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Émile Durkheim

Da Divisão do Trabalho Social

Da Divisão do Trabalho Social

Émile Durkheim Da Divisão do Trabalho Social

Tradução EDUARDO BRANDÃO

Martins Fontes
São Paulo 1999

Esta obra fo i publicada originalmente em francês com o título DE LA DIVISION DU TRAVAIL SOCIAL por Presses Universitaires de France, em 1930. Copyright © Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, 1995, para a presente edição. 2* edjçáo março de 1999
Tradução

EDUARDO BRANDÃO
Revisão da tradução

Carlos Eduardo Silveira Matos
Revisão gráfica

Isabel Aparecida Ribeiro da Silva Maurício Baltkazar Leal
Produção gráfica

Geraldo Alves
Paginação

Renato C. Carbone

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Durkheim, Ém ile, 1858-1917. Da divisão do trabalho social / Ém ile Durkheim ; tradução Eduardo Brandão. - 2a ed. - São Paulo : Martins Fontes, 1999. (Coleção tópicos) Título original: De la division du travail social. IS B N 85-336-1022-X 1. Divisão do trabalho 2. Durkheim, Émile, 1858-1917 3. Sociologia I. Título. II. Série. 99-0754____________________________________________ C D D -306.368

índices para catálogo sistemático:
1. Divisão do trabalho : Sociologia 306.368

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A SEGUNDA EDIÇÃO
O i yàp ytvExai kó Xiç éf; Ô|ioúbv fxepov yàp cronnaxva x a i kóXiç ______ 4ricfr>fp|p<; Pol., B, 1, 1261, a, 24.

Algumas observações sobre os agrupam entos profissionais Ao reeditarmos esta obra, vedamo-nos modificar sua estrutura original. Um livro possui uma individualidade que deve conservar. Convém deixar-lhe a fisionomia sob a qual ele se fez conhecer1. Mas há uma idéia que ficou na penumbra na primei­ ra edição e que parece-nos útil ressaltar e determinar me­ lhor, pois ela esclarecerá algumas partes do presente tra­ balho e mesmo dos que publicamos depois2. Trata-se do papel que os agrupamentos profissionais estão destina­ dos a desempenhar na organização social dos povos con­ temporâneos. Se, primitivamente, só havíamos abordado esse problema por meio de alusões3, é porque contáva­ mos retomá-lo e dedicar-lhe um estudo especial. Como sobrevieram outras ocupações que nos desviaram desse projeto e como não vemos quando poderemos dar-lhe continuidade, gostaríamos de aproveitar esta segunda

VI

DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL

edição para mostrar como esse problema se liga ao tema tratado ao longo da obra, para indicar em que termos ele se coloca e, sobretudo, para tentar dirimir os motivos que ainda impedem muitos espíritos de compreender correta­ mente sua urgência e seu alcance. Tal será o objeto deste novo prefácio.

I Insistimos várias vezes, ao longo deste livro, sobre o estado de anomia jurídica e moral em que se encontra atualmente a vida econômica4. De fato, nessa ordem de funções, a moral profissional só existe em estado rudi­ mentar. Há uma moral profissional do advogado e do magistrado, do soldado e do professor, do médico e do padre, etc. Mas se procurássemos estabelecer numa lin­ guagem um pouco definida as idéias em curso sobre o que devem ser as relações entre o empregador e o em­ pregado, entre o operário e o empresário, entre os indus­ triais que concorrem um com o outro ou com o público, que fórmulas indecisas obteríamos! Algumas generalida­ des imprecisas sobre a fidelidade e a devoção que os as­ salariados de toda sorte devem aos que os empregam, sobre a moderação com a qual estes últimos devem usar de sua preponderância econômica, uma certa reprovação de toda concorrência por demais abertamente desleal, de toda exploração demasiado gritante do consumidor, é quase tudo o que contém a consciência moral dessas profissões. Ademais, a maioria dessas prescrições são desprovidas de qualquer caráter jurídico; elas são sancio­ nadas tão-somente pela opinião pública, não pela lei, e sabemos quanto a opinião se mostra indulgente para com a maneira como essas vagas obrigações são cumpri­

se o vencido pode se resignar por um tempo a uma subordinação que é obrigado a su­ portar. Porque. os conflitos incessantemente renascentes e as desordens de todo tipo de que o mundo eco­ nômico nos dá o triste espetáculo. por conseguinte. como nada contém as forças em presença e não lhes atribui limites que sejam obrigadas a respeitar. subtraída à ação moderadora da regra. que o limite entre o que é per­ mitido e o que é proibido. Em vão. elas tendem a se desen­ volver sem termos e acabam se entrechocando. Uma moral tão imprecisa e tão inconsistente não seria capaz de constituir uma disciplina. Os atos mais censuráveis são com tanta freqüência absolvidos pelo sucesso. subordinando a lei física do mais forte a uma mais alta. parecendo poder ser modifi­ cado quase arbitrariamente pelos indivíduos. latente ou agudo. pelo menos. ele não a aceita e. ela se mostra incapaz de constituir um equilíbrio estável5. é a lei do mais forte que reina e. o estado. para se reprimirem e se reduzirem mutuamente. o que é justo e o que não é. As tréguas impostas pela violência sempre são apenas provisórias e não pacificam os espíritos. para justificar esse estado de não-regulamentação. As paixões humanas só se de­ têm diante de uma força moral que elas respeitam.PREFÁCIO Ã SEGUNDA EDIÇÃO VII das. moderar a guerra entre os homens. em grande parte. as mais intensas acabam conseguindo esmagar as mais fra­ cas. Se qualquer autoridade desse gênero inexiste. pois ela vai contra o próprio objetivo de toda sociedade. Que tal anarquia seja um fenômeno mórbido. que é suprimir ou. Mas. como mostraremos. não tem mais nada de fixo. é mais que evidente. É a esse estado de anomia que devem ser atribuídos.de guerra é necessariamente crônico. salienta-se que ele favo­ . Daí resulta que toda essa esfera da vida coletiva é. Sem dúvida. ou submetê-las.

aquela que a so­ ciedade tem o dever de fazer respeitar) é. Estamos longe do tempo em que eram desdenhosamente abando­ nadas às classes inferiores. evidentemente. às profissões econômi­ cas. até então desconhecido. vemos as funções militares.e. ainda assim.VIII DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL rece o desenvolvimento da liberdade individual. não sem alguma razão. econômica ou outra de que dispõe para subjugar minha liberdade. religiosas recuarem cada vez mais. Só posso ser livre na medida em que outrem é impedido de tirar proveito da superioridade física. a li­ berdade (entendemos a liberdade justa. Sa­ be-se agora que regulamentação complicada é necessária para garantir aos indivíduos a independência econômica sem a qual sua liberdade não é mais que nominal. Uma forma de atividade que to­ mou tal lugar na vida social nâo pode. administrativas. aproximada­ mente. que as funções econô­ micas adquiriram nos últimos dois séculos. outrora. permanecer tão desregulamentada. precisamente . em grande parte. particularmente nos dias de hoje. entre a autoridade da re­ gra e a liberdade do indivíduo. com excessiva freqüência. Muito ao contrário. Enquanto. É. desempenhavam apenas um papel secundário. Diante delas. Somente as funções científicas estão em condição de disputar-lhes o lugar . isto é. e apenas a regra social pode erguer um obstáculo a esses abusos de poder. sem que disso resul­ tem as mais profundas perturbações. Nada mais falso do que esse antagonismo que se quis estabele­ cer. em particular. Mas o que proporciona. que elas são ou tendem a ser es­ sencialmente industriais. Pois. uma fonte de desmoralização geral. excepcional gravidade a esse estado é o desenvol­ vimento. ela própria. hoje estão em primeiro plano. produto de uma regulamentação. E por isso que se pôde dizer de nossas sociedades. a ciência atual­ mente só tem prestígio na medida em que pode servir à prática.

Porque. por natureza. Mas. in­ justamente acusada. é preciso que as próprias circunstâncias em que vivemos o mantenham permanentemente desperto. Não somos. pelo sacrifício? As­ sim. se não formos convidados a cada instante a exercer sobre nós essa coerção sem a qual não há moral. quando estão suficientemente em contato umas com as outras. por vezes. qual é sua causa e qual pode ser seu remédio? No corpo desta obra. propensos a nos incomodar e a nos coagir. para que o sentimento do dever se fixe fortemente em nós. nas ocupações que preen­ chem quase todo nosso tempo. não seguirmos outra regra que a do nosso interesse próprio. Ora. se é verdade que as funções sociais procuram de maneira espontânea adaptar-se umas às outras. como nos acostumaríamos a ela? Se. há uma multidão de indivíduos cuja vida transcorre quase toda no meio industrial e comercial. a ausência de qualquer disciplina econômica não po­ de deixar de estender seus efeitos além do próprio mun­ do econômico e acarretar uma diminuição da moralidade pública. contanto que estejam regular­ mente em relação. que ela não produz necessariamente a dispersão e a incoerência. como tal meio é pouco marca­ do pela moralidade. tendem por si mesmas a se equilibrar e a se ajustar. como tomaríamos gosto pelo desinteresse. por­ tanto. por outro lado esse modo de adapta­ . constatado o mal. como foi. a decorrência disso é que. pela renúncia de si. dedicamo-nos sobretudo a mostrar que a divisão do trabalho não poderia ser res­ ponsabilizada por essa situação. mas que as funções. a maior parte da sua existência transcorre fora de toda e qualquer ação moral. Con­ tudo. essa explicação é incompleta.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO IX porque as funções econômicas absorvem hoje o maior número de cidadãos.

a vida econômica. é necessário. a coesão e a regularida­ de. em certa medida. essencialmente. Para que a anomia tenha fim. necessidades sociais que só a sociedade pode conhecer. E mais: seu papel não se limita simplesmente a erigir em preceitos imperativos os resultados mais gerais dos con­ tratos particulares. Em seguida. escapa à sua competência e à sua ação6. Em primeiro lugar. Além disso. antes de mais nada. produto de uma elaboração coletiva. apenas ela tem a continuidade e. é. uma regra não é apenas uma maneira habitual de agir. é antes de mais nada porque a sociedade sofre desse mal. ela repousa num estado de opinião. do arbítrio individual. isto é. Ora. que exista ou que se forme um grupo em que se possa constituir o sistema de regras atualmente inexistente. Nem a sociedade política em seu conjunto. ela é o árbitro naturalmente designado para resolver os inte­ resses em conflito e atribuir a cada um os limites que convêm. nem o Estado. somente uma sociedade constituída desfruta da supremacia moral e material que é indispensável para impor a lei aos indi­ víduos. De fato. A atividade de uma profissão só pode ser re­ . ela intervém de maneira ativa e positi­ va na formação de todas as regras. por ser muito especial e por se especializar cada dia mais. um a m aneira de agir obrigatória. para viver. mes­ mo. Uma regulamentação moral ou jurídica exprime. evidentemente. e to­ da opinião é coisa coletiva. que esca­ pa. ela é a primeira interessada em que a ordem e a paz reinem: se a anomia é um mal. incumbir-se dessa fun­ ção.X DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ção só se torna uma regra de conduta se um grupo o consagrar com sua autoridade. não podendo dispensar. pois a única personalidade moral que está acima das personalidades particulares é a formada pela coletivi­ dade. podem. por­ tanto. a perenidade necessárias para manter a regra além das relações efêmeras que a encarnam cotidianamente. pois.

em primeiro lugar.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XI gulamentada eficazmente por um grupo próximo o bas­ tante dessa mesma profissão para conhecer bem seu fun­ cionamento. É este industrial que se acha em contato com aquele. seja de pa­ trões. É o que se chama de cor­ poração ou grupo profissional. o século passado suprimiu as antigas corporações. mas esses congressos têm sempre duração limitada. O único grupo que corresponde a essas condições é o que seria formado por todos os agentes de uma mesma indústria reunidos e or­ ganizados num mesmo corpo. Isso porque. Por certo. têm um caráter totalmente individual. não se fizeram mais que tentativas fragmentárias e in­ completas para reconstituí-las em novas bases. os indivíduos que se consagram a um mesmo ofício estão em relações mútuas por causa de suas ocupações similares. depois. o grupo profissional exis­ te tanto quanto a moral profissional. na maioria das vezes. na ordem econômica. Os únicos agrupamentos dotados de certa perma­ nência são os que hoje se chamam sindicatos. seja de operários. vemos todos os mem­ bros de uma mesma profissão reunirem-se em congresso para tratar de alguma questão de interesse geral. a vida coletiva de que foram ocasião se extingue mais ou menos completamente com eles. Desde que. . não é o corpo in­ dustrial de determinada especialidade que se reúne para agir em comum. para sentir todas as suas necessidades e po­ der seguir todas as variações destas. mas ainda bastante informe e rudimentar. temos aí um começo de organização profissional. não sobrevivem às circunstâncias particulares que os suscitaram e. um sindi­ cato é uma associação privada. A própria concorrência entre eles os põe em relação. sem autoridade legal. Excepcionalmente. Ora. Mas essas relações nada têm de regular. n ão sem razão . elas de­ pendem do acaso dos encontros e. Sem dúvi­ da.

imponha-se a ambas as partes com a mes­ ma autoridade. mas de força desigual. estabelecendo suas rela­ ções mútuas. e.XII DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL desprovida. como cada um é independente dos outros. Eles podem. qüe a corporação. é necessário. na mesma situação de dois Esta­ dos autônomos. O número deles é teoricamente ilimitado. . uma instituição pública. um grupo definido. Salvo no caso de seus atos pertencentes à esfera da moral comum. Para que uma moral e um direito profissionais pos­ sam se estabelecer nas diferentes profissões econômicas. uns em relação aos outros. pois. não há nada neles que exprima a unidade da profissão em seu conjunto. não só os sindicatos de patrões e os sindicatos de empregados são distintos uns dos outros. fir­ mar entre si contratos. Eles consagram um estado de fato e não poderiam fazer deste um estado de direito. ou antes. Enfim. é sempre a lei do mais forte que resolve os conflitos. do mesmo modo que os tratados que dois beli­ gerantes firmam exprimem tão-somente o respectivo es­ tado de suas forças militares. e o estado de guerra sub­ siste por inteiro. Não existe or­ ganização comum que os aproxime sem fazê-los perder sua individualidade e na qual possam elaborar em co­ mum uma regulamentação que. mes­ mo no interior de uma categoria industrial. se não se constituem em federação e se unificam. em vez de perma­ necer um agregado confuso e sem unidade. organizado. volte a ser. o qu e é legítimo e necessário. numa palavra. patrões e operários estão. se torne. por conseguinte. Mas todo projeto desse gênero vem se chocar contra certo número de preconcei­ tos que cumpre prevenir ou dissipar. como não há entre eles contatos regulares. mas esses contratos exprimem apenas o respectivo estado das forças econômicas em presença. por conseguinte. de qualquer poder regulamentador. co­ mo fazem os povos por intermédio de seus governos.

Em geral. como incapaz de sobreviver a ele. Ora. Parece que re­ clamar para a indústria e para o comércio uma organiza­ ção corporativa é querer seguir ao revés o curso da histó­ ria. eram exercidos exclusivamente por estrangeiros e. achavam-se excluí­ dos da organização legal da cidade7. que. nascidas com um sistema político. deviam necessariamente desaparecer com ele. O argumento caberia se se propusesse ressuscitar ar­ tificialmente a velha corporação. de fato. desde que a atividade deixa de ser puramente agrí­ cola. o que permite considerar as corporações uma organização temporária. mas se as ne­ cessidades a que ela correspondia não são de todos os tempos. elas aparecem desde que as profissões existem. elas tiveram de le­ . uma tradição chegava até a atribuir sua criação ao rei Nu­ ma8. poder-se-ia crer.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XIII Em primeiro lugar. para satisfazê-las. Mas não é assim que a questão se coloca. Não se trata de saber se a instituição medieval pode convir tal qual a nossas sociedades contemporâneas. Mas em Roma elas datam pelo menos dos primeiros tempos da República. é porque os ofí­ cios. ao mesmo tempo. tais regressões são justamente tidas ou como im­ possíveis. ora. is­ to é. Mas. por isso mesmo. ela é tida como intimamente solidária de nosso antigo regime político e. Se não parecem ter sido conhecidas na Grécia. conquanto deva. sendo desprezados. Se elas datassem unicamente da Idade Média. ou como anormais. É verdade que. De fato. a corporação tem contra si seu passado histórico. por muito tempo. boa apenas para uma época e uma civilização determinadas. na realidade. têm uma origem bem mais antiga. se transformar segundo os ambientes. pelo menos até a época da conquista romana. por conse­ guinte. tal como existia na Ida­ de Média. é. sua grande antiguidade e a maneira como se desenvolveram na história.

sob o Império. os primei­ . diz Waltzing. Assina. É por isso que ele não so­ breviveu à dissolução do Império. Mas. acabaram. Evidentemente. para eles. de sua própria profissão —chegou-se até a recorrer ao re­ crutamento e ao alistamento forçados. Todas as categorias de operários. Aliás.XIV DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL var uma existência bastante humilde. o caráter desses agrupa­ mentos se modificou. “todas as classes de trabalhadores parecem possuídas pelo desejo de multipli­ car as associações profissionais”. não sabemos muito bem como eram organizadas. se se levarem em conta as diferenças econômi­ cas”9. pois os historiado­ res e os monumentos só raramente as mencionam. Todas as sortes de procedimentos foram empregadas para impedir que os trabalhadores escapas­ sem das pesadas obrigações que resultavam. ao que parece. eles acabaram tomando-se verda­ deiras engrenagens da administração. que eram nume­ rosíssimas. Porque essa dependência em relação ao Estado não tardou a degenerar numa ser­ vidão intolerável que os imperadores só puderam manter pela coerção. os artesãos aproveitaram essas circunstâncias para fugir das cidades e se dispersar nos campos. cada profissão era vista como um servi­ ço público. se constituindo em colégios. tal sistema só podia durar enquanto o poder político fosse forte o bastante para impô-lo. “uma extensão que talvez não tenha sido superada desde então. Nesse momento. cujo encargo e cuja responsabilidade ante o Estado cabiam à corporação correspondente10. até alcançar. as guerras civis e as invasões haviam destruído o comércio e a indústria. Ao mesmo tempo. sua quantidade tomara-se considerável e elas começavam a desempenhar um pa­ pel. Foi a ruína da instituição. por isso. Desempenhavam funções oficiais. O movimento ascenden­ te continuou em seguida. o mesmo se dando com a gente que vivia do comércio. desde a época de Cícero.

se. que ha­ viam desaparecido irreversivelmente. depois de terem desaparecido uma primeira vez. nas cidades de origem romana. Em todo caso. “os arte­ sãos começam a sentir a necessidade de se unir e for­ mam suas primeiras associações”11. em todo caso. Mas os acontecimentos logo desmentiriam uma tal profecia. um teórico tivesse tomado consciência da situa­ ção. teria provavelmente concluído. naquele mo­ mento. retira todo e qualquer valor ao argumento que apre­ senta sua desaparição violenta no fim do século passado como uma prova de que não estão mais em harmonia . muito menos ainda é possível admitir que tenha sido o produto de não sei que aberração coletiva. razão de ser. Portanto. como o fizeram mais tarde os economistas. o próprio fa­ to de que. ou. no sé­ culo XII. que as corporações não tinham. Sobretudo. as corpo­ rações recomeçaram nova existência em todas as socie­ dades européias. elas foram necessárias. Se. Desde esse momento. não tinham mais. é porque correspondem a neces­ sidades duradouras e profundas. De fato. Elas renasceram por volta dos séculos XI e XII. na Gália e na Germânia. elas estão outra vez florescentes e se desenvol­ vem até o dia em que começa para elas uma nova deca­ dência. Mal sub­ sistiram alguns vestígios seus. após um eclipse de algum tempo. diz Levasseur. desde o al­ vorecer das sociedades cristãs até os tempos modernos. e sem dúvida teria tratadó de retrógrada e irrealizável toda tentativa de re­ constituí-las. desde as origens da cidade até o apogeu do Império. reconstituíram-se por si mesmas e sob uma nova for­ ma.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XV ros séculos de nossa era viram produzir-se um fenômeno que devia se repetir tal qual no fim do século XVII: a vi­ da corporativa se extinguiu quase por completo. Uma instituição tão persistente assim não poderia depender de uma particularidade contingente e acidental.

de manter no coração dos trabalhadores um sentimento mais vivo de sua solidariedade comum. se a julgamos indispensável. mas da influência moral que poderia ter. Por ter nascido em conseqüên­ cia de interesses temporais. a necessidade que todas as grandes sociedades civiliza­ das hoje sentem de chamá-las de volta à vida é o mais seguro sintoma de que essa supressão radical não era um remédio e de que a reforma de Turgot requeria outra que não poderia ser indefinidamente adiada. Costuma-se representá-las no futuro tal como eram nos últimos tempos da sua existência. em nossas sociedades contemporâneas. O que vemos antes de mais nada no grupo profissional é um poder moral capaz de conter os egoísmos individuais. e não se vê de que modo preo­ cupações tão estritamente profissionais poderiam exercer uma ação favorável sobre a moralidade do corpo ou de seus membros. . e as lembranças deixadas pelas corporações do antigo regime apenas confirmam essa impressão. o papel considerável que lhes atribuímos? Porque. é por causa não dos serviços econômicos que ela poderia prestar. teremos base para crer que ela seria chamada a desempenhar. parece que só pode servir a finalidades utilitárias.XVI DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL com as novas condições da existência coletiva. De resto. de impedir que a lei do mais forte se aplique de maneira tão brutal nas relações industriais e comerciais. II Mas se nem toda organização corporativa é neces­ sariamente um anacronismo histórico. ocupadas antes de mais nada em manter ou aumentar seus privilé­ gios e seus monopólios. ele é tido como inadequado a esse papel. Ora.

Mas era isso apenas um dos contragolpes úteis que a instituição produzia. Todas as espécies de circunstâncias serviam. Mas o que retira da discussão parte de seu interesse e de seu al­ cance é que esses banquetes comuns. cada colégio tinha seu deus tutelar.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XVII Mas é preciso evitar estender a todo o regime corpo­ rativo o que pode ter sido válido para certas corporações e durante um curto lapso de tempo de seu desenvolvi­ mento. e as opiniões a esse respeito são divididas13. Cada uma tinha seu deus particular. “estavam longe de ter. a associação lhes dava mais forças para salvaguardar. sua função principal. foi sobre­ tudo um papel moral que ele representou na maior parte da sua história. cujo culto. reunir os fundos necessários para explorar uma indústria. além disso. seus interesses comuns. distribuições de víveres ou de di­ nheiro ocorriam com freqüência às expensas da comuni­ dade.”12 Sem dúvida. mais ou menos pe­ . entre os romanos. Naturalmente. Antes de mais nada. Longe de ser atingido por uma sorte de enfermi­ dade moral devida à sua própria constituição. se ela assistia regularmente seus membros necessi­ tados. Do mes­ mo modo que cada família tinha seu Lar fam iliarís. de ocasião para alegres reuniões. Indagou-se se a corporação tinha uma caixa de au­ xílio. cada cidade seu Genius publicus. não era sua razão de ser. aliás. a corporação era um colégio religioso. que eram celebradas em co­ mum com sacrifícios e banquetes. nem aprendizado imposto. nelas não encontramos nem regulamentação so­ bre os métodos. o culto profissional não se realizava sem festas. quando ela ti­ nha meios. se necessário. Genius collegí. Isso é particularmente evidente no caso das corporações romanas. “As corporações de artesãos”. tampouco. diz Waltzing. era celebrado num templo especial. um caráter profissional tão pronunciado quanto na Idade Média. nem mono­ pólio. sua finalidade não era.

” A expressão mais co­ mum. Como corolário desse caráter religioso.'n = > De fato. foi piedoso para com seu colégio.”14 A comunidade de in­ teresses assumia o lugar dos vínculos de sangue. ao mesmo tempo. mas essa própria pala­ vra expressa um parentesco espiritual que implica uma estreita fraternidade. Um culto comum. Diz Waltzing: “Nenhuma palavra indica melhor a natureza das relações que uniam os confrades. o título de pai e mãe. “Os membros se viam a tal ponto como irmãos. O protetor e a protetora do colégio tomavam. também como eles. banquetes comuns. em que. às ve­ zes. dormir juntos seu derradeiro sono. quando o colégio não tinha os meios de com­ prar uma propriedade funerária. De qualquer modo. num mesmo culto durante sua vida. um cemitério comum: não estão reunidas todas as características distintivas da organização doméstica entre os romanos? Por isso pôde-se dizer que a corporação ro­ mana era uma “grande família”. do mesmo modo que se dizia piu s in suos. garantia pelo menos a seus membros funerais honrosos à custa da caixa co­ mum.XVIII DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL riódicos. os membros da corporação queriam. e muitos indícios provam que uma grande fraternidade reinava em seu seio. Unidos. era a de sodales-. e as distribuições que os acompanhavam ser­ viam de auxílios e faziam não raro as vezes de uma assis­ tência indireta. tratavam-se por esse nome. os infortunados sa­ biam que podiam contar com essa subvenção dissimula­ da. um colégio funerário. é verdade. São também esses monumentos funerários em que lemos: Pius in collegio. que. o colégio de artesãos era. “Uma prova da dedicação que os confrades tinham por seu co­ légio são os legados e os donativos que lhe faziam. Todas as corpo­ rações ricas o bastante tinham um colum barium coletivo. como os gentiles. essa vida fa­ . festas co­ muns. com freqüência.

“unia por vínculos estreitos as pessoas do mesmo ofício. O que é incontestável é que são todos inspi­ rados na preocupação. regulamentos que podem não estar de acordo com nossas idéias atuais. Há. afirma Levasseur. os respectivos deveres dos patrões e dos ope­ rários. era comum a corporação consagrar uma parte dos fundos que alimentavam seu orçamento a obras beneficentes. “A corporação”. para ca­ da ofício. e tomar assim a vida mais fácil e mais agradável. regras precisas estabeleciam. assim como os deveres recíprocos dos patrões18. Sob esse aspecto. que assistiam com grande cerimônia a missas solenes. Aliás. pois é esta que eles exprimem. diz ele. Mas também constituíam. mas é segundo a moral de seu tempo que devemos julgá-los. Por outro lado. “as pessoas se associavam antes de mais nada pelo prazer de viver juntas. para encontrar fora de casa distrações para suas fa­ digas e seus aborrecimentos. para seus membros. é verdade.”16 Como as sociedades cristãs pertencem a um tipo so­ cial bem diferente da cidade. não com esses ou aqueles interes­ ses individuais. bem ou mal compreendido. que se tomava patrono de toda a comunida­ de.. Ora. ela se estabelecia na paróquia ou numa capela particular e se colocava sob a invocação de um santo. para criar uma intimidade menos restrita do que a família. as corporações da Idade Média não se pareciam exatamente com as corporações romanas. todos juntos. pouco importa. Com muita freqüência. “Mesmo nas corporações operárias”. a subordinação . terminar seu dia com um alegre festim.. depois das quais iam.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XIX miliar era a tal ponto desenvolvida que Boissier dela faz o principal objetivo de todas as corporações romanas. Era lá que os membros da confraria se reuniam. menos extensa do que a cidade. as corporações da Idade Média pareciam-se muito com as da época romana”17. ambientes morais. mas com o interesse corporativo.

Não são obra de um século bárbaro. exacerbando algu­ mas de suas propriedades. essa re­ ciprocidade se justifica melhor ainda em conseqüência dos consideráveis privilégios que o operário tinha então. Mas não há instituição que. sem dúvida nenhuma. todavia. seja por não saber mudar a tempo e se paralisar. qualquer que se­ ja esta. Tomava-se toda sorte de precaução para impedir que o comerciante ou o arte­ são enganasse o comprador. Este pode ser um motivo para procurar reformá-la.XX DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL da utilidade privada à utilidade comum. além do fato de ser justa por si. seja por se desenvolver num sentido unilateral. fazendo-se assistir por seus vizinhos ou mesmo por suas esposas. “esses regulamentos sobre os aprendizes e os operários não devem em absoluto ser desprezados pelo historiador e pelo economista. num dado momento. o que a toma inábil a prestar os próprios serviços que lhe cabem. Sem dúvida. que não podia despedilo a seu bel-prazer. tem sempre um caráter moral. Aliás. não degenere. são dignos de nota”19. . O criado era protegi­ do contra os caprichos do amo. muitas dessas prescrições procediam de sentimen­ tos morais que ainda são os nossos. para obrigá-los a “fazer boa e leal obra”20. Enfim. Trazem a marca de um espírito de continuidade e de cer­ to bom senso. diz Levasseur. pois implica neces­ sariamente algum espírito de sacrifício e de abnegação. os patrões eram proibidos de frustrá-lo de seu di­ reito a o trabalho. chegou um momento em que as regras tornaram-se inutilmente embaraçosas. não para declará-la para sempre inútil e destruí-la. toda uma regulamentação era destinada a garantir a probidade profissional. É verdade que a obrigação era recí­ proca. em que os patrões se preocuparam muito mais com salvaguardar seus privilégios do que com zelar pelo bom nome da profissão e pela honestidade de seus membros. Numa palavra. Assim. que.

certo número de indiví­ duos têm em comum idéias. Porque é impossível que homens vivam juntos. interesses. que. aliás. aplicando-se às circunstâncias mais ordi­ nárias e mais importantes da vida. que se procurem. Basta que esse sentimento se precise e se determine. põe particularmente em evidência a verdadeira natureza de suas funções. é inevitável que. ocu­ pações que o resto da população não partilha com eles. Porém. tanto em Roma quanto na Idade Média. estejam regularmente em contato. esse caráter da organização corporativa se deve à ação de causas bastante gerais. essa subordinação dos interesses par­ ticulares ao interesse geral. sem adquirirem o sentimento do todo que formam por sua união. um ambien­ te moral. te­ çam relações. sentimentos. A importância tão considerável que a religião tinha em sua vida. que podemos ver agir em outras circunstâncias. sob a influência dessas similitudes. uma vez formado o gru­ po. A partir do instante em que. em absoluto. se preocupem com seus interesses e o levem em conta em sua conduta. naturalmente. é a própria fonte de toda ati­ vidade moral. se associem e que se forme assim. então. os fatos que precedem bastam para provar que o grupo profissional não é. eles sejam atraídos uns para os outros. no seio de uma sociedade política. esse apego a algo que supera o indivíduo. . se traduza em fórmu­ las definidas. E. com sua fisionomia especial no seio da sociedade geral. Ora. do mesmo modo que toda disciplina moral ten­ dia necessariamente a adquirir uma forma religiosa. para que se tenha um corpo de regras mo­ rais em via de se constituir. pouco a pouco. um grupo restrito. dele emana uma vida moral que traz. porque toda comunidade religiosa constituía. sem que se apeguem a esse todo.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XXI Como quer que seja. a marca das condições particulares em que é elaborada. incapaz de exercer uma ação moral.

amamos também as alegrias da paz. Por causa do prestígio que a família conserva ante nossos . à medida que aprende a apreciar os encantos dessa nova existên­ cia. Porque a anarquia lhe é dolorosa. esse resultado é útil e o sentimento de sua utilidade contribui para confirmá-lo. quando crônicos. mas. é para se associar. e estas últimas são tanto mais caras aos homens quanto mais profundamente socializados. quando alguns indivíduos que possuem interesses em co­ mum se associam. ele contrai a sua necessidade e não há ordem de ati­ vidade em que não os busque com paixão. para le­ var juntos uma mesma vida moral. o indivíduo encontra neles uma fonte de alegrias. não é apenas para defender esses inte­ resses. para não se sentir mais perdido no meio dos adversários. isto é (pois as duas pa­ lavras são equivalentes). quanto mais profundamente ci­ vilizados eles forem. a tensão que ela requer são estados penosos. de formar com vários um só todo. Essa sensação de hostilida­ de geral. de outro modo. ao mesmo tempo que coercitiva. tomar-se-ia anárquica. Eis por que. A sociedade sequer é a única interessada em que esses grupos espe­ ciais se formem para regrar a atividade que se desenvol­ ve neles e que. A vida em comum é atraente. a desconfiança mútua que dela resulta. a acrescen­ tar à sua natureza física outra natureza. enfim. a coerção é necessária para levar o homem a se superar. Sem dúvida. por seu lado. isto é.XXII DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Ao mesmo tempo que se produz por si mesmo e pe­ la força das coisas. Não é bom para o homem viver assim em pé de guerra em meio a seus companheiros imediatos. Também ele sofre com os conflitos e as desordens que se produzem todas as vezes que as relações interindividuais não estão submetidas a nenhuma influência reguladora. se amamos a guerra. para ter o prazer de comungar. A moral doméstica não se formou de outro modo.

a necessidade de se unir para lutar contra um perigo comum. por exemplo. mas se en­ contram. na corpora­ ção. pois ela tem por efeito natural inclinar as consciên­ cias umas em direção às outras. sentimentos e interes­ ses. um grupo de indivíduos que foram aproximados uns dos outros. acontece com grande freqüência consangüíneos bem próximos serem. Portanto. parece-nos que. é em virtude de características bastante parti­ culares de que teria o privilégio e que não se encon­ trariam em outro lugar em nenhum grau. A consangüinidade pode ter facilitado essa concen­ tração. em absoluto. o parentesco dito artificial se contrai então com grande facilidade e exerce todos os efeitos do parentesco natural. os não-consangüíneos são muitos no seio da família. se o primeiro desses grupos teve um papel tão considerável na história moral da humanidade. foram causas muito mais poderosas de aproximação. a família não deve suas virtudes à unidade de descendência: ela é. Mas tivemos a oportunidade de mostrar21 que ela não tem. num sem-número de sociedades. o foco por excelência da moralidade. A prova está em que. a solidariedade de interesses. a extraordinária eficácia que se lhe atribui. elas não são específicas da família. o caso dos cognatos na famí­ lia romana. Costuma-se crer que exista na consangüinidade uma causa excepcio­ nalmente poderosa de aproximação moral. Portanto. estranhos uns aos outros. sempre haverá entre eles esta diferença: a de que os . moral ou juridicamente. no seio da sociedade política. é. Inversamente. Ora. por que o segundo seria incapaz de exercê-lo? Sem dúvida. muito embora sob outras formas. se ela foi e é sempre uma escola de dedicação e de abnegação. simplesmente.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XXIII olhos. Mas muitos outros fato­ res intervieram: a proximidade material. ou simplesmente de se unir. por uma comunidade mais particularmente estreita de idéias.

pois. grande parte de sua eficácia. a princípio. política. o homem passa uma parte notável de sua existência longe de qualquer influên­ cia doméstica22. A famí­ lia é uma espécie de sociedade completa. da qual. mas porque essas duas instituições não são desprovidas de certas relações de parentesco. à medida que o trabalho vai se dividindo. De fato. sob certos aspectos. é contínua como a vida. a família. A esfera de influên­ cia da corporação é. A inferioridade que ela pode apresentar. porque o campo de cada ativi­ dade individual tende cada vez mais a se encerrar nos li­ mites assinalados pelas funções de que o indivíduo é es­ pecialmente encarregado. etc. mesmo fora de casa. sua compensação. com isso. comparativamente à fa­ mília tem. Se acreditamos que devíamos aproximar assim a fa­ mília e a corporação. em certo sentido. A corporação não tem essas intermitências. o grupo profissional não lembraria a . perdeu.XXIV DA DIVISÀO DO TRABALHO SOCIAL membros da família põem em comum a totalidade de sua existência. ne­ la ecoa e provoca reações apropriadas. Ora. Uma vez que ela se dispersa hoje a cada geração. não foi simplesmente para estabele­ cer entre elas um paralelo instrutivo. Enfim e sobretudo. não foram rn^is que uma forma no­ va e ampliada. o detalhe lhe escapa. não pode deixar de ser muito geral. Mas não se deve perder de vista a posição cada vez mais im­ portante que a profissão assume na vida. se a ação da família se estende a tudo. Tudo o que fazemos de alguma importância. ao passo que os membros das corporações colocam apenas suas preocupações profissionais. científica. vimos que elas se formaram com base no modelo da sociedade doméstica. Ademais. mais restrita. cuja ação se estende tanto a nossa atividade econômica quanto a nos­ sa atividade religiosa. É o que nos mostra notadamente a histó­ ria das corporações romanas. perden­ do sua unidade e sua indivisibilidade de outrora.

lutar contra eles. Para que ela não ficasse no estado inorganizado. De fato. uma vez que existem ofícios. a indústria tem na família e na aldeia que. entender-se com eles. em certo sentido. porém. a vida do agricultor não o tira fora do círculo familiar. nada mais é que uma espécie de grande fa­ mília . Foi assim que a corporação nasceu: ela substituiu a família no exercício de uma função que de início fora doméstica. ou é pouco desenvolvi­ da. era necessário que um grupo secundário. Porque. Como a atividade econômica não tem reflexos fora de casa. é preciso ter clientes e sair de casa para encontrá-los. e não necessita de outro. . Co­ mo a troca não é desenvolvida. em si. Uma nova forma de atividade era. em outras palavras. para viver de um ofício. a corporação foi. de um novo gênero. se for­ masse. que lhe fosse próprio. a cor­ poração é o meio natural no seio do qual devem se ela­ borar a moral e o direito profissionais. Não é mais assim. é preciso sair também para entrar em relação com os con­ correntes. De res­ to.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XXV esse ponto o grupo familiar se não houvesse entre eles algum vínculo de filiação. Tal origem não permite atribuir-lhe essa espécie de amoralidade constitucional que lhe é prestada gratuitamente. Enquanto é exclusiva­ mente agrícola. era preciso que criasse um novo âmbito. de indiví­ duos que deixaram seu meio natal. Do mesmo modo que a família foi o ambiente no seio do qual se elaboraram a moral e o direito domésticos. assim. extravasando o ve­ lho âmbito familiar. de grupo profissional. mas que já não podia conservar esse caráter. isto é. assim constituída. e as cidades sempre se formaram e se recrutaram principalmente por meio de imigrantes. pois. os ofícios supõem mais ou menos diretamente as ci­ dades.seu órgão imediato. ela mes­ ma. herdeira da família. a família basta para regrá-la e serve.

em Roma. o que foi esse desen­ volvimento. em nenhuma das reu­ niões do exército. em parte alguma o grupo profissional tomava parte. pelo menos na ori­ gem. seria necessário mostrar que transforma­ ções ele deve e pode sofrer para se adaptar às socieda­ des modernas. uma instituição extra-social.XXVI DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL III Mas. Em ne­ nhuma das assembléias eleitorais. seriam necessários estudos comparativos que não estão feitos e que não podemos fazer de passagem. ela foi. Elas não entravam na constituição romana. porém. Poder-se-ia então prever com alguma certeza o que ele é chamado a se tornar. co­ . Do que precede. pois é evidente que ele não pode ser hoje o que era na Idade Média. na qualidade de unidades definidas e reconhecidas. já resulta que a corporação não foi. e sim pela posição que ocupa na sociedade. mas apenas em suas linhas mais gerais. os artesãos se reuniam por colégios. Tal­ vez. Para poder tratar essa questão com método. o que se tornou mais tarde nas sociedades cristãs. não seja impossível perceber desde já. seria necessário estabelecer previamente de que maneira o re­ gime corporativo evoluiu no passado e quais as causas que determinaram as principais variações que sofreu. O historiador que em­ preende resolver em seus elementos a organização políti­ ca dos romanos não encontra. De fato. para tanto. no decurso de sua análise. Mas. dadas as condições em que as so­ ciedades européias se encontram atualmente. Não difere daquela apenas por seu caráter mais religioso e menos profissional. para dissipar todas as prevenções. para mostrar bem que o sistema corporativo não é apenas uma institui­ ção do passado. nenhum fato que possa adverti-lo da existência das cor­ porações.

Só triunfaram sobre o desprezo de que eram objeto por meio de intrigas. Mas a própria maneira como foi obtida essa melhora é significativa. seja por intermé­ dio de representantes regulares. mas uma penosa . Elas apareciam no momento em que os ofícios começavam a se desenvolver. explica-se pelas próprias condições em que as corporações se haviam formado. mais tarde. Como socie­ dade agrícola. os artesãos tiveram de recorrer a procedimentos ir­ regulares e extralegais. tibicines. E se. na vida pública. agita­ ção clandestina26. essa situação não foi. acabaram sendo integrados ao Estado para se tomar en­ grenagens da máquina administrativa. a so­ ciedade romana não lhes era aberta. É a melhor prova de que. os ofícios permaneceram marcados por um descrédito moral que não lhes permitia ocupar uma posição regular no Es­ tado. por si.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XXVII mo tal. seja em corpo. de certa maneira. complôs. a as­ sembléia por centúrias refletia antes a organização mili­ tar. Sem dúvida. cornicines). eram demasiado rudi­ mentares para afetar a estrutura política da cidade25. Quanto às funções industriais. Roma era essencial­ mente uma sociedade agrícola e guerreira. até um momento bem avançado da história romana. a questão pode se colocar a propósito de três ou quatro colégios que se imaginou poder identificar com algumas das cen­ túrias constituídas por Sérvio Túlio ( tignarii. mas o fato não está bem-estabelecido23. para eles. Aliás. Ora. Quanto às outras corporações. era dividida em gentes e em cúrias. aerarii. estavam certamente fora da organização oficial do povo romano24. veio um tempo em que sua condição social melhorou. uma conquista gloriosa. No máximo. Para conseguir fazer respei­ tar seus interesses e desempenhar um papel na vida pú­ blica. por muito tempo os ofícios não foram mais que uma forma acessória e secun­ dária da atividade social dos romanos. Essa situação excêntrica.

sabemos que as cidades alemãs formaram-se em torno de mercados permanentes. quase exclusivamente composta de artesãos e mercadores. A classe dos magistrados e dos juristas apenas come­ çava a se formar. os homens de estudo ainda pertenciam ao clero. “era composta exclusivamente de gente de ofí­ cio. A população que vinha se agrupar em torno desses mercados e que se tornou a população urbana era. “A corporação tornou-se a corrente que os tomou cativos e que a mão imperial apertou tanto mais quanto mais penoso e mais necessário ao Estado era seu trabalho”. “A burguesia no século XIH”. abertos por um senhor num ponto de seu domínio29. durante muito tempo burguês e “gente de ofício” eram uma só coisa. não foi para nele ocupar a posição a que seus serviços sociais podiam lhes dar direito.”28 O mesmo aconteceu na Alemanha. e o ju s civile ou direito urbano é freqüentemente chamado de ju s fo r i ou direito do mercado. porque a propriedade territorial ainda estava quase toda em mãos dos nobres. aos plebeus restava apenas o trabalho do ateliê e do balcão. A organiza­ . explica Levasseur. escreve Levasseur27. a corporação se apresenta como o âmbito normal dessa parte da popula­ ção que era chamada a representar no Estado um papel tão considerável: a burguesia. mas simplesmente para poder ser mais bem vigiados pelo poder governamental. de outro lado. se entraram então no Estado. pois. Burguês e citadino eram sinônimos e. De fato.XXVIII DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL dependência. Bem diversa é sua posição nas sociedades da Idade Média. a quantidade dos que viviam de rendas era mui­ to pequena. Por isso as palavras foren ses ou mercatores serviam para designar indiferentemente os habitantes das cidades. ou terceiro estado. assim que aparece. De saída. e foi pela indús­ tria e pelo comércio que eles conquistaram uma posição no reino.

Em algu­ mas cidades. ela ser­ viu. é sabido o que foi a comuna na história de nos­ sas sociedades. quando as cidades se emanciparam da tute­ la senhorial. o corpo de ofícios. Vê-se que. em Roma. os artesãos se reuniam todos os anos para eleger os prefeitos de cada corporação ou ban deira [bannière]. em última análise. que serviu de base a to­ do o sistema político oriundo do movimento comunal. por sua vez. assim como a comuna era um agregado de corpos de ofícios.”31 Inversa­ mente..PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÁO XXIX ção dos ofícios e do comércio parece. “em quase todas as comunas. que no­ meavam outros doze. come­ çou estando quase fora dos contextos normais. pelo próprio fato de que fora o modelo do qual a instituição comunal era a forma ampliada e desenvolvida. tor­ nou-se a base da constituição comunal. ela cresceu singularmente em importância e dignidade. que antecipara e preparara esse movimento. o modo de eleição era ainda mais complica­ do. com o tempo. De fato. em sua trajetória. dentre as quais eles escolhiam o prefeito da comuna. “Em Amiens. ao contrário. Enquanto. Ora. em todas. foi esta. a pedra angular. de marco elementar para nossas socie­ . quando a comuna se formou. e o escabinato apresentava. por exemplo. os prefeitos eleitos nomeavam em seguida doze escabinos. ter sido a or­ ganização primitiva da burguesia européia. Por isso. aos prefeitos das bandeiras três pessoas. mas. de que se tornou. já que era uma reunião de cor­ porações e que se formou com base no tipo da corpora­ ção.. o sistema político e a eleição dos magistrados baseiam-se na divisão dos cidadãos em corpos de ofícios”30. pois. Era costumeiro votar-se por corpos de ofícios e elegiam-se ao mesmo tempo os chefes da corporação e os da comuna. o corpo de ofício era uma comuna em minia­ tura. a organização política e municipal era intimamente ligada à organização do trabalho. Por conseguinte.

De fato. Porque se. em princí­ pio. supriu todas as necessidades. É um novo motivo para que nos recusemos a considerá-la uma espécie de instituição arcaica. . Mas não foi mais assim quando a grande indústria nas­ ceu. ela não tem sua sede necessaria­ mente numa cidade. enquanto o mer­ cado foi principalmente local. o papel que representou tornou-se mais vital à medida que o comércio e a indústria se desenvolviam. Em primeiro lugar. o que ela deve se tomar para poder readquirir sua posição entre nossas instituições públicas. Enquanto. sua clientela se recruta em toda parte. destina­ da a desaparecer da história. Essa solidarie­ dade não teve inconvenientes enquanto os próprios ofí­ cios possuíram um caráter comunal. Outros ensinamentos. por conseguinte.XXX DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL dades atuais. com sua organização municipal. isto é. são proporcionados pelo rápido quadro que acabamos de esboçar. não podia submeter-se a um sistema que não fora feito para ela. seu campo de ação não se limita a nenhuma re­ gião determinada. acabamos de ver que. artesãos e mercadores tiveram mais ou menos exclu­ sivamente como clientes apenas os habitantes da cidade ou de seus arredores imediatos. Depois. pode até se estabelecer fora de uma aglomeração. no passado. ela busca apenas o ponto do território em que pode melhor se ali­ mentar e de onde pode irradiar-se da maneira mais fácil. ele nos permite entrever como a corporação caiu provisoriamente em descrédito desde há cerca de dois séculos e. sob a forma que tinha na Idade Média. Antes de mais nada. o corpo de ofícios. como esta nada tem de especialmente urbano. porém. preexistente. é de todo in­ verossímil que novos progressos econômicos possam ter como efeito retirar-lhe toda razão de ser. ela era inti­ mamente ligada à organização da comuna. A hipótese con­ trária pareceria mais justificada32. rural ou urbana.

PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XXXI Uma instituição inteiramente empenhada na comuna. de se tor­ nar cerceadora. não podia se adaptar a essa nova forma da indústria e se o Estado não podia substituir a antiga disci­ plina corporativa. é por isso que os economistas clássicos reclamaram. pois. Por não ter sabido assimilar a nova vida que se formava. as submetia a seu controle. assim. quase impossí­ vel. e foi isso. Infelizmente. a partir do momento em que a grande indústria al­ cançou certo grau de desenvolvimento e de diversidade. que fez com que os corpos de ofícios se esfor­ çassem por todos os meios para impedir seu progresso. Mas sabe-se como o Estado é inadequado a essa fun­ ção. a vida se retirou dela e ela tornou-se. a grande indústria en­ controu-se naturalmente fora do regime corporativo. até mesmo. em compen­ sação. Chegou a ser. daí advinha apenas que a antiga corporação devia se transformar. e é isso que indica o próprio título de manufaturas reais que lhes era concedi­ do. para enquadrar e regrar uma forma de ativida­ de coletiva que era tão completamente estranha à vida comunal. o Estado desempenhou diretamente para ela um papel análogo ao que as corpo­ rações repesentavam para o pequeno comércio e para os ofícios urbanos. disso não decorria que qualquer dis­ ciplina fosse desde então inútil. não podia servir. nem por isso ela ficou livre de toda regula­ mentação: nos primeiros tempos. o poder real. o que era na . aliás. essa tutela direta não podia deixar. ela não teve flexibilidade suficiente para se reformar a tempo. assim que apareceu. De fato. para continuar a cumprir seu papel nas novas condições da vida econô­ mica. Entretanto. portanto. e a justo título. tal como existia então. como era o caso da velha corporação. Mas se a corporação. Ao mesmo tempo em que concedia às manufaturas certos privilégios. é por isso que foi destroçada. sua supressão.

antes de mais nada. não precisamos expor em detalhe o que deveria ser essa reforma. quer morem na cidade. é que os marcos do grupo profissional devem guardar sempre uma relação com os marcos da vida eco­ nômica. já que o mer­ cado. Lo­ go. foi por ter faltado para com essa condição que o regime corporativo desapareceu. a corporação deve adquirir a mesma extensão. tal como parecem sobressair dos fatos precedentes. tal órgão estaria necessariamente em contato e em relação direta com o órgão central da vida coletiva. tomou-se nacional e interna­ cional. de maneira a compreender todos os membros da profissão. que só se mantinha agora no organis­ mo social por força de inércia. Mas destruí-la não era um meio de dar satisfação às necessidades a que ela não soubera sa­ tisfazer.XXXII DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL véspera da Revolução: uma espécie de substância morta. Assim. dispersos em toda a extensão do território33. Em vez de ser limitada apenas aos artesãos de uma cida­ de. Portanto. qualquer que seja a região em que se encontram. pois os acontecimentos importantes o bastante . não causa espanto que tenha chegado um momento em que foi violenta­ mente expulsa dele. ela deve ampliar-se. quer no cam­ po. Bastar-nos-á indicar seus princípios gerais. que a exprima e regularize seu funcionamento. independente de qualquer determinação territorial. de municipal que era. Já que essa vida comum é. tem de ser criado um órgão apropriado. tomado apenas mais agudo por um século de hesitações e experiências infrutíferas. sob cer­ tos aspectos. de corpo estranho. Por causa de suas dimensões. porque. E é assim que o problema ainda permanece dian­ te de nós. O que a experiência do passado demonstra. todos são solidários uns com os outros e participam de uma vida comum. A obra do sociólogo não é a do homem público.

como aconteceu nos séculos XVI e XVII. é sempre capaz de afetar o conjunto da sociedade. a formação de órgãos secundários. Conquanto seja às assembléias governamen­ tais que cabe colocar os princípios gerais da legislação industrial. não deve degenerar em estreita subordina­ ção. as condições de vida são mais ou menos invariá­ . embo­ ra necessária. Enquanto permanecia limitada ao recinto da cidade. que compreendam os trabalhadores simila­ res de uma mesma região ou de uma mesma localidade.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XXXIII para envolverem toda uma categoria de empresas industrais num país têm necessariamente repercussões bastan­ te gerais. Por isso mesmo. como a própria cidade. Os dois ór­ gãos em relação devem permanecer distintos e autôno­ mos. que o Estado não pode sentir . o regime corporativo seria protegi­ do contra essa propensão ao imobilismo. Como. A vida econômica poderia ser assim regulada e de­ terminada. porque é um defeito que resultava do caráter estreitamente comunal da corporação. elas são incapazes de diversificá-los segundo as diferentes modalidades de indústria. Por isso. e cujo papel seria especializar ainda mais a regulamenta­ ção profissional segundo as necessidades locais ou regio­ nais.o que o leva a intervir. de que só ele pode incumbir-se. que lhe foi fre­ qüente e justamente criticada no passado. assim que esta apareceu. era inevitável que se tomasse prisioneira da tradição. pois cada um tem suas funções. não foi sem fundamento que o poder real tendeu instintivamente a não deixar fora de sua ação a grande indústria. Mas essa ação reguladora. Essa organização unitária para o conjunto de um mesmo país não exclui. sem nada perder de sua diversidade. de modo algum. aliás. Era impossí­ vel que ele se desinteressasse por uma forma de ativida­ de que. É essa diversifica­ ção que constitui a tarefa própria da corporação34. num grupo tão restrito. por sua natureza.

XXXIV DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL veis. sobreviveu às causas que lhe tinham dado origem e que o justificavam primitivamente. uma vez que se integrou aos costumes. e as novidades acabam até mesmo por ser temidas. produzem-se sem ces­ sar remanejamentos. que são fontes de novidades3?. o hábito aí exerce sobre as pessoas e as coisas um império sem contrapeso. a corporação. por conseguinte. não esteve em condições de corresponder a essas novas exigências. despertaram novas necessidades. Num grupo formado por elementos numerosos e diversos. devido à sua própria dimensão e à sua complexidade. se encontraria naturalmente em harmonia com o equilíbrio móvel das necessidades e das idéias. abriram os espíritos a novos desejos. Depois. forma-se também uma disciplina moral. onde quer que se forme um grupo. Portanto. Aliás. introduziram nos gostos e nos modos uma mobilidade até então desconhecida. Mas as corporações nacionais. Mas a instituição dessa disciplina não é mais que uma das numerosas ma­ neiras pelas quais se manifesta toda atividade coletiva. Dele emana um calor que aquece ou reanima . Sem dúvida. que foi sua conseqüência. não seriam expostas a esse perigo. é também uma fonte de vida sui generís. é preciso evitar acreditar que todo o papel da corporação deva consistir em estabelecer regras e aplicálas. e tinha as mesmas razões de ser. Por­ tanto. o tradicionalismo das corporações não era senão um aspecto do tradicionalis­ mo comunal. É por isso que. o equilíbrio de tal organização não teria nada de rígido e. obstinadamente apegada a seus velhos cos­ tumes. Um grupo não é apenas uma autoridade moral que rege a vida de seus membros. quando a concentração material e moral do país e da grande indústria. Demasiados espíritos diferentes estariam em atividade para que uma uniformidade estacio­ nária pudesse se estabelecer.

sociedades de ajuda mútua. etc. como a prática de uma mesma profissão produz com facilidade. Vimos. Muitas obras educativas (ensino técnico. sob as formas mais variadas. ao mesmo tempo. despertava essas mesmas necessidades e procurava satisfazê-las. tanto em Roma como na Idade Média. como a corporação. que os abre à simpatia. Em tomo de suas funções propria­ mente profissionais virão agrupar-se outras. As corporações do futuro terão uma complexidade de atribuições ainda maior. represen­ tações dramáticas. sindicatos que são. que. de fato. desde já. ao mesmo tempo que o meio em que os homens aprenderam. Vimos.) parecem igualmente de­ ver encontrar na corporação seu meio natural. Assim. concertos. a desfrutar das efusões do sentimento. a legisladora de um direito e de uma moral. outros que fundam casas co­ muns em que se organizam cursos. São elas as funções assistenciais que. O mesmo se dá numa certa vida estética. Deve-se até supor que a corporação esteja destinada a se tornar a base. que cabem atualmente aos municípios ou a sociedades privadas. para serem bem desem­ penhadas. pela primei­ ra vez. a que deve servir de contrapeso e de reparação. então.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XXXV os corações. ou uma das bases essenciais de nossa organização política. devido à sua maior amplitude. se ela começa por ser exterior ao sistema social. ensino de adultos. à medida que a . uma certa homogeneidade inte­ lectual e moral. A atividade corporativa pode se exer­ cer. porque parece conforme à natureza das coisas que essa forma nobre do jogo e da recreação se desenvolva lado a lado com a vida séria. no passado. vemos. cuja severidade chegou com freqüência ao extremo da rudeza. tenderá a se empenhar de forma cada vez mais profunda nele. supõem entre assistentes e assistidos senti­ mentos de solidariedade. também. a família foi. que faz ruir os egoísmos. De fato.

distrito. a um departamento. tomar-se-ia um vasto sistema de corporações nacionais. elas seriam um resumo mais fiel da vida social em seu conjunto. De vários horizontes. mas os vínculos que nos ligam a eles se tomam cada dia mais frágeis e mais frouxos. província. preenchida a grave lacuna que assinala­ mos adiante na estrutura das sociedades européias. ela deverá assumir na sociedade uma posição cada vez mais central e mais preponderante. Portanto. como o mercado mu­ nicipal no mercado nacional. Veremos.XXXVI DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL vida econômica se desenvolve. Agora que a comuna. etc. continuando o progresso a se efetuar no mesmo sentido. porventura não é reconhecer que a profissão orga­ nizada ou a corporação deveria ser o órgão essencial da vida pública? Seria. a unidade política fundamental? A sociedade. deve se agrupar por profis­ sões. sendo certo que. da nossa em particular36.) vai desaparecendo cada vez mais. Ela foi outrora a divisão elementar da organização comunal. em vez de continuar sendo o que ainda é hoje. veio se perder no Estado. Sem dúvida. cada um de nós pertence a uma comuna. artificiais e já não des­ . de organismo autônomo que era outrora. tudo permite prever que. em sua maioria. dessa maneira. a organização que tem por base agrupamentos territoriais (aldeia ou cidade. vem o pedido de que os colégios eleitorais sejam forma­ dos por profissões. para tomar consciência de si. um agregado de distritos territoriais justapostos. Essas divisões geográficas são. assim. à medida que avançamos na história. Mas dizer que o país. como. acaso não é legítimo pensar que a corporação também deveria sofrer uma transforma­ ção correspondente e tornar-se a divisão elementar do Estado. de fato. as assembléias políticas exprimiriam mais exatamente a diversidade dos interes­ ses sociais e suas relações. e não por circunscrições territoriais.

boa parte do que sucede neles nos deixa indiferentes. é inevitável que estes se despren­ dam dele. Uma nação só se pode manter se. senão na medi­ da em que coincidem com nossos negócios profissionais. que se separem uns dos outros e que. se inter­ calar toda uma série de grupos secundários bastante pró­ ximos dos indivíduos para atraí-los fortemente em sua es­ fera de ação e arrastá-los. O espírito provin­ ciano desapareceu irremediavelmente. além disso. não é possível que essa organização inter­ na desapareça sem que nada a substitua. quão importante é. na mes­ ma medida. constitui uma verdadeira monstruosidade socio­ lógica. onde ele é o único meio em que os homens podem formar-se na prá­ tica da vida comum. as­ sim. Nossa atividade se estende muito além desses grupos de­ masiado estreitos para ela e. Ora. Produz-se. que um Estado hipertrofiado se esforça por encer­ rar e reter. mantém com eles relações demasia­ do externas e demasiado intermitentes para que lhe seja possível penetrar fundo nas consciências individuais e socializá-las interiormente. o patriotismo de paróquia tornou-se um arcaísmo que não se pode restau­ rar à vontade. como que um declínio espontâneo da velha estrutu­ ra social. por conseguinte. eles . Concebemos. a sociedade se desagregue. o Estado está demasiado dis­ tante dos indivíduos. Porque a atividade coletiva é sempre demasiado complexa para poder ser expressa unicamente pelo ór­ gão do Estado. na torrente geral da vida social.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XXXVII peitam em nós sentimentos profundos. É por isso que. Acabamos de mostrar como os grupos profissio­ nais estão aptos a cumprir esse papel e que. Uma sociedade composta de uma poeira infinita de indivíduos desorgani­ zados. entre o Estado e os particulares. sobretudo na ordem econômica. assim. por outro lado. inclusive. tu­ do os destina a tanto. Os negócios municipais ou departamentais já não nos sensibilizam e nos apaixonam.

que a corporação seja uma espécie de panacéia capaz de servir a tudo. um mal local. A ausên­ cia de qualquer instituição corporativa cria. dado que as profissões dessa sorte absorvem. Talvez estejamos em melhores condições de explicar agora as conclusões a que chegamos no fim de nosso li­ vro sobre O s u i c í d i o Já apresentávamos aí uma forte organização corporativa como um meio para remediar o mal-estar cuja existência é atestada pela multiplicação dos suicídios. A crise que sofremos não decorre de uma só e única causa. Semelhante vício de constituição não é. na realidade. Não viram nela mais que uma associação utilitá­ ria. Isso não quer dizer. limitado a uma região da sociedade. por conseguinte.XXXVIII DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL saírem desse estado de inconsistência e de desorganiza­ ção em que permanecem há um século. É a saúde geral do corpo social que está envolvida. quanto à posição que lhe cabe no conjunto de nossa vida coletiva e quanto à grave anomalia que resulta de seu desapareci­ mento. Certos críticos acharam que o remédio não era proporcio­ nal à extensão do mal. pois. cujo efeito seria apenas o de melhor arranjar os inte­ resses econômicos. evidentemente. porém. a maior parte das forças coletivas37. hoje. Para que ela cesse. quando. é uma doença totius substantiae que afeta to­ do o organismo e. não basta que uma regulamentação qual­ . somada de resto a muitos outros sintomas. um vazio cuja im­ portância é difícil exagerar. na orga­ nização de um povo como o nosso. a ação que tiver por objeto pôr-lhe fim não pode deixar de produzir as mais extensas conseqüências. ela deveria ser o elemento essencial de nossa estrutura social. Mas é que eles se enganaram quanto à verdadeira natureza da corporação. É todo um sistema de órgãos necessários ao funcionamento normal da vida comum que nos faz falta.

é preciso. de fato. e ela não se regulamentará por encanto. Até agora. Será necessário que. mas de que a atividade de que essas coisas são a ocasião ou o instrumento não é regulada. em cada profissão. pois. seu dever para com os demais e para com a comunidade. De fato. a jus­ ta remuneração dos diferentes funcionários. Com efeito. pois ele não decorre do fato de que as coisas estejam aqui e não ali. portanto. um corpo de re­ gras se constitua. nestas mãos em vez de em outras. Os problemas em meio aos quais nos debatemos nem por isso estariam resolvidos. isto é. se a reforma cor­ porativa não dispensa as demais. como dire­ mos adiante. ela é a condição primá­ ria da sua eficácia. Há mais: surgiriam então novas dificuldades. Ora. nem uma justa repartição das condições sociais39. além dis­ so. fixando a quantidade de trabalho. se as forças necessárias para instituir essa regulamentação não forem previamente suscitadas e organizadas. etc. e isso para cada forma de indústria. imaginemos que seja enfim realizada a condição primordial da justiça ideal. que permaneceriam insolúveis sem uma organização corpora­ tiva. não poderá haver contrato justo”. não menos que atualmente. seja pela instituição da . isto é.PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO XXXIX quer se estabeleça onde é necessária. era a família que. que a riqueza tenha cessado inteiramente de ser hereditária. que seja o que deve ser. quando for útil. será preciso determinar seus direi­ tos e seus deveres. Esta­ remos. em presença de uma tábula rasa. suponha­ mos que os homens entrem na vida num estado de per­ feita igualdade econômica. sempre haverá um aparelho eco­ nômico e agentes diversos que colaborarão para seu fun­ cionamento. O estado de anarquia não desaparecerá porque a riqueza não se transmitirá mais segundo os mesmos princípios de hoje. justa. seja pela insti­ tuição da propriedade coletiva. “enquanto houver ricos e pobres de nasci­ mento. Mas.

De fato. assegurava a continuidade da vida econômica: ou ela possuía e explorava os bens de maneira indivisa. Portanto. decerto não há nenhum que seja mais urgente. ou. para exercer esse ofício. e não havia momento perceptível em que os bens permanecessem vacantes. ele corresponde às duas condições necessárias: está en­ volvido tão intimamente na vida econômica que não po­ de deixar de sentir todas as necessidades desta. sem mãos pa­ ra utilizá-los. é preciso que ele exista e que tenha. No entanto.XL DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL herança. apenas o grupo profissional pode se incumbir das mesmas de maneira proveitosa. adquirido consis­ tência e maturidade bastantes para ficar à altura do novo e complexo papel que lhe caberia. é preciso que outro órgão social a substitua no exercício dessa função necessária. inclusive. era ela que os recebia. ou os possua e os explore. sem sequer serem modificadas pela renovação das gerações. representada pelos parentes mais próximos. no segundo. a algum outro detentor individual que o faça. a partir do momento em que o velho comunismo fa­ miliar foi abalado. Mas se a sociedade doméstica não deve mais representar esse papel. ou os receba a cada falecimento para entregá-los. não havia sequer mutação por falecimento. ao mes­ mo tempo em que tem uma perenidade ao menos igual à da família. Logo. perpétuo como a família. e as relações das coisas com as pessoas continuavam como antes. porque os outros só poderão ser . se for o caso. a mutação se fazia automaticamente. No primeiro caso. se o problema da corporação não é o único que se impõe à atenção pública. quando da morte do pro­ prietário40. Pois há um só meio para impedir que o funcionamento das coisas seja periodicamente suspenso: que um grupo. Mas dissemos e tornaremos a dizer que o Estado é pouco adequado a essas tarefas econômicas. demasiado espe­ ciais para ele.

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abordados quando ele estiver resolvido. Nenhuma modi­ ficação um pouco importante poderá ser introduzida na ordem jurídica, se não começarmos por criar o órgão ne­ cessário à instituição do novo direito. É por isso que che­ ga a ser inútil nos determos para investigar, com demasia­ da precisão, o que deverá ser esse direito; porque, no es­ tado atual de nossos conhecimentos científicos, só pode­ mos antecipá-lo por aproximações grosseiras e sempre duvidosas. Quão mais importante é pôr, desde já, mãos à obra, constituindo as forças morais que serão as únicas a poder determiná-lo, realizando-o!

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Este livro é, antes de mais nada, um esforço para tra­ tar os fatos da vida moral a partir do método das ciências positivas. Mas fez-se dessa palavra um emprego que desnatura seu sentido e que não é o nosso. Os moralistas que deduzem sua doutrina não de um princípio a priori, mas de algumas proposições tomadas de empréstimo a uma ou várias ciências positivas, como a biologia, a psi­ cologia, a sociologia, qualificam sua moral de científica. Não é esse o método que nos propomos seguir. Não queremos tirar a moral da ciência, mas fazer a ciência da moral, o que é muito diferente. Os fatos morais são fenô­ menos como os outros; eles consistem em regras de ação que se reconhecem por certas características distintivas; logo, deve ser possível observá-los, descrevê-los, classifi­ cá-los e procurar as leis que os explicam. E o que fare­ mos para alguns deles. Alguns objetarão com a existência da liberdade. Mas se ela de fato implicasse a negação de qualquer lei determinada, seria um obstáculo insuperá­ vel, não apenas para as ciências psicológicas e sociais,

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mas para todas as ciências, pois, dado que as volições humanas são sempre ligadas a alguns movimentos exte­ riores, ela tornaria o determinismo tão ininteligível fora quanto dentro de nós. No entanto, ninguém contesta a possibilidade das ciências físicas e naturais. Reclamamos o mesmo direito pára nossa ciência1. Assim entendida, essa ciência não está em oposição a nenhuma espécie de filosofia, porque se coloca num terreno totalmente diferente. É possível que a moral te­ nha algum fim transcendental, que a experiência não é capaz de alcançar; cabe ao metafísico ocupar-se deste. Mas o que é certo, antes de mais nada, é que ela se de­ senvolve na história, sob o império de causas históricas, e tem uma função em nossa vida temporal. Se ela é esta ou aquela num momento dado, é porque as condições em que vivem então os homens não permitem que ela seja outra, e a prova disso é que ela muda quando essas condições mudam, e somente nesse caso. Hoje em dia, não é mais possível crer que a evolução moral consista no desenvolvimento de uma mesma idéia que, confusa e indecisa no homem primitivo, vai se tornando pouco a pouco clara e precisa graças ao progresso espontâneo das luzes. Se os antigos romanos não tinham a concep­ ção larga que hoje temos da humanidade, não é por cau­ sa de um erro devido à estreiteza da sua inteligência, mas porque semelhantes idéias eram incompatíveis com a na­ tureza da cidade romana. Nosso cosmopolitismo tam­ pouco podia aparecer nela, do mesmo modo que uma planta não pode germinar num solo incapaz de nutri-la, e, aliás, ele não podia ser para ela mais que um princípio de morte. Inversamente, se depois dessa época ele veio a surgir, não foi em conseqüência de descobertas filosófi­ cas; não é que nossos espíritos se abriram a verdades que os antigos romanos desconheciam, mas sim que se

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produziram na estrutura das sociedades certas mudanças que tomaram necessária essa mudança nos costumes. Por­ tanto, a moral se forma, se transforma e se mantém por uma série de razões de ordem experimental; são apenas essas as razões que a ciência da moral procura determinar. Mas do fato de que nos propomos, antes de mais nada, a estudar a realidade não resulta que renunciemos a melhorá-la: estimaríamos que nossas pesquisas não são dignas de uma hora de trabalho, se elas só deves­ sem ter um interesse especulativo. Se separamos com cuidado os problemas teóricos dos problemas práticos, não é por desprezar estes últimos; ao contrário, é para nos colocarmos em condições de melhor resolvê-los. No entanto," é um hábito o de criticar todos os que em­ preendem o estudo científico da moral por sua impo­ tência em formular um ideal. Diz-se que seu respeito pelo fato não lhes permite superá-lo; que podem muito bem observar o que existe, mas não nos fornecer regras de conduta para o futuro. Esperamos que este livro sir­ va pelo menos para abalar esse preconceito, porque ver-se-á nele que a ciência pode nos ajudar a determi­ nar o ideal para o qual tendemos confusamente. Mas só nos elevaremos a esse ideal depois de ter observado o real, do qual o extrairemos - e acaso é possível proce­ der de outro modo? Mesmo os idelistas mais intemperantes não podem seguir outro método, pois o ideal não repousa em nada, se não se prender, por suas raízes, à realidade. Toda a diferença está em que eles a estudam de uma maneira muito sumária, contentam-se inclusive com transformar um movimento de sua sensibilidade, uma aspiração um tanto viva de seu coração, que, no entanto, n a d a m ais é qu e um fato , numa espécie de im­ perativo, diante do qual inclinam sua razão e nos pe­ dem que inclinemos a nossa.

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Objeta-se que o método de observação carece de re­ gras para julgar os fatos recolhidos. Mas essa regra decor­ re dos próprios fatos, como teremos a oportunidade de provar. Em primeiro lugar, há um estado de saúde moral que só a ciência pode determinar com competência e, co­ mo ele não é integralmente realizado em parte alguma, tentar nos aproximarmos dele já é um ideal. Além disso, as condições desse estado mudam porque as sociedades se transformam e os problemas práticos mais graves que temos de resolver consistem precisamente em determinálo de novo em função das mudanças que se realizaram no meio. Ora, a ciência, ao nos proporcionar a lei das va­ riações pelas quais ele já passou, permite-nos antecipar as que estão se produzindo e que a nova ordem de coisas reclama. Se sabemos em que sentido evolui o direito de propriedade à medida que as sociedades se tornam mais volumosas e mais densas, e se algum novo crescimento de volume e dè densidade torna necessárias novas modi­ ficações, poderemos prevê-las e, prevendo-as, querê-las de antemão. Enfim, comparando o tipo normal com ele mesmo - operação estritamente científica - , poderemos achar que já não é totalmente harmonioso, que contém contradições, isto é, imperfeições, e procurar eliminá-las ou corrigi-las. Eis um novo objetivo que a ciência oferece à vontade. Mas, afirma-se, a ciência prevê, não comanda. É verdade; ela apenas nos diz o que é necessário à vida. Mas como não ver que, supondo-se qu e um hom em quei­ ra viver, uma operação simplíssima transforme imediata­ mente as leis que ela estabelece em regras imperativas de conduta? Sem dúvida, ela se transforma, então, em arte; mas a passagem de uma a outra se dá sem solução de continuidade. Resta saber se devemos querer viver. Mes­ mo acerca desta questão derradeira, a ciência, cremos, não fica muda2.

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Mas se a ciência da moral não faz de nós espectado­ res indiferentes ou resignados da realidade, ela nos ensi­ na, ao mesmo tempo, a tratá-la com a mais extrema pru­ dência, ela nos comunica um espírito sabiamente conser­ vador. Pôde-se, e com razão, criticar certas teorias que se dizem científicas por serem subversivas e revolucionárias; mas isso é porque elas são científicas apenas de nome. De fato, elas constroem, mas não observam. Elas vêem na moral não um conjunto de fatos consumados que cumpre estudar, mas uma espécie de legislação sempre revogável, que cada pensador institui de novo. Então, a moral realmente praticada pelos homens é considerada apenas uma coleção de hábitos, de preconceitos, que não têm valor se não forem conformes à doutrina; e co­ mo essa doutrina é derivada de um princípio que não é induzido da observação dos fatos morais, mas tomada de ciências estranhas, é inevitável que ela contradiga em mais de um ponto a ordem moral existente. No entanto, estamos menos que ninguém expostos a esse perigo, pois a moral é, para nós, um sistema de fatos realizados, ligado ao sistema total do mundo. Ora, um fato não se modifica num passe de mágica, mesmo quando é desejá­ vel. Aliás, como ele é solidário de outros fatos, não pode ser modificado sem que estes sejam atingidos, e muitas vezes é difícil calcular de antemão o resultado final dessa série de repercussões; por isso, o espírito mais audacioso se toma reservado ante a perspectiva de semelhantes ris­ cos. Enfim e sobretudo, todo fato de ordem vital - como são os fatos morais - em geral não pode durar, se não servir para alguma coisa, se não corresponder a alguma necessidade; logo, enquanto a prova contrária não é da­ da, ele merece nosso respeito. Sem dúvida, acontece que ele não é tudo o que deve ser e que, por conseguinte, convém intervir, como nós mesmos acabamos de estabe­

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lecer. Mas a intervenção é limitada, então: ela não tem por objeto forjar inteiramente uma moral ao lado ou aci­ ma da que reina, e sim corrigir esta última ou melhorá-la parcialmente. Desaperece, assim, a antítese que se tentou com fre­ qüência estabelecer entre a ciência e a moral, argumento temível em que os místicos de todos os tempos quiseram fazer soçobrar a razão humana. Para regular nossas rela­ ções com os homens, não é necessário recorrer a outros meios além dos que nos servem para regular nossas rela­ ções com as coisas; a reflexão, metodicamente emprega­ da, basta num caso e noutro. O que reconcilia a ciência com a moral é a ciência da moral; pois, ao mesmo tempo que nos ensina a respeitar a realidade moral, ela nos for­ nece os meios de melhorá-la. Acreditamos portanto que a leitura desta obra possa e deva ser abordada sem desconfiança e idéias preconce­ bidas. Todavia, o leitor deve esperar encontrar nela pro­ posições que irão contra certas opiniões aceitas. Como sentimos a necessidade de compreender ou de pensar compreender os motivos de nossa conduta, a reflexão aplicou-se à moral muito antes que esta se tornasse obje­ to de ciência. Uma certa maneira de nos representar e de nos explicar os principais fatos da vida moral tornou-senos, assim, habitual, apesar de nada ter de científica; pois ela se formou ao acaso e sem método, resulta de exames sumários, superficiais, feitos de passagem, por assim di­ zer. Se não nos libertarmos desses juízos prontos, é evi­ dente que não poderíamos entrar nas considerações que se vão seguir: a ciência, neste como em outros pontos, supõe uma inteira liberdade de espírito. É necessário des­ fazer-se dessas maneiras de ver e de julgar, que um lon­ go hábito fixou em nós; é necessário submeter-se rigoro­ samente à disciplina da dúvida metódica. Essa dúvida,

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aliás, não é perigosa, pois não tem por objeto a realidade moral, que não está em questão, mas sim a explicação que uma reflexão incompetente e mal-informada propor­ ciona desta. Devemos encarregar-nos de não admitir nenhuma explicação que não se baseie em provas autênticas. Jul­ garemos os procedimentos que empregamos para dar a nossas demonstrações o máximo rigor possível. Para sub­ meter à ciência uma ordem de fatos, não basta observálos com cuidado, descrevê-los, classificá-los; mas, o que é muito mais difícil, é preciso, além disso, segundo o mote de Descartes, encontrar o m eio p elo qu al são cientí­ ficos, isto é, descobrir neles algum elemento objetivo que comporte uma determinação exata e, se possível, a medi­ da. Nós nos esforçamos por satisfazer a essa condição de toda ciência. Ver-se-á, notadamente, como estudamos a solidariedade social através do sistema das regras jurídi­ cas; como, na busca das causas, afastamos tudo o que se presta em demasia aos juízos pessoais e às apreciações subjetivas, a fim de alcançar certos fatos de estrutura so­ cial profundos o bastante para serem objetos de entendi­ mento e, por conseguinte, de ciência. Ao mesmo tempo, tornamos uma lei renunciar ao método seguido com de­ masiada freqüência pelos sociólogos, que, para provar sua tese, contentam-se com citar sem ordem e ao acaso uma quantidade mais ou menos considerável de fatos fa­ voráveis, sem se preocupar com os fatos contrários: preocupamo-nos em instituir verdadeiras experiências, isto é, comparações metódicas. Contudo, quaisquer que sejam as precauções que tomemos, é certo que tais ensaios ain­ da só podem ser muito imperfeitos, mas, por mais defei­ tuosos que sejam, achamos necessário empreendê-los. De fato, há um só meio de fazer ciência: é ousá-la, mas com método. Sem dúvida, é impossível empreendê-la se

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faltar a matéria-prima. Mas, por outro lado, acalenta-se uma vã esperança quando se acredita que a melhor ma­ neira de preparar seu advento é acumular primeiro, com paciência, todos os materiais que ela utilizará, porque só podemos saber quais são aqueles de que ela necessita se ela já tiver alguma noção de si mesma e de suas necessi­ dades, logo, se ela existir. Quanto à questão que originou este trabalho, é a das relações entre a personalidade individual e a solidarieda­ de social. Como é que, ao mesmo passo que se torna mais autônomo, o indivíduo depende mais intimamente da sociedade? Como pode ser, ao mesmo tempo, mais pessoal e mais solidário? Pois é inconteste que esses dois movimentos, por mais contraditórios que pareçam, seguem-se paralelamente. É este o problema que nos colo­ camos. Pareceu-nos que o que resolvia essa aparente an­ tinomia é uma transformação da solidariedade social, de­ vida ao desenvolvimento cada vez mais considerável da divisão do trabalho. Eis como fomos levados a fazer des­ ta última o objeto de nosso estudo3-

Hoje. Sem dúvida. o criador dessa palavra. esse fenômeno generalizou-se a tal ponto que salta aos olhos de todos. mas foi Adam Smith o primeiro a tentar teorizá-la. elas suportavam quase sem saber. dos grandes agrupamentos de forças e capitais e. que. Adam Smith e Stuart Mill ainda . as ocupações são separadas e especializadas a d infinitum. da extrema divisão do trabalho. Foi ele. desde a Anti­ guidade. como cada manufatura é. Não há mais ilusão quanto às tendências de nossa indústria moderna. até então. ela mesma. vários pensadores perceberam sua importância1. Não só no interior das fábri­ cas. aliás. uma especia­ lidade que supõe outras. ela vai cada vez mais no sentido dos mecanismos poderosos. foi só no fim do século passado que as sociedades come­ çaram a tomar consciência dessa lei.INTRODUÇÃO O PROBLEMA Conquanto a divisão do trabalho não date de ontem. por conseguinte. que a ciência social em­ prestou mais tarde à biologia.

Os matemáticos e os natu­ ralistas eram. os ho­ mens que se destacaram nas ciências tomaram-se mais especiais. de Candolle observou que. e. por exemplo. Embora em semelhante matéria seja necessário evitar a generalização excessiva. administrativas. Mas a divisão do trabalho não é específica do mun­ do econômico: podemos observar sua influência crescen­ te nas regiões mais diferentes da sociedade. En­ fim. Estamos longe do tempo em que a filosofia era a ciência única.2 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL esperavam que pelo menos a agricultura seria exceção à regra e viam nela o último asilo da pequena propriedade. a infinita diversidade das em­ presas industriais. astrônomo e físico. ou então em­ pregar apenas termos gerais como filósofo ou naturalista. enquanto essa evolução se consuma com uma espontaneidade irrefletida. eruditos ou poetas. seu espírito. por vezes. longe de condená-la e combatê-la. ela fragmentou-se numa multidão de disciplinas especiais. Nela vêem a lei superior das sociedades humanas e a condição do progresso. ou matemático. seu método. contestar hoje em dia que os principais ramos da indústria agrícola são cada vez mais arrastados pelo movimento geral2. o próprio comércio esforça-se por seguir e refletir. proclamam sua necessidade. O mesmo ocorre com as funções artísticas e científicas. “A cada meio século. com todas as suas nuances. porém. judiciárias especializam-se cada vez mais. As funções políticas. parece difícil. astrônomo e físico. os economistas que escrutam suas causas e apreciam seus resultados. cada uma das quais tem seu objeto. na época de Leibniz e Newton. E isso ainda não teria bastado. Mesmo no .”3 Devendo relevar a natureza dos estudos a que os cientistas mais ilustres se dedicaram nos últimos dois sé­ culos. ele precisaria ter escrito “quase duas ou três de­ signações para cada cientista.

toma-se cada vez mais suficiente por si mesma. que a lei da divisão do trabalho se aplica tanto aos organismos como às sociedades. a fun­ ção científica que. ao mesmo tempo. Sabe-se. na divisão do trabalho. desde os trabalhos de Wolff. ao que parece. magistrado. Não é mais apenas uma instituição social que tem sua fonte na inteligência e na vontade dos homens. pôde-se inclusive dizer que um organismo ocupa uma posição tanto mais elevada na escala animal quanto mais as suas funções forem especializadas.INTRODUÇÃO 3 fim do século XVIII. Essa descoberta teve por efeito. se dissociarão definitivamente. militar. cujas condições. com efeito. a profissão de cientista e a de professor. Milne-Edwards. que foram os primeiros a mencioná-lo. não haviam podido suspeitar. Ao mesmo tempo. De Candolle prevê até que. As recentes especulações da filosofia biológica aca­ baram de nos mostrar. ainda hoje tão intimamente ligadas. ou. No século XIX. Haller e Charles Bonnet tinham de notável em várias categorias das ciências e das letras. estender imensamente o campo de ação da divisão do trabalho e recuar suas origens até um passado infinitamente remoto. um fato de uma tal generalidade que os economistas. pois ela se torna quase contemporânea do advento da vida no mundo. ou mesmo a um problema único. pa­ dre. von Baer. essa dificuldade não mais existe. num dia pró­ ximo. quase sempre era acumulada com alguma outra mais lucrativa. como a de médico. como sequer abarca o conjun­ to de uma ciência inteira. é raríssima”4. precisam ser buscadas nas propriedades essenciais da . mas um fenôme­ no de biologia geral. outrora. O círculo de suas pesquisas se restringe a uma ordem determinada de problemas. Não apenas o cientista já não cultiva simultanea­ mente ciências diferentes. pelo menos. designações múltiplas teriam sido necessárias para indicar com exatidão o que homens co­ mo Wolff.

produzirse sem afetar profundamente nossa constituição moral. mas de maneira confusa e sem conseguir resolver nada. Esse problema foi colocado com freqüência pela consciência moral das nações. coloca-se uma questão premente: dessas duas direções. sem que nenhuma delas consiga ad­ quirir sobre a outra uma preponderância totalmente inconteste. um todo auto-suficiente. todo o mundo sente bem que ela é e se torna cada vez mais uma das bases fundamentais da ordem social. porque. a impô-la como um dever. Sem dúvida. também é uma re­ gra moral de conduta humana? E. ao contrário. punidos com uma pena precisa. fixada pela lei. parecem ceder a uma corrente que nasceu bem antes de­ las e que arrasta no mesmo sentido todo o mundo vivo. ou. pois o desenvolvimento do homem se fará em dois senti­ dos de todo diferentes. a divisão do trabalho. por quais motivos e em que medida? Não é necessário de­ monstrar a gravidade desse problema prático. não ser mais que a parte de um todo. qualquer que seja nosso juízo sobre a divisão do traba­ lho. Mas. qual deve­ mos desejar? Será nosso dever procurar tornar-nos um ser acabado e completo. o órgão de um organismo? Numa palavra. conformando-se a essa lei. Semelhante fato não pode. se tem esse caráter. A divisão do trabalho social passa a aparecer apenas como uma forma particular desse pro­ cesso geral. evidentemente. Duas tendências contrárias estão em confronto.4 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL matéria organizada. parece que a opinião se inclina cada vez mais no sentido de tornar a divisão do trabalho uma regra imperativa de conduta. é verdade. Passou o tempo em que o homem perfeito parecia-nos . mas são criticados. então. e as sociedades. conforme nos entreguemos a esse movimento ou resistamos a ele. Os que a ela se furtam não são. ao mesmo tempo que lei da natureza.

Queremos que a ativi­ dade. A medida de nossa perfei­ ção não se encontra mais em nossa complacência para conosco mesmos. Sentimonos distantes desses homens cuja única preocupação é organizar e agilizar todas as suas faculdades. de uno. é tomar-se capaz de cumprir sua função. recusamse a escolher um papel especial e a ele se ater. prestando-se igualmente a todos os usos. só nos causa o efeito de uma disciplina frouxa e relaxada5. não ser completo. diz Secrétant.”6 Por isso. capaz de provar tudo e tudo compreender. traça seu caminho. mas na soma dos serviços prestados e em nossa capacidade de prestar­ mos outros mais.INTRODUÇÃO 5 ser aquele que. Desconfiamos desses talentos demasiado móveis que. “Aperfeiçoar-se”. vai se diversificando ca­ da vez mais. tinha meios de reunir e condensar nele o que havia de mais requintado na civilização. se concentre e ganhe em intensidade o que perde em ex­ tensão. senão um diletante. o ideal moral. a perfeição no ho­ mem competente que procura. Hoje. mas sem fa­ zer nenhum uso definido e sem sacrificar nenhuma. de simples e de impessoal que era. sabendo interessar-se por tudo sem se dedicar exclusivamente a nada. essa cultura geral. que tem uma tarefa delimitada e que a ela se dedica. Parece-nos que esse estado de distanciamento e de indeterminação tem algo de anti-social. co­ mo se cada um deles devesse ser auto-suficiente e formar um mundo independente. Já não achamos que o dever exclusivo do .. “é aprender seu papel. em vez de se dispersar numa ampla superfície. precisamos de faculdades mais vigoro­ sas e de energias mais produtivas. para nós. e recusamos ao diletantismo todo e qualquer valor moral.. vemos. O homem de bem de outrora já não é. mas produzir. tão gabada outrora. nos aplausos da multidão ou no sorri­ so aprovador de um diletantismo precioso. que faz seu serviço. Para lutar contra a natureza. antes.

achava o segundo muito mais privilegiado do que o primeiro. Ao lado das máximas que exaltam o trabalho intensivo. em relação a esses fatos. não menos difundidas. não o faz sem uma espécie de inquietação e de hesitação. como se devessem levar todas a mesma vida. Ao mesmo tempo que manda os homens se especializarem.6 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL homem seja realizar em si as qualidades do homem em geral. tendo em vista as diferentes funções que serão chamadas a preencher. por ofício. o artesão retrocede. exerce as faculdades mais sutis de seu espírito. Diz Jean-Baptiste Say: “É um triste testemunho que alguém se presta o de nunca ter feito mais que a décima oitava parte de uma agulha. julgamos necessário não submeter todas as nossas crianças a uma cultura uniforme. Tocqueville não é menos severo: “À medida que o princípio da divisão do trabalho recebe uma aplicação mais completa. é o caráter cada vez mais espe­ cial que a educação adquire. Um fato entre outros torna sensível esse estado da opinião. mas cremos que. podemos citar outros que os contradizem. Lemontey8.”7 Desde o princípio do século. a máxima .”9 De maneira geral. Se a opinião pública sanciona a re­ gra da divisão do trabalho. Numa palavra. comparando a existência do operário moderno à vida livre e larga do selvagem. mas formá-las de maneira diferente. a arte pro­ gride. mas tam­ bém o homem que. nada obstante. há outras. por um de seus aspectos. Cada vez mais. que assinalam seus perigos. sempre parece te­ mer que se especializem demais. ele é obrigado a ter as de sua função. Mas. o imperativo ca­ tegórico da consciência moral está tomando a seguinte forma: Coloca-te em condições d e cum prir proveitosam en­ te u m a fu n ç ã o determ inada. e não imaginem que é unicamente o operário que toda a sua vida maneja uma lima e um martelo que degenera assim da dignidade da sua natureza.

elementos aptos a perturbar a consciência moral das na­ ções. um resumo das características essenciais que as re­ gras morais apresentam de fato em determinada socieda­ de ou em determinado tipo social. porque nos informam sobre as tendências morais que es­ tão se manifestando no momento considerado. confrontar com ela a máxima contestada. Sabe­ mos hoje o que valem essas generalizações sumárias10. Colocadas desde o início do estudo. em parte. não de uma visão científi­ ca. pois. nas aspirações pessoais sentidas por um pensador. mas exprimem apenas a maneira como o moralista representa a moral. elas não deixam de ser instrutivas. Não nos oferecem. Porque é preciso. começam por colocar uma fórmula geral da moralidade. um mesmo ideal e que está longe de ter per­ dido toda a sua autoridade. a fim de. esse conflito nada tem que deva surpreender. Mas têm apenas o interesse de um fato. Sem dúvida. como a do corpo e do espírito. não recorremos ao método ordinário dos moralistas. Nada autoriza a ver. em seguida. Não é me­ nos verdade que existe. Para pôr fim a essa indecisão. que.INTRODUÇÃO 1 que nos manda especializar-nos é. corresponde a neces­ sidades diferentes e mesmo contraditórias. como que negada pela máxima contrária. num antagonismo tão acentuado. que nos manda reali­ zar. elas não têm por objeto explicálos. Sem dú­ vida. em princípio. de elementos antagônicos que se limitam e se ponderam mutuamente. Elas traduzem . em toda parte. além de tudo. todos. A vida mo­ ral. que ela possa ex­ plicar-se de onde pode provir semelhante contradição. a esse título. é natural que ela seja feita. uma expressão adequada da realidade moral. mas enunciar o princípio abstrato de uma legislação ideal a ser instituída integralmente. logo. antes de qualquer observação dos fatos. quando querem determinar o valor moral de um preceito. por mais reais que possam ser.

formar a seu respeito a noção mais adequada possível. em geral. por uma ilusão que lhe é costumeira. as causas e as condi­ ções de que depende. Devemos afastar essas deduções que. sem querermos tomar o lugar da consciência moral das sociedades.procuraremos. Quantas vezes acon­ tece inclusive serem de natureza mórbida! Portanto. em seguida. estaríamos em condições de compará-la com os outros fenômenos morais e de ver que rela­ ções ela mantém com eles. Se descobrirmos que ela de­ sempenha um papel similar a alguma outra prática. isso acontece por causa de desvios anormais. E. . saber qual a função da di­ visão do trabalho. em certos casos nos quais não representa esse papel. poderemos lhe trazer um pouco de luz e diminuir suas perplexidades. investigar a que ela serve e de que depende . isto é. Feito isso. não se poderia referir-se a elas como critérios objetivos que permitam apreciar a moralidade das práticas. corres­ pondem a algum desideratum particular e determinado. a posteriori. assim. sem pretendermos legislar em seu lugar. . a que necessidade social ela corresponde. A única maneira de chegar a apreciar de maneira objetiva a divisão do trabalho é estudá-la pri­ meiro em si mesma. erige em finalidade última ou única. de uma maneira totalmente especu­ lativa. poderemos então concluir que ela deve ser classificada entre estas últimas. cujo caráter moral e normal é indiscutido.determinaremos. sentimentos preconcebidos e impressões pessoais. Nosso trabalho se dividirá. que a consciência. primeiro. em três partes prin­ cipais: . que se. não são empregadas senão para fazer figura de argumen­ to e justificar. pois.nu­ ma palavra. que as causas que a de­ terminam também são condições determinantes de outras regras morais.8 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL necessidades que nunca são mais que parciais.

a teoria não foi de­ senvolvida de maneira sistemática e aprofundada. a teoria da divisão do trabalho só fez poucos pro­ gressos. Aliás. não basta desenvolver o conteúdo da idéia que dela temos. desde Adam Smith. a fim de evitar que sejam confundidas com as outras. “agarraram-se obstinadamente a seus exemplos e a suas análises. é muito menos porque não se está de acordo sobre a fórmula geral da moralidade do que por ter desprezado em demasia as questões de fato que va­ mos abordar. o patológico nos ajudará a compreender melhor o fisiológico. o interesse de que. Este estudo oferecerá. Sempre se raciocinou como se estas fossem evidentes. as con­ siderações tecnológicas ou as observações de uma verda­ de banal por alguns economistas também não puderam beneficiar particularm ente o desenvolvim ento dessas idéias. e veremos que o resultado dessas observações muitas vezes difere daquele que o sentido íntimo nos sugere12. observar. se se discutiu tanto sobre o valor moral da di­ visão do trabalho. além disso. aqui como em biologia. “Seus continuadores”. por isso. Esse método não comporta conclusões científicas.” Para saber o que é objetivamente a divisão do trabalho. uma vez que ela não teria sido objeto de acusações tão graves se realmente não se desviasse com maior ou menor freqüência do estado normal. para conhecer a natureza. as causas da divisão do trabalho. . procurare­ mos classificar as principais formas anormais que ela apresenta. diz Schmoller11. como se. até o dia em que os so­ cialistas ampliaram o campo de suas observações e opu­ seram a divisão do trabalho nas fábricas atuais à das ofi­ cinas do século XVIII. o papel. bastasse analisar a no­ ção que cada um de nós tem dela. mas é preciso tratá-la como um fato objetivo. comparar. Mesmo assim.INTRODUÇÃO 9 enfim. com notá­ vel pobreza de idéias.

