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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE GOIÁS UNIDADE UNIVERSITÁRIA DE JUSSARA LICENCIATURA EM HISTÓRIA

BRUNO FELIPE DE SOUZA MOURA

“SEGUNDA CONSIDERAÇÃO INTEMPESTIVA”: UMA INTERPRETAÇÃO ACERCA DA PERSPECTIVA DE HISTÓRIA COMO POSSIBILIDADE PARA A VIDA.

JUSSARA-GO 2012

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BRUNO FELIPE DE SOUZA MOURA

“Segunda Consideração Intempestiva”: o conceito de história em Nietzsche, uma interpretação acerca da perspectiva de história como possibilidade para a vida.
Monografia apresentada ao departamento de História como requisito parcial para obtenção do título de Licenciatura em História, da Universidade Estadual de Goiás: Unidade Universitária de Jussara – Goiás, sob orientação do professor Esp. Wilson de Sousa Gomes.

JUSSARA-GO 2012

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Dedico esta monografia à minha septuagésima quarta garrafa de vodca, saboreada avidamente naquele chuvoso novembro de 2009, enquanto as ideias aqui expostas eram gestadas e nutridas.

contribui decisivamente para nosso crescimento profissional e humano. muito de sua contribuição que ao ouvir e debater diversos temas comigo contribuíram para que estas ideias fossem gestadas. Ao professor Wilson de Souza Gomes agradeço pela paciência de corrigir atentamente os textos por mim escritos. outras opções. Por vezes foi preciso parar. Certamente que tem nestes escritos. apresentando suas provocações e partilhando comigo ao longo do ano de 2012 o desejo de ver materializada esta pesquisa. que nos apontamentos e nos debates que conosco travam. contribuindo assim para que consigamos a autonomia necessária ao verdadeiro crescimento e a uma formação sólida. Só sabemos que sem elas. quando ao seguir sentia que meu passo titubeava. deste “mundo”. Devo dizer que este trabalho é um ponto de parada. O professor Luiz se situa noutro grupo juntamente com aqueles que nos ensinam a “estudar”. não poderia deixar de agradecer ao Professor Luiz Carlos Bento. contei com alguns “braços fortes” que vieram ao meu auxilio. O bar é um templo. tampouco tive como apoio somente a força de minhas próprias pernas.4 AGRADECIMENTOS Pensei em não fazer aqui um texto metafórico. numa longa caminhada que iniciei em 2007 e que não se finda aqui. tive a sorte de não estar sempre sozinho. vocês me resgataram pela porta do fundo. aqui estou. Júlio Cezar e Michael Marques. quando a loucura se espreitava pela soleira da porta da frente. Ao professor Aruanã Antonio Passos. Vocês foram os braços com os quais eu contei. Como professor e grande amigo. Meus irmãos Heiler A. Noutras tantas ocasiões. É de fundamental importância o engajamento destes profissionais. no qual por inúmeras vezes pude me reunir com as mais excepcionais personalidades que ao longo da caminhada-existência pude encontrar. e creio que não consegui fugir deste destino. Quantas fugas protagonizamos? – não sabemos dizer ao certo. Caminhando por esta estrada. e é necessário reconhecer a importância daqueles que partilharam comigo um pouco destas “paisagens”. Konrad e Fernanda Fedrigo. Alguns professores se limitam em nos ensinar o “conteúdo” e com isso conseguimos ir à formatura. No entanto. Por fim. meu agradecimento pela disposição de ler e avaliar o texto por mim redigido. nem só de universidade e universitários são feitas as monografias. Sem a figura do professor seria impossível qualquer tipo de formação. e sentado no acostamento da vida decidir outros rumos. teríamos sido prisioneiros de terríveis demônios e titãs indestrutíveis – sobretudo daqueles titãs e demônios que se escondem atrás das arvores invisíveis da existência. . quantas vezes vocês escutaram as coisas que aqui escrevi? Estimamos que seja um numero entre 100 e 5000 vezes.

5 E à minha querida esposa. A palavra aqui é falha meu anjo! Você é a ‘única religião’ na qual consegui acreditar. pois a partir de minha devoção a você consegui construir um projeto de existência. mas por duas. Maria Ângela. . Um projeto redigido não por uma única mão. meu mais profundo agradecimento.

6 Tremes carcaça?!.Pois tremerias ainda mais se soubesse para onde te levo! (Nietzsche – A Gaia Ciência) .

não estaria de acordo com as necessidades vitais dos indivíduos modernos. crítico de seu próprio tempo. Entendemos. História. Nietzsche nos apresenta as características de uma historiografia que não está em consonância com as necessidades vitais de sua época. Para tanto. promovemos uma análise da Segunda Consideração Intempestiva – Da utilidade e inconveniente da história para a vida em face de outros textos do autor. PALAVRAS – CHAVE: Nietzsche. na tentativa de construir um entendimento de como ele fundamenta sua crítica da modernidade a partir de uma severa objeção a cultura e a ciência moderna. Nietzsche ataca o sentido histórico que domina a cultura oitocentista. na concepção do autor. Ao passo que na Segunda Consideração Intempestiva. segundo sua visão. Intempestividade. mas sim. não almejava excluir estes estudos. Posicionando-se como um autor extemporâneo. Ciência. como sendo uma possibilidade para a vida. ou servir a uma necessidade vital. ele exemplifica aquilo que seria uma historiografia pertinente na “ruminação” dos valores morais promovida na Genealogia da Moral.7 RESUMO Este trabalho busca. no entanto. A crítica de Nietzsche à história. . e a sobreposição da ciência e da história à vida. servir a um projeto específico de humanidade. expor uma interpretação a respeito da perspectiva de história. que o autor critica a história com o objetivo de evidenciar uma historiografia que. e a partir disso tece suas críticas a história do século XIX. promover uma reorientação dos seus objetivos que deveriam. a ideia de verdade. a partir da análise dos textos de Friedrich Nietzsche. portanto.

2 A perspectiva de Nietzsche sobre a história como um “conhecimento” que 18 22 39 39 pode nos servir a partir da Segunda Consideração Intempestiva 2. FRIEDRICH NIETZSCHE. O AUTOR EXTEMPORÂNEO 1.8 SUMÁRIO INTRODUÇÃO CAPÍTULO I. POSSÍVEIS DIÁLOGOS ENTRE A FILOSOFIA NIETZSCHIANA E A CRÍTICA À HISTÓRIA CONTIDA NA II INTEMPESTIVA 2.2 Friedrich Nietzsche e o panorama da Alemanha do século XIX: o contexto intelectual e histórico das Considerações Intempestivas 1.1 A Biografia de Friedrich Nietzsche: Narrando o pensador da moral.4 A lição da filosofia de Nietzsche: a perspectiva de história como fomento para 53 a ação criadora e a vida afirmativa CONCLUSÃO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 59 65 67 .3 A história em consonância com a vida: A genealogia da moral em face dos 47 pressupostos da Segunda Consideração Intempestiva 2.1 A verdade no sentido extramoral e a história 2. a construção de um pensamento que se pretendia extemporâneo 30 CAPÍTULO II.4 A “Segunda Consideração Intempestiva”.3 Reconstruindo a época moderna a partir das Considerações Intempestivas 1. 10 12 12 1.

9 LISTA DE ABREVIATURAS SCI – Segunda Consideração Intempestiva UIHV – Da Utilidade e Inconveniente da História Para a Vida .

mas sim diante do fato de que mantém com sua época uma relação crítica e negadora. Situando-a na obra dentro da obra de Nietzsche. Reconstruir as características da época moderna a partir das obras do filosofo se torna possível a partir das severas críticas e objeções que ele faz a cultura e às instituições modernas. suas considerações se posicionam contra os pressupostos de correntes de pensamento que na Alemanha contemporânea a ele eram de grande importância. O terceiro tópico denominado Reconstruindo a época moderna a partir das Considerações Intempestivas busca “ver” a partir da obra de Nietzsche as características que ele crítica na época moderna. contando os fatos que compõem sua existência. as datas de publicação de suas principais obras e um pouco das “problemáticas” que alimentavam a reflexão do filósofo. Para tanto em nosso primeiro capitulo buscamos a relação que Nietzsche mantém com sua época. mas também em outras obras escritas por ele. a construção de um pensamento que se pretendia extemporâneo: o inconveniente da história para a vida a partir de Nietzsche. não só nas Considerações Intempestivas. Em nosso primeiro tópico A Biografia de Friedrich Nietzsche: Narrando o filosofo da moral buscamos compor uma breve síntese da biografia de Friedrich Nietzsche. com suas Considerações Intempestivas (1873-74) pretendia criticar a educação. Neste buscamos estabelecer uma análise da relação de Nietzsche e o século XIX. e também evidenciando as características e os pontos específicos sob os quais pesam a crítica empreendida por Nietzsche a história. .10 INTRODUÇÃO O presente estudo busca interpretar e analisar a obra de Nietzsche. que por criticar os paradigmas de sua época mantém uma relação indissociável com esta mesma. com um enfoque nos textos em que o autor discorre a respeito da história. filosofo alemão do século XIX. O segundo tópico traz por título Friedrich Nietzsche e o panorama da Alemanha do século XIX: O contexto intelectual e histórico das Considerações Intempestivas. Neste vamos abordar o texto Da Utilidade e Inconveniente da História Para a Vida. não no sentido de estar totalmente apartada de seu tempo. A partir desta relação é que identificamos os termos sob os quais a filosofia de Nietzsche se torna extemporânea. ciência e cultura da Alemanha oitocentista. Nietzsche. e assim sendo. Evidenciamos assim um Nietzsche extemporâneo. O quarto tópico traz por titulo: “Segunda Consideração Intempestiva”. e a crítica à história e cultura alemã neste contida.

. a reconciliação entre história e arte tendo em vista o ideal grego de cultura e a história em consonância com as necessidades vitais de uma época. Discutimos estas problemáticas a partir do cruzamento da filosofia exposta na Segunda Intempestiva com outros textos escritos por Nietzsche. e a crítica imoralista e anticristã que se estrutura ao longo de toda a obra Nietzschiana. tais como a relação entre história e verdade. Por último. explorando as posições defendidas pelo autor em vista da necessidade de uma ciência que fosse voltada para a vida. Neste pretendemos discutir a concepção de verdade defendida pelo autor no texto A Verdade e a Mentira no Sentido Extramoral em face daquilo que foi dito na Segunda Consideração Intempestiva a respeito do conhecimento científico. a partir da obra de Friedrich Nietzsche. O ultimo diálogo estabelecido é entre os pressupostos da Segunda Consideração Intempestiva e a ensinamento da superação professado por Zaratustra. O terceiro tópico relaciona a crítica a história contida na II Intempestiva e os textos de A Genealogia da Moral. A forma como Nietzsche exemplifica a utilidade da história através da ruminação dos valores morais modernos é destacada como sendo um contraponto para a historiografia desvinculada das necessidades vitais de sua época evidenciada na Segunda Intempestiva. discutiremos como a filosofia de Nietzsche se posiciona a favor da ação criativa e afirmativa na construção de indivíduos cujos projetos de humanidade podem ser. história e arte no pensamento de Nietzsche. Deste modo é que pretendemos expor nosso estudo acerca da história como possibilidade para a vida. com o intuito de esclarecer a relação entre ciência. O segundo tópico traz como titulo: A perspectiva de Nietzsche sobre a história como um “conhecimento” que pode nos servir a partir da Segunda Consideração Intempestiva. Neste apresentamos uma análise que parte do cruzamento da II Intempestiva com os pressupostos contidos na obra A Origem da Tragédia no Espírito da Música. plenamente realizados.11 O segundo capítulo traz uma análise mais aprofundada de temas apontados no primeiro. a partir desta ética de ação. O primeiro tópico do segundo capítulo traz por titulo A Verdade no sentido extramoral e a história.

Friedrich Nietzsche tinha apenas cinco anos de idade. [Nietzsche] recebe o ensino elementar.1 A biografia de Friedrich Nietzsche: narrando o pensador da moral Em busca de compreender o conceito de história em Nietzsche. Principiamos. portanto. apaixonada por livros e pela música. Seu pai. mais tarde. mãe. O AUTOR EXTEMPORÂNEO. buscamos apresentar nosso objeto. Foi o primeiro filho de um casal luterano. p 20). a exceção dele próprio. no ano de 1844. no ano de 1850. Neste primeiro capítulo. posição assumida por Nietzsche na análise crítica da época moderna.12 CAPITULO I. buscamos situá-la no contexto das quatro considerações e exploramos um pouco das temáticas e conceitos nela trabalhados a respeito de história. O segundo tópico situa o autor num contexto maior. problemática e fontes. a qual. O presente estudo pretende abordar a obra de Nietzsche para. o século XIX. 1991. empreende-se um esforço no sentido de evidenciar através dos próprios escritos de Nietzsche uma conjuntura que ele pretendia criticar. No terceiro tópico. na Turíngia. como . a senhora Franziska Nietzsche se muda com seus filhos para a cidade de Naumburg. por narrar uma pequena biografia do autor. Aos 14 anos Nietzsche almejava seguir o caminho trilhado pelo pai. tentando traçar uma relação entre esta conjuntura histórica específica e o pensamento desenvolvido pelo autor em suas Considerações Intempestivas. se tornando pastor e para tanto. Nietzsche nasceu em Roecken. Saxônia. principiamos nossos estudos por elaborar uma narrativa que aborde a vida e obra do pensador da moral. cultura e educação. Sobressai -se como uma criança de inteligência superior. Esteve neste período cercado por sua família. exercerá uma decisiva influência em sua vida e em seu pensamento” (DIAS. “Em Naumburg. a partir dela. O quarto tópico se foca no texto central de onde parte nossa investigação: A SCI. FRIEDRICH NIETZSCHE. Neste. portanto. Karl Ludwig Nietzsche morreu prematuramente quando seu filho. no segundo e no terceiro tópico a noção de um autor extemporâneo. situando no espaço e no tempo a vida e a obra de Nietzsche. Tendo se tornado viúva. somente havia mulheres. discutir a perspectiva desenvolvida pelo filósofo acerca da história enquanto possibilidade para a vida. Aprofundamos. 1. residindo numa casa onde. irmã e algumas tias. Nietzsche começa sua formação escolar nesta cidade.

temos ao fim apresentado um texto com o nome Fado e História. advindos da leitura de diversos livros e do estudo das línguas sagradas. hebraico. em especial o autor esboça grande interesse por música. . Se trata de um texto sucinto no qual Nietzsche esboça problemáticas a respeito de “história” e “destino” que ele desenvolveria mais adiante com maior maturidade e propriedade. Considera-a um meio para formar homens completos. sendo que nas Considerações Extemporâneas1 a questão da relação entre ciência enquanto conhecimento e vida tornam-se central. Aos poucos. Tal texto era um trabalho escolar. este traz por titulo: Carta a um amigo em que lhe recomendo a leitura de meu poeta preferido. tanto intelectual quanto fisicamente. Descontente. 3 Poeta alemão (1770-1843). literatura e pela produção de textos que eram socializados num grupo de estudos criado por iniciativa do próprio Nietzsche e de mais dois amigos. Nietzsche seguiu uma disciplina severa imposta pelo internato sobre seus estudantes. Nietzsche desenvolve esta problemática em seus escritos posteriores. que seria seu primeiro trabalho. passa a refletir sobre essa sua busca ávida de conhecimento: o que havia lucrado com ela? Começa então a se dar conta de que todo o saber que acumulara se achava dissociado da vida. Como a citação nos aponta. A sede de conhecimento não lhe dá sossego. porém. aparecem os primeiros trabalhos do autor. Há outro texto também cunhado nesta época no qual Nietzsche reconhece a “grandeza” de Hölderlin3. (DIAS. Nos três primeiros anos Nietzsche segue rigorosamente a disciplina do internato. No entanto. em cujo professor anotou: “desejaria dar ao autor o amigável conselho de se guiar por 1 Considerações Extemporâneas ou. Seus estudos lhe permitiam acumular grande quantidade de conhecimentos. latim e grego. Considerações Intempestivas – São sinônimos no dicionário de língua portuguesa. 1991. Já a refletir sobre o sentido do conhecimento para a vida Nietzsche se aproxima da arte dramática e da música.13 destaca Rosa Maria Dias (1991). percebemos em nosso autor que o conhecimento deve estar de alguma maneira em consonância com a vida. com uma força vital. sonha com um tipo de educação que não se afaste da vida. 21). ingressou no internato de Pforta – Escola que prezava por uma formação para a vida religiosa. e citada na bibliografia usada no presente estudo. Lê com a avidez de um erudito. p. Rosa Maria Dias (1991) aponta 1861 como sendo o ano do aparecimento do texto Destino e História2. Admite que a árvore do conhecimento e a árvore da vida não são a mesma. mas recusa a ideia de que devem estar separadas. numa das edições de Genealogia da Moral lançada pela companhia das letras. estuda sem descanso. 2 Diversos comentadores da Obra de Nietzsche apenas fazem alusão a este titulo sem adentrar em pormenores a respeito do que seria tal obra. Com a fundação deste grupo de estudos é que.

