insuperável. -Ali estarei. Pendurei. Deveria telefonar ao Jay Parker, mas em lugar disso subi ao escritório do Wayne, acendi o ordenador e fiquei um momento olhando a tela, tratando de intuir a contra-senha. de repente soube. "Glória." A contra-senha tinha que ser "Glória". Tinha seis letras e estava claro que era alguém importante para o Wayne. Mas e se estava equivocada? Não, não o estava. Glória era a chave de tudo isto, dizia-me isso o coração. Com dedos trementes pulsei a "G". Logo a "L". Logo a "Ou". Me detive. Temia continuar, temia que a contra-senha não fora "Glorifica" e estivesse esbanjando uma de minhas três valiosas oportunidades. Mas me estavam esgotando os recursos. Tinha que provar isto. Teclei velozmente as demais letras e pulsei "Entro". Depois de dois segundos angustiosamente largos apareceu a mensagem: "Contra-senha incorreta". Fiquei um bom momento olhando-o. Lamentei profundamente havê-lo feito. antes de introduzir a contra-senha pelo menos tinha tido esperança. O desgosto me percorreu a feitas ondas e esperei a que a pior parte passasse. Glória seguia sendo importante neste assunto, disse-me. Muito importante. Simplesmente não sabia ainda de que modo. E cedo ou tarde o averiguaria. E quando encontrasse a Glória, encontraria ao Wayne. Além disso, ainda ficavam duas oportunidades com

a contra-senha, não tudo estava perdido. Levantei-me devagar, entrei no precioso quarto de banho do Wayne, abri o armário, agarrei seu frasco de soníferos e me perguntei se poderia roubar-lhe Quão importantes eram para ele? Em meu caso, eu sabia exatamente até o último miligrama que ficava, mas talvez não lhe importasse, pode que nem sequer reparasse em que não estavam. Obriguei-me a devolver o frasco à prateleira, fechei o armário e baixei à sala de estar. Retomei minha já habitual postura no tapete, tendida de barriga para cima, e tentei ordenar minhas idéias com respeito ao Wayne. Do que dispunha exatamente quanto a feitos reais? Tinha-me dado contra um muro no caso de Glória, e o mesmo tinha ocorrido no caso do Docker, de modo que no referente a feitos, pouca coisa ficava. Sabia que na quinta-feira pela manhã, pouco antes do meio-dia, alguém chamado Digby tinha chamado ao Wayne ao telefone fixo. Isso era um fato. Visualizei que uma almofada com a palavra "FEITO" escrita em grandes letras negras se plantava sobre um documento classificado. Eu gostei, encontrei lhe gratifique. Também era um fato que minutos depois Wayne se largou em um carro com um homem calvo e corpulento de cinqüenta e tantos anos. FEITO! De novo com a almofada imaginária. Provavelmente podia deduzir sem temor a me equivocar que o tipo calvo e corpulento de cinqüenta e tantos anos e Digby eram a mesma pessoa. Por conseguinte, Digby era a última pessoa, que eu soubesse, que tinha visto o Wayne. Por conseguinte, era de vital importância que falasse com ele. Mas lhe tinha chamado duas vezes. Quando exatamente? Tão só ontem? a de coisas que tinham ocorrido desde ontem. Não obstante, o homem não me havia devolvido as chamadas e eu sabia que não ia fazer o. Precisava averiguar mais coisas dele. Que relação tinha com o Wayne? Era um simples chofer contratado ou um amigo? A quem podia perguntar-lhe A eleição óbvia eram os Laddz. Todos tinham negado com veemência conhecer tipos cinqüentões calvos e corpulentos, mas não lhes perguntei

Embora possivelmente fora o melhor. os ensaios. Que pau. Entretanto. Chamaria o Parker e lhe pediria que acontecesse com os Laddz por turnos. agora mesmo isso era o que menos gostava. Era evidente que não queria que o encontrassem. Deveria lhes perguntar pelo Digby diretamente à cara. Agarrei o móvel. sentia curiosidade. Provavelmente não deveria fazer esses miniinterrogatorios por telefone. E face ao muito que desprezava ao Jay Parker e o muito que me desagradava John Joseph e o muito que temia ao Roger St. não disporia dessa informação até na segunda-feira como muito em breve -outras trinta e seis horas. Mas me estavam pagando para que desse com ele. Além disso. algo que tinha estado baralhando desde minha inútil busca no Leitrim: talvez deveria deixar em paz ao Wayne. O decente seria deixá-lo tranqüilo e permitir que voltasse quando o julgasse conveniente. a verdade. porque assim que recebesse os informe do Hacker bancário e o Hacker telefônico teria ao Wayne encurralado.se conheciam alguém chamado Digby. Desejava saber onde estava Wayne. Ou se tinham ouvido o Wayne falar dele. e. Se não falava com os Laddz teria que retomar meus interrogatórios a domicilio no Mercy Close. os milhares de fãs . tudo isto era uma perda de tempo. não podia me passar a vida tendida no chão. Leger. Para falar a verdade. Logo titubeei. possivelmente me estivesse apegando muito a ela. tinha que reconhecer que me tinha contagiado ligeiramente a euforia da volta de Laddz: a conta atrás até a noite da quarta-feira. E necessitava desesperadamente ter algo que fazer.e enquanto isso precisava me manter ocupada. Um trabalho era um trabalho. E seguro que estava bem se se foi em um carro com uma bolsa de viagem. Além disso. Isso significava que tinha que me levantar. Saberia exatamente onde estava. Ao não ter à pessoa diante lhe passavam por cima toda classe de "pistas" visuais. E abandonar a preciosa casa do Wayne. Um pensamento insistente se abriu passo até a superfície.

E agora dizem que têm problemas para lhes colocar os arnês metálicos. Onde estão? No teatro? -Ensaiando o número inicial. -É fabuloso -disse-. Alguém estava fazendo um andaime perto. Segue me contando. Oxalá estivesse com eles. Certamente estavam ensaiando no MusicDrome. No ar flutuava um aroma de comida. Helen. de não ser assim. Durante um momento exquisitamente estranho fui capaz de acreditar que o governo irlandês tinha aprovado uma lei para incrementar nosso índice de felicidade que obrigava a toda a população a assistir hoje a um andaime e a divertir-se. pese ao pastón que te estou pagando. -São para o número inicial. enviá-la . -Que se estiver com os Laddz? -inquiriu em um tom de voz que me avisou de que se morava um comentário sarcástico-. Talvez tinha mandado inspetores para comprovar se a gente exibia níveis aceitáveis de pulverização e. -bom dia -disse. Falaria dele com os Laddz. Acabam de chegar os trajes de cisne. -Vou para lá. -Está com os Laddz? -perguntei-lhe. -bom dia? São três e cinquenta. Os meninos voarão como se fossem cisnes. A risco de me parecer com o Frankie. Entretanto. voltemos para os fatos. solo estou com três quartas partes dos Laddz porque. Entende agora por que necessitamos ao Wayne? Essas coisas terá que as ensaiar. mas chamei o Jay Parker para me certificar. oxalá. -Não tenho tempo para discutir isso contigo. Seriamente? Fantástico. ainda não encontraste à quarta parte que falta. Teriam que ter chegado faz uma semana. salsichas e coisas assim.que tinham comprado entradas com a esperança de ver o Teatro da Ópera do Sidney sobre a cabeça do Wayne… Bem. Digby. Na rua fazia calor. Parker. A hambúrgueres. Trajes de cisne? -Só faltam cinco dias para a estréia e os trajes de cisne não chegaram até hoje. tenho os nervos de ponta.

O caso é que se Wayne houvesse tornado e o tivesse levado. 38 As estradas estavam quase vazias -o qual só fez que aumentasse minha suspeita de que todo mundo estava em um andaime preceptivo. Helen! Dava-me a volta. -Podemos falar contigo? -perguntou Cain. Comprovei se o Alfa do Wayne seguia onde sempre. resolvida e nervosa. a que terríveis lugares me transladava o cérebro.a um campo de reeducação decorado como um bar irlandês. caminhando para mim como zombies. mas às vezes está bem comprovar algo com seus próprios olhos. Ali seguia. -Lhes largue! -uivei-. Como a última vez. Eram Cain e Daisy. O que ontem via como cabelos de surfistas recém levantados hoje me desejava muito um sintoma de demência incipiente. que transbordava de luz. Um fim de semana de "farra autêntica" era um assunto arriscado. perspectiva mais assustadora se couber. o recinto se achava às escuras com exceção do cenário. Muita atividade . Caminho de meu carro ouvi alguém dizer: -Né. Tinham pinta de não haver-se penteado em um ano. abri a porta do carro e me afastei como uma bala enquanto Cain e Daisy me seguiam com o olhar como um par de pirados. já de por si uma provocação. a não ser "uma farra autêntica". Senhor. me Deixe em paz! Com mão tremente. onde teriam que passar seis meses se abarrotando de cafés da manhã irlandeses e aprendendo a "correr uma farra". me teria chegado um SMS. nada tinha trocado. E não uma farra qualquer. E pode que assim fora.e cheguei ao MusicDrome em quinze minutos. A gente corria daqui para lá. -Sentimos te haver assustado ontem -gritou Daisy. desaconsejable para mães lactantes e qualquer pessoa com tendência a episódios psicóticos.

Subi ao cenário e sorteei a coreógrafos. Não podia ver os moços mas percebia que algo ocorria. Quando me aproximei adverti que cada malha de plumas tinha enganchado um arnês metálico. como não. -Tenho um problema com as plumas -estava dizendo Frankie à encarregada de vestuário-. É a primeira vez que provam os trajes de cisne. Lottie. pessoal de vestuário e montadores com acréscimo até o epicentro de toda essa energia. -Lhes dê uns minutos. Podia perceber sua tensão. Quando me endireitei alguém gritou: -por aí vêm as pernas! Um pequeno exército chegou com três calças de plumas e ajudou aos meninos a ficar os -Dios Todopoderoso. -O que quer que te faça uma pluma? -Encarregada-a de vestuário falava com calma e doçura. -É um medo irracional. -Jay tragó saliva-. o flexível. como bebem gigantes. Segui a interminável ascensão dos cabos com a vista. Até o Roger. -Onde está Wayne? -perguntou-me. ponles las alas. com uns texanos amarelos endiabladamente rodeados -quem leva texanos amarelos?-. estava tendo dificuldades para tolerar a humilhante situação. Roger e Frankie com as pernas nuas e blancuzcas (salvo Frankie. laranjas) e o torso coberto com uma malha de plumas brancas. -Enderezó los hombros y llamó a la encargada de vestuario-. -A voz do Frankie era aguda e estridente-. e estava passeando-se . Os medos irracionais são isso! Irracionais! Jay Parker se materializou a meu lado. -Estou trabalhando nisso. Tive que dobrar tanto o pescoço que quase me caio para trás. Me inspiram um medo irracional. -A mí me susurró-: Quedarán mucho mejor con las alas.de tabuleta. Em um claro estavam John Joseph. No imaginas lo que han costado esos condenados trajes. Dois cabos de aço saíam das costas e se perdiam na escuridão infinita do teto do cenário. Se acaso… Zeezah tinha aparecido no cenário como por arte de magia. Preciso lhes fazer uma pergunta aos meninos. que as tinha. Tinham uma pinta lamentável e ridícula.

não me permitiria o ter. Finalizadas suas cuidados. -Tem que ser forte -lhe disse Zeezah lhe ajustando a cinturilla um milímetro ou dois-. cobriu-lhe a entrepierna com a mão e lhe deu um pequeno apertão. Atônita. inclusive. Porque se não estivesse procurando o Wayne. Seu aspecto tinha sido ridículo e patético com as pernas nuas. quem lhe estava contando. -Endireitou os ombros e chamou à encarregada de vestuário-.de um lado a outro. Tem que te comportar como um herói. Ou não. e a verdade é que não o reprovava. Deslizou brandamente as mãos pelas pernas do John Joseph para lhe alisar as plumas com gesto quase maternal. Lottie. tão fugaz e ousado que me perguntei se tinha ocorrido de verdade. ante meu incrédulo olhar. compreendi. simplesmente não queria seguir sendo parte do Laddz. retrocedeu e tropeçamos com a crua realidade: mais que cisnes. lhes ponha as asas. Esperando ao Wayne. . Não seria melhor proteger o de tudo isto? O insistente pensamento começou de novo: deveria deixar em paz ao Wayne. Assim e tudo. Tinha-o imaginado? Estava começando a ver coisas que não eram reais? Zeezah tinha passado ao Frankie. -Jay tragou saliva-. -me sussurrou-: Ficarão muito melhor com as asas. que tinha fobia às plumas. Ato seguido. poderia enlouquecer. -Deus Todo-poderoso. Roger e Frankie. aproximou-se de Roger St. franzindo seus lábios carnudos e ajustando as calças de cisne dos moços. observei o rosto de Jay e das demais pessoas que havia perto mas nenhuma mostrava o pasmo -a comoção.que sentia eu. mas agora era ainda pior. Mais me valia lhe encontrar. Não imagina o que hão esses flanco condenados trajes. Ninguém o tinha visto. os Laddz pareciam bonecos de neve. Seu desaparecimento não tinha nenhum mistério. No cenário se materializaram umas asas gigantes e Lottie e seus ajudantes procederam às sujeitar à costas de John Joseph. agitando sua larga juba. Leger e. afugentei o pensamento. Um quarto jogo de asas descansava em um rincão. tudo nervoso.

Digo "muito popular" porque. Diz que a gente necessita um descanso e uma cerveja. Quer que vá. um pouco déspota. Leger me parecia a classe de homem que destinaria seu prezado descanso a desfrutar de uma autoasfixia erótica em uma masmorra forrada de algemas. -Quais? Os Laddz? -No Saturday Night In. John Joseph vai dar um andaime. Já temos um homem menos. -Como sabe que irão? -Roger St. -De modo que John Joseph lhes dá umas horas livres mas todos têm que assistir a seu andaime. -Hum. Diz que será uma boa oportunidade para falar do Wayne com o Roger e Frankie. Saturday Night In era um programa de entrevistas muito popular. Diz que com o concerto à volta da esquina temos que "conter a energia". Ao igual a Zeezah. saltá-la proibição dos carboidratos.o telefone do Birdie Salaman. embora eu não o veria embora me ameaçassem com um pau. mostrou-se tão passivo-agressivo na hora de me dar -ou melhor dizendo. . Do que ia a história? -Esta noite saem na televisão -me explicou Jay. não te parece? -Está tentando que a coisa não se desmame -replicou Jay-. essa era a única razão de que a gente ainda visse o programa. parecia gostar a uma elevada proporção do público irlandês O apresentava Maurice McNice (Maurice McNice era seu nome autêntico). um caquético que levava tanto tempo à frente do Saturday Night In que Paddy Power oferecia apostas a que um dia cairia redondo e estiraria a pata em direto. Em minha opinião. E tinha reagido de forma tão estranha quando lhe perguntei por Glória. Não podia decidir se John Joseph era um déspota ou se estava metido em um assunto turvo. não me dar.-Hoje terminaremos às cinco -informou Jay-. -John Joseph diz que têm que ir -respondeu Jay-. não a comer alitas de frango semicrudas e falar de colhedoras.

Soou-me uma mensagem no móvel. e as hordas que infestavam o cenário se dispersaram. -Limpem a zona -bramou Harvey. Jay me apresentou isso como Harvey. -Não te faça muitas ilusões -disse. Existe uma lei pela que toda a Irlanda está obrigada a assistir hoje a um andaime? -Ja. Clive. -Frankie estava muito vermelho e nervoso. não podia por menos que admirar sua pouca vergonha. pequenos e vulneráveis. Que o ela compre. Era de minha irmã Claire: Pelu aplzda. dois metros. Eu estava ocupada. Batam as asas! -Isto eu não gosto de nada. lhe agradeceria -continuou isso Jay. -Os arnês já estão sujeitos ao sistema de polias -informou ao Jay-. ja não? Um homem provido de walkie-talkies e com ar de autoridade se aproximou raudamente a nós. -Adiante. Isso sim. -Batam as asas! -gritou Jay-. . estão preparados? -Estamo-lo -disse John Joseph. deixando ao John Joseph. ja sim ou um ja. Um metro. ja -respondeu cansativamente. Roger e Frankie sós. três. meninos. Bem! Vamos! O trio procedeu a elevar do estou acostumado a dando inclinações bruscas. -Posso te perguntar algo? -disse ao Jay-. -voltou-se por volta dos três Laddz-: Bem. Pdazo d cpullos vgos e intiles! Ncsito k compre 2 frangos PR brbcoa. cada vez mais acima. Os trabalhadores prorromperam em vítores e aplausos. -Lhes prepare -disse Harvey-. E um corno. Roger e Frankie não responderam.-De modo que se pudesse encontrar ao Wayne antes das nove de esta noite. o diretor de cena. quatro. Fazemos a prova? -por que não? Harvey dirigiu um gesto de cabeça a um homem instalado frente a uma larga mesa com teclados e telas de ordenador. O que significava isso? Um ja.

Os três moços seguiam no ar.-É um fenômeno -lhe disse Jay. estava morto de medo e Roger conversava pelo móvel. Tentei analisá-lo. . Frankie. oferecendo um aspecto ridículo e sinistro. Frankie. -Baixa ao Frankie -insistiu Harvey. com suas grosas pernas de plumas e suas asas gigantes. -Estou nisso. Hipnotizava. -É um fenômeno -insistiu Jay-. e cheguei à conclusão de que era seu traseiro. -Tenho vertigem! Assustam-me as plumas! me baixem daqui! me tirem de cima esta coisa! -É um fenômeno! -gritaram-lhe várias pessoas-. Agüenta. -Baixa -disse Harvey ao Clive. Só tem que te acostumar. pode que isso te abstraia. é um fenômeno. Os meninos ficaram suspensos no ar. -Tenho vertigem! -estava uivando Frankie. Era tão redondo e perfeito que enfeitiçava às pessoas. Assim que abriu a boca. em troca. deduzir de onde provinha. Foi impressionante ver o poder que tinha. como uma dessas montagens de arte moderna nos que te planta diante e diz: "Não sei muito de arte. -Bem. -Me baixem! -Lhe baixem -disse Zeezah. -Não o sou! Seguiam subindo. detenlos aí -ordenou Jay quando estiveram a uns seis ou sete metros do chão. é um fenômeno. a atmosfera no recinto trocou de repente e a gente correu a obedecer sua ordem. Frankie. Prova a cantar. -Clive fazia clique e teclava mas nada ocorria. John Joseph abriu os braços e estirou os dedos com elegância. Zeezah poderia controlar o mundo desde esse traseiro. Metendo-se no papel. o informático. mas isto é uma autêntica gororoba". -Baixa -disse Jay ao Harley.

-Não posso me tranqüilizar. -Me tirem o puto arnês! -ordenou. O estamos solucionando. Estava transmitindo sua ira com a mandíbula fechada. Dirigiu a força de sua primeiro raiva ao Jay. Resultava muito. -Senhor! -exclamou Jay-. Frankie seguia acima. Há um problema com a polia. -O que ocorre? -chiou Frankie-. uns aficionados falso e estavam pondo vistas em perigo. -Roger. e um aterrorizado enxame de montadores peludos trotou até ele para obedecer-. choramingando: -Por isso mais queiram.-Não posso. Alguém tem um Xanax? -Tenho que reiniciar o programa do Frankie -disse Clive teclando e fazendo clique como um louco-… Demorará um momento. me ajudem. Necessito um Xanax. muito efetivo. O programa não responde. Isto é ridículo -disse com uma fúria contida-. Frankie está apanhado aí acima. Lançava acusações como se fossem facas. quem também tinha aterrissado e outros montadores o estavam liberando de seu arnês-. o qual anatomicamente não era nada fácil. Eram uns ineptos. Não posso me tranqüilizar. . logo ao Harvey e. -Clive acionou seu camundongo e John Joseph e Roger começaram a baixar com suavidade. a Informático Clive. uns vagos. Todo este puto montagem é uma farsa. Enquanto isso. Não podem me deixar aqui! Tenho problemas de abandono! -Lhe tranqüilize -lhe disse Jay-. por último. muito mais aterrador que uma rabieta. -Necessito um Xanax! John Joseph tinha retornado à Terra. Necessito um Xanax! Era tal a ira de John Joseph que Frankie corria o perigo de que se esquecessem dele. -Senhorita Zeezah Mandã se aproximou com passo firme ao Roger. me Dê um Xanax para o Frankie. E os outros dois? -Vejamos.

tirou uma carteira. John Joseph deteve bruscamente seus gritos e se afastou a grandes pernadas para sentar-se na primeira fila da sala. . inclusive. que descansava em um rincão do cenário. Estava fazendo ornamento de uma serenidade e uma eficiência elogiáveis. -Como vamos dar se o perguntou alguém. John Joseph era muito afortunado de tê-la. Vamos. Vi-a ascender lentamente até o Frankie e lhe tender a pastilha. Em outras palavras. parecia muito deprimido.-De onde quer que saque um Xanax? -Será descarado! Zeezah estalou os dedos. Percebia uma diminuição de sua energia vital. Jay Parker seguia a meu lado. Foi só. -Obrigado -disse educadamente Zeezah. Tendeu-me um maço de bilhetes. a equipe lançava olhadas nervosas em sua direção enquanto esperava a que lhe acontecesse o aborrecimento e as coisas voltassem para a normalidade. Bom trabalho. Voltou-se para a escuridão da platéia. -Boa sorte -disse-. pinçou nela e plantou uma pastillita branca na palma do Zeezah. Por certo. pois os gritos do Frankie tinham amainado e a cabeça lhe pendurava agora para um lado. aqui tem mais dinheiro. face aos texanos amarelos. Já estava ficando um arnês. Tive um calafrio. lhe falando baixinho para tentar lhe tranqüilizar. Não podia ver o John Joseph. o Xanax estava começando a fazer seu efeito. -Posso interrogar já ao John Joseph e ao Roger? -perguntei-lhe. Este poderia titular-se "Linchamento". Outros duzentos euros. Uma mulher admirável. -Eu o farei -disse Zeezah. Outra montagem de arte moderna. Mas em lugar de baixar ficou com ele. Estalou-os de verdade! Acredito que nunca tinha visto ninguém fazer isso na vida real. E o dócil de Roger trotou até sua jaqueta. Claramente aterrorizado. mas o seguiu toda a energia. fechando seu manita-. mas podia senti-lo. -Alguém terá que subir -respondeu Harvey. Certontia. Tenho um Xanax para ti -gritou ao Frankie.

-Tem Wayne um amigo chamado Digby? Observei-o atentamente. Nem tics involuntários. Vê o banco e tira-o. mas te advirto que vou justo de tempo… Tampei-me os ouvidos. a quem Lottie. uma contração nas pupilas. -Alguma vez lhe ouviste falar de um homem chamado Digby? Está seguro? -Absolutamente. enquanto Roger lhe acariciava o seio esquerdo com uma pluma desencaminhada. Nada. Estava em seu elemento. Bem. estava ajustando o traje de cisne. Estava procurando a mesma reação que quando lhe perguntei por Glória. -Acreditei-lhe. "Não temo ao John Joseph Hartley. dêem-me isso tudo de repente. se puder. Vamos a essas sombras. Negou com a cabeça. em pequenas quantidades. Desci do cenário e entrei em seu formidável campo magnético. Agitou a pluma no ar com gesto teatral. me vou falar com o John Joseph. -Estate quieto! -Os alfinetes saíram disparados da boca de Lottie-. -Farei na segunda-feira. podemos falar um momento? -Naturalmente! -Assinalou o flanco do cenário-. o que fora. com a boca cheia de alfinetes." Estava teclando veementemente algo em seu portátil. encontrava-se de joelhos. Esperei a estar justo a seu lado para lhe lançar a pergunta.-Eu não gosto de fazê-lo assim. Tenho que lhe pegar isso -¿Qué? -Roger -disse-. encarregada-a de vestuário. um tremor nas pálpebras. E me dê essa pluma. Aproximei-me de Roger. Nem olhadas furtivas. Parker -protestei-. -LALALALALALAAAA! Não posso te ouvir choramingar. Quando me aproximei levantou a vista e disse cortesmente: -Helen. Precisava lhe ver a cara. -Está bem. . atenta a qualquer pista. carinho. De sombras nada.

-Que não me está contando? -Nada. -Digby? -repeti. Como já lhe terão contado.-Melhor aqui -disse colocando-o debaixo de um foco-. -Algo que esconder? -Roger me olhou como se fora idiota-. -Terá que lhe encontrar como é. . Quero que encontre ao Wayne. de repente perdeu seu ar chulesco e em sua frente apareceram gotas de suor. Dava-me a volta e retornei junto ao Jay. não há nada que não te esteja contando. Roger. Sem o Wayne estamos jodidos. -Acariciou-me a cara com a pluma. -Nunca ouvi falar dele. me acredite. Ainda não há sinais do Wayne? -Não. -Possivelmente te chame de todos os modos -disse em um tom insinuante. estou sexualmente fora de controle. Já viu a piada em que se está convertendo isto. -Seriamente? Como o que? -O que quero dizer é que todo mundo tem algo que esconder. ouviste alguma vez ao Wayne mencionar a um tal Digby? -Não. me chame se te ocorre algo. -Pode parar de fazer isso? -Não -respondeu-. -Deixa-o. Naturalmente. Sexualmente fora de controle. -O que? -Estava-me perguntando se John Joseph tem algo que esconder. Suspirei. quer? -Não posso -replicou quase com orgulho-. -De acordo. -Faço o que posso. John Joseph tem muito que esconder. Estava-me perguntando… -Não sabia muito bem aonde ia levar me isto. do contrário lhe diria isso.

-Pensava que era o fim -balbuciou Frankie. O rosto de Jay se iluminou. tendendo-se no chão-. porque não o é. aproveitarei para lhe perguntar isso a ti também. -E você. Então a notei nervosa. Wayne não tinha um amigo chamado Digby. Um Xanax sem dúvida superpotente. Digby tinha que ser o homem calvo. mas como já disse. às doze menos um minuto.-Já que estou aqui. Cada spray de bronzeador que esteve em meu poder passou frente a meus olhos. aí está Frankie! Finalmente estavam baixando ao pobre Frankie enquanto Zeezah descendia lentamente a seu lado. Abre os olhos. mas Frankie estava tão. agora acreditava. Digby não tinha formado parte da vida do Wayne antes de que este lhe chamasse na quinta-feira pela manhã. Tem Wayne um amigo chamado Digby? Ouviste-lhe falar alguma vez de um tal Digby? -Não -respondeu fracamente. Acreditava em todos. . Né. O que te contou Roger? -Não estou insinuando que Roger St. Muito diferente de quando lhe perguntei por Glória. corpulento e cinqüentão que se levou ao Wayne em carro. É a classe de tio que estaria no corredor da morte e teria a um montão de mulheres apaixonadas por ele… -Exato! lhe enviando fotos pessoais picantes… -… e escrevendo ao governador para lhe pedir que lhe comutasse a pena. portanto. -Ajoelhei a seu lado-. A gente correu a lhe retirar o arnês. mas tem o mesmo perfil. Leger seja um assassino em serie -disse pensativamente-. tão depravado que não podia manter-se em pé. Sabe se Wayne tiver um amigo chamado Digby? -Não. Zeezah? Alguma vez ouviu o Wayne mencionar a alguém chamado Digby? -Não -assegurou Zeezah. me olhando diretamente aos olhos com uma expressão pura e sincera. não conheço muito ao Wayne. que lhe tinha dado Roger. -Frankie. -Sei a que te refere.

se tinham. Decidi que teria mais probabilidades de descobrir algo novo e estimulante na sala de estar. obrigado. e tinha sabor de ciência certa que a pagava a toca telha. Pelo caminho parei em um posto de gasolina e comprei suficiente Coca-cola light para repor a que lhe tinha roubado -sim. Entrei. -Era tudo tão agradável. assim retornei ao Mercy Close. Não tinham. Ignorava o que estava procurando. levantei-me e me preparei para um novo registro. desconectei o alarme e me permiti soltar uma larga exalação. Sentindo que lhe estava faltando ao respeito. -Sim. com isso sairia do passo. sei que estou aqui. surfeando sobre a onda de açúcar. Logo. Consegui estacionar justo diante de casa do Wayne. e plátanos. Dez segundos depois recebi uma mensagem que me avisava de minha chegada. Que bem se estava aqui. dentro de uma geladeira havia alguns sándwiches de aspecto penoso com uma carne cinzenta que assegurava ser presunto. Ao parecer. mas não tinha sentido se em menos de duas horas devia voltar para o andaime de John Joseph. .Assunto esclarecido. um frio que pagava ele através da fatura da luz. Sabia que meu estômago não o toleraria. Fui à sala. No posto de gasolina me obriguei a me concentrar na seção de mantimentos. E agora o que? 39 Considerei a possibilidade de conduzir até o Clonakilty. Uma caixa de Cheerios. tirei as garrafas. Eu gostava da Coca-cola light.ao Wayne e outros quatro litros para mim. assim que uma caixa de Cheerios cortada. roubado. Estava utilizando o frio do Wayne. Logo me perguntei se não estaria sendo um pouco descarado. Meti na geladeira a Coca-cola light do Wayne e ao lado minhas garrafas. não era capaz de permanecer afastada de casa do Wayne por muito tempo. as coisas como são. só sabia que tinha que seguir fazendo-o. sentei-me no chão e comi sete punhados de Cheerios.

Na pantallita apareceu uma lista de pastas ordenadas por datas. me economize um vídeo caseiro do apito do Wayne. Simplesmente. Decididamente. pode que de . Foi tal minha surpresa que recuei até o centro da sala. Bom. supliquei ao universo. Toda classe de nudezes guarrindongas comprometedoras se terei que acreditar as coisas "filtradas" na rede. As câmaras de vídeo são o Santo Grial. A unidade estava dividida em dois.mas podia ser que tivesse esquecido abrir o resto? Não seria próprio de mim. Selecionei a mais recente. O ponto de partida mais óbvio era o aparador embutido. Eu gostava de Wayne. Logo comecei a me perguntar que aspecto teria o púbis do Wayne. sentia-me muito frágil para poder contemplar o pêlo pubiano de um desconhecido.e uma inferior integrada por cinco gavetas. Tirei a câmara da gaveta. Ou de seu pêlo pubiano.pois até esse momento pouco tinha feito nela além de me deitar no tapete e contemplar o teto. podem sê-lo. conseguia me pôr nervosa. Estava quase segura de que tinha registrado as gavetas. Estava completamente sozinha. Que não seja um apito nu. abri a pantallita e pulsei o botão do Play". filmada dez dias atrás. Um traste surpreendentemente pequeno que. e já não pude parar. conseguindo parecer inocente e culpado ao mesmo tempo. e fechei os olhos. Logo retornei nas pontas dos pés e a esquadrinhei. o Sky Box e outros aparelhos de hardware tecnológico. E se se penteava a "região" ao estilo Teatro da Ópera do Sidney. uma parte superior composta de prateleiras -que albergavam o televisor. tinha revisado a gaveta superiora -era ali onde tinha encontrado o passaporte do Wayne. a jogo com o cabelo da cabeça? Embora já não se penteava assim. mas tinha que fazer meu trabalho. não obstante. carregadores e demais artigos deprimentes. mas podia ser que o anseia de encontrar o passaporte e agitar-lhe ao Jay Parker nos narizes para me deleitar com seu fracasso me tivesse cegado? Comecei a abrir e fechar gavetas a grande velocidade e descobri cabos. não queria descobrir que tinha estado filmando nudezes guarrindongas. Mas na gaveta inferior encontrei uma câmara de vídeo. Uma nunca sabe o que pode encontrar nelas.

É meu tio preferido. -Sou disléxico -se defendia Rowan. A isto seguiu um marcado descida na estabilidade da imagem. -Estamo-nos filmando -o moço (Rowan?) dizia-. Cumpre noventa e cinco. -É um descarado. -Filma você -propunha Wayne ao Rowan. Sério?. Richard era o irmão do Wayne. Wayne aparecia em cena com um menino de uns dez anos. -Está bem -dizia a voz do Wayne-. mas que não se inteire tio Richard. A voz do Wayne estava dizendo: -Vá. aqui está Carol. te leve essa coisa daqui. Cumpro sessenta e cinco. Eu sou Rowan e este é meu tio Wayne. assim Rowan devia ser filho da irmã do Wayne. Outra vez esses óleos de pescado. Rowan. não parecia que estivéssemos em território de apitos nus. quer filmar? Depois de uma tomada imprecisa do chão. atônita. -Hoje é o aniversário da avó Carol -explicava Rowan-. -Esta é minha mãe -dizia a voz de Rowan-. Você gostaria de dizer umas palavras neste dia tão especial? Carol ria e agitava uma mão à câmara ao tempo que dizia: -Estate quieto. E esta. . Soava mais como uma feliz reunião familiar. e fui obsequiada com outra vista do chão enquanto a câmara passava à mãos de Rowan. Parecia várias décadas mais jovem. Reconhecia-a pelas fotos das prateleiras. Com o Rowan ao mando. -Não é certo! -dizia uma voz imaterial-. minha tia Vicky.tanto em tanto lhe desse de fazer-se ambas as coisas. ouviam-se risadas e vozes ocultas. possivelmente para surpreender a Glória? Mas a julgar pelos sons que emitia a câmara. e quando abri um olho vi que o objetivo avançava para a mãe do Wayne. avançamos pela casa -supus que dos pais do Wayneaté a cozinha. a garota do aniversário. pensei.

mas nos aproximamos o suficiente para ouvir uma delas dizer: -… não pode decidir-se por nenhum dos dois. e Vicky. -O estrangeiro de Albert Camus -dizia a voz de Rowan-. Encontramos à Pequena Florence. Compreendi que Wayne Diffney era um bom homem. Havia aplausos. E compreendi algo muito importante. o irmão maior de Rowan. Prosseguimos. Ben se passa o dia lendo.Havia duas mulheres -Connie. Não diga que está acesa? -Apaga-a! -exclamava Vicky-. -A ti não te passou -replicava Rowan. Era amável com os meninos.para que enfocasse o título. deixava-lhes passear-se . armado com avental e manoplas. a irmã do Wayne. -De repente Connie se endireitava e olhava diretamente à câmara-. -Já lhe acontecerá -dizia Wayne com empatia. Encontramos ao Avô Alan (pai do Wayne). Encontramos ao Ben. Assim que viram o Wayne e Rowan. Estavam bebendo vinho tinjo com as cabeças muito juntas. sua cunhadasentadas à mesa da cozinha. Wayne ensinou ao Rowan a utilizar o zoom -não podíamos lhe ver mas podíamos ouvir sua voz. -O desprezo em sua voz não conseguia ocultar a frustração e a dor que lhe produziam as mudanças em seu irmão. gritaram: "Meninos não!". duas meninas aproximadamente da idade e o rosa de Bela. e a câmara apontou rapidamente para outro lado. um adolescente que tentava ocultar desdenhosamente sua presença lendo um livro. estava tirando do forno umas salsichas em folhado e se deteve para cantar "When I'm 65" com a melodia do When I'm 64". vítores e gritos de "Que fale". Para quando o filme tocou a seu fim. a qual já não era um bebê porque engatinhava e nos lançou um barquito de plástico. as velas e todos na cozinha cantando o Aniversário Feliz. Encontramos ao Suzie e Joely. tinha os olhos chorosos. Uma estupidez. Poderiam nos demandar! Mas tudo dito em um tom afável. o qual. Agora só leão para prover. -Em realidade sim. Logo chegava o bolo.

Mas aqui se respirava um ambiente bastante tranqüilo. Pela razão que fora. Recolhi minhas coisas. Afastei-me deles porque seu medo pusilânime punha os cabelos de ponta. Qualquer sensação escura que pudesse ter estava só em meu coco. observei à trintena de pessoas congregadas a meus pés e me lembrei das palavras de Artie: "Tudo é possível. Wayne não queria seguir no Laddz e estava em seu direito. Dava por terminada a busca. Fui ao complexo residencial de John Joseph e tubo que suportar toda classe de perguntas impertinentes por parte de Alfonso antes de poder passar.livremente com uma câmara de vídeo cara e não tentava controlar sua obra. Wayne -em qualquer lugar que estivesse e meus melhores desejos para ele. Uma criada uniformizada -que não era Infanta. não tinha nada que ver com o Wayne.me conduziu pela casa até as portas de cristal maiores que vi em minha vida. A churrasqueira se instalou na terraço e Informático Clive e Infanta estavam tratando de pô-la em marcha por todos os meios. com vistas a um elaborado jardim escalonado. 40 Devia comunicar-lhe ao Jay Parker em pessoa. incluída a caixa de Cheerios. O comportamento humano pode chegar a extremos insuspeitados.estava bem. Não o estava abandonando a sua sorte. mas se via a determinação em meus olhos compreenderia que falava a sério. Queria a sua família e era evidente que eles queriam a ele. Quanto jogava já de menos. não existem limites quanto ao que a gente é capaz de fazer". Problemas para acender o carvão. e justo antes de conectar o alarme me despedi por última vez da formosa casa do Wayne. Tudo. Detive-me na terraço. Adverti que ninguém tinha começado ainda a comer. Deixar de lhe buscar era a decisão acertada. Se o dizia por telefone seguro que tentaria me fazer trocar de opinião. Todos sabíamos que cedo ou tarde John Joseph .

Ali estava Frankie. e me deu vontade de me aproximar e lhe dizer: "Agora . sem dúvida. mas que nada bem. enfeitiçando a alguma desventurada vestida com um short de denim minúsculo e botas jeamas sem meias. onde aprenderiam a "corrê-la farra do século". Afiei o olhar. A bebedora de água era Zeezah. Uma garrafa de cerveja em cada mão.) Zeezah levantou a vista e me viu. Estava jogando sua cabeça loira para trás e exibindo sua garganta bronzeada e rendo. Leger. Em teoria. entretanto. Enganos e Defeitos do Harvey parecia mais o tema de conversação. Estávamos muito longe do "Perigo de desmame". lhe soltando o cilindro ao pobre Harvey. Mas os irlandeses são muito religiosos e isso não nos impede de beber até perder o conhecimento. Averiguaria seus nomes e os proporia para um "Extremamente recomendável". e talvez tivesse suas razões para manter-se afastada da cerveja. mas o verão passado o conseguiu tanta gente que na cerimônia de entrega de prêmios se produziu uma avalanche e tiveram que anulá-la. Zeezah estava conversando animadamente com alguns montadores peludos. A verdade é que não estavam pondo nada de sua parte. não ia ficar nada bem em meu relatório. e eu diria que não estavam falando de futebol. Se eu fosse o inspetor de andaimes do governo irlandês diria que os níveis de amenidade não passavam de um mero "Aceitável". Segui observando às pessoas. (O nível mais alto: incluía micção em público. E Roger St. Água! Sem álcool! Isso. e um deles uma terceira armazenada no acréscimo. sua religião. se o alcançava recebia uma medalha do presidente da Irlanda. (Terá que dizer que estes sim estavam pondo de sua parte. Tinha-me parecido vislumbrar a alguém bebendo água. e tive a impressão de que seu rosto se escurecia ligeiramente. Mas no momento estava balançando uma garrafa de cerveja e fingindo que não era um déspota. Logo me saudou com um gesto da mão e um sorriso doce e não pude evitar lhe sorrir a minha vez. possivelmente.) Mas esta turma já podia fazer algo para levantar esse ânimo se não queria acabar na caminhonete verde caminho do campo de reeducação de Têmpera Bar.se precaveria da situação e viria a lhes jogar a bronca. o olhar ainda vidriosa pelos efeitos do Xanax.

Pode que precise ser encontrado. Aqui tem as chaves do Wayne. localizei minha barra de aço interior e me encaminhei para ele. como se captasse minha determinação. quem me estava observando atentamente-. como um Jackson Five. -por que não? Pago-te bem. Soltando o cilindro ao Lottie e a uma de seus ajudantes. -Não quero seguir procurando o Wayne. baralhando já uma solução. Mas o que podia fazer? Terá que deixar que a gente cometa seus próprios enganos. abandono. -Não. -Pode que Wayne esteja em apuros -disse-. -te haja aqui uma frase que jamais pensei que diria-. -Não é tão singelo. Podia vê-lo em sua cara. separava-se a meu passo como o mar Vermelho. agora está encantada. sim. -As passei cuidando de não lhe roçar um só cabelo. O único que lhe acontece é que não quer participar dos concertos. antes de te apresentar em urgências depois de ter tentado te cortar as veias com a lâmina descartável que tinha comprado para te barbear as pernas para ele". sim. Falando de enganos. Parecia encantado de me ver. lhe deixe em paz. Necessitam o dinheiro. -Helen! -Plantou o outro pie no chão para deixar de girar. -Não me importa o dinheiro.ri. Justo antes de lhe dar alcance deu um giro em minha direção sobre um ágil piececillo. A gente. Aceitou-as a contra gosto. -Parker. Conservava o sorriso mas seus olhos se tornaram furtivos e nervosos. -Do que está falando? -Sabia perfeitamente. Endireitei os ombros. Chegava no momento oportuno. ali estava Jay Parker. -voltou-se para o John Joseph . só seis semanas antes de que Roger haja te tornado completamente louca. mas te dou seis semanas. -Jay assinalou com a cabeça ao Frankie e Roger. agitando a garrafa e gesticulando com as mangas da camisa arregaçadas.

. Enquanto me dava a volta para ir. te esqueça do Wayne. -Espera! Voltei-me para lhe olhar. mas no fundo sabia que não. -Helen… -Parecia tão desesperado que por um momento me passou pela cabeça ceder. Nada que fazer salvo me enfrentar ao feito de que levava vinte e quatro horas sem me dar uma ducha e já não tinha mais desculpa para seguir atrasando-a. Mas só por um momento. Jay tragou saliva e se apartou a mecha de cabelo que lhe tinha cansado sobre a frente. -Não me diga? -De repente me embargou uma profunda tristeza-. me perguntando se ia ter a desfarçatez de me tocar. Sabia que estava fazendo o correto. Muitos sustentos dependem da volta do Wayne. -Busca lhe a outra pessoa. por que me sentia tão mal? Nada com o que ocupar agora a mente. -Não quero a outra pessoa. Quero a ti. -Não estou disponível. -Vos desejo o melhor -disse. -Ouça. perguntei-me durante um instante paralizador se não estaria abandonando ao Wayne a uma sorte espantosa. hei aí o motivo. -Te sinto falta de -disse quase em um sussurro. Todos eles. Pois eu sinto falta da o Bronagh. e pus-se a andar. os quais também me estavam olhando-. Nada que fazer salvo ir a casa de meus pais e reconhecer que já não tinha meu lar. Poderíamos nos ver de todos os modos? Você e eu? Observei-lhe sem responder.e Zeezah. Alargou um braço e cravei o olhar em sua mão. Então.

Nunca levava jóias. E você deveria me abraçar e chorar e dizer o muito que te alegra por mim. -Você em estado de shock? -Nos deitemos na cama para nos queixar de coisas e recuperar a calma propus. não conseguia que minha risada soasse natural. nem anéis. Tombamo-nos na cama da Mãe Superiora e me embarquei em uma diatribe sobre a gente . Parecia um eclipse de sol. abracei-a. o enorme brilhante quadrado. como se pertencesse a outro. Mas já tinha passado antes por isso. Pode que me ache em estado de shock. nada. -Bronagh -disse-. -Agora o abraço -disse. Por isso quando apareceu inesperadamente aquele dia em meu piso recém comprado pensei que estava alucinando. -Entendo. -Onde estão as lágrimas? -perguntou. -Me alegro muito por ti -disse. provemos. Isto… não deveríamos nos pôr a chiar e a dar saltos pela casa? -Claro. -Ah.A quebra de onda de escuridão que subiu por minhas vísceras quase me cega. por que tem posto esse anel? Olhou-se a mão esquerda. mas era como rir sob uma ordem. Seguir pondo um pé diante do outro. Obedientemente. Blake me pediu que me case com ele. -Não sei. -Certo. Sabia o que tinha que fazer. Até que chegasse um momento em que possivelmente já não pudesse. Demo-nos as mãos e pegamos alguns saltos e tentei chiar. nem braceletes. sim. 41 Caminho de casa de mamãe e papai me vieram algumas lembranças do Bronagh. -E… aceitaste? -Sim.

sabe? -Mas acredito que quero fazê-lo. para te casar. -Se forem brancos. -Terei que me pôr um vestido? -perguntou-me. -Tão anos cinqüenta! -Antes que utilizar uma bandeja preferiria fazer uma viagem para cada colherinha. -Talvez. talvez penetrem. -Do que está falando? Pensa adotar o sobrenome do Blake? -Suponho. . -Parecia doída-. Ah. Então. Não acreditava havê-la visto nunca com vestido. É Bronagh Keegan. Não tem que fazer nada que não queira fazer. será a única. Haverá outras? -Embora não me ocorria quem. -Para levar uma colherinha? -Por um momento não entendi do que me estava falando-. -Ponha seus texanos e seu sudadera -lhe sugeri. mas são incrivelmente repipis. Sentirei-me ridícula com vestido. -Não por muito tempo. -E me apressei a me explicar-: Sou a única porque não tem mais amigas. -Será minha dama de honra? -Claro! eu adoraria! Obrigado. Não tem que fazê-lo. mas suspeitava que ficaria bastante estranha. -Não. Sei que é uma maneira eficaz de transladar à cozinha as taças e todo o resto. Que honra! -Em realidade não o é. -Ostras. -Eu sou sua amiga. -Sua única dama de honra? -exclamou mais tarde Margaret-. Combinamos muito.que utiliza bandejas de chá-. terei que me pôr um vestido? -Pensa passar pela igreja e todo isso? -Sim.

com um buraco para colocar a cabeça. e embora a pobre desenhista isso a matou. Luzia o vestido denamorada mais singelo que tinha visto em minha vida. Parecia com o bordo das lágrimas. as sandálias. (Vê-la logo no DVD foi como ver as primeiras cenas de um filme de terror. No chão do armário. Que variedade. como se estivesse tramando um pouco disparatado. Mas não podia dizer-se que Bronagh estivesse exatamente bonita. Bronagh avançou pelo corredor com um olhar do mais demente.) Até o segundo último estive esperando que Bronagh girasse sobre seus talões e se afastasse pelo corredor. -Eu não sou uma amiga íntima para ela? -perguntou Margaret. não estou dizendo… O que quero dizer é que não tem mais amigas íntimas. claro. quando te está cravando as unhas nas Palmas porque sabe que algo horrível está a ponto de acontecer. -Certamente que sim. os sapatos tobillera. os abertos na ponta. duas dúzias de meus adoráveis sapatos altos formavam uma fileira impecável: os brilhantes. Só digo.-Claro. 42 De volta em casa de papai e mamãe encontrei todas minhas coisas desembaladas e perfeitamente guardadas. Como ia sustentar me sobre eles? Custava-me acreditar que em outros tempos -e não fazia tanto dissotivesse sido inclusive capaz de correr com eles. fez o possível por seguir suas instruções. Sobre tudo porque a cara do Blake era todo amor e gratidão. mas não pareciam fáceis. ou que fizesse algo tabu como lhe dar um morreo ao pai do Blake. A roupa pendurada no armário e a lingerie dobrada ordenadamente nas gavetas e as fotos de Artie nu deslizadas com supremo cuidado sob um pequeno montículo de meias três-quartos. Me fiquei olhando como se fora a primeira vez que os via. mas tudo saiu bem. o que quero dizer… Dizem que todas asnamoradas estão bonitas. os de pele de lagarto. Tinha pedido à desenhista que se limitasse a lhe jogar um lençol branco por cima. . Eram muito bonitos.

