APLICAÇÃO DE PRODUTOS DE SENSORIAMENTO REMOTO NO ESTUDO DA EVOLUÇÃO DO USO E OCUPAÇÕ DA TERRA NA MICROBACIA DO CÓRREGO DOS CHAVES – MORRINHOS –GO

. 1965 - 2007
Renato Adriano Martins¹
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Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal de Goiás Campus Catalão/Goiás. Núcleo de Estudo e Pesquisa Sócio-Ambientais (NEPSA-CNPq), e-mail: renato-geo@hotmail.com Termos para indexação: Microbacia, uso e ocupação da terra, Área de Preservação Permanente

Introdução

Há vários séculos a região Centro – Oeste brasileira vem sofrendo intervenção antrópica, primeiro vieram os bandeirantes em busca de ouro e pedras preciosas e de índios para serem escravizados. Com o depauperamento das minas essa região suportou outras atividades econômicas, onde segundo Ferreira (2003, p. 147), “a região passou a ser explorada pela criação extensiva de gado e culturas de subsistência”. Acoplado ao desenvolvimento agrícola vieram os problemas ambientais. A mecanização e modernização da agricultura intensificaram e remodelaram o uso da terra na região Centro – Oeste sem, contudo, preocupar-se com o planejamento e uso dos recursos naturais. O Cerrado, vegetação típica da Região Centro-Oeste foi quase todo destruído, cedendo lugar para a pecuária ou para as praticas agrícolas. A pesquisa em questão objetivou evidenciar como o uso e a ocupação descomedida da terra causa sérios problemas ambientais, afetando diretamente seu equilíbrio. Para tanto, dois elementos da paisagem foi rigorosamente analisado: As Veredas e as matas ciliares, que segundo o Código Florestal do Estado de Goiás, tais fitofisionômias são Áreas de preservação permanente (APP).

Material e Método Para realizar tal estudo, primeiramente foi necessário cartografar a microbacia do ribeirão dos Chaves. Para tal fim foi utilizado carta topográfica folha Morrinhos (SE-22-X-D-IV escala

No processo de interpretação das fotografias aéreas foi utilizado o esterioscópio de espelho que possibilitou a confecção de “overlays”.578 15. A próxima etapa valeu-se da interpretação dos produtos de sensoriamento remoto: fotografias aéreas na escala de 1: 60.3 TOTAL FONTE: Mapa de uso da terra – 1965 ORGANIZAÇÃO: Renato Adriano Martins 148. área de pastagem plantada. classificador MAXVER.53 0. vegetação natural. agricultura.94% ou 84. órbita 158.02 % da área. 2B com escala compatível de 1: 50. localizadas sobre as seguintes classes de cobertura de terras (Fig.000 datadas de 1965 e imagem do satélite CBERS 2 CCD. As áreas de pastagens. rodovia pavimentada. em 1965.19 2.97 10.000 datadas do ano de 2007. A interpretação e quantificação do uso da terra do ano de 2007 ocorreu sobre mapa temático. já era a paisagem dominante na microbacia. franja urbana e represa. composição colorida 4G. sobre a imagem do satélite CBERS 2.703Km².703 44.290 3. No processo de classificação foram definidas 70 áreas irregulares de treinamento. estradas e perímetro urbano. a microbacia do Córrego dos Chaves já se encontrava em avançado estado de antropização.742 100 Conforme a tabela 1.086Km² o que correspondiam a 70.1:100.422 ÁREA % 56. Resultados e Discussão Tabela 1: Uso da terra na microbacia do Córrego dos Chaves – 1965 Uso da Terra Km² Pastagem Remanescente Agricultura e solo Franja urbana Rodovias 84.000). localizando desde o baixo até o alto curso da microbacia (fig. somavam juntas 104. Pode se observar que nessa época a pastagem com 56. confirma que sua distribuição se dava de forma irregular. ponto 120.671 0. 3R. produto de classificação supervisionada pixel a pixel. .94 29.1). pivô. sensor CCD (Charge Coupled Device). 3): área de agricultura e solo exposto.

98 0.007 2.742 Fazendo uma comparação entre as tabelas 1 e 2 nota-se que essa prática apresentou uma irrisória variação de 4.Tabela 2: Uso da terra na microbacia do Córrego dos Chaves – 2007 Uso da Terra Km² Pastagem Remanescente Agricultura e solo Pivô represas Franja urbana Rodovias TOTAL FONTE: Mapa de uso da terra – 1965 Organização: Renato Adriano Martins ÁREA % 52.34% entre os anos de 1965 e 2007.311 3. .60 21.377 0. sua área diminuiu de 84.260 32.20 2.70 20.84 1.60 100 78.703Km² para 78.900 148.959 0.260 Km² uma alteração praticamente insignificante.25 0.305 31.

