O CONCEITO DE FORMAÇÕES SOCIAIS PRÉ-CAPITALISTAS NA OBRA DE KARL MARX E FRIEDRICH ENGELS, ENTRE 1845 E 1858

Autor: Daniel Lúcio Petronzelli Orientador: Pedro Leão da Costa Neto

INTRODUÇÃO
A produção historiográfica do século XIX, que privilegiava os acontecimentos políticos, os grandes personagens históricos, a análise puramente documental, etc., contou com a contribuição de inúmeros intelectuais: François Guizot, Leopold Von Ranke, Augustin Thierry, Jules Michelet, entre outros. Em meio a este círculo de estudiosos, surgiram dois pensadores fundamentais deste século, Karl Marx e Friedrich Engels. Ambos demonstrariam, com o desenvolvimento de seus estudos, uma insatisfação com a análise histórica contemporânea, nomeando, por exemplo, Ranke de “mentiroso contador de detalhes”.1 Nossa investigação neste trabalho será analisar a contribuição marxiana da história acerca das formações sociais pré-capitalistas, enquanto organizações de produção historicamente distintas ao capitalismo. O recorte temporal de nosso trabalho se, a produção teórica dedicada à temática em questão, entre os anos de 1845 e 1857-58, nos detendo em três momentos constitutivos do pensamento materialista da história, identificado nos seguintes escritos: A Ideologia Alemã2 de 1845, publicada postumamente; os artigos O Domínio Britânico na Índia e Futuros Resultados do Domínio Britânico na Índia3 ambos redigidos em 1853 e publicados no jornal norte americano New York Daily Tribune e a correspondência entre Marx e Engels que antecedeu a publicação destes artigos; e por fim, o capítulo dos

Grundrisse intitulado Formações Econômicas Pré-Capitalistas4 de 1857-58, também apenas publicado postumamente. Estas obras caracterizam-se como momentos sucessivos na trajetória intelectual de Marx e Engels em relação à sistematização das formas sociais que precederam o capitalismo, que encontrou a sua primeira exposição de forma canônica no célebre Prefácio à Contribuição à Critica da Economia Política de 1859. Em linhas gerais, os resultados a que chegamos podem ser definidos da seguinte maneira: A Ideologia Alemã representa a primeira sistematização marxiana de sua teoria. É importante destacar, que esta primeira tentativa de sistematização da concepção materialista da história, que permaneceu sob a forma de rascunho, até sua publicação, se encontra marcada ainda por uma falta de amadurecimento conceitual, como também por um relativo desconhecimento historiográfico, em parte justificado pelo próprio desenvolvimento da historiografia naquele momento. Estas insuficiências se manifestam na análise das formas sociais pré-capitalistas, estas vistas, ainda, com um forte olhar eurocêntrico. Aqui, os autores identificam três formas de propriedade: tribal, antiga e feudal, todas elas derivadas de uma subsequente divisão do trabalho, determinada pelo grau de desenvolvimento das forças produtivas. Entretanto, não há entre as propriedades uma ligação lógica e uma sucessão cronológica. Referente ao aspecto conceitual, cabe destacar que o conceito de relações de produção encontra-se ainda

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esboçado, sendo definido, como intercâmbio (Verkher), abrangendo tanto a circulação material como a espiritual, porém, sua relação dialética com as forças produtivas já está devidamente indicada. O caminho tortuso da vida de Marx o levou, na década de 1850, a fixar residência em Inglaterra. Neste momento, nosso autor retoma seus estudos de economia política, lendo ou relendo, autores como: Adam Smith, John Stuart Mill, James Mill, etc., sabe-se, também, que estudou obras de viajantes e historiadores do Oriente. Sua estadia na grande potência comercial e industrial da época o forneceu um contato maior com as questões provenientes da Ásia, em particular da Índia. Daqui surgem, em parceria com as cartas enviadas por seu amigo Engels, os artigos para o jornal New York Daily Tribune, nomeados: O Domínio Britânico na Índia e Futuros Resultados do Domínio Britânico na Índia. Neles, encontram-se as cocepções marxianas sobre a forma social asiática, definida como propriedade comunal, da qual se erige um poder estatal, que por sua função nas obras públicas, indispensáveis para a realização da agricultura, se autonomiza diante das aldeias e, portanto, aparece como proprietário único do solo. Por fim, Marx entre os anos de 1857-58 redige os Grundrisse, caracterizados por serem longos manuscritos. Aqui o autor estava preocupado em definir o modo de produção capitalista. Para tanto, ao chegar ao problema da acumulação original do capital, se viu obrigado a discorrer sobre as formações sociais pré-capitalistas, na medida em que a dissolução destas é o pressuposto para a separação dos trabalhadores dos meios de produção, isto é, a transformação do trabalho em trabalho assalariado e dos meios de produção em capital. A parte dedicada a esta análise encontra-se sobre o título

de Formações Econômicas Pré-Capitalistas. Nesta passagem, Marx irá ressaltar as formas asiáticas, a forma antiga e a forma germânica como sendo desenvolvimentos posteriores da comunidade original, embora, novamente, não havendo uma ligação lógica e cronológica entre elas. A conexão entre os trabalhadores e as condições objetivas de produção é a propriedade, mediada pela comunidade da qual o indivíduo pertence. Estes três momentos constituem, portanto, os momentos sucessivos da sistematização marxiana das formas sociais que precederam o capitalismo, tendo, como já mencionado, a célebre sistematização contida no Prefácio de 1859. Desta maneira, acreditamos, indiscutivelmente, que transformação do presente, parte da análise do passado, enquanto elemento substancial para compreendermos as contradições do capital como resultantes de um processo histórico e não, como alguns defendem, de uma origem eterna, imutável, isto é, a-histórica.

1 A CONCEPÃO MATERIALISTA DA HISTÓRIA E AS SOCIEDADES PRÉ-CAPITALISTAS EM A IDEOLOGIA ALEMÃ
Karl Marx nasceu em 5 de maio de 1818 em Trier – Província renana. Depois de ter terminado seus estudos no liceu, Marx entrou na Universidade de Bonn e mais tarde na de Berlim, neste percurso estudou direito, e principalmente história e filosofia. Já em 1841 defendeu sua tese de doutoramento nomeada Diferença da Filosofia da Natureza de Demócrito e Epicuro. Em Berlim, torna-se um “hegeliano de esquerda”, estes procuravam retirar do teórico Hegel conclusões ateias e revolucionárias.

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Ao se fixar em Bonn, Marx pretendia seguir a carreira universitária, mas o governo absolutista que já havia, em 1832, proibido Ludwig Feurbach de ministrar aulas, e também, em 1841, proibira Bruno Bauer de fazer conferências, obrigou Marx a renunciar a sua futura carreira. Em Colônia, funda-se o jornal intitulado Gazeta Renana, onde Marx será um de seus principais colaboradores. Sobre a direção de Marx, que se torna seu redator chefe em outubro de 1842, o caráter crítico do jornal se acentua, sofrendo, então, forte censura por parte do governo. Mesmo a tentativa de Marx em abandonar o posto de redator não salvou o jornal, que teve sua publicação proibida em março de 1843. A atividade de jornalista fez com que Marx percebesse a insuficiência de seus conhecimentos em relação à economia política, para tanto, lança-se a estudá-la assiduamente, como demonstra o Prefácio à Contribuição à Crítica da Economia Política de1859,
Em 1842-43, sendo redator da Gazeta Renana vi-me pela primeira vez no difícil transe de ter que opinar sobre os chamados interesses materiais. Os debates da Dieta renana sobre a destruição furtiva e o parcelamento da propriedade do solo, a polêmica oficial mantida entre o sr. von Schaper, na ocasião governador da província renana, e a Gazeta Renana sobre a situação dos camponeses do Mosela e, finalmente, os debates sobre o livre câmbio e o protecionismo levaram-me a ocupar-me pela primeira vez de questões econômicas.1

das categorias econômicas”2. A revista foi suspensa pela dificuldade de sua distribuição clandestina e pelas divergências com Ruge. A afinidade de pensamento uniu os dois amigos, que haviam chegado as mesmas conclusões, porém, a partir de caminhos diferentes. A isso se deve aos estudos de economia política, filosofia alemã e história, e também a aproximação dos autores das correntes socialistas franceses. Gorender destaca igualmente a importância da produção historiográfica francesa da restauração:
O momento de transição, em que se gesta o marxismo, foi também marcado pela leitura apaixonada das produções da Historiografia. Sob esse aspecto, a conquista mais avançada vinha dos historiadores franceses da época da Restauração (Thierry, Mignet, Guizot e Thiers), que descobriram na luta de classes entre aristocracia e a burguesia a chave explicativa da Revolução Francesa e das lutas políticas subseqüentes.3

Ao contrário de Marx, a formação intelectual de Engels se desenvolveu, primeiramente, a partir da frequentação a aulas como aluno ouvinte em Berlim. A sua viagem à Inglaterra, para trabalhar na fábrica de propriedade de seu pai, o possibilitará entrar em contato com os movimentos operários, visualizar empiricamente a grande potência comercial e industrial da época, a Inglaterra e travar conhecimento da Economia Política Inglesa. O resultado desta estadia será a redação do importante livro A Situação da Classe Operária na Inglaterra. Portanto, ambos incorporaram a ideia do proletariado com classe eminentemente revolucionária. Em setembro de 1844, Engels esteve em Paris e encontrou-se com Marx, daí em diante a parceria entre eles só viria a ser interrompida com a morte de Marx em 1883. A pedido do governo prussiano, Marx foi expulso de Paris, por ser considerado um revolucionário perigoso, fixando, então, residência em Bruxelas. É nesta ocasião que os dois

No outono de 1843, Marx vai para Paris editar uma revista em colaboração com Arnold Ruge, nomeada Anais Franco-Alemães. Aqui se pública, juntamente com os artigos de Marx - Contribuição a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel e A Questão Judaica -, os escritos de quem viria a ser seu amigo mais íntimo, Friedrich Engels - A Situação da Classe Operária na Inglaterra e Esboço de Critica a Economia Política, a respeito do qual Marx observará, “seu genial esboço de uma crítica

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na realidade. E quando. sua ação e suas condições materiais de vida.5 2. de muito bom grado. portanto. Ela revela-se na interação entre forças produtivas e intercâmbio8 material. Monografias . elaborar. Eles são os indivíduos reais. receberá uma organização por parte de David Riazanov.Universidade Tuiuti do Paraná 65 | História | 2010 . Esta maneira de observar a transformação histórica dos indivíduos. e será publicada somente nas primeiras décadas de 1900. entregamos o manuscrito à crítica roedora dos ratos.10 A crítica dirigida aos “hegelianos de esquerda” tem sua síntese exposta pelos próprios fundadores da concepção materialista da história.resolveram. dos quais se pode abstrair apenas na imaginação. uma terminologia ainda não plenamente elaborada. uma vez que não houvesse quem publicasse a obra. e tornar-se-á uma das exposições sistemáticas do materialismo histórico. por outro. por representar um marco no processo de formação e desenvolvimento do Materialismo Histórico.6 Por certo. Nos términos de 1846. tanto as encontradas quanto as produzidas através de sua própria ação. É importante destacar que esta “primeira sistematização” apresenta. Devido a impossibilidade da publicação. é deles que nossa investigação deve partir. resolvemos trabalhar em conjunto para opor o nosso ponto de vista ao ponto de vista ideológico da filosofia alemã. por um lado. pelo fato de que muitos redatores eram representantes ou simpatizavam com os teóricos questionados na obra. não possuía uma redação final. uma crítica aos “hegelianos de esquerda”. da relação da crítica que fazem com seu próprio ambiente material. através de um caminho puramente empírico. pela crítica mordaz que continha. a síntese dessa ação recíproca constrói a sociedade civil. isto é. liquidar com a nossa consciência filosófica anterior. mas sem lamentações. Crítica que formará a primeira sistematização da teoria da história de Marx e Engels. pois o nosso objeto principal: esclarecer as nossas próprias idéias. porém. premissas e condições materiais”7 que os homens produzem sua história. A nenhuma desses filósofos ocorreu a idéia de perguntar acerca da relação existente entre filosofia alemã e realidade alemã. em meio a suas discussões.. Em vista disso. como nos menciona Marx. A Ideologia Alemã estava concluída. que só viria a acontecer postumamente. Segundo Marx e Engels. os autores desistiram dela. a análise aqui presente parte justamente de A Ideologia Alemã. Apesar de seu caráter originalmente fragmentário e inacabado. “o verdadeiro fogão e cenário de toda a história” 9. já estava alcançado. Estes conceitos formam o objeto central da análise dos autores em A Ideologia Alemã. O manuscrito já estava há muito tempo na Vestfália. decerto. são pressupostos reais. formularam. Esses pressupostos são constatáveis. no lugar em que deveria ser editado. Os pressupostos com os quais começamos não são dogmas arbitrários. não é livre de pressupostos e. na primavera de 1845. desempenhando um importante papel no marxismo do século XX. como veremos na sequência. O propósito foi realizado sob a forma de uma crítica da filosofia póshegeliana. como definem os próprios fundadores do materialismo histórico. é no processo de desenvolvimento da vida “sob determinados limites. A Ideologia Alemã4. ele se estabeleceu também em Bruxelas. A Ideologia Alemã permaneceu inédita durante a vida de nossos autores. de forma conjunta. quando nos inteiramos de que novas circunstâncias imprevistas impediram a sua publicação. ainda.1 A primeira sistematização da concepção materialista da história Como observado anteriormente. não são nem dogmas.