Estava um pouco obcecada com a Iona.olhava suas fotos e tratava de lhe transmitir telepáticamente: "Jódeme e farei que seu papaíto me queira mais que a ti". ao menos no momento. e uma manhã alcancei um ponto crítico. -Vou -disse. . Tinha passado a noite em casa de Artie. Pelo menos agora que me tinham conhecido. quando se esforçava por evitar que seus dois mundos colidissem. tinhame vestido e estava lista para partir. mas eu gostava dele.Quando saía com o Jay Parker levava saltos virtualmente cada segundo do dia. minha não existência começou a me incomodar. -Obrigado -disse em um tom algo sarcástico. Freqüentemente -quando Artie se ausentava do quarto. Com o Artie era muito diferente. Eu não gostava da situação. Ao princípio a coisa tinha ido bem. umas vezes em minha casa e outras na sua. Chegado março. -Não lhe esqueça isso. e nossa história era muito frágil para poder suportar uma análise. Se os meninos ficavam com o Vonnie tínhamos via livre. nem sob tortura. muito alto na Lista). mas o tempo que passávamos juntos e como o passávamos ainda o estabeleciam em grande parte seus filhos. sabiam que existia. mas se tocavam a ele. que tinha levado o dia antes. mas não podíamos nos deixar levar e nos ver quando gostasse. nem que tivesse tido que escutar a expressão "em marcha" um milhão de vezes enquanto alguém fritava cem mil ovos. um detrás de outro. de modo que decidi não pensar nisso. Tínhamo-nos visto ao longo de janeiro e fevereiro. muito mais discreta. Artie me tendeu um prendedor. Artie e eu tínhamos caminhado por águas muito turbulentas nos começos. Artie ficava fora de meu alcance. Nnaquele tempo naquele tempo era muito glamurosa. entretanto. de vez em quando tínhamos "nossa noite" (embora tanto a expressão como o conceito ocupavam um lugar muito. diante de minha cara. Mas jamais o teria reconhecido.

Tampouco eu a ele. -Sabe que a situação é complicada. A mierda com ele. fomos de tudo incompatíveis. mas o que podia fazer? Eu era assim. comecei a compreender que o nosso tinha terminado. agora que o pensava. e foi duro. não estava contente até que o rompia. Olhou-me com dureza. Com essa atitude sempre estaria sozinha. Estava cansada de não ser ninguém. isso não tinha trocado. -Para que? Para que possa me devolver minhas coisas? Ah. minha tristeza e o muito que lhe sentia falta de. -Sobre tudo que não me deixe nada. Pelo visto. meti-o na bolsa e me parti sem dizer uma palavra. Agarrei o prendedor. Claro que tampouco tinha esperado que durasse. procedi a empacotar meus sentimentos pelo Artie. depois de oito dias atrozes. -Podemos nos ver? -disse. portanto. esquecia-o. Curiosamente.-O que? -Não lhe acontecia um detalhe. como fazem com os carros sucata. Decidi que não responderia a suas chamadas. -Isso te ouço dizer sempre. Que demônios me passava? Tinha eleito deliberadamente o limite dos três meses para decidir que já não queria ser anamorada invisível? Mamãe estava acostumada me dizer que quando era menina e me davam de presente um brinquedo. nenhuma de minhas relações tinha durado mais de três meses. Mas não me chamou. Transcorridos vários dias sem notícias do Artie. . e estou começando a me aborrecer. o bastante pequeno para que coubesse em algum rincão poeirento de minha cabeça que não acostumasse visitar. mas esta vez me estava resultando muito mais difícil. em sua casa não há nada meu. Artie me chamou. mais duro do que tinha previsto. Empurrei e apertei até formar com eles um cubo. Sempre fazia isso com as coisas que não queria sentir. O dia que Artie e eu tivemos a briga pelo prendedor fazia exatamente três meses que nos tínhamos encontrado na feira da paróquia.

-Buscarei-te algo. Pela mochila? Estávamos tentando manter um tom alegre e amistoso. chamada a Garganta do Diabo. -Poderia te pôr isto. em que seu corpo recorda de repente que existe um pouco chamado verão. Importaria-te não dizê-la? -Certo. que o inverno não vai durar eternamente. Artie me recolheu em casa e quando subi ao carro intercambiamos um olá cauteloso mas não nos beijamos. -Artie tirou algo do porta-malas do carro. -Exato. Suponho que poderia. Quer dar um passeio comigo? -Um passeio de que tipo? No campo? -Parecia-me uma petição estranha. E levarei um picnic. -Lista do Palazos? -perguntou-. Artie… a palavra "picnic" ocupa um lugar muito alto em minha Lista do Palazos. e ao desembarcar do carro lhe olhei de cima abaixo: levava botas para caminhar.-Podemos nos ver para falar? -Temos algo de que falar? -Nunca se sabe. . Que tal se disser que levarei comida? Comida portátil? Era um formoso dia de meados de março. mas provavelmente era preferível a nos sentar para um cara a cara-. texanos. O que tenho que fazer? -Levar sapatilhas de esporte. mas por sorte para ti é o bastante bonito para não parecer ridículo. Tem impermeável? -Não. quase com assombro. uma jaqueta azul de algum material técnico moderno e uma mochila. e se chover? -Luzia um sol radiante. -A ver se o adivinho: não crie nos impermeáveis. Levou-me até uma zona afastada do Wicklow. mas estávamos na Irlanda. nem sequer nos tocamos. a classe de dia em que compreende. infestada de árvores. Uma coisa. por isso disse: -Não me volta louca. Está bem -aceitei-. -Verá.

-Riu. Tinha lingüetas de velcro nas bonecas e um capuz pequeno que. Era entalhada de cintura e me caía perfeita sobre os quadris. Mars y una botella de Prosecco. -É um desses tecidos técnicos? De uma dessas lojas? -Por minha mente cruzou uma ocorrência arrepiante-. ignoraba adónde iba a llevarnos todo esto. lhe pensa provar isso Sacó una especie de manta impermeable. dessas tão pequenas que não vale a pena abrir as dos poucos caramelos que contém. para minha surpresa (categoria: surpreendente). -Como um presente? -Estraguem -respondeu pensativamente-. era incapaz de comer. -Para mim? -Para ti. como um presente. pero aunque había tenido el detalle de prepararme mis sándwiches favoritos. . -Não sei. Era el momento de la verdad. Como você é pequena. sándwiches de ensaladilla de col y queso. -Uma jaqueta. é perfeita. -É minha talha -disse-. Bebí Prosecco de una taza blanca de plástico y aguardé. -Introduzi os braços e Artie me subiu a cremalheira. Imagino que sim. escolhi a pequena. -Então. de onde a tiraste? -Comprei-a. nem muito apertada nem muito folgada. -Da Iona? -Não. Ignoraba qué quería decirme Artie. pero sentía que estaba preparando el terreno para algo. média e grande.-O que é? -perguntei com receio. De fato. Sustentei-a a contra gosto. Como o conseguiste? -Havia três talhas: pequena. Não será… do Vonnie? -Não. descobri que eu gostava. Era negra e pesava menos que uma bolsa de Randoms.

Mares e uma garrafa do Prosecco. Parecia que fôssemos as únicas pessoas no planeta. era incapaz de comer. -E obrigado pela jaqueta. se quiser. -Costure… Arte. A frase me fez rir. ao longe estão os ursos e os lobos". -De nada. A luz era estranha e esverdeada e o sol se filtrava entre as árvores. junto à cascata. Depois de uma hora de caminho chegamos a uma cascata onde terminava o atalho. Bebi Prosecco de uma taça branca de plástico e aguardei. Passarei a noite aqui". -O que é tudo isto? -perguntei ao Artie. Levou-me por um atalho que atravessava o bosque de um vale estreito. uma janela de quatro vidros pendurada de uma árvore.-Obrigado por não dizer: "Não precisa ser um fogaréu". Coisas como: "Ocultaremo-nos aqui depois da batalha". de tanto em tanto tropeçávamos com alguma entrevista extravagante gravada em uma rocha. Essa não a assinalei ao Artie. em uma lacuna. ignorava aonde ia . de vez em quando apareciam estranhas esculturas de madeira: uma bola gigantesca feita com troncos. ao longo de um arroio caudaloso. uma peça de aspecto tétrico que parecia um corpo suspenso de barriga para baixo. Tirou uma espécie de manta impermeável. "Posso ver um cavalinho de mar no charco. sándwiches de salada-russa de couve e queijo. Ignorava o que queria me dizer Artie. Incapaz de dar um passo mais. -De nada. Para minha surpresa (categoria: encantadora). havia outra entrevista: "Quando encontrarmos o anel. "Esgotado. mas embora tinha tido o detalhe de me preparar meus sándwiches favoritos. junto a uma tosca escalerita de pedra coberta de musgo alguém tinha escrito: "Tenho que limpar estes degraus". Só se ouvia o sussurro dos ramos balançados pelo vento e a água que corria e saltava sobre as rochas. proporei-te matrimônio".

-Do que está falando? . -E? -Você gostaria? Guardei um comprido. Sem me olhar aos olhos. Era o momento da verdade. -Seu tom era quase de desdém. Finalmente. não pensava fazê-lo. Rompi a rir. Encolhi-me de ombros. -Não. mas sentia que estava preparando o terreno para algo. perguntei-lhe: -Gostaria a ti? -Sim. Não respondi. -E? -Querem te conhecer.levar nos tudo isto. conhecereis. comprido silêncio. Afastei-me uns metros e a plantei sobre a erva antes de retornar junto ao Artie e lhe tender a cortiça da garrafa do Prosecco. mas deixa a um lado essa classe de jogos. Olhou-me para ver se falava a sério. e se queria me pedir que lhe desse mais tempo. Não tinha intenção de lhe facilitar as coisas. -O que faz? -perguntou-me. -Falou-lhes que ti a seus irmãos. -Já. -Levantei-me e agarrei minha taça de plástico. disse: -Te senti falta de. Passaste-a com matrícula de honra. -Essa era a prova. Conhece ou não a meus filhos. -Não? -Não penso atirar nenhuma cortiça. -Bela ainda pergunta por ti. Lança a cortiça e se conseguir que caia na taça. -Uma prova.

-Com gesto despreocupado. Ra. -Assim que você é a amiga de papai? -disse com arrogância. levava rímel e gotejava hostilidade. -De acordo. Iona também esteve encantadora. e juntas exclamaram e uivaram o Mona que era. -Sério? -Estava girando a cortiça entre os dedos de sua mão direita. oxigenou-se o cabelo até quase aniquilá-lo. Bbble -conveio Vonnie.-maturaste. mas irrepreensível em calidez e cordialidade. O encontro oficial com a família de Artie teve lugar em sua sala de estar um sábado pela tarde. lançou a cortiça e este desenhou um arco no ar e aterrissou justo em meio da taça. porque agora ia inteiramente vestido com roupa negra e ajustada.e os encontrei a todos me esperando. onde aparecia como um preadolescente desajeitado e sorridente. Não se parecia em nada às fotos dele repartidas pela casa. Eu "me deixei cair" (Lista do Palazos) para uma taça de chá mesmo que faria o Caminho do Santiago sobre meus Louboutin antes que "me deixar cair em casa de alguém para uma taça de chá". incluída Vonnie. -Mamãe -chiou Bela-. -Certo. cambaleando-a e derrubando-a. O grande impacto foi Bruno. toda alvoroçada: -Quanto tieeeeempo. não te disse que era adorável? -A. disso não havia dúvida. só um pelín. Tinha crescido. Bela se levou uma mão ao peito e disse. Vonnie se mostrou ainda mais encantada que Bela. Nada de jantares de oito pratos. embora sem mostrar excessivo interesse em mim. sem apontar apenas. -Conhecerei-lhes -disse-. Não quero me sentir apanhada. Um pelíiiin condescendente. Dou. -Nada muito comprido para uma primeira vez. . nos Organize algo. Para minha grande surpresa (categoria: agradável). Algo… algo curto. como se tivessem diante uma boneca. Helen.

Pode que Artie tivesse outra amiga. de quem é. E -se deteve na porta para me cravar um olhar carregado de veneno. 43 . Olhei-o de marco em marco. Tinha que reconhecer que até a mim -que tinha passado um montão de tempo com o Kate. -Que demônios te passa? -perguntou-lhe Artie-. Bela afogou um gritito melodramático e Vonnie e Iona começaram a gaguejar em sua obrigação por assegurar que o tanga era delas. se era assim.que lhe jodan a ti também. largando-se da sala a grandes pernadas-. logo neguei com a cabeça. Bruno e eu as ignoramos e nos olhamos sem pestanejar: era a guerra. Mas o tom ficou estabelecido para todos os encontros futuros entre o Bruno e eu. -Se não ser de mamãe e não é da Iona e não é de Bela. No posterior interrogatório levado a cabo pelo Artie e Vonnie. -estiveste antes aqui? Nesta casa? -Né… sim. Bruno confessou ter comprado o tanga para gerar mau cilindro. Bem. -Acredito que te deixou isto. já me encarregaria disso mais tarde.me tinha impressionado a maldade do Bruno. Tirou-se um tanguita rosa do bolso e o deixou na palma de minha mão. então? Pode que papai tenha… outra amiga. Pode que estivesse atirando-se a outra. -Ou pode que… -lhe devolvi o tanga-… seja teu. -Não é meu.-Sim. A idéia me parecia tão espantosa que me entraram vontades de vomitar. De onde tiraste isso? -Que lhe jodan -lhe soltou Bruno. Em lugar disso me tinha comportado tal mal como ele. a desagradável filha de Claire. Pelo bem de uma futura harmonia tivesse devido claudicar e permitir que Bruno saísse vencedor.

muita firmeza. Ajudou-me a me pôr uma camiseta rodeada e uns texanos ligeiros que havia trazido Claire. depois de acreditar que tinha dado o passo à maturidade. Esta noite temos um andaime. convenceu-me para que me despisse e entrasse na banheira. A dor era entristecedora. Mamãe insistiu em que me pusesse nata solar de cor. cutre) verão irlandês. Vamos. em que pese a sua informalidade. . poremo-lhe ropita limpa. Era como voltar para a infância. porque esta roupa -que sem dúvida tinha roubado ao Kate. Olhou-me de cima abaixo e vi como apertava a mandíbula: não ia permitir que este navio se afundasse. rímel. onde possa vê-lo -disse-. -Não posso.Conectei o telefone ao carregador e me obriguei a pensar em quão afortunada era por dispor de eletricidade e quão afortunada era por ter um teto sobre minha cabeça e uma cama onde dormir. -Não. -Pendura-o na janela. mamãe… -É obvio que pode. ia caminho dos trinta e quatro e. Com doçura mas também muita. a vestir-se. Vamos. voltava a viver com meus pais. Entretanto. mamãe. ruge e brilho de lábios. Pelo menos está limpa. Até no de me entrar xampu nos olhos e mugir. Agora. logo tirou meu lenço de Alexander McQueen. Assim saberei que segue aqui. mamãe… -Sim. -Basta de prantos -disse me envolvendo em uma toalha-. Estava desejando me colocar na cama e tomar todos meus soníferos e me perder em muito inconsciência quando mamãe apareceu a cabeça.era idônea para o suave (isto é. -À ducha agora mesmo! -disse-. te desmame e te lave o cabelo. que lhe tinha dado ao Claire antes de meu primeiro intento de palmarla. tinha que reconhecer que de vez em quando conseguia me surpreender.

-Oooooh o que? -Percebo… como se diz? Um assunto não resolvido entre o Jay Parker e você. Não merecia a pena lhe contar que o lenço de Alexander McQueen já não tinha nenhum valor para mim. Saio com um menino. Se não ficava mais remédio. não? -Claro. -De menino nada. -De verdade que não posso. mamãe. -Já me ocorreria algo. -Perdão. -Oooooh. Um homem feito! -por que falas assim? Que programas estiveste vendo? -os de sempre. -O trabalho se acabou. American's Next Top model. -Mas seguiremos tendo entradas para o Laddz. -Não posso. -Não há nada não resolvido entre o Jay Parker e eu. -Era implacável-. -É obvio que pode. . Há dito: "Proponho-te um trato". -Significa isso que Jay Parker já não virá por aqui? -Tenha por seguro que Jay Parker não voltará a vir por aqui. compraria-as. Estremeci-me. -Lista do Palazos -repus automaticamente-. Tão mal estava já? Para estar pensando nesta vez"? -Proponho-te um trato -disse mamãe.Obedeci com um suspiro. Pensando-o bem. -Girou sobre seus talões. -Boa garota! Caso resolvido! -Né… -O que podia lhe dizer? -Conta-me o tudo. já sabe. Vêem o andaime dez minutos e logo poderá ir a trabalhar. Saio… -Em algum momento íamos ter que tirar o tema das fotos de Artie em couros-. Algo que joguem. esta vez não tinha nenhum objeto prezado que dar de presente.

Eu… -titubeei-. Que fique clara uma coisa. Fizeram-no mamãe e Margaret. disse: -Como foi ontem com a poli de tráfico? -Tirarão-me três pontos e me porão uma multa. todas ignorando a seus filhos. Por certo. -Claire interrompeu seus elogios sobre o tamanho das partes pudendas de Artie para gritar aos meninos-: Cuidado. né? Quem esteve lendo ao Jane Austen? Bem. obrigado por desembalar minhas coisas. tomava seu papel de anfitriã muito a sério. -Estou bem -disse. -Para poder fugir se me curvava. Helen. Se te for franco. Jesus. -Dez minutos -lhe adverti-. uns bodes. Se em cada festa que dava não eram hospitalizadas três pessoas como mínimo com um vírgula etílico. Os muito bodes. se não trabalhar quer dizer que pode ir ao andaime de Claire. turma de mucosos. Por Deus!) e lhe dando alegremente ao vinho. No jardim traseiro de Claire. embora não o fiz eu. vieste -me disse-. luzindo viseiras do Versace de imitação (Versace. -Em grande estima. Havia muitas amigas de Claire. Claire se passeava com garrafas do mencionado vinho enchendo taças até o muito mesmo bordo. sacudindo seus reflexos. genial. só retornei quando me contaram o das fotos de Artie. -De nada. estão lhe derramando a bebida às pessoas! -voltou-se de novo para mim-. A sério. Lhe tenho em grande estima.-Já. . Desde duzentos euros. -Sim. dez pontos. acredito que disseram. Quatro ou cinco meninos que estavam derrubando-se na erva se escorreram entre o Claire e eu. Estávamos um pouco… preocupados… com ti. sentia que tinha fracassado. a amenidade tinha alcançado já uns níveis dignos de um prêmio. por isso o líquido salpicava unhas de pés recém pintadas em tons coral. Genial. Aqui ninguém temia que o levasse a caminhonete verde de reeducação. Uma vez que passaram. E só se posso ir em meu carro. -Ah. Artie. que coisa.

e me horrorizava a idéia de uma ressaca. -Não é uma lei? Inspirou profundamente. não sabendo o que dizer. Dirigi-me à mesa da Coca-cola light com a cabeça encurvada para evitar qualquer intento de conversação. se bebia uma taça de vinho quereria outras cem. Tal como me sentia hoje. junto à churrasqueira. simplesmente . embora se de mim dependesse daria a esses cabroncetes deliciosa água do grifo do Dublín. Enfim. há duas garrafas naquela mesa. e contava com a ajuda dos maridos das amigas de Claire. genial. -Tem Coca-cola light? -Para quem? Para ti? -Ao Claire pareceu lhe surpreender que um adulto queria beber algo que não levasse álcool-. É sábado. mas me dava medo. tinham mais ou menos a mesma idade. a churrasqueira estava a cargo de um homem. Como está acostumado a ser a norma em tudo os andaimes. A idéia de pilhar uma curda era muito tentadora. os quais pululavam pelas imediações bebendo cerveja e parecendo muito maiores que suas algemas bebedoras de vinho. Uma coisa. Luzia -outra norma. faz bom tempo. Qualquer desculpa é boa para reunir-se a beber vinho. -Ninguém te obrigou? -Não.-Obrigado. por que organizaste um andaime hoje? -Não sei. neste caso Adam. se tão claro o tiver. Curiosamente. -Está… está bem? -Genial. o marido de Claire. Melhor que não bebesse. não eram maiores que elas. Tivemos que comprar porque há meninos.um avental de plástico com uma piada muito mau para recordá-lo agora. -Tome uma taça -me aconselhou imediatamente. é verão.

algo habitual entre os homens irlandeses. Tinha que me largar dali. Fechei os olhos para não ver suas espantosas caras porcinas. O ketchup era muito vermelho e a mostarda. quero dizer. Ele parecia da mesma idade que Claire. estava olhando a churrasqueira. Descansava sobre um pãozinho enorme. Kate estava ali. (Com exceção de Adam. As famílias mal educadas têm isso de bom. sentindo-se estranha e negando-se a converter-se em comida. Dava-me a volta e meus olhos subiram até a janela de um dormitório. como um círculo de morte carbonizado. Não precisava dizer adeus. Só via muita gente metendo-se hambúrgueres no corpo com ketchup. Com minha família nunca se sabe. onde as salsichas semelhavam fardos de morte gordurenta e repulsiva e o frango me fazia pensar em bebês sem cabeça. .) Alguém me passou um prato de papel com um hambúrguer em cima e me estremeci. -Helen Walsh! -exclamou.se tinham abandonado. Lancei um olhar paranóico para o jardim mas não vi concentrações de rostos sonriéndome e preparando-se para uivar: "Tem cansado!". Tinha deixado de produzir saliva? Ou era possível que o pão estivesse feito realmente de algodão? Em plano de brincadeira. A bola de algodão rodou por minha boca. nos olhando de acima com uma malevolência assustadora. Tinha sabor de algodão. aterrador. Tinha um aspecto aterrador. mas unicamente porque era bastante mais jovem que ela. e em um intento de atuar como uma pessoa normal lhe dava um bocado vacilante ao pão. de um amarelo insólito. Parecia um filme de terror. que pareciam fruto de um cruzamento com porcos. Como a mão que sai da tumba no Carrie. mas quando voltei a abri-los. De repente o jardim me pareceu infestado de uma raça de pessoas que tinham muito pouco de humanas. Procedi a me abrir passo entre os híbridos cerdihumanos para chegar à casa e poder alcançar a ansiada liberdade quando uma mulher apareceu em meu caminho como se tivesse brotado do chão. mostarda e babas jorrando por seus queixos.

a recepcionista do doutor Waterbury. uma distância muito vasta para que minha voz pudesse salvá-la. do louca que estava. e fugiu como alma que leva o diabo. -foi um prazer voltar a verte -balbuciou. Logo assustada. recebem sessões de fisioterapia ponta e finalmente lhes dão o alta. Do colégio! Que coincidência! Precisamente o outro dia fiquei com o Shannon Ou'Malley. Deveríamos ficar todas um dia. o encaixam. Estava me esforçando por parecer normal e agradável mas os músculos de minha cara se tornaram espasmódicos. por exemplo. Vê-o às vezes. A quem vê você? Sua verborréia me tinha deixado muda e caí na conta de que estava esperando que lhe respondesse. nos jogadores de futebol profissionais: rompem-se um tornozelo. -Eu… -Mas não fui capaz de seguir.Olhei-a de marco em marco. ansiando que eu dissesse algo para liberá-la. insisti-me. Faz-te mais débil. mas não é certo. Realmente foi um caso. como uma função de marionetes. impaciente por largar-se. "Responde". Josie Fogarty me estava observando de maneira estranha. Meu filho maior faz judô com o filho menor de Claire. passam uma temporada com a perna dentro de uma curiosa câmara de oxigênio que acelera a recuperação. Que humilhação. como desconcertada. Quem demônios…? -Josie Fogarty! -disse-. "Responde". Eu ainda vejo um montão de gente do colégio. Não são capazes . ao fim podia ir. e falamos de ti. Por último. Mas nunca voltam a ser o que eram. Sabia que tinha o olhar ida e que nada podia fazer para modificá-la. Provei de novo-: Eu… -A olhei com cara de súplica. De repente estava muito longe. enterrada muito dentro de mim. para nos liberar às dois deste pulso interminável no que estávamos apanhadas. Volta-te pacato. -Eu… -Não podia controlar o rosto. já sabe. por isso estou aqui. 44 Dizem que o que não te mata te faz mais forte. Mas ao fim tinha o caminho livre. Algo terrível me estava ocorrendo: não podia responder. Mas me achava doze mil quilômetros por detrás de minha cara.

Pode que os mais cínicos entre nós se perguntassem se tinham sido convidados por seu atrativo físico. A cor de fundo era azul forte.se achava em um ponto perfeito. Os convidados pareciam estar formados por vizinhos. A busca do Wayne tinha estado me mantendo a flutuação. Vonnie jamais deixaria algo assim ao azar. tirado de uma revista. parecia. E aqui estava. mas vivia com o temor de que se repetisse.de entregar-se ao jogo com a mesma agressividade. Estava-me afundando com rapidez. Sem dúvida alguma. mas seguro que se tratava de um processo muito mais engenhoso. Não me surpreenderia que os inspetores fizessem dela um folheto. as deixando ali onde aterrissavam. Ou talvez não. Ao Artie gostava das mulheres fortes e eu não me sentia forte. o andaime dos Devlin podia optar por uma Gold Star.e fazer com elas um acerto surpreendente. como exemplo para outros sobre como devia fazer-se. . Embora parecia ter iniciado sua descida -eram mais das oito. têm descoberto sua desconcertante vulnerabilidade e instintivamente não podem evitar tentar proteger-se. Mas hoje tinham feito um esforço especial com o céu. com seu terraço e com sua grama impecável. como sempre. Parecia que alguém -provavelmente Vonnie. neste momento não. repetindo-se. Não porque seu tornozelo esteja mais fraco que antes. Agora não tinha nada. mas sim porque têm descoberto a dor. Já só o jardim. colegas de trabalho e amigos dos filhos. mas pelo que fora isso nunca ocorria. Talvez me tranqüilizasse ver o Artie. Eu tinha "sobrevivido" a um ataque de depressão. mas tinham conseguido abastecer-se de algumas nuvens ligeiras como plumas -muito brancas e com um matiz rosa no fio.tivesse agarrado um punhado de nuvens e as tivesse esparso despreocupadamente pelo céu. mas eu sabia que não. Adeus à inocência. No caso improvável de que uma pessoa feia entrasse na órbita dos Devlin. O ambiente era animado mas não buliçoso. seria tratada com a mesma cordialidade e calidez que as pessoas bonitas.

Alguma vez não está aqui? Riu e me deu um abraço. a cargo da churrasqueira de hambúrgueres. -Estou-lhe olhando. -Posso te tentar? -Artie assinalou a churrasqueira. deslocando os molhos um nanocentímetro à direita para criar uma fileira perfeita. -Necessita um corte de cabelo. -Quer que me corte o cabelo. -Mas… -A longitude do cabelo de Artie não era assunto do Vonnie. -Lhe diga que se corte o cabelo. Estavam divorciados. Embora Artie se deixasse o cabelo até os joelhos. me deixando a sós com o Artie. -Não o necessita. seguiria sem ser assunto dele. -vamos ver o Artie -propôs. Um tio com classe. . junto aos ciprestes. -Girei o torso para poder olhá-la diretamente aos olhos-. -Não havia necessidade de mencionar que não tinha comido nada em nenhuma delas. -Seus olhos faiscaram-. Não luzia um avental com a frase "Parrillero de vocação". -Lhe diga que se corte o cabelo. -Lhe olhe -disse Vonnie. -Sempre o faz -insinuei. Não -repeti. em que pese a tudo. preferi ter a boca fechada. -E se largou. -Não quero que se corte o cabelo. -Não. te fará conta. Artie se achava ao fundo do jardim. -Outra vez aqui? -perguntei-lhe-. -Uau.E falando do Vonnie. ali estava. -A que veio isso? -perguntei-lhe.mas não com um hambúrguer. São dura de cortar. Hoje já estive em dezessete andaimes.

-Devo te advertir que Bela anda te buscando. elaborou um test de personalidade pensando em ti. -Certo. -Distraiu-me a salada-russa de couve. Era desconcertantemente bonita. Fiquei olhando-a. Continha unicamente couve, verdura que detestava, mas era de uma beleza deliciosa. O que lhe tinham feito? Iona me aproximou com uma taça de vinho branco em uma mão e um copo do tão anunciado refresco de gengibre na outra. Bebi o refresco de gengibre mas rejeitei o vinho. -Coca-cola light, então? -perguntou-me. Assenti agradecida. -Volto em dois segundos. Pisando em forte, Bruno se passeava com seu traje negro, os maçãs do rosto cor carmim e uma franja monumental. Ao passar por meu lado balbuciou: -O que faz ela aqui? -Mamar-lhe a seu papai -balbuciei a minha vez. E nesse momento chegou Bela com uma tabuleta do Hello Kitty e ares de suficiência. -Helen, quanto me alegro de verte. provaste o refresco de gengibre? É caseiro. -Está delicioso. Iona foi para me buscar uma Coca-cola light. Bela se voltou para a cozinha. Iona retornava nesse momento com um copo. -Iona -uivou Bela-. Date pressa com a bebida da Helen! Iona me pôs o copo na mão. -Obrigado, Iona -disse secamente Bela. Logo se voltou para mim-: Necessitamos intimidade para isto, Helen. Levou-me a estudo, o lugar mais alto da casa, uma vagem de cristal sustentada por um ramo de aço que me sobressaía do tronco principal do edifício. Todas as paredes, incluído o teto, eram de cristal. Constituía uma proeza de engenharia tal que me dava medo pensar nela por temor a que o coração me estalasse.

Bela me convidou a me sentar em um beanbag prateado e ela tomou assento em uma cadeira. Sob meus pés podia ver o jardim, os convidados, inclusive a saladarussa de couve. A gente começava a partir. Bem. Pode que não demorasse para poder ficar a sós com o Artie. -Nervosa pelo que possa revelar o test? -perguntou-me Bela. -um pouco. -É normal -disse-. Deixa que te explique. Farei-te uma pergunta com quatro respostas possíveis: A, B, C e D. Só tem que me dar a resposta que te pareça correta. Tem que entender, Helen, que não existem as respostas equivocadas. Não lhe pense isso muito, simplesmente responde. Ficou-te claro? Assenti com a cabeça. Já estava esgotada. -Comecemos, então. Qual é sua cor preferida? -Tinha a caneta (rosa, é obvio) colocado sobre a tabuleta, cujo contido escondia com a mão-. Rosa, lunares, raias ou pára-quedas? -Pára-quedas. -P-ra-ca-í-das -pronunciou com os lábios ao tempo que marcava a casinha-. Tal como esperava. Está lista para a seguinte pergunta? Se pudesse ser uma hortaliça, Seria fervida, gratinada, nabo ou juliana? -Juliana, sem dúvida. -Suspeitava-o. A eleição mais elegante. A seguinte pergunta também vai de hortaliças. Se pudesse ser uma couve, seria savoy, lombarda, frisada ou branca? -Nenhuma, porque… -… odeia a couve. Excelente! Era uma pergunta com armadilha! Conheço-te muito bem. O que pesa mais: um quilograma de plumas, um quilograma de rímel, um quilograma de estrelas ou um quilograma de quilogramas? -Um quilograma de estrelas. -Estrelas? Ainda tem a capacidade de me surpreender, Helen. Preferiria nadar com os golfinhos no Caribe, fazer puenting no Golden Gate, cruzar em tirolesa o Grande

Canhão ou te comer dez Mares Bares em uma yurta no Carlow? -Os Mares Bares. -Eu também. Como você gostaria de morrer? Dormindo, em um balneário de luxo, em uma avalanche de gente na abertura de uma nova Topshop ou em um acidente de avião? -Todas. -Tem que dizer uma. -Está bem. O acidente de avião. -O test terminou. Caray, que felizmente rápido. -Agora pode te relaxar -continuou Bela-. vou somar os pontos. Recolheu sua informação murmurando entre dentes. Finalmente disse: -Quase tudo "Dê". Sabe dançar mas apenas o faz. Uma de suas ambições é "pindonguear", embora não saiba muito bem o que significa. É propensa à brutalidade, mas poses bom coração. Não teme mesclar moda de massas com moda de desenho. A gente não sempre te entende. De major poderia contrair gota. Era um resumo assombrosamente preciso e assim o fiz saber. -Conheço-te bem. Estudei-te. Agora, Helen, eu gostaria de te pedir um favor. Seu carita tinha recuperado a seriedade-. Te importa que baixe e esteja um momento com mamãe? Acredito que se sente um pouco sozinha. -Né… não, absolutamente. Embora adorava a Bela, era capaz de me deixar sem energia. Mas assim que fiquei sozinha a escuridão me alagou. Surpreendia-me o muito que tinha piorado nos últimos vinte minutos. Estava aumentando de tamanho como uma besta horrível. Tinha que permanecer ativa. Talvez conseguisse mantê-la a raia se conseguia estar a sós com o Artie. Ou possivelmente deveria me dar um passeio em carro pela auto-estrada. Seguia ajeitada no beanbag quando apareceu Artie. -ouvi por aí que é propensa à brutalidade mas poses bom coração.

Agradecendo sua chegada, agradecendo não ter que estar a sós com minha cabeça, incorporei-me raudamente. -Como é possível que Bela conheça palavras como "brutalidade"? São uma turma estranha, os Devlin. -Deduzo que Wayne não apareceu ainda, do contrário não estaria aqui. Meneei a cabeça. -Não, não apareceu. E decidi abandonar o caso. -por que? Espera, não me conte isso ainda. -sentou-se de cuclillas a meu lado. Significa isso que está livre manhã pela tarde? Porque acredito que consegui me desfazer dos três ao mesmo tempo. Bela vai se jogar a casa de uma amiga, Iona a uma manifestação e Bruno a uma festa de maquiagens. Poderia vir a casa. -Feito. Suave, muito brandamente, ouvi-lhe dizer: -Bem. Deslizou um dedo por meu rosto e me olhou tão intensamente que -quase presa da angústia- tive que dizer: -OH, Artie, não me olhe dessa forma tão sexy, sabe que me pode. Levantou-se. -Tem razão. Agora mesmo não podemos fazer nada. -O que te parece se distrair nossas mentes te contando tudo o que ocorreu com o Wayne? -propus. Artie se sentou na cadeira que Bela acabava de desocupar e eu segui no beanbag-. O ensaio no MusicDrome foi um desastre. -Relatei-lhe a lamentável historia, os trajes de cisne, os problemas informáticos, a ira de John Joseph, o pânico do Frankie…-. Embora Wayne voltasse, é impossível que o tenham tudo preparado para na quarta-feira. Duvido muito que isto saia adiante. Sabe? Não me surpreenderia que tivessem que cancelar os três concertos. O rosto de Artie adotou uma expressão estranha. -O que? -perguntei. -Nada. Só que… parece um tema de seguro.

-O que quer dizer? -Quem financia os concertos? -O promotor é OneWorld Music. -Tinha ouvido o Jay Parker falar deles. -Provavelmente sejam os principais investidores -disse Artie-, mas tem que haver outros. Sabe quem som? Neguei com a cabeça. -Normalmente se espera que o grupo ponha uma boa parte -explicou Artie. Meditei-o. Acreditava realmente que Roger St. Leger e Frankie não tinham nem um céntimo. Mas John Joseph, embora não possuísse muito líquido, tinha muitos ativos. Não teria tido problemas para reunir dinheiro em efetivo. Quanto ao Jay Parker, não lhe haveria custado nada lhe tirar dinheiro a algum infeliz. -Quaisquer pessoas que estejam financiando isto -prosseguiu Artie-, sua parte estará avalizada. Em outras palavras, assegurada. Isso significa que se os concertos não se celebram recuperarão o dinheiro e, dependendo da apólice, pode que até saiam ganhando. -De modo que se se cancelam os concertos, a asseguradora talvez teria que pagar mais dinheiro do investido inicialmente? Isso significa que os investidores poderiam sair beneficiados se os concertos não saem adiante? -Pode, embora tudo são conjeturas. -Artie me olhou com cautela-. Pensava que tinha abandonado o caso. -Como posso averiguar os detalhes da apólice de seguros? -Não pode. É um contrato privado. Toda classe de pensamentos não expressos ficaram flutuando entre nós. Artie provavelmente podia averiguá-lo. De maneira legal. Se pudesse apresentar um motivo que o justificasse. Mas não pensava pedir-lhe Tragué saliva.

Levantei-me e caminhei até seu ordenador. -Há algo que levo tempo querendo comprovar -disse-. Vejamos como vai a venda de entradas.

Entramos no sítio do MusicDrome. A metade das entradas da quarta-feira estavam vendidas, também a metade das da quinta-feira e menos de um terço das da sexta-feira. Não era para jogar foguetes. -portanto, se eu tivesse investido nesses concertos -disse-, desejaria que se cancelassem, não? Artie meneou a cabeça. -Ainda não. É muito logo. Ainda têm que fazer muita publicidade que dará um bom empurrão à venda de entradas. Esta noite sairão pela televisão no programa do Maurice McNice. -Como explicarão a ausência do Wayne? -Já lhes ocorrerá algo -disse Artie-. Esse Jay Parker parece um tio espabilado. -Com que desprezo o havia dito! Não era próprio de Artie-. E seguro que sai algo na imprensa de amanhã. Já o verá. -Como o que? -O que seja. Um artigo adulador sobre os recém-nascidos do Frankie. Zeezah como modelo de biquinis. Algo. Nesse momento me soou o móvel. Sobressaltada, consultei a tela. Era Harry Gilliam. O que queria de mim além de me pôr os cabelos de ponta? Respondi porque, do contrário, seguiria insistindo. -Harry -disse, me esforçando por injetar jovialidade a minha voz-. Como vai tudo? Como está sua galinha? Depois de uma larga pausa, disse: -Cecily não sobreviveu. Traguei saliva. -Sinto muito. -Sim -disse-, falhou-me. Assaltou-me uma imagem horripilante: uma incursão em um curral à alvorada, todos os familiares de Cecily sendo encurralados e desnucados. OH, senhor. -Inteirei-me -disse Harry- de que abandonaste a busca de seu amigo.

-Assim é. -Segue lhe buscando, Helen. Me arrepiou a pele. De medo, emoção e curiosidade. Sobre tudo, de medo. -Do que está falando? -Já me ouviste. Não posso ser mais claro. Segue lhe buscando. -por que? Está em perigo? O que ocorre? -Estou notando uma cãibra na língua, Helen. Só lhe direi isso uma vez mais. Segue lhe buscando. -Se souber algo que possa me ajudar, me deveria dizer isso mí -dije-. Es una de las razones por las que me quieres. -Eu? O que vou ou seja eu? E pendurou. Fiquei olhando o telefone. Harry Gilliam me dava medo, muito medo. Ignorava por que. Antes não me tinha dado isso, mas agora sim. Ignorava como, mas tinha desenvolvido uma habilidade excepcional para a intimidação. Talvez tinha feito um curso. -O que? -perguntou Artie. Segui contemplando o telefone, presa do desconcerto. Estava Harry Gilliam tentando me dizer que sabia que Wayne se encontrava em apuros e precisava ser resgatado? Ou me estava dizendo que não sabia onde estava Wayne mas que se não dava com ele iria a por mim? Deveria estar preocupada com o Wayne ou por mim? -Helen? -disse Artie com suavidade. Até onde deveria lhe contar? Limites, profissionais, pessoais, limites por toda parte. -Harry Gilliam? -disse. Artie se meteu em seu papel de poli e de repente era todo discrição. -Conheço-lhe. A recessão lhe pegou forte. A gente já não compra drogas como antes. -Acabo de falar com ele. Aconselhou-me que siga procurando o Wayne. -por que? -Sé cuidar de

-Não me há isso dito, mas conseguiu, ignoro como, me convencer de que troque de parecer. Depois de um comprido silencio, Artie disse: -Suponho que não servirá de nada que te peça que não o faça. Levantei a vista. Não me precisava menear a cabeça. -Sei cuidar de mim -disse-. É uma das razões pelas que me quer. Olhamo-nos estupefatos. Me tinha escapado a palavra "q"! -foi sem querer -me apressei a dizer-. nos Comportemos como adultos e façamos ver como que não ocorreu. Artie manteve seus olhos cravados em mim. Nenhum dos dois sabia o que fazer. Finalmente, Artie disse: -Tome cuidado, Helen. De repente, não estava segura do que me estava advertindo, mas não podia pensar nisso nesse momento. -Terei. Agora devo ir. 45 Uma vez na rua telefonei ao Parker. Respondeu ao primeiro tom. -Helen? -Onde coño está? -No Centro de Televisão de RTÉ. -Vou para lá para que me dê as chaves do Wayne. te assegure de que tenha um passe me esperando na recepção. -Que diab…? Pendurei. Ignorava que cilindro se traziam Harry Gilliam e Jay. Estava assustada e zangada, o qual era desagradável mas, curiosamente, melhor que o que havia sentido enquanto tinha estado fora do caso. Para minha surpresa, na recepção de Centro de Televisão sabiam tudo de mim. Tinha-me preparado para um tira e afrouxa exaustivo com algum funcionário prepotente,

ele herdaria seu posto. Frankie parecia tenso e extrañamente taciturno. Nunca tinha estado em uma sala de convidados e. Pensei que era porque lhe desagradavam as palhaçadas de Roger -seguro que o "homem nas alturas" não as aprovariaaté que caí na conta de que se achava em uma situação complicada. Ali estava Jay. um bar em uma esquina e uma vintena de pessoas sentadas em grupos que não interactuaban entre si. Mal escrito. estava falando com um homem que parecia um dos produtores do programa.mas em lugar disso me estava esperando um passe laminado com meu nome. Jay. tem a garganta feita pó. Leger se trouxe a loira de pernas largas que tinha conhecido no andaime. Um chef que tinha escrito um livro de cozinha? Uma mulher de unhas e tetas falsas que se deitou com homens famosos? O capitão da equipe de hurling da GAA que tinha ganho a final do Munster? Um grupo de três ao quarto com um singre ou um concerto que promocionar? Ah. mas decidi me aventurar. completamente bêbados. Excetuando o contingente Laddz. esse seria Laddz. claro. como não. tinha o mesmo aspecto que um salão grande. Os membros do contingente Laddz formavam uma abacaxi fechada. . Havia muitas poltronas. assim que Maurice McNice a palmara. por sua parte. partindo-se de risada. resultava um pouco violento que fora a cantar a seu programa. -Mas Wayne está doente -lhe estava dizendo Jay-. ignorava quem eram outros convidados. Sua carreira televisiva se encontrava em um ponto gélido: tal como estavam as coisas. Estavam tendidos em um sofá. Quase poderia qualificar-se de desfruto. Não pode cantar. Roger St. claro. e depois de uma telefonema um ajudante de produção vestido de negro apareceu na recepção para me acompanhar à sala de convidados do programa. para minha grande decepção. E enquanto Frankie esperava que Maurice a palmara. e John Joseph e Zeezah falando em voz baixa. bebendo vodca e com pinta de montar-lhe em qualquer momento. Eu era "Helen Walshe" (havia alguém dado às "é").

