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A EDUCAÇÃO COMO FERRAMENTA DE SUBMISSÃO E DE NÃO-CONTESTAÇÃO
Danton Medrado

«Y sobre todo no olvidemos que en materia de educación no hay más que un solo derecho superior a los otros y ante el cual todos deben ceder: el derecho del niño». (Francisco Ferrer i Guàrdia)

A escola como nos é apresentada socialmente é a grande porta de entrada no mundo real das coisas construídas pelos homens tidos como superiores, estes, pensantes e sabedores do que é melhor e pior para as crianças, com bases em suas informações, coletadas também neste fantástico mundo no qual tentam nos enfiar desde que somos ainda rebentos. O que antes era símbolo de poder e autoridade, dos dotados de sabedoria e produtores de cultura, e que diferenciava os servidores, dos senhores; os fracos, dos fortes, surge hoje como direito garantido nos países tidos como desenvolvidos, equivalendo a dar oportunidades iguais para todos. A importância dada à escola é tanta, que basta despontar um novo agrupamento de pessoas, a menor comunidade que seja, a primeira reivindicação do grupo, antes mesmo até de hospitais ou saneamento básico, é a escola. O grande desejo dos pais é então ter os filhos na escola, o que de certa forma torna-se algo maravilhoso para o estado, visto que, é como se o escravo exigisse os grilhões que o prendem às suas condições. Não é de se estranhar que a cada dia que passa os governos têm dedicado cada vez mais recursos para a educação e mesmo assim, a educação tem se mantido em boa parte, estagnada na sua forma de construir modelos de cidadãos, ou seja, mantém-se a fórmula original de imposição de regras, construção de sistemas de obediências e uniformização mercadológica contemporânea, que consiste em preparar o empregado de acordo com o empregador do momento. Salvo exceções, é a escola é responsável por estes novos modelos, (apesar de antigos) de formação de mão de obra, que, mesmo desqualificada para o trabalho, torna-se apta a um emprego no mercado. A escola torna-se a celebridade da educação, muito embora sendo um dos muitos lugares onde se pode aprender e ensinar, ela torna-se apenas um centro de transmissão de

segurança etc. instruindo um aluno a exigir qualquer coisa que não seja a nota melhor no boletim. sabedor. em violência contra o estado e os cidadãos de bem. satisfazendo o sistema ao mesmo tempo que fortalece-o como grande “desconstrutor” de conhecimento e cultura. enquanto que cabe aos professores. informações essas supérfluas. é uma das informações construídas pelo estado com o intento de fazer-nos acreditar nesse engodo. e por sua vez também não questiona. A escola edifica a cultura do medo. de questionar ou de propor uma nova forma de enxergar a própria educação.. construídas em sua parte pela mídia. assim como nos dizem que temos direito a educação de qualidade. já está apto a ser professor. que o estado transforma-a em ferramenta de submissão.www. funcionários e alunos cabe portarem-se de maneira a não ferir este sistema. seja ele de pensar. pois está investido de autoridade. a escola passa a ser a grande promotora de informações e conhecimentos que a sociedade precisa. E eu não consigo imaginar um professor que tenha medo de questionar. O questionamento é algo inaceitável no ambiente escolar. de falar.br informações. de tentar. a autoridade do cargo. A não-aceitação de tais informações e a não-adaptação a um mundo maravilhoso onde o estado pode garantir tudo. quando nos diz que: “. saúde. e se dar bem na escola significa ater-se a uma infinidade de informações sem vínculos com a aprendizagem que não seja a de submeter-se.dantonmedrado. A autoridade investida ao profissional da educação faz dele um todo poderoso. muito embora esteja apenas reproduzindo informações criadas por aqueles que querem manter o indivíduo submisso às autoridades constituídas. aquele que até pouco tempo era aluno. visto ter adquirido informação suficiente para reproduzi-las. porque ao estado tudo é possível. A educação passa a ter um papel de fundamental importância na sociedade. é nisso que se apoia o estado. A ideia de um ensino para todos contraria o princípio de autoridade”. como a que encontramos no dia a dia. A crença errônea de que é possível criar sujeitos livres dentro de escolas comuns. pode gerar sérios problemas para os indivíduos de uma comunidade. pois está acometido pelo comodismo e ou pelo medo que lhe foi plantado desde ainda criança no primário. mas é justamente criando a ideia de que a educação melhora as pessoas. e aceita como verdade absoluta ou conhecimento real. e ainda por cima cria a falsa ideia de igualdade..com. defensor da ordem e da submissão às leis. Esse modelo de educação cria um ciclo de fomentos que cresce assustadoramente. disseminada com rapidez pelos meios de comunicação. aqueles que resolvem questionar são tratados . visto que. desde que o cidadão não questione. e principalmente. em seu “Falso princípio da educação” já chama a atenção para esse contrassenso. o de transformar questionamentos. Stirner. logo tratado como insubmissão e consequentemente como violência. Para ser melhor e obter sucesso é necessário se dar bem na escola. e logo. O professor não aceita ser questionado. Pois bem.