também criam. Mas a produção é. Aqui.l ligada diretamente com a organização do corpo humano e com a Natureza. agora. O primeiro fato situacional a ser constatado é.Universidade Tuiuti do Paraná 66 | História | 2010 . por outro. A produção destes meios de satisfação é condicionada. Esta ligação. Toda a historiografia tem de começar a partir desses fundamentos naturais e de sua modificação através da ação dos homens no decorrer da história. Gorender. A premissa de que parte da ciência positiva da história são os indivíduos humanos reais. vestir. a geração dos meios materiais. a única relação social. A premissa de toda a história é a existência de indivíduos humanos viventes. escrito aqui analisado o que vem a ser a organização do corpo humano e as condições dadas pela Natureza. Premissa à qual se chega por via empírica. o autodesenvolvimento da Ideia é substituído pelo processo da vida real.De acordo com A Ideologia Alemã. por permitir o desenvolvimento da vida dos homens. portanto. pela organização corporal humana. que no princípio é o único intercâmbio. em uma relação secundária. mas. que renovam todo dia sua vida. a organização corporal desses indivíduos e sua relação com o restante da natureza. determinada por condições materiais precisas que são as do meio natural. relacionadas de maneira íntima com as necessidades. Ao produzirem os seus meios de subsistência. uma maneira de manifestarem a sua vida13. transformando a família. encontra-se na base da história dos mesmos. No ato histórico de saciar as necessidades imediatas. somente. que conjugado aos demais pressupostos.12 Desta produção matéria. surgem novas relações sociais. da tentativa de Marx e Engels em romperem com a concepção Idealista da história. é a produção da vida material. os homens produzem indiretamente sua vida. o primeiro pressuposto de toda a história humana corresponde a existência de indivíduos humanos vivos. não mais se desce do céu para a terra. beber. É a partir da vida material que os indivíduos começam a se diferenciar dos demais animais. naturalmente não poderemos abordar nem a constituição física do homem em si nem as condições naturais. Decerto. Assim. acrescenta Bottigelli que. Desde o primeiro pressuposto histórico. Os homens. Para viverem são indispensáveis condições que proporcionem tal fim e isto representa a satisfação das necessidades mais imediatas – comer. para novas necessidades e este fato constitui o segundo pressuposto da história. segundo Marx e Engels. não é desenvolvido no Monografias . há desde aqui o desenvolvimento das forças produtivas. sua ação e condições reais de vida. por certo. pelas condições naturais encontradas. dispensando filtragens filosofantes. resultante dessa mesma organização. explanam Marx e Engels. desenvolvem a relação entre homem e mulher. Acrescenta-nos. Estas são. De fato. Porém. adquirindose o instrumento correspondente. outra coisa não é. por conseguinte. sem nunca abandoná-las. os homens encaminham-se. Neste fato concreto se funda o materialismo histórico 11. E. climáticas e outras condições que os homens encontram no mundo. que amplia as necessidades e a produção. etc. desta maneira. se reproduzem sexualmente. da sua conformação física. do modo de produção legado pelas gerações anteriores. não há dúvidas. se ascende da terra para o céu. novas vidas. desde o início. pais e filhos. entre os indivíduos. se não a formação da família. E este vínculo entre os indivíduos compõe o terceiro pressuposto da história humana. Este último representa já um modo de atividade determinado dos indivíduos. segundo a teoria marxiana. morar. com o aumento da população. indispensáveis para a produção dos meios de subsistência. por um lado. O ato de satisfazê-las é em si. geológicas. oro-hidrográficas.

que vivem e agem. em A Ideologia Alemã. como uma relação natural. por um lado. resulta. em uma dupla relação.”15 Desta produção da vida. as circunstâncias. a produção e o consumo – caibam a diferentes indivíduos. em toda a sua significação. uma “força produtiva” -. uma forma determinada de expressar a vida. etc. para depois se tornar uma divisão do trabalho de acordo com as necessidades. portanto. que estes três pressupostos. Ela é empiricamente verificável e substituiu-se. converte a divisão do trabalho em verdadeira divisão. tanto com o que eles produzem. é trazida para o primeiro plano.”17 ressaltados por Marx e Engels nada mais são do que os próprios produtores da história.”20 Aqui se mostra a relação entre o modo de produção. A atividade humana. O que os indivíduos são.Universidade Tuiuti do Paraná 67 | História | 2010 . que assume diferentes formas. Assim. como fundamento da história. decerto. Nisto se caracteriza. Por esta divisão esta dada. isto é.”19. A forma que assume a produção no inicio da história. e inclusive a realidade de que as atividades espirituais e materiais – o desfrute e o trabalho. segundo os autores. não deve em hipótese alguma.] A possibilidade. há sob este último a ação da divisão do trabalho.. deixando ela de ser uma divisão natural. modo e finalidades. portanto. e as necessidades. Um determinado modo de produção ou uma determinada fase industrial estão sempre unidos a um determinado modo de cooperação ou a um determinado estágio social – modo de cooperação que é. apresentando. às ações espetaculares de alguns indivíduos isolados. mas pelo contrário. Ela é pelo contrário. que em seu princípio demonstra-se como uma divisão natural do trabalho. [. coexistem desde os primórdios da história dos homens.. já uma forma determinada de produzir a vida. não podem ser considerados como momentos isolados uns dos outros. depende das condições materiais de sua produção. a divisão do trabalho no ato sexual. “três aspectos da atividade social”14. A atividade do homem. então. ser vista como a simples reprodução física dos indivíduos. a “história da humanidade” deve ser estudada e elaborada sempre em conexão com a história da indústria e do intercâmbio. por outro. os autores deduzem que. sem especulações idealistas. A divisão do trabalho entre trabalho material e trabalho espiritual. que dão origem e desenvolvimento ao processo histórico. estabelecendo-se uma conexão materialista entre os homens. revelar-se. Esta relação é encontrada já no seio da família simples. para Marx e Engels.18 Neste trabalho de produção material da vida. portanto. onde os indivíduos cooperam entre si. Por conseguinte. sendo uma separação da atividade segundo as condições impostas pela própria natureza. os homens em seu processo de vida material. como uma divisão social do trabalho – “a divisão do trabalho só se converte em verdadeira divisão a partir do momento em que se separam trabalho material e espiritual. “o que os indivíduos são.É importante sublinhar. para. forças produtivas e intercâmbio. social no sentido de que diferentes indivíduos cooperam entre si independentemente de suas condições. “tanto da própria vida no trabalho quanto da vida estranha na procriação”16. coincide com a sua produção. como uma relação social. Os pressupostos Monografias . quanto com o como eles produzem. as capacidades físicas – força corporal -. é posta. segundo o materialismo histórico. uma historicidade. a do conjunto dos homens. que a soma de forças de produção acessíveis ao homem condiciona o estado social e que. como indaga Bottigelli. por sua vez.

à primeira vista. Com a cidade. da organização política em comunidade e. qualitativa. dos impostos. somente. o antagonismo entre cidade e campo. assim. leva à separação entre trabalho industrial e trabalho comercial. Ao mesmo tempo em ocorre estas divisões no processo de produção. em seu princípio. Entretanto. sem que isso interfira no processo produtivo. ao passo que o campo representa o expoente cabal ao fato contrário. a diferentes formas de propriedade. com o crescimento da produtividade e das necessidades. regula a distribuição dos homens na produção. decerto. da polícia. do capital. uma vez que o aumento da população parece se limitar no simples aumento quantitativo de forças produtivas. quer dizer. todo progresso nas forças produtivas significa. Disto resulta. Esta. cada etapa da divisão do trabalho determina as relações dos indivíduos no processo de produção. em suma. do comércio entre os homens. da política em geral. uma modificação das relações sociais. mediada segundo o grau de desenvolvimento dos meios de produção.”22 que permitem aos homens crescerem numericamente. e o ser dos indivíduos é a própria vida dos mesmos. por outro. as suas relações sociais. tem por conseqüência a nova formação da divisão do trabalho23. A cada etapa da divisão do trabalho corresponde. A sua primeira consequência é a oposição entre trabalho industrial e comercial. de terem articulado entre si as condições materiais da vida é que Marx e Engels iram interpretar a formação e desenvolvimento da consciência humana. de um lado. por ampliar a força de trabalho humana conjunta. não se separa. A cidade já é obra da concentração da população. a tentativa de demonstrar que a consciência nunca pode ser algo mais que o ser consciente. ao isolamento e à solidão. baseadas diretamente na divisão do trabalho e nos instrumentos de produção.A divisão social do trabalho se dá “com a passagem da barbárie à civilização. o pensar. a expansão populacional é. do desfrute e das necessidades. da localidade à nação”21. e trabalho agrícola. Monografias . aparece a necessidade de administração. a circulação material entre os homens ainda se apresentam nesse caso como emanação direta de seu comportamento material. as atividades materiais das espirituais – Talvez. as próprias formas de propriedade acabarão por ser modificadas. Cada nova força de produção. na concepção materialista da história. Nisso se manifestou pela primeira vez a separação da população em duas grandes classes. na medida em que não for a mera expansão quantitativa de forças de produção até então conhecidas (por exemplo o arroteamento de terras). por um lado. dos instrumentos de produção. quer dizer.24 Esta separação das atividades só passa a ocorrer. isto é. agricultura – a função desempenhada por cada individuo. comércio. portanto.Universidade Tuiuti do Paraná 68 | História | 2010 . O desenvolvimento ulterior da divisão do trabalho. de fato. portanto. de acordo com eles. de outro. Depois. Por outras palavras. liga-se diretamente com a produção material e o seu intercâmbio: “A formação das idéias. O acréscimo do número de indivíduos é em si uma força produtiva. O antagonismo entre cidade e campo apenas pode se dar dentro da propriedade privada. que juntos cooperam entre si. como explicam Marx e Engels. e assim por diante. Assim. do regime tribal ao Estado. Ainda existe neste caso uma divisão natural do trabalho.”25 Há aqui. A esta relação explica Bottigelli que. a preposição acima soe. estes repousando sobre o aumento da população. Como esta. de forma contraditória. é quantitativa. os autores explanam que. por alterar a produção com o acréscimo de necessidades. daquilo a que mais tarde Marx chamou de relações de produção. separa-se também dentro de cada setor – indústria.