LIVRO I A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO .

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Se escolhemos esse termo. procurar a que necessidade ela corresponde. fazendo-se abstração das suas conseqüências. portanto.. mas também se diz que a digestão tem por função presidir à incorporação no organismo das substâncias líquidas ou sólidas destinadas a reparar suas perdas. É nessa segunda acepção que entendemos a palavra. Não podemos empregar o de . que a respiração tem por função introduzir nos tecidos do animal os gases necessários à manutenção da vida. Perguntar-se qual é a função da divisão do trabalho é. ora exprime a relação de correspondência que existe entre es­ ses movimentos e algumas necessidades do organismo. de respiração. Assim. Ora designa um sistema de movimentos vitais. etc. quando tivermos resolvido essa questão. etc. é porque qualquer outro seria inexato ou equívoco.CAPÍTULO I MÉTODO PARA DETERMINAR ESSA FUNÇÃO A palavra função é empregada de duas maneiras bas­ tante diferentes. poderemos ver se essa necessidade é da mesma natureza que aquelas a que correspondem outras regras de conduta cujo caráter moral não é discutido. fala-se da função de digestão.

O termo de resultados ou de efeitos tampouco poderia sa­ tisfazer-nos. Ao contrário. à primeira vista. Acaso seus esfor­ ços não são conhecidos de todos? Por aumentar ao mes­ mo tempo a força produtiva e a habilidade do trabalha­ dor. mas sem nada prejulgar quanto ã questão de saber como essa cor­ respondência se estabeleceu. como se presta de bom grado à civiliza­ ção um valor absoluto. porque não desperta nenhuma idéia de cor­ respondência. Por outro lado. não se teria razão al­ guma para lhe atribuir um caráter moral. é o que não se pode pensar em discutir. parece tão fácil como deter­ minar o papel da divisão do trabalho. Ora. ou. ela é condição necessária do desenvolvimento inte­ lectual e material das sociedades. a palavra papel ou função tem a grande vantagem de implicar essa idéia. sequer se pensa em procurar ou­ tra função para a divisão do trabalho. I Nada. Embora seja corrente hoje em dia responder às diatribes . se ela resulta de uma adap­ tação intencional e preconcebida ou de um ajuste a posteriori.14 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL objetivo ou de objeto e falar do fim da divisão do traba­ lho. pelo menos. nem mesmo se foi sentida ulteriormente. os serviços que ela presta assim são quase completamente estranhos à vida moral. Mas se ela não tivesse nenhum outro e não servisse a outra coisa. porque seria supor que a divisão do trabalho existe tendo em vista os resultados que vamos determinar. é a fonte da civilização. não se foi pressentida de antemão. têm com ela apenas relações muito indiretas e distantes. De fato. o que nos importa é saber se ela existe e em que consiste. Que ela tenha mesmo esse resultado.

A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 15 de Rousseau com ditirambos em sentido inverso. Ora. De fato. que são necessariamente subjeti­ vas. dos crimes de to­ da sorte. se ela tem sobre a vida moral uma influência positi­ va e favorável. o número médio de suicídios. Se. seria um tanto leviano concluir desse fato que a civiliza­ ção é imoral. pois o número desses fenômenos mórbidos parece crescer à medida que as artes. as peque­ nas oficinas pelas manufaturas. seria necessário. Infelizmente. O artesão. mas possuímos uma para a imoralidade coletiva. os navios a vela pelos transatlânticos. Sem dúvida. não se pode referir a análises de conceitos. pode servir para assinalar a altura da imoralida­ de numa sociedade dada. as ciências e a indústria progridem1. à medida que a civili­ zação progride. o pequeno industrial. . atividade que está longe de servir ao progresso da moral. mas nada tem de mo­ ralmente obrigatória. aliás. analisamos esse complexus mal-definido a que chamamos civilização. é evidente que ela não apresenta os sinais exteriores pelos quais se reco­ nhecem os fatos morais. É nos grandes centros industriais que os crimes e os suicídios são mais numerosos. isso sim. falta-nos essa unidade de medida. se fizermos essa experiên­ cia. não es­ tá em absoluto provado que a civilização seja uma coisa moral. mas pelo menos podemos estar certos de que. Para solucionar a questão. em todo caso. Substituímos as diligências pelas ferrovias. descobrimos que os elemen­ tos de que é composto são desprovidos de qualquer ca­ ráter moral. toda essa mostra de ativi­ dade costuma ser vista como útil. conhecer um fato capaz de servir para medir o nível da moralidade média e ob­ servar em seguida como ele varia. ela não será favorável à civilização. Isso é verdade sobretudo no caso da atividade eco­ nômica que sempre acompanha a civilização. esta é bastante fraca.

Assim.16 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL que resistem a essa corrente geral e perseveram obstina­ damente em suas modestas empresas. porque é o domínio da liberdade. ela corresponde a necessidades. De todos os elementos da civilização. a atividade industrial tem sua razão de ser. com isso. a arte não é moral por si mes­ ma. um desenvolvimento intemperante das faculdades estéticas é um grave sintoma do ponto de vista da moralidade. assimilando as verdades científicas que são . coerção. o estri­ tamente necessário. que é absolutamente refratária a tudo o que parece uma obriga­ ção. É um luxo e um adorno que talvez seja bonito ter. enquanto a moral nos obriga a seguir um caminho determinado em direção a um objeti­ vo definido . como nas sociedades. o mesmo vale para a arte. A arte corresponde à necessida­ de que temos de difundir nossa atividade sem objetivo. Ao contrário. em certas condições. o pão cotidiano sem o qual as socie­ dades não podem viver. De fato. mas que não se pode ser obrigado a adquirir: o que é supérfluo não se impõe. nos indi­ víduos. mas essas necessida­ des não são morais. pelo prazer de difundi-la. a moral é o mínimo indispensável. cumprem tão bem com o seu dever quanto o grande manufator que cobre o país de fábricas e reúne sob suas ordens todo um exérci­ to de operários. conquanto possa estar animada por idéias morais ou ver-se envolvida na evolução dos fenômenos morais propriamente ditos. Com maior razão.e quem diz obrigação diz. apresenta um caráter moral. Sem dúvida. A consciência moral das nações não se engana quanto a esse ponto: ela prefere um pouco de justiça a todos os aperfeiçoamentos industriais do mun­ do. as sociedades tendem cada vez mais a considerar um dever para o indivíduo desenvolver sua inteligência. a ciência é o único que. Talvez até a observação estabaleceria que.

é obri­ gado a não ser ignorante. mais é refratária à mudança. Eis por que é necessário que a inteligência guiada pela ciência adquira uma importância maior no curso da vida coletiva. desde já. é no máximo sua parte comum e mais geral. por conseguinte. não é apenas sancionada pela opinião pública. A ciência propriamente dita supera infinitamente esse nível vulgar. Ela não compreen­ de apenas o que é vergonhoso ignorar. Há. inclusive. cada vez mais móveis. Essa obrigação é. mas todo o mundo. em certas sociedades.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 17 estabelecidas. para que as sociedades possam viver nas con­ dições de existência que hoje lhes são dadas. Ela não supõe apenas. Ora. certo número de conheci­ mentos que todos devemos possuir. Ninguém é obrigado a se lançar no grande turbilhão industrial. agora. porque não vê depressa o bastante que é ne­ cessário mudar. tanto individual como social. De fato. sentida com tamanha força que. como os meios em que elas vivem se tornam cada vez mais complexos e. mas pela lei. uma consciência esclarecida sabe preparar de antemão a maneira de se adaptar a essa mudança. Não é a ciência. Por outro lado. Aliás. quanto mais obscura uma consciência. mas tudo o que é possível saber. Mas a ciência que todo o mundo é assim chamado a possuir não merece ser designada por esse nome. é necessá­ rio que o campo da consciência. ninguém é obrigado a ser artista. que só são exigidos de todos por estarem ao alcance de todos. De fato. É que a ciência nada mais é que a consciência levada a seu mais alto ponto de cla­ reza. ela se reduz a um pequeno número de conheci­ mentos indispensáveis. não é impossível entrever de onde vem esse privilégio especial da ciência. para durar é preciso que elas mudem com freqüência. se estenda e se esclareça. nem em que sentido é preciso mudar. nos que a culti­ vam. essas faculdades médias que todos os homens pos­ . ao contrário.

Portanto. se ela não serve para outra coisa. mas disposições especiais. Não se é mais obrigado a ser um sábio do que um artista. é uma coisa útil e bela. fora da moral2. supondo-se que exista uma zona neutra em moral. Por conseguinte. Portanto. É um campo de ação aberto à iniciativa de todos. pois. tudo o que é objeto de aspirações um tanto elevadas. Por conseguinte. E vantajoso estar munido dela. ela participaria da mesma neutralida­ de moral. se não é moral. Costumase qualificar de moral tudo o que tem alguma nobreza e algum preço. mas não vai além disso. é impossível que a di­ visão do trabalho dela faça parte3.18 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL suem. mas em que ninguém é obrigado a entrar. co­ mo a arte e a indústria. Foi por não se ter geralmente atribuído à divisão do trabalho outra função que as teorias propostas para ela são a tal ponto inconsistentes. Se tantas controvérsias se produziram acerca do ca­ ráter moral da civilização é porque. cai-se em insolúveis antinomias. mas não é necessária a ponto de a sociedade reclamá-la imperativamente. ele compreende todas as regras de ação que se impõem im­ perativamente à conduta e a que está vinculada uma san­ ção. A ciência está. nada há de imoral em não adquiri-la. é uma decadência moral. não sendo acessível senão a uma elite. Mas o do­ mínio do ético está longe de ser tão indeterminado. porque as vantagens econômicas que ela apresenta são . se a divi­ são do trabalho não tivesse outro papel além de tornar a civilização possível. ela é moralmente indiferente. é ruim. já que na­ da há na civilização que apresente esse critério de mora­ lidade. De fato. Se ela não é boa. não é obrigatória. com demasiada fre­ qüência. os moralistas não têm critério objetivo para dis­ tinguir os fatos morais dos fatos que não o são. e é graças a essa excessiva abrangência da pa­ lavra que se fez a civilização entrar na moral.

de pensar os ferimentos que faz.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 19 compensadas por inconvenientes morais. . que. tais necessidades são. Veremos. Se a divisão do trabalho não cumpre outro papel. de fato. por si. ela não só não tem caráter moral. não se poderia dizer qual das duas leva a melhor sobre a outra. nem. o que lhe dá seu preço é o fato de corresponder a certas necessidades. por conse­ guinte. Invocar-se-á o primado da mo­ ral para condenar radicalmente a divisão do trabalho. a divisão do trabalho não teria outra função além da de atenuar os efeitos que ela mesma pro­ duz. tomar um partido. e como é im­ possível subtrair uma da outra essas duas quantidades heterogêneas e incomparáveis. Ora. tudo nos convida a procurar outra função pa­ ra a divisão do trabalho. como não se percebe que razão possa ter. Portanto. mas não haveria moti­ vo algum para querê-la. como acréscimo de reparações. esses bens da civi­ lização que. que o homem é obrigado a pro­ curar. poderia ser necessário suportá-la. Há mais. essa proposição será demonstrada adiante4. Nessas condições. não teriam interesse para ele. pois os serviços que ela prestaria se reduziriam a reparar as perdas que causa. de outro modo. Assim. Alguns fatos da observação cor­ rente vão nos colocar no caminho da solução. conseqüên­ cias da divisão do trabalho. como a evidente necessidade da especializa­ ção toma tal posição impossível de ser sustentada. se não correspondesse a outras necessida­ des além destas. É por esta ser inseparável a um acréscimo de fadiga. elas mesmas. Mas não apenas essa ultima ratio é sempre um golpe de Esta­ do científico. a civilização não tem valor intrínseco e absoluto.

que a discórdia é a lei de todo devir. Heráclito pretende que só se ajusta o que se opõe. Mas. os espíritos amáveis e doces não sentem nenhum gosto pelos temperamentos duros e mal-intencionados. Há outras explicações buscadas acima e tiradas do exame da natureza. precisamente por não se parecerem conosco. Eurípedes diz que a terra res­ secada está enamorada da chuva e que o céu escuro car­ regado de chuva se precipita com amoroso furor sobre a terra. pode ser uma causa de atração mú­ tua. de quem pensa e sente como nós. Os pródigos não buscam a companhia dos avaren­ tos. “Segundo uns. só as diferenças de certo gênero tendem assim . A dessemelhança. dessemelhanças quaisquer não bastam para produzir esse efeito. e ou­ tros ditados semelhantes.”5 O que prova essa oposição das doutrinas é que am­ bas as amizades existem na natureza. nem os caracteres retos e francos a dos hipócritas e sonsos. Logo. Esses fatos são. ela consiste em certa seme­ lhança. ora de outra causa. Todavia. daí o provérbio. como a semelhança. Não temos prazer algum em encon­ trar em outro uma natureza simplesmente diferente da nossa. todos os que se assemelham são oleiros uns para os ou­ tros. que os moralistas sempre hesitaram sobre a verdadeira natureza da amizade e derivaram-na ora de uma. Os gregos já haviam co­ locado a questão. Assim. e os que se parecem se amam. para outros. diz Aristóteles. que a mais bela harmonia nasce das diferenças. aparentemente.20 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL II Todo o mundo sabe que gostamos de quem conos­ co se parece. tão contraditórios. ao contrário. cada qual com o seu igual e o gaio busca o gaio. “A amizade dá lugar a muitas discussões”. É muito freqüente nos sentirmos atraídos por pes­ soas que não se parecem conosco. Mas o fenômeno contrário não é menos freqüentemente encon­ trado.

Como quer que esse re­ sultado seja obtido.”6 Assim. há nesse fato o ponto de partida de uma atração positiva. . o teórico de espírito racio­ nal e sutil tem com freqüência uma simpatia toda especial pelos homens práticos. mas deseja. e vice-versa. me­ nos incompletos. de fato. e os melhores den­ tre nós têm o sentimento de sua insuficiência. Formam-se. Um protege. ou. Nesse caso. “Se uma [das duas pessoas] possui uma coisa que a outra não tem. um que tende a trazer a rivalidade. se completam mutuamente. Por mais ricamente dotados que se­ jamos. então. pequenas associa­ ções de amigos em que cada um tem seu papel confor­ me a seu caráter. “Há um gênero de des­ semelhança que repele. outro que atrai. a considerar a divisão do tra­ balho sob um novo aspecto. essa divisão do trabalho que determina essas relações de amizade. intuições rápidas. o tímido. e sua verdadeira função é criar entre duas ou várias pessoas um sentimento de solidariedade. assim. e ela as marca com seu cunho. é ela que suscita essas sociedades de amigos. o fraco pe­ lo forte. em vez de se opor e se ex­ cluir. sempre nos falta alguma coisa. assim. É por isso que procuramos. pelas pessoas decididas e resolutas. aquele executa. outro a conduzir à amizade”. diz Bain. Somos levados. e é essa partilha de funções. para empregarmos a expressão consagrada. o outro consola.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 21 uma para a outra. em nossos amigos. este aconselha. em que há um verdadeiro intercâmbio de serviços. A história da sociedade conjugal oferece-nos do mesmo fenômeno um exemplo ainda mais notável. os ser­ viços econômicos que ela pode prestar são pouca coisa em comparação com o efeito moral que ela produz. as qualidades que nos faltam. de senso direto. são as que. porque unindo-nos a eles participamos de certa forma da sua natureza e nos sentimos.

em geral. que ela desenvolveu-se exatamente no mesmo sentido e da mesma maneira que a solidariedade conjugal. é a divisão do trabalho sexual a fonte da solidariedade conjugal. pois tomou possível aquele que talvez seja o mais forte de todos os sentimentos desinteressados. são apenas partes diferentes de um mesmo todo concreto que reformam. ou. Não é menos verdade que o que proporciona a essa propensão seu caráter específico e o que produz sua energia particular não é a semelhança. A mulher desses tempos remotos não era em absoluto a frágil criatura que se tomou com o progresso da moralidade. Todavia. e é por isso que os psicólogos notaram apropriadamente que a separação dos sexos fo­ ra um acontecimento capital na evolução dos sentimen­ tos. pode-se ver. como no caso precedente. relativamente. isolados um do outro. mas a desseme­ lhança das naturezas que ela une. a atração sexual nunca se faz sentir se­ não entre indivíduos da mesma espécie. Em outras palavras. unindo-se. Quanto mais remontamos ao passado. A divisão do trabalho sexual é capaz de mais ou de menos: ela pode não ter por objeto senão os órgãos sexuais e algumas características secundárias que deles dependem.o homem e a mulher se procuram com paixão. na história. na infância e até a puberdade. uma certa harmonia de pensamentos e de sen­ timentos. É por diferirem um do outro que. o esqueleto dos . ao contrário.22 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Sem dúvida. muito menor do que hoje7. Ainda agora. e o amor supõe. Ossadas pré-históricas ates­ tam que a diferença entre a força do homem e a da mu­ lher era. estender-se a todas as funções orgânicas e sociais. mais ela se reduz a pouca coisa. Há mais. De fato. não é um contraste puro e simples que faz esses sentimentos recíprocos eclodirem: somente diferenças que se supõem e se com­ pletam podem ter essa virtude. o homem e a mulher. Ora.

do ponto de vista da massa do cérebro e. entre a média dos crânios dos parisienses con­ temporâneos e das parisienses é quase o dobro da obser­ vada entre os crânios masculinos e femininos do Egito antigo. como que uma ima­ gem aproximada do que era originalmente esse tipo úni­ co e comum. Comparando um grande número de crânios. e essa desigual­ dade também vai crescendo com a civilização. em cer­ to número de tribos da América do Sul. por exemplo.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 23 dois sexos não se diferencia de maneira apreciável: seus traços são sobretudo femininos. viajantes nos relatam que. mesmo quando comparamos sujeitos da mes­ ma idade. Se admitirmos que o de­ senvolvimento do indivíduo reproduz resumidamente o da espécie. chegou aos mesmos resultados nesse ponto10. A diferença existente. da inteligência. Com efeito. Bischoff. teremos o direito de conjeturar que a mesma homogeneidade se encontrava no início da evolução hu­ mana e de ver. por con­ seguinte. chegou à seguinte conclusão: “O volume do crânio do homem e da mulher. o homem e a mulher apresentam na estrutura e no aspecto geral uma semelhança que supera o que se vê em outras regiões8. na forma feminina. a mulher tende a se diferenciar cada vez mais do homem. de que a variedade masculina destacou-se pouco a pouco.”9 Um antropólogo alemão. Enfim. ambos os sexos levam . apresenta dife­ renças consideráveis a favor do homem. Lebon pôde estabelecer diretamente e com precisão matemática essa semelhança original dos dois sexos no caso do órgão eminente da vida física e psíqui­ ca: o cérebro. Aliás. escolhidos em raças e sociedades diferentes. Essas semelhanças anatômicas são acompanhadas por semelhanças funcionais. de sorte que. o Dr. mesma estatura e mesmo peso. nessas mesmas sociedades as funções femininas não se distinguem niti­ damente das funções masculinas.

entre esses mesmos povos o casamento está num estado de todo rudimentar. o conjunto dessas regras jurídicas que constituem o casamento apenas simboliza o estado da . Vê-se. numa sociedade dada. conhecemos um tipo de família que é relativamente próximo de nós14 e em que o casa­ mento ainda só se encontra no estado de germe indistin­ to: a família materna. ele se reduz a pouca coisa. elas são tão guerreiras quanto os ho­ mens e lutam ao lado deles13. se não absolutamente demonstrado.24 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL mais ou menos a mesma existência. um grande número de povos selvagens em que a mulher se envolve na vida política. no Daomé. já não parece ter-lhe perten­ cido primitivamente. ou o que assim se chama. a doçura. incitá-los ao combate e até tomar uma parte bastante ativa neles. Foi o que se observou notadamente entre as tribos indígenas da América. Ora. Elas podem cessar assim que as partes quiserem. ou então só se contraem por um tempo limita­ do15. A fidelidade conjugal ainda não é exigida. em que participa de mil maneiras da vida dos homens12. as mu­ lheres acompanharem os homens na guerra. ainda hoje. na maioria das ve­ zes. mas as dos dois esposos são muito frouxas. Em Cuba. a fê­ mea faz-se notar muito mais pelo caráter contrário. portanto. com freqüência. que houve uma época na história da família em que não havia casa­ mento. no Havaí. Em todo caso. que ligam o marido aos pais da mulher. as relações da mãe com os fi­ lhos são muito definidas. na Nova Zelândia. consiste unicamente em obrigações de extensão restrita e. É mesmo bastante ve­ rossímil. as relações sexuais se faziam e se desfaziam à vontade. O casa­ mento. Há. sem que nenhuma obrigação jurídica ligasse os cônjuges. do mesmo modo. Um dos atributos hoje dis­ tintivos da mulher. Já em certas espécies animais. de curta duração. em Samoa. Nela. como os iroqueses e os natchez11. Ora.

ela mesma. dar uma olhada em nossos códigos para vermos que posição im­ portante o casamento ocupa neles. por conseguinte. à medida que avançamos nos tempos modernos. o casamento se reduz. e. regras bastante complexas vêm fixar os direitos respectivos de cada esposo sobre sua própria fortuna e a do cônjuge. Se. muitas vezes indissolúvel até. Faz tem po que a mulher retirou-se da guerra e dos negócios públicos e que sua vida concen­ . aliás. é certo que. a sociedade conjugal carece de coe­ são. Ao contrário. Se esta é muito forte. muito desenvolvida. pois. o trabalho sexual tornou-se cada vez mais dividido. se as relações entre o homem e a mulher são instá­ veis e intermitentes. pelo contrário. torna-se mais tarde recíproco. não é mais um contato ex­ terior. por conseguinte. Limitado a princípio apenas às funções sexuais. a um pequeno número de regras sem rigor e sem precisão. duradoura. ao mesmo tempo. os vínculos que unem os esposos são numerosos e complexos. estendeu-se pouco a pouco a vários outros. Basta. as obriga­ ções que sanciona se multiplicam. Ora.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 25 solidariedade conjugal. A união dos dois es­ posos cessou de ser efêmera. vemos o casamento se desenvolver. A rede de vínculos que ele cria se estende cada vez mais. imposto primeira­ mente apenas à mulher. O estado do casamento nas sociedades em que os dois sexos são pouco diferenciados atesta. O dever de fidelidade se organiza. a regulamentação matrimonial que tem por objeto defini-los é. Quando aparece o dote. passageiro e parcial. que a própria solidariedade conjugal é muito frágil nelas. assim como os efeitos dessa dissolu­ ção. As condições em que pode ser contraído e dissolvido se delimitam com uma precisão crescente. não podem adquirir uma forma bem determinada. mas uma associação íntima. de duas exis­ tências inteiras.

é verdade. Portanto. Não só a estatura. es­ sas diferenças funcionais são tornadas materialmente sen­ síveis pelas diferenças morfológicas que determinaram. o peso. com o progresso da civilização. Segundo esse observador. a mé­ dia dos crânios femininos coloca-os entre os menores crânios observados. enquanto a arte e as letras começam a se tomar coisas femininas. bem abaixo do crânio das chinesas e apenas acima do crânio das mulheres da Nova Caledônia”. a mulher traz sua natureza própria. mas o Dr. mesmo nes­ sa esfera de ação. Mas. Vendo-se. Dir-se-ia que as duas grandes funções da vida psíquica como que se dissociaram. e seu papel permanece muito especial. Além disso. as mulhe­ res se dedicarem à arte e à literatura como os homens. bem diferente do papel do homem. que um dos sexos monopolizou as funções afetivas e o outro as fun­ ções intelectuais. . que. seu papel especializou-se cada vez mais. entre os po­ vos cultos. como vimos. esse hiato pro­ gressivo dever-se-ia. Lebon demonstrou. a mulher leva uma existência totalmente dife­ rente da do homem. em certas classes.26 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL trou-se inteira no interior da família. “Enquanto a média dos crânios parisienses masculi­ nos coloca-os entre os maiores crânios conhecidos. que as ocupações dos dois sexos tendem a se tomar homogêneas. Por sinal. o outro sexo pare­ ce deixá-las de lado para se dedicar especialmente à ciên­ cia. diz ele16. Hoje. o cérebro dos dois sexos se diferencia ca­ da vez mais. Desde então. ao mesmo tempo. as formas gerais são muito dessemelhantes entre o homem e a mulher. poder-se-ia crer. poderia muito bem acontecer que essa apa­ rente volta à homogeneidade primitiva nada mais fosse que o começo de uma nova diferenciação. ao considerável desenvolvimento dos crânios masculinos e a um estacio­ namento ou mesmo uma regressão dos crânios femini­ nos.

Se.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 27 Em todos esses exemplos. não fosse esse vínculo. mas tomar possíveis socie­ dades que. deixando subsistir apenas re­ lações sexuais eminentemente efêmeras. com freqüência. mas que se estende bem além disso. Façam a divisão do trabalho sexual regredir além de certo ponto. Ela supõe que dois seres depen­ . Há indivíduos ligados uns aos outros que. tal como existe hoje entre os povos mais cultos. ele supera infini­ tamente a esfera dos interesses puramente econômicos. pois consiste no estabelecimento de uma ordem social e moral sui generis. A soli­ dariedade conjugal. e de uma solidariedade que não age apenas nos curtos instantes em que os serviços se intercambiam. por exemplo. fez-se as relações sociais a que dá nascimento a divisão do trabalho consistirem apenas na troca. repousar em outras bases. mas tomá-las solidárias. elas devem ser constituídas de outra maneira. apelar para outros sentimentos. seriam independentes. são solidários. em todo caso. Por terem essa origem especial. acaso não faz sentir sua ação em cada momento e em todos os detalhes da vida? Por outro lado. em todos esses casos. não é simplesmente embelezar ou me­ lhorar sociedades existentes. não podem se assemelhar àquelas determinadas pela atração de um semelhante por outro. É possível que a utilida­ de econômica da divisão do trabalho tenha algo a ver com esse resultado. e a socie­ dade conjugal desaparece. foi por se ter desconhecido o que a troca impli­ ca e o que dela resulta. toda uma forma da vida social sequer teria nascido. essas sociedades que a divisão do trabalho cria não podem deixar de trazer a marca desta. não existiriam. em vez de se desenvolverem separadamente. o mais notável efeito da divisão do trabalho não é aumentar o rendimento das funções divididas. mesmo se os se­ xos não fossem em nada separados. sem elas. concertam seus esforços. mas. Seu papel.

ela basta para mostrar que esse mecanismo não é idêntico ao que serve de base aos sentimentos de simpatia. Sem dúvida. pois. porque a presença do objeto que ela exprime. como a distância ou a morte. Por mais curta que seja essa análise. Mas quando a união resulta da semelhança das duas imagens. sofremos com todas as circunstâncias que.28 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL dam mutuamente um do outro. podem ter por efeito impe­ dir seu retomo ou diminuir sua vivacidade. mas sobretu­ do porque é seu complemento natural: ela se toma. por serem ambos incom­ pletos. no todo ou em parte. ela consiste numa aglutinação. nada mais é que a expressão superficial . no caso da divisão do trabalho. A imagem daquele que nos completa se tor­ na. Precisamente por ser constante. . Portanto. sendo indistin­ tas. os sentimentos não poderiam ser os mes­ mos nos dois casos. Portanto. parte integrante e permanente de nossa consciência. nem as relações sociais que deles derivam. em nós mesmos. inseparável da nossa. fazendo-a passar ao estado de percepção atual. de um estado interno e mais profundo. e só são solidárias na medida em que se con­ fundem. es­ tão fora uma da outra e só são ligadas por serem distin­ tas. só pode haver solidariedade en­ tre outrem e nós se a imagem desse outrem se une à nossa. Ao contrário. e apenas traduz exteriormente essa dependência mútua. As duas re­ presentações tomam-se solidárias porque. se confundem e se tornam uma só coisa. esse estado suscita todo um mecanismo de imagens que funciona com uma continuidade que a troca não possui. lhe dá maior relevo. cuja fonte é a se­ melhança. Ao contrário. não apenas porque é freqüentemente associada a ela. É por isso que apreciamos a companhia daquele que ela representa. a tal ponto que não podemos mais dispensá-la e que busca­ mos tudo o que pode aumentar sua energia.

em que teve o desenvolvimento que sabemos.1 7 Se essa hipótese fosse demonstrada. mas também. exatamente determinados. diz ele. se não única. que a divisão do trabalho é a fonte. em vez de limitá-la. que a apliquemos ao con­ junto de todas as nossas diversas operações. ao mesmo tem­ po e de acordo com um modo próprio e um grau especial. pelo menos principal da solidariedade social. nas sociedades contemporâneas. De todos os soció­ logos. aliás. a nosso conhecimento. a simples usos mate­ riais”. se. de uma obra imensa e co­ mum. é a repartição contínua dos diferentes trabalhos humanos que constitui principalmente a solidariedade so­ cial e que se toma a causa elementar da extensão e da complicação crescente do organismo social”. Viu nela “a condição mais essen­ cial da vida social”. como participantes. isto é. Já foi nesse ponto de vista que Comte se colocou. os atuais cooperadores à série de seus predecessores e mesmo à série de seus diversos sucessores. E legítimo supor que os fatos que acabamos de ob­ servar se reproduzem nelas. ela não te­ ria a função de integrar o corpo social. ele foi o primeiro a assina­ lar na divisão do trabalho algo mais que um fenômeno puramente econômico. cujo inevitável desenvolvimento gradual também liga. contanto que a concebamos “em toda a sua extensão racional.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 29 Somos levados. sob muitos aspectos. que essas grandes sociedades políticas também só se po­ dem manter em equilíbrio graças à especialização das ta­ refas. como se faz de ordinário. mas com maior amplitude. os diferentes povos. Portanto. assim. a divisão do tra­ balho teria um papel muito mais im portante do que . a divisão do trabalho “leva imediatamente a encarar não apenas os in­ divíduos e as classes. a nos perguntar se a divisão do trabalho não desempenharia o mesmo papel em gru­ pos mais extensos. assegurar sua uni­ dade. Considerada sob esse aspecto.

em que medida a solidariedade que ela produz contribui pa­ ra a integração geral da sociedade. existe uma solidariedade social provenien­ te da divisão do trabalho.30 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL aquele que de ordinário lhe atribuímos. pois a divisão do trabalho é muito desenvolvida nelas e produz a solidariedade. de fato. Ela não serviria apenas a dotar nossas sociedades de um luxo. sobretudo por ela. ela deve ter um caráter moral. é dela que deriva essencialmente a solidarieda­ de social. É uma verdade evidente. III Mas como proceder a essa verificação? Não temos apenas de procurar se. nas sociedades em que vivemos. Por ela. No entanto. Vejamos se. pelo menos. porque as necessi­ dades de ordem. é necessário verificarmos a hi­ pótese que acabamos de emitir sobre o papel da divisão do trabalho. mas supérfluo. Por isso mesmo. invejável talvez. por­ . Mas é preciso determinar. antes de examinarmos se essa opinião comum tem fundamento. nessas espécies de sociedades. ela é que determinaria as características essenciais da sua constituição. pois somente então saberemos até que ponto essa solidariedade é necessária. ela seria uma condição de sua . é que seria garantida sua coesão. se é esta de fato a função da divisão do tra­ balho. ou. sobretudo. ou então. Para responder a essa questão é preciso. podemos porém entrever desde já que. ao contrário. e embora ainda não estejamos em condições de resolver a questão com rigor.existência. de harmonia. de solidariedade social são geralmente tidas como morais. se é um fator essencial da coesão social. se nada mais é que uma condição acessória e secundária.

é difícil dizer se é ela que produz esses fenômenos ou. Mas não é necessário. Por outro lado. ela não permanece no estado de pura potencialidade. é necessá­ rio. onde quer que exista de maneira duradoura. Falando com exatidão. coloca-os freqüentemente em contato. não se presta à observação exata. que. Para proceder tanto a essa classificação quanto a essa comparação. sobretudo. a fim de medir a parte que lhe cabe no efeito total. por si. Quanto mais os membros de uma sociedade são solidários. elucidar a questão. . De fato. só dependeriam uns dos outros de maneira intermitente e fraca. comparar esse vínculo social aos outros. A solidariedade social. se seus encontros fossem raros. à medida. inclina fortemente os homens uns para os outros. tende inevi­ tavelmente a tomar uma forma definida e a se organizar. nem. seja com o grupo tomado coletivamente.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 31 tanto. multiplica as oca­ siões que têm de se relacionar. por enquanto. basta constatar que essas duas ordens de fatos estão liga­ das e variam ao mesmo tem po e no mesmo sentido. onde existe a solidariedade social. o núme­ ro dessas relações é necessariamente proporcional ao das regras jurídicas que as determinam. porém. se os ho­ mens se aproximam por ser ela enérgica. a vida social. mas manifesta sua presença através de efeitos sensíveis. mais mantêm relações diversas seja uns com os outros. apesar de seu caráter imaterial. De fato. Esse símbolo visível é o direito. substituir o fato interno que nos escapa por um fato externo que o simbolize e estudar o primeiro através do segundo. ou se ela é enérgica porque eles se aproximaram uns dos outros. portanto. ao contrário. resulta deles. pois. Onde é forte. sendo para is­ so indispensável começar por classificar as diferentes es­ pécies de solidariedade social. é um fenômeno total­ mente moral. no ponto a que chegamos.

por conseguinte. uma forma jurídica. com isso. em vez de serem re­ guladas pelo direito. por vezes até que são animados de um espírito bem diferente.32 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL e o direito nada mais é que essa mesma organização no que ela tem de mais estável e de mais preciso18. Há relações cuja regulamentação não chega a es­ se grau de consolidação e de precisão. Não seria possível. que corrigem seus excessos formalistas. Mas como se acham em conflito com o antigo direito que persiste. só nos proporciona dados incompletos para resolver o problema. Há mais: acontece com freqüência que os costumes não estão de acordo com o direito. é verdade. que as relações so­ ciais podem fixar-se sem adquirir. mas. Com efeito. que eles manifestem tipos de solidarieda­ de social diferentes dos que o direito positivo exprime? Mas essa oposição só se produz em circunstâncias totalmente excepcionais. Portanto. nesse caso. É assim que o antagonismo irrompe. dizse sem cessar que eles temperam os rigores do direito. pois elas não podem mesmo durar sem procu­ rar se consolidar. Portanto. o direito reflete apenas uma parte da vida social e. sem razão de ser. só o são pelos costumes. então. A vida geral da sociedade não pode se estender num ponto sem que a vida jurídica nele se estenda ao mesmo tempo e na mesma proporção. Poder-se-ia objetar. Mas ele só pode se produzir nos casos raros e patológi­ . não obstante. elas não superam o estágio dos costumes e não conseguem penetrar na vida jurídica propriamente dita. podemos estar certos de en­ contrar refletidas no direito todas as variedades essenciais da solidariedade social. ele se mantenha. nem por isso elas permanecem indeterminadas. pela força do hábito. as novas re­ lações que se estabelecem apesar dele não deixam de se organizar. Para isso é preciso que o direito não corresponda mais ao presente estado da sociedade e que.

os costumes não se opõem ao direito. Ela estuda o calor através das varia­ ções de volume que as mudanças de temperatura produ­ zem nos corpos. os casos anormais que acabamos de mencionar. Pode haver relações sociais que não comportam mais que essa regulamentação difusa originá­ ria dos costumes. é verdade. é necessário alcançá-la em si mesma e sem inter­ mediários? Mas só podemos conhecer cientificamente as causas pelos efeitos que elas produzem. se pode haver tipos de solidariedade social que tão-somente os costumes ma­ nifestam. são sua base. que. a eletricidade através de seus efeitos físico-químicos. Ela não é a mesma no seio da família e nas sociedades políticas. não somos apegados a nossa pátria da mesma maneira que o romano era à cidade ou o ger­ . que. que não podem durar sem perigo. salvo. além do direito e dos costumes. Por que a solidariedade social seria uma exceção? Aliás. para melhor determinar sua natureza. Ir-se-á mais longe e sustentar-se-á que a solidarieda­ de social não se encontra integralmente em suas manifes­ tações sensíveis. nada se eleva. a força através do movimento./I FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 33 cos. Às vezes acontece. sobre essa base. para conhecê-la de fato. que estas só a exprimem parcial e im­ perfeitamente. ao contrário. mas. esses tipos são bastante secundários. Portanto. a ciência apenas escolhe entre esses resultados os que são mais objetivos e que melhor se prestam à medida. o que subsiste dela uma vez que a despojamos de suas formas sociais? O que lhe proporciona suas ca­ racterísticas específicas é a natureza do grupo cuja unida­ de ela assegura. há o estado interno de que ela deriva e que. e. e são eles os únicos que precisamos conhecer. o direito reproduz todos os que são essenciais. e é por isso que ela varia segundo os ti­ pos sociais. Normalmente. é claro. mas é porque carecem de importância e de continuidade. ao contrá­ rio.

a de ontem. por conseguinte. É um fato social que só pode ser bem conhecido por intermédio de seus efeitos sociais. a rigor. Para que possa existir. Eles eliminaram do fenômeno tudo o que ele tem de mais especialmente social. Portanto. a tendên­ cia geral à sociabilidade. ao mesmo tempo que é. não podemos apreendê-las senão atra­ vés das diferenças que os efeitos sociais da solidariedade apresentam. a solidariedade do­ méstica. . O que existe e vive realmente são as formas particulares da solidariedade. De fato. an­ tes de mais nada. contentar-nos com estudá-la sob esse aspecto. Mas já que essas diferenças decorrem de causas sociais. Se tan­ tos moralistas e psicólogos puderam abordar a questão sem seguir esse método. um fato social. se desprezamos esses últimos. Mas.34 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL mano à sua tribo. pois a sociabilidade em si não é encontrada em parte alguma. to­ das essas variedades tomam-se indiscemíveis e só pode­ mos perceber o que é comum a todas. foi porque contornaram a difi­ culdade. a saber. a solidariedade na­ cional. nesse caso. essas generalidades só poderiam dar do fenômeno uma explicação bastante in­ completa. é certo que a solidariedade. O estudo da solidariedade pertence. falando propria­ mente. não é sequer ela. pois. depende de nosso orga­ nismo individual. a de hoje. tendência que é sempre e em toda parte a mesma e não está ligada a nenhum tipo so­ cial particular. Portanto. é preciso que nossa constituição física e psíquica a comporte. etc. para reter apenas o germe psicológico de que é o desenvolvimento. Mas esse resíduo nada mais é que uma abstração. podemos. só se vê sua parte mais indis­ tinta e menos especial. pois elas deixam necessariamente escapar o que há de concreto e de vivo. mas antes o que a torna possível. Cada uma tem sua própria natureza. ao domí­ nio da sociologia. a solidariedade profissional.

quais são as dife­ rentes espécies de solidariedade social que correspon­ dem a elas. Porque. enquanto permanece no estado de simples predisposição de nos­ sa natureza psíquica.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 35 E ainda assim esse estudo abstrato não conseguiria ser muito fecundo em resultados. em seguida. Por exem plo. Por isso é muito raro que algumas concepções socio­ lógicas não se vejam envolvidas nessas análises de pura psicologia. para medir a importância desta última. a título de exemplos e segundo os acasos da sugestão. É provável. só nos resta classificar as diferentes espécies de di­ reito para descobrirmos. não pode ser separa­ da. Sem dúvi­ da. Para que assuma uma forma apreensível. é preciso que algumas conseqüências sociais traduzam-na exteriormente. de que a divisão do trabalho é a causa. pois. ou indicam-se rapi­ damente as principais relações sociais de que a sociabi­ lidade depende da maneira mais aparente20. Nosso método já está traçado. bastará comparar a quantidade de regras ju­ rídicas que a exprimem com o volume total do direito. desde já. portanto. Uma vez que o direito reproduz as formas principais da solidariedade so­ cial. dizem-se algumas palavras acerca da influência do estado gregário sobre a forma­ ção do sentimento social èm geral19. não poderiam bastar para elucidar muito a natureza social da solidariedade. introduzidas sem método. Elas demonstram pelo menos que o ponto de vista sociológico se impõe inclu­ sive aos psicólogos. Além disso. que haja uma que sim­ bolize essa solidariedade especial. a solidariedade é algo demasiado indefinido para que se possa alcançá-la facilmente. mesmo nesse estado de indeterminação. . É uma virtualidade intangível que não dá margem à ob­ servação. essas considerações complementares. Feito isso. ela depende de condições sociais que a expliquem e das quais.

e não é sem razão que o direito romano qualificava a tutela de munus publicum. todo preceito do direito pode ser definido: uma regra de conduta sancionada. Aliás. ao papel que de­ sempenham na sociedade. etc. que parecia tão nítida à primeira vista. seja capaz de variar quando eles variam. ao segundo. Todo direito é privado. convém classificar as regras jurídicas de acordo com as diferentes sanções que são ligadas a elas. Por outro lado. as dos indivíduos entre si. todo direito é público. à posição que ocupam na consciência pública. funcio­ nários da sociedade. se apa­ ga. não são nem delimitadas. no sentido de que são sempre e em toda parte indivíduos que se encontram em presen­ ça e que agem. nem organizadas de maneira di­ ferente das funções ministeriais e legislativas. Mas quando se procura examinar os termos de perto. mas a ciência não pode se contentar com essas classifica­ ções empíricas e aproximadas. As funções maritais. paternas. precisamos en­ contrar uma característica que. Portanto. Ora. elas podem ser muito cômodas desse ponto de vista. é evidente que as sanções mudam se­ gundo a gravidade atribuída aos preceitos. não é científico fazer uma classificação fundamental basear-se numa noção tão obscura e mal-analisada.36 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Para esse trabalho. . Imaginadas para a práti­ ca. não podemos utilizar as distinções correntes entre os jurisconsultos. embora a títulos diferentes. ao mesmo tem po em que é essencial aos fenômenos jurídicos. sobretudo. o que é o Estado? Onde começa e onde acaba? Sabe-se quão controvertida é essa questão. no sentido de que o direito é uma função social e de que to­ dos os indivíduos são. a linha de de­ marcação. Para proceder de forma metódica. A mais difundida é a que divide o direito em direito público e privado. mas. Ao primei­ ro caberia regular as relações entre o indivíduo e o Esta­ do.

quer o ato incriminado seja reconduzido à força ao tipo de que desviou. o direito comercial. mas consiste apenas na reparação das coisas. o di­ reito processual. o direito civil. . Quanto ao outro ti­ po. quer seja anulado.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 37 Há dois tipos de sanções. privado de todo e qualquer valor social. numa diminuição infli­ gida ao agente. devemos divi­ dir em duas grandes espécies as regras jurídicas. a segunda. ou em sua honra. confor­ me tenham sanções repressivas organizadas ou sanções apenas restitutivas. fazendo-se abstração das regras penais que se podem en­ contrar aí. É verdade que as que se prendem às regras puramente morais têm o mes­ mo caráter. o direito administrativo e constitucional. Umas consistem essencial­ mente numa dor. isto é. elas têm por objeto atingi-lo em sua for­ tuna. ou em sua liber­ dade. Diz-se que são re­ pressivas . pelo menos. privá-lo de algo de que desfruta. Vejamos agora a que sorte de solidariedade social corresponde cada uma dessas espécies. ou em sua vida.é o caso do direito penal. só que são distribuídas de uma maneira difu­ sa por todo o mundo indistintamente. enquanto as do di­ reito penal são aplicadas apenas por intermédio de um órgão definido: elas são organizadas. ou. A primeira compreende todo o direito penal. Portanto. no restabelecimento das relações perturbadas sob sua forma normal. ele não implica necessariamente um sofrimento do agente.

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existe não menos seguramen­ te algo em comum. Chamamos por esse nome todo ato que. a pena. em que consiste essencialmente o crime. sempre e em toda parte a mesma. sem dúvida. Não só entre todos os crimes previstos pela legislação de uma única e mesma sociedade. Procurar qual é esse víncu­ lo é. ou. determina contra seu autor essa reação caracte­ rística a que chamamos pena. A unidade do efeito revela a unidade da causa. existem seguramente semelhanças essenciais. salvo diferenças de graus. . é. mas. entre todas essas espécies. Há. crimes de espécies diferentes. mas entre todos os que foram ou que são reconhecidos e punidos nos diferentes tipos sociais.CAPÍTULO II SOLIDARIEDADE MECÂNICA OU POR SIMILITUDES i O vínculo de solidariedade social a que corresponde o direito repressiyo é aquele cuja ruptura constitui o cri­ me. perguntar-se qual a causa da pena. mais claramente. num grau qualquer. O que o prova é que a reação que eles determinam de parte da sociedade. a saber. portanto.

há ações que foram universalmente consideradas criminosas. O meio de encontrar esse elemento permanente e geral não é.40 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Por mais diferentes que possam parecer à primeira vista os atos assim qualificados. Porque se. visto que só se apli­ caria a exceções1. da contemplação apenas dos organismos e. São todos crimes. Essas variações do direito repressivo provam. Assim. essas ações constituem uma ínfima minoria e. se quisermos saber em que consiste es­ sencialmente o crime. ao mesmo tempo. Não há uma só que possa ser desprezada. enumerar os atos que foram. elas são fatos não menos instrutivos. Fazer abstração delas seria expor-nos a ver a essência do crime onde ela não está. por conseguinte. Portanto. eles afetam da mesma maneira a consciência moral das nações e produ­ zem a mesma conseqüência. pois. Ora. sobretudo. em toda parte. o biólogo teria dado dos fenômenos vitais uma definição inexata se houvesse desprezado a observação dos seres unicelulares. as proprieda­ des essenciais de uma coisa são as que observamos em toda parte em que essa coisa existe e que só a ela per­ tencem. ele teria concluído erradamente que a vida consiste essencial­ mente na organização. será necessário pôr em evidência as características que se revelam idênticas em todas as variedades criminológicas dos diferentes tipos sociais. para observar as características que eles apre­ sentam. dos organismos superiores. atos reprimidos por castigos definidos. isto é. não obstante se tenha dito. qualificados de crimes. que esse caráter constante . evidentemente. As concepções jurídicas das sociedades mais inferiores não são menos dignas de interesse do que as das mais elevadas. é impossível não terem algum fundo comum. em todos os tempos e em todos os lugares. Porque. tal m étodo só poderia nos proporcionar do fenôm eno uma noção singularmente truncada.

do ceri­ monial. já que esses atos apresentam tamanha diversidade. Além de uma tal teoria dar ao cálculo e à reflexão uma importância demasiado grande na direção da evolu­ ção social. se­ jam prejudiciais à sociedade. por si mesmos. por conseguinte. mas sim nas relações que mantêm com uma condição que lhes é exterior. e afirmou-se que as regras penais enunciavam para cada tipo social as condições fundamentais da vida coletiva. Mas já nos explicamos sobre esse pon­ to. Pensou-se encontrar tal relação numa espécie de an­ tagonismo entre essas ações e os interesses sociais gerais. porém.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 41 não se poderia encontrar entre as propriedades intrínse­ cas dos atos impostos ou proibidos pelas regras penais. pôde um dia constituir um perigo social? Sabe-se. Embora o ato criminoso seja certamente prejudicial à sociedade. Em que medida o fato de tocar um objeto tabu. de não imolar no túmulo dos paren­ tes o sacrifício tradicional. há uma multidão de atos que foram e ainda são considerados criminosos sem que. Basta abrir o Pentateuco para se convencer. como esses fatos se encontram normalmente em certas espécies sociais. é impossível ver neles simples anomalias e casos patológicos que se tem o direito de desprezar. de não celebrar certas festas. etc. seria assim explicada a variabilidade do direito repressivo. de sua necessida­ de. por outro lado. E. da etiqueta. de deixar apagar-se o fogo sagrado. de não pronunciar exatamente a fórmula ritual. nem por isso o grau de nocividade que ele apresenta é regularmente proporcional à intensidade da . que importância tem no direito repressivo de uma multidão de povos a regulamentação do rito. das práticas religiosas. um animal ou um homem impuro ou consagrado. como essas necessidades variam com as sociedades. Sua autoridade viria. de comer certas carnes.

Enfim. num número tão grande de casos. porém. que as regras penais não exprimem as condições essenciais da vida social. por mais real que seja. Portanto. até mesmo uma falência podem desor­ ganizar o corpo social de maneira muito mais grave do que um homicídio isolado. é como se se dissesse que as socieda­ des julgam as regras necessárias porque as julgam neces­ sárias. não ex­ plica nada. Essa definição do crime é. uma jogada na Bolsa. No fim das contas. o assassinato é sempre um mal. essa pretensa solução do problema se reduz a um verdadeiro truísmo. Mas compare-se a magnitude desse perigo. pois. evidentemente. com ou sem razão. mas as que parecem sê-lo para o grupo que as observa? Essa explicação. porquan­ to. No entanto. que os atos criminosos são aqueles que parecem prejudiciais à sociedade que os re­ prime. as sociedades se enganaram e impuseram práticas que. No direito penal dos povos mais civilizados. por si mesmas. é por fazerem energicamente ques­ tão dela. Dir-se-á. os exemplos que acabamos de citar mostram que um ato pode ser desastroso para uma socie­ dade sem incorrer na menor repressão. porque não nos faz compreender por que ra­ zão. com a da pena: a desproporção salta aos olhos. de qualquer modo. se­ quer eram úteis. inadequada.42 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL repressão que recebe. O que precisaríamos dizer é por que as julgam as­ sim. Sem dúvida. O que é um homem a menos na sociedade? O que é uma célula a menos no organismo? Diz-se que a segurança geral seria ameaçada no futuro se o ato permanecesse impune. por estimarem. uma crise econômica. se as sociedades obrigam assim cada indivíduo a obe­ decer a essas regras é. que essa obediência regular e pontual lhes é indispensável. o assassinato é universalmente considerado o maior dos crimes. Se esse sentimento tivesse sua causa na necessidade . modificando-a. mas nada prova que seja o mal maior.

não o que deve ser. muito próximo de nós.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 43 objetiva das prescrições penais ou. Muitos se perguntam hoje se essa reprovação é racio­ nal e se não seria mais sensato considerar o crime apenas uma doença ou um erro. as injúrias dirigidas ao povo . mas houve um tempo. a simpatia por outrem está longe de ser. No entanto. Hoje. isso significa que o crime melindra sentimentos que se encontram em todas as consciências sadias de um mesmo tipo social. a única a produzir esse resulta­ do.salvo algumas exceções apa­ rentes. são os sentimentos altruístas que apresentam essa característica da maneira mais acen­ tuada. procuramos determinar o que é ou foi. é com razão que ela busca em certos esta­ dos do sujeito as condições constitutivas da criminalida­ de. Ainda agora. que serão examinadas mais abaixo . pois esses objetos variaram infinitamente e ainda podem variar2. Mas ela é contradita pe­ los fatos. defini-los em função de seus objetos particulares. os crimes de lesamajestade não provocam uma indignação geral? Acaso. De fato. em sua utilidade. essa última teoria não deixa de ter seu fundamento. como quer Garofalo. Não é possível determinar de outro modo a natureza desses sentimentos. seria uma explicação. nos países democráticos. mesmo em tempo de paz. Não temos.em atos uni­ versalmente reprovados pelos membros de cada socieda­ de. domésticos e mil outros sentimentos tradicionais tinham exatamente os mesmos efeitos. Ora. de entrar nessas discussões. porém. pelo menos. nos países em que o sentimento monárquico ainda é vivo. Acaso. A questão permanece intacta. a única característica comum a todos os cri­ mes é que eles consistem . não temos pelo ho­ mem que trai a sua pátria no mínimo tanta aversão quan­ ta pelo ladrão e o vigarista? Acaso. em que os sentimentos religiosos. a realidade do fato que acaba­ mos de estabelecer não é contestável.

o art. e só depois diz a maneira como ela deve ser sancionada. em toda espécie de direito com sanções restitutivas. ela se acha totalmente subentendida. Por isso. as regras que proíbem esses atos e que o direito penal sanciona são as únicas a que o famoso axioma jurídico ninguém pode ignorar a lei se aplica sem ficção. até. ou. todo o mundo as conhe­ ce e sente que são fundamentadas. Todo direito escrito tem um duplo objeto: impor certas obrigações. Por exemplo.44 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL não deflagram as mesmas cóleras? Logo. o legislador aborda e resolve separadamente os dois problemas. Como estão gra­ vadas em todas as consciências. ele determina a obrigação. isso é verdade no caso do estado normal. esses direitos e essas obrigações são enunciados de uma maneira positiva. com a maior precisão possível. Pelo menos. Às ve­ zes. se uma dis­ posição penal se mantém por algum tempo. É isso que explica a maneira particular como o direi­ to penal se codifica. Se há adultos que ig­ noram essas regras fundamentais ou não reconhecem sua autoridade. por conseguinte anor­ mais. é graças a um concurso de circunstâncias excepcionais. eles só se distinguem dos outros por es­ ta característica: a de que são comuns à grande média dos indivíduos da mesma sociedade. tal ignorância ou tal indocilidade são sinto­ mas irrefutáveis de perversão patológica. mais geralmente. e tal estado de coisas nunca pode durar. mas não se diz o que acontece quando esses deveres são violados por uma ou outra parte. Devemos procurar a sanção em outro lugar. No direito civil e. 214 do Código Civil manda a mulher habitar com o . não seria possí­ vel fazer uma lista dos sentimentos cuja violação constitui o ato criminoso. no capítulo do nosso código civil consagrado aos deveres respectivos dos es­ posos. Assim. Em primeiro lugar. definir as sanções liga­ das a estas. embora seja contestada por todo o mundo.

é porque apenas essa escala pode se prestar à dúvi­ da. muito embora. por vezes. Isso porque o Pentateuco. como faz o direito civil. Sem dúvida. Ele não diz. o Pentateuco não edita sanções. se a ação é punida. mas essa regra não é expressamente formulada. embora tenha servido de código. as regras penais seguidas pelo povo hebreu. tendo em vista a prática. em primeiro lugar. só contenha dis­ posições penais. O direito penal. sem provocar discussão nem dificuldades. tal co­ mo se acham formulados no capítulo XX do Êxodo e no capítulo V do Deuteronômio. é porqye todo o mundo sente a sua autoridade3. não é um código pro­ priamente dito. é porque questões litigiosas reclamam uma solução mais definida. t p r c iV I^ ^ A l r y r U n n ■m n i i n p m a « « P l i " ú n r '_ - . tanto não é uma codi­ ficação. não haveria motivo para ele se transformar. é por ser contrária a uma regra obrigatória. se o costume continuasse a funcionar silenciosamente. se as regras cuja violação é punida pe­ la pena não precisam receber uma expressão jurídica. “eis o dever”. Inversamente. do que se deduz que o marido pode forçá-la a retomar ao domicílio conjugal. Já que o direito penal só se codifica para estabelecer uma escala graduada de pe­ nas. Ele não tem por objeto reunir num siste­ ma único e precisar. Só pode ha­ ver um motivo para isso: o de que a regra é conhecida e aceita por todos. É verdade que. mas de imediato: “eis a pena”. mas essa sanção não está formalmente indicada em parte alguma. como veremos. Quando um direito consuetudinário passa ao estado de direito escrito e se codifica. ao contrário. É o caso dos dez mandamentos. que as diferentes partes de que é composto pa­ recem n ã r . mas condenar à morte o assassino.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 45 marido. Ele não manda respeitar a vi­ da alheia. mas nada diz das obriga­ ções a que elas se referem. só edita sanções. é porque não são objeto de nenhuma contestação.

o povo per­ manece em princípio o juiz supremo para essas espécies de processos6. ao contrário. Em tipos sociais bastante diferentes. enquanto os casos civis dependiam do pretor. a partir da lei das XII Tábuas. a jurisdição criminal pertencia em parte aos ‘HA-icda. a determinação da pena tomase acessória4. às circunstâncias históricas em que pretende-se tenham sido promulgados. em que. Mas é que se tratava. podemos estar certos de que tudo o que ele contém estava escrito em todas as consciências. Ora. e à sua maneira. ela não se exerce pelo órgão de um magistrado especial.-compreendia todos os cida­ . Em Atenas. essencialmente. de reproduzir. Portanto. Nas sociedades primitivas. o direito é inteiramente penal. E o que acontece entre os antigos germanos5. na verdade. nem porque fosse necessário revelá-los a eles. com certeza. É por essa mesma razão que o funcionamento da justiça repressiva sempre tende a permanecer mais ou menos difuso. as crenças populares relativas à origem desses preceitos. desse ponto de vista. não é porque fossem ignorados ou desconhecidos dos hebreus. Em Roma. nominalmente.46 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL tes de mais nada. vasto colégio que. já que o livro nada mais é que um tecido de lendas nacionais. tenha delega­ do seus poderes a comissões permanentes. de sua sociedade e de suas principais práticas sociais. se enuncia certos de­ veres que. um sumário das tradições de todo tipo pelas quais os judeus explicavam a si mesmos. eram sancionados por penas. mas a sociedade inteira participa numa medida mais ou menos vasta. pelos comícios por centúrias. os casos criminais eram julgados pelo povo. como veremos. fi­ xando-as. primeiro pelos comícios por cúrias e. a gênese do mundo. às fontes da sua autoridade. é a assembléia do povo que administra a justiça. sob a legislação de Sólon. até o fim da República e conquanto.

Os sentimentos coletivos a que corresponde o crime de­ vem. Mas essa delegação pode deverse seja à maior multiplicidade dos casos. não se definiu o crime quando se disse que ele consiste numa ofensa aos sentimentos coletivos. porque do fato de que os sentimentos coletivos não reagem mais a não ser através de certos intermediários. por conseguinte.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 47 dãos de mais de trinta anos7. dentre estes últimos. O mesmo vale para os atentados à honra sexual que a mulher comete fora do estado de casamen­ to. o incesto é objeto de uma aversão bastante geral. não resulta que tenham cessa­ do de ser coletivos. mas é uma ação simples­ mente imoral. alguns que podem ser ofendidos sem que haja crime. Mas esses fatos não diminuem o valor de­ monstrativo dos precedentes. para se localizarem num número restrito de consciências. entre as nações germano-latinas. O estado de di­ fusão em que se encontra. pois há. seja à enorme im­ portância adquirida por certas personagens ou certas classes. essa parte do poder ju­ diciário seria inexplicável se as regras cuja observância assegura e. que requer a instituição de funcionários especiais. Assim. assim. representada pelo júri. Entretanto. Eles não são apenas gravados em todas as consciências: são fortemente gravados. ele é detido por uma classe privilegiada ou por magistrados particulares. a sociedade intervém no exercício dessas mesmas funções. É verdade que. que faz delas intérpretes autorizadas dos senti­ mentos coletivos. pois. Não são veleidades hesitantes e . em outros casos. pelo fato de alienar totalmente sua liberdade entre as mãos de outrem ou de aceitar de outrem essa alienação. os sentimentos a que essas regras correspondem não estivessem imanentes em to­ das as consciências. singularizar-se dos outros por alguma proprie­ dade distintiva: devem ter uma certa intensidade média. Enfim.

”s Quanto aos delitos privados. o direito religioso é sem­ pre repressivo: é essencialmente conservador. com o estado em que se encontra na época clássica. a maior plasticidade das regras puramente morais e a rapi­ dez relativa de sua evolução demonstram a menor ener­ gia dos sentimentos que são sua base: ou eles são mais recentemente adquiridos e ainda não têm tempo de pe­ . as mudanças que se podem constatar são pouquíssimas. Essa fixidez do direito penal atesta a força de resistência dos sen­ timentos coletivos a que corresponde. no direito co­ mercial. no direito administrativo e constitucional. Inversamente. o direito. os principais crimes e delitos estão constituídos: “Durante dez gerações. uma multidão de novas disposições introduziu-se no direito civil. o que fez o legislador desde o começo do sé­ culo nas diferentes esferas da vida jurídica: as inovações nas matérias de direito penal são extremamente raras e restritas. diz Mainz. O bserve-se. Com­ pare-se o direito penal. a associação para conseguir vantagens mereci­ das e. tal como a lei das XII Tábuas fi­ xou-o em Roma. De modo geral. por isso. Nas sociedades inferiores. é quase exclusivamente penal. só foram reconhecidos dois novos: a rapina (actio bonorum vi raptorum) e o dano injustamente causado ( dam num injuria daturri). Não só ele se modifica mais dificilmente do que os costumes. ao contrário. como vere­ mos. enquanto. é sobremo­ do estacionário. o plagium. se comparadas com as que o direito civil sofreu durante o mesmo tempo. por exemplo. Encontramos o mesmo fato por to­ da parte. Desde a época das XII Tábuas.48 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL superficiais. o rol dos crimes pú­ blicos só foi aumentado por algumas leis que punem o peculato. O que o prova é a extrema lentidão com a qual o direito penal evolui. mas emoções e tendências fortemente arrai­ gadas em nós. mas é a parte do direito positivo mais refratária à m udança. talvez.

consistir numa ação ou numa abstenção. Ao contrário. pois. de maneira bastante ge­ ral. não há motivo algum para se ad­ mitir que a piedade filial média ou mesmo as formas ele­ mentares da compaixão para com as misérias mais apa­ rentes sejam hoje sentimentos mais superficiais do que o respeito pela propriedade ou pela autoridade pública. no entanto. cada um deles é relativo a uma prática bem definida. sejam menos intensos e menos solidamente organi­ zados do que os protegidos pelas penas propriamente di­ tas. há espaço aqui para variações e nuances. não matar. cumprir determinado ri­ to. Ao contrário. enquanto as regras puramente morais têm. há exceções. Assim. Sua natureza indecisa faz até que. em geral. pronunciar determinada fórmula. ou estão se arrai­ gando e sobem do fundo para a superfície. sentimentos como o amor filial ou a caridade são aspirações vagas por objetos bastante gerais. positiva ou negativa. difu­ sas. mas é sempre determinada. é necessário que sejam precisos. Por conseguinte. isto é. Por isso as regras penais são notáveis por sua nitidez e preçisão. que deve-se trabalhar. Podemos dizer..A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 49 netrar profundamente nas consciências. em geral. como não podem . algo de impreciso. Embora. por serem deter­ minados. deve-se ter piedade de ou­ trem. Não basta. Essa prática pode ser simples ou comple­ xa. os sentimentos protegidos por sanções simplesmente morais. com freqüência. não ferir. os sentimentos que encarnam as regras penais têm uma uniformidade muito maior. mas não podemos determinar de que maneira nem em que medida. etc. que os sentimentos sejam fortes. etc. decerto. Uma última adição ainda é necessária para que nos­ sa definição seja exata. seja difícil dar-lhes uma fórmula ta­ xativa. o mau filho e mesmo o egoísta mais empederni­ do não são tratados como criminosos. De fato. Trata-se de fazer ou não fazer isto ou aquilo. isto é.

É a mesma no Norte e no Sul. ela permanece. A esse título. Ela é. nas grandes e nas pequenas cidades. As funções judiciais. científicas.50 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ser entendidos de maneiras diferentes. nas diferentes profissões. o direito de ser designada por uma palavra especial. tem alguma ambi­ güidade. A que empregamos acima. Como os termos coletivo e social muitas vezes são empregados um pelo outro. De fato. ela não tem por substrato um órgão único. seu modo de desen­ volvimento. ainda assim. ao passo que. ela não muda a cada geração. Ela é o tipo psíquico da sociedade. numa palavra. são de ordem psíqui­ ca. conquanto só seja realizada nos indivíduos. são os mesmos em toda parte. tipo que tem suas proprieda­ des. suas condições de existência. por de­ finição. pois. ela tem. Agora estamos em condição de concluir. é verdade. muito embora de outra maneira. difusa em toda a extensão da sociedade. é-se induzido a crer que a consciência coletiva é toda a consciência social. Sem dúvida. ela é independente das condições particulares em que os indivíduos se en­ contram: eles passam. mas liga umas às outras as gerações suces­ sivas. isto é. do mesmo modo que os tipos individuais. bem diferente das consciências particu­ lares. mas tem. governamentais. pois. O conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade forma um sistema determinado que tem vida própria. características específicas que fazem dela uma realidade distinta. não é senão uma parte bastante restrita desta. pois consistem em sistemas de representações e de . ela é. industriais. se estende tão longe quanto a vida psíquica da socieda­ de. podemos cha­ má-lo de consciência coletiva ou comum. Do mesmo modo. sobretudo nas sociedades superiores. todas as funções especiais.

ora. ela só pode provir de uma ou várias característi­ cas comuns a todas as variedades criminológicas. Todavia. e sobretudo essa imoralida­ de particular que a sociedade reprime por meio de penas organizadas e que constitui a criminalidade. mas uma das suas reper­ cussões.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 51 ações. está inteiramente por ser definido. como o emprego de uma palavra nova. tem os seus inconvenientes. manteremos a expressão mais usada de consciência coletiva ou comum. Sabe-se muito bem que o crime ofende senti­ mentos bastante gerais e enérgicos. No en­ tanto. pode­ mos dizer que um ato é criminoso quando ofende os es­ tados fortes e definidos da consciência coletiva10. Portanto. Para evitar uma confusão9 que já foi co­ metida. mas crê-se que essa generalidade e essa energia provêm da natureza crimino­ sa do ato. Mas isso seria res­ ponder à pergunta com outra pergunta e pôr uma pala­ vra no lugar de outra. mas lembrando sem­ pre o sentido estrito em que a empregamos. em grande embaraço para di­ zer em que essa delituosidade consiste. fica-se. no entanto. Evidente­ mente. Costuma-se entendê-la como se ela exprimisse não a propriedade essencial do crime. talvez. seria criar uma expressão técni­ ca que designasse especialmente o conjunto das similitudes sociais. elas estão evidentemente fora da cons­ ciência comum. mas dá-se por admitido que a reprova­ ção de que é objeto resulta da sua delituosidade. por conseguinte. Não se contesta que todo delito seja universal­ mente reprovado. que. Numa imoralida­ de particularmente grave? Admitamos. quando ela não é absolutamente necessária. a única que satisfaz essa condição é essa oposição existen­ . o melhor. A letra dessa proposição não é contestada. resumindo a análise que precede. porque se trata precisamente de saber o que é a imoralidade. mas cos­ tuma-se dar-lhe um sentido muito diferente do que deve ter. em seguida.

segundo a qual as coisas são boas porque as amamos. todo ato que o ofende é um crime. Quan­ to à natureza intrínseca desses sentimentos. é essa oposição que faz o crime. se encon­ trar em todas as consciências com certo grau de força e precisão. Portanto. Mas. o prazer e a dor são apenas fatos derivados. dir-se-á. Um ato é socialmente ruim por ser rejeitado pela sociedade. O que é primitivo é a tendência. eles têm os mais diversos objetos e não se poderia dar. não é que as amamos por serem boas. deles. mas que é criminoso porque ofende a consciência comum. nem a um mínimo de justiça. é impossível especificá-la.52 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL te entre o crime. se não a maio­ ria. é preciso que a sensibilidade coletiva já esteja consti­ . Não o reprovamos por ser um crime. Em outras palavras. mas é um crime porque o reprovamos. Muitos. acaso não há sentimentos coletivos que re­ sultam do prazer ou da dor que a sociedade sente em contato com os objetos de tais sentimentos? Sem dúvida. a inclinação. a par­ tir de então. e certos sentimentos coletivos. derivam de outras causas. quaisquer que sejam sua origem e seu fim. A psicologia contemporânea retoma cada vez mais à idéia de Spinoza. mas nem todos têm essa origem. não se deve dizer que um ato ofenda a consciência co­ mum por ser criminoso. apenas essas últimas tendências são verdadeiramente fundamentais. Tudo o que determina a atividade a tomar uma forma definida pode dar origem a hábitos de que resultam tendências que é preciso. qualquer que seja. para achar encantador este ou aquele obje­ to. uma fórmula única. todas essas definições são inadequadas. As outras não são mais que formas especiais e melhor determina­ das. satisfazer. estando muito longe de derivar dele. Mas. Além disso. pelo simples fato de um sentimen­ to. O mesmo acontece na vida social. Não se pode dizer que eles se relacionam nem aos interesses vitais da socie­ dade. porque.

Há. mas reconhece outra causa. mas estimado e proposto como exemplo. em diversos graus. entre­ gue a si mesma. Portanto. uma vez que um poder gover­ namental é instituído. ele apenas pode vincular as que existem a determinada finalidade particular. das funções civis pelas autoridades religiosas são objeto de uma repressão desproporcional à indignação que provocam nas consciências. isso se dá porque. a pena parece injus­ ta. contanto que esta esteja relacionada à sua natureza inicial. se ela não for repelida pela opinião pública. em nenhum desses exemplos. no entanto. casos em que a explicação precedente não parece se explicar. Sem dúvida. não há razão al­ guma para separar completamente esses delitos dos outros. esta. O prazer é incapaz de criar in­ tegralmente uma propensão.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 53 tuída de maneira a poder apreciá-lo. Assim. a delituosidade não deriva. ou não a reclamaria. Se os sentimentos correspondentes são abolidos. Existem atos que são mais severa­ mente reprimidos do que fortemente reprovados pela opi­ nião pública. em todos os ca­ sos desse gênero. Às vezes até acontece que o ato punido não ofende diretamente nenhum sentimento coletivo. pois todos eles apre­ sentam. nada há em nós contra o fato de pescar e caçar em época proibida ou contra veículos demasiado pesados trafegarem numa via pública. o ato mais funesto à socie­ dade poderá ser não apenas tolerado. o mesmo critério exterior. e no entanto recebe punições bastante elevadas. a inva­ são das competências das autoridades administrativas pelas autoridades judiciárias. No entanto. é certo que. De fato. toda distinção radical1 1 seria arbitrária. ele tem por si mesmo força bastan­ . a coligação dos funcionários. da vivacidade dos sentimentos coletivos ofendidos. O roubo de peças públicas nos deixa indiferentes. ou se mostraria me­ nos exigente. ou não deri­ va integralmente.

o crime é. mesmo que estes sejam consideráveis. no fundo. dos contratos e a constante fal­ ta de delicadeza nas relações econômicas obrigam ape­ nas à reparação do prejuízo.54 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL te para ligar espontaneamente a certas regras de conduta uma sanção penal. não basta para determinar a reação penal. por sua ação própria. a vio­ lação. ela precisa ser sentida de uma certa maneira. de criar certos delitos ou de agravar o valor criminológico . a saber. a pena. ser da mesma natureza do que aquele que é difuso na sociedade. de onde ele viria? Da gravidade dos interesses que o Estado gere e que precisam ser protegi­ dos de uma maneira de todo particular? Mas nós sabe­ mos que apenas a lesão de interesses. todos os atos que acabamos de citar apresentam a característica comum de serem diri­ gidos contra algum dos órgãos diretores da vida social. pois. no entanto. em toda parte. aliás. Sem dúvida. o menor dano ao órgão governa­ mental é punido. a menos que essa dualida­ de seja apenas aparente e que. admitir que há dois gêneros de crimes decorrentes de duas causas diferentes? Não poderíamos nos deter em semelhante hipótese. Por numerosas que sejam suas variedades. garantido dessa manei­ . nem por isso muda de natureza. mas há outros cujo interesse não deixa de ser vital e cujo funcionamento não é. um mesmo fato não pode ter duas causas. que. essencial­ mente o mesmo. então. de alguns outros. com efeito. além disso. mesmo se repetida. ao passo que desordens muito mais te­ míveis em outros órgãos sociais são reparadas civilmente? A menor infração ao código de trânsito é multada. se pode ser mais ou menos intensa. Por isso. E. O poder de reação que é próprio do Esta­ do deve. Deve-se. pois determina em toda parte o mesmo efeito. Ora. ambas sejam uma só coisa. Por que. o aparelho de direção desempenha um papel eminente na vida social. Ele é capaz.

e as doenças de um são tão ameaçadoras para a vida como as do outro. Portanto. O cérebro tem sua importância. como a alma difusa da sociedade faria. onde quer que um poder diretor se estabeleça. ela nada mais é que uma derivação da força imanente à consciência comum. sua primeira e principal função é fazer respeitar as crenças. as tradições. Por isso. isto é. Toma-se. e é assim que ele adquire um caráter que o torna ímpar. Mas é des­ . uma vez constituída. por outro lado. do mesmo modo que as afinidades das idéias se comunicam às palavras que as representam. a vida que existe nela se comunica a ele. no entanto. ele participa da autori­ dade que este último exerce sobre as consciências. a expressão viva aos olhos de todos. é o tipo coletivo encarnado. isto é. ela tem necessariamente as mesmas propriedades e reage da mesma maneira. e é daí que vem sua força. Não é mais uma função social mais ou menos importante.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 55 ra. mes­ mo que esta não sinta esse antagonismo ou não o sinta de maneira tão viva. defender a cons­ ciência comum contra todos os inimigos de dentro como de fora. ofende­ rem no mesmo grau os sentimentos coletivos. assim. precisamente por causa dessa supremacia que ela conquistou. Mas. ela repele toda força antagônica. mas o estômago tam­ bém é um órgão essencial. sem se libertar da fonte de que mana e em que continua a se ali­ mentar. esta autoridade se toma um fator autônomo da vida social. Por que esse privilégio concedido ao que às vezes é chamado de cére­ bro social? A dificuldade se resolve facilmente se observarmos que. Portanto. Como. ao passo que esta última não reage totalmente em uníssono. mesmo que a autoridade taxe de crimes atos que a ofendem sem. capaz de produzir espontaneamente movi­ mentos próprios que nenhum impulso externo determi­ na. um símbolo. as práticas coletivas.

pode ser medida seja pela extensão da auto­ ridade que exerce sobre os cidadãos. Existe. não poderem provir do nada. que é nesses mesmos tipos sociais que a consciência coletiva tem mais força12. salvo a força coletiva. II Em prim eiro lugar. Antes. Ora. direta ou indiretamente. O que caracteriza o crime é o fato de ele determinar a pena. Portanto. se nossa defi­ nição do crime for exata. é uma ofensa a uma autoridade de certa forma transcendente. ela deverá explicar todas as ca­ racterísticas da pena. seja pelo grau de gravidade reconhecido aos crimes dirigidos contra ele. e. por sinal. Esta. uma maneira de verificar o resulta­ do a que acabamos de chegar. O crime não é apenas a lesão de interesses. E dela que. de outro lado. precisamos estabelecer quais são es­ sas características. veremos que é nas sociedades inferiores que essa autoridade é maior e essa gravidade mais elevada. por sua vez. in­ clusive consideráveis. Além de não poderem provir de outra fonte e de. não obstante. os fatos seguintes. confirmam essa explicação. é sempre a essa última que convém tomar. decorre toda crimi­ nalidade. Vamos proceder a essa verificação. que serão amplamente desen­ volvidos em toda a seqüência desta obra. a pena consiste numa reação passional.56 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL tes últimos que ela recebe toda a energia que lhe permite criar crimes e delitos. Essa característica é tanto mais aparente quan­ . porém. A amplitude da ação que o órgão governa­ mental exerce sobre o número e sobre a qualificação dos atos criminosos depende da força que ele contém. experimentalmente. não há força moral superior ao indivíduo. Portanto. Ora.

por si mesmo.15. Em Roma. A dor que ela inflige não é mais. Portanto. mas a previdên­ cia refletida que determina a repressão. ser generalizadas. mas para que o temor da pena paralise as más vontades malignas. Não é mais a cólera. em suas mãos. depois de ter destruído aquele que a susci­ tou de maneira mais imediata. castigam os animais que co­ meteram o ato reprovado13 e até os seres inanimados que foram o instrumento passivo desse ato14. seus vizinhos. Assim. muitas vezes ela vai bem além do culpado e atinge inocentes: sua mu­ lher. Porque a paixão. é para se de­ fender. a pena tão generalizada de talião porventura não é uma satisfação dada à paixão da vin­ gança? Mas hoje. faz sentir sua presença pela tendência que possui a superar em gravidade o ato contra o qual reage. Ela pune. uma multa equivalente ao duplo ou ao quádruplo do valor deste16. Mesmo que a pena seja aplicada apenas a pessoas. mas apenas punir. só se detém uma vez esgotada. etc. Mesmo quando é moderada o bastante para se ater ao culpado. mais uma vez. fazem o culpado sofrer uni­ camente para fazê-lo sofrer e sem esperar. não porque o castigo lhe oferece. a natureza da pena mudou. para si. que é a alma da pena. As observações precedentes não poderiam. mas pagar. De fato. seus filhos. não é mais» para se vingar que a sociedade pune. de uma maneira totalmente mecâ­ nica. ne­ nhuma vantagem do sofrimento que lhe impõem. ela se estenderá mais longe. elas . Prova-o o fato de não procurarem punir de maneira justa ou útil. alguma satisfação. dizem. além disso. os povos primitivos punem por punir. lhe restarem forças. É daí que vêm os requintes de dor acrescentados ao últi­ mo suplício. senão um instrumento metódico de proteção. se. pois.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 57 to menos cultas são as sociedades. Aliás. o ladrão devia não apenas restituir o objeto roubado.

mas. conquanto instintivo e irrefletido. numa necessi­ dade irracional de destruir. E uma arma defensiva que tem seu preço.58 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL diriam respeito apenas à forma primitiva da pena e não poderiam ser estendidas à sua forma atual. Assim. Hoje. É bem possível que. por que se transformaria pelo simples fato de que se percebem melhor os efeitos que ela produz? Ela se adapta às novas condições de existên­ cia que lhe são assim criadas sem mudanças essenciais. mas é uma arma grosseira. ao sabor das causas cegas que a impelem e sem que nada modere seus arrebatamentos. Ela constitui. na história da humanidade. Ela já podia. num movimento passional e ininteligente. é um erro crer que a vingança seja ape­ nas uma crueldade inútil. mas sem que isso fosse percebido. Mas para que tenhamos o direito de distinguir de m aneira tão radical essas duas esp écies de penas. na realidade. difunde-se um pouco ao acaso. em si mes­ ma. com efeito. em suma. sabemos utilizar melhor os . ela consista numa reação mecânica e sem objetivo. de fato. e o que nos fez mal é sempre um perigo. pois. o pa­ pel negativo e estéril que lhe é atribuído. a vingança está longe de ter tido. A natureza de uma prática não muda ne­ cessariamente porque as intenções conscientes dos que a aplicam se modificam. um verdadeiro ato de defesa. O instinto da vingança nada mais é. não pode regular-se em conseqüência deles. E o que acontece com a pena. o que ela tende a destruir era uma ameaça para nós. como conhecemos melhor o objetivo a alcançar. Com efeito. Nesse caso. do que o instinto de conservação exasperado pelo perigo. Só nos vingamos do que nos fez mal. Como ela não tem consciência dos serviços que presta automaticamente. em vez disso. desempe­ nhar o mesmo papel outrora. não basta constatar que são empregadas tendo em vista fins diferentes.

seria perigoso para a sociedade se os atentados mais graves fossem assimila­ . essa graduação não é necessária se a pena não for mais que um meio de defesa. podemos esperar que os elemen­ tos essenciais da pena sejam os mesmos de outrora. Entre a pena de hoje e a de outrora não há. com a maior exatidão possívél. Sem dúvida. conquanto de maneira mais imperfeita. Prova disso são as minuciosas precauções que tomamos para proporcioná-la. com maior eficácia. Diz-se que não fazemos o cul­ pado sofrer por sofrer. sejam eles cons­ cientes ou não. tais precauções seriam inex­ plicáveis se não acreditássemos que o culpado deve so­ frer por ter cometido o mal e na mesma medida. por conseguinte. definir a pena tal como é ou foi. por en­ quanto. mas não é isso que está em questão. portanto. estimamos que ela deve ser. protegemo-nos com mais método e. A estrutura inter­ na dos fenômenos permanece a mesma. a consciência individual ou social não tem o poder de mudar sua natureza. De fato. Supondo-se que a pena possa real­ mente servir para nos proteger futuramente. ainda que exerça uma certa influência sobre a realidade que ilumina. desde o prin­ cípio. Talvez estejamos errados. Ora. é certo que essa expressão de vindita pú­ blica. à gravidade do crime. Toda a diferença vem do fato de que ela produz seus efeitos com maior consciência do que faz. a pena permaneceu. não tal como deve ser. não era neces­ sário que a primeira se tomasse outra coisa que não ela mesma para se acomodar ao papel que desempenha em nossas sociedades civilizadas. que retoma sem cessar na linguagem dos tribunais. Procuramos.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 59 meios de que dispomos. de fato. Ora. E. que achamos justo que sofra. Portanto. antes de mais nada. uma expiação do passado. não é uma palavra vã. Mas. porém. por conseguinte. um abismo. esse resultado era obtido. não é menos verdade. pelo menos em par­ te. uma obra de vingança.

60 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL dos a simples delitos. mas pensamos sempre que deve haver uma equação entre esses dois termos. Se. tenhamos ou não vanta­ gem em estabelecer esse equilíbrio. mas só poderia haver vantagem. a intensidade da segunda deveria ser medida unicamente segundo a in­ tensidade da primeira. nem por isso são menos intensas. na maioria dos casos. A escala penal deveria compreender. nem a do castigo. Portanto. O que vinga­ mos. para neutralizar seus maus instintos. . por conseguinte. como foi dito. deveríamos recorrer aos mesmos meios. Contra um inimigo. o que era para nossos pais: ainda é um ato de vingança. apenas um pequeno número de graus. já que é uma expiação. Os ladrões são tão fortemente propensos ao roubo quanto os assas­ sinos ao homicídio. embora o entendamos num sentido mais elevado do que outrora. Ora. a resistência que os primeiros ofere­ cem não é inferior à dos segundos. bastam penas menos fortes? Mas se suas tendências são menos perversas. mesmo se ficasse patente que um culpado é definitivamente incurável. Já não medimos de uma maneira tão material e grosseira nem a extensão do erro. não se poderiam tomar demasiadas precauções. a pena per­ maneceu. sem que a qualidade desta fosse levada em conta. se tratasse unicamente de reprimir uma força nociva mediante uma força contrária. Um ladrão incorrigível seria tratado como um as­ sassino incorrigível. para vencê-las. Alguém dirá que os auto­ res dos malefícios menores têm naturezas menos perver­ sas e que. na verdade. pois. e não segundo a natureza do ato cri­ minoso. em que os segundos fossem assimila­ dos aos primeiros. ain­ da nos sentiríamos obrigados a não lhe aplicar um castigo excessivo. é o ultraje à moral. a pena só deveria variar conforme o criminoso fosse mais ou me­ nos empedernido. o que o criminoso expia. para nós. É a prova de que permanecemos fiéis ao prin­ cípio de talião.

que dobra a maioria das penas e que cresce com elas. para reco­ nhecer que seu móvel é totalmente passional. a natureza da pena não mudou essencialmen­ te. porque é a paixões que se dirigem tanto o magistrado que acusa. aliás. ou como complemento de uma pena material bastante fraca. caso contrário. mas. e é sob a influência dessas paixões contrárias que o juiz pronuncia sua sentença. que eles se estendem com freqüência a inocen­ tes. assim. a nada serve. Na maioria dos casos. os instrumentos que serviram a ele. Para que estigmatizar um homem que não deve mais viver na companhia de seus semelhantes e que provou abundantemente. ou que não pode ter outra cau­ sa além da necessidade de compensar o mal pelo mal. ou os parentes do culpado por vezes participam do opróbrio com que marcamos este último. Tudo o que se pode dizer é que a necessidade de vin­ gança está mais bem dirigida hoje do que ontem. que as mais temíveis ameaças não bastam para intimidá-lo? Compreende-se o estigma quando não há outra pena. por que mantê-los? Eles são uma espécie de suplício suple­ mentar e sem finalidade. O espí­ rito de previdência que se despertou não deixa mais o .A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 61 Há sobretudo uma pena em que esse caráter passio­ nal é mais manifesto do que em outras: é a vergonha. despertar os sentimentos sociais que o ato criminoso ofendeu. as causas que determinam essa repressão difusa também são as da repressão organizada que acompanha a primeira. co­ mo o advogado que defende. Pode-se mesmo dizer que a sociedade só recorre aos castigos le­ gais quando os outros são insuficientes. Ora. aquele. o local do crime. por sua conduta. então. ver nos tribunais como a pena funciona. Este procura suscitar a sim­ patia pelo culpado. Basta. É a tal ponto um produto de sentimentos instintivos e irre­ sistíveis. Assim. ela é supérflua.

pois não se concebe um privilégio imposto e ao qual o beneficiário não possa renunciar. ela só pode ser suspensa pelo go­ verno em nome da sociedade. a ra­ pina. opõe-se às violências absurdas. No entanto. voltar-se contra inocentes. Mais esclarecida. opu­ nham-se aos crimes propriamente ditos. Podemos dizer.62 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL campo tão livre ã ação cega da paixão. Encontramos a mes­ ma distinção na Grécia e entre os hebreus1 ?. às vezes. como tende a . já não a vemos. uma vez pronunciada. ela se difunde menos casualmente. ele a contém em certos limites. cuja repressão era perseguida em nome da cidade. a alma da penalidade. Entre os po­ vos mais primitivos. porém. certos malefícios eram punidos com uma multa em bene­ fício da parte lesada. e o atentado dirigi­ do contra ela é que é reprimido pela pena. uma coisa ainda mais completamente privada. mas poderia acontecer que não o fizesse por sua conta. que podia renunciar a ela ou tornála objeto de transação: era o roubo não manifesto. aos estra­ gos sem razão de ser. para satisfazer-se apesar de tudo. Se fosse uma satisfação concedida aos particulares. estes sempre poderiam sus­ pendê-la. que a pena consiste numa reação passional de intensidade graduada17. o prejuízo injustamente causado18. Esses delitos. Mas de onde emana essa reação? Do indivíduo ou da sociedade? Todo o mundo sabe que é a sociedade que pune. é porque ela é atingida ao mesmo tempo que os indivíduos. Se apenas a sociedade dispõe da repressão. Em Roma. podemos citar casos em que a execução da pena depende da vontade dos particulares. portanto. chamados de privados ( delicta privata). O que põe fora de dúvida o caráter social da pena é que. Ela continua sendo. a injúria. a pena parece ser.

em primeiro lugar. como o direito penal não pode ter mu­ dado de natureza em conseqüência dessa simples transfe­ rência. essa teoria é contrária aos fatos mais bem estabelecidos. em atos de vingança privada. Ora. é ela que os vinga. só pode ser. a importância desses fatos é que se sustentou com freqüên­ cia que a vendetta fora primitivamente a única forma da pena: esta teria portanto consistido. é certo que o direito penal era. na origem. Do ponto de vista da doutri­ na. agora. Mas. o que aumenta ainda mais. se hoje a socie­ dade se acha armada do direito de punir. O mesmo se dava na antiga Germânia23. provavelmente porque os gere melhor. que são comodamente designados pela expressão de clãs. os próprios indivíduos se vingavam. já que o direito aí praticado era tido como revelado21. quando um atentado é cometido por um ou vários membros de um clã contra outro. então. por mais difundida que seja. é este último que pune a ofensa sofrida20.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 63 prová-lo o uso da vendetta. essencialmente religioso. No Egito. e Eliano afirma que os sacerdotes egípcios exerceram desde sempre o poder judiciário22. é apenas como substituta dos indivíduos. de natureza quase fa­ miliar. os dez livros de Hermes. São os interesses deles que ela gere em seu lugar. ele não teria nada de propriamente social. Contudo. em virtude de uma espécie de delegação dos indivíduos. Na . Mas. portan­ to. Se a sociedade parece desempenhar um papel prepon­ derante. Essas sociedades são com­ postas de agregados elementares. ao menos em aparência. Muito ao contrário. Não se pode citar uma só sociedade em que a vendetta tenha sido a forma primitiva da pena. eram chamados sacerdotais. Ela não é mais que a mandatária destes. que continham o direito criminal com todas as outras leis relativas ao governo do Estado. É este um fato evidente nos casos da índia e da Judéia. mas não são os dela própria. No início. ao que parece.

a importância relativamente pequena que têm as prescrições protetoras dos indivíduos e. nas sociedades inferiores. Ora. Longe de perseguir fins individuais. contra a autoridade. a sacrifícios. A vida religiosa é toda ela feita de abnegação e desinteres­ se. ao contrário. as origens religiosas do direito penal são evidenciadas tanto por velhas tradições25. uma vingança do deus24. a religião é coisa essencialmente social. etc. se o direito criminal é. Entre os ju­ deus. pequenos ou grandes. podemos estar certos de que os interes­ ses a que serve são sociais. os delitos mais numerosos são os que lesam a coisa pública: delitos con­ tra a religião. às exigências do cerimonial. o luxuriante desenvolvi­ mento da legislação repressiva das diferentes formas do sacrilégio. ora.27. deve se impor toda sorte de privações que lhe forem ordenadas. deve ti­ rar do tempo de seu trabalho ou de suas distrações os momentos necessários à consumação dos ritos. contra os costumes. Por isso. das faltas aos diversos deveres religiosos. não as dos particula­ res. a justiça era considerada uma emanação de Júpi­ ter. até mesmo renunciar à vida. etc. nos monumentos que nos restam do velho direito egípcio. um direito religioso. Portanto. os atentados mais abomináveis são os cometidos . que lhe custam. São as ofensas a eles próprios que os deuses vingam com a pena. se os deuses ordenarem. primitivamente. Basta ver na Bíblia. nas leis de Manu. como por práticas arcaicas que subsistiram até bem tarde e como pela própria termi­ nologia jurídica26. as ofensas contra os deuses são ofensas contra a sociedade. Ela o obriga a práticas que o incomodam. Ao mesmo tempo.64 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Grécia. e o sentimento. Ele deve tirar de seus bens as oferendas com que deve presentear a divindade. Em Roma. esses crimes são os mais severamente punidos. ela exerce so­ bre o indivíduo uma coerção permanente.

a vendetta é. o menor sacrilégio é punido com a morte31. na mesma medida não é uma pena. não é exatamente um delito. se é a so­ ciedade que pronuncia a pena. a vin­ gança privada está longe de ser o protótipo da pena. ao mesmo tempo. Em Roma. Ele possui traços de ambos e flutua sobre os confins dos dois domínios. que é a única a dispor livremente dele33. no topo da escala da criminalidade se encontra o crimen perduellionis32. uma expiação. o delinqüente não é apenas obrigado a reparar o prejuízo que causou. Do mesmo modo. É um direito que ela confere à parte lesada. em parte. Assim. o delito privado do direito romano representa uma espécie de intermediário entre o crime propriamente dito e a lesão puramente civil. esses fatos apenas con­ firmam o que dissemos sobre a natureza da penalidade. mas que deixa aos cuidados dos particulares infligir. Entre os antigos germanos. a princípio eles se encontram ape­ . um castigo que a sociedade reconhece como legítimo. evidentemente. e vice-versa. Se essa espécie de sanção intermediária é. ao contrário. No entanto. Segundo Confúcio e Meng-Tseu. a impiedade é falta maior que o assassinato3». quanto mais apagado é o caráter social.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 65 contra a religião28. não é ela que deve apli­ cá-la. apenas dois crimes eram punidos com a morte. ela nada mais é que uma pena imperfeita. Portanto. então. à sanção repressiva e à sanção restitutiva. Mas. É um delito no sentido de que a sanção fixada pela lei não consiste simplesmente em restaurar as coi­ sas. Seu caráter penal é tanto menos pronunciado. segundo Tácito: a traição e a deserção29. Lon­ ge dos atentados contra as pessoas terem sido os primei­ ros a ser reprimidos. uma coisa privada. mas deve algo mais. No Egito. Portanto. pois. que são essas penas privadas cujos exem­ plos relatávamos mais acima? Elas têm uma natureza mis­ ta e estão ligadas.

quanto à repressão legal. ou. que sucede às ações simplesmente imo­ rais. em suas linhas essenciais.66 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL nas no limiar do direito penal. Temos. a pena é predetermi­ nada para cada categoria de atos defeituosos. pois há muitas sociedades em que esta existe sem ser fi­ xada de antemão. e o resultado dessas intromissões é colocar cada vez mais no lugar do direito dos particulares aquele da socie­ dade34. Só se elevaram na escala da criminalidade na medida em que a sociedade se apos­ sou mais completamente deles. como dissemos. ao mesmo tempo exprimem tamanho horror pelo ato proibido que não se pode suspeitar um só instante que ele permanecesse impune35. dos grupos elementares que ela encerra em seu seio. sim. de certa latitude para aplicar a cada caso particular essas disposições ge­ rais. O juiz dispõe. No entan­ to. se os textos são mudos sobre a pe­ na. antes. decerto não se reduziu a uma sim­ ples transferência. não são sancionadas por nenhum castigo expressamente formulado. no entanto. Há na Bíblia inúmeras proibições que não poderiam ser mais imperativas e que. o fato de ser organizada. mas. razão de crer . seu caráter penal não dá mar­ gem a dúvidas. Muito ao contrário. imaginamos um código em que penas bem definidas são atribuídas a crimes igualmente definidos. que não nos cabe descrever. mas em que consiste essa organização? Quando pensamos no direito penal tal como funcio­ na em nossas sociedades atuais. pois. pois. Mas as características precedentes pertencem tanto à repressão difusa. a história dessa pe­ nalidade nada mais é que uma série contínua de intro­ missões da sociedade nas atribuições do indivíduo. essa sábia organização não é constitutiva da pena. Não obstante. O que distingue esta últi­ ma é. e essa operação.

arbitrio et officio judieis. De resto. o princípio geral da penalidade “é que sua aplicação era deixada ao arbítrio do juiz. Assim. mesmo até o século XVI. que fixava soberanamente a pena por uma lei. que. por conseguinte. Outro efeito desse poder do juiz era fazer depender intei­ ramente de sua apreciação até mesmo a qualificação do ato criminoso. muitos relatos do Pentateuco nos ensinam que havia atos cujo valor crimi­ noso era inconteste e cuja pena só era estabelecida pelo juiz que a aplicava.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 67 que esse silêncio da lei se deve simplesmente a que a re­ pressão não era determinada. era ela mesma inde­ terminada39. Portanto. o mesmo acontecia na Roma primitiva. Mas não é permitido ao juiz inventar penas diversas das que são de uso”38. ao mesmo tempo que estabelecia a realidade do fato incriminado37. Como quer que este seja composto. sem dizerem que gênero de morte devia ser infligido. Além disso. De fato. Tampouco é na instituição de um procedimento cri­ minal: os fatos que acabamos de citar demonstram bas­ tante claramente que ela faltou por muito tempo. muitas há que não são especificadas com precisão. pois. os textos fa­ lam apenas da morte de maneira geral.. mesmo entre as penas que são enuncia­ das pelo legislador. não é na regulam entação da pena que consiste a organização distintiva desse gênero de repres­ são. mas a sanção pe­ nal que devia ser vinculada a ele ainda não era defini­ da36. quer com­ .. os crimi­ na eram perseguidos diante da assembléia do povo. A sociedade sabia muito bem que se encontrava em presença de um crime. A única organização que se encontra onde quer que haja pena propriamente dita reduz-se. no entanto. ao estabelecimento de um tribunal. num grande número de casos. Segundo Sumner Maine. sabemos que havia diferentes sortes de suplícios que não eram postos em pé de igualdade.