Sua primeira obra. apresentava “preferências que não eram as mesmas de seus professores” (idem.. só conhecia um sucedâneo da educação paterna: a disciplina uniforme de uma escola bem organizada. Quando ao sair da infância sai do colégio de Pforta. que destinada a agir sobre a massa. 21). poesia. uma vez lá é que a filologia toma um lugar de importância na formação (e até na futura filosofia) de Friedrich Nietzsche.14 um poeta mais sadio. 1991. esforcei-me em quebrar o rigor de uma rotina inflexível. 23). preservei minhas aspirações e meus gostos particulares. Somente perto do final de minha escolaridade em Pforta. Nietzsche foi indicado para ocupar o cargo de professor de filologia clássica na Universidade da Basiléia. o Nascimento da Tragédia no Espírito da Música tem muito de arte. Decorre disso o fato de que Nietzsche se diferenciava dos demais estudantes por seu gosto peculiar e. No ano de 1969. ibidem. professor de Nietzsche. 21). Em 1870 é declarada a guerra franco-prussiana. 13). a guerra fixa em Nietzsche algumas ideias a respeito do estado e da cultura. que seriam em seu entender “polos antagônicos e até adversários: um vive às expensas do outro” (idem. vivi no culto secreto de algumas artes. Mas essa rigidez quase militar. ibidem. 1991. p. Nietzsche alistou-se e participou como enfermeiro. num trabalho de filologia. Diante disso. ainda jovem. p. Nos primeiros anos na universidade da Basiléia. contrai difteria e disenteria” (MARTON. p. observando-me. e sua formação foi como afirma Scarlet Marton (1991). Nietzsche volta à Alemanha. mais claro. e ao fim de um mês. p 13). p 13). p.. Contra um regulamento cego. segundo Marton (1991). mas se compõe quase que exclusivamente. Por pouco não me tornei músico [. Meu pai morreu prematuramente: Faltou-me a direção firme e refletida de uma inteligência masculina. O próprio Nietzsche se pronuncia sobre este período dizendo: Eu mesmo em grande parte fui encarregado de minha própria educação. segundo Rosa Maria Dias (1991). . Sua formação universitária havia sido completada e ele “escolheu filologia apenas porque fora preciso escolher uma especialização” (MARTON. tragédia e visão dionisíaca. os cursos ministrados por Nietzsche abrangem temas ligados à cultura grega. entregando-me a busca exacerbada do saber universal e de suas alegrias. 1991. Seu professor foi Ritshl4.]. “sua participação na guerra é curta: enviado a França cuida dos feridos em Estrasburgo e Metz. 1991. As meditações que faz 4 Friedrich Wilhelm Ritschl. trata o individuo de maneira fria e superficial. só fazia com que eu me refugiasse em mim mesmo. mais alemão” (DIAS.. digna de um “helenista eminente”. Já a refletir sobre o sentido da erudição pela erudição o filósofo segue para a universidade. abandonei inteiramente a ideia de uma carreira artística: esse lugar foi ocupado pela filologia (NIETZSCHE apud DIAS.

do texto final da ópera Parsifal. Overbeck. dividida em nove capítulos que se ocupam de temas como moral. p. No entanto. e com tal quantia. 8 Uma das obras centrais de Nietzsche. arte. O recebimento. Rée. religião. 1991. Em 1879 ele se demite do posto que ocupava na Universidade. p. e a quarta: Richard Wagner Bayreuth. em 1878. p. as ultimas atentam para os prenúncios da nova cultura. demasiado humano . As duas primeiras atacam a cultura alemã da época. Por ocasião do lançamento desta obra Nietzsche se vê atarefado com o seu trabalho e de algum modo sempre doente. são pródigos em elogios. 38). As outras duas dizem respeito a David Strauss. Hillebrand e Peter Gast. o elogio maior vem da parte de Burckhardt: ‘Seu livro é uma contribuição para a independência do espírito’(MARTON. A partir de 1873. 38). Tal obra em questão causa uma série de reações diversificadas por parte de alguns intelectuais da Alemanha: Erwin Rohde mostra-se consternado. Compositor e dramaturgo Alemão (1813-1883). Estas duas personalidades serão figuras marcantes nos escritos que compõem as Considerações Intempestivas (1874-1875).15 neste período o levam a cunhar seu primeiro livro O nascimento da tragédia no espírito da música (1871). Diante disso “concedem-lhe uma pensão de quatro mil francos por ano” (MARTON. sentia dores de cabeça frequentes. estado e mulheres. Logo. o devoto e o escritor e Da utilidade e inconveniente da história para a vida 7. Como destacou Scarlet Marton (1991). Nietzsche traz consigo a marcante influencia de duas pessoas: Schopenhauer5 e Wagner6. nesta primeira obra publicada. marca o rompimento da amizade entre ambos. Malwida não pode esconder seu embaraço. “as Considerações Intempestivas são. que é o primeiro de uma série de obras a serem escritas pelo autor e publicadas na maioria das vezes as próprias custas. 30). Também em 1878. o filósofo se manterá e custeará o lançamento de 5 6 7 Filósofo Alemão e autor de O mundo como vontade e representação e outras obras. . diante da renuncia por parte dos editores em publicar sua filosofia. neles Nietzsche almejava trazer para o debate uma serie de temas polêmicos na Alemanha contemporânea a ele. Nietzsche esteve doente. belicosas. 1991. o texto: Humano. por outro lado. Essa é a questão fundamental de toda a obra de Nietzsche” (MARTON.um livro para espíritos livres8 foi publicado. 1991. enviada como correspondência a Nietzsche por Richard Wagner. Quatro textos que compõem as Considerações Intempestivas. todas elas. A terceira destas considerações traz por titulo Schopenhauer Educador.

aquilo que vários de seus biógrafos chamam de Errança. que desde 1973 estivera 9 Trata-se de uma coleção de aforismos sobre variados temas reunidos numa única obra. 1991. Apesar de seu “estado de saúde desesperador”. 14 Reunião de textos cujos temas variam desde os “ideais ascéticos” até a filosofia socrática. O ano de 1888 é muito produtivo. . Em 1881 publica Aurora. ciência. narrando às historias vividas e listando os discursos do personagem Zaratustra. somente para a partir disso poder discorrer sobre arte e cultura alemã do século XIX. Para Além do Bem e do Mal também seria publicado em 1886 a partir do custeio do próprio Nietzsche. Os temas centrais da obra são moral. este livro traz ilustrado os principais conceitos desenvolvidos por Nietzsche ao longo de suas obras: O Eterno Retorno. 10 Semelhante a Miscelânea de opiniões e sentenças. sendo esta a primeira obra a trazer o anuncio da morte de Deus. se trata de uma coleção de aforismos com variados temas. cujo principal objetivo no livro é anunciar o “sentido da terra”. p. estando à beira do lago de Silvaplana tem a “revelação” do Eterno Retorno. ou o “alegre saber” se trata de uma das mais conhec idas obras de Nietzsche. Nietzsche fala de Wagner. e a ciência. Obra capital do autor. Ainda que doente. E em 1883 redige já em janeiro a primeira parte de Assim Falou Zaratustra12. uma vez que não se prende mais a uma única localidade. E inicia neste período. 13 Livro que reúne os escritos de Nietzsche referentes a Richard Wagner. dentre eles destacamos uma peculiaridade da obra: Nietzsche traz aforismos com os nomes dos principais pensadores e artistas anteriores e contemporâneos a ele. Nietzsche redige o Niilismo Europeu e publica Para uma Genealogia da Moral. 12). O Andarilho e a Sua Sombra10. viaja e escreve. As outras duas partes deste livro seriam redigidas até o ano de 1884. O anticristo15. e Ecce Homo16. A doença. no entanto. As obras. Nestes podemos ver uma espécie de doxografia cunhada por Nietzsche a respeito da obra de diversos outros pensadores e compositores. não se tratam de autobiografias. No ano seguinte. Nietzsche escreve Miscelânea de Opiniões e Sentenças9. compositor e dramaturgo alemão do século XIX. Nietzsche publica as quatro primeiras partes de A Gaia Ciência11. Em 1887. O Super-Homem e a Auto-superação de si. A Gaia Ciência. temas estes que sempre aparecem nos livros publicados pelo autor após as Considerações Intempestivas (1873). são temas recorrentes a moral. o super -homem Nietzschiano. O Crepúsculo dos Ídolos14.16 muitos de seus livros. 12 Livro escrito em prosa. manda imprimir 40 exemplares da quarta parte de Zaratustra e não consegue reunir sete nomes interessados em ler o livro” (DIAS. viajando por várias cidades enquanto redige seus livros. a arte. 11 Obra tomada como importante referencia para a compreensão dos temas ligados a historia no presente estudo. e diante da recusa do editor em publicálas “com suas próprias economias. e de acordo com Rosa Maria Dias (1991) em agosto. neste período Nietzsche escreve: O Caso Wagner13. arte e religião.

estando sob os cuidados da mãe e da irmã.. nos remete a um olhar sobre o panorama histórico diante do qual Nietzsche produz suas obras. ela “queria levar a crer que conhecia as intenções dele melhor do que ninguém” (MARTON. Suas ideias passaram pelo século XX. “Com os anos. . comenta as principais obras por ele escritas e as intenções que as geraram. Se o pensamento de Nietzsche se conserva intempestivo ou extemporâneo como o adjetivou Scarlet Marton (1991). em especial: a SCI. Em 1890 Nietzsche deixa a clínica psiquiátrica. outros o critico da ideologia. É levado para a Basiléia e internado na clínica psiquiátrica” (DIAS. Nietzsche conheceu aquilo que Scarlet Marton (1991) diz ser a “deturpação” vinda depois do “descrédito”. Há os que o consideram um cristão ressentido e os que veem nele o inspirador da psicanálise” (MARTON. 10). Alguns fazem dele o precursor do nazismo. neste sentido é que. Ele sofre uma “crise de demência em Turim. 1991.17 presente. 1991. p. p. 16 Autobiografia de Nietzsche. 1997). Marton (1991. e do sentido extemporâneo de seu pensamento. desde 1900. 13). 10) nos diz que “extemporaneidade não significa anacronismos.” (FERNANDES. O autor julga ser necessário fazer uma balanço daquilo que publicou. Nesta época. suscitando diversas discussões e fundamentando outras tantas filosofias. p. 91). revisitado e discutido. 1991. p. O dicionário de língua portuguesa define “extemporâneo” como “que vem fora do tempo. em alguns volumes conhecidos como seus escritos póstumos. inserido num contexto preciso” (Idem. mas apenas certa maneira de se relacionar com o presente”. multiplicam-se as interpretações de sua filosofia. denunciando na pratica destes a dissimulação dos valores e a proliferação de uma moral do ressentimento. Sua irmã Elizabeth Foster Nietzsche o ajuda a organizar algumas publicações. inoportuno. p. sua irmã continuou a organizar e publicar seus aforismos. um estudo que pretende abordar qualquer tema correlato à filosofia de Nietzsche. mas um discurso mesclado a um tempo e a um espaço determinados. cuja pretensão é discutir a concepção que o autor desenvolve acerca da história enquanto conhecimento entende-se que o “que Nietzsche diz não constitui um discurso autônomo e independente. nem dons proféticos. Ibidem. devemos ter um determinado cuidado: Não se deve confundir extemporaneidade ou intempestividade com alguma espécie de anacronismo. cujo período de formulação compreende aos primeiros anos da 15 Obra na qual Nietzsche se posiciona contra o cristianismo tal como ele é praticado pelos cristãos ao longo dos séculos. No presente estudo. ano de seu falecimento Nietzsche tem sido retomado. 10). No livro. leva Nietzsche a um colapso em 1889. Com isso. Mesmo com o falecimento de Nietzsche ocorrido na cidade de Weimar no ano de 1900. no sentido marxista..

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produção intelectual do autor. Diante de tal questão, seguimos a apresentar o panorama histórico da Alemanha do século XIX, bem como sua relação com a produção da II Consideração Intempestiva. Objetivamos com isso demonstrar como o século XIX e sua conjuntura histórica específica se relaciona diretamente com as problemáticas abordadas por Nietzsche em sua obra, em especial, as Considerações Intempestivas cujo objetivo era criar uma grande polêmica em torno de temas como educação, história e cultura.

1.2 Friedrich Nietzsche e o panorama da Alemanha do século XIX: o contexto intelectual e histórico das Considerações Intempestivas

A sociedade na qual Friedrich Nietzsche viveu, era a sociedade da época moderna, herdeira do Iluminismo e solo onde se desenvolveram correntes como a Filosofia da História e o Historicismo Alemão. Nietzsche foi o autor de uma extensa produção filosófica, publicada nos anos que se seguiram a 1870 como apontamos acima. Seu período de produção coincide, portanto, com aquele que, segundo Bourdé & Martin (1983), a história ganhando cada vez mais importância, se institui como disciplina científica autônoma. Segundo Lefranc (2008) II Consideração Intempestiva, tem origem no século do historicismo alemão. Num contexto onde os postulados científicos que permeiam as investigações históricas variavam entre a história erudita, o positivismo e o historicismo. Frente a isso, pretendemos, neste subtópico, abranger o contexto histórico da criação da obra Nietzschiana, em especial das suas Considerações Intempestivas. É buscando pelas correntes de pensamento que se mantinham ou se desenvolviam ao longo do século XIX que pretendemos colocar a prova a tese de que o discurso de Nietzsche é “mesclado a um tempo e a um espaço determinados, inserido num contexto preciso” (MARTON, 1991, p. 10). No intuito de evidenciar tal nuance, investigamos os acontecimentos históricos que se sucederam na Alemanha do século XIX. Nossa intenção aqui é demonstrar como os assuntos abordados nas polêmicas considerações de Nietzsche sobre Educação, Cultura e História, ligam as intenções do filósofo a uma conjuntura, a uma época especifica da história alemã. Segundo Gardiner (1974, p. 3), “o século dezessete europeu foi predominantemente um século de progresso nas ciências físicas”. Foram estas que promoveram os importantes desenvolvimentos em infraestrutura típicos da Revolução Industrial. Segundo o mesmo autor,

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decorre da influência das ciências físicas o desejo de conseguir nas investigações científicas em geral, o rigor e a exatidão engendrados pelas ciências físicas e matemáticas. Desenvolveuse a partir disso uma corrente de pensamento que acreditava ser possível, através da correta interpretação do passado, isolar leis universais para se compreender o processo do desenvolvimento histórico. Este era um modo de conseguir a exatidão, a lei deveria ser geral e universal. Diante dos aspectos apontados acima, temos o momento da Filosofia da História17 que procura por leis que possibilitem enquadrar o desenvolvimento humano. “Através de uma compreensão correta do passado, se tornará possível controlar fenômenos sociais de um modo semelhante ao que torna o cientista físico capaz de dominar a natureza” (GARDINER, 1974, p. 6). A filosofia da história contribuiu para legar importância às investigações históricas ao instituir que através destas investigações seria possível entender as leis, que, ainda segundo Gardiner (1974) só poderiam ser conhecidas recorrendo-se aos fatos da história humana. De acordo com Bourdé & Martin (1983, p. 40) Kant, Hegel e Comte, se inserem neste contexto de filosofia da história, e tem como característica comum, o fato de que suas investigações privilegiaram todo “gênero”, em detrimento das individualidades. Logo, quando Nietzsche crítica duramente a História feita nos moldes hegelianos em sua II Consideração Intempestiva, podemos dizer que sua crítica se dirige ao conjunto de características que Hegel tinha em comum com estes filósofos da história, no que diz respeito às Leis gerais em detrimento dos individualismos e da ideia de processo ou progresso continuo da história. Além disso, interpretar a história como um processo no qual o progresso é continuo, segundo Nietzsche (2003) fomenta nos sujeitos modernos a ideia de que eles são epígonos, frutos da árvore do desenvolvimento. Com a crescente importância legada as investigações históricas, com o passar dos anos o desenvolvimento de uma concepção de que a história necessitava de um método orientador das suas produções se firma dentre os eruditos que se dedicavam aos estudos históricos, “as origens da escola metódica dos historiadores profissionais, muitas vezes chamada positivista se esclarecem mais se nos virarmos para os eruditos dos anos 1700” (BOURDÉ & MARTIN,
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Segundo Pecoraro (2009), o termo filosofia da história foi citado pela primeira vez pelo filosofo francês

Voltaire em 1765. Sendo, portanto, atribuída a ele a autoria do termo que foi empregado posteriormente por diversos autores como Patrick Gardiner (1974) para englobar o conjunto de investigações cujas características teleológicas e escatológicas buscavam extrair da história um sentido de desenvolvimento, não só acerca do passado e do presente, mas também para prever a partir da mesma constância ou lei, um desenvolvimento futuro da sociedade.

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1983, p. 40). Seguindo esses aspectos, ao longo do século XIX é que historiadores profissionais surgem e a história se institui enquanto ciência e os intelectuais da história refletem sobre um método regulador da prática do historiador, e assim a “filosofia da história” dá lugar as a concepções de intelectuais como Droysen18 e outros, como Wilhelm Dilthey, que alguns autores como Cambi (1999, p. 505) aponta como sendo um “fundador do historicismo e teórico da autonomia das ciências do espírito”. O historicismo, que se desenvolve ao longo do século XIX é a resposta às necessidades criadas pela emergência da sociedade burguesa, tal como nos mostrou Martins (2002, p. 03) ao salientar que foi necessária “uma nova forma da consciência histórica” para explicar essa nova realidade sociopolítica instaurada nos anos que se seguiram a Revolução Francesa. Pois bem, neste contexto não se pode isolar cada característica e engessá-la em sua corrente específica. De acordo com Bourdé & Martin (1983, p. 40-150), características da filosofia da história perduram na forma historiográfica e de maneira visível até pelo menos metade do século XX. Quando Nietzsche (2003) critica a ciência e a história do século XIX, o autor não se posiciona contra uma única corrente. Sua crítica abarca tanto características da filosofia da história que perduraram na historiografia, como a ideia de processo histórico e progresso, como também a pretensão do historicismo de fazer da história uma disciplina cientifica. Segundo Marton (1972) Nietzsche é um extemporâneo. E, no sentido em que ela o aponta, dizer que Nietzsche é extemporâneo equivale a dizer que ele se posiciona “contra seu tempo”. E se ele se conservou extemporâneo em sua Segunda Intempestiva, isso pressupõe a ideia de que sua crítica se dirige as características institucionalizadas por várias correntes que se influenciam mutuamente desde o século XVII, culminando no século XIX a situação na qual a história tendo ganhado crescente importância, e as investigações históricas tendo alcançado um volume sempre crescente, Nietzsche identifique no excesso de história um dos vícios da cultura moderna. Segundo o próprio Nietzsche é isso que ele faz em sua II Consideração Intempestiva, ou seja, “interpretar como um mal, uma enfermidade e um vício” (NIETZSCHE, 2008, p. 16), algo de que os seus contemporâneos do século XIX eram orgulhosos – seu sentido histórico. Para Marton (2001),
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Segundo MARTINS (2002) Droysen, historiador alemão do século XIX, teria elaborado uma concepção da

história como ciência, uma vez que seu pensamento abrangeu não a história enquanto processo, qualidade típica do filosofo da história, mas sim a história enquanto conhecimento, portanto uma teoria da história propriamente dita.

o reino do animal de rebanho. Tal “educação” tem como principais características o seu viés profissionalizante e seu utilitarismo. 188). Segundo Marton (2001. igual. bem como a história cientifica defendida pelo historicismo. Em seu livro Ecce Homo (s/ ano). crítica a imposição do que é uniforme. 131). passando também pela educação e cultura típica do século XIX. ataca o reino do animal de rebanho.21 Analisar as ‘ideias modernas’ é justamente um dos propósitos que o filosofo se coloca em grande parte de seus escritos. ou massificação. Nelas. 188) o que se almejava com os ideais defendidos pela revolução francesa eram a nivelação gregária. Nietzsche opta por elaborar uma crítica radical. e igualdade teria supervalorizado aquilo que é uniforme. pois quer criar através da uniformidade um reino do “animal de rebanho”. de cunho cristão. denunciando a proliferação de conceitos. a Revolução Francesa e a Ascensão da Burguesia. a partir da introdução de um novo parâmetro – as ações egoístas e não egoístas. 2001. p. e chama a atenção para a deformação historicista da consciência moderna (MATOS. a dialética do iluminismo. p. Rebela-se contra a educação e a cultura. o Iluminismo. Cabe destacar algumas expressões utilizadas pela autora acima: “procedimento dos ressentidos” diz respeito. e assim a Revolução Francesa seria a filha do cristianismo. A moral dos ressentidos. Para Nietzsche. recusando-se a realizar uma nova revisão do conceito de razão. A educação burguesa busca formar a todos com um determinado nível de cultura e esse. Segundo Matos (2001) a crítica radical de Nietzsche a modernidade abarcaria desde o cristianismo até o historicismo. mas fomentam um modelo de formação que impõe a nivelação. Crítica o cristianismo e o identifica como cúmplice de um abstracionismo que esvaziou tudo quanto é essencial. ou seja: os valores morais modernos não criam seres excepcionais. necessário para que o indivíduo possa desempenhar suas funções no mercado de trabalho ou no Estado. p. Volta-se contra a metafísica. Nietzsche deixa clara a temática a qual se dedicavam as quatro Considerações Intempestivas. e tendo em vista que para Nietzsche cultura e educação não são . assim. através dos ideais de liberdade. de alguma forma. destituindo. formulando para esta um contraponto para as ideias de “bom” e “mal”. teriam produzido um efeito negativo sobre a cultura moderna que se relaciona com este nivelamento. (MARTON. Elas têm o objetivo atacar a cultura moderna. 17 – 47) na sua gênese se opôs a moral aristocrática. 2001. denuncia o procedimento dos ressentidos. a moral de cunho cristão. que na visão de Nietzsche (1998.