da teologia “pura”. em nenhum momento. entrelaçada sem mediações com a atividade material e o intercâmbio material dos homens. essencialmente. uma história.Universidade Tuiuti do Paraná 69 | História | 2010 . a história só é história porque é transformação pelos e dos homens. se caracteriza como a sucessão de diferentes gerações. a consciência destes indivíduos dominantes se entifica na idéia da Consciência substantivada e colocada no reino das abstrações imateriais. [. da moral “pura”. quer dizer. portanto. a consciência como alguma coisa “livre” do processo real da existência humana. observam que as ideias “independentes” das relações sociais. Monografias . criando novas circunstâncias. Uma vez que a tarefa de pensar (isto é. nos auxilia Gorender a compreender esta passagem. portanto. Partindo da observação de Gorender poderíamos interrogar: Como os fundadores do materialismo histórico compreendem a produção da consciência? Após desenvolverem uma crítica aos jovens hegelianos. É daqui. O que importa realmente aos autores é a transformação das circunstâncias. porém. das forças produtivas.. de realizar elaborações intelectivas e de exercer a direção da sociedade) se torna privilégio de estreito círculo de indivíduos. Por conseguinte. de acordo com Marx e Engels. e sim uma necessidade que se apresente no desenvolvimento das forças produtivas e do intercâmbio material. Assim. [. o conteúdo da sua consciência.] A consciência está estreitamente ligada ao ser.”26 Com o desenvolvimento histórico dos homens. Esse “ser” do homem são também os seus pensamentos.. nada mais é do que a construção da sociedade civil. da divisão do trabalho. sendo ela. Por mais determinados que sejam os indivíduos.“a produção das idéias. só com um determinado grau de desenvolvimento das forças produtivas e do intercâmbio material. da consciência é. da propriedade e também da consciência. A história. Porém. Mas.”28 Isto não significa. possuindo.. não entende apenas por isto que sua existência material é condicionada pela produção. Para tanto. as circunstâncias encontradas pela nova geração as determinam. Desta maneira. nas condições materiais em que o homem vive e que modifica com sua ação. da filosofia “pura”. para a futura geração como uma necessidade. origina-se condições que engendram uma divisão social do trabalho.29 De toda esta totalidade.”27.. a linguagem da vida real. Imagina que representa realmente algo sem representar algo real. O seu conteúdo vai-se transformando À medida que o sistema de relações (de produção material. O devir dos homens é exposto de duas maneiras por Bottigelli. etc. não uma vontade qualquer. dedicando-os puramente à atividade espiritual. que surge. esta geração modifica a atividade material. só podem assumir esta característica por intermédio das próprias relações sociais. uma produção humana. sociais. onde cada nova geração encontra uma soma de forças produtivas e intercâmbio material como uma necessidade natural. afirma Bottigelli que. é que a divisão do trabalho pode emancipar uma parcela de indivíduos da atividade material. A Consciência entificada se imagina ser algo mais e algo distinto da prática existente. da vida empírica. etc. sua vontade é atuante.] Perde-se de vista o substrato material de tais criações e são elas que parecem propulsoras do desenvolvimento material. aparecendo estas. que a consciência é rechaçada a um segundo plano por Marx e Engels. do intercâmbio. por sua vez. Quando Marx diz que os homens são aquilo que produzem. decerto. que se apresenta em diferentes formas de organização a cada época histórica. das representações. isentos da obrigação do trabalho produtivo.) e a natureza das necessidades do homem se transformam. ao princípio. pela concepção da história como resultado de um suposto autodesenvolvimento da consciência. permitindo que a consciência se entregue “à criação da teoria “pura”. que se reuni em volta das necessidades.

2 As formas de propriedade pré-capitalistas em A ideologia alemã Em a Ideologia Alemã. da mesma maneira. A primeira forma de propriedade. sobre as diferentes formas de propriedade caracterizadas por Marx e Engels. podem e devem necessariamente entrar em contradição entre si. a força produtiva. Quando se estabelece a contradição entre forças produtivas e intercâmbio material. que são ativos na produção de determinada maneira. O fato é o seguinte. quer dizer. é a propriedade tribal. o que deve ser realmente estudado. necessariamente. ou seja. que ao acrescentar suas necessidades impulsiona o estabelecimento de um intercâmbio com diferentes indivíduos. segundo Marx e Engels. Ademais. faz com que a atividade humana não possa já ser livremente exercida sem modificar a ordem estabelecida.30 material dos indivíduos determina a sociedade em que vivem. pois de toda esta sujeira só obteremos um resultado. o estágio da divisão do trabalho em cada uma das fases determina também as relações dos indivíduos uns com os outros no que diz respeito ao material. Desta reunião entre várias famílias simples. contraem entre si essas determinadas relações sociais e políticas. provar empiricamente e sem nenhum tipo de mistificação ou especulação. modifica pouco a pouco as próprias circunstâncias dessa atividade. está dada a possibilidade. Desta contradição os autores tiram a seguinte definição. ao instrumento e ao produto do trabalho. em cada caso concreto. com a divisão do trabalho. é de todo indiferente o que a consciência empreenda solita. já que. De fato. cada divisão do trabalho traz consigo uma forma determinada de propriedade. de uma forma de produção a outra. e inclusive a realidade.33 Não basta compreender a sociedade através do ponto de vista teórico que ela produz de si própria. de que as atividades espirituais e materiais – o desfrute e o trabalho. pela primeira vez. produção e consumo – caibam a diferentes indivíduos31. Ela se origina da família simples. Forças produtivas e relações sociais estão dialeticamente ligadas. o estado social e a consciência.Universidade Tuiuti do Paraná 70 | História | 2010 . resulta a “família composta. achamo-nos no processo de transição de uma sociedade a outra. desta forma. diferentes formas da propriedade. e é esta que necessariamente precisa ser modificada para que haja história. portanto: determinados indivíduos. a produção ainda não se encontra muito desenvolvida devido à limitação das forças produtivas e do intercâmbio material. a relação existente entre a estrutura social e política e a produção. Temos agora um esboço do desenvolvimento das formas de propriedade em que os diversos elementos que as determinam são estudadas na sua interação recíproca. 2. Portanto. colocando a primeira sentença como sua consequência. Marx e Engels sistematizam a sucessão das diferentes formas de propriedade ao longo do processo histórico. tentam demonstrar como a vida Monografias . a outra é o resultado da atividade humana teórica que tira as conclusões das modificações graduais e determina uma ação com o fito de adaptar as relações humanas ao nível das forças produtivas.Um que é diretamente o resultado da atividade humana prática. o que costuma ser chamado de tribo”34. ressalta Bottigelli que.”32 Conforme o materialismo histórico. é a atividade material dos homens. Deste modo. qual seja o de que estes três momentos. A observação empírica tem de. Os diferentes estágios de desenvolvimento da divisão do trabalho são. Aqui. É sempre a ação revolucionária que permite a passagem de um período histórico ao outro. definem.

Este último. onde a escravidão persiste. quase por completo. uma população urbana e rural decrescentes. isto é. a própria propriedade privada dos cidadãos sobre os escravos. A segunda caracteriza-se pela propriedade privada sobre a terra. o que indica a presença do antagonismo entre cidade e campo. Bottigelli diz que. Isto é. tanto pelo comércio como pela guerra. em uma mesma cidade. a lei agrícola de Licínio. Quando os bárbaros vencem Roma. e estas uma agricultura e indústria em decadência. isto é. que a simples conquista. uma associação que surge de maneira natural permitindo estabelecer o poder sobre os escravos. não acarretou transformações na indústria e no comércio. “o ato de tomar é. Esta forma corresponde a forças produtivas pouco desenvolvidas e a uma organização social baseada na família. através da população rala espalhada sobre grande A segunda forma de propriedade caracterizada pelos autores é a propriedade estatal ou comunitária da Antiguidade Clássica. O desenvolvimento.37 Há já na Antiguidade Clássica.a população “se alimenta da caça e da pesca. na decadência da sociedade e de seu poder. em si. conforme A Ideologia Alemã. a divisão social do trabalho. de fato. Por conseguinte.”36 cada cidadão isolado tem o direito sobre ela. Disto resulta. adormecido. Decerto. além disso. conquista-se uma soma de forças produtivas. porém. entretanto. em propriedade do Estado. subordinadas a propriedade estatal. A terceira forma de propriedade exposta é a propriedade feudal ou estamental. como fazem Marx e Engels. porque o modo de produção permaneceu o mesmo. que usufruem da força de trabalho destes como melhor lhes convém. da agricultura”34. por exemplo. condicionou. ou seja. demonstra Bottigelli que. a escravidão encontra seu gérmen na família simples. que é a propriedade privada comunitária dos cidadãos. devido à existência da propriedade privada. ou no máximo. da criação de animais. é a sua essência comunitária. ressaltar. Ela é a unificação de diferentes tribos. segundo Marx e Engels. Todavia. este tem a livre disposição da força de trabalho daqueles. a propriedade é ainda comunal ou estatal. onde Monografias . condicionado pelo objeto que é tomado”38. A primeira é a que principia o surgimento da propriedade privada. ela é. onde a mulher e os filhos são escravos do homem. abaixo deles os membros da tribo e por fim os escravos”35. a separação entre trabalho material e trabalho intelectual. mas desenvolve-se a propriedade imobiliária. como atesta. essencialmente constituídos pela terra. Em resumo. No segundo estádio. o ato de tomar Roma. Ela se origina no processo de decadência do Império Romano e na sua subsequente conquista pelos povos bárbaros. na medida em que se desenvolve a propriedade privada imóvel em particular. A propriedade tribal é transformada.Universidade Tuiuti do Paraná 71 | História | 2010 . a propriedade em comum continua a ser uma necessidade para garantir o domínio dos cidadãos sobre os escravos. Desenvolve-se aqui a propriedade privada móvel e a propriedade privada imóvel. A escravidão desenvolve-se com o aumento da população e das necessidades. não explica por si só a passagem da propriedade estatal à propriedade feudal. da propriedade privada. portanto. A primeira é uma propriedade colectiva dos meios de produção. e com a expansão do intercâmbio externo. por guerra ou contrato. como demonstram os autores. ou em outras palavras. É preciso. A divisão do trabalho nesse estágio é a simples expansão da divisão natural do trabalho já contida no seio da família simples: “chefes de tribo patriarcais. baseados na propriedade comunitária. um comércio.

Portanto. oriundas de servos transformados em homens livres44. a carência de população e a limitação das necessidades impediram o surgimento de uma divisão subseqüente do trabalho. trazido da Alemanha já pronto.46 A divisão do trabalho na época feudal. decerto. [. mas teve sua origem. Monografias . Marx e Engels definem que. segundo A Ideologia Alemã. Com o intercâmbio estabelecido em uma classe em particular. os autores mencionam que.”42 Havia. “a organização feudal da manufatura. segundo a concepção Materialista da História. As cidades estabelecem alianças umas com as outras.quantidade de terras. Estes últimos possuíam uma relação patriarcal com o primeiro. Portanto. O feudalismo não foi. novas ferramentas são trazidas de uma cidade à outra. Essa estrutura feudal era.. mas sim os pequenos camponeses servis na condição de classe imediatamente produtora. nobreza. ao lado do qual a própria indústria caseira dos camponeses nasceu. ocorre. na organização guerreira que os exércitos foram adquirindo durante a própria conquista. a base feudal no campo. segundo a teoria marxiana. as forças produtivas e a organização militar germânica desenvolveram a propriedade feudal. 39 Nas cidades. apenas a forma da associação e a relação com os produtores imediatos eram diferentes. porque. de jeito nenhum. e a divisão entre produção e intercâmbio logo evoca uma nova divisão entre as cidades tomadas individualmente. assim como a propriedade comunitária antiga. como no caso da antiga. somente. a propriedade era constituída pela propriedade da terra. a cada indivíduo isolado era necessário o conhecimento da produção em toda a sua extensão. A limitação ao localismo passa a ser dissolvida aos poucos. em uma época que o produ0tor era também comerciante. logo terá como consequência imediata o surgimento das manufaturas47. repousa sobre uma essência comunitária “à qual não mais se confrontam os escravos. O surgimento das cidades fez com que se aparece na Idade Média a propriedade corporativa. na qual a hierarquia de sua possessão e a vassalagem armada davam à nobreza o poder sobre os servos. entre as quais cada uma em pouco explorará um ramo preferencial da indústria. que o intercâmbio poderá ir além dos arredores imediatos. se caracteriza pela separação entre príncipes. como demonstra os autores.. com a expansão da troca por parte dos comerciantes para além das imediações mais próximas da cidade. logo aparece uma interação entre produção e o intercâmbio. uma associação oposta à classe dominada e producente. e se desenvolveu até se transformar no verdadeiro feudalismo depois dela. o antagonismo entre cidade e campo. graças à ação das forças de produção encontradas nos países conquistados. também. artífices e aprendizes. Desta maneira. Na corporação não havia uma divisão entre os trabalhadores.”43 Desta divisão do trabalho entre as diferentes cidades. uma divisão do trabalho nas cidades entre mestres. por parte dos conquistadores.Universidade Tuiuti do Paraná 72 | História | 2010 . Por conseguinte. É.] O intercâmbio limitado e a união mínima das cidades umas com as outras. “na agricultura ela era dificultada pelo cultivo parcializado.45 A forma que assume a propriedade feudal.41 Havia. ou seja. porque existiam diferentes condições de produção. o trabalho individual e as ferramentas do trabalhador formavam a única propriedade do mesmo.”40 De acordo com o Materialismo Histórico. assim como a propriedade estatal. clero e camponeses. com a posterior divisão do trabalho entre produção e comércio. Isto é devido. e por isso cada um que quisesse se tornar mestre um dia tinha de dominar todos os trabalhos que tinham alguma coisa a ver com seu oficio.