O produtor. . -Poderia cantar. não estava nada contente com o novo acerto porque o programa já incluía uma entrevista com uma estrela do hurling da GAA que acabava de casar-se. A gente não canta no Saturday Night In. O que ocorre? -Me dê as chaves da casa do Wayne. -Tenho outro assunto que atender. -Já temos uma entrevista com uma "nova e flamejante algema" -assinalou o produtor. Levantou a vista. -Seu amigo Harry me convenceu para que siga procurando o Wayne. -Essa mulher -Jay assinalou ao Zeezah. posei uma mão no ombro de Jay. Os programas de entretenimento têm suas regras! Ficaria descompensado. Uma entrevista com ela seria um golpe professor.é uma superestrella internacional. Não se trouxe seu vestuário. -Wayne está na cama com trinta e nove de febre -disse Jay-. Assim que se teve largado. Não é Christy Moore. Zeezah não pode subir a um tamborete sem mais e ficar a cantar. Não pode nem levantar-se. entretanto. -Assim tornaste -disse-. Em seguida me fiz uma composição de lugar: Laddz tinha sido convidado ao programa para "cantar" antes da deserção do Wayne e agora Parker estava tentando salvar essa oportunidade de fazer publicidade propondo uma entrevista ao John Joseph e Zeezah. só move a boca.-Ninguém lhe está pedindo que canto! -espetou o produtor-.e nenhuma atuação musical. Seria muito melhor fazer uma entrevista ao John Joseph e seu nova e flamejante algema. mas você e eu não terminamos. O produtor recebeu uma ordem urgente através de seu walkie-talkie e se levantou de um salto. -Me conte o que ocorre. Ao produtor lhe iluminou a cara. -Não! -Jay viu que a oportunidade de fazer publicidade de Laddz lhe escapava das mãos-.

e me alegro de que te reincorpore. Mas que saiba que quando demitiu esta tarde John Joseph contratou a outro investigador privado. Com um estilo de trabalho muito diferente ao meu.-Harry? -Parecia genuinamente desconcertado. -Mas nem rastro do Wayne. naturalmente. embora com o Jay alguma vez se sabia-. -Isso já sabíamos. Pouco imaginativo. como Bed & Breakfasts. Conhecia-lhe. Seguro que Wolcott tinha obtido toda essa informação confidencial através de seus antigos colegas da polícia. os portos pequenos e as agências de aluguel de navios. -Já conseguiu as listas de passageiros de todas as aerolinhas. Wayne não utilizou nada disso. Wayne não saiu que país. Provavelmente obrigado. Nem louca me associaria com um velho madeiro como Wolcott. Metódico. Disposto a propinar mais de um murro. -Wolcott também comprovou os grandes hotéis -continuou Jay. -Sobre tudo porque os Bed & Breakfasts não apareciam em nenhuma base de dados-. Encontramos seu passaporte. à ajuda de seus antigos colegas. incluídas as dos vôos privados. sem ter que desembolsar um céntimo. uma vez mais. mas lhe levará seu tempo. ex-poli. Mas que saiba que seguirá me pagando independentemente do cilindro que te leve com o Harry. -A quem? -Ao Walter Wolcott. Esse amor entre camaradas é muito poderoso. Um tio entrado em anos. -Não sei do que me fala -insistiu Jay. . Agora mesmo está provando sorte com hotéis mais pequenos. recorda? -Também comprovou os ferries. Definitivamente. Quem é Harry? -Não estou de humor para sandices. Talvez deveriam unir forças -propôs.

Mal dispúnhamos de poder de negociação. ficou como uma fera quando descobriu o que eu te tinha pago. dá igual a quem represente. como bem sabia. Jay sacudiu a cabeça. e não era provável que os amigões que Wolcott tinha na polícia pudessem conseguir-lhe Desvelar listas de passageiros sem justificação é só ligeiramente ilegal. mas John Joseph não o autorizou. -Estraguem. não me deixa outra opção. O produtor retornou. E embora não era uma fortuna. -O que sabe das chamadas e as finanças do Wayne? -perguntei. -E não volte a me chamar nunca mais. eu estava recebendo duzentos euros ao dia. -Obrigado. -Sério? -Como podia ser tão agarrado-. Sobre tudo se ele chegava primeiro. Entrevistaremos à "nova e flamejante algema". Corriam tempos difíceis para os investigadores. desvelar registros de chamadas e dados bancários é algo muito diferente. -Né. não precisa ficar assim -protestou Jay. dá igual a quem esteja vendendo. Essa era a informação que de verdade importava. -Wolcott não pode conseguir essa informação através de seus canais habituais. Estava a ponto de receber os dados telefônicos e financistas do Wayne. tio.Não me fazia nenhuma graça que estivesse metido no caso. De fato. -Está bem -disse ao Jay-. Para consegui-la necessita dinheiro. Eram poucas as probabilidades de que tomássemos o mesmo caminho. Arrumado a que John Joseph obrigou ao Wolcott a aceitar o trabalho sob o acordo de cobrar unicamente no caso de que encontre ao Wayne. mas se os dois aparecíamos no mesmo lugar para falar com a mesma pessoa as coisas poderiam complicar-se. Mas isso significava que seguia levando vantagem ao Wolcott. . Walter Wolcott quase me deu pena por um momento. completamente ilegal.

-O que está acontecendo aqui? -perguntou-me John Joseph-. -Vós dois -chamou o John Joseph e Zeezah-. mas em realidade queria ficar porque tudo isto me parecia fascinante. -Não penso lhe despedir. -Seu amigo Harry Gilliam tem especial interesse em que siga no caso. Jay me entregou as chaves da casa do Wayne mas decidi ficar outro momento na sala de convidados. Um quadro. -Falo a sério. -você ouça segue procurando o Wayne. . quem mais os financia? Se a coisa se for ao traste. Wolcott obteve mais resultados em três horas que você em dois dias e não me custou um céntimo. Quinze minutos mais tarde. e se Wayne não aparece e se anulam os concertos? -Os concertos não se anularão. -Assim é. verdade? Esquivou-me o olhar. -Isso não te incumbe. por isso já pode te desfazer do Walter Wolcott. Com o brilho rosa pérola que luzia nos lábios o tinha difícil para atemorizar. a maquiagem. Além do OneWorld Music. Disse-me que para investigar. ouvi que te reincorporaste. mas o tentou de todos os modos.O produtor lhe ignorou. -É um deles. -Responde. de acordo? É para o único que te pago. John Joseph e Zeezah retornavam de maquiagem com a cara feita um quadro. Quem cobra o dinheiro? -Já te hei dito que não te incumbe. Olhei-lhe com dureza. embora tenha que subir eu ao cenário e cantar. quem cobra o dinheiro do seguro? Demorou uns segundos em responder. Acredito que de quem deveríamos nos desfazer é de ti. -Parker -disse-.

Sentado a meu lado. Não beba mais. Vimo-los da tela instalada na sala. uma indicação de que eram os convidados menos importantes do programa. -Claro. adotando o papel de conciliadora-. Eram o primeiro número. não tinha nem idéia de que era uma superestrella? -Nem idéia -respondeu John Joseph. -Nem idéia de quem era. Zeezah estava cantando na festa de aniversário de uma amiga. Roger St. -Como quer -disse ao fim. Leger uma gargalhada desdenhosa. -Foi no Estambul -explicou John Joseph-. e se voltou para fulminar ao Roger-. seguro que não. antes de que a entrevista saísse ao ar John Joseph se benzeu. está-nos deixando em ridículo. o que provocou no Roger St. Nisso estava com ele. Maurice McNice perguntou: -Então. melhor. Se procurava polêmica com ele. Maurice McNice descreveu ao John Joseph como "um homem que não necessita apresentação". mas o apresentou de todos os modos. na quarta-feira está à volta da esquina. Não tinha nem idéia de quem era. no caso de. -Nunca ouvi falar dele. -Escutem -se apressou a intervir Jay. . Era da velha escola. o que provocou outro ataque de ébrio desdém no Roger St. -Maurice sorriu ao John Joseph. Quantos mais recursos dediquemos a isto. Leger. John Joseph me olhou fríamente. Aguardamos em um silêncio incômodo até que dois ajudantes de produção chegaram para levar-se ao John Joseph e Zeezah. Lançava perguntas facilonas. podia esperar sentado. Na tela.Era isso uma piscada? -Quem? -Harry Gilliam. logo ao Zeezah e de novo ao John Joseph. um mau sinal. Leger soltou uma gargalhada. -Nos contem como lhes conheceram.

O dito. A entrevista terminou. -Não sabia que era uma superestrella -assegurou John Joseph. E o fez sem equivocar-se. vejestorio estúpido -balbuciou Jay olhando ao Maurice McNice como se pudesse controlar sua mente. Em honra à verdade. e dito isto soltou uma risita inesperadamente maliciosa. Maurice mencionou os concertos de reencontro e informou do lugar e as datas. e também minha esposa. Assim que John Joseph abriu de novo a boca. -Tenho entendido que é aficionado aos carros clássicos -disse ao John Joseph. Maurice McNice ignorou ao Zeezah. é uma beleza -assegurou John Joseph. Eu também. -Ainda ficam algumas entradas. -Menciona os concertos. A entrevista estava tocando a seu fim. da velha escola. acredito -acrescentou. Perdoe. -"Mas não tanto como minha esposa" -apontou Roger. dobrou-se da risada. Quero ouvir a entrevista. como dando a entender que ainda não se vendeu nenhuma. senhora Hurling. sinto muito." -E ficou a cantar. -Porque não o é! -uivou Roger. e Roger. tio. Opinava que as mulheres não deviam sair na televisão. -Sinto muito. -Mas não tanto como minha esposa -assinalou John Joseph. E isso foi tudo. morto da risada. -Ah. quase cai do sofá. -E eu não sabia que ele era uma superestrella -acrescentou Zeezah. imagino que não.-A vida segundo John Joseph Hartley -disse-. -Cale-se -protestou a estrela de hurling da GAA-. -Pensa lhe contar ao senhor McNice que teve que vender o Aston para financiar a carreira de sua "nova e bela esposa"? -perguntou Roger à tela-. Não. nos fale de seu Aston. "What a wonderful world. o qual era toda uma proeza. A contrição lhe durou segundo meio. deram passo a publicidade e minutos depois John Joseph e Zeezah estavam de volta na sala de convidados com um subidón .

Poria-me cômoda. agora tem que atuar com rapidez. suponho que farta de esperar uma "mão amiga". Zeezah me deu um abraço. Alguém me tinha atacado. Mas não me tinha assustado. O muito descarado. recuperaria forças e veria se me ocorria algo. Estava começando a vê-la como a Fonte. Conduzi até o Mercy Close e estacionei a umas três portas da casa do Wayne. Por favor. O descarado. Sabia que devia me dar a volta para tentar lhe ver a cara. Tinha um golpe diante da cabeça e um golpe detrás da cabeça e sangue na frente. Jay-Z. Sim. O golpe só tinha pretendido me assustar. Que dia era hoje? Com quem estava casada Beyoncé? Sangrava? Sábado. Decidi ir a casa do Wayne.de adrenalina e com todo mundo lhes abraçando e dizendo: "estivestes fantásticos". até perder-se na distância. embora sabia porque precisamente eram meus. Minha situação era tão dramática que estava segura de que algum vizinho do Wayne sairia para interessar-se por meu estado. mas estava muito aturdida para poder me mover. Aonde deveria ir? Eram as dez e meia da noite. fechei a portinhola e mal tinha reparado no som de uns passos correndo detrás de mim quando notei o impacto. Quantos dedos tinha em alto? Três. não me fazer danifico de verdade. Quis -tentei. Finalmente. Algo duro me golpeou na parte posterior da cabeça fazendo que meu cérebro se estrelasse contra a parte frontal do crânio. Até eu me deixei contagiar pelo entusiasmo. . Desci do carro. Todo ocorreu muito depressa. Pisada-las fugiram à carreira.me levantar para correr atrás de meu agressor mas o corpo não me respondia. Vi as estrelas e o vômito se amontoou em minha garganta e uma voz disse quedamente ao ouvido: "Deixa de procurar o Wayne". martilleando o asfalto. Pus a quatro patas e tubo duas arcadas mas não vomitei. Caí para diante e o asfalto se elevou raudamente para estampar-se contra minha frente. mas ninguém saiu. -Me alegro tanto de que tenha decidido seguir procurando o Wayne -disse-. levantei-me tremendo e tentei determinar as imperfeições. um pouco tarde para empreender algo.

faria o que fora por lhe encontrar. dada minha tendência a levar a contrária. o lugar onde todos os dublineses -ou pelo menos quem tinha seguro médico. Um hospital agradável. olhei em todas elas ao passar. mas depois do fracasso estrepitoso de meu elaborado plano de me afogar no mar havia . mas para chegar à área Flor. meu destino. com cabeceros de barrotes metálicos. claro. Presa de uma curiosidade insalubre. A menos que falasse com o traseiro. mas um hospital. mas as camas eram decididamente camas de hospital. O corredor estava flanqueado por habitações de duas camas. Umas se achavam desocupadas. teve o efeito contrário. Tinha janelas que deixavam entrar a luz natural. mas não era verdade. tinham muita luz e as camas estavam perfeitamente feitas.ingressavam quando necessitavam "um lugar de repouso". estreitas e abatibles. Era o refúgio todo branco e infestado do Xanax que aparecia nas fantasias de Claire e seus amigas mesmo que nenhuma tinha estado ali. só tinha que tomar o elevador até o terceiro andar e entrava diretamente nela.conduzia até a enfermaria. 46 O Santa Teresa era o hospital indicado para as crises nervosas. Quando as portas do elevador se abriam. E era impossível ocultar a função das espantosas cortinas que separavam as camas: proporcionar privacidade quando o médico entrava em te examinar o traseiro. Todo mundo dizia que parecia um hotel. Parecia um hospital. de costas à porta. Foi um impacto estranho e terrível me descobrir em um hospital psiquiátrico.De fato. silhuetas encurvadas e inertes.) Eu sabia que o Santa Teresa dispunha de áreas cujas portas permaneciam fechadas a cal e canto e onde entrar e sair era um assunto de alta segurança que implicava muito tinido de chaves. um comprido corredor de madeira muito bonita -provavelmente nogueira. (Embora eu não entendia que necessidade tinha o médico de te examinar o traseiro em um hospital psiquiátrico. Se o desaparecimento do Wayne era o bastante importante para que alguém tentasse me dissuadir de que seguisse lhe buscando -para me golpear inclusive!-. certo. Outras tinham as cortinas corridas e sob suas mantas azuis jaziam.

vislumbrei um pequeno raio de esperança. -Não se preocupe -disse Mary-. mas também estavam cheios. Assim trinta e seis horas depois de meu banho noturno me descobri pedindo a mamãe que me levasse de carro ao loquero.) depois de arrumar toda a papelada em Admissões. (Foi sua expressão. a que tinha pinta de hotel.tocado fundo e estava aberta a qualquer sugestão. uma garota muito amável acompanhou a mamãe e a mim à área Flor. Havia camas livres na área Narcisista. Mary disse: -Ensinarei-te sua habitação. Estará sob o cuidado . mas o hospital não dispunha de lugar na seção bonita. o carregador do móvel. Procurei por internet hospitais com pinta de hotel na Irlanda e vi um par. Poderia voltar mais tarde. o barbeador elétrico para as axilas. Quase perdi o julgamento: tinha que ingressar como fora em "um lugar de descanso". era a única opção que ficava. O médico revisará sua medicação e te fará um plano personalizado. Ou alguém se repôs a uma velocidade pasmosa ou -o mais provável. não a minha. todas as pastilhas incluída a vitamina C e -o mais inquietante. basicamente-. mas eu não queria ir ali. onde uma enfermeira chamada Mary me recebeu calorosamente e disse a mamãe que se fora. Embora não me estavam ajudando. nas horas de visita. Enquanto mamãe se afastava apressadamente pelo corredor com patente alívio. o cinturão do penhoar -algo com a que pudesse me enforcar. Mary me revisou a bagagem e se levou o secador. Quando o homem do cão que me resgatou sugeriu que devia ingressar em "um lugar de repouso". Compartilhará-a com Maca. onde as portas permaneciam fechadas com chave e os enfermeiros tinham por costume atar aos pobres desventurados à cama. quem a sua vez telefonou à a Santa Teresa. Ao dia seguinte telefonei ao doutor Waterbury. a quem conhecerá mais tarde. Um plano-.os antidepressivos. horrorizava-me a idéia de estar sem eles. disse. e acabava de descobrir que meu seguro médico não servia ali quando recebi uma grande noticia do doutor Waterbury: materializou-se uma cama na área Flor. -Eu gostei de como soava isso.seu seguro médico se negou a seguir amedrontando. Sua cama é a do lado da porta. Tinha ampliado minha busca ao Reino Unido.

Sabia. tudo iria bem. -E o que faço até então? Consultou seu relógio. não estava segura de como foram fazer o. Quanto tempo tinha deitada aqui? Olhei meu telefone. não se ouvia nada nas demais habitações. Na planta reinava um silêncio sepulcral. Bateram na porta. Mary se tinha ido fazia quase uma hora. sempre constituía um mistério o que acontecia nos psiquiátricos. Tudo iria bem.e uma inspeção de seu roupeiro me informou que tinha a talha 34. Pode ver a televisão.do doutor David Kilty. uma palhinha de ioga e dois pares de sapatilhas esportivas. Para me distrair decidi bisbilhotar na intimidade de Maca. Não obstante. Tinha um osito sobre sua cama perfeitamente feita e um punhado de cartões de "te Ponha Boa Logo" sobre a prateleira. Para meu assombro se apresentou como o doutor David Kilty. como é lógico. Virá a verte dentro de um momento. a sala está ao final do corredor. e um moço de onze anos entrou na habitação. pois o fato de ingressar voluntariamente em uma instituição era um passo tão extremo que sabia que o respeitariam e corresponderiam a meu gesto com remédios extremos e eficazes. -É um pouco tarde para a terapia ocupacional. Pergunteime se não . se me parava a pensá-lo atentamente. Ou pode te deitar. por que não vinha o médico? O pânico habitual começou a abrir-se passo dentro de mim mas me recordei que meus "médicos peritos" foram elaborar me um plano milagroso e que não tinha do que me preocupar. Não se ouvia nada no corredor. Abri seu armário e encontrei quatro pesos de boneca. que foram curar me. Em realidade não sabia o que esperar deste lugar. Nosso quarto de banho estava abarrotado de seus meus produtos afiado olho detectivesco me levou a deduzir que padecia "eletricidade capilar". Assim que me deitei em minha cama alta e estreita e me perguntei no que ia consistir meu padre milagrosa. me sobressaltando.

Passei-me dias inteiros indagando em internet. transcorridos uns dias. As autoridades . Mas. mas sigo viva e o quero de volta. claro. Minha imersão noturna tinha sido. meu segundo intento de suicídio. Leu as notas que o doutor Waterbury lhe tinha entregue e me perguntou detalladamente sobre meu intento de sufoco. -Ainda pensa no suicídio? -Não… -por que não? -Porque… -Porque o tinha tentado e tinha fracassado. assegurou ter trinta e um anos e ter aprovado todos seus exames e levar quase três anos exercendo como psiquiatra. meu velho espírito lutador reapareceu e me disse que voltaria a prová-lo e que esta vez o conseguiria. ("Lhe dei de presente isso unicamente porque pensava que ia morrer me e teria sido uma pena desperdiçar um lenço tão bom. Jogar-se do alto de um edifício ou um escarpado era um método popular na mitologia. Dez dias antes tinha dado meu lenço de Alexander McQueen ao Claire.seria um de quão pacientes padeciam delírios de grandeza mas. escrito uma breve nota de desculpa às pessoas que queria e engolido meus dez soníferos. despertei vinte e nove horas mais tarde sem efeitos adversos. -Não sei. mas -descobri em seguida. Dave… posso te chamar Dave? -Se o preferir. e ter que explicar ao Claire por que devia me devolver o lenço era a menor de minhas preocupações. Ninguém tinha reparado sequer em minha ausência. Para meu grande desespero. Foi tal meu desânimo que pensei que não tinha sentido voltar a tentá-lo. Duas vezes. em realidade. sob meu rigoroso interrogatório. embora seja médico.endiabladamente difícil na prática.") Estava segura de que os velhos soníferos funcionariam e foi um duro golpe descobrir que matar-se não era tão fácil como imaginava. Excetuando o de seguir viva.

saltei da cama para impedir que partisse-. Uma overdose de paracetamol era outro desastre: não sempre te matava mas te destruía o fígado. A natureza sã muito. Mas me encontrava no hospital. Podia me arriscar e ter sorte e encontrar meu final. ou te apontar a terapia ocupacional. Terapia ocupacional? Refere a oficinas de carpintaria? De ponto? -Ou de mosaico. A gente sente que lhe ajuda. verdade? Dave me diagnosticou ansiedade e depressão -miúda novidade-. onde foram me dar uma padre milagrosa. as possibilidades se reduziam a dois métodos: cortá-las veias ou afogar-se. sentia-me pior do que me havia sentido jamais. Estava apanhada nesta vida e pensei que a cabeça ia estalar me de puro terror. Optei pelo segundo e o planejei meticulosamente. Isso é tudo? Não pode ser. Sentia-me pior que uma suicida. duplicou minha dose de antidepressivos e. Ainda sinto que… deliro. Ou pode tomar classes de ioga ou relaxação. por isso te via obrigada a viver o resto de seus dias com dor e mal-estar. mas… estou aqui e você vais curar me. Há um programa muito completo. assim optei por responder: -Suponho que me hei refugo de certo lastro. Que mais pensa fazer por mim? Como vais curar me milagrosamente? -Pode passear pelos jardins -disse-. significava que não eram o bastante altos. e esse era um risco que não podia correr. com o Dave me olhando com seu carita impúber.locais e os programas de prevenção contra o suicídio tinham aplicado toda classe de medidas para evitar que a gente tentasse acabar com sua vida. receitou-me soníferos. Basicamente. -Me tirares o sarro? -repliquei-. Ou de pintura. Agora. e se levantou. Comprei as latas de morangos e todo o resto e mesmo assim não consegui me matar. -Virei a verte dentro de dois dias -disse. . mas o mais provável é que me partisse todos os ossos importantes do corpo e tivesse que me passar o resto de minha vida em uma cadeira de rodas comendo com pajita. A regra básica era que se o edifício ou o escarpado não estavam rodeados de uma cerca protetora. -O que? -Presa do pânico. obrigado Deus.

Que estranho. -O que é isso? Dave me tentou explicar isso um pouco relacionado vivendo no presente. quando se tomava um prato bastante grande de salada. Xanax só se receitava como uma medida de emergência a curto prazo. Suponho que não tinha energia para dá-los. ou tranqüilizadores. Não comia nada até a noite. Minha estadia no hospital era uma boa oportunidade para encontrar maneiras de me tranqüilizar. Minha primeira noite me perguntou: -por que está aqui? -Por depressão. disse. Não dava problemas. Propô-me uma vez mais a terapia ocupacional e de repente entendi por que chamavam "cesteros" aos doentes mentais: porque era uma das atividades do programa de terapia ocupacional. estou fatal da cabeça. mas comia. Dá excelentes resultados. Que mais tenho que fazer? -Estava o bastante bem para pedir o ingresso neste hospital. "Converti-me em uma cestera. -Estava suplicando-. "Sou cestera". -pedi o ingresso em um hospital psiquiátrico -disse-.-Isso é tudo? -A angústia se estava apropriando de mim. Xanax. -tentei me matar -disse-. pensei. por favor. Ao parecer. me dê Xanax. . Necessito pastilhas especiais. e esta certamente comia muito pouco. -Necessito fármacos. bem fortes. Mas se negou em redondo. de modo que. Mas Dave se limitou a rir e disse que era muito boa argumentando e que deveria considerar a possibilidade de me fazer advogada. De modo que necessito Xanax. por definição. mas eu estava muito afligida para entendê-lo ou inclusive lhe escutar. Estava obcecada com a salada-russa de couve." Maca era anoréxica. e para cúmulo era bastante suscetível a respeito. sempre tinha pensado que as anoréxicas não comiam nada absolutamente. Tinha que comê-la. -Está A maravilha do agora.

ali todo mundo se ajudava. Bipolar? Posnatal? -A depressão posnatal a tinha especialmente fascinada porque existia uma versão. gente cujas responsabilidades tinham ido crescendo e crescendo até alcançar um ponto em que a seu sobrecarregado sistema lhe tinha saltado um fusível e tinha deixado de funcionar. -Ah. o Santa Teresa estava abarrotado de tais doentes. Embora do ponto de vista médico as crises nervosas não existiam (tinham-nas rebatizado como "episódios depressivos graves"). não teriam que suportar que os oficiais lhes apresentassem no trabalho. simples e plainas crises nervosas. e não queriam partir porque enquanto estivessem ali ninguém poderia lhes telefonar. Por isso pude ver. Estávamos aqui por coisas diferentes: anorexia. . ninguém poderia lhes escrever e ninguém poderia lhes enviar cartas aterradoras lhes informando do dinheiro que deviam. Não era como quando minha irmã Rachel esteve ingressada em um centro de reabilitação. depressão posnatal e as obsoletas. -A comum -disse. e não teriam que levar uma casa e cumprir com um trabalho de jornada completa com apenas quatro horas de sonho de noite. Muitas dessas pessoas tinham ingressadas semanas ou inclusive meses. os bancos e o trabalho.-De que tipo? -inquiriu com interesse-. O hospital era seu santuário. homens e mulheres que viviam curvados pelas exigências dos filhos. que estava recebendo certa publicidade esses dias. Mas aqui cada paciente vivia encerrado em seu inferno pessoal. sobre tudo o trabalho. transtorno obsessivo-compulsivo. Para minha surpresa (categoria: extremamente desagradável). essa… Das que há a patadas. entre os pacientes não havia uma relação de camaradagem ou apoio. os pais. Enquanto estivessem no hospital não teriam que recolher da delegacia de polícia a sua mãe com o Alzheimer. com sintomas psicóticos bastante extremos. quase envergonhada-. essa classe de depressão. A que faz que esteja quase todo o tempo desejando morrer.

se por acaso este os declarava a bastante reposições para voltar para casa. desoyendo seus protestos. um dinheiro que não podiam retornar. pusesse-os de patinhas na rua e se vissem obrigados a retornar a sua vida infernal. No Santa Teresa podiam dormir e olhar pela janela e ver a televisão e deixar sua mente em branco. Gozavam de paz e tranqüilidade e fármacos e três comidas ao dia (asquerosas.Muitas das crises nervosas correspondiam a pessoas cujo negócio tinha quebrado e deviam milhares ou inclusive milhões de euros. Não tinha nada que fazer. Pelo menos no mundo exterior era livre de subir ao carro e conduzir até me fartar. certamente não era meu estilo. mas não demorei para descobrir que no Santa Teresa o era ainda mais.eram internas. Minhas pressões. Mas eu não era como eles. mosaicos e demais atividades do programa de terapia ocupacional. Foram comigo a todas partes. O tempo me passava muito devagar antes de ingressar no hospital. vinte quilômetros. mas aí estava. quinze. obrigavalhes a entrar. Cada manhã e cada tarde os pacientes mais motivados faziam bolos. Eu nem sequer tinha que me preocupar por isso. as fontes de minha angústia quaisquer que fossem. o objetivo matador que se fixaram. mas encerrada entre suas paredes se deteve por completo. . Quão único assustava a estes pacientes com crise nervosas era a consulta semanal com seu psiquiatra. Os anoréxicos se atavam pesos aos tornozelos e as bonecas e corriam ao redor dos márgenes dos jardins até completar dez. Uns meses antes tinha assinado na linha de pontos um plano de assistência médica privado que me cobriria uma larga estadia no hospital. Outra coisa que aterrava aos pacientes era que seu seguro médico se negasse a seguir pagando. Horrorizava-lhes a idéia de ser devolvidos ao mundo exterior. antes de meu desastroso intento de sufoco a vida me tinha parecido insuportável. mas isso era secundário). onde a gente estaria pedindo seu sangue a gritos. Às vezes saía uma enfermeira e. Ignorava por que me tinha dado de me gastar o dinheiro em um pouco tão responsável.

e sempre me obrigava a esperar até o último minuto. Não lhe internaram.Os mais catatónicos se instalavam na sala da televisão e durante horas deixavam que os programas lixo escorregassem por suas desabadas cabeças. mas Deus. como o agradecia.00. Esta não é a Helen Walsh que eu conheço. a que sim? Foi? -Né… sim. -Mas em realidade não o estava tentando -insistiu Claire-. desconsolados e incapazes de me dar conselhos. por que não volta para casa? -E dito isto. e Deus sabe que o desejava. Eu estava nervosa. Tomar seu tempo para cheirar as rosas. Tinha razão. Parecia-me humilhante ter que fazer fila ao Alguém voou sobre o ninho do cuco. assustada e muito sozinha. Todos coincidiam em que era muito forte que tivesse tentado me afogar. claro… Mamãe e papai insistiram em falar com o jovem Dave mas saíram da reunião mais desconcertados que antes de ter entrado. Odiava o lugar -um dia muitos de nós vimos . O único que eu gostava de do hospital era meu sonífero. Não me tinham internado. -Claro. Em realidade foi uma chamada de auxílio. inquieta. Mamãe. tratar de não estresarte tanto. claro. -Este não é seu lugar -declarou-. -Tem que baixar o ritmo -disse. era livre de abandonar o hospital quando quisesse. A situação nos superava. Subministravam-no cada noite às 22. papai. Bronagh e minhas irmãs vieram para ver-me e se mostraram horrorizados. duvidosa.13. -Como o dos soníferos. Bronagh veio para ver-me só uma vez. mamãe-. largou-se. Mas eu não encaixava em nenhuma dessas categorias. e a gente já começava a rondar frente ao mostrador da enfermaria às 20. enquanto que os realmente despejados se passavam o dia na cama e as enfermeiras lhes levavam a comida e a medicação.

ainda repassando meu histórico-. o sinto mas preciso ver um médico de verdade. Eu. O plano que elaborou para você é exatamente o que eu teria feito. -Pois não me sinto segura. Horas depois uma mulher abriu a porta de minha habitação com meu histórico na mão. e muita angústia. Não sugiro nenhuma mudança. Fiz uma casita para pássaros. -A terapia electroconvulsiva é um tratamento de último recurso.mas pensava que algo devia estar me dando. e só às vezes. pedi emprestadas a Maca seus pesos de boneca -lhe custou muito as soltar. sou-o. provei a ver a televisão durante horas. Até provei a carpintaria. mas falarei com meus colegas. -Eu sou um médico de verdade -repôs-. disse: -Dave. Levo vinte e dois anos na especialidade de psiquiatria. Qual era o segredo? De modo que segui tentando-o. o doutor Kilty é um médico muito competente. -provaste o ioga? foste a alguma classe de relaxação? -Ah. Alguém maior que você. Dave… Transcorridas duas semanas. em casos de esquizofrenia. -Enquanto esteja aqui. Todos faziam casitas para pássaros. O doutor Kilty me há dito que busca um médico com mais idade e experiência. A gente entrava feita pó e saía melhor. Esforçava-me por encontrar a chave. -Soltou todo isso sem me olhar aos olhos. manias extremas e depressão catatónico-crônica que não responde à medicação. Provei a me passar o dia na cama. estará segura. Tenho muito medo. -Sou a doutora Drusilla Carr. Não parava de lhe perguntar ao Dave: -Quando estarei melhor? E ele não parava de me dar larga. -Não me receitaria electroshocks? Ao fim levantou a vista. Parecia desconcertada. com mais experiência. utiliza-se às vezes. -Parecia irritável e distraída-.três vezes o mesmo episódio do Eastenders e ninguém salvo eu pareceu precaver-se disso. psicose.e caminhei pelos jardins movendo os braços. Não obstante. . decididamente.

-Não leva medicando-se nem quatro meses -repôs quase com desdém-. entre eles. acrescentou-: Esqueça-a. Anos? Virgem muito santo! Eu seria incapaz de me passar anos neste estado. tão "espiritual"-. Dito seja em minha honra. -Com uma ironia não intencionada. fazia chocalho as quartas-feiras e sexta-feira. via a Antonia Kelly cada semana. Esperei três semanas e quatro dias -até terminar a casita para pássaros. Ainda é logo. A culpa a tinha minha ignorância. tão ensimismada. minhas excessivas expectativas: as padres "milagrosas" não existiam. mas pelo menos podia ver na televisão o que gostava. que ali não residia uma padre mágica para mim.e me parti igual de perdida e insana que o dia de minha chegada. a perda de cor.-Minha depressão não responde à medicação! -espetei-. -Não esqueça que sempre pode voltar -disse-. Acabei vendo o hospital pelo que realmente era: um redil para gente frágil. Dave parecia lamentar minha partida. . Ninguém tinha a culpa.sua única função era me manter a salvo no caso de que planejasse voltar a me tirar a vida. Como podiam outros? -A terapia electroconvulsiva tem muitos efeitos secundários. -Esquecê-la? -Seguiremos provando com a medicação. -Obrigado -respondi. nem curada nem a salvo. quando retornei ao mundo fiz virtualmente tudo o que a gente me aconselhava que fizesse para me sentir melhor. ia a oficinas de ioga -gente horrível a do ioga. Eu estou falando de gente que leva anos deprimida. sentia que o universo me tinha enviado uma mensagem. pensando que teria que estar em bastante mal estado antes de considerar isso como uma de minhas opções. Finalmente aceitei que o hospital não era a panacéia. As pastilhas não impediram que tentasse suicidarme. Sempre nos terá aqui. Tomava os antidepressivos. Não me sentia nem melhor. Embora não acreditava nessa classe de coisas. E ao menos em minha opinião. Intuía que provavelmente não voltaria a tentar me tirar a vida.

. 14 maneiras excelentes de evitar o agora. O sofrimento insuportável é -a mesma palavra o diz. logo me animei arrojando A maravilha do agora ao lixo com tanta força que fiz migalhas a cajita de plástico. deitada de flanco. Saltava de beco sem saída em beco sem saída."insuportável". Agarrei o móvel. DOMINGO 47 Despertou o assobio de uma mensagem entrante. provei a terapia de liberdade emocional e fiz seis sessões de terapia cognitivo-conductual (uma autêntica tolice).dava-lhe uma oportunidade à homeopatia e comprei um CD recomendado pelo Dave. Pode que nunca voltasse a sê-lo. mas só me ocorreram dois: 1) Lhe dar à bebida. De fato. A mensagem essencial era que não importa que esteja experimentando um sofrimento insuportável porque só existe o agora. E outra na frente. Desalentada. que me deixou totalmente frustrada.37 da manhã. Voltei para trabalho. não era pior se estava ocorrendo no agora? Durante um momento estive tão indignada que contemplei a possibilidade de criar meu próprio CD. Mas não entendia como isso conseguia fazer suportável o sofrimento insuportável. Fiz reiki. A maravilha do agora. Que fazia em posição fetal? por que me estava permitindo uma conduta tão pouco profissional? Porque -compreendi enquanto me apalpava. E um mês depois Antonia Kelly me soltou para que voasse sozinha. evitando as situações estressantes.tinha uma contusão enorme detrás da cabeça. Ai. Sabia que não era a mesma de antes. Mas o tempo passava e pouco a pouco fui sentindo mais normal. mas ao ano de tentar me afogar o doutor Waterbury declarou que me acreditava o bastante recuperada para deixar os antidepressivos. e segui procurando uma padre. atrás de um remédio. Eram as 9. E outra no joelho. que já não era tão forte e otimista. Onde me encontrava? Na chão da sala do Wayne. e sempre me levava uma decepção. abandonei o projeto. pode que a pessoa que tinha sido tivesse desaparecido para sempre. 2) Lhe dar aos calmantes fortes.

mas depois de limpála decidi que não necessitava pontos. por que não. tinha coxeado até a casa do Wayne -ao cair tinha golpeado o joelho esquerda-. Estava começando a inchar-se mas não parecia que a pele estivesse aberta. E um Stilnoct. Não me incomodei em me pôr uma tirita porque Wayne só tinha as do Ben 10 -algo que ver com um de seus sobrinhos. Não acertava a explicar meu comportamento. claro que tampouco sabia muitos casos de gangrena na cabeça. por te roubar suas provisões de primeiros auxílios. Carpe diem e todo isso. possivelmente porque estava diante de um lavamanos. . entrado e subido a seu quarto de banho para atender minhas feridas. um galo vermelho estava começando a abrir-se passo para a superfície e a pele estava levantada e lhe sangrem. Artie me tinha enviado uma mensagem no que me perguntava se estava bem e eu lhe tinha respondido que estava estupendamente. depois de conseguir me pôr em pé. Mas lhe agarrei quatro ibuprofenos. possivelmente para limpar minha consciência. e tampouco tinha sangue na mão quando a retirei. Não tivesse devido. Achei tirita e Savlon no armarito. por abusar deste modo. Isso sim era censurável. decisão que lamentei imediatamente porque ao utilizar a nata antibacteriana estava reduzindo minhas probabilidades de contrair gangrena e que tivessem que me amputar a cabeça. Wayne -disse às paredes-. -Sinto muito.Ontem à noite. Isso sim era roubar.me escovei os dentes. supuse alguém tinha seu orgulho. mas é tudo pela causa de te encontrar. embora em realidade não o estava. Pior aspecto oferecia a frente. disse-me. Enquanto aguardava a que o sangue me alagasse o cérebro me perguntei quem me tinha agredido. Os soníferos eram difíceis de conseguir e tinha doze em minha bolsa. Logo -não sei muito bem por que. presa de um tremor estranho. Depois me estirei com supremo cuidado no chão com a esperança de sofrer uma comoção cerebral e palmarla. Lubrifiquei-lhe Savlon. Deslizei as gemas dos dedos pelo cabelo de detrás da cabeça para determinar a gravidade da contusão. tinha baixado à sala me agarrando à parede. Logo.

Talvez tivesse sido John Joseph. Pôde ser Glória? Digby? … Birdie Salaman? … Forças escuras conectadas com o Harry Gilliam? … A galinha Cecily…? Não… estava morta… … O Misterioso Vapuleador do velho Dublín…? O sonífero estava começando a exercer sua magia maligna e finalmente me sumi em um sonho rude. embora devia reconhecer que tinha muitos anos e corpulência para correr tão depressa. e me pedia uma soma de dinheiro irrisória. seria obter um talão de mamãe para ele. Mas por que quereria me agredir? Unicamente porque não lhe caía bem? Tampouco o descartava. mas tinha algo que ver com o Wayne? E falando do Wayne. sim. certamente. Traguei-me isso sem água. A hora do antidepressivo. e também a grade. mas teve tempo de chegar de RTÉ antes que eu? E agora que o pensava. Fiz-me a promessa de se algo ia fazer hoje. supliquei-lhe. e alguém acabava de me enviar uma mensagem. Era do Terry Ou'Dowd. Contemplei-o meio dormida. o homem encantador de Leitrim que se comprometeu a reparar a porta do Docker. Não me colocava nada decente . Caí na conta de que tinha que comer algo. o que constituía uma amarga decepção. Custava-me acreditar que fora a classe de tipo que ia por aí golpeando na cabeça a pessoas bem intencionadas. E agora estava acordada e não tinha morrido de uma comoção. Dizia que a porta estava arrumada. traziame sem cuidado cair bem ou mau. De quem? Ah. Mas Wayne me caía bem. Funciona. por que não caía bem ao John Joseph? Caía mal a muita gente.Pôde ser Walter Wolcott? Não o descartava. não. mas John Joseph e eu tínhamos tido um bom começo. ou não? O que tinha feito eu para que trocasse de parecer? Era importante? Para mim. Funciona. sempre existia a possibilidade de que a pessoa que me tinha golpeado fora o próprio Wayne.

. Pode que o ar fresco me fizesse sentir menos estranha. até que a ferida ficou tampada.se retorcia de dor. mas nada mais me tragar isso me assaltou o remorso. pareceu-me o mais prático do mundo agarrar outros quatro ibuprofenos. como diria um poli. A dor tinha estado ali desde que despertasse. Tinha a frente arroxeada e salpicada de sangre seca e o olho esquerdo ligeiramente avermelhado. sobre tudo o "duro como uma rocha". mas detrás mergulhar entre os géis de ducha e demais produtos do Wayne. me recordando que esta tarde tínhamos a casa para nós sós. mas a laca cheira muito a senhora maior tiquismiquis. Tão mal que não pensaria nisso agora. hei aí o que necessitava. Estava cruzando a linha. diante. Decidi caminhar até o posto de gasolina mais próximo para comprar outra caixa. dente. mas não tinha sido consciente dele até agora. Com cuidado me apliquei isso com ligeiros toques. A seguir procedi a me pentear e. Era de Artie. já a tinha cruzado ontem à noite ao tomar um de seus soníferos. Utilizei as unhas para me arrancar as crostas sem fazer sangrar de novo a ferida. Laca. Não estava bem. Escrevi-lhe que voltava a trabalhar no caso e que não sabia se poderia ir. Como tinha franja. conchas. antes de sair me olhei no espelho do quarto de banho do Wayne e dava um coice. De fato. De repente me dava conta de que tinha uma dor horrível. mas que me avisasse assim que os três meninos se foram. mas respeitei ao Wayne por isso. O fixador. Era o momento de utilizar um bom recurso: meu tapaojeras. emergi com as mãos vazias. e enquanto o cabelo se estivesse quieto ninguém saberia com só me olhar à cara que "tinha sido objeto de um golpe na cabeça". Isso estava muito mal. cobriu-me completamente a frente.no corpo desde… quando? Da caixa de Cheerios de ontem. Uma inconveniência para mim. Todo meu crânio detrás. foi uma grande ajuda. é aceitável nos homens. até o ponto de me fazer sentir náuseas. Aproveitando que estava diante do armarito. O móvel me apitou com uma mensagem entrante. para meu assombro. Tinha maquiagem na bolsa.

O perito lhe oferecia conselhos dietéticos -fruta e verdura. as palavras saltaram vários metros em minha direção: Quase me escapou uma gargalhada. Escritas com enormes letras negras. Agarrei um punhado de jornais e entrei na loja. carne vermelha ao menos duas vezes por semana. Dedicavam nada menos que meia página à coluna de um perito em embaraços que nos contava que atualmente Zeezah poderia estar sentindo náuseas. Folheei outros periódicos -incluso os não sensacionalistas. O "porta-voz" de Laddz (Jay Parker. Ou simplesmente a mim. Encontraria toda a história nas páginas 4. Outro jornal sensacionalista exibia o titular: Havia uma foto imprecisa dela. Não podia notar o contato dos pés com o chão. Sério? E possivelmente estivesse um pouco mais cansada do normal. supus) tinha desmentido o "embaraço" do Zeezah. mas isso não tinha posto freio à especulação de que estava de dez semanas. Corri até a fileira de periódicos dispostos frente à loja.e lhe recomendava um suplemento . 5. Sem dúvida Zeezah tinha comido algo pequeno e redondo -um malteser. Caminhei sobre meus pés insensíveis e ao dobrar para o posto de gasolina vi o titular de periódico. 6 e 7. Tinham laca e ibuprofeno mas nada que uma pessoa pudesse comer salvo Cheerios. pulverizei os periódicos pelo chão da sala de estar e devorei a informação sobre o Laddz. Talvez se devesse ao golpe na cabeça. Artie tinha estado no certo. Jay Parker fazia um bom trabalho. Era um autêntico bombardeio mediático. Rebusquei em minha bolsa até dar com uns óculos de sol e uma boina de beisebol para tirar o espantoso resplendor às coisas.Na rua luzia uma manhã endiabladamente radiante e me senti estranha. sobre tudo pelas manhãs.porque tinha um bultito circular na pança que a imprensa estava utilizando como prova contundente de que estava grávida. Ou ao golpe no joelho. possivelmente.e todos falavam de Laddz. Que demônios ocorria a este mundo? 48 De novo em casa do Wayne.

declarava. Aí estava. quando decidi deixar de procurar o Wayne. Tal como tinha prognosticado Artie. Eu mesma não sabia o que pensar e tampouco queria meditá-lo muito porque poderia me assustar e então teria que parar e precisava me mover.de cálcio. Ontem. embora era evidente que o "Em casa" se realizou em um hotel. uma aspirante a atriz de dezoito anos. "Levo-me muito bem com asnamoradas de papai". talvez ioga ou marcha rápida. com um ar talvez solo o visse eu. Não obstante. tinha tido muito claro que Wayne estava bem e que tinha que lhe deixar tranqüilo. Titubeei. Havia uma entrevista a respeito dos valores da família com o Roger St. Agora já não estava tão segura. -Está… bem? -perguntou-me Artie. Havia um "Em casa" com o Frankie. porque a estadia estava ordenada e reluzente. o relatei como quem relata que um dia caiu por uma escada e se deslocou o joelho: . Decidi não lhe mencionar a agressão do Misterioso Vapuleador do Velho Dublín. estava do lado do Wayne. Chamei o Artie e nos rimos comentando o alcance da cobertura de Laddz.algo triste. "Sobre tudo porque. Myrna e os gêmeos. na mesma sala maravilhosa em que eu me encontrava agora. pelo general. Leger e sua filha maior. o tinha contado ao pouco tempo de começar a sair com ele. assim como exercício suave. nada que ver com o inferno invadido de fraldas que eu tinha visitado. O que queria dizer com isso? Estava atuando de maneira estranha? Artie se achava à corrente de meu anterior buraco depressivo e de minha estadia no hospital. primeiro são meus amigas!" Havia inclusive um desdobramento de fotos do Wayne feitas antes de sua fuga. também se falava de outros membros Laddz. Ignorava se tinha sido empurrada a procurar um homem desgraçado que não desejava ser encontrado ou se estava salvando a um bom homem de uma situação indesejável. As recentes bodas do Zeezah com o John Joseph recebia uma ampla cobertura e outro tanto podia dizer-se dos concertos vindouros. Tanto em um caso como em outro.