Usava o mesmo raciocínio para abordar as riquezas mundanas e as riquezas culturais” (MARTON. execravam a liberdade gozada pelos acadêmicos. Como destaca Meyer (1990) Nietzsche ao defender tais ideias se posiciona contra as “consequências da ascensão da burguesia”. Sem sentido. Com Friedrich Nietzsche. No campo pedagógico. O próprio Nietzsche não se priva de criticar a educação moderna. que Nietzsche se delonga a analisar educação. O primeiro ataque (1873) incidiu na cultura alemã. p. do trágico e do niilismo. que nessa altura eu já desdenhosamente olhava com um desprezo implacável. as suas considerações antes de tudo afirmam um ideal de formação humana. Mostram que eu não era nenhum ‘João sonhador’. em detrimento do ideal burguês de cultura e educação. inculta em questões de arte e crédula na ordem natural das coisas. Rosa Maria Dias (1991). deixa clara a proximidade e a relação estreita que Nietzsche faz entre educação e cultura. E exatamente pelo fato de se pretender atacar a cultura alemã é que nas II e III Considerações Intempestivas. s/data. apud DIAS. delineando um novo modelo de civilização (CAMBI. que me dá prazer desembainhar a espada – e talvez ainda que a sabia perigosamente empunhar. apesar de não serem cultos. quando a evolução dos argumentos listados no texto da Segunda Intempestiva. e com o fim de possibilitar a implantação de seu projeto de cultura Nietzsche defende um modelo pedagógico embasado na crítica da modernidade e inspirado no modelo fornecido pela Grécia pré-socrática. 63). “o filisteu era uma personagem de bom-senso. a qual ele identificava como sendo uma classe de “filisteus”. sem meta: uma simples ‘opinião pública’. tinham a ilusão de o serem. 1999. sendo ele um grande estudioso da Grécia pré-socrática. p. A pedagogia oitocentista criava. 504). portanto. almejava superar os valores burgueses sobre o qual estava assentada a educação e consequentemente a cultura moderna. Diz ele que “o . (NIETZSCHE. As quatro Intempestivas são belicosas de princípio ao fim. p. delineiam-se no plano pedagógico uma crítica a tradição educativa e a proposta de uma nova Paidéia dirigida para a superação da concepção Greco cristã para dar corpo aos valores do superhomem. Sobre esta expressão cabe esclarecer algumas definições . sem substância.Scarlet Marton destaca que filisteu era a palavra utilizada nos meios acadêmicos universitários para designar pessoas que por serem estritos cumpridores das regras e leis. 1991.22 coisas separadas. o permitem fazê-lo. Ademais. não o homem singular. em seu livro Nietzsche Educador. mas sim uma massa de “filisteus cultos”. Há ainda outra característica: Os filisteus da Cultura. 29).

tendo em vista sua época é. ou Extemporâneas (como alguns tradutores insistem em chamá- 19 Tal como vemos exposto no subtítulo da obra O Crepúsculo dos Ídolos – ou como filosofar a golpes de martelo. Educação. 8). não pode ter” (NIETZSCHE. Já em outro texto. e dentre estas aquela que levou a história a ocupar o lugar de ciência do homem. e o sentido histórico que da ao homem moderno a justiça pautada em sua objetividade. p. A crítica de Nietzsche a história ocupa um lugar no conjunto dos argumentos que ele constrói contra toda a cultura e ciência moderna. e também instituições educativas da Alemanha do século XIX. como destacou Marton (1992). tendo em vista uma severa objeção ao paradigma de ciência moderno. p. . justamente por que na crítica Nietzschiana da modernidade eles são indissociáveis. Vemos assim um autor que mantém associações entre sua filosofia e sua época. inserido num contexto preciso” (MARTON. devemos entender que seu modo de filosofar a marteladas19. pois. ele somente se caracteriza como tal uma vez que se posiciona contra seu próprio tempo e assim. p. visa uma cultura alemã que seja propicia a “reflexão. 41). História. em virtude de sua educação. De maneira mais geral. portanto. e em especial o texto de UIHV. 119). é desta maneira que o discurso de Nietzsche é “mesclado a um tempo e a um espaço determinados. argumenta sobre o uso e o desuso da história. que como destacou Rosa Maria Dias (1991). sobretudo. A afirmação deste projeto se dá diante da crítica aguçada das correntes de pensamento. sobretudo evidenciar a afirmação e a existência de um projeto Nietzschiano de cultura. Nas Considerações Intempestivas temas como Ciência. Mais uma vez o pensamento de Nietzsche aparece. que em sua tarefa de ensinar passam para as gerações mais jovens uma virtude que Nietzsche na SI identifica como um vício: O excesso de história. Em geral toda a sua obra obedece a este principio. 2001. portanto. de torturante e envenenador da vida na nossa forma de cultivar a ciência”. e sobretudo inserido em um contexto especifico. “está. em condições de questionar a cultura filistéia que lá julga encontrar” (MARTON. quebra algo para possibilitar a construção de algo ainda mais aprimorado num constante processo de superação e criação. A SCI. de reavaliar e criticar a modernidade. E se o autor assim o faz. e. Quando Nietzsche se diz extemporâneo. 1991. entender as Considerações Intempestivas.23 alemão não tem cultura por que. Em especial as Considerações Intempestivas. 2008. ao espírito critico e a atividade criadora” (DIAS. p. Arte e Cultura aparecem juntos. mesclado a um tempo. 1991. 10). Ecce Homo Nietzsche diz: “A segunda Intempestiva (1874) traz à luz o que há de perigoso.

2001. onde o autor faz transparecer não só algumas características da conjuntura histórica inerente a modernidade. numa série de consequências incididas na cultura alemã oitocentista. são perpetuadas por uma educação massificante. em suma. tais como a Genealogia da Moral e A Gaia Ciência. mas também crítica e propõe um projeto de cultura em detrimento da cultura moderna. Empreenderemos aqui. 2001. Na SCI em especial. que segundo Nietzsche (2003). na quarta parte do texto. p. um esforço semelhante ao que foi empreendido por Junot Cornélio Matos (2001). Tal fenômeno resulta. 129). em si. “Ver” a época moderna através dos apontamentos feitos por Nietzsche em tais obras se trata de engendrar uma reconstrução que necessariamente se dá a partir de dois elementos. teria abandonado o ideal de formação humana em prol de indivíduos “medianos”.3 Reconstruindo a época moderna a partir das Considerações Intempestivas É possível ver a modernidade e o século XIX a partir de uma leitura atenta das Considerações Intempestivas e do cruzamento desta com alguns outros textos redigidos pelo próprio Nietzsche. 1. instruídos para o mercado de trabalho. é possível ver a época moderna a partir dos escritos de Nietzsche por que este os compõe exatamente para criticá-la. um projeto nietzschiano de cultura. segundo o autor. Para este autor em especial. é dominada por um excesso de história. em especial o século XIX. define uma série de características que permitem reconstruir um pedaço da modernidade. Em outras palavras. 130). Diz ele que é possível demonstrar a “filosofia de Nietzsche como uma das possibilidades de leitura da modernidade” (MATOS. o homem moderno ao qual Nietzsche dirige suas críticas ao longo de toda a sua obra filosófica. o espírito do tempo” (MATOS. uma vez que este. De fato não somos os primeiros a tentar ver o conjunto de fenômenos sociais e históricos que chamamos de modernidade a partir da obra de Nietzsche. p. a cultura e a educação. em um trabalho acerca das críticas nietzschianas à modernidade. enquanto filósofo extemporâneo. que de acordo com o exposto em Schopenhauer Educador (2007).24 las) trazem a marca desta iniciativa crítica que pretendia defender uma cultura renovada. que criaram um tipo humano especifico. a época. . Nietzsche ao argumentar acerca da necessidade de se reconciliar o conhecimento histórico com uma necessidade vital. se torna possível efetivar tal esforço a partir dos escritos de Nietzsche. Tais consequências. desenvolveu seu pensamento no sentido de “voltar-se para o que é inatural e de combater.

Tais leituras complementam nossa interpretação das considerações intempestivas. portanto. 2003. mais precisamente. ele faz ao leitor um convite: “lancemos rapidamente um olhar sobre o nosso tempo! Nós nos assustamos. . de metonímias. como a única perspectiva correta.25 Em sua II Consideração Intempestiva. e a objetividade é uma garantia de validade do conhecimento histórico. recuamos diante dele: Para onde foi toda a clareza. A ideia de verdade do conhecimento científico dá ao homem moderno a autoridade de se posicionar como juiz frente às outras épocas. mas sim como uma crítica a adoção de uma única perspectiva. demasiado humano (2007). a objetividade e a justiça na concepção do homem moderno. p. pois a própria 20 Temos diversos exemplos de considerações sobre o conhecimento cientifico em textos da A Gaia Ciência (2006) do aforismo 343 ao 383. toda a naturalidade e pureza daquela ligação entre vida e história” (NIETZSCHE. acarretaria num perigo eminente: a institucionalização de uma cultura essencialmente interior. depois de um longo uso. o tempo de Nietzsche é exatamente o século que busca fazer da história uma ciência. transpostas. uma soma de relações humanas. o sentido histórico moderno impulsiona o homem moderno a uma erudição desenfreada20. verdadeira e objetiva. p. onde a ciência é feita em nome do acúmulo de conhecimento científico e não de acordo com a necessidade vital de um povo ou de uma época. 84). Tal acúmulo de erudição. em resumo. de antropomorfismos. E se o conhecimento objetivo (verdadeiro) do passado torna o homem mais justo. Ora. figuras e relações que foram poética e retoricamente elevadas. parecem a um povo firmes. Nietzsche (2003) diz que para o cientista moderno ser objetivo é estar neutro. na quarta parte de seu texto. desconsiderando-se assim as outras possíveis interpretações e perspectivas. expressa nas Considerações Intempestivas não aparece como sendo uma crítica “a uma perspectiva”. Na sua II Consideração Intempestiva. Nietzsche (2003) critica o acúmulo de conhecimentos históricos sem que estes vivifiquem uma ação vital. enfeitadas e que. O que é. no entanto. na visão do autor é infecundo pois. O homem de cultura na modernidade é o homem do sentido histórico. E. o homem do “vir a ser”. 2007. na visão de Nietzsche tornar a história uma ciência e buscar interpretar o conhecimento acerca do passado do homem de maneira científica. canônicas e constrangedoras” (NIETZSCHE. A crítica de Nietzsche. não ajuda na difícil tarefa de demonstrar como a ideia de verdade é um preconceito de ordem moral que faz com que o conhecimento cientifico seja supervalorizado. e faz a relação entre a verdade. traz toda uma sessão na qual discute a “alma dos artistas e dos escritores”. a verdade? Uma multidão movente de metáforas. E o livro Humano. por isso em sua crítica Nietzsche desconstrói a ideia de verdade. 32).

a horda dos homens historicamente neutros já está sempre a postos para visualizar o autor a uma distancia considerável. mas os inibe. p. Uma vez procedendo assim. como poesia. mostra” (NIETZSCHE. é imediatamente colocado ao lado de outros artistas e comparado com eles. 32). como música: imediatamente. o oco homem da cultura lança o seu olhar para além desta obra e pergunta pela história do autor. Qualquer nova produção humana. tal como a moderna cria tipos humanos cujo interior se encontra em conflito com o exterior. de maneira quase que exclusivamente histórica. pois deixá-lo inculcar qualquer tipo de ação recairia num subjetivismo a ser evitado em nome da cientificidade da análise que se planeja engendrar. recorrendo aos fatos passados. p. a história. numa interpretação objetiva. tal como agora a ciência do vir a ser universal. desfaz qualquer possibilidade de aquele fenômeno gerar no individuo moderno uma ação segundo a concepção do autor da citação. Tendo este autor já criado muitas obras. . Assim nada mais consegue agir sobre elas [as personalidades modernas]. Segundo Nietzsche (2003) Isso se da diante do fato de que compreendê-lo é antes de tudo. advertido e corrigido no todo. Seu conhecimento não se reflete em ações. A neutralidade que a objetividade do conhecimento científico de um fenômeno exige. permanecer neutro frente a ele. onde o ponto de vista histórico do “vir a ser” e a perspectiva do conhecimento científico objetivo são supervalorizados. e enquadra num conceito. que se apresente ao homem moderno é imediatamente posta sobre análise. inconfundível em duas de suas características: Seu sentido histórico e sua cultura essencialmente histórica. do seu modo especifico de tratá-lo. pode haver algo bom e justo.26 cultura histórica é dominada por este excesso da história que a tudo desmistifica. e por isso ele se conserva justo em seu juízo. é imediatamente obrigado a já ter esclarecido o curso prévio e o curso ulterior presumível de seu desenvolvimento. A coisa mais espantosa possível pode acontecer. (NIETZSCHE. O homem moderno julga desta forma. esfacelado em função da escolha de seus material. como ato. 46). “Um espetáculo tão inabarcável não foi visto por nenhuma geração. é dissecado. para que dessa se extraia um nexo de sentido histórico. 2003. toda a análise empreendida pelo homem moderno esta pautada na autoridade do sentido histórico. Uma cultura essencialmente histórica. A modernidade é então. que é a de que se algum fenômeno é compreendido e julgado historicamente ele está “morto” para aquele que o conheceu. Em seguida. 2003. em nome da neutralidade própria ao homem objetivo e justo. ele é uma vez mais recomposto.

isso contribui para uma “perca da peculiaridade” em nome dessa mesma pressa universal. como destaca Nietzsche estavam a andar. mal copiado. não gera uma “forma alemã” em oposição a uma “forma francesa”. do ritmo acelerado de uma vida urbana. Logo. Cada um age a sua vontade. industrializada e fabril. não uma vontade forte. convém notar aquilo que o autor entende por cultura. p. temos certa uniformidade estilística. os alemães mesmos. os alemães não são alemães autênticos: Façamos um passeio por uma cidade alemã – toda convenção. É algo visível por manter harmonia entre o interior e o exterior do individuo. tudo é incolor. 33) “a estranha oposição entre uma interioridade a qual não corresponde a nenhuma exterioridade e uma exterioridade à qual não corresponde a nenhuma interioridade – uma oposição que os povos antigos não conheciam”. fazia-se sentir na Alemanha um enfraquecimento de suas manifestações culturais. vestir e morar como os franceses. em detrimento do conteúdo. que se pretendia alemão em oposição ao Francês. numa espécie de imitação arbitrária ao princípio de cultura acima descrita. 2003. uma vez que os pensamentos comuns são expressos em manifestações comuns a todos do grupo. A esta unidade estilística a cultura moderna não conservou. p. 35-36). literárias. foram ambos “nivelados” e segundo Nietzsche (2003) sua forma já não expressa mais diferenciações. 37). negligente. portanto. no entanto. a oposição entre cultura alemã e francesa não se sustenta mais. p. 2003. resultante de um desdém para com a forma. comparada com a peculiaridade nacional das cidades estrangeiras mostra-se aqui negativamente. Cultura. seus pensamentos. Um povo que tem uma cultura “só deve ser em toda a realidade uma única unidade vivente e não esfacelar-se tão miseravelmente num interior e um exterior. Isso mina qualquer pretensão de uma unidade cultural coesa própria de uma nação de personalidades fortes. É nesta característica. ou num modo de vida. O pensamento alemão. mas segundo as leis que prescrevem a pressa universal e. E é nesta ausência de peculiaridades que reside a característica da cultura moderna. Para se entender melhor tal oposição. para Nietzsche (2003) se trata da maneira como um determinado indivíduo exprime em ações artísticas. então. rica em pensamentos. portanto. a busca geral por comodidade (NIETZSCHE. A época moderna é a época da pressa. a principal característica do tipo humano moderno? Nas palavras do próprio Nietzsche (2003. gasto. portanto. de seus pensamentos e sua ação. . Na forma.27 Seria esta. Pensando isso na escala de um povo. Justamente na época em que os alemães acabavam de alcançar sua unidade nacional. em conteúdo e forma” (NIETZSCH. que a modernidade se faz conhecer.

ao estilo inglês. e sendo esse não um problema alemão. segundo Nietzsche (2003) não se pode mais precisar. em prol da extensão de criar seres massificados. p. por ser a “unidade do espírito e da vida alemã” (NIETZSCHE. ela não tem outra” (NIETZSCHE. próprios desta cultura moderna. uma peça de roupa tomada por empréstimo do estrangeiro e copiada da maneira mais descuidada possível. tendo em vista que a educação e a cultura não são coisas distintas para Nietzsche. se ele tem realmente um interior. 40) só seria possível com a aniquilação da oposição entre forma e conteúdo.. Nietzsche contrapõe um dever: “a humanidade tem o dever de trabalhar sem cessar em produzir grandes homens. É neste intuito que Nietzsche se posiciona contra a cultura moderna. e se posiciona contra os excessos de sentido histórico. A esse modelo massificado de educação e o seu tipo humano mediano. qualquer problema na cultura de um povo tem seu correlato na educação. Na modernidade. Talvez por isso. e muitas pessoas tiveram acesso ao ensino. e ao egoísmo do estado. tem realmente uma cultura. 37) No entanto. Uma peça de roupa cuja invenção não quebra a cabeça. pois certo grau de formação era necessário para desempenhar as novas funções que agora surgiam num novo modelo de sociedade. 67-99) reduzida à servidão. ao egoísmo da classe dos comerciantes. A unidade alemã. Segundo Rosa Maria Dias (1991). que não demanda tempo algum para ser vestida. a educação tinha perdido seu ideal de formação humana. medianos para ocupar cargos no estado ou no mercado de trabalho. como podemos notar os sinais de “evaporação” do próprio conteúdo? – decorre da dicotomia entre forma e conteúdo. se o alemão do século XIX. tanto alemães como franceses se vestem com trajes produzidos na Inglaterra. p. o fato de que. Se a cultura moderna padecia de um excesso de história. a cultura é segundo Nietzsche (2007. ou seja. 2007. 2003. mas sim da modernidade e da cultura moderna. 2003. vale imediatamente para os alemães como uma contribuição para o vestuário nacional (NIETZSCHE. A ascensão da burguesia provocou tal virada pedagógica especialmente no século XIX. ainda que este não se reflita numa forma exterior.28 A cultura é essencialmente interior. unidade num sentido que Nietzsche diz ser “supremo”. é sua tarefa. surge um tipo humano . Nietzsche tenha dispensado tanta atenção ao problema da educação alemã no século XIX. Toda a II Consideração Intempestiva representa um repúdio à cultura moderna e das consequências que a pretensão de objetividade cientifica tem na personalidade do individuo moderno. p 67).. p. Desta aliança. numa cultura onde a forma não reflete o conteúdo. cada vez mais tecnológico e urbano.