III Todo estado forte da consciência é uma fonte de vi­ da. que reajamos energicamente contra a causa que nos ameaça com tal diminuição.68 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL preenda todo o povo ou apenas uma elite. tudo o que tende a enfraquecê-lo nos diminui e nos deprime. É inevitável. uma sombra inerte projeta­ da em nós pelas coisas. pelo simples fato de ter com o intermediário um órgão definido. que nos esforcemos por afastá-la. quer siga ou não um procedimento regular. tanto na instrução da cau­ sa com o na aplicação da pena. uma simples imagem da realidade. a rea­ ção coletiva deixa de ser difusa: passa a ser organizada. mas uma força que ergue a seu redor todo um turbilhão de fenômenos orgânicos e psí­ . é subme­ tida à apreciação de um corpo constituído. que a sociedade exer­ ce por intermédio de um corpo constituído contra aqueles de seus membros que violaram certas regras de conduta. mas desde esse momento existe. resulta daí uma impressão de confusão e de mal-estar análoga à que sentimos quando uma função im­ portante é suspensa ou retardada. com efeito. A pena consiste. a definição que demos do crime explica facil­ mente todas essas características da pena. A organização poderá ser mais completa. é um fator essencial de nossa vitalidade geral. de intensidade graduada. Por con­ seguinte. essencialmente. em vez de ser julgada por cada um. No primeiro plano das causas que produzem esse resultado. a fim de mantermos a integridade de nossa consciência. pois. numa reação passional. Ora. devemos colocar a representação de um esta­ do contrário. pois. pelo simples fato de que a infração. Uma representação não é.

nos centros sensoriais. No entanto. Não somente a corrente nervosa que acompanha a ideação se irradia nos centros corticais em torno do ponto em que se originou e passa de um plexo a outro. É como se uma força estranha se houves­ se introduzido em nós. ao mesmo tem­ po. ela penetra em nós e. ao mesmo tempo. os mesmos movimentos. onde desperta imagens. de fa­ to. e as mudanças que nela sobre­ vêm. ela tende a despertar as mesmas idéias. Assim. quando se trata de uma crença que nos é cara.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 69 quicos. Toda ofensa di­ . pois. encontrando-se em antagonis­ mo com tudo o que em nós encontra. nada há de muito dolo­ roso. quanto mais desenvolvido for o seu elemento emocional. não permitimos e não podemos permitir que seja impunemente ofendida. Eis por que uma convicção oposta à nossa não pode se manifestar em nossa presença sem nos perturbar: é que. mas ressoa nos centros motores. é como se ele mes­ mo tivesse entrado em nossa consciência. de modo a desconcertar o livre funcionamento de nossa vida psíquica. esse ressoar é tanto mais conside­ rável quanto mais intensa for a própria representação. excita por vezes começos de ilusões e pode até afetar as funções vegetativas40. pois nada há de muito profundo. a representação de um sentimento contrário ao nosso age em nós no mesmo sentido e da mesma manei­ ra que o sentimento que ela substitui. as mesmas afinidades. uma resistência ao jo­ go de nosso sentimento pessoal e. Ela opõe. Sem dúvida. atraindo numa direção contrária toda uma parte de nossa energia. onde determina movi­ mentos. afetam-nos ape­ nas debilmente. a mais elevada e a mais su­ perficial da consciência. embora menos vivas. A região dessas idéias é. não tendo repercussões extensas. determina verda­ deiras desordens. enquanto o conflito só se manifesta entre idéias abstratas. o de­ bilita. as mesmas emoções. Ela tem. por conseguinte.

e os sentimentos assim provocados não podem deixar de se traduzir por atos. fugimos dele. De fato. Em todos esses casos. que a cólera era inútil. uma convo­ cação de forças suplementares que vêm restituir ao senti­ mento atacado a energia que a contradição lhe retira. e se contentam com manter suas respectivas situações. Todas essas emoções violentas constituem. nos indignamos contra ele. ela consiste numa sobreexcitação de forças latentes e disponíveis que vêm ajudar nosso sentimento pessoal a encarar os perigos. algumas vezes. se o conflito dos sentim entos não engendra suas conseqüências naturais. ficamos com rai­ va. é porque é impedido de produzi-las. banimo-lo de nossa companhia. então. que se volta contra o ofensor. não pretendemos que toda convicção forte seja necessariamente intolerante. não é porque não as contenha. elas são úteis ao mesmo tempo que necessárias.70 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL rigida contra ela suscita uma reação emocional. por ser tãosó uma paixão destrutiva. então. a observação cor­ rente basta para demonstrar o contrário. etc. elas contribuem para m antê-las. Aliás. mas isso é vê-la apenas sob um de seus aspectos. reforçan- . não poden­ do entredestruir-se. pode haver entre os adversários uma simpatia geral que contenha seu anta­ gonismo e o atenue. Foi dito. Sem dúvida. A tolerância recíproca que por vezes encerra as guerras religiosas costuma ser dessa natureza. mantemo-lo à dis­ tância. mais ou menos violenta. quando fica claro que esta é incapaz de levar ao que quer que seja. Mas é preciso que essa simpatia seja mais forte do que esse antagonismo. Por exemplo. toleram-se mutuamente. na realidade. Ou. aquelas cujos efei­ tos acabamos de analisar. as duas partes em presença renunciam à luta. Mas isso porque as causas externas neutralizam. Além de derivarem forçosamente das causas que as pro­ duzem. de outro modo não sobrevive a ele. Nós nos arrebatamos.

Pode até acontecer que. portanto. se assim podemos falar. comunica-lhe o que ela própria tem de vitalidade. os segundos se adicionam. Ora. é mais viva do que cada uma delas considerada isolada­ mente. Não é sequer necessário que já sintamos por nós mesmos. se reservas passionais não entrassem em ação no momento necessário. sucumbir. a cólera nada mais é que uma mobilização dessas reservas. Do m esm o m odo que estados de consciência contrários se enfraquecem reciprocamente. pelo simples fato de serem sentidos por uma comunidade de homens em relação uns com os outros. superpor-se a ela. bem pouca coisa. Se alguém exprime diante de nós uma idéia que já era nossa. Basta que não sejamos um terreno demasiado refratário para que. No estado de paz. dessa fusão sai uma nova idéia. as causas desse fenômeno são hoje bem conhecid as41. a representação que fazemos dela vem se somar à nossa própria idéia. Enquanto os primeiros se sub­ traem. em conseqüência. porque o que a ele acrescentamos é. confundir-se com ela. longe de nos abalar. uma emoção pode adquirir tamanha violência: é que a vivaci­ dade com a qual ela se produz em cada consciência res­ soa em todas as demais. para que ele adquira em nós tamanha intensidade. em virtude apenas de nossa natureza individual. fortalecem-se uns aos outros. nas assem bléias numerosas. que absorve as precedentes e. sabe-se que grau de energia pode alcançar uma crença ou um sentimento. imponha-se a nós. um sentimento coletivo. se o socorro assim evocado supera as necessidades. em suma. Eis por que. intercambiando-se. dado que os sentimen­ . penetrando do exterior com a força que traz de suas ori­ gens. a discussão tenha por efeito fortalecer-nos ainda mais em nossas convicções.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 71 doas. esse sen­ timento não se encontra suficientemente armado para a lu­ ta e poderia. Portanto. estados de consciência idênticos.

essa contradição não for puramente teórica. o dever. é uma sim ples idéia. Se. há a idéia de uma satisfação concedida a alguma força. não poderemos deixar de nos elevar apaixonadamente contra ela. um caráter dessa reação que foi freqüentemente assinalado como sendo irracio­ nal. A força contra a qual o crime vem se chocar é demasia­ do intensa para reagir com tanta moderação. Esse algo.72 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL tos que o crime ofende são. fora e acima de nós. no seio de uma mesma socie­ dade. real ou ideal. re­ presentamo-lo sob a forma de um ou vários seres con­ cretos: os ancestrais. nós o concebem os de maneiras diferentes segundo os tem pos e os am bientes. mas também por atos. ela não poderia fazê-lo sem se enfraquecer. É por essa mesma razão que explicamos a nós mesmos como eles nos parecem reclamar uma sanção superior à sim- . Quando reclamamos a re­ pressão do crime. como a moral. é impossível que tolerem a contradição. no fundo da noção de expiação. assim. Uma simples restauração da ordem perturbada não seria capaz de nos bastar: precisamos de uma satisfação mais violen­ ta. Aliás. às vezes. em sua origem. sendo então levada a seu auge. com o também guarda sempre certa marca de re­ ligiosidade: os atos que ele castiga parecem ser atenta­ dos contra algo transcendental. ser ou conceito. a divindade. se ela se afirmar não apenas por palavras. não é a nós que queremos pessoal­ mente vingar. por se­ rem inclusive estados particularmente fortes da consciên­ cia comum. sobretudo. porque é graças à intensidade da reação que ela se recupera e se mantém no mesmo grau de energia. mas a algo sagrado que sentimos de ma­ neira mais ou menos confusa. mais freqüentemente. É certo que. que nos é superior. Pode-se explicar. Aí está por que o di­ reito penal não só é essencialmente religioso. os mais universalmente coletivos possível.

por . em conseqüência da sua origem coleti­ va. cujos estados são muito mais fra­ cos. em certo sentido. projetá-los fora de nós. sob uma forma ou outra. nos prendem a objetos que se encontram fora da nossa vida temporal. portanto. vin­ gando-os. nós que nos satisfazemos. Mas. O entendimento po­ de nos ensinar a interpretar nossas sensações. eles se separam radicalmente do resto da nossa consciência. Portanto. Seguramente. relacio­ nar a algum objeto exterior o que lhes diz respeito. algo de so­ bre-humano e. apesar de sabermos que o sol é um globo imenso. da sua intensidade intrínseca. por assim dizer. e. Apresen­ tam-se. ela se produzirá enquanto houver um sistema repressivo. mas não pode mudá-las. para que fosse de outro modo. Uma vez que esses sentimentos são coletivos. Essa miragem é tão inevitável que. nesse caso. não é a nós que eles representam em nós. não haveria mais pena. pois é em nós e apenas em nós que se encontram os sentimentos ofendidos. Porque. a nós como o eco em nós de uma força que nos é estranha e que.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 73 pies reparação com que nos contentamos na ordem dos interesses puramente humanos. é superior à que so­ mos. essa representação é ilusória. hoje. De resto. é ela e não nós mesmos que vingamos.e. somos nós mesmos que nos vingamos. assim. Mas essa ilusão é necessária. da sua permanência no tempo. Alguém dirá que o erro se dissipará por si mesmo. sabe­ mos. mas à sociedade. o erro é apenas parcial. seria necessário que existissem em nós apenas sentimentos coletivos de uma intensidade medíocre . ademais. sempre o vemos sob o aspecto de um disco de algumas polegadas. da sua universalidade. Como. ao mesmo tempo. assim que os homens de­ le tomarem consciência. esses sentimentos têm uma força excepcional. têm. Eles nos dominam. Necessitamos. com o se fazem essas alienações parciais da personalidade.

segundo a gravidade da ofensa sofrida. ele seria insuficiente. sem que seja necessário fazer sábias suputações para calculá-la. é erradamente que se ataca esse caráter quase religioso da expiação para fazer dela uma espécie de redundância pa­ rasitária. Por outro lado. também. Quanto ao caráter social dessa reação. ao mesmo tempo. O que faz a graduação dos crimes é tam­ bém o que faz a das penas. e dois estados de mesma intensidade reagem desigualmente conforme sejam mais ou menos violenta­ mente contraditos. pois é bom que o apelo de forças seja proporcional à magnitude do perigo. pois as emoções que a determinam nem sempre são as mesmas. elas são úteis. mais ou menos vivas segundo a vivacidade do sentimento ofendido e. Portanto. pois. por conseguinte. a infração co­ metida provoca. com uma espontaneidade mecânica. Fraco demais. ele é um elemento integrante da pena. ele deriva da natureza social dos sentimentos ofendidos. e essa cor­ respondência. Sem dúvida. Ao contrário. as duas es­ calas não podem deixar de se corresponder. ele exprime a natureza de maneira apenas metafórica. de ser útil. compreende-se que a reação penal não seja uniforme em todos os casos. Elas são. Já que a gravidade do ato crimi­ noso varia em função dos mesmos fatores. além disso. de fato. em todos os que a testemunham ou que .74 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL outro lado. Essas variações se produzem necessa­ riamente e. por ser necessária. Dado que es­ tes se encontram em todas as consciências. ela é algo superior ao indivíduo. não deixa. a proporcio­ nalidade que observamos em toda parte entre o crime e o castigo se estabelece. terse-ia uma perda inútil. violento demais. Um estado forte reage mais que um esta­ do fraco. mas a metáfora não é desprovida de verdade.

desprende-se uma cóle­ ra única. O que causa o respeito particular de que são objeto é o fato de serem universal­ . variá­ veis. que é a de todo o mundo sem ser a de ninguém em par­ ticular. e isso com tanto maior força quanto mais forem intensos. ela não se produz isoladamente em cada um. ela amplifica sua força de atra­ ção. nunca o crente se sente tão fortemente ligado a seus correligio­ nários com o nas épocas de perseguição.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 75 sabem da sua existência. quando algum escân­ dalo moral acaba de ser cometido. e não mais apenas com prazer. Sem dúvida. Nunca se sente tanto a necessidade de rever seus compatriotas como quando se está no estrangeiro. pode servir para alguma coisa. conforme o caso. os sentimentos que estão em jogo extraem toda a sua força do fato de serem comuns a todo o mundo. por sinal. encontram-se nos lugares combinados para falar do acontecimento e se indignam em comum. mas com um conjunto e uma unidade. Basta ver o que se produz. Portanto. o que não é a mesma coisa. As pessoas se param na rua. logo todo o mundo se eleva contra o ataque. uma mesma indignação. conforme os casos. do mesmo modo que sentimentos contrários se repelem. o crime aproxima as consciên­ cias honestas e as concentra. sentimen­ tos semelhantes se atraem. A reação não só é geral. de to­ das as cóleras que se exprimem. mas é com paixão. Com efeito. se visitam. são enérgicos por serem incontestes. De todas essas impressões similares que se trocam. De fato. mais ou menos determinada. como é coletiva. sobretudo numa pequena cidade. que a buscamos ao sairmos de discussões em que nossas crenças comuns foram viva­ mente combatidas. É a cólera pública. apreciamos em qualquer tempo a companhia dos que pensam e sentem como nós. Todo o mundo é atingido. Como a contradição é um perigo que os exaspera. aliás. Só ela.

mas a em oção que foi crescendo pouco a pouco im­ pele violentamente. ele implica que esses sentimentos não são absoluta­ mente coletivos e compromete essa unanimidade. Numa palavra. por assim dizer. por conseguin­ te. uns em direção aos outros. só poderá determinar uma fraca concentração das consciências ultrajadas. ao contrário. Explicar-nos-emos essa última característica se obser­ varmos que a repressão organizada não se opõe à re­ pressão difusa. quando o crime se pro­ duz. que esse caso particular é uma anomalia. o único meio para isso é reagirem em co­ mum. Falta dizer por que ela se organiza. garantindo-se mutuamente que estão sempre em uníssono. o crime só é possível se esse res­ peito não for verdadeiramente universal. Já não se contentam com trocar impressões quando têm oportunidade de fazê-lo. as consciências que ele ofende não se unissem para se atestar que permanecem em comunhão. Portanto. mas distingue-se desta apenas por dife­ renças de graus: na primeira a reação tem maior unidade.76 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL mente respeitados. todos os que se assemelham e os reúne num mesmo lugar. em si mesmo. cumpre também que seja ela que resista e que. Ora. De fato. elas não poderiam deixar de ser abaladas a longo prazo. com se aproximarem aqui e ali segundo os acasos ou a maior comodidade dos encon­ tros. a maior intensidade e a natureza mais definida dos sentimentos que a pena propriamente dita vinga expli­ cam com facilidade essa unificação mais perfeita. se o estado negado for fraco ou negado apenas debil­ mente. já que é a consciência comum que é atingida. Ora. a resistência seja coletiva. Mas é preciso que elas se reconfortem. por conseguinte. se for forte. se. Essa . fonte de sua autoridade. se a ofensa for grave. todo o grupo atingido se contrai diante do perigo e se agrupa.

Mas nós sabemos que os sentimen­ tos que as determinam são muito definidos e. o crime. verá as coisas acontecerem como acabamos de descrevê-las. a gênese da pena. e a organiza­ ção prosseguiu em conformidade com as leis gerais de todo desenvolvimento orgânico. as reações emocio­ nais. pois. Era inclusive. Depois. de que cada consciência é o teatro. Muitos fatos tendem a provar que foi essa. originalmen­ te. este se tornou total­ mente. muito embora a pena não seja predeterminada. era a assembléia de todo o povo que exercia a função de tribunal. o próprio povo que executava coletivamente a sentença logo de­ pois de tê-la pronunciado43. Desde que a notícia do crime se difunde. órgão da reação penal. se elas fossem dem asiado diversas. em certos casos. Elas participam. ou em parte. seria impossível uma fu­ são completa entre esses elementos parcialmente hetero­ gêneos e irredutíveis. que. por conseguinte. seja em quantidade. No entanto. Ade­ mais. de fato. seja em qualidade. ao tomar mais íntima a penetração mútua dos espíritos. por conse­ guinte. vêm naturalmente per­ der-se umas nas outras. onde a assembléia se encarnou na pessoa de um chefe. se encontram. Sabe-se. nas condições mais favoráveis para se unificar. é bem a natureza dos sentimentos coleti­ vos que explica a pena e. não por cada um isoladamente.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 77 concentração material do agregado. vê-se de novo que o poder de reação de que as . por conseguinte. confundir-se numa resultante única que lhes serve de substituta e que é exercida. também toma mais fá­ ceis todos os movimentos de conjunto. o povo se reúne e. historica­ mente. mas pelo corpo social assim constituído. a reação se faz com unidade. Se o leitor se reportar aos exemplos que citá­ vamos há pouco a partir do Pentateuco42. muito uniformes. da mesma uniformidade e. pois. Portanto.

Ora. dessa natureza do crime. que existe uma coesão social cuja causa está numa certa conformi­ dade de todas as consciências particulares a um tipo co­ mum que não é outro senão o tipo psíquico da socieda­ de. de fato. IV Assim. porque ela se debilita­ ria se o órgão que a representa não compartilhasse o res­ peito que ela inspira e a autoridade particular que ela exerce. mas também são apegados ao que é a condição de existência desse tipo coletivo. Começamos estabelecendo. nessas condições. aliás. pois é dele que nasce. Um nada mais é que o reflexo do outro. a análise da pena confirmou nossa definição do crime. Acrescente­ mos. não só todos os mem­ bros do grupo são individualmente atraídos uns pelos outros. de fato. uma vez que fizeram sua aparição. Portanto. ele não pode compartilhar sem que todos os atos que o ofendem sejam reprimidos e combatidos. acaba­ mos de ver que todas as características da pena derivam. que este consistia essencialmente num ato contrário aos estados fortes e definidos da consciência comum. Vê-se. Todo o mundo sabe. que espécie de solidariedade o direito penal simboliza. as­ sim como os que ofendem a consciência coletiva. Com efeito. assim. isso acontece porque as regras que ela sanciona exprimem as similitudes sociais mais essenciais. is­ . de forma indutiva. a extensão do pri­ meiro varia de acordo com a do segundo.78 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL funções governamentais dispõem. por se assemelharem. nada mais é que uma emanação do poder que está difuso na sociedade. que a instituição desse poder serve para man­ ter a própria consciência comum. e isso mesmo que ela não seja diretamente afetada por eles.

embora distintas. Por conse­ guinte. mas amam sua pátria. como são os mesmos em toda parte. Não ape­ nas os cidadãos se amam e se procuram entre si. Quando é um dos elementos desta última que determina nossa conduta. por que propomos chamá-la mecânica. elas são solidárias. pelo menos no que ela tem de vital. a segunda representa o tipo coletivo e. no próximo capítulo. sem ela. De fato. ten­ do para as duas um só e mesmo substrato orgânico. ao passo que os estados que a outra compreende são comuns a toda a sociedade44. a sociedade sem a qual ele não existiria. Há em nós duas consciências: uma contém apenas estados que são pessoais a cada um de nós e nos caracterizam. pois. mas perseguimos finalidades coletivas. porque. É essa solidariedade que o direito repressivo expri­ me. poderemos mostrar melhor.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 79 to é. De fato. Essa solidariedade não consiste apenas num apego geral e indeterminado do indivíduo ao grupo. vincula diretamente o indivíduo à sociedade. esses móbiles coletivos produzem em toda parte os mesmos efeitos. os atos . desejam que ela du­ re e prospere. elas constituem uma só coisa. A primeira representa apenas nossa personalidade individual e a constitui. a sociedade que formam por sua reunião. Logo. em suma. por conseguinte. Eles a querem como querem a si mesmos. cada vez que entram em jogo. Ora. essas duas consciências são ligadas uma à outra. mas também tor­ na harmônico o detalhe dos movimentos. porque se trata de uma condição de sua coesão. as vontades se mo­ vem espontaneamente e em conjunto no mesmo sentido. nascida das semelhanças. há toda uma parte da sua vida psíquica cujo funcionamento seria entravado. não agimos tendo em vista o nosso inte­ resse pessoal. prefe­ rindo-se aos estrangeiros. Inver­ samente. Daí resulta uma solidariedade su i g en eris que. a sociedade deseja que eles apresentem todas essas semelhanças fundamentais.

É essa for­ ça que o direito penal protege contra qualquer debilitamento. por si mesmos. ou custam mais do que rendem. as tendências. Portanto.80 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL que ele proíbe e qualifica de crimes são de dois tipos: ou manifestam diretamente uma dessemelhança demasiado violenta contra o agente que as realiza e o tipo coletivo. assim. ele traz a marca de circunstâncias de toda sorte que a sociedade atravessou em sua história. sem as quais o indivíduo se­ ria uma ameaça para a unidade do corpo social. Num caso como no outro. a mesma. porque certos atos foram conside­ rados criminosos e punidos com o tais sem que. mas algumas há que se mantêm sem ser úteis. Explica-se. e aquelas mesmas cujos serviços são os mais incontestes muitas vezes têm uma intensidade desproporcional à sua . e até de encontros fortuitos. ao mesmo passo que as garante. ou ofendem o órgão da consciência comum. nessas condições. que não têm relação alguma com a utilidade social. muitas certamente ou não servem para nada. ao mesmo tempo exigindo de cada um de nós um mínimo de semelhanças. e impondo-nos o respeito ao símbolo que exprime e resume essas semelhanças. seria mi­ lagroso se tudo o que nela se encontra fosse ajustado a algum fim útil. o ser não poderia vi­ ver. Produto do desenvolvimento históri­ co. ela é um produto das similitudes sociais mais essenciais e tem por efeito manter a coesão social que resulta dessas similitudes. pois. sejam maléficos para a sociedade. Sem dúvida. o tipo coletivo for­ mou-se sob o império de causas muito diversas. a maioria delas não poderia ser prejudicial. portanto. que o indivíduo recebeu de seus ancestrais ou que formou em seu percurso. do mesmo modo que o tipo individual. a força que é chocada pelo crime e que o reprime é. Entre as inclinações. De fato. mas não é possível que não se tenham in­ troduzido nela elem entos mais ou m enos numerosos.

Negada de maneira tão categórica. pelo menos. para corrigir o culpado ou inti­ midar seus possíveis imitadores. sua eficácia é justamente duvidosa e. ou só serve de maneira muito secundária. Eis por que é bom. não são tão perigosos quanto reprovados. ou. Mas esse papel não está on­ de costuma ser visto. perigo­ sos em si mesmos. com isso. porque. mas. Todos os atos que as ofendem não são. ela não deixa de desempenhar um papel útil. qual­ quer que seja a origem desses sentimentos. O mesmo vale para as paixões coletivas. toma-se necessário que persistam. se são elemen­ tos essenciais deste. pode-se muito bem de­ monstrar que não há motivo para que uma sociedade proíba comer esta ou aquela carne. tudo o que contribui para abalá-los abala. No entanto. em todo caso. sobretudo. O mesmo se dá com a pena. de movimentos pas­ sionais e em grande parte irrefletidos. mantendo toda a vitalidade da consciência co­ mum. e é is­ so que as consciências sadias sentem obscuramente45. uma vez que fazem parte do tipo coletivo e. Mas. Não era em absoluto útil que nascessem. em geral. portanto. Sem dúvida. a coesão social e compromete a socieda­ de. por si mesma inofen­ siva. uma vez que se tornou parte integrante da consciência comum. e . se uma reação emocio­ nal da comunidade não viesse compensar essa perda. Muito embora proceda de uma reação totalmente mecânica. o horror a esse alimento não pode desaparecer sem que o vínculo social se distenda. ape­ sar da sua irracionalidade. desse duplo ponto de vista. que os atos que os ofendem não sejam tolerados. A pena não serve. raciocinando no abstrato. medíocre.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 81 utilidade. uma vez que duraram. Sua verdadeira função é manter intacta a coe­ são social. porque essa intensidade provém em parte de outras causas. a reprovação de que são objeto não deixa de ter uma razão de ser. esta perderia ne­ cessariamente parte de sua energia.

ao mesmo tempo em que é um produto necessário das causas que a geram. de fato. é certo que a pena tem como função proteger a sociedade. pois. o que se chama consciência moral não poderia ser conservado. mas isso porque é expiatória. sem paradoxo. Pode-se dizer. essas doutrinas só poderiam ser praticadas numa sociedade em que toda e qualquer consciência comum fosse quase abolida. subversivas da ordem social. Com efeito. visto que serve para curar os ferimentos provoca­ dos nos sentimentos coletivos.82 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL daí resultaria um relaxamento da solidariedade social. com isso. é preciso reconciliar as duas teorias contrárias que foram oferecidas para ela: a que vê nela uma expiação e a que faz dela uma arma de defesa social. Eis por que tem-se razão de dizer que o criminoso deve so­ frer proporcionalmente a seu crime. para tantos espíritos. Numa palavra. portanto. o castigo pode mui­ to bem impedir que os atentados se multipliquem. se ela de­ . repara o mal que o crime fez à sociedade. para se ter uma idéia exata da pena. que o crime conti­ nua a inspirar. que o castigo é sobretudo destinado a agir sobre as pessoas honestas. essa dor não é uma crueldade gratuita. útil de resto. é necessário que ela se afirme com vigor no momento em que for contradita. nada mais é que um reflexo particular. e o único meio de se afirmar é exprimir a aversão unânime. mas esse resultado. Sem essa satisfação necessária. Sem dúvida. É o sinal a atestar que os sentimentos são sempre coletivos. prevenindo nos espíritos já abalados um novo debilitamento da alma coletiva. só pode ter esse papel on­ de esses sentimentos existem e na medida em que são vi­ vos. e. Portanto. por outro lado. Assim. É que. mediante um ato autêntico que só pode consistir numa dor infligida ao agente. que a co­ munhão dos espíritos na mesma fé permanece íntegra e. eis por que as teorias que recusam à pena qualquer caráter expiatório parecem.

para as outras partes do direito. procedendo dessa maneira. mais ela cria vínculos que ligam o indivíduo ao grupo. E ver­ dade que. da maior ou menor exten­ são da vida social que a consciência comum abraça e re­ gulamenta. . O mesmo vale. mas porque a pena só pode produzir seu efeito socialmente útil sob es­ sa necessária condição46 Resulta deste capítulo que existe uma solidarieda­ de social proveniente do fato de que certo número de es­ tados de consciência são comuns a todos os membros da mesma sociedade. e mais. evidentemente. não levaremos em conta certos elementos da consciência coletiva que. pelo menos no que ela tem de essencial. em conseqüência de não sei que virtude mística. por outro lado. Não há nenhuma delas que não seja completada por usos e costumes. essa eliminação não corre o ris­ co de alterar os resultados da nossa comparação. ao mesmo tempo em que contribuem para garantir a harmonia social. a coesão social deriva completamente dessa causa e traz a sua marca. mediremos.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 83 ve ser expiatória. determinando que fração do aparelho jurídico repre­ senta o direito penal. como não há razão de supor que a relação entre o direito e os costumes não seja a mesma nessas diferentes esferas. por causa de sua menor energia ou de sua indeterminação. Contudo. O papel que ela representa na integração geral da socie­ dade depende. permanecem estranhos ao direito repressivo. não é porque. o número dessas relações é ele mesmo proporcional ao das regras repressi­ vas. a dor redima a falta. a importância relativa dessa solidariedade. portanto. Quanto mais houver relações diversas em que esta última faz sentir sua ação. ao mesmo tempo. por conseguinte. e. são aqueles que são protegidos por penas simplesmente difusas. porém. É ela que o direito repressivo figura materialmente.

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o juiz os restabelece tal como deveriam ter si­ do. Ele enuncia o direito. Se já há fatos con­ sumados. na medida do possível. essa palavra passa a ter apenas um valor metafó- . As inde­ nizações por perdas e danos não têm caráter penal. não enuncia as penas.CAPÍTULO III A SOLIDARIEDADE DEVIDA À DIVISÃO DO TRABALHO OU ORGÂNICA i A própria natureza da sanção restitutiva basta para mostrar que a solidariedade social a que esse direito cor­ responde é de uma espécie bem diferente. Mas. O que distingue essa sanção é que ela não é expia­ tória. tomada nesse sentido. este é simples­ mente condenado a submeter-se a ele. é verdade. encontrar uma espécie de penalida­ de civil na condenação aos custos. mas se reduz a uma simples restau ração. Tarde acreditou. Um sofri­ mento proporcional a seu m alefício não é infligido a quem violou o direito ou o menospreza. que são sempre arca­ dos pela parte que perde a causa1. sob sua forma normal. são somente um meio de voltar ao passado para restituí-lo.

mesmo que suas intenções fossem puras. de fato. e. admitimos sem dificuldade que o direito das servidões ou o direito dos usufrutos seja organizado de outra maneira. mas aceitamos muito bem que o direito sucessório seja modificado. O temor à ruína que. elas não têm raízes na maioria de nós. Para que houvesse pena.86 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL rico. quem perde o processo paga as custas. Do mes­ mo modo. . em nós. mas a ruína não é. no sentido próprio da palavra. para tanto. a sanção penal de suas faltas. que as funções administrativas sejam distribuídas de acordo com outros princípios. pois essa ciência não é feita. que as obrigações do vendedor e do com­ prador sejam determinadas de outro modo. sua honra não é enodoada. portanto: dado que a justiça não é ministrada gra­ tuitamente. Podemos até imaginar que essas regras sejam diferentes do que são. Ora. Os motivos dessa regra parecem ser outros. É possível. A inobservância dessas regras sequer é punida por uma pena difusa. a nenhum sentimento e como. É pelo menos um problema que não nos recusamos a discutir. em geral. que a perspectiva dessas despesas detenha o demandista teme­ rário. Como essas prescrições não correspondem. seria necessário pelo me­ nos que houvesse alguma proporção entre o castigo e a falta. O pleiteante que perdeu seu processo não é humilhado. seria necessário que o grau de gravi­ dade desta última fosse seriamente estabelecido. mas isso não basta para transformá-las em pena. não co­ nhecemos cientificamente suas razões de ser. de ordinário. e muitos até concebem que ele possa ser suprimido. sem que isso nos revolte. acompanha a preguiça ou a negligência pode tomar o negociante ativo e aplica­ do. parece eqüitativo que as despesas sejam arca­ das por aquele que as ocasionou. mesmo que só fosse culpa­ do de ignorância. aliás. A idéia de que o assassina­ to possa ser tolerado nos indigna.

. o direito civil. ao contrário. mais se afasta. etc. ou são apenas estados fracos desta. as regras puramente morais já são uma parte menos central. Mas. existem exceções. No entanto. pois as . o direito restitutivo nada teria em comum com a solidariedade social. É a prova de que as regras com san­ ção restitutiva ou não fazem em absoluto parte da cons­ ciência coletiva. o direito restitutivo tem origem em regiões bastante excêntricas e se estende muito além daí. por conseguin­ te. essas regras não dizem respeito ape­ nas aos particulares. tribunais administrativos de toda sorte. aliás. conquanto estejam mais ou m enos fora da consciência coletiva. que se tomaram ap­ tos a esse papel graças a uma cultura toda especial. quando se encontra em presença de casos desse gênero. a saber. Por isso. Essa característica. Mesmo em sua parte mais geral. é tornada manifesta pela ma­ neira como funciona. tribunais trabalhistas. Não toleramos a idéia de que um compromisso contrário aos costumes ou obtido quer pela violência. advogados. Enquanto o direito repressivo tende a permanecer difuso na sociedade. O direito repressivo corresponde ao que é o cerne. enfim. É que os diferentes domínios da vida moral não estão radicalmente separados uns dos outros. eles são contínuos e.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 87 Sem dúvida. ele só entra em exercício graças a funcionários parti­ culares: magistrados. o centro da consciência comum. quer pela fraude. a proposição precedente permanece verdadeira na grande maioria dos casos. o direito restitutivo cria órgãos cada vez mais especiais: tribunais consulares. há entre eles regiões limítrofes em que se encontram ao mesmo tempo características diferentes. Se assim fosse. possa vincular os contratantes. a opinião pública se mostra me­ nos indiferente do que dizíamos há pouco e agrava com sua crítica a sanção legal. Quanto mais se toma ele mesmo.

mas se as causas invocadas se enquadram numa das ca­ tegorias previstas pela lei. Ora. É verdade que. No entanto. em geral. Mas a sociedade não está ausente dessa esfera da vida jurídica. por exemplo. não é para acordar in­ teresses individuais. qualquer particular poderia desempenhá-lo e que. se a sociedade dele se encarregava. mas aplica ao caso particular que lhe é submetido as regras gerais e tradicionais do direito. Todavia. mas também quando ela se institui. sua intervenção não deixa de ser uma engrenagem essencial do mecanismo. ela não procura a solução mais van­ tajosa para os adversários e não lhes propõe compromis­ sos. Seriam simples aconteci­ mentos da vida privada. por conseguinte. que esse papel nada tinha de propriamente social. como são. Sustentou-se. as rela­ ções de amizade. ela não intervém por si mesma e por sua iniciativa. era unicamente por motivos de co­ modidade. em que a relação perturbada é restabelecida. ela tem de ser solicitada pelos interessados. para apreciar devidamente a importância da ação social. Mas por ser provocada. Quando ela é chamada a intervir. pois é apenas ela que o faz funcionar. é preciso observá-la não apenas no mo­ mento em que a sanção se aplica. o direito é uma coisa social por excelência e tem um objeto bem di­ ferente do interesse dos litigantes. que. .88 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL relações que regula ligariam os indivíduos uns aos outros sem vinculá-los à sociedade. muito ao contrário. mas se reduzia ao de conciliador dos interesses privados. nada é mais inexato do que fazer da sociedade uma espécie de árbitro entre as partes. O juiz que examina um pedido de divórcio não se preocupa em saber se essa separação é verdadeiramente desejável para os esposos. contudo. É ela que diz o direito por inter­ médio de seus representantes.

por trás das partes que o estabelecem. estas se torna­ riam simples promessas sem mais nenhuma autoridade moral2. por vezes.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 89 De fato. por si mesmos. com todas aquelas que o direito administrativo regulamenta. ela é necessária seja para fundar. sua presença. elas se estabelecem imediatamente. ela só presta essa força obrigatória aos contratos que. Já que as regras com sanção restitutiva são estranhas à consciência comum. por isso. É verdade que as obrigações propriamente contratuais podem se fazer e se desfazer pelo simples acordo das vontades. os esposos não podem nem estabelecê-lo. não é menos essencial3. mesmo que não seja sentida. Portanto. há a sociedade pronta pa­ ra intervir a fim de fazer respeitar os compromissos assu­ midos. as relações que elas determinam não são das que atingem indistintamente todo o mundo. Suponham que ela não sancione as obrigações contratadas. seja para modificar inúmeras relações jurídicas que esse direito re­ ge e que o consentimento dos interessados não basta nem para criar. Portanto. São essas. pelo menos no estado normal. têm um valor social. Mas não se deve es­ quecer que. nem para mudar. que são conformes às regras do direito. se o contrato tem o poder de ligar. . notadamente. ou seja. ela está presente em todas as relações que o di­ reito restitutivo determina. que ligam entre si. não entre o indivíduo e a sociedade. com maior razão. Veremos inclusi­ ve que. nem rescindi-lo a seu bel-pra­ zer. todo contrato pressupõe que. inclusive naquelas que pare­ cem o mais completamente privadas. sua intervenção é ainda mais positiva. e. é a socie­ dade que lhe confere esse poder. mas entre partes restritas e espe­ ciais da sociedade. Por outro lado. isto é. O mesmo se dá com todas as outras relações domés­ ticas e. as que dizem respeito ao estado das pessoas. Con­ quanto o casamento seja um contrato.

bem diferentes das que o direito repressivo regula­ menta. o direito de crédito à segunda. De fato. dado que esta não está ausente dessas relações. Às duas classes de regras que determinam umas e outras corres­ pondem duas espécies de solidariedade social que é ne­ cessário distinguir. Pode-se dizer. O que caracteriza os direitos reais é que só eles dão origem a . Então. Essas relações são. que sinta seus reflexos. o in­ divíduo à sociedade. pois ligam diretamente e sem intermediário a consciência particular à consciência coletiva.90 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL porém. por­ tanto. II A relação negativa que pode servir de modelo para as outras é a que une a coisa à pessoa. é necessário que esteja mais ou menos interessada nelas. intervém mais ou menos de perto e mais ou menos ativamente. pois. a outros o de pes­ soais. Mas essas relações podem adquirir duas formas mui­ to diferentes: ora são negativas e se reduzem a uma pura abstenção. os juristas distinguem duas espécies de di­ reitos: eles dão a uns o nome de reais. por isso. isto é. De fato. segundo a vivacidade com que os sente. que há uma solidariedade das coisas cuja natureza é bas­ tante especial para se traduzir exteriormente por conse­ qüências jurídicas de caráter bastante particular. as coisas fazem parte da sociedade tanto quanto as pessoas e nela representam um papel específi­ co. ora são positivas ou de cooperação. O direito de propriedade e a hipoteca pertencem à primeira espécie. é necessário que suas relações com o orga­ nismo social sejam determinadas. por intermédio de órgãos especiais encarregados de representá-la.

Por serem as­ sim delimitados. a segunda hipoteca não pode restringir em na­ da os direitos da primeira. como é apenas por inter­ médio das pessoas que as coisas são integradas na socie­ dade. por exemplo. este não é afetado. sem a intermediação de nenhuma outra pessoa. o direito que tenho sobre a coisa exclui qualquer outro direito que viesse se estabelecer depois do meu. mas não as pessoas entre si. um bem foi sucessivamente hipotecado a dois credores. mas o comprador é obrigado a me pagar. fazendo abstração dos ou­ tros homens. cujo direito é igual ao meu e. as hostilidades são prévenidas. eles saem da minha garantia saindo do seu patrimônio. quando o direito é pessoal. Por outro lado. é preciso que o vínculo de direito una diretamen­ te. conquanto eu tenha como ga­ rantia todos os bens do meu devedor. A razão disso está em que não há relação especial entre es­ ses bens e eu. a conseqüência da solidarie­ dade própria das coisas. Se. Ao contrário. me dar co-credores. mas apenas que as coisas gra­ vitem com ordem em tomo das vontades. Por conseguinte. os direitos reais não entram em confli­ tos. contraindo novas obrigações. se ele os alienar. podemos exercer um direito real crendo-nos sozinhos no mundo. Ora. a solidariedade que resulta dessa integração é total­ mente negativa. A rigor. Essa situação privilegiada é. Nesse caso. mas não há concurso . Vê-se em que consiste essa solidariedade real: ela li­ ga diretamente as coisas às pessoas. ou a perder o que adquiriu. se meu deve­ dor aliena a coisa sobre a qual tenho um direito de hipo­ teca. Ela não faz que as vontades se movam em direção a fins comuns. a pessoa que tem obrigações para comigo pode. essa coisa determinada à minha personalidade jurídica. mas entre a pessoa de seu proprietário e minha própria pessoa4.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 91 um direito de preferência e de conseqüência. para que seja assim. pois.

a relação mais completa capaz de existir entre uma coisa e uma pessoa é a que coloca a primeira sob a inteira de­ pendência da segunda. mas que são apenas auxiliares e substitutos eventuais de direitos pessoais: a fiança. resulta que o di­ reito de propriedade é seu tipo mais perfeito. a sociedade em que ele reina . a herança é uma coi­ sa ou um conjunto de coisas sobre as quais os herdeiros e os legatários possuem um direito real. quando declarada. da própria definição que dele foi dada. o mais perfeito possível. De fato. não há con sen so. tais com o o segundo livro de nosso Código Civil as regulamenta.se reina só . Convém acrescentar tudo o que é relativo ao direi­ to sucessório. é fácil determinar qual é o papel do direito restitutivo a que essa solidarie­ dade corresponde: é o conjunto dos direitos reais. nosso direito ainda re­ conhece quatro outros direitos reais. 20712203). Mas essa relação é. ela não contribui em nada para a unidade do corpo social. semelhante solidarieda­ de não faz dos elementos que ela aproxima um todo ca­ paz de agir em conjunto.92 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ativo. imobiliária) e suas diferentes moda­ lidades. o privilégio e a hipoteca (art. artística. Com efeito. Pode-se portanto dizer. Portanto. em suma. ela mesma. De acordo com o que precede. pois ela cria. e os diversos elementos de que é for­ mada podem se tornar objeto de igual número de direi­ tos reais secundários. uma espécie de sucessão provisória. muito complexa. a anticrese. Suponham um acordo assim. que os direitos reais compreendem o direito de propriedade sob suas diversas formas (propriedade literária. por conseguinte. industrial. as servidões. com o o usufruto. quer este seja . à ausência. Ora.parecerá uma imensa constelação em que cada astro se move em sua órbita sem perturbar os movimen­ t o s dos astros vizinhos. mobiliária. ao direito de testar e. o uso e a habitação. Fora desse livro.

apesar de não serem reais. 566). De fato. Se o detentor de cada direito real sempre pudesse exercê-lo sem nunca ultrapassar seus limites. Em primeiro lugar. Mas há relações de pessoa a pessoa que. sobre a porção destes que se acha disponível. quer só se abra em conseqüência de um ato jurídico. Essa obrigação é evidentemente pessoal. são tão negativas quanto as precedentes e exprimem uma solidariedade de mesma natureza. as próprias pessoas de seus detento­ res. como acontece com os herdeiros indiretos e os legatários a título particular. elas só se estabelecem para reparar ou para prevenir uma le­ são. ou. proprietário da segunda. mas en­ tre uma pessoa e uma coisa. 1014). conquanto tenha um direito sobre esta desde o falecimento do testador (art. pelo menos. de fato. Mas a solidariedade que essas relações expri­ mem não difere da que acabamos de falar. quando uma coisa vem se somar a ou­ tra. a relação jurídica é direta­ mente estabelecida não entre uma pessoa e outra. o proprietário da que é considerada a principal se torna. que nada mais é que o exercício do di­ reito real que o proprietário tem sobre seus bens. Em todos os casos. Do mesmo modo. Um legatário a título particular é obrigado a se dirigir ao legatário universal para obter a liberação da coisa legada. só que “tem de pagar ao outro o valor da coisa que foi acrescentada” (art. Por exemplo. não haveria espaço para ne­ . 658).A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 93 adquirido ipsofacto pelo falecimento do proprietário. O mesmo se dá com a doa­ ção testamentária. todo proprietário de um muro divisório que quer elevá-lo é obrigado a pagar ao co-proprietário a indenização pela taxa (art. cada um fi­ cando em seus domínios. com isso. por vezes. são elas que o exercício dos di­ reitos reais propriamente ditos ocasiona. é inevi­ tável que o funcionamento destes últimos coloque em presença.

ela resulta não de um con­ curso. no outro. na realidade. Toda a diferença que existe entre essas relações e as precedentes está em que. Portan­ to. elas obrigam cada um a reparar o prejuízo que causou. Enfim. Portanto. elas só ocorrem para melhor separar o que está unido pela força das coisas. simplesmente restauram ou mantêm. mas trataram-nas ao mesmo tempo que os direitos reais. Longe de unir. ou para impedilo. com sua falta. que não se pode valorizar um sem invadir os que o limitam. se consumado. para res­ tabelecer os limites que foram violados e recolocar cada um em sua esfera própria. Mas a or­ dem perturbada é a mesma. nas novas condições que se produziram. mas de uma pura abstenção6. Aqui. não posso desfrutar de meu direito sem prejudicar o direito alheio: é o caso de certas servidões.94 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL nhum comércio jurídico. os próprios di­ . Mas. a ruptura provém de uma falta e. são pessoais. num caso. mas em não prejudicar. são necessárias certas relações para reparar o prejuízo. não implicam ne­ nhuma cooperação. acontece o tempo todo que esses diferentes direitos são tão enreda­ dos uns nos outros. Elas são tão idênticas às rela­ ções da coisa com a pessoa que os redatores do Código não lhes criaram um lugar à parte. De fato. Aliás. pois elas não consistem em servir. a coisa sobre a qual eu tenho um direito se encontra nas mãos de outro: é o que acontece no caso do legado. O vínculo cuja ruptura sancionam é totalmente exterior. mas a solidariedade a que correspon­ dem é evidentemente negativa. essa solidarieda­ de negativa cujo funcionamento as circunstâncias vieram perturbar. as obrigações que nascem do delito e do quase-delito têm exatamente o mesmo caráter5. de circunstâncias determinadas e previstas pela lei. Elas não fazem as pes­ soas postas em contato concorrerem. aos interesses legítimos de outrem. Ali. mas elas nada têm de positivo.

o que é certo é que. tanto sobre si mesmos como sobre as coisas. Em todo caso. de que é. de minha honra. Portanto. mas antes o lado negativo de toda espécie de solidarie­ dade. pôr umas fora das outras. elas não corres­ pondem a um vínculo social positivo. não foi sobre essas considerações abstratas que . ao mesmo título e da mesma maneira que das coisas materiais que me são sub­ metidas. que se po­ dia deduzir a extensão normal do desenvolvimento do indivíduo seja do conceito da personalidade humana (Kant).A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 95 reitos cuja lesão dá origem a essas obrigações são reais. de natureza positiva. A primeira condição para que um todo seja coe­ rente é que as partes que o compõem não se choquem em movimentos discordantes. na realidade histórica. A solidarie­ dade negativa só é possível onde existe uma outra. Não é uma solidariedade verdadeira. algumas vezes. Em resumo. pois sou proprietário de meu corpo. as regras relativas aos direitos reais e às relações pessoais que se estabelecem em sua ocasião for­ mam um sistema definido que tem por função. a resultan­ te e a condição. Com efeito. pois tudo o que é concedido a uns é necessariamente aban­ donado pelos outros. Foi dito. ao mesmo tempo. Mas esse acordo externo não faz a sua coesão. É possível. a própria expres­ são de solidariedade negativa de que nos servimos não é perfeitamente exata. seja da noção do organismo individual (Spencer). de minha reputação. os direitos dos indivíduos. ao contrário. com uma existência própria e uma natureza especial. embora o rigor desses raciocínios seja contes­ tável. só podem ser determina­ dos graças a compromissos e a concessões mútuas. a supõe. mas. não ligar as diferentes partes da sociedade umas às outras. de minha saúde. assinalar nitidamente as barreiras que as separam. ao contrário.

o cansaço pode muito bem pôr fim por algum tempo às hostilidades. os sentimentos que os inclinam uns para os outros mode­ ram naturalmente os arrebatamentos do egoísmo e. a sociedade que os envolve. foi necessário que ele consentisse limitar os seus e. Ora. por outro lado. mas essa simples trégua não pode ser mais duradoura do que a lassidão temporá­ ria que a determina. não apenas em lógica. não podendo vi­ ver senão com a condição de não ser a cada instante abalada por conflitos. o mesmo se dá com os desenlaces devidos ao simples triunfo da força. eles são tão provisórios e precários quanto os tratados que põem fim às guerras internacionais.96 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL se fundou a ordem moral. às vezes. Os homens só necessitam da paz na medida em que já são unidos por algum vínculo de sociabilidade. ela . se se supõe uma multidão de indivíduos sem vínculos prévios entre si. Nesse caso. É verdade que vemos. por conseguinte. a extrema instabilidade dessas re­ lações é a melhor prova de que a solidariedade negativa não pode ser suficiente. justamente. para que o homem reconhecesse direitos a outrem. entre povos cultos. Acaso não houve povos. Esta tem seus ônus e suas vantagens. que motivo poderia levá-los a esses sacrifícios recíprocos? A necessidade de viver em paz? Mas a paz pela paz não é mais desejável do que a guerra. de fato. acaso não há em todos os tempos indiví­ duos de que ela é a paixão? Os instintos a que ela corres­ ponde não são menos fortes do que aqueles que a paz satisfaz. Com maior razão. sociedades independen­ tes se entenderem para determinar a extensão de seus di­ reitos respectivos sobre as coisas. Se hoje. descarrega sobre eles todo o seu peso para obrigá-los a se fazer as concessões necessárias. Sem dúvida. Mas. isto é. essa limitação mútua só pôde ser feita num espírito de entendimento e concór­ dia. sobre seus terri­ tórios. De fato. mas na prática da vida.

constituiria suas bases fundamentais. é verdade. todas elas fa­ zem parte de uma mesma sociedade. Vêem-se nessas duas espécies de práticas como que duas camadas independentes da moral: a justiça. a caridade se­ ria seu coroamento. isto é. intervir na vida pública. Muitos até a vêem. para o particular. se apeguem uns aos outros e a uma mesma sociedade de que fazem parte. A distinção é tão radical que. mas que adquire cada vez mais consciência de si. se essa parte do direito internacio­ nal que regula o que poderíamos chamar de direitos reais das sociedades européias talvez tenha mais autori­ dade do que outrora. Pelo que precede. por si só. mas é o acompanhamento ne­ . o simples respeito dos direitos de outrem. de qualquer ato que ultrapasse essa virtude puramente ne­ gativa. por alguma razão. é porque as diferentes nações da Europa também são muito menos independentes umas das outras. é porque. ela nada tem de específico. Na realidade. que é boni­ to. ou. com certa in­ quietação. O que se chama equilíbrio europeu é um com eço de organização dessa sociedade. segun­ do os partidários de certa moral. ainda incoerente. Portanto. Costuma-se distinguir com cuidado a justiça da cari­ dade. A justiça é cheia de caridade. buscar. vêse o quanto essa concepção é pouco conforme aos fatos.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 97 parece ter mais força. sob certos aspectos. o desinteres­ se nada mais seria que uma virtude privada. para retomar nossas expressões. para que os homens se reconheçam e se garantam mutuamente direitos. só a justiça seria neces­ sária ao bom funcionamento da vida social. a solidariedade negativa nada mais é que uma emanação de outra solidariedade de natureza positiva: é a repercussão na esfera dos direitos reais de sentimentos sociais que vêm de outra fonte. mas que a sociedade pode muito bem dispensar. que. é preciso em primeiro lu­ gar que se amem.

o direito contratual. de separação de corpos e de bens. uma cooperação que deriva essencialmente da divisão do trabalho. etc. As relações aí regulamentadas são de uma natureza totalmente diferente das precedentes. As questões que o direito doméstico resolve podem ser reduzidas aos dois tipos seguintes: l e Quem é encarregado das diferentes funções do­ mésticas? Quem é o esposo. as condições da filiação legítima. Ela se encon­ tra necessariam ente onde quer que os homens vivam uma vida comum. o pai. III Se separarmos do direito restitutivo as regras de que acabamos de falar. o tu­ tor. natural. elas exprimem um concurso positivo. etc. resulte esta da divisão do trabalho so­ cial ou da atração do semelhante pelo semelhante. por sua vez.? 2o Qual o tipo normal dessas funções e suas relações? É à primeira dessas perguntas que respondem as dis­ posições que determinam as qualidades e as condições requeridas para contrair matrimônio. É. de anulação do casamento. o filho legítimo. sobre o poder paterno. as formalidades ne­ cessárias para que o casamento seja válido. a maneira como o tutor deve ser escolhido. os efeitos da . o direito processual. adotiva. o direito administrativo e constitucional. o direito comercial. o que resta constitui um sistema não menos definido que compreende o direito doméstico. a segunda questão que é resolvida pelos capítulos sobre os direitos e os deveres respectivos dos esposos. sobre o estado de suas relações em caso de divórcio.98 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL cessário de toda espécie de solidariedade.

sobre o papel dos pais nos ca­ sos de interdição e de conselho judicial. segundo seu sexo. na maioria das vezes. É verdade que não estamos acostumados a encarar a família sob esse as­ pecto.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 99 adoção. pois. acreditamos que o que faz a sua coesão é exclusivamente a comunidade dos senti­ mentos e das crenças. Comte a dizer que a união doméstica exclui “qualquer pensamento de coo­ peração direta e contínua por um objetivo qualquer”7. to­ do o desenvolvimento da família. repartidas entre os diferentes parentes. sua idade. como objeto de­ terminar a maneira como se distribuem as diferentes fun­ ções familiares e o que elas devem ser em suas relações mútuas. que o caráter especial das tarefas que cabem a cada um deles nos es­ capa facilmente. sobre o papel do conselho de família em relação ao primeiro e ao segundo. nada mais é que um movimento ininterrupto de dissociação. essa divisão do trabalho familiar domina. demonstra a realidade dessas diferenças funcionais e a sua importân­ cia. É isso que levava A. isso quer dizer que exprime a solidariedade par­ ticular que une entre si os membros da família em conse­ qüência da divisão do trabalho doméstico. Longe de não ser mais que um fenômeno acessório e secundário. A história da família. separaram-se pouco a pou­ co. a partir das origens. a princípio indivisas e confundidas umas nas outras. Mas a organização jurídica da família. . de maneira a fazer de cada um deles um funcionário especial da sociedade doméstica8. ao contrário. cujas linhas essen­ ciais acabamos de lembrar sumariamente. a administração do tutor e suas relações com o pupilo. no cur­ so do qual essas diversas funções. constituíram-se à parte. suas relações de dependência. De fato. Essa parte do direito civil tem. há tantas coisas em co­ mum entre os membros do grupo familiar.

a expressão ju­ rídica da cooperação. Ora. essa reciprocidade só é possível onde há cooperação. essas espécies de contratos não são mais que uma variedade dos contratos verdadeiramente coop era tiv o s. é di­ vidir uma tarefa comum. eles são raríssimos. talvez. Há. os contratos ditos de beneficência. por sua vez. De fato. a que exprime mais geralmente o contrato. se me encarrego gratuitamente de um depósito ou de um mandato. Caso sejam de natureza diferente. No entanto. que são a imensa maioria. por exemplo. as obrigações a que dão origem são cor­ relatas ou de obrigações recíprocas. a doação. a cooperação não está ausente do fenô­ meno. pois só excepcional­ mente os atos de beneficência se enquadram na regula­ mentação legal. pois só há encargos de um la­ do. de longe. em que apenas uma das partes é vincu­ lada. Se dou sem condições alguma coisa a outrem. Apesar disso. Se esta última é dividida em tare­ fas qualitativamente similares. há divisão do trabalho composta. não há concurso propriamente dito entre os contratantes. conquanto indispensáveis umas às outras. por excelência. O que é. é verdade. de fato. O único com outro significado é o contrato de sociedade e. ela apenas é gratuita ou unilateral. ou de prestações já efetuadas. daí resultam para mim obrigações precisas e determinadas. . ou de um serviço já prestado por esta última9. De resto. O compromisso de uma parte resulta ou do compromisso assumido pela outra. há divisão do trabalho simples ou de pri­ meiro grau. o contrato é. Esta última forma da cooperação é. aliás. se não uma troca sem obrigações re­ cíprocas? Portanto. Quanto aos outros contratos. e esta. especialização propriamente dita. não existe sem a divisão do trabalho.100 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL A relação entre a divisão do trabalho e o direito con­ tratual não é menos acentuada. Cooperar.

ca­ da um desses tipos de contratos supõe uma multidão de outros. É verdade que os contratos que acabamos de citar ainda têm um ca­ ráter um pouco geral. para ser assim. mas em que as relações se estabelecem entre funções mais especiais. ao mesmo tempo. em conseqüência da divisão do trabalho conjugal. Spencer pôde. contratos de troca. que suas funções sejam as mesmas. entre o mandatá­ rio e o mandante. na medida em que de­ termina a parte contributiva dos esposos nas despesas do casal. que suas contribuições sejam idênticas. ele é suficiente para manifestar a extrema com­ plexidade dos fatos que resume. é claro que a troca sempre supõe alguma divi­ são do trabalho mais ou menos desenvolvida. qualifi­ car de contrato fisiológico a troca de materiais que se faz a cada instante entre os diferentes órgãos do corpo vi­ vo10. é necessário que o contrato de sociedade coloque todos os associados no mesmo nível. não sem pertinência. Po­ nha-se diante dessas espécies raras a multiplicidade dos contratos que têm por objeto ajustar umas às outras fun­ ções especiais e diferentes: contratos entre o comprador e o vendedor. e este é um caso que nunca se apresenta exatamente nas relações matrimoniais. . entre depositário e depositante. de que ele é como que a marca comum e que. Ora. Mas não se deve esquecer que o direito apenas figura os contornos gerais. Por isso. etc. Portanto. mais particulares. as linhas mes­ tras das relações sociais. as que se encontram identica­ mente em diferentes esferas da vida coletiva.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 101 também o contrato de casamento. entre o credor e a caução do devedor. entre o hoteleiro e o viajante. ele regulamenta. por isso. o contrato é o símbolo da tro­ ca. contratos entre empre­ sários e operários. apesar da simplicidade relativa desse esquema. entre locatário e locador. No entanto. De uma maneira geral. entre quem dá e quem toma um empréstimo.

dos advogados. O processo fixa a maneira segundo a qual elas devem entrar em jogo e em relações.102 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Essa especialização das funções é. aliás. do juiz comissário em caso de fa­ lência. etc. Quando o Código Comercial não regulamenta con­ tratos propriamente ditos. entre o proprietário do navio e seus cre­ dores. O direito processual . dos defensores. o direito processual só deveria ser conside­ rado como uma variedade do direito administrativo: não . como as do agente de câmbio. do corretor. como prova o papel de destaque dado ao costume no di­ reito comercial. funções dos magistrados. As sanções das regras jurídicas de toda sorte só podem ser aplicadas graças ao concurso de certo número de funções. civil ou comercial . ainda aqui. numa classificação racional das re­ gras jurídicas. que regulamenta sobretudo os contratos específicos do comércio: contra­ tos entre o comissionado e o comitente. entre o armador e o fretador. entre o primeiro e o capitão e a tripulação. dos pleiteantes e dos defensores. do capitão. entre o segurador e o segurado. entre o portador da carta de câmbio e seu emissor. No en­ tanto. a fim de garantir a solidariedade de todas as par­ tes do aparelho comercial. ele determina o que devem ser certas funções especiais. dos jurados. Parece-nos que.quer se trate de processo cri­ minal. entre o transpor­ tador e o expedidor. há uma grande defasagem entre a ge­ neralidade relativa das prescrições jurídicas e a diversida­ de das funções particulares cujas relações elas regulam.desempenha o mesmo papel no aparelho judiciário. Ele diz o que elas devem ser e qual o papel de cada uma na vi­ da geral do órgão. mais imedia­ tamente aparente no Código Comercial. entre quem concede e quem toma um empréstimo.

assim como todas as funções do organismo são orgâni­ cas. porque todo di­ reito é social. pertence à natu­ . aliás. Ele determina seu tipo normal e suas relações seja umas com as outras. muito em­ bora tenham um caráter penal12. em geral. de direito privado. seria necessá­ rio admitir que há verdadeiramente um direito privado. Portanto. Seria necessário apenas separar delas um certo número de re­ gras que costumam ser incluídas nessa rubrica. o di­ reito administrativo propriamente dito regulamenta as fun­ ções mal-definidas ditas administrativas11. as relações cooperativas não comportam outras sanções. Aliás. Antes de mais nada. des­ se ponto de vista. se adotarmos com o base da classificação a natureza das sanções. não há nenhuma que não seja mais ou menos sub­ metida à ação do aparelho governamental. ordinariamente. Enfim. De fato. o direito constitu­ cional faz o mesmo no caso das funções governamentais.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 103 vemos que diferença radical separa a administração da jus­ tiça do resto da administração. Como quer que seja. Ademais. essa aproximação se impõe. que. Talvez cause espanto ver reunidos numa mesma classe o direito administrativo e político e o que é cha­ mado. as relações que o direito cooperativo com sanções restitutivas regula e a solidariedade que elas exprimem resultam da divisão do trabalho social. para separar com­ pletamente essas duas espécies de direito. do mesmo modo que o precedente faz no caso das funções judiciárias. e acreditamos que todo direito é público. entre elas só há diferenças de grau. É fácil entender. e não nos parece que seja possível adotar outra. mesmo entre as mais difu­ sas. As funções econôm icas têm essas características. assim como as demais. porém. Todas as funções da sociedade são sociais. seja com as funções difusas da sociedade. Em resumo. se quisermos proceder de forma científica.

só pode determinar uma reação muito moderada. pois. nem exercer seus direitos de credor ou comprador. a desses grupos espe­ ciais e. pois. que esteja presente em todas as consciências e que todas possam representá-la de um só e mesmo ponto de vista. Sem dúvida. Tudo de que necessitamos é que as fun­ . no entanto. todo o mundo pode ter algum sentimento a seu res­ peito. elas não correspondem a sentimentos vi­ vos. porque. elas vão além da consciência comum. por conseguinte. Porque. reclama uma expiação. por conseguinte. nem mesmo. isto é. essa autoridade trans­ cendente que. mais tam­ bém se circunscreve o número dos que têm consciência de cada uma delas. Ademais.104 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL reza das tarefas especiais escapar da ação da consciência coletiva. A violação dessas regras não atinge. com o estabelecem a maneira pela qual as diferentes funções devem concorrer nas diversas combinações de circunstâncias que podem se apresentar. são representadas nos espíritos. para que uma coisa seja objeto de senti­ mentos comuns. a nenhuma espé­ cie de estado emocional. ter essa força superior. pelo menos em geral. na maioria das vezes. mesmo nos círculos especiais em que se aplicam e em que. e mais. os es­ tados de consciência só são fortes na medida em que são permanentes. Não se tem sempre de administrar uma tutela. Ora. nem mesmo. etc. uma curadoria13. As regras que as determinam não podem. É também da opinião pública que lhes vem sua autorida­ de. do mesmo modo que a das regras penais. quando é ofendida. mas de uma opinião localizada em regiões restritas da sociedade. nem a alma comum da sociedade. enquanto as funções têm certa generali­ dade. nem. os objetos a que elas se referem nem sem­ pre estão presentes nas consciências. por conseguinte. sobretu­ do. de exercê-los nesta ou naquela condição. a primeira condição é que seja comum. em suas partes vivas. quanto mais se especializam.

se essa re­ gularidade for perturbada. que o desenvolvimento da divisão do trabalho não possa ecoar no direito penal. ela nada tem . em conseqüência da divisão do trabalho social. Por isso. há funções administrativas e governamen­ tais que têm certas relações administrativas e governamentais reguladas pelo direito repressivo. esse direito tem na sociedade um pa­ pel análogo ao do sistema nervoso no organismo. segundo o desenvolvimento do direito cooperativo com sanções restitutivas. Em outros casos ainda. basta-nos que seja restabeleci­ da. pela razão que dissemos. o grau dessa con­ centração segundo o desenvolvimento do sistema ner­ voso. assim. nos diferentes níveis da escala animal. Isso quer dizer que se pode igualmente medir o grau de concentração a que chegou uma sociedade. ele exprime. o estado de concentra­ ção a que chegou o organismo. este tem por tarefa regular as diferentes funções do corpo. em conseqüência da di­ visão do trabalho fisiológico. São previsíveis todos os serviços que esse crité­ rio nos prestará. Isso não significa. IV Já que a solidariedade negativa não produz. portanto. esses reflexos são excepcionais. por causa do caráter par­ ticular que marca o órgão da consciência comum e tudo o que a ele se refere.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 105 ções concorram de maneira regular. Co­ mo já sabemos. Mas. de maneira a fazê-las concorrer harmonicamente. que de sua ruptura resultam repercussões gerais o bastante para suscitar uma reação penal. nenhuma integração e que. Em definitivo. aliás. pode-se medir. naturalmente. os vínculos de solidariedade que unem certas funções sociais podem ser tais. por certo. por si mesma. De fa­ to.

ele depende da sociedade. ainda assim. no que faz de nós um indivíduo14. que as seguintes características distinguem: 1QA primeira liga diretamente o indivíduo à socieda­ de. Portanto. Há em cada uma de nossas consciências. o que nos distingue dos outros. essa solidariedade só pode crescer na razão inversa da personalidade. duas consciências: uma. Aliás. a sociedade de que somos solidários no segundo caso é um sistema de funções dife­ rentes e especiais unidas por relações definidas. São duas faces de uma única e mesma realidade. 3S Dessa segunda diferença decorre outra. Na segunda. pe­ dem para ser distinguidas. que vai nos servir para caracterizar e denominar esses dois tipos de solidariedade. ao contrário. que é comum a nós e ao nosso grupo inteiro e que. 2a A sociedade não é vista sob o mesmo aspecto nos dois casos. porque depende das partes que a compõem. mas a sociedade que vive e age em nós. mas que. A primeira só pode ser forte na medida em que as idéias e as tendências comuns a todos os membros da sociedade superem em número e intensidade as que per­ tencem pessoalmente a cada um deles. a outra. como dissemos.106 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL de específico. No primeiro. Ora. A solidariedade que deriva . reconheceremos apenas duas espécies de solidariedades positivas. Ela é tanto mais enérgica quanto mais considerável é esse excedente. só nos representa no que temos de pessoal e distinto. o que faz nossa personalidade é o que cada um de nós tem de próprio e de característico. Ao contrário. não é nós mesmos. que. es­ sas duas sociedades são uma só coisa. o que chamamos por esse nome é um conjunto mais ou menos organizado de crenças e de sentimentos comuns a todos os membros do grupo: é o tipo coletivo. por conseguinte. sem nenhum intermediário.

não podemos ser fortemente in­ clinados a pensar e agir como os outros.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 107 das semelhanças se encontra em seu apogeu quando a consciência coletiva recobre exatamente nossa consciên­ cia total e coincide em todos os pontos com ela. Nas sociedades em que essa solidariedade é muito desenvolvida. nossa individualidade é nula. que não podem crescer ao mesmo tempo. Mas. Não podemos nos desenvolver ao mesmo tempo em dois sen­ tidos tão opostos. nossa perso­ nalidade se esvai. considerada sob esse aspecto. por definição. esse ideal não poderia ser parecer-se com todo o mundo. mover-se em conjunto. Só a denominamos assim por analogia com a coesão que une entre si os elementos dos corpos brutos. Se temos uma viva inclinação a pensar e agir por nós mesmos. e sim o ser coletivo. A consciência individual. O que acaba de jus­ tificar essa denominação é que o vínculo que une assim o indivíduo à sociedade é de todo análogo ao que liga a coisa à pessoa. Ela só po­ de nascer se a comunidade ocupar menos lugar em nós. pois. As moléculas sociais que só seriam coerentes dessa maneira não poderiam. pois não somos mais nós mesmos. Ademais. Temos aí duas forças contrárias. podemos dizer. no momento em que essa solidariedade exerce sua ação. como fazem as moléculas dos corpos inorgânicos. Essa palavra não significa que ela seja pro­ duzida por meios mecânicos e de modo artificial. o indivíduo não se pertence. a não ser na medida em que não têm movimentos próprios. uma centrípeta. em oposição à que faz a unidade dos corpos vivos. Se o ideal é ter uma fisionomia própria e pessoal. é uma simples dependência do tipo coleti­ vo e segue todos os seus movimentos. nesse momento. como o objeto possuído segue aqueles que seu proprietário lhe impri­ me. a outra centrífuga. como vere­ . É por isso que propomos chamar de mecânica essa espécie de solidariedade.

e contudo a unidade do organismo é tanto maior quanto . a práticas que são co­ muns a nós e a toda a nossa corporação. nesses mesmos tipos sociais. Aqui. ao mesmo tempo em que cada um de seus elementos tem mais mo­ vimentos próprios. por conseguinte. a sociedade torna-se mais capaz de se mover em conjunto. Sem dúvida. os di­ reitos pessoais ainda não se distinguem dos direitos reais. cada um depende tanto mais estreitamente da sociedade quanto mais divi­ dido for o trabalho nela e. ele é. por mais circunscrita que seja. e ele proporciona muito mais espaço para o livre jogo de nos­ sa iniciativa. É necessário. a individualidade do todo au­ menta ao mesmo tempo que a das partes.108 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL mos adiante. A primeira só é possível na me­ dida em que a personalidade individual é absorvida na personalidade coletiva. Essa solidariedade se assemelha à que observamos entre os animais superiores. o jugo que sofremos é muito menos pesado do que quando a sociedade inteira pesa sobre nós. cada orgão aí tem sua fisionomia especial. de outro. uma coisa de que a socie­ dade dispõe. Bem diverso é o caso da solidariedade produzida pela divisão do trabalho. esta supõe que eles diferem uns dos outros. a segunda só é possível se cada um tiver uma esfera de ação própria. Mas. conformamo-nos a usos. e quanto mais essa região é extensa. de um lado. para que nela se estabeleçam essas funções espe­ ciais que ela não pode regulamentar. De fato. Por isso. mesmo nesse caso. literalmente. mesmo no exercício de nossa profissão. que a consciência coletiva deixe descoberta uma parte da consciência indi­ vidual. uma personalidade. sua autonomia. pois. pois. mais forte é a coesão que resulta dessa solidariedade. ela nunca é completamente original. a atividade de cada um é tanto mais pessoal quanto mais for especializada. Enquanto a precendente impli­ ca que os indivíduos se assemelham. De fato.

propomos chamar de orgânica a solidarie­ dade devida à divisão do trabalho. para cuja produção concorrem por diferentes ca­ minhos. qual é o corpo de regras jurídicas que corresponde a ca­ da uma delas. Devido a essa analogia. isto é. basta comparar a extensão respectiva dos dois tipos de direito que as ex­ primem. este capítulo e o precedente proporcionam-nos os meios de calcular a parte que cabe a cada um desses dois vínculos sociais no resultado total e comum.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 109 mais acentuada essa individuação das partes. sabemos sob que formas exteriores são simbolizados esses dois tipos de solidariedade. . De fato. para conhecer sua impor­ tância respectiva num tipo social dado. Por conseguinte. pois o direito sempre varia de acordo com as re­ lações sociais que rege15. Ao mesmo tempo.

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antes de prosseguir. servi­ rá também para esclarecer tudo o que se seguirá.CAPÍTULO IV OUTRA PROVA DO QUE PRECEDE No entanto. a realidade dessa relação pode ser demonstrada experimentalmente. é bom. a preponderância do direito repressivo sobre o direito cooperativo deve ser tanto maior quanto mais pronunciado for o tipo coletivo e quanto mais rudimentar for a divisão do trabalho. . Essa nova verificação é ainda mais útil por­ que vai nos proporcionar a ocasião de estabelecer uma lei que. dada a importância dos resultados que precedem. à medida que os tipos individuais se desenvolvem e que as tarefas se es­ pecializam. a proporção entre a extensão desses dois di­ reitos deve tender a se inverter. Ora. ao mesmo tempo que lhes serve de prova. Se ambos os tipos de solidariedade que acabamos de distinguir possuem de fato a expressão jurídica que dissemos. Inversamente. confirmá-los uma última vez.

são tanto maiores quanto mais alto se acha a raça na escala da civilização. dois indi­ víduos se distinguem um do outro à primeira vista e sem que seja necessária para tanto uma iniciação prévia. “Do mesmo modo que os romanos encontravam entre os velhos ger­ manos enorm es sem elhanças.. a principal causa a determinar esse juízo de par­ te do viajante. Hipócrates. mais há semelhanças entre os indivíduos que as formam. tendo o cuidado de só estabelecer . de que quem viu um indígena da América viu to­ dos. entre os povos civilizados. fato que foi confir­ mado por grande número de observadores. Após haver agrupado o volume dos crânios de cada raça por séries progressivas. já dissera que os citas têm um tipo étnico e não têm tipos pessoais. os cham ados selvagens produzem o mesmo efeito no europeu civilizado... (. Para dizer a verdade.112 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL I Quanto mais primitivas são as sociedades. a falta de tirocínio pode ser. Humboldt nota em suas N eu span ien 1 que.”2 Ao contrário. em seu escrito D e A ere et Locis. se as diferen­ ças a que o homem civilizado está acostumado em seu meio natal não fossem realmente mais importantes do que as que ele encontra entre os povos primitivos. O Dr..) no entanto. Bem conhecida e citada com freqüência é a afirmação de Ulloa. essa inexperiência dificil­ mente poderia produzir tal conseqüência. encontramos muito mais uma fisionomia própria à horda do que fisionomias individuais. entre os povos bár­ baros. com fre­ qüência. Ele comparou os crânios per­ tencentes a raças e sociedades diferentes e descobriu “que as diferenças de volume craniano existentes entre indivíduos da mesma raça. Lebon pôde estabelecer de maneira objetiva essa homogeneidade crescente à medida que remonta­ mos em direção às origens.

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comparações com base em séries bastante numerosas pa­ ra que os termos sejam ligados de maneira gradual, reco­ nheci”, diz ele, “que a diferença de volume entre os maio­ res e os menores crânios masculinos adultos é, em núme­ ros redondos, de 200 centímetros cúbicos no gorila, 280 entre os párias da índia, 310 entre os australianos, 350 entre os egípcios antigos, 470 entre os parisienses do sé­ culo XII, 600 entre os parisienses modernos, 700 entre os alemães”3. Há inclusive alguns povos em que essas dife­ renças são nulas. “Os andamanos e os todas são todos semelhantes. Podemos dizer quase a mesma coisa dos groenlandeses. Cinco crânios de patagônios, que o labo­ ratório de Broca possui, são idênticos.”4 Não é duvidoso que essas similitudes orgânicas cor­ respondam a similitudes psíquicas. “É certo”, diz Waitz, “que essa grande semelhança física dos indígenas pro­ vém essencialmente da ausência de qualquer individuali­ dade psíquica forte, do estado de inferioridade da cultura intelectual em geral. A homogeneidade dos caracteres ( Gemüthseigenschaften) no seio de um povo negro é inconteste. No Egito superior, o mercador de escravos só se informa com precisão do lugar de origem do escravo, não sobre seu caráter individual, pois uma longa experiên­ cia ensinou-lhe que as diferenças entre indivíduos da mesma tribo são insignificantes, comparadas com as que derivam da raça. Assim, os nubas e galos são tidos como muito fiéis, os abissínios do norte como traidores e pérfi­ dos, a maioria dos outros como bons escravos domésti­ cos, mas pouco utilizáveis para o trabalho braçal, os de Fertit como selvagens e prontos para a vingança.”5 Por isso, a originalidade não só é rara, como, por assim dizer, não tem espaço. Todo o mundo então admite e pratica, sem discutir, a mesma religião; as seitas e as dissidências são desconhecidas: não seriam toleradas. Ora, nesse mo­

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mento, a religião abrange tudo, estende-se a tudo. Ela encerra, num estado de mistura confusa, além das cren­ ças propriamente religiosas, a moral, o direito, os princí­ pios da organização política e até mesmo a ciência, ou, pelo menos, o que faz as vezes desta. Ela regulamenta até os detalhes da vida privada. Por conseguinte, dizer que as consciências religiosas são, então, idênticas - e que essa identidade é absoluta - é dizer implicitamente que, salvo as sensações que se referem ao organismo e aos estados do organismo, todas as consciências indivi­ duais são mais ou menos compostas dos mesmos ele­ mentos. Mas as impressões sensíveis não devem propor­ cionar uma grande diversidade, por causa das semelhan­ ças físicas que os indivíduos apresentam. No entanto, é uma idéia ainda bastante difundida a de que, ao contrário, a civilização tem por efeito aumentar as similitudes sociais. “À medida que as aglomerações huma­ nas se estendem”, diz Tarde, “a difusão das idéias segundo uma progressão geométrica regular é mais acentuada.”6 De acordo com Hale7, é um erro atribuir aos povos primitivos certa uniformidade de caráter, e ele dá como prova disso o fato de que a raça amarela e a raça negra do oceano Pacífi­ co, que habitam lado a lado, se distinguem mais uma da outra do que dois povos europeus. Do mesmo modo, acaso as diferenças que separam o francês do inglês ou do ale­ mão não são menores hoje do que outrora? Em quase todas as sociedades européias, o direito, a moral, os costumes e até as instituições políticas fundamentais são mais ou menos idênticas. Note-se igualmente que, num mesmo país, hoje já não encontramos os contrastes que encontrávamos outrora. A vida social não varia mais, ou não varia mais tanto, de uma província a outra. Em países unificados, como a Fran­ ça, ela é mais ou menos a mesma em todas as regiões, e es­ se nivelamento é máximo nas classes cultivadas8.

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Esses fatos, entretanto, não infirmam em absoluto nossa proposição. É certo que as diferentes sociedades tendem a se assemelhar mais; mas o mesmo não é verda­ de para os indivíduos que compõem cada uma delas. Há, hoje, menos distância que outrora entre o francês e o in­ glês em geral, mas isso não impede que os franceses de hoje difiram entre si muito mais do que os franceses de outrora. Do mesmo modo, é bem verdade que cada pro­ víncia tende a perder sua fisionomia distintiva; mas isso não impede cada indivíduo de adquirir cada vez mais uma que lhe é pessoal. O normando é menos diferente do gascão, este do loreno e do provençal, e todos eles só têm em comum doravante os traços comuns a todos os franceses; mas a diversidade que estes últimos, tomados em conjunto, apresentam não deixa de ter aumentado. Porque, se os poucos tipos provinciais que existiam ou­ trora tendem a se fundir uns com os outros e a desapare­ cer, há, em seu lugar, uma multidão muito mais conside­ rável de tipos individuais. Já não há tantas diferenças quantas são as grandes regiões, mas há quase tantas quan­ tos são os indivíduos. Inversamente, onde cada província tem sua personalidade, o mesmo não se dá com os indiví­ duos. Elas podem ser muito heterogênas umas em relação às outras, mas ser formadas apenas por elementos seme­ lhantes, e é isso que se produz igualmente nas sociedades políticas. Do mesmo modo, no mundo biológico, os protozoários são tão distintos uns dos outros que é impossível classificá-los em espécies9; no entanto, cada um deles é composto de uma matéria perfeitamente homogênea. Portanto, essa opinião se baseia numa confusão en­ tre os tipos individuais e os tipos coletivos, tanto provin­ ciais como nacionais. É incontestável que a civilização tende a nivelar os segundos; mas concluiu-se erronea­ mente daí que ela tem o mesmo efeito sobre os primei­

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ros e que a uniformidade se toma geral. Longe de essas duas sortes de tipos variarem no mesmo sentido, vere­ mos que a anulação de uns é a condição necessária para o aparecimento dos outros10. Ora, nunca há mais que um número restrito de tipos coletivos no seio de uma mesma sociedade, pois ela só pode compreender um pequeno número de raças e de regiões bastante diferentes para produzir tais dessemelhanças. Ao contrário, os indivíduos são capazes de se diversificar ao infinito. A diversidade é, pois, tanto maior quanto mais desenvolvidos forem os ti­ pos individuais. O que precede se aplica identicamente aos tipos profissionais. Há motivos para supor que eles perdem seu antigo relevo, que o abismo que separava outrora as profissões, sobretudo certas profissões entre si, está sen­ do preenchido. O que é certo, porém, é que, no interior de cada uma delas, as diferenças aumentaram. Cada um tem, cada vez mais acentuada, sua maneira de pensar e de fazer, aceita menos completamente a opinião comum da corporação. Ademais, se entre uma profissão e outra as diferenças são menos nítidas, elas são, em todo caso, mais numerosas, porque os próprios tipos profissionais se multiplicaram, à medida que o trabalho se dividia mais e mais. Se não se distinguem mais uns dos outros, salvo por simples nuances, pelo menos essas nuances são mais variadas. Assim, a diversidade não diminuiu, mesmo des­ se ponto de vista, muito embora já não se manifeste sob a forma de contrastes violentos e conflitantes. Portanto, podemos estar certos de que, quanto mais recuamos na história, maior é a homogeneidade; por ou­ tro lado, quanto mais nos aproximamos dos tipos sociais mais elevados, mais se desenvolve a divisão do trabalho. Vejamos agora como variam, nos diversos graus da esca­ la social, as duas formas do direito que distinguimos.

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II Tanto quanto possamos julgar o estado do direito nas sociedades totalmente inferiores, ele parece ser total­ mente repressivo. “O selvagem”, diz Lubbock, “não é li­ vre em parte alguma. No mundo inteiro, a vida cotidiana do selvagem é regulada por grande quantidade de costu­ mes (tão imperiosos quanto leis), complicados e não raro bastante incôm odos, proibições e privilégios absurdos. Numerosos regulam entos severíssim os, muito em bora não sejam escritos, englobam todos os atos da sua vi­ da.”11 De fato, sabe-se com que facilidade, entre os po­ vos primitivos, as maneiras de agir se consolidam em práticas tradicionais e, por outro lado, quão grande é, ne­ les, a força da tradição. Os costumes dos ancestrais são cercados de tanto respeito, que não se pode fugir deles sem ser punido. No entanto, tais observações carecem necessariamen­ te de precisão, pois nada é tão difícil de se apreender quanto costumes tão instáveis. Para que nossa experiência seja conduzida com método, é preciso fazer que seja cen­ trada, na medida do possível, em direitos escritos. Os quatro últimos livros do Pentateuco - o Êxodo, o Levítico, os Números e o Deuteronômio - representam o mais antigo monumento desse gênero que possuímos12. Desses quatro ou cinco mil versículos, só num número relativamente ínfimo são expressas regras que, a rigor, podem ser consideradas não-repressivas. Eles se referem aos seguintes objetos: Direito d e propriedade-, direito de resgate; jubileu; proprie­ dade dos levitas (Levítico, XXV, 14-25, 29-34 e XXVII, 1-34). Direito dom éstica casamento (Deut., XXI, 11-14; XXIII, 5; XXV, 5-10; Lev., XXI, 7, 13, 14); direito sucessório (Números,

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XXVII, 8-11, e XXVI, 8; Deut., XXI, 15-17); escravidão de indí­ genas e estrangeiros (Deut., XV, 12-17; Êxodo, XXI, 2-11; Lev., XIX, 20; XXV, 39-44; XXXVI, 44-54). Empréstimos e salários (Deut., XV, 7-9; XXIII, 19-20; XXIV, 6 e 10-13; XXV, 15). Quase-delitos (Êxodo, XXI, 18-33 e 33-35; XXII, 6 e 10-17)«. O rganização das fu n ções públicas. Das funções dos sacer­ dotes (Números, X); dos levitas (Números, III e IV); dos anciãos (Deut., XXI, 19; XXII, 15; XXV, 7; XXX, 1; Lev., IV, 15); dos jui­ zes (Êxodo, XVIII, 25; Deut., 1, 15-17).