Não sabia por que. um sucesso insólito que provavelmente não ia repetir se. Por certo -emocionada. mas a televisão saltou sem querer ao RTÉ e…". estenderá-me um talão? -Claro. Meu orgulho profissional não me permitia ser derrotada por um merluzo como ele. Só me diga uma coisa: se for a casa e te dou o dinheiro. -A voz de mamãe gotejava desprezo. Todos precediam sua confissão com as palavras: "Não o veria embora fora o último programa na Terra. -E hoje os periódicos contam que Zeezah está grávida. E eu? Eu dependia de golpes de genialidade e estes eram condenadamente informais. -Isso dá igual. Se tivesse que fazê-lo. mas não queria. Mas me envie um SMS assim que os meninos se foram e verei o que posso fazer. assim disse: -Genial. Telefonei a mamãe e lhe expliquei que necessitava um talão para um homem de Leitrim. reduziu sua voz a um sussurro-. Walter era um homem tenaz e paciente.uma lesão isolada de um passado remoto. -por que Leitrim? -perguntou-me. Pendurei. -Não lhe crie isso? . E existia a possibilidade de que desse com o Wayne desse modo. -Está ocupada? -Temo-me que sim. esse Maurice McNice me põe dos nervos. Agora mesmo não queria falar de como me sentia. O mais curioso de tudo era a quantidade de gente que via Saturday Night In. visitaria pessoalmente cada Bed & Breakfast da Irlanda com sua insossa gabardina bege. O tempo corria e não só com respeito à noite da quarta-feira a não ser ao Walter Wolcott. viu-os ontem à noite? Não me precisava lhe perguntar a quem se referia. Estava desejando me pôr em marcha. mas podia ocorrer.

para minha grande surpresa (categoria: de tudo alarmante). O que quero dizer é que sigo trabalhando para ele. E também na sexta-feira. basta com esse tema. -Sabia! -Não nesse sentido. tinha estado olhando as vendas com o Artie e a situação era crítica. . Ouça. Sei que sua história com o Jay Parker terminou. muito escassa de dinheiro. Telefonei imediatamente ao Parker. entrei na página do MusicDrome e descobri. que as entradas da quarta-feira se esgotaram. davam quarenta e cinco mil entradas vendidas. Poderia haver-se casado com uma encantadora moça irlandesa em lugar de atar-se com… com esse homem árabe. Estava eufórico. Pobre John Joseph. mas tem que as conseguir. Perguntei para na quinta-feira e o resultado foi o mesmo. mas as entradas eram caras e eu andava muito. Claire e as demais também querem ir ter visto Saturday Night In. Toma a todos por idiotas. Pendurei. não podia me humilhar desse modo. verdade? Consegue ao menos seis entradas. multiplicadas por três noites. assim estou muito ocupada. Como Lady Gaga. conseguirei as condenadas entradas e logo passarei a procurar o talão para o homem de Leitrim. o do concerto da quarta-feira é definitiva.-É obvio que não! Não me surpreenderia que Zeezah fora um homem. de fato. Tinham vendido até a última entrada dos três concertos de Laddz! Quinze mil entradas por noite. Poderia personarme na bilheteria e pagar em dinheiro. não terminou. De todos os modos. -Mamãe suspirou-. Meu orgulho lutou com minha pobreza até que compreendi que não ficava mais remedeio que pedir-lhe Com o fim de adiar uns minutos a humilhante conversação. sem ir mais longe. Não queria lhe pedir ao Jay Parker as entradas para o concerto de Laddz. mas ignorava como podia comprar sem um cartão de crédito vigente. Como tinha acontecido? E tão depressa? Ontem à noite. -Minha história com o Jay Parker. Pelo amor de Deus.

vamos. Não tinha sentido lhe agradecer sem saber o que me estava oferecendo exatamente. É para seu boa amiga mami Walsh e seus colegas. na quinta-feira e na sexta-feira-. Talvez se referisse literalmente a uma caixa. A coisa está ao vermelho vivo. quem me atacou ontem à noite? -O que? -OH. quando retornei ao Mercy Close. E lhe dão de presente amendoins. seguro que havia alguma condição oculta. -Se encontrar ao Wayne poderá ter uma caixa inteira. Será a bomba. Seguro que havia gato encerrado. do que está falando? -Ontem à noite. -Com o que? -Pode que com um pau de macarrão. preciso entradas.-É por toda essa publicidade. Parker. A ser possível para na quarta-feira. -Também eu estava começando a me pôr histérica só de pensar nas quarenta e cinco mil pessoas que esperavam ver o Wayne Diffney cantando e dançando na quarta-feira. cabem doze. -Da euforia passou à histeria-: Onde está Wayne? Necessitamos ao Wayne. que parecem porretes. O que quer dizer? O que é uma caixa? Quanta gente cabe nela? -Doze. -Gra… -Me interrompi. Não são para mim -me apressei a acrescentar-. -Está ferida? . Como uma caixa de sapatos-. de cor branca. -Helen. Seis pelo menos. Para mim o concerto me traz sem cuidado. alguém me deu um golpe detrás da cabeça. Para fazer entendimentos com o Jay Parker tinha que ser enxadrista. Vamos dar um quarto concerto no Dublín e a gravar um álbum para Natal. Tinha que pensar de antemão em várias jogadas matreiras. Ouça. -me diga. Desses modernos. -Faço o que posso. Seguro que te guardaste algumas para amigos e familiares. E Reino Unido se mostrou interessado em nós.

Desconhecia os mesentérios. . O peso de suas expectativas e meu sentido da responsabilidade eram tão entristecedores que por um momento pensei que ia perder a cabeça. Mesmo assim. teclei sendos correios eletrônicos a Tubarão e Homem do Telefone lhes suplicando que me enviassem imediatamente a informação financeira e Telefónica do Wayne ou que pelo menos me dessem uma idéia de quando poderia contar com ela. Sabia que minhas súplicas dificilmente acelerariam as coisas. estava claro que era importante para o Wayne. tinha seis caracteres e. pensei que nada perdia por perguntar. joder. jogando aos videojuegos e decidindo a cara ou cruz quando me enviar a informação. subi ao escritório do Wayne. Obter sorte informação era um assunto de tudo ilegal.Soprei. Com dedos trementes. Joder. quaisquer pessoas que fossem. -Você o que crie? -Agora mesmo vou para lá. Teclei as letras e ao cabo de dois angustiantes segundos na tela apareceram as palavras "CONTRASENHA INCORRETA". não estavam ociosos. Pensei em toda a gente que tinha solto cem euros para ver o Laddz e o pânico se apropriou de mim. O caso é que sabia que Tubarão e Homem do Telefone. Para meu horror. joder. Levada por um medo desbocado. Birdie e Docker. a julgar pela foto que conservava dela na habitação de convidados. as palavras "CONTRA-SENHA INCORRETA" apareceram de novo. Fiquei olhando o telefone. -E pendurou. uma operação incrivelmente delicada. sem mal me deter assimilar o golpe. Convenci-me de que era uma possibilidade real. teclei "Docker". mas supunha que minhas fontes teriam que pagar a seus contatos e que tais contatos teriam que esperar a oportunidade de acessar aos arquivos do Wayne e logo fazer desaparecer os rastros. e nenhuma me tinha funcionado. Tinha provado Glória. Feito isto. contemplei seu ordenador e me disse que tinha que provar "Birdie" como contra-senha. joder. Joder. Tinha esgotado minhas três oportunidades de entrar em seu ordenador.

mas esta vez sim o fiz. o que fez que me sentisse invadida. -Deus santo. por que tem a frente assim se o golpe foi detrás da cabeça? -Porque o golpe me derrubou e me dava de bruces contra o chão. só um trabalho.Certo. meu nome é Helen. -O que? Ah. que disporia da informação em um ou dois dias e que não precisava seqüestrar a ninguém. disse-me. Só um trabalho. Estava pálido e parecia preocupado. -Olhou-me consternado-. minhas feridas. Nunca deixava mensagem. Recordei-me que já tinha a profissionais sem escrúpulos trabalhando para conseguir os arquivos do Wayne. Entrei na cozinha. . até que recordei que esta não era minha casa. mas minhas chamadas ainda não tinham coincidido com uma dessas ocasiões. Se Wayne tinha desaparecido voluntariamente -algo que em realidade não sabia-." Talvez o fizesse. o que fora. Estou de seu lado. Chamei o móvel do Wayne. Retornei abaixo e. seqüestraria-o e o encadearia ao ordenador do Wayne até que conseguisse entrar nele. Tinha entrado utilizando uma chave. "Wayne. Coisas mais estranhas aconteciam. -Com o pânico me tinha esquecido delas. Apartei-me a franja e lhe mostrei minha frente avultada e esfolada. Pode confiar em mim. por favor. em qualquer lugar que estivesse. Minha respiração se foi acalmando e as feitas ondas de pânico remeteram. Estava tão cheia de adrenalina que tinha que fazer algo. quando cheguei à porta apareceu Jay Parker. é só um trabalho. teria que acendê-lo de vez em quando para ver suas mensagens. Te tranqüilize. me chame. -Insígnia me disse isso. tinha estado fazendo-o com regularidade e sempre o tinha encontrado apagado. para minha surpresa (categoria: lhe impactem). -Tão forte lhe deram? -Parecia horrorizado. Agora mesmo me subiria ao carro e percorreria as ruas até que visse um adolescente com pinta de informático. Não um assunto de vida ou morte -esperemos-. onde a luz era mais forte.

Alargou os braços para me envolver com eles. a ausência de complicações. Deixei que o alívio me alagasse. Mas sim me tinha feito isso. logo lhe agridem… -Seguro que não foi você? -Como me pode perguntar isso sequer? -Com veemente certeza. -O que faz? -perguntei-lhe. culito de rã. -Sã. -O que? Disse-lhes que me golpeassem mas não muito forte? -Não tenho nem idéia de quem te golpeou. Isto se está pondo muito feio. olhamo-nos com receio. -Não! Deteve-os em seco e retrocedi para sair de seu campo magnético até criar suficiente espaço entre nós. -Sinto muito! -disse. jamais te faria mal. -Sinto-o -repetiu-. Recordei o muito que nos tínhamos divertido juntos. Me cortou a respiração. Durante um muito breve instante seus lábios roçaram a ferida de minha frente e os senti como um bálsamo. Senti esse velho puxão para ele. É que… -Fez um gesto de impotência-. o olhar triste e afligido. acrescentou-: Eu jamais. nunca será assim. ou não? -O que faz saindo com esse vejestorio? -espetou-. até que recuperei bruscamente o julgamento e lhe apartei. Ainda tinha sua cara muito perto da minha. Não tenho nem idéia do que está passando! -Por um momento pensei que foram saltar lhe lágrimas dos olhos. ouvi que até tem filhos! Você não é assim. . Avançou um passo e aproximou sua cabeça à minha.Observei-lhe atentamente. Separados por essa distancia prudencial. Olhei-lhe fixamente aos olhos. O que está ocorrendo? Primeiro desaparece Wayne. sã.

que história te traz com o Harry Gilliam? Observei-lhe com supremo parada. -Estamo-lo? Quero dizer. -Não. Impossível sabê-lo. Abri os olhos. Se pensava ser sincero alguma vez na vida. sei. -Duzentos euros. Somos perfeitos o um para o outro. parecemos o um para o outro. Sua mãe estaria orgulhosa de ti. é… Agarrei o dinheiro e retornei raudamente a minha zona de segurança. . -É certo que Zeezah está grávida? -perguntei. Você e eu somos iguais. -Sim. -Juro-te que não conheço nenhum Harry Gilliam. seria agora. assim fechei os olhos para rompê-la. Procurei a barra de aço dentro de mim e a utilizei para redirigir minha atenção ao que realmente importava: o caso. Negou com a cabeça. Nunca conhecerei ninguém como você e você nunca conhecerá ninguém como eu. mas obtivemos duas levadas. Que terrível decepção. Ou pode que não. -Muito bonito. me diga. Pode que estivesse dizendo a verdade. Helen.-Ouça. é tudo o que o banco te deixa tirar. não o conhece! -Mas te conheço ti. -Porque me contratou… -E depois de apresentar sua renúncia. Sinto muito. Tem meu dinheiro? Jay tirou um maço de bilhetes e me tendeu isso com cautela. voltou! É absurdo resistir. -Somo-lo? -Só terá que ver como recuperamos o contato. estávamo-lo? A conexão de nossos olhares estava voltando-se muito intensa.

-Trata-se de um ardil patético para não ter que me pagar meus honorários? Porque se for assim. -Jay tirou um fólio de seu bolso-. Sempre encontrava a maneira de escaquearse. -Sim. Soltei um bufido depreciativo. um pouco escondido. Ou seja que me está oferecendo vinte por cento de seu três por cento. Trinta por cento é quão máximo posso te oferecer. Isto é além de seus honorários. Se encontrar ao Wayne. Não posso aceitar menos de cinqüenta por cento. Tem que consultá-lo com os promotores. na quinta-feira e na sexta-feira e de outros concertos que possam celebrar-se. Incluí-te na participação da arrecadação. É um contrato. darei-te vinte por cento de minha parte. -Isso não te incumbe. investiste nisto? Suspirou. Sempre havia uma cláusula. Helen -disse-. -Do que está falando? -Receberá uma percentagem da arrecadação da quarta-feira.-Quero que tenha isto. -Não corresponde a ti tomar essa classe de decisões -repus com desdém-. tratava-se de uma negociação absurda porque o contrato carecia de valor. já pode esquecê-lo. -Ah. -Quem mais? Meneou a cabeça. -Cinqüenta por cento -insisti. Isto é algo entre você e eu. -Não tenho que consultá-lo com ninguém porque lhe estou dando isso de minha fatia. Nada que levasse a assinatura de Jay Parker tinha valor. Te darei o trinta. -Então. com o John Joseph e ou seja com quem mais. -Que parte te corresponde? -Três por cento. -Não me está escutando. . de evitar suas responsabilidades. -Imagino que nítido.

A parte positiva: era um bom momento. Propulsada pelo chute de glicose. -É que não o entende? -perguntou-me-. soou-me o telefone e me levantei trabalhosamente para responder. comecei pelo número 3. verdade? -Oxalá -respondeu com a voz entrecortada pela emoção. Já a tinha esquecido. O quarenta. Era mais jovem que eu. -Que seja o quarenta. -Tinha-me cansado de jogar. em troca hoje um homem com camisa de quadros vermelhos saiu a meu encontro. olhe aonde olhe só vê casais felizes. Eu estava tão doída pela perda de meu piso que o mundo . Sinto incomodála. Se encontrar ao Wayne e seguimos adiante com os concertos. "Massa gansa. 49 Quando pendurou comi doze punhados de Cheerios e de repente me vi capaz de realizar essa tarefa tão ingrata: sondar aos imprestáveis vizinhos. Quem era o bastante afortunados para ter uma casa. Isto é como quando rompe com um homem: durante um tempo. claro. Parecia alarmado.-Trinta e cinco -disse. Ao momento de partir Jay. Decidi que não era necessária a moléstia-. e me perguntei como podia permitir uma casa tão bonita no Mercy Close. -Jay estava rabiscando algo no "contrato"-. receberá uma massa gansa. -De acordo. informarei-a. -Senhora Diffney? -É Helen Walsh? -Tive a impressão de que estava chorando-. -Tendeume a folha enrugada e me coloquei isso despreocupadamente na bolsa. de uns vinte e cinco. E seguro que não está com você. -Se me inteirar de algo. Estava-me perguntando se tiver averiguado algo de… -Não." Não volte a dizê-lo em minha presença. -Justo tinha estado pensando em personarme no Clonakilty. o sinto. a casa situada à esquerda da do Wayne. na sexta-feira não me tinha aberto ninguém. Os domingos pela tarde a gente estava acostumada estar em casa transportando. -Lista do Palazos -disse-.

apoiou-se na ombreira da porta. Reprimi um suspiro.me parecia infestado de pessoas com camisas de quadros vermelhos que viviam em casas bonitas. Saiu de casa do Wayne. -Então era eu. Levava texanos e sapatilhas laranjas… -Deteve o olhar em minhas sapatilhas laranjas e sua voz se apagou-. somente disse que estava investigando um par de coisas para o Wayne. Como?. pode que fora você. pareceu-me amável e com desejos de colaborar. perguntei-me. meu trabalho é muito mais árduo. Fará um par de horas. Viu a alguma outra mulher por casa do Wayne nos últimos dias? -Sim. -Como o que? -Como… -Possivelmente deveria enfocá-lo pelo lado de Glória-. e embora o tipo observou com suspicacia meu olho avermelhado e não me convidou a entrar. Alguma mulher visitando o Wayne? -Sim -respondeu-. Agora que o penso. pensei. Mas quando o perguntei me disse que vivia sozinho. -observou ultimamente algo estranho por aqui? -perguntei-lhe. sempre bom sinal de que a pessoa está disposta a conversar. muito afortunadas que eram. Apresentei-me mas não entrei em detalhes. uma tia baixa e miúda. Vi uma. observei que quando alguém se mantém direito. -Quando viu essa mulher? O mês passado? A semana passada? -Esta manhã. -Sério? -Sim. que difícil. alheias ao muito. Talvez o Moço da Camisa de Quadros vivesse com outros oito jovens. com o cabelo comprido. Talvez por isso podia permitir-se viver aqui. Como? Obriguei-me a me concentrar em minha tarefa. -Seriamente? . Deus.

As classificações em minha Lista do Palazos eram flexíveis e me divertia as reorganizar constantemente. mas por cima de neve. Ao igual a aquela. Ocorria a todos os adolescentes. tipo Bank of Mum and Dêem. Prossegui com minha investigação. . sua casa é de propriedade ou de aluguel? -Né… o que tem que ver isso com o Wayne? -OH. Eu não era um completo fracasso. Não sei por que o hei dito. ocorre-me freqüentemente. Obrigado de todos os modos. -De aluguel -disse. Só que era jovem e eu sabia que cada vez que seus olhos se posavam em uma pessoa maior de vinte anos sofria um fenômeno neurológico pelo qual se voltava literalmente cega. né? -Nada. No número 1 vivia uma adolescente. cães. Uma mulher muito parecida com a que tinha conhecida na sexta-feira. Era só curiosidade. Suponho que não queria decepcioná-la. estava-me resultando tão irritante que decidi inclui-la em minha Lista do Palazos. Assim e tudo. Colocaria-a debaixo Da Maravilha de Agora e bebedores de leite. recepcionistas de barbearias e o aroma do ovo frito. Assim que nada estranho. O número 2 deu de si um caso de Velhice Ativa. nada absolutamente -me apressei a lhe tranqüilizar-. -Não se preocupe. que se retorcia o cabelo e se negava a me olhar aos olhos e se chupava as pontas do cabelo e parecia incapaz de dizer algo além de "Não sei…" com acento de Los Anjos em que pese a ser do Tubbercurry. -me diga. Não estava sendo deliberadamente indiferente. Sinto muito. O fato de que não tivesse uma hipoteca me fez sentir um pouco melhor. a voz do Fozzy Bear. -Não. recepcionistas de médicos.Pareceu encolher-se sob meu entusiasta escrutínio. uma estudante universitária. esta me assegurou que estava muito ocupada para reparar em nada e me escritóriou sem olhares. nada.

Iniciei meu perorata. Resultou ser um pouco mais cálida e empática. Mas -acrescentou. Esta mulher não era tão enérgica e dinâmica como as outras dois que viviam no Mercy Close. consumia-lhe muito tempo. como se sua zona genital fosse feita de suave plástico sem pilila. assim que me saltei isso. pelo visto. sou amiga do Wayne Diffney e… -Não quero me envolver -disse. Alguém abriu a porta do número 8 antes de que terminasse de chamar o timbre. Também o número 11 -a família do alisador de cabelo recém chegada de suas férias. ah. O bridge. Vestia roupa informal. mas parecia nova e engomada. Um homem. Tinha um aspecto algo assexuado. tendo que lhe pagar a pensão a toda essa panda. Quase nunca via o Wayne. depois do encontro da sexta-feira com o homem das orelhas com pelitos tinha aprendido a não soltar: "Você temnamorado? A seus oitenta e sete anos?". -por que não? -Porque não quero e ponto. imprestável. Pelo menos. O número 9 continha outra mulher de Velhice Ativa! Mas o que lhe estava passando ao mundo? Com razão a economia estava pelos chãos.Cruzei a rua para seguir com minhas indagações. a mulher de Velhice Ativa original. . -Meu nome é Helen Walsh. -Sim? -ladrou. -Além disso -disse-. acabariam vivendo até os cento e trinta.não cite minhas palavras. E com tanto exercício e tanta flora. Mais ou menos. Passei a seguinte casa com o ânimo ligeiramente tocado. O chute de glicose tinha perdido seu efeito e nenhum subidón de adrenalina tinha vindo a substitui-lo. Este era dos que permaneciam bem direitos. passo meia semana no Waterford com meunamorado. Ninguém me tinha contribuído com informação com a que poder trabalhar. apesar de tudo. não. O número 12 albergava aos lhe desiludam homem cinqüentão de orelhas com pelitos que assegurava ternamorada.e o número 10. Não se apoiou na ombreira. mas.

Abrigava a firme suspeita de que este tipo era advogado e decidi comprová-lo. vive alguém mais na casa com quem pode falar? -Não -espetou-. -Obrigado por sua ajuda -disse. Seguro que os dois eram muito similares e vestiam roupa quase idêntica mas lhes horrorizava a idéia de compartilhá-la. -Relaxe-se.-Certo. -Lamentamos te haver assustada na sexta-feira -disse Daisy. mas. Ao cruzar a pequena grade do número 7 notei um calafrio na nuca. . Seguro que os dois tinham uma dessas intrigas que extraem as bolas dos jerséis de cachemira e uma escova de dentes complicado e um jogo de cera para tirar brilho a seus sapatos de couro negro. rebatendo sua tensão com uma atitude superrelajada. Podia ver as palavras atravessando sua mente: "Todo conselho que brinde e seja tomado posteriormente em conta lhe faz suscetível de ser demandado por todos seus bens blablabla…". Voltei-me raudamente e vi o Cain e Daisy ao outro lado da rua. Imaginei uma relação gay sem sexo. em cinco segundos poderia estar cinza. -Sem prejuízo -respondeu-. Simplesmente não queria meter-se em problemas. Tirou a cabeça para jogar uma olhada. E ele tampouco quer envolver-se. me observando em silencio desde seu jardim. tratando-se da Irlanda. Acaba desenvolvendo uma intuição para estas coisas. Sabia que não me estava ocultando nada sobre o Wayne. -Podemos falar um momento? -propôs Cain. só para lhe chatear-. -Não a ajudei -me replicou em seguida. -Lhes largue! -gritei agitando um braço para afugentá-los-. amigo -disse enquanto me afastava. Fascinante. -De que cor é o céu? -perguntei. Deixe de me espiar. tem diferentes interpretações. nesse caso -repus. A verdade é que tinha razão. O céu luzia azul.

-Código que nos significava compra María". -Não me ajudem -lhes disse-. o número 5. encaminhei-me para ela com passo altivo. -Mudaram-se faz meses -disse a voz do Daisy. Está surfeando no Sligo. Ou pode que manhã. Contudo. encaixada entre a do Wayne e a de Cain e Daisy. Chamei de novo. Ignorei-lhe e voltei a chamar. Quem se mudaria a meu piso agora que era propriedade do banco? mudaria-se alguém? Que ficasse vazio me doeria quase tanto como que alguém vivesse felizmente nele. Não me acreditava nada do que diziam esse par de fantasiosos. -Aí não vive ninguém -vociferou Cain do outro lado da rua. Ninguém me abriu. Só ficava uma casa do Mercy Close por visitar. Podemos conseguir que te telefone agora mesmo. Não tinha a mais mínima intenção de fazer caso a esse par de pirados. mas se foi fora o fim de semana. Não saiu ninguém. É nosso amigo. Consciente de que seguiam avidamente com o olhar cada um de meus movimentos.-Não! lhes largue! Desapareçam de minha vista! Girei resolutamente sobre meus talões e chamei o timbre do número 7. A porta seguiu fechada. -Voltará esta noite -acrescentou Cain-. Embora já não me cabia dúvida de que a casa estava vazia. Dava-me a volta. -Aí vive Nicholas -me informou Daisy-. Pulsei o timbre e a ignorei. -É inútil -gritou Cain-. Chamei de novo. mas estava claro que nestes momentos não havia ninguém no número 5. -Podemos conseguir que te telefone assim que volte. Seguro que a gente que vivia aqui não pôde seguir pagando sua hipoteca. Não há ninguém. um bom tipo. Não quero sua ajuda. Voltaria . voltei a chamar. Como eu. não pude evitar me precaver de que a pequena parcela do número 7 estava infestada de dentes de leão amarelados e se respirava certo ar de abandono.

Perguntei-me uma vez mais se era a pessoa que me tinha golpeado. como um passarinho recém-nascido pedindo comida.a provar mais tarde. Miúdo investigador privado parecia. decidido. Absorta em meus pensamentos. pincei em meu atestado bolsa e descobri que não levava em cima o carregador. Fariam-lhe mingau. derrubado sobre o volante. A pouca paciência que tinham a tinham esgotado comigo. invadindo quase toda a parte dianteira de seu carro. Wolcott estava tão concentrado em sua missão que não reparou em mim. Ou sessenta e três. Gordo mas compacto. 50 O móvel soltou um assobio lastimero. mais ou menos. Me estava acabando a bateria! Como tinha podido deixar que ocorresse? Presa do pânico. por aí. Sobre tudo as Velhas Ativas. Era dessa índole? Custava-me lhe pôr idade. Cinqüenta e sete. Oxalá. certamente o tinha deixado em casa de mamãe e papai. Não podia estar sem um telefone operativo. Me tinha passado por cima alguma vibração? Havia algo um pouco estranho? um pouco suspeito? Mas não ficou mais remedeio que aceitar que não o havia. Quase me escapou uma gargalhada. saí de casa do Wayne e subi ao carro. Tinha-lhe visto uma vez -não me pergunte . E pode que Cain e Daisy lhe fizessem o mesmo truque do rapto com que eu tinha sido obsequiada. Entre na sexta-feira e hoje tinha falado com nove de seus dez vizinhos. retornei a casa do Wayne. Engano de colegiala! Recolhi minhas coisas às pressas e correndo. Repassei rapidamente cada conversação. Seguro que tinha vindo a interrogar aos vizinhos. -Nos deixe te ajudar -implorou Cain. possivelmente. E a quem vejo entrar justo quando abandonava Mercy Close? Nada menos que ao Walter Wolcott! Como um boi em uma gabardina bege.

O sensor de movimento instalado em casa do Wayne se disparou. meu móvel escolheu esse momento para passar desta para a melhor.em que circunstâncias porque não o recordo. Wayne tinha voltado para casa! Experimentei tal subidón de adrenalina que pensei que a cabeça ia estalar me. . inesperadamente. Como se tivesse entrado em minha casa. Sentia-me… profanada. Transcorridos uns minutos me apitou o móvel com uma mensagem de texto. quase briosa. Como se queria expressar seu desgosto. Ligeiro de pés para um tipo tão corpulento. Já em casa de meus pais. aceitei seus comentários horrorizados sobre o estado de minha testa ferida gravemente. E você. mamãe tinha reunido ao Claire e Margaret. até que compreendi que provavelmente era Walter Wolcott e a alma caiu aos pés. Hel…? -Não! -Acredito que deveria ir a urgências para que lhe olhem a cabeça -opinou Margaret. segura. -Você. que era um excelente bailarino.em um acontecimento social (talvez umas bodas) e descobri. Chamei o Jay Parker com meu móvel agonizante. Claire? -Não. Margaret? -Não. -Você. Sem deixar de conduzir. Acredito que nunca conheci a ninguém de Leitrim. -Walter Wolcott tem uma chave de casa do Wayne? -A deu John Joseph. depois de encontrar o carregador e conectá-lo ao móvel. -Leitrim -disse maravilhada-. li-o. deixei que me convencessem de que tomasse banho e me lavasse o cabelo e fiz que mamãe estendesse um talão para o Terry Ou'Dowd e o metesse em um sobre com um selo. dirigia a uma mulher que supus era sua esposa de uma forma antiquada.

Helen? Algum impulso demente de te jogar no mar? Hummm. Provavelmente haveriam dito: "Que razões tem para estar deprimida?". A maioria me trazia sem cuidado. meditação. Os que mais probabilidades tinham de dizer: "Tem idéia de quanta gente te quer?". como quer chamá-lo. Minha irmã Anna e seunamorado Angelo voaram de Nova Iorque para que pudesse lhes enxugar as lágrimas. Claire era a estrela. Eram os que me diziam entre soluços que não podia me tirar a vida porque jogariam muito de menos. Animavam-me a fazer reiki. hipnoterapia. viu a hora?". nada me passava.-Para que lhe examinem a cabeça -lhe corrigiu Claire antes de soltar uma gargalhada-. artesanatos de feltro. mas havia uma ou dois que eram importantes para mim. aterrava-lhes que isso que tinha fora contagioso. Faz anos eu teria pertencido a essa categoria. e eram muitos. Eram os que adotavam a postura de que como isso que chamavam depressão não existia. choças de vapor. C) Os Não Pode me Fazer Isto. comunicação com os anjos . Pensavam que brincar sobre meu estado mental o reduziria a um tamanho manejável. Bronagh -embora então me doía muito para poder admiti-lo. B) Os Negadores. retiros. ioga. os que propunham terapias alternativas. que tive um episódio de depressão suicida. Os que mais probabilidades tinham de dizer: "Sinto-me tão impotente… Deus. D) Os Fugitivos. estudo da Bíblia. As mais das vezes acabava consolando-os eu a eles. A causa era o medo. jejum. Muitas. dança sufí. Como se fora a servir de algo! Como te encontra hoje. E) Os Nova Era. técnicas de liberação emocional. A última vez que estive mau. isto é. hidroterapia. Uma subcategoría dos Negadores eram os Dum. Os que tinham mais probabilidades de dizer: "Algum impulso demente de te jogar no mar?". homeopatia. duchas frite. muitas pessoas deixaram de me chamar.ocupava o primeiro lugar. classifiquei as reações de minha família e amigos em diferentes categorias: A) Os Brincalhões.

estou genial -disse-. porque se lhes replicava parecia que estava me fazendo a vítima: "Pois eu não me sinto bem. Os milagres não são baratos". Ninguém entre as pessoas que me queriam entendia como me sentia. quão pior podiam me fazer. de fato. Seguido de: "Por isso cobra o que cobra. (Como faria se tivesse um enfisema. Claire. -Não. Só tinha que decidir que estava melhor. Todo mundo tinha uma história sobre algo que tinha curado a seu tía jefenoviovecino. Ou um Fugitivo retornava nas pontas dos pés para me observar às escondidas e logo recrutava a um Negador para lançar um ataque a dois flancos me dizendo o bem que me viam. T escrevo quando partir. Nenhum impulso demente de me jogar no mar. Não tinham nem idéia e não o reprovava.) A que mais probabilidades tinha de dizer: "Este homem faz milagres". por isso decidi estacionar o tema um par de horas. sinto-me tremendamente desgraçada". Meninos fora? Respondeu imediatamente: Bela até aki. Não passava um dia que não me enviasse o enlace de algum engañabobos seguido de uma chamada Telefónica aos dez minutos para assegurar-se de que tinha pedido hora. Enviei um SMS ao Artie. Assediava-me.ou comer só mantimentos azuis. Enquanto esperava a que o móvel se carregasse me assaltou um cansaço repentino. Estavam acostumados a dar-se polinizações cruzadas entre os diferentes grupos. E isso era. (E eu estava tão se desesperada que até lhes dava uma oportunidade a muitos. .) Ou um Não Pode me Fazer Isto chamava um Nova Era e se queixava entre soluços de meu egoísmo e o Nova Era lhe dava a razão porque me tinha negado a soltar dois mil euros para uma choça de vapor no Wicklow. Às vezes os Brincalhões faziam abacaxi com os Duros para me dizer que recuperar-se de uma depressão consistia simplesmente no "domínio da mente sobre a matéria". porque até que me ocorreu eu tampouco a tinha tido. Mas minha irmã Rachel se levava a palma. Não me ocorria uma só coisa produtiva que pudesse fazer para encontrar ao Wayne.

-Miúda fileira de mentiras! -Mamãe elevou a revista que mostrava ao Frankie Delapp "Em casa"-. . como me estava custando manter a boca fechada e não desvelar o muito que sabia sobre a casa do Wayne. é uma suíte do Merrion que todo mundo utiliza para estas reportagens. Amanda Taylor fez ver que era sua casa. -De chocolate -gritei. -Ah… a sério? -Wayne Diffney parece… -disse mamãe olhando as fotos. Billy Ormond fez ver que era sua casa. Se nem sequer tiver matriz? -Exato! -convim. a casa de meus pais se encheu de periódicos e doces. Não é sua casa. embora eu estava bastante segura de que Zeezah era uma mulher.Enquanto isso. nem sequer Margaret. Deus. -Há bolachas? -perguntei. -E a casa do Wayne Diffney? -perguntou Margaret-. é a classe de lugar que você gostaria. Nenhum hotel permitiria semelhantes cores. -Como vai estar grávida se for um homem? -disse mamãe-. Também é um hotel? Mamãe lhe jogou uma olhada. Helen. De fato -me olhou quase com suspicacia-. a de vezes que vi essa "mesa de carvalho para vinte comensais". -Lhe traga bolachas -disse mamãe a Margaret. -O que? -Uma pessoa doce. preciosa casa do Wayne-. uma das pessoas mais crédulas que conheço. Não imaginam quantas vezes a vi. Ninguém o tragava. -Autêntica -declarou-. -Que lugar tão peculiar -comentou mamãe inspecionando as fotos da preciosa. Assim comemos bolachas de chocolate e folheamos hectares de periódicos e o "embaraço" do Zeezah foi objeto de numerosos comentários desdenhosos.

. impulsivo. mas esta oportunidade com o Artie era muito excepcional e valiosa para deixá-la escapar. quase desafiantes. (Não funcionou. mas um dez pelo esforço. E estava a agressão a Bônus.) Era apaixonado. mas durante umas semanas Wayne Diffney foi um herói. Tinham passado muitos anos.) E Wayne trabalhava principalmente em países onde resultaria útil saber a respeito das setenta vírgenes do paraíso e essas coisas… O móvel apitou para indicar que se carregou. enfrentouse como um pequeno David contra os Goliat que eram Bônus e Shocko Ou'Shaughnessy para tentar recuperá-la. Enfim… se carregava todos os tabus. (E estou virtualmente segura de que nenhum se teria referido a eles como terroristas suicidas com turbante. TODOS fora. Vêem já! Titubeei. Como é lógico. romântico. TODOS. Pode que estivesse muito apegada a ele. E se pensava nos livros de seu mesita de noite… Tinha o Corán. Recorda aquela vez que golpeou a Bônus com um pau de hurling. muitos agentes secretos liam o Corán para tratar de entender a maneira de pensar dos terroristas suicidas com turbante. o campeão do povo. Como lhe lançar um tanga vermelho à Batata. Bônus era um ídolo tal na Irlanda que lhe golpear… no joelho… com um pau de hurling. é obvio. Apertei-me isso contra o peito. E quando sua esposa Hailey o abandonou foi procurá-la. Não comprava leite. Pelo menos o tinha sido e estava segura de que ainda ficava algo. Sua casa estava grafite de cores peculiares.-Não tão doce -replicou Claire desde detrás de uma revista-. Seguro que havia algo que poderia estar fazendo para encontrar ao Wayne. Tinha razão. Um instante depois me chegou uma mensagem do Artie. Embora ninguém teria podido me confundir jamais com um agente secreto. Tinha que reconhecer que Wayne Diffney me intrigava. Tinha-o esquecido.

-Não o parece. quero esquecer que existem. Já estava duro como uma pedra. e baixei a mão pelo torso até alcançar seu entrepierna. -Estava-me abrindo a cremalheira dos texanos-. 51 Estava-me esperando. -Que mulher. rodeou-me com seus braços e me beijou. -Sua ereção já estava começando a baixar. . Deslizei os dedos pelo cabelo revolto de sua nuca. Terá que esperar. -Comecei a me despir no carro. -Não. Devo ir. -Quando voltarão? -dentro de horas. Se foram todos. -Deus -gemeu-. -É cruel. Obrigado pelas bolachas.-Bem! -Recolhi rapidamente minhas coisas-. -Onde estão? -perguntei. alguém me golpeou. Quando me detive em um semáforo em vermelho me tirei as sapatilhas e os meias três-quartos para que pudesse me tirar os texanos mais depressa. e se dispunha a me beijar quando se deteve em seco-. Abri-lhe o botão e a cremalheira dos texanos. -Jojojo -respondi. mas estou bem. -Nada de te atirar ao mar -me advertiu jovialmente Claire. introduzi uma mão pela cinturilla de seus Calvin e a fechei em torno da pele de bebê de sua ereção. Não fale deles. me apartando a franja da frente no processo. -Tomou meu rosto entre suas mãos. Sentado ao pé da escada. Bom. Ostras! O que te passou? -Nada. Volta a fazer isso. não pares. -Fora. eu adorava essa parte de seu corpo. Assim que cruzei a porta se levantou.

Levantei a vista. Artie. Artie tinha a mandíbula apertada e me estava olhando com tal intensidade que quase parecia assustado. deslizei uma mão por debaixo dos testículo e lhe sustentei a ereção com a outra.-Estou bem. -Certo. sentindo o indescritível prazer de sua pele contra a minha. -Rebolando os quadris. Tirei-me as calcinhas e as lancei ao ar. mas agora não pares. Não podemos fazê-lo. É delicioso. desejava lhe sentir por completo. -eu adoro seu aroma -disse-. estava acostumado a dizer. que se pararmos agora morrerei. . Tomei em minha boca. Desejava muito meu traseiro. tem pior pinta do que é. Entramos em seu dormitório e rodamos por sua enorme cama branca saboreando a liberdade de poder fazer todo o ruído que gostasse. Atraí-o para mim. onde mais concentrado estava seu aroma de Artie. vou tirar me a roupa. mas primeiro matarei a ti. -Não -disse me apartando brandamente a cabeça. Se tivesse podido me colocar debaixo de sua pele o teria feito. podemos falar disso mais tarde. Artie -supliquei arrastando-o pela escada em direção a seu dormitório-. empurrando-o para minha boca com a mão enquanto ouvia como lhe acelerava a respiração. Um segundo depois também ele estava em couros. -Apertei a cara contra seu púbis. Lhe juro isso. e inspirei profundamente enquanto pensava: "Se pudesse guardá-lo em uma garrafa…". face à cicatriz que me tinha deixado a mordida de cão. "É tão bonito e redondo". -Mas está ferida -protestou-. retorcendo a língua. Fui agarrando ritmo lentamente. Não podia me estar aquieta. tirei-me os texanos no alto da escada-. Subi sobre seu corpo para empurrar meu estômago e meu peito contra seu torso. Logo me tirei a camiseta e o prendedor. Agarrei seu rosto entre minhas mãos e disse: -Asseguro-te. Artie. Olhe. agora vou tirar me as calcinhas.

Outra vez. Artie. procedeu a me beijar a parte interna dos joelhos. Artie. Era uma sensação tão deliciosa que ao final tive que dizer. -O alívio durou pouco. -Assim está bem? -E entrou até o fundo. Colocou a ponta em minha entrada. seu peso me imobilizando contra a cama. E -acrescentou com um brilho malicioso nos olhos. e me imobilizou contra a cama. -Quer que lhe folle? -Quero que me folles. . das coxas.-Não? -Terminaríamos muito logo. seu antebraço em meu quadril. -Por favor Artie o que? -Por favor. me enchendo por completo. -Assim está bem? -perguntou-me. Deus. -Por favor. -Quase estava gritando de frustração. -O que há dito? -sussurrou com seu fôlego quente em meu ouvido. -Assim está bem? -Mais. -Obrigado. Com sinuosa lentidão. Necessitava mais-. -Terá que pôr remédio a isso.quero que dure. -Mais -implorei. -Sim. quase suplicar: -Por favor. -Pode respirar? -perguntou. Tombou-me súbitamente sobre meu estômago. as nádegas. Artie -repeti. Avançou um centímetro. Rápido. fóllame. Outra vez -disse-.

Sou capaz de baixar e lhe preparar isso até esse ponto eu gosto. Coloquei as mãos em seu estômago e senti que o contato me eletrizava a pele das Palmas. Rebolei-me e olhamos aos olhos. Deu-me uns minutos para me recuperar. -Bocejou. Não quero te soltar. Segui-a com o dedo. Deve ser de correr e fazer abdominais. tomarei mais tarde. algo grogue e desorientado. Tendeu-se de barriga para cima e me sentei escarranchado sobre ele. pude tolerar a intimidade." -E o que pensou? -Tínhamos tido esta conversação centenas de vezes. -Pensei que foi a mulher mais enigmática que tinha conhecido em minha vida. mas seguia me gostando de ouvi-la. -Café? -perguntei-lhe-. até que as ondas de prazer estalaram dentro de mim e gemi contra o travesseiro. -Então.Apoiou-se sobre os braços. -Embora não cria nas bebidas quentes. Descendi sobre ele e me agarrou pelas nádegas. quase maravilhada. -Agora -disse com um brilho pícaro no olhar-. Despertou dez minutos mais tarde. e fui capaz de suportá-lo. tão protetor de seus filhos. tão discreto em seu trabalho. quer que te traga um café? Minha oferta segue em pé. cada vez mais depressa. e me fez sentir um pouco melhor comigo mesma. como eu gostava. "Não acredito nas bebidas quentes. que ver seu lado selvagem era emocionante. no chão. -O que? -Foi uma das primeiras coisas que me disse aquele dia em meu escritório. fez-me sentir que não era um completo inseto estranho. ofegando. -Aproxima-me seu portátil? Está aí. Artie esperou a que me corresse uma segunda vez e se deixou ir por completo. Pelo general era um homem tão contido. meu turno. como se estivesse fazendo flexões. ao menos enquanto o desejo me dominava. estremecendo-se. -Uma linha de pêlo mais escura que o resto de seu cabelo descendia do umbigo até o púbis. Estreitou-me contra seu peito e instantes depois dormiu. e me penetrou uma e outra vez com certa brutalidade. quase gritando. Posso senti-lo tudo tanto… tanto. . -Posso notar os músculos de seu estômago -disse-. -Não.

e um ataque de ressentimento me fez dizer: -Oxalá pudéssemos fazer isto sempre que quiséssemos. -Quem é? Senti uma pontada de culpa -pode que inclusive de temor-. Seguiu um silêncio não tão amigável já. -Não é ninguém. Logo vimos uns cães fazendo os passos do Thriller". Adormecidos e relaxados. Finalmente. Tive a sensação de que fazia muito que não estávamos juntos desse modo. a uns gatos cantando "Silent Night". que por um instante eu tinha desejado que o fizesse. -Me conte -disse em um tom de voz repentinamente formal-. quem é Jay Parker? -O representante de Laddz. Disse "Sim" porque queria dizer: "Sim. Voltei-me para lhe olhar diretamente aos olhos. Entre seus filhos e seu trabalho.Estirou-se e esteve em um tris de cair da cama. como não chegava. vimos várias entrevistas com o homem enquanto seu cabelo nos fazia rir uma e outra vez. . Depois de uma larga pausa. Artie respondeu: -Sim… Esperei algo mais mas. mas retornou vitorioso. como se soubesse que essa manhã Jay Parker me tinha beijado. a uns cavalos recreando a cena de "Te divirto?" de Um dos nossos. um par de semanas. mas me pareceu uma resposta insuficiente. Nem sequer tive que lhe dizer o que fazer. disse: -É tudo o que pensa dizer? Sim? -Sim. como se Artie pudesse me ver a alma. Artie o rompeu. Não sei por que. e retornamos ao cabelo de senhora do escritor. oxalá pudéssemos fazer isto sempre que quiséssemos". Queria ver no YouTube o cabelo de senhora do ganhador do Booker.

escutando. Algum dia lhe contarei isso. -Senhor Devlin? -chamou uma voz de homem-. -Já. -Papáaaa -uivou. e mau. Esperei um instante antes de responder. Três meses. possivelmente deveríamos… Justo nesse momento soou o timbre da porta. -Tive algo com ele. quase de esgotamento. Bela se tinha cansado de uma árvore. Não me parecia apropriado com minha ferida na frente. -O tom de Artie estava esfriando-se e me senti envergonhada e estúpida por tentar lhe enganar. -Ouça. -Já o que? -Significa isso que tampouco quer falar da perda de seu piso? Decididamente. Será algum desventurado tratando de nos convencer de que troquemos de fornecedor de cabo. não era a mãe de . Mas se levou um bom susto. Não se quebrado nada. então? -Não sei. Ouvimos que a porta principal se abria e a alguém chorar. Terminou faz um ano. -A menina está bem -explicou-.-Não é certo. Pode que lhe saia algum arroxeado amanhã. -Ignora-o -disse-. Como se estivesse perguntando-se se tudo isto valia a pena. O pai da amiga com a que estava passando a tarde havia a trazido para casa. provavelmente Bela. Não tinha intenção de baixar e me dar a conhecer. Está em casa? Artie estava vestindo-se e tinha uma expressão severo no rosto. mas hoje não. não queria falar da perda de meu piso. -Possivelmente deveríamos o que? -perguntei. Uma coisa era que Bela suspeitasse que Artie e eu dormíamos juntos de noite e outra que nos descobrisse na cama em pleno dia. Helen. -Quando. Bela tornou. Durou pouco. Fiquei acima. Além disso. -Mierda -balbuciei saltando da cama e agarrando a roupa-. Artie ficou imóvel.

mas o do Birdie tinha um ar bonito e acolhedor. (Tinha descoberto mediante um rastreamento de matrículas algo ilegal que Birdie conduzia um Mini amarelo. Jay lhe tinha contado que me tinham atacado. 52 Não queria retornar ao Mercy Close se existia ainda uma possibilidade de que Walter Wolcott seguisse ali. a casa irradiava uma quietude total. Graças ao Mapa Falante encontrei a casa do Birdie sem problemas. mas não quando os dois acabávamos de sair da cama. Tinha-me chegado um SMS do Zeezah.transbordavam de flores de vivas cores. A porta da entrada era amarela e parecia recém grafite. contava com minha aprovação. subi ao carro e me larguei. em direção ao Skerries e Birdie Salaman. Além disso. Na mensagem expressava sua preocupação e empatia e sugeria que se por procurar o Wayne estava pondo em perigo minha integridade física. em que pese a não ser negro. antes de estacionar. Não via seu carro por nenhum lado. Disse um rápido olá a Bela. deveria abandonar o caso. Se tivéssemos estado no pátio lendo a imprensa dominical a sua chegada. mas não me parecia bem ficar aqui.Bela. modelo que. Não sabia muito bem o que poderia estar fazendo. até que descobri que este sem rumo fixo meu tinha em realidade um objetivo: estava conduzindo para o norte. e dois cestos pendentes -um a cada lado. Apareci na janela da sala de estar. emprestando a sexo. disse um rápido adeus ao Artie. vale.) em que pese a tudo. de maneira que conduzi um momento sem rumo fixo. o instinto já me estava dizendo que Birdie não se encontrava em casa. desci do carro e bati na porta. Imediatamente desconfiei de seus motivos. ninguém me abriu. tratava-se de um cubo pequeno de obra nova dentro de uma urbanização de cubos pequenos de obra nova. teria que estar trabalhando. não era a esposa de Artie. . Tal como esperava. Como explicaria Artie minha presença e minha roupa enrugada a um completo desconhecido? Resultaria muito evidente o que tínhamos estado fazendo. Decidi partir.