A história em excesso criava problemas. na tarefa de reconstruir a o panorama histórico de Nietzsche e é justamente com ela que nos evidencia uma sociedade herdeira do ideal de igualdade defendido na Revolução Francesa. p. útil ao comerciante e ao estado. Essa guinada pedagógica apontada acima nos auxilia. a ciência em detrimento da vida. A concepção de que o mais justo é aquele que possui mais objetividade. e obedecem as leis do estado. necessidade que. e o excesso de história. inclusive a história em sua pretensão a objetividade. Nas considerações intempestivas. favorece a erudição pela erudição em detrimento da ideia de que o conhecimento tem que estar a serviço de uma necessidade vital.29 sábio (por possuir cultura geral) dócil. . Ideias essas que são: a massificação dos indivíduos em detrimento de um ideal de formação humana. Em que a evidência de uma cultura essencialmente histórica nos ajuda a reconstruir o panorama histórico no qual se insere a obra de Nietzsche? Tal evidência nos mostra uma cultura herdeira de uma acepção teleológica dos fatos históricos. a ascensão da burguesia. o sábio constrói sua cabana bem perto da torre da ciência para poder ajudá-la e para encontrar proteção para si próprio sob o baluarte existente (NIETZSCHE. de um povo e de uma época. que levou a necessidade de uma nova tomada de consciência histórica. 21 Expressão utilizada no texto Introdução teorética sobre a verdade e a mentir ano sentido extramoral para demonstrar como uma interpretação molda o signo interpretado de acordo com o intelecto daquele que interpreta. esta deve estar a serviço da desconstrução da ideia de verdade a qual está ligada a ciência moderna. 2007. O projeto de cultura que Nietzsche quer construir leva em consideração que o homem de ação na modernidade necessita da história para realizar em sua humanidade forma plena: O homem de ação já liga sua vida à razão e aos conceitos para não ser levado pela corrente e para não se perder a si mesmo. segundo Martins (2002) se desdobrou na corrente historicista do século XIX. O que defende o autor frente a tais fatos? Que a ciência seja feita em virtude das necessidades vitais dos indivíduos. pois consome os produtos que fazem o comerciante lucrar. 90). Nietzsche se coloca como sendo o polêmico critico de todo o conjunto dessas características “modernas”. mas tendo em vista que a história é imprescindível para o agir humano. evidencia inegável que a época moderna não se desvencilhou dos preconceitos de ordem moral que regem a concepção de “verdade” e “objetividade” do conhecimento cientifico. É justamente tal crítica a educação que nos evidencia também. tendo em vista que para Nietzsche este não representa mais que um antropomorfismo21.

a primeira das Considerações Intempestivas. embora esteja dividida em quatro textos distintos. na II Consideração Intempestiva. 22 Caminho – palavra utilizada meteforicamente para expressar em Assim Falou Zaratustra a missão do homem de se auto superar num constante processo de aprimoramento que daria origem ao super-homem nietzschiano. De acordo com este autor. A batalha de Nietzsche contra ciência sem vivificação e contra os excessos da história. mas sim o coloca numa outra perspectiva que não visa dar ao homem moderno a sensação de ser epígono. toda a obra. representa o primeiro ataque. O objetivo destes textos era chamar a atenção dos alemães contemporâneos a Nietzsche para polêmica que o autor criou em torno de alguns temas específicos relacionados com sua época. que ficaram conhecidos como Considerações Intempestivas. onde o autor delineia a tese extemporânea de que o excesso de história é prejudicial a vida. O próprio Nietzsche justifica os recortes escolhidos para suas considerações em sua autobiografia publicada alguns anos depois. Seguindo esses aspectos. Nietzsche publica quatro textos. intitulada David Strauss. podemos ver que Nietzsche não exclui os estudos históricos em face da filosofia ou de qualquer outra forma de pensamento. a ruminação dos valores morais parte de uma iniciativa do próprio cientista que se volta contra a ciência. no entanto. do historiador que se utiliza da história para reconciliar a história e a vida. segundo o autor. O homem deve se entender como sendo um caminho22 para a produção de algo que mais aprimorado. que é feita sem um vinculo com as necessidades vitais dos indivíduos modernos se apresenta de maneira contundente no texto UIHV. gira em torno de um eixo temático: Educação e cultura na Alemanha oitocentista. e consequentemente a ciência e a vida.30 Diante do apresentado na citação. em suma. o devoto e o escritor. tem um titulo e um recorte próprio. a construção de um pensamento que se pretendia extemporâneo No período que vai de 1873 a 1876. Cada um destes quatro textos. Nietzsche nos da este exemplo em uma obra posterior: A Genealogia da Moral. .4 “A Segunda Consideração Intempestiva”. segundo White (1995) não tivemos um exemplo de historiografia voltada para as necessidades vitais de seu tempo. 1. Com isso. é perceptível que para poder construir a reforma de cunho imoralista de que a modernidade necessita.

se configura num ataque feroz ao paradigma de ciência moderna. A SCI é. somos remetidos a refletir sobre o motivo que Nietzsche os cita. no caso. texto no qual o autor se demora a analisar e criticar a história tal como ela era feita e difundida na Alemanha do século XIX. Tampouco Nietzsche teria objetivado com este texto se deter na questão do “devir das sociedades humanas” (LEFRANC. tipos extemporâneos par excellence. autodisciplina. bem como a quarta e última. ‘cristianismo’. 2008. A Segunda consideração.31 diz ele: que em “(1873) incidiu na cultura alemã”. se serve de um exemplo pessoal. no intuito de estimular discussões acerca da cultura e educação alemãs. enquanto indícios de um conceito mais elevado de cultura. a Alemanha do século XIX. Ser extemporâneo. p. ‘Bismarck’. opõem-se duas figuras do mais duro egoísmo. ‘cultura’. p. a posição adotada por Nietzsche ao escrever suas quatro considerações. portanto. (NIETZSCHE. ’êxito’ – Schopenhauer e Wagner. do restabelecimento do conceito de ‘cultura’. e de Richard Wagner em Wagner em Bayreuth (2007). logo temos: Na terceira e quarta Intempestivas. em Schopenhauer Educador (2008). ou mesmo “uma metodologia da ciência histórica”. indissociável da época a que pertence. que o propósito primordial da consideração de Nietzsche não é debater os avanços da história. destaca-se que o texto começa por dar . Nietzsche fala de Artur Schopenhauer. E com isso. Extemporâneo no sentido de que o filósofo se posiciona contra o seu próprio tempo. portanto. cuja problemática suscitou a presente pesquisa. Jean Lefranc (2008) nos deixa claro o propósito desta consideração. A Terceira consideração. cheios de soberano desprezo perante tudo o que à sua volta se chama ‘império’. tendo em vista os elementos de seu titulo: Da utilidade e Inconveniente da História Para a Vida. estabelecer a crítica a educação e a cultura da Alemanha do século XIX. Especificamente na Segunda Intempestiva – Da Utilidade e Inconveniente da História Para a Vida (2003).59) Justifica o autor que ambos Schopenhauer e Wagner tratam de personalidades extemporâneas por excelência. a ponto da cultura moderna poder ser adjetivada como “essencialmente histórica”. por outro lado é posto que os estudos históricos ganhassem grande impulso e importância no decorrer do século XIX. Destaca o autor. ou intempestivo foi. mesmo que sua obra se mostre. por sinal. 288). para a partir daí. o texto no qual Nietzsche discute do ponto de vista da cultura os efeitos da dominação de um ponto de vista essencialmente histórico. exatamente por isso. s/data. Nestas. Nietzsche é intempestivo por que sua análise se posiciona contra o paradigma de sua época.

segundo as palavras de Goethe. se Nietzsche se posiciona de tal maneira. p. Seria o iluminismo uma forma de consciência que abarca as transformações socioeconômicas advindas como consequência da Revolução Francesa. Qual historicismo Nietzsche critica? Na Segunda Intempestiva (2003) evidencia-se que Nietzsche critica o historicismo no que tange ao fato de que recebe ele influências diretas de Hegel e se torna. p. a exemplo de Genealogia da Moral. o excesso de sentido histórico originário na filosofia da história. como o próprio Nietzsche (2008. devem ser seriamente. 1989). passando por Kant. O próprio autor. Martins (2002) esclarece que historicismo não é uma exclusividade da Alemanha do século XIX. Tal crítica dirigida à história feita na Alemanha contemporânea a Nietzsche. Sua análise parte de seu tempo. Não obstante a isso. Somente na segunda metade do século XIX é que ocorre a institucionalização do historicismo entre os intelectuais e isso contribui para que os limites formais da história sejam delineados de forma mais precisa. Nietzsche (2003) critica firmemente a pretensão de fazer da história uma ciência. que segundo Bourdé & Martin (1983. 43) destacou “essa história compreendida hegelianamente” (NIETZSCHE. objeto de ódio”. 288) 23. 2008. ou ainda póstumo. ou ainda. A história que deve ser tomada por objeto de ódio é justamente a história “própria a todo historicismo” (LEFRANC. De maneira geral. Jean Lefranc (2008) se limita apenas em dizer que o autor se dirige ao historicismo. precioso supérfluo do conhecimento e artigo de luxo. Hegel e por fim. De acordo com Lefranc (2008). por várias vezes se utilizou de investigações históricas para compor seus livros. portanto. Nietzsche parece dirigir sua crítica. . ou inatual. certa continuidade no historicismo de práticas que se iniciaram no período iluminista e é ai que reside sua crítica a essa corrente da história. uma corrente de cunho moralizante e idealista. Ao produzir um livro que descaracteriza uma concepção comum aos seus contemporâneos é que Nietzsche se faz extemporâneo. os comentadores de Nietzsche não esclarecem qual concepção de historicismo ou época especifica do historicismo Nietzsche está criticando. na visão do autor. sobretudo às noções de “história universal e processo histórico” e “progresso” que na 23 A esta altura se torna imprescindível esclarecer o sentido desta crítica Nietzschiana ao “historicismo”. mas está contra este. Segundo Bittencourt (2009). influenciando a historiografia oitocentista. quando o próprio Nietzsche diz querer expor “por que a história. ou mesmo O anticristo. Há obviamente. seria institucionalizado através da pretensão historicista de fazer da história uma ciência. p. 40) se juntam num único conjunto de pensadores teleológicos. se dirige antes de tudo aos postulados instituídos por uma corrente de pensadores que se estende de Platão.32 testemunho de tal intempestividade adotada nestes escritos. Certas continuidades e rompimentos são evidenciáveis ao longo do desenvolvimento que levou a história a se firmar como ciência. mas sim um fenômeno mais amplo que abrangeu toda a Europa e que influenciou até mesmo autores brasileiros como Varnhagen. devemos entender que seu objetivo não é excluir os estudos históricos.

muito próximas de uma moral essencialmente cristã. a arte e a religião para colocar em seu lugar a história. O autor também destaca que tal perspectiva tem se sobreposto a outras perspectivas como a arte e a religião. Diante disso. Nietzsche identifica em Hegel aquilo que Bourdé & Martin (1983. é um livro destinado a delinear o surgimento de uma nova moralidade. 40) chamou de “pensamento teleológico”. pois. 2008. pois travava contra a moral de cunho cristão um grande e polêmico duelo. uma vez que mesmo se declarando ateu. Ressalta Lefranc (2008) que justamente neste ponto Nietzsche se difere de Schopenhauer. 97). como sendo uma acepção cristã. o estágio supremo desse desenvolvimento. que no século XIX estão sendo substituídas pelo sentido histórico. Embora com um tom de ironia por parte do autor. Estas noções. . Semelhantes considerações destronaram outras potências intelectuais. enquanto é ‘a dialética do espírito dos povos’ e o ‘julgamento da humanidade’(NIETZSCHE. 2008. 24 O próprio Nietzsche se dava o apelido de filosofo imoralista. percebemos o relacionar da noção de progresso as noções religiosas e Nietzsche diz “para me expressar do ponto de vista cristão diria que o diabo governa o mundo e que é o mestre do sucesso e do progresso. o processo que a tudo explica. serão objeto de grandes críticas ao longo de todo o texto que compõe a II Consideração Intempestiva. vendo nela o resultado necessário desse processo universal. advinham de Hegel e da forte influência que a filosofia deste conservava dentre os intelectuais alemães. p. voz que só conhece a palavra devir” (NIETZSCHE. como se o homem moderno fosse o fruto de um desenvolvimento. Pode-se identificar nestas breves criticas presentes na SCI o escopo de uma posição exaustivamente defendida por Nietzsche enquanto filosofo: o imoralismo24. p. Na própria citação Nietzsche critica a justificação de sua própria época através de um processo universal. O próprio Nietzsche diz: “A vinda do senhor! O processo! Levar a salvação! Quem.33 visão do autor. por exemplo. p. Schopenhauer não defendeu uma “nova moralidade” em oposição a moralidade de cunho crista. Semelhantes considerações acostumaram os alemães a falar de um “processo universal” e a justificar sua própria época. o cristianismo é a verdadeira potência” (NIETZSCHE. enquanto é o ‘conceito que se realiza a si mesmo’.105). O processo contínuo e o progresso em relação com a história são colocados assim. 2008. p. algo que liga as concepções de Platão e de toda uma corrente de pensadores que não conseguiam se desvencilhar de noções de providencialismo e progresso contínuo rumo a um fim. Nietzsche desenvolve todos os seus livros no intuito de o fazê-lo. 111). não ouve ali voz da cultura histórica. Aurora. Em todas as potencias históricas.

para Jean Lefranc (2008). p. 129). da história erudita ao historicismo propriamente dito. de noções da moral de cunho cristão. Nietzsche parte da ideia de que a ciência e a objetividade cientifica tal como eram praticadas em sua época não estariam desvencilhados de preconceitos de ordem moral. em suma se posicionando contra a moral moderna. O trabalho do historiador mantém constante escrúpulo de exatidão por que permite tomada de consciência histórica. portanto. na tanto na França quanto na Alemanha. e para onde vamos?” (HELLER. o historiador agora se torna uma personalidade de grande prestígio. e como tal representa o “modo de pensar” de todo um conjunto de filósofos e até de historiadores. Este é o homem que julga segundo os fatos passados para possibilitar uma política de ação no presente e com isso. ligado à produção de uma consciência histórica específica. 1983. para demonstrar como a tarefa de julgar com o sentido histórico adquire ares de importância ao longo do século XIX.34 Criticando a ideia de processo histórico como sendo uma coisa “apocalíptica”. Nietzsche não deixa de se referir ao historiador em sua SCI como sendo o “virtuoso histórico do presente” ( NIETZSCHE. o grande fluxo de trabalhos. pois como destaca Bourdé & Martin (1983. 44 – 150). Nietzsche aparece. investigações e monografias não tinham uma metodologia comum. p. o oficio do historiador. e sobretudo. seja a consciência ligada à afirmação dos estados nacionais ou ainda a . levando em consideração a autonomia alcançada pela história no decorrer do século XIX. as virtudes exaltadas do historiador no século XIX. assim. o que somos. Lefranc (2008. 50). p. existem diversas formas de consciência histórica. 2003. prestando-se a criticar noções e características próprias a Hegel o filósofo-extemporâneo se sobressai. uma vez que diversas respostas podem ser obtidas destes questionamentos. 48) “Hegel pertence inegavelmente ao mundo do Aufklarung”.15). 1993. É assim que vemos transposta a época em que a história era feita por qualquer erudito que por ela apresentava afinidade. Tendo em vista que a priori não havia um principio metodológico único durante a escola erudita. Para Agner Heller (1993) “consciência histórica” pode ser traduzida pelos questionamentos “de onde viemos. o método se torna uma grande preocupação uma vez que este é o orientador da pratica do historiador. Com tal elemento. 75) são. como imoralista. no século XIX está. A “preocupação escrupulosa de exatidão e a prudência no julgamento” (BOURDÉ & MARTIN. as investigações históricas ganharam cada vez mais importância. p. Em suma. p. que agora aparece como um ofício. segundo Bourdé & Martin (1983. e tipicamente “cristã”. p. relaciona o esforço empreendido por Nietzsche em suas genealogias a uma busca pelas dissimilações promovidas pela moral cristã. Ao longo do desenvolvimento da escola metódica. No entanto. retomando.

14). Nietzsche deixa clara sua opinião a respeito dessa pretensão de objetividade reclamada pelo historiador na prática de seu oficio. isto é. datado do verão de 1873. diante do fato de que a moral. um erro a pretensão do homem moderno a justiça inspirada na objetividade do seu julgamento histórico25. 47). p. que. Em suma. A verdade apareceria então “como uma conclusão de paz” (NIETZSCHE. Nietzsche em tom de ironia faz-se supor que o homem moderno pense ser forte por ser justo. Diz o autor Voltemo-nos para uma das forças muito celebradas do homem moderno com a pergunta. E no historicismo em especial. objetivo. 2007. se ele tem o direito de se denominar. como forças intelectuais de socialização humana.35 ascensão da burguesia. 27). 2003. a atmosfera única onde este algo poderia prevalecer. portanto. As questões relativas à verdade serão debatidas de maneira mais aprofundada no tópico 2. ao fazer alusão aos valores de bom e de mal. . “o passado humano aparece a luz de ideias. seria o mesmo que destruir ou desfazer a esfera de ilusão. forte. o historiador aparece como figura-chave que deve manter a virtude se ser exato. não deixa de instrumentalizar. a partir dos fatos passados.1. 2008. “Os sábios tem razão quando pensam que os homens de todas as épocas imaginavam saber o que era bom e o que era mau. Mas é um preconceito dos sábios acreditarem que agora estamos mais bem informados a respeito do que em qualquer outra época”. portanto ocultar erros de julgamentos secularizados. (NIETZSCHE. por sua conhecida objetividade. justo e em grau mais elevado do que o homem de outra época (NIETZSCHE. 51). p. Tendo chamado atenção para este assunto em especial. objetividade e Sentido Histórico. enquanto convenção gregária fixa o valor de uma verdade do ponto de vista da preservação dos outros indivíduos. e nesta busca de sentido para orientar o agir. segundo o filósofo. em sua pretensão de acreditar conhecer mais a respeito destes valores. Quem julga historicamente. a fim de engendrar tal julgamento a valores morais. p. constituem história como um construto coerente de sentido na sequência temporal do agir humano que modifica o mundo” (MARTINS. alias constrangedora. Num texto intitulado Introdução Teorética Sobre a Verdade e a Mentira no Sentido Extramoral. Nietzsche coloca em cheque a ideia de verdade. Seria. como o próprio Nietzsche salienta na II Consideração Intempestiva julgar algo a luz dos acontecimentos históricos. A moral pode. p. Em seu livro Aurora (2008). Nietzsche critica os homens contemporâneos a ele. 2002. 25 A relação estabelecida por Nietzsche (2003) entre verdade. transparece novamente aqui.

imita. o homem de exceção. e. 45). Ou. A objetividade histórica para Nietzsche só seria possível enquanto uma espécie de “crença na verdade”. São nesses termos que o autor aproxima o trabalho do historiador com uma arte. mas como uma juíza que ordena e que pune” (NIETZSCHE. e assim. O projeto cultural que Nietzsche defende. pede um conselho a história: Como devo sentir aqui? Torna-se palatinamente. mais involuntariamente. se não há uma verdade que não seja ilusória em face dos valores morais que a sustenta. p. p 52). impede o homem de exercer originalidade e criatividade própria. cada um deles de maneira muito ruim e superficial (NIETZSCHE. . Ainda segundo Nietzsche (2003. E na conclusão de sua ideia a 26 Fazendo uso aqui de uma expressão utilizada por Jörn Rüsen. que livre de regras canônicas permaneceria livre para esteticamente produzir “boa mitologia”. 50).36 Ainda assim o homem moderno dirige suas aspirações para aquilo que ele chama de verdade. para sentir. por pusilaminidade. um ator. na maioria das vezes até mesmo muitos papéis e. Aquele que não ousa mais confiar em si mesmo. p. E com isso faz transparecer que a história. Ora. atacando mais uma vez qualquer possibilidade de juízo histórico. ao dar exemplos. 2003. A desconstrução não finda neste ponto específico. mesmo que através de analogia e empatia. tudo que não obedece as normas canônicas ditadas pelas opiniões populares. como o próprio Nietzsche (2008) chamou em Schopenhauer Educador. e desempenha um papel. em detrimento da cultura essencialmente histórica mantém dos poetas e filósofos românticos o ideal de gênio. a dramaturgia. é subjetivo. 50). 2003. Nietzsche parece se opor a qualquer juízo empático que o historiador possa empreender na compreensão dos fatos passados. o historiador se anula de modo que permaneça neutro diante do passado que considera. é um esforço vão buscar pela quadradura do círculo. p. e na busca por ela o cientista estaria empenhando um grande esforço na busca da “quadradura do círculo” 26. por outro lado. objetividade histórica seria “a mensuração de opiniões e feitos passados a partir das opiniões mais disparatadas do momento”. por isso. uma mitologia muito ruim” (NIETZSCHE. 2003. Lefranc (2008) em seu Compreender Nietzsche fala de uma nostalgia da Grécia antiga por parte de Nietzsche e de outros anteriores e contemporâneos a ele. em sua obra História Viva. além disso. Nietzsche mesmo se consagrou enquanto helenista convicto depois ter tido como professor Ritshl. o que é exatamente a objetividade histórica? “isso seria uma mitologia. Quem julga pedir conselhos a história. Uma vez que aquilo que define o círculo é a ausência de vértices ou lados. “Não apenas como conhecimento frio e sem consequências.