em última análise. por exemplo. A contra-revolução. analisar o seu processo de produção e a sua forma de propriedade. toda a história tem sido uma história de lutas de classe. constituem em cada época histórica a base da história política e intelectual dessa época.50 3 O CONCEITO DE MODO DE PRODUÇÃO ASIÁTICO Em 1848. Marx e Engels. enfim. entretanto. e Marx e Engels participarão ativamente dela. então. os acontecimentos políticos também foram analisados a partir dos conceitos do materialismo histórico. Decerto. se expandirá rapidamente por grande parte do continente europeu. uma vez que era necessária uma coleta de informações mais detalhada sobre o continente para. em Paris. Em Prefácio à Edição Alemã de 1883. Engels na sua importante introdução a Lutas de Classes na França observa: O trabalho que aqui reeditamos foi o primeiro ensaio de Marx para explicar um fragmento de história contemporânea mediante sua concepção materialista. A Ideologia Alemã. analisando a expansão das relações de Monografias . portanto. ocorridas na Europa e. eram consequências do desenvolvimento econômico. de fato. já estavam expostos e interligados entre si. será publicado o clássico escrito de Marx e Engels intitulado Manifesto do Partido Comunista . analisam acontecimentos políticos contemporâneos. não abolindo. a revolução iniciada em fevereiro. à Ásia. Foi neste momento que surgiu. partindo. no qual Assim.Universidade Tuiuti do Paraná 73 | História | 2010 . O pensamento dominante e essencial do Manifesto. então. de lutas entre as classes exploradas e as classes exploradoras. e nos artigos publicados por Marx e por mim na Neue Rheinische Zeitug51 esta teoria fora empregada constantemente para explicar acontecimentos políticos contemporâneos. são sucessões históricas. descrevia. respectivamente. como o Manifesto. onde se estabeleceu definitivamente48. sistematizada anteriormente em A Ideologia Alemã. que “brotou das ruínas da sociedade feudal”. não esgotam a história universal. de 1º de junho de 1848 até 19 de maio de 1849. Marx e Engels produziram um exame da gênese do modo de produção capitalista. nos escritos da Nova Gazeta Renana. saiu vitoriosa. Marx retorna finalmente à Alemanha e fixa sua residência na cidade de Colônia. entre as classes dominantes e as classes dominadas. para uma análise da história moderna.. que a produção econômica e a estrutura social que necessariamente decorre dela. enquanto história da luta de classes.A descrição das três formas de propriedade. da referida obra.]. Após a expulsão da Bélgica e de Paris. encaminhando Marx ao tribunal. Os conceitos do materialismo histórico. a Nova Gazeta Renana. que. isto é.. no qual foi absolvido em 19 de fevereiro de 1849 e expulso da Alemanha em 16 de maio do mesmo ano.52 Na análise da história moderna desenvolvida no Manifesto Comunista. segundo Marx e Engels. Marx e Engels. Engels. Neste processo tortuoso. então. que por conseguinte (desde a dissolução do regime primitivo da propriedade comum da terra).obra destinada à Liga dos Comunistas. para Londres. será aplicado a concepção materialista da história. No Manifesto Comunista havia sido aplicada para fazer um amplo esquema de todo a história moderna. o que proporcionava uma análise mais elaborada da história por parte dos autores. No mesmo ano de 1848. isto é. portanto. para Paris de onde novamente foi expulso após a manifestação de 13 de Junho de 1849. nos diferentes estágios do desenvolvimento social[. não possuía nenhuma referência. voltou. como programa prático e teórico. a partir daqui. decerto. partindo da situação econômica existente. “os antagonismos de classe”49. da qual Marx foi redator chefe.

não alterou sua estrutura de propriedade. o Monografias . Os baixos preços de seus produtos são a artilharia pesada que destrói as muralhas da China e obriga a capitularem os bárbaros mais tenazmente hostis aos estrangeiros. subordinou os povos camponeses aos povos burgueses.55 interesse despertado por Marx e Engels pela Ásia. o estudo da história da Índia. como exemplifica Sofri. através da Companhia Inglesa das Índias Orientais. Por outro lado. autores como.Universidade Tuiuti do Paraná 74 | História | 2010 . Criou. Do mesmo modo que subordinou o campo à cidade. sabe-se. cria um mundo à sua imagem e semelhança. portanto. John Stuart Mill. por exemplo. de fato. Com relação ao antagonismo entre Ocidente e Oriente e a produção e o desenvolvimento intelectual de Marx. com o jornal norte-americano New York Daily Tribune. Richard Jones. do livro Voyages Contenant la Description de François Bernier. originaram-se dos sérios problemas financeiros que Marx se viu envolvido. e da necessidade que tinha de “trabalhar para viver”. os países bárbaros ou semibárbaros aos países civilizados.56 Podemos. isto é. a Ásia. na década de 1850.produção capitalista em escala universal. Ao lado deste conjunto de investigações teóricas. A retomada de tais estudos proporcionou a Marx. iniciou uma colaboração. a se tornarem burguesas. por outro lado. em contrapartida. estudou também as obras de viajantes e historiadores do Oriente57. assim como conhecedor de autores do período Iluminista como Montesquieu. portanto. enquanto a Europa sofreu ao longo do processo histórico uma sucessiva transformação nas formas de propriedade. afirmar que como resultado da aplicação da concepção materialista história para os acontecimentos históricos. que Marx em Londres retomou seus estudos de economia política. James Mill. Criou grandes centros urbanos. em especial. para tornar a Índia seu mercado consumidor e. acrescenta Jair Antunes. Marx era um profundo conhecedor dos autores gregos que escreveram sobre o despotismo egípcio. como ele mesmo dizia. o Oriente ao Ocidente. além de Hegel – que tratou exaustivamente desta oposição conceitual entre liberdade dos ocidentais e a submissão as despotismo desenfreado entre os orientais. a burguesia arrasta para a torrente da civilização mesmo as nações mais bárbaras54. a partir deste estudo. Adam Smith. No intuito de compreender o atraso da sociedade hindu em contraposição com o desenvolvimento mais dinâmico da Europa ocidental empreendeu. em particular a conjuntura originada pela investida da Inglaterra. chineses e hindus. sob pena de morte. O materialismo histórico se preocupava também. como indica Marx. assim como. referem-se a oposição entre Ocidente e Oriente53: Devido ao rápido aperfeiçoamento dos instrumentos de produção e ao constante progresso dos meios de comunicação. então. também. contrange-as a adotarem o que ela chama civilização. que identificava os fenômenos asiáticos como resultantes da inexistência da propriedade privada sobre a terra. fundamental para a compreensão de sua teoria universal. de 1851 a 1862. arrancou uma grande parte da população do embrutecimento da vida rural. desde tempos imemoráveis. lendo ou relendo. com isso. não foi acidental. da falta de dinheiro. em identificar as circunstâncias que provocaram o “estacionamento” da propriedade asiática. um melhor entendimento sobre a Ásia. Marx sofreu forte influência. aumentou prodigiosamente a população das cidades em relação à dos campos e. o conceito de modo de produção asiático. Isto é. A oportunidade em dedicar-se a escrever sobre as questões da Índia. A burguesia submeteu o campo à cidade. por conseguinte. num centro produtor de matérias-primas para suas indústrias. acontecimentos de natureza conjuntural desencadearam as análises de Marx sobre a Índia. assim. Em decorrência. ela obriga todas as nações a adotarem o modo burguês de produção. Em uma palavra.

do Egito antigo e da Índia. Marx elaborou uma série de artigos dedicados à Índia. a Inglaterra. entre os quais dois são fundamentais. são eles: O Domínio Britânico na Índia e Futuros Resultados do Domínio Britânico na Índia. ambos publicados em 1853. Mostrava ainda o interesse dos mandarins e de outros coletores de impostos na perpetuação de um sistema que lhes permitia oprimir os camponeses.59 3.Por exemplo.Universidade Tuiuti do Paraná 75 | História | 2010 . como a manutenção de boas estradas e. nestes grandes Estados. Sofri destaca. foram revestidas as obras públicas. É interessante notar como estas observações de Engels foram reproduzidas quase integralmente por Marx no artigo O Domínio Britânico na Índia. para o amadurecimento das reflexões sobre a sociedade hindu. Marx e Engels assistiam a estes eventos como expectadores apaixonados.” 61 Portanto. elaborado e desenvolvido através da teoria do materialismo histórico. Em 1853. aliás.”58 Prossegue Sofri argumentado que Marx e Engels eram observadores assíduos destas transformações em andamento60. sobretudo. principalmente por intermédio da grande potência ocidental na época. Comentando a importância da correspondência entre Marx e Engels. Da atividade de correspondente referida acima. já mencionado. datado de 10 de junho de 1853. o embate entre as antigas estruturas do império e os militares e comerciantes o Ocidente provocava as guerras do ópio e desordens internas (culminado na grande revolta dos T’ai P’ing). será utilizada por Marx em seus artigos citados. Quatro anos depois. falando da China. Assim. a Índia assistia à grande revolta dos sipaios. Assinalava como esses Estados extraíam boa parte de suas rendas de uma espécie de imposto ou renda fundiária. entre Ocidente-Oriente. devido ao choque. em Londres. bem como da sua pequena capacidade de resistência as assalto do Ocidente Capitalista. Na China. sobretudo a esclarecer concretamente as razões da “estagnação” do Oriente.1 O conceito de modo de produção asiático na correspondência entre Marx e Engels e nos artigos de Marx sobre a índia publicados no New York Daily Tribune Passamos a nos ocupar agora da correspondência de Marx e Engels. estudo este destinado. ao mesmo tempo o poder central.62 Monografias . é a partir deste contexto que faremos a exposição do conceito de modo de produção asiático. os estudos de Marx foram impulsionados por acontecimentos históricos ímpares na Ásia59. que. por neles encontrarmos a elaboração do conceito de modo de produção asiático. Adam Smith ressaltava a importância com que. explica Gianni Sofri que. referentes à sociedade asiática e que foram de grande importância para a sistematização da concepção de Engels e Marx. e que depois aparecem nos artigos deste último. de junho de 1853. bem ao contrário da agricultura e da manufatura. Ainda em meados de 1850. fraudando. e como o comércio exterior era descuidado. sendo por eles estimulados a um estudo das sociedades orientais e do respectivo papel histórico. Outro importante documento para a compreensão da concepção de Marx e Engels sobre a Ásia é representado pela correspondência entre Marx e Engels. e dos seus resultados. a discussão do Parlamento inglês sobre a organização definitiva a ser dada às possessões indianas forneceu a ocasião para um reexame de toda a política britânica na Índia. destinados ao jornal New York Daily Tribune . um sistema de canais de irrigação. e que constitui a bem dizer sua primeira importante enunciação pública das características da sociedade asiática.