Individualizam-se por possuírem solos hidromórficos. Tal afirmação evidência porque as APP não podem sofrer intervenções que venham desencadear processos que promovam o desequilíbrio ambiental. vegetação e fauna. pela a Lei n° 12. extrapolando até os limites ripários das Veredas. bem como para a dissipação de energia erosiva”. o qual diz que tecnicamente. em seu art. As Veredas As veredas são fitofisionômias característica do Cerrado brasileiro. as matas ciliares e as veredas são reconhecidas como Áreas de Preservação Permanentes. chamam a atenção para o fato de que a “área de preservação permanente (APP) demanda atenção especial porque está voltada para a preservação da qualidade das águas. (1995). apud FERREIRA 2003). A degradação direta ocorre quando o represamento se dá espontaneamente sobre os domínios da Vereda. feições e/ou lugares que por possuírem grande importância para o equilíbrio ambiental. o que vêm a provocar a . é necessário que haja alagamento das áreas vizinhas. Os represamentos são as formas de degradação mais comum encontradas na microbacia do córrego dos Chaves. As represas degradam diretamente ou indiretamente as Veredas. quase sempre com a presença de buritizais (Mauritia vinifera e M.Impactos ambientais causados pelo uso da terra em área de preservação permanente As áreas de preservação permanentes são fitofisionômias. parágrafos II e X consecutivamente. Para a formação dos reservatórios. apud Lima e Brandão (2002). como brejos estacionais e/ou permanentes. Nestas áreas deve-se buscar a manutenção das características originais que são indispensáveis para uma melhor qualidade sócio-ambiental.593.596. A degradação indireta acontece quando se constrói barragens nos cursos d’água próximo ao ambiente de Veredas. 150). Sua formação está condicionada ao contato entre duas camadas estratigráficas de deferente permeabilidade (FREYBERG. de 13 de novembro de 1995. regulamentada pelo Decreto nº 4. as Veredas se constituem num subsistema típico do Cerrado Brasileiro. de 14 de março de 1995. No Estado de Goiás. configuradas em terrenos depressionários dos chapadões e áreas periféricas (grifos do autor). são protegidos por leis e que não podem ser submetidas à intervenção antrópica. 5°. Barcelos et al. Está fitofisionômia foi estuda por Ferreira (2003 p. flexuosa) e floresta estacional arbóreo-arbustiva e fauna variada. advém então à substituição da vegetação natural por barragem e reservatórios.

. que orla um dos lados de um curso d'água. tento em vista que as veredas “funciona como um filtro. 2003. encontra nesse ambiente abrigo e proteção. como é o caso do Buriti (FERREIRA. altera o equilíbrio hídrico.morte da flora constituinte. A exploração dos recursos mineral provoca intensos processos de degradação nas Veredas devido às contínuas extrações de argila que são utilizadas como matéria-prima na fabricação de tijolos em olaria tradicional. seja interferindo inteiramente no escoamento superficiais das águas das chuvas ou funcionando como barreira contra a energia cinética provocada pelas gotas d’água. pode se classificar as matas ciliares como sendo “Floresta mesofítica de qualquer grau de caducidade. mas arvoredo. 1980 apud DICIONÁRIO ECOLÓGICO AMBIENTAL 2000. 10). 2003. com finalidade de implantar lavouras e/ou pastagens. p.165). As funções das matas ciliares estão diretamente relacionadas ao equilíbrio hídrico. que são responsáveis pela desagregação de partículas que vão dar início a processos de erosão. seja regulando as taxas de infiltração. expulsa pelas práticas agropecuárias. Os principais motivos que ditam a retirada das . a principal causa da degradação das matas ciliares está condicionada ao desmatamento para a expansão agrícola e pecuária. As matas ciliares Em termos técnicos.] o equilíbrio dos mananciais d’água dependem diretamente disto” (LIMA 1999 apud FERREIRA. em uma região onde a vegetação de interflúvio não é mata. até mesmo de algumas espécies hidrófilas não suportam o afogamento de suas raízes. A dissecação por drenagem artificial. o que vêm contribuir de sobremaneira para a extinção ou desaparecimento de dadas espécies. As Veredas constituem verdadeiros corredores naturais que servem de refúgio e fornece alimentos à fauna que. sedimento e nutrientes [. A intervenção antropica quase sempre finda em desmatamento desse ambiente.. Para Santos (2000). Estudos realizados na microbacia do córrego dos Chaves. escrube. regulando o fluxo de água.). A exploração desordenada desse subsistema produz grandes desequilíbrios ao meio ambiente. comprova tal argüição. savana ou campo limpo" (ACIESP. p.