Sendo a cultura grega aos olhos de Nietzsche um exemplo de cultura vivaz. E esse niilismo alimentado pela dicotomia existente entre um interior rico em conhecimentos. Jean Lefranc (2008) sintetiza a grande parte da crítica a modernidade empreendida por Nietzsche na SCI.5). temos que Nietzsche (1998) nos dá neste o exemplo que faltou na SCI. A objetividade e aliada ao excesso de conhecimentos (erudição) provocam a dicotomia entre interior (rico) sem um exterior (forma) equivalente. p. Sendo a genealogia da moral um trabalho de investigação pelos valores morais. 50) Na contramão de toda estranheza suscitada por este fato. e não em espírito como um fantasma evocado pelo idealismo. e . A própria ideia de verdade é criticada e revista por Nietzsche (2006) em seus textos. fomentando ideias de cientificidade e objetividade foi alvo de duras críticas nos textos que compõem a SCI. O fato é que. Tais apontamentos se encontram mais delineados em obras posteriores. os textos de Nietzsche podem conservar um diálogo que não se prende a cronologia inerente a eles. White (1995). mais que não se reflete num exterior igualmente rico em ações advindas destes conhecimentos. temos no apresentado acima que muito daquilo que Nietzsche apontou em suas primeiras obras. “na sua carne”. 2003. por exemplo. Logo. Nos que diz respeito à SCI. o autor parece conclamar a juventude a superação deste niilismo criado pela cultura essencialmente histórica. A história própria do século XIX. p. é justamente nos conhecimentos históricos a respeito dos gregos que Nietzsche busca uma solução para o que ele chamou de “instrução sem vivificação” (NIETZSCHE. de algum modo. Isso por que o autor não dá em sua SCI um exemplo do que seria uma historiografia consonante com as necessidades vitais de uma época. Avançar tornando-se cada vez mais grego não equivale a adquirir sempre mais conhecimento histórico sobre a Grécia sem outra nostalgia que a do saber: “ser grego” é ascender à vontade grega. 2008. pois objetividade seria uma posição de neutralidade para garantir exatidão e engendrar julgamentos históricos. e em especial em suas Considerações Intempestivas. (LEFRANC. enquanto viva. e que é o mal da ciência moderna.37 respeito desta nostalgia quanto ao ideal grego de cultura e formação. A crítica de Nietzsche a História nos evidencia um olhar extemporâneo sobre a história tal como ela era entendida e praticada pelos homens da modernidade e do século XIX. busca entender o pressuposto na SCI como sendo um pensamento que Nietzsche começou a construir na obra Nascimento da Tragédia e que somente se delineia com contornos palpáveis em Genealogia da Moral.

15) se presta a descaracterizar ao longo dos argumentos posteriormente expostos. p.38 isso por sua vez seria a ciência sem vivificação que “paralisa a atividade” a qual Nietzsche (2008. .

Pretende-se assim. p. O terceiro tópico busca demonstrar como Nietzsche busca reconciliar a história com as necessidades vitais da época moderna. Neste capítulo. que assim como uma mosca. Segundo Nietzsche (2007) a pretensão do homem de a partir de seu intelecto conhecer cientificamente a todas as “verdades” a respeito do universo e da natureza é uma pretensão ilusória. evidenciar como o referido autor fez da história o tema de diversos debates ao longo de toda sua bibliografia. se o mesmo acontecesse agora. a partir disso o impulso de auto superação necessário ao surgimento do super-homem. para que este sirva a vida. tem a . Defrontar-se com essa pretensão é. segundo Nietzsche.1 A Verdade e a Mentira no Sentido Extramoral. discutindo como o autor vê a relação entre história e arte. uma evidência do egoísmo e da arrogância do homem. como sendo um preconceito de ordem moral. A partir do qual promovemos o cruzamento da SCI com outros textos de Nietzsche. “houve eternidades em que ele [o intelecto humano] não existiu e.39 CAPITULO II. 2. denominado Introdução teorética sobre a verdade e a mentira no sentido extramoral (2007). 79). não há para esse intelecto uma missão mais vasta que ultrapassasse a vida humana” (NIETZSCHE. POSSÍVEIS DIÁLOGOS ENTRE A FILOSOFIA NIETZSCHIANA E A CRÍTICA À HISTÓRIA CONTIDA NA II INTEMPESTIVA. partimos do pressuposto de um Nietzsche extemporâneo. engendrou-se uma discussão a respeito de como a filosofia de Nietzsche busca se apropriar da história como conhecimento perspectivo. empregando-a na tarefa de possibilitar a “ruminação” dos valores morais vigentes. O texto se inicia por analisar a pretensão humana de produzir conhecimento a partir de seu intelecto. capacidade esta que o diferencia dos animais. Assim. O segundo tópico busca evidenciar a perspectiva epistêmica de Nietzsche. discutiu-se a forma como Nietzsche entende uma “verdade”. 2007. Por fim. A partir da leitura de um dos escritos de Nietzsche. No primeiro tópico. De fato. no quarto tópico. dado o sentido que a análise nietzschiana toma desde a SCI. nada se passaria. fortalecendo-a e criando. diante do fato de que o homem é contingente e que sua vida representa um infinitesimal pedaço do todo que representa o tempo natural. a relação entre história e verdade pode se tornar mais clara. insignificante em sua pequenez.

já que faltou com a verdade. Notem que a distinção aqui diz respeito à “verdade e mentira” e não “bom e mau”. 79) o efeito mais direto do fato do homem possuir um intelecto conhecedor do mundo que o cerca. Passa então a viver em sociedade por “necessidade”. A capacidade de conhecer algo fez com que o homem se “inchasse” e se iludisse diante da perspectiva de que o real existe para ser por ele desvendado. é o estado de ilusão. pois: Quer existir social e gregariamente. Ainda assim. o intelecto tem desempenhado uma função de grande importância na delicada tarefa de perpetuar a espécie humana. portanto. tem necessidade de concluir a paz e procura de acordo com isso. Nietzsche discorre em A Genealogia da Moral apresentando conclusões diferentes acerca do surgimento destes valores. Pois bem. Esta conclusão de paz traz com ela algo que se assemelha ao primeiro passo em vista da obtensão desse enigmático instinto de verdade. Quer dizer que está agora fixado o que doravante deve ser “verdade. É. Segundo Nietzsche (2007. a verdade então. Tal valor comum é traduzido numa legislação vigente no grupo social. para quem a lei do mais forte decide aquele que prevalece. o oferece maior proteção. medo e tédio.40 partir de sua própria perspectiva a sensação de que o mundo gira em torno de si. o homem compensa a ausência de um aparato biológico que o coloque em pé de igualdade frente aos outros animais. p. 81). que sendo predadores naturais possuem de mandíbulas e garras perigosíssimas. . se distingue da mentira somente numa relação intrínseca com os valores morais. aqui nasce pela primeira vez o contraste entre a verdade e a mentira. Toda verdade então. e então vaidoso de seu intelecto se recusa a agir como os demais animais. um valor comum a todos de um grupo que o baseia na conservação de todos: os mais fortes e também os mais fracos. que pelo menos desapareça de seu mundo o mais grosseiro bellum omnium contra omnes (guerra de todos contra todos). se justifica por uma convenção social. usando para isso de mecanismos de dissimulação. uma vez que tendo sido dotado de um intelecto superior aos dos outros animais. pois essa. p. Teria a verdade se fixado a partir da necessidade que o homem demonstra de conviver social e gregariamente? Sobre os valores de bom e mau. o que quer dizer que se encontrou uma designação das coisas uniformemente válida e obrigatória e a legislação das coisas uniformemente válida e obrigatória e a legislação da linguagem fornece até mesmo as primeiras leis da verdade: de fato.” (NIETZSCHE. ao passo que a sociedade na qual ele está inserido sabe de sua situação paupérrima. esta pessoa é automaticamente excluída dos círculos de confiança. no uso de seu intelecto que o homem subsiste. 2007. se uma pessoa diz ser rica. Desta forma.

glândulas mamárias. Tal relação persiste na filosofia Nietzschiana desde as Considerações Intempestivas (2008. isso é cientifico e é verdade. A verdade mais uma vez é posta a prova do valor aceito por todos. mas como metal (NIETZSCHE. E isso é outra evidencia de que o intelecto com a capacidade de conhecer dotou o homem de egoísmo e arrogância. portanto. No entanto. Ser verdadeiro é empregar metáforas que todos empregam. tal como o do “homem apaixonado” que se encontra num estado de anulação do passado em prol de um futuro que ele almeja. uma soma de relações humanas. 2007. ao fazer ciência. portanto.41 Logo. que um camelo é um mamífero depois de observá-lo e listarlhe as características. só se diferencia da mentira no tocante a aceitação perante o grupo. o homem nada mais faz do que ligar todo o que existe na realidade a sua volta a si mesmo. p. Não é a primeira vez que a “felicidade” esta condicionada a uma situação de “esquecimento”. ou que todos aceitam. o conceito mamífero é um antropormofismo por que só se constitui enquanto uma humanização da realidade que cerca o homem. 24-25) onde Nietzsche deixa clara a relação entre felicidade e esquecimento se servindo para isso de exemplos práticos. em resumo. chegamos à questão de retórica. enquanto convenção gregária é ilusória. portanto. de antropomorfismos. se esquecendo de que a verdade pode esconder por sua relação com os valores morais uma mentira disfarçada. 82). portanto. enquanto valor e “é apenas neste sentido que o homem quer a verdade: ele ambiciona as consequências agradáveis da verdade. Mais adiante retomaremos a relação entre verdade e felicidade trabalhada por Nietzsche. não mais como moeda. Então o homem é feliz em sociedade a partir do momento em que se esquece do fato de que a verdade. vivíparo. corpo coberto de pelos. o conhecimento científico enquanto verdade é. é estabelecida pela maioria. a verdade? Uma multidão movente de metáforas. enfeitadas e que. canônicas e constrangedoras: as verdades são ilusões que esquecemos o que são. segundo Nietzsche (2007). p. 84). assim. É. a verdade. Se afirmarmos. Segundo Nietzsche (2007). onde defender um ponto de vista como sendo verdadeiro é justificar: O que é. depois de um longo uso. e. 2007. para com as verdades prejudiciais e destrutivas ele está até mesmo hostilmente disposto” (NIETZSCHE. p. um antropoformismo daquilo que é real em si. metáforas que perderam seu cunho e que a partir de então entram em consideração. aquelas que conservam a vida. parecem a um povo firmes. de metonímias. transpostas. figuras e relações que foram poética e retoricamente elevadas. “Como o astrólogo que observa . Diante disso. em virtude dos costumes repetidos e dos valores cultivados através dos séculos e que o homem tem tomado uma argumentação como verdadeira.

semelhante pesquisador considera o mundo inteiro como ligado aos homens” (NIETZSCHE. mantém neste panorama uma estreita relação com a verdade. mas.. o sábio constrói sua cabana bem perto da torre da ciência para poder ajudá-la e para encontrar proteção para si próprio sob o baluarte existente. Segundo Lefranc (2008. Numa concepção de ciência moderna. Ele pode. uma fuga. O mundo empírico. 126). 87). a verdadeira guerra do cientista não deve ser contra a mentira. Não por que o conceito científico realmente não pretendesse apreender uma verdade filosófica em sua argumentação. p. 2007. que vive com algum repouso. alguma segurança e alguma coerência” (NIETZSCHE. a filosofia de Hegel. pois estando a ideia de verdade diretamente ligada ao valor moral vigente a esta “verdade cientifica”. portanto “é o mundo antropormófico” de que o homem se apoderou para poder edificar seus conceitos. O cientista. E também. 8687). que Nietzsche diz ser de uma “espécie totalmente diferente”. O homem de ação já liga sua vida à razão e aos conceitos para não ser levado pela corrente e para não se perder a si mesmo.. desconfiar da verdade que a razão construiu através da ciência. Tal refúgio contra o torpor advindo da torre da ciência seria o mito e a . 2007. por que há forças temíveis que exercem continuamente pressão sobre ele e que opõem à “verdade” cientifica “verdades” de uma espécie totalmente diferente.42 as estrelas a serviço dos homens e em conexão com sua felicidade ou infelicidade. poderíamos ter a continuidade de uma acepção medieval de Deus. segundo Nietzsche (2006) eram essencialmente cristãos o que induz a verdade científica a noção de providencialismo. 90). Diante disso. o providencialismo. são impostas outras tantas “verdades”. encontrando proteção para si sob o “baluarte existente” poderia procurar outro leito de escoamento. e os encontra no mito e especialmente na arte” (NIETZSCHE. E necessita dessa proteção. “não é senão pelo fato de que o homem se esquece como sujeito e como sujeito da criação artística. dos tipos mais disparatados. por outro lado. mas também e primordialmente. p. p. 2007. sobre a qual o homem quer construir um novo mundo. há uma pretensão de colocar a ciência para resolver o problema da ciência. O sábio não se oporia diretamente a “verdade” do cientista. por que os valores morais em voga na Europa moderna. por exemplo. Como podemos perceber. falando do que Gardiner (1974) chama de filosofia da história. p. [. manteve intacta certa relação com providencialismo e teologia: “a questão teológica na filosofia de Hegel é notória”.] Procura um novo domínio para sua atividade e outro leito de escoamento. mas contra a moral.

p. vê as coisas reais serem apreendidas pelo espírito de uma maneira clara. parece não haver diferença entre o sentido fornecido pelo mito. devemos notar que o contraponto dado por Nietzsche a cultura moderna carregada de sentido histórico.43 arte27. e o sentido fornecido pela ciência. Se trata de uma espécie da apatia ou de consciência tranquila frente as vicissitudes próprias do existir. tendo em vista o perspectivismo que suas ideias fomentam. Segundo Nietzsche (2007. no entanto. p 90) tal forma de conduta proporciona ao individuo novos antroporfomismos diferentes daqueles pregados pelos habitantes da “torre da ciência”. . sobre outras perspectivas. em vistas dos valores vigentes. O homem intuitivo recolhe logo. mas por intuições” (NIETZSCHE. como formas de construir sentido. O homem científico assim passa a ser o “homem racional” cujas verdades cientificas o são assim. Para o autor. verdades construídas sob outro cânone. ao lado da defesa contra o mal. E neste reencontro com a arte. só se defende contra a infelicidade. um desabrochar. “não é conduzido por conceitos. foi justamente a cultura grega pré-socrática. 92) ao “homem intuitivo”. este reencontro do cientista com a arte e o mito aparece como sendo o exato momento em que o torpor e a dissimulação promovida pela ideia de verdade se desfaz. uma iluminação de brilho contínuo. Cristoph Türke (2001) trabalha tal conceito num artigo que engloba a arte cinematográfica e a afirmação da vida representada pelo conceito de Amor Fati na obra Nietzschiana. 28 Amor ao fato. É verdade que sofre mais violentamente quando sofre: sofre mesmo mais frequentemente porque não consegue tirar lições da experiência. O homem neste estagio de reconciliação com a arte e com o mito. Assim. o homem então se vê em uma situação de encantamento com o sentido que apreende das coisas reais. o autor contrapõe o “homem científico” sendo “conduzido por conceitos e por abstrações. no que diz respeito ao fato de que. E numa posição cética por parte de Nietzsche (2007) frete ao fato da ciência garantir ao homem a felicidade através da verdade. p. apenas uma perspectiva dentre outras tantas possíveis. sem nem mesmo conseguir a felicidade” (NIETZSCHE. recai sempre no sulco em que já caiu. Nietzsche busca estabelecer a relação da verdade e da felicidade. Como a ciência se pretende enquanto discurso verdadeiro. Mas destaca que este último não é mais feliz que este primeiro. esta apreensão do mundo se aproxima daquilo que Nietzsche define por amor fati28. 2003. 90-91). Sua apreensão do mundo. É tão irrazoável na dor 27 Neste ponto. para o “homem intuitivo”. e enquanto discursos não se sobrepõem. São tais intuições que permitem a este individuo reavaliar o valor comumente atribuído as verdades construídas pelas ciências. ou seja. e como o mito. o permite construir uma nova interpretação e significação do real a sua volta. uma redenção. a partir de suas intuições. 2007. São discursos.