Bonito chão de madeira. mas que muito piores. Não especialmente bonitos. Uma cozinha Ikea. e na referente a cores não era o pior. mas tampouco ofensivos. Tinha dado rédea solta a sua parte feminina e infantil? Tinha sua cama um dossel de musselina rosa? Ou me estava equivocando com ela? Era seu dormitório sóbrio. Era evidente que lhe tinha ido o orçamento no chão. resultava atrativo. Intrigava-me o resto da casa. se tinha vontades de me contar onde podia encontrar a Glória o agradeceria e aqui tinha meu telefone. Um terceiro salto desvelou um pote de bolachas sobre uma prateleira e o óleo de uma madalena na parede. contudo. Dava outro salto e vi uma mesa ovalada de madeira compensada e quatro cadeiras amarelas -ao parecer Birdie era uma fanática do amarelo. Não era horrível.com um avental de toupeiras pendurando do respaldo de uma delas. seguro que me pilhavam. mas vi a gente fazer coisas piores com sua casa. Havia um espelho rodeado de lucecitas de cores e novelo de um verde brilhante repartidas pela sala em alegres vasos de barro de toupeiras. só medíocre. muito bonito. . Tive que saltar para ver o interior. Decidi que já tinha saltado suficiente. avancei desenfadadamente pelo flanco da casa até a parte de atrás. como está acostumado a ocorrer com as janelas das cozinhas. Em geral. mas não tanto como para correr o risco de ser presa. Confiando em não atrair a atenção dos vizinhos. elegante e adulto? Sentia verdadeira curiosidade. muito Cath Kidston para meu gosto. e um domingo pela tarde em um bairro residencial. antes de ir lhe deixei uma nota onde lhe contava que me tinha "deixado cair" por sua casa e que lamentava não havê-la encontrado e que se tinha vontades de falar comigo estaria encantada de fazê-lo e que. Meu joelho machucado não tolerava mais saltos e tampouco havia nada interessante que ver. mas para descobri-lo teria que forçar a porta. Estadia de três ambientes que não estava à altura do parquet. à vista de jovens que transportavam com fósforos na grama (o que acontecia com os meninos de onze anos e sua mania lhe colocando fogo a tudo?). Perguntei-me como seria a planta de acima. lamentando pinçar em uma ferida que era óbvio que seguia aberta. Armários brancos. As janelas da cozinha estavam muito altas. O conjunto.

uma amiga de minha irmã Claire. passaram vinte anos e segue viva. nem nenhuma outra das razões que revistam expor-se como causa possível de um câncer simplesmente para que quão desgraçados o sofrem se sintam culpados além de aterrorizados. Como a amiga de mamãe. Também contraiu câncer de mama. Ainda não o perdoou. (Mamãe ficou segunda. Curiosamente. Lhe dá bem. não tinha levado uma existência estressante nem tinha lutado na operação Tormenta do Deserto. não? Retornei ao carro e recostei a testa no reposacabezas. mas quem nada arrisca nada vontade. Joga bridge. lhe caiu o cabelo.) Logo pensei em outra mulher. Sobreviver a um episódio depressivo requeria muita energia. Traguei-me quatro pastilhas e fechei os olhos. Não faz muito ganhou um vale para duas noites em um hotel de três estrelas de Limerick. não se tinha submetido a uma terapia hormonal substitutiva. nem nenhuma outra das razões que revistam expor-se como causa possível de um câncer simplesmente para que quão desgraçados o sofrem se sintam culpados além de aterrorizados. mas só recebeu uma lata de bolachas. O cabelo voltou a lhe crescer.Minhas esperanças de obter resultados não eram muitas. . estava tão fraco que nem sequer podia ver Jantar comigo. depois da quimio lhe deram rádio. que lhe abrasou o peito até o ponto de não poder tolerar um lençol pelas noites e a deixou tão exânime que virtualmente se arrastava pelo chão da sala. não tinha levado uma existência estressante nem tinha lutado na operação Tormenta do Deserto. Vento em popa. não fumava. encontrava-se fatal. uma amiga de minha mãe. Nem no mais severo dos universos poderia haver dito que "o tinha procurado". lhe caíram as pestanas. mas todo esse tortura interior era matador. Não havia antecedentes em sua família. não se tinha submetido a uma terapia hormonal substitutiva. Lhe deram quimio. Sabia que dava a impressão de estar dando voltas sem fazer apenas nada. De repente me sentia exausta. Estava pensando naquela mulher. não fumava. não havia antecedentes em sua família. que tinha tido câncer de mama. distinto: passou do ter encaracolado ao ter liso.

Jogará a casa abaixo. -Não agüentará -gritei-. Três filhos. Às vezes os fármacos funcionam um tempo e logo deixam de funcionar. que lhe abrasou o peito até o ponto de não poder tolerar um lençol pelas noites e a deixou tão exânime que virtualmente se arrastava pelo chão da sala. Tinha trinta e quatro anos. Vi-lhe examinar um lhe baixem enquanto se perguntava se poderia subir por ele para aparecer às janelas do dormitório.Nem no mais severo dos universos poderia haver dito que "o tinha procurado". olhava fixamente aos olhos mas ao mesmo tempo estava completamente ausente. estava tão fraco que nem sequer podia ver Jantar comigo. Esta mulher -Selina. E às vezes te pergunta se as interferências externas não influem o mais mínimo. se tiverem que seguir seu curso e dependendo de quão robusta seja. Era uma grande defensora do pensamento positivo. agarrando-se a meu braço com tanta força que me fez mal-. ao final viverá. Fazia ioga. depois da quimio lhe deram rádio. Lhe deram quimio. As pessoas adoecem. Às vezes as terapias alternativas funcionam e às vezes não. Reconheceu-me pela metade como alguém que tinha conhecido a sua filha. E aí queria chegar eu. sutil como um maço. chamava-se. lhe caíram as pestanas. -Selina lutou como uma leoa -disse. por aí vinha Walter Wolcott! Saltando de seu carro. Não importa que a enfermidade seja câncer ou depressão. enemas de café e visualizações. Às vezes os fármacos funcionam e às vezes não. Ou morrerá. Mas morreu. Ao pouco de sua morte encontrei a sua mãe vagando pelo centro comercial do Blackrock em um estado que agora reconheço como de loucura gerada pela dor. olhando pelas janelas. se as enfermidades forem como as tormentas. E adivinha o que? Morreu. encontrava-se fatal. ia vencer o câncer". Lutou como uma leoa por sobreviver.fez muitas coisas alternativas além de medicar-se. Poderia dizer-se que liberou a guerra desde diferentes frentes. esmurrando a porta do Birdie. e umas se curam e outras não. Deus. lhe caiu o cabelo. gastou-se uma fortuna visitando um engañabobos do Peru que lhe prometeu que lhe extirparia o câncer com práticas chamánicas. .

eu não era ninguém para ela. ninguém. Se pudesse me cortar as tripas pode que o sentimento desaparecesse. Mas obteve a proeza quase impossível de me oferecer indiferença e compaixão ao mesmo tempo.Fulminou-me com o olhar. Dizia: -Como está. Nem chamava uma de minhas irmãs para lhes contar que eu era uma quejica egoísta e autocompasiva. Não tinha que proteger a do terrivelmente mal que me sentia. Agitei alegremente a mão e me larguei. de fato. esta sabe o que tem entre mãos". enfim. Uma vez à semana dispunha de uma hora em que podia ralentizar os terríveis pensamentos da máquina de lavar roupa que era minha cabeça e deixar que minha boca os expressasse e que meus ouvidos os escutassem sem ter que me preocupar do impacto que tinham nela. Ao princípio de nossa "relação". Continuei para o norte. E pensei: "Genial. abriu-se por uma página e uma frase chamou minha atenção: "Em algum momento de sua carreira terapêutica a muitos terapeutas se os suicidará um cliente". Era justamente o que se supunha que não devia ser: minha amiga. A parte da indiferença. Nem me dizia que devia ser forte. E soube que a Antonia Kelly lhe havia suicidado um cliente. Helen? E eu respondia: -Me passou pela cabeça agarrar a faca do pão e me cravar isso na barriga. A única pessoa com a que podia ser brutalmente sincera sem que me julgasse. Não me fez me deitar em um divã nem me perguntou sobre minha infância ou meus sonhos. Nem que ficaria desfeita se eu morria. E ela não rompia a chorar. estava pensando na Antonia Kelly. Pela razão que fora. um dia que me encontrava em sua sala de espera agarrei um livro de suas prateleiras ao azar. Não respondia a cada pergunta que o fazia me perguntando o que pensava eu a respeito. Minha única amiga. Não contribuiu com razões de por que queria morrer. Não me curou. . Tinha-o visto tudo antes e nada a escandalizava. Não tinha nada que ver com o que tinha imaginado. a que tinha sido meu terapeuta.

se tiverem casal ou filhos ou se lhes doerem os dentes ao comer gelado ou se gostar dos setters ruivos. não podia me dar nada para eliminar a dor. pode que inclusive a umnamorado novo? por que não? por que não escolher a interpretação menos sinistra? . tinha-me mantido viva. Assim que a idéia de entrar de novo em seu escritório com a cabeça desenquadrada me desejava muito um terrível fracasso.era minha amiga. mas algo me freava. Onde estava? Significava algo sua ausência? Estava conectada com o Wayne? Ou simplesmente se foi o fim de semana a ver uma amiga. Mas não o disse a sério. Estava-me perguntando se deveria chamá-la e lhe pedir hora. nem sequer se emprestou a me falar de seu precioso Audi TT negro que casualmente lhe tinha visto conduzir um dia-. Não era a única. Estava-o olhando do prisma equivocado. Eu não estava sozinha. mas sabia que tinha visto outras pessoas retorcer-se por um sofrimento similar. Em outras palavras. Ela não podia evitar que eu tropeçasse e caísse. Ignorava por que inferno tinha passado -o perguntei mas. Refletindo sobre isso conduzi quase até o Belfast.Mas ao mesmo tempo sabia que eu lhe importava. mas me animava a seguir adiante. Não tinha aberto as cortinas. O último dia me disse que sua porta estaria sempre aberta e eu respondi desenfadadamente que era bom sabê-lo. estava segura de que me tinha curado para sempre. negou-se a responder. virei na estrada de redondeza e apontei de novo para o sul. Finalmente o identifiquei como orgulho. Caminhava incondicionalmente a meu lado por meu pesadelo pedregoso e escuro. Havia-me sentido tão orgulhosa quando depois de um ano de terapia declarou que estava o bastante recuperada para deixá-la. Embora lhe pagava e embora nunca averigüei os detalhes que normalmente descobre da gente próxima -por exemplo. como estou segura de que ela teria famoso: a terapia é uma relação que a maioria da gente "cerca" várias vezes ao longo de sua vida. tudo seguia igual. Voltei para casa do Birdie Salaman mas seguia sem haver rastro dela ou de seu carro. obviamente. Para quando cheguei aos arredores do norte do Dublín era meia-noite.

Esta vez de meus. Walter Wolcott. Além disso. sim. com todos os movimentos dos cartões de crédito e contas bancárias do Wayne. quanto dinheiro tinha tirado. presa de uma ligeira sensação de angústia. Tinha-me permitido o luxo de uma almofada para minha dolorida cabeça. entretanto. o Hacker financeiro. Tinha-o atrasado muito. Estava… enfim. Uma intuição me tinha despertado de meu sonho narcótico.Não sabendo ainda o que pensar. Não podia dizer-se que não o fora. SEGUNDA-FEIRA 53 A primerísima hora -as 6. despertando à mulher do Bed & Breakfast Jacinto para lhe perguntar se Wayne estava dormindo debaixo de alguma de suas colchas cor pêssego. Um tipo meticuloso. .despertei no chão da sala de estar do Wayne. Eu tinha todo o direito a estar aqui. avivei de repente e comecei a tremer de emoção.47 para ser exata. mas essa foi a única liberdade que me tinha tomado. e me teria gostado de falar com ele para as suavizar. estava trabalhando. as coisas entre nós tinham terminado com um humor quase hostil. A primeira hora chegou um correio eletrônico. Dava duas voltas à chave e joguei a cadeia. Agarrei o móvel e quando comprovei que me tinha chegado. Telefonei-lhe e saltou diretamente a rolha de voz. Agora veria exatamente onde tinha estado Wayne os últimos quatro dias. em algum povo perdido do North Antrim. retornei a casa do Wayne. Deixei uma mensagem empático onde lhe dizia que confiava em que Bela estivesse bem. E. mas sem mensagem. Pressentia-o. certamente já estava na cama. Não podia lhe servir de nada ao Wayne se não dormia como é devido. algo ocorreu pela manhã. Tinha uma chamada de Artie. Logo. onde se tinha agasalhado. Virtualmente estava salivando. por correio eletrônico. Pela tarde. pendurei e tomei um sonífero. Precisava ter a cabeça limpa porque algo ia acontecer pela manhã. em efeito. o relatório de Tubarão. provavelmente Wolcott se achasse a duzentos e trinta quilômetros daqui. o que tinha comprado. Não queria que Walter Wolcott irrompesse na casa sem avisar.

Tubarão incluía os transações dos últimos dois meses. não tinha comprado nada com o cartão de pagamento automático e não tinha retirado um só céntimo da caixa. Nesse momento me disse que estava confundindo meu estado de ânimo com o do Wayne. mas tinha uma terceira com muito espaço ainda e outra de pagamento automático. Era como se Wayne se cansado pelo bordo do planeta.36 da quarta-feira e após não tinha carregado nada em nenhum cartão de crédito. que Wayne estava morto. mas todas se detinham bruscamente na noite da quarta-feira. voltei a ter a sensação de que estava morto. mas tinha o costume de extrair cem euros cada poucos dias. mas ao contemplar agora os espaços em branco de tudo seus cartões. não pode fazer nada sem mostrar um cartão. Nada tinha acontecido. Dois dos cartões de crédito do Wayne estavam esgotadas. Só necessitava os detalhes dos últimos quatro dias. não apareceria no relatório. por isso não tinha podido as utilizar. os cartões do Wayne não mostravam movimento algum. . A seguinte pergunta óbvia era: tinha retirado Wayne uma soma de dinheiro importante durante os dias prévios a seu desaparecimento? Não. mas não me importou. Zero. Para minha absoluta consternação. obviamente seu dinheiro de bolso. Estava petrificada. Havia-o sentido de verdade. onde se achava para não necessitar dinheiro algum? Como tinha chegado até ali? Não pode alugar um carro. Mas não.Tubarão explicava que a informação compreendia até a meia-noite de ontem e que se algo tinha acontecido nas últimas sete horas. Me tinha congelado o cérebro. Durante uns instantes senti quão mesmo tinha sentido ao me iniciar neste caso. Todo esse branco. Minha cabeça começava a me doer e olhei fixamente o telefone. Avancei e retrocedi pela tela me perguntando se não estaria passando algo por alto. não pode comer em um restaurante. assim. faziam-me pensar na morte. todo esse negro. Wayne tirou cem euros no domingo passado. Sua última compra tinha sido uma pizza às 21. não pode te alojar em um hotel.

as faturas da água. Fechei os olhos. Sempre há alguém que sabe onde está. Fazia uma lista dos pagamentos da hipoteca do Wayne. Dispunha de todos os dados. o qual seria muito rebuscado. De fato. pagamento que eu sabia que Wayne tinha realizado porque Jay Parker tinha aberto o recibo que vinha no correio. Era possível que Wayne tivesse um cartão de crédito secreta? Mas isso significaria que tinha destruído todos os documentos relacionados com ela. que meu estado de ânimo estava piorando. o pequeno matagal de veias azuis. Seguro que tinha passado algo por alto. simplesmente ignorava quais eram pertinentes e quais não.Uma espetada feroz de algo terrível me atravessou o estômago.estava ajudando ao Wayne. Até tinha incluído o pagamento recente do seguro médico do Wayne. Tratei de recordar o que a gente me havia dito quando lhes pedi que deixassem voar sua imaginação. abri-os e contemplei a fina pele da parte interna de minha boneca esquerda. Com uma pontada de temor adverti que me estava ficando sem corda. todas pela quantidade correta e na data correta. Não. ninguém "desaparece" de tudo. era provável que eu já soubesse onde estava Wayne. E a informação de Tubarão? Podia confiar nela? Sem dúvida. luz e demais. Muito rebuscado para resultar verossímil. E se tinha desaparecido voluntariamente? Em realidade. Alguém -provavelmente a escorregadia Glória. e as ordens de pagamento dos últimos dois meses. O que estava ocorrendo? achava-se Wayne metido em algo chungo? A arrepiante chamada do Harry Gilliam fazia pensar que assim era. Sempre há algo de verdade no que a gente diz embora nem eles mesmos saibam. Tubarão não só gozava de excelente reputação. mas sim em seu relatório tinha incluído muita informação que poderia cotejar com os extratos guardados no escritório do Wayne. Me estavam acabando as pilhas e tinha que encontrar . Mas Wayne não parecia essa classe de pessoa.

a tampei com a base de maquiagem e a franja.Zeezah a entrepierna ao Roger St. Jay Parker havia dito que Wayne estava em um concurso de ingestão de bolos no North Tipperary. eu gostava muito. Também caí na conta de algo mais: "Faz caso ao Zeezah". como tinha sugerido Frankie? De ser assim. não há dúvida de que a senhora Diffney me teria telefonado chorando. Perfeito. Dispunha-me a tratar com pessoas de classe média. A primeira vista ninguém diria que tinha um grande talho na frente. Connemara era uma extensa região infestada de tojos. Eu gostava de Tom Dunne. antes de me pôr em marcha me olhei no espelho do quarto de banho do Wayne para comprovar o aspecto de minhas feridas. Leger havia dito. desejava-lhe sorte. e não me sentia com forças para ir até ali. mas uma busca rápida no Google me desvelou que tal evento não existia. Leger? Fez-o de verdade? Clonakilty se achava a trezentos quilômetros do Dublín. Roger St.ao Wayne antes de que se esgotassem de tudo. existia uma grande probabilidade de que tivesse recorrido a eles. escondido debaixo da cama". o que significava que tinha um comprido trajeto por diante escutando ao Tom Dunne pela rádio. observando tojos. E o que havia dito Zeezah? Algo sobre que Wayne estava desfrutando de do amor e a ternura de seus pais. Tinha o olho esquerdo avermelhado e embora a frente em realidade tinha pior aspecto -o galo estava adquirindo um tom arroxeado escuro. Era possível que Wayne estivesse passeando-se pela Connemara em uma autocaravana. quando se deixou de brincadeiras: "Wayne está em sua casa. Eu tinha visto quão carinhosos eram os membros de sua família. as quais tendiam a recear da gente com pinta de ir por aí . Durante uns instantes pensei que existia um Deus misericordioso. Se estava metido em alguma confusão. Então pensei: Apalpou. Corria um autêntico perigo de me converter em uma "chupaventanas" do Tom Dunne. de repente compreendi algo: embora a gente dissesse que Wayne não se ocultaria em um lugar óbvio.

exatamente como a tinha imaginado. alegre. Levou-me a cozinha. Um portatazas. Não obstante. engoli minhas quatro amadas pastilhas com um comprido gole da Coca-cola light de uma garrafa gigante e subi ao carro. Luvas de jardinagem. um especiero. Quando me aproximei se incorporou. Encontrei a casa dos pais do Diffney sem problemas. Uma coisa especial para desherbar de joelhos (compra por catálogo). Comi. Carol fora com saia floreada e tamancos. -Por um momento pensei que vinha a me dizer… algo terrível. Não precisa dizer mais. seguro que te tem feito uma idéia. Uma moradia independente de uma planta.uns punhados de Cheerios. e não me via capaz de lhe dar a notícia sobre a inatividade dos cartões de crédito do Wayne. -Podemos falar dentro? -Está bem. fotos dos netos. Parti sabendo que faltava pouco para que Tom Dunne entrasse em antena e me disse que provavelmente sobreviveria a este dia. 54 Obrigado. Queria telefonar ao Artie mas era muito logo. Tesouras de limpar. -Sabia que era você. luminosa. por isso pus o telefone em modo silencio. Provavelmente não demoraria para me chamar ele. Acolhedora. Mapa Falante.Armando follón. -Ainda não. Um jardim amadurecido. seguro que Jay Parker também me telefonaria de um momento a outro para que lhe pusesse à corrente da situação. Estava-o imaginando ou sua atitude era ligeiramente precavida? Uma mulher com algo que esconder: um homem crecidito debaixo da cama do quarto de convidados? Apresentei-me. Rosas gigantes. uma pequena cortiça com uma . Alguma novidade? -perguntou com ansiedade.

mas é de esperar. Mentia? Com seu permanente suave e suas bons maneiras não podia deixar de pensar que era uma pessoa essencialmente honesta. suponho. Se tivesse estado bebendo Dutch Gold com uma calça de moletom manchado de cinza. obrigado. Isso sim foi uma surpresa. -eu adoraria. estou segura de que minha avaliação teria sido outra. Bem carregado. nunca. -Gosta de uma taça de chá? -ofereceu-me Carol. . -Tem-no feito outras vezes? o de desaparecer? -Não. -Não deveria informar à polícia? -John Joseph me disse que a polícia não estava interessada. Antes me teria queimado os globos oculares. -Me diga tudo o que saiba. Deixei-a transportar a meu redor com a bule e demais intrigas. -Não.nota avisa de uma entrevista para uma exploração de mama. um pouco estresado. me teria posto em contato com você ou com o John Joseph. -Está o senhor Diffney? -perguntei. Nada que fizesse referência ao Wayne. provavelmente pela tarde. Quando foi a última vez que falou com ele? -na quarta-feira. -Então. -soube alguma coisa do Wayne? -perguntei. Olhou-me muito fixamente. -Que impressão lhe deu? -Que estava ocupado com os ensaios. Uma parcialidade flagrante por minha parte. -Está trabalhando. Uma pessoa maior com um emprego de verdade. mas conhecia o protocolo. onde está? -Isso eu gostaria de saber. Se tivesse sabido algo.

Carol Diffney parecia inocente como um cordeiro. Uma mãe faria o que fora por ajudar a um filho. mas se for lhe acusar de estar metido em algo ilegal. esta dona-de-casa afável. sabemos que estará nesse cenário na quarta-feira de noite. -Certamente que não! -Arranque de indignação burguesa de "meu filho. Mas não quer encontrá-lo?. sua família. -Wayne é um bom moço. levantou a vista. Se não. etcétera". mas com estas coisas nunca se sabia. -Você! -Assinalei-a com o dedo-. depois de um comprido silencio. -Já… Era pura obstinação ou realmente estava dizendo a verdade? -Sei que lhe pagam para que o encontre. Sabemos simplesmente porque sabemos como é. Sabemos que não deixará a seus amigos na estacada.-Não deveria voltar a tentá-lo? Carol Diffney cravou o olhar em sua toalha de quadros amarelos e brancos. tinha um pau de macarrão. jamais. -Não sei. Foi você quem me golpeou! -Apartei-me a franja e lhe mostrei a ferida em todo seu arroxeado esplendor-. um dos modernos. que semelhavam porretes. um bom homem. te lembre do Dot Cotton e tudo o que fez pelo ingrato de sua vergôntea. Parecia com o bordo das lágrimas! Com seus discretos pendentes de ouro e suas taças de La Melhor Avó do Mundo. -Entendo. não está preocupada com ele? Leva quatro dias desaparecido. de cor branca. possivelmente deveria manter-se afastada do Wayne. O amor de mãe e todo isso. E seguro que esta mulher. Exatamente o que me havia dito o Misterioso Vapuleador do Velho Dublín. Olhe o que me fez! . Não defraudará a seus amigos. Nós. Teria que falá-lo com o pai do Wayne. -Preocupa-lhe que Wayne possa estar metido em algo ilegal? -perguntei. Aproveitei suas palavras. Me manter afastada do Wayne. -Como sabe? O há dito ele? -Não.

-Mas isso foi o que a pessoa me disse quando me golpeou: "Manten afastada do Wayne". Se encontrar ao Wayne. Nosso pulso se viu interrompido pelo som da porta e uma voz de mulher dizendo: -Mamãe.-O que… o que está dizendo? -Parecia tão horrorizada que temi que fora a deprimir-se-. de modo que optei por ambas as coisas-. Se chegar eu primeiro. mas então um soco de vez em quando era o normal. Lhe agradeceria que partisse. a irmã do Wayne. É um homem. Em minha vida golpeei a ninguém. Não estava de tudo convencida… Lhe cravei um olhar severo e Carol se encolheu mas não disse nada. e unicamente porque era o que a gente fazia. -Senhora Diffney? -Não sabia se tratá-la formalmente ou procurar a intimidade utilizando seu nome de pilha. a que se achava mantendo um bate-papo . me diga onde está Wayne. -Não sei. Nunca lhe ouvi mencionar a nenhuma Glória. Carol. poderia lhe ajudar. Mas Carol não cedeu nem um milímetro. vim a verte um momento. com exceção de meus filhos quando eram pequenos. -Eu diria que sim. De quem é o carro negro estacionado fora? Na cozinha entrou uma mulher a que reconheci pelo vídeo do sessenta e cinco aniversários da Carol. Voltou a me pedir que me partisse. e não um homem agradável como posso sê-lo eu. Era Connie. Dou-lhe minha palavra. -Por favor. de modo que troquei de tática. não me faça mais pergunta -disse com serena solenidade-. -Pois se equivoca. -Pode estar segura de que essa pessoa não era eu -replicou com voz trêmula. outro investigador privado. tirará isso luz no que Wayne está metido. Era-me impossível deduzir se sabia algo. posso chamá-la Carol? Há alguém mais procurando o Wayne. sou eu. Hoje me acusariam de maus entendimentos. Por favor. Senhora Diffney. -Quem é Glória? -Glo-ria? -gaguejou-.

-me disse-: Apresento ao Connie. -Carol abraçou ao Connie e me assinalou-. a cunhada do Wayne. quando Rowan irrompeu com sua câmara e as gravou comentando uma confidência sobre uma de seus amigas. um ex-polícia muito menos amável que eu. e entretanto um pouco muito estranho estava acontecendo. Connie jogou uma olhada receosa a minha frente e me apressei a me esmagar a franja com os dedos para ocultar a ferida. Com cautela. E agora. por exemplo. Não soava sarcástica como. o representante de Laddz. Não saberá por acaso onde está Wayne? Negou com a cabeça. possivelmente queira me chamar. E John Joseph. de modo que se tiver algo que possa resultar útil. carinho. -Olá. Parecia que estivesse me enviando mensagens em chave. não poderiam ser mais felizes. Esta Connie era extremamente cortês. Roger St. -Estava-lhe contando a sua mãe que há outra pessoa procurando a seu irmão. -John Joseph? -Sim. Helen Walsh? Quem te paga? -Esta Connie era muito mais jaqueta que sua mãe. -Viu o que dizia a imprensa de ontem sobre o Zeezah e ele? Estão muito apaixonados. Seria preferível para o Wayne que fora eu quem o encontrasse e não esse tipo. Connie -disse-. -Para quem trabalha. Leger. -Prazer em conhecê-lo. com uma criatura em caminho… Enfim. Vive aqui perto. imagino. a investigadora privada que está procurando o Wayne. disse: . Esta garota daqui é Helen Walsh. a irmã do Wayne. Tendi-lhe meu cartão e olhou de marco em marco todos os números tachados.íntimo acompanhado de vinho tinjo com o Vicky. algo como: "Não pode decidir-se por nenhum dos dois". -Jay Parker.

um estudo. nem um só objeto -um sapato. -OH. um tubo de fixador. -Logo repetiu-: Já lhe hei isso dito.que pudesse indicar que Wayne se encontrava dentro da moradia. Pelo caminho joguei uma boa olhada às estadias: a sala de estar. e a olhei fixamente aos olhos. -Então. não estou dizendo isso absolutamente -repôs. Minha mãe diz que é um homem. entrei como uma bala. Estava dando a entender algo e meus neurônios não estavam funcionando o bastante depressa para captá-lo. Nada. A porta estava entreabierta e pelo que pude ver parecia um quarto de varões: duas camas individuais e pósters de coisas vermelhas na parede (diria que relacionadas com o futebol).-Insinúas que Zeezah não está grávida? Isso já sabíamos. Connie me levantou de um puxão e disse muito zangada: -Já te hei dito que não está aqui. o comilão. a que te refere? -A nada absolutamente. Rendi-me. antes de que Connie pudesse me deter. não! depois de ter conduzido até aqui não ia deixar me jogar tão facilmente. Só a que com uma criatura em caminho não poderiam ser mais felizes. . uma habitação de matrimônio. -Acompanharei-te à porta -disse Connie. Não os fazia graça me dar sua permissão mas eram muito corteses para me negar isso O quarto de banho estava ao fundo do corredor e Connie me acompanhou. Ah. como Lady Gaga. Posso utilizar o quarto de banho antes de ir ? Carol e Connie cruzaram um olhar. -Tentei conectar com ela através do humor-. Meu pobre cérebro de saldo não estava capacitado para toda essa estranha leitura entre linhas. Mas não havia nada. uma habitação individual. jogueime no chão e olhei debaixo das camas. Nem sequer penugens de pó. -Espera-me um comprido viagem de volta até o Dublín. antes de chegar ao quarto de banho passamos por diante de outro dormitório.

-Vamos! -gritou-me descendo do carro e tirando umas chaves da bolsa-. -Estou tentando ajudar. entra e admira minha casa em todo seu imundo esplendor. -Mas não lhe encontraste. Nesse momento adverti que um carro se detinha atrás do meu. -Estava infestado de sapatilhas esportivas e jerséis com capuz e brinquedos e um aroma desagradável a varão adolescente. -Não é neces… .Então. Vê o Wayne por algum lado? Será melhor que te agache e olhe debaixo do sofá. desconectou o alarme e disse: -O saguão. o que me tinha insinuado? O que era isso que não estava entendendo? -Bastante difícil é já a situação para minha mãe sem necessidade de que se presente em sua casa gente como você -balbuciou. Não podia rejeitar semelhante convite. Normalmente não sou tão lenta… Empurrou-me por volta do quarto de banho. Entra. como pode ver. Estamos que nos subimos pelas paredes de preocupação e chega você com sua história de ex-polis aterradores. De todos os modos. Sinto muito estar tão espessa. como se fora impossível que pudesse haver alguém respirando dentro. era Connie! E parecia furiosa. -Faz seu pipí -disse. Entra. o salão. -Só me diga o que me está querendo dizer -lhe roguei-. provavelmente fora porque não existia a mais mínima possibilidade de que encontrasse ao Wayne ali. essa não era exatamente a palavra-. A quietude era absoluta. Assim que me afastei ordenei ao Mapa Falante que procurasse a casa de Connie. Não é precisamente o que necessitamos. em uma urbanização de moradias semipareadas de aspecto sólido. Abriu a porta de par em par. Estou tentando lhe encontrar. Virgem Muito santo. decidi rodeá-la e procurar a forma de penetrar dentro. Estacionei diante e observei a casa do carro. entra. Estava perto. não é minha culpa.e deixa em paz a minha família. -Ali. embora se Connie se mostrava tão hospitalar -não.

Um colchão. -OH. quanto sarcasmo. -Voltemos dentro -disse-. Quando quis me dar conta tinha tirado um pau com um gancho. a ainda mais desordenado sala de estar e o guarda-roupa de abaixo. Sinto muito te haver incomodado. me insistindo a me colocar nos armários e inspecioná-los até o fundo e a olhar debaixo de cada cama. sobre tudo desde que ouvi sejam Montcrieff contar que uma família de morcegos tinha construído um ninho no seu. -Obrigado -disse retrocedendo para o patamar-. Baixei e mal tinha posto um pé no chão quando Connie propinó uma patada iracunda a escalerilla. Ao chão. Não se esqueça do desvão. Pareceu-me o mais prudente. Inclusive me tirou o jardim de atrás e insistiu em que olhasse no abrigo. Tampouco me faziam graça os desvãos. -Agarra esta lanterna -disse-. ensinou-me a desordenada cozinha. Não para inclui-los na Lista do Palazos. Fez-me entrar em quatro dormitórios revoltos. Assim que me atirei ao chão. . possivelmente? Uma vela e uma caixa de fósforos? Um exemplar sovado dos irmãos Karamazov? Deus. que utilizou para abrir uma trampilla no teto e baixar uma escalerilla de degraus ligeiros. enviando-a buraco acima. suas bicicletas estranhas e suas velhas latas de pintura. ainda não terminamos -repôs-. -Vê algo? -gritou-me enquanto avançava a tropicões na penumbra-. Ódio os abrigos. Wayne não está aqui. Sobe e joga uma boa olhada. Levou-me a quarto de banho e abriu a cortina da ducha com tal fúria que pensei que ia arrancar a barra. Te espera um comprido viagem de volta até o Dublín. mas me produzem calafrios com seu aroma de mofo.-Vamos -ordenou com uma raiva dilaceradora-. Abrindo armários e gavetas a seu passo. Obedeci a contra gosto. -Precisa fazer outro pipí? -perguntou-me-. Agora toca a planta de acima.

-Brown Bags Please. Me teria gostado das apagar todas sem as olhar. Temia consultar as chamadas perdidas -vinte e quatro em total. o qual detestava.depois da infrutífera visita à família do Wayne. só ficava o registro de chamadas do Wayne e seguia sem saber nada do mesmo. só faltavam quarenta e oito horas para o concerto de Laddz e Wayne seguia sem aparecer. 55 Aos vinte minutos de trajeto me assaltou um pânico repentino que me encheu de vertigem: era segunda-feira pela tarde -como era possível que já fora segundafeira pela tarde?-. Só falava de negócios. Pelo caminho decidi chamar o Birdie Salaman se por acaso também ela tinha desaparecido. e não tinha deixado nenhuma mensagem. Respondeu a mãe descontente amante dos Cornettos. Deus. Enquanto isso tive que me tragar o programa do meiodia. Todas as vias de investigação que tinha empreendido eram becos sem saída. -Está Birdie Salaman? .porque suspeitava que Jay Parker se passou a manhã me chamando. "Blablablabla bancos blablablabla morosidade blablablaba tempos difíceis…" Estava exausta. Realmente exausta. pus em marcha o carro e continuei para o Dublín. Chameilhe e me saiu diretamente a rolha de voz. às onze. esse era meu lema. Tom Dunne tinha terminado e Sejam Montcrieff não começava até mais tarde. Tive que me deter na sarjeta e enviar outro correio a Homem do Telefone lhe suplicando que me orientasse sobre quando poderia contar com seu relatório. fracassos e pessimismo. empreendi minha sombria volta a casa.e telefonei ao Brown Bags Please. Pendurei. Minha cabeça palpitava de dor. Conectei o alto-falante do móvel -a segurança acima de tudo. Tinha-o feito. mas estava obrigada às passar para comprovar se Artie me tinha telefonado. seria o único que me faltasse.

Como está depois do de ontem? Muitos moretones? -Estou bem. Recentemente. Que pouco profissional. Nem "De parte de quem?". mas já sabe que -o tom de Bela se tornou ligeiramente desdenhoso. Depois de um estalo. -Não estou segura de quando o deixaram.-A passo. Ontem à noite. Era Bela. ainda por estrear. Não estava bem lhe dizer isso a Bela. Bela. -Sei. . -Helen? Sou Bela Devlin. uma voz agradável e juvenil disse: -Sou Birdie Salaman. Em um tom pensativo. Posso te contar minha história bonita? -Perdoa. Foi só um susto. -Sim -respondeu Bela. acredito. Um segundo depois me soou o telefone. posso vê-lo na tela. Acreditam que alguém o deu de presente a Iona. não era elegante. continua. digo eu. mas pendurei sem dizer uma palavra. E em algum momento teriam que lhe tocar os filhos. mas levo tempo percebendo um vazio nela. -Ela e Steffan têm quebrado? Quando? -E por que ninguém me tinha contado isso? Uma pontada de emoção tão minúscula que fui incapaz de identificá-la-se abriu passo dentro de mim. Estava dentro de seu pacote. Mas Vonnie tinha estado em casa de Artie cada noite desde fazia… quantos dias? Quatro. No que posso lhe ajudar? Se tinha ido trabalhar significava que estava bem. quando mamãe esteve aqui… -Vonnie esteve outra vez aí? -As palavras saíram de minha boca antes de que pudesse as deter. Nem "O motivo de sua chamada?". não precisa te apresentar cada vez. Cada noite desde quinta-feira.Iona nunca foi fã do rosa. -Ontem à noite mamãe e eu encontramos no armário do planchador um pijama rosa. carinho. acrescentou-: Suspeito que se sente muito só agora que ela e Steffan têm quebrado. Chamava-te porque queria te contar algo bonito. Mamãe não nos contou isso até ontem à noite. Ansiava lhe perguntar onde tinha estado todo o dia de ontem.

Não. Sobre a baca descansava uma tabela de surfe. Dez minutos antes e não me teria encontrado. mas do que serviria? Já me tinha receitado um antidepressivo em dose altas. e devo pendurar. . lhe poderá pôr isso quando devas dormir a casa! -Fantástico! -exclamei. encontrava-se diante de sua porta. A gente não parecia dar-se conta. Agora mesmo estou no carro. Acabo de retornar de uns dias no Sligo. -Chega no momento justo -respondeu-. Ele não tinha a culpa de ser um completo inútil. não havia nada mais que pudesse fazer por mim. com alguns capilares quebrados. e se não funcionar provaremos outra. Aparentava quarenta anos largos. Mas obrigado! Até mais tarde! Fiz todo o trajeto ultrapassando o limite de velocidade e cheguei ao Dublín às três e vinte da tarde. o último vizinho que ficava por interrogar. expliquei que estava fazendo algumas indagações para o Wayne e me perguntava se poderíamos ter um pequeno bate-papo. O esforço de fingir todo esse entusiasmo quase acaba comigo-. Era uma questão de descarte: provaremos esta pastilha.Ignorava de onde tinha tirado Bela que eu sim o era. estava em casa. Me passou pela cabeça pedir hora com o doutor Waterbury. por isso seguro que te entra. carinho. todo o vagamente que pude. Suponho que acreditava simplesmente porque queria acreditá-lo. e o cabelo encanecido. E estava. Eu gostava do doutor Waterbury. não conseguiria nada indo ao médico. e se tampouco funciona provaremos outra. tinha a pele do rosto curtida. Todos os médicos o eram. -E o melhor de tudo. mas o eram. descarregando coisas de um carro parecido a um jipe. Apresentei-me e. Eu podia fazer o que eles faziam. Helen? Que é para quinze-e dezesseis anos. Não era o surfista jovem e tolo que tinha imaginado quando Cain e Daisy me falaram dele. Dobrei pelo Mercy Close para comprovar se Nicholas. e quando nos tiverem esgotado todas as pastilhas dirão que a culpa é tua. a ver se funcionar.

Nicholas me seguiu com sua tabela de surfe nas costas. Pelo caminho joguei uma olhada à casa. Estava claro que o interiorismo não era seu forte. Tenho que entrar estas coisas em casa. -Ah. para meu desagrado. . convidou-me a me sentar no jardim para conversar. e de que maneira!). recordavam a um tubérculo. Muito móvel de pinheiro nodoso laranja do mais incômodo. ambição de tudo louvável se não fora porque os pés masculinos me davam dentera. calçou uns Birkenstocks (Lista do Palazos. era evidente que passava muito tempo em seu jardim. mas conhecia os princípios básicos para dar a impressão de que era uma pessoa normal. mas não tinha do que me preocupar. Recostou-se e fechou os olhos. Descarregadas todas suas coisas. certamente. Era incapaz de me concentrar diante de um homem descalço. Ele não era a classe de pessoa a que lhe importavam as aparências. não. -Posso te ajudar? -perguntei. Na cama não havia problema. Não o dizia a sério. Nicholas tinha cadeiras reclináveis de madeira com reposapiés.Adverti que lançava um olhar fugaz a minha frente maltratada. Provavelmente porque não queria encher a casa de areia. Nunca podia me concentrar nos homens com os pés nus. Leva-o a jardim de atrás e pendura-o no varal para que se seque. pelo amor de Deus!". mas não tinha nada em comum com eles. Para minha surpresa (categoria: fastidiosa). Ia descalço. por exemplo a uma chirivía especialmente disforme. Molhado-. naturalmente. sente o sol na cara. Muito futón. mas fora dela me punha nervosa e me entravam vontades de dizer: "Ponha uns meias três-quartos. (A sua. Logo. Que desperdício de casa. -E entregou um traje de neopreno. disse: -Leva isto.) -Me dê uns minutos -disse-. Os amantes do ar livre não me resultavam tão irritantes para inclui-los em minha Lista do Palazos.

Não se fala de outra coisa. -Sei que te parecerá uma pergunta um pouco brincadeira. unicamente por educação. Pedirei ao Wayne que dê de presente um par de entradas. Como é lógico. por isso decidi tomar a via de Glória. Meus amigos alucinam quando os conto que somos vizinhos.Fiz-o durante cinco segundos. Até minha irmã Claire quer ir ao concerto. E gravarão um DVD para Natal. -Sim? . se até pode que eu vá ver lhes. e em realidade não vai nada esse cilindro. só de lhe saudar e cruzar algumas palavras. Miúdo giro deram suas vidas. inclusive aqueles que pensava que detestavam todos esses grupos de pop. presa de um ligeiro pânico-. mas teve Wayne visita femininas nas últimas semanas? -Sim. com o tema do reencontro. Logo abri os olhos. incorporei-me e disse: -Conhece bem ao Wayne? -Não. -Isso é tudo? Vivem porta com porta. mas passo muito tempo fora. escalada. -Soltou uma risita-. Caray -disse pensativamente-. Recordar que todo aquilo dependia do reaparecimento do Wayne me estava gerando uma angústia insuportável. Jamais teria imaginado que os Laddz fossem tão queridos. Estou seguro de que o fará. É um bom tipo. -Outros concertos? -disse. Ouvi-o pela rádio enquanto vinha. Faço surfe. sabia que Wayne tinha sido membro de Laddz. -ouvi que lhes saíram outros concertos extra. a gente enlouqueceu. Não me tinha precavido de que vivia ao lado de uma superestrella. -Sim. sem contar os de Reino Unido. Tem graça. mas desde sábado de noite. Em plural? Pensava que só lhes tinha saído um. montañismo. no oeste. Darão oito concertos mais já só na Irlanda. -O que vai. E Wayne também passa muito tempo fora. -Sei. trabalhando.