realizadas a partir de interpretações de imagem do satélite CBERS 2 datadas de 2007 e através de medições in loco. o uso dos recursos naturais sem planejamento e sem perspectivas futuras. a falta de matas ciliares provoca perdas de solo que vêm intensificar processos erosivos e conseqüentes assoreamento dos rios. consolidado assim a prática agrícola em ambiente de Cerrado. fadou este bioma à quase total destruição. Segundo Santos (2000). os estudos mostraram que na maioria das vezes as matas ciliares apresentam extensões que variam entre cinco a vinte metros de larguras. . Os novos paradigmas de produção estavam pautados no cultivo de monocultura destinada ao mercado externo.matas ciliares estão condicionados a busca de maior “aproveitamento” da terra para a implantação de pastagens e/ou agricultura. durante as primeiras décadas do século passado. análises mais aprofundadas. as vezes possuem pequenas frações de vegetação que dão a falsa impressão de que as matas ciliares encontram-se preservadas. os cursos d’água formadores da microbacia deveriam ter no mínimo trinta metros de mata ciliar em cada margem. O poder do capital hegemônico. provocando diminuição nas taxas de infiltração e aumentando os riscos de enchentes. As imagens de satélite demonstraram e trabalhos de campo comprovaram que em algumas partes as matas ciliares estão completamente destruídas. vislumbrando sempre o lucro. Com o advento de novas tecnologias genética e industrial. o setor rural foi modernizado e mecanizado. A degradação do bioma Cerrado foi inevitável. Medidas que não se enquadram nas recomendações da legislação ambiental vigente. Causa diminuição no volume d’água devido ao escoamento superficial acelerado. Os cursos d’água que compõe a microbacia do córrego dos Chaves. A ocupação e uso da terra na microbacia do córrego dos Chaves seguiram os mesmos moldes da ocupação do Cerrado brasileiro. atuou de forma impiedosa e perversa na região cerradina. políticas públicas que priorizava a interiorização do Brasil incentivaram novos investimentos na região do Cerrado que passou a produzir em larga escala com o desígnio de atender ao mercado consumidor de produtos agrícolas da região Sudeste. estavam condicionados a agricultura e a pecuária de subsistência. evidenciaram a real situação das matas ciliares. A partir da década de 1930. De acordo com o que preconiza o código Florestal do Estado de Goiás. Porém. Os usos da terra. porém.

que vêm sofrendo descomedidas intervenções humanas. milho doce e laranja para exportação e para atender as demandas de indústrias alimentícias. A necessidade de se aproveitar o máximo possível áreas agricultáveis. como é o caso das matas ciliares e das veredas. Ter consciência de que uma boa qualidade de vida depende diretamente da qualidade do ambiente circundante. Até os anos de 1965 os usos de suas terras eram voltados para agricultura de subsistência e as pastagens existentes. Os resultados obtidos podem ser utilizados para auxiliar na tomadas de decisões no que tange a prevenção ou recuperação de danos causados ao meio ambiente.A microbacia do córrego dos Chaves vivenciou este mesmo processo de ocupação. soja. onde num período de 40 anos a intervenção humana redefiniu e redesenhou a paisagem local. é fato preponderante na busca de uma maior preservação e recuperação do meio ambiente. as pastagens naturais foram transformadas em pastagens plantadas. a modernização das práticas agrícolas redirecionou o uso da terra na microbacia. O estudo do uso e ocupação da terra é um ótimo subsídio para a análise dos processos impactantes ao meio ambiente. contribui de forma primária para averiguar como ocorreu e como está ocorrendo os usos dos recursos naturais na microbacia do córrego dos Chave. levaram produtores a fazer uso de terra em locais inadequados e até mesmos proibidos por lei. pois somente a partir do momento em que se conhece o problema é que se podem buscar soluções para mitigá-lo. Onde eram cultivados arroz e milho para atender as necessidades primarias hoje se cultiva em larga escala. . a agricultura de subsistência transformou-se em agricultura comercial. Todavia. A cobertura natural foi ainda mais reduzida. em sua maioria estavam condicionadas a pastagem natural.

A. Apostila .REFERÊNCIAS BEZERRA. G. S. Uberlândia. ROSA. PROJETO AST . (Estado). In: Espaço em Revista. Imagem CBERS – 2 RGB.br/caminhos-degeografia. out. FERREIRA. 2004. BRANDÃO. M. Uberlândia. S. E. Dissertação de mestrado. Unesp – Rio Claro – SP. Lei nº 12. JÚNIOR. 1965. de 14 de Março de 1995. Acesso em: 18 dez. 2004. C. SANTOS. 2004. Instituto nacional de Pesquisas Espaciais (inpe). da UFG. Acesso em: 18 dez.br/caminhos-de-geografia. M. . I. O. 2004. GOIÁS. Tese de Doutorado. out. 432. C. LIMA. São Paulo.htm>. especialização em Geoprocessamento.10/USAF.ufu. Fotografias Aéreas do município de Morrinhos.htm>. Catalão: Ed. Disponível em: http://www. L. O. C. Processamento digital de imagem.Pós-graduação latu sensu. 2003. O afogar das veredas: uma análise comparativa espacial e temporal das veredas do Chapadão de Catalão – Goiás. Lei Florestal do Estado de Goiás. Disponível em: http://www. Diagnostico ambiental da mata ciliar do médio curso do rio Cotinguiba. 1995. Goiânia: FEMAGO/SEMARH. Cachoeira Paulista. margem esquerda do rio Uberabinha em Uberlândia (MG). J. UFS – Aracaju – Se. In: Caminhos de Geografia. M. Mapa de uso da terra do município de Santa Maria-RS.ufu. L. 1996. In: Caminhos de Geografia. 2004. 2000. Diagnostico ambiental das áreas de preservação permanente (APP). BOGGIONE.596. O desenvolvimento agrícola da região centro – oeste e as transformações no espaço agrário do estado de Goiás. 2005.