Uma verdade que não é aceita pela maioria não é uma verdade. e como o “homem intuitivo”. dizendo que o homem intuitivo e o homem racional podem dividir a mesma época. verdade. 2007.44 como na felicidade. não grita e não altera o tom da voz: quando uma tempestade se abate sobre ele. e isso faz uma ligação fecunda com aquilo que foi debatido na SCI em matéria de ciência. 92-93) Eis na última frase. mas traz de certo modo. E por isso demonstra como o homem científico movido pela razão apreende suas “verdades cientificas”. liberdade diante das ilusões e proteção contra as surpresas enganosas. Decorre disso que segundo Nietzsche (2007) não existe uma “verdade” no sentido em que a tradição idealista desde Platão tentou construir para o termo “verdade” e o autor assume perante esta corrente. como é diferente o estoico. Segundo Nietzsche (2007). Perante a mesma desgraça. é uma posição adotada que gera uma mudança de personalidade especifica. só procura sinceridade. (NIETZSCHE. (NIETZSCHE. p. 2007. compôs uma obra cujo tema foi à arte e o mito na Grécia antiga. uma posição perspectivista. no recair sobre o “sulco em que já caiu” uma afirmação da vida como ela é em suas vicissitudes. é então que lista as consequências criadas pelas duas posturas distintas sob a personalidade daqueles que a adotam. não possui um rosto humano móvel e animado. A arte e o mito estão ligados à construção de uma personalidade propícia a ação. tendo em vista uma periodização da obra de Nietzsche. cultura e história. 93) Assim pretende Nietzsche demonstrar busca pela verdade é um esforço vão. apreende suas “verdades”. é um trabalho cuja investigação emprega métodos muito semelhantes ao da investigação histórica. encolhe-se sob seu manto e se afasta com um passo lento sob aguaceiro. O autor ainda compara as duas posições. na sua SCI. p. . mais ligado à arte e ao mito. Falamos de O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música (1871) que. o homem intuitivo não mascara sua sensação de niilismo frente às verdades de que dispõe e que por isso sua personalidade não reflete nenhuma oposição entre o interior e o exterior. tal afirmação é nada mais que o amor ao fato. que antes de discutir história. é uma posição refutada e não aceita. grita alto e fica desconsolado. Isso. é um exercício que deve ser feito em face dos valores morais vigentes. instruído pela experiência e dominando-se por meio de conceitos! Ele que normalmente. no entanto. diga-se de passagem. E que discutir a verdade. Obviamente que a crítica de Nietzsche a história. Isso é algo que necessita ser aqui debatido. uma máscara com traços dignamente proporcionados. ele põe agora na infelicidade a obra prima da dissimulação como o outro na felicidade.

como para Burckhardt. assim sendo. redirecionar seu foco para possibilitar um reencontro com a arte e o mito. a ponto do seu saber se desvencilhar da vida no que diz respeito a ação. Ora. mas apenas. Basta lembrar. para quem o sofrimento tinha um peso amortecedor. ao suscitar os sonhos fomentavam as paixões e o agir. para a realização de um “projeto de humanidade” que se efetue plenamente. ou seja. Tomar. O escopo de Nietzsche era destruir a crença num passado histórico no qual os homens pudessem aprender qualquer verdade única e substancial. pode ser visto sob duas égides. quando o conhecimento histórico está a serviço de uma força criadora. Um tipo negador de considerar o passado. Além disso: Os homens encaravam o mundo por ópticas que se harmonizavam com os propósitos que os motivavam. portanto de uma dominação da vida pela história e pelo sentido histórico que é característica do homem moderno. se trata do exato exercício que Nietzsche empreendeu na SCI. e que o leva a tudo conhecer e com nada se encantar. Basicamente. e um tipo afirmador da vida (Idem. proporcionando ao homem uma propensão a criação artística como forma de vida. o que por sinal. (WHITE. 1995. portanto o passado histórico como algo que pudesse apreender algo válido e universal era um exercício fútil segundo a filosofia Nietzschiana. neste sentido. ao denunciar que a ciência além de não garantir a felicidade nesta vida contingente humana. Ibidem). levando em consideração o perspectivismo nietzschiano. e exigiam diferentes visões da história para justificar os vários projetos que deviam empreender a fim de realizar plenamente sua humanidade. ele serve a vida. se trata. portanto. o conhecimento do passado poderia gerar tantas interpretações quanto fosse o número de indivíduos que sobre ele se debruçassem. Logo. havia tantas “verdades” acerca do passado quantas fossem as perspectivas a respeito dele. Para Nietzsche. 340). da diferença entre o homem intuitivo e o homem racional quando ao fato de conservarem uma visão diferenciada quanto à existência e utilidade das verdades e do sentido fornecido por elas. . p.45 que então não visava excluir os estudos históricos da cultura moderna. o conhecimento histórico como sendo uma perspectiva que depende dos projetos que os indivíduos traçam para realizar plenamente sua humanidade. Nietzsche dividia as maneiras como os homens encaravam a história em dois tipos. Quando se apresenta como um entrave. Tal como demonstramos na discussão acima. criava seres de personalidade fraca. ao passo que o mito e a arte.

podemos encarar o futuro de uma maneira afirmadora e heróica ou “entrar nele recuando” (WHITE. demonstrando como o excesso de sentido histórico pode contribuir para a construção de personalidades mais fracas. sob pena de tornar-se o coveiro do presente. Nietzsche (2008. E assim sendo. chamando-a nestes de Força Plástica “para poder determinar esse grau e. Hayden White (1995. o esquecimento é louvado na II Consideração Intempestiva como uma força criativa. não acusa o excesso de história de promover ilusão. 22). Assim. na busca pela realização plena de seu “projeto de humanidade”. Nietzsche. Dependendo da maneira pela qual olhamos para o passado. assim é que a II Consideração Intempestiva se intercala com a construção de uma ideia de verdade cientifica. é justamente neste ponto que a cultura moderna peca. A esta capacidade de esquecer. p.). 2008. diante do fato de que estas se encontram em estado de desencantamento para com as coisas que lhe cerca.46 De acordo com os pressupostos Nietzschianos. 1995. 2008. seria necessário conhecer exatamente a força plástica de um homem” (NIETZSCHE. os limites onde o passado deve ser esquecido. p. tornar-se um produto da arte. que pode conservar instintos e talvez até mesmo despertar instintos” (NIETZSCHE. também sobre os indivíduos humanos e suas atividades cotidianas. em detrimento de outras tantas ilusões que não o fazem. enquanto trabalho cuja metodologia se aproxima inegavelmente de métodos de pesquisa histórica aparece como uma arma contra o engano promovido pelos valores modernos. p. ele lista uma forma de ilusão que fomenta a criação de personalidades mais fortes. O autor acima citado destaca ainda que nunca houve momento de felicidade que viesse desacompanhado de uma boa dose de esquecimento. p. de modo que a outra perspectiva seja refutada por uma maioria e por suas verdades calçadas pelos valores morais vigentes. tendo em vista os efeitos desta na cultura. 82). e fazer com que esta se tome proporções grandiosas e pretensões universais. na busca por uma reconciliação com o ideal grego de cultura. e em consequência disso. 113) chega a chamar essa situação na qual se encontra o homem . p. segundo White (1995. portanto. 356. por meio deste. 354) diz que seu interesse ao promover tais discussões era “pela concepção de Nietzsche de como o pensamento histórico pode contribuir para a introdução da nova era e pelo que ele acreditava que fosse necessário para dar ao pensamento histórico o poder libertador da arte trágica”. Nietzsche faz menção no texto de UIHV. 354-355) a “Genealogia”. contra o sentido histórico moderno Nietzsche almeja contrapor outras forças: “é necessário opor aos efeitos da história os efeitos da arte e é somente quando a história suporta ser transformada em obra de arte. Tendo em vista o peso que o passado pode representar no agir humano. ao valorizar em demasia a perspectiva cientifica. p.

podemos enquadrar a crítica a ciência histórica Nietzschiana nesta perspectiva. que de acordo com Hayden White (1995. ele apenas denuncia que a forma com que o homem se relaciona com o conhecimento histórico pode. Mediado então por sua força plástica. Na II Consideração Intempestiva. p. e para tanto. antiquada ou tradicionalista e crítica. enquanto filosofo Nietzsche está a tomar a história por desnecessária. o homem moderno pode ter uma relação fecunda para com o conhecimento histórico. Segundo Hayden White (1995. uma concepção dionisíaca. Em suma. do ponto de vista da sua necessidade vital. a serviço da vida”. p. 357). nos servindo dos textos da SCI.47 moderno de “abandono da personalidade ao processo universal”.] só o excesso da história é prejudicial a vida” (WHITE. Por consequência. E é neste sentido que entendemos as três acepções sob as quais a história é útil ao homem. 1995. Vemos transparecer também aqui uma posição perspectiva. “Pois precisa do serviço da história. e de sua ação criadora. pois o homem de ação pode se beneficiar da história de diferentes maneiras de acordo com suas necessidades vitais. e em si tratando da doença histórica da qual padece a modernidade. [.2 A perspectiva de Nietzsche sobre a história como um “conhecimento” que pode nos servir a partir da Segunda Consideração Intempestiva .. . se torna necessário uma análise de como Nietzsche opôs ao espírito apolíneo. antes de tudo. em atenção a necessidade moderna de desmistificar e reavaliar os seus valores morais. 364) na SCI. p. e propícia ao se agir criativo. ou não. d efiniu ele as características historiografias praticadas na modernidade.. Entender tal proposição por parte do autor seria compreender como o autor contrapõe a ciência moderna (exageradamente apolínea) uma reconciliação com a arte (dionisíaco). Nietzsche conferiu ao historiador a autoridade de a partir de sua perspectiva e sensibilidade adaptar uma obra historiográfica as necessidades vitais de seu tempo. 2. Foi assim que surgiu A Genealogia da Moral (ano). o próprio Nietzsche ao produzir um trabalho histórico o fez. Nietzsche teria se limitado a dizer “o que não seria uma historiografia criativa. 364) teria “praticamente encerrado sua carreira”. Para entender a perspectiva de história em defendida por Nietzsche como uma possibilidade para a vida. em momento algum. ser profícua. Nietzsche (2008) diz que o homem necessita dos serviços da história sob a forma monumental.

é colocada ao longo das posteriores obras do autor como sendo uma questão de “saúde” 29. Diz ele no texto de O Crepúsculo dos Ídolos que em sua época de maior vitalidade. Nietzsche convida a arte a se conciliar com a filosofia para que ao pensamento seja acrescida uma atitude. produziram filosofia. a fim de cultivar conjuntamente uma cultura que corresponda as verdadeiras necessidades. p. perdida na dicotomia existente entre um interior rico que não se reflete numa forma exterior igualmente rica.como a cultura geral de hoje . p. pois ao passo que restauraria a saúde ao individuo. que gere uma ação prática. Nietzsche formou. desde a universidade. evidenciado pelo autor. 2003. a penúria. “conservar instintos e até despertá-los” (NIETZSCHE. a miséria interior do homem moderno vira a tona e. a uma cultura que ilude ao construir a noção de que apenas a perspectiva objetiva e cientifica é verdade. ou nas palavras de Nietzsche (2003. e por consequência. é justamente uma sobreposição do espírito apolíneo sobre o dionisíaco. os gregos produziram musica e mito. Ora. mentiras ambulantes. por meio delas. um grande apresso pela cultura Grega pré-socrática. no lugar daquela convenção e daquela mascarada amedrontadas e encobridoras. Em sua crítica elenca argumentos contra a objetividade reivindicada pela “história ciência” que ao se pretender objetiva mata a possibilidade do acontecimento histórico transmitir ao seu conhecedor uma vontade. 2003. 54). a arte e a religião poderão finalmente entrar em cena como as verdadeiras salvadoras. Mito para Nietzsche aparece como sendo uma forma de expressão cultural e artística da visão de mundo e da forma de pensamento grega pré-socrática. (NIETZSCHE. e não apenas ensine . É o que podemos evidenciar a partir da própria SCI. também reconciliaria a ciência e a vida. história e vida. Para Marton (2001. 59).48 uma vez que o “excesso” de sentido histórico. Nesta o autor evidencia o problema da história. Isso seria aquilo que Nietzsche chama de supersaturação da modernidade pela história. Somente através de tal atuação verdadeira. E em sua época de decadência. Nietzsche (2003) defende mais de uma vez que a arte ou o mito 30 sejam retomados na modernidade como uma espécie de “salvador” da supersaturação da modernidade pela história e pela ciência. 33) “uma interioridade que não corresponde a nenhuma exterioridade”. p. . pois a arte estaria a restaurar e conservar a saúde de um povo. e que por isso propicia um exacerbado acumulo de conhecimentos 29 30 Tal metáfora fisiológica se encontra no texto de A Genealogia da Moral. A arte seria ao mesmo tempo o antídoto e o remédio. Tal reconciliação da arte com a ciência assim como a vemos a partir da perspectiva epistêmica de Nietzsche desde a SCI.a nos iludirmos quanto a estas necessidades e a nos tomarmos. 43). p.

são responsáveis por imaginar e conceber os fatos como se fosse uma pintura. a religião. Ainda neste texto. (NIETZSCHE. em sua SCI é categórico ao afirma que a “história ciência” somente será capaz de despertar no individuo uma ação. O artista (dramaturgo) somente o faz de maneira mais livre. Segundo Nietzsche (2003. uma mitologia muito ruim” (NIETZSCHE. Em suma. Historiador e dramaturgos permanecem assim separados. uma reconciliação com a arte. tal desdém para com a ideia de um discurso científico que se sobrepõe. 47). p. cientista e artista conservam entre si uma distancia fomentada pela ideia de verdade. como podemos ver na citação acima. Diz ele: “Isso [a história tal como é feita na Alemanha do século XIX] seria uma mitologia. pois. Sendo a história comparada a mitologia ela não é capaz de construir “verdades” que se oponham a “arte” ou a “mitologia” dentro de uma dicotomia verdade -mentira. uma imagem e isso exigem certo “impulso artístico”. o trabalho do historiador não seria diferente do trabalho do dramaturgo. ainda se coloca incessantemente a buscar por novos objetos. e arte são diferentes formas de discurso cujo único objetivo seria propiciar confiança na vida. Nietzsche (2003). p. 1999. O trabalho de ambos se assemelha. O historiador na modernidade. Para Nietzsche “a metafísica. pois a ideia de verdade. a moral. e. como já foi explicitada no tópico anterior é tida como um preconceito de ordem moral na obra de Nietzsche. além disso. 52). uma “mitologia ruim”. em outras palavras.49 desvencilhados de qualquer utilidade do ponto de vista vital. Nietzsche (2003) contrapõe.são tomadas em consideração nesse livro apenas como diferentes formas da mentira: Com seu auxí1io acredita-se na vida. ao passo que o historiador se submete a regras e a métodos que visam garantir a objetividade dos resultados. unicamente por que ciência. a história não se sobrepõe a outras formas de explicação como fornecedora de sentido. Nada há de verdade em um tipo especifico que dê a este maior validade em face de outros. a ciência . como nos aponta Nietzsche (2003). De maneira geral. apesar de toda a pretensão de objetividade. Nietzsche argumenta que enquanto discurso (ainda que discurso científico). 2003. metafísica. A Vida deve infundir confiança”. Toda esta questão recai numa discussão imoralista. ou estará em consonância com as necessidades vitais de um individuo ou uma época a partir do momento em que esta se . p. e com isso apenas consegue tornar seu trabalho uma obra de qualidade inferior. 52). a outras formas de explicações da realidade prevalece também na SCI. e a estender seu olhar de cientista para onde quer haja a um devir o que gera uma hipertrofia da história (erudição excessiva). 52) insiste em dizer. ao falar da pretensão de objetividade da história. ou como o próprio Nietzsche (2003. p. sentido existencial. por ser verdadeiro.

talvez. sem que se possa ser impedido de ver em Sócrates a vidada. que Segundo Brandão (1995) são importantes divindades gregas. o mistagogo da ciência. Palavra amplamente utilizada por Nietzsche para se referir a Sócrates em um texto intitulado “O Problema de Sócrates”. 65). (NIETZSCHE. são utilizados por Filosofo grego – Ensinava em praça publica empregando para isso o método maiêutico. ainda que este pertencesse ao universo grego. desde então eles pudessem ser completamente desviados dela. 59). até mesmo com um olhar sobre as leis de todo o sistema solar. Sócrates é apontado no livro O Crepúsculo dos Ídolos como sendo um Decadent33. como a ciência conduziu em alto-mar os espíritos mais dotados como se se tratasse de uma verdadeira vocação. Foi condenado a morte pela acusação de corrompe a juventude Ateniense. tornar-se pura forma artística ela pode. Tais conceitos aparecem trabalhados na primeira obra publicada de Nietzsche. para Nietzsche ele figura como sendo um divisor de concepções. Para o filosofo. Para compreender tal relação entre ciência e arte e por consequência evidenciar de maneira mais profunda a perspectiva epistêmica de Nietzsche. O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música. a Tragédia (Arte – dionisíaca). as escolas filosóficas foram se substituindo uma a outra como as ondas. sem que jamais. e inclusive a pirâmide assombrosamente alta do saber atual. . 2003. 2008.50 reconciliar com a arte. 33 Vocábulo do idioma francês que equivale a “decadente”. como a ânsia de saber se expandiu nos países mais longínquos como uma universalidade imprevista. “A história é o oposto da arte e somente se a história suporta converterse em obra de arte. 32 dirigir perguntas ao interlocutor até fazê-lo admitir seu erro. como esta universidade do saber encerrou uma única rede de conhecimento o globo terrestre inteiro. que consistia em Nietzsche enquanto analogia para traduzir as formas de criação artística na Grécia pré-socrática. Ele marca a sobreposição do apolíneo (razão) por sobre o dionisíaco (arte/mito). como uma sucessão ininterrupta de correntes se manteve o escopo da ciência. que se apresente tudo isso. Que se tome claramente consciência como desde Sócrates. ou seja. o pivô do que é chamado história universal. LEFRANC. e Sócrates representa esse marco ente aqueles que são pré-socráticos e 31 Apolo e Dioniso. p. p. nesta Nietzsche contrapôs ao otimismo Socrático (científico – apolíneo) outra força. Desde Sócrates. Conhecemos sua filosofia somente por que Platão. se torna necessário entender como Nietzsche contrapõe ao espírito apolíneo. constante aqui na bibliografia reunido a outros textos de autoria de Nietzsche sob o titulo de Os Pensadores – Nietzsche. aquilo que ele chamou de dionisismo31. conservar instintos e até despertá-los” (NIETZSCHE. apud. Sócrates32 inaugura as práticas que na modernidade culminam na “hipertrofia” dos domínios da ciência. seu discípulo fez dele o personagem principal de suas obras.

p. o plano de redenção da ciência moderna arquitetado por Nietzsche a partir da conciliação entre ciência e arte (apolíneo e dionisíaco) ele se lança para um período anterior a Sócrates. a partir da revolução socrática. tendo em vista os estudos feitos por Nietzsche da Grécia antiga pré-socrática. Em suma. Jean Lefranc (2008. de sua capacidade de se dedicar a um sonho de saúde e de beleza em face de sua própria aniquilação eminente”. Como O Nascimento da Tragédia tem por objetivo apontar em Sócrates a guinada rumo a uma forma cientifica-moral de explicar a vida humana. 60 – 66). p. 345). uma vez que Sócrates representa esse marco divisor de períodos. fundamentar a ideia de uma Ciência que se . 2008. Para White (1995. Nietzsche encerra seu livro evidenciando esta tese. 344). separando. 66). a mais objetiva. Sócrates se liga ao problema da ciência moderna em Nietzsche por que ele é o primeiro a se reter exclusivamente em “questões propriamente humanas. “o nascimento da tragédia encerra-se com uma análise da oposição do “senso histórico” à consciência “mítica”. Segundo White (1995. Nietzsche queria libertar o homem não do mito. aquilo que na modernidade Nietzsche pretende reconciliar: a ciência e a arte. Nietzsche não busca. p. portanto. Em sua perspectiva epistêmica. Depois de analisar ao longo de seu livro a arte trágica e a conjugação de aspectos dionisíacos e apolíneos. uma vez que neste trabalho Nietzsche se propõe a vasculhar analisar e interpretar a arte e o pensamento pré-socrático. a ciência mais moderna. [que em suma são] as questões da moral” (LEFRANC. também supõe uma “crença” de ordem moral”. atenta para a relação entre ciência e arte na modernidade. p. A questão de ordem moral que a ciência moderna supõe é a pretensão de verdade (objetividade) para os antropomorfismos (conceituações) promovidos pelos cientistas modernos. Nietzsche reconhecia nesta obra que “os gregos tinham sido os primeiros a reconhecer quanto a vida humana dependia das faculdades mitopéicas do homem. 66). p.51 aqueles que vieram depois dele. toda esta obra representa também uma análise histórica de como o “sentido histórico” se sobrepõe a “arte”. Em suma. aquela que se passa por desinteressada. tal como nos mostra Lefranc (2008. A Origem da Tragédia no Espírito da Música tem um recorte temporal atento a esta questão. E Sócrates representou para Nietzsche um exemplo de “crença” na “verdade” de uma proposição filosófico-metafísica que levou um homem a aceitar passivamente sua sentença de morte. mas das “ilusões” de que a “história” ou o “processo histórico” era representante”. comentador da obra de Nietzsche. Este autor diz: “a tese de Nietzsche será exatamente que a ciência.