Índia e Tartária. estas três formas de administrar. Aquí reside su historia política y religiosa. El Riego artificial es aqui la condición primera de la agricultura y esto es cosa de las comunas. particularmente nos vastos espaços de deserto que se estendem desde o Saara. Marx entra em consonância com a correspondência de Engels. de acordo com o autor do materialismo histórico. Persia. Bernier considera con razón que la forma básica de todos los fenomenos orientales – se rifiere a Turquia. especialmente com lãs grandes extensiones del disierto que parte del Sahara.. obras públicas. como já mencionado. Engels respondia a Marx. llegando hasta la más elevada meseta asiática. Esta es la verdadera clave incluso dele ciclo oriental [. converteram o sistema de irrigação artificial por meio de canais e outras obras de irrigação. enquanto função econômica da organização das obras públicas . Novamente aqui. impediram que os indivíduos de cada aldeia pudessem realizar a construção e a manutenção dos canais de irrigação. então. na base da agricultura oriental. etc. segundo sua interpretação. até as regiões mais elevadas do planalto asiático. Sobre la formación de las ciudades orientales no puede leerse nada más brilhante. a carta de 6 de junho de 1853 de seu amigo Engels. Y un gobierno oriental nunca tuvo más de tres departamentos: finanzas (pillaje interno). como indaga Marx. observa-se que Marx reproduz quase integralmente.]. o alto nível das águas serve para encher os canais de irrigação. Pérsia e outros lugares. ni siquiera em sua forma feudal? Creo que esto se debe principalmente al clima.63 Na mesma correspondência.64 O baixo nível de desenvolvimento das forças produtivas e a extensão dos territórios. que destacava. A Dominação Britânica na Índia.65 Monografias . a causa da inexistência da propriedade privada65 na Ásia. através da Arábia. prevaleceram três ramos da administração: finanças. Na Ásia. vívido y notabele que el viejo libro de François Bernier ( quien fue. guerra. [. Marx escrevia a Engels.. Segundo Antunes. como emanação de um Estado sacralizado.. descrevendo.. desde tempos insondáveis.66 sua admiração pelo livro de François Bernier. de lãs províncias o del gobierno central. Apresenta. Pérsia. foi necessário elaborar um sistema de irrigação artificial da terra.] La ausencia de propriedad de la tierra es ciertamente la clave para la comprensión de todo el Oriente. Marx que. Pero ? por qué es que los orientales no leegan a la propriedad territorial. Voyages Contenant la Description. o que constituiu a base da agricultura. médico de Aureng zeib): Voyages Contenant La Description dês États Du Gran Mongol. devido a sua indiscutível importância. relatando No artigo escrito para o New York Daily Tribune. Em 6 de junho de 1853. Daí resulta que esta atividade foi desempenhada pelo Estado. Do mesmo modo que no Egito e na Índia. Persia y Indostán – debe hallarse em el hecho de que no existia propriedad privada de la tierra. As obras públicas surgem aos indivíduos. Marx destacava que Bernier identificava o aspecto decisivo das sociedades orientais. O clima e as condições do solo. guerra (pillaje interno y em el exterior) y obras públicas (cuidado de la reproducción) [.. como observado.]. durante nove años. India y Tartaria. Em 2 de junho de 1853.Universidade Tuiuti do Paraná 76 | História | 2010 . por mediação do clima e do vasto território da Ásia. junto com la naturaleza del suelo.“aqui a colheita depende tanto de um bom governo como na Europa do bom tempo”67. as inundações são utilizadas para fertilizar o solo da Mesopotâmia..

seguindo a exposição de Marx. acrescentava que. que converteram um estado social que se desenvolvia por si só num destino natural imutável. de ponto de vista político. isto é. para o New York Daily Tribune. Seguem-se o tallari e o toti. para os quais é a pessoa mais indicada. cuja degradação salta à vista no fato de que o homem. O vigilante dos depósitos de água e dos canis é o encarregado da distribuição da água para as necessidades da agricultura. Marx define a divisão hereditária do trabalho como a origem das castas. portanto. entre outras. resolve os litígios e as questões de policia e desempenha dentro do povoado as funções de arrecadador de contribuições. enquanto condição básica para a agricultura e comércio69. Não devemos esquecer que essas pequenas comunidades estavam contaminadas por diferenças de casta e pela escravidão.. proporcionado sua autosuficiência. da própria entidade comunitária enquanto pessoa. tem os seguintes funcionários e servidores: um potel ou chefe. então. que vela pelo culto. um povoado é um espaço de algumas centenas ou milhares de acres de terras cultivadas ou incultas. as obrigações do segundo parecem circunscrever-se aos limites do povoado e consistem. Esta divisão tem influência significativa para o “estacionamento” ou a “estagnação” asiática. parece uma corporação municipal. com realização da vontade do soberano em benefício das comunidades e. cai de joelhos. que é encarregado de dirigir os negócios do povoado. A administração interna é apresentada pelo autor em consonância ao relatório oficial descrito na Câmara dos Comuns. e outros.] Não devemos esquecer simultaneamente que essas idílicas comunidades rurais.Universidade Tuiuti do Paraná 77 | História | 2010 . em guardar as colheitas e ajudar a medi-las. O brâmane encarregado do calendário ou astrólogo. de outro. por isso. por sua influência pessoal e seu perfeito conhecimento da situação e das ocupações do povo. uma organização social denominada sistema de aldeias – village system. as obrigações do primeiro consistem em colher informações sobre os delitos ou as infrações que se cometem e acompanhar ou proteger as pessoas que mudam de um povoado para outro. 70 A forma de organização destas comunidades era o terreno sobre o qual se assentava o despotismo asiático.As grandes obras públicas não aparecem como a atividade dos muitos braços dos indivíduos unidos para a execução de trabalhos comuns mas sim. pois alguns dos deveres e funções que foram descritos fundem-se e são desempenhados por uma mesma pessoa. que elas submeteram o homem às circunstâncias exteriores em lugar de fazê-lo soberano das mesmas circunstâncias.72 Em outro artigo. ainda em 1853. o soberano da natureza.71 Em seguida.. em outros lugares. aparecem em muitos casos. Em geral. a quem se pode ver ensinado os meninos a ler e escrever sobre a areia. os indivíduos disseminados pelo vasto território e reunidos em pequenos centros. salvo pouquíssimas exceções. [. Todos esses funcionários e servidores constituem a administração do povoado. nomeado Futuros Resultados do Domínio Britânico na Índia. Monografias . de fato. O karnum se encarrega das contas dos trabalhos agrícolas e registra tudo o que se relaciona com estes. por conseguinte. cada indivíduo tem sua posição social pré-estabeleciada e imutável de acordo com a casta em que nasceu. a função do Estado de prover as obras públicas. o seu número é maior. como “personificação” da própria divindade tribal. O brâmane. na agricultura de subsistência e na indústria doméstica. desenvolveram. O guarda-fronteira cuida dos limites do povoado e presta depoimento sobre lês em caso de disputa. Assim. se referia Marx. Considerando geograficamente. por inofensivas que parecessem. adorando o macaco Hanuaman e a vaca Sabbala. criando assim um culto grosseiro da natureza. era baseada. O mestre-escola.68 Por estas circunstâncias. que em certos lugares do país é mais reduzida. de um lado. constituíram sempre uma sólida base para o despotismo oriental. Cada aldeia.

Porque o trabalho é dobrado: (a) elaboração dos traços fundamentais da economia [. a concepção materialista da história. Assim. É nisto que repousa a produção coletiva da agricultura. na medida em que a dissolução destas era o pressuposto para o desenvolvimento do capitalismo. tendo chegado ao problema da origem do capital. a pressa existente em Marx de expor sua teoria. por Eric Hobsbawm. e contra a assim chamada teoria do dinheiro-trabalho. em 18 de dezembro de 1857.74 Nesta obra. quase sempre até as quatro horas da madrugada.Universidade Tuiuti do Paraná 78 | História | 2010 . isto é. a separação do produtor dos meios de produção. restando as comunidades a posse comunal de seus produtos.. Da leitura das cartas. em decorrência.76 É importante ressaltar que nesta parte dedicada às formas que precederam o capital. menciona Roman Rosdolsky que. Marx pretendia acabar com o “falso irmão”. portanto. Trabalho em ritmo massacrante. De certo. dos trabalhadores. procurou na organização produtiva asiática as características fundamentais para o não desenvolvimento de diferentes formas de propriedade. Marx iniciou a redação dos Grundrisse der Kritik der Politischen Ökonomie. portanto. comunidade e individualidade existente em algumas formações sociais Além da esperança de uma revolução. ou seja. Marx não pretendia reconstruir a história propriamente dita. demonstrando. em 1964. teve a necessidade de examinar as formações sociais pré-capitalistas. especialmente. atualmente em moda na França. expondo que nos Grundrisse havia realizado. Marx estava preocupado em analisar os fundamentos do modo de produção capitalista. como afirmava. 75 Decerto. que pretende deixar subsistir a produção privada. isto é. de fato. O comunismo deve desfazer-se desse falso irmão. o indivíduo seguirá uma determinada profissão. Em 1º de fevereiro de 1859. Nesses dois capítulos aniquilam-se os fundamentos do socialismo proudhoniano.segundo uma hierarquia em relação ao Estado. que será inúmeras vezes publicada isoladamente e que terá uma grande difusão graças a uma edição organizada. sem poder escolher o ramo em que trabalhar e o que produzir73. Argumentando sobre esta crítica. aludindo sobre a elaboração da referida obra. Marx escrevia a Engels. o Estado detém as terras. O manuscrito foi concluído em março de 1858. o que engendrou. análise que será desenvolvida nos Grundrisse no fragmento sob o titulo Formações Econômicas Pré-Capitalistas. Certamente não é casual que os Grundrisse comecem com um ataque fulminante contra Darimon. organizando a troca dos produtos privados. quer a mercadoria. destruir a teoria do socialismo proudhoniano. ele se “limitou” a demonstrar.] (b) a crise atual. Porém. diante da possibilidade de uma revolução originada pela crise real que sofria o capitalismo. seguidor de Proudhon. a relação determinada entre propriedade. que na época exercia grande influência sobre o movimento operário francês. Monografias .75 4 AS FORMAÇÕES ECONÔMICAS PRÉ-CAPITALISTAS NOS GRUNDRISSE Em julho de 1857.. outro motivo impulsionou Marx a redigir os Grundrisse: a elaboração de uma crítica ao proudhonismo. da Contribuição à Critica). do advento da crise econômica deste ano. apreendemos que o próprio Marx considerava que esse era um dos resultados científicos da primeira parte de sua obra (ou seja. a forma “estacionaria” da propriedade oriental. No Oriente. por um lado. Marx escreveu a Weydemeyer. mas não quer o dinheiro. por certo. uma crítica ao proudhonismo. herdada do pai.

decerto. mas como valor de uso para o dinheiro. como estas relações foram negadas ou consideradas dissolvidas na história para o capitalismo. já de fato reformulada. permanecendo inéditos até 1939-41. Tal condição de não-separação do trabalhador dos meios de produção é encontrado. 78 Um dos pressupostos do trabalho assalariado e uma das condições históricas do capital é o trabalho livre e a troca de trabalho livre por dinheiro. Portanto. Outro pressuposto é a separação do trabalho livre das condições objetivas de sua efetivação – dos meios e do material do trabalho. Mas para que este pressuposto se verifique. mas no sentido dialético de serem formas cuja supressão constitui o pressuposto das relações capitalistas de produção. é um pressuposto histórico fundamental da sociedade capitalista.” Somente. estabelecendo definitivamente a propriedade privada capitalista: “A posição do indivíduo como trabalhador.“monografias escritas em períodos muito diversos. É a reconstituição das categorias que precedem a produção capitalista. transformado em mercadoria e pronto para ser trocado por dinheiro para que se possa reproduzir. não para publicação. em particular a célebre Introdução de 1857. os Manuscritos de 1857-1858 só vieram a ser publicados. em sua nudez. como o pressuposto para a origem histórica do capital. Isto significa. não no sentido cronológico de que vieram antes. Marx investiga o processo histórico de dissolução das formações sociais pré-capitalistas. a exposição do capítulo dos Grundrisse nomeado Formações Econômicas PréCapitalistas (Formen die der Kapitalistischen Produktion vorhergehen). mas sim. com o título Para uma Crítica da Economia Política. acrescenta João Quartim de Moraes que.77 Os Grundrisse.”79 Sofri. observa. Desta maneira. dos pressupostos da sociedade capitalista. para meu próprio esclarecimento. destinados a própria sistematização das idéias de Marx . como mencionado acima. mas eram antes. Assim. por conseguinte. em todas as formações econômicas précapitalistas. 4.pré-capitalistas. Portanto. em 1859. de um desenvolvimento lógico. da separação do trabalhador dos meios de produção de sua própria existência. de o trabalho ser consumido pelo dinheiro – não como valor de uso para o desfrute. Monografias . é propriamente um produto histórico. é necessário que se tenha dissolvido toda uma série de formas econômicas em que o trabalhador não está separado das condições objetivas da produção (meios de trabalho e material de trabalho). Marx irá demonstrar não um desenvolvimento cronológico das diferentes formações precedentes às relações de produção do capital. encontramos já no primeiro parágrafo deste escrito a seguinte menção de Marx. referindo-se a este processo de constituição No manuscrito sobre as Formações Econômicas Pré-Capitalistas. deste manuscrito. postumamente.80 Marx publicou uma parte. não foram redigidos com a intenção de serem publicados. embora alguns extratos já tivessem aparecido na Neue Zeit em 1903. procurando compreender as características fundamentais que determinam as sociedades que antecederam ao capitalismo. acima de tudo. Nossa análise tem por objetivo. de diferentes maneiras. que o trabalhador deve ser separado da terra enquanto seu laboratório natural – significa a dissolução tanto da pequena propriedade livre como da propriedade comunal da terra assentada sobre a comuna oriental. Marx tenta expor. com o objetivo de reproduzir o dinheiro e valorizálo.Universidade Tuiuti do Paraná 79 | História | 2010 .1 Exposição do texto formações economicas pré-capitalistas Nas Formen. Marx parte da afirmação de que a existência de um trabalho livre. o processo de individualização gradual do homem. e por outro.