E se na escola pedida pela comunidade e construída pelo estado não puder ser ouvida a comunidade e os indivíduos nela envolvidos. Se por um lado o estado instrumentaliza o sistema educacional para dar ao aluno o que ele. no ambiente educacional que deveria ser livre de imposições. a liberdade não pode expressar-se. Sufocam pela força nossa saudável tendência à indisciplina e impedem ao mesmo tempo o saber de desenvolver-se em vontade livre. se não puder ser trabalhada a educação que faça com que os envolvidos produzam conhecimentos ao invés de reproduzi-los.dantonmedrado. a escola só tem mesmo a finalidade de moldar a todos de acordo com os seus conceitos de realidade e sob os padrões da elite. a qual todos buscam copiar. possuidores de informações. a escola será construída para formar.” (Max Stirner) Está mais do que na hora de fortalecermos a vontade. tendo como base conhecimentos adquiridos e transformados. ou confrontar e então ser esquecido ou marginalizado. não se limita apenas ao aspecto formal ou material (2001). torna-se o falar por falar. pois esta última não tem valor se desprovido de saber. diplomas e emprego. A educação tornouse uma deusa que submete seus fiéis as mais horríveis condições de subjugados. O não-questionamento e a submissão irrestrita a uma autoridade. como diria Stirner. dando um basta aos sistemas que nos oprimem. A escola que tanto queremos deve ser mais do que um depósito de crianças e jovens sendo instruídos a não mudar o que não entendem. ainda segundo Stirner. esquecidos e ignorados pelos demais cidadãos ordeiros e responsáveis..” “. assim sendo terá o indivíduo que optar em aceitar e então ser aceito. Os professores devem entender que a proposta de civilizar as pessoas é força-los a aceitar a ideia de . exigem apenas submissão. (o sistema) quer. pois os que adoramna vivem na ilusão de que ajudam os que por ela são devorados diariamente. ou seja.br como problemas ou são simplesmente engolidos. e a terem medo de entender.. cabe ao estudante a tarefa de desenvolver-se continuamente em busca da liberdade que seja mais do que a de livre expressão. como em outros campos. “Em pedagogia. dar forma a um sujeito amorfo. e principalmente.com. e não apenas fictícia. nossa faculdade de oposição não pode exprimir-se.. tornam-se empecilhos graves ao desenvolvimento do estudante que busca entender o funcionamento das coisas e fazê-las funcionar de forma satisfatória e real. E já que o ensino. significa que ela..www. por outro lado é tirada do indivíduo toda a vocação ou vontade de voltar-se para campos diferentes dos apresentados nas escolas.

Uma História da Governabilidade. Kleber Prado. Sílvio. 2006. 2010. . A Boa Educação – Experiências Libertárias e Teorias Anarquistas na Europa. Rio de Janeiro: Graal. A proposta de punir. O Falso Princípio da Educação. e que devem gastar seus tempos. GUÁRDIA. Max. PASSERON. CODELLO. FOUCAULT. GALLO. Já o querer. Francisco. 2001. 1984. P. Rio de Janeiro: Francisco Alves. mas pode possibilitar a existência de aprendizagem contínua e muito além do que simples informações escolhidas.br que há uma cultura melhor que outra. 2007. 2008.dantonmedrado. A reprodução. Não há castigo ou punição maior para um ser livre do que estar num lugar onde não se quer estar. GADOTTI. Elementos Para uma Teoria do Sistema de Ensino. Anarquismos e Educação. KASSICK. como autoridades que são. 2008. mas possibilitando aos mesmos que construam e trilhem seus próprios caminhos.. de Godwin a Neill. Anarquistas. seja com provas. Abracemos a educação que possibilite as diferenças e o respeito a elas.www. Piracicaba: Ateneu Diego Giménez. FILHO. não conduzindo-os por caminhos prontos. (não pelo poder investido pelo título. (trd) Reynaldo Bairão. seja com castigos. Clóvis Nicanor. A Ex-cola Libertária. Rio de Janeiro: Achiamé. A educação por si só não salva o mundo. pois o saber quando motivado pelo querer põe o ser humano em marcha. Moacir. CHOMSKY. São Paulo: Imaginário – EDUA. BIBLIOGRAFIA STINER. São Paulo: Imaginário. Vol. A Escola Moderna. mas pelo conhecimento adquirido e compartilhado). São Paulo: Cortez. antagoniza-se com a educação. J. Rio de janeiro: Achiamé. 2004. Propaganda Ideológica e Controle do Juízo Público. BOURDIEU. este é o que devemos despertar nos educandos. Noam. 2007. 1. e fazendo algo que não se gosta e nem se quer fazer. sem subjugarmos o indivíduo. São Paulo: Imaginário – Ícone. Michel. Francisco Ferrer. Educação e Poder. 1982. Pedagogia Libertária. Rio de Janeiro: Insular – Imaginário. Microfísica do Poder. que também é uma espécie de punição. Michel Foucault. pensando em desenvolver pessoas livres.com. C.