O direito restitutivo e, sobretudo, o direito cooperati­ vo reduzem-se, pois, a muito pouca coisa. Não é tudo. Entre as regras que acabamos de citar, muitas não são tão estranhas ao direito penal quanto se poderia crer à pri­ meira vista, pois todas elas são marcadas por um caráter religioso. Todas emanam igualmente da divinidade; violálas é ofendê-la, e tais ofensas são faltas que devem ser expiadas. O livro não distingue entre este ou aquele mandamento, mas todos são palavras divinas a que não se pode desobedecer impunemente. “Se não tiverdes cui­ dado de guardar todas as palavras desta lei, escritas neste livro, para temeres este nome glorioso e terrível, o Se­ nhor teu Deus, então o Senhor fará terríveis as tuas pra­ gas e as pragas de tua descendência” (Deut., XXVIII, 5859)- A inobservância, mesmo por motivo de erro, de um preceito qualquer constitui um pecado e reclama uma expiação. Ameaças desse gênero, cuja natureza penal não é duvidosa, sancionam inclusive diretamente algu­ mas dessas regras que atribuímos ao direito restitutivo. Depois de ter decidido que a mulher divorciada não po­ derá mais ser retomada pelo marido se, depois de se ter casado de novo, ela se divorciar de novo, o texto acres­ centa: “pois é abominação perante o Senhor; assim não

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farás pecar a terra que o Senhor teu Deus te dá por he­ rança” (Deut., XXIV, 4). Do mesmo modo, eis o versículo em que é acertada a maneira como devem ser pagos os salários: “No seu dia lhe darás o seu salário, antes do pôr-do-sol; porquanto é pobre e disso depende a sua vi­ da; para que não clame contra ti ao Senhor e haja em ti pecado ” (Deut., XXIV, 15). As indenizações a que dão origem os quase-delitos parecem igualmente apresenta­ das como verdadeiras expiações. Assim, lê-se no Levítico: “Quem matar a alguém, será morto. Mas quem matar um animal, o restituirá: igual por igual... fratura por fratura, olho por olho, dente por dente.”14 A reparação do dano causado parece ser assimilada ao castigo do assassínio e ser vista como uma aplicação da lei de talião. É verdade que há um certo número de preceitos cuja sanção não é especialmente indicada; mas já sabemos que ela é certamente penal. A natureza das expressões empregadas basta para prová-lo. Aliás, a tradição nos en­ sina que era infligido um castigo corporal a quem violas­ se um preceito negativo, quando a lei não enunciava for­ malmente uma pena15. Em resumo, em diversos graus, todo o direito hebreu, como o Pentateuco o dá a conhe­ cer, está marcado por uma característica essencialmente repressiva. Ela é mais acentuada em certos lugares, mais latente em outros, mas sentimo-la presente em toda par­ te. Pois que todas as prescrições que o livro encerra são mandamentos de Deus, situados, por assim dizer, sob sua garantia direta, todas elas devem a essa origem um prestígio extraordinário, que as toma sacrossantas; por is­ so, quando são violadas, a consciência pública não se contenta com uma simples reparação, mas exige uma expiação que a vingue. Já que o que faz a natureza própria do direito penal é a autoridade das regras que ele sancio­ na e já que os homens nunca conheceram nem imagina­

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ram autoridade mais alta que a que o crente atribui a seu Deus, um direito que se presume ser a palavra do pró­ prio Deus não pode deixar de ser essencialmente repres­ sivo. Pudemos dizer inclusive que todo direito penal é mais ou menos religioso, porque o que é sua alma é um sentimento de respeito por uma força superior ao ho­ mem individual, por um poder de certa forma transcendéntal, qualquer que seja o símbolo sob o qual ela se fa­ ça sentir às consciências, e esse sentimento também está na base de toda religiosidade. Eis por que, de maneira geral, a repressão domina todo o direito nas sociedades inferiores: porque a religião penetra toda a sua vida jurí­ dica, como, de resto, toda a vida social. Por isso, essa característica ainda é bastante acentua­ da nas leis de Manu. Basta ver a posição eminente que atribuem à justiça criminal no conjunto das instituições nacionais. “Para ajudar o rei em suas funções”, diz Manu, “o Senhor produziu desde o princípio o gênio do castigo, protetor de todos os seres, executor da justiça, seu pró­ prio filho, e cuja essência é toda divina. É o temor do castigo que permite que todas as criaturas móveis e imó­ veis desfrutem do que lhes é próprio e que as impede de se afastar de seus deveres... Todas as classes se corrom­ periam, todas as barreiras seriam derrubadas, o universo não seria mais que confusão, se o castigo não cumprisse mais seu dever.”16 A lei das XII Tábuas se relaciona a uma sociedade já muito mais avançada17 e mais próxima de nós do que era o povo hebreu. O que o prova é que a sociedade roma­ na só chegou ao tipo da cidade depois de ter passado por aquele em que a sociedade judaica ficara fixada e de tê-lo superado; teremos a prova disso mais longe18. Ou­ tros fatos, aliás, atestam esse menor afastamento. Em pri­

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meiro lugar, encontramos na lei das XII Tábuas todos os principais germes de nosso direito atual, enquanto, por assim dizer, nada há em comum entre o direito hebraico e o nosso19. Em seguida, a lei das XII Tábuas é absoluta­ mente laica. Se, na Roma primitiva, pretendeu-se que le­ gisladores como Numa receberam sua inspiração da di­ vindade e se, por conseguinte, o direito e a religião eram então intimamente mesclados, no momento em que fo­ ram redigidas as X3I Tábuas essa aliança certamente ces­ sara, porque esse monumento jurídico foi apresentado desde a origem como uma obra totalmente humana e que só visava às relações humanas. Encontramos aí ape­ nas algumas disposições que concernem às cerimônias religiosas e, ainda assim, elas parecem ter sido admitidas na qualidade de leis suntuárias. Ora, o estado de dissocia­ ção mais ou menos completa em que se encontram o elemento jurídico e o elemento religioso é um dos me­ lhores signos pelos quais podemos reconhecer se uma sociedade é mais ou menos desenvolvida do que outra20. Por isso, o direito criminal já não ocupa todo o es­ paço. As regras que são sancionadas por penas e as que têm apenas sanções restitutivas são, desta vez, bem dis­ tintas umas das outras. O direito restitutivo desprendeuse do direito repressivo, que o absorvia primitivamente; ele agora tem suas características próprias, sua constitui­ ção pessoal, sua individualidade. Existe como espécie ju­ rídica distinta, munida de órgãos especiais, de um pro­ cesso especial. O próprio direito cooperativo faz sua apa­ rição: encontramos nas X3I Tábuas um direito doméstico e um direito contratual. Todavia, se o direito penal perdeu sua preponderân­ cia primitiva, seu papel continua sendo grande. Dos 115 fragmentos dessa lei que Voigt conseguiu reconstituir, apenas 66 podem ser atribuídos ao direito restitutivo e 49

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têm um caráter penal acentuado21. Por conseguinte, o di­ reito penal representa quase a metade desse código, tal como chegou até nós; no entanto, o que dele nos resta só pode nos proporcionar uma idéia bastante incompleta da importância que o direito repressivo tinha no momen­ to em que foi redigido. Porque foram as partes consagra­ das a esse direito que devem ter se perdido mais facil­ mente. É quase exclusivamente aos juristas da época clássica que devemos os fragmentos que nos foram con­ servados; ora, eles se interessavam muito mais pelos pro­ blemas do direito civil do que pelas questões do direito criminal. Este não se presta às belas controvérsias que, em todos os tempos, foram a paixão dos juristas. Essa in­ diferença geral de que era objeto deve ter tido por efeito fazer cair no esquecimento boa parte do antigo direito penal de Roma. Aliás, mesmo o texto autêntico e com­ pleto da lei das XII Tábuas não o continha, por certo, in­ tegralmente. Porque ela não falava nem dos crimes reli­ giosos, nem dos crimes domésticos, que eram julgados, ambos, por tribunais particulares, nem dos atentados contra os costumes. Enfim, é preciso levar em conta a preguiça que o direito penal tem, por assim dizer, para se codificar. Como está gravado em todas as consciências, não se sente a necessidade de escrevê-lo para fazê-lo co­ nhecer. Por todas essas razões, temos o direito de presu­ mir que, mesmo no século IV de Roma, o direito penal ainda representava a maior parte das regras jurídicas. Essa preponderância é ainda muito mais certa e mais acentuada se a compararmos não a todo o direito restitu­ tivo, mas apenas à parte desse direito que corresponde à solidariedade orgânica. Com efeito, nesse momento, a única organização já bem avançada é a do direito domés­ tico; o direito processual, por ser incômodo, não é nem variado, nem complexo; o direito contratual apenas co­

ele possui. ao direito civil primitivo. além de ser bastante simples. o direito processual e o direito pú­ blico adquiriram uma extensão cada vez maior. A história das sociedades cristãs oferece-nos outro exemplo do mesmo fenômeno. co­ mo esta última. vemos as raras e magras fórmulas que a lei das XII Tábuas continha sobre esses diferentes pontos se desenvolverem e se multiplicarem até se transforma­ rem nos volumosos sistemas da época clássica. O próprio direito doméstico se complica e se diversifica à medida que. que muitos atos originalmente tidos co­ mo criminosos não tenham cessado de ser reprimidos . vem se somar pouco a pouco o direito pretoriano. no que concerne aos delitos religio­ sos . Porque. Por ura lado. o direito repressivo não parou de perder sua importância relativa.”22 Quanto ao direito público. A partir dessa época. veríamos que a importância do direito penal é tanto maior quanto mais antigas são essas leis23. A medida que avançamos. A lei sálica refere-se a uma sociedade menos desen­ volvida do que era a Roma do século IV.e o contrário é certo. pelo menos ele não aumentou sensivelmente: sa­ bemos que os principais tipos criminológicos do direito romano estão constituídos desde a época das XII Tábuas. se. Os fatos confirmam essa presunção. “contrasta da ma­ neira mais notável com a multidão das obrigações que nascem do delito. em grande parte.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 123 meça a nascer. Sumner Maine já conjeturara que. supondo-se inclusive que não tenha regredido em grande nú­ mero de pontos. Já o direito contratual. diz Voigt. comparando umas às outras as diferentes leis bárbaras. porque conservou um caráter religioso. “O pequeno número de contratos reco­ nhecido pelo direito antigo”. um ca­ ráter penal.. ela já superou o tipo social em que se .

está. um direito matrimonial e um direito doméstico já bastante desenvol­ . Dos 293 artigos de que é composto o texto da lei sálica. Ora. tanto no que concerne ao direito das coisas. Mas a lei sálica con­ tém apenas uma parte do direito penal dos francos. encontramos nela todo um código processual (liv. que se complicou. Mas o aumento refere-se apenas ao direito doméstico. pois concerne unicamente aos crimes e delitos para os quais é permitida a composição. a lei dos visigodos. nem sobre os crimes contra a religião. no entanto. apenas 25 (ou seja. nem sobre os crimes mi­ litares. como mostraremos adiante. cerca de um terço. o direito penal tinha uma importância muito maior. o direito restitutivo tem uma importância quase igual.124 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL detivera o povo hebreu. Ela já é menor na lei dos burgúndios. Conquanto o direito penal nela ainda predomine. Dos 311 artigos. De fato. I e II). menos comple­ tamente separada deste. tal como está edi­ tado por Waitz24. O contrato ainda não está emancipado do direito penal. que é mais re­ cente. contamos 98. quanto no que diz respeito ao das pessoas. cuja data é ainda mais re­ cente e que se refere a um povo ainda mais cultivado. isto é. cerca de 9%) não possuem esse caráter repressivo: são os artigos re­ ferentes à constituição da família franca25. Assim. que não apresentam nenhum caráter penal. e a pre­ ponderância do direito repressivo se mostrará mais considerável ainda26. havia certamente crimes e delitos que não podiam ser resgatados. O direito con­ tratual não é muito mais desenvolvido do que na lei sálica. Basta pensar que a Lex não contém uma só palavra nem so­ bre os crimes contra o Estado. porque a recusa a executar no dia estabelecido o compromisso contratado dá lugar a uma multa. Os vestígios são muito mais apa­ rentes. atesta um novo progresso no mesmo sentido. Enfim.

por vezes. todo um livro. III. pois teria sido instituído para contradizer os usos públicos e reagir contra eles. ela faz do direito uma cria­ ção artiticial do legislador. tít. ela foi explicada “pela violência habi­ tual nas sociedades que começam a escrever suas leis. ela é errada. se reage contra eles. sua delituosidade é inversa­ mente proporcional à sua freqüência. pela primeira vez. O direito repressivo e o direito cooperativo variam. Desde essa época. entre os po­ vos inferiores. não a acha completa. é consagrado às transações. Ora. mas é incontestável que ele prosseguiu na mesma direção. Onde os atos de violência são fre­ qüentes. IV). O di­ reito exprime os costumes e. É verdade que se atribuiu. A ausência de codificação não nos permite observar com a mesma precisão esse duplo desenvolvimento em toda a seqüência de nossa história. os crimes contra as pessoas são mais ordi­ nários do que em nossas sociedades civilizadas. que se acha assim confirmada. por isso. na realidade.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 125 vidos (liv. a relação entre as duas partes do direito que com­ paramos se inverteu. Sumner Maine. liv. final­ mente. Em primeiro lugar. o catálogo jurídico dos crimes e delitos já é bas­ tante completo. é com a força que deles tirou. a uma outra causa essa predominância do direito penal nas so­ ciedades inferiores. exatamente como previa a teoria. eles são tolerados. segundo se diz. Ao contrário. Assim. que cita essa explicação. o direito doméstico. e foi assim que. o direi­ to contratual. de fato. I e VI. Quase . es­ sa concepção não é mais sustentável hoje em dia. o quinto. eles se encontram no último grau da escala penal. ela não é apenas incompleta. dividiu sua obra proporcional­ mente à freqüência de certos acidentes da vida bárba­ ra”27. Enfim. pois. O legislador. o direito processual e o direito público de­ senvolveram-se sem interrupção.

Ademais. própria dessas sociedades. contra o rito. e sim que existe uma criminali­ dade luxuriante. nele. nesse momento da evolução. . a conclusão vai emanar deles por si mesma.126 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL podemos dizer que os atentados são tanto mais severa­ mente punidos quanto mais raros forem. pois. etc. objeto de dis­ posições mais extensas. Colocados esses princípios. A verdadeira razão desse desenvolvimento das regras repressivas é. a consciência coletiva é extensa e forte. contra as tradições de todo tipo. o que explica o estado pletórico do direito penal primitivo não é que nossos crimes de hoje sejam. ao passo que o trabalho ainda não é dividido. a qual não poderia ser explicada pela pretendida violência delas: de­ litos contra a fé religiosa. contra o cerimonial. que.

como já observamos. basta dar uma olhada em nossos Códigos pa­ ra constatar a reduzida importância que o direito repressivo ocupa em relação ao direito cooperativo. etc. os vínculos que nos ligam à socie­ dade e que derivam da comunidade das crenças e dos sen­ timentos são muito menos numerosos do que os que resul­ tam da divisão do trabalho. o conjunto das relações submetidas a uma regula­ mentação penal representa apenas a menor fração da vida geral e.CAPÍTULO V PREPONDERÂNCIA PROGRESSIVA DA SOLIDARIEDADE ORGÂNICA E SUAS CONSEQÜÊNCIAS i De fato. o direito contratual. . Há es­ tados menos fortes ou mais vagos da consciência coletiva que fazem sentir sua ação por intermédio dos costumes. que a consciência comum e a solidariedade que ela produz não são expres­ sas integralmente pelo direito penal: a primeira cria vín­ culos diferentes daqueles cuja ruptura ele reprime. o direito comercial. É verdade. por conseguinte.? Portanto. O que é o pri­ meiro comparado a esse vasto sistema formado pelo direito doméstico.

uma representação esquemática. Mas o direito cooperativo tampouco exprime todos os vínculos que a divisão do tra­ balho engendra. contribuem para asse­ gurar a coesão da sociedade. quem sabe. quanto mais pró­ ximo do nosso é um tipo social. isso se explica por esse fenômeno estar ligado. por conseguinte. podemos fazer abstração dela sem que o resultado do cálculo seja modificado. patológicas. as relações de de­ pendência mútua que unem as funções divididas são regu­ ladas apenas pelos usos. Portanto. portanto. pois ele se desenvolve tanto mais. No entanto. a mesma que a dos dois direitos que elas completam. Além de ter confirmado os princípios em que se baseia nossa conclusão. dessa simples comparação ainda não po­ demos deduzir qual é a parte da solidariedade orgânica . mas à estrutura de nos­ sas sociedades no que ela tem de mais essencial. Assim. ela nos permite estabelecer a generalidade desta última.128 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL da opinião pública. Mas acabamos de ver que. de toda essa parte da vida social. Numa multidão de casos. poderíamos nos perguntar se ela não se deve a causas temporárias e. mais o direito cooperati­ vo torna-se predominante. ao contrário. e essas regras não escritas por certo superam em número as que servem de prolongamen­ to ao direito repressivo. no entanto. Contudo. o direito penal ocupa uma posição tanto maior quanto mais nos afasta­ mos de nossa organização atual. a lei que estabelecemos em nosso capítulo prece­ dente nos é duplamente útil. quanto mais ela se determina. porque elas devem ser tão diversas quanto as próprias funções sociais. sem que nenhuma sanção legal seja vinculada a eles e que. se só tivéssemos constatado essa relação em nossas sociedades atuais e no momento preciso de sua história a que chegamos. não a alguma causa aci­ dental e mais ou menos mórbida. porque ele igualmente só nos proporcio­ na. A relação entre umas e outras é.

o que se rompe com a menor pressão. Um homem se erguia no meio de uma assem­ bléia. uma necessidade unir-se a um grupo.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 129 na coesão geral da sociedade. evidentemente. “Os calmucos e os mongóis abandonam seu chefe quando acham sua autoridade opressiva e bandeiamse a outros. mas também a intensidade variável das forças que o mantêm vinculado a eles. muito embora seja. Ora. os balondas passam sem cessar de uma parte a outra do país. para o ho­ mem. é nas sociedades inferiores. Os abipònes deixam seu chefe sem lhe pedir permissão e sem que este denote descontentamento com isso.. seria possível que os vínculos resultantes da divisão do traba­ lho. O vínculo social era demasia­ do fraco para reter os homens. Portanto. a seu malgrado. O menos resistente é. todo hom em que apreciava a guerra podia fazer-se soldado sob um chefe de sua escolha. que essas rupturas são mais freqüentes e mais fáceis. De fato.. diz Spencer. De fato. os que tinham confiança nele e que desejavam o butim aclamavam-no como chefe e o seguiam. “Nada era mais ordinário e parecia mais legítimo. e vão com a família para onde lhes apraz. o que mede a força relativa dos dois víncu­ los sociais é a facilidade desigual com a qual se rompem. fossem mais fracos que os demais e que a energia superior destes compensasse sua inferioridade numérica. Entre os germanos. o que faz que o indivíduo seja mais ou menos intimamente ligado a seu grupo não é apenas a multiplicidade maior ou menor dos pontos de vinculação. em que a solidariedade por semelhanças é a única ou quase a única. apesar de mais numerosos. ele não é obrigado a permanecer unido a esse mesmo grupo”. Mac Culloch observou os mesmos fatos entre os kukis. “No início. Mas a verdade é o contrário. contra as .”1 Na Áfri­ ca do Sul. contra determinado inimigo. anunciava que ia fazer uma expedição em determi­ nado lugar.

deixava de fazer parte da cidade. cada um sempre tem a liberdade de fazer secessão com sua família. o distrito em que se trabalha o algodão. a reorganização está exposta a permanecer por muito tempo num estado de desordem e de fraqueza. não podem ser facilmente se­ paradas. É . Separem de Liverpool e dos outros centros.130 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL tentações da vida errante e do ganho. mas corre um grande risco de dissolução e. que fundem metais ou fabricam teci­ dos de vestuário à máquina. tornam-se cada vez mais operações delicadas e de êxito incerto. acaso também não se explicaria pela facilidade com a qual o vínculo social então podia ser rompido? Bem diferentes são as coisas à medida que o traba­ lho se divide. pois sua popu­ lação perecerá. Separem as populações mineiras das po­ pulações vizinhas. por falta de materiais. Mesmo que o governo seja despótico. pois morrerão individualmente. antes de reconstituir uma autoridade suficiente. A regra segundo a qual o roma­ no. ela não tarda a criar ou­ tra. “Caso se separasse do Middlesex os seus arredo­ res”. se for bas­ tante poderoso para tanto. feito prisioneiro pelos inimigos. mesmo on­ de um poder dirigente está constituído. diz o mesmo autor. diz Spencer. e sua indústria parará. cada indivíduo conserva independência bastante para se separar num instante de seu chefe “e se erguer contra ele. Sem dúvida. por cum­ prirem funções diferentes. As diversas partes do agregado. tão freqüentes outrora. “todas as suas operações se deteriam ao cabo de alguns dias.”2 Waitz diz de uma maneira geral das sociedades inferiores que. sem que tal ato seja tido como criminoso”3. e logo estas morrerão social­ mente. quan­ do uma sociedade civilizada sofre tamanha divisão que uma de suas partes permanece privada de uma agência central que exerça a autoridade."4 É por esse motivo que as anexações violentas.

Entre os índios da América do Norte.”6 Sabe-se com que facilidade. O fenômeno con­ trário observa-se onde as funções são especializadas. a naturalização. quanto mais frouxa a trama social. separada que fica dos órgãos essenciais de que dependia. não é fácil mudar de nacionalidade. Mesmo para o indivíduo isolado. Quanto mais débil a solidariedade. hoje. a saber. isto é. Para que fossem tão penetráveis assim. entre os povos inferiores. pode muito bem se introduzir de forma provisória na sociedade. torna-se lon­ . em Roma. concedia-se originalmen­ te o direito de cidadania à gente sem asilo e aos povos que ela conquistou7. Ora. ou adotados pelo clã.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 131 que. arrancar uma província de um país eqüivale a retirar um ou vários órgãos de um organismo. A adoção não confere apenas os direitos da gentilidade (direitos do clã). ora. mas também a nacionalidade da tribo. sem dúvida. O estrangeiro. apesar da maior similitude das diferentes civilizações5. tais mutilações e tais perturbações determinam necessaria­ mente dores duradouras cuja lembrança não se apaga. a naturalização é a operação mais simples do mundo. As mulheres e crianças feitas prisio­ neiras são regularmente objeto da clemência. “Os cativos capturados na guerra ou são mortos. mas a operação pela qual é assimilado. era neces­ sário que não tivessem de sua unidade e de sua perso­ nalidade um sentimento muito forte8. aliás. A vida da região anexada é profundamente perturbada. A experiência inversa não seria menos demonstrati­ va. Foi. por meio de incorpora­ ções desse gênero que as sociedades primitivas cresce­ ram. mais deve ser fácil também a incorporação dos elementos estrangeiros nas socieda­ des. todo membro do clã tem o direito de nele introduzir novos membros por meio da adoção.

se há lugares vazios. porque o trabalho so­ cial está pouco dividido. Ela não é mais possível sem um assenti­ mento do grupo. Mas onde a so­ ciedade forma um sistema de partes diferenciadas e que se completam mutuamente. sem resistência. o organismo oferece resistência contra intrusões que não se podem produzir sem perturbações. por conseguinte. tanto mais facilmente por es­ sas secessões se fazerem em geral por bandos. incorporado ao agregado. porque o indivíduo é. . possa se romper ou se atar com essa facilidade. ela não se opõe fortemente a essas diminuições. quan­ do unidas. como cada um traz em si tudo o que faz a vida social. não decorre que sejam obrigadas a perm anecer unidas ou perecer. quem não se afasta demais do tipo coletivo é. Mas o que faz a rigidez de um vínculo social não é o que faz sua força de resistência. só se movem em conjunto.132 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ga e complexa. a ponto de absorvê-lo. Por sua vez. mas. enquanto dela fizerem parte. a sociedade exige de cada um de seus membros. Não há motivos para repeli-lo e. Do fato de que as partes do agregado. Ao contrário. a uniformidade das crenças e das práticas. inclusive para se separar de seu gru­ po. então. há razões para atraí-lo. onde a solidarieda­ de deriva apenas das semelhanças. como pode perder certo número de seus sujeitos sem que a economia de sua vida interior fique perturbada com isso. sem alterar essas relações e. como não necessitam umas das outras. pode transportá-la a outro lugar. solenemente manifestado e subordina­ do a condições especiais? Pode causar surpresa que um vínculo que prenda o indivíduo à comunidade. novos elementos não podem inserir-se nos antigos sem perturbar essa harmonia. constituído de tal sorte que só pode mover-se em grupo. mesmo. Do mesmo modo.

todas as consciências vibram em uníssono. o indivíduo terá tanto maior facilidade para seguir seu sentido próprio. De fato. a força dos vínculos sociais que têm essa origem varia em função das três condições seguintes: 1QA relação entre o volume da consciência comum e o da consciência individual. 3a A determinação maior ou menor desses mesmos es­ tados. quanto mais definidas as crenças e as práticas. a relação dos volumes. As tendências centrífugas vão se multiplicando. e a solidariedade será menos forte. ã custa da coesão social e da harmonia dos movimentos. . 2° A intensidade média dos estados da consciência coletiva. ao contrário. quanto mais as regras de conduta e as regras do pensamento são gerais e indeterminadas. tudo o que ela produz tem o mesmo caráter. como também. pois. como varia de um homem a outro em qualidade e quantidade. for constituída apenas de impulsos fracos. ela não pode despertar sem que as dissidências se manifestem. Supondo-se iguâl. Sua energia é tanto maior quanto mais completamente a primeira se sobrepõe à segunda. ela o arrasta fraca­ mente para o sentido coletivo. o consenso é tão perfeito quanto possível. à medida que avançamos na evolução social. mais a reflexão individual deve in­ tervir para aplicá-las aos casos particulares. uniformemente. porque. Inversamente. Ora. Portanto. menos elas deixam espaço para as divergências individuais. a consciência coletiva age tanto mais sobre o indivíduo quanto maior for a sua vitalidade. Elas são moldes uniformes em que vazamos to­ dos. nossas idéias e nossas ações. Portan­ to. Com efeito.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 133 II Não só. a solidariedade mecânica liga os homens menos fortemente do que a solidariedade orgânica. ela vai se afrouxando cada vez mais. de maneira geral. Se.

poderemos estar certos de que há um enfraqueci­ mento dessa solidariedade. é pelo menos provável que. os estados fortes e definidos da consciência comum são raízes do direito penal. a solidariedade mecânica não ganhou nada. também há muito mais que são pessoais a cada um. se. Disso. Pode haver menos estados fortes e defi­ nidos. e. a relação entre elas no máximo per­ maneceu a mesma. Em todo caso. ve­ remos que o número destas últimas é menor hoje do que ‘outrora e que ele diminui progressivamente à medida que as sociedades se aproximam de nosso tipo atual. Portanto. permanecendo a terceira imutada. Is­ so significa. . se é real. que a intensidade média e o grau mé­ dio de determinação dos estados coletivos diminuíram. em compensação. porque esta pelo menos ampliou-se nas mesmas propor­ ções. por conseguinte. porque as dessemelhanças entre os homens se tomaram mais pronunciadas à medida que eles se cultivaram. portanto. é verdade. Há mesmo toda razão de crer que as últimas aumentaram mais que as outras. pelo menos duas per­ dem sua intensidade.sfera pessoal tenha-se ampliado muito mais do que a outra. é no máximo equi­ valente àquele que se produziu na consciência individual. Se há mais coisas comuns a todos. um número maior de outros estados. tenha-se dilatado. desse ponto de vis­ ta.134 DA DIVISÃO D O TRABALHO SOCIAL Por outro lado. das três condições de que depende sua força de ação. não podemos concluir que a extensão total da consciência comum tenha se estreitado. pois po­ de acontecer que a região a que o direito penal corres­ ponde se tenha contraído e que o resto. pois. Ora. pois. em cada consciência particular. se é que nada perdeu. a e. Aca­ bamos de ver que as atividades especiais se desenvolve­ ram mais do que a consciência comum. ao contrário. Mas esse aumento. por um lado. estabelecemos que a consciência coletiva tomou-se mais fraca e mais vaga.

De fato. corremos apenas o risco de haver omitido alguns dos que desapare­ ceram. no entanto. É evidente que tal classifi­ cação não poderia ser nem muito completa. assim. Mas. reunimos no quadro seguinte os principais desses tipos e as principais variedades que foram reconhecidos nas dife­ rentes espécies de sociedades. o sentimento do respeito à proprie­ dade alheia nem por isso se multiplicou. assim. há mais atentados possíveis contra ela. mais as variações de umas refletem exatamente as dos outros. mas o sentimento que estes ofendem é sempre o mes­ mo. Como há. com efeito.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 135 Para fazer essa demonstração. nem perfeita­ mente rigorosa. Quanto mais estes são numerosos. de nada nos serviria comparar o número de regras à sanção repressiva nos di­ ferentes tipos sociais. a várias regras. por conseguinte. Como a perso­ nalidade individual se desenvolveu e compreende maior número de elementos. ela compreende certamente todos os tipos criminológicos atuais. mais também deve haver espécies criminais e. para a conclusão que quere­ mos tirar. Constituire­ mos. mas sim de agrupá-las em classes e subclasses. segundo se refiram ao mesmo sentimento ou a sentimentos diferentes. cujo número é necessariamente igual ao dos esta­ dos fortes e definidos da consciência comum. como queremos justamente demonstrar que seu número diminuiu. também há mais maneiras de roubar. Logo. agora. no entanto. essas omissões seriam tão-só um ar­ gumento a mais a favor de nossa proposição. ou a varie­ dades diferentes de um mesmo sentimento. pois ele não varia exatamente co­ mo o dos sentimentos que elas representam. Um mesmo sentimento pode. mais maneiras de adquirir a propriedade. não temos de enumerar as regras. sua exatidão é suficiente. ser ofendido de várias ma­ neiras diferentes e dar origem. os tipos criminológicos e suas variedades es­ senciais. sem se diversificar com isso. . Para fixar as idéias.

Os mesmos Incesto Sodomia Casamentos desiguais Sentimentos domésticos Positivos Negativos Sentimentos relativos às relações sexuais Uniões proibidas Prostituição Atentado ao pudor público Atentado ao pudor dos menores Mendicidade Vagabundagem Alcoolismo1 1 Regulamentação penal do trabalho ' Relativos a certos usos profissionais.à alimentação .) Paternos e filiais Conjugais De parentesco em geral . .a o culto f Santuário -a o s órgãos do culto s*"eX e s Sentimentos religiosos Sentimentos nacionais { Positivos (Obrigações cívicas positivas) Negativos (Traição.aos usos das mais diversas espécies Sentimentos relativos ao trabalho Sentimentos tradicionais diversos .à sepultura .136 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Regras que proíbem atos contrários a sentimentos coletivos 1 COM OBJETOS GERAIS Positivos (Impondo a prática da religião) Relativos às crenças sobre o divino Negativos10| . guerra civil etc. .ao costume .ao cerimonial .

Desobediências de todo tipo (contravenções administrativas). violências contra a autoridade.Suicídio Física Moral (pressão no exercício Liberdade Individual dos direitos cívicos) Injúrias. seja em suas pessoas. seja em seus bens .A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 137 Enquanto ofendidos diretamente Sentimentos relativos ao órgão da consciência comum Indiretamente1 2 Lesa-majestade. Fraudes em detrimento do Estado. Rebelião. Abuso de confiança \ Fraudes diversas Falsificação de moeda. Ultrajes. Vigarice. Estelionato. II COM OBJETOS INDIVIDUAIS ' Assassinatos. Pilhagem Saúde pública Sentimentos relativos à pessoa do indivíduo As coisas do indivíduo Sentimentos relativos a uma generalidade de indivíduos. ’ Intromissão dos particulares nas funções públicas. Prevaricação dos funcionários e diversas faltas profissionais. Complôs contra o poder legítimo. Falência Incêndio Banditismo. ferimentos . Usurpaçâo. calúnias Honra Falsos testemunhos I Roubos.

. a [paípt) KaKráaecoç]. o fato de bater em seus pais13 ou amaldiçoá-los14. uma nova e ainda mais acentuada regressão se manifesta. Ain­ da assim.138 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL III Basta dar uma olhada nesse quadro para reconhecer • que um grande número de tipos criminológicos dissol­ veu-se progressivamente. da mesma. ou de desobedecer ao pai15. Enfim. a legislação sobre esse ponto tinha o mesmo caráter. pois o marido tem o direito de isentar da pena a mulher condenada. em Roma. embora pertencendo ao mesmo tipo da cidade romana. representa uma variedade mais primitiva. Hoje. Quanto aos deveres dos demais membros da família. Não era assim antigamente. não têm mais sanção repressiva. O decálogo faz da piedade filial uma obrigação social. que não lhes proporcionavam os meios de existência de que necessitavam. No en­ tanto.. podiam ser perseguidos pela [pacpf) KaKÓaecoç]. era punido com a morte. As únicas obrigações familiares . a regulamentação da vida doméstica quase in­ teira perdeu todo e qualquer caráter penal.”16 Os deveres dos parentes para com o órfão ou a órfã eram sancionados por ações do mesmo gênero. As­ sim. as penas sensivelmente menores que puniam esses delitos atestam que os sentimentos correspondentes não tinham. em Atenas. que. “Os que maltratavam ou insultavam seus pais ou seus ascendentes. que não lhes davam funerais proporcionais à dignidade de suas famí­ lias. As faltas para com os deveres fa­ miliares davam motivo a uma queixa especial. Na cidade ateniense. As únicas ex­ ceções são as proibições do adultério e da bigamia. a mesma força ou a mesma determi­ nação que na Judéia17. o adultério ocupa na lista de nossos crimes uma posição totalmente excepcional.

22). a situação é mais ou menos a mesma. As penas também eram. a mor­ te. como magistrado encarregado de fazer respeitar em sua casa a lei geral do Estado. mas. 19). pouco a pouco. a prostituição (Levítico. e o incesto . ob­ jeto de penas severíssimas. 23-27). XXII. Todos esses crimes são. na maioria dos casos.. Sem dúvida. em especial a prostituição das filhas de sacerdotes Qbid.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 139 que a lei penal consagra são as que vinculam o cliente ao patrono e reciprocamente18. enfim. quando ele usa assim de seu poder. os senti­ mentos domésticos saíram da parte central da consciên­ cia comum20. 13-21). só são punidas disciplinarmente pelo pai de família. 20-22). menos elevadas. Quanto às outras faltas domésticas. conquanto estejamos mal-informados sobre as características constitutivas do ato incestuoso. a se tomar problemas puramente privados. XVIII. mas é como particular que age19. Já são menos numerosos no direito ateniense. geralmente. a união com uma escrava (Levítico. Assim. 19). a bestialidade (Êxodo.o Levítico (XVII) conta nada menos de dezesse­ te casos de incesto. XXII. a fraude da moça deflorada que se apresenta como virgem no casamento (Deuteronômio. XXII. não o faz como funcionário pú­ blico. de que a socie­ dade se desinteressa. XIX. o incesto. o comércio com uma cidadã honesta fora do casamento. o proxenetismo. os atentados contra os costumes ocupam um espaço considerável. a sodomia (Levítico. con­ . No Pentateuco. Essas variedades de infração tendem. XIX. Na ci­ dade romana. XXI. a autoridade de que ele dispõe per­ mite-lhe reprimi-las de forma severa. 29). pois. Uma mul­ tidão de atos que nossa legislação não mais reprime são tratados como crimes: a corrupção da noiva (Deuteronômio. Foi essa a evolução dos sentimentos relativos às re­ lações entre os sexos. que não reprime senão a pederastia paga. ademais.

a multa ou a infâmia. na realidade. coisa do­ méstica e privada. em que a tradição é onipotente e em que quase tudo é em comum. Sem falar num grande número de práticas semi-religiosas. todos eles. esses sentimentos não têm mais eco no direito penal. até certo ponto. correspondentes a sentimentos coletivos diferentes. em parte. A mesma coisa sucedia. “exer­ cia sua tirania até nas menores coisas. a não ser em dois casos: quando são ofendidos publicamente ou na pessoa de um menor. na cidade primitiva”. incapaz de se defender23. desapareceram progressivamente. O Pentateuco está cheio de prescrições do mesmo gênero.140 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL quanto toda essa parte da legislação seja mais indetermi­ nada: dir-se-ia que ela perde seu destaque. Em Tonquim. os censores ou o pai de família. pune-se o médico que não redigiu regularmente sua receita25. a alimentação26. Em Locres. com base em queixa dos edis22. Nas socieda­ des simples. os usos mais pueris tomam-se. mil detalhes da vida econômica são submetidos a uma regulamentação extensa28. Enfim. ou qua­ se todos. pela força do hábito. o vestuário27. “sem ser prevista pela lei. A classe das regras penais que designamos na rubri­ ca tradições diversas representa. há um grande número de faltas para com o decoro que são mais severamente reprimidas do que graves atenta­ dos contra a sociedade24. O pai tinha o direito de punir sua filha. cuja ori­ gem é evidentemente histórica e cuja força vem toda da tradição. Parece que a repressão desses delitos já é. o povo punia com uma multa ou com o exílio o mesmo crime. uma multi­ dão de tipos criminológicos distintos. diz Fustel de Coulanges. com a morte. era punida pelo povo.”2 1 Mais ou menos a mesma coisa sucedia com o stuprum ou comércio ilegíti­ mo com uma matrona. “O Estado”. deveres imperativos. nas ci­ dades gregas. Na China. “A pederastia. diz Rein. hoje. a lei . Ora.

”30 A esse título. Era comum que o vestuário fosse invariavelmente fixado pelas leis de cada cidade. Em nossos dias. O hebreu devia obedecer a todos os mandamentos da Lei. em Esparta. ou quase total. todo um mundo de senti­ mentos que deixou de contar entre os estados fortes e definidos da consciência comum. é impossível que ela se deva a um acidente fortuito.”29 Mas o número desses delitos já é bem menor. Mas a perda mais importante do direito penal é a que se deve ao desaparecimento total.. Vemo-la tornar-se cada vez mais completa.. “Mas a pessoa que fizer alguma coisa atrevida­ mente. não se cita nenhum. sob pena de supressão. mas ainda a fazer tudo o que era prescrito. em Roma. a lei proibia que os ho­ mens se barbeassem. por conseguinte. cremos seria difícil descobrir tais prescrições em nosso direito. à medida que se passa de um tipo social a outro mais elevado.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 141 vedava aos homens beber vinho puro. pois. Contudo. não só ele era obrigado a não fazer nada que fosse proibido. consta­ tamos que essa eliminação foi regularmente progressiva. essa regressão parece tão acentuada que até duvi­ damos que seja normal e duradoura. será eliminada do meio do seu povo. Eis. Em Rodes. ao contrário. Sem dúvida. dos crimes religiosos. salvo algumas prescrições suntuárias relativas às mulheres. a legislação de Esparta regulamentava o penteado das mulheres e a de Atenas lhes proibia levar em viagem mais de três vestidos. quando nos contentamos em comparar nossa legislação sobre es­ sa matéria com a dos tipos sociais inferiores tomados em bloco. em Bizâncio. cir- . quando seguimos de perto o desenvolvimento dos fatos. ela exigia que os homens raspassem o bigode. Não poderíamos enumerar todos os crimes religiosos que o Pentateuco distingue e reprime. ela punia com uma multa quem tivesse em casa uma navalha.

mas em perturbá-lo com atos positivos ou palavras33. o crime não consistia em não celebrar o culto. Sua esfera era certamente bastante extensa.”3 1 No entanto. Ademais. não de abstenção. Por­ tanto. os seguintes: a negação das crenças relativas aos deuses. que a consciência religiosa devia ser menos intolerante na pá­ tria dos sofistas e de Sócrates do que numa sociedade teocrática como era o povo hebreu. o fato de iniciar o vulgo no segredo dos mistérios. destinada a processar os atentados con­ tra a religião nacional. a profanação das festas. etc. são todos. o direito ático não definira nitidamente os crimes e os delitos que deviam ser qualificados de àoé(kia. muito embora a elas­ ticidade natural dessa acusação houvesse por vezes per­ mitido fazê-lo em tal caso34. com efeito. É evidente. sua lista era decerto menos longa do que no di­ reito hebraico. de tal sorte que era deixada grande latitude para a apreciação do juiz. as festas. dos templos e dos altares. foi preciso . aliás. “De acordo com todas as aparências. deli­ tos de ação. dos sacrifícios. En­ fim. dos jo­ gos. celebrar o sábado. Para que a filosofia nela tenha podido nascer e desenvolver-se. Os principais citados são. ou quase todos. não está provado que a introdução de novas divin­ dades tivesse regularmente a necessidade de ser autori­ zada e fosse tratada de impiedade. a [Ypacpf) áaefkíaç]. à sua existência. de ar­ rancar oliveiras sagradas. havia uma acusação especial. Não precisamos lembrar quão numerosas são essas pres­ crições e com que penas terríveis são sancionadas. a freqüentação dos templos pelas pessoas às quais o acesso a eles é vedado32. a importância da criminalidade religiosa ainda era muito grande. as faltas aos deveres para com os mortos. a omis­ são ou a alteração das práticas rituais pelo sacerdote. a seu papel nos assuntos humanos. a violação do direito de asilo.142 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL cuncidar a si e aos seus. Em Atenas.

como muitos deles decaíram um ou vários graus. por meio de editos de advertência e de proibição. Não encontramos aí nenhuma instituição jurídica que recorde a poupri áoepaaç. “Graças a essa preponde­ rância do princípio político e ao caráter político da reli­ gião romana.”37 Os processos religiosos certamente não tiveram tanta importância na justiça criminal de Ro­ ma quanto na de Atenas. prejudicassem a reli­ gião nacional. elas pesam muito menos ainda sobre as consciências individuais. subordinaram-nas a si. que consistia num sacrifício oferecido aos deuses38. De fato. esse ponto era tratado menos como uma questão de direito do que como um interesse da alta administração.”36 Mas este intervinha se cidadãos se voltassem para divindades estrangeiras e. o Estado ro­ mano era muito menos penetrado de religiosidade35. ou por castigos que iam até a morte. os romanos não os colocavam todos no mesmo pé. comparado com os povos anteriores. Fustel de Coulanges insistiu jus­ tamente sobre o caráter religioso da sociedade romana. mas distinguiam os scelera expiabilia dos scelera inexpiabilia. Sem dúvida. As funções políticas. caso se encerrassem em seus li­ mites e não comprometessem muito intimamente o Esta­ do. separadas muito cedo das funções reli­ giosas. intervinha-se contra esses atos. conforme a exigência das circunstâncias. o Estado só prestava à religião seu apoio na medida em que os atentados dirigidos contra ela ameaça­ vam-no indiretamente. esse . Os primei­ ros necessitavam apenas de uma expiação. As crenças religiosas de Estados estrangeiros ou de estrangeiros que viviam no Império romano eram toleradas. com isso. Em Roma. Não apenas os crimes contra a religião são mais niti­ damente determinados e menos numerosos. “Todavia. mas.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 143 que as crenças tradicionais não fossem fortes o bastante para impedir sua eclosão.

por vezes até a menor infração ao ritual39 eram punidos com o último su­ plício. 4a O incesto cometido por uma vestal ou com uma vestal40. Mas é uma pena de caráter bem diferente da morte. essas faltas tão facilmente remissíveis estavam entre as que o direito ateniense reprimia com a maior severidade. de qualquer um dos scelera inexpiabilia. os seguintes: Ia Qualquer falta intencional ao dever dos funcioná­ rios encarregados de tomar os auspícios e realizar os sa­ cra. do confisco. 3a O divórcio em caso de casamento per confarreationem\ 4QA venda de um filho nascido de tal casamento.144 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL sacrifício era uma pena. No entanto. ou ainda sua profanação. a mais ínfima perturbação das cerimônias religiosas. 2fi O fato. 6e A consumação. desse ponto de vis­ . do exílio etc. Os scelera inexpiabilia eram. sem má intenção. de consumar intencio­ nalmente uma legis actio num dia nefasto. 5a A exposição de um morto aos raios do sol. O cristianismo foi muitas vezes criticado por sua in­ tolerância. Ora. só havia penas verdadeiras contra os atenta­ dos que eram. 2S A profanação de qualquer locus religiosus. ao mesmo tempo. a profanação dos templos. Em Atenas. porque a nódoa com que o culpado se maculara contaminava a sociedade e corria o risco de atrair sobre esta a cólera dos deuses. Eram elas: 1QA profanação de qualquer locus sacer. na medida em que o Estado po­ dia exigir sua consumação. na verdade. 3e A profanação intencional das feriae por atos proi­ bidos em semelhantes casos. muito graves e intencio­ nais. para um magistrado. Em Roma. ele realizava.

atestan­ do assim que os sentimentos fortes e definidos se tomam menos numerosos. . por­ que a fé. do direito penal. como as que lembrávamos há pouco. primeira fonte de dissidências. Não é necessário demonstrar que o movimento só se acentuou daí em dian­ te. Separada da vida temporal muito mais completamente do que estava mesmo em Roma. ou quase. a heresia sob suas diferentes formas são. Desde a origem. tomando-se mais geral e mais abstrata. quando alguém a nega e quanto alguém a ataca frontalmente. A lista continua. um progresso considerável em relação às religiões an­ teriores. a criminalidade religiosa acabou saindo comple­ tamente. na Idade Média. pode não ser assim? Todo o mundo reconhece que a religião cristã é a mais idealista que já existiu. Mal as socie­ dades cristãs começam a se organizar. de que a blasfêmia nada mais é que uma variedade. A consciência religiosa das sociedades cristãs. É por isso que o despertar do livre pensamento no seio do cristianis­ mo foi relativamente precoce. Ela não reclama mais repressão para in­ frações de detalhe. Isso significa. escolas dife­ rentes se fundam e até mesmo seitas opostas. portanto. Como. ao mesmo tempo simplificou-se. os únicos cri­ mes religiosos41. mas apenas quando é ameaçada em algum de seus princí­ pios fundamentais. que ela é muito mais feita de artigos de fé bastante amplos e gerais. desde então.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 145 ta. ela não pode mais se impor com a mesma autoridade e tem de se encerrar ainda mais numa atitude defensiva. O sacrilégio. espiritualizando-se. pois. do que de crenças particulares e de práticas determinadas. só determina uma reação penal quando alguém se insurge contra ela por alguma ação notável. mesmo na época em que a fé se encontra no auge. aliás. e seu número não é muito grande. a diminuir. aparece a escolástica. Assim. Os direitos da dis­ cussão são reconhecidos em princípio. primeiro esforço metódico da livre reflexão.

se uma sociedade não achar revoltante o saque das nações vizinhas. que ele é considerado por ninguém um crime”43. é reduzido a identificar o roubo com a prática do comunismo ou com o banditismo internacio­ nal44. para apoiar essa afirmação. porque não se constituíram outras que fossem absoluta­ mente novas. inúmeras variedades criminológicas que • desapareceram progressivamente e sem compensação. que interpreta sem crítica. Do mesmo modo. do fato de a propriedade ser indivisa entre to­ dos os membros do grupo. Ele sustentou “que o crime. Não há sociedade em que os atentados aos sentimentos ou às instituições nacionais tenham sido algum dia tolerados. Ora. mas a regra geral . Lombroso procurou recentemente retomar essa tese. Ora. por conseguinte. enquanto Atenas punia o ócio42. cita apenas alguns fatos raros e equívocos. não se pode concluir que ela tolere as mesmas práticas em suas relações internas e não proteja seus nacionais uns contra os outros. tende cada vez mais a desaparecer. é lícito crer que os sentimentos correspondentes se tenham debilitado. entre os selvagens. Proibimos a mendicidade. pois. mais ainda. um texto de Diodoro e outro de Aulo Gélio46 que poderiam levar-nos a crer que . é essa impunidade do banditismo interno que seria neces­ sário estabelecer. diz-se às vezes que os crimes contra a pessoa individual não eram reconhecidos pelos povos in­ feriores.146 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL IV Eis. que o roubo e o assassinato eram até honrados. é verdade. Há. só pode haver roubo na medida em que há propriedade45. tão fértil outrora em aplicações. Assim. não decorre em absoluto que o direito ao roubo seja reconhecido. a repressão parece até ter sido mais severa outrora e. não é uma exceção. Mas... O cri­ me de lesa-majestade. No entanto.

de uma impunidade rela­ tiva. De fato. Os indivíduos podem admirar a coragem do ho­ mem sem que o ato seja tolerado em princípio. em princípio. proscreva o assassi­ nato. De resto. O fato de que. o homicídio escape des­ sa regra não prova que ela não existe. as leis pronunciavam a pena de morte contra quem vivia de ga­ nhos ilícitos. seja por um pai sobre seus fi­ lhos. os fatos que os escritores nos relataram de maneira inexa­ ta. por meio de conjeturas48. quando não absoluta? A simpatia de que por vezes os assassinos e os ladrões são objeto não é mais demons­ trativa. acaso seme­ lhantes exceções não se encontram inclusive em nossas sociedades contemporâneas? Acaso o general que envia um regimento a uma morte certa para salvar o resto do exército age de modo diferente do sacerdote que imola uma vítima para aplacar o deus nacional? Acaso não se mata na guerra? Acaso o marido que mata a mulher adúl­ tera não goza. Entre esses exemplos particularmente extraordiná­ rios. mas a inexatidão de seu relato não é duvidosa. diz muito apropriadamente Thonissen. em condições especiais.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 147 essa licença existiu no Egito antigo. em que a simples alteração de um peso ou de uma medida era punida com a perda das duas mãos?”47 Podemos procurar reconstituir. Aliás. ora sacrifícios religiosos ou o resulta­ do do poder absoluto exercido. em certos casos. Mas esses textos são contraditos por tudo o que sabemos sobre a civilização egípcia: “Como admitir”. a concepção que serve de base para essa doutrina é contraditória em termos. São ora fatos de guerra. seja por um déspota bár­ baro sobre seus súditos. o que seria necessário demonstrar é a ausência de qualquer regra que.. “a tolerância do roubo num país em que . Ora. não há um só que comporte tal conclusão. são sempre consumados em circunstâncias excepcionais. Quanto aos homicídios de que fala Lombroso.. ela supõe .

Por outro la­ do. se há uma regra comum a todas essas morais. Não foram eles que se multiplicaram. em pri­ meiro lugar. uma moral que. por conseguinte. outrora. mas à extensão de uma regra antiga. a um título qualquer. Mas nesses dois fatos nada há que infirme nossa con­ clusão. há razões para admitir que o respeito da sociedade pelo indivíduo tor­ . são hoje igualmente protegi­ dos. mesmo não se assemelhando à nossa. que os sentimentos coletivos que correspondem a ela tornaram-se mais for­ tes. Agora que já não fazemos semelhantes distinções. por­ que os homens que se assemelham não podem viver jun­ tos sem que cada um sinta por seus semelhantes uma simpatia que se opõe a qualquer ato capaz de fazê-los sofrer4?. essa atenuação dos costumes se deve não ao apare­ cimento de uma regra penal verdadeiramente nova. Tudo o que há de verdadeiro nessa teoria é. fazem parte da sociedade. as crianças e os escravos. ainda assim existe. não porque haja mais sen­ timentos coletivos. Em segundo lugar. Mas isso ocorre simplesmente porque há mais pessoas na sociedade. a sa­ ber. é legíti­ mo crer que essa proteção é garantida agora com um cui­ dado mais zeloso e. por conseguinte. por mais rudimentar que seja. Ora. certos atos que não eram criminosos torna­ ram-se puníveis. mas o objeto a que se referem. a partir do momento em que os hom ens formam uma sociedade. fora de sua ação uma parte da população. porém. Se. Desde o princípio. que as leis protetoras da pessoa deixavam. Se todos os vínculos que.148 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL que os povos primitivos são destituídos de toda e qual­ quer moralidade. há necessariamente regras a presidir suas rela­ ções e. é cer­ tamente a que proíbe os atentados contra a pessoa. mas essa qualidade de membro era recusada às crianças e aos escravos. era proibido atentar contra a vida dos membros do grupo.

os sentimentos coletivos que se referem ao indivíduo também teriam permanecido os mesmos principalmente. não basta que a cons­ ciência pessoal de cada um tenha aumentado em valor absoluto. mas o indivíduo. que esta tenha perdido o domínio e a ação determinante que exercia a princípio. Assim. Mesmo o crescimento bastante restrito que acabamos de observar não faz mais que confirmar esse resultado. mas ainda que ela tenha aumentado mais do que a consciência comum. Por­ que dependem unicamente do valor social do fator indi­ . por conseguinte. De fato. se ambas se tives­ sem desenvolvido em volume e em vitalidade nas mes­ mas proporções. pois em todos os tempos esse sentimento existiu e em todos os tempos teve energia bastante para não tolerar que o ofendessem. como havíamos anunciado. no conjunto. é notável que os únicos sentimentos coletivos que se tomaram mais inten­ sos são os que têm por objeto não coisas sociais. disso não decorre que a região central da consciência comum tenha-se ampliado. A única mu­ dança que se produziu foi que um elemento antigo tor­ nou-se mais intenso. Nela não en­ traram elementos novos. Para que seja assim. a consciência comum conta ca­ da vez menos sentimentos fortes e determinados. para que tenha podido adquirir essa importância. Mas esse simples reforço não seria capaz de compensar as múltiplas e graves perdas que constatamos. é necessário que a perso­ nalidade individual tenha se tomado um elemento muito mais importante da vida da sociedade. Isso significa que a intensidade média e o grau médio de de­ terminação dos estados coletivos vão sempre diminuin­ do. De fato. É necessário que ela se tenha emancipado do jugo desta última e. não teriam sido os únicos a crescer.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 149 nou-se mais forte. e. se a relação entre esses dois termos tivesse permanecido a mesma.

aliás. Enfim. sobre as origens do mun­ do. no entanto. seja de pensamento. há uma multidão de regras. de fato. Não possuímos atualmente uma noção científica do que seja a religião. A religião proíbe que o judeu coma certas carnes. Diz-se com freqüência que a religião era. Garante-se. e esta é uma ten­ tativa que ainda não foi feita. por sua vez. para obtê-la. se a autoridade ex­ . que são certamente religiosas e que. muito além do comércio do homem com o divino. se aplicam a relações de um tipo totalmente diferente. Bastaria que esse simples fato fosse bem estabelecido pa­ ra que não se tivesse mais o direito de definir a religião em função da idéia de Deus. manda-lhe vestir-se de uma maneira determinada. Sua esfera de ação se estende. mas pela extensão relativa do papel que lhe cabe no conjunto dos fenôme­ nos sociais. V Poderíamos ainda verificar essa proposição proce­ dendo segundo um método que apenas indicaremos de modo sumário. ela impõe determinada opinião sobre a na­ tureza do homem e das coisas. morais e econômicas. Mas essa definição é manifesta­ mente inadequada. De fato. seja de conduta. e este. que existe pelo menos uma religião sem deus50. é determinado não pelo de­ senvolvimento absoluto desse fator.150 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL vidual. pois. em cada momento da história. ela rege com freqüência as relações jurídicas. o conjunto das crenças e dos sentimentos de todo tipo relativos às relações do homem com um ser ou seres cuja natureza vê como superior à sua. seria necessário ter tratado o problema por esse mesmo método compara­ tivo que aplicamos à questão do crime.

as duas palavras são sinônimas.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 151 traordinária que o crente empresta à divindade pode ex­ plicar o prestígio particular de tudo o que é religioso. é um fato constante o de que.esta breve exposição. se­ rem comuns a certo número de indivíduos que vivem juntos e. Depois. em muitos casos. circunscrever es­ sa região. esse elemento. ela inspira nas consciências o mesmo respeito reverenciai que as cren­ ças propriamente religiosas. sem dúvida. se há uma verdade que a história pôs fora de dúvida é a de que a religião engloba uma porção cada vez menor da vida social. pouco a pouco. aliás. por conse­ guinte. corresponda a uma região igualmente bastante central da consciência comum. se não sempre. mas cuja solução não diz diretam ente respeito à conjetura bastante verossímil que acabamos de fazer. tudo o que é social é religioso. São questões a serem estuda­ das. as funções políti­ . distingui-la da que corresponde ao direito pe­ nal e com a qual. é verdade. não poderia constituir uma demonstração rigorosa . que essa força que ele tem venha de algum lugar. Faltaria. porém. é. resta esclarecer como os homens foram levados a atribuir tal autoridade a um ser que. terem uma intensidade média bas­ tante elevada. ela se confunde com freqüência em totalidade ou em parte. Ora. tal fórmula não nos faz conhecer a essência do fenômeno. a única ca­ racterística que todas as idéias. um produto de sua imaginação. Portanto. Uma vez afastado. quando uma convicção um pouco forte é partilhada por uma mesma comunidade de homens. pois. parece. Com efeito. ela se estende a tudo. Originalmente. além disso. assim como todos os sen­ timentos religiosos apresentam igualmente é.que a religião . ela adquire inevita­ velm ente uma característica religiosa. segundo todo o mundo. é muitíssimo pro­ vável . Nada vem de nada: é necessário.

A diminuição do número de provérbios.152 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL cas. só podemos atingir fenômenos de sensibili­ dade. econômicas e científicas se emancipam da função re­ ligiosa. e a ação que exerce. tornando-se mais geral e mais inde­ terminada. Deus. etc. Portanto. deixa um espaço cada vez maior ao livre jogo das forças humanas. mas podemos seguir suas fases desde as origens da evolução social. toma-se muito mais uma fonte de atividade espontânea. o indivíduo sente-se. Numa palavra. ela está ligada às condições fundamentais do desenvolvimento das sociedades e atesta. idéias e doutrinas. se é que podemos nos exprimir assim. Logo. Essa regressão não começou em de­ terminado momento da história.. ele abandona o mundo aos homens e a suas disputas. não somente o domínio da religião não aumenta ao mesmo tempo que o da vida temporal e na mesma medida. retira-se progressivamente delas. adágios. é outra prova de que as representações coletivas também vão ficando indeterminadas. Através do direito penal. mas vai se estrei­ tando cada vez mais. . Essa demonstração tem uma vantagem em relação à precedente: ela permite estabelecer que a mesma lei de regressão se aplica ao elemento representativo da consciên­ cia comum. bem como ao elemento afetivo. que antes estava presente em todas as relações humanas. se ele continua a dominá-lo é do alto e de longe. ao passo que a religião compreende. Isso significa que a própria intensi­ dade média da consciência comum vai se enfraquecendo. Pelo menos. di­ tados. assim. que há um número cada vez menor de crenças e de sentimentos coletivos que são tanto bastante coletivos como bastante fortes para adquirir um caráter religioso. constituem-se à parte e adquirem um caráter tem­ poral cada vez mais acentuado. além dos sen­ timentos. à medida que as sociedades se desenvolvem. e é realmente menos agido.

nem semelhante desdém pelas imagens. É impossível até que haja crenças ou sentimentos dessa natureza sem que se fixem sob essa forma. perdem sua acepção própria e acabam até não sendo mais ouvidos. há pelo menos um para cada circunstância da vida. pois. não apenas não se pro­ duzem novos provérbios. Ora. de fato. acaba necessariamente fechando-se numa fórmula que lhes é igualmente comum. invocouse nosso gosto realista e nosso humor científico. Toda função duradoura cria para si um órgão à sua imagem. Mas essas fórmulas breves acabam se tomando demasiado estreitas para conter a diversidade dos senti­ . Mais tarde. como os antigos se apagam pouco a pouco. para explicar a decadência dos provérbios. “A maioria das raças do Oes­ te da África”. mas não o único. Foi erroneamente. as fórmulas desse gênero são numerosíssimas. encontramos muito sabor nos velhos pro­ vérbios que nos são conservados. eles só se conseguem man­ ter nas classes menos altas52. ao contrário. Como todo pensamento tende a uma expressão que lhe seja adequa­ da. Não tra­ zemos à linguagem da conversa semelhante preocupação com a precisão. pelo qual se condensa o pensamento coletivo.”51 As sociedades mais avançadas só são um pouco fecundas desse ponto de vista durante os primeiros tem­ pos da sua existência. é um dos meios. a imagem não é um elemento inerente do provérbio. que. relativo a uma categoria determinada de objetos. se ela é comum a um certo número de indivíduos. um provérbio é a ex­ pressão condensada de uma idéia ou de um sentimento coletivo. diz Ellis. Aliás. O que mostra que é sobre­ tudo nas sociedades inferiores que encontram seu terre­ no de predileção é que. “possui uma abundante coleção de provérbios. hoje.A FUNÇÃO DA DIVISÃO D O TRABALHO 153 Entre os povos primitivos. particularidade que é comum a eles e à maioria dos povos que fizeram poucos progressos na civiliza­ ção.

O tipo coletivo perde seu relevo. O individualismo. na realidade. comparar as socie­ . por exemplo. mas. as formas são cada vez mais abstratas e indecisas. em todo caso. ao longo de toda a histó­ ria. Assim. As novas sociedades que substituem os tipos sociais ex­ tintos nunca começam sua carreira no ponto preciso em que aqueles cessaram a deles. um produto original de nossa civi­ lização mais recente e um acontecimento único na histó­ ria das sociedades. mas sua própria infância. Por isso. ela continua de uma ma­ neira ininterrupta desde os tempos mais remotos. porque há menos representações coletivas bastante defi­ nidas para se encerrarem numa forma determinada. Portanto. É o que procuramos demonstrar. mas que se desenvolve. tudo concorre para provar que a evolução da consciência comum se faz no sentido que indicamos. Muito verossimilmente. É necessário. o livrepensam ento não datam nem de nossos dias. elas não conseguem mais se manter. como se é levado a crer com freqüência. esse desenvolvimento não é retilíneo. nem de 1789.154 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL mentos individuais. É um fenômeno que não começa em lugar nenhum. poderíamos nos perguntar se ela será duradoura. e desaparecem pouco a pouco. se quiser­ mos nos dar conta do caminho percorrido. Seguramente. se essa decadência fosse. só devemos considerar as sociedades sucessivas na mesma época de sua vida. nem da reforma. Sua unidade não está mais relaciona­ da com as divergências que se produziram. Como seria possível? O que o filho continua não é a velhice ou a idade madura dos pais. ela progride menos que as cons­ ciências individuais. sem parar. O órgão se atrofia porque a função já não se exerce. isto é. ela se toma mais fraca e mais vaga em seu conjunto. nem da queda do politeísmo greco-latino ou das teocracias orientais. nem da escolástica. Sem dúvida. senão adquirindo um significado mais geral.

é individual por seu obje­ to. ou. uma lei inelutável contra a qual seria absurdo se insurgir. esse fim não é social. Se ela orienta todas as vontades para um mesmo fim. portanto. de resto. Ela tem. Constataremos. ela só é possível pela ruína das outras e. Mas. É por isso que se pôde acusar. sem solução de continui­ dade. Portanto. de uma fé comum. por assim dizer. Temos pela dignidade da pessoa um culto que. o indivíduo torna-se objeto de uma espécie de religião. portanto. Trata-se. se ela é comum enquan­ to partilhada pela comunidade.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 155 dades cristãs da Idade Média com a Roma primitiva. pode­ mos concluir dizendo que todos os vínculos sociais que resultam da similitude se afrouxam progressivamente. que deixam o espaço livre para uma multidão crescente de dissidências individuais. . 'Por con­ seguinte. Isso não quer dizer. se se quiser. À medida que todas as outras crenças e todas as outras práticas assumem um caráter cada vez menos religioso. Ademais. Mas ela consiste cada vez mais em maneiras de pensar e de sentir muito gerais e indeterminadas. não poderia produzir os mesmos efeitos dessa multidão de crenças extintas. em primeiro lugar. por conseguinte. esta com a cidade grega das origens. os teóricos que fizeram desse sentimento a base exclusiva de sua doutrina moral de dissolver a sociedade. essa regressão consumou-se. Temos aí. Há um lugar em que ela se consolidou e se precisou: aquele pelo qual ela vê o indivíduo. É da socie­ dade que ela tira toda a força que possui. ela não constitui um vínculo social verdadeiro. Não há compensação. etc. já tem suas superstições. se quiserem. en­ tão. mas não é à sociedade que ela nos prende: é a nós mesmos. uma situação to­ talmente excepciona] na consciência coletiva. que a consciência co­ mum esteja ameaçada de desaparecer totalmente. que esse progresso. pois. como todo culto forte. com razão.

é preciso ou que a vida propriamente social diminua. É a divisão do trabalho que. aliás. mesmo on­ de é mais resistente. ou que outra solidariedade venha pouco a pouco substituir a que se vai. ficará ainda mais evidente que a solidariedade social tende a se tomar exclusivamente orgânica. essa lei já basta para mostrar toda a grande­ za do papel da divisão do trabalho. mais as sociedades têm um profundo sentimento de si e de sua unidade. ora.156 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Por si só. não pode haver outro além daquele que deriva da divisão do trabalho. Acabamos de provar que esses dois termos variam no sentido inverso um do outro. quanto mais se avança. De fato. é necessário que exista algum outro vínculo social que produza esse resultado. o progresso so­ cial não consiste numa dissolução contínua. cada vez mais. uma vez que a solidariedade mecânica vai se enfraquecendo. muito ao contrário. além disso. que. nos lembrarmos de que. a solidariedade mecânica não vincu­ la os homens com a mesma força da divisão do trabalho. ela deixa fora de sua ação a maior parte dos fenômenos sociais atuais. cumpre o papel exercido outrora pela consciência co­ mum. Eis uma função da divisão do trabalho muito mais importante do que a que lhe é de ordinário reconhecida pelos economistas. . é principalmente ela que mantém juntos os agrega­ dos sociais dos tipos superiores. Portan­ to. Se. No entanto.

que. se a proposição precedente é exata. em síntese. perde ter­ reno progressivamente e que a solidariedade orgânica se torna pouco a pouco preponderante. pois. Se tentarmos constituir com o pensam ento o tipo ideal de uma sociedade cuja coesão resultaria exclusiva­ mente das semelhanças. é única ou quase. cujas partes não se distinguiriam umas das outras e. a princípio.) I É. A for­ ma de um corpo se transforma necessariamente quando as afinidades moleculares não são mais as mesmas.CAPÍTULO VI PREPONDERÂNCIA PROGRESSIVA DA SOLIDARIEDADE ORGÂNICA E SUAS CONSEQÜÊNCIAS Çcont. uma massa que. uma lei da história a de que a solidariedade mecânica. por conseguinte. a es­ trutura das sociedades não pode deixar de mudar. deveremos concebê-la como uma massa absolutamente homogênea. . não seriam arranjadas entre si. deve haver dois tipos sociais que correspondem a essas duas sortes de solidariedade. Por conseguinte. Mas quando a ma­ neira como os homens são solidários se modifica.

o germe de que sairiam todos os tipos sociais. sociedades que correspondam ponto por ponto a essas características. Seria o verdadeiro protoplasma social. que apresentam todas as características que aca­ bamos de indicar. A própria parentela não é organiza­ da. havia algumas obrigações especiais que uniam o filho a seus parentes matemos. No entanto. Na época tardia em que esses povos foram observados. Em princípio. porque não se pode dar esse nome à distribuição da massa por camadas de gerações. Os caciques e chefes que se encon­ tram à frente de cada um desses grupos e cujo conselho administra os negócios comuns da tribo não gozam de ne­ nhuma superioridade. de maneira totalmente autêntica. É verdade que ninguém ainda observou. Damos o nome de clã à horda que deixou de ser in­ dependente para se tornar um elemento de um grupo . Propomos chamar de horda o agregado assim caracterizado.158 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL seria desprovida de qualquer forma definida e de qual­ quer organização. é formada por certo nú­ mero de sociedades parciais (a mais volumosa compreen­ de oito). todos os indivíduos da mesma idade eram parentes uns dos ou­ tros no mesmo grau1. Em outros casos. por conseguinte aquelas que es­ tão mais próximas desse estágio primitivo. o que faz que tenhamos o direito de postular sua existência. Fison e Howitt descrevem tribos australia­ nas que só compreendem duas dessas divisões2. por exemplo. é que as sociedades inferiores. Ca­ da tribo iroquesa. Os adultos de ambos os sexos são iguais uns aos outros. En­ contramos um modelo quase perfeitamente puro dessa or­ ganização social entre os índios da América do Norte. são formadas por uma simples repetição de agregados desse gênero. mas essas relações se reduziam ainda a pouca coisa e não se distinguiam sensivelmente das que a criança mantinha com os outros membros da sociedade. aproximamo-nos mais da horda.

semelhante registro civil constitui. ao mesmo tempo fa­ miliar e política. e de que. para indicar que são formadas pela repetição de agrega­ dos semelhantes entre si. pois encontramo-las alhures. e o de sociedades segmentárias à base de clãs aos povos que são constituídos por uma associação de clãs. uma prova muito pouco demonstrativa e facílima de se imitar. para fazer parte dela. são consangüíneos em sua maioria. É uma família. Não apenas o clã tem por base a consangüinidade. Basta apresentar um crité­ rio externo que consiste. Dizemos que essas sociedades são segmentárias. Portanto.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 159 mais extenso. e que esse agregado elementar é um clã. Aliás. São principalmente as afinidades que a comunidade do san­ gue gera as que os mantêm unidos. que é o que lhe permite alcançar dimensões que uma família propriamente dita nunca tem: ele compreen­ de. da herança mú­ tua. é a unidade política fundamental. da responsabilidade coletiva e. vários milhares de pessoas. Por isso. mas os diferentes clãs de um mesmo . o clã conta muitos estrangei­ ros. geralmente. não é uma família no sentido próprio da palavra. Mas. de fato. com freqüência. no sentido de que todos os membros que a compõem se consideram parentes. porque essa pa­ lavra exprime bem a natureza mista. Ademais. desde que a pro­ priedade individual começa a aparecer. não é necessário ter com os demais membros do clã relações de consangüinidade definidas. porque. de outro lado. eles susten­ tam entre si relações que podemos qualificar de domésti­ cas. também se poderia qualificar essa organi­ zação de político-familiar. análogos aos anéis do anelídeo. em sociedades cujo ca­ ráter familiar não é contestado: estou falando da vindita coletiva. na realidade. Muito embora esse signo deva denotar uma origem comum. os chefes de clãs são as únicas autoridades sociais3. no fato de ter o mesmo nome.

Como quer que a denominemos. e sabemos que estas são as mais numerosas. tal como a da horda. que é visto. e que di­ firam. em relação à precedente. ao mesmo tempo. Entre os hebreus. Mas essa denominação tem. essas duas neces­ sidades contrárias são satisfeitas em proporções diferen­ tes. é necessário.160 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL povo se consideram com freqüência parentes uns dos ou­ tros. por sua vez. se distingue dos outros. cada clã tem uma fisionomia própria e. pois a socie­ dade é formada de segmentos similares e estes. Por isso. o inconveniente de não colocar em relevo o que constitui a estrutura própria dessas sociedades. Já vimos que ele era generalizado na América e na Austrá­ lia. de que não é mais que um prolongamento. Para que a organização segmentária seja pos­ sível. Dessa vez. saímos do domínio da pré-história e das conjeturas. sem o que eles se perderiam uns nos outros e de­ sapareceriam. que os segmentos se pareçam. os hebreus atardaram-se nele e os cabilas não o superaram6. porém. compreendem apenas elementos homogêneos. Waitz. mas o tipo social permanece o mesmo. o ancestral de cada um dos clãs que compõem a tribo é tido como descendente do fundador desta última. por con­ seguinte. segundo o caso. e vice-versa. Post assinala-o como muito freqüente entre os negros da África5. sem o que eles não seriam unidos. os traços mais característicos da mesma organização social. Sem dúvida. como veremos. mas também a solidarie­ dade é tanto mais frágil quanto mais são heterogêneos. não comporta evidentemente outra soli­ dariedade além da que deriva das similitudes. Entre os iroqueses. que apresentam. de irmãos ou primos4. essa orga­ nização. Não só esse tipo social nada tem de hipotéti­ co. por sua vez. mas é quase o mais difundido entre as sociedades in­ feriores. eles se tratavam. Conforme as sociedades. querendo caracterizar de . como um dos filhos do pai da raça.

várias djemmaa for­ mam uma tribo (arch’ ) e várias tribos formam a confede­ ração ( thak’ ebilt). as famílias vivem umas ao lado das outras numa grande independência e se desenvolvem pouco a pouco. em que encontraremos as linhas gerais da organização que aca­ bamos de descrever: “Em regra geral. en­ tre os cabilas. é verdade. a saber. ora. de modo a formar pe­ quenas sociedades [leiam clãs]7 que não têm constituição definida. o que é o sinal de uma organização mais elevada. Todo adulto permanece. É por isso que vemos esses po­ vos. enquanto as lutas internas ou um perigo exter­ no. a que chama Naturvoelker. cada um desses grupos. va­ riar.”8 A disposição dos clãs no interior da sociedade e. pode ser en­ caixado junto com vários outros num outro agregado. a mais alta sociedade política que os .A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 161 uma maneira geral a estrutura desses povos. Assim. ainda mais extenso. a guerra. não levam um ou vários homens a se destacar da massa da sociedade e a se colocar à sua frente. sem outra organização interna. a unidade política é o clã. só se manterem uni­ dos pelo efeito das circunstâncias exteriores e em conse­ qüência do hábito da vida comum. formado pela reu­ nião de vários clãs. e é dessa série de encaixes sucessi­ vos que resulta a unidade da sociedade total. a configuração desta podem. tem uma vida própria e um nome es­ pecial. A influência destes. por sua vez. só se estende e só dura nos limites assi­ nalados pela confiança e a paciência dos outros. Ora eles são simplesmente justapostos de maneira a formarem como que uma série linear (é o caso em mui­ tas tribos indígenas da América do Norte)9. fixado na forma de aldeia (djemmaa ou thaddari)-. que repousa unicamente em títulos pessoais. diante desse chefe. fornece deles o seguinte retrato. num estado de perfeita independência. cada um deles se encaixa num grupo mais vasto que. por conseguinte.

a constituição da família primitiva tinha como base a religião. De fato. is­ to é. quan­ do. a uma época totalmente análoga à de que falamos. a parte no todo. era inevitá­ vel que toda a vida psíquica da sociedade assumisse um caráter religioso. que é dela que deri­ vam suas principais características fisiológicas. segundo a tradição. ao contrário. Mas ele tomou a causa pelo efeito. Do mesmo modo. de um mesmo ancestral10. Essas sociedades são a tal ponto o terreno por exce­ lência da solidariedade mecânica. Depois de ter colocado a idéia religiosa sem fazê-la derivar de nada. o co­ munismo é o produto necessário dessa coesão especial que absorve o indivíduo no grupo. dado que o tipo coletivo era bem desenvolvido ne­ las e os tipos individuais eram rudimentares. vasta sociedade que compreendia milhares de pes­ soas.162 DA DIVISÃO D O TRABALHO SOCIAL cabilas conhecem. É também daí que vem o comunismo. o clã é o que os tradutores chamam impropriamente de f a ­ mília. dela deduziu os arranjos sociais que observava11. A propriedade nada mais é. mas isso porque a vida social é feita quase exclusivamen­ te de crenças e práticas comuns que extraem de uma adesão unânime uma intensidade bem particular. em última análise. Dado que todas essas mas­ sas sociais eram formadas de elementos homogêneos. entre os hebreus. Sabemos que a religião aí penetra toda a vida social. por outro la­ do. são estes últimos que explicam a força e a natureza da idéia religiosa. que foi assi­ nalado com tanta freqüência nesses povos. descendentes. Certo número de famílias compunha a tribo. exclusivamente pela análise dos textos clássicos. e a reunião das doze tribos formava o conjunto do povo hebreu. Remon­ tando. Fustel de Coulanges descobriu que a organização primitiva das sociedades era de natureza familiar e que. do que a ex­ .

Elas nada têm dessa reciprocidade que a divisão do trabalho pro­ duz. Logo. Portanto. exclusiva da individualidade das partes. nesse caso. a sua aparição. o vínculo que. A divisão do trabalho fez aí. As relações do déspota bárbaro com seus súditos. é uma lei geral a de que o órgão eminente de toda sociedade participa da natureza do ser coletivo que ele representa. nem to­ dos os povos primitivos apresentam essa ausência de centralização que acabamos de observar. Esse tipo pode até se modificar sem que a natureza da solidariedade social mude com isso. a propriedade mesma não pode deixar de ser coletiva. é por causa das condições particulares nas quais se efe­ tua. como antes. também se tiver tomado um ser pessoal e distinto. assim como a do senhor com seus escravos. não apenas enquanto organismo. Disse-se com razão que elas são unilaterais13. hoje em dia. a unidade do todo é. onde a sociedade tem esse caráter religioso e. mas àquele que é a ima­ gem deste. por mais im­ portante que seja sob outros aspectos. por assim dizer. A soli­ dariedade que elas exprimem permanece mecânica. onde a personalidade coletiva é a única que existe. De fato. Ela só poderá tomar-se indi­ vidual quando o indivíduo. do pai de fa­ mília romano com seus descendentes. sobre-humano. En­ tretanto. como se poderia esperar. Se essa primeira divisão do trabalho. Toda a diferença está em que ela liga o indivíduo não mais diretamente ao grupo. mas enquanto fator da vida social12. No entanto. une o indivíduo ao chefe é idêntico ao que. De fato. não tem por efeito atenuar a solidariedade social. por­ tanto. existem alguns que são submetidos a um poder absoluto. diferenciando-se da massa. liga a coisa à pes­ soa. ao contrário. não se distinguem das do proprietário com o objeto que possui.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 163 tensão da pessoa nas coisas. portanto. cuja .

o resto da sociedade não estará mais. Os serviços propriamente profissionais que esta última presta têm. diante daquele que será encarregado dessa função. essa autoridade é. no mesmo estado de inferioridade. Suponham que esta seja mais fraca ou apenas que ela abrace uma parte ínfima da vida social. como foi dito. elevado muito acima do resto dos ho­ mens. pouco a ver com a força extraordinária de que é investida. Onde os indivíduos são simples dependências do tipo coletivo. pois. O que a caracteriza é que ela é um sistema de seg­ mentos homogêneos e semelhantes entre si. porque elas necessi­ tam mais especialmente de uma direção enérgica. Do mesmo modo. Por sinal. No entanto. constituída. é nessas condições que ela atinge sua energia máxima. mas por intermédio de um órgão definido. Existe. ele se transmite necessariamente ao chefe que a dirige e que se vê. e a necessidade de uma função reguladora suprema não será menor. nessas sortes de sociedades.164 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL fonte mostramos na constituição da consciência comum. não mais de uma maneira difusa. que se acha. porque a ação da cons­ ciência comum é mais forte quando se exerce. assim. e é grande porque a própria consciência comum é muito desenvolvida. toda ela. portanto. Se. assim. também o direito de propriedade que a comuni­ dade exercia sobre as coisas de uma maneira indivisa transfere-se integralmente para a personalidade superior. uma estrutura social de natureza determinada à qual corresponde a solidariedade mecâni­ ca. Eis por que a solidarie­ dade ainda é mecânica enquanto a divisão do trabalho não é mais desenvolvida. . uma emanação da consciência co­ mum. eles se tomam naturalmente dependências da autoridade central que encarna esse tipo. o poder dirigente tem tama­ nha autoridade não é.

nele. cada um dos quais tem um papel espe­ cial e que são formados. entre ele e os outros órgãos existem apenas diferenças de graus. a alguma força que lhe é comunicada de fora. no animal. porque. Esse próprio órgão não tem mais o mesmo caráter que no caso prece­ dente. Elas são constituídas não por uma repetição de seg­ mentos similares e homogêneos. se os outros dependem dele. Assim. por sua vez ele depende dos outros. De fato. Esse tipo social baseia-se em princípios tão diferen­ tes do precedente que ele só se pode desenvolver na medida em que aquele se apaga. ele ainda tem uma situação particular e. de receber uma alimentação mais escolhida e apropriar-se da parte que lhe cabe antes dos outros. Eles não são nem justapostos linearmente. como eles dele necessitam. mas segundo a natureza particular da atívi- . Por isso. os elementos sociais não estão dispostos da mesma maneira. mas ela se deve à natureza do papel que desempenha e não a al­ guma causa alheia a suas funções. se é que se pode falar assim. que exerce sobre o resto do organismo uma ação moderadora. mas por um sistema de órgãos diferentes. a preeminência do sistema nervoso sobre os outros siste­ mas se reduz ao direito. mas necessita de­ les. nada mais tem que não seja temporal e humano. nem encaixados uns nos ou­ tros. como os anéis de um anelídeo. privilegiada. de partes diferen­ ciadas. Sem dúvida. mas coordenados e subordinados uns aos outros em tomo de um mesmo órgão central. se quiserem. Ao mesmo tempo que não têm a mesma nature­ za. eles próprios.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 165 II Bem diferente é a estrutura das sociedades em que a solidariedade orgânica é preponderante. os indiví­ duos não mais são agrupados segundo suas relações de descendência.

por isso é necessário que desapareça. mas a função que ele de­ sempenha. nem outra origem. no povo hebreu. no modo como a sociedade já é dividida. Seu meio natural e ne­ cessário não é mais o meio natal. das funções sacer­ dotais. Assim que su­ pera certo grau de desenvolvimento. pois. a antiga estrutura. A maneira como as funções se dividem se calca. De modo geral. para se organizar em bases totalmente diferentes. pois. verossimilmente. as classes e as castas não têm. . alguns gru­ pos de segmentos unidos por afinidades especiais. entre os dois ter­ mos que ele procura conciliar. Não é mais a consangüinidade. não há mais relação nem entre o número imutável dos segmentos e o número sempre crescente das funções que se especializam. Os segmentos. Assim. quando essa nova organização co­ meça a aparecer. mas o meio profissio­ nal. nem entre as propriedades hereditariamente fixadas dos primei­ ros e as novas aptidões que as segundas reclamam14. pelo menos. capaz de se adaptar a esses moldes rígidos. definidos e que não são feitos para ela. de fato. há um antagonismo que acaba necessariamente por se manifestar. tomamse órgãos. se opõe a tanto. da maneira mais fiel possível. É preciso. os clãs cujo conjunto forma a tribo dos levitas se apropriam. que a matéria social entre em combinações inteiramente novas. nem outra natureza: elas provêm da mistura da organização profissional nascente com a organização familiar preexistente. que assinala a posição de cada um. Ela só pode aumentar quando emancipada desses marcos que a encerram. Nada mais há que uma divisão do trabalho bastante rudimentar. A história desses dois tipos mostra. que um progrediu unicamente à medida que o outro regredia. Ora. ela tenta utilizar a que existe e assimilála.166 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL dade social a que se consagram. Sem dúvida. real ou fictícia. enquanto persiste. então. Mas esse arranjo misto não pode durar muito tempo. ou.

de natureza do­ méstica e que. os vizinhos eram coletivamente solidários. Mas. porque ninguém pode se estabelecer aí sem o consentimento unânime. expresso ou tácito. tam­ bém. um direito de herança na ausência de parentes propriamente ditos15 Um texto que encontramos nos Ca­ pita extravagantia legis salicae (art. tais como no-los mostra o Pentateuco. uns em relação aos outros. com a exceção da ligeira alteração que acabamos de assinalar. a constituição político-familiar é seriamente abalada. a última molécula social. a aldeia. todo um aparelho de funções administrativas e judi­ ciárias. encontramos nesse povo. ainda muito pouco desenvolvido. conquanto talvez se possa perce­ ber seus primeiros germes na sociedade judaica. e o mesmo ocorre com os hebreus. Todos os membros da aldeia têm. a saber. evidentemente. atesta que as próprias funções econômicas começam a se dividir e a se organizar. ainda é um clã transformado. Por isso. livres de todo compromisso. O mesmo já não se dá entre os francos da lei sálica. 9) informa-nos. nem entre os segundos. o clã perdeu algumas das suas características es­ senciais: não só desapareceu toda lembrança de uma ori­ . o tipo organizado não existe nem entre os primeiros. De fato. Aqui. a aldeia é um sistema muito mais hermeticamente fechado para o exterior e voltado para si mesmo do que seria uma simples circunscrição territorial. esse tipo se apresenta com suas características pró­ prias. que. Prova-o o fato de existirem entre os habitantes de uma mesma al­ deia relações que são. Por outro lado. de todos os habitantes16. a constituição social à base de clãs se encontra no estado de pureza. sob essa forma. por outro lado. a existência de um direito contra­ tual. As­ sim. em caso de assassinato cometido na aldeia. é verdade.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 167 Entre os iroqueses. além de uma autoridade central regular e es­ tável. em todo caso. são características do clã. Sem dúvida.

cavaleiros. “A população”. ela cessou quase completamente de ser uma instituição pública. Não a encontra­ mos nem na configuração do território. A unidade política é a centena. como a aldeia dos francos. em que ela representava um papel social18. Se pudemos dizer que os hebreus do Pentateuco pertenciam a um tipo social menos elevado do que os francos da lei sálica e que estes. mais desenvolvida. formam a unidade que serve de fundam ento a todas as relações. segundo as centenas. Não é mais nem uma unidade territorial definida. estavam abaixo dos roma­ . nem na estrutura das assembléias do povo. como abandonou quase completamente to­ da importância política. “habita nas aldeias. O clã romano é a gens. que. nem uma unidade política.) e de ofício19. esse duplo movimento de progressão e de regressão prossegue. a divi­ são do trabalho era muito mais avançada em Roma do que entre os povos precedentes. Mas também. desde a época da lei das XII Tábuas. Já encontramos aí importantes corporações de funcionários (senadores. ela e seu domínio. etc. por­ que não corresponde mais a nada na vida dos romanos. e é certo que a gens era a base da antiga constituição romana.168 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL gem comum. Os comitia curiata. são substituídos ou pelos comitia centuriata ou pelos comitia tributa. entre os tipos sociais que comparamos precedentemente. Não é mais que uma associação privada que se mantém pela força do hábito. que eram organizados com base em princípios bem diferentes. para todos os assuntos da guerra e da paz. menos metódicos. ao mesmo tempo que a noção do estado laico decanta. colé­ gio de pontífices. porém. por sua vez.”1 7 Em Roma. Acha-se assim justificada a hierarquia que estabele­ cemos segundo outros critérios. mas se re•parte. Desde a fundação da república. mas que é destinada a desaparecer. diz Waitz. e a estrutura organiza­ da.

É pela mesma razão que a cidade ateniense. aliás. em regra geral. que uma espécie de um gênero mais extenso: a organização seg­ mentária. embora pertença ao mesmo tipo da ci­ dade romana. A massa da população não se divide mais de acordo com as relações de consangüinidade. É assim que todos os povos que supe­ raram a fase do clã são formados de distritos territoriais (marcas. no estado de pureza. A or­ ganização à base de clãs não é mais. etc. uma vez que o clã desapareceu. mais também é de espécie inferior. é no entanto uma forma mais primitiva de cidade: é que a organização político-familiar desapareceu aí muito menos depressa. que.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 169 nos das XII Tábuas. É. de fato. Quando a lembrança da ori­ gem comum se apaga. Ele se toma a aldeia propriamente dita.). mas sobrevivem a ela. mas que produzem seus efeitos sob outra for­ ma. mas segundo a divisão do território. comunas. também desaparecem. Os segm entos não são mais agregados familiares. um povo não pode se elevar mais alto antes de ter vencido este primeiro estágio. a não ser como um grupo de indivíduos que ocupam uma mesma porção do território. A distribuição da sociedade em compartimen­ tos similares corresponde a necessidades que persistem. Mas o tipo organizado está longe de subsistir só. é porque. o clã não tem mais consciência de si. quando as relações domésticas que derivam daí. de fato. por uma evolução lenta que se fez a passa­ gem de um estado a outro. quanto mais a organização segmentária à base de clãs é aparente e forte num povo. reais ou fictícias. mesmo nas sociedades novas em que a vida social se es­ tabelece. mas circunscrições territoriais. do mesmo modo que a . Ela persistiu quase até a véspe­ ra da decadência20. como vimos.

as­ sim. Mas o princípio da estrutura é o mesmo. Quando se nasceu num clã. cada província. dentro de um mesmo país. es­ sas diferenças não poderiam ser nem muito numerosas. assim como não é mais preponderante. e que. as divisões territoriais têm necessariamente algo de artificial. Por exemplo. e é por isso que a solidariedade mecânica persiste até nas sociedades mais elevadas. Os vínculos que resultam da coabitação não possuem. como antes. como nos países centralizados da Europa atual. província. chama­ dos aqui centena. a distribui­ ção geográfica coincide. Mas. sobre os indivíduos que são imbuídos de seu espírito. por sua ■vez.170 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL gens romana se integrava na cúria. Em primei­ ro lugar. Mas. com uma certa distribuição moral da população. ao contrá­ rio. a repelir os outros. do mesmo modo. Sem dúvida. os vín­ culos que unem entre si os distritos mais gerais podem ser ou muito estreitos. A inserção pode. As mesmas razões não se opõem a que se mude de cidade ou de província. de resto. a ossatura única. apresen­ tam uma força de resistência muito menor. cada divisão territorial tem usos e costu­ mes especiais. inserem-se em outros distritos de mesma natureza. cuja reunião forma a sociedade21. ainda mais extensos (condado. por assim dizer. uma atração que tende a mantê-los no lugar e. em geral e a grosso modo. ali círculo ou distrito. não se pode mais mudar. de parentes. mais aber­ . o arran­ jo por segmentos já não é. são freqüentemente envolvidos por outros. uma fonte tão profunda quanto os que vêm da consangüinidade. nem muito nítidas. Ela exerce. Os segmentos são. ou mais frouxos. portanto. uma vida que lhe é própria. departamentos). porém mais vastos. ser mais ou menos hermética. como nas simples confe­ derações. Por isso. nem mesmo a ossatura essencial da sociedade. no coração do homem.

Parece. as religiões locais desapareceram irreversivelmente. Por outro lado. ao mesmo tempo que a organização segmentária desaparece. desde a Idade Média. por conseguinte. uma lei geral a de que os agregados parciais que fazem parte de um agregado mais vasto vêem sua individualidade se tomar cada vez menos distinta. Pouco a pouco. antes.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 171 tos uns aos outros. os artesãos estrangeiros circulam tão facilmente e tão longe quanto as mercadorias”22. De fato. que se trata. por si só. perdem sua significação. Viu-se nesse fato uma simples conseqüência da lei da imitação23. As paredes que separam os diversos alvéolos da vida social. sua permea­ bilidade também aumenta por serem mais atravessadas. Quase se pode dizer que um povo é tanto mais evoluído quanto mais elas possuem um cará­ ter superficial. Em conseqüência. elas perdem sua consistência. sendo menos espes­ sas. A princípio. A or­ ganização segmentária perdeu seu relevo. Ora. As divisões territoriais são. porém. as diversidades locais só podem se manter na medida em que a diversidade dos meios subsiste. cada vez menos basea­ das na natureza das coisas e. esses costu­ mes se fundem uns nos outros e se unificam. portanto. que a administração regional perde sua autono­ mia. “depois da formação das cidades. os meios se con­ fundem. Ao mesmo tempo que a organização familiar. é verdade. assim. É. ela só se estabelece . na mesma medida. de fato. ao mesmo tempo que os dialetos vêm resolver-se numa só língua nacional. são atravessadas com maior freqüência. Ela o perde cada vez mais à medida que as socieda­ des se desenvolvem. mas subsistem costumes locais. a organização profissional cobre-a cada vez mais completamente com sua trama. de um nivelamento análogo ao que se produz entre massas lí­ quidas postas em comunicação. ruem progressivamente e.

pelos . Ao passo que. Frankfurt e Leipzig.. Esse é o estado em que as cidades da Antiguidade ficaram até uma época relativamente tardia e de onde partiram as sociedades cristãs. ante a concorrência dos alsacianos. diz Schmoller. do mesmo modo que procura concentrar em seu territó­ rio o comércio e os transportes. forma um grupo no interior do qual o trabalho é dividido. “Na capital. político e militar das aldeias vizinhas”. as capitais provinciais cres­ cem pela concentração da administração provincial. sem se estender além. nos grandes portos concentram-se mais que antes todas as exportações e importações. “A cidade torna-se. os habitantes são agrupados de acor­ do com sua profissão. a literatura.172 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL nos limites dos segmentos mais simples. Do mesmo modo que a capital. Desde o século XIV.. “Ela aspira a desenvolver todas as indústrias para abastecer o campo. hoje mais que outrora. tantos fabri­ cantes de tecidos quantos necessitava. com seus arredores imediatos. originalmente. as forças ativas do governo central. cada corporação de ofício é como uma cidade que tem sua vida própria25. traficando grãos e gado. Cen­ tenas de pequenas praças de comércio. O caráter de universalidade industrial das cidades de outrora se via irreparavelmente aniquilado. a fiação de lã é arruinada por volta de 1500. o centro eclesiástico. no interior da cidade. em Estrasbur­ go. ‘na medida do possível.” Desde então. outrora. as grandes operações de crédito. mas que se esforça por ser auto-suficiente. a divisão inter-regional do trabalho se de­ senvolve: “Cada cidade tinha. já antes de 1362. ca­ da cidade tinha muralhas e fossos. Mas estas superaram essa etapa bem cedo. o movimento apenas se alastrou. concentram-se. agora algumas gran­ des fortalezas se encarregam de proteger todo o país. Cada cidade.”24 Ao mesmo tempo. Mas os fabricantes de tecido cinzento de Basiléia sucumbem. prosperam e crescem. as artes.