segundo Marx. Deste modo.82 As análises anteriores nos permitem.. mas ocorre como natureza. esta surgindo a partir de uma evolução espontânea. Tanto na pequena propriedade livre como na propriedade comunal assentada sobre a comuna oriental. isto é.Universidade Tuiuti do Paraná 80 | História | 2010 . na medida em que o homem afasta-se da naturwüchsig.. a terra como propriedade do indivíduo que trabalha. a condição objetiva natural de seu trabalho como lhe pertencendo. Isto significa. inteiramente divorciado do trabalho. de sua relação primitiva (ou desenvolvida espontaneamente) com a natureza [. fundamentalmente. a primeira constituindo o protótipo da “propriedade fundiária coletiva baseada na comunidade oriental”. em si.] a dupla relação de trabalho-propriedade é progressivamente rompida. como meio de subsistência. a terra. do outro a terra como a condição objetiva de sua reprodução. não se mostra como produto do trabalho. segundo Marx. como algo mais do que a abstração do “indivíduo que trabalha”. faz a seguinte definição.84 A primeira vista. De um lado. podemos acrescentar. tendo um modo objetivo de existência na propriedade da terra. portanto. desde o princípio. significa que o homem mostra-se. [. compreendermos toda a significação da relação estabelecida entre o produtor-trabalhador e as condições objetivas de produção nas referidas formações sociais pré-capitalistas. que a terra e a comunidade são condições naturais encontradas pelos indivíduos. temos o individuo vivo. são pressupostos desta apropriação pelo processo de trabalho. ao mesmo tempo laboratório e reservatório de matérias primas.] Esta separação se completa. as duas outras configurando. quando o trabalhador é reduzido a simples força de trabalho e. O trabalhador. Após haver colocado a questão contemporânea (a da separação). O indivíduo. a relação do trabalhador com as Referindo-se a relação do indivíduo com a terra. das diferentes formações sociais pré-capitalistas. o próprio autor das Formen. decerto. antiga e germânica. o indivíduo se considera proprietário de sua realidade. Faz-se. também de maneira prototípica. Assim. simplesmente. portanto. João Quartim nos esclarece. sob o capitalismo. enquanto apropriação que se efetua não por meio do trabalho. para. mas como condição preliminar do trabalho. a “pequena propriedade fundiária livre”. isto é. Ou seja. é o de propriedade. A atitude em relação à terra.81 condições de trabalho. que se amplia posteriormente dando origem a tribo. entretanto que. esta apropriação da terra pelo indivíduo tem como pressuposto a sua existência efetiva como membro de uma comunidade. Apropriação das condições naturais de trabalho: da terra como instrumento original de trabalho. que “constitui a unidade natural do trabalho”83 e a comunidade... sublinhar a preocupação. inversamente a propriedade se reduz ao controle dos meios de produção. necessário expormos a análise desenvolvida por Marx nas Formen. também.Neste mesmo sentido. apropria-se das condições objetivas de sua existência. nos apareça a inexistência de uma relação entre as formações anteriores ao capitalismo e as duas formas de propriedade dissolvidas por este – pequena propriedade livre e propriedade comunal asiática -. acrescenta Marx. lógica e não histórico-cronológica das análises desenvolvidas por Marx. finalmente. A principal condição objetiva de trabalho. enquanto instrumento e matéria-prima de sua atividade e. Eric Hobsbawm afirma que. que Monografias . que se realiza através delas. portanto. talvez. formada de início pela família. como a natureza inorgânica de sua subjetividade. aí sim Marx retrocede para um exame analítico das formas de unidade e só então enumera três (e não mais duas) formas fundamentais de apropriação do solo: asiática. considera as condições objetivas de trabalho como próprias. De acordo com Marx. vê a terra. de fato.

considera o pastoreio. caçadores. ressalta três formas de apropriação da terra: asiática. pelo indivíduo pertencer a uma comunidade e.) constitui o primeiro passo a apropriação das condições objetivas de vida.88 A exposição marxiana se inicia analisando as formas asiáticas. e todos os órgãos dos sentidos são. que aparentemente demonstram o Estado como o único proprietário das condições objetivas de produção. etc. Monografias . sua existência natural como parte de uma tribo. etc. como é sua própria pele. De fato. Os indivíduos.] a preocupação de Marx não era especular em torno de quando. reproduzidos. isto é. ou em geral a vida nômade. que não se estabelece em lugar fixo. também.. hidrografia. uma forma nova de apropriação da natureza pelo individuo como membro da comunidade. enquanto em contrapartida. a horda – laços comuns de sangue. – e da constituição específica da tribo: A comunidade tribal espontânea ou. portanto. apropriando-se dos objetos encontrados nas condições de produção.. etc. através desta relação entre comunidade-terra é que se efetiva o relacionamento do indivíduo com as condições naturais de trabalho. Quando esta comunidade original se fixa. se preferirmos dizer.87 A forma desta apropriação. reproduzemse. etc. somente o rebanho caracteriza-se como objeto de propriedade e reprodução da comunidade. por um lado. sua modificação dependerá. bem como da atividade que a reproduz e lhe dá expressão material. Marx. por outro. as comunidades surgem apenas como possuidoras hereditárias ou não da terra. como afirma Marx. Aqui a comunidade se apropria temporariamente da terra. das condições externas – clima. costumes. A mediação imediata desta atitude é a existência do individuo – mais ou menos naturalmente evoluída. pertencentes a esta comunidade originária. a coleta de frutos. transformando os objetos em atividade subjetiva. separando-se gradualmente da imediatidade natural. sendo tanto uma pré-condição de sua atividade.antecede sua atividade e não surge como simples conseqüência dela. A propriedade definida por Marx caracteriza-se. língua. como pré-condições para sua individualidade. poderá se realizar de diferentes maneiras. mais ou menos historicamente desenvolvida e modificada – como membro de uma comunidade. Marx. no processo da vida. enquanto indivíduos João Quartim observa. subjetivamente. considerada em seu conceito) instaurou uma nova relação entre a comunidade e a natureza e. etc. geografia. para servir de pastagem aos animais. portanto. não são nem mesmo o resultado da produção. Ao iniciar a exposição sobre as formações pré-capitalistas. reafirmando o aspecto lógico das análises desenvolvidas em questão: [.86 As condições originais de produção. como a primeira forma de sobrevivência da comunidade.. Porém. já que a própria Natureza não fixou os homens. pois toda a pele. etc. tornando-a objetiva – atividade de pastores.Universidade Tuiuti do Paraná 81 | História | 2010 . antiga e germânica. não podem ser inicialmente produzidas. por intermédio da comunidade natural originária. desenvolvidos. quanto pressupostos deste processo de reprodução. onde e como algumas tribos se fixaram no solo e sim enfatizar que a fixação no solo enquanto tal (isto é. agricultores. Marx observava que essa aparente ausência da propriedade em relação aos trabalhadores tem seu fundamento real na propriedade comum.85 errantes. Todas estas formas de propriedade são desenvolvimentos ulteriores da comunidade originária. de fato. de fato. objetivamente. Decerto. Podemos aqui observar a retomada dos resultados das análises desenvolvidas por Marx sobre a Índia. como são os seu órgãos sensoriais. isto é.

e não mais a terra. esta forma de apropriação pode ser encontrada entre as comunidades romenas e eslavas.89 trabalhos comunais para a segurança. uma tendência a surgir a comunalidade no corpo tribal. já que nesta há também apenas a posse. Há. que se torna propriedade dos indivíduos urbanos. em certos momentos. como atesta a presença do Estado. A base da comunidade já é a cidade. Por um lado. A comunidade.terra comum entre os membros da comunidade . é que os indivíduos consideram-se como co-proprietários da propriedade comunal. no Peru. pela existência da propriedade comum. enquanto parte da comunidade e. A segunda forma de propriedade. por conseguinte. de acordo com Marx. A forma “asiática”. é a propriedade antiga. portanto. a unidade envolve uma organização coletiva do trabalho. é resultado de uma primeira diferenciação histórica. mas já devidamente modificada. ou para pagar os custos da guerra e dos serviços religiosos. por parte do individuo. essencialmente. trabalhará a terra sobre sua posse. em suas relações coma propriedade comunal de muitos modos diversos. pelo relacionamento entre os diferentes chefes de família. como concessão do Estado. isto é. o membro individual é. Referindo-se em relação às formas asiáticas. segundo Marx. ou. malgrado seu aspecto mais complexo que. A forma desta propriedade caracteriza-se. é a conservação da propriedade original. Assim.ao lado da propriedade privada. juntamente com sua família. e em cada uma delas o indivíduo. etc. as pequenas comunidades. nenhuma parcela da propriedade que possa se reproduzir individualmente. com efeito. portanto. há. apenas possuidor de uma parte determinada da mesma. enquanto ager publicus . como se encontra. Por outro. locais. por certo. Nas duas formas asiáticas. pois nenhuma fração da propriedade pertence ao indivíduo por si mesmo. mas. não parece contrariar a origem das formas asiáticas a partir da tribo natural. a seguinte passagem das Formen nos elucida sobre a questão. A posse sobre a terra. no México. conforme seja o trabalho realizado isoladamente pelo possuidor privado ou determinado pela comunidade ou pela unidade que paira sobre as comunidades particulares. por parte do chefe tribal. porem. existindo. podem modificar o caráter desta posse. “É produto de vida histórica mais dinâmica. transformando a comunidade em auto-suficiente. passa a ser a relação entre proprietários privados auto-suficientes. conseqüentemente. Quando a propriedade existe apenas como propriedade comunal. como alguém em união direta com a comunidade e não dela separado. somente. argumenta Sofri.Universidade Tuiuti do Paraná 82 | História | 2010 . Monografias . apresenta-se para Marx como um dos modos de realização da “propriedade da comunidade”. fundamentalmente. Estas formas asiáticas são divididas por Marx em dois grupos. portanto. O que ocorre. entre os antigos celtas e algumas tribos da Índia. descrita nas Formen. que podem vegetar lado a lado. uma representação da unidade. A comunidade aqui também se apresenta como o pressuposto para a apropriação das condições naturais de produção. em relação à terra. etc. existe na realidade a propriedade comum e a posse privada. do destino e da transformação das tribos originais”90. ou seja. como tal.com a combinação entre agricultura e manufatura.. segundo Marx. já não é mais a substância da qual os indivíduos são meros acidentes espontâneos. hereditariamente ou não. Circunstâncias históricas. não existindo. Daí ser o individuo apenas um possuidor. isto é: A apropriação das condições de produção nas formas asiáticas. uma distinção substancial entre propriedade e posse. podendo ocorrer uma forma mais despótica ou mais democrática de comunidade.