Nicholas não era a classe de pessoa que se fixava no aspecto da gente. sempre levava uns óculos de sol e uma boina de beisebol. Parti ao Sligo na quinta-feira pela manhã. por isso imagino que é normal. Romperam faz tempo. Normal. embora desconheça as razões. -E em que carro chegava essa mulher misteriosa? Meneou a cabeça. Que grande ajuda. Mas tivemos uma primavera calorosa e o verão está sendo ensolarado. Já vê. -Acredito que não.mas. -Viu algo estranha na quarta-feira de noite? Esperava a pergunta típica -"Estranho em que sentido?".-Uma garota esteve vindo ultimamente por aqui.Alta? Gorda? Magra? -Não sei. Meditou-o. -Esteve aqui na quarta-feira de noite ou na quinta-feira pela manhã? Deteve-se pensá-lo. os amantes do ar livre sabiam coisas sobre o clima que me passavam totalmente desapercebidas. Pode que viesse no Dart. Se vinha de carro não estacionava no Mercy Close. Não sei exatamente desde quando. Agora que o penso. -na quarta-feira de noite sim estive aqui. -Poderia descrevê-la? -Estava tão esperançada que quase não me atrevia a respirar. respondeu: . Embora tampouco tivesse devido esperá-la. Normal. Ensinei-lhe a foto do Birdie. -É ela? -Não. -Era baixa? -perguntei. Esta é sua ex-noiva. -Em nenhum. mas dois meses seguro. para minha surpresa (categoria: assombrosa).

mas ao pouco momento pararam. -Nada. claro. Voltou a negar com a cabeça. -E não entendeu o que diziam? -Meu tom era quase de súplica-. Ele e outra pessoa. está em seu direito. acrescentei-: Obrigado. Não me moa me entremeter na vida de outros. Cain e Daisy se materializaram repentinamente na calçada. estavam tendo uma bronca. Se alguém quer ter uma briga. Uma só palavra seria de grande ajuda. Conheço bem sua voz. Sinto muito. Está seguro de que era Wayne? Nicholas o meditou. Foi todo um alívio. -Sim. -Sério? -Sim. como saídos de uma tumba. -Pensei que talvez deveria intervir. -Perguntarei-lhe isso de outra maneira. não crie? -Claro. E está seguro de que eram Wayne e a mulher misteriosa? -Seguro. Escutei vozes alteradas em casa do Wayne. Quando saía de casa do Nicholas. -Helen! -chamaram-me-. e empreenderam uma de suas investidas zombies em minha direção. -Sim. -Um segundo muito tarde. Não. Meu deus! -Pôde entender o que diziam? Negou apesadumbradamente com a cabeça. -Não era o melhor momento para uma conversação filosófica sobre O contrato social-. -E está seguro de que era uma mulher? Outra reflexão. obrigado. é quanto posso te dizer. não.-Sim. para te ser franco. Helen! . provavelmente uma mulher. seguro. Gosta de uma infusão de urtiga? -Não. Entreabrindo suas pálpebras curtidas.

Subi ao carro e me afastei como uma bala. Nada mais pensá-lo o pânico se apoderou novamente de mim. Sou toda ouvidos. -Sou Birdie Salaman. teria que parar em outro lado. não queria nem pensar como deviam sentir-se Jay. quase agressivo. Birdie. Se vinha um ônibus. Estacionei e cruzei a recepção como uma flecha. Vêem meu escritório. -Estava quase asmática da emoção-. John Joseph e outros. mas respondi de todos os modos. 56 Minha seguinte parada deveria ser o MusicDrome. -Espera um segundo. Não podia acreditar que finalmente tivesse decidido falar. Aos dois minutos começou a soar. Inundei-me de novo no tráfico e fui direita ao trabalho do Birdie Salaman. Detive-me no oco de uma parada de ônibus. -Não quero fazê-lo por telefone. -Fala. -O tom de sua voz era estridente. Tirei-lhe o silenciador ao móvel. Tinha que voltar. Uma voz feminina disse: -É Helen Walsh? -Quem quer sabê-lo? -perguntei com cautela. -Quase me engasgo com as pressas. tenho que… -Estava procurando desesperadamente um lugar onde poder deter o carro. Santo Deus. Jesus! -Sou Helen. já tinha disposto de tempo suficiente. E se meu pânico ia em aumento. A estas alturas do jogo não podia me permitir perder uma só oportunidade. Número desconhecido. -Birdie me está esperando -anunciei. -Quero te falar de Glória. . e me coloquei diretamente em seu escritório. Isso demonstra às vezes que dar a lata funciona. Se Wayne estava tomando uma pausa. saudando com a mão à Mãe Descontente.

-Ah. Sua atitude não era precisamente cordial.Hoje Birdie luzia um vestido de tarde uso vintage com um estampado de cerejas negras. -Parecia exasperada. A verdade é que tinha muito. -Levei-me uma mão à ferida-. Quero falar de Glória. Alguém atacou. -Não tenho nem idéia… Disse que a conhecia. Mas não quero falar dele. quando veio e me perguntou onde podia encontrá-la. Quero saber quem é essa Glória. disse: -Então. -Sente-se. -Agitou uma mão para lhe subtrair importância-. Conheceste-lhe? -Esta manhã apareceu na porta de minha casa procurando conversação. Cravou-me um olhar iracundo. muito estilo. -O que te passou na frente? -perguntou-me. Levava a juba solta. Quem é? Olhei-a atônita. -Eu não te disse que a conhecia. -Quem? Esse bruto do Walter Wolcott? -Né… pode. Wayne rompeu comigo pelo Zeezah. Supus que era a novanamorada do Wayne. Levantou a vista. -por que me pergunta isso? -Em realidade não deveria me importar -disse-. logo desconcertada-. e a boca perfeitamente grafite de um vermelho incrivelmente intenso. Jamais tinha ouvido falar dela até na sextafeira. com a franja recolhida em um cacho de cabelo anos quarenta. Um tio bastante agressivo. -O que? Wayne e Zeezah? Zeezah e Wayne? . Foi você quem me chamou. Glorifica não é a mulher pela que Wayne rompeu contigo? -Não. -Assinalou com uma caneta a cadeira situada ao outro lado de sua mesa e obedeci. Quedamente. mas me estou voltando louca.

Quando? O que ocorreu? É algo recente? -Não sei o dia exato em que começou a me enganar. -Não teria que ter cuidadoso essa foto. Entonces. -Meneou a cabeça com pesar-. sabe? -Sei. e o sinto muitíssimo. mas ia bem. seu potencial. Leger se había mostrado tan cáustico-. O traseiro do Zeezah é insuperável. Então conheceu o Zeezah e foi impossível competir com esse traseiro. mas me estava falando de ti e do Wayne e de quão apaixonados estavam… Enxugou-se impacientemente as lágrimas. gostou muito se perdidamente dela e lhe ocorreu a grande ideia de lançar sua carreira fora do Oriente Próximo.-Pensava que sabia. -Me tomé unos instantes para asimilar la información-. -Wayne e eu fomos muito felizes. Pude vê-lo na foto. -Havia certa amargura em sua voz-. -Estivemos juntos um ano e meio. me desejando saber-. . Na seção traseiros me levava uma grande vantagem. seu tudo. Wayne viajava muito a Turquia. Egito e Líbano por temas de trabalho. Mas calculo que se ataram o outubro ou novembro passado. Mas Wayne está desaparecido desde quinta-feira e eu estou fazendo tudo o que está em minha mão por encontrá-lo. e lamento a invasão. E em qualquer outra seção acrescentou-. -Isso foi idéia de John Joseph. Intrigada a mais não poder. -Não. -O que ocorreu? -Estava atônita. -Você também tem um traseiro estupendo -disse. ¿Era una trola? De repente os olhos lhe encheram de lágrimas. Caray -repetí-. -Não podia me permitir zangá-la mais do que já o tinha feito-. vais contar isso -Caray. É privada. todo eso de que la oyó cantar en la fiesta de cumpleaños de una amiga… -Con razón Roger St. -Sei. -Como ia ou seja o? Não tinha nem idéia -repus fracamente-. Wayne viu seu talento. todo eso de que John Joseph no tenía ni idea de que Zeezah era una gran estrella cuando la conoció.

verdade? Viu-os na sábado de noite no programa do Maurice McNice? Não sei como acabei vendo-o. Então em novembro fui ver lhe o Estambul e conheci o Zeezah.-Foi idéia do Wayne. combinávamos muito como casal. protegida-a. . Estava muito iludido. Era evidente que estava louco por ela. Então. carinho. Caray -repeti-. mas Wayne estava… enfim… estava louco por ela. por chamá-la de algum modo. John Joseph Hartley a trouxesse para a Irlanda e se casasse com ela? -Quando Wayne contou ao John Joseph os planos que tinha para o Zeezah. Veio-me à memória a farsa de John Joseph quando lhe pedi o número de telefone do Birdie. mas estava fazendo zapping e de repente aí estavam. Cada vez que Wayne me telefonava se passava horas me falando do projeto. -O que… o que ocorreu depois? Rompeu com ele? Rompeu ele contigo? -Wayne me deixou -disse com certo rancor na voz-. Wayne não podia escondê-lo. Confiava em que pudéssemos arrumá-lo. Quase vomito. -Caray. e embora supostamente só eram colegas. Leger se mostrou tão cáustico-. Era uma trola? -Incrível. -A mim tampouco. -Não sente saudades que John Joseph não quisesse que falasse contigo -disse. em março. todo isso de que John Joseph não tinha nem idéia de que Zeezah era uma grande estrela quando a conheceu. preferiria me cravar agulhas nos olhos a ver esse lixo. como pode ser que… -contei com os dedos-… que quatro meses depois. Joseph o roubou tudo: a idéia. -Tomei uns instantes para assimilar a informação-. todo isso de que a ouviu cantar na festa de aniversário de uma amiga… -Com razão Roger St. -Q… o que? Sério? De quando me está falando? -Suponho que tudo começou em outubro passado. Miúda fileira de mentiras. -Se falarmos de outubro ou novembro passados. e a garota. quando fez ver que não sabia onde vivia nem onde trabalhava.

-Mas ao final sim se decidiu. Embora com muitas pressas. porque se casou com o John Joseph -assinalei-. Não te parece um gilipollas condescendente.-Carinho? -disse. Estabelecida a entente cordiale. Também te chamava "carinho"? -É obvio. Esqueceu dizer carinho. -É obvio que sabe onde trabalho! -Carinho. -Disse-me que não sabia onde trabalhava. -É obvio que sabe onde trabalho. carinho. -Miúdo embusteiro. carinho. carinho! esteve em minha casa milhares de vezes. Disse-me que não sabia onde vivia. sendo John Joseph o favorito das mães e ela muçulmana. -por que Zeezah trocou ao Wayne pelo John Joseph? Tenho a impressão de que Wayne é muito melhor tio. -Casaram-se porque Zeezah necessitava a cidadania irlandesa para trabalhar aqui. disse: -Agora entendo por que não querem que se saiba que Zeezah esteve com o Wayne antes de estar com o John Joseph. carinho. -Carinho! Chamamo-nos "carinho" umas vinte vezes e de repente estávamos sonriéndonos. que não podia decidir-se por nenhum dos dois. -Carinho." Onde tinha ouvido isso recentemente? Pode que me viesse mais tarde. "Não podia decidir-se por nenhum dos dois. . carinho? -E que o diga. carinho. mas Zeezah disse ao Wayne que tinha o coração dividido. Mas pode que se queiram. Claro. Foi pelo dinheiro e os Aston Martins? -Suponho. carinho. Ignoro até que ponto era certo. -Não resulta fácil vender ao Zeezah ao público irlandês. carinho. até que o pilhei-. Embora haja ouvido que vai converter se ao catolicismo.

me surpreendendo a mim mesma-. Wayne não era feliz enganando. A gente diz que careço de empatia. Ouça. É o lugar mais triste que vi em minha vida. -Não sei. Te estou dizendo a verdade. Telefonei-lhe e o encontrei feito pó. posso te perguntar quando falou por última vez com o Wayne? Se tiver falado com ele nos últimos dias. . mas Wayne e eu estávamos muito apaixonados. -por que diz isso? -perguntou. quando Zeezah e John Joseph anunciaram suas bodas surpresa. atuam como se assim fora -disse-. A sério. O caso é que Wayne guardava sua foto no quarto de convidados. Cravei-lhe meu olhar penetrante. Birdie. rogo-te que me diga isso. -Não falo com ele desde março. a de mulher a mulher. Sabe uma coisa? -De repente me senti obrigada a dizer algo importante-. -Não pode não ser ninguém. que esse quarto é muito triste. -Podia senti-lo -respondi. -Para -protestou-. Negou com a cabeça. sentia-se muito culpado. verdade? -por que falas dele em passado? Fiz uma pausa. Ao Wayne ainda lhe importava. Disse-me que Zeezah era um capricho passageiro e que o que ele e eu tínhamos era real e que talvez maturava e recuperava o julgamento.-Para te ser franco. mas pode que não seja certo. por isso pensei que se lhe dava um tempo… Sei que sonha patético. mas pode que não seja ninguém. Estão muito unidos. mas é só para me proteger. Quão único sei dela é que foi a última pessoa que deixou uma mensagem no telefone fixo do Wayne antes de que Wayne desaparecesse na quinta-feira. Então apareceu você falando de uma mulher chamada Glorifica e não pude resisti-lo. E te juro. Precisava saber quem era. -A verdade é que não tenho nem idéia. Reconheço que não mostro muita compaixão.

embora algo perplexa. 57 Não podia adiá-lo mais. de modo que as duas tínhamos saído ganhando. -Vá. Ou a voz do David Cameron. Wayne ocuparia. é uma espiã exímia. -Digo uma lista mas em realidade a tenho na cabeça. Em seu caso. -Parecia agradecida. Embora em realidade não… -… é meu assunto. "Tenho boas notícias para você!" Todas falavam assim. É algo conceptual. Ou talvez Zeezah.Ou sim. Outra coisa. Talvez fora uma televendedora que queria contatar com o Wayne para tentar que trocasse de companhia elétrica. observei que ainda falas do Wayne com certa amargura. Sinto-o -acrescentei-. Ou o aroma de pepino. Estava vendo um amigo no Wexford. -Como? -A esperança iluminou seu bonito rosto de tal maneira que só serve para pôr de manifesto quão tensa estava o resto do tempo. onde esteve ontem? fui verte a casa mas não estava. Eu poderia te ajudar. por minha parte. Mas pode que haja outras pessoas ou coisas que deteste. Assim às vezes os traslado ao primeiro posto. tinha socorrido a uma alma ferida. -Uma lista? -Parecia interessada. o primeiro lugar da lista. naturalmente. . -Me conte -disse-. A verdade é que não sabia o que pensar. sei. -Eu utilizo um pouco chamado a Lista do Palazos. Consiste em uma lista de todas as pessoas e coisas que ódio tanto que eu gostaria de lhes golpear na cara com uma pá. embora se o prefere poderia escrevê-la. Poderia comprar uma caderneta Moleskine. estava perdida. obrigado pela idéia. Embora logo lhe dizia que lhe chamaria o móvel e uma televendedora não teria tido esse número. e pode que uma caneta bonita. Ou poderia utilizar fichas e ir trocando a ordem. Birdie. -Mas o disse sonriendo-. e alguns dias poderia as colocar acima de tudo. tinha que ir ao MusicDrome. Uma dessas vozes otimistas. Me tinham esgotado as coisas que podia fazer e Jay Parker me tinha deixado como trinta e nove mensagens. -Caray. -Ao que? -A Lista do Palazos. Por exemplo. eu não suporto esses estalos metálicos que faz a gente quando abre uma maleta.

Suava profusamente e tinha o cabelo alvoroçado. -Te afaste um pouco -disse. como um leopardo atacando de uma árvore. assim disse: . -Nunca tinha visto um ser humano tão desesperado.Ao entrar no recinto rezei por que Wayne estivesse no cenário com sua cabeça rapada e sua barriga michelín ensaiando a coreografia de Laddz. -Tem que encontrá-lo. mas não acreditava que John Joseph desejasse uma explicação. Mas Wayne não estava. claramente alarmado. Tinha que lhe dar a má notícia sobre o relatório dos cartões de crédito e não estava de humor para outro arremesso. Onde coño está? Era John Joseph. Não funcionava assim. -Não pode ser! -gritou-. Jay se interpôs entre as duas e depois de uma breve resistência. Não é um engano. E você tem a seu Walter Wolcott. tirou ao John Joseph de cima. Tem que encontrá-lo. John Joseph estava histérico. -Encontraste-o? Tem-no? -Ainda não -respondi fracamente. Transmiti a informação todo o sucintamente que pude e fiquei observando ao John Joseph enquanto este assimilava as repercussões. Roger. -Onde está? -grunhiu uma voz-. E tenho outras vias de investigação abertas. -Necessitamo-los hoje. -Quer te tranqüilizar? -disse-lhe. te acalme -disse-. Necessitamo-los agora. -Quando chegarão os registros das chamadas? -Provavelmente amanhã. Sob os focos cegadores vislumbrei ao Frankie. Tem que ser um engano! -Pelo amor de Deus. por que houvesse tornado e embora precisasse ficar um pouco ao dia todo estivesse bem. Zeezah e… De repente algo se equilibrou sobre mim. mas ainda têm que me chegar os registros das chamadas.

mantê-los na incerteza. Descarregou três ou quatro vezes. John Joseph Hartley. Com razão. Em qualquer lugar que fora tinha que ser um lugar melhor que esse. -Pincei em minha bolsa. -Endireitou os ombros e me olhou diretamente aos olhos. te figure. Direi-lhe que é urgente. Teria que haver ficado com o Wayne. Estava mordendo-se seu pequeno lábio carnudo e parecia triste. Tem um caramelo de hortelã? -Posso fazer algo melhor. o direi. mas voltarei a fazê-lo. Lancei uma rauda olhar ao Zeezah. -Nenhum de nós se tragou que estivesse grávida. . Tinha que me largar dali. mas não tinha intenção de ficar. -Zeezah? -H-gelem! -Então é certo que está grávida! -Estraguem. -por que o negou o porta-voz de Laddz? -Porque isso é o que faz com os meios. -Lhe diga que lhe pagaremos a urgência! -Está bem. Pensávamos que era uma manobra publicitária. -Bom. Logo cuspiu fracamente. Aguardei a que tirasse um lenço da bolsa e se limpasse a boca antes de desvelar minha presença. Provavelmente seu destino tinha sido o lavabo de senhoras mas não pôde esperar e pensou que não havia ninguém olhando. Pôs-se a andar discretamente para bastidores e decidi segui-la. Posso te dar uma escova de dentes por estrear e massa. Não sabia aonde ir nem o que fazer. de repente agarrou um cesto de papéis.-Já tenho escrito a meu contato. você viu com seus próprios olhos que não o sou -repôs com um sorriso lânguido-. Cruzou com presteza um corredor de cimento até uma espécie de escritório aberto que continha duas mesas e duas cadeiras. a aproximou da cara e vomitou. Minha mãe diz que na verdade é um homem. estar casada com esse energúmeno.

-Perguntou-te por que não bebia? Ja! -Tinha recuperado o ânimo-. -De quanto está? -perguntei-lhe. Conheço minhas responsabilidades. Conhece-lhe? -Sim. -Passou uma mão por seu estupendo cuerpecillo-. Inclusive agora que está grávida? Não deveria comer por dois? Negou tristemente com a cabeça. -Isso era o que a gente acostumava dizer a uma grávida. não? -Obrigado. Jay Parker diz que tenho que conceder uma entrevista pela rádio a um tal Sejam Montcrieff. mas que fique entre nós. -Isto. E agora devo te deixar. Sou uma celebridade. Crie que estou assim de magra porque tenho vinte e um anos e um metabolismo rápido? Bom. -Quanto o sinto. não?-. -Aceitou meu improvisado obséquio-. Meia hora depois de dar a luz tenho que poder entrar em meus texanos amarelos da talha trinta e quatro para uma sessão de fotos. -Desde treze semanas. -E se vomitar no táxi caminho da emissora? . A verdade é que era uma tia bem curiosa. -Novecentas calorias ao dia? -Isso mal cobria uma maçã. Estou assim de magra porque só me permito consumir novecentas calorias ao dia. sou sua admiradora. De fato. -Terei que me arrumar isso com suplementos de cálcio. E dessas novecentas não me ocorreria desperdiçar uma só em cerveja. Embora ainda não saibamos se haverá concertos ou não. pois… felicidades. Não. Helen Walsh. Não me viu beber porque nunca bebo. É essa a razão de que não bebesse no andaime? Pensava que não bebia porque foi uma boa muçulmana. Embora até me escovar os dentes me produz arcadas. vinte e quatro em realidade. Tem que ser duro te encontrar tão mal com tudo o que está passando.-Obrigado.

tanto se Wayne aparecia como se não. Mas assim que se partiu. começava a pensar na morte. Pois te digo que paquerar um pouco. reconheci. fazer que a gente se sinta especial… como dizem os irlandeses. Não estava sendo amável porque sim. e temi . fechei os olhos e me perguntei se não deveria chamar a Antonia Kelly. juraria que te vi lhe dar um pequeno… apertão a entrepierna de Roger St. -É isso o que me está perguntando? -Zeezah esboçou um sorriso pícaro-. não? 58 Deixei ao Zeezah na emissora. Abri os olhos e contemplei a pele suave do interior de minhas bonecas seguindo as linhas azuis das veias. Queria lhe fazer uma pergunta. Dizem que todas as conversações delicadas deveriam se ter em um carro porque desse modo a gente não corre o risco de olhar-se aos olhos e os silêncios incômodos se enchem com o barulho do tráfico. Esperei a que estivéssemos na estrada.-Me dê uns minutos para recolher duzentos euros de Jay Parker e te levarei em meu carro. a realidade era que depois da quarta-feira só me esperava a escuridão. na quarta-feira estava à volta da esquina e passasse o que acontecesse. não faz mal a ninguém. lamentei-o. Sentada no carro. -Zeezah… o outro dia… o dia que chegaram os trajes de cisne. Seria doloroso. -Na entrepierna? -Na entrepierna. -Não. Doía-me a cabeça. Leger. -Acompanha-me? -perguntou-me. Esta vez o processo foi muito mais brusco. Ultimamente não tenho a cabeça muito lá e te agradeceria que me dissesse que não alucinei. tenho coisas que fazer. -Um apertão? -Um apertão. Cada vez que cometia o engano de me deter pensar. -De acordo.

Que estranho. O medo se apoderou de mim. ralentizándose. talvez não me doesse tanto. Teria que lhe dizer que ainda não sabia nada do Wayne e isso me assustava muito. Não podia falar com ele. Estava pensando em morrer. entretanto. Era Harry Gilliam. os sentimentos e as situações se magnificavam. ficavam atordoadas. Mas sabia que não tinha eleição: se Harry Gilliam queria falar comigo.que a dor interferisse. Ficava um tubo. fui agarrar o móvel para me sentir melhor quando descobri que já o tinha na mão. Mas. Respondi a contra gosto. por isso me era impossível saber aonde ia levar me este estado. Em minha memória. em outros sentidos. Talvez não me doesse nada. Outras pessoas com depressão de manual foram perdendo velocidade. pode que uma hora antes. catatónicas. custava-lhes respirar e eram incapazes de comer. Ou se foram ao outro extremo: a angústia as dominava. . Interrompi-me. e se me lubrificava uma boa capa. Deixei que o telefone soasse até fartar-se. O que mais me assustava era que eu nunca tinha encaixado em nenhum diagnóstico de "depressão". cedo ou tarde teria que acessar. E esta vez era pior simplesmente porque era pior. Não acreditava que pudesse voltar a passar por isso. mas dois segundos depois arrancou de novo. do mundo. Como o muito que detestava a luz. Mas também tinha toda aula de sintomas extra. E eu tinha bastante disso. Como o consolo que me produziam os desastres naturais. até que finalmente se detinham de tudo. e me parecia que algumas parte do mesmo careciam de sentido e poder. Esta vez era pior porque sabia quão feia podia ficá-la situação. Enquanto o sustentava começou a soar. Esta vez era pior porque me tinha acreditado curada. Como meu medo ao Harry Gilliam. Talvez deveria comprar outro. como a suspeita de que ia aterrissar em outro planeta. estava me despedindo já de minha vida. revoava a lembrança da nata anestésica que tinha utilizado quando me depilei as pernas com laser. Como a sensação de que sustentavam minha alma contra uma chama. Não deveria estar pensando isso. dormir e permanecer quietas.

Em um tom frio e ameaçador. -Como? -Sabe coisas que não me está contando.-Olá. -Sou um homem ocupado e não tenho tempo para gilipolleces. -Sinto muito. -O que? -Se te chamar. te assegure de responder. -Sim. -Certo. E pendurou. -Então. Fez-se o silêncio. sim. Atirei a toalha. Helen. Estou-te dizendo o que quer ouvir porque te tenho medo. Tinha-me pilhado. E como vai com seu curral? -Muito trabalho. Helen -disse. Harry perguntou: -Está-me seguindo a corrente? -Não. -Eu? O que quer que eu saiba? Eu sou um simples adestrador de galinhas. Hei posto muitas esperança nela. -Não me diga? -Estou provando uma galinha nova. Não tinha sentido negá-lo. claro. -Suspirei. -Que notícias tem para mim? -Várias pistas que estou seguindo implacavelmente. estará sobre esse cenário na quarta-feira de noite? -Sim. Mas poderia nos ajudar aos dois. -Não? -Bom. Não me falta. . -Não faça isso.

não poderia. Sejam Montcrieff lhe estava perguntando sobre seu embaraço e Zeezah confessou timidamente que sim. Subi o volume. -Sabe já se for menino ou menina? Esta entrevista de três ao quarto não era própria de Sejam. Quem pode sobreviver sem móvel? Eu. Espremi o telefone como se estivesse pendurando do bordo de um precipício e esperei a que a espantosa sensação passasse. Fiz meus cálculos: Wayne tinha apagado seu móvel apenas três ou quatro minutos depois de que Digby o levasse no carro. que estava grávida. muito mau noticia. mas o Homem do Telefone podia me adiantar que o móvel do Wayne tinha sido apagado às 12. A informação das chamadas do Wayne tinha chegado ao fim! Isso desentranharia todo o mistério! Virtualmente já tinha ao Wayne. Normalmente entrevistava aos cérebros mais brilhantes do país e conseguia que toda classe de temas ocultos resultassem compreensíveis e interessantes. Má. Quando teve remetido a um grau suportável. Minha sorte aumentou exponencialmente quando vi que era do Homem do Telefone. tratava-se unicamente de um relatório preliminar em resposta a minhas súplicas. certamente. A menos que Wayne não estivesse sobrevivendo… A voz do Zeezah na rádio desviou minha atenção desse horrível pensamento. .03 da quinta-feira e que assim tinha permanecido após. a verdade. Ou o tinha feito alguém por ele? Isto resultava ainda mais estranho que o fato de que Wayne não tivesse utilizado seus cartões de crédito.Demorei vários minutos em me recuperar. A informação detalhada me chegaria amanhã. o primeiro que fiz foi olhar o móvel e me levei uma grande alegria ao comprovar que tinha entrado um correio eletrônico novo. Então me pus a ler o correio e tubo que reprimir um chiado de desespero. Olhei horrorizada a tela.

Se for menino lhe poremos Romeo e se for menina. Não podia decidir-se entre seu irmão Wayne e John Joseph Hartley. -Outra risita encantadora-. -Sim. Sou Helen Walsh.-Não. Mas o tempo apressava. Estoute perguntando a respeito do Zeezah. Teve a amabilidade de me ensinar sua casa. verdade? Só dava sim ou não. -Zeezah soltou uma risita encantadora-. pensei. por isso -e olhando atrás. -Certamente que sim. 59 Por um instante considerei a possibilidade de não chamar. verdade? Inclusive depois de casada. de me apresentar pela segunda vez em um mesmo dia no condado de Cork e me enfrentar a ela em pessoa. verdade? Estava com os dois ao mesmo tempo. Depois de um breve silêncio. Em nossa lua de mel. Respondeu ao primeiro tom. em um tom mais humilde de que esperava dela. Que cardo de mulher. -Não pode decidir-se por nenhum dos dois? -perguntei sem mais. -O único importante para vós é que nasça são. possivelmente foi um enganoescolhi a opção mais rápida. -O que? -Desculpa. -Diga? -Sua voz soava impaciente. Roma. respondeu: . Decidimos que não queríamos conhecer o sexo de nosso bebê. Roma? Ah. Permite que reformule minha pergunta. Connie. a que sim? -Juraria que Sejam se estava pitorreando. -Exato. -Será porque talvez foi concebido em Roma? -A Sejam não lhe escapava uma. Um momento… Roma?. Conhecemo-nos esta manhã. -Nesse caso. Roma. imagino que não decidistes ainda o nome.

Sempre nos conta suas coisas a seu irmão e a mim. que precisava lhe ver. Por isso Wayne voou a Roma. Acabo de cair na conta de que estava falando do Zeezah e que as duas pessoas pelas que não podia decidir-se eram Wayne e John Joseph. -Significa isso que Wayne poderia ser o pai do bebê que espera Zeezah? -Sim. O numerito com o Maurice McNice quase me faz vomitar. Zeezah não o deixava tranqüilo. Estava falando com sua cunhada sobre uma mulher que. Chamava-lhe dia e noite para lhe dizer que não teria que haver-se casado com o John Joseph. ainda não se decidiu. Nem sequer sei como acabei vendo-o. Nunca vejo esse programa. é só uma brincadeira. -Você e Wayne estão muito unidos? -Somos sua família. "não pode decidir-se por nenhum dos dois".-Não teria que haver dito nada. Queremo-lhe. O que sim sei é que quando na quinta-feira registrei a casa do Wayne encontrei um acendedor de Coliseu de Roma na gaveta de seu mesita de noite. cito suas palavras. O que sabe você? O que averiguaste? -Ouvi-te no vídeo do sessenta e cinco aniversários de sua mãe. rogo-lhe isso. Que eu saiba. Ou que Wayne se apresentasse em plena lua de mel… -Não se apresentou porque sim -replicou. -Estraguem… -E agora Zeezah está grávida e acaba de sair na rádio dizendo que seu bebê foi concebido em Roma… -Como pode estar tão segura? -Não sei. Mas ela seguia sem decidir-se. Claro que sempre existe a possibilidade de que Zeezah o trouxesse de recordo para o Wayne… Não te zangue. -Sabe Wayne? . Mas não suporto o que essa… zorra manipuladora tem feito ao Wayne. Connie-. irritada. que tinha cometido um terrível engano.

que conseqüências poderia trazer isso? John Joseph não parecia a classe de homem capaz de tomar-se muito bem que a sua esposa a fecundasse seu subordinado. Mas realmente pensava que John Joseph poderia haver… poderia ter matado ao Wayne? Entretanto.-Naturalmente. Como ia ou seja o eu se não? Mas o bebê também poderia ser de John Joseph. Teria preferido que me houvesse isso dito sem rodeios. Senhor. -Acredito que sim. -Lamento não ter recolhido as pistas que me lançou esta manhã. que encontrasse algum histórico médico do Zeezah. Se tinha feito mal ao Wayne. isso nos teria economizado muito tempo. os resultados de uma prova de DNA. Wayne soube desde o começo que Zeezah esteve simultaneamente com os dois. Normalmente não sou tão lenta. como é lógico. mas estava muito zangada. quando comentou o que a imprensa dizia a respeito de que Zeezah e John Joseph não podiam ser mais felizes com o embaraço. Então recordei o pânico desmedido de John Joseph desta tarde. não posso ter sabor de ciência certa quem é o pai. o que fora… -Não se pode fazer uma prova de DNA até que o menino nasceu. Zeezah nunca lhe fez acreditar no Wayne que ela e John Joseph não se deitassem. -Sabe John Joseph? Um suspiro fundo. -Acredito que não teria que haver dito nada. como investigadora privada. sobre tudo porque estava acostumado a exibir um grande autocontrol. alguém me tinha golpeado. acrescentou-: E. tinha sentido que ficasse assim? Ou acaso tinha estado fingindo? Era uma possibilidade. -OH. descobrisse coisas que ninguém mais podia averiguar. Connie demorou para responder. Alguém não temia recorrer à violência. Depois de um breve silêncio. Confiava em que. .

-Contei-lhe isso tudo. O assunto com o Zeezah é tão sórdido… Se sair à luz prejudicará a imagem de meu irmão… -E se Wayne estiver em perigo? -Não sei. acreditei-. ouviste o Wayne falar de uma garota chamada Glorifica? -Não. Sopesei atentamente minhas seguintes palavras. -Joder. -Connie. -Connie. -Parecia terrivelmente abatida-. Foi horrível. 60 Não suportava a idéia de lhes dar ao Jay e John Joseph a má notícia sobre o móvel do Wayne em pessoa. -Crie que deveríamos pedir à polícia que procure o Wayne? -Não sei. por isso enviei uma covarde mensagem de texto ao Jay e retornei ao Mercy Close. nunca. sabe onde está Wayne? -Sinceramente? Não. Reprimi um suspiro e prossegui. Poderia deixá-lo em minhas mãos até manhã? -Connie. . -A voz lhe tremeu-. Por estúpido que parecesse. Muito preocupada.Lamentei seriamente não ter ido ao Clonakilty para ver o Connie em pessoa. é de crucial importância que me conte tudo o que sabe. estou preocupada com o Wayne. -Walter Wolcott? O que lhe disse? -Nada. -Connie. E o homem sobre o que nos advertiu vinho a nos ver. estava tão unida ao Wayne que a pergunta justa tivesse podido desentupir todo o assunto. Gritou a minha mãe. terrivelmente preocupados. Tem o móvel apagado desde quinta-feira e não utilizou nenhuma de seus cartões de crédito. Nós também estamos preocupados com ele. Tenho que falá-lo com meus pais.

por favor? -perguntou Cain-. -O que te passou na frente? -perguntou Daisy. caminhando para mim. Temos uma informação que te dar. estamos bem aqui. justo antes das onze.Estava estacionando quando as cabeças de Cain e Daisy apareceram na janela de sua sala de estar. E não estava disposta a colocá-los na maravilhosa casa do Wayne. Verá. adiante. -Alguém me atacou. Não veriam algo por acaso? -Não… -disse Cain-. Daisy? . como se se dispusera a competir nos cem metros-. o que era isso que levavam dias tentando me contar. Não queria voltar a entrar no deprimente lar de Cain e Daisy por medo de que o papel pintado se equilibrasse sobre mim. na sábado de noite. -Podemos falar contigo. De fato. -Não lhe contamos nada ao tio da gabardina -disse Cain-. Ajudanos a dormir. É muito provável que às onze já estivéssemos sovando. Duas segundos depois estavam na rua. -Não deveríamos falar dentro? -propôs Cain jogando caminhos olhados furtivas por cima de seus ombros-. -E não procuramos dinheiro -acrescentou Daisy. -Quem? O tio da gabardina? -Não sei. -Cain se balançou sobre as pontas dos pés. -Agradeço-lhes isso -disse. E o que? Quer que lhe contemos a grande noticia? -Claro. Tinha compreendido o que era isso que queriam me dizer. -Adiante -disse. -Apoiei-me em meu carro e lhes indiquei com um gesto da mão que adotassem uma postura igual de relaxada. -Assinalei o lugar onde me tinha cansado-. -Bem. Essa casa era minha. Ou prefere contá-lo você. foi justo ali. mas já não lhes temia. pelas noites lhe damos… à erva… bastante. -Não precisa. Um tipo gordo. Sinto muito. esteve rondando por aqui fazendo toda classe de perguntas sobre o Wayne. com uma gabardina. O estávamos reservando para ti.

Tinha que escondê-lo. Nos sentimos fatal pelo susto que lhe demos aquele dia. Miúdo traseiro -disse Daisy com inveja-. Cain. -Estou-lhes muito agradecida aos dois -disse solenemente-. Entre as intrigas que revistam infestar uma gaveta de mesita de noite havia um acendedor branco com uma foto de Coliseu de Roma. Já a conhecíamos. mas ao vê-la em pessoa nos demos conta de que era a mesma garota que visitava o Wayne. há uma mulher que faz tempo que. Era real e eu era um gênio e havia na gaveta alguma outra coisa que pudesse me iluminar? . Ajudastes muito. mas não fazia danifico ser amável. Necessitarei tempo para processá-la. Queria lhe fazer outra visita gaveta de seu mesita de noite. De volta na maravilhosa casa do Wayne. -Não se preocupe. vem muito a ver o Wayne. está preparada? -Isso espero. -Sempre chegava com uma boina de beisebol e óculos de sol -explicou Daisy-. Inclusive o acendi. Sustentei-o na palma da mão. Bom. -Fingi sobressalto. E essa mulher é Zeezah! -O que? Continua! -Sim! Reconhecemo-la o dia que apareceram todos em nossa casa. Sim. -De acordo. -Para ocultar o traseiro -acrescentou Cain. Embora Connie me tinha confirmado que Wayne tinha irrompido na lua de mel do Zeezah e John Joseph. era real. tínhamo-la visto pela televisão. E aí estava. -Estraguem. E roupa folgada. em realidade não. meses diria eu. Queríamos te ajudar. Seguro que a teria delatado. -Bem. fui diretamente acima. Helen. Camisetas grandes e calças de moletom. Isto é forte.-Não. -Esta informação é de vital importância -disse-. precisava posar fisicamente os olhos no acendedor que tinha dado o empurrão definitivo a minha francamentegenial correlação de idéias. não o contaremos a ninguém mais -assegurou Cain-. -Queríamos nos desculpar -acrescentou Daisy-. conta-o você.

Cymbalta. possivelmente.para a depressão.Moedas. canetas que perdiam tinta. não. . E também o CD da maravilha do agora. Possessiva. recibos antigos. Como ia imaginar que anamorada do Wayne era a esposa de John Joseph? E Zeezah mais do mesmo. Naquele momento eu tinha dado por feito que anamorada do Wayne era a misteriosa Glória. Perguntei-me se não deveria começar a baixar pastas e revisar novamente os extratos bancários do Wayne enquanto implorava que algo que tivesse passado por cima chamasse minha atenção e o trocasse tudo. um tubo da Bonjela e caixas de medicamentos: Gaviscon. Não devia lhe ser fácil encontrar quietude na delicada situação que estava vivendo. pilhas velhas. ladrões. Boa pergunta. mas algo dentro do mesmo espectro de emoções. Pobre Wayne. o Clarityn para a alergia ao pólen e o Cymbalta -eu mesma o tinha tomado um tempo em que pese a não me fazer nenhum efeito. De fato. A presença de Corán em seu mesita de noite adquiria agora sentido. a verdade: que demônios estava fazendo Wayne com essa Glória? O que daria de sabê-lo. Teria que ter emprestado mais atenção à medicação a primeira vez que pincei nesta gaveta. o Gaviscon para a indigestão. O Bonjela era para as chagas bocais. Bom. Ou suspicaz. Sempre tinha sabido que John Joseph mentia quando disse que Wayne não tinhanamorada. mostrou-se… ciumenta. mas em lugar disso me sentei no chão com as costas apoiada na porta e permiti a minha mente perambular por outros roteiros. Zeezah sabia que Wayne estava louco por ela e não entendia que demônios estava fazendo com essa Glória. pode que ciumenta. eram muitas as coisas que agora adquiriam sentido. borrachas. ciumenta. Entrei no escritório confiando em que o fato de estar rodeada de arquivos repletos de informação me iluminasse por osmose. Tinha reagido de forma estranha quando lhe perguntei por Glória. Clarityn.

Estava tão concentrada em meu plano que mal emprestei atenção ao vago ruído. De repente -quase me dá um enfarte. Dava-me muito pau pensar nos pormenores. Acaso esse alguém havia tornado para me atacar de novo? dispunha-se a me partir os ossos? E como me sentia a respeito? Serena. O móvel soou um par de vezes mas não me incomodei em comprovar quem chamava. Eram minhas imaginações ou alguém acabava de entrar na casa? Estava quase segura de ter escutado passos no saguão. talvez passaria uma larga temporada no hospital atordoada pela morfina.Eram tantos os detalhes que tinha que ter em conta… Ao ser mão direita teria que me fazer primeiro a boneca esquerda. Havia alguém mais na casa. Atraía-me muito a idéia de que minha dor emocional se transmutasse em dor física. Comecei a segregar adrenalina. cheio de matizes. Peguei a orelha ao chão para tentar lhe seguir os passos. Devia planejar cada fase com supremo parada. Um pouco relacionado com a temperatura a que se coagula o sangue. Era o bruto do Walter Wolcott? Era o Misterioso Vapuleador do Velho Dublín? Era… Wayne? Tinha voltado para fim? Achava-me inundada em uma combinação lhe paralisem de medo e espera. Alguém me havia dito que deixasse de procurar o Wayne e não o tinha feito. Alguém me tinha agredido na sábado de noite. Existia a possibilidade de que alguém tivesse entrado porque a minha chegada tinha esquecido pôr a cadeia na porta. Era um trabalho complicado.era importante manter quente a água da banheira. mas tinha que fazê-lo. E -o tinha lido em internet. . como um ataque. Não o tinha imaginado.me apitou o móvel: uma mensagem de texto me informando de que se detectou movimento no saguão do Wayne. Com um pouco de sorte me mataria. E se não me matava. Para quando ouvi o segundo já tinha identificado o primeiro como o de uma chave entrando na fechadura da porta do Wayne.

nem um céntimo. Helen Walsh. Pilhei várias vezes a palavra "Alá" e face à dramática situação dediquei um momento a saborear meu inegável dom para os idiomas. -E realmente acreditava que estaria sentado aqui. coisas inúteis. A gente se desesperada faz coisas estúpidas. Saiu e se dirigiu à habitação de convidados. Que capacidade para repor-se. Todos estamos se desesperados. -O que diria se te insinuasse que John Joseph se há… isto… se desfeito do Wayne? -Asseguro-te que John Joseph não tem nada que ver com o Wayne. Tinha começado a chorar. Finalmente Zeezah se passou ao inglês. em sua casa. Vim a esta casa. depois ao quarto de banho. Entrou no dormitório do Wayne. Que senhorita tão descarada. O que faz aqui? -Meu trabalho. . Levantei-me para que pudesse entrar no escritório. -Quando viu o Wayne por última vez? -na quarta-feira de noite. John Joseph está… qual é a palavra? John Joseph está acojonado. -Helen! Helen Walsh! -Soprava e tinha a mão sobre o coração-. Não temos dinheiro. Não imagina até que ponto necessita que Wayne apareça.Agora estava subindo a escada. Me deste um susto de morte. O que faz você? -Estou procurando o Wayne. -Não me contou o teu com o Wayne -disse. porque não suporta ficar de braços cruzados. quando meio país anda buscando-o? -Estou desesperada. À me ver soltou um chiado e uma enxurrada de coisas em outro idioma. -Não me perguntou isso. A porta se abriu com força e na habitação irrompeu Zeezah.

que embora John Joseph fora o pai do bebê ele me queria. Irei à casa em que provavelmente não viverei muito mais tempo e tentarei tranqüilizar a meu marido. -Sinto-o muito. -Zeezah. -No último momento acrescentou-: Mas pelo menos temos uma boa palavra para descrever nossa situação. Procurei o número da Antonia Kelly em meu móvel e o contemplei enquanto me debatia entre chamá-la ou não. E agora devo partir. Chamei-lhe e me saiu a rolha de voz. Todos estamos jodidos. mas não me ocorre outro lugar. mas que devia tomar uma decisão. -Não está com sua família -disse. Leger. Disse-lhe que não podia. Connie. que estou… jodida. Ou seja. o surfista. mas tinha que fazê-la. . Amo ao Wayne. o sua era adoração mútua. de modo que lhe escrevi um SMS lhe dizendo que estava bem e que me telefonasse quando pudesse. Gosta dessa mandona que tem por irmã. mas já não tenho um selo discográfico. Com tal propósito pedirei um Xanax ao Roger St. Tinha dele uma chamada perdida mas nenhuma mensagem. Helen Walsh. 61 Tinha sido um dia tão largo e ocupado que ainda não tinha conseguido falar com o Artie. Estava farta dessa pergunta. -Disse-me que tinha que escolher entre ele e John Joseph. Tenho um contrato assinado com o John Joseph mas John Joseph não tem dinheiro e não o terá a menos que se celebrem esses… -se interrompeu para procurar a palavra-… esses jodidos concertos. onde crie que está Wayne? -Acredito que está com sua família. E se respondia? O que lhe diria? Ela saberia que não estava chamando-a simplesmente para conversar.-Discutiram? Assentiu. e estes não terão lugar sem o Wayne. Caray. De modo que esses foram os gritos que tinha ouvido Nicholas.