Em certos pontos ou em certas regiões. inversamen­ te. Do mesmo modo. incapazes de repre­ sentar esse papel. de águas. em certa medida. manufaturas de tecidos. do mesmo modo que os clãs de outrora. órgãos ou aparelhos diferentes.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 173 estabelecimentos provinciais. a se especiali­ zar na forma de tecidos. na realidade. em geral. porém. fiações. aí a população operária se instala. sua proximidade material só reflete muito . tal como estes últimos. aliás. de fábricas. pois. Quase sempre ultrapassa esses limites. o molde das antigas. de comércio. para to­ da uma província e todo um departamento. um fato bastante generalizado o de que as novas instituições tomam. E. são recolhidos num só lugar. é o que sobressai da descrição precedente. de tal modo que hoje as distinguimos em cidades de univer­ sidades. como fizera primitivamente no caso da organização familiar. ou partes de órgãos diferentes. não há órgãos que sejam compreendidos por inteiro nos limites de um distrito determinado. concentram-se as grandes indústrias: construção de máquinas. as coletorias e as escolas. elas são. aí a construção das máquinas se concentra. uma cidade sempre encerra ou órgãos. que outrora estavam dispersos.”26 Sem dúvida. que traba­ lham para todo o país. de gente que vive de rendas. de funcionários. Mas. De fato. Os alienados e doentes de certa categoria. altos-fornos. Aí se estabeleceram escolas espe­ ciais. primeiramente. As circunscrições territoriais tendem. qualquer que seja a extensão deste. curtumes. enquanto as comunicações e a organização do crédito se acomodam às circunstâncias particulares. indústria açucareira. e. essa organização pro­ fissional esforça-se por adaptar-se à que existia antes de­ la. As diferentes cidades tendem cada vez mais a certas especialidades. conquanto os órgãos mais intimamen­ te solidários tendam com freqüência a se aproximar.

O meio profissional já não coincide nem com o meio territorial. a substituição só é possível na medida em que estes últimos são anulados. embora de maneira vaga e apenas aproximada.174 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL inexatamente a maior ou menor intimidade de suas rela­ ções. O modo de ‘agrupamento dos homens que resulta da divisão do tra­ balho é. Alguns. mas ela perde pouco a pouco esse caráter para não ser mais que uma combinação arbitrária e convencio­ nal. estão muito próximos. se esse tipo social não se observa em lugar nenhum no estado de pureza absoluta. Portanto. são muito distantes. profissional. do mesmo modo que em lugar nenhum a solidariedade orgânica se encon­ tra só. à medida que vão caindo. O segmento tão definido que o clã formava é substituído pela circunscrição territorial. pois. bem diferente do que exprime a repartição da população no espaço. . outros. do mesmo modo que ela se toma cada vez mais preponderante. no mesmo momento em que essa estru­ tura mais se afirma. Ora. Essa predom inância é tanto mais rápida e tanto mais completa quanto mais indistinta a outra se toma. esta correspondia. por isso. que dependem diretamente uns dos outros. Pelo menos a princípio. que substitui os outros. ou quase exclusivamente. pelo menos ele se diferencia cada vez mais de to­ do amálgama. nem com o meio fa­ miliar. Portanto. se a evolução social permanece submeti­ da à ação das mesmas causas determinantes . cujas relações são apenas mediatas e distantes.e veremos mais longe que essa hipótese é a única concebível -. à divisão real e moral da po­ pulação. é permitido prever que esse duplo movimento continuará no mesmo sentido e que virá o dia em que toda a nossa organização social e política terá uma base exclusivamen­ te. essas barreiras são cobertas por sistemas de órgãos cada vez mais desenvol­ vidos. É um novo contexto.

Podemos julgar. sabe-se que os animais inferiores são formados por segmentos similares. a importância que ela deve adquirir no futuro. desse ponto de vista. há a colocação em comum dos materiais nutritivos e a impossibilidade de se mover de outro modo que por mo­ vimentos do conjunto. aliás. as pesquisas que se seguirão27 estabelece­ rão que essa organização profissional não é. De fato. mas a colônia inteira de que fazia parte: “Entre as colônias de pólipos e os ani­ mais mais elevados não há. dispostos seja em massas irregu­ lares. o que caracteriza a individualidade de um agregado qual­ quer é a existência de operações efetuadas em comum por todas as partes. Mas essa expressão. é um tanto equívoca.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 175 De resto. por­ que “toda colônia cujos membros estão em continuidade de tecidos é. que. Há mais. que causas anormais impediram-na de alcançar o grau de desenvolvimento reclama­ do desde já por nosso estado social. enquanto a colônia não se dissol­ ve. seja em séries lineares. mas estão em composição homogênea. O ovo saído de um dos segmentos associa­ dos reproduz não esse segmento. nenhu­ ma diferença. que não apresentem.”29 O que. se lhes dá o nome de colônias. Em ge­ ral. por isso. na realidade. mesmo no grau mais baixo da escala. esses elementos não apenas são semelhantes entre si. III A mesma lei preside o desenvolvimento biológico. entre os membros da colônia. por sinal. Hoje. nem mesmo hoje. um indivíduo”28. tudo o que deve ser. Ora. toma impossível qualquer separação radical é que não há organismos. não significa que es­ sas associações não sejam organismos individuais. por mais centralizados que sejam. em diver­ .

Numa sociedade de pólipos. não pode se contrair sem impli­ car em seu movimento os pólipos a que está unido. sobretudo quando ela é flutuante. como as partes que compõem uma colônia animal são ligadas mecanicamente umas às ou­ tras. do mesmo modo que o tipo segmentário se apaga à medida que avançamos na evolução social. somente a análise do cientista consegue descobrir seus vestígios nos verte­ brados. Não nos cabe mostrar as analogias existentes en­ tre o tipo que substitui o precedente e o das sociedades orgânicas. A atividade. No entanto. Até mesmo nos verte­ brados. um indivíduo não pode comer sem que os outros comam. etc. pelo menos en­ quanto permanecem unidas. é coletiva. de seu aparelho urogenital.176 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL sos graus. ela é idêntica à das sociedades que chama­ mos de segmentárias. Ca­ . Num ver­ me. Não apenas o plano estrutural é evidentemente o mesmo. Ora. cada anel depende dos outros de maneira rígida. Já comprometido entre os anelídeos.seu desenvolvimento embrionário fornece a prova certa de que nada mais são do que colônias modificadas30. sobretudo. elas só podem agir em conjunto. diz Perrier. embora ainda bastante aparente. De fato. nela. a estrutura deriva da divisão do trabalho. na composição de seu esqueleto. o tipo colonial desaparece à medida que nos elevamos na escala dos organismos. a constituição colonial. assim como da solidariedade.. o comunismo na plena acepção da palavra32. Portanto. . Num caso como no outro. mas a solidariedade é da mes­ ma natureza. Um membro da colônia. e isso apesar de poder destacar-se sem perigo. encontramos vestígios dela. e es­ se movimento se comunica progressivamente33. torna-se quase imperceptível nos moluscos e. como todos os estômagos se comunicam. por fim. é. há no mundo animal uma individualidade “que se produz fora de qualquer com binação de ór­ gãos”31.

pois. Enfim. mas a exceção34. recordar aquela que domina a sociologia de Spencer. Do mesmo modo que os primeiros se desenvolvem na razão inversa um do outro. de um outro ponto de vista. Do mesmo modo que. por nos mostrar toda a importância da divisão do trabalho. Como ele. havíamos distinguido dois tipos de soli­ dariedade e acabamos de reconhecer que existem dois ti­ pos sociais correspondentes àqueles. mas para se emancipar em seguida e se desenvolver de maneira autônoma. dos dois tipos sociais correspondentes um regride regularmente à medida que o outro progride. é ela que toma coerentes as sociedades no seio das quais vivemos. mas apenas um. Além de confirmar os que precedem. é também ela que determina as características constitutivas de sua estrutura. e tudo faz prever que. sem se impor às demais. tem sua esfera de ação própria em que se move com indepen­ dência. isso não é a re­ gra. co­ mo na evolução social. pois não podem separar-se sem perecer. na evolução orgânica. Se. só irá crescer. na maioria dos casos. desse ponto de vista. a divisão do trabalho começa por utilizar os marcos da organização segmentária. dissemos que a importância do indivíduo na sociedade.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 177 da parte do animal. rv A lei que estabelecemos nos dois últimos capítulos pôde. e este últi­ mo é o que se define pela divisão do trabalho social. o órgão algumas vezes nada mais é que um segmento transformado. Em resumo. elas dependem muito mais intimamente umas das outras do que numa colônia. esse resultado aca­ ba. seu papel. de nula . tendo se tomado um órgão. com efeito. no futuro. no entanto. sob um aspecto.

portanto. fi­ nalmente. Logo. Ora. Com efeito. Em primeiro lugar. nossas conclusões se opõem às dele. de modo que. mais do que as repetem. É necessário que. “como a vontade do solda­ do fica suspensa. à qual os indivíduos sejam absolutamente submetidos. Mas esse fato inconteste se nos apresentou sob um aspecto bem diferente do que ao filósofo inglês. segundo ele. É um produto desse estado de homogeneidade que distingue as sociedades primitivas. e. é necessário que todas as forças individuais este­ jam concentradas de maneira permanente num feixe in­ dissolúvel. ao contrário. ia crescendo com a civilização. essa absorção do indivíduo pelo grupo seria o resultado de uma coerção e de uma organização artificial requerida pelo estado de guerra em que vivem. as sociedades inferiores. de um despotismo organizado que ani­ quilaria os indivíduos. como essa organização é essen­ cialmente militar. o único meio de produzir essa concen­ tração de todos os instantes é instituir uma autoridade bastante forte. a tal ponto que ele se toma. Um grupo só pode se defender contra outro grupo ou subjugá-lo se agir em conjunto. com ele. assim também a von­ tade dos cidadãos fica diminuída pela do governo”35. Spencer e outros sociólo­ gos. Vimos. de maneira crônica. Tra­ ta-se. O sentimento tão pro­ . o executor da vontade de seu oficial. é pelo militarismo que Spencer define essas espécies de sociedades. Se o indivíduo não é distinto do grupo. que essa anulação do indivíduo tem por lugar de origem um tipo social caracterizado por uma ausência completa de qualquer centralização. em tudo. é porque a consciência individual quase não é distinta da consciência coletiva.178 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL que era no princípio. parecem ter interpretado esses fatos distan­ tes com idéias de todo modernas. é sobretudo na guerra que a união é necessária ao sucesso.

se nas socieda­ des inferiores é dado um espaço tão reduzido à persona­ lidade individual. como prova a instituição geral do comunis­ mo.A FUNÇÃO DA DIVISÃO D O TRABALHO 179 nunciado que cada um de nós tem hoje de sua individua­ lidade levou-os a crer que os direitos pessoais só podiam ser restritos a esse ponto por uma organização coercitiva. entre essas sociedades. mas simplesmente que. Por outro lado. Aliás. chegaríamos à es­ tranha conclusão de que a evolução social. a não ser desviando a palavra de seu sentido ordinário. não é que esta tenha sido comprimida ou reprimida artificialmente. salvo a da vontade comum expressa pela horda reuni­ da”37. desde o pri­ meiro passo. o indivíduo não possui uma esfera de ação própria. o movimento da história circular e o progresso consistiria num retrocesso? De uma maneira geral. pois “nenhuma força governamental existe a princípio. é fácil compreender que os indivíduos só podem ser submetidos a um despotismo . ela não existia. para tanto. se elas estivessem realmente marcadas pelo indivi­ dualismo precoce que lhes é atribuído. os usos coletivos de todo tipo não caem sobre ele com me­ nos peso do que teria uma autoridade constituída. muitas possuem uma constituição tão pouco militar e autoritária. nes­ se momento da história. as tradições. do mesmo modo. contudo. De fato. então. tem de menosprezar o fato de que. Por is­ so. que ele próprio as qualifica de de­ mocráticas36. Somos tão apegados à nossa individualidade que pare­ ceu-lhes que o homem não podia tê-la abandonado por sua livre e espontânea vontade. o próprio Spencer reconhece que. Mas. quer ver nelas um primeiro prelú­ dio dessas sociedades que o futuro chama de industriais. os preconceitos. Seria. tanto nessas sociedades como nas que são submetidas a um governo despótico. não as podemos tratar de democráticas. procurou produzir os tipos mais perfeitos.

como a autoridade coletiva. Dominando a sociedade. pois os membros de uma sociedade só podem ser dominados por uma força superior. Sem dúvida. o individualismo era a esse ponto congênito à humanida­ de. acha- . então. é do grupo que eles extraem sua força. esta. Assim. mas deriva da própria constituição da sociedade. essa mudança não é mais tão profunda quanto parece. aliás. pois. uma vez que esta é organizada. os chefes são as primeiras personalidades individuais que se diferenciaram da massa social. não são mais obrigados a seguir todos os movimentos desta. as próprias instituições ter-se-iam necessaria­ mente oposto a uma transformação tão radical. portanto. cria para eles uma fisionomia distinta e lhes confere. Sua si­ tuação excepcional. ela se toma autônoma e torna-os capazes de uma atividade pessoal. deve-se. os costumes. adquiriu natural­ mente a mesma característica. ver nesse poder o primeiro passo na direção do individua­ lismo. em conseqüência. Se. era absoluta. fazendo-os sem igual. a autoridade do chefe. por mais forte que seja. tudo se explica quando se compreende a natureza dessas sociedades. quando difu­ sa. Em vez de se subordinarem ao grupo. Ao con­ trário. os indivíduos subordinaram-se àquele que o representava e. que nada mais é que uma organização da precedente. É por isso que. As idéias.180 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL coletivo. Longe de se poder datar da instituição de um poder despótico a anulação do indivíduo. como vimos. nada poderia sozinha contra uma sociedade inteira. porém. em toda a parte onde isso foi necessário. ao contrário. a força dos governos autoritários não lhes vem de si mesmos. Uma personalidade qualquer. não pode ser subjugada contra sua vontade. De fato. uma individualidade. não vemos como os povos primitivos teriam podido submeter-se tão facilmente à autoridade despótica de um chefe. e só uma tem es­ sa qualidade: a do grupo.

subtrair-se aos usos co­ letivos. ela explica por que a força coletiva concen­ trou-se nessas mãos. O despotismo. não naquelas. A partir de então. ou mais experiente. em conseqüência das circunstâncias em que a família romana se achou. não o cria. em certa medida. . pelo menos quando não é um fenômeno patológico e de decadência. em Roma. ela tem nesse processo um papel apenas se­ cundário. Em primeiro lugar.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 181 se aberta uma fonte de iniciativa que até então não exis­ tia. Quanto à superioridade pessoal do chefe. vê-se pelo que precede quão er­ rônea é a teoria segundo a qual o egoísmo é o ponto de partida da humanidade e o altruísmo. ele encarnou o velho comu­ nismo familiar. por outra via. só pode fa­ zê-lo em benefício de indivíduos que já atestaram. até. encarnando-se numa pessoa ou numa família. mas porque. uma conquista recente. É preciso observar quais são as crenças comuns. não é por ser mais velho. foi para estabelecer duas proposições importantes. todas as vezes que estamos em presença de um aparelho governamental dotado de gran­ de autoridade. mas na natureza das sociedades que eles governam. Se insistimos nesse ponto. nada mais é que um comunismo transformado. não na situação particular dos governantes. e não sem intensida­ de. comunicaram-lhe tal força. desfruta de um poder absoluto. ou mais sábio. Se o pai de família. é preciso descobrir sua razão de ser. Em segundo lugar. em vez de permanecer difusa. ao contrário. é obrigada a se delegar. alguma superioridade. mas se esta assinala o sentido em que a corrente se dirige. há alguém que pode produzir algo de novo e. os sentimentos comuns que. A partir do momento em que essa força. O equilíbrio está rompido3 ».

porque há solidariedade. mal satisfeitas de resto. Por isso. a influência moderadora que a sociedade exerce sobre seus membros e que tempera e neutraliza a ação brutal da luta pela vida e da seleção. elas fazem abstração do elemento essencial da vida moral. acaso isso tudo não é altruísmo? Cha­ marão essas práticas de superstição? Que importa. Se as hipóteses de Darwin são utilizáveis em moral. crêem ser necessário tomá-lo sombrio e re­ baixá-lo sistematicamente. há altruísmo. de que a fome e a sede. De fa­ to. inclusive sob uma forma verdadeiramente intemperante. o são com ainda mais reserva e cómedimento do que nas outras ciências. Nada é menos científico do que esse parti pris em sentido contrário. teriam sido as úni­ cas paixões.182 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL O que dá autoridade a essa hipótese em certos espí­ ritos é o fato de parecer uma conseqüência lógica dos princípios do darwinismo. tempos sombrios em que os homens não te­ riam tido outra preocupação e outra ocupação que a de disputarem entre si sua miserável comida. para demonstrar com mais clareza que o paraíso perdido não é anterior a nós e que nosso passado nada tem que deva­ mos lamentar. Em nome do dogma da conçorrência vital e da seleção natural. porque essas privações que o selvagem se impõe para obedecer à tradição religiosa. o gaulês a não sobreviver a seu chefe de clã. pintam-nos com as mais tristes cores essa humanidade primitiva. a abnegação com a qual ele sacrifica sua vida desde que a sociedade reclama seu sacrifício. o velho celta a livrar seus companheiros de uma boca inútil mediante uma morte voluntária. a saber. Onde quer que haja sociedades. con­ . nós o encontramos desde o início da hu­ manidade. a inclinação irresistível que leva a viúva da índia a seguir seu marido na morte. Para reagir con­ tra esses devaneios retrospectivos da filosofia do século XVIII e também contra certas doutrinas religiosas.

Mas. ri­ gorosamente falando. Cientificamente. Portanto. Essa pri­ meira base de toda individualidade é inalienável e não depende do estado social. esses dois propulsores da conduta acharam-se presentes desde o início em todas as consciên­ cias humanas. coisas que se relacionam ao indivíduo e coisas que não lhe são pessoais. porque não pode haver consciência que não reflita. mais do que depende dele. pois há uma esfera da vida psíquica que. ao mesmo tempo. não se deve dizer que o altruísmo nasceu do egoísmo: semelhante deriva­ ção só seria possível por uma criação ex nihilo. Essa conclusão. essa força de se apegar acaso não é o indício de uma constituição moral sadia? Rigorosamente falando. . pois ela precede e domina o juízo. é o mundo das sensações internas e externas e dos movimentos que são diretamente ligados a elas. Portanto. se nos lembramos a que ponto. que é toda altruísmo. nas sociedades inferiores. como diria Condillac. pelas pessoas com as quais tivemos relações duradouras? No entanto. toda a vida da sensibilidade é feita apenas de superstições. os sentimentos e as tendências que se referem ao organismo e aos estados do organis­ mo . on­ de começam e onde acabam as superstições? Ficaríamos embaraçados para responder e dar do fato uma definição científica. varia de um homem a outro e pertence em particular a cada um: a que é forma­ da pelas representações. porém. a consciência do indivíduo é invadida pela consciência co­ letiva. uma conduta é egoísta na medida em que é determinada por sentimentos e representações que nos são exclusivamente pessoais. seremos até mesmo tentados a crer que ela é toda outra coisa que não ela. aliás.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 183 tanto que elas atestem uma aptidão a se dar? E. seria exagerada. Acaso também não é uma superstição o apego que temos pelos lugares em que já vivemos. qualquer que seja o desenvolvimento do tipo coletivo.

Ao contrário. a consciên­ cia primitiva. no caso de tudo o que ultra­ passa esse círculo das necessidades físicas.184 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Tudo o que podemos dizer é que. o egoís­ mo se introduz até o seio das representações superiores: cada um de nós tem suas opiniões. ela tem maior importância relativa e. fruto do desenvolvimento histórico. sendo as esferas supe­ riores da vida psíquica menos desenvolvidas neste. . Sem dúvida. penetrando regiões que. suas crenças. Não é menos verdade que o individualismo desenvolveu-se em valor absoluto. É o que vere­ mos no próximo capítulo. porque acontece ter­ mos uma maneira própria de ser altruístas que decorre de nosso caráter pessoal. no civilizado. está toda fora de si. sua extensão é menor. e se apega a elas. do estilo de nosso espírito e da qual nos recusamos a nos afastar. lhe eram vedadas. suas as­ pirações próprias. O egoísmo chega até a se misturar com o altruísmo. essa parte inferior de nós mesmos representa uma fração mais considerável do ser total. portanto. não é tampouco o que Spencer descreveu. Mas esse individualismo. As sociedades ditas industriais não se assemelham mais às so­ ciedades organizadas do que as sociedades militares às sociedades segmentárias de base familiar. não se de­ ve concluir daí que o papel do egoísmo tomou-se maior no conjunto da vida. por outro lado. no selvagem. Mas. maior domínio sobre a von­ tade. em conseqüência. segundo uma forte expressão de Espinas. porque. porque cumpre levar em conta o fa­ to de que toda a consciência se estendeu. originalmente.

solidário dos outros. a harmonia social deriva essencialmente da divisão do trabalho1. Basta que ca­ da indivíduo se consagre a uma função especial para se encontrar. para ele. a causa principal da solidarieda­ de social. ele se enganou sobre o modo como essa causa produz seu efeito e. pelo simples fato de que cada um persegue seus próprios interesses. O que a caracteriza é que ela consiste numa cooperação que se produz automaticamente. Acaso não é esse um sinal distintivo das sociedades orga­ nizadas? Mas se Spencer assinalou com justeza qual era.CAPÍTULO VII SOLIDARIEDADE ORGÂNICA E SOLIDARIEDADE CONTRATUAL i É verdade que. em conseqüência. sobre a natureza deste último. como a chama. pela força das coisas. apresenta as duas características seguintes: . bem como nas sociedades organizadas. De fato. nas sociedades industriais de Spencer. nas sociedades superiores. a solidariedade industrial.

186 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Como é espontânea. a forma normal da troca é o contrato. É por isso que “à me­ dida que. o único vínculo que permanece entre os homens é a troca absolutamente livre. “Cada ho­ mem pode se manter por seu trabalho. pois. Spencer não quer dizer que a sociedade se baseia num contrato implícito ou formal. para que tal contrato seja possível. Portanto. sem obedecer à direção da sociedade em seu conjunto. quanto mais se aumenta o papel deste último. tanto o poder como o alcance da autorida­ de diminuem e que a livre ação aumenta. a sociedade não precisa intervir para garantir . trocar seus pro­ dutos pelos de outrem. Nessas condições. entrar para esta ou aquela associação a fim de realizar um empreendimento.. mais completamente se deve re­ nunciar ao postulado de Rousseau. é preciso que. Com isso. prestar sua assistência e receber um pagamento.”2 A esfera da ação social iria.uma colaboração que se estabelece sozinha. porque já não teria outro objetivo além de impedir que os indivíduos se intrometam nos assuntos alheios e se prejudiquem reciprocamente . enfim. inconciliável com o princípio da divisão do trabalho. Essa relação se toma predominante na sociedade à medida que a atividade individual se toma predominante. se fazem por meio da livre troca. no tipo industrial plenamen­ te desenvolvido. por conseguinte. num momento da­ do. pequeno ou grande. não é necessário nenhum apa­ relho coercitivo nem para produzi-la.. . A hipótese de um contrato social é. nem para mantê-la.isto é. todas as vontades individuais se entendam sobre as bases comuns da organização social e. a relação do contrato se toma geral. ela passaria a ser apenas negativamente reguladora. ao contrário. essa relação se toma universal”4. “Todos os negócios industriais .”3 Ora. com o declínio do militarismo e a ascensão do industrialismo. se estreitando cada vez mais. Porque.

a consciência. ao contrário. pois não guarda relação com os fatos. longe de submetê-las à opinião comum. não pode se organizar naturalmente a não ser por uma adaptação inconsciente e espontânea. quer subtraí-las até mesmo à reflexão do legislador. segundo Spencer. que. distingue as sociedades industriais. o conteúdo de todas as consciências será idên­ tico. sob a pres­ são imediata das necessidades. por assim di­ zer. Portanto. O observador não a encontra. e não de acordo com um plano meditado da inteligência refletida. que todos representem igualmente o mesmo papel. por conseguinte. Ele está a tal ponto convencido da inutilidade da reflexão. ele não imagina que as sociedades superiores possam ser construí­ das com base num programa solenemente debatido. Ora. é preciso que cada indivíduo saia da sua esfera especial. Sobretudo. como toda vida em geral. na medida em que a solidariedade social provém de tal causa. Representem-se o instante em que a sociedade faz seu contrato: se a adesão for unânime. nada se assemelha menos a essa solidarie­ dade espontânea e automática que. Spencer sabe muito bem que tal representação ultrapassa a ciência em seu estado atual e. a fim de realizar uma opção com conhecimento de causa. Portanto. quando ela se aplica a essas matérias. porque ele vê. para tanto. a ca­ racterística das sociedades militares5. Mas. o de estadista e de constituintes. Tal contrato supõe que todos os indivíduos possam representar-se as condi­ ções gerais da vida coletiva. nessa busca consciente dos fins sociais.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 187 que cada consciência particular se coloque o problema político em toda a sua generalidade. a concepção do contrato social é bem difícil de ser defendida hoje em dia. Não só não há sociedades que te­ . Ele estima que a vida social. em seu caminho. Assim. ela não tem nenhuma relação com a divisão do trabalho.

segundo Spencer. onde é normal. nem uma tendência que se decanta no desenvolvimento histórico. uma vez adulto. . dá à socie­ dade em que nasceu. pois não há sociedade que possa sub­ sistir pelo simples efeito da compressão. Portanto.e. Por isso. podemos garantir que nenhum vínculo desse gênero jamais existiu entre os indivíduos e a sociedade. pelo simples fato de continuar a vi­ ver nela. e se é anormal. o vasto sistema de contratos particulares que ligam os indivíduos entre si.188 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL nham tal origem. Em tais condições. Portanto. Mostramos mais acima a razão disso. como não há sociedade cuja estrutura apresente o menor vestígio de uma organização contratual. para rejuvenescer essa doutrina e tornar a lhe dar algum crédito. não é nem uma conquista da história. nem no presente. nem no passado. Na realidade. se entende­ mos por isso apenas o vínculo jurídico bem definido que essa expressão designa. não pode durar. Se se acreditou. não há distinção alguma a fazer entre os diferentes tipos sociais. é preciso chamar de contratual todo procedimento do homem que não é determinado pela coerção6. mesmo. foi necessário qualificar de contrato a adesão que cada indivíduo. não há sociedade. Mas. é espontânea. Mas. É espontaneamente que o indivíduo abdica . por vezes. se as sociedades superiores não se baseiam num contrato fundamental que tenha por objeto os prin­ cípios gerais da vida política. e. então. a vida so­ cial. elas teriam ou tenderiam a ter por base única. se se dá a essa palavra essa acep­ ção ampla e um tanto abusiva. que a coerção foi maior outrora do que é hoje. que não seja ou não tenha sido contratual. foi em virtude da ilusão que levou a se atribuir a um regime coercitivo a pequena importância dada à liberdade indi­ vidual nas sociedades inferiores. não é justo falar de abdicação onde nada há a abdicar.

a mesma razão fará de mim seu inimigo. Hoje. veremos que toda harmonia de interesses encerra um conflito latente ou simplesmente adiado. cada um se reencontra e se reapropria de si por inteiro. se o interesse aproxima os homens. on­ de o interesse reina sozinho. As consciências são postas apenas su­ perficialmente em contato: nem se penetram. nem ade­ rem fortemente umas às outras. Portanto. o inte­ resse é o que há de menos constante no mundo.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 189 Estes só dependeriam do grupo na medida em que de­ penderiam uns dos outros. desembaraçada de to­ da regulamentação e tal como resulta da iniciativa intei­ ramente livre das partes. Se olharmos as coisas a fundo. os diversos agentes permanecem exteriores uns aos outros e. poderíamos duvidar com razão de sua estabilidade. uma vez termi­ nada a operação. me é útil unir-me a você. A solidariedade so­ cial não seria. Numa palavra. acordo de que todos os con­ tratos são a expressão natural. Porque. No fato da troca. O modelo das relações sociais seria a relação econômica. pois. uma tal causa só pode dar origem a aproximações passageiras e a associações de . nunca o faz mais que por alguns instantes e só pode criar entre eles um vínculo exterior. Por­ que. Será essa a característica das sociedades cuja unida­ de é produzida pela divisão do trabalho? Se assim fosse. cada eu se encontra face ao ou­ tro em pé de guerra e uma trégua nesse eterno antago­ nismo não poderia ser de longa duração. De fato. e não dependeriam uns dos outros senão na medida assinalada pelas convenções privadas e livremente estabelecidas. outra coisa que o acordo espontâneo dos interesses individuais. a sociedade não seria mais que a colocação em relação de indivíduos que trocam os produtos de seu trabalho e sem que nenhuma ação propriamente social venha regular essa troca. amanhã. como nada vem refrear os egoísmos em presença.

por menor que seja sua importância e sua duração. Mas para poder demonstrar essa proposição por uma experiência verdadeira. que se individua cada vez mais com a evolu­ ção. a ação social tenha regredido. não basta. mas que. Porque é bem possível que. desprovidos de qualquer força demonstrativa. Vê-se quanto é necessário examinar se é essa. a socieda­ de industrial existe em estado puro. se tenha estendido e que. em ou­ tros. desde suas origens até os tempos mais recentes. Sabemos que esse aparelho é o direito. Em parte alguma. Por conseguinte. como confessa Spencer. finalmente. fazendo-se abstração dos casos de regressão. tome-se uma transformação por um desaparecimento. Afirma-se em primeiro lugar que a esfera da ativida­ de social diminui cada vez mais em benefício da do indi­ víduo. A única maneira de dar objetivamente a prova disso não é citar alguns fa­ tos ao acaso da sugestão. com o tempo. assumem uma forma jurídica. mas seguir em sua história. mas que ainda não foi completamente realizado. por mais numerosos que possam ser.190 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL um dia. para ter o direito de lhe atribuir as caracte­ rísticas que acabamos de dizer. seu volume aumentou ou diminuiu. as dimensões relativas desse aparelho permitem que se meça com exatidão a extensão relativa da ação social. o apare­ lho pelo qual se exerce essencialmente a ação social e ver se. . citar alguns casos em que o indivíduo emancipou-se efetivamente da influência coletiva. num ponto. a natureza da solidariedade orgânica. por conseguinte. seria necessário estabele­ cer metodicamente que as sociedades apresentam-nas de uma maneira tanto mais completa quanto mais são eleva­ das. ela é um tipo em parte ideal. só podem servir de ilustração e são. por si mesmos. efetivamente. As obrigações que a sociedade impõe a seus membros. Esses exemplos. como faz Spen­ cer.

porém. É verdade.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 191 Ora. esse controle não é menos social. que não existia originalmente. Spencer responderá que não afirmou a diminuição de qualquer espécie de controle. mas outras. Isso é. Mas acaso essa distinção mesma tem fundamento? Por controle positivo. menor seu volume. é por demais evidente que. longe de diminuir. Se o direito repressivo perde terreno. Seja para ordenar. Sobre esse ponto. para dizer faça isso ou não faça aquilo. mas apenas do controle positivo. não pára de aumentar. como nós mesmos estabelecemos. se há mais vida regulamentada. mas consiste muito mais em definir e regular as re­ lações especiais das diferentes funções sociais. também há mais vida em geral. Claro. se a sociedade intervém mais. daí não resulta que a es­ fera da atividade individual se torne menor. sejam elas imperativas ou proi­ bitivas. uma das formas que ela afeta tende a regredir. não se tem o direito de dizer que a espontaneidade individual basta cada vez mais a tudo. e ela não é menor por ser outra. De fato. ao contrário. o direito restitutivo. Spencer entende aquele que força . A intervenção social não tem mais por efeito impor a todo o mundo certas práticas unifor­ mes. Se as regras que determinam a conduta se multiplicam. não há dúvida possível. Admitamos essa distinção. Seja positivo ou ne­ gativo. se desenvol­ vem em seu lugar. e a questão principal está em saber se ele ampliou-se ou contraiu-se. Quanto mais primitivo um código. não é verdade que ela dependa cada vez mais da iniciativa privada. esse volume é tanto mais conside­ rável quanto mais recente o código. muito mais ricas e muito mais complexas. uma pro­ va suficiente de que a disciplina social não se está afrou­ xando. não se deve esquecer que. esse aparelho vai crescendo e se complicando progressi­ vamente. seja para proibir.

ou se ocupa dos meios que esse cidadão emprega para alcan­ çar o objetivo da sua escolha. eu a cultivo para ele em totalidade ou em parte. de natureza positiva. im­ pedi-lo de incomodar outro cidadão que persegue o ob­ jetivo de sua escolha. por outro lado. elas consistem. a propósito de cada relação jurídica. e. na grande maioria dos casos. de fato.”7 Se é esse o sentido dos termos. em pres­ tações de serviços. . Sabemos. determinado obje­ tivo que lhe pertence ou ocupar-se dos meios que esse cidadão emprega para persegui-lo. de passar pela terra do vizi­ nho ou de depositar nela seus detritos: eis o controle ne­ gativo. pois obriga o indivíduo a observar determinado procedimento para chegar a seu fim. enquanto o controle negativo força apenas à abs­ tenção. não lhe dou ajuda nem conselhos para sua cultura. na maior parte dos casos. “Um homem tem uma terra. Mas entremos no detalhe. Quanto às obrigações. impeço-o apenas de to­ car na colheita do vizinho. se elas se reduzissem em princípio à proibição de não perturbar outrem no exercício das suas funções.192 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL à ação. No en­ tanto. a tese de Spencer seria verdadeira. esse controle positivo está longe de desaparecer. que o direito restitutivo não cessa de crescer. pelo menos em parte. É bastante nítida a diferença entre encarregar-se de perseguir. ou imponho-lhe em todo ou em parte o modo de cultura que ele deverá seguir: eis um controle positivo. ora. Ele resolve. em lugar de um cidadão. ou ele assi­ nala ao cidadão o objetivo que este deve perseguir. as duas questões seguintes: l e em que condições e sob que forma essa relação normalmen­ te existe? 2B quais são as obrigações que ela acarreta? A determinação da forma e das condições é essencialmente positiva. Ao contrário.

depende de nosso nasci­ mento. Ora. de um lado. As condições de que dependem se vinculam a nosso esta­ tuto pessoal. mais essas duas operações jurídicas perdem seu caráter propriamente contratual. No entanto. Nem formas solenes. é uma reciprocidade de direitos e de deveres. o casamento é um as­ sunto inteiramente privado. de nossas relações de consangüinidade e. Mas ocorre. Não apenas nas sociedades inferiores. ou. isto é. justa­ mente. até o fim do Império. o casamento e a adoção são fontes de relações domésticas e são contratos. que. dizendo com outras palavras. Mas o que Spencer parece não ter percebido é que as relações não contratuais se desenvolvem ao mesmo tempo. as obrigações que daí resultam são de natureza eminentemente positiva. pelo menos em sua forma típica. na realidade. quanto mais nos aproximamos dos tipos so­ ciais mais elevados. Examinemos em primeiro lugar essa parte do direito impropriamente qualificada de privado e que. por sua vez. que eram raras no início ou completamente ausentes. tornou-se cada vez mais complexo. real nos povos primitivos. sabemos que o direito doméstico. a vida visceral do organismo social. por conseguinte. De outro. devidamente atestado. as diferentes espécies de relações jurídi­ cas a que dá origem a vida familiar são muito mais nume­ rosas do que outrora. mas que é válida pelo simples consentimento das partes. fictícia mais tarde. rege as relações das funções sociais difusas. Em primeiro lugar.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 193 II E bem verdade que as relações contratuais. Em geral. mas na pró­ pria Roma. de simples que era de início. se mul­ tiplicam à medida que o trabalho social se divide. é uma venda. elas não são contratuais. dos fatos que são alheios à nossa vontade. nem intervenção de uma . que.

elas. Essas socie­ dades são contraídas livremente e sem formalidades: o entendimento é suficiente para fundá-las. Sabe-se como. Foi apenas com o cristianismo que o casamento assumiu outro cará­ ter. membros de famí­ lias diferentes se tomam por irmãos e irmãs e formam o que se chama uma confraria (probatinstvo). Já vimos com que facilidade e em que larga escala se praticava a adoção nos clãs indígenas da América do Norte. antes de Maomé. o . a saber. que cria o vín­ culo jurídico que a vontade dos particulares bastava até então para estabelecer. Com freqüência. Se o adotado fosse da mesma idade que o adotante. tornava-se mãe de quem a adotava. Entre os árabes. mas é ela. a Igreja.194 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL autoridade qualquer eram necessárias então. mais tarde. o casamento já não é contraí­ do livremente. tornavam-se irmãos ou irmãs. o papel da intervenção social e das formalidades necessárias foi estendido8. e o papel desta não é mais apenas o de uma testemunha. Bem cedo os cristãos adotaram o costume de fazer sua união ser abençoada por um sacerdote. Encontramos o mesmo gênero de ado­ ção entre os eslavos. o concilio de Trento fez o mesmo para o Ocidente. tomavam-se irmãos ou irmãs. Ela podia dar origem a todas as formas de paren­ tesco. e o parentesco que as unia era tão forte quanto se tivessem descendido de uma origem comum. a adoção servia com freqüência para fundar verdadeiras famílias?. e apenas ela. No entanto. mas por intermédio de um poder público. en­ tão. ao mesmo tempo. Uma lei do imperador Leão. se o primeiro fosse uma mulher já mãe. A história do contrato de adoção é ainda mais de­ monstrativa. Era co­ mum várias pessoas adotarem-se mutuamente. converteu esse uso em lei para o Oriente. o Filósofo. A partir de então. a auto­ ridade civil substituiu nessa função a autoridade religiosa e como.

A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 195 vínculo que une esses irmãos eletivos é mais forte até do que o que deriva da fraternidade natural10. Nosso Código restabeleceu esse direito. . Em Roma. enfim. a adoção tenha sido igualmente fácil e freqüente. Ao mesmo tempo. Em nosso direito atual. ela não dava mais direito à sucessão ab intestat do pai adotivo13. e o primeiro só o podia se não tivesse filhos legítimos. já estava subordinada a condições de­ terminadas. mas a parentela a que a adoção dá lugar não se estende além do adotante e do adotado. a parentela adotiva era. É provável que. que não fosse parente do adotado num grau que não lhe tivesse permitido ser seu pai natural. o número dos que desfrutavam do direito de adoção tomava-se mais restrito. que tenha tratado o adotado como seu próprio filho durante muito tempo. Somente o pai de família ou o celibatário sui juris podiam adotar. na índia. Ao mesmo tempo que se tomava mais rara. Cerimônias bastante simples bastavam para constituí-la11. Antes da redação do nosso Código. que. a ado­ ção perdia sua eficácia. em Roma. na Grécia. semelhante à parentela natu­ ral. No século XVI. ela chegara inclusive a cair completamente em desuso. no entanto. como a Holanda e o Baixo Canadá. No início. além disso. e ain­ da hoje certos países. Era necessário que o adotante tivesse certa idade. as condições restritivas multi­ plicaram-se ainda mais. essa mudança de família tornava-se uma operação jurídica muito complexa. mesmo assim limitada. Mas. que o adotante tenha mais de cinqüenta anos. É necessário acrescentar. que requeria a intervenção do magistra­ do. a adoção tomou-se um aconteci­ mento raríssimo. não a admitem. a semelhança era ainda muito grande. entre os germanos. em todos os aspectos. É necessário que o adotado seja maior. já não havia identidade perfeita12.

do mes­ mo modo que pode ser excluído por ela15. se ele pôde servir para satisfazer a essas neces­ sidades. vê-se às vezes uma parte do clã deixá-lo para ir aumentar o clã vizinho14. submetido a um controle e a restrições. inversamente. Portanto. como os índios da América. É na estrutura das sociedades atuais e na posição que a família nela ocupa que se deve bus­ car a causa determinante dessa mudança. foi em Roma. Entre os iroqueses. o filho não podia sair da família por sua simples vontade. que esse direito foi. Em Ro­ ma.196 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Vê-se quão insuficiente é a explicação tradicional que atribui esse uso da adoção nas sociedades antigas à necessidade de garantir a perpetuidade do culto dos an­ cestrais. Os povos que a praticaram da maneira mais am­ pla e mais livre. uma cerimônia pouco complicada permitia que todo franco que assim o desejasse se desligasse comple­ tamente de todas as obrigações do parentesco16. e. pe­ la primeira vez. não é que nos preo­ cupemos menos em garantir a perpetuidade de nosso no­ me e de nossa raça. não conheciam esse culto. isto é. Do mesmo modo que não re­ sulta de um compromisso contratual. juridicamente um estrangeiro. o vínculo de paren­ tesco não pode ser rompido como um compromisso des­ se gênero. não foi para satisfazê-las que se estabeleceu. Entre os eslavos. Entre os ger­ manos. é nessa opera­ . se tende a desaparecer. em Atenas. nos países em que a religião doméstica estava em seu apogeu. Mas esse vínculo que o filho não po­ dia romper podia ser quebrado pelo pai. e por essa característica reconhecemos um tipo social mais elevado. Outra prova dessa verdade é que ficou ainda mais impossível sair de uma família por um ato de autoridade privada do que entrar nela. um membro da Zadruga que esteja cansado da vida em comum pode se separar do resto da família e tomar-se. para ela. os árabes e os eslavos. ao contrário.

é como a parte do todo. Mas não é apenas fora das relações contratuais. mesmo. se desatam. nem o pai. se. É isso que faz que os órgãos reguladores da sociedade necessitem intervir. elas permanecem tais como o nascimento as determina. Pois nem tudo é contratual no contrato. ao contrá­ rio. a família é. ela é o produto de uma segmenta­ ção secundária do clã. Ela mesma se tor­ na um desses órgãos. se modificam. Hoje. tudo o que é seg­ mento tende cada vez mais a ser absorvido na massa so­ cial. em conseqüência. ela se confunde com o clã. nem o filho podem modificar o estado natural das relações domésticas. ela é atraída sempre e cada vez mais para o sistema dos órgãos sociais. Em vez de permanecer uma sociedade autônoma no seio da sociedade grande. idêntica à que deu origem ao pró­ prio clã e.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 197 ção que consistia a emancipação. não pára de aumentar. elas assumem. como se diz. Não só. Originalmente. Os . um verdadeiro segmento social. dele se distingue. mais tarde. como o papel que o contrato representa diminui progressivamente. um caráter público. em princípio. encarregada de funções especiais e. O motivo disso está no desaparecimento progressivo da organiza­ ção segmentária. o controle social sobre a maneira como se atam. por algum tem­ po. elas não têm uma origem contratual. Com efeito. quando este último desaparece. ao mesmo tempo que as obrigações do­ mésticas se tomam mais numerosas. mantém-se ainda nessa mesma qualidade. a fim de exercer sobre a maneira como a família funciona uma ação moderadora ou. é so­ bre o jogo dessas mesmas relações que a ação social se faz sentir. É por isso que a família é obrigada a se transformar. em certos casos. Ora. Em resumo. tudo o que acontece nela é suscetí­ vel de repercussões gerais. positiva­ mente excitadora17.

em nossos Códigos. em primeiro lugar. há algumas que não podem ser mudadas por nenhuma estipulação. agora. não tem mais as exigências formalistas de outrora. É verdade que os contratantes podem se entender para escapar. seus direitos a esse respeito não são ilimitados. mas não se de­ ve esquecer que ainda existem. nem à de explicar claramen­ te em que se compromete (art. é submetido a uma regulamentação que é obra da socieda­ de e não dos particulares. das disposições da lei. As­ sim. nem à de restituir o preço em caso de evicção. em certa medida pelo menos. Mas se a lei. 1602). ela submete o contrato a obrigações de outro gênero. o vendedor não pode faltar à obrigação de garantir o comprador contra qualquer evicção que resulte de um fato que lhe seja pessoal (art. qualquer que seja a sua ori­ gem. e que se toma cada vez mais volumosa e mais complicada. ou cuja causa é ilícita. ou sem objeto. Ela recusa qualquer força obrigatória aos compromissos contratados por um inca­ paz. Mas. Por exemplo. contanto que o comprador não tivesse conheci­ mento do perigo (art. toda . na grande maioria dos casos.obrigação que não foi mutuamente consentida nada tem de contratual. onde quer que o contrato exista. em geral. Ora. 1628). Inversamente. o contrato já não está.198 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL únicos compromissos que merecem esse nome são os que foram desejados pelos indivíduos e que não têm ou­ tra origem além dessa livre vontade. em certos pontos. submetido a formas determinadas. con­ tratos solenes. ou firmados por uma pessoa que não pode vender. 1629). a convenção das partes não pode fazer que um contrato que não satisfaça às condi­ ções de validade exigidas pela lei seja válido. Entre as obrigações que faz decorrer dos diversos contratos. ou relativos a uma coisa que não pode ser vendida. não pode ser dispensado . Sem dúvi­ da. Do mesmo modo.

o juiz pode. é abso­ lutamente subtraído às transações individuais. à natureza das ações a que o contrato dá di­ reito. o uso ou a lei dão à obrigação. Sem dúvida. quaisquer que sejam os termos da conven­ ção. quando os homens se unem pelo con­ trato. 1160). 1184. 1641 e 1643). se este último dela tiver ne­ cessidade urgente (art. Mas o que mostra melhor ainda que os contratos dão origem a obrigações que não foram contratadas está em que eles “obrigam não apenas ao que neles está expresso. de acordo com a sua natureza” (art. ou então obrigar o tomador a restituir ao emprestador sua coisa antes do prazo combinado. . ela não deixa de ser real. mas também a todas as conse­ qüências que a eqüidade. No entanto. sobre­ tudo se os conhecia. é o compra­ dor que tem o dever de não se aproveitar da situação pa­ ra impor um preço demasiado abaixo do valor real da coisa (art. Em outros casos. mas por uma intervenção positiva. 1189). basta representar-se em que ele consiste. 1655 e 1900). Em virtude desse princípio. Assim. Na verdade. que parece reduzir o direito contratual ao papel de eventual substitu­ to dos contratos propriamente ditos. puramente teórica. 1674). etc. mesmo que a ação social não se exprima sob essa forma expressa. em conseqüência da divisão do trabalho. simples ou complexa. 1244. eles necessitam uns dos outros. na grande genera­ lidade dos casos. Para se convencer disso. 1135). a ação social não se manifesta ape­ nas pela recusa de reconhecer um contrato formado em violação à lei. devem ser supridas no contrato “as cláu­ sulas de uso. Se se tratar de imóveis. conceder em certas circunstâncias um prazo maior ao devedor (arts. é. tudo o que concer­ ne à prova.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 199 da garantia dos vícios ocultos (arts. aos prazos em que elas devem ser movidas. embora não sejam expressas nele” (art. Por outro lado. é que. essa possibilidade de fugir à lei.

nem restaurar com novos custos esse equilíbrio to­ das as vezes que nos comprometamos em alguma rela­ ção contratual. É uma posição de equilíbrio que só se pode en­ contrar após tentativas mais ou menos laboriosas. não apenas em vista da situação. adquirir o maior número de direitos possível. aquilo de que necessita. De fato. Tudo nos falta para isso. Mas toda determinação desse gênero só pode resultar de um compromisso. no interior do organismo individual. é um meio termo en­ tre a rivalidade dos interesses em presença e sua solidarie­ dade. É necessário.200 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Mas. cada um dos contratantes. mas em previsão das circunstâncias que podem se pro­ duzir e modificá-la. ao mesmo passo que com eles coopera. em troca do mínimo possível de obrigações. mas ela só se pode fazer segundo um plano preconcebido. não basta que entrem em relação. é evidente que não podemos nem recomeçar essas tentati­ vas. que a divisão entre ambos seja predeterminada. haveria a cada ins­ tante novos conflitos e tensões. cada órgão está em antagonismo com os de­ mais. que as condições dessa cooperação se­ jam estabelecidas para toda a duração de suas relações. De outro modo. Não é no mo­ . Do mesmo modo que. tal como se apresenta no momento em que o contrato é celebrado. ela não os confunde. É necessá„rio. isto é. não se deve es­ quecer que. pois. além disso. procura obter. para que cooperem harmoniosamente. É necessário que os deveres e os direitos de cada um sejam definidos. em vez de até um outro qualquer. com os mínimos custos. se a divisão do trabalho toma os interesses solidários. Ora. nem mesmo que sintam o estado de mútua dependência em que se encontram. apesar de necessitar do outro. Não há nada na natureza das coisas de que se possa deduzir que as obrigações de um ou do outro devam ir até determinado limite. ela os deixa distintos e rivais.

pois não as delibera­ mos. as condições materiais da vida se opõem a que tais operações possam ser repetidas. A maio­ ria das nossas relações com outrem são de natureza con­ tratual. Resumo de experiências numerosas e variadas. seja ao viajarmos. se fôssemos ligados apenas pelos termos de nossos contratos. que não determi­ namos. Aliás. seja ao comprarmos. etc. sucede-nos contrair esses vínculos. em ca­ da caso. Ela nos submete a obrigações que não contraí­ mos. para determinar as conseqüências jurídicas de nossos atos. Ele exprime as condições normais do equilíbrio. no entanto não podemos nem prever a variedade das circunstâncias possíveis através das quais se desenro­ lará nosso contrato. a cada instante e não raro inesperadamente. mesmo imediatas. a partir da média dos casos. que extravasam . o que não podemos regular aí é regulamentado. Sem dúvida. por vezes. resultaria daí tão-somente uma solidariedade precária. Porque. seja ao hospedar-nos num hotel. tais como se cristalizaram por si mesmas e pouco a pou­ co. as conhecemos de ante­ mão. Mas o direito contratual aí está. os direitos e os deveres de cada um. mas tem conseqüências. e essa regulamentação se impõe a nós. o que não podemos prever indivi­ dualmente está previsto aí. mas da sociedade e da tradição. seja ao vendermos.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 201 mento em que as dificuldades surgem que se deve resol­ vê-las. salvo nas matérias de que tenhamos uma prática de todo particular. nem estabelecer de antemão. com ajuda de um simples cálculo mental. quais serão. ficaríamos imobilizados. nem mesmo. tal como foram debatidos. o ato inicial é sempre contratual. conquanto não seja nossa obra. no sentido exato da palavra. se a cada vez fosse necessário instituir novamente as lutas e as negociações necessárias para se estabelecerem adequadamente todas as condições do acordo no presente e no futuro. Por todas essas razões. Portanto.

mas enquanto não é ab-rogada ou substituída. Enfim. é sua norma fundamental. é a regra que se aplica. ela conserva toda a sua auto­ ridade e. A lei nos confere direitos e nos sujeita a deveres como derivados de determinado ato da nossa vontade. ele constitui a base de nossas relações contratuais. abandonar uns ou nos desfazer dos outros. nem direta. Desse ponto de vista. em princípio. somos obrigados a nos conformar com regras que. por nenhum código. Só podemos nos afastar dele parcial e acidentalmente. Não é mais simplesmente um complemento útil das convenções particulares.202 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL mais ou menos os âmbitos do contrato. ambos deixam de ser o tipo normal dos direitos e dos deveres que a cir­ cunstância comporta. Por isso. o direito dos contratos aparece sob um aspecto bem diferente. pois predetermina o que devemos fazer e o que podemos exigir. O direito contratual exerce por­ tanto sobre nós uma ação reguladora da mais alta im­ portância. sendo necessário um ato especial para modificá-lo. há uma outra que vem dos costumes. só podemos atuar como legisla­ dores de maneira muito intermitente. Impondo-se a nós com a autoridade da experiência tradicional. É uma lei que pode ser modificada pelo simples entendimento das partes. mas nossa cooperação voluntária nos cria deveres que não havíamos desejado. Podemos. nem indiretamente. nem por isso são me­ . Na maneira como celebramos nossos contratos e como os executamos. por não serem sancionadas. fora dessa pressão organizada e definida que o direito exerce. há apenas uma diferença de grau entre a lei que regula as obrigações que o contrato engendra e as que fixam os outros deve­ res dos cidadãos. as modificações são relativa­ mente raras. em certos casos. por outro lado. Cooperamos por­ que quisemos. Nem por isso. as ino­ vações são excepcionais. Portanto.

e há regras de justiça cuja viola­ ção a justiça social deve prevenir. nos casos particulares. se for o caso. seja também destituído de toda e qualquer autoridade.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 203 nos imperativas. em geral. se. primeiramente porque tem muito menos por função criar novas regras do que diversificar. . O papel da sociedade não poderia pois. em nenhum caso. em seguida. por si mesma. não for justo. Ele a implica. é porque. quanto mais desenvolvidas são as relações contratuais. Há obrigações profissionais puramente morais. em princípio. o acordo das vontades particulares basta para assegurar. sendo desprovido de todo e qualquer valor social. tal­ vez. e que no entanto são bastante estritas. sob as reservas prece­ dentes. ela é necessariamente tanto mais extensa. essa ação é igualmente social. o contrato não basta por si. se for capaz de perturbar o jogo regular dos órgãos. nem pode ter. não o é. mesmo que tal violação tenha sido consentida pelos interessados. Elas são aparentes sobretudo nas profissões ditas liberais e se. senão em certas condições que é necessário de­ finir. as regras gerais preestabelecidas. a sociedade lhe confere uma força obrigatória. Mas se ele for contra seu objetivo. reduzir-se a fazer cumprir passi­ vamente os contratos: esse papel é também o de determi­ nar em que condições os contratos são executórios e. pois. é necessário que. porque não tem. são menos numerosas nas outras. como se diz. embora mais difusa do que a precedente. O entendi­ mento das partes não pode tomar justa uma causa que. como veremos. restaurá-los sob sua forma normal. porque se diversifica como os contratos. Em resumo. por outro la­ do. Se. Ora. há motivos para nos indagarmos. mas só é possível graças a uma regulamentação que é de origem social. o poder de vincular. o concurso harmonioso das funções sociais difu­ sas. se isso não é o efeito de um estado mórbido.

se são demasiado ele­ vados. Se Spencer quali­ ficou-a de negativa. Mas. O contrato. a função será trocada por outras. Enquanto isso. mesmo desse ponto de vis­ ta. o contrato consis­ te unicamente na troca. e a desproporção costuma ser notável. uma vez iniciado o con­ curso. Esquece-se que toda uma parte da população não pode deixar assim seu trabalho. ele só poderá ser cumprido se for muito mais minuciosamente regulamentado do que é hoje. para ele. res­ ponde toda uma escola. contratos injustos. tem por objeto garantir ao trabalhador o equiva­ lente da despesa que seu trabalho lhe causou18. é ora o ganho que supera a despesa. Não é ela. sob suas diferentes formas. é de natureza eminentemente positiva. Assim que realizamos um primeiro ato de cooperação. diz Spencer. foram executados com o concurso da sociedade e. Sem dúvi­ da. Mesmo os que têm maior liberdade de movimento não podem retomá-la instantaneamente: se­ melhantes revoluções sempre demoram para consumar-se. ela será buscada e a concorrência diminuirá os lu­ cros. Não é necessário demonstrar que essa intervenção. é necessária uma regulamentação cuja exten­ são não pode ser previamente limitada. comprometemo-nos e a ação regula­ dora da sociedade se exerce sobre nós. não há ra­ zão para que não se rompa em outro. mas. se os ganhos são baixos demais. pois seria um verdadeiro milagre se bastasse para produzir com segurança essa equivalência. é porque. a expressão que ele emprega não é exata. Se é esse de fato o papel do contrato. pois tem por efeito determinar a maneira como devemos cooperar. ora a despesa que supera o ganho. ela o regula. insociais por definição. Mas. quan­ do o equilíbrio foi restabelecido num ponto. depois de ter recebido um objeto ou apro­ . porque nenhum outro lhe é acessível. De fato. por certo. quando.204 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Assim. que dá impulso às funções concorrentes.

muito embora seja. mas de um aparelho especial cujos ramos principais são o simpático e o pneumo-gástrico. recuso-me a fornecer o equivalente combinado. do mesmo modo que o cérebro faz com o movimento dos músculos. Mas. sou igualmen­ te obrigado a manter meu compromisso. apenas recuso-me a ser-lhe útil. O que corresponde a isso. é essa . sem ter recebido previamente a remuneração. não me enriqueço em detrimento de outrem. Mas. mas há também a boa har­ monia das funções concorrentes. que as funções econômicas não são de tal natureza que se coloquem sob a influência imediata do cérebro social. não é todo o contrato. no entanto. ele deve ter sobre os ór­ gãos que lhe são submetidos uma ação análoga. se dessa comparação pode-se induzir. Ademais. Mesmos as comparações biológicas em que Spencer baseia de bom grado sua teoria do contrato livre são antes a sua refutação. indepen­ dente do cérebro. em certa medida. segundo Spencer. e nota que esta última não depende direta­ mente do sistema cérebro-espinhal. apenas previne uma lesão.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 205 veitado um serviço. Portanto. porque. com alguma verossimilhança. no curso das quais é importante que sua solidariedade não seja perturbada. obrigando-me a cumprir minha promessa. as funções econômicas com a vida visceral do organismo individual. o simpático domina os movimentos das vísceras. se simplesmente prometi um serviço. a troca. como vimos. como fizemos. tomo de alguém o que lhe pertence. disso não decorre que pos­ sam ser emancipadas de qualquer influência reguladora. nes­ se caso. se há na sociedade um aparelho do mesmo gênero. como daí resultam relações mais extensas. Não apenas essas fun­ ções ficam em contato durante o curto instante em que as coisas passam de uma mão à outra. e podese dizer que a sociedade. Ele compara. uma agressão indi­ reta.

Essa comparação induz até a pensar que a ação re­ guladora a que está submetida atualmente a vida econô­ mica não é a que deveria ser normalmente. . que. Essa função é a dos nervos aferentes. órgãos verdadeiramente regula­ dores. são estes últimos que exercem a dominação de que acaba­ mos de falar. ou de ampliálas. ela não é nula. víssemos que seu papel. ou de moderá-las. além de um sistema de vias de transmissão. É bem verossímil que. encarregados de combinar os atos intestinais. não valeria a pena deter-nos nela.206 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL troca de informações que se produz sem cessar de um lugar a outro sobre o estado da oferta e da procura e que. Mas não há nisso nada que se assemelhe a uma ação re• guladora. O simpático social deve compreender. se essa dúvida não tivesse outra base além dessa falta de simetria entre o indivíduo e a sociedade. portanto. como o gânglio central combina os atos externos. mas nada tem em comum com a dos gânglios nervosos. por conseqüência. quer não. Transmitir uma notícia não é comandar movi­ mentos. se o estudo desses gânglios estivesse mais avançado. esses órgãos intermediários existiam: eram as corporações de ofício. ora. te­ nham o poder ou de deter as excitações. Sem dúvida. conforme as necessidades. é de assegurar o concurso harmonioso das funções que governam. até tempos bastante recentes. Em nossas socie­ dades contemporâneas. o qual seria a todo instante desorganizado se devesse variar a cada variação das impressões excitadoras. Se­ guramente. Mas ou é di­ fusa. encontraremos dificilmente cen­ tros reguladores análogos aos gânglios do simpático. ou emana diretamente do Estado. Interpostos no trajeto das sensações. como acabamos de mostrar. é ex­ clusivamente por seu intermédio que estas podem refle­ tir-se em movimentos. quer sejam centrais. Mas não se deve es­ quecer que. pára ou estimula a produção19.

o direito administrativo.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 207 Não nos cabe discutir aqui suas vantagens e inconvenien­ tes. mas é legítimo presumir a priori que as mudanças por que passaram reclamavam menos uma destruição radical dessa organização do que uma trans­ formação. faz pouquíssimo tempo que elas vivem nessas condições para que se possa decidir se esse estado é normal e definitivo ou simplesmente aci­ dental e mórbido. por ser metafórica. Chamamos assim o conjunto das regras que determinam primeiro as funções do órgão central e suas relações. É esse sistema que. III Há. porque não podemos resolver essas questões de uti­ lidade prática. Sem dúvida. diremos que elas regulamentam a maneira como funciona o sistema cérebro-espinhal do organismo social. Em todo caso. com os primeiros e com as funções difusas da sociedade. enfim. a não ser de acordo com nossos sentimen­ tos pessoais. é designado pelo nome de Estado. Mesmo os mal-estares que se fazem sentir desde essa época nessa esfera da vida social não parecem predispor a uma resposta favorável. elas mudaram. Se continuarmos a tomar emprestado da biologia uma linguagem que. em seguida as dos ór­ gãos que são imediatamente subordinados ao precedente. não é menos cômoda. semelhantes discussões dificilmente são objeti­ vas. . Aliás. Encontrare­ mos na seqüência deste trabalho outros fatos que confir­ mam essa presunção20. na língua corrente. suas relações umas com as outras. Mas pelo simples fato de uma instituição ter sido necessária durante séculos a diversas sociedades. parece pouco verossímil que estas se tenham bruscamen­ te achado em condições de dispensá-las.

pois tudo o que provam é que o lugar do indivíduo se toma maior e o poder go­ vernamental menos absoluto. Mas. no caso. Provar uma hipótese não é mostrar que ela explica con­ venientemente alguns fatos lembrados a seu propósito. Além disso. as fun­ ções do Estado seriam destinadas a reduzir-se apenas à administração da justiça. porém. em que as funções que não são imediatamente postas sob a dependência do aparelho regulador central se desenvolvam ao mesmo . Mas alguns exemplos expostos sem ordem não constituem uma demonstração. porque esses diversos órgãos só podem ser manti­ dos por meio de contribuições que são exigidas imperati­ vamente de cada cidadão. finalmente. e entre a Inglaterra de outrora e a de hoje.208 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Que a ação social que se exprime sob essa forma se­ ja de natureza positiva. esse aparelho regulador regrediria. as condições da pro­ va não são outras em sociologia e nas outras ciências. ou ainda variam no mesmo sentido e na mesma relação. Mas não há contradição al­ guma em que a esfera de ação individual aumente ao mesmo tempo que a do Estado. que Spencer acredita poder induzir essa lei geral do desen­ volvimento histórico21. à medida que o tipo indus­ trial se diferenciasse do tipo militar e. segundo Spencer. No entanto. De fato. Mas os motivos alegados em apoio a essa proposi­ ção mostram-se de uma indigência notável: é quase uni­ camente de uma curta comparação entre a Inglaterra e a França. ela tem por objeto fixar de que modo devem cooperar essas fun­ ções especiais. é elas inconteste. ou não subsistem um sem o outro. é constituir experiências metódicas. É mostrar que os fenô­ menos entre os quais se estabelece uma relação concor­ dam universalmente. Sob certos aspectos. esses fatos considerados em si não demonstram nada. até impõe a coopera­ ção.

por assim dizer. na realidade. por conseguinte. Os fatos de desobediência às ordens da autoridade já não são tratados como sacrilé­ gios. De fato. mas os pontos sobre os quais se exerce multiplicaram-se e. a forma primitiva do Estado. ao contrário. a ação que ele exerce nessas condições não é mais da mesma natureza. ao mesmo tempo. mas se esse mesmo aparelho se tor­ nou mais ou menos volumoso. ainda que seja menos violenta. as funções que ele desempenha são rudi­ mentares e pouco numerosas. a solução não poderia ser duvidosa. uma supremacia excepcional. mais ele é rudimentar. Basta. É que o órgão diretor da vida social pode ter absorvido em si toda esta última. O Estado de que Spencer faz um ideal é. de uma maneira regular. reprimidos com a mesma se­ veridade. para tanto. a questão que se coloca não é a de saber se a força coercitiva de que dispõe esse aparelho regulador é mais ou menos intensa. as únicas funções . e essas ordens são mais numerosas e abrangem espécies mais diferentes. De fato. que o volume total do organismo tenha aumentado. Mas pode muito bem se dar que ele adquira mais volume. sem ser por isso muito desenvolvido. se a vi­ da social também não o for. absoluto e bastante simples: nada é menos complexo do que o governo despótico de um chefe bárbaro. sobre o res­ to da sociedade. ao mes­ mo tempo que se formam outros órgãos que lhe servem de contrapeso.A FUNÇÃO DA DIVISÃO DO TRABALHO 209 tempo que este último. mas não são mais tolerados. Sem dúvida. porque nada é capaz de contê-lo nem de neutralizá-lo. o direito administrativo é tanto mais desenvolvido quanto mais elevado o tipo a que as sociedades pertencem. quanto mais remon­ tamos em direção às origens. Ora. Uma vez assim formulado o problema. nem. não deixa de se impor de maneira igualmente formal. Ele tem apenas. a história mostra que. Por outro lado. um poder pode ser.

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que lhe pertencem normalmente, segundo o filósofo in­ glês, são as da justiça e as da guerra, pelo menos na me­ dida em que a guerra é necessária. Ora, nas sociedades inferiores, ele não tem efetivamente outro papel. Sem dú­ vida, essas funções não são entendidas aí como o são atualmente; mas não são outras por isso. Toda essa inter­ venção tirânica que Spencer assinala nada mais é que uma das maneiras pelas quais se exerce o poder judiciá­ rio. Ao reprimir os atentados contra a religião, contra a etiqueta, contra as tradições de toda sorte, o Estado de­ sempenha a mesma função que nossos juizes atuais, quando protegem a vida ou a propriedade dos indivíduos. Ao contrário, suas atribuições se tomam cada vez mais numerosas e variadas, à medida que nos aproximamos dos tipos sociais superiores. O próprio órgão da justiça, que é simplíssimo de início, vai se diferenciando cada vez mais; tribunais diferentes se formam, magistraturas distintas se constituem, o papel respectivo de uns e ou­ tros se determina, bem como suas relações. Uma multi­ dão de funções que eram difusas se concentram. O cui­ dado de zelar pela educação da juventude, de proteger a saúde geral, de presidir o funcionamento da assistência pública, de administrar as vias de transporte e de comu­ nicação, entra pouco a pouco na esfera de ação de órgão central. Em conseqüência, este se desenvolve e, ao mes­ mo tempo, estende progressivamente sobre toda a super­ fície do território uma rede cada vez mais densa e com­ plexa de ramificações que substituem os órgãos locais preexistentes ou os assimilam. Serviços de estatística mantêm-no a par de tudo o que acontece nas profunde­ zas do organismo. O aparelho das relações internacio­ nais, quero dizer, a diplomacia, adquire proporções cada vez mais consideráveis. À medida que se formam as insti­ tuições que, como ps grandes estabelecimentos de crédi­

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to, têm, por suas dimensões e pela multiplicidade das funções que lhes são solidárias, um interesse geral, o Es­ tado exerce sobre elas uma influência moderadora. En­ fim, mesmo o aparelho militar, cuja regressão Spencer afirma, parece, ao contrário, desenvolver-se e centralizarse de maneira ininterrupta. Essa evolução sobressai com tamanha evidência dos ensinamentos da história que não nos parece necessário entrar nos detalhes para demonstrá-la. Comparemos as tribos destituídas de qualquer autoridade central com as tribos centralizadas, estas com a cidade, a cidade com as so­ ciedades feudais, as sociedades feudais com as socieda­ des atuais, e seguiremos passo a passo as principais eta­ pas do desenvolvimento cujo andamento geral acabamos de recordar. Portanto, é contrário a qualquer método considerar as dimensões atuais do órgão governamental como um fato mórbido, devido a um concurso de cir­ cunstâncias acidentais. Tudo nos obriga a ver nelas um fenômeno normal, decorrente da própria estrutura das sociedades superiores, pois progride de uma maneira re­ gularmente contínua, à medida que as sociedades se aproximam desse tipo. Podemos mostrar, aliás, pelo menos em linhas ge­ rais, como ele resulta dos próprios progressos da divisão do trabalho e da transformação que tem por efeito fazer as sociedades passarem do tipo segmentário ao tipo or­ ganizado. Enquanto tem sua vida própria, cada segmento for­ ma uma pequena sociedade na grande e tem, por conse­ guinte, seus próprios órgãos reguladores, tal como esta. Mas sua vitalidade é necessariamente proporcional à in­ tensidade dessa vida local; portanto, eles não podem dei­ xar de debilitar-se quando ela mesma se debilita. Ora, sa­ bemos que essa debilitação se produz com a anulação

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progressiva da organização segmentária. O órgão central, encontrando diante de si menos resistência, já que as for­ ças que o continham perderam sua energia, se desenvol­ ve e atrai para si essas funções, semelhantes às que ele exerce, mas que já não podem ser asseguradas pelos que as detinham até então. Esses órgãos locais, em vez de conservarem sua individualidade e permanecerem difu­ sos, vêm, pois, fundir-se no aparelho central, que, em conseqüência, cresce, e isso tanto mais quanto mais vasta for a sociedade e mais completa a fusão, o que eqüivale a dizer que ele é tanto mais volumoso quanto mais ele­ vada for a espécie das sociedades. Esse fenômeno se produz com uma necessidade mecânica e, aliás, é útil, porque corresponde ao novo es­ tado de coisas. Na medida em que a sociedade deixa de ser formada por uma repetição de segmentos similares, o aparelho regulador deve deixar de ser formado por uma repetição de órgãos segmentários autônomos. Todavia, não queremos dizer que, normalmente, o Estado absorva em si todos os órgãos reguladores da sociedade, quais­ quer que sejam, mas apenas os que têm a mesma nature­ za dos seus, isto é, que presidem a vida geral. Quanto aos que regem funções especiais, como as funções eco­ nômicas, estes se encontram fora da sua esfera de atra­ ção. Pode muito bem se produzir entre eles uma coalescência do mesmo gênero, mas não entre eles e ele; ou, pelo menos, se submetidos à ação dos centros superio­ res, permanecem distintos destes. Entre os vertebrados, o sistema cérebro-espinhal é bastante desenvolvido, tem uma influência sobre o simpático, mas concede a este úl­ timo uma grande autonomia. Em segundo lugar, enquanto a sociedade é feita de segmentos, o que se produz num deles tem tanto menos oportunidade de ecoar nos outros, quanto mais forte for

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a organização segmentária. O sistema alveolar se presta naturalmente à localização dos acontecimentos sociais e de suas conseqüências. Assim, numa colônia de pólipos, um dos indivíduos pode estar doente sem que os outros se ressintam disso. O mesmo não ocorre quando a socie­ dade é formada por um sistema de órgãos. Em conse­ qüência de sua dependência mútua, o que atinge um atinge os outros e, assim, toda mudança um tanto grave adquire um interesse geral. Essa generalização é facilitada ainda por duas outras circunstâncias. Quanto mais o trabalho se divide, menos cada órgão social compreende partes distintas. À medida que a grande indústria substitui a pequena indústria, o número de empresas diferentes diminui; cada uma tem mais importância relativa por representar uma fração maior do todo e o que acontece com ela tem, portanto, conseqüências sociais muito mais extensas: o fechamento de uma pequena oficina provoca perturbações limitadas, que deixam de ser sentidas além de um pequeno círculo; enquanto a falência de uma grande sociedade industrial é, ao contrário, uma perturbação pública. Por outro lado, como o progresso da divisão do trabalho determina uma concentração maior da massa social, há entre as diferen­ tes partes de um mesmo tecido, de um mesmo órgão ou de um mesmo aparelho, um contato mais íntimo que tor­ na mais fáceis os fenômenos de contágio. O movimento que nasce num ponto comunica-se rapidamente aos ou­ tros. Basta ver com que velocidade, por exemplo, uma greve se generaliza hoje em dia num mesmo ramo. Ora, uma perturbação de certa generalidade não se pode pro­ duzir sem ecoar nos centros superiores. Estes, sendo do­ lorosamente afetados, precisam intervir, e essa interven­ ção é tanto mais freqüente quanto mais elevado for o ti­ po social. Mas, para tanto, é preciso que eles sejam orga­

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nizados em conseqüência; é preciso que estendam em todos os sentidos suas ramificações, de maneira a estar em relação com as diferentes regiões do organismo, de maneira, também, a manter numa dependência mais ime­ diata certos órgãos cujo jogo poderia ter, eventualmente, repercussões excepcionalmente graves. Numa palavra, tomando-se suas funções mais numerosas e mais com­ plexas, é necessário que o órgão que lhes serve de subs­ trato se desenvolva, assim como o corpo de regras jurídi­ cas que as determinam. À crítica que lhe foi feita com freqüência - de con­ tradizer sua própria doutrina, admitindo que o desenvol­ vimento dos centros superiores se faz em sentido inverso nas sociedades e nos organismos - , Spencer responde que essas diferentes variações do órgão decorrem de va­ riações correspondentes da função. Segundo ele, o papel do sistema cérebro-espinhal seria, essencialmente, o de regular as relações do indivíduo com o exterior, de com­ binar os movimentos seja para agarrar a presa, seja para escapar do inimigo22. Aparelho de ataque e de defesa, ele é naturalmente bastante volumoso nos organismos mais elevados, nos quais essas relações exteriores são, elas mesmas, muito desenvolvidas. O mesmo se dá com as sociedades militares, que vivem em estado de hostili­ dade crônica com suas vizinhas. Ao contrário, entre os povos industriais, a guerra é exceção; os interesses so­ ciais são principalmente de ordem interna; o aparelho re­ gulador externo, não tendo mais a mesma razão de ser, regride, pois, necessariamente. Mas essa explicação se baseia num duplo erro. Em primeiro lugar, todo organismo, quer tenha ins­ tintos predadores, quer não, vive num meio com o qual tem relações tanto mais numerosas quanto mais comple­ xo for. Portanto, se diminuem à medida que as socieda­

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des se tomam mais pacíficas, as relações de hostilidade são substituídas por outras. Os povos industriais têm um comércio mútuo muito mais desenvolvido do que o aquele que os povos inferiores mantêm uns com os ou­ tros, por mais belicosos que sejam. Não estamos falando do comércio que se estabelece diretamente entre indiví­ duo e indivíduo, mas daquele que une os corpos sociais entre si. Cada sociedade tem interesses gerais a defender contra as outras, se não pelas armas, em todo caso por meio de negociações, coligações, tratados. Ademais, não é verdade que o cérebro nada mais fa­ ça senão presidir as relações externas. Não apenas pare­ ce que ele por vezes pode modificar o estado dos órgãos por vias de todo internas, mas, mesmo que aja do exterior, é sobre o interior que exerce sua ação. De fato, mesmo as vísceras mais intestinais só podem funcionar com aju­ da de materiais que lhes vêm do exterior, e como dispõe soberanamente destes últimos, o cérebro tem sobre todo o organismo uma influência constante. O estômago, dizse, não entra em jogo por sua ordem, mas a presença dos alimentos basta para excitar os movimentos peristálticos. Contudo, se os alimentos estão presentes, é porque o cérebro assim quis, e eles o estão na quantidade que o cérebro fixou e na qualidade que escolheu. Não é ele que comanda os batimentos do coração, mas pode, por um tratamento apropriado, retardá-los ou acelerá-los. Não há tecidos que não sofram alguma das disciplinas que ele impõe, e o império que ele exerce assim é tanto mais extenso e tanto mais profundo quanto mais elevado for o tipo do animal. Isso se deve, de fato, a que seu ver­ dadeiro papel é presidir, não apenas as relações com o exterior, mas ao conjunto da vida; portanto, essa função é tanto mais complexa quanto mais rica e concentrada for a vida. O mesmo se dá com as sociedades. O que faz

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que o órgão governamental seja mais ou menos conside­ rável, não é que os povos sejam mais ou menos pacífi­ cos; mas ele cresce à medida que, em conseqüência dos progressos da divisão do trabalho, as sociedades compreen­ dem maior número de órgãos diferentes mais intimamen­ te solidários uns dos outros.

rv
As seguintes proposições resumem esta primeira parte de nosso trabalho. A vida social deriva de uma dupla fonte: a similitude das consciências e a divisão do trabalho social. O indiví­ duo é socializado no primeiro caso, porque, não tendo individualidade própria, confunde-se, como seus seme­ lhantes, no seio de um mesmo tipo coletivo; no segundo, porque, tendo uma fisionomia e uma atividade pessoais que o distinguem dos outros, depende deles na mesma medida em que se distingue e, por conseguinte, da socie­ dade que resulta de sua união. A similitude das consciências dá origem a regras jurí­ dicas que, sob a ameaça de medidas repressivas, impõem a todos crenças e práticas uniformes; quanto mais for pronunciada, mais a vida social se confunde completa­ mente com a vida religiosa, e mais as instituições econô­ micas são vizinhas do comunismo. A divisão do trabalho dá origem a regras jurídicas que determinam a natureza e as relações das funções di­ vididas, mas cuja violação acarreta apenas medidas reparadoras sem caráter expiatório. Cada um desses corpos de regras jurídicas, aliás, é acompanhado por um corpo de regras puramente mo­ rais. Onde o direito penal é muito volumoso, a moral co­

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mum é muito extensa; isto é, há uma multidão de práti­ cas coletivas postas sob a salvaguarda da opinião públi­ ca. Onde o direito restitutivo é muito desenvolvido, há para cada profissão uma moral profissional. No interior de um mesmo grupo de trabalhadores, existe uma opi­ nião, difusa em toda a extensão desse agregado restrito, que, sem estar munida de sanções legais, faz-se não obs­ tante obedecer. Há usos e costumes comuns a uma mes­ ma ordem de funcionários e que nenhum deles pode in­ fringir sem incorrer na censura da corporação23. Todavia, essa moral se distingue da precedente por diferenças análogas às que separam as duas espécies corresponden­ tes de direitos. De fato, ela está localizada numa região limitada da sociedade; ademais, o caráter repressivo das sanções a ela ligadas é sensivelmente menos acentuado. As faltas profissionais determinam um movimento de re­ provação muito mais débil do que os atentados contra a moral pública. No entanto, as regras da moral e do direito profissio­ nais são imperativas como as outras. Elas obrigam o indi­ víduo a agir visando fins que não lhe são próprios, a fa­ zer concessões, a aceitar compromissos, a levar em conta interesses superiores aos seus. Por conseguinte, mesmo onde a sociedade repousa da maneira mais completa na divisão do trabalho, ela não se resolve numa poeira de átomos justapostos, entre os quais só se podem estabele­ cer contatos externos e passageiros. Mas seus membros são unidos por vínculos que se estendem muito além dos momentos tão curtos em que a troca se consuma. Cada uma das funções que eles exercem é, de maneira cons­ tante, dependente das outras e forma com elas um siste­ ma solidário. Como conseqüência, da natureza da tarefa escolhida derivam deveres permanentes. Por cumprirmos determinada função doméstica ou social, somos pegos

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numa rede de obrigações de que não temos o direito de nos emancipar. Há sobretudo um órgão em relação ao qual nosso estado de dependência aumenta cada vez mais: o Estado. Os pontos pelos quais estamos em conta­ to com ele se multiplicam, assim como as ocasiões em que ele tem por encargo chamar-nos ao sentimento da solidariedade comum. Assim, o altruísmo não está destinado a se tomar, como quer Spencer, uma espécie de ornamento agradá­ vel de nossa vida social; ele será sempre a base funda­ mental da mesma. Como, de fato, poderíamos dispensálo? Os homens não podem viver juntos sem se entende­ rem e, por conseguinte, sem fazerem sacrifícios mútuos, sem se ligarem uns aos outros de maneira forte e dura­ doura. Toda sociedade é uma sociedade moral. Sob cer­ tos aspectos, esse caráter é até mais pronunciado nas so­ ciedades organizadas. Como o indivíduo não se basta, é da sociedade que ele recebe tudo o que lhe é necessário, como é para ela que ele trabalha. Forma-se, assim, um sentimento fortíssimo do estado de dependência em que se encontra: ele se acostuma a estimar-se por seu justo valor, isto é, a só se ver como parte de um todo, o órgão de um organismo. Tais sentimentos são capazes de inspi­ rar não apenas esses sacrifícios cotidianos que garantem o desenvolvimento regular da vida social cotidiana, mas também, eventualmente, atos de renúncia completa e de abnegação exclusiva. Por seu lado, a sociedade aprende a ver os membros que a compõem não mais como coisas sobre as quais tem direitos, mas como cooperadores que ela não pode dispensar e para com os quais tem deveres. É erroneamente, pois, que se opõe a sociedade que deri­ va da comunidade das crenças à que tem por base a coo­ peração, concedendo à primeira apenas um caráter moral e não vendo na segunda mais que um agrupamento eco­

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nômico. Na realidade, a cooperação também tem sua moralidade intrínseca. Há apenas motivos para crer, co­ mo veremos melhor na continuação, que, em nossas so­ ciedades atuais, essa moralidade ainda não tem todo o desenvolvimento que lhes seria necessário desde já. Mas ela não é da mesma natureza do que a outra. Esta só é forte se o indivíduo não o for. Feita de regras que são praticadas por todos indistintamente, ela recebe dessa prática universal e uniforme uma autoridade que faz dela uma coisa sobre-humana e que a subtrai mais ou menos à discussão. A outra, ao contrário, se desenvolve à medida que a personalidade individual se fortalece. Por mais regulamentada que seja uma função, ela sempre deixa um vasto espaço à iniciativa de cada um. Mesmo muitas obrigações que são assim sancionadas têm sua origem numa opção da vontade. Somos nós que escolhe­ mos nossa profissão e mesmo algumas de nossas funções domésticas. Sem dúvida, uma vez que nossa resolução deixou de ser interna e traduziu-se exteriormente por conseqüências sociais, estamos ligados: impõem-se a nós deveres que não quisemos expressamente. No entanto, foi de um ato voluntário que se originaram. Enfim, como essas regras de conduta se referem não às condições da vida comum, mas às diferentes formas da atividade pro­ fissional, por isso mesmo elas têm um caráter mais tem­ poral, por assim dizer, que, ao mesmo tempo que lhes conserva sua força obrigatória, as toma mais acessíveis à ação dos homens. Há, portanto, duas grandes correntes da vida social, a que correspondem dois tipos de estrutura não menos diferentes. Dessas correntes, a que tem sua origem nas similitudes sociais corre a princípio só e sem rival. Nesse mo­ mento, ela se confunde com a própria vida da sociedade;

220 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL depois. Acabamos de estabelecer a realidade dessa relação de variação inversa. mas sem nunca desaparecer por completo. rarefaz-se. Do mesmo mo­ do. enquanto a segunda vai engrossando mais e mais. a estrutura segmentária é cada vez mais recoberta pe­ la outra. pouco a pouco. . Encontraremos suas causas no livro seguinte. canaliza-se.

LIVRO II AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES .

.

Essa causa não poderia consistir numa representação antecipada dos efeitos produzidos pela divisão do traba­ lho. É uma conseqüência demasiado remota para que possa ser compreendido por todos. Ca­ da caso particular depende de causas particulares que só podem ser determinadas por um exame especial. resta o fato geral de que ela se desenvolve regularmente à medida que avan­ çamos na história. Esse fato depende por certo de causas igualmente constantes. Em todo caso. Semelhante fórmula não existe. contribuindo para manter o equilíbrio das socieda­ des. . O proble­ ma que nos colocamos é menos vasto.CAPÍTULO I OS PROGRESSOS DA DIVISÃO DO TRABALHO E OS PROGRESSOS DA FELICIDADE A que causas se devem os progressos da divisão do trabalho? Sem dúvida. Se fizermos abstra­ ção das formas variadas que a divisão do trabalho adquire segundo as condições de tempo e lugar. que vamos pesquisar. a maioria dos espíri­ tos não tem nenhuma consciência dela. não seria o caso de encontrar uma fórmu­ la única capaz de explicar todas as modalidades possíveis da divisão do trabalho.

tenha advertido os homens de algumas dessas van­ tagens.224 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ela só podia começar a se tomar sensível quando a divi­ são do trabalho já era muito avançada. sob a influência de causas exclusivamente individuais e psicológicas. como toda espe­ cialização supõe a presença simultânea de vários indiví­ duos e seu concurso. Basta. Dito isso. por conseguinte. a ma­ téria necessária à organização do trabalho dividido. mais seu rendimento é eleva­ do. ela não é possível sem uma socie­ dade. ela não teria outra origem além do desejo que tem o homem de aumentar ‘sem cessar sua felicidade. de fato. A necessidade da felicidade é que levaria o indivíduo a se especializar cada vez mais. a indústria produz mais e seus produtos são mais perfeitos. também são de melhor qualidade. Ela pro­ grediria. a socie­ dade seria apenas o meio pelo qual ela se realiza. Segundo a teoria mais difundida. segundo se diz. Mas. que seja naturalmente incitado a buscá-las. o homem necessi­ ta de todas essas coisas. explica-se facilmente a regularidade com a qual a divisão do trabalho progride. que deva ser tanto mais feliz quanto mais coisas possua e. pois. Ora. em vez de ser sua causa determinante. Para elaborar a teoria da divi­ são do trabalho. Sabe-se. A ciência se faz melhor e mais depressa. parece. que é fácil ima­ ginar. as obras de arte são mais numerosas e mais refinadas. que um concurso de circunstâncias. Acaso não se repete sem cessar que foi a . Ela seria inclusive muito mais um efeito do fenômeno do que sua causa. pois. não seria necessário observar as socie­ dades e sua estrutura: o instinto mais simples e mais fun­ damental do coração humano bastaria para explicá-la. para que eles tenham procurado estendê-la cada vez mais. que quanto mais o trabalho se divide. Os recursos que põe à nossa disposição são mais abundantes. a fim de tirar todo o proveito possível. Sem dúvida.

Ainda que devesse chegar um dia a um máximo que não poderia mais superar . Não se pode atribuir nenhum limite racional à força produtiva do trabalho. dos capitais. a feli­ cidade crescesse regularmente com ela.. como prova a experiên­ cia. Mas esses obstáculos nunca são mais que provisórios. então. É por isso que é necessário examiná-la antes de mais nada.o que é uma conjetura totalmente gratuita . em vez de terem-se dividido por razões sociais? Essa explicação é clássica em economia política. ela tem atrás de si um campo de desen­ volvimento imenso. . os aumentos de que é capaz fossem proporcionais aos precedentes. e cada geração afasta o limite em que se detivera a geração precedente. etc. para que o trabalho pudesse se dividir. de resto. Portanto. como se supõe. também seria necessário que pudesse aumentar indefinidamente ou que. Porém. nossa força de felicidade é muito restrita. Ela parece. ela depende do es­ tado da técnica. Se a felicidade aumen­ tasse à medida que os estímulos agradáveis se tornas­ sem mais numerosos e intensos. que é admi­ tida inconscientemente por uma multidão de pensadores cujas concepções altera. pelo menos. pelo menos é certo que. se. I Nada está menos demonstrado do que o pretenso axioma sobre o qual ela repousa. Sem dúvida. tão simples e tão evidente. desde já.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 225 necessidade da cooperação que deu origem às socieda­ des? Estas ter-se-iam formado. na realidade. seria natural que o ho­ mem procurasse produzir mais para gozar ainda mais.