onde os chefes de família se fixavam na floresta. propriamente dita. tanto para o proprietário privado e sua A terceira forma de propriedade analisada nas Formen é a propriedade germânica. é a base de seu poder bélico – a cidade. seja para a defesa da propriedade ou aquisição dela. como os judeus na sociedade medieval.94 A condição necessária para a continuação da comunidade é a reprodução da igualdade entre seus membros proprietários. com distâncias razoáveis uns dos outros. mas cooperando em trabalhos para os interesses comunais (reais ou imaginários) destinados à manutenção da união face a pressões externas ou internas.Universidade Tuiuti do Paraná 83 | História | 2010 . é o pressuposto aqui da individualidade. cujo desenvolvimento ulterior ocorre. como afirma Marx. Neste sentido afirma Marx que. a Idade Média (período germânico) começa com o campo como cenário da história. bem como também para a comunidade que pertence. era sobre qual o tipo de propriedade que geraria os melhores cidadãos. A guerra. que geraria o máximo de riqueza. decerto. ou Brutus pudesse. com sua concentração de moradias. A história antiga clássica é a história das cidades. então.”92 As dificuldades encontradas pela comunidade. que juntos compõem a comunidade. não através da cooperação em trabalho produtor de riqueza. porém de cidades baseadas na propriedade da terra e na agricultura. somente entre uns poucos povos comerciantes – monopolizadores do comércio. A riqueza não constituía o objetivo da produção. como ocorria. de seu trabalho pessoal. a produção na forma de propriedade antiga é destinada à criação de valores de uso. etc. que seria a mais produtiva. porém. Aqui também se parte da comunidade como o pressuposto para a apropriação das condições naturais de produção. Monografias . a preservação do modo objetivo de existência de cada indivíduo. Entre os antigos não encontramos uma única investigação a propósito de qual a forma de propriedade. na qualidade de membro da comunidade. como um fim em si. surgiu.95 Entre os germânicos. Marx descreve que: “O membro da comunidade se reproduz. por conseguinte. para a própria perpetuação da propriedade privada. de fato. como forma distinta da propriedade asiática e da propriedade antiga. mas. “da personalidade do individuo. Isto representa. será o grande trabalho comunal. A organização da comunidade na cidade.. ter emprestado dinheiro à taxa mais favorável de juros. com a comunidade daquela. pertence à sobrevivência da comunidade e. fornece uma imagem ao mundo exterior diferenciada do simples isolamento de seus membros individuais. A pesquisa. então. superposto à verdadeira estrutura econômica). através da oposição entre cidade e campo. que o trabalho excedente.”93 Portanto. sempre.91 família. a história asiática é uma espécie de unidade indiferenciada de cidade e campo (a grande cidade. sua relação com sua propriedade privada é ao mesmo tempo uma relação com a terra e com sua existência enquanto membro da comunidade – sua manutenção como membro da comunidade significa a manutenção da própria comunidade e vice-versa. a comunidade. até. Nesta perspectiva Marx define então que. deve ser considerada como um acampamento dos príncipes. demonstrando que a comunidade desta não se concentrava na cidade. etc. desta maneira. embora Catão pudesse ter investigado os mais lucrativos métodos de cultivo. ou seja.ser membro da comunidade continua sendo condição prévia para a apropriação da terra. A riqueza. Desta maneira. A exposição de Marx se inicia com uma contraposição entre a Antiguidade Clássica e a propriedade germânica. ou não destinado a reprodução do individuo e sua família. o individuo é um proprietário privado. do transporte – que viveram nas franjas do mundo antigo. só existiram em decorrência de outras comunidades.

por suas relações mútuas. com o escravo e o servo. que apresentava. língua. resolução de disputas e. o mesmo ocorrendo em relação a escravidão na propriedade antiga. como um mero suplemento da propriedade individual.” 98 Na realidade. etc. como na Antiguidade Clássica. coleta de frutos. pastagem. portanto. vínculo que se expressa nas eventuais assembléias de todos os chefes de família. a comunidade só possuía uma existência efetiva nas assembléias realizadas pelos seus membros. Sua existência é protegida pelos laços com outros núcleos semelhantes. Monografias . Há. entrelaçados entre si pelas relações estabelecidas entre eles e a comunidade a que pertencem. não existindo. para a segurança recíproca. os livres donos de terras devem promover uma assembléia enquanto em Roma. em geral. para fins bélicos. embora de maneira rápida e fragmentária. um Estado. Ou seja. possuindo apenas a propriedade sobre os seus meios de subsistência. pertencentes à mesma tribo. Isto é. através da agricultura e da manufatura. mas a fórmula marxiana é analiticamente rigorosa: ambos são desapropriados dos meios de produção. etc. separado também dos meios de produção. Somente. Isto é. isto é. cada família “isolada” possuía uma economia completa. Aparentemente. os trabalhadores são donos de um modo objetivo de vida.Universidade Tuiuti do Paraná 84 | História | 2010 . O escravo e o servo são apenas definidos conceitualmente e não historicamente. por conseguinte. mas a existência mesma da comunidade e da propriedade comunal é que é mediada pelos membros independentes – isto é. de acordo com Marx. religiosos. a definição conceitual pode nos surgir como superficial. o trabalhador assalariado.97 Os proprietários individuais têm como pressuposto para a apropriação destas condições de produção. enquanto uma entidade política. os indivíduos como co-proprietários comunais. um núcleo independente de produção. enquanto território comunal para caça. segundo Marx. de certo. Hobsbawm acrescenta. por exemplo. etc. É interessante notar que Marx ao expor as características da propriedade germânica não se refere em nenhum momento a servidão. “a propriedade do indivíduo não está mediada pela comunidade.. ela existe independentemente de tais assembléias. enquanto condições de produção de um terceiro. como ocorre. auto-suficiente. uma diferenciação substancial desta propriedade com a propriedade encontrada na Antiguidade. constituindo. era manifestada como uma associação entre os diferentes proprietários individuais.”96 Referindo-se a comunidade. “Para a comunidade adquirir existência real. de fato. isto é. não é nem ao menos proprietário dos meios de subsistência. Aqui. este como trabalho subsidiário doméstico.segundo Marx. de fato. o laço comum entre eles de sangue. já historicamente alterada. pela presença da cidade em si e dos seus funcionários investidos em autoridade. A questão chave para o entendimento geral das três formas de propriedade consideradas por Marx é: que em todas elas os trabalhadores estão ligados às condições naturais de produção de tal maneira que o objetivo da produção significa a criação de valores de uso. somente existia como atos de união dos indivíduos pertencentes a mesma tribo. após ter realizado a análise das referidas propriedades é que irá tratar do assunto. a propriedade germânica mostra-se como desenvolvimento ulterior da comunidade natural. derivados da comunidade original. em contrapartida. O ager publicus aparece neste momento.

a organização Monografias . O que tem de ser explicado é a separação entre essas condições inorgânicas da existência humana e a existência ativa. Por fim. ainda fortemente marcada por uma visão eurocêntrica. uma separação somente completada. na relação entre trabalho assalariado e o capital. intitulados O Domínio Britânico na Índia e Futuros Resultados do Domínio Britânico na Índia e. É importante destacar que estes escritos representam. No desenvolvimento da exposição marxiana localizamos a base teórica da referida concepção de história. pela primeira vez. Entendemos como ponto nodal da análise materialista. nos quais nossos autores sucessivamente esboçam e sistematizam suas idéias sobre esta questão. típica em todas as formas que antecederam o capitalismo. na relação dialética entre forças produtivas e relações de produção. tentamos nos afastar de qualquer tentativa de reduzir o materialismo histórico a uma tendência unilinear e dogmática. é um produto da própria história humana. publicados em 1853. expandem suas concepções. enquanto senhores das condições de sua produção. aprofundar em trabalhos posteriores as conclusões daqui tiradas. cujo resultado mais elaborado é representado pela correspondência de Marx e Engels e os artigos de Marx dedicados à questão da Índia. do período 1845-1858. por conseguinte. os artigos para o jornal norte americano New York Daily Tribune. que ao longo do processo histórico. obra publicada apenas postumamente. como resultado de seus estudos desenvolvidos ao longo da década de 1850. contribuir para a produção historiográfica. tivemos como objetivo estudar a definição fornecida pelos teóricos da concepção materialista da história em relação as características das formações sociais pré-capitalistas. uma análise das diferentes formas de propriedade que se sucederam historicamente. encerrando nossa trajetória. expomos um dos manuscritos contidos nos Grundrisse intitulado Formações Econômicas PréCapitalistas de 1857-58. Neste sentido. analisando a especificidade das sociedades Asiáticas. plenamente. Esta organização. investiga desde um ponto de vista lógico as diferentes formações sociais que antecederam o capitalismo. nem isto é o resultado de um processo histórico. e. mas antes sistematizar as ideias dos fundadores do materialismo histórico para. mostra-se como a essência comunitária dos indivíduos. as Formações Econômicas Pré-Capitalistas. em seu isolamento. assumem diferentes formas. esboçam pela primeira vez a concepção materialista da história e dedicam. portanto.O que exige explicação não é a unidade de seres humanos vivos e ativos com as condições naturais e inorgânicas de seu metabolismo com a natureza e.Universidade Tuiuti do Paraná 85 | História | 2010 . ou existência. Neste percurso. sua apropriação da natureza. seguimos em nossa monografia a seguinte ordem: A Ideologia Alemã de 1845. nos quais Marx. Como observamos na Introdução à nossa monografia. portanto. analisamos. a partir disto. este recorte temporal se justificava em razão deste conjunto de CONSIDERAÇÕES FINAIS Nosso trabalho apresenta essencialmente um caráter de identificação e exposição dos escritos de Karl Marx e Friedrich Engels. a caracterização do trabalhador. Não pretendíamos. uma espécie de work in progress nos quais sucessivamente desenvolvem suas idéias sobre a questão: em a Ideologia Alemã.99 dos indivíduos em comunidades. Ou seja. dedicados a análise das formações sociais pré-capitalistas. também apenas publicado postumamente. averiguamos a sua real significação. Como resultado de sucessivas leituras e reflexões Marx e Engels.

Marx tenha os colocado nesta sequência. etc. evidentemente. A organização econômica da sociedade é formada por estas relações sociais no processo produtivo. não medidos por qualquer padrão previamente estabelecido – um fim em si mesmo? O que é a riqueza. que Marx nos oferece no importante Prefácio à Contribuição à Critica da Economia Política de 1859. no decorrer do presente trabalho. o que é a riqueza. e jamais aparecem relações de produção novas e mais altas antes que amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para a sua existência. Marx observa que na produção da vida social. mas pelo contrário. a primeira sistematização madura do ponto de vista conceitual.trabalhos serem anteriores.” 101 Ao manifestar em largas linhas sua teoria histórica. senão a plena elaboração de suas faculdades criadoras. Marx expõe quatro tipos de modos de produção: asiático. a evolução de todos os poderes humanos em si. como material para nossas futuras análises. antigo. Na verdade. os indivíduos contraem determinadas relações de produção. senão uma situação em que o homem não se reproduz a si mesmo numa forma determinada. senão a totalidade das necessidades. Sobre esta estrutura se erige uma superestrutura jurídica e política. que esta é uma ordem cronológica da produção. Portanto.Universidade Tuiuti do Paraná 86 | História | 2010 . como também em suas obras. desencadeando uma época de revoluções sociais. quando despida de sua estreita forma burguesa. prazeres. como procuramos atestar. as forças produtivas entram em conflito com as relações de produção. senão o pleno desenvolvimento do controle humano sobre as forças naturais? O que é. potencialidades produtoras. sem outros pressupostos salvo a evolução histórica precedente que faz da totalidade desta evolução – isto é. feudal e burguês. o seu se social que determina a sua consciência. que constituem a base para todas as demais relações entre os indivíduos. limitada. adquirida no intercâmbio universal? O que é. entretanto. Embora. capacidades. se desvencilhando do passado e se integrando no movimento absoluto do tornar-se? 102 Monografias . que correspondem a uma fase de desenvolvimento determinada das forças produtivas. Os três primeiros. dos indivíduos. nada aqui nos indica. são nossos objetos de análise. enquanto um de nossos objetivos. “Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém. mas sim em sua totalidade.”100 Prossegue Marx demonstrando que a um determinado grau de desenvolvimento. que condiciona a consciência social. Neste pequeno Prefácio. sublinhamos a indagação do velho Marx.. “Não é a consciência que determina o seu ser.