"Pendura. Hairy Bikers. Estudei a lista sem que nada chamasse minha atenção até que descobri que tinha o enlace da série Bored To Death. -Sou Antonia Kelly. como muito em breve. até que compreendi que era sua rolha de voz. A fim de esquivar essa sensação. Os programas de cozinha não foram comigo. Certamente não escutaria minha mensagem até manhã pela manhã. Nigel Slater e demais. a voz de uma mulher com um carro negro e um gosto excelente para os lenços-. pendura. Importaria-te me chamar? Pendurei. Tinha uma voz muito bonita. O número que tinha dela correspondia a um móvel. Por favor. Helen Walsh. Olhei meu móvel para ver se Artie me tinha chamado mas não o tinha feito e era quase meia-noite. mas suspeitava que não era seu móvel privado e que o mantinha apagado fora das horas de consulta. Que estranho. logo comecei a ver outro e finalmente me dava conta de que minha conduta estava roçando de maneira alarmante a vadiagem. Mas era muito tarde para poder fazer nada. mesmo que era um que já tinha visto. Ainda notava que o sentimento de hostilidade de ontem se interpunha entre nós. mas já que não me diziam nada desviei a atenção ao SkyPlus. uma comédia sobre um detetive privado do Brooklyn. por isso me obriguei a pará-la. pendura…" -Antonia… né… sou Helen.Meu dedo sobrevoou um momento o botão de chamada e finalmente apertei. descobri que gostava dos programas de cozinha: Jamie Oliver. -Por um momento pensei que se tratava realmente dela. Para minha surpresa (categoria: decepcionante). Vi um episódio. Poderia demorar muito em me chamar. baixei à sala e examinei a extensa coleção de CD do Wayne com a vaga esperança de que me transmitissem alguma informação útil. normalmente falávamos várias vezes ao dia e hoje não tínhamos falado nem uma vez. Já teria tempo de cozinhar quando estivesse morta. assim . deixe uma mensagem detalhada e lhe chamarei assim que possa. eu adorava essa série. antes de realizar essa chamada me havia sentido muito angustiada. e o anticlímax de não poder falar com ela abriu um abismo em meu interior.

levantei-me.e encontrei um oco a só umas portas da casa de Artie. Detive-me frente ao dormitório de Artie. E tampouco ela. paralisada pela indecisão. Tinha que fazer algo. Na tênue luz parecia tão surpreendida como eu. Não poderia suportá-lo. Conciliei um sonho desagradável e meu último pensamento consciente foi: "Amanhã voltará para casa. Não poderia agüentá-lo. o que podia interpretarse como roupa de verdade ou roupa de dormir. de seu calor. mas quando olhei o móvel eram as 3. Por uma vez não fui capaz de adotar o tom brincalhão e desenvolto que utilizávamos entre nós. Permaneci assim um bom momento. Wayne". engoli a última pastilha e conduzi pelas ruas desertas -se chegava em um tris a estas horas da madrugada. Entrei com sigilo e subi nas pontas dos pés. Baixou sem fazer ruído e eu pus-se a andar pelo patamar. Minha cabeça ia estalar. Ou podia ir ver o Artie. Assim que pus um pé no patamar me choquei com alguém: Vonnie! Afoguei um grito. A luz perlada da manhã começava a filtrar-se na casa. Vestia uma camiseta minúscula e uma calça de ioga. Assim teria o consolo de seu corpo. -Em que habitação está dormindo? -perguntei.24 da madrugada. Era muito logo para que na terça-feira começasse. Podia tomar outro sonífero -salvo que não deveria. -Em nenhuma -respondeu.que tomei um sonífero e me instalei no chão da sala do Wayne com uma almofada. Senhor. temendo . Estava começando a clarear. sempre igual: os soníferos me deixavam grogue as três ou quatro primeiras noites e a partir daí começavam a perder efeito. de seu delicioso aroma de homem. Uma vez tomada a decisão. -Que siga assim -disse com uma despreocupação que estava longe de sentir.ou podia tentar ver outro episódio do Bored To Death. Despertei sobressaltada.

mas não me incomodei com os Cheerios. a qual procedeu a atender com supremo entusiasmo. -Ensinou-me um cúter(cortador) largo com uma lâmina atalho em diagonal-. com o Artie. Um homem que desfrutava com seu trabalho. Só leva uma lâmina. mas não o fiz. Era como a cova de Aladino mas no inferno. . mas pode comprar outras de reposto.entrar no dormitório e descobrir alguma prova de que Vonnie tinha estado dentro. TERÇA-FEIRA 62 Despertei no chão do Wayne às 10. Um lugar espantoso. -Procuro um cúter(cortador). Logo subi ao carro e fui a uma loja de ferragens de um minicentro comercial do Booterstown. mas não tinha sido capaz de encontrar os cúter(cortador)es e enquanto examinava as prateleiras constantemente se equilibravam sobre mim objetos desagradáveis: serras e furadeiras e amostras de pintura Dulux. espantoso. -Já. Finalmente me rendi e retornei ao homem do mostrador e lhe comuniquei minha petição. assim retornei a casa do Wayne e tomei outro sonífero porque não podia não fazê-lo. -Um cúter(cortador) -disse o homem ao outro lado do mostrador-. Tinha duas mensagens de Artie me pedindo que lhe chamasse.37 da manhã. Bebi um gole da Coca-cola light e tomei minha pastilha. mas tampouco lhe telefonei. Estava abarrotado de pregos e parafusos e chaves e quantidades intermináveis de cositas metálicas. Se não tinha estado o temor se esfumaria. Milhões e milhões em milhões e milhões de tamanhos diferentes. Mas e se tinha estado…? Partir era o mais prudente. Teria preferido ter mantido minha busca discreta e anônima. Também tinha como oitenta mensagens do Jay Parker. Era o lugar mais lotado que tinha visto em minha vida. Posso lhe ensinar diferentes tipos. -Este é o modelo mais básico.

É mais caro. e lhe asseguro que só necessita o mais singelo. obtém uma lâmina mais larga. Sou perito em bricolagem. não há nada que não saiba do tema. -Um pouco desiludido. Este vem com seu próprio estojo. Se de algo estava segura era de que não podia fazê-lo em casa de mamãe e papai. assinalou-me o modelo mais singelo-. -Né… para cortar coisas. Vê este botoncito? -Inclinei-me para inspecioná-lo-. Fiquei um comprido momento frente ao volante. mas seria uma pena arruinar todo o plano por falta de previsão. pensando. outro tipo. O homem envolveu cuidadosamente o cúter(cortador) com plástico de borbulhas. certamente. -Com sorte só necessitaria uma. -Cinco euros -disse. um cliente. -Não se deixe enredar -disse em um tom quase-mas-não-de-tudo jocoso-. -Tirou uma cajita de madeira e a abriu muito devagar-. Súbitamente. -Já. curta coisas. -Sério? -Para que quer o cúter(cortador) exatamente? -perguntou-me o homem do mostrador. -Não queremos que lhe leve a mão! -É obvio que não! -Tendi-lhe um bilhete de cinco e retornei ao carro. -E este… -Era evidente que estava muito orgulhoso dele-. -Quer lâminas de reposto? -Sim. como não. interveio.-Este modelo é um pouco mais sofisticado. Vê? Se apura de novo. Isso teria para eles conseqüências . Só tem que apertá-lo para alargar a lâmina. Surpreendeu-me que fora tão barato. mas o vale. Tem três lâminas em uma. Este. -Já. -Levo-me isso.

Perguntei-me então como era "detenha" em polonês. Entrei e comprei zelo. um rotulador negro de ponta grosa e um pacote de fólios. o lugar mais inóspito imaginável.devastadoras. Obviamente. Olhei pelo guichê do carro e. tratada como uma prestação mais por todos esses homens de negócios a quem lhes escorregava "sem querer" a toalha. Teria que fazê-lo em um hotel. mas possivelmente a garota conseguisse entrar. Mas e a pessoa que limpava as habitações? Seguro que era uma garota. E que talvez se chamasse Magda. Não seriam capazes de voltar a entrar jamais no quarto de banho. Era um espantoso edifício cinza do Ballsbridge. E lhe deixaria dinheiro pelo trabalho de ter que limpar todo o quarto de banho. Tinha um aspecto tão lúgubre que custava acreditar que fora um hotel. Não era justo que meu falecimento fora simplesmente uma oportunidade para o universo de transladar meu terror a outra pessoa. Decidi que era polonesa. Escreveria: Poderia fazer os letreiros em inglês e polonês. Tratei de procurar uma solução. De novo no carro guardei o cúter(cortador) . vislumbrei uma papelaria a só duas portas da loja de ferragens. Buscaria-o no Google. E queria proteger a Magda de um trauma de por vida provocado pela visão de meu corpo sem vida dentro de uma banheira. deixando à vista seu chirivía. O melhor seria escrever vários letreiros e pegá-los com zelo na porta do quarto de banho para lhe avisar de que não entrasse. como se de um sinal de acima se tratasse. escreveria em grandes letras negras. "DETENHA". e de fato já tinha um pensado. fecharia a porta do quarto de banho por dentro. como se estivéssemos em uma carreira de substituições infernal. a quantidade mais pequena era um dossiê de mil. Bronagh e eu sempre o havíamos descrito como "a classe de lugar ao que alguém iria para suicidarse". E seguro que cobrava o salário mínimo. e provavelmente era estrangeira e estava longe de sua família e amigos. quase sempre o era. O trabalho de uma garçonete de hotel era jodido. mas bem semelhava um cárcere.

três e volta. na sábado os viu com os trajes de cisne. Esperava outro grunhido de John Joseph.na bolsa de plástico. que era o que normalmente lhe acontecia às pessoas que olhava as catástrofes de frente. Leger os que estavam impedindo que lhe saísse espuma pela boca e saltasse ao jugular. Dúzias de pessoas foram de um lado a outro e sobre o cenário John Joseph. moviam-se com agilidade e ligeireza e estavam pondo tudo de sua parte. com o resto das coisas. Frankie e Jay estavam ensaiando seu número com o coreógrafo. e me pus isso na saia. John Joseph. Seu peso me reconfortou e me fez pensar na bolsa que prepararia uma futura mamãe antes de ingressar no hospital para dar a luz. mas se limitou a assentir com a cabeça. Talvez estivesse obtendo consolo de sua fé católica. -Helen. onde reinava o caos acostumado. Saía-lhes bastante bem. E passo. de cor branca. nos dê sua opinião. que estava gritando os passados do baile: -… dois. Roger. vamos. Tenta sorrir. -Nada. Deveríamos conservá-los ou esquecê-los? . E parada. Só ficava agarrar a nata anestésica de casa de meus pais e já teria a equipe completa. Parecia que tivesse entrado em uma fase de resignação. Neguei com a cabeça. sorri. Jogando enquanto Roma ardia. pega a seu torso estreito. Seguro que eram os Xanax extrafuertes de Roger St. Jay se separou do grupo e alguém lhe lançou uma toalha. Tinha a camisa. E volta. secou-se o suor da cara e se aproximou de mim. E rebolado de quadril. os quatro frearam em seco e me olharam igual a uma manada de cervos assustados. E passo. 63 Em um estranho exercício de autocastigo fui ao MusicDrome. com a esperança refletida patéticamente em seus rostos. E atrás. Minha ingenuidade quase me fez rir. Quando entrei em seu campo de visão.

disse: -Daremo-nos de tempo até manhã às dez. Sabe algo da gente do telefone? -Ainda não. são um desastre -me sussurrou Jay. contra Wayne. E contra mim. -O que ocorre se os registros de suas chamadas não desvelam nada? perguntei-. O que vais fazer? Calou. por irônico que pareça. -E tampouco queria pensar nisso-. E econômico. Aposta pela simplicidade. -E realmente crie que não aparecerá? Que nos deixará na estacada? -Pode que não tenha eleição. -Esqueceremo-los. Pinçou no bolso de sua calça e me tendeu um maço de bilhetes. -Não podem atuar eles três sós? . me obsequiando com um sorriso triunfal.-esquecê-los -disse-. -Contra quem? Olhou por cima de seu ombro. Pelo visto o Xanax não lhe tinha melhorado o humor. Porão uma demanda e me verei metido em uma confusão legal. -O que quer dizer? -Não sei. Se Wayne não apareceu para então. manteremo-los -replicou John Joseph. Sobre a frente lhe caiu uma mecha negra empapada de suor-. mas seguirei procurando. E. negou com a cabeça. -Realmente acredito que não o encontrarei. Terei notícias mais tarde. -Nesse caso. Até quando pensa alargar esta situação? Quando deterá os ensaios? -Realmente crie que não o encontrará? Permiti-me expressá-lo. Ao cabo de uns instantes. emitirei um comunicado de imprensa cancelando os concertos. Devolveremos o dinheiro das entradas. Tem descoberto algo Wolcott? Com cara de preocupação. -Helen diz que nos esqueçamos dos trajes de cisne -anunciou aos meninos. Os promotores se enfurecerão. Que tio tão desagradável. -Contra esses três.

-Fraudou-lhes… -Não lhes fraudei. É um excelente bailarino. os que foram para mim e insistiram. em que pese a todas as demais coisa que é. Abriu uma porta e me convidou a entrar em um camarim diminuto. mas sim o contrato o assinaram os quatro Laddz. Como pode imaginar. Legalmente estão obrigados a atuar como um quarteto. mas tem que compreender que foram eles os que me propuseram isso. Lamento muito todos os problemas que te causei. -Lamentarei até o final de meus dias. -Bronagh era minha melhor amiga -disse-. Não deveu fazê-lo. Ou os quatro ou nada. Fechou a porta detrás de mim. -Bom -disse. sempre o hei dito. Mas os arruinou. pensei. mas… -Os admiradores a armariam. já falamos que essa possibilidade. . -Isso OH crie? -Sabe muito bem. Uma piscada de algo terrível cruzou por seu rosto. -Que lástima -disse-. É um bom bailarino. mas quero voltar a te dizer o muito que o sinto. -Helen. podemos falar a sós? "Não". não lhes fraudou. -Bom… -Sei que lhe hei isso dito um milhão de vezes. Traguei saliva. -Não só isso.-Não. Encaminhou-se para os bastidores e lhe segui pelo comprido corredor de cimento. -Temos que falar -disse. Lamento muito o do Bronagh. Certo. porque poderia substituir ao Wayne.

o símbolo do euro aparecia em seus olhos a mais mínima oportunidade. mas eles insistiram. Simplesmente tinha tido má sorte. -Mas não fiz nada desonesto. Mas aconteceu o inesperado: o banco pai dinamarquês. Foi um pesadelo para eles e me jogaram a culpa por haver apresentado ao Jay. reconheci. Chamavam-no "Agrupamento de Dívidas". E me atormentava que Jay tivesse arruinado a meus amigos. sempre de festa pela cidade. sempre de um lado a outro. . Bronagh e Blake deixaram de me falar e eu deixei de lhe falar com o Jay. Parecia algo a prova de recessões. deviam milhares e milhares e milhares de euros. Jay e eu. Suspirei e finalmente me permiti soltar essa semente amarga. Nunca me perdoaram isso. Não sou um estelionatário. Talvez isso fora certo. foi a rivalidade arrastando consigo o negócio de Jay. E era verdade. e essa era uma das razões de que ele e Jay se levassem tão bem. Uma das muitas razões pelas que formávamos um quarteto tão unido. Blake.E arruinou o nosso. Tinham pedido emprestado para investir -o chamavam alavancamento-. e Bronagh e Blake perderam todo seu dinheiro. sem que ninguém me consultasse. A relação se rompeu. como te empenha em insinuar -disse Jay-. de modo que nunca o perdoei. Levávamo-nos genial Bronagh. de modo que além de perder suas economias. Até que. Passávamos muito tempo juntos. acreditava-se um homem de negócios. Fechei os olhos. -Disse-lhes que não -continuou-. sólido como uma rocha. -Divertíamo-nos muito os quatro -disse. Disso fazia um ano. tratava-se de um negócio sólido respaldado por um banco sério que ninguém esperava que quebrasse. embora nunca cheguei a compreender no que consistia. de fato. Tantos milhares que lhes tinha rogado que não me dissessem a cifra final. Blake estava obcecado com o dinheiro. Estava respaldado por um banco quando os bancos não respaldavam nada. Bronagh e Blake investiram em um dos negócios de Jay. Sobre tudo Blake. a convicção de que Jay Parker era um descarado. era um negócio gerado pela recessão.

Não queria entrar em detalhes. Você e eu nunca voltaremos.E Bronagh e Blake não eram idiotas. Invadiu-me uma paz estranha. antes de que se casasse. 64 Tinha uma mensagem de Artie no que me dizia que lhe chamasse. Um raio de esperança iluminou seus olhos. Era um alívio soltar a raiva. Falar com ele significaria me enfrentar ao feito de que as noites que eu tinha passado no chão da sala de estar do Wayne Diffney. mas logo nada disso importaria. A paz que estava sentindo se desvaneceu de repente. Pode que em sua cama. -Perdôo-te -disse-. a ex esposa de Artie tinha estado dormindo em sua casa. -Talvez poderíamos… -Não -disse com suavidade-. Desculpei-a me dizendo que não tinha casada muito tempo. em que pese a tudo. foi ver-me ao hospital só uma vez. que possivelmente Bronagh e eu não tínhamos sido as grandes amigas que eu tinha acreditado que fomos. talvez foi então quando nossa amizade se viu realmente danificada. Fomos em seu tempo. seis meses mais tarde. já que estava agarrando ao touro pelos chifres. Mas quando. mas não lhe chamei. Tinha o consolo de minha pequena equipe. Logo tudo terminaria. associaram-se com o Jay Parker sabendo onde se metiam. a julgar pelo muito que lhe tinha surpreso me encontrar. não foi precisamente um ombro no que chorar. A sério. por favor -disse Jay. Tinha tomado uma decisão: levaria o caso do Wayne até o final. -me perdoe. e já não voltei a ser a mesma. seguiria procurando o Wayne até que Jay Parker emitisse o comunicado de imprensa amanhã pela manhã. Entretanto. tive o primeiro episódio depressivo. Com minha depressão assustei ao Bronagh. Hei aí outra coisa que possivelmente deveria admitir de uma vez. de meu pára-quedas. -Vai a sério com seu novonamorado? -Hummm -disse. . que ainda se achava em fase de lua de mel. Tire-lhe o da cabeça. O mais provável é que em sua cama.

Telefonei ao Connie. e para minha surpresa respondeu.Continuei diligentemente com minha busca seguindo as poucas pistas que ficavam. mas suspeitei que me estava evitando. a irmã do Wayne. surpreendida de minha audácia-. Tinham os olhos muito estranhos. Helen? -perguntou. Ou poderia ir ao lugar de treinamento. e também me saiu a rolha de voz. Sentei-me no banco de em frente. -Preciso falar contigo -disse. -Podemos manter a conversação por telefone? -Sabia que não o aceitaria-. -Sim -disse. mas já tinha passado. Eu não gostava das galinhas. -Não vou permitir que veja minhas galinhas. sentado à mesa do fundo com um copo de leite diante. Evidentemente. Verei-te em meu escritório dentro de meia hora. Estou treinando a minha nova galinha para uma briga. Pendurou antes de que pudesse lhe dizer que não desejava ver suas galinhas. e me saiu a rolha de voz. -O que acontece? -Seco onde os haja. . Como de costume. Fez um gesto ao garçom e se voltou para me observar atentamente. o possível taxista. Guardou silêncio uns segundos. ao fundo se ouviam grasnidos e cacarejos-. Harry estava no Corky's. -Efetivamente. me abandonar a sua mercê. não existia. Ao cabo de um minuto… percebi algo na expressão de sua cara. me chame paranóica. -O que passou a sua frente? -Um chupetón -disse. É que ninguém queria falar comigo? Decidi provar com o Harry Gilliam. Quase me partem o crânio. -Gosta de beber algo. Logo chamei o Digby. Uma… sonrisita? Inclinei inquisitivamente a cabeça. -Estou ocupado. Brilhantes e saltados. Um Orgasmo de Moto.

Harry bebeu um triste gole de leite. até que de repente deixei de sentir. -Poderia me haver feito muito dano! -Absolutamente! -Subtraiu importância a minha queixa-. -Por tua petição? -Por ordem minha -me corrigiu um pouco irritado.-O que? -Nada… -Era uma sonrisita! -Foi você? -Não fui eu… pessoalmente. desejo de vingança-. E -se interrompeu para rir entre dentes. -Pessoalmente? -Insisti-. . ordenava. Meu colega é um artista. -Mas… por que? -Estava-te amedrontando e queria que seguisse procurando o Wayne. O que importava? O fato. quase com acanhamento. poderia ter saído muito pior parada. -Onde está Wayne? Sabe coisas e será melhor que me diga isso. -Não tenho nem zorra de onde está Wayne. comoção. Meu cérebro estava captando um desfile de emoções indignação. Então… -… um colega.se tiver em conta que te golpeou com o canhão de uma pistola. Súbitamente abatido. O que está acontecendo aqui? Que interesse tem você em tudo isto? -investi -reconheceu. Harry Gilliam não pedia. E sei que a melhor maneira de conseguir que Helen Walsh faça algo quer dizer o que não o faça. Olhei-lhe boquiaberta. feito está. Era a primeira vez que lhe via sorrir. incredulidade. -Deixou que a sonrisita se ampliasse. Depois do vapuleo me deve isso. -Mas… -Não entendia nada-. Ao grão. Extremamente preciso na hora de avaliar uma situação.

que vergonha. Amanhã de noite eu já não estaria aqui. Deus. . Helen. tive que me diversificar. Pode que ele acabasse encontrando ao Wayne e eu não. Pode que acabasse encontrando ao Wayne. Agora sal aí fora e encontra ao Wayne Diffney. Os tempos trocam. Harry. não tem nenhuma informação útil? -Olhei-lhe e compreendi que Harry Gilliam estava tão desesperado e perdido como outros. Por sua atitude nervosa supus que estava provando sorte. Estava observando atentamente os rótulos das lojas. inquiriu: -A que vem esse sorriso? -Adeus. a quem vi. Passou raudamente por meu lado -sem reparar sequer em mim. Será melhor que esteja sobre esse cenário amanhã de noite. caminhando pela calçada como um touro inquieto em sua gabardina bege? Ao Walter Wolcott. de retorno ao carro. Esbocei um sorriso enigmático.e quando vislumbrou o néon rachado de Corky's. As coisas já não são tão fáceis como antes para um vulgar e honrado homem de negócios como eu. Sem dúvida procurava um local em concreto. mas ainda tomava a sério meu trabalho. Para minha surpresa. Ia a suicidarme. -Então. Helen -disse-. fazia a conexão entre o Wayne e Harry Gilliam e isso me impressionou. abriu a porta com sua carnuda pezuña e entrou. -Acima esse ânimo. Visivelmente nervoso.-Você? Você puseste dinheiro nos concertos de Laddz? Um delinqüente como você? -Os tempos trocam. Não tivesse sabido dizer se estava ali porque tinha entrevista com o Harry ou simplesmente provando sorte. sim. Em qualquer caso. -Ou? -Ou me encherei o saco muito. Podia encher o saco-se quanto gostasse.

É a pessoa mais independente que conheci em minha vida. -Onde está agora? -Em meu carro. Estacionada na rua Gardiner. Alguém me conhecia. Farei amanhã. foi só um arranque passageiro. Não me teria chamado se não tivesse estado se desesperada. Ela me conhecia. sei que está muito ocupada… -É urgente. Quando for bem. -Tinha um plano e não estava disposta a renunciar a ele. . nada mais subir ao carro. esquece que te conheço. e era um caminho que eu gostava-. E outras coisas. tive uma breve lacuna mental: quem era? Até que fiz memória. -Helen -disse com suavidade-. mas hoje me achava em um caminho diferente. -Olá. -Não. Antonia. Vê alguma cesto de papéis? Olhe pelo guichê. -Sim. -É grave. e li "Antonia Kelly". -Tem o cúter(cortador) contigo? -Sim. Talvez Antonia tivesse podido me resgatar ontem à noite.Estava tão obcecada com o Wayne que quando me soou o móvel. -Vê alguma cesto de papéis perto? Segue me falando. Sinto te haver incomodado. Não estava de tudo sozinha. -Fez algo a respeito? -comprei um cúter(cortador). E algo do que acabava de dizer me chegou até o mais fundo. Helen? Pensei em minha visita à loja de ferragens. Helen? -Nem muito menos. Helen. -Helen? Em sua mensagem dizia que queria falar. Não devi te incomodar. -Vêm-lhe pensamentos suicidas? -perguntou.

Que agradável era que outra pessoa assumisse o controle durante um momento. -Bem. o papel e o rotulador. -Isso soluciona o problema mais imediato -disse-. -Acredito que neste caso farão uma exceção. Provavelmente não era o que Antonia queria dizer. -Te ocorre alguém com quem pode acontecer a noite? Alguém com quem se sinta a salvo? Meditei-o. Arrojei a bolsa com o cúter(cortador). -Bem. o zelo. Agora volta para carro. Por desgraça. Crie que pode acontecer o resto do dia sem fazer isso? -Tendo em conta que não tinha previsto levar a cabo meu plano até manhã. -É uma pessoa forte. Retornei ao carro e fechei a porta. mas consideraria a possibilidade de voltar para hospit…? Nem sequer podia lhe permitir que pronunciasse essa palavra. No cesto de papéis. -Sou-o? -Ten por seguro. Ou estaria disposta a considerar a possibilidade…? Sei que o odiava. -Pensarei. mas nada te impedirá de comprar outro cúter(cortador). . Sentia-me a salvo ali. agora mesmo estou fora do país. mas retornarei amanhã pela tarde. Muito mais forte e valente do que crie. -Nesse caso existe uma opção. mas respondi: -Sim. -Já está. -Põe "Sozinho plástico" -disse-. Poderíamos nos ver então. vejo um cesto de papéis. segue me falando. ao cesto de papéis. Podia ficar em casa do Wayne. Agarrei obedientemente a bolsa e desci do carro. Baixa do carro e tira o cúter(cortador) ao cesto de papéis. a equipe ao completo. sim. Interrompi-a antes de que terminasse a frase.-Sim.

Outra vez. Em um momento dado me precavi de que o condutor do . Sentia-me… não em paz. Tinha que fazer o que tinha feito a última vez: me abarrotar de pastilhas. Estou no trabalho. Poderia fazer outra casita para pássaros. não era algo tão agradável. -De acordo. Para que me obrigar a um gole tão doloroso? Entretanto -possivelmente porque eu gostava de deixá-lo tudo bem pacote?. os soluços foram em aumento. -Sim. Por meu rosto escorregavam lágrimas silenciosas sem que eu pusesse nada de minha parte. tentar correr. -Quando? Agora? -Agora vai bem. Preciso verte. porque senti que tinha que estar à altura de sua fé em mim. comer só mantimentos azuis. ao menos no momento. até desembocar em berros guturais. Detida em um semáforo. Melhor acabar com isto de uma vez.Quase me irritei com ela por dizê-lo. pude apoiar a cabeça no volante e dar rédea solta às convulsões. 65 Pelo caminho rompi a chorar.respondi. ir a ioga. O impulso de pôr fim a minha vida tinha abandonado. Soou-me o móvel. permaneci um bom momento no carro. havia tornado a última vez. ver a Antonia duas vezes por semana. Rendi-me por completo. a não ser resignada. Passivamente ao princípio. -Preciso verte -disse. -Parecia extremamente incômodo-. Era Artie. Não podia defraudá-la. quando a dor se desprendeu a pedaços de minhas vísceras e subiu até minha garganta. depois de pendurar. onde já não precisava manter o corpo direito. Pode que voltasse. Eu gostaria de me fazer uma camiseta com essa frase. -Não quero falá-lo por telefone. pode que inclusive passar outra temporada no hospital para me manter a salvo de meus impulsos suicidas. isso pensava. Demoro vinte minutos. Poderia passar de falar com ele. mas nestes momentos sentia que devia escolher a opção mais difícil: tinha que superar este transe. Sempre há quem necessita uma casita para pássaros. Logo.

-Onde. Não me cabia dúvida. -Em realidade não quero fazê-lo -prosseguiu. -Fala. Achava-me em um verdadeiro dilema. assenti com a cabeça e tomei assento em uma cadeira de escritório incômodo. obrigado. -Muito tarde. O dano já parece. Baixou o guichê do co-piloto e com cara de sincera preocupação. -Meditei-o comprido e tendido -disse. Lógicamente. estava-me observando. disse-me com os lábios: -Está bem? Sequei-me a cara com o braço e assenti. Emudecida pela dor. não posso me jogar atrás. Artie me esperava junto à porta principal de sua planta. -Deixou de contemplar o rincão da habitação e me olhou diretamente aos olhos-. Sim. -Metido até o pescoço no que? . um homem jovem. Não suportava mais tanta espera. Muita gente. então? Levou-me a um cubículo especial. Seus olhos viajaram por meu rosto manchado de lágrimas mas não disse nada. perfeitamente. os cotovelos nos joelhos. Parecia um homem atormentado. -Pois não o faça -repliquei. frente a mim. Artie se sentou em outra. Pus rumo a seu escritório acristalado mas me deteve. -Em meu escritório não. Há-me custado muito tomar esta decisão.carro do lado. joguei uma olhada ao contrato. -Nos sentemos -disse. -Bem. não pude fotocopiá-lo. a mão sobre a boca. mas… -Se sumiu em um silêncio desconsolado. o caso é que John Joseph está metido até o pescoço. sem janelas. Se alguém descobrir que o vi sequer… Enfim. sim.

mas não era a causa de meu silêncio. Artie e eu. A informação sobre o John Joseph era útil. será a ruína para ele. E não está assegurado. Demorei uns segundos em recuperar a fala. O que . Se os concertos se cancelarem. Foi pelo fato de que Artie se arriscou tanto por mim. Não podia pagar o seguro. -Não há nenhuma história inacabada. -Seu amigo Jay Parker também está metido. -Fala… -Harry Gilliam também pôs dinheiro. Que você e ele tivessem uma história inacabada. embora não reveladora. Necessita que Wayne Diffney apareça como é. Neguei com a cabeça. se oculta detrás de uma sociedade de carteira.Artie me olhou atônito. Naturalmente. -Meu amigo? -Sim. seu amigo. um assunto turvo e ardiloso. mas isso não importa agora. como estava acostumado a dizer minha mãe. -Para isso me trouxeste para este cuartucho? Para me dizer que puseste sua carreira em perigo ao pinçar em um contrato privado por mim? -Há mais -disse. -Me… alegra ouvir isso isso. -Outra coisa -disse. -Não é meu amigo. Imaginava. Me… preocupava isso que o fora. -No investimento dos concertos de Laddz. Realmente fomos como um livro de Jane Austen. -Não o é? -Não tinha um cabelo de parvo-. Minha história com o Jay Parker está… totalmente… -qual era a palavra idônea?-… acabada. Artie me observou em silêncio. -Quanta leitura entre linhas.

falei com ela. -Quer-me? -Quero-te. Não era a resposta que esperava. é possível que você e eu necessitemos mais tempo a sós. mas deveria te manter afastada dele. e sabe que adoro a seus filhos. -Sei.se te quiser? 66 -Quer-me? -Caray. Deveria haver algo mais? -Pensava que havia me trazido aqui para romper comigo. Não sou ninguém para te dizer como atuar. E falei com os meninos. -Né… sim. -por que ia querer fazer tal coisa -me perguntou com ternura. -Pareceu derrubar-se sobre si mesmo de puro alívio. porque agora me tocava . -Notei-o. -Só uma cosita… -disse. A partir de agora poderemos nos ver mais. E…? -E? -Isso é tudo o que tem que me dizer? Parecia um pouco surpreso. um sorriso se abriu passo em seu rosto. -Sério? -Estava surpreendida. tentei falar do tema contigo mas te fecha em banda. . Heilhes dito que te quero. -Caray. por isso poderemos deixar de fingir que não dormimos juntos. Embora. Vonnie -me interrompeu muito sério-. -Farei. que formoso era. Helen. Deus. Eu também te quero. como não vou notar o? deixaste que comer e não dorme. Artie me estava observando com cautela. Olhou-me durante um comprido instante. O que estou tentando te dizer é que ultimamente não me encontro muito bem. -Não era isso. Da cabeça. Tem que deixar de entrar e sair de minha casa como se ainda vivesse nela. E que fácil foi ao final-.importa é que é um homem perigoso. Continuando. -Quero-te.

Isso me fez rir. mas necessito ajuda… -Cheira de maravilha. Ignoro aonde me levará isto. mas irei de todos os modos. que é quando emitirão o comunicado de imprensa cancelando os concertos. como posso te ajudar? -Não sei -reconheci-. vou agüentar até as dez de amanhã. Suponho que unicamente necessito que tenha paciência comigo. -Embora tenha que ingressar em um hospital? Estou falando de um hospital psiquiátrico. Nada mais entrar em casa do Wayne me telefonou John Joseph. suponho. o hospital e todo isso. O que estou tentando te dizer é. -por que? -Parecia alarmado. Tenho a sensação de que não vai ocorrer nada. -Ouça. Não sei o que outra coisa fazer. . estou bem. É como estar em uma espantosa montanha russa. como já hei dito. -Terei-a. -Tenho que seguir com o caso do Wayne até o final. Foi diretamente ao grão. Cheiro mau? Intento tomar banho. agora devo ir. -Não sei… -Não se preocupe. -Aonde vai agora? -A casa do Wayne. tenho-te em grande estima. -Embora tenha que ingressar em um hospital. Que surpresa. ignoro o feio que pode ficar.-É por meu aroma? -barboteé-. Levantou-se de um salto. -por que é tão bom comigo? -Porque. Não vou fazer… nada. Artie. Em qualquer hospital. Não sei se pode me ajudar. falei com uma mulher que já me ajudou no passado. mas já não sinto o impulso. Depois me concentrarei em meu outro assunto. Pensava que poderia. -Chegou-te a informação sobre as chamadas do Wayne? -Não.

Sei que pode enviar a informação sem que apareça o remetente. -Certo. Jay Parker pagou por essa informação. Deus. -Nem de coña. ainda não me chegou. -E não minta e diga que não te chegou. -Não posso -disse-.-A que classe de casulo inútil contratou? -Esse vocabulário! -Estalei a língua-. saudações rápidas e um sem-fim de comentários aleatórios: "k t parece avental?". Não poderia suportar a espera e temia não ser capaz de conduzir com o cuidado e a atenção devidos. De todos os modos. não me acredito!". Homem do Telefone me proporcionava uma transcrição completa de todos os textos que Wayne tinha recebido e enviado durante o mês prévio a seu desaparecimento. mas estava muito intrigada. Tenho que proteger a minha fonte. não a ti. era alucinante. mas não disse nada. Mentiria e lhe diria que não me tinha chegado. Enquanto os dados se desdobravam na pantallita de meu móvel baralhei a possibilidade de ir a casa de mamãe para descarregá-los em um ordenador e assim lê-los melhor. Pertence a ele por direito. -Certo. Não tinham acontecido nem dez minutos quando me chegou a informação! Folhas e folhas de informação. Esperei que gritasse. entrevistas. Havia centenares de mensagens mais. "jaja. Com o pio que é. bramasse e exigisse que pusesse mãos à obra. o que você diga. Modificaria o relatório para que Wolcott só recebesse os números mais óbvios. -Não me jodas. Havia literalmente milhares. "o stoy vendo. e ler o intercâmbio entre o Zeezah e ele era tão substância absorvente como uma série de televisão. kien se comeu meu keso?". Acredito que os dois sabíamos que já era muito tarde. Bem. . -Quando te chegar a informação deve enviar-lhe ao Walter Wolcott. -Enviará ao Walter Wolcott exatamente o que receba.

Podia ser que Wayne se comprou um móvel novo a manhã que desapareceu…? Que implicações teria isso? Não podia sabê-lo. Finalmente tive que me obrigar a deixar de ler porque o verdadeiramente importante era o número do que Glória tinha chamado. Era um número do Dublín e os primeiros três dígitos indicavam que tinha chamado da zona de Clonskeagh ou Dundrum. Se pudesse deduzir dito número. o número "pai" a partir do que se formavam todos outros números. O instinto me dizia que se tratava de uma companhia de carros ou de telefonia. uma segunda voz de autômato disse: "O escritório está fechada e reabrirá às dez da manhã". Mas se a empresa decidia o contrário. Chamei o número e uma voz de autômato disse: "A pessoa da extensão Seis. pelo menos averiguaria a empresa da que tinha chamado Glória. O que? Que hora era? Consultei o móvel. Introduziria o número e imediatamente me apareceria o nome completo e a direção de Glória. disse-me. . uma arteira busca à inversa como a que estava fazendo eu não daria nenhum resultado. mas unicamente se assim o queria. Sete. Só tinha que fazer a busca à inversa em uma de meus guias telefônicas da rede. Fiz-o… mas não obtive nada. o formato habitual de um número guarda-chuva. pois em seguida compreendi o que estava ocorrendo: as companhias telefônicas podiam vender às empresas um pacote de números sob um número guarda-chuva. por exemplo no caso de que desejassem divulgar um anúncio com o número de seu departamento de Vendas ou de Recursos humanos. Quatro. tudo ia bem. Comecei a me preocupar de verdade. No que me tinha ido o dia? Bem. A gente não está disponível". A empresa podia fazer público o número privado."Mary Popins dbe d star revolvendo-se em sua tumba". "acredito ke 17". As seis e quinze. ainda não. Isso permitia à empresa personalizar seu sistema telefônico estabelecendo extensões internas e proporcionando assim linhas privadas a seus trabalhadores. O único número que mostraria o nome da empresa seria o número guarda-chuva original. Logo. Tomei os primeiros três dígitos do número de Glória e acrescentei quatro ceros. Mas não tinha sido atribuído a ninguém. "mãe ke t pariu".

acrescentando dois. zero. zero. zero. zero. zero. Era mamãe. QUARTA-FEIRA 67 Às 7. não contribuiu nada. . Três. Efetivamente.01 despertou o móvel. Bom. mas suspeitava que se tratava da mesma empresa. tal como esperava.17. Chamei e me saiu outra mensagem automática dizendo que o escritório estava fechada e reabriria às dez da manhã. zero. zero. -Não te acredito. mas não há nada. tratando de dar com o número guarda-chuva que devia me desvelar a identidade de Glória. Os últimos quatro dígitos eram diferentes. -Bom… -Envíasela ao Walter Wolcott. zero. às 9. Tampouco tinha sido atribuído. mas tudo foi em vão. há um montão de dados. Estive horas realizando buscas inversas com diferentes combinações de dígitos. Wayne tinha chamado desde seu móvel a um número cujos três primeiros dígitos coincidiam com os três primeiros dígitos do número de Glória. e assim sucessivamente até nove. Quão único podia afirmar do número do que Glória tinha chamado era que formava parte de uma grande organização. Segui provando. -Chegou-te a informação? -Sim. -Certo. Nada. Poucas vezes me chamava. Amanhã. Seguro que se morreu alguém. na quinta-feira pela manhã.Porretes. zero. mas nenhum útil. A busca inversa. zero. zero. Comecei então a olhar as coisas do lado oposto: pode que Wayne tivesse telefonado primeiro a Glória e lhe houvesse devolvido a chamada. zero. Faria-o. Em um momento dado me chamou John Joseph. Introduzi outro número: os primeiros três dígitos e logo um.

Em lugares onde vivem meninos estou disposto. -Sim. Mas -acrescentou. Desejo o sentimento de culpa de ter matado a um menino sobre . não. -Tem que vir em seguida. Deus. Que tranqüilizador. -Está em apuros? -De repente imaginei aos "colegas" do Harry Gilliam sustentando a ponta de uma navalha em seu pescoço. vou para lá. -Me diga o que acontece. Finalmente tinha saído de seu esconderijo. de ir a dez quilômetros por hora. vale. Decididamente estranha-. -É um homem? -perguntei. -por que? morreu alguém? -Não. Uma emergência.que não lhe pilhem. onde está? -Sua voz soava abarrotada. Helen! -Certo. -Perto. mas tem que vir agora mesmo. como se fora a estalar. -Parecia pasmada mas também ambígua. Pelo menos dentro dos cinturões. Não é isso. mas o teria feito de todas formas. E se lhe pilham." Obrigado.-Mamãe? -Helen. só para me certificar. dentro das zonas povoadas. e no momento justo. -Quer fazer por uma vez o que sua mãe te pede e subir ao carro? -Deveria ultrapassar o limite de velocidade? -É obvio. -Tem entre trinta e trinta e quatro anos? -Sim. obrigado. -Trabalha no negócio do espetáculo? -Não há tempo para isso. "Wayne. encantada. Não acredito nos limites de velocidade. Conduzi como um bólido. lhe diga ao agente que é uma emergência. mamãe! -veio a verte alguém.

-O que ocorre? -Sua visita está aí.minha já destroçada psique? Não. -Empurrou-me para a sala de estar. o radar. Para os agentes é como um jogo. deveriam deixar conduzir a uma velocidade como Deus manda. Se reúnen cada semana na sala de pessoal e o ganhador se leva um barril do Smithwicks. nos estranhos dias em que Dublín não é um grande entupo de tráfico. mas sei. Foram inventados pela polícia porque adoram sair bem cedo pela manhã com seu brinquedo favorito. Colocam-no tudo em um sobre. E uma vez ao mês se montam uma farra com o dinheiro das multas. como se tivesse visto um fantasma e não o levasse bem. Todo mundo sabe. Agarrou-me por braço e me meteu em casa. Tomamo-nos um . isso só teria que me haver bastado para elucidar a identidade do visitante. Têm uma liga para ver quem "safada" a mais gente. Seu pai teve que deitar-se. Mas nos cinturões. Uma dessas coisas com baixa emissão de carbono. Bom. depositam-no detrás da barra e lhe dizem ao garçom: "Siga trazendo jarras até que se esgote". -Não posso -disse-. Entra. Meu organismo não está preparado. Sei a ciência certa. Lhe disparou a tensão. Mamãe me abriu a porta antes de me dar tempo a tirar as chaves da bolsa. Como se a Virgem María lhe tivesse ensinado o traseiro. mas ela ficou atrás-. certamente que não. a habitação "boa". Os limites de velocidade são uma gilipollez. esconder-se detrás das esquinas e caçar ao desafortunado condutor que está desfrutando da estranha oportunidade de abraçar uma estrada vazia. praticam-no em lugar do golfe. Temo-me que poderia me dar um enfarte. pode que a ciência certa não. Estacionado frente à casa de meus pais havia um carro que não conhecia. Tinha uma expressão estranha na cara. -Não me acompanha? Não era próprio de mamãe perder um momento dramático.

-Lamento me apresentar assim. em Reino Unido… -Sei. cravando o olhar em seu rosto bronzeado e incrivelmente célebre. mas me reenviaram seu correio eletrônico e como estava na zona. Bônus.betabloqueante. bebendo chá de uma das taças boas de mamãe. Alargou uma mão-. tão surrealista. -Como quer. sem dúvida. A não ser Docker. mas durante uns instantes aterradores corri o perigo de perder o controle de uns intestinos pelo general a prova de bombas. tão inesperada. lhes passa ao cabo de um momento. Sou Docker. De repente adverti que até minha última célula. girava a uma velocidade vertiginosa. e estava claro que havia um avião privado de por meio. Abri a porta e entrei. -Helen? Helen Walsh? -levantou-se e alagado a estadia com sua radiante aura. Um dos homens mais famosos. -Não passa nada -repôs-. Deve ser terrível para ti que a gente entre em estado de shock quando te vê. estava… não Wayne. vêem te sentar. Sentado em uma poltrona floreada. que meu corpo considerou a possibilidade de deprimir-se mas não lhe pareceu o bastante dramático. até minha última faísca de energia. acostumam-se. -Sei -disse fracamente. pedi-lhe que me trouxesse. mais bonitos e mais carismáticos do planeta. O "amigo" do Docker era. de sopetón. -Conduziu-me até o sofá. Era a frase mais imprecisa que tinha ouvido em minha vida. -Pode te sentar a meu lado? Para que possa dizer que estive sentada no mesmo sofá que Docker? -Claro. -Sinto-o muito -disse com repentina sinceridade-. vi-o nas notícias… -E um amigo voava ao Dublín. -Sinto-me um pouco… -Entendo. Sua visita era tão incongruente. . Perdão pelo ordinarismo.

As sete e meia da manhã. -Olhei-lhe com autêntica admiração. Verá. Olhei-lhe de marco em marco. Sempre me hei sentido um pouco. -Mas sempre serão parte de mim. É uma ordem de pagamento permanente pelo estribilho do Windmill Girl". Era certo. -Como que não tem nem idéia? -Faz muito que não lhe vejo. mas tem razão.-Como averiguou minha direção? -Perguntei por aí. o que faz aqui? -Quero ajudar. Anos. -Tinha-o esquecido. Estes tipos internacionais-. Olhou-me surpreso. -percorreste muito caminho dos trajes brancos e os bailes sincronizados. Mas se não saber onde está Wayne. -Sinto muito. é que ainda não me deitei e pode que ainda esteja em horário sírio… já sabe como são estas coisas… -Não tenho nem idéia. -Sério? -Sim. -Mas ainda lhe envia cinco mil dólares cada maio. como seria estar tão bem relacionada? -Onde está? -perguntei-lhe. através de sua companhia. Que sensação deve dar ter tanto dinheiro que nem sequer nota que lhe desapareceram cinco mil dólares da conta bancária? -Então… se não saber onde está Wayne. já sabe… As coisas me foram muito bem. para que vieste? E por que tão logo? -É logo? -Pois… sim. Wayne se comportou muito bem comigo e estou em dívida com ele. . mas o pensa de verdade? Parecia surpreso. Deus. Nem sequer falamos. -Sério? -Assim de singelo. -Wayne? Não tenho nem idéia. -Sei que é o que tem que dizer -repliquei-.