Nas proximidades do limite inferior. e Laplace. porém. Essa proposição. Cer­ tos fisiologistas acreditam até que a dor está ligada a uma vibração nervosa demasiado intensa2. não será sentido. é uma verdade geralmente reconhecida hoje que o prazer não acompanha nem os estados de cons­ ciência demasiado intensos. Portanto. deu-lhe a forma de uma relação entre a fortuna física e a fortuna moral3. O campo das variações que a intensidade de um mesmo prazer pode percorrer é. Há dor quando a atividade funcional é insuficiente. aliás. o prazer está situado entre esses dois extremos. limitado. nem todos apresentam condições igualmente favoráveis à produção do prazer. essa lei é igualmente ver­ dadeira para a qualidade da sensação a que chamamos prazer. até deixarem completa­ mente de ser percebidos. há um ponto. pois. os aumentos que ele receber pro­ duzirão cada vez menos efeito. mas se ultrapassar certo grau. é um corolário da lei de Weber e de Fechner. nem os demasiado fracos. Em­ bora a exatidão da fórmula matemática que esses experimentadores propõem para ela seja contestável.226 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL De fato. Se os estados de consciência de intensida­ de moderada são geralmente agradáveis. as mu­ danças por que passa a atividade agradável são demasia­ do pequenas em valor absoluto para determinar senti­ mentos de prazer dotados de grande energia. quando está próxima do ponto de indiferença. Foi até formulada para o prazer e para a dor mui­ to tempo antes de ter sido para os outros elementos da sensação: Bemoulli aplicou-a logo aos sentimentos mais complexos. Ora. Há mais. que eles tomaram indubitável: o de que as variações de intensidade pelas quais uma sensação pode passar estão compreendidas entre dois limites. Se o estímulo for demasiado fraco. is­ . interpretando-a no mesmo sentido. mas uma atividade excessiva produz os mesmos efeitos1. Inversa­ mente.

no entanto. O que acabamos de dizer sobre a intensidade de ca­ da estimulante poderia repetir-se para sua quantidade. assim como quando supe­ ram ou não atingem certo grau de vivacidade. Um homem que possui um capital muito pequeno não pode aumentá-lo facilmente nas proporções que bastam para mudar sensi­ velmente sua condição. O ponto de referência que serve para medir seu valor ainda não é elevado o bastante para que disso resulte uma forte depreciação. as menores oscilações são saboreadas e apreciadas. que se converte toda em prazer4. o prazer ainda existe. porque mede a importância deles comparando-os ao que já possui. não é preciso serem extraordinárias para serem estimadas a seu justo preço. Nada é perdido da energia do estímulo. um homem cuja fortuna é excessiva só passa a encontrar prazeres em be­ nefícios excepcionais. facilmente. bastante consideráveis . O que acontece com as fortunas médias é bem diferente.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 227 to é. pois. Aquém e além. Não é sem . mas não tem relação com a causa que o produz. só produz todo o seu efeito no intervalo que corresponde à parte média da atividade agradável. Nesse caso. en­ tre limites ainda mais aproximados do que dizíamos a princípio. as grandezas de que se acresce têm um valor relativo demasiado pequeno. a grandeza absoluta e a grandeza relativa das variações estão nas melhores condições para que o prazer se produza. ao passo que. Do mesmo modo. Eles deixam de ser agradáveis quando são demasiados ou muito pouco numerosos. A intensidade de um estímulo agradável só pode aumentar utilmente. de seu máximo. nessa zona tempera­ da. Eis por que as primeiras econo­ mias trazem consigo tão pouca alegria: elas são demasia­ do pequenas para melhorar a situação. As vantagens in­ significantes que proporcionam não compensam as priva­ ções que custaram. pois são.

se comprazesse com coisas que o prejudicam. Portanto. que. para pôr o homem em condições de le­ var essa existência modesta que é a mais favorável ao prazer. a saúde consiste numa atividade média. isto é. um organismo que. A humanidade teria chega­ do rapidamente a um estado estacionário de que não te­ ria mais saído. além dos quais a dóença come­ . De fato. Porque. Portanto. em princípio.228 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL razão que a experiência humana vê na aurea mediocritas a condição da felicidade. Outras considerações conduzem à mesma conclusão. Só os seres que sofrem de alguma perversão fisiológica ou psicológica encon­ tram prazer em estados doentios. e que ambas teriam parado. se a divisão do trabalho só houvesse real­ mente progredido para aumentar nossa felicidade. a felicidade coincide com o estado de saúde. se se contiverem mutuamente aquém de certos limites. as­ sim como a civilização que daí resulta. Foi o que aconteceu com os animais: a maioria deles não muda faz séculos. Um desenvolvimento moderado te­ ria bastado para garantir aos indivíduos toda a soma de prazeres de que são capazes. Ora. No en­ tanto. em linhas gerais. não era necessário acumular indefinidamente estí­ mulos de toda sorte. e as funções só podem desenvolver-se harmoniosamente se se modera­ rem mutuamente. porque chegaram a esse estado de equilíbrio. isto é. Não se pode dizer de modo absoluto que todo esta­ do agradável é útil. que o prazer e a utilidade sempre va­ riam no mesmo sentido e na mesma proporção. podemos aceitar como uma ver­ dade muito geral que o prazer não está ligado aos esta­ dos prejudiciais. faz muito tempo que teria chegado a seu limite extremo. não poderia evidentemen­ te se manter. ela implica um desenvol­ vimento harmonioso de todas as funções.

por sua vez. toma­ do em cada momento da história..”5 É esquecer que a consciência. que. que ele não pode superar. A pro­ posição não é contestada. os impulsos mais enérgicos da devoção e da caridade. enquanto se tratar apenas do organismo: todo o mundo reconhece que as necessida­ des do corpo são limitadas e que. ademais. Mas foi dito que as funções espirituais eram exceção. assim como um máximo de atividade. em conseqüência. por conseguinte. e.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 229 ça e o prazer cessa. No entanto. logo foi alcançado. está ligada a um substrato orgânico de cujo es­ tado ela depende. Compreende-se dessa maneira o que limita a felici­ dade humana: é a própria constituição do homem. Ade­ . Há. o excesso de ciência só pode ser adquirido por um desenvolvimento exagera­ do dos centros nervosos superiores. pois. Uma pessoa satisfaz sua fo­ me com uma quantidade determinada de alimento. Dado o seu tempera­ mento e o grau de desenvolvimento físico e moral a que chegou. Diz-se que. há um máximo de felicidade.. a busca apaixonada e entusias­ ta do verdadeiro e do belo. era particularmente baixo no início da humanidade. Quanto a um aumento simultâneo de todas as faculdades. um limite máximo que não po­ de ser superado impunemente. se há um grau de clarida­ de que os olhos não podem suportar. o prazer físico não pode aumentar indefinidamente. nunca há claridade suficiente para a razão. como ele varia com o cérebro médio. não se pode produzir sem ser acompanhado de perturba­ ções dolorosas. que é assinalada pelo estado congênito do indivíduo. mas não satisfaz sua razão com uma quantidade determinada de saber. só é possível para um dado ser nu­ ma medida muito restrita. é um sistema de funções que se equilibram e que. assim como o organis­ mo. “Nenhuma dor para castigar e reprimir .

não se pode inculcar-lhe outra. Cada povo tem sua moral. há para as idéias claras. para a ciência. há ou­ tras. e tais perturbações não podem deixar de ser dolorosamente sentidas pelos indivíduos. o pró­ prio conjunto de nossos deveres é limitado pelas outras exigências de nossa natureza. no entanto. Mas a moral de cada sociedade. e tal ruptura de equilíbrio faz-se necessariamente acompa­ nhar de um mal-estar. ninguém pode desenvolver em excesso sua per­ sonalidade sem cair no egoísmo. ela não pode crescer além de certo ponto. são essenciais. o entendimento é apenas uma de nossas faculda­ des. senão em detrimento das faculdades práticas. as crenças.230 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL mais. Por outro lado. para as opiniões refleti­ das. por mais incontestável que seja a superioridade delas. que são naturalmente refratárias a ela e que. Portanto. os hábitos de que vivemos. ao contrário. O mesmo se dá com a moralidade. um lugar determinado além do qual ela não pode se estender normalmente. se conseguíssemos embebê-los bruscamente de nossas doutrinas científicas. abalando .os sentimentos. acaso não comporta um desenvolvimento indefini­ do das virtudes que ela recomenda? De modo nenhum. por mais elevada que seja. A cada momento da história e na consciência de cada indi­ víduo. Se é necessário que certas formas da conduta sejam submetidas a essa regulamenta­ ção imperativa que é característica da moralidade. que é determinada pelas condições em que vive. A moral não pode reger . considerada em si. É limitado por outros deveres. Ninguém se pode dar completamente a outrem sem abandonar a si mesmo. Portanto. numa palavra. Os seguidores da religião mais grosseira encontram na cosmogonia e na filosofia rudi­ mentares que lhes são ensinadas um prazer que lhes tira­ ríamos sem compensação possível. sem desorganizá-lo. e todo de­ ver é finito. Agir moralmente é cumprir com o seu dever.

ele começa tanto mais cedo quanto menos avançada é a sociedade ou menos culto o meio. se está em harmonia com suas . como ela tem por objeto ime­ diato regular nossa vida temporal. as ta­ refas obrigatórias são necessariamente negligenciadas. o li­ mite além do qual o excesso começa é variável. não pode desviar-nos desta sem esgotar. com os quais. ela está estritamente circunscrita pela atividade propriamente moral. O lavrador. a moral é a primeira a sofrer. Idealismo e elevação moral em excesso fazem muitas vezes que o homem não tenha mais gosto em cumprir com seus de­ veres cotidianos. e no entanto elas são vitais. É verdade que a atividade estético-moral. por não ser regida. de agir sem objetivo e pelo prazer de agir. pode haver excessos de moral.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 231 excessivamente as funções industriais. pois só pode superar certa medida em detrimento da moralidade. assim. sem paralisá-las. Mas. de resto. Portanto. porque. ela própria. Pode-se dizer o mesmo de toda atividade estética de uma maneira geral. Se dispendemos uma parte excessiva de nossas forças no supérfluo. Quando se dá um espaço excessivo para a imaginação em moral. comerciais. a matéria a que se aplica. parece livre de qualquer freio e de qualquer limitação. Aliás. Uma sensibilidade artística demasiado grande é um fenômeno doentio que não po­ de se generalizar sem perigo para a sociedade. Até mesmo qualquer disciplina parece intolerável quando se tomou em demasia o hábito de agir sem outras regras que não as que cada um impõe a si mesmo. con­ siderar a riqueza imoral não é um erro menos funesto do que ver na riqueza o bem por excelência. A ne­ cessidade de jogar. etc. não pode ser desenvolvida além de certo ponto sem que se desvie da vida séria. confor­ me os povos ou os meios sociais. não sobra o suficiente para o necessário. ela só é sadia se for moderada.. na realidade.

é e deve ser fechado a prazeres estéticos que são normais no letrado. Esque­ cemos que eles não eram aptos a desfrutá-los. de bem-estar é definida como nossos apetites. não foi para adquirir bens que. pois. o que fizeram. nossa sede de ciência. como mostra a história das transformações pelas quais a humanidade passou. é impossí­ vel que se tenham produzido com esse fim e.232 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL condições de existência. não tinham valor. mudar sua natureza. se se atormentaram tanto para aumentar a força produti­ va do trabalho. elas dependem de outra causa. Há. que os homens se tivessem transformado a fim de se tomarem mais felizes. que ela também fosse a causa das mu­ danças que se consumaram progressivamente na nature­ za humana. Mas. Para apreciá-los. Foi. . de arte. por conse­ guinte. precisariam primeiro contrair gostos e hábitos que não tinham. mesmo supondo-se que essas transformações tenham finalmente chegado a esse resultado. então. e o mesmo é válido para o selvagem em relação ao civilizado. tanto intelec­ tuais e morais como físicas. que não pode ser superada. pois. e tu­ do o que ultrapassa essa medida nos deixa indiferentes ou nos faz sofrer. de fato. A cada momento da história. Para que a necessidade de uma maior felicidade pudesse explicar o desenvolvimento da divisão do trabalho. uma intensida­ de normal de todas as nossas necessidades. isto é. Raciocina-se como se todos os nossos prazeres pudessem ter si­ do os seus. Portanto. com maior ra­ zão o é quanto ao luxo material. seria necessário. É o que se costuma esquecer quando se compara a felicidade de nossos pais à nossa. para eles. Se assim é quanto ao luxo do espírito. sentimo-nos inclinados a lamentar sua sorte. pensando em todos esses requintes da civilização de que desfrutamos e que eles não conhe­ ciam.

o trabalho não é apenas útil. a de desarraigar hábitos que o tempo fixou e or­ ganizou em nós. . Não basta uma geração para desfazer a obra das gerações. não é fácil desfazer-se dela. mas quando. porque viola instintos adquiridos que resistem. uma mudança de existência. É uma operação sempre la­ boriosa. Essas metamorfoses custam muito. há séculos. No estado atual de nossas sociedades. sempre constitui uma crise dolorosa. e já faz muito tempo que essa necessidade é sentida. o ócio dos tempos primitivos não perdeu para eles seus antigos atrativos. porque eles chegam demasiado tarde. se houver. As gerações que as inauguram não colhem seus frutos. ainda são relativamente raros os que encontram seu prazer num trabalho regular e persistente. Para a maioria dos homens. todo o mundo o sente bem. durante muito tempo. Seu único quinhão é o trabalho que os gera. Por conseguinte.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 233 De fato. pois. seja brusca ou preparada. por pouco que tais transformações sejam profundas. pa­ ra pôr um homem novo no lugar do antigo. uma vida individual não basta para consumá-las. É possível que a vida sedentária propor­ cione mais oportunidades de felicidade do que a vida nômade. o trabalho ainda é uma servidão insuportável. No entanto. não é a expectativa de uma maior felicidade que as arrasta em tais empresas. Mas é de fato verdade que a felicidade do indivíduo aumenta à medida que o homem progride? Nada é mais duvidoso. Por is­ so. é necessário. sem proporcionar ganho algum. mesmo que as mais belas perspecti­ vas nos atraiam para a frente. não se levou outra vi­ da senão esta última. Todo o passado nos retém para trás.

sempre a mesma. estamos expostos a muitos sofrimentos que são poupados àquelas. e não é seguro que a balança penda a nosso favor. e que oferece tanto menor variedade quanto mais restrita for. A organização implica necessaria­ mente uma absoluta regularidade nos hábitos. O pensamento é. ao mesmo tempo. que podem ser muito vivas. Não esqueçamos. nossa vida dá ao imprevisto um . sem dúvida. segundo as circunstâncias e as necessidades que o impulsionam. ele deixa sua vida correr tranqüi­ lamente sem sentir a perpétua necessidade de preencher seus curtos instantes com numerosos e prementes fatos. em compensação ele é inacessível ao tédio. a vida é mais variada e que a variedade é necessária ao prazer. em compensação. por sinal. Mas. por contragolpe. Objetarão que. pois uma mudança não pode ocorrer na maneira como um órgão funciona sem que. o homem civilizado se entrega por inteiro a uma tarefa. porque foi ela que impôs ao homem o trabalho monótono e contínuo. Por esse lado. quantas questões levan­ tadas que permanecem sem resposta! Para uma dúvida esclarecida.234 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL II Seguramente. entre os povos civilizados. que o trabalho ainda é. há muitos prazeres a que estamos abertos hoje e que naturezas mais simples não conhe­ cem. se o selvagem não conhe­ ce os prazeres que uma vida muito ativa proporciona. mas. tão-só uma pena e um fardo. quantas alegrias ele pertur­ ba! Para um problema resolvido. uma fonte de alegrias. O selvagem vai de uma ocupação a outra. todo o organismo se­ ja afetado. para a maioria dos homens. a civi­ lização traz com ela maior uniformidade. esse tormento dos espíritos cultivados. quantos mistérios percebidos que nos des­ concertam! Do mesmo modo. Mas. ao mesmo tempo que uma maior mobilidade.

para que a vida possa se manter é preciso. Mas também. que. ao mesmo tempo que. Assim. como as da respiração e da cir­ culação. Por outro lado. não se pode afirmar nada com certeza. nessas questões obscuras e ainda mal estudadas. dolorosos. no entanto. as atividades contínuas. não proporcionam prazeres positivos. o so­ frimento produz no organismo um eco mais profundo do que a alegria6. é sobretudo delas que dependem nosso bom humor e . na média dos casos. por conseguinte. Mas não é certo que esse excedente se tenha tornado mais considerável. tira do prazer uma parte da segurança de que ele necessita. Enfim e sobretudo. essa maior sensibi­ lidade poderia muito bem ser mais contrária do que favo­ rável à felicidade. que um estímulo desagradável afeta-nos mais dolorosamente do que um estímulo agradável de mesma intensidade nos causa prazer. De fato. Acaso não é notável que o culto fundamental das reli­ giões mais civilizadas seja o do sofrimento humano? Sem dúvida. Sem dúvida. também o somos a mais dores.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 235 papel menor. se é verdade que. parece que a felicidade é outra coisa que uma soma de prazeres. é acessível a pequenas excitações que não atingiam o de nossos pais. hoje como ontem. E um estado geral e constante que acompanha o jogo regular de todas as nossas funções orgânicas e psíquicas. os sistemas nervosos muito apurados vivem na dor e acabam até por se apegar a ela. não está provado que esse exce­ dente proporcione a medida da felicidade. que se tomou mais delicado. todas as coisas permanecendo iguais. no entan­ to. por sua instabilida­ de maior. Se somos sensíveis a mais prazeres. porque ele era demasiado grosseiro. muitos dos estímulos que eram agradáveis tomaram-se demasiado fortes para nós e. E verdade que nosso sistema nervoso. os prazeres so­ brepujem as dores.

mas é a mesma onde quer que essa atividade seja sadia. se reali­ . o mesmo deve se dar com a felicidade. se assim é. O prazer é local. a felicidade. é contínua. a vida não reside nem aqui. Para que aci­ dentes locais possam afetar profundamente essa base fundamental de nossa sensibilidade. dura um momento e morre. Na maioria das vezes. ele nasce. Numa palavra. Nosso apego a ela deve. Teve-se razão de dizer que trazemos nossa felicidade conosco. o que a feli­ cidade exprime não é o estado momentâneo de determi­ nada função particular. Pois ele decorre de causas efêmeras. e tanto mais importante quanto maior o pe­ so dessas funções na vida. O ser mais simples e o ser mais complexo desfrutam de uma mesma felicidade. A felicidade é o índi­ ce do estado de saúde. Ora. O que constitui seu encanto fundamental deve ser igualmente contínuo a ela. é o prazer que de­ pende da felicidade: conforme sejamos felizes ou infeli­ zes. não cabe mais perguntar se a felicidade cresce com a civilização. ao contrário. de disposições permanentes. a vida. Como o prazer acompanha o exercí­ cio normal das funções intermitentes. é uma afecção limitada a um ponto do organismo ou da cons­ ciência. Mas o prazer não é a felicida­ de. ele é um elemento da felicidade. tudo nos ri ou tudo nos entristece. Portanto. Um mamífero sadio não passa melhor do que um protozoário igualmente sadio. Ela não se toma maior porque a ativi­ dade se torna mais rica. mas a saúde da vida física e mo­ ral em seu conjunto. ele só pode fazer o nível desta variar em proporções restritas. inclusive. Contudo. a saúde de uma espécie não é mais completa por ser essa espécie de um tipo superior. mas está em toda parte. decorrer de al­ guma causa igualmente geral. nem ali. pois. Todo prazer é uma espécie de crise. ao contrário. eles têm de se repe­ tir com uma freqüência e uma seqüência excepcionais.236 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL nosso ânimo.

Em regra geral. Esse perfei­ to contentamento é. desde a infância. se se encontra no estrangeiro. mas sente ânsia de voltar. Essa convicção parece reinar em geral nos povos negros.. e o habitante de um país quente e malsão tampouco aspira a deixá-lo por um clima mais favorável. seu gênero de vida o mais fecundo em prazeres que existe e se considera o primeiro de todos os povos. diz Waitz. Por exemplo. Apesar das numerosas doenças e dos males de toda sorte a que o habitante de Darfour está exposto. quando. mas são raríssimas exceções. ele não deixa de conside­ rar seu país o melhor do mundo. . ele ama sua pátria. uma existência que nos parece into­ lerável pode ser doce para homens de outra constituição física e moral. os selvagens sentem-se tão satisfeitos com a sua sorte quanto podemos estar com a nossa. “não busca o Sul para melhorar sua posição. e não só não pode emi­ grar. uma das características dis­ tintivas de seu caráter. Cita-se. nos países que. qualquer que seja a miséria material em que um povo vive. Eles não desejam nada além do que já possuem e não têm a menor vontade de mudar de condição. Mas é que eles confundiram suas impressões com as dos indígenas. inclusive.”7 É verdade que alguns observadores pintaram-nos por vezes a vida das sociedades inferiores sob outro pris­ ma. é verdade.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 237 zam igualmente sua natureza. Assim.. foram explorados pelos europeus. “O habitante do Norte”. co­ mo tantas regiões da América. o exemplo de alguns jovens selvagens que uma inquietude doentia levou para fora de casa em busca da felicidade. Ora. estamos habituados a expor nossa vida a cada instante e. Por isso. os indígenas crêem firmemente que os brancos deixaram sua pátria apenas para virem buscar a felicida­ de na América. O selvagem normal pode ser tão feliz quanto o civilizado normal.

como teria podido manter-se. em que ele se pergunta se suas convicções mais só­ lidas valem mais do que os preconceitos estreitos mais doces ao coração. O único fato experimental que demonstra ser a vida geralmente boa é que a esmagadora maioria dos homens prefere-a à morte. na média das existências. é que espe­ ramos erroneamente que o futuro resgatará o passado. nem. “do habitante da Terra do Fogo até o hotentote. se os homens aprenderam a esperar. Ora. o que é a morte? Para nos apiedarmos com a sorte dos povos pri­ mitivos. pisoteado a cada instante pelos fatos. Portanto. teve de se formar sob a ação dos fa­ tos.”9 Eis. Quão mais raro é esse conten­ tamento na Europa! Esses fatos explicam por que um ho­ mem experiente pôde dizer: “Há situações em que o homem que pensa sente-se inferior ao que apenas a natureza educou. ainda nos apegamos à vida. Mas. se. mas. que a polícia é mal feita. a não lhe dar importância. De acordo com eles. É verdade que os pessimistas explicam a persistência desse fenômeno pelas ilusões da esperança. acostumaram-se a voltar seus . Se a relação fosse invertida. sob os golpes da desgraça. admitindo até que a esperança baste para explicar o amor à vida. Para que seja assim. uma prova mais objetiva. sobretudo. a felicidade supere a infelicida­ de. ela própria não se explica. não basta. Ela não caiu mi­ lagrosamente do céu em nossos corações. pois. vive satisfeito consigo e com sua sorte”8. no estado natural.238 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL por conseguinte. como to­ dos os sentimentos. porém. o homem. estabelecer que a higiene é mal observada por eles. se. apesar das decepções da experiência. é necessário que. Só o indiví­ duo é competente para apreciar sua felicidade. ele é feliz se se sente feliz. não se compreenderia nem de onde poderia provir o apego dos homens à vida.

o equilíbrio acabava se restabe­ lecendo. quer por­ que a força de resistência dos indivíduos diminui. quer porque as causas do sofrimento se multiplicam. Por conseguinte. demasiado flexível e de­ masiado resistente para ser facilmente abatido. o único suicídio que observamos nas sociedades inferiores em estado crônico apresenta características mui­ to particulares. Pelo menos. ela é um testemunho convincente da relativa bondade da vida. é porque perceberam que essas compensações eram freqüentes. Pela mesma razão. podemos estar certos de que a própria vida perde seus atrativos. Se. Ora. Esse fato é o número dos suicí­ dios. segundo as sociedades. é porque é seu dever livrar seus companheiros de uma boca inútil. Do mesmo modo que a raridade primitiva das mor­ tes voluntárias é a melhor prova da força e da universali­ dade desse instinto. poderíamos ao mesmo tempo medir as variações da infelicidade média nesses mesmos meios. em geral. mas de abnegação. o suicídio só aparece com a civilização. seja sua generalidade. se possuíssemos um fato objetivo e mensurável que traduzisse as variações de intensidade pelas quais esse sentimento passa. o ancião que chega à idade avançada põe fim a seus dias. qualquer que seja o papel da esperança na gênese do instinto de conservação. onde ela perde seja sua energia. que fazem dele um tipo especial cujo va­ lor sintomático não é o mesmo. os celtas e os trácios. nem o gaulês ao chefe . Portan­ to. entre os antigos dinamar­ queses. É um ato não de deses­ pero. de que o mal aumenta. ao mesmo tempo. que os momentos em que a desgraça se impunha eram excep­ cionais e que. o fato de que os suicídios aumentam demonstra que ele perde terreno. que o organismo humano era. se a viúva da índia não sobrevive a seu marido.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 239 olhares para o futuro e a esperar deste compensações para seus sofrimentos atuais.

Ele até se distribui geograficamente como a civilização. se alastraria para o resto do país. mas porque o ideal a que é apegado exige esse sacrifício. o ho•mem se mata. Nos mapas do suicídio. Essas mor­ tes voluntárias não são. no sentido vulgar da palavra. do mesmo modo que não o é a morte do sol­ dado ou do médico que se expõe conscientemente para cumprir com o seu dever. o suicídio também. Em toda parte. Rússia e os povos eslavos do Sul são relativamente indenes. É também aí que se encontram os paí­ ses em que a atividade científica. o suicídio faz muito mais estragos nas cidades do que no campo. o suicídio triste. é a zona suicidógena da Europa. ainda estamos mal-informados sobre o grau exato de sua aptidão ao sui­ cídio. Ao contrário. artística e econômica é levada ao máximo: a Alemanha e a França. se encontra em estado endêmico entre os povos civiliza­ dos. Chegou-se mes­ mo a ver. suicídios. constata-se a mesma rela­ ção. A civilização se concentra nas grandes cidades. se o budista se faz esmagar sob as rodas da carroça que leva seu ídolo. Só a Inglaterra é exceção. ainda está um pouco protegida. em toda a Europa. Portugal. é porque as prescrições mo­ rais ou religiosas o obrigam. o verdadeiro suicídio.240 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL de seu clã. pois. Em todos esses casos. daí. Enfim. o número de suicídios aumenta regularmente faz um sé­ . uma espécie de doença contagiosa que teria como focos de irradiação as capitais e as cida­ des importantes e que. com exceção da Noruega. não porque julga a vida ruim. mas perde sua imunidade à medida que progride. Espanha. vemos que toda a região central da Europa é ocupada por uma vasta mancha escura com­ preendida entre os graus 47 e 57 de latitude e 20 e 40 de longitude. segundo a expressão de Morselli. Ao contrário. por vezes. A Itália. nascida ontem. No interior de cada país. Esse espaço é o lugar de predileção do suicí­ dio.

ela se mata cerca de quatro vezes menos que o homem. ou então. A mulher es­ tá menos envolvida que o homem no movimento civiliza­ dor. se tivesse aumentado. por isso. quando se diz que uma sociedade é mais ou menos feliz que outra. O mesmo acontece com os sexos. são as pro­ fissões liberais as mais atingidas e a agricultura a mais poupada. Mas a própria hipótese não tem fundamento. ela participa menos deste movimento e extrai menos lucro. será que. As classes da po­ pulação fornecem ao suicídio um contingente proporcio­ nal a seu grau de civilização. objetar-se-á. Em toda parte. Com efeito. Ela está apenas concentrada num menor núme­ ro de mãos. Mas essa hipótese mesma não é mais favçrável à nossa civilização. se a marcha ascendente dos suicí­ dios indica que a infelicidade progride em certos pontos. a felicidade não poderia au­ mentar em outros pontos? Nesse caso. isto é. lembra mais certos traços das naturezas primiti­ vas12. Porque. é da felicidade média que se pretende falar. senão que a felicidade média ficou mais ou menos estacionária. Assim. em certas sociedades. a felicidade de que a média dos . ao mesmo tempo. teria triplicado de 1821 a 188011. De acordo com um cálculo. esse aumento de benefícios talvez bastasse para compensar os déficits so­ fridos em outros domínios. que.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 241 culo10. o número dos pobres aumenta sem que a fortuna pública diminua. Poderíamos multiplicar as provas. não poderiam expli­ cá-lo. nada se poderia concluir disso. mas sabe-se o quanto foi rá­ pida durante esse tempo. seria apenas em peque­ nas quantidades. A marcha da civilização não pode ser me­ dida com a mesma precisão. supondo-se que tais compen­ sações existissem. Mas. não tendo relação com a grandeza do esforço que o progresso custou.

mas é impossível que cresça e decresça simultaneamente. em certas partes da sociedade com ex­ clusão das outras: observamo-lo em toda ela. tampouco pode se tomar ao mesmo tempo mais feliz e mais infeliz. mas a um es­ tado geral do meio social. pois representa a felicidade que se presume seja desfrutada por esse ser ideal. a marcha ascendente é mais rápida ou mais len­ ta. profissões. Se retirarmos da felicidade dos indivíduos tudo o que é devido a causas individuais ou locais. diante de um fenômeno que é ligado não a deter­ minadas circunstâncias locais e particulares. Jiá necessariamente uma certa maneira de ser e. Achamo-nos. mais moral e mais imo­ ral. De fato. uma certa maneira de ser feliz que lhes é co­ mum. as causas de que os progressos do suicídio de­ pendem entre os povos civilizados têm um caráter certo de generalidade. do mesmo modo que ele não pode se tomar no mesmo momento maior e menor. do homem médio de Quételet. o resíduo assim obtido constitui precisamente aquilo que chama­ mos de felicidade média. pois. Por conse­ guinte. mas absolutamente una e que não pode variar em dois sentidos contrários ao mesmo tempo. portanto. porém não conhece exceções. Ora. por con­ seguinte. É. na medida em que são submetidos à ação de um mesmo meio físico e social. para reter apenas o produto das causas gerais e comuns. A agricultura sofre me­ nos do que a indústria. Esse estado é diversamente refratado pelos meios especiais (províncias. o suicídio não se produz em pontos isolados.242 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL membros dessa sociedade desfruta. Ela possui a mesma unidade e a mes­ ma realidade do tipo médio da sociedade. Segundo as regiões. Como são colocados em condições de existência similares. mas o contingente que a primeira fornece ao suicídio é sempre crescente. Ela pode cres­ cer ou decrescer. uma grandeza abs­ trata. .

Aliás. que. Sem dú­ vida. em certos casos. Isso significa que a felicidade cuja regressão o de­ senvolvimento do suicídio atesta é a felicidade média. esses tristes resultados? Essa conclusão desalentadora não de­ corre necessariamente dos fatos que precedem. é impossível que ela aumen­ te. Por conseguinte.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 243 confissões religiosas. como quer que possa ser. são maioria -.o que não prejulgaria nada quanto aos outros. mas não muda por isso de natureza. o déficit crescente cuja exis­ tência revelam não é compensado por nada. que é sua condição. Ao con­ trário. que estatístico hesitaria em ver nos progressos da mortalidade geral no seio de uma sociedade determinada um sintoma seguro da debilitação da saúde pública? Significaria isso que se deva imputar ao próprio pro­ gresso e à divisão do trabalho. etc. já que essa felicidade não pode aumentar e diminuir ao mesmo tempo. O que a maré montante das mortes voluntárias prova não é apenas que há um número maior de indivíduos demasia­ do infelizes para suportar a vida .). As causas de que dependem esgotam apenas uma parte de sua energia sob a forma de suicídios. quando os suicídios se mul­ tiplicam. no entanto. mas essas variações acidentais e pri­ vadas não têm efeito sobre a felicidade social. é por isso que sua ação não se faz sentir em toda parte com a mesma intensidade. é bem verossímil que essas duas ordens de fatos . pode acontecer por combinações particulares de circunstâncias que. mas que a felicidade geral da sociedade diminui. suprimindo totalmente a felicidade. em outras palavras. a influência que elas exercem é muito mais vasta. pelo menos reduzem em proporções variáveis o exce­ dente normal dos prazeres em relação às dores. sua ação seja neutra­ lizada de maneira a tomar possível até mesmo um au­ mento da felicidade. Onde elas não determinam o homem a se matar.

segundo a afirma­ ção de Pascal. Ora. Não há uma felicidade absoluta. não se deve procurar saber que influência exercem sobre a felicidade dos homens. no mesmo momento em que a divisão do trabalho se desenvolve com uma energia e uma rapi­ dez nunca antes conhecidas. e vi­ ce-versa. Se não há razão para admi­ tir que ela reduziu efetivamente nossa capacidade de desfrute. dela resulta que. mas. e em propor­ ções gravíssimas. como a dor. uma coisa essencialmente relativa. Mas essa concomi­ tância basta para provar que o progresso não aumenta muito nossa felicidade. não há nenhuma relação en­ tre as variações da felicidade e os progressos da divisão do trabalho. Portanto. pois não foi essa influência que as determinou.244 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL sejam simplesmente concomitantes. De fato. Por­ que não se pode medir sua intensidade relativa a não ser pela força com a qual ela nos prende à vida em geral e a nosso gênero de vida em particular. uma não é maior que a outra. tais considerações são necessariamente subjetivas. porque to­ . Enfim. objetivamente determinável. pois esta decresce. A ciência social deve renunciar resolutamente a comparações utilitárias com as quais se deleitou com tanta freqüência. Essa proposição é muito importante. os povos mais primitivos são tão apegados à existência e à sua existên­ cia quanto nós à nossa. de que os homens se aproximem à medida que progridem. é mais impossível ainda acreditar que a tenha aumentado de modo sensível. Aliás. do mesmo modo que. tudo o que acabamos de dizer nada mais é que uma aplicação particular da verdade geral de que o prazer é. No entanto. a felicidade do homem não é a da mulher. a das sociedades inferiores não poderia ser a nossa. para explicar as transformações pelas quais as sociedades passaram. Eles inclusive renunciam menos facilmente a ela13.

nem por algum sentimento di­ reto..AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 245 das as vezes que comparamos prazeres ou interesses. Por que razão o indivíduo suscita­ ria.”14 Mas o desejo de se tomar mais feliz é o único móvel individual capaz de dar conta do progresso. não resta outro. no que diz respeito à felicidade individual. como tão vã quanto ociosa. é porque esse meio muda. que se encontram as causas determinantes da evolução social. não seria conveniente. comparar-se positivamente. ele não pode explicar essa seqüência ininter­ rupta de mudanças. por si mesmo. não podemos deixar de pôr na balança nossas idéias e nossas preferências próprias. como o meio físico é relativamente constante. se delas não retirasse mais felicidade? Portanto. situações sociais cuja comparação plena é absolutamente impossível. é no meio social que precisamos procurar as condições originais. no meio que o cerca. tal equilíbrio sem­ pre tende espontaneamente a um certo grau. é fora dele. Já que a felicidade de cada um exige uma harmonia suficiente entre o conjunto do desenvolvimento de suas diferentes faculdades e o sistema local das circunstâncias que domi­ nam sua vida. a vaga controvérsia metafísica sobre o aumento da felici­ dade do homem nas diversas eras da civilização. co­ mo falta qualquer critério objetivo. As varia­ ções que nele se produzem é que provocam aquelas pe­ . “fazer-nos descartar aqui. e já que. isto é. se o afastar­ mos. Por outro lado. Por conseguinte. mudanças que sempre lhe custam al­ guma dificuldade. É um princípio que Comte já formulara com nitidez. e damos por verdade científica o que nada mais é que um sentimento pessoal. nem por alguma via racional. antes de mais nada. “O espírito essencialmente rela­ tivo com que devem ser necessariamente concebidas as noções da política positiva deve.. Se as sociedades mudam e se ele muda.” diz ele. por outro lado.

pelo simples fato de durar. não é para adquirir novos prazeres. é. isto é. na indústria. Temos de reavivar esse prazer que se extingue por meio de estímulos mais enérgicos. À medida que adquirimos o cos­ tume de uma certa felicidade. se divide mais. não têm por efeito incitar espontaneamente o homem a variar e se. inclusive. porém. desa­ parece completamente. Portanto. se certas variações que o prazer sofre. os progressos da divisão do trabalho não podem se explicar dessa maneira. mas para repa­ . ele perde sua intensidade ao se re­ petir. na ciência. se nos especializa­ mos. Sem dúvida. no entanto. ela foge de nós. Se o prazer não é a felicidade. dir-se-ia. caso se tome demasiado contínuo. por conseguinte. Eis uma regra de método que teremos a oportunidade de aplicar e de confirmar em continuação. Assim. Ora.246 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL las quais passam as sociedades e os indivíduos. III Poderíamos nos perguntar. unicamente para não perdermos os frutos do precedente. e somos obrigados a lançar-nos em novas empresas para reencontrá-la. Mas isso só é possível se o trabalho se toma mais produtivo e. obrigar-nos-ia a rea­ lizar novos progressos. multiplicar ou tomar mais intensos aqueles de que dispomos. cada progresso reali­ zado na arte. um elemento dela. Eis como podería­ mos conceber essa explicação. por conseguinte. O tempo é suficiente para rom­ per o equilíbrio que tende a se estabelecer e a criar no­ vas condições de existência às quais o homem só pode se adaptar mudando-se. ainda se explicaria o desenvolvimento da divisão do trabalho por um jogo de móveis totalmente individuais e sem fazer intervir nenhu­ ma causa social.

elas se produzem onde quer que ha­ ja prazer. de acor­ do com os séculos. . No entanto. à medida que se produz. Por conseguinte. seria necessário pelo menos que essa perda fosse importante e a necessidade de repará-la for­ temente sentida. Eles não aspiram a nada de novo. De fato. isto é. porque. Enfim. sem esforços que são tanto mais penosos quanto mais nos aproximamos do limite superior do prazer. na região que se aproxima do ponto máximo. O mesmo acontece nas regiões rurais dos povos civilizados. há sociedades em que a divisão do trabalho não progri­ da. vimos que um grande número de povos primitivos vive num estado estacionário. O que se ganha de um lado. ora. ora. perde-se do outro. Com efeito. a influência corrosiva que o tempo exerce sobre os prazeres adquiridos.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 247 rar. De fato. não é ela que de­ termina esse desenvolvimento. a divisão do trabalho só progride lentamente. No entan­ to. a influência do tempo sobre os prazeres é sempre a mesma. os aumen­ tos que ele recebe são cada vez menores que os do estí­ mulo correspondente. sua felicidade é submetida à lei comum. É preciso se dar mais trabalho para se lograr o mesmo efeito. e o gosto pela mudança é sentido com pouquíssima intensidade. Não se pode restabelecer o equilíbrio que o tempo destrói e manter a felicidade num nível constante. Portanto. no âmbito de uma mesma sociedade. onde quer que haja homens. de que sequer sonham sair. Nelas. elas não podem representar o papel que lhes é atribuído. a divisão do trabalho se desenvolve mais ou menos depressa. e só se evita uma perda efetuando-se novos dispêndios. para que a operação fosse proveitosa. não se vê como poderia alcançar semelhan­ te resultado. por mais reais que sejam essas variações do prazer. Não há so­ ciedade em que essa lei psicológica não se aplique.

não podere­ mos perceber que o prazer ligado a esse estado se dissi­ pa ao mesmo tempo. embora durma. prolongado sem interrupção. porque. essa necessidade possui uma ener­ gia bastante medíocre. Portanto. a ciência. O primeiro é a condição necessária do prazer. se só ocorrer em intervalos bastante espa­ çados uns dos outros. beba e coma todos os dias. como as funções psíquicas a que correspondem. por si só. mesmo sendo habitual. ou porque o jogo de qualquer função requer um dispêndio que. é ou porque ela o toma inconsciente. porque a simples repetição não ti­ ra nada de essencial do prazer. as belas-artes. fundir o encanto da variedade com o encanto da novida­ de. . na verdade. não se deve con. a continuidade tem de se somar a ele. Ainda que possa o que a repetição não pode. con­ tinuará a ser sentido e o dispêndio poderá ser reparado entrementes. se ela abolir total­ mente a consciência do estado agradável. dormir. contanto que se alternem. que também são periódicas. esgota e se toma dolo­ roso. se a continuidade destrói o prazer.248 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Ora. O mesmo se dá com as ne­ cessidades do espírito. Eis por que um adulto sadio sempre sente o mesmo prazer ao beber. De fato. por sinal. Mas o tempo. a con­ tinuidade nem por isso nos inspira uma necessidade de novos e imprevistos estímulos. se mantêm integralmente. pois um gozo ininterrupto desaparece ou se transforma em dor. comer. mas de maneira descontínua. o ato. substituído por es­ sa sensação geral de bem-estar que acompanha o exercí­ cio regular das funções normalmente contínuas e que não tem um efeito menor. Um estado que se repete com freqüência. Porque. ao contrário. Portanto. po­ de permanecer agradável. Quem de nós nunca teve vontade de sentir seu cora­ ção bater ou seus pulmões funcionarem? Se. não lamentamos na­ da. Ele é. não suprime a variedade. Os prazeres proporcionados pela música.

não é necessário muito esforço. . o risco de ser menos saboroso. mesmo nesse caso.AS CAUSAS £ AS CONDIÇÕES 249 há dor. antes de mais nada. então. ela não o constitui. Logo. gostariam de pôr outra realidade no lugar da que lhes é imposta. no entanto ela é. Um objeto co­ nhecido. e o caráter patológico de seu caso ape­ nas confirma o que acabamos de dizer. É verdade que é bem diferente o que acontece com a novidade. nos causar um vivo prazer. O que ainda diminui sua intensidade é o fato de ser neutralizado por um sentimento contrário. indivíduos nos quais a ne­ cessidade do novo alcança uma intensidade excepcional. conquanto corra. Nada do que existe os satisfaz. que possa nos incitar a um progresso qual­ quer. Portanto. é verdade. têm sede de coisas impos­ síveis. sem a qual ele pode muito bem existir. que de ordinário nos deixa indiferentes. esses descontentes incorrigí­ veis são doentes. É apenas uma qualidade secundária e acessória. se con­ trastar com aquele que nos fatiga. se ela não é possível sem mudança. pode. No entanto. Ao mesmo tempo que gostamos de mudar. um sistema de funções estáveis e regulares. apegamo-nos ao que amamos e dela não podemos nos separar sem dor. Mas. o vazio que disso resulta não é muito sensível. Aliás. nada há. aspiramos simplesmente a um estado que difere daquele que nos fatiga. é a necessidade da estabilidade nos gozos e da re­ gularidade em nossos prazeres. para fazer cessar esse sofri­ mento. se proporciona mais frescor ao prazer. quando ela se esvai. se ela é mesmo tanto mais flexível quanto mais complexo for. cuja atração não é duradoura. é necessário que assim seja para que a vida possa se manter: porque. Mas. no modo pelo qual o tempo afeta o elemento fundamental do prazer. Existem. nem a ne­ cessidade de preenchê-lo muito intensa. que é muito mais forte e está muito mais fortemente arraigado em nós.

não se deve perder de vista que essa necessi­ dade é. Como o objeto não é dado exteriormente.250 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Enfim. do que num movimento efetivo da vontade. contínua da natureza hu­ mana. muito indeterminada. não pode ha­ ver outra realidade além da que a imaginação lhe presta. Portanto. . Esse processo é parcialmente representativo. essa aspiração não pode ter a força de necessidades fir­ mes e definidas. não se pode admitir que o progresso seja apenas um efeito do tédio15. sob certos aspectos.. numa espécie de poesia íntima. pois é uma necessidade de algo que não existe. porque uma necessidade completa compreende dois termos.uma tensão da vontade e um objeto certo. Sonhamos com novas sensações. estimulam-na ainda mais imperiosamente por não deixarem espaço nem para as hesitações. dirigindo a vontade sempre no mesmo sentido e por caminhos já abertos. nem para as deliberações. só é parcialmente cons­ tituída. Ele não nos faz sair de nós. que. por sua natureza. foi uma obra laboriosa empreendida em meio ao sofrimento. é apenas uma agita­ ção interna que procura um caminho para fora. mas é uma aspiração indecisa que se dispersa sem tomar corpo. Ela não nos vincula a nada de preciso. Numa palavra. mas ain­ da não o encontrou. Por conseguinte. É impossível que a humanidade se tenha im­ posto tanto esforço unicamente para poder variar um pouco seus prazeres e conservar-lhes seu frescor original. Essa remodelação perió­ dica e até. Ele consiste muito mais em combinações de imagens. mesmo onde é mais enérgica.

por conseguinte. O efeito reage sobre a causa. Sem dúvida. Isso significa. vimos que a estrutura organizada e. pois sabemos que o arranjo segmentário é. em algumas variações do meio social que devemos procurar a causa que explica os progressos da divisão do trabalho.CAPÍTULO II AS CAUSAS i É. que essa retração é a causa desse de­ senvolvimento. pelo me­ nos parcialmente. uma vez que existe. a divisão do trabalho se desenvolvem regu­ larmente à medida que a estrutura segmentária se retrai. pois. ou que o segundo é a causa da primeira. para a divisão do trabalho. De fato. Ela só po­ de existir na medida em que ele deixou de existir. mas . para que ela possa aparecer. Os resultados do livro precedente permitem-nos induzir de imediato em que consistem. Esta última hipótese é inadmissível. mas só se mostra depois de ele ter regredido. portanto. um obstáculo insuperável que precisa desaparecer. esta pode contribuir para acelerar a regressão daquele.

pelo menos.se tor­ nam. ou. além de seus limites primitivos. por conseguinte. pois se esten­ dem. a divisão do trabalho progride tanto mais quanto mais houver indivíduos suficientemente em contato para poderem agir e reagir uns em relação aos outros. Quanto mais o sistema alveolar é desenvolvido. pois. esses vazios se preen­ chem à medida que esse sistema se nivela. que as paredes que os separam se tomam mais permeáveis. Se conviermos em chamar de densidade dinâmica ou moral essa aproximação e o intercâmbio ativo que de­ la resulta. A vida social. Há como que vazios morais entre os diversos segmentos. de todos os lados. mais numerosas.diríamos mais exatamente intra-sociais . não se afetavam mutuamente. uma aproximação mais íntima do que antes. se generaliza. por conseguinte. que se produz entre eles uma coalescência que toma a matéria social livre para entrar em novas combinações. O aumento da divi­ são do trabalho se deve. As relações so­ ciais .252 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL não perde. numa pala­ vra. poderemos dizer que os progressos da divisão do trabalho são diretamente proporcionais à densidade moral ou dinâmica da sociedade. ao fato de que os segmen­ tos sociais perdem sua individualidade. mais as relações em que cada um de nós está comprometido se encerram nos limites do alvéolo a que pertencemos. Ao contrário. em vez de se concentrar numa multidão de pequenos fo­ cos distintos e semelhantes. a reação que exerce é. Mas essa aproximação moral só pode produzir seu efeito se a própria distância real entre os indivíduos tiver . Mas o desaparecimento desse tipo pode ter essa conseqüência por uma única razão: que dele resulte uma aproximação entre indivíduos que estavam separados. há um intercâmbio de movi­ mentos entre partes da massa social que. Por conseguinte. Em conseqüência. secundária. até então. a qualidade de efeito. com isso.

Aliás. como quer que seja. a densidade moral não pode aumentar sem que a densidade material aumente ao mesmo tempo. “Oponha­ mos a população de regiões habitadas por tribos selva­ gens à de regiões de igual extensão da Europa”. as casas não eram contíguas. Portanto. e esta pode servir para medir aquela. Ela nasceu em nosso solo e atesta que a trama social tomou-se menos frouxa4. é inútil procurar saber qual das duas deter­ minou a outra. porque a parede-meia não era conhecida no direito romano3. conquanto a condensação fosse maior. Por outro lado. A condensação progressiva das sociedades no decur­ so do desenvolvimento histórico produz-se de três ma­ neiras principais. apesar de alguns casos de regressão passageira5. relativamente ao número de indiví­ duos que a compõem. pois entre cada família interpõem-se extensões de terra2. caçadores ou pastores. implica com efeito a ausência de toda e qualquer concentração. oponhamos a densidade populacio­ nal da Inglaterra sob a Heptarquia à densidade que hoje apresenta.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 253 diminuído. basta constatar que são inseparáveis. então. “ou. as sociedades euro­ péias viram sua densidade aumentar de maneira contí­ nua. por ne­ cessitar de uma vida sedentária. Na cidade. já supõe um certo estrei­ tamento dos tecidos sociais. e reconheceremos que o crescimento produzi­ do por união de grupos também é acompanhado por um crescimento intersticial. A atividade dos nômades.”1 As mudanças que se efetuaram sucessivamente na vida industrial das nações demons­ tram a generalidade dessa transformação. a dispersão sobre a maior superfície possível. entre os povos mais avançados a população vai se concentrando cada vez mais. diz Spencer. desde suas origens. 1Q Enquanto as sociedades inferiores se estendem sobre áreas imensas. mas ainda bastante incom­ pleto. . A agricultura.

nada mais é que uma continuação desse movimento. ela não data de hoje: preocupa os estadistas desde o século XVIF. por conseguinte. A tendência dos campos afluírem para as cidades. . a cidade não existe. Em nossas sociedades cristãs. o i k o i ) eram dissemina­ das.254 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 2S A formação das cidades e seu desenvolvimento é outro sintoma. a cida­ de aparece. ainda mais característico. nem entre os antigos germanos6. o que só é possível na medida em que a fusão dos seg­ mentos sociais é avançada.”7 Mas. a cidade se mostra desde a origem. ao cabo de um tempo bastante curto. elas só cresceram e se multiplicaram. uma manutenção acentuada do tipo segmentário. do mesmo fenô­ meno. O mesmo vale para as populações primitivas da Itália. e a mesma transformação se consuma em toda a Itália. Veremos. elas são como pontos em que a massa social se contrai com mais força que em outras partes. Portanto. Não há cidade nas so­ ciedades inferiores. que elas se recrutam pela imigração. pode se conciliar com uma concentração fraquíssima. elas não podem se multiplicar e se estender. Atenas e Roma são ou se tornam cidades. “Os povos da Itália”. Desde então. não a encontramos nem entre os iroqueses. de resto. Enquanto a organização social é essencialmente segmentária. ora. mas em comunidades familiares ou aldeias (pagí). afirma Marquardt. O aumento da densidade média só se pode dever ao aumento material da natalidade e. tão geral no mundo civilizado8. em que as fazendas ( vici. pois as que o Império romano deixara não desapareceram com ele. Mas as cidades sempre resultam da necessidade que impele os indivíduos a manterem constantemente o contato mais íntimo possível uns com os outros. a não ser que a densidade moral aumente. “viviam primitivamente não em cidades.

a quantidade e a rapidez das vias de co­ municação e de transmissão. ao se condensar. devemos repetir aqui o que dizíamos aci­ ma: se a sociedade. por conseguinte. enfim. tentou-se por vezes considerar o desen­ volvimento dos centros urbanos como um sinal de velhi­ ce e decadência10. determina o desen­ volvimento da divisão do trabalho. esta. Suprimindo ou diminuindo os vazios que separam os segmentos sociais. Enquanto na Germânia. Supondo-se. não é ne­ cessário demonstrar que elas são tanto mais numerosas e aperfeiçoadas quanto mais elevado é o tipo da sociedade. e. esse movimento não dei­ xará de continuar seja através delas. pode­ mos substituir esta última por ele na fórmula que propu­ semos. a vida urbana começa mais cedo e.A S CAUSAS E AS CONDIÇÕES 255 Como as sociedades em geral começam por um pe­ ríodo agrícola. ele deriva da própria natu­ reza das espécies sociais superiores. A aceleração regularmente crescente desse desen­ volvimento demonstra que. Por outro lado. pois. longe de constituir uma espé­ cie de fenômeno patológico. que talvez já não tenham flexibilidade suficiente para se adaptar a ele. au­ . elas aumen­ tam a densidade da sociedade. por sua vez. Já que esse símbolo visível e mensurável reflete as variações do que chamamos de densidade moral11. Mas não se deve perder de vista que essa fase agrícola é tanto mais curta quanto mais elevado é o tipo das sociedades. adquire maior ex­ tensão. e os tipos sociais que se formarão depois dos nossos se distinguirão verossimilmente por uma regressão mais rá­ pida e mais completa ainda da civilização agrícola. seja depois delas. entre os índios da América e entre todos os povos primitivos ela dura tanto quanto esses próprios povos. podemos dizer que nun­ ca existiu em estado puro. que tenha hoje atingido proporções ameaçadoras para nossas sociedades. em Roma e Ate­ nas ela logo cessa. entre nós. Inversamente. 3S Há. Aliás.

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menta o adensamento da sociedade. Mas não importa, porque a divisão do trabalho permanece o fato derivado e, por conseguinte, os progressos por que passa devemse aos progressos paralelos da densidade social, quais­ quer que sejam as causas destes últimos. É tudo o que gostaríamos de estabelecer. Mas esse fator não é o único. Se o adensamento da sociedade produz esse resulta­ do é que ela multiplica as relações intersociais. Mas estas serão ainda mais numerosas se, além disso, o número to­ tal dos membros da sociedade se tomar mais considerá­ vel. Se ela compreender mais indivíduos ao mesmo tem­ po em que estes se acham mais intimamente em contato, o efeito será necessariamente fortalecido. Portanto, o vo­ lume social tem sobre a divisão do trabalho a mesma in­ fluência da densidade. De fato, as sociedades são geralmente tanto mais vo­ lumosas quanto mais são avançadas e, por conseguinte, quanto mais dividido é o trabalho. “As sociedades, como os corpos vivos, começam sob a forma de germes, nas­ cem de massas extremamente tênues em comparação com as que acabam se tomando”, diz Spencer. “De pe­ quenas hordas errantes, tais como as das raças inferiores, saíram as maiores sociedades: é uma conclusão que não poderíamos negar.”12 O que dissemos sobre a constitui­ ção segmentária toma indiscutível essa verdade. De fato, sabemos que as sociedades são formadas por um certo número de segmentos de extensão desigual que se en­ volvem mutuamente. Ora, esses marcos não são criações artificiais, sobretudo a princípio; e, mesmo quando se tomaram convencionais, imitam e reproduzem na medida do possível as formas do arranjo natural precedente. São sociedades antigas que se mantêm sob essa forma. As

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mais vastas dessas subdivisões, as que compreendem as outras, correspondem ao tipo social inferior mais próxi­ mo; do mesmo modo, entre os segmentos de que, por sua vez, são compostas, os mais extensos são vestígios do tipo que vem diretamente abaixo do precedente, e as­ sim por diante. Encontramos entre os povos mais avança­ dos vestígios da organização social mais primitiva13. A tri­ bo é, assim, formada por um agregado de hordas ou de clãs; a nação (a nação judaica, por exemplo) e a cidade, por um agregado de tribos; a cidade, por sua vez, com as aldeias que lhe são subordinadas, entra como elemento em sociedades mais compostas, etc. Portanto, o volume social não pode deixar de aumentar, pois cada espécie é constituída por uma repetição de sociedades, da espécie imediatamente anterior. Há, no entanto, exceções. A nação judaica, antes da conquista, era verossimilmente mais volumosa do que a cidade romana do século IV; no entanto, é de uma espé­ cie inferior. A China e a Rússia são muito mais populosas do que as mais civilizadas nações da Europa. Por conse­ guinte, entre esses mesmos povos a divisão do traba­ lho não é desenvolvida proporcionalmente ao volume social. É que, de fato, o aumento do volume não é ne­ cessariamente um sinal de superioridade, se a densidade não aumenta ao mesmo tempo e na mesma proporção. Porque uma sociedade pode alcançar dimensões enor­ mes, por compreender um grande número de segmentos, qualquer que seja a natureza destes últimos; portanto, se mesmo os mais vastos dentre esses só reproduzirem socie­ dades de um tipo muito inferior, a estrutura segmentária permanecerá muito pronunciada e, em conseqüência, a organização social, pouco elevada. Mesmo um agregado imenso de clãs está abaixo da menor sociedade organiza­ da, pois esta já percorreu estágios da evolução além dos

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quais se encontra. Do mesmo modo, se a quantidade das unidades sociais tem influência sobre a divisão do traba­ lho, isso não se dá por si e necessariamente, mas porque . a quantidade das relações sociais aumenta em geral com a dos indivíduos. Ora, para que esse resultado seja alcan­ çado, não basta que a sociedade conte muitos sujeitos, mas é preciso, além disso, que eles estejam em contato bastante íntimo para poderem agir e reagir uns sobre os outros. Se, ao contrário, eles são separados por meios opacos, só rara e penosamente podem estabelecer rela­ ções, e tudo acontece como se fossem em pequeno nú­ mero. Portanto, o crescimento do volume social nem sempre acelera os progressos da divisão do trabalho, mas apenas quando a massa se contrai ao mesmo tempo e na mesma medida. Em conseqüência, ele é apenas, se qui­ serem, um fator adicional; mas quando ele se soma ao primeiro, amplifica seus efeitos por uma ação que lhe é própria e, por conseguinte, exige ser dele distinguido. Podemos, pois, formular a seguinte proposição: A

divisão do trabalho varia na razão direta do volume e da densidade das sociedades, e, se ela progride de uma ma­ neira contínua no curso do desenvolvimento social, é por­ que as sociedades se tomam regularmente mais densas e, em geral, mais volumosas.
Em todos os tempos, é bem verdade, compreendeuse que havia uma relação entre essas duas ordens de fa­ tos; porque, para que as funções se especializem mais, é necessário que haja mais cooperadores e que eles sejam bastante próximos para poderem cooperar. Mas, de ordi­ nário, só se costuma ver nesse estado das sociedades o meio pelo qual a divisão do trabalho se desenvolve, não a causa desse desenvolvimento. Faz-se este último depender de aspirações individuais de bem-estar e felici­ dade, que podem satisfazer-se tanto melhor quanto mais

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as sociedades são extensas e densas. A lei que acabamos de estabelecer é bem diferente. Não dizemos que o cres­ cimento e o adensamento das sociedades permitem, mas que requerem uma divisão maior do trabalho. Eles não são um instrumento pelo qual esta se realiza, mas sua causa determinante.14 Como é possível, porém, representar-se a maneira como essa dupla causa produz seu efeito?

II Segundo Spencer, se o aumento do volume social tem uma influência sobre os progressos da divisão do trabalho, isso não significa que ele os determina: apenas os acelera. Esse aumento não é mais que uma condição adjuvante do fenômeno. Instável por natureza, toda mas­ sa homogênea se torna necessariamente heterogênea, quaisquer que sejam suas dimensões; contudo, ela se di­ ferencia mais completamente e mais depressa quando é mais extensa. De fato, como essa heterogeneidade vem de que as diferentes partes da massa são expostas à ação de forças diferentes, ela é tanto maior quanto mais partes diversamente situadas houver. É o caso das sociedades: “Quando uma comunidade, tomando-se bastante populo­ sa, se difunde sobre uma grande extensão territorial e aí se estabelece, de tal modo que seus membros vivem e morrem em seus distritos respectivos, ela mantém suas diversas seções em circunstâncias físicas diferentes e, en­ tão, essa seções não podem mais permanecer iguais por suas ocupações. As que vivem dispersas continuam a ca­ çar e a cultivar a terra; as que se estendem à beira-mar se dedicam a ocupações marítimas; os habitantes de uma certa localidade, escolhida, talvez por sua posição cen­

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trai, como ponto de reuniões periódicas, tomam-se co­ merciantes, e uma cidade é fundada... Uma diferença do solo e do clima faz que os habitantes dos campos, nas diversas regiões do país, tenham ocupações em parte es­ pecializadas e se distingam por produzirem bovinos, car­ neiros ou trigo.”15 Numa palavra, a variedade dos meios em que os indivíduos estão situados produz nestes últi­ mos aptidões diferentes, que determinam sua especializa­ ção em sentidos divergentes e, se essa especialização cresce com as dimensões das sociedades, é porque essas diferenças externas crescem ao mesmo tempo. Não há dúvida de que as condições externas em que os indivíduos vivem os marcam e, sendo diversas, os di­ ferenciam. Trata-se, porém, de saber se essa diversidade, que, sem dúvida, tem suas relações com a divisão do tra­ balho, basta para constituí-la. Por certo, explicamo-nos que, segundo as propriedades do solo e as condições do clima, os habitantes produzem, num lugar, trigo e, nou­ tro, carneiros ou bois. Mas as diferenças funcionais nem sempre se reduzem, como nesses dois exemplos, a sim­ ples nuances; por vezes, elas são tão nítidas que os indi­ víduos entre os quais o trabalho é dividido formam como que igual número de espécies distintas e, até mesmo, opostas. Dir-se-ia que eles conspiram para se afastarem o mais possível uns dos outros. Que semelhança existe en­ tre o cérebro que pensa e o estômago que digere? Do mesmo modo, que há de comum entre o poeta todo en­ tregue a seus sonhos, o cientista todo entregue a suas pesquisas, o operário que leva a vida torneando cabeças de alfinetes, o lavrador que maneja seu arado, o comercian­ te atrás do seu balcão? Por maior que seja, a variedade das condições externas não apresenta em parte alguma diferenças que sejam proporcionais a contrastes tão forte­ mente acentuados e que, por conseguinte, sejam capazes

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de explicá-las. Mesmo que comparemos, não mais certas funções bastante afastadas umas das outras, mas apenas as diversas ramificações de uma mesma função, muitas vezes é totalmente impossível perceber a que dessemelhanças externas pode se dever sua separação. O trabalho científi­ co divide-se cada vez mais. Quais são as condições climá­ ticas, geológicas ou até mesmo sociais capazes de ter dado origem a talentos tão diferentes quanto os do matemático, do químico, do naturalista, do psicólogo, etc.? Porém, mesmo onde as circunstâncias externas incli­ nam mais fortemente os indivíduos a se especializarem num sentido definido, elas não bastam para determinar essa especialização. Por sua constituição, a mulher é pre­ disposta a levar uma vida diferente do homem; no entan­ to, há sociedades em que as ocupações dos sexos são sensivelmente as mesmas. Por sua idade, pelas relações de sangue que mantém com seus filhos, o pai é indicado para exercer na família as funções dirigentes cujo conjun­ to constitui o pátrio poder. No entanto, na família mater­ na, não é a ele que cabe essa autoridade. Parece de todo natural que os diferentes membros da família tenham atribuições, isto é, funções diferentes segundo o grau de parentesco; que o pai e o tio, o irmão e o primo não te­ nham nem os mesmos direitos, nem os mesmos deveres. No entanto, há tipos de família em que todos os adultos representam o mesmo papel e se encontram em pé de igualdade, quaisquer que sejam suas relações de consan­ güinidade. A situação inferior que o prisioneiro de guerra ocupa no seio de uma tribo vitoriosa parece condená-lo - se pelo menos a vida lhe é poupada - às funções so­ ciais màis baixas. Vimos, contudo, que é freqüente ele ser assimilado aos vencedores e tomar-se um seu par. Isso porque, de fato, se essas diferenças tomam pos­ sível a divisão do trabalho, não a requerem. Do fato de

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elas serem dadas, não decorre necessariamente que sejam utilizadas. Elas são pouca coisa, em suma, comparadas com as semelhanças que os homens continuam a apre­ sentar entre si; não são mais que um germe apenas dis­ tinto. Para que delas resulte uma especialização da ativi­ dade, é necessário que sejam desenvolvidas e organiza­ das, e esse desenvolvimento depende, é evidente, de ou­ tras causas que não a variedade das condições exteriores. Mas, diz Spencer, ele se consumará por si mesmo, por­ que segue a linha da menor resistência e porque todas as forças da natureza voltam-se invencivelmente nessa dire­ ção. Por certo, se os homens se especializarem, fá-lo-ão no sentido assinalado por essas diferenças naturais, por­ que é dessa maneira que farão menos esforço e terão o maior proveito. Mas por que se especializam? O que os determina a penderem dessa forma para o lado pelo qual se distinguem uns dos outros? Spencer explica muito bem de que maneira se produzirá a evolução, se ela ocorrer; mas não nos diz qual o motivo que a produz. Na verdade, para ele, a questão sequer se coloca. Com efeito, ele admite que a felicidade aumenta com a força produtiva do trabalho. Portanto, todas as vezes que é da­ do um novo meio de dividir ainda mais o trabalho, pare­ ce-lhe impossível que não o adotemos. Mas sabemos que as coisas não acontecem assim. Na realidade, esse meio só tem valor para nós se dele precisarmos e, como o ho­ mem primitivo não tem necessidade alguma de todos es­ ses produtos que o homem civilizado aprendeu a desejar e que uma organização mais complexa do trabalho tem por efeito, precisamente, fornecer-lhe, não podemos compreender de onde vem a especialização crescente das tarefas, a não ser que saibamos como essas novas necessidades se constituíram.

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III Se o trabalho se divide mais à medida que as socie­ dades se tomam mais volumosas e mais densas, não é porque, nelas, as circunstâncias externas sejam mais varia­ das, mas porque a luta pela vida é mais ardente. Darwin observou com propriedade que a concorrên­ cia entre dois organismos é tanto mais viva quanto mais eles são análogos. Tendo as mesmas necessidades e per­ seguindo os mesmos objetivos, encontram-se por toda parte em rivalidade. Enquanto têm mais recursos do que necessitam, ainda podem viver lado a lado; mas se o seu número aumenta em tais proporções que todos os apeti­ tes não possam mais ser suficientemente satisfeitos, a guerra estoura, e é tanto mais violenta quanto mais acen­ tuada for essa insuficiência, isto é, quanto maior o núme­ ro dos concorrentes. Bem diferente é o que sucede se os indivíduos que coexistem forem de espécies ou de varie­ dades diferentes. Como eles não se nutrem da mesma maneira e não levam o mesmo gênero de vida, não inco­ modam uns aos outros; o que faz uns prosperarem é sem valor para os outros. As ocasiões de conflitos diminuem, pois, com as ocasiões de encontro, e isso tanto mais quanto mais distantes umas das outras forem essas espé­ cies ou variedades. “Assim”, diz Darwin, “numa região pouco extensa, aberta à imigração e em que, por conse­ guinte, a luta de um indivíduo com outro deve ser vivacíssima, sempre se nota uma grande diversidade nas es­ pécies que a habitam. Verifiquei que uma superfície gra­ mada de três pés por quatro, que fora exposta durante longos anos às mesmas condições de vida, nutria vinte espécies de plantas pertencentes a dezoito gêneros e a oito ordens, o que mostra o quanto essas plantas diferiam umas das outras.”16 Todo o mundo, aliás, notou que,

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num mesmo campo, ao lado dos cereais, pode crescer um grande número de ervas daninhas. Os animais tam­ bém se saem com tanto maior facilidade da luta quanto mais são diferentes. Num carvalho, podemos encontrar até duzentas espécies de insetos que mantêm umas com as outras apenas relações de boa vizinhança. Uns se ali­ mentam dos frutos da árvore, outros das folhas, outros da casca e das raízes. “Seria absolutamente impossível que se­ melhante número de indivíduos vivesse nessa árvore”, diz Haeckel, “se todos pertencessem à mesma espécie, se to­ dos, por exemplo, vivessem à custa da casca ou apenas das folhas.”17 Do mesmo modo, também, no interior do or­ ganismo, o que atenua a concorrência entre os diferentes tecidos é que eles se alimentam de substâncias diferentes. Os homens são sujeitos à mesma lei. Numa mesma cidade, as profissões diferentes podem coexistir sem se­ rem obrigadas a se prejudicar reciprocamente, porque elas perseguem objetivos diferentes. O soldado busca a glória militar, o padre, a autoridade moral, o estadista, o poder, o industrial, a riqueza, o cientista, o renome cien­ tífico; logo, cada um pode alcançar seu objetivo sem im­ pedir os outros de alcançar o deles. Também assim é mesmo quando as funções são menos distantes uma das outras: o médico oculista não faz concorrência ao que trata das doenças mentais, nem o sapateiro ao chape­ leiro, nem o pedreiro ao marceneiro, nem o físico ao quí­ mico, etc. Como prestam serviços diferentes, podem prestá-los paralelamente. No entanto, quanto mais as funções se aproximam, mais há entre elas pontos de contato, mais, por conse­ guinte, elas são expostas a se combaterem. Como, nesse caso, elas satisfazem por meios diferentes necessidades semelhantes, é inevitável que procurem avançar mais ou menos no domínio da outra. Nunca o magistrado concor­

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re com o industrial; mas o cervejeiro e o vinhateiro, o fa­ bricante de tecidos e o fabricante de sedas, o poeta e o músico muitas vezes se esforçam por se suplantar um ao outro. Quanto aos que desempenham exatamente a mes­ ma função, só podem prosperar em detrimento uns dos outros. Portanto, se representarmos essas diferentes fun­ ções sob a forma de um feixe ramificado, oriundo de um tronco comum, a luta está em seu mínimo entre os pon­ tos extremos, aumentando regularmente à medida que nos aproximamos do centro. Assim acontece não só no interior de cada cidade, mas em toda a extensão da socie­ dade. As profissões similares situadas nos diferentes pon­ tos do território movem-se uma concorrência tanto mais acirrada quanto mais são semelhantes, contanto que a di­ ficuldade das comunicações e dos transportes não res­ trinja seu círculo de ação. Posto isso, é fácil compreender que todo adensa­ mento da massa social, sobretudo se for acompanhado de um aumento da população, determina necessariamen­ te progressos da divisão do trabalho. De fato, representemo-nos um centro industrial que alimenta certa região do país com um produto especial. O desenvolvimento que é capaz de alcançar é duplamente limitado, primeiro pela extensão das necessidades que se trata de satisfazer, ou, como se diz, pela extensão do mer­ cado, em seguida pela potência dos meios de produção de que dispõe. Normalmente, ele não produz mais do que o necessário, nem muito menos mais do que pode. Mas, se lhe é impossível superar o limite assim definido, ele se esforça por alcançá-lo; porque é da natureza de uma força desenvolver toda a sua energia enquanto nada vem detê-la. Chegando a esse ponto, está adaptado a suas condições de existência, encontra-se numa posição de equilíbrio que não pode mudar, se nada mudar.

Mas tal condição é to­ talmente ideal. mas que já existia. em vez de criarem ime­ diatamente mais uma especialidade. deverão necessariamente ceder o terreno que ocu­ pavam até então e em que já não podem se manter nas novas condições em que a luta se trava. sem dúvida. as coisas permaneceriam no mesmo estado. até então independente desse centro. Finalmente. Mas se houver concorrentes que apresentam alguma inferiori­ dade. Como um espaço vazio lhes é aberto. precisa­ riam entrar em concorrência com os que a exerceram até então. sempre há um número mais ou menos grande de empresas que não alcançaram seu limite e que. Porque se. os mais fracos prefe­ rissem adotar outra profissão. mais concorrentes. e produziria suas conseqüências num outro ponto. seria necessário haver em al­ . é ligada a ele por uma via de comunicação que suprime parcialmente a distância. pelo menos.266 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Mas eis que uma região. têm impulso para ir mais longe. a parte de cada um dos dois campos permanece a mesma. o mercado se amplia. por conseguinte. Na realidade. Se nele encontram empresas semelhantes e capazes de re­ sistir a elas. a luta não estaria mais encerrada. Há. Então. por conseguinte. mas apenas deslocada. Sem dúvida. há ago­ ra mais necessidades a satisfazer. como não seriam capazes de se ampliar mais. se todas as empresas específicas que ele compreende já houvessem realizado o máximo de produção que podem alcançar. e tal transformação deve necessariamente resultar numa nova especialização. De imediato. as segundas contêm as primeiras. porém. uma _das barreiras que detinham seu desenvolvimento é retira­ da. não têm outra alternativa senão desaparecer ou transformar-se. recua. limitam-se mutuamente e. como dividem entre si um mercado mais vasto. ou. suas relações mútuas não mudam. Portanto. elas procu­ ram necessariamente difúndir-se nele e preenchê-lo.

Conquanto os exemplos que precedem sejam toma­ dos sobretudo da vida econômica. essa explicação se . de outro lado. O pequeno patrão toma-se contramestre. ao mesmo tempo. Mas. duas empresas semelhantes encontram o equilíbrio divi­ dindo entre si sua tarefa comum. se a sociedade conta efetivamente com mais membros e que estes. o pequeno comerciante. entrem em luta e se esforcem por subs­ tituir-se uns aos outros. cada segmento tem seus órgãos próprios que são como que protegidos e mantidos a dis­ tância dos órgãos semelhantes por meio das paredes que separam os diferentes segmentos. não pode bastar para a tarefa mais vasta que lhe ca­ be doravante. Em outras palavras. Não é necessário acrescentar que. Ora. emprega­ do. apa­ recem novas especialidades. de um la­ do. elas se coordenam. é inevitável que os órgãos simila­ res se alcancem. Porque. conforme a inferioridade seja mais ou menos acentuada.AS CAUSASEAS CONDIÇÕES 267 gum lugar ou uma eliminação. etc. a luta ainda é mais acesa e a especialização que dela resulta. Em vez de entrarem ou permanecerem em concorrência. e. dela não pode deixar de resultar algum pro­ gresso no caminho da especialização. ou uma nova diferencia­ ção. a não ser graças a uma maior divisão do trabalho. Mas. se assim podemos falar. são mais próximos uns dos outros. à medida que as paredes desaparecem. essa parte pode ser mais ou menos consi­ derável. Aliás. como quer que se faça essa substituição. os vencidos só se podem manter concentrando-se apenas numa parte da função total que até então desempenhavam. o órgão segmentário que triunfa. Acontece até de a função primitiva se disso­ ciar simplesmente em duas frações de igual importância. na medida em que a constitui­ ção social é segmentária. em todos os casos. mais rápida e mais completa. em vez de subordinarem-se.

É também em virtude das . acaso resulta um aumento da felicidade média? Não vemos a que causa ele se deve­ ria. graças a ela.mesmas causas que. mas podem coexistir uns ao lado dos ou­ tros. mas não a criam. Quanto às cir­ cunstâncias externas. os rivais não são obrigados a se eliminarem mutuamente. De todas essas mudanças. todo organismo imperfeito devia fatalmen­ te perecer. para enfrentar essas novas dificuldades. antecipando-se aos resultados da seleção natural e. que não são de natureza a tomar os homens mais felizes. pois não era utilizável para nenhuma função. condenava à . assim como os declives do terreno determinam a dire­ ção de uma corrente. fôssemos obrigados a salientá-las e desenvolvê-las. Tudo acontece mecanicamente. não se divide de outra manei­ ra. consagrando-os. como vimos. elas assinalam o sentido em que se faz a especialização. Por vezes. a lei. etc. nem por outras razões. Por isso. um resultado da luta pela vida. A divisão do trabalho é. os meios para se manterem e sobreviverem. As diferenças individuais que elas produzem permaneceriam no estado de virtualidade se. Uma ruptura de equilíbrio na massa social suscita conflitos que só po­ dem ser resolvidos por uma divisão do trabalho mais de­ senvolvida: este é o motor do progresso. em sociedades mais homogêneas. à medida que se desenvolve. O traba­ lho científico. o aparelho regulador central absorve em si os órgãos reguladores locais e os reduz ao papel de auxiliares especiais. Em muitos po­ vos inferiores. A maior intensidade da luta implica novos e penosos esforços. De fato. mas não a requerem. pois. artístico. seriam condenados a desaparecer. onde ela é neces­ sária.268 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL aplica a todas as funções sociais indistintamente. mas é um seu desenlace atenuado. ela fornece a um maior número de indivíduos que. às combinações variadas da heran­ ça. de certa forma.

despro­ porcional às necessidades. Assim. para se manterem. que impedem-no de ser eliminado”19. após um jejum prolongado. e o mesmo fenômeno se produz se a atividade cerebral adquire um desenvolvimento demasiado considerável. há sociedades em que há funcionários demais. onde as funções produtivas são separadas das funções militares. então. e as porções da fortuna pública que serviam para mantê-las são absorvi­ das pelas indústrias de alimentação ou de artigos de pri­ meira necessidade. Em tempo de fome ou de crise econômica. lhe seja necessário tomar uma parte do que cabe aos outros. ele subsiste ao lado do vencedor na qualidade de escravo. As indústrias de luxo periclitam. Se seu cérebro é que é frágil. O mesmo acontece na socieda­ de. Por exemplo. lugares pequenos o bastan­ te. pode acontecer que um organismo atinja um grau de atividade anormal. renunciar a enfrentar a grande con­ corrência intelectual. mas se o cérebro for são. . mas a sociedade tem. Ou. a garantir sua subsistência em detrimento das funções menos essen­ ciais. Há certas circunstâncias em que funções diferentes entram em concorrência. e o próprio Aristóteles18 achava esse uso natural. “deverá. o inimigo vencido é mor­ to. entre os povos primitivos. para provir às despesas causadas por esse desenvolvimento exagerado. o sistema nervoso se nutre à custa dos outros órgãos. Se for fraco apenas de corpo. nos alvéolos secundários de sua colméia. consagrar-se-á ao trabalho de gabinete. e que. sem dúvida. Bem diferente é o que sucede nas sociedades mais avançadas. no organismo individual. às funções especulativas. as funções vitais são obrigadas. Um indiví­ duo enfermiço pode encontrar nos marcos complexos da nossa organização social um lugar em que lhe seja possí­ vel prestar serviços.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 269 morte os recém-nascidos doentes ou frágeis. Do mesmo mo­ do.

etc. Uma indústria só pode viver se corresponder a algu­ ma necessidade.. porém. Ora. foi necessário que os homens deixassem de se contentar com o que até então lhes bastara e se tornas­ sem mais exigentes. é. De fato. ou oficiais demais.270 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ou soldados demais. toda nova especialização tem por resulta­ do aumentar e melhorar a produção. até então. Mas de onde podem vir essas novas exigências? Elas são um efeito da mesma causa que determina os progressos da divisão do trabalho. Se essa vantagem não é a razão de ser da divisão do trabalho. Mas todos esses casos são patológicos. Uma função só pode se especializar se essa especialização corresponder a uma necessidade da sociedade. é sempre ne­ cessário que a reparação seja proporcional à despesa. Por conseguinte. sua conseqüência necessária. acabamos de ver que tais progressos se devem ao maior ardor na luta. ou sacerdotes demais. é por isso que os alimentos que. En­ quanto a indústria dos transportes não estava constituída. por conseguinte. Mais uma objeção se apresenta ao espírito. e as pessoas estavam acostumadas a esse estado de coisas. as outras profissões sofrem com essa hipertrofia. um pro­ gresso só se pode estabelecer de uma maneira duradoura se os indivíduos sentirem realmente a necessidade de produtos mais abundantes ou de melhor qualidade. cada um se deslocava com os meios de que dispunha. bastavam para . Mas. eles se devem ao fato de que a nutrição do organismo não se faz regularmente. ou de que o equilí­ brio funcional é quebrado. ou intermediários demais. uma luta mais violenta é inseparável de um maior emprego de forças e. para que a vida se mantenha. Ora. para que tenha podido tomar-se uma especia­ lidade. de maiores fadigas. No entanto.

um cérebro mais volumoso e mais delicado tem exigências diferentes das de um encéfalo mais gros­ seiro. para criar novas especialidades. ainda assim. para aclimatá-las. É necessária uma alimentação mais abundante e mais se­ leta. Aliás. é um fato conhecido que o primeiro é muito mais inteli­ gente. Também quanto a esse ponto. Por outro lado. é sobretudo o sistema nervoso cen­ tral que arca com todos esses ônus21. etc. Ora. não é sem razão que as doen­ ças mentais caminham a par e a passo com a civilização. pois é necessário tratar de encontrar meios para sustentar a luta. e mais nas grandes cidades do que nas peque­ nas22. basta comparar o operário ao agricultor. apesar do caráter maquinai das tarefas a que cos­ tuma ser consagrado. e na mesma medida. pois só ela pode encontrar as novas condições de um equilíbrio que se rompe sem cessar e restaurá-lo. maior se toma o papel da inteligência na vida. Penas ou privações que este sequer sentia abalam dolorosamente aquele. Este não pode contentar-se com uma alimentação vegetal e. mesmo nessas condições. nem que elas grassam nas cidades de preferência ao campo. É assim que o camponês. a vida cerebral se desenvolve ao mesmo tempo que a concor­ rência se toma mais acesa. embora com uma alimentação mais po­ bre.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 271 restaurar o equilíbrio orgânico passam a ser insuficientes. tem muita dificuldade para compensar o déficit que um traba­ lho intenso e contínuo aprofunda a cada dia no orçamen­ to do seu organismo20. são necessá­ rios estímulos menos simples para afetar de maneira . Pelo mesmo motivo. se mantém igualmente bem. Portanto. mas em todas as classes da sociedade. Consta­ tam-se esses progressos paralelos não apenas na elite. De maneira geral. quanto mais o ambiente está sujeito à mudança. cujo trabalho é menos es­ tafante do que o do operário das cidades.

todas essas mudanças são produzidas me­ canicamente por causas necessárias. se as exercemos mais. pois constitui tão-somente uma aptidão a gozar e. Podemos ser constituídos de modo a sentir pra­ zer em cultivar a música. por isso. Entretanto. essa sim­ ples predisposição não seria capaz de suscitar por si mes­ ma os meios de se satisfazer. ele se de­ senvolveu. essas aspirações indeterminadas podem desviarse facilmente de seus fins naturais e de sua direção nor­ mal. mais do que todas as outras. ao mesmo tempo. Eis como. as neces­ sidades propriamente intelectuais aumentam23: explicações grosseiras já não podem satisfazer aos espíritos mais apu­ rados. Mesmo quando somos levados em direção a um objeto por um impulso hereditário muito forte. “simples aptidões a gozar não provocam necessariamente o desejo. e em maior quantidade. uma vez que ele se refinou. a pintura. sem ter desejado.272 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL agradável esse órgão. porque. segundo a observação de Bain. mas não sabe o quê. a humanidade se encontra apta a receber uma cultura mais intensa e mais variada. pode muito bem sentir um mal-estar vago e indefinível. por con­ seguinte. no momento em que o homem se acha em . a ciência. é porque as exercemos mais. Novas clarezas são reclamadas e a ciência entretém essas aspirações ao mesmo tempo que as satisfaz. se sempre fomos impedidos disso”24. Mas. não tem desejos sexuais propriamente ditos e. e. pode ter a sensação de que algo lhe está faltando. Enfim. O adoles­ cente que nunca ouviu falar de relações sexuais. Portanto. Se nossa inteligência e nossa sensibilidade se desenvolvem e se aguçam. é porque somos forçados a tanto pela maior violência da luta que temos de travar. só podemos desejá-lo depois de termos entrado em relação com ele. nem das alegrias que elas proporcionam. se outro fator não interviesse. mas a não desejá-lo.

ao mesmo tempo. Aliás. na realida­ de. Sem que haja nisso a menor harmonia preestabelecida. não em to­ . e como. com muita freqüência. simplesmente porque são efeitos de uma mesma causa. pressente que os apreciará. devido a novos progressos da divisão do trabalho. mas são suficientes para man­ ter a ordem em geral. determi­ nam-se. inclu­ sive. Eis como podemos conceber de que maneira esse encontro se dá. porque a divisão do trabalho. encontra-os a seu al­ cance. correspondem às mudanças que se fizeram em sua constituição. sem­ pre corresponda a uma necessidade real da nossa nature­ za. todavia. Esse objeto não era nem ne­ cessário. em to­ dos os casos. que cada novo produto. as ne­ cessidades que estavam adormecidas despertam. as necessidades só se contraem porque nos acostumamos ao objeto a que se referem. ao contrário. Isso não quer dizer. A experiência vem. tomam consciência de si e se organizam. é verossímil que. Os progressos que ela faz se acham. É o que acontece com a divisão do trabalho.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 273 condições de desfrutar desses novos gozos e os deseja. ele pode se adaptar mentalmente a eles antes de tê-los experimentado. As harmonias que resultam de causas totalmente mecânicas nunca podem deixar de ser imperfeitas e aproximadas. essas duas ordens de fatos se encontram. A atração da novidade já bastaria para le­ var o homem a experimentar esses prazeres. mesmo se de maneira inconsciente. nem útil. mas sucedeu que o experimentamos várias vezes e nos acostumamos tanto com ele que já não podemos dispensá-lo. confirmar esses pressentimentos. que essa adaptação seja. em seguida. tanto mais naturalmente propenso a eles quanto a riqueza e a complexidade maiores desses estímulos fazem-no achar mais medíocres aqueles com que se con­ tentara até então. Ele é. desenvolveu-se e fomeceu-os a ele. tão perfeita assim.

Para nós. ela não pode deixar de separá-los ainda mais. Mas nossa felicidade não é maior por elas serem estimuladas. Porém.274 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL dos os casos. um reflexo do fenômeno. ela consiste essencialmente em produ­ zir mais. evitar-se-ão. Se nos especializamos. e sim para podermos viver nas novas condições de existência que nos são criadas. IV Um corolário de tudo o que precede é que a divisão do trabalho só se pode efetuar entre os membros de uma sociedade já constituída. em harmonia com as mu­ danças que ocorrem no homem. Como o ambiente já não era o mes­ mo. mais uma vez. Mas essa desclassificação dos prazeres não implica um aumento. não é para produzir mais. e é isso que lhes permi­ te durar. e essas mudanças determinaram outras em nossa maneira de sermos felizes. essa maior produtividade é apenas uma conseqüência necessária. De fato. se não podem sair dos limites determi­ . Para eles. quando a concorrência opõe indivíduos iso­ lados e estranhos uns aos outros. nem por isso somos mais feli­ zes. Mas quem diz mudanças não diz necessariamente progressos. Se eles dispõem livremente do es­ paço. mas geralmente. Sem dúvida. daí resulta uma subversão de toda a graduação. O ponto de referência em rela­ ção ao qual medíamos a intensidade relativa de nossos prazeres é deslocado. tivemos de mudar. Vê-se o quanto a divisão do trabalho nos aparece sob um aspecto diferente do que se mostra aos econo­ mistas. elas não podem permanecer insatisfeitas sem que haja dor. uma vez que essas necessidades foram estimuladas.

é ne­ cessário que esta última tenha preexistido. retiram-se definitiva ou provisoriamente da socieda­ de: eles emigram para outras regiões. aliás. Foi essa disjun­ ção progressiva que Darwin chamou de lei da divergên­ cia dos caracteres. em conseqüência da extrema densidade da população. Ora. É por isso que. a divisão do trabalho une ao mes­ mo tempo que opõe. a guerra que travam uns contra os outros tem como único resultado diversificálos. porque ela não é marcada com tal evidência na natureza das coisas. mas depende. é necessário que os indivíduos entre os quais a luta se trava já sejam solidários e o sintam. os habitantes. Mas essa divisão não pode ser levada a cabo a partir de um plano preconcebido. . mas de maneira a se tornarem ainda mais independentes uns dos outros. De fato. representar-se o que é a divisão do tra­ balho para compreender que não pode ser de outro mo­ do. Por isso. em vez de se especializa­ rem. esta gera efeitos bem diferentes da divisão do trabalho. Nos países em que a existência é de­ masiado difícil. em geral. depois de separadas. isto é. em relações sociais. Basta. dar origem a variedades dessemelhantes e que se afastam cada vez mais umas das outras.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 275 nados. faz convergir as atividades que di­ ferencia. vínculo algum. como entre os in­ divíduos de uma mesma espécie animal ou vegetal não há. pertençam a uma mesma so­ ciedade. Não podemos citar nenhum caso em que relações de pura hostilidade se tenham transformado. se diferenciarão. ela consiste na divisão de funções até então comuns. onde esse sentimento de solida­ riedade é fraco demais para resistir à influência dispersi­ va da concorrência. Já que a concor­ rência não pode ter determinado essa aproximação. não se pode dizer de antemão onde deve se achar a linha divisória entre as ta­ refas. aproxima aqueles que separa. sem a intervenção de algum ou­ tro fator.

foi erradamente que se viu. contanto que seja duradoura. Com isso. por vezes. em constante comunicação: não há outro meio para que uma receba todo o movimento que a outra abandona e para que se adaptem uma à outra. uma função possa se dividir em duas frações exa­ tamente complementares. pois. a continui­ dade material. se nenhum poder mo­ derasse o conflito dos interesses individuais. Se as relações que co­ meçam a se estabelecer no período das hesitações não fos­ sem submetidas a nenhuma regra. é indispensável que as duas partes que se especializam estejam. todo agregado de indivíduos que estão em contato contínuo forma uma sociedade. como a natureza da divisão do trabalho requer. Mas esquece-se que os contratos só são possíveis onde já existe uma regulamen­ tação jurídica e. que tudo acontece então em conven­ ções privadas e livremente debatidas. mas é necessário que exista entre eles vínculos morais. a divisão do trabalho só pode produzir-se no seio de uma sociedade preexistente. por conseguinte. Em primeiro lugar. na divisão do trabalho o fato fundamental de toda vida social. seria um caos de que não poderia sair nenhuma nova ordem. parece. Portanto. Portan­ to. além disso. para que. uma sociedade. do mesmo modo que uma colônia animal em que todos os membros se acham em continuidade de tecido constitui um indivíduo. Portan­ to. por si só. porém. O trabalho não se divide entre indivíduos independentes . dá origem a vínculos desse gê­ nero. Por conseguinte. a divisão do trabalho tem de se fazer por si mesma e progressivamente. de uma multidão de circunstâncias. durante todo o tempo que essa dissociação durar. nessas con­ dições. é verdade.276 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ao contrário. eles são diretamente necessários. Ima­ gina-se. Ora. que toda ação social está ausente. não pretendemos dizer simplesmente que os indivíduos devem aderir ma­ terialmente uns aos outros.

é uma verdade evidente a de que toda sociedade consiste essencialmente numa coope­ ração. Portanto.”25 Acabamos de ver que es­ se pretenso axioma é o contrapé da verdade. é o que as faz serem es­ sencialmente harmoniosas. há uma vida social fora de toda divisão do trabalho. Porque seria um milagre que diferenças nascidas assim. “que a coope­ ração. a comunida­ de de costumes. dela derivam. “Uma sociedade. De fato. é evidente. . mas que esta supõe. Para muitos teóricos. Elas só se podem produzir no âmbito de uma sociedade e sob a pressão de senti­ mentos e necessidades sociais. As conclusões do livro precedente e aquelas a que acabamos de chegar podem. como diz Augusto Comte. diz Spencer. ao acaso das circunstâncias. foi o que estabelecemos diretamente ao mostrar que há sociedades cuja coesão deve-se essencialmente à co­ munidade das crenças e dos sentimentos. O que aproxima os homens são causas mecânicas e forças impulsivas. no sentido científico da palavra”. pois. “só existe quando à justaposição dos indiví­ duos soma-se a cooperação. possam se ajustar tão exatamente de mo­ do a formar um todo coerente. e que foi des­ sas sociedades que saíram aquelas cuja unidade é asse­ gurada pela divisão do trabalho.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 277 e já diferenciados. que se reúnem e se associam para po­ rem em comum suas diferentes aptidões. servir para se verificarem e se confirmarem mutua­ mente. Ao contrá­ rio. senão no seio de mas­ sas policelulares que já são dotadas de certa coesão. o culto dos ancestrais. como a afinidade de sangue. A própria divisão do trabalho fisiológico está subme­ tida a essa lei: ela nunca aparece. o ape­ go a um mesmo solo. Longe de precederem a vida coletiva. longe de ter podido produzir a sociedade. etc. supõe necessariamente seu estabelecimento prévio e espontâ­ neo”26. Somente quando o grupo se formou sobre essas bases é que a cooperação se organiza.

Se essa importante verdade foi desprezada pelos utilitaristas. que. a duali­ dade dos dois fenômenos não desaparece com isso. quando é desenvolvido. a cooperação complexa que resulta da divi­ sã o do trabalho é um fenômeno ulterior e derivado. Numa pa­ lavra. que estas últimas sejam confundidas no sentido de uma só e mesma consciência coletiva para que o pro­ cesso de diferenciação possa começar ou recomeçar. reage sobre o primeiro e o transforma. que a vida social. De fato. os organismos mais complexos se formam pela re­ petição de organismos mais simples.278 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Todavia. que só se diferenciam depois de associados. se as sociedades humanas se tomam cada vez mais grupos de cooperadores. só podem relacionar-se para cooperar. trata-se de um erro decorrente da maneira como eles concebem a gênese da sociedade. Ela resulta de movimentos internos que se desenvolvem no seio da massa. que ela substitui. por con­ seguinte. sabe­ mos que as sociedades superiores resultam da reunião de sociedades inferiores do mesmo tipo: é necessário. quando esta é constituída. indivíduos isolados e independentes. Supõem. é ne­ cessário antes de mais nada que sejam atraídas ou agru­ padas em virtude das semelhanças que apresentam. ela estreita os vínculos sociais e faz da sociedade uma individualidade mais perfeita. na ori­ gem. essa integração supõe outra. Com maior razão. uma vez que aparece. seria ela mesma sem força e sem continuidade. porque não têm outra razão para vencer o intervalo vazio que os . mas em cada estágio da evolução. É verdade que. semelhantes entre si. As­ sim. a associação e a cooperação são dois fatos distin­ tos. a princípio. Esse procedimento de formação se observa não apenas nas origens. e se o segundo. No entanto. se não tivesse outra fon­ te. a única possível no princípio é tão intermi­ tente e frágil. Para que as unidades sociais possam diferenciar-se.

o psicólogo que começa a se encerrar em seu próprio eu não pode mais sair. não pode sair nada que não seja individual e. pois para seres que são destinados. de individualidades au­ tônomas. postula uma verdadeira criação ex nihilo. ora. não pode nascer delas. por natureza. se nasceu individualista. para que a sociedade possa for­ mar-se nessa hipótese. Como admite Spencer. foi a segunda que nasceu da primeira. a uma vida livre e solitária. De que modo o homem. tão difundi­ da. E apenas sob essa condição que se pode explicar como a individualidade pessoal das unidades sociais pôde for­ mar-se e crescer sem desagregar a sociedade. Mas o que lhes pode ter deter­ minado a uma transformação tão completa? A perspectiva das vantagens que a vida social oferece? Mas elas são mais que compensadas pela perda da independência. porque em lugar nenhum o indivíduo é mais completa­ mente absorvido no grupo. Acrescentem a isso que. para reencontrar seu não-eu. Assim. a própria coo­ peração. que é um fato social. nos pri­ meiros tipos sociais. como as que se imagina. Mas essa teoria. De fato. De fato. A vida coletiva não nasceu da vida individual. ela consiste em deduzir a sociedade do in­ divíduo. submetido a regras sociais. . ele é tão absoluto quanto possível. é necessário que as unidades pri­ mitivas “passem do estado de independência perfeita ao de dependência mútua”27. ter-se-ia podi­ do resignar a uma existência que ofende de maneira tão violenta sua inclinação fundamental? Quanto a utilidade problemática da cooperação devia parecer-lhe pálida ao lado de tal degradação! Portanto. por conseguinte. conforme se supõe. ao contrário. mas.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 279 separa e para se associarem. nada do que conhecemos nos autoriza a crer na possiblidade de semelhante geração espontânea. semelhante sacrifício é o mais intole­ rável que possa existir.