Dicionário do pensamento marxista.. In: BOTTOMORE. ENGELS. In: Obras escolhidas. p.. Annenkov – 28 de dezembro de 1846 – Marx explica que utiliza a expressão “comércio” no seu sentido mais amplo contido em alemão.).48. p. A Ideologia Alemã. 9 MARX. São Paulo: Alfa-Omega. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. vol. intercâmbio. reunindo tanto o intercâmbio material quanto 10 11 12 o espiritual de indivíduos isolados.d. Karl. circulação. Obras esolhidas.Notas de Rodapé 1 MARX. Marx e Engels tentam demonstrar que o intercâmbio dos homens durante o processo de produção é a base para todas as demais formas intercâmbio. 41. Eric. São Paulo: Alfa-Omega. cit. p. p. Karl. 1977. o conceito de intercâmbio exprime o conceito que mais tarde será nomeado como relações de produção. São Paulo: Martins Fontes. a colaboração de Engels é limitada 3 4 5 6 7 8 a poucas páginas. Tom. V. Rio de Janeiro: Paz e Terra. vol.. Ibid. cit.300. De fato. p. s. In: A ideologia alemã. 14 Monografias . Formações econômicas pré-capitalistas (HOBSBAWM. op. Jacob. Friedrich. o conceito de intercâmbio – Verkehr – é empregado em um sentido amplo. s. org. ENGELS.17. Friedrich. Em sua carta à P.. p. Ibid. p. MARX. 179. MARX. Prefácio à contribuição à crítica da economia política. A Ideologia Alemã. 2007. comércio. op. Karl. Ibid. 302. Literalmente. movimento. ENGELS.60. Karl. ENGELS. Em A Ideologia Alemã. MARX. Em 1845.I. Carta a Friedrich Engels de 7 de setembro de 1864. 2002. Karl. p. Verkehr significa trânsito. Introdução: o nascimento do materialismo histórico. Friedrich.41. 13 MARX. MARX. Marx e Engels já haviam redigido conjuntamente um escrito intitulado A Sagrada Família. 2007. 2 MARX. de grupos sociais e até mesmo de nações inteiras.302. GORENDER. porém.. 2001. p. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.Universidade Tuiuti do Paraná 87 | História | 2010 . Karl. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.I.d.

ENGELS. p.. 1971. p. op. Ibid. op. 42.. cit. 185. p. MARX. p. 16 17 18 19 20 21 22 23 24 25 26 27 28 29 30 31 32 33 34 Monografias ..48. p. cit.179. p. p. ENGELS. BOTTIGELLI.. p.43.184. p.52.. p. cit. ENGELS. MARX. p. op. Ibid.15 GORENDER. op... MARX. cit. Ibid.52.24. 176... p. GORENDER.54. op. p. p. cit. Lisboa: Estampa. BOTTIGELLI. BOTTIGELLI. 42. op. MARX.55. cit. BOTTIGELLI..29. Ibid.. Id. Ibid.. op.Universidade Tuiuti do Paraná 88 | História | 2010 . Ibid. Id. cit. Ibid.174.48. Ibid. 54.. cit. A gênese do socialismo cientifico.75. p.. p. op. Émilie. ENGELS. p. op.. cit. p.

Karl. p. p.35 MARX.. MARX. cit.. p.22. Ibid. cit.. s. op.. In: Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Omega.54. 91. 179. Ibid. Não discorreremos acerca das manufaturas.179. p. p.Universidade Tuiuti do Paraná 89 | História | 2010 .44. vol. op. op. Ibid.92. p.. ENGELS. p. BOTTIGELLI. p.. p. 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49 50 51 52 53 54 Monografias . ENGELS.. 46...d. ENGELS. MARX. p. Ibid.59-60..46.79.47..78. Id. p. op. ENGELS. Ibid. BOTTIGELLI. MARX. Biografia retirada do escrito Karl Marx de V. p.. cit. Friedrich. 43. p. Lenin. Durante todo o período feudal afluíram as cidades servos fugidos da gleba.179. Manifesto do partido comunista.. p. Ibid. cit.. Ibid. op. por já representar o processo de transição entre o feudalismo e o capitalismo. cit. p.. Id.I. I. Ibid. Ibid.

Prefácio à edição alemã de 1883. 129. entre outras obras. Em um dos manuscritos preparatórios do Manifesto. la gran industria ha ligado los unos a los otros a todos los pueblos de la tierra. p. 17. Karl. Sir William Jones. Child. 1977. Nova Gazeta Renana. Marx e Engels já escreviam. la India. Rio de Janeiro: Paz e Terra. em português. Stamford Raffles. Treatise on East India Trade. A Discourse on Trade From England Into The East Indies. O manifesto do partido comunista.25. 59 Percebe-se aqui um certo eurocentrismo.26. ha unido en un solo mercado mundial todos los pequeños mercados locales. p. 1977. Las cosas han llegado a tal punto que una nueva máquina que se invente ahora en Inglaterra podrá. São Paulo: Alfa-Omega. Monografias . na Índia. p. “así. e a guerra do ópio e a revolta dos T’ai P’ing. J. Thomas Mun. G. revoluciones que tarde o temprano culminarán también allí en la liberación de los obreros”. François Bernier. p. In: Obras escolhidas. si los obreros de Inglaterra o de Francia se liberan ahora. ENGELS. In: Obras escolhidas. ello debe suscitar revoluciones en todos los demás países. De este modo. menciona na carta de 6 de junho de 1853. condenar al hambre a millones de obreros de China. Campbell.d. Eric. p. que Engels. 60 61 2006. s. vol. A Historicial geography of Arabia. Neue Rheinische Zeitug. Foster. Formações econômicas pré-capitalistas. (Revista Tempo da Ciência nº13) 62 Marx leu. na China. 93. que gostaria de aprender 64 65 66 a língua persa. de 1847. Rev.Universidade Tuiuti do Paraná 90 | História | 2010 . 63 Ibid.I. O modo de produção asiático: uma controvérsia marxista. Marx e a categoria de modo de produção asiático: a Índia como modelo de sociedade não-ocidental. Gianni.. p. Como por exemplo. orientalista inglês. History of Java. e incluso la China marcha ahora de cara a la revolución. Principios del Comunismo. pasaron por una completa revolución. São Paulo: Alfa-Omega. en el espacio de un año. vol. 24-25. ANTUNES. Jair. SOFRI. s. São Paulo: Alfa-Omega. São Paulo: UNICAMP. ha preparado por doquier el terreno para la civilización y el progreso y ha hecho las cosas de tal manera que todo lo que se realiza en los países civilizados debe necesariamente repercutir en todos los demás. Friedrich. Karl. por tanto.d.55 ENGELS. Introdução a Lutas de Classes na França de 1848 a 1850. a revolta dos sipaios. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Introdução às formações econômicas pré-capitalistas. Friedrich.I. In: MARX. p. In: Obras escolhidas. Voyages Contenant la Description. s. Friedrich. vol. países que durante 56 57 58 milenios no conocieron el menor progreso. por parte dos autores.d.I. MARX. C. (HOBSBAWN. Modern India. ENGELS. como. por ejemplo.26 Marx e Engels estavam tão interessados na história oriental.

68 69 MARX. p. quase por completo. São Paulo: Alfa-Omega. cit. In: GODELIER. segundo regras fixas.. O domínio britânico na índia. cit.. Nascidas primitivamente das condições da produção material. Ibid. MARX. Gênese e estrutura de o capital de Karl Marx. sob o regime feudal e corporativo. Karl. p.. cit. por exemplo. ao sul do Crishna. p. Roman. Sobre el Modo de Produccion Asiatico.. “nos territórios montanhosos. Rio de 81 Janeiro: Contratempo. e somente em pouquíssimas localidades se desenvolveu. 25. havia divisão do trabalho na sociedade inteira.. op. A ausência da propriedade privada é tratada por Marx e Engels em uma forma generalizada. aparentemente. Ibid. 287. p. op. S. MARX.. Carta a Engels de 2 de junho de 1853.. Essas regras foram estabelecidas por um legislador? Não.27. 72 73 74 75 76 77 78 79 80 Em a Miséria da Filosofia. Maurice. 288. 74. p. p. p. p. p. exercido pelo Estado.A.I. entretanto haver existindo a propriedade privada do solo”. s. sulcados por vales. p.d. vol. SOFRI. elas só foram erigidas em leis bem mais tarde. op. ENGELS. op cit. 290. 130. parece.Universidade Tuiuti do Paraná 91 | História | 2010 .289-290. MARX. p.67 SOFRI.26. Monografias . op. 70 71 Com o desenvolvimento de seus estudos Marx em 14 de julho de 1853 escrevia a Engels. O comércio é. demonstrando que. cit. Barcelona: Martínes Roca. Karl. In: ROSDOLSKY. sob o regime de castas. ANTUNES. p.” MARX. 72.291. “sob o regime patriarcal. cit. op. a propriedade privada. Karl.74. O domínio britânico na Índia. 1972. 2001. Marx já mencionava que. através do excedente extraído de cada aldeia. In: Obras escolhidas. Karl. Carta a Engels de 18 de dezembro de 1857. Foi assim que essas diferentes formas de divisão do trabalho se tornaram outras tantas bases de organização social.. de 1847. Ibid.

115.. org. Introdução as formações econômicas pré-capitalistas. Formações econômicas pré-capitalistas. op. QUARTIM. 480. op. 1977. 14. Eric. p. (Tradução da publicação 83 84 inglesa de 1964). ou seja. É de extrema importância destacarmos novamente que não há uma ligação cronológica entre as formas de propriedade. Karl. 2001.. MARX. Ibid. 65. vol. A ‘forma asiática” e o comunismo agrário primitivo. HOBSBAWN. II. 66.Universidade Tuiuti do Paraná 92 | História | 2010 .. cit. Ibid. 98 Monografias . Gênese e estrutura de o capital de Karl Marx. p. op. p. p. Karl. 45. In: ROSDOLSKY. 1995.). 77-78. 77. 69. João. MARX. Karl. p. p. Karl. Roman. p. p. cit. Carta a Lassale de 12 de novembro de 1858. p. Formações econômicas pré-capitalistas (HOBSBAWM. op. 121. MARX.. cit. Eric. p. 66. 115. op. Roman. p. 26. In: Critica marxista. op. 38-39. Ibid.cit. 86 MARX. p. QUARTIM. p. Rio de Janeiro: Paz e Terra. cit. não há uma 88 89 90 91 92 93 94 95 96 ligação entre forma anterior e forma posterior. 1977. 87 MARX. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Rio de Janeiro: Contratempo. Rio de Janeiro: Paz e Terra.. no sentido estrito dos termos. São Paulo: UNICAMP. Ibid. cit. In: HOBSBAWM. cit. p. p. 85 QUARTIM de MORAES. 72. 1977. SOFRI. 97 MARX. op.82 ROSDOLSKY. Carta a Weydemeyer de 1º de fevereiro de 1859.

Friedrich. Karl. S. São Paulo: Alfa-Omega. _____. Rio de Janeiro: Paz e Terra. p. In: Obras escolhidas.d. Karl.302. Prefácio à contribuição à critica da economia política. _____.. São Paulo: Alfa-Omega.87-88. p. MARX. vol. In: MARX. s. _____. São Paulo: AlfaOmega. Monografias . 76. Friedrich. cit. 74-75. MARX. vol. Obras escolhidas. p. MARX. 70. Sobre el Modo de Produccion Asiatico. 71. Friedrich. p. p.44. 80. Ibid. 82. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Karl. p. Karl.d. São Paulo: Alfa-omega.A. cit. MARX. Formações econômicas pré-capitalistas.Universidade Tuiuti do Paraná 93 | História | 2010 . ENGELS. org. 71. Ibid. Introdução a Lutas de Classes na França de 1848 a 1850. p. vol. In: Obras escolhidas..d. s. Ibid. s. 1972. p. Prefácio à edição alemã de 1883. Karl. In: MARX. Eric. Carta à Engels de 2 de junho de 1853. Barcelona: Martínes Roca. op.I. s. p. Obras escolhidas. p. Prefácio à contribuição à crítica da economia política. p.I.99 Ibid.I. ENGELS. Maurice.). Ibid.301. 1977. 1977.75. Formações econômicas pré-capitalistas (HOBSBAWM. op. 100 101 102 103 104 105 106 107 108 109 110 FONTES ENGELS. Ibid. In: GODELIER. HOBASBAWM. Ibid. Ibid.d. p.

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