EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR JUIZ DE DIREITO DA __ª VARA DE FAMÍLIA DE BLUMENAU – SC

IRACILDA

SANTOS,

brasileira,

solteira,

desempregada,

portador da Carteira de Identidade nº X.XXX.XXX.X e inscrita no CPF XXX.XXX.XXX.XX, documentos em anexo, nascida em 10.10.1980, residente na Rua das Palmeiras, 175, centro, cidade de Blumenau – SC, CEP 78234-201, vem respeitosamente à presença de Vossa Excelência, com fundamento nos arts. 22 e 27 da Lei nº 8.069/90, com fulcro nos artigos 127 e § 6.º, 227 da Magna Carta, assim como a Lei n° 11.804, de 5 de novembro de 2008 (Lei de Alimentos Gravídicos), por seu procurador infra firmado (Doc. 02) vem, respeitosamente, à presença de Vossa Excelência propor a presente:

AÇÃO DE ALIMENTOS GRAVÍDICOS COM ANTECIPAÇÃO DE TUTELA

face a ORNÉLIO LUCATO DA SILVA SALRO, brasileiro, solteiro, técnico legislativo, portador da Carteira de Identidade nº X.XXX.XXX.X e inscrito no CPF XXX.XXX.XXX.XX, nascido em 01.11.1976, residente na Rua da Paz, 185, cidade de Brusque – SC, CEP 89244-323, pelos fatos e fundamentos que expõe a seguir:

DOS FATOS

1. A Requerente iniciou um relacionamento amoroso com o Requerido no primeiro dia de janeiro de 2013, onde se conheceram em um bar Dashau onde a requerente dançava. 2. Este relacionamento se prolongou ate o dia dos pais deste mesmo ano de 2013. Neste período de relacionamento, o casal se encontrava aos finais de semana, em horários variados. 3. Que em um destes encontros, onde o casal se amava reciprocamente, a requerente engravidou. Em suas relações sexuais, o casal, por opção do requerido, nunca usaram preservativo, pois o requerido manifestava que queria muito um filho, pois sua esposa era estéril. 4. Quando a requerente, em abundância de alegria, foi comunicar ao requerido a gravidez este terminou o relacionamento, deixando a requerente arrasada, e com o emocional extremamente abalado. 5. O requerido passou a ignorar a requerente, não atendendo mais suas ligações telefônicas, deixando assim de falar com Iracilda. 6. Outrossim, segundo ultrassom, prova documental em anexo (doc 03) a requerente se encontra no 4º (quarto) mês de gestação, estando ela grávida de gêmeos. 7. Segundo laudo médico apresentado pela requerente (doc 05), esta se encontra com deslocamento da placenta, precisando urgentemente de acompanhamento médico, que não podem ser custeados pela requerente. 8. Que não está podendo exercer nenhuma atividade laborativa que lhe proporcione uma remuneração digna, não tendo recursos para pagar os exames médicos exigidos durante a gravidez. 9. Conforme a ultima consulta de rotina ao seu médico, a requerente precisa de repouso absoluto, melhorar sua alimentação e utilizar medicamentos que não podem ser custeados por ela mesma, que são estimados na ordem de R$500,00 mensais.

10. Relata também que em virtude de o requerido ser técnico legislativo, este possui ótimos rendimentos mensais, que giram na ordem de R$5.000,00, tendo portanto este condições de arcar com alimentos para a requerente. 11. Precisa a requerente de R$500,00 por mês para compra de medicamentos e de R$500,00 para sua alimentação especial determinada pelo laudo médico em anexo (doc 10). 12. Portanto, diante das súplicas da Requerente, o Requerido nem sequer se preocupa com a situação da mesma, sempre se negando a contribuir com uma quantia mensal para que esta supere este momento pelo qual está passando, motivo este que o levou a procurar a via judicial para solucionar o problema.

DO DIREITO

A Requerente pleiteia os seus direitos previstos na Lei nº 11.804/08, que prevê a prestação alimentícia a ser paga à mulher gestante, fazendo com que o suposto pai exerça a sua obrigação legal, uma vez que a Requerente se encontra em situação financeira muito difícil, necessitando do auxílio do Requerido para se manter. A referida Lei n.º 11.804/08, dando grande passo na almejada concretização do princípio da dignidade da pessoa humana, valor este indissociável do direito civil contemporâneo, passou a prever a possibilidade de a genitora, ainda durante sua gestação, pleitear alimentos em desfavor do suposto pai, com vistas a resguardá-la, ao menos financeiramente, quanto às necessidades advindas com a concepção. Assim sendo, uma vez constatada a gravidez pode a genitora reclamar do suposto pai o auxílio financeiro necessário a propiciar ao nascituro as providências médicas e terapêuticas para sua adequada formação. Dispõe o art. 2º da Lei n.º 11.804/08:

Os alimentos de que trata esta Lei compreenderão os valores suficientes para cobrir as despesas adicionais do período de gravidez e que sejam dela decorrentes, da concepção ao parto, inclusive as referentes a alimentação especial, assistência médica e psicológica, exames complementares, internações, parto, medicamentos e demais prescrições preventivas e terapêuticas indispensáveis, a juízo do médico, além de outras que o juiz considere pertinentes. Parágrafo único. Os alimentos de que trata este artigo referem-se à parte das despesas que deverá ser custeada pelo futuro pai, considerando-se a contribuição que também deverá ser dada pela mulher grávida, na proporção dos recursos de ambos.

No que tange especificamente à prova da filiação atribuída ao Requerido, cumpre-nos aclarar que os elementos probatórios passíveis de produção neste momento não gozam, por certo, do grau de certeza decorrente daqueles que poderiam ser amealhados em sede de Ação Investigatória de Paternidade, mormente em se considerando o usual exame hematológico pelo método DNA.

Entretanto, tal situação não pode obstaculizar o deferimento dos alimentos gravídicos que ora se pleiteia.

Com efeito, a situação fática inviabiliza que se condicione o deferimento dos alimentos à prova plena da paternidade, sob pena de ver-se o nascimento do nascituro antes sequer da juntada aos autos do Laudo do exame biológico.

Nesse sentido manifesta-se a eminente Desembargadora MARIA BERENICE DIAS:

Não há como impor a realização de exame por meio da coleta de líquido amniótico, o que pode colocar em risco a vida da criança. Isso tudo sem contar com o custo do exame, que pelo jeito terá que ser suportado pela gestante. Não há justificativa para atribuir ao Estado este ônus. E, se depender do Sistema Único de Saúde, certamente o filho nascerá antes do resultado do exame.

Assim, o Diploma Legal recém inaugurado afastou-se do tradicional sistema da cognição exauriente para o deferimento do bem da vida pleiteado, conferindo ao Magistrado a possibilidade de conferir à parte o direito pugnado mesmo sem a demonstração inequívoca do quanto alegado, ou seja, satisfaz-se com a cognição sumária, sempre atento às necessidades da pessoa em formação e às peculiaridades do caso concreto. Calha registrar, que a cognição sumária, em regra, é verificada no exame dos pedidos liminares, a serem confirmados, ou não, após a instrução do feito, oportunidade em que deverá se valer o Magistrado da cognição exauriente. Acerca das espécies de cognição judicial, e de seu cabimento, anota o inexcedível FREDIE DIDIER JÚNIOR, litteris:

(...) o plano vertical (profundidade), que diz respeito ao modo como as questões serão conhecidas pelo magistrado. Aqui se responde à pergunta: de que forma o órgão jurisdicional conheceu aquilo que lhe foi posto à apreciação? A cognição poderá ser, portanto, exauriente ou sumária, conforme seja completo (profundo) ou não o exame. (...) Há procedimentos de cognição plena e exauriente, que são a regra. A solução dos conflitos de interesses é buscada através de provimento que se assente em procedimento plenário quanto à extensão do debate das partes e da cognição do juiz, e completo quanto à profundidade desta mesma cognição. Decisões proferidas aqui são, por exemplo, aquelas dos procedimentos comuns (ordinário, sumário ou dos Juizados Especiais Cíveis), passíveis de produção de coisa julgada material. Prestigia-se o valor segurança. (...) A cognição sumária (possibilidade de o magistrado decidir sem exame profundo) é permitida, normalmente, em razão da urgência e do perigo de dano irreparável ou de difícil reparação, ou da evidência (demonstração processual) do direito pleiteado, ou de ambos, em conjunto. No plano vertical, a diferença entre as modalidades de cognição está apenas na maneira como o magistrado enxerga as razões das partes (causa de pedir).1

Assim, repise-se, embora a cognição exauriente, mormente no que se refere à sua profunidade, seja a regra para o deferimento da tutela jurisdicional pretendida, a Lei n.º 11.804/08 expressamente a afastou, privilegiando, assim, o manejo da cognição sumária para o deferimento dos alimentos gravídicos,
1

Curso de Direito Processual Civil, vol. I, ed. JusPodivm, 8ª ed., pgs. 273/274.

conforme se pode extrair da mera leitura do art. 6º do mencionado Diploma Legal, in verbis:

Convencido da existência de indícios da paternidade, o juiz fixará alimentos gravídicos que perdurarão até o nascimento da criança, sopesando as necessidades da parte autora e as possibilidades da parte ré.