Os utilitaristas invertem. nesse caso. se ela não é toda a moral. que é auto-suficiente e poderia dispensar o resto do mundo. Nessas condições. cujo único motor é o egoísmo. por conseguinte. Ela nada tem de anti­ social. os indivíduos entre os quais o trabalho se divide não pertencem à mes­ ma sociedade. é ine­ vitável que a consideremos como o fato primário da vida moral e social. de arranjos privados. Mas. esses idealistas fazemna consistir exclusivamente num sistema de relações eco­ nômicas. se nos ativermos às aparências. ela traz necessariamente o cunho deste. Objetar-se-á com a divisão internacional do trabalho. ao mesmo passo em que se destaca. Na realidade. mas necessária. como fazem certos moralistas. tampouco devemos colocá-la fora da moral. ela se constitui de maneira a não arruinar essa ordem co­ letiva de que é solidária e permanece adaptada a ela. é ela que primeiro atrai o olhar. mas não pode. Exatamente como os utilitaristas. Parece evidente que. Não é a per­ sonalidade absoluta da mônada. sepa­ rar-se do resto do organismo. pois ela não seria pos­ sível se sentimentos sociais e. Mas convém recordar que um grupo po­ . morais. porque é um produto da sociedade.280 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL como. Precisamente porque a cooperação é o fato mais recente. a vida moral circula através de to­ das as relações que a constituem. sem correr o risco de morte. pelo menos nesse caso. a coope­ ração se toma não apenas possível. como faz o senso comum. mas a de um órgão ou de uma parte de órgão que tem sua função determi­ nada. pois. ela se elabora no seio de um meio so­ cial preexistente. Portanto. e nada é menos surpreendente do que essa inversão: ela é uma ilustração particular da verdade geral segundo a qual o que é primeiro no conhecimento é último na rea­ lidade. a ordem natural dos fatos. não presidissem à sua elaboração.

podemos dizer que ela só se produziu verda­ deiramente na Europa e em nosso tempo. e contendo vários do mesmo gênero. portanto. pode-se observar diretamente essa relação dos fatos no mais contundente exemplo de divisão inter­ nacional do trabalho que a história nos proporciona. mais vasto. nem. Pode-se afirmar que uma função. Para que um povo se deixe penetrar por outro. só pode dividir-se entre duas sociedades se estas participa­ rem. sob certos aspectos. foi no fim do século passado e no início deste que começou a se formar uma consciência comum das sociedades européias. suponham que essas duas consciências coletivas não sejam amalgamadas por algum ponto. diz Sorel. a duração dos compromissos contraídos pelos príncipes. de uma mesma vida comum e. Uma Europa em que os direitos de cada um resultassem dos deveres de todos era uma coisa tão estranha aos estadistas do an­ tigo regime que foi preciso uma guerra de um quarto de . em que cada um conformava sua conduta a princí­ pios reconhecidos por todos. “O de representar-se a Europa do antigo regi­ me como uma sociedade de Estados regularmente consti­ tuída. “Há um preconceito de que é importante desfazer-se”. econômica ou outra.. De resto. mais compreensivo. De fato.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 281 de. é necessário que tenha cessado de encerrar-se num patriotismo exclusivo e que tenha aprendido outro. não vemos co­ mo os dois agregados poderiam ter o contato contínuo que é necessário. em que a boa fé dirigia sua execução. Com efeito. por conseguinte. como um deles poderia confiar ao segundo uma das suas funções. em que o respeito ao direi­ to estabelecido governava as transações e ditava os trata­ dos. em que o sentimento de solidariedade das monarquias garantia. pertencerem a uma mesma sociedade. ser envolvido por outro.. Ora. conservando sua individualidade. com a manutenção da ordem pública.

A tentativa feita no congresso de Viena e nos congressos que o se­ guiram para dar à Europa uma organização elementar foi um progresso. do fato de dois organismos diferentes terem propriedades que se ajustam proveitosa­ mente. uns dos outros. todo retorno de um nacionalismo estreito sempre tem por conseqüência um desenvolvimento do espírito protecionista.282 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL século. não decorre que haja entre eles uma divisão de funções31. econômica e moralmente. trata-se de simples relações de mutualismo. isto é. por vezes. uma tendência dos povos a se isola­ rem. que nada têm em comum com a divisão do trabalho30. povos que não se mantêm unidos por nenhum vínculo e que.”28 Inversa­ mente. não um retorno ao passado. no entanto. até se consideram inimigos29 trocam produtos entre si de uma maneira mais ou menos regular. em certos casos. Se. . Porque. para lhes impor sua noção e lhes demonstrar sua necessidade. a mais formidável que já se viu.

não é inútil investigar as causas dessa regressão. Sem dúvida. é solidário com o que estamos tratando. Acabamos de mostrar que os progressos da di­ visão do trabalho devem-se à mais forte pressão exercida . mostrando com que regularidade ela se pro­ duz. E inclusive em conseqüência dessa indeterminação progressiva que a divisão do trabalho se toma a fonte principal da solida­ riedade.CAPÍTULO III OS FATORES SECUNDÁRIOS A INDETERMINAÇÃO PROGRESSIVA DA CONSCIÊNCIA COMUM E SUAS CAUSAS Vimos na primeira parte deste trabalho que a cons­ ciência coletiva tomava-se mais fraca e mais vaga à medi­ da que a divisão do trabalho se desenvolvia. Já que esses dois fenômenos estão ligados a tal ponto. Esse problema. aliás. estabelecemos diretamente que ela depende com certeza de algumas condições fundamentais da evolu­ ção social. Mas essa conclusão do livro precedente seria mais incontestável ainda se pudéssemos descobrir quais são essas condições.

obriga-nos a nos parecer com todos os outros.284 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL pelas unidades sociais umas sobre as outras e que as obriga a se desenvolverem em sentidos cada vez mais di­ vergentes. menos espaço deixa para as mu­ danças. Ora. pois quanto mais um estado é forte. sabemos que os movi­ mentos próprios dos particulares são tanto mais raros quanto mais desenvolvida for a solidariedade mecânica. elas não se podem produzir quando se en­ contram em oposição a algum estado forte e definido da consciência coletiva. não basta que esse meio exista: é necessário. isto é. En­ quanto uma nos impele a criar uma nossa personalidade distinta. que as variações individuais sejam pos­ síveis. ao contrário. pode-se prever que o progresso da di­ visão do trabalho será tanto mais difícil e lento quanto mais a consciência comum tiver vitalidade e precisão. In­ versamente. para tanto. será tanto mais rápido quanto mais o indiví­ duo puder pôr-se facilmente em harmonia com seu meio pessoal. mesmo que todo o grupo não se mova ao mesmo tempo e na mesma direção. não basta que haja nos indiví­ duos germes de aptidões especiais. que a consciên­ cia comum exerce sobre cada consciência particular. Em outras palavras. Mas essa pressão é neutralizada a cada instan­ te por uma pressão em sentido contrário. nem que eles sejam estimulados a variar no sentido dessas aptidões. a outra. Mas. é neces­ sário. Enquanto a primeira nos inclina a seguir as propensões de nossa natureza pessoal. além disso. quanto mais é definido. mais ele resiste a tudo o que for capaz de debilitá-lo. seja capaz de se mover com indepen­ dência. Portanto. para que a divisão do traba­ lho possa nascer e crescer. Ora. São numerosos os exemplos em que podemos ob­ servar diretamente essa influência neutralizadora da cons­ . a segun­ da nos retém e nos impede de nos desviarmos do tipo coletivo. além disso. que cada um seja livre de a ele se adaptar.

Na Grécia1. como as de marinheiro e comerciante. em geral continua-se a viver junto. as condições necessárias ao aparecimento da divisão do tra­ balho não nasceram. a especializa­ ção não se pode fazer nessas diversas direções. certos ofícios. Portanto. há categorias inteiras de profissões cujo acesso é mais ou menos formalmente vedado aos cidadãos. no entanto. são estig­ matizadas pela opinião pública3. em vez de se ir exercer fora da zadruga profissões espe­ ciais. a indústria e o comércio eram carrei­ ras desprezadas. Em outras sociedades. absorve primitivamente todas as funções representativas. Enquanto a lei e os costumes fazem da inalienabilidade e da indivisão da propriedade imobiliária uma obrigação estrita. e todas se consagram à mesma ocupação. mesmo entre povos em que a vida econômica já atingiu certo desenvolvimento. Em ou­ tras. sempre as mesmas. as funções eram regulamentadas de tal modo que a divisão do trabalho não podia progredir. As primeiras só se dissociam das segundas quando a filo­ sofia aparece. que a miséria é grande nela. qualquer variação individual era impossível4. A religião. em que a divisão do trabalho é mais avança­ da. que são subtraídas a qualquer inovação. como o espírito do­ méstico é muito forte. essa forma eminente da consciência comum.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 285 ciência comum sobre a divisão do trabalho. esta só é possível quando a religião . Ora. de fabricante de calçados. como os de açougueiro. cada classe tem funções determinadas. em Roma2. O mesmo fenômeno se produz na vida representati­ va das sociedades. à explo­ ração do patrimônio hereditário. a zadruga cresce com freqüência em tais proporções. Entre os eslavos. etc.. junto com as funções práticas. entre os cabilas. como entre nós na época das an­ tigas corporações. Onde todos eram obrigados a fabricar da mesma manei­ ra. Cada família forma uma massa com­ pacta. Enfim.

Sem dúvida. Foi dito algumas vezes que é o livre exame que faz regredir as crenças religiosas. que resis­ te. as próprias ciências naturais encontra­ ram na fé um obstáculo. não se explicou completamente os pro­ gressos da divisão do trabalho quando se demonstrou que eles são necessários em conseqüência das mudanças sobrevindas no meio social. como os fatos da natureza . a resignação a uma existência precária e mais . Portanto. O próprio cristianismo. a colo­ nização. a oposição foi menos acesa enquanto os sábios limitaram seus estudos ao mundo material. mas eles dependem ainda de fatores secundários que podem facilitar. mas ele supõe. De fato. sob as diferentes formas que assumiram. O mesmo antagonismo se manifesta cada vez que uma nova ciência se funda. con­ quanto tenha logo aberto ã reflexão individual um espa­ ço maior do que qualquer outra religião. análogo aos outros. Mas. em princípio.286 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL perde um pouco de seu império. como esse abandono nunca foi com­ pleto. e os fatos morais. uma regressão prévia dessas mesmas crenças. Essa nova maneira de representar as coisas choca a opinião coletiva. não pôde esca­ par dessa lei. à disputa dos homens. como o Deus cristão não é inteiramente estranho às coisas da terra. De fato. por sua vez. o crente não pode deixar de repugnar a idéia de que o homem seja estudado como um ser natu­ ral. pertur­ baram o desenvolvimento da psicologia e da sociologia.e sabemos o quanto esses sentimentos co­ letivos. não se deve es­ quecer que a especialização não é a única solução possí­ vel para a luta pela vida: também há a integração. aconteceu necessariamente que. pois ele era deixado. prejudicar ou en­ travar completamente seu curso. Ele só se pode produzir se a fé comum permitir. Mas a resistência tomou-se enér­ gica sobretudo quando o homem passou a ser objeto de ciência. em mais de um ponto.

o indivíduo está absorvido no grupo. assumir formas diversas. de certas forças imanentes aos protoplasmas. os elementos nascidos uns dos outros e. eles se especializam. um fato primitivo. Sem dúvida. pois. essa independência não é. no princípio. a eliminação total dos mais fracos pelo suicídio ou qualquer outro modo. contingente e que os combatentes não são necessariamente impelidos a uma dessas soluções. se nada impede que a di­ visão do trabalho se desenvolva. O primeiro desses fatores secundários consiste numa maior independência dos indivíduos em relação ao gru­ po. Já que o resultado é. com exclusão das demais. em certa medida. primitivamente. eles tendem para a que está mais ao seu alcance. até. Mas se as circunstâncias tomam impossível ou demasiado difícil esse desenlace. Essa independência de­ ve ser considerada a condição necessária para o livre exercício de uma faculdade mais geral dos plastídios: a variabilidade sob a ação das circunstâncias exteriores ou. É nisso que consiste a lei de indepen­ dência dos elementos anatômicos. enfim. diz Perrier. “Mesmo aproximados uns dos outros”. que se tomou tão fe­ cunda nas mãos dos fisiologistas. A divisão fisiológi­ ca do trabalho é submetida à mesma condição. tanto nos organismos mais elevados como nos mais humildes.”5 Ao contrário do que acontece nos organismos. puderam modificar-se em sentidos diferentes. Qualquer que seja sua quantidade. permitindo-lhes variar livremente. Mas vimos que ela aparece mais tarde e progride regular­ . será necessário recorrer a algum outro. nas sociedades. Graças à sua aptidão a variar e à sua independência recíproca. todos semelhantes entre si. crescem e se reproduzem sem se preocupar com seus vizinhos. “os elementos anatômicos conservam respectivamente toda a sua indivi­ dualidade.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 287 disputada. eles se nutrem. adquirir no­ vas funções e propriedades.

isso se dá porque ela mesma depende das causas que determinaram os progressos da especialização. determi­ nada fonte. a se . Toda a tri­ bo. de determinado rio.288 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL mente ao mesmo tempo que a divisão do trabalho. a dominar mais o espaço e. Sem dú­ vida. como todo o mundo está posto sensivelmente nas mesmas condições de existên­ cia. em conseqüência da regressão da consciência coletiva. o meio coletivo é essencialmente concreto. Os estados de consciência que o representam têm. Resta investigar como essa condição útil da divisão do traba­ lho social se realiza à medida que é necessária. Por se estenderem es­ tas últimas sobre uma superfície mais vasta. referem-se a objetos precisos. como todo o mundo está situa­ do da mesma maneira em relação a essas coisas. do calor ou do frio. por conseguinte. a consciência comum possui um caráter defi­ nido. ela mesma é obrigada a elevar-se acima de todas as diversidades lo­ cais. etc. goza ou sofre igual­ mente das vantagens ou dos inconvenientes do sol ou da chuva. etc. pois. elas afe­ tam da mesma maneira todas as consciências. esta árvore. Ele é fei­ to dos seres de toda espécie que enchem o horizonte so­ cial. De início. esta planta. se não for demasiado extensa. Depois. Mas ela muda de natureza à medida que as socie­ dades se tomam mais volumosas. portanto. Mas como o aumento das sociedades em volume e em densi­ dade pode ter esse resultado? I Numa pequena sociedade. de­ terminadas tanto em sua forma como em seus objetivos e. como este animal. o mesmo caráter. pois. As impressões coletivas que resultam da fusão de todas essas impressões individuais são. esta força natural.

For­ . as resultantes coletivas já não têm a mesma niti­ dez. Por outro lado. como abrangem horizontes menores. eles são divinos por si próprios. mas apenas seres sa­ grados. pouco a pouco. O fato que talvez melhor manifeste essa tendência crescente da consciência comum é a transcendência pa­ ralela do mais essencial de seus elementos: falo da noção de divindade. Portanto. à medida que se retraem os segmentos sociais a que correspondem. Mas sabemos que elas se desvane­ cem pouco a pouco no seio da primeira. e isso tanto mais quanto mais dessemelhantes forem os elementos componentes. ou. as forças religiosas se destacam das coisas de que. É verdade que as consciências coletivas locais podem conservar sua in­ dividualidade no seio da consciência coletiva geral e que. Quanto mais diferença existir entre os retratos individuais que serviram para fazer um retrato compósito. não eram mais que atributos e se hipostasiam. mas determinada espécie. não há deuses. não podem mais determinar por toda parte sentimentos tão perfeitamente idênticos. Não é mais determinado animal. mas não é que um princípio sui generis venha comunicar-lhes do exte­ rior sua natureza divina. sem que o caráter sagrado de que se revestem seja relacionado a alguma entidade exterior. de­ terminada fonte. dado que as condições de vida não são mais as mesmas em toda parte.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 289 tomar mais abstrata. mas as fontes. antes. como sendo sua fonte. Na origem. Essa natureza lhes é intrínseca. mais este será incerto. quaisquer que sejam. a princí­ pio. mas a floresta in abstracto. Mas. esses objetos co­ muns. Os animais ou os vegetais da espécie que ser­ ve de totem ao clã são o objeto do culto. Pois só as coisas gerais é que po­ dem ser comuns a todos esses diversos meios. permanecem mais facilmente concretas. determinada floresta. os deuses não são distintos do universo.

quer te­ nham sido reduzidos a certa unidade. quer sejam múltiplos. tão completa que degenera em antagonismo. ainda são imanentes ao mundo. a noção de espíritos ou de deuses que. Aliás. fora dos objetos particulares a que são mais especialmente vinculados6. O que toma sensível esse aumento de generalidade é o declínio ininterrupto do formalismo.290 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ma-se. etc. os gestos que deve . necessariamente. emancipam-se pouco a pouco destas e. Mas é apenas com o cristianismo que Deus sai definitivamente do espaço. inclusive. ao mesmo tempo que a religião. não intervém mais pessoalmente nos assuntos hu­ manos. como no princípio. climáticas. me­ nos compreensão que os deuses da cidade ou do clã. as regras do direito se universalizam. assim. a não ser de maneira bastante intermitente. A residência dos deuses se toma mais nitidamente distinta da dos homens. existem. pois é formada não de sensações. re­ sidindo de preferência aqui ou ali. O politeísmo greco-latino.. a dissocia­ ção entre a natureza e o divino é. em parte. Por isso mesmo. Permanecem. estão sempre no espaço. bem perto de nós. se tomam mais gerais. mas de idéias. Ao mesmo tempo. Separados. porém. Retirados nas alturas misteriosas do Olimpo ou nas profundezas da terra. Nas sociedades inferiores. pois. assim como as da moral. vestir-se em cada circunstância. assinala um novo progresso no sentido da transcendência. seu reino não é mais deste mundo. constantemente inseridos em nossa vida. Todavia. têm qualquer coisa de me­ nos concreto. com isso. a no­ ção da divindade se toma mais geral e mais abstrata. a própria for­ ma externa da conduta é predeterminada inclusive em seus detalhes. O Deus da humanidade tem. das coisas. que é uma forma mais elevada e mais bem organizada do animismo. a particularidades étni­ cas. Ligadas de início a circunstâncias locais. A maneira como o homem deve alimentarse.

não como deve sê-lo. substitui. Não podendo reduzi-las a princípios lógicos. as fórmulas que deve pronunciar são estabelecidas com precisão. Portanto. Se tivessem a mesma determinação de outrora. é porque o meio social para o qual são feitas não é suficientemente extenso. Se os detalhes concretos da ação e do pensamento fossem tão uniformes. que. mais concreta. A noção de homem. Só é racional o que é universal. mais as prescrições morais e jurídicas perdem sua nitidez e sua precisão. elas nada têm de artificial. no direito. Ao contrário. mais ela traz exatamente a sua marca. é mais refratária à ciência. tudo o que é definido exprime-se sob uma forma definida. os sentimentos coleti­ vos não se exprimiriam de uma maneira menos determi­ nada. Elas passam a regula­ mentar apenas as formas mais gerais da conduta. o que con­ funde o entendimento é o particular e o concreto. Por conseguinte. Ora. vemos agora qual a causa disso. na moral. quando se aplica a maior número de pessoas e de coisas. mas é necessário investigar suas causas determinantes em sensações e movimentos da sensibilidade. as idéias gerais aparecem necessariamente e se tor­ nam predominantes. Observou-se com freqüência que a civilização tendia a se tomar mais racional e mais lógica. por exemplo. a do romano. e se é assim. dizendo o que deve ser feito. não em concei­ tos. quanto mais distantes do ponto de partida. e fa­ zem-no de uma maneira bastante geral. Eis de onde vem o efeito que as civilizações primitivas exercem sobre nós. Na realidade. na religião. quanto mais a consciência comum está próxima das coisas particulares. seriam tão obrigatórios. Só pensamos direito o geral. somos levados a não ver nelas nada mais que combinações bizarras e fortuitas de elementos heterogêneos.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 291 fazer. mais também é ininteligível. Ao contrário. quan­ do a civilização se desenvolve num campo de ação mais vasto. é .

Por se tomar mais racional. de certo modo. ao contrário. Come­ ça-se colocando alguns artigos de fé acima da discussão. Mas elas não têm mais nem a mesma ascendência. De fixo. Quer-se entendêlos. a cons­ ciência coletiva se toma. sua ação não se dá mais em todos os instantes e já não se estende a tudo. esses princípios gerais só podem transportar-se aos fatos com o concurso da inteligência. uma vez a reflexão despertada. menos imperativa e. tam­ bém por essa razão.292 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL o aumento de volume das sociedades e seu maior aden­ samento que explicam essa grande transformação. II Mas não é essa causa a que mais contribui para pro­ duzir esse resultado. assim é que movimentos que foram deliberados não têm a instantaneidade dos movi­ mentos involuntários. deixando nela uma parte de sua força. que podem ser li­ vremente aplicadas de maneiras muito diferentes. Ora. pois. . quanto mais a consciência comum se toma ge­ ral. quando precisas. eles passam por essa prova. mais cede lugar às variações individuais. determinam o pensamento e os movimentos com uma necessidade análoga à dos re­ flexos. Com efeito. Quando Deus está longe das coisas e dos homens. não é fácil contê-la. ela incomoda menos o livre desen­ volvimento das variedades individuais. se as práticas e as fórmulas. Ora. Porque as idéias refletidas nunca têm a mesma for­ ça coerciva dos instintos. pergunta-se sua razão de ser e. depois a discussão se estende até eles. Quando ela adquire forças. nem a mesma força de resistência. desenvolve-se espontanea­ mente além dos limites que lhe foram atribuídos. só há as regras abstratas.

De fato. um grande prestígio. Uma prática a que todo o mundo se conforma unanimemente possui. mas persistem. ousa-se ainda menos esquivar-se dela. quando só têm uma base territorial. Nessas condições. um legado das gerações an­ teriores. as barreiras que os separam são menos intransponíveis. sem dúvida. as alfândegas internas formavam. o que vem do passado é. De fato. conta com o assentimento dos ancestrais. é tão difícil mudar de segmento quanto mudar de família. em sua maioria. tanto pelos vínculos que o ligam a ele. Portanto. em geral. Na Idade Média. como por ser repelido em outros lugares. quando este é muito pronunciado. ainda era difícil para um ope­ rário encontrar trabalho numa cidade que não a sua7. objeto de um respei­ to todo particular. algum tempo também para que o perca. mas se. os seg­ mentos formam várias pequenas sociedades mais ou me­ nos fechadas umas às outras. É ne­ cessário algum tempo para que uma forma de conduta ou uma crença chegue a esse grau de generalidade e de cristalização. a consciência comum só se constitui muito lentamente e se modifica no mesmo ritmo. a raridade das vias de comunicação e de transmissão é uma prova dessa oclusão de cada segmen­ to. e se. Ora. a autoridade da consciência coletiva é constituída em grande parte da autoridade da tradição. Por contragolpe. o indivíduo fica preso ao solo onde nasceu. as causas que mantêm o homem em . Veremos que esta diminui necessariamente à medida que o tipo segmentário desaparece.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 293 O que dá força aos estados coletivos não é apenas o fato de serem comuns à geração presente. Onde possuem uma base familiar. mas sobretudo o de serem. em torno de cada compartimento social um cinturão que o protegia contra as infiltrações de elementos estranhos. ela é quase toda um produto do passado. além disso. As­ sim. aliás.

mais as famílias formam grandes massas compactas. mais tarde. não é possível afastar-se muito do segun­ do quando não se consegue ultrapassar o primeiro. os dois se confundem. De fato. Na França.6 por mil à imigração. e é isso que faz que suas dife­ renças originais acabem por se perder. mas vão tentar fortuna em todas as direções. na origem.294 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL seu meio natal fixam-no em seu meio doméstico. Ao contrário. Como os indivíduos não estão mais contidos em seus lugares de origem e co­ mo esses espaços livres que se abrem diante deles os atraem. um déficit geral. infe­ lizmente. se distinguem. Os fi­ lhos já não permanecem imutavelmente apegados à terra dos pais. A “força de atração que resulta da consangüinidade exerce sua ação com a intensidade máxima. o cen­ . Segundo Dunant9. desse pon­ to de vista. Longe de deverem sua existência e seus progressos ao excedente normal dos nascimentos em relação aos falecimentos. fechadas em si mesmas8. indivisas. quanto mais a estrutura social é de nature­ za segmentária. mas há um fato que basta pa­ ra estabelecer sua importância crescente: a formação e o desenvolvimento das cidades. é de fora que rece­ bem os elementos graças aos quais crescem cotidianamente. Com efeito. e se. eles não podem deixar de se espalhar aí. As populações se misturam. pois cada um per­ manece a vida inteira situado bem perto da própria fonte desta força. as cidades não se formam por uma espécie de crescimento espontâneo. De iní­ cio. elas apresentam. mas por imigração. Portanto. A estatística. o crescimento anual do con­ junto da população das trinta e uma maiores cidades da Europa deve 784. é uma lei sem exceções aquela se­ gundo a qual. não nos permite seguir na história a marcha dessas migrações internas. é inevitá­ vel que esse equilíbrio se rompa. à medida que as linhas divisórias que separam os diferentes segmentos desaparecem.

46 no Norte. Com efeito.29 em Bouches-du-Rhône. enquan­ to. embora com menor intensidade. a criança tem consciência de sua inferioridade ante as pessoas mais ve­ . Bertillon calculou que. um aumento de 766 000 habitantes. os anciãos.41 em Seine-et-Oise11. quero dizer. no ano de 1886. de cada 100 habitantes apenas 11. de 26. Esse fenômeno não é parti­ cular às grandes cidades.”1 3 Ora.25 nasceram fora do departamento. pequenas e as áreas rurais”10. na média da França. De fato. no departamento do Sena havia 34. São o úni­ co intermediário entre o presente e o passado. a cada censo.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 295 so de 1881 acusava. de sorte que se vê. de um prestí­ gio que nada pode substituir. de 17. nas pequenas cidades. o departamento do Sena e as qua­ renta e cinco cidades com mais de 30 000 habitantes “ab­ sorviam. aumentar em algumas unidades o número das cidades de cada categoria. Eles são sua expressão viva. 26. o que faz a força da tradição é sobretudo o caráter das pessoas que a transmitem e a inculcam. a maior mobilidade das unidades sociais que esses fenômenos de migração supõem determina um en­ fraquecimento de todas as tradições.62 na Gironda12. junto às gerações que foram criadas diante dos seus olhos e sob a sua direção. deixando apenas 105 000 a repartir entre as cidades médias. nos bur­ gos. de 19. em relação ao de 1876. “Todas essas aglomerações aumentam constante­ mente à custa das comunas menores. Por outro lado. Não é ape­ nas para as grandes cidades que se orientam esses gran­ des movimentos migratórios: eles se irradiam nas regiões vizinhas.67. mais de 661 000 habitantes. ele também se produz. da cifra de aumento qüinqüenal. Ela é de 31. Essa proporção de estrangeiros é tanto mais elevada quanto mais populosas as cidades do departamento. eles desfrutam.47 no Rhône. só eles fo­ ram testemunhas do que os ancestrais faziam.

O respeito que tem por eles é. a autoridade da idade que faz em grande parte a autoridade da tradição. maiores os obstáculos às mudanças.296 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL lhas que a rodeiam e sente que depende delas. é transplantado para um novo meio. então. O respei­ to reverenciai que tem por elas se comunica naturalmen­ te a tudo o que provém delas.. Quanto mais profunda a influência destas últimas . Aliás. disso. que não sejam levadas demasiado energicamente a seguir os hábitos de suas predecessoras. nem atual. pois não corresponde a nenhuma realidade. É. não basta que novas gerações cheguem à luz. só pode respeitá-los por analogia.e ela é tanto mais profunda quanto mais duradoura . pois permanece. tudo o que pode contribuir para prolongar essa influência além da infância só pode fortalecer as crenças e as práticas tradicionais. contém as veleidades de inovação. de nosso desenvolvimento social”14. Por conse­ guinte. resultaria um “retardamento inevitável. é um fato conhecido que o culto da idade vai se debilitando com a civilização. Não depende deles e nunca dependeu. nem passada. O senti­ mento que tem por elas subsiste e. se a vida humana fosse decuplada. . Sem dúvida. pois. menor e de nature­ za mais convencional. pro­ duz os mesmos efeitos. também encontra aí homens mais velhos do que ele. isto é. É o que acontece quando o ho­ mem feito continua a viver no meio em que foi criado. Para que se produzam novidades na vida so­ cial. portanto. Mas é o inverso que se produz se o homem. ao sair da adolescência. por conseguinte. a tudo o que elas dizem e a tudo o que fazem. ademais. Auguste Comte tinha razão ao dizer que. relacionado com as pessoas que o conheceram criança e submetido à sua ação. Tão desenvolvido outrora. embora im­ possível de se medir. sem que a proporção respectiva das idades fosse modificada. é ne­ cessário. mas não aqueles cuja ação sofreu na infância. logo.

porque não são mantidos. inspiradas por uma espécie de piedade.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 297 reduz-se hoje a algumas práticas de polidez. Em conseqüência desse nivelamento. Portanto. os efeitos da educação primeira continuam a se fazer sen­ tir. de adquirir definitivamente formas determinadas. porque já não tem sua expressão material no contato contínuo das gerações sucessivas. saem de seus lares e subtraem-se à ação dos anciãos. Precisamente por se recrutar sobretudo pela imigra­ ção. esse germe de fraqueza desenvolver-se-á ne­ cessariamente com cada geração. Uma experiência característica demonstra essa influên­ cia da idade sobre a força da tradição. a população das grandes cidades compõe-se essen­ cialmente de pessoas que. os costumes dos ancestrais perdem sua ascendência. Todos os homens que chegaram à maturidade tratam-se mais ou menos como iguais. As pessoas são mais livres em relação a esses costumes. Esta é mais aba­ lada no exato momento em que perde suas forças. A solidariedade dos tempos é menos sensível. o núme­ . Os velhos são muito mais objeto de pena do que de temor. Uma vez dado. Por isso. porque são mais livres em rela­ ção às que os encarnam. e é de­ masiado intensa para se deixar disciplinar sem resistên­ cia. porque transmitimos com menos autoridade princípios cuja autoridade senti­ mos menos. As idades são nivela­ das. essa necessidade se satisfará com tanto maior facilidade quanto menos for contida do exterior. Sem dúvida. uma vez adultas. Esse momento da plena juventude é. pois já não possuem representantes au­ torizados junto ao adulto. A vida que circula neles ainda não teve tempo de se petrificar. de resto. aque­ le em que os homens mais sentem-se impacientes com qualquer freio e são mais ávidos de mudanças. e só pode satisfazer-se à custa da tradição. mas com menos força.

só coincidem nas idades de 15 a 20 anos e de 50 a 55 anos. Nelas. desfrutam de um prestígio quase igual àquele de que desfrutavam outrora os costumes dos ancestrais. constata-se ao mesmo tempo que. as novas ne­ cessidades se elaboram. Entre 20 e 50. as novidades. é nas grandes cidades que a influência moderadora da idade se encontra em seu mínimo. em Paris e na província. é mais baixa15.. o dos homens em pleno vigor é elevadíssimo. a curva parisiense é muito mais elevada. ao contrário. as tradi­ ções têm menos influência sobre os espíritos. os humores são tão móveis que tudo o que vem do passado é um pouco sus­ peito. segundo Jacques Bertillon. encontramos para cada 1 000 habitantes 731 de 15 a 60 anos e apenas 76 além dessa idade. as modas. Na Noruega. quaisquer que sejam. ao passo que. para 1 000 habitantes: cidades 278 205 110 . as relações são as seguintes.. em nenhum outro lugar. ao contrá­ rio.. Nelas.. 59 campo 239 183 120 87 de 15 a 30 anos de 30 a 45 anos de 45 a 60 anos mais de 60 anos Assim. De fato.. Quando a sociedade muda. No caso de todo o departamento do Sena. ao passo que a província tem 618 dos primeiros e 106 dos segundos. é geralmente seguindo-as e imitando-as. contavam-se em Paris 1 118 indi­ víduos de 20 a 25 anos para 874 no resto do país16. os costumes.298 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ro de velhos é pequeno nelas. Em 1881. para difundir-se em seguida pelo resto do país. os . é nelas que as idéias. Cheysson demonstrou que as curvas da população para cada grupo etário. as grandes cidades são os focos incontestes do progresso. além dos 50.

gostos. cujos inconvenientes já assinalamos várias ve­ zes. entre os hebreus. constataremos um re­ tomo do tradicionalismo. o res­ peito pelas tradições é muito maior do que durante a sua velhice. nelas. sobretudo. Tarde acreditou poder apresentar o declínio do tradicionalismo como uma fase simplesmente transitória. Enfim. paixões estão. ainda se tratava. são tão descontínuas. e o filósofo só se pronuncia pela afirmativa com a maior circunspecção19. entre nós. nelas a vida se transforma com uma rapidez extraor­ dinária: crenças. opondo-se a toda inovação18.”17 Esse erro decorre. Sem dúvida. Isso porque a vida coletiva não pode ter continuidade onde as diferentes camadas de unidades so­ ciais. ao recair. se aproximarmos o fim de uma socieda­ de do começo da que lhe sucede. para julgar a marcha dos acontecimentos sociais. uma crise passageira de toda evolução social. Observando que. mas essa fase. os costumes dos ancestrais foram objeto do culto supersti­ cioso que lhes era prestado em Roma. é sempre muito menos violenta do que fora no tipo imediatamente anterior. pela qual todo ti­ po social inicia. de sa­ ber se valia a pena mudar as leis estabelecidas para me­ lhorá-las. nunca houve em Roma uma instituição análoga à Tpacpf) itapavó^cov do di­ reito ateniense. “isto é. na Grécia. destinadas a se substituírem. do método de comparação seguido pelo autor. para fixar e consolidar. Ora. todo desvio em relação à regra tradicional era ainda mais completamente impossível. em perpétua evolução. diz. Por isso. a nosso ver. as conquis­ tas devidas à sua emancipação temporária. mesmo no tempo de Aristóteles. pois era uma impiedade. Nunca.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 299 espíritos são naturalmente orientados para o futuro. no momento de sua maturidade. “O homem só escapa do jugo dos costumes para tomar a cair nele”. durante a juventude das socieda­ des e. Nenhum terreno é mais favorável às evoluções de todo tipo. não se .

De outro lado. Nestas últimas. Qualquer tentativa de independên­ cia é objeto de escândalo público. este é um fato experimen­ tal que não pode ser contestado. o menor desvio é percebido e logo reprimido. a autoridade do costume diminui de maneira contínua. Quando a aten­ ção de todos está constantemente fixada sobre o que ca­ da um faz.300 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL deve enfdeirar as sociedades que se sucedem. mas compará-las apenas ao período correspondente da sua carrei­ ra. são vivíssimas. e a reprovação geral a ela ligada é de natureza a desencorajar os imitadores. basta comparar as grandes cidades com as pequenas. o indivíduo é muito mais emancipado do jugo coletivo. Portanto. . é menos capaz de conter as tendências divergentes que se manifestam. pois esse enfraquecimento depende das próprias condições que dominam o desenvolvimento histórico. Ao contrário. nas grandes cidades. é impossível ser de outro modo. mais acessível às mudan­ ças. à medida que se estende e se concentra. se é verdade que toda vida social tende a se fixar e a se tomar costumeira. III Enfim. Porque dependemos tanto mais intimamente da opinião comum quanto mais de perto ela vigia todos os nossos atos. Para certificar-se. De resto. é evidente que elas são cada vez menos capazes de perturbar a livre expansão das variações individuais. em outras palavras. a forma que ela adquire se toma cada vez menos resistente. por vezes. por conseguinte. já que as crenças e as práticas co­ muns extraem grande parte de seu vigor da força da tra­ dição. a sociedade envolve menos estreitamente o indivíduo e. quem procurar emancipar-se dos usos dominantes enfrenta resistências que.

em parte al­ guma se está tão bem escondido quanto numa multidão. como diz um provérbio. é cla­ ro que elas são tanto mais raras e curtas quanto maior é o número de indivíduos com que uma pessoa se relaciona. porque ela não se toma maior. nem a observar o que faz. É que a atenção de ca­ da um é distraída em demasiadas direções diferentes e. não somos estimula­ dos nem a nos informar sobre o que lhe acontece. cada um tem tanto maior facilidade de se­ guir seu próprio caminho quanto mais fácil for escapar desse controle. por não encontrar nenhum eco em nós. é incapaz de seguir os movimentos de cada indivíduo. e esse desejo é tanto mais ativo quanto mais numerosos e mais fortes são os estados de consciência assim desperta­ dos20. o que lhe diz respeito. Ademais. Só desejamos conhe­ cer os fatos e feitos de uma pessoa se sua imagem des­ perta em nós lembranças e emoções relacionadas a ela. Ora. nos dei­ xa indiferentes e. A vi­ gilância se faz menos bem. porque há demasiadas pes­ soas e coisas a vigiar. ao passo que estes se tomam mais numerosos. Eis por que a pressão da opinião se faz sentir com menos força nos grandes centros. o inte­ resse. Mesmo os vizinhos e os membros de uma mesma família mantêm contatos menos freqüentes e regulares./IS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 301 inversamente. a saber. além disso. as pessoas se conhecem menos. o grande motor da atenção. Portanto. mais a aten­ ção coletiva. separados que es­ . Ela se concentra em demasiados pontos ao mesmo tempo para poder se concentrar em algum. ao contrário. Quanto mais extenso e denso for um grupo. está mais ou menos ausente. por conseguinte. se tratar de alguém que só perce­ bemos de longe em longe e de passagem. por outro lado. a curiosidade coletiva é tan­ to mais viva quanto mais contínuas e freqüentes são as re­ lações pessoais entre os indivíduos. Se. dispersa numa ampla superfície.

A grande cidade resolve-se então num certo número de pe­ quenas cidades e. as observações prece­ dentes não se aplicam exatamente21. Como essa indiferença mútua tem por efeito relaxar a vigilância coletiva. e isso impunemen­ te. Mas onde quer que a densidade da população seja proporcional a seu volu­ me. por conseguinte. acabam rece­ bendo a consagração dos costumes. se a população for mais nume­ rosa do que densa. Um direito adqui­ rido de uma maior autonomia se funda. . dispersa numa maior extensão. ela reaja. quando ela é menos fortemente contida do exterior. Por outro la­ do. eles acabarão por tirar o vigor do sentimento coletivo que ofendem. contu­ do. na mesma medida. as intro­ missões cometidas pela personalidade individual. Julgamos intolerá­ vel um controle cujo hábito perdemos. ou. como conseqüên­ cia dessa diminuição do controle social. com efeito. se atos como esses houver que se repitam com bastante freqüência e uniformidade. a esfera de livre ação de cada indivíduo se estende efetivamente e. Sabemos. pouco a pouco. pode suceder que a vida. não encontramos mais a mesma evidência num artigo de fé que deixamos contestar em demasia. Assim. sem que. se nos toma tão necessária e nos parece tão sagrada quanto as demais. seja menor em cada ponto. Sem dúvida. mesmo os que nos são mais próximos e. que a consciência comum só conserva sua força com a condi­ ção de não tolerar as contradições. uma vez que usamos de uma liberdade.302 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL tão a cada instante pela massa dos assuntos e das pessoas de permeio. Portanto. Uma regra não parece mais tão respeitável do que quando deixa de ser respeitada. o fato se toma direito. são cometidos cotidianamente atos que a contradizem. os vínculos pessoais são raros e frágeis: perdemos com maior facilidade os outros de vista. nos desinte­ ressamos deles. passamos a ter necessidade dela.

além disso. como a distância material e moral entre as diferentes regiões tende a se dissipar. toda a nossa ação nela se concentra. em conseqüência. as correspondências mais ativas que troca. elas se acham. permanecem fechados uns aos outros. desviam seu olhar do que acontece à sua volta. Portanto. Porém. determina uma debilitação da consciência comum deve produzir. Ele estabe­ lece com localidades distantes relações tanto mais nume­ rosas quanto mais avançado for o movimento de concen­ tração. mesmo o habitante da pequena cidade vive menos exclusivamente a vida do pequeno grupo que o rodeia imediatamente. as perspectivas se estendem tanto mais quanto. etc. numa situação cada vez mais análo­ ga à dos diferentes bairros de uma mesma cidade. à medida que se ele­ va. Enquanto os diversos seg­ mentos. Mas à medida que a fusão dos segmentos se toma mais completa. a própria densidade moral da sociedade se torna se­ melhante a uma grande cidade que conteria em seus mu­ ros o povo inteiro. no mesmo momento. já que o desapare­ cimento do tipo segmentário acarreta um desenvolvimen­ to cada vez mais considerável dos centros urbanos. A cau­ sa que. os negócios que segue fora.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 303 Ora. cada um deles limita estreita­ mente o horizonte social dos particulares. não lhes é específico. De fato. Separados do resto da sociedade por barreiras mais ou menos difíceis de serem transpostas. Por conseguinte. a própria sociedade se torna geral­ mente mais extensa. nas grandes cidades. se esse fato é mais acentuado nas grandes cida­ des. também se produz nas outras. pois. nada nos desvia da vida local e. seu efeito em toda a extensão da sociedade. Suas viagens mais freqüentes. segundo a sua importância. eis uma primeira razão a fazer que esse fenômeno deva ir se generalizando. preservando sua individualidade. uma em relação às outras. O centro .

a peque­ na cidade tem menos domínio sobre ele. se há alguns deles que perdem toda a . ao contrário. Aliás. a va­ riabilidade individual aumenta. eles são apenas menos graves. porque eles ocupam menor espaço em sua existência. porque essas duas regiões são tão estreitamente solidárias que uma não pode ser atingida sem que a outra disso se ressinta. Portanto. Os atos que apenas os costumes reprimem não são de natureza dife­ rente daqueles que a lei pune. na realidade. que envol­ vam completamente o indivíduo. Seja a cidade grande ou pequena. Mas. os magistra­ dos não deixam impunes nem o criminoso. Por esses motivos. nem o delin­ qüente. de que seus interesses e suas afeições se estendem bem além. dir-se-á. pelo próprio fa­ to de que sua vida ultrapassa essa moldura exígua.304 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL da sua vida e de suas preocupações já não se encontra de maneira tão completa no lugar que habita. a opinião pública local pesa me­ nos sobre cada um de nós e. Numa palavra. parece que o enfraquecimento especial cuja causa acabamos de indicar deveria se localizar nessa parte da consciência coletiva que só determina reações difusas. seja a sociedade densa ou não. Mas. essa localização é impossível. ambos se debilitam à medida que essas divisões desaparecem22. a vigilância coletiva se afrouxa irremediavel­ mente. não podendo vigiar de perto a conduta de todos os cidadãos. Portanto. para que o controle social seja rigoroso e para que a consciência co­ mum se mantenha. a consciência comum perde sua autoridade. Portanto. os crimes e os delitos a que se referem as penas organizadas nunca deixam indiferentes os ór­ gãos encarregados de reprimi-los. é preciso que a sociedade seja dividi­ da em compartimentos pequenos o bastante. sem poder estender-se além. ele se interessa menos por seus vizinhos. como a opinião geral da so­ ciedade não está em condições de substituir a preceden­ te.

Ela toma possíveis os progressos da divisão do trabalho. já não se se indigna tanto com as blasfêmias ou os sacrilégios.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 305 gravidade. Ela existe porque não pode deixar .enfim. É que essa estrutura especial permite que a sociedade cinja melhor o indivíduo. por conseguinte. ou. Portanto. essa emancipação se revela útil. o mantenha mais fortemente preso a seu meio doméstico e. e são causas da mesma natureza que a fazem diferenciar-se de­ la. Quan­ do se adquiriu o hábito de tolerar complacentemente as uniões livres. também contri­ bui23 para tomá-lo concreto e definido. Quando os sentimentos mais fracos perdem sua energia. não podem conservar integral­ mente a sua. são cau­ sas totalmente mecânicas que fazem que a personalidade individual seja absorvida na personalidade coletiva. os senti­ mentos mais fortes. Assim. como é que a solidariedade mecânica se vincula à existência do tipo segmentário. Quando já não se dá grande importância à simples negligência das práticas religiosas. as­ sim como estabelecemos no livro precedente. agora. Sem dúvida. é utilizada. mas que são da mesma espécie e têm os mesmos objetos. às tradições . se é menos às grandes. o adultério escandaliza menos. con­ tribuindo para limitar o horizonte social. mais geralmente. pelo menos. a graduação correspondente dos outros é ao mesmo tempo perturbada. o abalo se comunica a toda a consciência comum. eles decrescem um ou vários graus e parecem menos revoltantes. IV Fica explicado. Mas não é por ser útil que se produz. Quando já não se é nem um pouco sensível às pequenas faltas. pouco a pouco. ela dá ao organis­ mo social mais flexibilidade e elasticidade.

A dúvida é ainda mais per­ mitida porque o espírito de casta teve certamente esse efeito e porque a casta é um órgão social.306 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL de existir. constitui-se uma multidão de morais e de direitos profissionais24. ela decorre. Mas essa regulamentação não deixa menos ampliada a esfera de ação do indivíduo. Ao mesmo tempo que é en­ carregada de funções especiais. À medida que o trabalho se divide. Em segundo lugar. o indivíduo desfruta da maior liberdade. É um segmento transformado em órgão25. o espírito profissional só pode ter influência sobre a vida profissional. É certo que as sociedades organizadas não são possí­ veis sem um sistema desenvolvido de regras que prede­ terminam o funcionamento de cada órgão. Antes de mais nada. constitui uma sociedade distinta no seio do agregado total. mas deixam indi­ . o órgão não desempenha o mesmo papel que o seg­ mento. A experiência dos serviços que ela presta não pode deixar de consolidá-la. o desenvolvimento das varia­ ções individuais. Podemos nos perguntar se. como essas regras só têm raízes num pequeno número de consciências. por muito tempo. mas não é um órgão propriamente dito. cuja origem acabamos de mostrar. eles nada ganhariam com a troca. Sabe-se tam­ bém quanto a organização das corporações de ofício pre­ judicou. É uma sociedade-órgão. Além dessa esfe­ ra. análoga a esses indivíduos-órgãos que observamos em certos organismos26. É verdade que a casta estende sua ação mais longe. É o que faz com que ela envolva o indivíduo de uma maneira muito mais exclusiva do que as corporações ordinárias. uma vez que ela existe. Citamos acima alguns exemplos. se o espírito corporativo e profissional não corre o risco de substituir o espírito de igrejinha e de exercer sobre os indivíduos a mesma pressão. da natureza de ambos. Nesse caso. nas sociedades organiza­ das. pois.

elas oferecem menor resistência às mudan­ ças. de uma ma­ neira geral. e isso tanto mais que. como fora. Assim. em virtude de sua própria natureza. . Por outro lado. É por esse motivo que. o que toma o indivíduo ainda mais livre para inovar. as mesmas causas que. Do mesmo modo. como. as faltas propria­ mente profissionais não têm o mesmo grau de gravidade do que as demais. deixam mais espaço livre para as divergências particula­ res. estorva-o cada vez menos. em geral. mais gerais e mais abstratas. o volume total da sociedade cresce no mesmo momento. elas têm uma auto­ ridade menor em conseqüência dessa universalidade me­ nor. a maior independência de que as novas gerações desfrutam em relação às mais velhas não pode deixar de enfraquecer o tradicionalismo da profis­ são. aliviam o jugo coletivo produzem seu efeito libertador tanto no interior da corporação. além disso. como as que são comuns a toda a sociedade e. em conseqüência. cada ór­ gão social se toma mais volumoso. pois. À medida que os órgãos segmentários se fundem.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 307 ferente a sociedade em seu conjunto. Portanto. As práticas comuns ao grupo profissio­ nal tomam-se. em princípio. não ape­ nas a regulamentação profissional prejudica menos do que qualquer outra o desenvolvimento das variedades in­ dividuais.

.

seria interessante determinar qual é. raciocinamos como se a divisão do trabalho só dependesse de causas sociais. cuja principal razão de ser seria “classificar os indivíduos segundo suas capacidades”1. No entanto. gostos e aptidões que o pre­ dispõem mais a certas funções que a outras. Portanto. O in­ divíduo recebe. ao certo. tanto mais que ele constitui um novo obstáculo à variabilidade individual e. elas se referem não às . ao nascer. como essas vocações nativas nos são trans­ mitidas por nossos ascendentes.) A HEREDITARIEDADE No que precede. De fato. seria necessário inclusive ver nessa diversidade das naturezas a condição primeira da divisão do trabalho.CAPÍTULO IV OS FATORES SECUNDÁRIOS ( cont. De acordo com a opinião mais comum. aos progressos da divisão do trabalho. por conseguinte. o papel desse fator. e essas predis­ posições têm certamente influência sobre a maneira co­ mo as tarefas se repartem. ela também está ligada a condições orgânico-psíquicas.

mesmo quando tal progresso seria útil.310 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL condições em que o indivíduo se acha atualmente colo­ cado.cia coletiva nos prendia a nosso grupo. ela nos desvia de nossa esfera de interesses próprios e das mudanças que nela se produzem. mais essa distribuição é invariável e. O obstáculo que o progresso encontra deste lado é até mesmo mais dificilmente superável do que o que vem da comunidade das crenças e das práticas. mas àquelas em que seus antepassados viviam. mas também que sua descendência lhes suceda nessas posições. . Um ser que recebesse da hereditariedade um legado demasiado considerável e demasiado pesado seria quase incapaz de mudança: é o caso dos animais. quanto maior o papel da hereditariedade na distribuição das tarefas. “o progres­ so da organização implica não apenas que as unidades que compõem cada uma das partes diferenciadas conser­ vem sua posição. a nossa raça. enquanto as tendências hereditárias são con­ gênitas e têm uma base anatômica. Quanto mais desenvolvida ela é. Assim. tendemos a viver como eles viveram. que só são capazes de progredir com extrema lentidão. diz Spencer. em conseqüência. mais nos imobiliza. como a consciên. Porque estas são impostas ao indivíduo do exterior e por uma ação moral. e para um passado que não nos é pessoal. A raça e o indivíduo são duas forças contrárias que variam em razão inversa uma da outra. por conseguinte. mais o progresso da divisão do trabalho é difícil. As células hepátieas que. Enquanto não fazemos mais que reproduzir e continuar nossos ancestrais. É o que acontece no or­ ganismo. pois. e comprometem. Elas nos encadeiam. “Num animal vivo”. e somos refratários a toda e qualquer novidade. nossa liberdade de movimento. Como essa parte de nós é toda ela voltada para o passado. A função de cada célula é determinada por seu nascimento.

mas podemos encontrá-la alhures. O chefe ou os chefes não se distinguem da multidão que di­ rigem.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 311 enquanto cumprem sua função. As poucas funções que começam a se especializar são eleti­ vas. ainda assim baseiam-se no mesmo princípio. no Egito. Onde as castas ten­ dem a desaparecer. que. ela não representa. No en­ tanto. as do sacerdócio. a divisão do trabalho se fixa sob uma forma que se transmi­ te hereditariamente: é assim que nascem as castas. para os cen­ tros nervosos. apesar de serem menos estreitamente fechadas para o exterior. Entre os ju­ deus. seu poder é tão restrito quanto efêmero. todos os membros do grupo se acham em pé de igualdade. Sem dúvida. res­ tritas e lentas. as únicas funções nitidamente separadas das outras.”2 Mas também as mudanças que se produzem na organização do trabalho fisiológico são muito raras. mas isso porque elas ainda não estão constituídas. origi­ nalmente. as células que delas descen­ dem não vão para os rins. a hereditariedade tinha sobre a repartição das funções sociais uma influência considerável. a so­ ciedade se divide da mesma maneira. eram estritamente hereditárias. A índia nos oferece o mais perfeito modelo dessa organização do trabalho. que englobavam as funções religiosas e que eram pri­ vilégio dos patrícios. assim que aparece de uma maneira caracterizada. Ora. crescem e dão origem a novas células hepáticas. são substituídas pelas classes. desse ponto de vista. cedem lugar a estas quando se dissolvem e desaparecem. na Pérsia. essa instituição não é uma simples conse­ qüência do fato das transmissões hereditárias. Muitas cau­ . O mes­ mo se dava em Roma no caso de todas as funções públi­ cas. mas se unem na consumação de suas fun­ ções. inúmeros fatos tendem a demonstrar que. Na Assíria. papel algum. para os músculos. entre os povos totalmente primitivos. Por certo.

fortalecia sua influência. A prova disso é que esse abalo se pro­ duz. não tivesse como efeito pôr cada um no lugar que lhe convinha. é impossível que um erro tão geral assim seja uma simples ilusão e não corresponda a nada na realidade. de fato. a maneira imutável com que se distribuíam. mas por si só. Não encon­ tramos vestígios seus apenas nos costumes de que acaba­ mos de falar e em outros similares. Foi dessa fé natural que nas­ ceu a hereditariedade da instituição. se. Sem dúvida. desde que essa discordância aparece. nem persistir por tanto tempo. Se o sistema das castas ti­ vesse sido contrário às aspirações individuais e ao inte­ resse social. pelo menos vaga. na transmissão hereditária. sabemos que os povos antigos tinham um sentimento vivo do que ela era. não teria podido produzir tais resultados. Numa palavra. em geral. essa classificação tradicional dos cidadãos logo teria sido abalada. Seria até possível sus­ tentar que essa fé foi mais viva nos tempos primitivos do que nas épocas civilizadas. na média dos casos. nenhum artifício teria podido mantê-lo. “têm uma fé. É certo que motivos . a educação.312 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL sas contribuíram para suscitá-la. De fato. e essa própria imutabilidade só pode ser devida à ação das leis da hereditariedade. diz Ribot. Mas ela não teria podido nem se generalizar a esse ponto. mas esse papel é ex­ presso diretamente em mais de um monumento literário3. Ora. os indivíduos não houvessem real­ mente nascido para a função que lhes atribuía o costume ou a lei. “Todos os povos”. as aptidões. esta última só pôde se tomar uma instituição social onde desempenhava efetivamente um papel social. então. pois. na me­ dida em que se dava totalmente no seio da família e se prolongava até tarde pelos motivos que já assinalamos. Se. A rigi­ dez dos marcos sociais apenas exprime. Porque ela só age proveitosa e eficazmente caso se exerça no mesmo sentido da heredi­ tariedade.

mesmo quando a lei não a impunha. O mesmo aconte­ cia com os judeus do tempo de Saul. um fato mais geral do que se crê de ordinário. Em todos os países de população mista. segundo a qual “a hereditariedade das profissões é o tipo primitivo. Num grande núme­ ro de tribos africanas. na Alemanha Oriental. qua­ se todos os artesãos são de raça estrangeira: o pedreiro é judeu. os ferreiros descendem de uma ra­ ça diferente da do resto da população. a forma elementar de . esse alto fa­ vor dos deuses. os pescadores durante séculos eram eslavos.”5 “Na Grécia”. muitas diferen­ ças de castas. em Esparta. entre os gregos. foi cultivada de início por um pequeno número de famílias. Hipócrates era o décimo sétimo médico da sua fa­ mília. As­ sim. ainda hoje coincidem com as de raças. como transmitindo-se na maioria dos casos de pai para filho. o curtidor e o tecelão são maometanos.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 313 sociais. “Os asclépios ou sacerdotes de Esculápio diziam-se descendentes desse deus. os descendentes de uma mesma família têm o hábito de dedicar-se a certas profissões. em muitas sociedades inferiores. também para as profissões artesanais. eram tidos. como.”4 Aliás. mas seria absurdo crer que alguém a inventou. o dom da profecia. diz Hermann. assim. a medicina.. Na índia. o armeiro e o ourives são gregos e coptas. “Na Abissínia. A arte divinatória.. a hereditariedade das profissões era com fre­ qüência a regra. que indicam diferenças de ofícios. entre os gregos. mas os costu­ mes haviam-na tomado. as funções se distribuem de acordo com a raça.”6 Ainda hoje. os cozinheiros e os flautistas.”7 Esses fatos emprestam grande verossimilhança à opinião de Lucas. políticos ou até mesmo preconceitos devem ter contribuído para desenvolvê-la e consolidá-la. “a hereditariedade da função só era prescrita pela lei em alguns estados e para certas fun­ ções mais estreitamente ligadas à vida religiosa.

. “A hereditariedade se nos apresenta aqui com suas características costumeiras: con­ servação. Se a estatística se estendesse longe o bastante no passado e. se não tivesse perdido nem um pouco de seus direitos sobre o indivíduo. no fundo. O progressivo desaparecimento destas últimas tende. Porque. e a ciência. O que é certo é que a fé na hereditariedade.314 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL todas as instituições baseadas no principio da hereditarie­ dade da natureza moral”. sem que se cogite inovar no que quer que seja. o que a consciência comum afirma não é que a hereditariedade não existe. o trabalho perma­ nece organizado da mesma maneira. Durante séculos. fi­ lho de suas obras e a desconhecer até os vínculos que o ligam à sua raça e fazem-no depender dela. não há contradição algu­ ma nisso. nada tem que contradiga esse sentimento. Ten­ demos a acreditar que o indivíduo é. ela nos ensinaria muito verossimilmente que os casos de profis­ sões hereditárias se tomam cada vez menos numerosos. É até um fato deveras curioso o de que a hereditariedade só entrou realmente na ciência no momento em que saíra quase completamente da crença. tão intensa outrora. de fato. a provar a realidade dessa emancipação. foi preci­ so que os homens conseguissem abalar o jugo da heredi­ tariedade. para que a di­ visão do trabalho tenha podido desenvolver-se. esta é uma opinião muito difundida e de que os psicólo­ gos da hereditariedade quase se lamentam. Mas também se sabe quão lento e difícil é o progres­ so nessas sociedades. como veremos. em maior parte. mas que seu peso é menor. pois não se vê como a hereditariedade teria podido se enfra­ quecer como instituição.”8 Por conseguinte. que o progresso quebrasse as castas e as clas­ ses. pelo menos. é hoje substituída por uma fé quase oposta. estabilidade. Aliás. se fosse mais bem informada sobre esse ponto. sobretudo.

De fa­ to. Ora. mostrar suas causas. menos apresentam os traços constitutivos da raça. todo o mundo está de acordo para reconhecer que o que caracteriza esta última é a existência de semelhanças hereditárias. os antropólogos tomam como base de suas classificações as características físicas. elas são cada vez me­ . pelo menos. mais se toma difícil defini-los em função de propriedades exclusiva­ mente orgânicas. se. porque elas são as mais hereditárias de todas. não se formaram novas raças. estabelecidas com o auxílio da lingüísti­ ca. quanto mais se afastam de seus pontos de origem. Desde os tempos mais remotos. as variedades humanas que se formam tor­ nam-se. so­ bretudo. nem bastante distintivas. caberá acrescentar que. pois. porque estas não são mais nem bastan­ te numerosas. estabelecer o fato diretamente e. mas não se tem razão alguma para admitir que sejam hereditárias. I Em primeiro lugar. da arqueologia e do direito comparado é que se tor­ nam preponderantes. com Quatrefages9. por isso.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 315 Importa. Semelhanças to­ talmente morais. menos hereditárias. porém. constituíram-se novos modos de atividade que não se en­ contram sob sua influência. Uma primeira prova dessa estagnação da hereditarie­ dade é o estado estacionário das grandes raças humanas. a hereditariedade perde seu do­ mínio no curso da evolução porque. dermos esse mesmo nome aos diferentes tipos oriundos de três ou quatro grandes tipos fundamentais. À medida que avançamos. simultaneamente. quanto mais os tipos antropológicos são circunscritos. Elas servem muito mais para distinguir civilizações do que raças.

o eu se dissolve len­ tamente até que não reste mais. se toma cada vez mais refratária a esse gêne­ ro de transmissão? O que os homens acrescentaram e acrescentam todos os dias a esse patrimônio primitivo que se estabeleceu faz séculos na estrutura das raças ini­ ciais. porque sua grande complexidade os mantém numa situação de equilíbrio instável. para cada atividade funcional e seus produtos. Mas se assim é no que concerne à corrente geral da civilização. De fato.316 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL nos raças. Assim. De ordinário. se não que a cultura humana. pois. Eles parecem essas construções eruditas cuja ar­ quitetura é tão delicada que pouca coisa basta para per­ turbar gravemente sua economia: à menor sacudidela. como as que são espe­ cíficas de um dos pais só se podem transmitir em detri­ mento do outro. por assim dizer. escapa. mais se decompõem facilmente. nos casos de paralisia geral. O que signi_fica isso. cada vez mais. A impotência progressiva de nossa espécie pa­ ra produzir novas raças cria o mais vivo contraste com a fecundidade contrária das espécies animais. é sob o choque da doença que se produzem esses fatos de de­ sorganização. quanto mais os estados são comple­ xos. senão a base orgânica na qual repousava. Com efeito. à medida que se desenvolve. se estabelece entre eles uma espécie de luta de que é impossível saírem intactos. Mas concebe-se que a transmissão seminal deva ter efeitos análogos. É uma verdade estabelecida que o grau de simplici­ dade dos fatos psíquicos dá a medida da sua transmissibilidade. porque. isto é. as características estritamente individuais tendem a se neutralizar mutuamente. pondo a nu o terreno que cobria. Porém. no ato da fecundação. à ação da hereditarie­ dade. com maior razão é válido para cada um dos afluentes particulares que a formam. quanto . o edifício abalado rui. Os fatos que seguem confirmam essa indução.

co­ mo despreza então o que têm de pessoal e de distinto. em todo caso só podem so­ breviver esmaecidos e debilitados. que nos distinguimos uns dos outros. porque. Ao contrário. diferenciados à imagem das próprias coisas a que se referem. se não desaparecem completamente na transmissão hereditária. No entanto. é um erro acreditar que nossa atividade se simplifica à medida que nossas tarefas se delimitam. Pelas partes inferiores e fundamentais de nosso ser. de nosso temperamento. empreende explicar o mundo. é por estes últimos. a um indício imperceptível. Portanto. observamos no tipógrafo que compõe uma pági­ na. cos­ tumes. pela simples força do pensamento. quan­ do se trata de nos adaptarmos a objetos particulares e es­ peciais. no médico que. Uma vez ordenados e constituídos. de nosso sexo. só podemos lográ-lo combinando um grande núme­ ro de estados de consciência. com a do cientista de ho­ . ao contrário. as aptidões são tanto mais complexas quanto mais forem especiais. imagens. mais traz a marca das circunstâncias particulares em que vivemos. mas permanecem muito com­ plexos. Que prodigiosa reunião de idéias. ela se re­ duz a alguns movimentos bastante gerais que convêm numa série de circunstâncias diversas. para visar apenas o que eles têm em comum.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 317 mais um estado de consciência é complexo. De fato. mais é pes­ soal. é quando se dispersa sobre uma multidão de objetos que ela é simples. nós nos parecemos muito mais do que por esses píncaros. de maneira a levar em conta todas as suas nuances. reconhece de imediato uma doença e prevê ao mesmo tempo sua evo­ lução! Comparem a técnica tão elementar do filósofo an­ tigo. do sábio que. Ora. esses sistemas funcionam sem dúvida com mais facilidade e rapidez. no matemático que combina uma multidão de teore­ mas esparsos e faz brotar deles um novo teorema.

mas que. etc. a troca de cartas. de educação. ou. citados casos em que aptidões pro­ fissionais parecem ser hereditárias. não tendo perdido nada de sua indeterminação primeira. quanto mais especiais as faculdades. Foram. De fora. percebemos uma sucessão ininterrupta de acon­ tecimentos variados. Pu­ ra ilusão! Olhem no fundo das coisas e verão que tudo se reduz a um pequeno número de faculdades gerais e sim­ ples. etc. Por conseguinte. Essa su­ perfície em que brilham tantas cores sabiamente matiza­ das cobre um fundo de deplorável monotonia. elas podem mudar mais facilmente sob a influência das circunstâncias de família. se elas conseguem passar de uma geração a outra. mais escapam da ação da hereditariedade. nada ergueu de pessoal e de duradouro no terreno que a natureza lhe legou. para prender-se em seguida a outros. quanto mais as formas da atividade se es­ pecializam. que só consegue resolver um problema bastante parti­ cular por meio de uma complicadíssima combinação de observações. Numa palavra. desprendem-se com facilidade dos obje­ tos a que se ligam. mais dificilmente são transmissíveis. contudo. Elas são menos irresistíveis e mais maleáveis. O diletante é que conserva intacta sua simplici­ dade primitiva. mas não soube transformá-las e remanejá-las para extrair delas uma obra nova e definida. de fortuna. não podem deixar de per­ der sua força e sua precisão. parece ter uma porção de gostos e aptidões diversas. Das tabelas construí­ . mas é o mesmo ator que representa todos os papéis com trajes um pouco diferentes.. de experiências. discussões. Como tem por ofício interessar-se por tudo. etc. O diletan­ te atenuou e afinou as potências de seu ser.318 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL je. em conseqüência de sua maior indeterminação. graças a leituras de obras escritas em todas as línguas. A complexidade de sua natureza é ape­ nas aparente.

de nada adianta citar este ou aquele caso particular. em que ela se produziu ou parece ter-se produzido. consideradas isoladamente. cirurgiões e farmacêuticos. Mas es­ sas observações não têm. nenhum valor de­ monstrativo. além disso. entre as populações protestantes. tende a provar quão restrita é a ação da hereditariedade nessas carreiras. no caso. queremos dizer apenas que. parece resultar que houve por vezes ver­ dadeiras dinastias de cientistas. de que de Candole pôde refazer a genea­ logia. estabelecido por de Candolle. Somente então poder-se-ia julgar se de fato demonstram que a hereditarie­ dade tem uma grande influência sobre a maneira como se dividem as funções sociais. não pensamos sustentar que a transmissão de aptidões especiais é radicalmente impossí­ vel. o número total destes últimos. Dos 100 associados estrangeiros da Aca­ demia de Paris. eles constituem um total muito mais considerável do que . farmacêuticos e veterinários são quase tão nu­ merosos quanto os eclesiásticos. 14 descendem de ministros protestantes e apenas 5 de médicos. ela não ocor­ re. estabeleceu que os filhos dos cien­ tistas “ocuparam-se freqüentemente de ciência”10. mas seria necessário. conquanto essa comparação não possa ser feita metodicamente. 8 são filhos de pastores. 4 apenas têm como pais homens dessa arte.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 319 das por Galton. em geral. Ora. No entanto. “nos países fora da França. quando acrescenta­ mos os dos países puramente católicos que não a França. dos 48 membros estrangeiros da Real Sociedade de Londres. De Candolle. poetas e músicos. De fato. De fato. um fato. por sua vez. ver que papel representam no conjunto das vocações científicas. e. deve ser bastante superior ao dos eclesiásticos protestantes. Portan­ to. porque só pode efetuar-se por um milagre de equilí­ brio que não poderia renovar-se com freqüência. os médicos. Em 1829. ci­ rurgiões.

para esses encontros isolados e quase excepcionais que observamos hoje em dia. para um espírito generoso e sensato. que constituem. suas pesquisas. Ainda assim.320 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL o dos pastores e ministros protestantes. não é em absoluto certo que essas vo­ cações científicas dos filhos de cientistas devam-se real­ mente à hereditariedade. não basta constatar uma similitude de gostos entre os pais e os filhos. porém. Se o sucesso nas ciências fosse apenas um problema de hereditariedade. tal regularida­ de não pode se explicar por um simples concurso de cir­ cunstâncias exteriores. estímulos enérgicos. Os estudos que os homens da arte médica fizeram e os trabalhos a que devem se consagrar habitualmente para sua profissão es­ tão muito mais na esfera das ciências do que os estudos e os trabalhos de um pastor. os filhos dos cientistas se acham em contato com espíritos cultos ou aptos a receber uma alta cultura. Ora. de fato. nos estabelecimentos onde realizam seus estudos. em nossas listas do que filhos de pastores”11. Enfim. Para ter o direito de atribuí-las a ela.. além disso. e a ação desse novo meio apenas confir­ ma a do primeiro. O mesmo não vale. etc. porque seria um milagre que este se produzisse em cada caso com tão perfeita identidade. de utilizar seus livros. seu la­ boratório. seria necessário. todos os filhos de cientistas que foram objeto da observação foram criados em suas famílias. haveria muito mais filhos de médicos. nas sociedades em que é de regra que o filho siga a profissão do pai. o desejo de se parecer com o pai. suas coleções. . Sem dúvida. Há também os conse­ lhos e o exemplo. farmacêuticos. em que en­ contraram naturalmente mais apoio intelectual e incentivo do que seus pais haviam recebido. que estes úl­ timos tivessem manifestado suas aptidões depois de terem sido criados desde a primeira infância fora de sua família e num meio estranho a qualquer cultura científica.

e os únicos importantes para a carreira são os que persistem. o indivíduo que se distingue nu­ ma ciência ou que continua a cultivá-la com prazer nun­ ca deixa de dizer que é. exerceram ocupa­ ções bem diferentes”13. o exemplo e os conselhos dados devem ter exercido uma influência mais acentuada do que a hereditariedade na carreira especial . Na Suíça. insetos. Se elas se devessem à hereditariedade. a imensa maioria. Nesse caso. seriam igualmente hereditárias em todos os países. a paixão de fazer ver­ sos ou peças de teatro e que. quando jovens. houve nos últimos dois séculos mais cientistas agrupados por família do que cientistas isolados. esses gostos mu­ dam. um gosto inato. mais tarde. os cientistas filhos de cientistas existiriam na mesma proporção em to­ dos os povos de mesmo tipo. mas que não se tomam naturalis­ tas. os fatos manifesta­ ram-se de uma maneira bem diferente. Basta pensar na multidão de crianças que caçam borboletas ou fazem coleções de conchas. Aliás. como de Candolle observa. Portanto. Ao contrá­ rio. no entanto. as mesmas para todos os homens. Outra observação do mesmo autor mostra quão grande é a ação do meio social sobre a gênese dessas aptidões. As leis fisiológi­ cas são. Na França e na Itália. “Ora. Também conheço bom número de exemplos de cien­ tistas que tiveram. a educação em cada família. os que têm gostos especiais na infância e esqueceram-nos. a quantidade de cientistas que são únicos em sua família constitui. é difícil saber se esses gostos “são de nascimento ou pro­ vêm das impressões vivas da juventude e das influências que as provocam e as dirigem.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 321 É verdade que vários cientistas ingleses a que Gaiton12 se dirigiu insistiram sobre um gosto especial e inato que teriam sentido desde a infância pela ciência que mais tarde cultivariam.. não falam deles. Mas. nele. etc. ao contrário.

afastados das influências familiares. O que o fi­ lho recebe dos pais é alguma força de atenção. levará a toda parte sua natureza própria. se o acaso o colocar no mundo dos negócios.322 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL dos jovens cientistas. sua necessidade de criar e imaginar sua paixão pelo no­ .”1 4 Portanto. Eis uma criança dotada de uma imaginação bastante viva. não há motivo algum para se admitir a “existência de vocações inatas e imperiosas por objetos especiais”15. se vive num meio industrial. tomar-se-á um enge­ nheiro de espírito inventivo. compreender por que essa influência foi mais forte na Suíça do que na maioria dos países. Claro. mas o que ela transmite são faculdades bastante gerais.de dezoito ou vinte anos em todos as cidades. e não uma aptidão particular por esta ou aquela ciência. o filho de um grande viajante pode. É fácil. os estudos são feitos até a idade . isto é. Isso não quer dizer que a hereditariedade não tenha influência. Mas cada uma dessas faculdades pode convir a uma mul­ tidão de especialidades diferentes e garantir o êxito ne­ las. etc. na escola. Isso era válido sobretudo no século passado e na primei­ ra metade do século atual. “o filho de um grande filólogo não herda um só vocábulo. uma certa dose de perseverança. Aí. junto dos pais. notadamente na França e na Itália. um juízo sadio. encontrando-se. elas não são a regra. será talvez um dia um ousado fi­ nancista. e em tais condições que os alunos vivem em casa. ser superado em ge­ ografia pelo filho de um mineiro”16. sempre foi costumeiro os jovens serem educados em colégios em que moram. imaginação. nas duas cidades que forneceram a maior proporção de cientistas unidos entre si por vínculos de família. Como observa igualmente Bain. Em outras partes. tornar-se-á pintor ou poeta. logo tem relações com artistas. se vocações há. pelo menos. em particular em Genebra e Basiléia. de resto. por conse­ guinte.

mas também as formas específicas da criminalidade eram um produto da heredi­ tariedade. mas com a qual teria podido tomar-se igualmente administrador. embora nocivas. ei-las: vontade. isso que seu filho nos ensina17. Se essa proporção fosse prova­ . se nos lembrarmos que esses dois talentos se desen­ volveram bem cedo na história da humanidade. Portanto. devidas a uma heran­ ça direta dos pais. por vezes. um naturalista. Foi isso. acreditou-se até poder elevar a mais de 40% “a cota do criminoso nato”18. Essa aparente anomalia não surpreen­ derá. O mesmo se pode dizer de outra vocação. a vocação para o crime. possuem até uma técnica complexa. espírito or­ deiro. é evidente que as circunstâncias tive­ ram um papel importante na escolha da sua carreira. e é. pois. A música é a primeira das artes e a matemática a primeira das ciên­ cias que os homens cultivaram. essa dupla faculdade de­ ve. historiador. po­ lítico. mas as carreiras em que poderá utilizar seus talentos e satisfazer sua inclinação são numerosíssimas. Ora. o que de Candolle estabeleceu por uma observação direta.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 323 vo. Ele assinalou as qualidades úteis nas ciências que seu pai herdara de seu avô. de fato. É seguramente uma bela herança. juízo sadio. ser mais geral e menos complexa do que se crê. como foi de Candolle. ou. Somente o espíri­ to matemático e o sentimento musical poderiam ser com freqüência disposições de nascença. uma certa força de atenção. um excelente médico. O vigarista e o falsário são obrigados a desen­ volver mais ciência e mais arte em seu ofício do que mui­ tos trabalhadores normais. e é isso o que explicaria sua transmissibilidade. distancia­ mento para as abstrações metafísicas. aliás. sustentou-se que não ape­ nas a perversão moral em geral. um grande industrial. as diferentes variedades do crime e do delito são profissões. economista. enfim. Segundo a justa observação de Tarde. independência de opinião.

então poder-se-ia invocar. Se o filho manifestasse sua aptidão ao rou­ bo depois de ter sido criado numa família perfeitamente sadia. à parte que. ele constitui anatômica e fisiologicamente o tipo do cri­ minoso. por vezes. basta para explicar essa crimi­ nalidade endêmica. etc. Costuma-se citar casos de famílias intei­ ras que se dedicaram ao mal. seria necessário concluir que a hereditariedade tem. seria necessário poder isolar a ação da hereditariedade da ação das circunstâncias. sobretudo as primeiras. bastará estabelecer a proporção dos delinqüentes que apresentam o tipo assim definido. grande influência sobre a maneira como se re­ partem as profissões. Pa­ ra interpretar assim os fatos. e isso durante várias gera­ ções. Para demonstrá-la. não é pos­ sível determinar a importância relativa da hereditariedade no conjunto das vocações criminosas.324 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL da. numerosíssi­ mas. O número nada tem a ver com isso. por vezes. tais observações. . da educação. dessa maneira. inclusive as profissões especiais. não constituem ex­ periências demonstrativas. O método seguido por Lombroso seria mais conclu­ dente se produzisse os resultados prometidos pelo autor. determina­ das pela hereditariedade. com razão. Em vez de enumerar certo número de casos particulares. por mais numerosas que possam ser. No entanto. Como as características anatômicas e fisiológicas. a influência da hereditariedade. que é o mesmo para toda a família. isto é. Do fato de que o filho de um ladrão se tome ele mesmo ladrão não decorre que sua imoralidade seja uma herança que seu pai lhe legou. mas possuímos bem poucas obser­ vações desse gênero que tenham sido feitas metodica­ mente Não se escapa da objeção observando que as fa­ mílias assim levadas ao mal são. qualquer que seja a extensão desta. são congênitas. porque o meio doméstico. dois métodos diferentes foram experimentados.

nem de práticas muito complicadas. Por conseguinte. todo o essencial para sustentar sua per­ sonagem. Há. ela seria considerá­ vel. Na Idade Média. Mas a cifra citada exprime apenas a freqüência relati­ va do tipo criminoso em geral. na realidade. é sabido. mas não se pode deduzir nada no que concerne às formas particulares do crime e do delito. tudo o que se pode concluir é que a propensão ao mal em geral é com freqüência hereditária. Aliás. não necessitava de muitos conhecimentos. o mes­ mo número de degenerados honestos. e ele a recebia com o sangue. disso não decorre que a neurastenia leva sem­ pre e irreversivelmente ao crime. Ora. O levita e o brâmane. dos neurastênicos19. em que as funções são bastante gerais. para cumprir com seu dever. Portanto. Tudo o que se percebe é que ele se parece com o dos degenerados. o que deve adquirir por si mesmo é pouca coi­ sa em comparação ao que recebe da hereditariedade. há muitos neu­ rastênicos. se as aptidões são tanto menos transmissí­ veis quanto mais são especiais. o nobre. pelo menos. entre os criminosos. não precisavam de uma ciência mui­ to volumosa — podemos medir suas dimensões a partir . Vimos que. Nas sociedades inferiores. Muitos traços que o constituem se encontram em outros tipos. ao nascer. para cum­ prirem a sua função. que esse pretenso tipo criminoso não tem.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 325 para medir exatamente a influência da hereditariedade sobre essa atividade especial. hoje em dia. quando não são ho­ mens talentosos ou de gênio. elas requerem ap­ tidões igualmente gerais. segundo Lombroso. que podem mais fácil e mais in­ tegralmente passar de uma geração a outra. a importância da heredi­ tariedade na organização do trabalho social é tanto maior quanto menos dividido é este. nada de específico. Cada um re­ cebe. se esse fato é uma prova de que. mas sobretudo de coragem.

só se pode ter êxito numa delas. Já que a aptidão profissional era mais uma qualidade da raça do que do indivíduo. em conseqüência. uma vez que esta nasceu sob o império de outras causas. uma mesma capacidade geral pudesse servir em profissões diferentes! Mas. precisamente porque o trabalho é pouco especializado. bastava ter um gosto natural pela observação e pelas coi­ sas concretas e.326 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL das dos livros que a continham mas necessitavam ter uma superioridade nativa da inteligência que os tomasse acessíveis a idéias e sentimentos que ao vulgo eram ve­ ndados. Sem dúvida. É fácil explicar que. por conseguinte. não saberia o que fazer dela. era natural que assim fosse com a função. ela durou porque se mostrou perfeitamente conforme tanto aos gostos dos indivíduos. Se. não era necessário receber uma cultura muito extensa. pelo menos. vale para a hereditariedade das funções o que se apli­ . Em última análi­ se. a hereditarie­ dade se tomou uma instituição social. só há um pequeno nú­ mero de funções separadas umas das outras por diferen­ ças nítidas. porém. só podia haver vantagem em que a lei consagrasse o princípio dessa distribuição. não foram essas causas totalmente psicológicas que puderam suscitar a organização das castas. portanto. Para ser um bom médico na época de Esculápio. Já que as funções se distribuíam imutavelmente da mesma maneira. ele não poderia ter uma parte maior na escolha da sua carreira e. como esse gosto é geral o bastante para ser facilmente transmissível. como aos interesses da sociedade. Quando ao indivíduo cabe apenas a menor parte na for­ mação de seu espírito e de seu caráter. A margem deixada às combinações individuais ain­ da é restrita sob esse aspecto. a pro­ fissão médica fosse hereditária. era inevitável que se perpetuãsse em certas famílias e que. nessas condições. se mais liberdade lhe fosse deixada.

para todas as classes da população. Por isso. mas de toda a série de gera­ ções. Por isso. porque não lhe pertencem. ela é. O mesmo não sucede nas sociedades mais volumo­ sas. ao mesmo tempo que a tolera. em conse­ qüência da pouca vitalidade que as funções econômicas têm então.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 327 ca à dos bens. Como as funções são mais diversificadas. Para valorizar o legado hereditário. o que diminui sobretudo a importância relativa desta última é que a parte das aquisições indivi­ duais se toma mais considerável. consiste em imóveis. uma alienação do patrimônio ainda é considerada uma infração. que. Mesmo que o direito tempere suas primeiras proibições. mas a fa­ mília. A coragem é tão necessária ao mineiro. Eles são da família. ao aeronauta. o indivíduo. é daí que vem o direito de retrato. uma mesma faculdade pode ser­ vir em profissões diferentes. uma defecção. O gosto pela observação pode igual­ mente fazer de um homem um romancista. É uma traição para com a raça. Numa palavra. em que o trabalho é mais dividido. o que um casamento morganático é para a aristocracia. representa a parte mais importante do patrimônio de cada família. a herança trans­ mitida pelos antepassados. a orientação do indivíduo é predeterminada de uma maneira menos necessária pela hereditariedade. ser coletivo. não é ele que possui. ao médico e ao engenheiro quanto ao soldado. No entanto. É por isso que os bens patrimoniais são inaliená­ veis. na maioria dos casos. um químico. um dramatur­ go. é necessário acrescentar-lhe muito mais que . um naturalista ou um sociólogo. composto não apenas de todos os membros da geração atual. nenhum dos representantes efêmeros do ser domés­ tico pode dispor deles. como a função é da casa. a lei lhe coloca por muito tempo toda sorte de obstáculos. não pode acrescentar muita coisa ao patrimô­ nio hereditário. Nas sociedades inferiores.

o homem de bem do século XVII. os cruza­ mentos se fazem numa superfície mais vasta. conosco. reformular a nature­ za. Se ainda fossem idênticas nos dois genitores. a obra dos séculos. adquirir todo um mundo de idéias. as aptidões simplesmente gerais não mais bastaram. de todos os conhecimentos necessários à ciência que cultiva.e poder-se-á apreciar a importância e a variedade das combinações que se sobrepuseram pouco a pouco ao fundo primitivo. Compare-se e tomamos pontos de comparação bem próximos um do outro . seria um erro acreditar que cada geração recomeça. coordená-los. Foi preciso submetê-las a uma elaboração ati­ va. Mas. o que tomaria qualquer progresso im­ . dar-lhe uma forma e uma figura novas. com sua coragem e sua altivez naturais. Elas se acham num estado de equilíbrio instável que não seria capaz de resistir a um forte abalo. à medida que as funções se foram espe­ cializando. Sem dúvida. cos­ tumes. sistematizá-los. Eles já não são tão estreitamente obrigados a re­ petir o que seus pais fizeram. integralmente. e o oficial de ho­ je. Mas tal identidade é absolutamente excepcional. De fato. se necessário. depois. aproximan­ do indivíduos de temperamentos mais diferentes. e só transmitimos a nossos descenden­ tes um germe indeterminado dela. modificar com maior facilidade seu desenvol­ vimento. Toda essa magnífica vegetação de estados de consciência mor­ re. pois. movimentos. essas dou­ tas combinações são frágeis. e o cientista moderno. por serem extremamente complexas. à medida que as sociedades se estendem e se adensam. o nobre de outrora. poderiam talvez sobreviver à crise da geração. eles podem. com seu espí­ rito aberto e pouco ilustrado. É a eles que cabe fecundá-lo novamente e. por conseguinte. ar­ mado de todas as práticas.328 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL outrora. elas são específicas de cada sexo. Em primeiro lu­ gar. com sua técnica laboriosa e complicada .

Quanto mais se eleva acima. . do nada. nos hábitos que a educação proporciona. não percebendo mais o patrimônio hereditário sob as adições que o enco­ brem. Um campo mais vasto se acha aberto. Mas a tradição é um vínculo muito menos forte do que a here­ ditariedade. à medida que o trabalho se.divide. pois. já não sente tanto a sua importância. a civilização só pode se fixar no or­ ganismo pelas bases mais gerais sobre as quais repousa. e as matérias-primas que ex­ clusivamente ela nos fomece têm uma importância capi­ tal. mais. Nessas condições. ela predetermina de uma maneira sensivel­ mente menos rigorosa e menos nítida o pensamento e a conduta. nas tradições de toda sorte. O patrimônio hereditário conserva um enor­ me valor. Mas. Sem dúvida. Portanto. Vimos. cada vez mais uma coisa social.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 329 possível. mas porque. não que tenha cessado de ser uma lei da nossa natureza. Do fato de que o passado não mais se transmite com o sangue não decorre que ele se aniquile: ele per­ manece fixado nos monumentos. já se explica porque a hereditariedade desapareceu das instituições sociais e porque o vulgo. como a própria tradição se tomava mais flexível à medida que as sociedades se tomavam mais densas. nada podemos tirar. às variações individuais. para viver. ela se toma cada vez menos uma coisa orgânica. e se amplia cada vez mais. já não é por intermédio do corpo que ela se pode perpe­ tuar .em outras palavras. precisa­ mos de armas que ela não nos pode dar. mas não representa mais que uma parte cada vez mais restrita da fortuna individual. então. mas as que acrescentamos àquelas não têm importân­ cia menor. aliás. ela perde seu domínio. por conseguinte. se li­ berta do corpo. a hereditariedade é cada vez mais incapaz de garantir sua continuidade. Numa palavra.

menos imperiosa. co­ mo têm como único efeito substituir um instinto por ou­ tro instinto. ao mesmo tempo que a in­ . mas também porque as que ela transmite perturbam menos as variações individuais. Ela não aprisiona mais a atividade do animal nu­ ma rede rígida. A hereditariedade se toma um fator menor do desenvolvimento humano. Podemos medir a importância do legado hereditário numa espécie dada pelo número e força dos instintos. requerem um longo desenvolvimento. é a aptidão a agir de maneira diferente conforme as circunstâncias”. “Não é mais a aptidão inconsciente para formar uma combinação de atos indeterminados. mas dá-lhe maior liberdade. ajustada a uma finalidade estritamente determinada. o instinto é uma maneira de agir definida. a rigor.330 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL II Há mais. é dizer que é menor. pode-se fazê-lo desviar. um mecanismo especial por outro da mesma natureza. mas não só esses desvios. Dizer que a influência da hereditariedade é mais geral. mais vaga. Há motivos de sobra para se crer que o contingente hereditário diminui não apenas em va­ lor relativo. Ele é fossilizado em sua forma. Como obser­ va ainda Perrier. quanto mais o animal pertence a uma espécie elevada. mais o instinto se torna facultativo. já é notável que a vida instintiva se debilita à medi­ da que subimos na escala animal. Sem dúvida. Ele leva o indivíduo a atos que são invariavelmente os mesmos e que se reproduzem au­ tomaticamente. mas em valor absoluto. Ora. Ao contrário. diz Perrier20. De fato. não apenas porque há uma multidão cada vez maior de no­ vas aquisições que ela não pode transmitir. para serem estáveis. quando as condições necessárias são da­ das. “no animal. porém. É uma conjetura que os fatos que se seguem tomam bastante verossímil.

Tal hipótese é contrária a to­ das as analogias. contentamo-nos com afirmar sua existência. Mas.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 331 teligência aumenta. ins­ tintivos no animal. teriam subitamente perdido sua energia? Mas é evidente que elas se confun­ dem com as próprias causas que determinam o progresso geral das espécies e. libertou-se totalmente do instinto? Mas ainda hoje sentimos seu jugo.”21 Seria de­ masiado longo enumerar todos os movimentos que. a inteligência do homem não cessou de se desenvolver. Por enquanto. como este não se detém. logo. Quando passamos dos animais ao homem. só que o faz sabendo o que faz e por que faz. embora não seja possível esta­ belecer essa proposição por uma observação positiva dos . e mais até. elas tam­ pouco podem ter-se detido. que continua de uma maneira ininterrupta das espécies animais inferiores às espécies mais elevadas. Essa consciência de seus atos parece libertá-lo de todos os instintos que o levariam ne­ cessariamente a consumar esses mesmos atos. e destas ao homem. então. Com efeito. “O homem faz tudo o que os animais fazem. desde as origens. Mesmo onde sobrevive. do dia em que entrou na história. cuja continuidade acabamos de ver. Por conseguinte. está demonstrado que a inteligência e o instinto variam sempre em sentido inverso um do ou­ tro. o instinto tem menos força e a vontade pode subjugá-lo mais facilmente. cesse bruscamente com o advento da humanidade. deixaram de ser hereditários no ho­ mem. essa re­ gressão é ainda mais acentuada. não cabe procurar de onde vem essa relação. Será que o homem. É contrária inclusive a fatos bem estabe­ lecidos. Será que as causas que determinaram essa progressiva emancipação. Ora. não há motivo algum para supor que es­ se movimento de recuo. o instinto teve de seguir o caminho inverso. as condições da hereditariedade mo­ dificam-se profundamente”.

confundidos com uma multidão de outros. todas as formas possíveis de rostos. em relação a um mesmo tipo hereditário. as­ sociado a um nariz romano. Outro fato corrobora o precedente. mas também as raças antigas vão sempre regre­ dindo. Em conseqüência de seu isolamen­ to. a importância destas últimas está sempre au­ mentando. Não apenas a evolução não fez surgir novas raças desde o início da história. deve-se crer que a hereditariedade perdeu terreno no curso da evolução humana. Os tipos individuais adquirem relevo cada vez maior em detrimento do tipo genérico. um esquimó parecia-se exatamente com um negro. Segundo as observações feitas por Virchow. de resto. o mesmo fenômeno deve se reproduzir de maneira muito mais acentuada em nossas grandes so­ ciedades contemporâneas. O mesmo se dá com a cútis. os esquimós parecem situados em condições bastante favoráveis à manutenção da pureza de sua raça. no canal de Spafarret. Essa dispersão e esse desapareci­ mento começaram. Se assim é em socieda­ des tão restritas. No passo de Hotham. encontra­ mos lado a lado todas as variedades possíveis de crânios... Sua tez é ora bem escura. uma raça é formada por certo número de indivíduos que apresentam. característico da raça germânica. o tipo louro.332 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL fatos. inclusive dentre povos mui­ to pouco avançados. já não podem ser facilmente reunidos num todo provido de alguma unidade. os li­ mites individuais permitidos. uma conformidade suficientemente grande para que as variações individuais possam ser despreza­ das. só foi . entre eles. Ora. não é raro (King). De fato. O rosto oval. Na Europa central. “as variações de estatura superam. No en­ tanto. ora bem clara”22. dispersos por toda parte. de dez milhões de crianças de diferentes classes da Alema­ nha. indefinidamente diversificados. cujos caracteres constitutivos. com um judeu (Seeman).

essa relação de desvio. Mas não se vê por que a lei se apli­ caria a uns e não aos outros. Galton não apenas estabeleceu esta lei para a estatu­ ra. pelo menos de maneira aproximada. que vão piorando progressivamente. É verdade que só centra suas observações nos desvios qualitativos que os indivíduos apresentam em re­ lação ao tipo médio. em rela­ ção a esse padrão fixo. mas se aproximará mais da mediocridade. ela também só deve transmitir direito os atributos que se encontram nela. os únicos caracteres que se transmitem regular e integralmente pela hereditarie­ dade num grupo social dado são aqueles cuja reunião constitui o tipo médio. mas também para a cor dos olhos e as faculdades ar­ tísticas. Galton conseguiu até mesmo medir.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 333 observado de 43 a 33 vezes por 100 no Norte. nessas condições. Se se convier chamar de pai médio um ser compósito que representaria a mé­ dia de dois pais reais (os caracteres da mulher são trans­ postos de maneira a poderem ser comparados com os do pai. ao mes­ mo tempo que explicam. cujas observações e cujos cálcu­ los parecem dificilmente refutáveis. o desvio do filho. O que vale para as grandezas anormais . se fo­ rem demasiado pequenos. um filho nascido de pais excepcionalmente grandes não terá sua altura. será maior que eles. será de dois terços do do pai25. As recentes pesquisas de Galton confirmam. adicionados e divididos). o antropólogo não possa constituir tipos nitidamente defi­ nidos. É explicável que. Inversamente. de 32 a 25 vezes no Centro e de 24 a 18 no Sul23. esse enfraquecimento da influên­ cia hereditária24. Se a regra é que a heredita­ riedade só transmite os atributos constitutivos deste tipo no grau de desenvolvimento em que estes se encontram. Segundo este autor. Assim.