Eles se tornaram eles mesmos. a esta. Pelo contrário. sua tese é de que somente a partir de uma reconciliação com a arte. e sua religião era uma verdadeira batalha entre os deuses e todo o Oriente: mais ou menos semelhante como agora a “cultura alemã” e a religião são. não permaneceram por muito tempo os herdeiros. renovada a partir da ciência moderna. eles se apossaram novamente de si mesmos. os epígonos sobrecarregados de todo o Oriente. Nietzsche chama de o “Alegre saber” expressão que se tornou o subtítulo de A Gaia Ciência (2006). uma força criativa que impulsione o individuo a criar coisas novas e se impelir para o futuro com maior vontade e de forma afirmativa. egípcios. semitas. Houve séculos em que os gregos se encontravam diante de perigo semelhante aquele no qual nos encontramos. p. ou seja. 2003. Elas devem. estar a serviço desta ultima. os mais felizes enriquecedores e proliferadores do tesouro herdado e os primogênitos e modelos de todos os povos e cultura vindouros. suas necessidades autenticas e deixam morrer as aparentes. no entanto o grego contrapõe Apolo. temos a desorganização e a desordem típica de Dionísio. Eles nunca viveram em uma orgulhosa inviolabilidade por muito tempo. 98-99) 34 Em um texto denominado A Arte em “O Nascimento da Tragédia” datado de 1888. a cultura helênica não se tornou nenhum agregado. 2003. perecer junto a “história”. Pensamento e forma aparecem assim consonantes e não há nesta cultura a dicotomia moderna interior versus exterior. depois de um lento combate consigo e por meio da interpretação pratica daquela sentença. É justamente pelo dialogo que conserva O nascimento da Tragédia (1999) com a Segunda Consideração Intempestiva (2003). graças à sentença apolínea. Nietzsche diz que metafísica. lídios. Os gregos aprenderam palatinamente a organizar o caos conforme se voltam para si de acordo com a doutrina délfica. babilônicos. (NIETZSCHE. a ciência seria capaz de transmitir ao individuo uma predisposição para a ação. como a arte. um caos em si cheio de lutas entre todos os estrangeiros e todo o passado. p. moral. Desta feita. religião e ciência são tomadas no livro O Nascimento da Tragédia apenas como formas diferenciadas de mentira. A essa “nova” ciência. sua “cultura” foi muito mais um caos de formas e conceitos estrangeiros. (NIETZSCHE. Também os destaca enquanto sendo a cultura que apesar dos perigos se conservou autêntica frente os perigos. 98) Ao caos apontado aqui por Nietzsche. portanto. a partir de um perspicaz uso de forças apolíneas e dionisíacas.52 sobreponha a outras formas de explicação da realidade34. a saber: o da inundação pelo estranho e pelo passado. Entretanto. que auxiliam o homem a acreditar na vida. que Nietzsche aponta nesta última os gregos (especialmente os pré-socráticos) como sendo o povo cujo “sentido histórico” não prevaleceu por sobre outras forças. .

53 Nietzsche demonstra assim. na conclusão do problema exposto na SCI como os gregos são um “modelo” de superação pela arte do problema que acomete a modernidade. demonstrando como os gregos de forma perspicaz resistiram à imposição do sentido histórico. e a SCI. ciência. . uma revisão dos valores morais precisa ser engendrada. Desde O Nascimento da Tragédia persistiu em Nietzsche o marco da cultura grega que em sua época de “saúde” produziu arte e mito. e em sua decadência produziu “filosofia” 35 . 2. podemos também evidenciar a perspectiva epistêmica de Nietzsche. diante dos pressupostos da filosofia Nietzschiana. da vida o homem “precisa.3 A história em consonância com a vida: A genealogia da moral em face dos pressupostos da Segunda Consideração Intempestiva. 47). Consta nas referencias sob o titulo de Obras Incompletas (1999). Através disso. nas palavras do próprio autor “se opor ao que apenas sempre repete o já dito. tampouco pretende que esta seja subjulgada pela arte. Mas diante do exposto acima. Os gregos foram exatamente por isso mais autênticos. na opinião de Nietzsche para que isso aconteça. Na concepção de Nietzsche (1999. se lançar para o futuro de forma 35 Tese defendida no texto O Problema de Sócrates. p. O exercício de superação para o qual Nietzsche conclama a juventude parece exigir desta que ela se coloque na situação de criador de novos valores a partir de novas experiências. tal como é o caso da crítica a história contida na Segunda Consideração Intempestiva (2003).27). para resolver o problema da existência. mais do que outra coisa. o já aprendido. A tarefa destes seria justificar a própria vida e não dominá-la e não miná-la. 26 . nivela arte. p. o já copiado”. que não defende uma história-ciência. “Ela [a arte] é a grande possibilitadora da vida. a grande aliciadora da vida. Segundo Foucault (1979. ser artista”. A arte é a fuga. Essa é a lição que tomamos ao cruzarmos O Nascimento da Tragédia. como veremos a seguir. do acúmulo de coisas e épocas estrangeiras em si e superaram assim o problema de uma cultura sem forma. é a redenção e o refugio. o grande estimulante da vida”. metafísica e religião e os subjulga à vida. Todo o problema tratado nesta consideração se encontra resumido nas duas citações acima. qualidade que Nietzsche não consegue ver na cultura moderna.

54 criativa.). sem dissimulação e convenção. e que tome por perspectivo até mesmo aos valores morais vigentes. para usar as palavras de MARTINS (2002. critica a história. O homem possuidor de força plástica. O homem que está predisposto a agir. tal capacidade de esquecer e se desvencilhar do peso do passado é tal ínfima que um único fato tido por este como prejudicial é capaz de colocá-lo numa situação de intranquilidade quanto ao presente e ao futuro. negligenciando assim a vivência (experiência) e. para descaracterizar o paradigma de ciência moderno. Para o homem que age. aparência e querer” (NIETZSCHE. Nietzsche denomina tal força de força plástica. essa capacidade de mediar o uso do passado como direcionador da ação no presente. p. o que no fundo significa ainda sempre dissimulação e disfarce. com uma unanimidade entre vida. 99). E criticando a história. Esta citação pertence à conclusão da SCI. Sua sinceridade e seu caráter vigoroso precisam se opor ao que apenas sempre repete o já dito. 14. o já copiado. De modo que se concentre em suas necessidades autenticas. Isso é uma alegoria para cada individuo entre vós cada um precisa organizar o caos em si. e a criar. Nietzsche tendo com sua argumentação desconstruído muito daquilo que o seu século era orgulhoso. Contra tudo que o autor identificou como infecundo na cultura moderna. que era um exemplo de cultura “sem dentro e sem fora. pois todo adorno oculta o adornado. p. exige do individuo que este não se prenda a nada de forma “absoluta”. este conserva perante as injurias e injustiças do passado um determinado “bem estar e uma espécie de . 2003. ele elege a cultura grega como antídoto. p. 10). Nestes termos é que o autor. LEFRANC (2008) diz que é somente em face dos pressupostos historicistas que devemos entender as três formas listadas por Nietzsche. Em alguns homens. o já aprendido. Assim se desvelara o conceito grego de cultura (NIETZSCHE. o “agir humano que modifica o mundo”. pensamento. conclama a juventude a reorganizar o caos. 2003. referentes a maneira na qual a história pode ser útil ao homem de ação. a reconstruir o que foi desconstruído a partir de necessidades autenticas. e é ela quem determina em que grau o passado pode agir sem se tornar “coveiro do presente” (NIETZSCHE. p. consegue retirar da história uma utilidade. uma força é essencial para preveni-lo do excesso de história. 2003. se mostra nostálgico de uma cultura onde o sentido histórico não crie dicotomias pautadas na erudição pela erudição. Assim ele começara a compreender que a cultura também pode ser outra coisa do que decoração da vida. 99). Sobretudo para o excesso de história que Nietzsche não identificou nesta ultima.

Munido. p. a pesquisa da objetividade cientifica. Portanto Nietzsche estabeleceu bem depressa. e o positivismo. 351) afirmou que “a história algema o homem ao passado. já discorremos anteriormente. desde a Segunda Intempestiva o vinculo entre o historicismo. fundamental aprender a esquecer”. e não somente a história. portanto. nem tampouco devemos tentar medir o valor de uma frente a outra. É. que eles no entanto estão persuadidos de terem rejeitado. 291). para o homem que sofre e necessita de libertação. somente uma postura critica diante do passado é verdadeira. a exemplo de como a história crítica garantiria maior objetividade do que a história monumental. portanto da capacidade de esquecer. Trata-se sempre de uma recusa do perspectivismo. Busca a partir disso reestabelecer. p. Como destaca NETO (1989. no entanto. da “infinidade” do perspectivi smo para instalar-se num além que escapa de todo colocar em perspectiva. Desta forma a história deixa de apenas desconstruir a paixão do homem pela ação. Nietzsche lista em sua crítica da história. uma cultura nos moldes daquela identificada por ele na Grécia antiga. 10). ao tomar os atos passados do homem como objeto de estudo científico.55 consciência tranquila” (NIETZSCHE. assim nem o historicismo hegeliano ou positivista da “cultura histórica”. e. e passa a alimentá-la e fomentá-la. NETO (1989. a partir de uma crítica dos valores modernos. Trata-se em suma das varias perspectivas interpretativas suscitadas pela contemplação do passado e de como o homem pode colocá-las a serviço de suas vivências. que são projeções futuras que. a veemente reprovação de elementos constituintes da filosofia da história. 2008. onde . Entendemos a força plástica como uma capacidade de esquecer o passado na medida em que isso é útil ao individuo e seus objetivos. os três tipos de história listados acima estão ligados “a diferentes tipos de necessidades vitais”. p. Tradicionalista e Crítica. então. 2003. Em seu conjunto. na medida em que o passado pode se tornar prejudicial. (LEFRANC. 360). nem geralmente o ideal cientifico moderno podem evitar uma postulação teológico-metafísica. Ao passo que para o homem pragmático e de ação somente a perspectiva monumental poderia ter valor. Sobre a pretensão de busca por objetividade. ultimo. Não significa evidentemente que é necessário se prender a uma destas visões. do historicismo e do positivismo. assombra e perturba a paz do presente. o individuo pode se servir dos serviços da história sob três perspectivas: Monumental. p. que como um fantasma. necessitam de ações no tempo presente. a pesquisa do ponto de vista histórico. a Segunda Intempestiva se constitui como uma crítica as características da ciência moderna. absoluto.

com os valores morais. o filósofo pessimista. “rumina” aquilo que de os homens acreditaram ser mais pétreo e verdadeiro. Nisso temos em Foucault (1979) o que representaria a pesquisa genealógica na obra de Nietzsche revisita as discussões feitas pelo autor a respeito do sentido histórico na SCI. Segundo LEFRANC (2008. mas por um otimismo trágico. esta “segunda seleção” precisa acontecer. Foucault conclui que o uso da pesquisa genealógica.56 conhecimento e ação não estavam dissociados e não havia nenhuma dicotomia entre um interior/exterior. 1999. Pois bem. 11): transmutação de todos os valores seria: “uma saída das mentiras de dois mil anos” esta traria consigo “o novo homem que se situa para além do próprio homem”. enquanto pesquisa de “sentido histórico” por Nietzsche não se compõe . p. a principal necessidade moderna era a “transmutação de todos os valores” que permite ao homem engendrar um processo de auto-superação que daria origem ao Übermesh (super-homem) previsto por Zaratustra. na pretensão de se construir um pensamento extemporâneo. tendo rompido com Schopenhauer. segundo Nietzsche (2011). porém. Esta tarefa era uma tarefa árdua e perigosa. portanto. A Genealogia da Moral faz esta tarefa. inquestionável: Os valores morais. O objetivo de Foucault é se desviar de um possível mal entendido. não por um otimismo. portanto contra a moral de cunho cristão como pode-se comprovar através da leitura de suas obras posteriores às Considerações Intempestivas. para uma segunda seleção. No livro Assim Falou Zaratustra (ano) um aforismo traz uma analogia para o problema da ruminação dos valores morais. Estas comem toda a sorte de alimento durante o dia. de achar que a crítica contida naquela obra de Nietzsche visasse excluir os estudos históricos em prol de qualquer outra forma de saber científico. A guerra de Nietzsche. ela deve se reconciliar com a arte. p. ou expressão artística. Esta “remastigação”. é. que compara esse exercício com o ruminar das vacas. no caso a época moderna. e neste contexto estas quatro considerações. é neste conflito contra a moral que Nietzsche instrumentaliza a história de uma maneira que esta estará em consonância com as necessidades vitais de sua época. Nas palavras de Ferez (Apud NIETZSCHE. a noite tal alimento retorna para uma remastigação. num conflito maior. podem ser vistas como sendo apenas uma batalha. Para o autor. escreveu ele como epigrafe a um capitulo no qual falava de moral em A Gaia Ciência (2006) a seguinte epígrafe: “tremes carcaça? – Tremerias ainda mais se soubesse para onde te levo”. A investigação histórica contida em A Genealogia da Moral procura pela “origem” das ideias de bom e mau. o sucessor direto dos pré-socráticos”. Nietzsche se pergunta se “não é ele mesmo o primeiro filosofo trágico. 93). Nietzsche parecia ter consciência disso. Quanto à ciência. proporcionando ao homem a possibilidade de subverter o pessimismo característico na modernidade.

de A Gaia Ciência. A história segundo ele ainda não se teria atentado para coisas que a história deveria tomar por objeto. 27). p. Obviamente que. A este trabalho Nietzsche se dedicou em seu livro A Genealogia da Moral.57 numa contradição explicita por que o autor se serve do sentido histórico para a partir dele demonstrar como superar a hipertrofia da Ciência no século XIX. Tal objetivo mantém o evidencias da intenção de vivificar a cultura moderna livrando-a da ciência sem vivificação. Nietzsche descreve em um aforismo aquilo que seria uma história “para aqueles que gostam de trabalhar”36. como ressalta Foucault (1979. 26). Nietzsche aponta um de seus objetivos “seria outro trabalho determinar o que há de errôneo em toda justificação e em todos os juízos morais produzidos até o presente” (NIETZSCHE. piedade e crueldade. 2006. 45). 14). e que sua única função era 36 37 Este é o título do aforismo nº 7. quanto White (1995. como aponta o próprio Nietzsche (2003. equivalente a arte e a metafísica. p. A genealogia é. Escala. 37 . p. p. demonstrando seu caráter dissimulador e ilusório. Tanto Foucault (1979. portanto. Em A Gaia Ciência (2006). Segundo Nietzsche (2006. 46). porque alguém que o assume não poderia mais se sentir de maneira nenhuma seduzido para continuar vivendo e colaborando com o trabalho da história” (NIETZSCHE. 69) no oitavo capítulo da SCI a história a resolver o problema da própria história. 2003. Tendo apontado alguns temas que careciam de uma história. Em tal obra Nietzsche questiona o valor da moral. e atenta às necessidades vitais da época moderna. “Denominamos suprahistórico um tal ponto de vista. 2006. “o sentido histórico escapara da metafísica para tornar-se um instrumento privilegiado da genealogia se ele não se apoia sobre nenhum absoluto” (FOUCAULT. tudo aquilo que poderia dar “cor a existência” não teve ainda uma “história”. Preceito encontrado no texto “A Arte em O Nascimento da Tragédia” datado de 1888. No prefácio da genealogia da moral temos exposto o objetivo do livro e da pesquisa genealógica. 364) identificam na Genealogia dos valores morais promovidas por Nietzsche um exemplo do que seria uma “supra-história” tal como Nietzsche a define na SCI. a vontade. p. a avidez. o filosofo pretendia demonstrar que mesmo a moral era apenas mais uma forma de “mentira” justificar a vida. Lista ele alguns temas que poderiam ser objeto de uma história: A consciência. Ed. 1979. p. p. Ou seja. então Nietzsche nos aponta uma forma sobre a qual a história poderia estar a serviço da vida. 30) a “história efetiva” para Nietzsche seria aquela que não teme ser “um saber perspectivo”. Definitivamente. . p.

sua mais sublime sedução e tentação — a quê? ao nada? —. sacrifício. O niilismo europeu. p. O instinto criador em Nietzsche adviria da aceitação do eterno retorno e da necessidade de auto superação. que implicaria a acepção do Eterno Retorno38 do mesmo e do Amor Fati. precisamente nisso enxerguei o começo do fim. ninguém na modernidade leva a sério “o mais da vida”. Nietzsche prevê a superação deste niilismo mantido pelo sentido histórico. segundo Nietzsche (2009. em especial. por que sua ciência dava ao tipo humano moderno a sensação de ser epígono. era objeto do ceticismo de Nietzsche. como o mais inquietante sintoma dessa nossa inquietante cultura europeia.58 [o problema de A Genealogia da Moral] Tratava-se. divinizado. e os preconceitos deles advindos. com base nos quais ele disse não à vida e a si mesmo. Nesse ponto. centrada não na evolução temporal cronológica. Jean Lefranc (2008. Este é o niilismo causado pelo excesso de sentido histórico. abnegação. mas no momento e no instante. Mas precisamente contra esses instintos manifestava-se em mim uma desconfiança cada vez mais radical. 03) Como podemos ver os valores morais. a última doença anunciando-se terna e melancólica: eu compreendi a moral da compaixão. p. do valor do “não-egoísmo”. um ceticismo cada vez mais profundo! Precisamente nisso enxerguei o grande perigo para a humanidade. como o seu caminho sinuoso em direção a um novo budismo? a um budismo europeu? a um — niilismo? (NIETZSCHE. mas sim faz um balanço “apocalíptico” de todas as épocas passadas. “nosso tesouro está onde estão as colmeias de nosso conhecimento”. aceitos até mesmo dentre os filósofos. Estas se perderam na erudição pela erudição. 7). pois. a vontade que se volta contra a vida. segundo o qual tudo há de retornar eternamente ao que já foi. 38 Principio divulgado por Zaratustra em Assim Falou Zaratustra (ano). condições para o surgimento do super-homem. tais pressupostos fazem relação direta com toda a problemática trabalhada ao longo deste estudo. Ao fim da citação o filosofo faz menção ao Niilismo. situação da qual a Europa moderna era refém. as “vivências”. a superação deste niilismo europeu não representa o fim de todo niilismo. . o ponto morto. cada vez mais se alastrando. por tão longo tempo que afinal eles lhe ficaram como “valores em si”. o cansaço que olha para trás. no caso. 188-201) defende uma relação próxima entre niilismo e vontade de poder. idealizado. capturando e tornando doentes até mesmo os filósofos. que precisamente Schopenhauer havia dourado. comparado por Nietzsche a um budismo europeu precisava ser superado. O “olhar cientifico moderno” ao se dirigir para outras épocas não visa inspiração para a ação criativa. dos instintos de compaixão. p. mas sim o inicio de outro. No entanto. mas assume uma posterior recaída noutro niilismo. 2009. por que representava um entrave a ação criativa humana. Tal conceito revela uma concepção de tempo em Nietzsche.