Aliás, essa a razão do veto ao art. 8º da Lei dos Alimentos Gravídicos, que condicionava o deferimento de referidos alimentos à submissão das partes ao exame de DNA, caso houvesse recusa por parte do suposto pai em relação à paternidade a ele atribuída.

Expondo como razão de seu veto político, deixou consignado a Presidência da República:

o dispositivo condiciona a sentença de procedência à realização de exame pericial, medida que destoa da sistemática processual atualmente existente, onde a perícia não é colocada como condição para a procedência da demanda, mas sim como elemento prova necessário sempre que ausente outros elementos comprobatórios da situação jurídica objeto da controvérsia.

Dessa forma, comprovada a gestação da Requerente, e indícios suficientes de que seja o Requerido o pai do nascituro, o deferimento dos alimentos gravídicos é medida que se impõe no caso em tela. Com referência ao valor de referidos alimentos, temos que este deve ser fixado em quantia equivalente a 30% (trinta por cento) dos rendimentos mensais do Requerido, desde que nunca inferiores a 50% (cinquenta por cento) do salário mínimo.

Isto porquê, além da capacidade do Requerido em arcar com aludido montante, à Requerente deve ser propiciada a quantia apta à realização de todos os exames e aquisição dos bens de consumo necessários a uma sadia gestação, cujos gastos, como é cediço, são bastante elevados. Pelo exposto, preenchidos os requisitos necessários ao deferimento da tutela jurisdicional pretendida, máxime a gravidez da Autora e indícios suficientes de paternidade do Réu, requer sejam deferidos àquela os alimentos gravídicos, em valor equivalente a 30% (trinta por cento) dos rendimentos do Requerido, desde que nunca inferiores a 50% (cinquenta por cento) do salário mínimo. Como a necessidade da Requerente é premente, pede-se digne Vossa Excelência, desde logo, arbitrar alimentos provisórios, em favor de IRACILDA SANTOS, ora Requerente, na base de 30% (Trinta por cento) da remuneração do Requerido, a ser descontado em folha de pagamento, junto ao órgão público da Câmara Municipal de Blumenau, localizada na Rua XV de Novembro n. 55, Bairro Centro – Blumenau/SC, conforme dispõe o art. 4o da Lei 5.478/68.

DA ANTECIPAÇÃO DOS EFEITOS DA TUTELA

É certo que a Lei n.º 11.804/08, em seu art. 11, prevê a aplicação supletiva, nas ações em que se pleiteie alimentos gravídicos, das Leis n.º 5.478/68 e 5.869/73, que dispõem, respectivamente, sobre a Ação de Alimentos e o Código de Processo Civil.

Assim, num primeiro momento poderia parecer cabível a fixação de alimentos provisórios às ações de alimentos gravídicos, com fulcro no art. 4º da Lei n.º 5.478/68.

Todavia, em consonância com o entendimento sufragado pela jurisprudência e doutrina pátrias, tal espécie de alimentos só tem cabida quando houver nos autos prova pré-constituída da relação de parentesco, prova esta inviável de produção no presente feito.

Nesse jurisprudencial:

sentido,

colacionamos

o

seguinte

excerto

INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE. ALIMENTOS PROVISÓRIOS. PROVA DA PATERNIDADE. HIPÓTESE DE CONCESSÃO. Com a paternidade finalmente comprovada, em face do resultado positivo do exame de DNA, e demonstrado que a agravante enfrenta dificuldades, sem possuir emprego fixo, não podem lhe ser negados os alimentos indispensáveis para que complete sua formação acadêmica (TJRS – Agravo de Instrumento n.º 70017606781, Rel.

Des. Maria Berenice Dias, j. 20/12/2006).

No entanto, o descabimento do pleito de alimentos provisórios não inviabiliza a formulação de pedido liminar, com fulcro na cláusula genérica prevista no art. 273 do Código de Processo Civil. Com efeito, o ordenamento jurídico pátrio possibilita ao litigante que obtenha, já antes da decisão de mérito, a antecipação dos efeitos da tutela jurisdicional pretendida, a fim de se lhe evitar que sofra os prejuízos decorrentes do longo lapso temporal existente entre o ajuizamento da ação e a entrega da prestação jurisdicional. No entanto, para que se logre a obtenção da antecipação dos efeitos da tutela, alguns requisitos devem se fazer presentes. Assim, o art. 273, caput do Código de Processo Civil condiciona a antecipação da tutela à existência de prova inequívoca que tenha o condão de acarretar o convencimento do Magistrado acerca da verossimilhança da alegação.