Pediu-me que o introduzira em meu móvel e lhe chamasse. Seus ajudantes o fariam. não o que dou à maioria da gente. -Olá.-Bom… é certo que aconteceu muito tempo. agora seria um bom momento para confessá-lo. com nenhum Laddz. se está protegendo ao Wayne de algum modo. o bolso de sua camiseta começou a soar. Não era nenhuma lerda. A comoção. Tenho o número privado do Docker. -E eu tenho o teu -acrescentou alegremente-. Tinha a sensação de me haver submerso em um estranho estado de euforia. -Esta noite é o primeiro concerto -disse-. Que singela era a vida então. mas foi muito divertido. sonho com as velhas coreografias. um número que dava a milhares e milhares de pessoas. darei-te meu número de móvel privado. -Esboçou um de seus célebres sorrisos irresistíveis e minha frente se cobriu de suor. Como se fora um intercâmbio entre iguais. Os outros três Laddz necessitam desesperadamente o dinheiro. se houver algo que possa fazer para ajudar ao Wayne. Docker jamais o atenderia pessoalmente. -Juro-te que não tenho nem idéia de onde está -insistiu-. . Tudo isto era muito alucinante-. -Bem -disse indicando com sua linguagem corporal que minha audiência com ele se aproximava de seu fim-. -Desinflei-me ligeiramente. -A sério -me disse ao reparar na expressão de minha cara-. pode que uma vez ao ano. me chame e virei em seguida. Alguma noite. Agora cada um tem o número do outro. sonho que cantamos e dançamos. Não obstante. Esbocei um sorriso de orelha a orelha. Helen. de fato. assim se souber algo. Em efeito. -Obrigado. Faz mais de dez anos que não falo com ele. -Meu deus -sussurrei para mim-. Se Wayne não aparecer. O vê? Não te engano. Helen. É meu número privado de verdade. sem dúvida. Tirou o móvel e respondeu. toda a montagem do reencontro se irá ao traste. sonho com o grupo. Sabia que o número que se dispunha a me dar era um número privado falso.

Docker? de repente adotou uma atitude cautelosa. -Docker -disse-. -É um bom homem. A sério… -não era minha intenção resultar sarcástica. pediria-te que fosses ver lhe ele e às pessoas de Leitrim. se averiguar algo sobre o Wayne lhe farei saber isso imediatamente. Necessito que vá ao Leitrim. Arrumou-te a porta por nada e menos e lhe prometi que se algum dia falava contigo. Realmente estou disposto a me incomodar por alguém. mas te dedica unicamente a voar com seus colegas famosos pelo mundo para visitar lugares exóticos e que a gente lhes mostre seu amor. Docker? Sei o que faz muitas obras boas. -Em efeito -disse um pouco resignado-. E assim era. trocaria-lhes a vida. O que outra coisa poderia responder? -É um presente poder ajudar às pessoas. alegraria-lhes o ano. Não precisa ir à outra ponta do mundo para ajudar às pessoas. agora que isso ficou claro. a gente o está acontecendo mau e se fosse ao Leitrim. -Estraguem… -Nada do outro mundo. não é certo? -Sim -respondeu com receio. ou realmente está disposto a te incomodar por alguém? -Sou um bom homem. Passarei a tarde no Dublín com uns amigos e amanhã pela manhã voarei aos Anjos. -Estraguem… -Cancela sua tarde com seus amigos no Dublín e chama a este número. Um presente. . -Recebe mais do que dá.-O que fará agora? Retornar aos Anjos? -Amanhã. seriamente que não o era-. É de um homem chamado Terry Ou'Dowd. Riu-. não crie. Atualmente a moral está muito desce neste pobre país. necessito que faça algo. Enquanto isso. só chá e sándwiches em sua casa e um convite aberto. -Bem. Docker. estava-se perguntando se lhe estava tendendo uma armadilha. é um bom homem? -O que? -Parecia surpreso.

deixando todo isso atrás. Acredito que irei à habitação a me estirar um momento. Já nunca voltarei a ser a mesma. Fechei os olhos. Mataria o tempo até as dez em ponto. chamaria o Jay Parker para lhe pedir que emitisse um comunicado de imprensa cancelando todos os concertos. -Realmente ocorreu? -Sim. subi lentamente a escada e me meti na cama vestida. . onde a guardava para tê-la sempre à mão. Chamei o Artie. -Eu tampouco. entrei em um peculiar estado de suspensão durante duas horas e em torno das dez menos cinco comecei a me revolver. Pensei no Cymbalta da gaveta da mesita de noite do Wayne e no Stilnoct do armarito de seu quarto de banho e na despreocupação com que se largou. E assim. e me senti tão agradecida que virtualmente lhe plantei um beijo. -Necessito que me faça um favor -lhe disse.68 Mamãe baixou nas pontas dos pés. Incorporei-me devagar e coloquei os pés no chão. Decidi que antes de fazer nada tomaria minha pastilha. experimentei um de meus estranhos mas deslumbrantes momentos de brilhantismo: sabia onde estava Wayne Diffney. Me sentindo muito estranha. tratava-se de uma companhia de telefonia. como suspeitava. Tirei a lâmina do bolso interior da bolsa. Seguidamente fiz outra chamada e Docker respondeu ao quarto tom. -foi uma das piores experiências de minha vida. E se. quando abrisse o "escritório" a que Wayne tinha telefonado a manhã de seu desaparecimento. sem mais. -Foi-se? -Sim. Aterravame a idéia de não tê-la comigo. Atualmente eu não poderia ir a nenhum lado sem minha medicação.

enviei ao Walter Wolcott a informação sobre as chamadas do Wayne porque já não a necessitava. E era impossível ocultar a função das espantosas cortinas que separavam as camas: proporcionar intimidade quando o médico entrava em te examinar o traseiro. estreitas e abatibles. Docker. Terry está encarregando-se dos sándwiches e os bolos. Terry Ou'Dowd -gritou para fazer-se ouvir por cima do estrondo mecânico-. Parecia um hospital. Já está tudo arrumado. O convite se anunciou na rádio local. Feito isto. 69 Todo mundo dizia que parecia um hotel. O hotel do povo me deixará trezentas taças com seus platitos e um par de bules elétricas. mas Docker ouviu e entendeu cada palavra. Tinha janelas que deixavam entrar a luz natural mas as camas eram camas de hospital. Um helicóptero? Era perfeito. -OH… de que modo? Tive que lhe gritar minhas explicações e instruções.-Helen? Escutava-se um terrível barulho de fundo. Chegarei à casa de Leitrim em quinze minutos. Sua esposa e algumas amigas já estão na casa tirando o pó e aspirando. conhece alguém. -falei com seu amigo. Era uma grande noticia. o viciado no altruísmo. Um hospital agradável. -Hoje vais ter uma segunda oportunidade de lhe trocar a vida a alguém. com cabeceros de barrotes metálicos. . -E o que é? -Inclusive com o barulho pude ouvir o leve temor em sua voz. -Ouça. mas não era verdade. certo. -Docker? Por Deus. mas um hospital. Mas as coisas estavam a ponto de ficar ainda melhor para o Docker. tenho algo fantástico que te contar. Mal podia lhe ouvir. Um homem encantador. o que é esse ruído? Onde está? -Nestes momentos estou sobre o Roscommon em um helicóptero.

Umas se achavam desocupadas. tinham muita luz e as camas estavam perfeitamente feitas. Havia um homem. -O que? -Parecia assustado. Podia ser uma visita qualquer. -John Joseph? Jay? -Me escute… . Cheguei à enfermaria. 70 Levantou-se de um salto. olhei em todas elas ao passar. só tinha que tomar o elevador até o terceiro andar e entrava diretamente nela. Sozinho. com um mostrador curvo de madeira. Detive-me na soleira e o homem levantou a vista com repentino receio. deixei atrás o salão aberto. -Tranqüilo -me apressei a dizer-. Tranqüilo. a cozinha e a sala de fumantes. imóvel. não passa nada. como o da recepção de um hotel exclusivo. Quando as portas do elevador se abriam. O corredor estava flanqueado de habitações de duas camas. Presa de uma curiosidade insalubre. meu destino. de costas à porta. Wayne -disse. Outras tinham as cortinas corridas e sob suas mantas azuis jaziam. mas para chegar à área Flor. Não chame as enfermeiras. um comprido corredor de madeira muito bonita -provavelmente nogueira.O Santa Teresa dispunha de seções cujas portas permaneciam fechadas a cal e canto e onde entrar e sair era um assunto de alta segurança que implicava muito tinido de chaves. Não sou ninguém.conduzia até a enfermaria. silhuetas encurvadas e inertes. Segui andando. Caminhava balançando a bolsa e fingindo naturalidade. não sou importante. -Quem é? -Helen. Só te peço um segundo. -Olá. Era muito bonita. e entrei na sala da televisão. sentado frente a um tabuleiro de xadrez. Fixava-me em todas as pessoas que passavam por meu lado mas ninguém se fixava em mim.

-Necessito que firmes um documento onde declara que está de acordo. fazendo esses velhos números de baile e pondo a alma nisso porque John Joseph terá alguém em bastidores te apontando com uma pistola. Tendi-lhe o telefone e. não… -Não tem que fazê-lo. Jogou uma rápida olhada ao singelo contrato que Artie me tinha redigido e o assinou. depois de uma conversação breve. O que devo fazer? Tirei meu móvel e pulsei um número. -Tudo arrumado. Também eu me sentia ao bordo das lágrimas. -Então. -antes de ir.-Não penso voltar. Não penso atuar nesses concertos. -Não quero falar com ninguém. Tem seu registro de chamadas e cedo ou tarde averiguará seu paradeiro. -De acordo. sua cabeça barbeada-. nem sequer a minha mãe. E John Joseph está desesperado. Seja como for estará sobre esse cenário com seu traje branco. Parecia estar ao bordo das lágrimas. Estou no hospital. Ou talvez não. . De fato. Seria capaz de te colocar em um cesto da lavanderia e te tirar a força daqui se for necessário. eu mesma te marcarei o número. me olhe! -Wayne. Talvez estivesse exagerando. tem que fazê-lo. -Tudo arrumado? -perguntei-lhe. nestes momentos seria capaz de algo. Wayne me olhava em silêncio. -Sinto-o muito -disse. É só uma questão de orgulho pessoal. devolveu-me isso. não te vi. -Com um gesto furioso do braço assinalou a sala. Esperei a que respondesse. o que…? -É preciso que faça uma chamada. -Acontecer com Wayne -disse. Eu não estive aqui. Tenho pensamentos suicidas. Alguém mais te está procurando. sua roupa folgada. Trará-lhe sem cuidado que não te encontre bem e contará ao John Joseph onde está. importaria-te me confirmar um par de coisas? Não o contarei a ninguém.

psiquiatra. quem te aconselha que venha aqui. pois não queria implicar que estivesse louco. enviam-lhe um chofer… Digby. Mas Zeezah não te deixa tranqüilo.-Depende do que seja -respondeu com cautela. Assim que se casam e ele a traz para a Irlanda. Mas Zeezah não se separa de John Joseph. Decide que ele será quem a lance e quem se case com ela. seguem lhes vendo. De modo que na quinta-feira pela manhã chama a seu médico. John Joseph conhece o Zeezah e lhe rouba isso. Digby. De acordo com suas próprias palavras. -Conheceu o Zeezah no Estambul. né. que alguém te telefonará assim que o tenha solucionado. verdade? Assentiu. o engano não vai contigo. e são muitas as probabilidades de que seja o pai. assegura-te que atirará de todos os fios para te ingressar imediatamente. até o ponto de que voa a Roma. E Zeezah é tão jovem e tão… como transmitir "terrivelmente superficial"?-… tão… né… tão jovem que decide que John Joseph será melhor partida que você. -Fiz-lhe muito dano. Não queria que me perdesse em um torvelinho de remorso-. Birdie está bem. . Apaixonaram-lhes e Birdie o descobriu… Soltou um gemido. tem pensamentos suicidas. -Então descobre que Zeezah está grávida. Fica… feito pó. Recebe a chamada. além disso. De novo na Irlanda. Que tal o estou fazendo? -Bem. eu mesma me achava muito longe da prudência-… você. Certamente isso te traz terríveis lembranças de quando sua esposa ficou grávida e descobriu que Shocko Ou'Shaughnessy era o pai. Parece uma alma nobre. e embora conseguir uma cama neste lugar é tão difícil como encontrar estacionamento em Véspera de natal. e. depois de tudo. Não se merecia… -Não se preocupe -lhe interrompi. tem tendência à depressão. a seu… -tossi discretamente. Passas os dias ensaiando com o John Joseph e a culpa e a raiva começam a fazer racho em ti. Inclusive em plena lua de mel te diz que cometeu um terrível engano ao casar-se com o John Joseph.

. Zeezah insinuou que a contrasenha do Wayne era "Zeezah" e eu tomei por uma ególatra. -Estava quase sonriendo. -E a chave de seu alarme é 0809? -Meu aniversário. pois desejava que Wayne aparecesse tanto como outros-. Sabia. -Brinca? São do Holy Basil! São fabulosos. só o comentou como uma graça. -Digby te traz até aqui e ingressa. disse-: eu adoro sua casa. Mas. -Qual é a contra-senha de seu ordenador? -Adivinha. -Pois é a única. Todos outros dizem que é muito deprimente. de repente me senti uma estúpida. coloca a bolsa no bagageiro e no último momento retorna a sua casa para recolher algo. Franzi o sobrecenho. embora nem sequer elas saibam. Em oito de setembro. Interrompi-me. A noite que a conheci no nobre salão medieval. como não deixo de repetir. você sai. Ela não sabia. que é muito óbvio. -Wayne estava claramente impressionado. verdade? -Sim. Porque ela mesma me havia isso dito. Não precisa te levar seus medicamentos porque aqui têm para dar e dar de presente. sempre há algo de verdade no que as pessoas dizem. Não convinha aumentar sua angústia. -Não me diga que é… Zeezah? -Naturalmente. Tenho que reconhecer que eu também. conscientemente não -do contrário me teria contado isso. -Isso é exatamente o que ocorreu. Não estou segura de quanto repente me acende uma luz-. Trocando rapidamente de tema. Não gostam das cores das paredes.-E coloca algumas coisa em uma bolsa de viagem. -Dizem que não deve utilizá-la data de aniversário. Seu violão. Digby chega.

O que diz de um homem o fato de que pinte suas paredes de Ferido. não? Com razão me sentia tão a gosto em sua casa. Tome as pastilhas. sobre tudo a terapia cognitivo-conductual. Tome seu tempo. Pensou que a melhor maneira de lhes manter afastados de nós era simular que acabariam enlouquecendo ao não saber nada de mim. -Ela estava aqui quando fez a chamada. Caray. -Sabem que está aqui? -Claro. Não pude por menos que me tirar o chapéu.Tudo começava a encaixar. -Vai? -Agora que me partia parecia desejar que ficasse. não saia até que se sinta recuperado. a insolente Connie. -Também seu irmão? que vive no estado de Nova Iorque? -Também. faz tudo o que lhe peçam que faça embora te pareça uma tolice. faziam um excelente trabalho de amparo. Entre a dócil senhora Diffney. Jesus. E o… -Me interrompi. o irmão. Pode que o ioga lhe ajudasse-. Era a hora de ir. -Wayne -disse-. -Me diga -continuei-. espero de coração que te reponha. É minha família. e Richard. Assentiu. . E o ioga. o que sabe sua família de tudo isto? O que sabem Connie e sua mãe? -Tudo. -Assim estava fingindo? Estava atuando? -Ela só tentava cuidar de mim. Mas sua mamãe me telefonou no domingo para me perguntar se te tinha encontrado. Decomposição e Senhor da Guerra? Que sofre de melancolia.

Sei que Wayne estava desesperado e sei quão difícil é conseguir uma cama sem prévio aviso. Em lugar disso era miúda e moréia. uma amiga do Wayne Diffney. Sua chamada foi a salvação do Wayne. O escritório de admissões se achava na planta baixa. E -acrescentou rapidamente. -Você não tem problema! -quase cuspiu mamãe-. -Estou procurando a Glorifica -disse. sempre fazemos o possível por ajudar às pessoas com problemas. -Só queria lhe agradecer -disse. com uma grande cabeça de cachos loiros. Está na área Flor. Assentiu. Havia três pessoas dentro. Ruborizou-se. só estou tentando ver! -nos tranqüilizemos. As mulheres estavam diante de sendos ordenadores e o homem frente a um arquivo. Sabia quem era Wayne. -Sou eu. Com seu metro oitenta e sete… . Mas primeiro quero saudar alguém. Chamei brandamente à porta e entrei. duas mulheres e um homem. Não tinha nada que ver com a imagem que me tinha criado dela.-Vou. -por que? -Por lhe conseguir uma cama tão logo. Me tinha imaginado isso loira. quer deixar de empurrar? -Não estou empurrando. de acordo? -disse Artie. de olhos azuis. -Bom -disse com acanhamento-. -Sou Helen Walsh -disse-. Tinha estado antes ali. 71 -Por Deus. em outra vida. Embora em um estado tal que apenas a recordava.não podemos comentar os casos.

Meu deus. as luzes se apagaram. A atmosfera no estádio -composta quase integralmente por mulheres e homossexuais. Bela. Mas os nervos estavam começando a fazer racho em todos nós.Mamãe. depois do qual se voltou para mim e me obsequiou com um sorriso petulante de eso-le-ensinará. o estádio ficou sumido na escuridão e os gritos febris soaram de súbito como se quinze mil lobos se pilharam as pezuñas em uma armadilha. converteu-se repentinamente em meu novo melhor amigo. O subidón de adrenalina era excessivo para ela. tinha-me conseguido uma caixa de doze assentos e era certo que davam de presente amendoins. Vonnie e papai estavam lutando na primeira fila de nossa caixa do MusicDrome para conseguir um assento com as melhores vista do cenário. . -Já saem! -Claire se cravou os nódulos na cara-. meu Deus. Não podia suportar mais tanta espera.era eletrizante. Sua transformação era assombrosa: nas últimas horas tinha passado de ser um monstro muerdemadres a um adolescente chorão. as quinze mil pessoas tinham começado a fazer-se colegas. Kate. -E se não sair? -Bela rompeu em soluços-. -São nove e quarenta e cinco -me disse Bruno. Margaret. Kate estava correndo no sítio. E se não sair? -Sairão. Claire. Sem prévio aviso. A formosa amizade tinha arrancado aos poucos segundos de saber que podia lhe conseguir uma entrada grátis para o concerto-. sairão! -Vonnie e Iona se aproximaram de consolá-la e mamãe aproveitou a distração para roubar o assento ao Vonnie. Levam quinze minutos de atraso! -Quinze minutos! -O lábio inferior do Kate começou a tremer. mas a euforia estava cedendo terreno à irritabilidade. Iona. Compreendi que a gente tinha chegado ao limite. -Não demorarão para sair -disse. Unidas sob o guarda-chuva de seu amor pelo Laddz. Meu deus. Bruno. Jay Parker não me tinha mentido.

acendeu-se um foco e no círculo de luz entrou… John Joseph. É ROGAAAIIIR. -ESWAYNEESWAYNEESWAYNE!!!! E no círculo de luz entrou… Docker. o estádio estalou em uma exalação maciça. Não é Wayne. VOU VOMITAR. AQUI. a cabeça encurvada e imóvel como uma estátua. No estádio reinava um silêncio tal que pude ouvir como se acendia o seguinte foco… e no círculo de luz entrou… Roger. John Joseph!!!!! -uivou mamãe agitando os braços-. -A gente estava voltando-se para seus vizinhos e gritando diretamente em suas caras-. AQUI. -É Roger. é ROGAAAIIIR!!!!! Roger se deteve no círculo com a cabeça inclinada para diante. Frankie!!!!! Nas filas que tínhamos debaixo a gente chorava descontroladamente. acendeu-se outro foco e no círculo entrou… Frankie. fruto do desconcerto. John Joseph. -Frankie. -John Joseph. enquanto a gente agüentava a respiração sem dar-se conta.-vou vomitar -disse mamãe-. Os gritos descenderam em picado. . Os chiados amainaram ao fim e. as paredes e os tetos pareceram vibrar com ele. Frankie. AQUI. os chãos. acompanhada pelos lembre solenes do violoncelo. Frankie adotou a mesma postura que John Joseph. O triste violoncelo seguiu soando e uns segundos depois. a espera se fez quase insuportável. Quando finalmente se ouviu o clique do quarto foco. Os gritos se intensificaram. Não é Wayne. -Não é Wayne. Embelezado com um traje escuro de corte sóbrio. Pelos alto-falantes soou o acorde lastimero de um violoncelo. John Joseph se deteve com a cabeça inclinada para diante. -Quem sairá agora? Quem sairá agora? Quem sairá agora? A gente calou e já só se ouvia o violoncelo.

uma experiência quase religiosa. Mas. cada vez mais potentes e estridentes à medida que a gente caía na conta do que estava passando. é Docker. que ia um segundo atrasado com respeito ao resto e que às vezes se esquecia de girar. um dos grandes êxitos de Laddz. provavelmente fui quão única reparou em que o baile do Docker não era tudo quão compassado devesse. nunca se esqueceu de sorrir. . Das quinze mil pessoas. Mamãe se voltou para mim e uivou em minha cara: -É Docker. Depois do quarto número de baile finalmente fizeram uma pausa para respirar. Wayne não pôde nos acompanhar esta noite -disse John Joseph. depois "do Indian Summer" continuaram com "o Throb". Raios laser azuis e rosas jogavam sobre o público e o ambiente era sublime. é o JODIDO Docker! -Tinha a mandíbula tão aberta que podia lhe ver as amídalas. No estacionamento da igreja as vendas foram vento em popa.. As luzes de néon irromperam com uma chuva de cores deslumbrantes. os CINCO ao completo". -Pede-lhes desculpas -disse Roger. Durante uma milésima de segundo todo mundo pensou: "Voltam a estar juntos. outra canção bailonga. SEIS MESES MAIS TARDE. e "Heaven's Door". a música estalou em um volume ensurdecedor e os quatro moços arrancaram com a supermarchosa "Indian Summer". tudo terá que dizê-lo. As árvores de Natal eram envoltos com tecido metálico e carregados em porta-malas e o dinheiro trocava de mãos a um ritmo ágil. -E espero lhes servir eu em seu lugar -disse Esta Docker vai pelo Wayne. Dublín! -Como podem ver.. Era tudo tão magnífico e alucinante que a ninguém lhe ocorreu perguntar-se onde estava Wayne e que fazia Docker aí.Logo arrancaram de novo. De repente todo mundo estava dançando. -Olá.

No vestíbulo havia espumillón pego nas paredes com zelo e soavam canções de natal. Novo deste ano -e ao parecer muito popular. Detive-me na tômbola. Salvo que a gente era visivelmente maior que o outro. verdade? -Sim. maravilhada com seus atrozes prêmios -uma botellita do Diet Sprite. Era por isso pelo que a senhora Bicho-tesoura estava tão raivoso? Abri-me passo até a mesa e encontrei uns patucos rosas. Tecia com uma fúria com muita dificuldade contida e as agulhas pareciam jogar faíscas de raiva com cada estalo. -Que tal um pasamontañas? Segui passeando. dominando seu reino. -Tem algo para um bebê? -Menino ou menina? -Menina.era o posto de artigos de feltro. -Mas… se forem de números diferentes. -Sim? -ladrou-me. Onde acredita que está? No Barney's? -O que saberá você do Barney's? . parecia que estivessem planejando uma revolução. uma lata de frijoles. uma caixa do Panadol. -Cinco euros -me disse a puestera. por que não? A mulher a cargo da mesa de ponto estava sentada em um tamborete alto. -São para dar de presente. mas por sorte os alto-falantes eram tão velhos e cutres que apenas se ouviam. Os postos de sempre ofereciam suas tentadoras mercadorias. Cinco.e comprei uma réstia de números. Idôneos. -Existe alguma probabilidade de que me envolva isso? -Não. Exposta frente a ela havia uma miríade de pasamontañas granadas com pinta de picar. -Pois o que conta é a intenção.

Ao lado estava o posto de bolos. não o sou. Tenho… -Me interrompi para provar a palavra-. -Que tal uns cupcakes? -Eu? -perguntei com altivez-. -Bolo de bolacha e chocolate. um vaso gretado e meio frasco de Chanel N. -Não o sou -me defendi-. Revolvi entre os objetos: três números da sorte (já arranhados). A mulher sentada detrás da mesa -estava quase segura de que não era a mesma do ano passado. -Bolo de geléia de laranja. um folheto de um salvaescaleras Stannah. -Brinca? -Que idéia tão atroz-. a não ser bebida). Novo. Continuando.estava tão angustiada que não se atrevia nem a me olhar. verdade? -Sim… -respondi fracamente. E nozes? Tenho gente em casa.-Muitas coisas. Tinha-o tomado emprestado de Claire. uma sapatilha de esporte chapeada (número 39). visitei o posto de bagatelas. E toda de ponta em branco. Saída de um manual. -Genial. A sério. Convidados. não afugentá-los. -Me piscou os olhos um olho e se meteu o bilhete de cinco em sua já avultada carteira. me levo isso. Admirei uns instantes os produtos assados antes de cercar conversação com a puestera. Pareço uma pessoa dada aos cupcakes? -Olhe-a carita -disse a mulher-. O que é isso? -Assinalei um quadro torcido de cor marrom. Tem algum bolo… normal? -Que tal esta deliciosa bolacha de café e nozes? -Café? -disse-.para que a pusessem a cargo deste montão de sucata? . -Se lhe for franco -disse-.º 5 (não sei por que mas tive a certeza de que a outra metade não tinha sido aplicada. é você um clichê dos cupcakes. pelos velhos tempos. -O que fez -lhe perguntei compasivamente. Quero lhes dar a bem-vinda. uma mulher baixa e redonda. embora na verdade não era meu. com seu elegante casaco e seus saltos altos e essa preciosa bolsa. -O que é isso? -assinalei algo. levarei-me uma dúzia. De todas maneiras.

Demorou uns segundos em encontrar a voz. parecem boa gente. eu adoro Tom Cruise desde o Risky Business. não obstante. -Minha vida foi um inferno após. Foi uma terça-feira de julho pela manhã. Como dizia.) Os velhos discos de Laddz começaram a vender-se como churros e o primeiro concerto no DVD acabava de sair para a campanha de Natal e as vendas -a nível mundial!eram já cuantiosas. Fazia uma semana que me tinham dado o alta . estive investigando outras religiões. e devia ir-se dar a lata a uns agricultores do Equador em situação precária. Docker não aceitou nem um céntimo por suas atuações e cedeu todas seus lucros ao Wayne. sobressaltada. Meu piso pródigo. Todos tinham saído. entrei em meu saguão azul marinho e me deixei alagar pelo sentimento de gratidão. -Né… meus jacintos floresceram duas semanas antes que os da presidenta do comitê. -Isso é tudo? Assentiu com a cabeça. estou pensando abandonar o catolicismo. bem parados. Ou me passar a cienciología. Harry Gilliam. Ao final só deram quatro: os três acordados inicialmente e outro para satisfazer a demanda do público. Se lhe for sincera. (Como cabia esperar. era evidente que ninguém lhe tinha dirigido a palavra em toda a manhã. possivelmente um mês depois dos concertos de Laddz. Todos tinham ganho dinheiro: os promotores. E era impensável que Wayne pudesse subir a um cenário. Jay Parker e os Laddz. uma terça-feira de julho pela manhã me achava no "despacho" de mamãe e papai nada menos que trabalhando. Docker já tinha feito seu trabalho.Levantou a vista. Retornei a casa. Estou pensando em me fazer zoroastra. tinha pago sua dívida kármica com o Wayne. -Soltou uma risita amarga. Não é absurdo que tenhamos que perder algo para apreciá-lo de verdade? Que classe de tarado estabelece as normas neste estranho universo no que vivemos? Hei aqui o que ocorreu.

Está bem. sobe. a ser outra vez eu. Parecia preocupada. Joguei uma olhada. Quase parecia dinheiro. Continha pequenos maços de papel. -Só queria te dar isto. Estava começando a recuperar a estabilidade. comprido silêncio.no Santa Teresa e tinha recebido um correio eletrônico de um cidadão americano de ascendência irlandesa que queria que lhe fizesse a árvore genealógica de sua família. -Só será um minuto -gritou a voz de Jay do pé da escada. de fato. meu novo cliente tinha obtido meus dados de alguém para quem eu tinha trabalhado. -Trinta mil. -Sim. -O que quer? -Não podia me permitir nenhum tipo de alteração. estou bem. Já tinha feito esse trabalho com antecedência. Olhe dentro. Maços e mais maços unidos com borrachas elásticas. Jay entrou timidamente no escritório. -Digo-lhe que se vá? -perguntou mamãe. -Arrojou-me uma bolsa de lixo-. -Jay Parker está abaixo. mas vê rapidito. Mas uma tarefa tediosa era justamente o que necessitava. -Maldita seja! -protestei-. disse: -Parker. -Fico? -perguntou mamãe. -O que é? -perguntei. -O que? Não havia tornado ou seja dele desde que convenci ao Docker de que substituíra ao Wayne nos concertos. Depois de um comprido. não. -Não. tratava-se de uma tarefa tediosa que suportava várias visitas às curvas poeirentas de Registro Civil. De repente mamãe entrou voando na habitação. -Trinta mil o que? -Trinta mil euros. de que demônios falas? .

tirei um maço de bilhetes de cinqüenta euros e o sustentei na palma. Do que estava falando? -Refiro-me a que é sua parte da arrecadação dos concertos de Laddz. -Não é falso? -Não. Olhei a entrada da habitação onde estávamos. -vieste até aqui para me entregar uma bolsa de lixo com trinta mil euros que juras que são legais e vais largar te sem me pedir nada em troca? -Exato. -É autêntico? Jay riu. -Ou roubado? -Não. sopesava os maços e voltava a guardá-los. Algo me estava escapando. De tanto em tanto tirava a bolsa. durante a busca do Wayne.-É sua parte da entrada. Coloquei a mão na bolsa. Recorda o contrato que te dava? Recordava vagamente que. mas também porque Parker não era de confiar. -Claro que é autêntico. onde está a armadilha? -Não há armadilha. assim que o coloquei debaixo da cama. Em seguida descartei essa possibilidade não só porque estava convencida de que não encontraria ao Wayne. Demorei como quatro dias em assimilar -em assimilar de verdade.que era dinheiro e que podia gastá-lo. -Então. E isso é exatamente o que fez. Parker me tinha entregue uma folha enrugada onde dizia que me daria uma percentagem de sua percentagem se os concertos seguiam adiante. Não sabia o que fazer com o dinheiro. .

Chamei às pessoas dos cartões de crédito e arrumei a situação com eles. demorei muito em me sentir segura. A razão? Milhares e milhares de pessoas de todo o país estavam atrasadas nos pagamentos de suas hipotecas e minha dívida era. Não tinha muitas esperanças de poder entrar. Mas nesse momento me veio outra idéia… Ainda tinha as chaves de meu piso. como mínimo. Assim timidamente. sentindo que me estava penetrando em uma casa alheia. mas nem sequer estavam à corrente de que tinha deixado o piso. Contudo. tão insignificante que ninguém se incomodou ainda em fazer algo com ela. Podia comprar muitos lenços com trinta dos grandes. Já estavam aqui! . em sentir que o piso era meu. Logo paguei meu recibo da luz e a taxa de reconexión do serviço. Inclusive consegui recuperar minha cama da Mãe Superiora. Comprei um sofá e umas cadeiras e resgatei do gigantesco trastero passado o aeroporto os poucos móveis que conservava. Supus que. relativamente falando. Estava segura de que já haveria alguém vivendo nele. Estava segura de que me diriam que nem em sonhos -já se sabe como são os burocratas-. a companhia hipotecária teria trocado as fechaduras. Coloquei os cupcakes na fonte. mas ninguém apareceu. exatamente como o tinha deixado fazia um mês. Recuperei o cabo. cortei o bolo de bolacha e chocolate e arranquei o celofane da caixa das bolsitas de chá. alguém aparecesse com algum impedimento legal. Esperava que em qualquer momento alguém me detivera. Mas quando fui encontrei todo intacto. De modo que chamei às pessoas da hipoteca e lhes perguntei se podia voltar para meu piso no caso de que lhes pagasse um bom pico. jamais pensei que chegaria o dia em que teria a gente tomando o chá em minha casa! Soou o timbre. que este era verdadeiramente meu lugar. Senhor.No primeiro que pensei foi em lenços. A seguir paguei as taxas pendentes do serviço de recolhimento de lixos. devolvi algumas roupas a meu armário.

) Como é lógico. Impossível sabê-lo. -Ainda nos tratávamos com certo acanhamento-. de maneira que Wayne e Zeezah "fugiram" do país. Adiante. mas em realidade estava tentando determinar se se parecia com o Wayne ou ao John Joseph. Fiz ver que sua beleza me tinha encantada. ele estava dando os últimos retoques a seu casita para pássaros e eu estava começando a minha.) . (Coincidimos um par de dias. -Olá. onde se instalaram em um apartamento de aluguel. Zeezah deixou ao John Joseph pelo Wayne e pouco depois Wayne foi dado de alta do Santa Teresa. chegou a um trato com o John Joseph para liberar-se dele e começou a trabalhar em um novo álbum. Helen. os meios enlouqueceram com o triângulo amoroso.Abri a porta. Wayne me deu um beijo educado na bochecha. compraram óculos de sol no Sunglasses Hut porque não lhes ocorria outra coisa que fazer. foram ao aeroporto do Dublín e tomaram um vôo de Aer Lingus ao Heathrow. a de coisas que tinham ocorrido os últimos seis meses! Depois do quarto concerto de Laddz. só se parecia com um bebê recém-nascido.) Estando ali. Não é preciosa? Examinei ao bebê. tudo enrugado e estranho.a seu velho selo discográfico. -Aproximou-me o fardo que sustentava nesta braços é Aaminah. senhorita! voltaste para a talha trinta e quatro! -A trinta e oito -me corrigiu Zeezah-. Zeezah "tendeu a mão" -que grande expressão para a Lista do Palazos. -É preciosa. -te olhe. trocaram de terminal e se passearam umas horas como qualquer cidadão da pé. mas estou nisso. (Tinha uma grande gira programada para no próximo ano. e tomaram um vôo de Air Turkey ao Estambul. (Segundo a imprensa. não? Deus. Voltei-me para a mulher que o acompanhava. -Wayne. Felicidades! -Porque isso é o que se diz quando alguém acaba de ter um bebê.

-Agora entendo por que você gostava tanto minha casa -disse. mas isso era assunto deles. a verdade. Wayne estava mais calado. Está-me levando meu tempo. Zeezah e o bebê poderiam me fazer uma visita. . -Bem -disse-. Supus que mais adiante teriam que fazer a prova de DNA para determinar quem era o pai biológico. ele. Enfim. Zeezah estava como sempre. Sua proposta me surpreendeu e emocionou. Acredito que já nunca voltarei a ser a de antes do primeiro episódio. mas melhor do que me hei sentido a muito tempo. Servi-lhes chá e lhes ofereci cupcakes e passamos uma hora agradável. Admirável. -O que foi dela? -Sentia certa nostalgia.Faz cinco dias Zeezah deu a luz seu bebê em um elegante hospital do Estambul: um parto natural de três horas sem epidural nem calmantes. entre nós existia uma conexão. Da cabeça. tudo troca. cheia de vida e tolices. Ao parecer. já encontrariam a maneira. embora significasse ter que pedir emprestada uma bule. Definitivamente. como se nossas vidas se cruzaram brevemente para nos salvar o um ao outro. já nunca serei tão resistente nem tão otimista. Vou a… -me interrompi. Mas me caía muito bem. Wayne passeou o olhar por minha sala de estar e riu. -Como se sente ultimamente? -perguntei-lhe-. mas primeiro tive que repintá-la. O agente imobiliário me disse que se não o fazia não conseguiria vendê-la. Faz dois dias voaram ao Cork para ensinar Aaminah à família Diffney e Wayne me chamou para me perguntar se durante sua estadia na Irlanda. -Passem -disse-. De modo que o 4 do Mercy Close que eu tinha conhecido já não existia. passem. Custava-me acreditar que me dispusera a pronunciar tais palavras-… preparar o chá. E você? -Bem. acreditava que eu tinha tido um papel decisivo em sua felicidade. -Vendi-a. mas está bem assim. Jay Parker tinha estado no certo quando disse que Wayne era um pouco intenso. quero dizer.

mas então Aaminah começou a chorar e Zeezah disse que era hora de ir-se. Faço chocalho sobre a Wii. Miúda gilipollez! -E que o diga. também me ajuda correr. -Voltam para o Estambul? -perguntei. Tem um Audi TT negro. Compartilham uma afeição. E também a bolacha. mas Wayne eu gostava tanto que queria estar de acordo com tudo o que dissesse-. -Tenho descoberto -disse Wayne. não é nada fácil.que. Medicina a China? -Não me fez nada. Zeezah pôs os olhos em branco.-Exato. Durante uma semana só comi mantimentos vermelhos. os efeitos benéficos de suas diferentes combinações e o coñazo dos efeitos secundários. realmente em grande. -Ostras. Estávamo-lo passando em grande. A ti? -Tampouco. -Justamente! Não poderia havê-lo expresso melhor. -Era mentira. -provaste A maravilha do agora? -A verdade é que sim. . E tenho uma terapeuta fantástica. -Parecem… qual é a palavra? Olheiros de trens. E faço alguma loucura que outra. O que está tomando agora? Respirou fundo e nos embarcamos em um entusiasta bate-papo sobre medicação psicotrópica. trata-se de aprender a viver com isso. e não te cria. além da medicação. Era fantástico conhecer uma alma tão geme-a. Esperar estar "melhor" é um enfoque errôneo. O ioga da risada? -Sim! Suava de puro abafado. -E foi bem? -Você o que crie? Riu. eu também. -E a mim.

Pelo menos já partem com o cabelo adequado. Frankie segue apresentando Ao Cup Of Lha and A Chat e parece muito menos tenso desde que os gêmeos começaram a dormir toda a noite de um puxão. muitas coisas aconteceram para que sejamos capazes disso. Era o único que tinha arriscado dinheiro neles.-Sim -disse Wayne-. Cain e Daisy venderam a casa e se mudaram a Austrália. Frankie Delapp e Myrna compraram uma casa de cinco dormitórios no respeitável bairro do Stillorgan. mas me tranqüiliza saber que ela e Blake estão bem. Chamou-me para me dizer que tinha visto o Bronagh e Blake e que lhes tinha dado dinheiro suficiente para tirar os de seu apuro econômico. de modo que os benefícios eram todos para ele. acredito que serão mais felizes ali. Roger St. Acredito que as duas sabemos que não poderíamos voltar a ser amigas. Doze vistas destruídas. Birdie Salaman tem um novo amor. mas sim pela venda de produtos. mas quem sou eu para julgar? Ele é como é. Mas estaremos em contato. Imagino que voltou para seu velho negócio como produtor de artistas do Oriente Próximo. . Bronagh e eu não nos vimos. Não o vi desde dia que se apresentou com a bolsa de lixo cheia de dinheiro. mas falamos em uma ocasião por telefone. O feliz trio partiu. um homem chamado Dennis. Leger teve como dozenamoradas distintas dos concertos. Jay Parker ganhou uma fortuna com os concertos de Laddz. Somos como somos. sua última obsessão é o desaparecimento da selva amazônica. e embora que Zeezah abandonasse ao John Joseph pelo Wayne era a mudança mais espetacular dos últimos seis meses. E soube que assim seria. John Joseph se largou ao Cairo assim que os concertos terminaram e pouco se soube dele após. Disse que levavam pouco tempo mas que a coisa pintava bem. não só pela percentagem que ficou depois de me dar toda aquela massa. e reuniu uma soma exorbitante que lhe trocou a vida. Docker aparece regularmente nas notícias apresentando batalha em nome de quem queira lhe agüentar. não era o único.

Estamo-lhe extremamente agradecidos por esta oportunidade de visitar sua casa. Apresentou a seus dois colegas. -Não. camisa. Os moços.tema. no bolso. mas souberam apreciar minha cama. -Gosta de uma taça de chá? -perguntei. Não soube nada do Harry Gilliam e estou contente assim. Suspeito que lhe esgotaram as causas e começou uma segunda ronda. em minha opinião. algo manido. Não mais neonazi. Agora era uma combinação de Retorno ao Brideshead e James Joyce: bem penteado. Pareciam um pouco surpreendidos pelo reduzido tamanho do piso. cruzava seus sapatos de pele e fazia ver que lia. não obstante. Voltou a soar o timbre. -Helen -disse com voz grave ao tempo que me sustentava as mãos e me dava um beijo na bochecha. Seguia sendo fã do rímel. abrigo comprido e escuro e um livro antigo de tampa dura. -Senhor Robin Peabody e senhor Zak Pollock. que vestiam de modo quase idêntico. Maurice McNice segue ao pé do canhão. minhas cortinas de perus reais e as cores das paredes. olhem sem reparo -disse. Não pretendemos lhe roubar muito tempo. raia no meio. Bruno insiste em que é certamente bela. marrom. . Mais convidados. estreitaram-me a mão. obrigado -disse o senhor Zak Pollock-.) Levava óculos de cristal redondo sem graduar e um cachecol de lã muito suave. calça de tweed. -Por favor. E assim fizeram. gravata e pulôver de pico. (Tinha-o comprado em uma loja benéfica por dez céntimos e às vezes se deitava em um sofá. Abri a porta e encontrei ao Bruno Devlin acompanhado de dois homens jovens. cavalheiros. Nos últimos seis meses tinha trocado radicalmente de imagem.

Limites.-Tem um gosto extraordinário. -Bem! -disse com uma palmada. E finalmente chegou a última visita da noite. o sinal internacional de E Agora lhes Largue. Assim que partiram chegou o seguinte turno de visitas: Bela. Iona e Vonnie. Bruno me sussurrou: -Se algum dia for viver com papai. -Certamente delicioso -conveio o outro clone. Uma série policíaca a Noruega a que me tinha enganchado durante o outono. -Não lhes disse isso? -regozijou-se Bruno. . estrelas chapeadas feitas por elas mesmas em uma oficina de cerâmica e lucecitas. com duas pizzas e uma caixa de sorvete. Quando terminaram de embelezar minha árvore mais do que eu teria conseguido embelezá-lo embora tivesse vivido cem vistas. -O que é? -Politi Tromsø. Puseram mãos à obra como uma brigada de verdade. -Artie me tendeu um lápis de cor. Que pincelada tão soberba. todos estávamos agora no tema dos limites. Levei-me um grande desgosto quando terminou. distribuindo abacaxis meladas de purpurina rosa. Tinha tido suficiente com o trio de tolos-. Obrigado pela visita. anjos de papel pintados à mão. Empurreis para a porta e justo antes de ser expulso. Bela também me tinha pedido isso e me caía melhor. mostrando-se de repente como o moço de quatorze anos que era-. senhorita Walsh -opinou um dos clones. -São realmente magníficos -disse o primeiro clone detendo-se diante dos óleos dos cavalos-. Não vos disse que era genial? Quero dizer… delicioso. obriguei-lhes a aceitar um cupcake mas não ficaram muito tempo. Levou-o tudo à cozinha e disse: -Tenho uma surpresa para ti. Capta a nobreza da besta em toda sua grandeza. Aguardarei com impaciência nosso próximo encontro. poderei me mudar aqui? -Já o veremos -respondi. Tinham vindo para decorar minha árvore de Natal.

Depois de uma breve conversação com alguém. -Não tinha falado de outra coisa. Da China. -Não viu a segunda temporada. Fim . -A segunda temporada sai em abril. -Adiante. -Meu deus! O que me há tocado? -Uma lata de frijoles. por que não. -Como a conseguiste? -Olhei-o atônita. O dia não podia ser mais perfeito. -Tenho uma cópia. -Entrei correndo na cozinha e procedi a arrojar porções de pizza nos pratos. -Claro. É um número desconhecido. -Sentia-me intrépida. E você sabe que já a vi. Artie entrou na cozinha. -Respondo? -gritou Artie-. -Comprou hoje números da tômbola? -Sim. -Né… ilegalmente. Na sala de estar soou o telefone. -Você te encarrega da parte tecnológica e eu da comida. -Pois ganhaste um prêmio. -Sério? -De repente os olhos me encheram de lágrimas de felicidade.-Já a vi. -Não posso acreditá-lo! É fantástico! Podemos vê-la? Agora? Podemos comer a pizza e o sorvete e ver a segunda temporada do Politi Tromsø agora mesmo? Riu.