ainda que só para o vazio” (WHITE. 377. a vontade tinha sido salva. . in: A Microfísica do poder (1979). Em suma o problema da história em Nietzsche 39 Frase encontrada no texto Nietzsche e a Genealogia. tal obra simboliza a história a resolver o problema da história na cultura moderna. É neste sentido que Nietzsche busca fazer a Genealogia dos valores morais. 339). temos no “novo historicismo” projetado por Nietzsche a superação do problema do sentido histórico na modernidade.59 Para Hayden White (1995). 1995. É. p. p. existe um Nietzsche-imoralista que desde A Origem da Tragédia no Espírito da Música compôs uma crítica à forma como a cultura moderna se inundou de preconceitos de ordem moral. Em suma. p. p. um exemplo de como a história poderia ser encarada ou feita em consonância com as necessidades vitais dos indivíduos modernos contemporâneos a Nietzsche. Como vimos é a partir do nosso autor a história para resolver o problema da história. representa um chamado a uma “consciência histórica nova” (WHITE. 07) reconheceu que em sua juventude creditou a Deus a origem destes valores. Diz ela: “Todo começo histórico é baixo”. 377). Segundo White (1995. A genealogia dos valores morais promovida por Nietzsche tinha como objetivo. 1995. ou de uma época. Alguma coisa fora conquistada. p. a ciência deveria estar em consonância com um projeto de humanidade especifico.4 A filosofia de Nietzsche. em suma. “Na opinião de Nietzsche a cultura europeia alcançaria os limites exteriores de sua própria alienação. para Nietzsche. Dizia Nietzsche na SCI (2008.). 15) que há uma maneira de se encarar e fazer história segundo o qual o futuro se “estiola”. denunciar a origem histórica “baixa” 39 dos valores morais. A SCI propõe argumentar contra esta forma de fazer história em prol de uma forma historiográfica que se reconcilie com as necessidades vitais dos indivíduos. Toda a crítica Nietzschiana da história exposta anteriormente. tendo em vista a necessidade de reconciliar ciência e vida. 2. se dava no sentido de possibilitar a redenção do homem moderno do niilismo que se via inundado de uma ciência que não estaria em consonância com uma corrente de vida. Segundo White (1995). para utilizar das palavras de Foucault (1979). ao passo que o próprio Nietzsche (2009. o que fortalece e enfraquece a vida: a história como fomento para a ação criadora e a vida afirmativa.

estaria assim indissociável de uma ideia muito bem desenvolvida nos últimos textos de Nietzsche: A ideia 40 Lefranc (2008) busca desvencilhar a oposição forte e fraco utilizada por Nietzsche de concepções darwinistas. Segundo White (1995. Como foi demonstrado nos tópicos anteriores. De forma geral. construídos sobre o pilar da objetividade. 340). pode-se então listar uma forma de encarar e fazer a história que constrói seres humanos “fortes”. . um tipo humano que Nietzsche diz ser fraco. na opinião de Nietzsche. mas que aparece de forma mais delineada em O Anticristo (1888). devemos explicitar tal crítica da ideia de verdade. p 17). 1995. p. dentro da filosofia Nietzschiana não reside apartada de uma posição anticristã. essa dicotomia é encontrada em toda a filosofia Nietzschiana desde O Nascimento da Tragédia.60 gira em torno de como “aplicar as ideias históricas a finalidades criativas” (WHITE. outro vestígio de nossa necessidade cristã de acreditar no único Deus verdadeiro”. segundo White (1995). e persiste nas Considerações Intempestivas uma vez que estas são a tentativa de construção de uma cultura forte e vivaz. onde o autor se pergunta sobre “o que é ser alemão”. Nietzsche (Genealogia da Moral) enquanto filósofo imoralista. 41 Em inúmeros aforismos ele criticou a cultura alemã. se coloca a criticar e reavaliar o valor da moral vigente na Alemanha do século XIX. Posição esta que foi adotada por Nietzsche em diversos textos e aforismos. Pois. Para Nietzsche (2007. em oposição ao conjunto de fenômenos que Nietzsche identifica como sendo a cultura alemã moderna41. (WHITE. de considerar o passado. Devemos entender tais oposições aqui tendo em vista a objeção que a filosofia nietzschiana faz da religião cristã que criou. 1995. e um tipo que constrói seres humanos “fracos” 40. p. e em consequência a crítica nietzschiana da história. 339). p. transparece melhor tal crítica especificamente no aforismo 357. No entanto. que estimulava tantas visões decibéis da história quantos projetos houvesse de alcançar uma consciência de si nos seres humanos individuais. No que diz respeito a história especificamente. adviria de um preconceito de ordem moral a “crença” na “verdade” dos conhecimentos científicos. a tal dicotomia entre uma duas formas de história é evidente: Nietzsche dividia as maneiras como os homens encaravam a história em dois tipos: um tipo negador da vida. A crítica de Nietzsche a ciência moderna. ou decadente. ou “correlato”. a partir de valores morais específicos. e um tipo afirmador da vida. em A Gaia Ciência (2006). 340) “o desejo de acreditar que havia uma única ideia eternamente verdadeira ou correta da história era. que pretendia encontrar o único modo eternamente verdadeiro.

p.” (NIETZSCHE. Uma vez que Deus está morto. da superação. A dinâmica do mundo se dá. possibilitaria aos homens as condições para que se tornassem aquilo que eles realmente eram: Uma ponte entre os macacos e o super-homem Nietzschiano42. 2006. dos miseráveis. 62). da intensificação. e que tal processo de superação poderia dar origem ao Super-homem Nietzschiano. O conceito de Super-homem em Nietzsche aparece de forma mais explicita em Assim Falou Zaratustra (1882-1885). não há mais além. No entanto. Pode-se por mais de uma vez tirar testemunho disso dos aforismos escritos por Nietzsche.61 de que uma forma efetiva de fazer a ciência promoveria um processo de auto superação humana. Nestas palavras. em ultima instancia. por exemplo. todas as coisas se encontram numa relação de disputa umas com as outras. é nesse contexto de contradições que se desdobra a ação dramática do tornar-se o que se é. não há mais consolo ou espera. um processo continuo de autosuperação seria capaz de dar origem a uma outra espécie. dos anciãos? Ser assassino sem cessar? – E no entanto. devido a uma relação orgânica entre a ideia de superação e de contradição. O homem necessita de auto afirmar-se enquanto criador de valores. como a plateia se encontrava a esperar pelo show circense que se aproximava. 205). É desse modo que se encontra o mundo de Zaratustra. Julião (2000. isso significa. ninguém deu ouvidos as ideias professadas por Zaratustra em seu discurso sobre o homem e sua condição. Podemos ver explicito o “chamamento para a ruminação dos valores” no anuncio da morte de Deus. ou seja. portanto: Não ter piedade dos moribundos. 204-205) defendeu em sua tese que na obra Assim Falou Zaratustra a missão de Zaratustra era justamente espalhar o ensinamento da superação de si. ele diz: “Viver. p. “anciãos” e “miseráveis” os representantes da profissão de uma moral de cunho cristão no meio social. No aforismo 125 de A Gaia Ciência um homem louco com uma lanterna em pleno dia balbuciava seus lamentos pela perca da divindade: 42 Tese anunciada pelo próprio Zaratustra ao discursar em praça publica na primeira parte de Assim Falou Zaratustra. 2000. o autor se serve de uma analogia para identificar nos “moribundos”. E tal doutrina. (JULIÃO. na modernidade seria uma decorrência da crítica dos valores morais de cunho cristão. tão mais aprimorada em relação ao homem moderno. Em A Gaia Ciência (2006). Como o homem teria evoluído de um primata (macaco). em busca do domínio. do aumento. quanto este o é em relação ao primata primordial. p. . o velho Moisés disse: “não matarás. Assim. sendo no contexto geral da obra Nietzschiana a superação do niilismo europeu.

ou como o homem obteria sentido existencial sem o aporte que representava a divindade. o eterno retorno é o pensamento central da terceira parte de Assim Falou Zaratustra e Zaratustra-Nietzsche busca “apresentá-lo como o pensamento mais elevado que permite a superação da “virtude de rebanho” e do niilismo como determinante do sentido histórico em favor de uma vontade livre e afirmativa. e novamente. 2000. p. o homem louco não encontra dentre todas as pessoas que o assistiam nenhum que reagisse positivamente a suas interrogações. que quer sempre o mais elevado como forma de sua expressão” (JULIÃO. Para Nietzsche o homem deveria viver de modo que pudesse desejar viver novamente. segundo a filosofia nietzschiana.62 Para onde foi Deus? – exclamou – É o que vou dizer. 129-130). Uma espécie de ética para a ação que não abre espaço para o arrependimento ou remorso dos atos passados. mas os homens ainda precisavam lidar com sua sombra. sempre como se tudo tivesse que retornar. uma superação do niilismo europeu em favor de um modo de vida afirmativo e livre. para trás. 129-130) Fazendo ainda muitos questionamentos em relação a como o homem se comportaria. 43 Nietzsche desenvolve através do conceito de super-homem. p. Eternamente e. tudo isso visava uma nova ética. Não há um “além-vida” na filosofia nietzschiana. A personalidade do Super-homem Nietzschiano é marcada pelo . Esta sombra poderia ser a moralidade de cunho cristã? Em suma: podemos ver explicitamente que é contra tal moralidade que Nietzsche luta em absoluta maioria dos textos que escreveu. para o lado. Nietzsche (2007. p. para todos os lados? Haverá ainda um acima e um abaixo? (NIETZSCHE. nos somos os seus assassinos! Mas como fizemos isso? Como conseguimos esvaziar o mar? Quem nos deu uma esponja para apagar o horizonte? Que fizemos quando desprendemos esta terra da corrente que a ligava ao sol? Para onde vai agora? Para onde vamos nos? Longe de todos os sóis? Não estamos incessantemente caindo? Para diante. Seria falha. É a partir da superação do niilismo moderno que a modernidade chegaria. e segundo Lefranc (2008) o seu conceito de Eterno Retorno define uma concepção de tempo pautada no “momento”. uma acepção do que seria o tipo humano pleno. Conclui. Nós o matamos – vocês e eu! Todos nós. 2007. 206). a efetivar seu um projeto de humanidade pleno43. portanto. qualquer tentativa de encontrar o superhomem em personalidades como Napoleão. através desta analogia que a revelação da morte de deus é estranha aos ouvidos de seus contemporâneos que se encontravam ainda sobre a sombra de um Deus que havia morrido. que poderia ainda por um tempo incerto iludir os homens de sua existência. Deus estava morto. p. 206). Lefrac (2008) lista algumas características inerentes ao super-homem: A primeira delas seria que ele não existe dentre os europeus contemporâneos a Nietzsche. Segundo Julião (2000. Ora.

só serviria ao “homem de ação”. é justamente na problemática da superação do niilismo europeu na modernidade que reside o papel da “história efetiva”. enquanto homem que vive e que precisa da história apara a sua vida. 45-46) a objetividade e neutralidade do cientista-historiador. Somente assim a história poderia parecer verdadeira para o individuo. 17). bem e mal. para o homem de ação a história monumental não só é a melhor história. Quando o homem moderno não liga o “conhecimento” que dispõe a uma “vivência”.63 Assim temos que. alegria e sofrimento. 2003. “A vida humana contem seu eterno movimento de criação e destruição. indicam uma posição perspectiva por parte do autor. pois somente a partir de uma necessidade vital. uma das três posições. prazer e dor. p. e por um individualismo marcante. p. Esta posição estaria contra qualquer propriedade criativa do conhecimento histórico. pois o sentido dela não será encontrado em nenhum outro lugar que não seja nela mesma” (JULIÃO. p. 1995. valores morais vigentes. p. Segundo Neto (1989. 17 – 18). p. As três formas listadas por Nietzsche (2003. estaria ele distante da humanidade como um todo. história monumental. de um projeto de realização humana é que o indivíduo se apropriaria do passado numa destas formas.10) diz que o homem necessita saber em que grau a história deve ser esquecida para não se tornar caveira do presente ele queria destacar justamente que do ponto de vista da ação. O homem está sozinho nele. . Em outras palavras. a uma “experiência” ele se coloca contra qualquer processo de criação que seja efetivo. p. A história mesma. 378). p. como é a única que faz algum sentido. antiquada e crítica. 206). e isso justifica a crítica de Nietzsche (2003. Não é possível valorar diferentemente os três tipos de história a não ser que se assuma. ao quando é subjetiva. enquanto perspectiva para a vida. e arca com a responsabilidade de viver todo presente como se este devesse ser sua eternidade” (WHITE. Segundo Julião (2000. Agir é necessário e é partindo desse pressuposto que a ciência precisa se reconciliar com a arte no intuito de fomentar no homem uma intenção para a ação. do “fazer” a história “havia só o presente. “A história é pertinente ao vivente” (NIETZSCHE. 2000. pois o homem moderno não poderia encontrar o sentido da existência na ciência uma vez que ele reside justamente na vida. a partir de sua perspectiva. E é por isso que se pode encontrar tantas perspectivas de história verdadeiras quanto existem projetos diferentes de realização humana. 361) A história somente seria útil. Quando Nietzsche (2003. 206) Nietzsche estava atento a isso ao tecer suas críticas a ciência moderna que representaria um entrave a isso. para o homem que gosta de venerar e conservar o desprezo para com a “moral de rebanho”. Em suma. p.

Nietzsche. jamais pretendeu dizer que a história não é necessária. . O filosofo se limitou a dizer que seu excesso se torna um inconveniente. a única história “verdadeira”. apenas a história crítica serve. a história é necessária a todos os indivíduos e é.64 passado. a única história adequada é a tradicionalista. (NETO. fecunda ao ser tomada pelo “homem de ação” para afirmar a vida. Porém. 360). sobretudo. e para o homem que sofre. 1989. p. Somente como conhecimento perspectivo é que a história poder servir a vida. no entanto.

o historicismo tenta fazer da história uma ciência. Ele se posiciona em sua análise de maneira cética contra os valores morais modernos. no âmbito da ciência histórica é ser neutro. o autor faz a ligação de sua crítica a história oitocentista com uma forma na qual a história está em consonância com as necessidades vitais de uma época. A ideia de progresso na história e processo histórico é vista pelo autor como indicio cristão que prevalece na forma de pensar a ciência nos moldes hegelianos. Nietzsche denuncia assim uma historiografia que era feita sem vivificação. Conhecer cientificamente um fenômeno no âmbito da história é destruir toda a predisposição que este pode inculcar no individuo para a ação. Nietzsche alarga sua crítica aos pressupostos de correntes como a filosofia da história em moldes hegelianos e o historicismo alemão. ele se mostrou como sendo um critico ferrenho da ciência moderna. no entanto não planejava com tal denuncia excluir os estudos históricos. e nesta obra o autor se utiliza de uma investigação genealógica para expor aquilo que os valores morais têm de dissimulador e ilusório desde sua gênese. Toda a filosofia nietzschiana tem um cunho imoralista. e as vivências eram deixadas de lado em prol da ciência histórica. pois foi exatamente esta correte que viu na história um meio de se chegar às leis gerais do desenvolvimento do espírito humano. que contribuía para a manutenção de uma cultura dicotômica onde um interior rico não se refletia numa forma exterior igualmente rica. Enquanto filósofo. São os postulados da filosofia da história que contribuíram também para a supersaturação da época moderna pela história. e a partir das objeções que lançou contra esta. No século XIX. Nietzsche. A revisão. ou ruminação dos valores morais está posta em face da necessidade de se promover um resgate da situação de niilismo em que a cultura e os indivíduos modernos estavam mergulhados. e Nietzsche vê nesta pretensão uma institucionalização das práticas historiográficas que deterioravam a cultura moderna a partir do domínio do sentido histórico. Na Genealogia da Moral. Conhecer cientificamente algo. e contra a educação e a cultura tal como elas eram praticadas na Alemanha oitocentista. de história. criticou também a história. totalmente desvinculada com a necessidade de ação. Conhecer era o mais importante.65 CONSIDERAÇÕES FINAIS Nietzsche enquanto filosofo extemporâneo. Em UIHV temos uma objeção a historiografia moderna. Começando por este ponto. criticou de maneira contundente sua época. direta ou indiretamente. Em toda sua obra Nietzsche falou. Há em Nietzsche um projeto de cultura orientado para a criação de .

É esta a lição que se podem apreender da grande análise feita por Nietzsche em toda a sua obra. Em suma: se trata de imperativo ético. sua filosofia vem sendo revisitada por diversos pesquisadores. para que se ensina história? Podemos através dela tanto fomentar a ação criativa e afirmativa das gerações mais jovens. A superação de si é uma postura fundamental para que a ética niilista moderna seja reconfigurada de modo a dar origem a estes tipos humanos plenos. Diante de tudo isso. . Nietzsche em suas obras filosóficas deixou clara a transitoriedade do homem. com o intuito de analisar e discorrer sobre diversas questões. que o autor chamou de super-humanidade. de que o sentido histórico incentivava mais a imitação e a copia de exemplos já atestados pela história do que a própria vivência. Ao longo da história. ou seja. A contribuição de Nietzsche aos historiadores e professores de história em geral é incontestável neste ponto. e a de todas as forças gregárias niveladores. Neste trabalho apresentamos aquilo que é a partir de nossa interpretação a perspectiva de Nietzsche a respeito da história como possibilidade para a vida. que a partir do exercício de auto superação constante colocaria fim a sua espécie na criação de uma outra espécie. quanto incentivar a imitação e a cópia de modelos já atestados. afirmativa e criativa. pois o super-homem Nietzschiano é um ser que se encontra apto a se desvincular de toda a moral de cunho religioso. de eternamente retornar. podemos ver que a crítica Nietzschiana da história está atenta para uma questão em especial: como o conhecimento histórico poderia fomentar a ação criativa? A objeção do autor a modernidade atentava para este ponto especifico.66 seres capazes de realizar plenamente sua humanidade. Instrumentalizar o conhecimento histórico para a ação é uma problemática muito atual nos círculos acadêmicos universitários. para afirmar sua vontade de viver sua vida eternamente. pois afinal. Mesmo uma simples aula de história deve levar em consideração tais reflexões.

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