Ora, no presente caso, a Autora demonstrou a existência de indícios veementes de paternidade do Requerido em relação a seu filho, haja vista as declarações das testemunhas em anexo. Ademais, necessário frisar a superficialidade a ser empregada pelo nobre Magistrado quando da aferição da prova documental em anexo à petição inicial para o deferimento da tutela antecipada. Ora, se para o deferimento do pedido principal – bem da vida, basta o juízo sumário de cognição, conforme acima elucidado, menor rigidez ainda se deve reclamar, na análise das provas, para a antecipação dos efeitos da tutela jurisdicional pretendida. Todavia, não basta ao deferimento da antecipação da tutela o requisito supra referido, fazendo-se mister, também, haja fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação, em caso de se ter que aguardar o provimento jurisdicional final, nos moldes do art. 273, I do Estatuto Processual Civil Pátrio. Nessa senda, mostra-se claro o dano irreparável a que se sujeitará a Requerente e seu filho, ainda nascituro, em caso de se lhe negar a antecipação dos efeitos da tutela. Com efeito, em tal hipótese é bastante provável que os alimentos venham a ser deferidos apenas ao final do feito, ou seja, após a realização de audiência para a oitiva de testemunhas, sendo que, em tal caso, a genitora, ora Requerente, ver-se-á privada dos alimentos necessários à sua sadia gestação, comprometendo até o ser em formação, vulnerando seu direito fundamental à vida e à saúde. Tal hipótese demonstra a irreparabilidade do dano a que se submeterá a Autora em caso de denegação da antecipação dos efeitos da tutela. Dessa forma, a antecipação dos efeitos da tutela, para que o Requerido fique obrigado ao pagamento dos alimentos gravídicos desde o início do feito, em montante equivalente a 30% (trinta por cento) de seus rendimentos mensais, desde que nunca inferiores a 50% (cinquenta por cento) do salário mínimo, é medida que se impõe no caso em tela.

DA ASSISTÊNCIA JUDICIÁRIA GRATUITA

A Requerente é pobre na acepção jurídica do termo, conforme se extrai de sua Declaração de Hipossuficiência financeira em anexo, fazendo jus, portanto, às benesses da Assistência Judiciária Gratuita, nos termos do art. 4º da Lei n.º 1.060/50.

DO PEDIDO

Por todo o exposto, requer: a) a concessão à requerente, de plano, dos Benefícios da Justiça Gratuita, haja vista que não tem condições econômicas e/ou financeiras de arcar com as custas processuais e demais despesas aplicáveis à espécie, honorários advocatícios, sem prejuízo do próprio sustento ou de sua família, nos termos da inclusa declaração de pobreza, na forma do artigo 4º, da Lei n. 1.060/50 e artigo 1º, da Lei n. 7.115; b) a citação do requerido através de oficial de justiça, no endereço fornecido no preâmbulo da presente peça petitória, conferindo-se ao Sr. Meirinho as benesses do art. 172, § 2º do Código de Processo Civil, para, querendo, contestar a presente ação, no prazo de 05 (cinco) dias (art. 7º, da Lei n.º 11.804/08), sob pena de revelia e confissão; c) Antecipação dos efeitos da tutela, para determinar ao Requerido que pague alimentos gravídicos à Requerente no importe de 30% (trinta por cento) de seus rendimentos mensais, desde que nunca inferiores a 50% (cinquenta por cento) do salário mínimo; d) que após o nascimento, os alimentos sejam mantidos de forma permanente; e) a determinação ao Requerido para que junte aos autos cópia de sua Carteira de Trabalho e Previdência Social;

f) A intimação do representante do Ministério Público Estadual, de todos os atos processuais; g) Que, ao final, seja julgado procedente o pedido, condenando-se o requerido no pagamento dos alimentos gravídicos à Requerente, em valor equivalente a 30% (trinta por cento) de seus rendimentos mensais, desde que nunca inferiores a 50% (cinquenta por cento) do salário mínimo; h) Condenação do requerido nas custas processuais e honorários advocatícios; Protesta e requer provar o alegado por todos os meios de prova em direito admitidos, especialmente pelo depoimento pessoal do requerido, que desde já se requer, documentos e testemunhas.

Dá-se à causa o valor de R$ 18.000,00 (dezoito mil reais). Termos em que, Pede deferimento

Blumenau, 10 de outubro de 2013. Marcos da Rocha OAB/SC 89343