Por conseguinte. por conseguin­ te às mais ordinárias. o tipo médio de um grupo natural é o que corresponde às condições da vida média. por ser imediata. em geral. mas a das gerações anteriores é suscetível de se acumular quando se exerce no mesmo sentido e. Essa lei se explica.334 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL dos caracteres normais deve valer. portanto. é ele que se repete com maior freqüência e da maneira mais uniforme na sé­ rie das gerações anteriores. elas puderam mudar. sem dificuldade. só se modificam com lentidão. passar de uma geração à outra debilitados e tender a de­ saparecer. isto é. sensivelmente o mesmo du­ rante muito tempo. Essas condições médias eram as mais freqüentes no passado pela mesma razão que faz que sejam as mais gerais no presente. Eles devem. Os caracteres que o constituem são os que maior resistência apresentam. De fato. mas de todos os seus ascendentes. graças a esse acúmulo que com­ pensa os efeitos da distância. mas. tanto físico quanto social. ao meio em que o maior número vive. os que se afastam só sobrevivem num estado de indeterminação . que tendem a se trans­ mitir com maior força e precisão. pelo menos nas que são pró­ ximas o bastante para fazer sentir sua ação de maneira eficaz. para os próprios caracteres anormais. É graças a essa constância que ele adquire uma fixidez que o transforma no centro de gravidade da influên­ cia hereditária. Ora. Ele exprime a maneira como os in­ divíduos se adaptaram ao que se pode chamar de ambien­ te médio. ela pode alcançar um grau de energia suficiente para neutralizar ou atenuar a prece­ dente. com maior razão. sem dúvida. com o tempo. são as condições em que estava situada a maior parte de nossos ascendentes. um filho não herda apenas de seus pais. em geral. O tipo médio permanece. a ação dos primeiros é particularmente forte. ao contrário. pois. É verdade que. aliás.

precisaria ser ligeira­ mente retificada. já que o tipo médio de duas gerações. Ora. as modifi­ cações orgânicas e psíquicas resultantes acabam fixando- . mas aqueles que seriam obtidos tirando a média dos ti­ pos médios das gerações sucessivas. Eis por que os desvios que se produzem são apenas passa­ geiros e. rigorosamente falando.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 335 tanto maior quanto mais considerável for o desvio. os caracteres cujo grau de transmissibilidade é máximo. aliás. o tipo médio de nossos as­ cendentes só se confunde com o da nossa geração na me­ dida em que a vida média não mudou. longe dessa identidade ser a lei. até mesmo características físicas tão simples quanto a estatura média ou a cor média dos olhos mudar pouco a pouco. um pouco diferente. inclusive. de fato. tomando-se ao pé da letra a proposição de Galton. não são aqueles cujo conjunto constitui o tipo médio. de uma geração da­ da. Mas se. produzem-se entre uma geração e outra variações que acarre­ tam mudanças na constituição do tipo médio. como a estatura ou a cor dos olhos. se observassem outras propriedades. da que o próprio Galton propôs. ao con­ trário. seja psí­ quicas. não se poderia explicar como a média do grupo po­ de progredir. é porque ele só a verificou para características físicas que são relativamente imutáveis. pois. Ora. A verdade é que. permite conjeturar que sua lei. Com efeito. seria idênti­ co. se se produzem no ambiente mudanças duradouras. seja orgânicas. Todavia. Se os fatos recolhidos por Galton parecem confirmar sua lei tal como a formulou. aplicando o mesmo método. mesmo que distantes uma da outra. para ser perfeitamente exata. Por conseguinte. embora muito lentamente26. as sociedades seriam sempre e invencivelmente reduzidas ao mesmo nível. aliás. só conseguem manter-se por algum tempo de uma maneira muito imperfeita. essa explicação. vemos. Sem essa retificação. é certo que os efeitos da evolução seriam percebi­ dos.

segundo a afirmação de Perrier. o tipo duplamente com­ posto que resulta da superposição de todos esses tipos médios é ainda mais abstrato do que cada um deles e as­ sim se toma cada vez mais. quanto mais as sociedades per­ tencem a uma espécie mais elevada. já que é a hereditarie­ dade desse tipo que constitui a hereditariedade normal. Por outro lado. Sem dúvida. as características que o formam são tanto mais definidas quanto mais identicamente se repetem nos diferentes membros do grupo. isto é. Por conseguinte. Portanto. As variações que se produzem de passagem não poderiam. Portanto. um aspecto mais esquemático. conforme estabelecemos. pois. Ao contrário. e isso tanto mais quanto mais diferenciada for a sociedade. O homem médio adquire uma fisionomia cada vez menos nítida e acentuada. ter o mesmo grau de transmissibilidade que os elementos que se repetem constantemente. esse tipo deve compreender menos traços determinados. Ora. quando essa iden­ tidade é completa. É uma abstração cada vez mais difícil de se determinar e de se delimitar. pois a tradição se toma mais branda. sabemos que as dessemelhanças individuais vão se multi­ plicando. . o tipo médio muda de uma ge­ ração a outra. que os elementos constitutivos do tipo médio se diversificam cada vez mais. O tipo médio resulta da superposição dos tipos indi­ viduais e exprime o que têm de mais em comum. vê-se que. eles aí se encontram integralmente. quando variam de um indivíduo ao outro. as condições desta última se modificam profundamente. o que delas subsiste no tipo médio se reduz a lineamentos tanto mais gerais quanto maiores são as diferenças. Por conseguinte. como os pontos pelos quais coincidem são mais raros.336 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL se e integrando-se no tipo médio que evolui. com todas as suas características. mais rapidamente evoluem. porque. inclusive suas nuances. Logo.

Duas gerações também bastam para que nossas abelhas da Borgonha. Não são mais. se os indivíduos apresen­ tam maior número de caracteres dessemelhantes. é-lhe mais fácil adaptar-se às novas circunstâncias que se produzem. mecanismos com­ pletos. Não apenas há um número crescente de coisas sobre as quais ela não tem poder. grandes e amarelas. mas as propriedades cuja continuidade ela assegura se tomam mais plásticas. A herança não se tomou menos rica. Mas o que a he­ reditariedade transmite consiste cada vez mais em predis­ posições indeterminadas. assim. pequenas e marrons. “Por ve­ zes”. pois. como outrora. a hereditarie­ dade sempre deixa cada vez mais espaço às novas com­ binações. e tudo depende do uso que deles será feito. se tornem. mais cômodos e mais rápidos27. por assim dizer. transportado para a Lombardia. A maio­ ria dos valores de que é composta ainda não são realiza ­ dos. O indivíduo fica.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 337 isso não quer dizer que ela transmita menos coisas de uma maneira absoluta. Sabe-se. tor­ naram-se instáveis. porque. “as menores causas transformam rapidamente esses organismos que. em maneiras gerais de sentir e de pensar que podem se especializar de mil maneiras di­ ferentes. se toma um boi lombardo em duas gerações. com efeito. mas ao abalo que sofreram em conseqüência das mudanças pelas quais passaram. na Bresse. mas tendências muito vagas que não comprometem definitivamente o futuro. . exatamente organizados tendo em vista fins espe­ ciais. e os progressos da divisão do trabalho se tornam. O boi suíço. mas já não está por inteiro em bens líquidos. Essa flexibilidade maior dos caracteres hereditários não se deve apenas a seu estado de indeterminação.” Por todas essas razões. menos fortemente preso a seu passado. que um tipo é tanto mais instável quanto mais desvios sofreu. diz Quatrefages. também apresentam maior número de caracteres.

.

o indivíduo pode se mover. na própria índia. Na Ro­ ma primitiva. Em qualquer país. a divisão do trabalho social se distingue da divisão do trabalho fisiológico por uma ca­ racterística essencial. Mesmo onde os marcos da organização são os mais rígidos. as ta­ refas nunca foram repartidas de uma maneira tão imutá­ vel. o plebeu podia empreender livremente to­ das as funções que não eram exclusivamente reservadas aos patrícios. cada célula tem seu papel definido e não pode mudá-lo.CAPÍTULO V CONSEQÜÊNCIAS DO QUE PRECEDE i O que precede permite-nos compreender melhor a maneira como a divisão do trabalho funciona em nossa sociedade. isto é. No organismo. Desse ponto de vista. com uma certa liberdade. do próprio . mesmo que o inimigo se apodere da capital. as carreiras atribuídas a cada casta tinham uma generalidade suficiente para dar espaço a uma certa opção1. Na sociedade. no interior daquele em que a sorte o fixou.

Por isso. para servi-lo em diferentes empregos.340 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL cérebro da nação. que a própria lei impedia que se movimentasse com facilidade. da psicologia à sociologia. nada a preparara. o cientista. essa flexibilidade e essa liberdade se tomam maiores. pois ter-lhe-ia sido necessário renunciar à própria ciência. Como nada é mais variável do que os gostos e as necessidades a que correspondem essas funções. . não podia mudar de função. é um tra­ balhador deixar sua carreira pela carreira vizinha. é freqüente ele se consagrar sucessivamen­ te a diferentes ciências. O princípio segundo o qual todos os empre­ gos são igualmente acessíveis a todos os cidadãos não se teria generalizado a esse ponto se não recebesse aplica­ ções constantes. é necessário que os traba­ lhadores mantenham-se prontos para segui-lo e. retira-se para ir aplicar-se alhures. À medida que o trabalho se divide. a imobilidade era o es­ tado quase natural do capital. no entanto. hoje mal podemos segui-lo através de todas as suas transformações. Essa aptidão a assumir sucessivamente formas bastante diver­ sas em parte alguma é tão sensível quanto no mundo econômico. ao cabo de um tempo relativamente curto. Hoje. da fisiologia à psicologia. outra ci­ dade se acha em condições de desempenhar essa função Gomplexa para a qual. é necessário que o comércio e a indústria mantenham-se num perpétuo estado de equilíbrio instável. Ao passo que. Vê-se o mesmo indi­ víduo elevar-se das ocupações mais humildes às mais im­ portantes. Quan­ do a atividade científica não era especializada. a vida social nem por isso é suspensa. por con­ seguinte. onde só se fixa por alguns instantes. para pode­ rem dobrar-se a todas as mudanças que se produzem na demanda. passar da química à biologia. tama­ nha é a rapidez com a qual se investe num empreendi­ mento. O que é ainda mais freqüente. mas. outrora. abraçando quase toda a ciência.

de que se toma pouco a pouco prisioneira. pelo uso que delas faz. Sua estrutura predetermina sua vida. Acabamos de ver que o mesmo não ocorre na sociedade. é por lhe ser imposto por seu nascimento. ela é aprisionada num sistema de hábitos hereditários que marcam sua vida e do qual não se pode desfazer. e que podem assu­ mir diferentes formas. Como necessita empenhar suas faculdades em funções particulares e especializá-las. a faculdade que ele intensifica em detrimento das demais é chamada a tomar formas defini­ das. como essa especialização . Porém. Ademais. é obrigado a submeter a uma cultura mais intensiva as que são mais imediatamente requeridas por seu emprego e deixar as outras se atrofiarem em parte. não pode superexcitar suas faculdades de análise e de reflexão sem debilitar a energia da sua vontade e a vi­ vacidade de seus sentimentos. nem tomar o hábito da observação sem perder o da dialética. sua constituição congênita não o predestina necessariamente a um papel único. não pode desenvol­ ver seu cérebro além de certo ponto sem perder uma parte de sua força muscular ou de sua potência reprodutora. Se o papel de cada célula é determinado de maneira imutável. a uma carreira especial. pela pró­ pria força das coisas. É verdade que ele próprio as determina. Ela não pode sequer mo­ dificá-los sensivelmente. Ela con­ trai o hábito de certas práticas. que se toma tanto mais difícil de mudar quan­ to mais tempo já dura. Assim. de um funcionamento de­ terminado. tomando-o incapaz de qualquer outro. logo bastante flexíveis.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 341 A natureza das causas de que depende a divisão do trabalho social explica essa característica. por terem afetado de maneira demasiado profunda a substância de que é formada. por suas origens. O indivíduo não está destinado. mas recebe da hereditariedade apenas predisposições muito gerais.

por­ que esse fenômeno de substituição não é específico dos seres muito simples: observamo-lo igualmente nos graus mais elevados da hierarquia. Era. “as perturba­ ções consecutivas à ablação de certos domínios da parte externa do cérebro desaparecem com freqüência após um lapso de tempo mais ou menos longo. Assim. somos levados a nos perguntar se não chegará o dia em que a sociedade assu­ mirá uma forma mais nítida. Assim. Como o indivíduo é que está empenhado nelas. à medida que a organização se aperfeiçoa. terá uma função definida e não mudará mais. nem a rigidez que tão-somente uma longa hereditariedade pode produzir. essa espécie de ressurreição já seja mais difícil. é sobretudo entre os ani­ mais inferiores que as diferentes partes do agregado po­ dem mudar tão facilmente de função e substituir umas as outras. reanimar sua vitalidade. notadamente nos órgãos su­ periores dos organismos superiores. pelo menos o estado transitório de um ser inacabado em via de formação. o pensamento de Comte2. Somos tentados. Essas práticas são mais maleáveis por terem uma origem mais recente. O que implica que os elementos . para dizer a verdade. pode despren­ der-se das mesmas para contrair novas práticas. recolocá-las no primeiro plano. a função dos elementos suprimidos. à primeira vista. torna-se-lhes cada vez mais impossível sair do papel que lhes é atribuído. por substituição. a ver nesses fatos fenômenos de regressão ou a prova de certa inferiorida­ de. De fato. muito embora. cada in­ divíduo. é certa­ mente o de Spencer3.342 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL resulta de esforços puramente individuais. ela não tem nem a fixidez. Esse fenôme­ no só pode ser explicado pela seguinte suposição: outros elementos desempenham. Ele pode até mesmo despertar faculdades entorpecidas por um so­ no prolongado. ao que parece. Mas a indução é precipitada. em que cada órgão. Ao contrário.

Mui­ to mais. mas total interesse em que adquiram uma forma defi­ nitivamente determinada. graças a uma mudança de condições. nos quais essa substituição é sempre in­ completa e quase impossível. segundo Wundt. somos quase obrigados a supor que. por exemplo. se uma nova repartição de todas essas funções pode se efetuar quando as condições de transmissão são modifi­ cadas. uma especialização rígida não é necessariamente um sinal de superioridade.. fator de uma sensação tátil. Sem dúvida. mesmo que muito gran­ de. não há inconvenien­ te. esse elemento estará em condições de reunir dentro de si uma pluralidade de funções diferentes”4. Isso porque. Mas é muito diferente quando as circunstâncias de que cada órgão depende . das funções nutritivas no organismo individual. Elas não são sujeitas a grandes mudanças para um mes­ mo tipo orgânico. Eis por que o pólipo. Enfim. é menos bem armado para a luta do que os animais mais elevados.. se torna. Um elemento que. é útil onde o próprio meio é fixo: é o caso. apresentam-se oscilações ou variações que dependem do desenvolvimento variável dos indivíduos”6. E também assim que os nervos motores podem se tomar centrípetos e os nervos sensíveis se transformam em centrífugos5. por conseguinte. “mesmo no estado normal. Longe de ser boa em toda e qualquer circunstância. se a rede central da malha nervosa tem o poder de transmitir fenô­ menos de diversas naturezas a um só e mesmo elemento. uma fixidez.4S CAUSAS E AS CONDIÇÕES 343 substituidores são exercitados para as novas funções. efetua uma sensação visual. que. de uma sensação muscular ou da enervação motriz. de fato. quando das relações normais de con­ dução. é muitas vezes interessante que o órgão não fique petrificado em seu papel. há motivos para presumir. cujos te­ cidos interno e externo se substituem com tanta facilida­ de.

Para permanecer adaptada. de todos os meios que existem. observa-se que esse afrouxamento se pro­ duz à medida que as sociedades e suas funções se tor­ nam mais complexas. é ne­ cessário. Sem dúvida. particular às moléculas. pois. o que atesta essa flexibilidade relativa e sempre crescente é que a função se toma cada vez mais independente do órgão. •por causa de sua complexidade. em que as tarefas são gerais e simples. é porque o vínculo entre esses dois termos se toma mais frouxo.344 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL mudam com freqüência. é porque mantém uma relação menos es­ treita com a forma do órgão. É o que acontece com as funções complexas e que nos adaptam aos meios complexos. a dobrar-se às novas situações. então. Nas sociedades inferiores. já que essa complexidade aumenta à medida que o trabalho se divide. De fato. Com efeito. mas um arranjo destas últimas que tome quase impossível qualquer outro modo de vibrações. se a função adquire maior maleabilidade. não há nenhum mais complexo do que o meio social. Portanto. nada imobiliza uma função como o fato de estar ligada a uma estrutura demasiado definida. nem que se oponha mais às mudanças. porque. são essencialmente instá­ veis: produz-se neles sem cessar alguma ruptura de equilí­ brio. Em definitivo. as diferentes classes que . Ela implica não apenas certa ma­ neira de vibrar. De fato. não há nenhum que seja mais estável. mas que recuam cada vez mais. Uma estrutura não é apenas uma maneira determinada de agir. Ora. é natural que a especialização das funções sociais não seja definitiva como a das funções biológicas e. estes últimos. alguma novidade. portanto. essa elasticidade se toma cada vez maior. é uma maneira de ser que requer certa maneira de agir. ela está sempre encerrada em limi­ tes determinados. que a função também esteja sempre pronta a mudar. de todos os arranjos. é preciso mudar ou pere­ cer.

verossimilmente. constatar-se-ia. essas diferenças de regime acarretam diferenças físicas. Erskine observa uma diferença análoga entre os nativos das ilhas Tonga. cada órgão se distingue dos outros anatomicamente. Nas ilhas Sandwich. quanto pela posição social e pelas riquezas. cada camada da população tem sua maneira de se alimentar. Ellis diz que os chefes taitianos estão. quase sem exceção.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 345 delas são encarregadas se distinguem umas das outras por características morfológicas.”7 Ao contrário. bem-feitos e musculosos. Como ca­ da casta. “Os chefes das ilhas Fidji são altos. sobretudo se levarmos em conta a maior diferenciação das funções. Até se vangloriam de não terem o aspecto de seu ofício. tão acima do camponês pela força fí­ sica. nas sociedades superiores. os chefes são grandes e vi­ gorosos. e sua aparência é de tal modo superior à do po­ vo que dir-se-ia serem de raça diferente. Um fato que confirma essa presunção é que o uso das vestimentas profissionais cai cada vez mais em desu­ so. De fato. pois desaparecem à medida que as funções sociais se diferen­ . muito embora as vestes tenham servido cer­ tamente para tomar sensíveis diferenças funcionais.. esses contrastes desaparecem. as pessoas de nível inferior proporcionam o espetáculo de uma magreza que provém de um trabalho acabrunhante e de uma alimentação mi­ serável. Se. Muitos fatos tendem a provar que os homens destinados às diferentes funções sociais se distinguem menos que outrora uns dos outros pela forma de seu corpo. por seus traços ou seu porte. etc. a estatística e a antropometria se aplicassem a determinar com maior precisão as carac­ terísticas constitutivas dos diversos tipos profissionais. de se vestir. em outras palavras. não se poderia ver nesse papel sua única razão de ser. que eles são menos dife­ rentes do que no passado. se­ gundo o desejo de Tarde. Confirmando o relato de Cook.

por conseguinte. é. pois. longe de ser um sinal de inferioridade. Portanto. ou de não usá-la. para se mani­ festar inclusive através das roupas. não vemos como teriam tido a idéia de se distinguir dessa maneira. isso não significa que todos os cérebros sejam indiferentemente aptos a todas as funções. aliás. Se. portanto. depois de se te­ rem produzido e constituído espontaneamente. antes de mais nada. No en­ tanto. os homens das diferentes classes já não tivessem apresentado diferenças somáticas aparentes. mas que sua indiferença funcional. como o hábito de trazer a barba cortada desta ou daquela maneira. que os tipos morfológicos se nivelam. A diversidade dos trajes simboliza. se repro­ duzem por imitação e de forma artificial. Pois. antes da instituição dessa prática. O traje não nos parece ser ou­ tra coisa senão o tipo profissional. É como o prolongamento desta. o qual. embora permanecendo limitada. marca-os e diferenciaos à sua imagem. apenas prova que aquela se toma mais complexa. Ora. diferenças morfológicas. devem corresponder a dessemelhan­ ças de outra natureza. Por certo. ou de ter cabelos curtos ou compridos. é que essa distinção já não corresponde a nada na realidade. etc. Isso é evidente sobretudo no que concerne a essas distinções que desempenham o mesmo papel que o traje e vêm certamente das mesmas causas. as dessemelhanças funcionais tomam-se cada vez mais numerosas e pronunciadas. São características do tipo profissional que. se torna maior. Se os membros das di­ versas profissões não sentem» mais a necessidade de se distinguirem uns dos outros por sinais visíveis.346 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ciam mais. Esses sinais exteriores de origem convencional devem ter sido inventados unicamente como imitação de sinais ex­ teriores de origem natural. é porque essas diferenças somem. essa emancipação da função. se eles desaparecem. se é mais difícil para os elementos .

a função do órgão. de fato. Elas são plásticas por mais . ela não lhes escapa definitiva­ mente. a aprisio­ na. por conseguinte. o progresso teria por efeito destacar cada vez mais.AS CA USAS E AS CONDIÇÕES 347 constitutivos dos tecidos se arranjarem de maneira a encamã-la e. é uma verdade há muito estabelecida pelos naturalistas. O vínculo entre as segundas e as primeiras vai. a partir de certo momento. é no entanto gran­ de. É por­ que o espiritualismo tem o sentimento de que é este o caráter das formas superiores da existência que sempre se recusou a ver na vida psíquica uma simples conse­ qüência da constituição molecular do cérebro. Que ela é. só que. De fato. por conseguinte espiritualizando-a. Mas não há motivo para supor que essa força de assi­ milação seja indefinida. portanto. se não é absoluta. Podemos até nos perguntar se. Tudo faz presumir. independente da forma do substrato. nem mesmo que possa haver ausência de qualquer relação entre esses dois termos. quando é geral e simples. que fica impossível. mais livre. sem todavia separá-los. sabemos que a indiferença funcional das diferentes re­ giões do encéfalo. que. para este. Sem dúvida. daí não decorre que a função possa existir fora de qualquer órgão. absorvê-la completamente. por­ que o órgão a assimila facilmente e. mas a relação se toma menos imediata. as funções cerebrais são as últimas a adqui­ rirem uma forma imutável. se afrouxando. ao contrário. a vida da matéria. se ela não acaba por exceder a tal ponto o órgão. a partir de cer­ to grau de complexidade. retê-la e aprisioná-la. ela não pode perma­ necer por muito tempo nesse estado de liberdade. com isso. mais complexa. Por isso. tor­ nando-a mais flexível. é por­ que ela é feita de disposições demasiado inteligentes e delicadas. Portanto. se toma cada vez maior a desproporção entre a simplicidade das disposições mo­ leculares e a complexidade das disposições funcionais.

determinamos ao mesmo tempo o fator essencial do que chamamos de civilização.348 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL tempo do que as outras e conservam tanto mais sua plas­ ticidade quanto mais são complexas. Desse ponto de vista. é porque não há para eles outra maneira de viver nas novas condições em que es­ tão colocados. pois. não como um bem entrevisto e deseja­ do de antemão. mas como o efeito de uma causa. Portanto. se as funções sociais apresentam essa mesma característica de uma maneira ain­ da mais acentuada. trabalharem mais. como a resultante necessária de um estado dado. mas por corresponderem a um está­ gio ainda mais elevado do desenvolvimento da natureza. A partir do momento em que é mais con­ siderável o número de indivíduos entre os quais as rela­ ções sociais são estabelecidas. a arte e a atividade econômica se desenvolvem. eles não se podem manter se não se especializarem mais. Não é o pólo em direção ao qual se orienta o desenvolvi­ . Ela própria é uma conseqüência necessária das mu­ danças que se produzem no volume e na densidade das sociedades. e desse estímulo geral resulta ine­ vitavelmente um grau mais elevado de cultura. sua evolu­ ção se prolonga até muito mais tarde no homem douto do que no homem inculto. não é em conseqüência de uma exce­ ção sem precedentes. II Ao determinarmos a causa principal dos progressos da divisão do trabalho. não como uma finalidade que move os povos pela atração que exerce sobre eles. Se a ciência. é em conseqüência de uma necessidade que se impõe aos homens. estimu­ larem suas faculdades. a civilização aparece. Assim. do qual procuram garantir por todos os meios a maior parte possível.

É por essa superatividade da vida geral cansar e apurar nosso sistema nervoso que são necessárias repara­ ções proporcionais a seus dispêndios. e o que determina a velocidade dessa marcha é a pressão mais ou menos forte que exercem uns em relação aos outros. ao contrário. Mas é um ajuste a posteriori. se observar que ele representa um papel igualmente capital na história dos organismos. nem a moralidade aumentam necessariamente com a intensidade da vida. mas não são os serviços que ela presta que a fa­ zem progredir. por si mesma. Ninguém se espantará com a importância assim atri­ buída ao fator numérico. que os benefícios que traz a esse título não são um enriqueci­ mento positivo. Isso não quer dizer que a civilização não sirva para nada. Cumpre acrescentar. porque nem a felicidade. Por aí vê-se melhor ain­ da quão errado é fazer da civilização uma função da divi­ são do trabalho: ela é apenas um reflexo desta. porque dependem das mesmas causas. Não po­ de explicar nem sua existência. só tem razão de ser na medida em que a própria divisão do trabalho se revela necessária.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 349 mento histórico e de que os homens procuram se aproxi­ mar para serem mais felizes ou melhores. e a reprodu­ . é utilizado. satisfações mais variadas e mais complexas. pelo menos. ele corresponde a necessidades que se formaram ao mesmo tempo. Ela se desenvolve porque não pode dei­ xar de se desenvolver. mas. além disso. Eles caminham porque é pre­ ciso caminhar. mas apenas reparam as perdas que ela mesma cau­ sou. um aumento de nosso capital de felicida­ de. isto é. nem seus progressos. pois não tem. conforme sejam mais ou me­ nos numerosos. uma vez efetuado. esse desenvol­ vimento costuma ser útil ou. De fato. valor intrínseco e absoluto. o que define o ser vivo é a dupla prioridade que ele tem de se alimentar e de se reproduzir.

Toda vida social é constituída por um sistema de fatos que derivam de re­ lações positivas e duradouras. isto é. Se de cada um deles extrai-se tudo o que se deve à ação da socieda­ de. então. estabelecidas entre uma pluralidade de indivíduos. como exigiu o apare­ cimento de organismos complexos. porém. de sua maior ou menor vitalidade? Veremos. Não é surpreendente que o desenvol­ vimento social esteja submetido à mesma lei. por sua vez. o fato que domina todo o desenvolvi­ mento zoológico. tanto a concentração das forças vi­ tais como sua maior energia.350 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ção não é. Como as partes constitutivas do animal são. pois. determinam tanto a divisão do trabalho como o polimorfismo. em certas condições. ao número de ele­ mentos que o organismo é capaz de incorporar. sem recorrer a essas razões de analogia. Aliás. o que não apenas tomou possível. mais que uma conseqüência da nutrição. ela é tanto mais intensa quanto mais freqüentes e mais enérgicas são as reações trocadas entre as próprias unidades compo­ nentes. Por isso. o resíduo que obtemos. Por conseguinte. as condições da vida social mudam e são essas mudanças que. suas relações não são mais as mesmas. ã atividade da nutrição. Por conseguinte. de que dependem essa freqüência e essa energia? Da natureza dos elementos em presença. mantendo-se iguais todas as demais coi­ sas. ela mesma. não é capaz de apresentar uma grande variedade. além de se reduzir a pouca coisa. Ora. mais numerosas. os organismos mais simples permanecem agrupados de maneira a formar agregados mais volumo­ sos. foi que. a intensidade da vida orgânica é proporcional. que os indivíduos são muito mais um pro­ duto da vida comum do que a determinam. O aumento da substância orgânica é. neste mes­ mo capítulo. é fácil explicar o papel fundamental desse fator. Sem a diversidade das condições sociais de que depen­ .

Será. Quanto mais são numerosos e quanto mais de perto exercem sua ação uns sobre os outros. há. em cada momento de sua história. mais rea­ gem com força e rapidez. por conseguinte. é apenas necessário para que as energias latentes apare­ çam à luz do dia. na duração desigual dessas rela­ ções? Mas o tempo. não é nas aptidões desiguais dos homens que se deve buscar a causa do desenvolvimento desigual das sociedades. é essa intensificação que constitui a civilização8. um fim digno de ser perseguido o de procurar aproximar a socie­ dade o mais possível desse grau de perfeição. por si mesmo. o caminho a seguir para alcançar es­ se objetivo pode ser abreviado. Se a saúde está na natureza. Cada indivíduo sadio tem traços mais ou menos numerosos deste tipo. Mas. portanto. A saúde. uma certa intensidade de vida coletiva que é normal. se tudo suceder normalmente. É. um objeto de desejo. portanto. porém ninguém reúne todos eles. a vida social se toma intensa. Por outro lado. Com certeza. as diferenças que os separam seriam inexplicáveis. Se. numa palavra. para uma sociedade. em vez de deixar as . a civilização pode se tomar um fim. um ideal. da­ do o número e a distribuição das unidades sociais. também es­ tá a doença. esse estado se realizará por si mesmo. não produz nada.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 351 dem. nas sociedades como nos organis­ mos individuais. Ora. ao mesmo tempo em que é um efeito de cau­ sas necessárias. ninguém po­ de se propor fazer de tal sorte que as coisas sucedam de maneira normal. isto é. De fato. mais. precisamente. Portanto. só resta como fator variável o número de indivíduos que se relacionam e sua proximi­ dade material e moral. nada mais é que um tipo ideal que não é realizado em parte alguma por inteiro. então. o volume e a densidade da sociedade. mas.

ao mesmo tempo. a reflexão intervier para dirigir seu curso. para desperstar aspirações e fazer. por reflexão não se deve entender ex­ clusivamente um conhecimento científico do fim e dos meios. para o homem culto. cuja realização só é possível graças a essa própria antecipação? De que tudo se faz de acordo com leis não decorre que nada possamos fazer. O desenvolvimento do indivíduo não reprocluz o da espécie. Mas. Aliás. com vistas a facilitar a experiên­ cia futura. porque ela é igualmente uma utilização da experiência anterior. mas omite algumas e percorre outras mais de­ pressa. há repre­ sentações obscuras a que são ligadas tendências. Mas isso é esquecer que. Talvez achem mesqui­ nho tal objetivo. ele não toma a passar por todas as fases que esta atra­ vessou. Ora. a não ser de uma maneira resumida. porque se trata. Para que a necessidade estimule a vontade. A sociologia. de nos fazer viver em estado de saúde. \__Assim. a saúde consiste em satisfazer regular­ . De fato. a reflexão pode produzir resul­ tados análogos. não é preciso que seja esclarecida pela ciência. porque as experiências feitas pela raça permitemlhe acelerar as suas. sentir em que sentido devem voltar-se seus esforços. poderá poupar aos homens muitas tentativas dolorosas. Tenteios obscuros bastam para ensinar aos homens que lhes falta algo. o que é um ideal. e é erradamente que lhe censuram re@ z í r o homem a não ser mais que uma testemunha ina­ tiva de sua própria história. fora dessas representações claras. em suma. em seu estado atual. se não uma representação antecipada de um resultado dese­ jado. no meio das quais se move o cientista. não está em condições de nos guiar de maneira eficaz na solução des­ ses problemas práticos.352 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL causas gerarem seus efeitos ao acaso e segundo as ener­ gias que as impulsionam. uma concepção mecanicista da sociedade não ekclui o ideal.

a doença nunca tem nada de desejável. Para que pudesse chegar a um termo. pois não é possível estimular a atividade cole­ tiva além do grau determinado pelo estado do organis­ mo social. Mas que outro ideal pode ser proposto? Procurar realizar uma civilização su­ perior à que a natureza das condições ambientes reclama é querer deflagrar a doença na própria sociedade de que faz parte. nunca é definiti­ vo.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 353 mente as necessidades mais elevadas. tal hipótese é contrária às induções mais legíti­ mas. Mas. que os horizontes que nos abre nada têm de ilimitado. se o ideal é sempre definido. certo refinamento da civilização. como o é toda insuficiência. Ora. seja em conseqüência de infiltrações lentas e silencio­ sas. Em caso algum. há. sem comprometer sua saúde. seja em conseqüência de conquistas violen­ tas. o ambiente se tomasse estacioná­ rio. num momento dado. o número das unidades sociais será necessariamente variável em cada uma delas. Todo excesso é um mal. sempre haverá movimentos de população de um país a outro. não há razão alguma para supor que ele deva terminar um dia. De fato. De fato. Enquanto houver sociedades distintas. seria necessário que. Ora. mas apenas a desenvolvê-las no limite assinalado pelo estado definido do ambiente social. Supondo-se inclusive que a cifra dos nascimentos consiga um dia manter-se num nível cons­ tante. em cada época. ele não poderia consistir em exaltar descomedidamente as forças da sociedade. cujo caráter doentio é atestado pela inquietude e o mal-estar que sempre a acompanham. porque as primeiras não são menos arraigadas em sua natureza do que as segundas. tanto quanto as outras. é impossível que os povos mais fortes não . É verdade que tal ideal está próximo. Já que o progresso é uma conseqüência das mudan­ ças que se produzem no ambiente social.

para que o progresso se detivesse seria necessário. essas mudanças acarretam outras nas vias de comunicação. sem que seja possível dizer onde param essas repercussões. do mesmo modo que os mais densos se derramam nos menos densos: esta é uma lei mecânica do equilíbrio social não menos ne­ cessária do que aquela que rege o equilíbrio dos fluidos. é inevitável que os maiores centros. uma tal uniformidade é impossível. à medida . As migrações que se produzem assim tênLpor efeito concentrar mais as unidades sociais em certas regiões e. o que é inimaginável. longe de se aproximarem de um estado estacionário. De fato. para o resto do país. Seria necessário que elas permane­ cessem sempre distribuídas da mesma maneira. dos focos em que nasceram. que no interior dessa gigantesca sociedade as próprias relações entre as unidades sociais fossem subtraídas a qualquer mudança. É verdade que essa fonte de variações se esgotaria se a humanidade inteira formasse uma só e mesma socie­ dade. que por sua vez provocam outras. quando mais não fosse em conseqüência da diversidade dos hábitats. por conseguinte.354 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL tendam a incorporar os mais fracos. mas também cada um dos agregados elementares de que seria formado conservasse as mesmas dimensões. nem a mes­ ma vitalidade. ora. pelo simples fato de que esses grupos par­ ciais não possuem todos a mesma extensão. Por outro lado. A população não pode ficar concentrada t m todos os pontos da mesma maneira. determinar aí novos progressos que se irradiem pouco a pouco. No entanto. Mas além de ignorarmos se tal ideal é realizável. Para que não fosse assim. que não apenas o agregado total. aqueles em que a vida é mais intensa^éXerçam sobre os outros uma atração proporcional à sua-importância. seria necessário que todas as sociedades humanas tivessem a mesma energia vital e a mesma densidade. ainda.

nesse sentido. além de adaptar o indivíduo ao meio cósmico que o rodeia. de maneira a fazer que produzam mais completamente o efeito para os quais são estabelecidas. e todo o progresso social consiste em melhorar essas relações.AS CAUSAS EA S CONDIÇÕES 355 que se desenvolvem. as sociedades se tomam. mas as considera um arranjo instituído pelos indivíduos a fim de estender a vida individual em todos os sentidos10. Sem dúvida. de fato. ao contrá­ rio. segundo ele. Spencer pôde admitir que a evolução social tem um limite que não poderia ser superado9. mais móveis e mais plásticas. assim nasce a sociedade. todavia. aproximar o homem ou afastá-lo do estado . Spen­ cer não vê nas sociedades uma realidade propriamente dita. e ambas não têm outro objeto se­ não adaptar o indivíduo a seu meio físico. tanto po­ sitiva como negativa. é porque. que existe por si mesma e em virtude de causas es­ pecíficas e necessárias. Como o indivíduo não está só no mundo. Assim. isto é. a perfeição consiste no cresci­ mento da vida individual. que. numa correspondência mais completa entre o organismo e suas condições físi­ cas. A sociedade consiste inteiramente na cooperação. se impõe ao homem com sua natureza própria e à qual é obrigado a se adaptar para viver. segundo a maneira como é organizada. mas é cercado de rivais que disputam com ele seus meios de existência. é antes um dos meios pelos quais se estabelece essa correspondência do que o ponto de chegada de uma correspondência especial. Quanto à sociedade. uma condição secundária dessa adaptação: ela pode. Para esse filósofo. ela é. por conseguinte. em vez de estorválo. tanto quanto ao meio físico. o progresso não tem outra razão de ser. Se. tem to­ do interesse em estabelecer entre seus semelhantes e si mesmo relações tais que lhe sirvam. apesar das analogias bio­ lógicas sobre as quais insistiu tão demoradamente.

em conséqüência. De fato. Portanto. porque ele está fora da sua esfera de ação. Se. homogênea. realizar um estado de equilíbrio irrepreensível. ele poderá pôr-se em condições de respon­ der a todas essas solicitações. ela própria. que ela seja mais com­ pleta do que outra. ao contrário. isto é. o próprio progresso do indi­ víduo se toma inexplicável. mas não é. mas apenas às que produ­ zem uma impressão nele. for muito complexo. Se há forças externas que não \o afetam. mas a . se o sujeito for de constituição simples. a muito pouco custo.356 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL de equilíbrio perfeito. um fator que contribua para determinar a natureza desse equilí­ brio. Mas. o progresso social não po­ derá deixar de se deter. por que ele visaria a essa correspondência mais perfeita com o meio físico? Para ser mais feliz? Já nos explicamos sobre esse ponto. de uma correspondência. haverá apenas um pequeno núme­ ro de circunstâncias externas capazes de solicitá-lo e. Não se pode sequer dizer. elas são para ele como se não existissem e. elas estão fora de sua esfera de adaptação. Qualquer-aue seja a sua proximidade material. nessas condições. pois terá chegado ao fim a que tendia e que era sua razão de ser: estará concluído. pelo simples fato de ser mais comple­ xa. Então. o desenvolvimento que tem por objetivo colocar-nos em harmonia com ele é necessaria­ mente limitado. como o meio cósmico é dotado de uma constância relativa. não tem por que se adaptar a elas. por conseguinte. diz-se de um organismo que ele está em equilíbrio quando responde de uma maneira apropriada não a todas as forças externas. Por outro lado. as condições da adapta­ ção serão mais numerosas e mais complicadas. De fato. como as mudanças são nele infi­ nitamente longas e raras. É inevitável que chegue um momento em que não haja mais relações externas a que correspon­ dam relações internas.

se o homem não depende de um meio va­ riável. Para que o progresso se detivesse. porque os organismos que se ajustam são. eles próprios. Precisamente porque depende do meio social. devemos nos submeter para podermos viver . não é mais perfeito num caso do que no outro. não a condição secundária. é tão adaptado a elas quanto o civilizado. não se vê que razão ele teria para variar. . mas o fator determinante do progresso. diferentes. não há razão de temer que um dia nos falte terreno. por isso. Mas.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 357 adaptação em si não será mais íntegra por causa disso. O selvagem. pois. que. é apenas diferente. seria necessário. e acabamos de estabelecer que tal hipótese é contrária a todas as presunções da ciência. Ela é uma realidade que é nossa obra tanto quanto o é o mundo exterior. cuja epiderme não sente fortemente as variações da tempera­ tura. Portanto. que delas se defende com suas roupas. um espaço vazio aberto a nossos esforços. Como agem sobre nós muitos estímulos que deixavam insensível o sistema nervoso demasiado grosseiro dos ho­ mens de outrora. que nossa atividade chegue ao cabo de sua carreira e veja o horizonte fechar-se diante dela. Assim. a saber. como nos permite crer que ele nunca nos faltará. que é essencialmente móvel. a sociedade é. o ideal se desloca sem cessar. o ajuste que dele resulta. o meio social chegasse a um estado estacionário. há e haverá sempre. entre os pontos extremos a que chegamos e o objetivo a que tendemos. não apenas uma teoria mecanicista do pro­ gresso não nos priva de ideal. conquanto sempre persigamos fins definidos e limitados. Portanto. e à qual. para nos ajustarmos a tais estímulos. somos forçados. por conseguinte. em certo momento.e é porque ela muda que devemos mudar. Mas o produto desse desenvolvimento. a um desenvolvimento mais considerável.

Antes de mais nada. Ela funcio­ na graças a um sistema de instintos. sendo. é verdade. Sendo mais complexas. a particularidade de adaptarem o indivíduo ao jmeio social e não ao meio físico. Mesmo onde é mais simples. ela conserva sua especificidade. no entanto. é muito diferente. e essas duas causas reunidas fazem que a vida social na humanidade não se paralise numa forma biológica. em certos casos. mas se encarna inteira nele. Esses instintos apresentam. os movimentos necessários ao vôo e ao caminhar. a vida coletiva nelas é muito simples. não são de natureza diferente dos que determinam. mes­ mo as menores que conhecemos superam em extensão a maioria das sociedades animais. de reflexos que não são essencialmente diversos dos que garantem o funcio­ namento da vida orgânica. estacionária. a ponto de perder suas características próprias. O animal é posto quase exclusiva­ mente sob a dependência do meio físico. mas. porque as sociedades que eles formam são muito mais vastas. de terem como causas açQDtecimentos da vida comum. ela se fixa facilmente no organismo. No homem. sua constitui­ ção biológica predetermina sua existência. Sem dúvida. Por essas duas razões. como são muito res­ tritas.358 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL III Ao mesmo tempo que as sociedades. são também mais mutáveis. depende de causas sociais. ao mesmo tempo. Sempre há crenças e práti­ . não tem nele apenas suas raízes. porque o equilíbrio de socie­ dades tão pequenas é necessariamente estável. os indivíduos se transformam em conseqüência das mudanças que se produzem no número das unidades sociais e de suas re­ lações. ao contrário. sérn^educação prévia. o ani­ mal também forma sociedades. O homem. eles se libertam cada vez mais do jugo do organismo.

é preciso que o tipo orgânico se­ ja menos definido.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 359 cas comuns aos homens sem estarem inscritas em seus tecidos. assim. A mesma causa que aumenta a importância do meio coletivo abala o meio orgânico. so­ . cujo papel re­ lativo na constituição da natureza humana se toma cada vez mais considerável. mais refratárias. Há mais: a influência desse fator não aumenta ape­ nas em valor relativo. de maneira a tomá-lo mais acessível ã ação das causas sociais e a subordiná-lo a essa ação. É o organis­ mo que se espiritualiza. a fim de poder se diversificar. o indivíduo se transforma. O homem se encontra colocado. despojando-os de sua natureza especial. Como essa atividade que estimu­ la a ação especial das causas sociais não pode fixar-se no organismo. Quanto mais associados houver e quanto mais eles reagi­ rem entre si. por conseguinte. Nos animais. e sobretudo nas sociedades superiores. A vida social se materializa. para que essa variedade seja possível. ao contrá­ rio. são as causas sociais que substituem as causas orgânicas. Vimos. Mas essa característica se acentua mais à medida que a matéria e que a densidade sociais aumentam. transforma-os em fatos biológicos. Na humanidade. uma nova vida. a se tomarem sob a forma de instintos. é o or­ ganismo que assimila os fatos sociais e. mas em valor absoluto. a vida comum se mostra mais rica e mais variada. um fenômeno que é exatamente o inverso daquele que observamos no início da evolução. Co­ mo há mais indivíduos que vivem juntos. sob o império de causas sui generis. Produz-se. com feito. porém. assim. mais também o produto dessas reações ex­ travasará o organismo. Em conseqüência dessa mudança de dependência. também ela sui generis. que as tendências e as aptidões transmitidas pela hereditariedade se tomavam cada vez mais gerais e mais indeterminadas.

puseram-se a formar sociedades mais extensas. Reconhecemos com essa descrição os traços essenciais da vida psíquica. seria exagerado dizer que a vida psíquica só começa com as sociedades. seria necessário saber. em vez de se estender. à medida que ela progride e se consolida. Sem dúvi­ da. Mais livre. a grande diferença que separa o homem do animal. pelo menos. os progressos da consciência são inversamente proporcionais aos do ins­ tinto. não é a primeira que dissolve o segundo. Para^ompreender por que as funções psíquicas fo­ ram lévadas. a saber. desde os primeiros passos da espécie hu­ mana. como se observou com freqüência. o maior desenvolvimento da sua \àda_nsíquica. a causa está na maior importância jdesfator social. reduz-se a isto: sua maior sociabilida­ de. A verdade é que a consciência invade apenas os terrenos que o instinto deixou de ocupar ou. mais inde­ pendente dos órgãos que a suportam. apenas preenche o espaço que ele deixa livre. como é que os homens. Se. Por outro lado. as características que a distinguem se acentuam sempre mais. a um grau de aperfeiçoamento desconhecido das espécies animais.360 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ma-se à do corpo. Não é ela que o faz recuar. mais complexa. mas é certo que ela só adquire exten­ são quando as sociedades se desenvolvem. o instinto. à medida que a vida geral se estende. o homem é um animal racional. Assim. é por ser um animal so­ ciável. . Não obstante o que se tenha dito. em vez de viverem solitariamente ou em pequenos bandos. ou. primeiro. infinitamente mais sociável do que os outros animais11. para retomarmos a definição clássica. Eis por que. tem uma força de re­ sistência grande demais para se dissipar devido ao sim­ ples fato de se tomar consciente. produto de experiên­ cias acumuladas durante gerações. então. se ele regride. aqueles em que ele não po­ de se estabelecer.

a causa que suscitou as diferenças que sepa­ ram o homem dos animais também é a que o obrigou a se elevar acima de si mesmo. ele avançou cada vez mais no futuro. à medida que as sociedades se tomam mais vastas e. seu espírito abraçou porções cada vez mais extensas do espaço e do tempo. cada um deles se toma uma fonte de ativi­ dade espontânea. adquirem consciência de si e. Uma multidão de coisas que permane­ ciam fora das consciências. a princípio perdidas e confundidas na massa das similitudes sociais. no entanto. estas se es­ tendem. sobretudo. que se apresenta idêntica em cada um. Assim. mas apenas a transforma. As personalidades particulares se cons­ tituem. a úni­ ca vida psíquica verdadeiramente desenvolvida é a que é comum a todos os membros do grupo. não contente com reter o passa­ do. se suas emoções e suas tendências. Enquanto os in­ divíduos só agiam levados uns pelos outros. Enquanto as sociedades não atingem certas dimensões. As diversidades individuais. se. tomam-se objeto de representações. salvo nos casos em que sua conduta era determinada por necessi­ dades físicas. em definitivo. a princípio simples e pouco numero­ sas. dela se destacam. A distância cada vez maior que existe entre o selvagem e o civilizado não vem de outra fonte.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 361 Não é tudo. esse aumento da vida psíquica do indivíduo não debilita a da sociedade. Se da sensibilidade confusa da origem des­ prendeu-se pouco a pouco a faculdade de ideação. mais densas. multiplicaram-se e diversificaram-se. se complicam e se flexibilizam por contragolpe. se o homem aprendeu a formar conceitos e a formular leis. Ela se toma mais li­ vre. e como. não tem outros substratos além das consciências individuais. Mas. adquirem relevo e se multiplicam. uma vi­ da psíquica de um novo gênero aparece. mais extensa. por não afetarem o ser coleti­ vo. nem certo grau de concentração. é porque o .

quaisquer que sejam os progressos consumados pe­ la psicofisiologia. não há temeridade em afirmar desde já que. desde o início da história ele permanece sensivelmente o mesmo. pelo menos. De fato. Eles tinham o justo sentimento de que a primeira. o mundo exte­ rior e a sociedade.. pelo menos se não levarmos em conta novidades de origem social12. em suas manifestações mais elevadas. ela nunca poderá representar mais que uma fração da psicologia. o organismo não se modifica espontanea­ mente. Mas to­ dos esses fatos. muito considerável . Os filóso­ fos espiritualistas compreenderam isso. a menos que tenham nascido do nada. Ora. somente a sociedade mudou o bastante pa­ ra poder explicar as mudanças paralelas da natureza in­ dividual. ele tem de ser forçado por alguma causa externa. Quanto ao mundo físico. é demasiado livre e complexa para não ser mais que um prolongamento da segunda. Portanto. e o grande servi­ ço que prestaram à ciência foi o de combater todas as doutrinas que reduzem a vida psíquica a não ser mais que uma eflorescência da vida física. pois a maior parte dos fenôme­ nos psíquicos não deriva de causas orgânicas. do fato de ela ser em parte independente do organismo. essas transformações só podem ter tido por causas transformações corresponden. Por conseguinte. cuja explicação não podemos encontrar na constituição dos tecidos. Contudo. decerto. o homem depende ape­ nas de três tipos de meios: o organismo.tes dos meios ambientes. derivam das propriedades do meio social.362 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL meio social mudou sem interrupção. Se fizermos abstração das variações acidentais devidas às combinações da hereditariedade e seu papel no progresso humano não é. não decorre que não depende de nenhuma causa natural e que seja necessário colocá-la fora da natureza. esta é uma hipótese que tira do .

Portanto. pois. mas provêm de causas sociais. é que. refratária à investigação científica. e a prova disso é que. inverte-se a ordem real dos fatos. são antes estas que resultam daquela. o amor paterno é desconhecido nu­ ma multidão de sociedades13. Os fenômenos que constituiriam sua matéria são. Por exemplo. o reino social não é menos natural do que o reino orgânico. Poderíamos citar muitos outros exemplos do mesmo erro14. não se deve. mas apenas que ela decorre de outra ciência positiva a que poderíamos chamar sociopsicologia. Sem dúvida.AS CAUSAS E AS CONDIÇÕES 363 que precede uma grande verossimilhança. se vir na organização da família a expressão lo­ gicamente necessária de sentimentos humanos inerentes a toda consciência. de fato. de natureza mista. do fato de haver uma vasta região da cons­ ciência cuja gênese só é inteligível pela psicofisiologia não se deve concluir que ela se formou sozinha e que é. é uma verdade evidente a de que nada há na vida social que não exista nas consciências individuais. Essa proposição é importantíssima. não são mais que o prolongamento dos primeiros no interior das consciências. Estes teriam sido bem diferen­ tes se a estrutura social tivesse sido diferente. eles têm as mesmas características essenciais dos outros fatos psíquicos. sim. ao contrário. no entanto. se. foi a organização social das relações de parentesco que determinou os sentimentos respecti­ vos dos pais e dos filhos. qua­ se tudo o que se encontra nestas últimas vem da socieda­ . de fato. como aconteceu com fre­ qüência. Os fatos sociais não são o simples desenvolvi­ mento dos fatos psíquicos: os segundos. Ora. Por conseguinte. pois o ponto de vista contrário expõe a cada instante o sociólogo a tomar a causa pelo efeito e vice-versa. muito ao contrário. em grande parte. em conseqüência. com Spencer. apresentar a vi­ da social como uma simples resultante das naturezas in­ dividuais.

uma vez associados. Produtos da vida em grupo. mas estas são apenas suas condições distantes.364 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL de. Eles derivam. A sociedade não encontra já prontas nas consciências as bases em que repousa. se afetam mutuamente. É claro que esses estados não seriam possíveis se as constituições individuais não se prestassem a eles. mais ou menos próximos. A comparação é inexata e não se aplica aos fatos sociais. somente a nature­ za do grupo pode explicá-los. mas da maneira como os ho­ mens. não suas causas determinantes. da forma de certo número de bolas. Spencer com­ para em algum lugar a obra15 do sociólogo com o cálculo do matemático. con­ forme sejam mais ou menos numerosos. A maior parte de nossos estados de consciência não se teria produzido em seres isolados e se teria produzido de maneira totalmente diferente em seres agrupados de outra maneira. . que. é antes a forma do to­ do que determina a das partes. deduz a maneira como devem ser combinadas para se manterem em equilíbrio. Nestes. ela própria as constrói16. pois. não da natureza psico­ lógica do homem em geral.

LIVRO III AS FORMAS ANORMAIS .

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Ora.CAPÍTULO I A DIVISÃO DO TRABALHO ANÔMICA Até aqui estudamos a divisão do trabalho apenas co­ mo um fenômeno normal. até mesmo opostos. Conquanto. normalmente. poder-se-ia suspeitar que a divisão do trabalho os implicas­ se logicamente. enquanto não esti­ ver estabelecido que esses casos são excepcionais. como todos os fatos biológicos. é importante pesquisar o que a faz desviar assim da sua direção natural. mais geralmente. A pato­ logia. porque. neste como em outros casos. saberemos melhor o que é ne­ cessário para que ela produza todo o seu efeito. porém. mas. ela apresenta resultados totalmente diferentes. Por sinal. é um precioso auxiliar da fisiologia. ela apresenta formas patológicas que é necessário anali­ sar. o estudo das formas desviadas permitir-nos-á determinar melhor as condições de exis­ tência do estado normal. Quando conhecermos as cir­ cunstâncias em que a divisão do trabalho deixa de en­ gendrar a solidariedade. a divisão do trabalho pro­ duza a solidariedade social. . como todos os fatos so­ ciais e. algumas vezes.

de fato. Não há nem mesmo função alguma. No entanto. forma-se outro que procura viver à custa do pri­ meiro. Contudo. esses fe­ nômenos parecem tomar-se mais freqüentes. esse problema não entra no âmbito da nossa pesquisa. Elas são a negação mesma da solidariedade e. mas. porque uma maneira de agir só merece esse nome se concorrer com outras para a manutenção da vida geral. Ora. não há partilha de uma função co­ mum. as falências aumenta­ ram 70%. Portanto. para sermos exatos. que são verdadeiras rupturas parciais da solidariedade orgâni­ ca. pelas falências. os tubérculos. De 1845 a 1869. são verdadeiras atividades especiais. tanto individual como social. Assim. pelo menos em certos casos. Reduziremos a três tipos as formas excepcionais do fenômeno que estamos estudando. em certos pontos do orga­ nismo. mas aquelas de que falaremos são as mais gerais e as mais graves. aumentam a diversi­ dade dos tecidos orgânicos sem que seja possível ver nis­ so uma nova especialização das funções biológicas1. Em todos esses casos. no entanto. o câncer. elas atestam. não se trata nes­ se caso de divisão do trabalho. não se poderia atribuir esse fato ao . certas funções sociais não estão ajustadas umas às outras. que. I Um primeiro caso desse gênero nos é fornecido pe­ las crises industriais ou comerciais. à medida que o trabalho se divide. Isso não significa que não possa haver outras. no seio do organismo. não se devendo confundir os dois ter­ mos. e sim de diferenciação pura e simples.368 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Poderíamos ser tentados a situar entre as formas irre­ gulares da divisão do trabalho a profissão do criminoso e as outras profissões nocivas.

Estes formaram.AS FORMAS ANORMAIS 369 aumento da vida econômica. suas associações independentes.”4 Por isso. O antagonismo entre o trabalho e o capital é outro exemplo.. tiveram seus costumes. do mesmo fenômeno. Qualquer um que tivesse feito seu aprendi­ zado podia. uma demarcação profunda se estabelece en­ tre os patrões e os operários. Os operários se rebelavam para obter um salário maior ou determinada mudança nas condições de trabalho.”5 Uma vez efetua­ da essa separação. estabelecerse por conta própria. partilhando seus trabalhos “na mesma loja. a luta se toma mais viva. A partir do sécu­ lo XV. o operário vive em toda parte ao lado do patrão. “ao ponto em que as vemos atualmente. uma ordem à parte. “Os dois eram quase iguais. mas não consideravam o patrão um inimigo perpétuo a que se obedece por coação. suas regras. mais contundente. “Quando os operários acreditavam ter motivo de queixa.. Por conseguinte. por assim dizer. e todos eram obrigados a obe­ decer à palavra de ordem. À me­ dida que as funções industriais vão se especializando. pois as empresas concentra­ ram-se muito mais do que se multiplicaram2. em vez de a solidariedade au­ mentar. A força da associação dava aos operários o meio de lutar com armas iguais contra seus patrões. punham-se em greve ou pronunciavam interdito contra uma cidade ou um patrão... as coisas começaram a mudar. Na Idade Média. Queriam fazê-lo ceder num pon­ to e consagravam-se a isso com energia. os con­ flitos eram absolutamente excepcionais. que decidem sozinhos todos os assuntos. mas a luta não . “A corporação de ofício já não é um asilo comum. na mesma bancada”3. é de posse exclusiva dos patrões. desde então. se tivesse meios. as querelas tomaram-se numerosas. Ambos faziam parte da mesma cor­ poração e levavam a mesma existência.”6 Mas as coisas estavam longe de ter chega­ do. pelos menos em muitos ofícios.

em que o tra­ balho é menos dividido. e ai do operário que não respeitasse a decisão da co­ munidade. proporciona o espetáculo de uma harmonia relativa entre o patrão e o operário10. No entanto. com freqüência. no século XVII começa a terceira fase dessa his­ tória das classes operárias: o advento da grande indús­ tria. de certa forma.370 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL era eterna. “Ele é. Enfim. havia oficinas particulares pa­ ra a fabricação de carruagens. O operário se separa mais completamente do pa­ trão. De fato. a guerra tomou-se mais violenta. desde então. de maneira geral. obrigadas e forçadas. Cada um tem a sua função. o tingimento. no interior desse mundo. é somente na grande indústria que essas discórdias se en­ . que ocupava 1 692 operários. “A menor causa de descontenta­ mento bastava para pronunciar interdito contra uma ca­ sa. ela é a mesma para todos os trabalhadores indistintamente. arregimentado.”9 É bem sabido que. por não terem meios de conseguir outra. e as oficinas de tecela­ gem compreendiam várias espécies de operários cujo trabalho era inteiramente distinto. ela não pesa menos sobre todos os deserdados da fortuna. Veremos. só a aceitando. Ora. Depois. que essa tensão das relações sociais deve-se em parte ao fato de que as classes operárias não querem na verdade a condi­ ção que lhes é imposta.”8 Ao mesmo tempo que a especialização se toma maior. e ape­ sar disso esse estado de hostilidade permanente é total­ mente particular ao mundo industrial. Na manufatura de Van-Robais. a pequena indústria. as revoltas se tor­ nam mais freqüentes. a urdidura. é verdade. explicar o fenômeno. a lava­ gem. no capítulo seguinte. e o sistema da divisão do trabalho faz alguns progressos. por si só. para a cutelaria. essa coerção não poderia. as oficinas não continham duas raças inimi­ gas: nossas doutrinas socialistas eram desconhecidas”7.

diz Schaeffle. frag­ mentada numa multidão de estudos de detalhe que não se casam. O que tal­ vez melhor manifeste essa ausência de concerto e de uni­ dade é a teoria. não forma mais um todo solidário. “Es­ sa divisão do trabalho intelectual”. No en­ tanto. tão difundida. no seu tempo. sem se preocupar muito com a rela­ ção desses trabalhos particulares com o sistema geral dos conhecimentos positivos”11. Mas. que. Assinalou-se com freqüência na história das ciências outra ilustração do mesmo fenômeno. nada mais é que uma parte de um grande todo. que de­ pendem em parte de outra causa. não estando muito dividida. podia ser cultivada quase toda por um só e mesmo espírito. “propor­ . Isso significa. tinha-se um vivo sentimento de sua unidade. A maio­ ria”. de que cada ciência parti­ cular tem um valor absoluto e de que o cientista deve se consagrar a suas pesquisas especiais sem se preocupar em saber se servem a alguma coisa e tendem a algo. por sua vez. As ver­ dades particulares que a compunham não eram nem tão numerosas. havia no mundo científico “muito poucas inteligências englobando em suas concepções o próprio conjunto de uma ciência única. pois. A. então. Por isso. a ciência. e podia-se perceber o tronco co­ mum a partir do qual divergiam insensivelmente. “já se limita inteiramente à consideração isolada de uma seção mais ou menos extensa de uma ciência determinada. mas numa or­ dem especial de problemas. à medida que a especialização se introduziu no trabalho científico. dizia ele. Sendo os próprios métodos muito gerais. cada cientista encerrou-se cada vez mais não apenas numa ciência particular.AS FORMAS ANORMAIS 371 contram em estado agudo. nem tão heterogêneas para que não se visse facilmente o vínculo que as unia num só e mesmo siste­ ma. a ciência. Até tempos bastan­ te recentes. diferiam pouco uns dos outros. Comte já se queixava de que.

algumas vezes. ao mesmo tem­ po intelectuais e morais. isola-se em sua atividade especial. a entraválo profundamente. na mesma medida. de fato. uma disciplina permanente. diz-se. A divisão do trabalho não poderia. um efeito necessário da divisão do trabalho. o indivíduo. ser levada demasiado longe sem se tomar uma fonte de desintegra­ ção. cada um é naturalmente desviado dela pelo próprio desenvolvimento de sua ativi­ dade especial. ela tende espontaneamente. já não tem sequer a noção dessa obra comum. as divergências individuais. Se. “Como qualquer decomposição deve necessariamen­ te tender a determinar uma dispersão correspondente.”1 2 II O que faz a gravidade desses fatos é que viu-se ne­ les. ao mesmo tempo que é assim posto sob uma es­ treita dependência da massa. Nesse caso. Do mesmo modo. que o chama constantemente de volta a . a sufocar o espírito de conjunto ou. “a repartição fundamental dos traba­ lhos humanos não poderia evitar de suscitar. pelo menos. por um lado. por outro lado. própria para prevenir ou conter sem cessar seu desenvol­ vimento discordante. impossível de qualquer outra maneira.372 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ciona sérias razões de se temer que esse retomo de um novo alexandrinismo traga consigo. do ponto de vista moral. ele já não sente os colaboradores que trabalham a seu lado na mes­ ma obra.” diz Augusto Comte. debruçado em sua tarefa. a separa­ ção das funções sociais possibilita ao espírito de detalhe um feliz desenvolvimento. pois. num grau proporcional. assim que ela superou certo grau de desenvol­ vimento. mais uma vez. cuja influência combinada deve exigir. a ruí­ na de toda a ciência.

não resulta espontaneamente dela. resultado inevitável do próprio princípio do de­ senvolvimento humano. A divisão do trabalho exerceria. Esse órgão é o Estado. sob um outro aspecto. como que ca­ racterizado em geral pela reação necesssária universal. ou o governo. diz14. mas. “Divisão é dispersão”. a meu ver. representada por um órgão independente. “A destinação social do governo”. uma influência dissolvente que se­ ria sensível. encarado em sua mais nobre e inteira extensão científica. Essa concepção constitui.AS FORMAS ANORMAIS 373 seu interesse privado. pois. a esse estado de indistinção e de homogeneidade que foi seu ponto de partida. A diversidade das funções é útil e ne­ cessária. o cuidado com realizá-la e mantê-la deverá constituir. “parece-me so­ bretudo consistir em conter suficientemente e em preve­ nir na medida do possível essa fatal disposição à disper­ são fundamental das idéias. isto é. a . o mesmo princípio que permitiu o desenvolvimento e a ex­ tensão da sociedade geral ameaça. se ela pudesse prosseguir sem obstáculos seu curso natural. isto é. No entanto. sobretudo. em virtude da sua própria natureza. e. Assim.. como a unidade. Comte não conclui de seu princí­ pio que seja necessário reduzir as sociedades ao que ele mesmo chama de idade da generalidade. no organismo social. de que só vagamente percebe a verdadeira relação com o interesse público. onde as funções são muito espe­ cializadas. decompô-la numa multidão de corporações incoerentes que quase parece não pertencerem à mesma espécie. diz Comte. uma função especial. que não é menos indis­ pensável. a primei­ ra base positiva e racional da teoria elementar e abstrata do governo propriamente dito. acabaria inevitavelmente por deter a progressão social sob todos os aspectos im­ portantes. dos sentimentos e dos inte­ resses.”13 Espinas exprime-se quase nos mesmos termos-..

Já que a di­ versidade das ciências tende a romper a unidade da ciên­ cia. de resumir.”15 O que o governo é para a sociedade em sua totali­ dade. mas por uma necessidade me­ cânica.. Que uma nova classe de cientistas. considerando as diversas ciências positivas em seu estado atual. capaz de intervir de maneira conveniente na consumação habitual de todas as diversas funções da economia social. trate unicamente. preparados por uma educação conveniente. se possível. sem nenhum perigo. depois regularizada. com efeito. nós mesmos mostramos17 que o órgão governamental se desenvolve com a divisão do trabalho. e a divisão do trabalho nas ciências será levada. o mais lon• ge que o desenvolvimento das diversas ordens de conhe­ cimentos exigir”16. a fim de fazer voltar-se incessantemente para esta o pensamen­ to do conjunto e o sentimento da solidariedade co­ mum. “é necessá­ rio fazer do estudo das generalidades científicas uma grande especialidade a mais. todos os seus princípios próprios num menor número de princípios comuns . não para contrabalançá-la. que o único meio real de impedir tal dispersão consiste em erigir essa in­ dispensável reação numa nova função especial. de de­ terminar de modo exato o espírito de cada uma delas. a filosofia deve sê-lo para as ciências.. É claro. Sem dúvida. é preciso encarregar uma nova ciência de reconstituíla. Como os órgãos são intimamente solidários onde . de descobrir suas relações e seu encadeamento. do conjunto sobre as partes. Em outras palavras. sem se entregar à cultura especial de nenhum ramo parti­ cular da filosofia natural. Já que os estudos de detalhe nos fazem perder de vis­ ta o conjunto dos conhecimentos humanos. é necessário instituir um sistema particular de pesquisas para reencon­ trá-lo e pô-lo em relevo.374 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL princípio espontânea.

Portanto. eles se difundem com maior facilidade em toda a extensão de um mesmo tecido ou de um mesmo aparelho. assim como seu volume. pois nada há nela que possa contêlos. exercida com maior freqüência. sem que este intervenha. se a divisão do trabalho tem os efeitos dispersivos que lhe são atribuí­ dos. pelo menos em seu estado normal. regular as condições dos diferentes mercados econômicos. No entanto. um mundo de órgãos que. mas que é até sua condição necessá­ . a cada instante. como de todo organismo. fixar os preços das coisas e dos serviços. estes devem se desenvolver sem resistência nessa região da sociedade. se não concordarem por si mesmas. sem que ele tenha sequer consciên­ cia disso. o que afeta a um atinge outros. etc. em conse­ qüência do desaparecimento do tipo segmentário. sem serem totalmen­ te independentes do primeiro. sob essa vida geral e superficial. é o consenso es­ pontâneo das partes. que só os que estão bem próximos conhecem. cresce. há mais acontecimentos que ecoam no órgão dirigente. há uma vida intestina. Por essas duas séries de razões. Não é o governo que pode. ele não poderá ajustar essas funções umas às outras e fazê-las concorrer harmoniosamente. adequar a produção às necessidades do consumo. prendem-se a milhares de circunstâncias parti­ culares. Com maior razão. o que constitui a unidade das sociedades organizadas. cuja atividade funcional. Ora. funcionam. e os acontecimentos sociais assumem mais facil­ mente um interesse geral. porém.AS FORMAS ANORMAIS 375 as funções são muito partilhadas. é essa solidariedade interna que não só é tão indispensável quanto a ação reguladora dos centros superiores. Sua es­ fera de ação. Todos esses problemas práticos levantam multidões de detalhes. Ao mesmo tempo. São subtraí­ dos à sua ação porque esse órgão dirigente se encontra longe demais deles. no entanto. não se estende mais longe.

essa concepção. na realidade. que só desperta de vez em quando e nunca ocupa mais que uma pequena parte do campo da consciência. aliás. se este não se realizar por si mesmo. Para que a sensação do estado de dependência em que estamos fosse eficaz. não é necessário entrar nesses detalhes. dizem. tal representação. se as ocupações que preen­ chem nossa vida cotidiana tendem a nos separar do gru­ po social a que pertencemos. Basta lembrar. . Mas. só o governo está qualificado para exercer. e só pode sê-lo se estiver ligada ao jogo mesmo de cada função especial. as partes já devem ser solidárias umas das outras para que o todo tome consciência de si e reaja como tal. mas ela é demasiado geral para assegurar o concurso das funções sociais. não pode­ rá bastar para nos reter. por assim dizer. concretas. em vez da concentração cada vez maior que. vaga e. intermitente como todas as repre­ sentações complexas. dever-se-ia ver uma espécie de decomposição progressiva produzir-se não sobre este ou aquele ponto. mas em toda a extensão da sociedade. nada pode contra as impressões vi­ vas. mas faz parte de um todo de que depende? No entanto. É verdade. Fala-se da necessidade de uma reação do conjunto sobre as partes. de que se trata? De fazer cada in­ divíduo sentir que não é auto-suficiente. seria ne­ cessário que também fosse contínua. que a atividade profissional desperta a ca­ da instante em cada um de nós. aí se observa.376 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ria. à medida que o trabalho se divide. “o espírito de conjunto e o sentimento da solidariedade comum”. o cérebro não cria a unidade do organismo. mas é preciso que esse conjunto exista —isto é. Na verdade. mas a exprime e a coroa. se esta tem os efeitos que lhe atribuímos. onde quer que seja necessário. e tal ação. Assim. consagrá-la. pois nada mais fazem que traduzi-la em outra lingua­ gem e. abstrata. Portanto. Por­ tanto.

Os sentimentos cole­ tivos se tomam. aliás. essas grandes sínteses já não podem ser outra coisa que generalizações prematuras. diz com razão Ribot. a especialização não mais teria as conse­ qüências que é acusada de produzir. porque. gradualmente concentradas entre os indivíduos de mesmà profissão. ao mesmo tempo. Sabemos. por que motivos esses dois fenôme­ nos se desenvolvem paralelamente. portanto. a filosofia se toma cada vez mais incapaz de assegurar a unidade da ciência. “Seria interessante indagar-se”. impedir que “as afeições sociais. Porém. A diversidade funcional acarreta uma diversidade moral que nada seria capaz de prevenir. os próprios sentimentos cole­ tivos enfraquecem. hipóteses que devem resumir. em conseqüência de sua crescente complexidade. era possível adquirir a competência ne­ cessária para reconstituir sua unidade. na ausência de uma análise suficiente de modos e de pensamento”18? Mas essa uni­ formidade não pode ser mantida à força e a despeito da natureza das coisas. leis. se tomem cada vez mais estranhas às outras classes. pois se toma cada vez mais impossível para uma inteligência hu­ mana ter um conhecimento suficientemente exato dessa inumerável multidão de fenômenos. Enquanto um mesmo espírito podia cultivar ao mesmo tempo as dife­ rentes ciências.AS FORMAS ANORMAIS 377 Mas. à medida que se especializam. se . então. Ou. então. “o que a filosofia. de um lado. quando as ciências particula­ res. sen­ do inevitável que uma cresça ao mesmo tempo que a ou­ tra. como concepção geral do mundo. porven­ tura. a ação governamental terá por objeto manter entre as profissões uma certa uniformidade moral. essas tendências aumentam à medida que o trabalho se divide e. poderá ser um dia. cada vez mais impotentes para conter as tendências centrífugas que a divisão do traba­ lho deve supostamente engendrar. Pela mesma razão.

temos algumas razões para julgar exces­ sivo esse orgulho do cientista. se comparadas com as que falta descobrir. As fórmulas que a exprimem. por vezes. Apenas uma parte dessa alma toma um corpo e formas sensíveis. para ter de uma ciência uma idéia um tanto exata. para possuir todo o sentido das primeiras e compreender tudo o que nelas está condensado. há as esperanças. dominam toda a vida do cientista. Isso porque. é certo que. Mas o mesmo não se dá nesta outra parte da ciência. por outro lado. ne­ cessariamente superficial. de fato. concreta e viva. por serem gerais. as neces­ sidades. Ao lado dessa ciência atual e realizada.”19 Sem dúvida. é necessário pôr mãos à obra e colocar-se diante dos . encerrado em suas pesquisas especiais. porque as verdades descobertas são em número bastante pequeno. não o espírito. e. que em parte se ignora e ainda se busca: ao lado dos resultados adqui­ ridos. isto é. é ne­ cessário ter visto de perto a vida científica enquanto ela ainda se encontra em estado livre. tê-la vivido. Tudo isso ainda é ciência. é necessário tê-la praticado e. que nenhum símbolo traduz externamente.378 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL tomarem inabordáveis no detalhe e os filósofos forem re­ duzidos ao conhecimento dos resultados mais gerais. por assim dizer. No entanto. antes que se te­ nha fixado sob a forma de proposições definidas. os hábitos. É até mesmo sua melhor e maior parte. são facilmente transmissíveis. mas tão poderosos que. Aqui. tudo é pessoal e deve ser ad­ quirido por uma experiência pessoal. Para dela partici­ par. há outra. uma alma que vive na consciência dos cien­ tistas. Senão ter-se-á a letra. Cada ciência possui. por assim dizer. tão obscuros que não pode­ mos exprimi-los com palavras. os instintos. ela não cabe por inteiro nas poucas proposições que demonstrou definitivamente. recusa-se a reconhecer qualquer controle estranho. que. os pressentimentos.

as dissonâncias de detalhe desaparecem no seio da harmonia total. inclusive as mais particulares. as semelhanças bastam para integrar as representações assim aproximadas. só os pode conhecer quem os praticou. Elas exprimem muito bem o que há de comum entre as ciências. poderemos en­ tender que essas disciplinas improvisadas só exerçam so­ bre eles uma autoridade bem pequena. como é impossível separá-los comple­ tamente do corpo das verdades estabelecidas para codifi­ cá-los à parte. o mais dificíl de se unificar são justa­ mente os métodos. as leis e os métodos particulares. Porque. mas a expressão é inexata. Ele contém ape­ nas o que esses fatos possuem em comum. Portanto. pensarmos com que lentidão e com que pacientes precauções os cientistas procedem de ordinário na descoberta de suas verdades. não há no mundo dois fenômenos que se assemelhem. Ora. como eles são imanentes às próprias ciências. porém. há as dife­ renças que precisam ser integradas. ao lado dessas semelhanças. É por isso que toda proposição geral deixa escapar uma parte da matéria que tenta dominar. Ao con­ . Se. por mais simples que sejam. para que a unidade da ciência fos­ se assegurada.AS FORMAS ANORMAIS 379 fatos. enquanto su­ peram as diferenças. Diz-se com freqüên­ cia que o geral contém em potencial os fatos particulares que resume. essas grandes generalizações só podem repousar numa visão bastante sumária das coisas. mas. Segundo Comte. a ciência não seria capaz de encontrar a unidade de que necessita. qualquer que seja o valor dessas generali­ dades filosóficas. É impossível fundir as características concretas e as proprie­ dades distintivas das coisas no seio de uma mesma fór­ mula impessoal e homogênea. além do mais. bastaria que os métodos fossem reduzidos à unidade20. atualmente é impossível que um mesmo homem pratique um grande número de ciências. Todavia. No entanto. Ora.

neste caso como nos demais. suas leis. se as ciências particulares só podem tomar consciência de sua dependência mútua no seio de uma filosofia que as en­ globe. a parte que elas ex­ plicam é muito pouca coisa em comparação com o que deixam inexplicado. não po­ de bastar para integrar uma complexidade tão prodigiosa de fenômenos. com seus teoremas. seus procedimentos e seus métodos. A. à medida que as diferenças se tomam mais nume­ rosas. o papel da consciên­ cia coletiva diminui à medida que o trabalho se divide. Comte não pa­ rece ter percebido que essa solidariedade é sui generis e substitui pouco a pouco a que as similitudes sociais en­ gendram. e. Imaginem a multiplicidade cres­ cente das ciências especiais. suas conjeturas. a coesão se toma mais instável e precisa ser conso­ lidada por outros meios. seus axiomas. o sentimento que dela terão sempre será demasia­ do vago para ser eficaz. Portanto. É por isso que. Há uma distância grande demais entre as pesquisas de detalhe que as alimentam e tais sínteses. e compreenderão que uma fórmula curta e simples. A filosofia existe como a ciência coletiva da ciência e.380 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL trário. por conseguinte. III Muito embora tenha reconhecido que a divisão do trabalho é uma fonte de solidariedade. como a lei da evolução. por exemplo. notando que essas são muito esmaecidas onde as funções são por demais especializa­ . Mesmo se essas visões de conjunto se aplicassem exatamente à realidade. não é por esse meio que se poderá arrancar as ciências positivas de seu isolamen­ to. O vínculo que liga uma à outra essas duas ordens de conhecimen­ tos é demasiado tênue e frouxo.

Para que a solidariedade orgânica exista. além disso. encontramos ao mesmo tempo uma regulamentação sufi­ cientemente desenvolvida que determina as relações mú­ tuas das funções21. mas supõe uma regulamentação que se estende e se . de um modo geral. em certos casos. aliás. nem todas as rela­ ções sociais são suscetíveis de assumir essa forma jurídi­ ca. a solidariedade orgânica não é tudo o que deve ser. seja predeterminada. já que estabelecemos que o enfraquecimento da consciência coletiva é um fe­ nômeno normal. Sabemos. De fato. Mas. sem cessar e. ele viu nesse esmaecimento um fenômeno mórbido. onde quer que observemos.AS FORMAS ANORMAIS 381 das. De outra forma. devida ao excesso da especialização. antes de mais nada. por conseguinte. que o contrato não basta por si só. e explicou com isso os fatos de incoordenação que por vezes acompanham o desenvolvimento da divisão do trabalho. se não em toda espécie de en­ contros. certamente não é porque a solidariedade mecâ­ nica perdeu terreno. porque as condições desse equilíbrio só podem ser encontradas mediante tentativas no decorrer das quais cada parte trata a outra pelo menos tanto como adversá­ ria quanto como auxiliar. mas porque todas as condições de existência da primeira não estão realizadas. devendo as obrigações mútuas ser debatidas de novo em cada caso particular. pois. não basta haver um sistema de órgãos necessários uns aos outros e que sintam. a solidariedade não seria mais que virtual. sua soli­ dariedade. não poderíamos transformá-lo em causa dos fenômenos anormais que estamos estudando. No entanto. pelo menos nas circunstâncias mais freqüentes. uma ameaça para a coesão social. mas é necessário. Dir-se-á que há contratos. Se. seriam necessárias a cada instante novas lutas para que possam equilibrarse. Esses conflitos se renovariam. sabemos que. que a maneira como devem concorrer.

se repetem com maior freqüência e tornam-se hábitos. essas regras se desta­ cam por si mesmas da divisão do trabalho. que a vida social seja sem lutas. nem mesmo possível. maneiras de agir definidas. O passado predeter­ mina o futuro. achando-se mais conformes à natureza das coisas. e bastante precária. em circunstâncias dadas. dela . se a divisão do traba­ lho aproximasse apenas indivíduos que se unem por al­ guns instantes com vistas a intercambiar serviços pes­ soais. que se repetem. pois decorrem das condições gerais e constantes da vida social. O contrato nada mais é que uma trégua. não poderia dar origem a nenhuma ação regulado­ ra. como se acreditou outrora. Há certas maneiras de reagir umas sobre as outras que.382 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL complica como a própria vida contratual. se transformam em regras de conduta. Por certo. O papel da solidariedade não é suprimir a concorrência. há uma certa distinção entre os direitos e deveres que o uso estabelece e que acaba por se tomar obrigatória. os vínculos que têm essa origem são sempre de curta dura­ ção. sempre deixará um espaço livre para mui­ tos atritos. Ademais. o estado de dependência mútua em que se acham os ór­ gãos solidários. Em outras palavras. Sem dúvida. os hábitos. Por sinal. pois. deixar de alcançar o mesmo grau de fixidez e de regula­ ridade. são como que o prolongamento desta. Mas o que ela põe em presença são funções. pois. Do mesmo modo. As relações que se estabelecem entre essas funções não podem. idênticas a si mesmas. isto é. mas sim moderá-la. mas apenas o exprime de uma maneira sensível e definida. depois. à medida que adquirem força. em função de uma situação dada. por mais precisa que uma regula­ mentação seja. Mas não é necessário. A regra não cria. longe de dominar a evolução do organismo. no estado normal. ele apenas suspende por algum tempo as hosti­ lidades. o sistema nervoso.

essas perturbações são. não precisamos. sem pas­ sado nem futuro. Foi por terem desconhecido esse aspecto do fenômeno que certos moralistas acusaram a divisão do trabalho de não produzir uma verdadeira solidariedade. quando necessário. conforme as necessidades. Mas em todo caso. já não há regras que estabeleçam o número das empresas econômicas e. a produção não é regulamentada de maneira a permanecer exatamente no nível do consumo. combinações efêmeras. são canais que a vida abriu para si mesma cor­ rendo sempre no mesmo sentido. estimula ou retarda a produção. não sus­ tentamos que seja necessária uma legislação restritiva. pesar suas vantagens e inconvenien­ tes. essa rede de vínculos que pouco a pouco se tece por si mesma e faz da solidariedade orgânica algo per­ manente. natural­ .AS FORMAS ANORMAIS 383 resulta22. e os gânglios seriam apenas o lugar de interseção de várias dessas linhas23. Viram nela ape­ nas trocas particulares. Ora. de res­ to. es­ sa regulamentação ou não existe. verossimilmente. Hoje. Não queremos. Os econo­ mistas demonstram. em todos os casos que descrevemos acima. em cada ramo da indústria. não são mais que as linhas de passagem seguidas pelas ondas de movimentos e de excitações trocadas entre os diversos órgãos. é verdade. ou não tem relação com o grau de desenvolvimento da divisão do trabalho. aqui. não perceberam esse lento trabalho de consoli­ dação. Por outro lado. que essa harmonia se res­ tabelece por si mesma. graças à ele­ vação ou ao aviltamento dos preços. As redes nervosas. em que o indivíduo é entregue a si mesmo. que. ela só se restabelece assim depois das ruptu­ ras de equilíbrio e de perturbações mais ou menos pro­ longadas. O que é certo é que essa falta de regulamentação não permite a harmonia regular das funções. tirar desse fato nenhuma conclusão prática.

o lingüista. o psicólogo. mais a necessidade de uma regulamentação t extensa se faz sentir. para as ciências mo­ rais e sociais. não suas re­ lações com o exterior. De fato. As relações entre o capital e o trabalho permanece­ ram. Ora. em nossos Códigos. quanto mais uma organização é complexa. Não há disciplinas que concertem os esforços de ciências diferentes com vistas a um fim comum. o antropó­ logo. As regras do método estão para a ciência assim co­ mo as regras do direito e dos costumes estão para a con­ duta. Contudo. assim como as segundas governam as ações dos homens. Mas o jurista. com as ciências correspondentes. não sem exagero. O contrato de locação de serviços ocupa. De resto. no mesmo estado de indeterminação jurídi­ ca. o estatístico. tanto mais freqüentes quanto mais especializadas são as funções. elas dirigem o pensamento do cientista. esses mundos se interpenetram em todas as partes. Ela coordena os procedimentos dos cientistas que cultivam uma mesma ciência. Eis de onde vem a anarquia que foi assinalada. porque as ciências matemáticas. o economista. sobretudo. porque. o mesmo deveria acontecer.384 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL mente. um espaço bem pequeno. Isso é verdade. na ciência em geral. se ca­ da ciência tem seu método. na realidade. sobretudo quando se pensa na diversidade e na complexidade das relações que é chamado a regular. físico-químicas e até biológicas não parecem ser tão estranhas as­ sim umas às outras. não é necessário in­ sistir sobre uma lacuna que todos os povos sentem atual­ mente e se esforçam por preencher24. de resto. elas proporcionam o . a ordem que ela realiza é to­ talmente interna. o historiador realizam suas investigações como se as diversas ordens de fatos que estudam fossem mundos independentes. até hoje. por con­ seguinte. mas que é verdadeira sobretu­ do no caso dessas ciências.

as regras que se formam assim trazem sua marca. regulari­ zam-se por si mesmas. e o tempo completa pouco a pou­ co a obra de consolidação. Portanto. em todos os casos. é porque não são organizadas. a cada nova vez. da necessidade que têm uns dos outros e. Esses diversos exemplos são. variedades de uma mesma espécie. é porque elas estão num estado de anomia. por conseguinte. possuem um sentimento vivíssimo e contínuo de sua dependência mútua. Enfim. As relações. pois. eles são facilmente advertidos. adquirem as relações que se estabelecem espontaneamente entre as funções sociais. se elas formam um conjun­ to sem unidade. Mas se. somente as excitações de certa intensidade podem se comunicar de um órgão a outro. não é porque não possuem um senti­ mento suficiente de suas semelhanças. podemos di­ zer a priori que o estado de anomia é impossível onde quer que os órgãos solidários se encontrem em contato suficiente e suficientemente prolongado. prevêem e fixam em detalhe as condições de equilíbrio. elas se fa­ zem também freqüentemente.AS FORMAS ANORMAIS 385 espetáculo de um agregado de partes disjuntas que não concorrem entre si. As linhas de passagem seguidas pe­ . sendo raras. Pela mesma razão. algum meio opaco for interposto. não se re­ petem o suficiente para se determinar. sendo regulares. se a divisão do trabalho não produz a solidariedade. são novas tentativas. em cada cir­ cunstância. De fato. as trocas entre eles se produzem facilmente. já que as menores rea­ ções podem ser sentidas por ambas as partes. sendo contíguos. ao contrário. Mas de onde vem esse estado? Já que um corpo de regras é a forma definida que. é porque as relações entre os órgãos não são regulamentadas. isto é. com o tempo.

É por isso que. essa condição se acha realizada pela força das coisas. se algumas regras conseguem entretanto constituir-se. a fusão dos diversos segmentos uns nos outros acarreta a dos mercados num mercado único. Porque uma função só se pode dividir entre duas ou várias partes de um organismo se estas forem mais ou menos contíguas. podem perceber facilmente a exten­ são das necessidades a satisfazer. porque as fronteiras que separam os povos caem ao mesmo tem­ po que as que separavam os segmentos de cada um de­ . O mesmo acontecerá se a contigüidade. como necessitam umas das outras. que engloba mais ou menos toda a sociedade. É o que se produz nos casos de que estamos tratan­ do.386 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL las ondas de movimento não se podem abrir. à medida que nos elevamos na escala animal. introduzirem-se nos interstícios uns dos outros. Em geral. elas tendem naturalmente a diminuir a distância que as sepa­ ra. porque es­ sas ondas são demasiado intermitentes. Pelo menos. Mas um concurso de circunstâncias excepcionais pode fazer que não seja assim. o equilíbrio se estabelece sem dificuldade e a produção se ajusta por si mesma. cada um deles é muito limitado. há mais ou menos tantos mercados econômicos quantos segmentos diferentes. Enquanto o tipo segmentário é bastante acentuado. Portanto. elas são gerais e vagas. Os produtores. Ele se estende inclusive além dela e tende a se tornar universal. Ademais. for demasiado recente ou tiver durado muito pouco25. à medida que o tipo organizado se desenvolve. uma vez que o traba­ lho é dividido. Ao contrário. embora sendo suficiente. estando bem próximos dos consumidores. como diz Spencer. pois. apenas os contornos mais gerais dos fenômenos podem estabelecer-se. por conseguinte. vemos os órgãos se aproximarem e. nessas condições.

nem mesmo com o pensamento. O aumento dessas crises locais e restritas. Os cientistas nele se instalaram. ora no outro. ora num sentido. naturalmente. Daí resulta que cada indústria produz para consumi­ dores que se encontram dispersos por toda a superfície do país. o contato já não basta. verossimilmente. o mercado é ilimitado. Enfim.AS FORMAS ANORMAIS 387 les. ela tem como efeito transformar as rela­ ções entre patrões e operários. Daí es­ sas crises que perturbam periodicamente as funções eco­ nômicas. é. Ora. tirado da sua família o dia inteiro. vive cada vez mais separado daquele que o emprega. uns aqui. O operário é arregi­ mentado. o que explica que as ciências morais e sociais se encontrem no estado que dissemos é que foram as úl­ timas a entrar no círculo das ciências positivas. Portanto. pois. Dispersos nessa vasta superfície. perma­ . um efeito dessa mes­ ma causa. o da pequena oficina. O trabalho à máquina substitui o do homem. etc. que são as falências. a grande indús­ tria aparece. ou até do mundo inteiro. Em conseqüência. ela não pode deixar de tatear ao acaso e. ele já não pode representar seus limites. uma nova organização. foi só de um século para cá que esse novo campo de fe­ nômenos abriu-se à investigação científica. mas como essas transformações se consumaram com uma extrema rapidez. Essa novas condições da vida industrial requerem. Uma maior fadiga do siste­ ma nervoso somada à influência contagiosa das grandes aglomerações aumenta as necessidades destes últimos. falta à produ­ ção freio e regra. De fato. À medida que o mercado se amplia. no decorrer dessas tentativas. por assim dizer. os interesses em conflito ainda não tiveram tempo de se equilibrar26. O produtor já não pode abarcar o mercado com seu olhar. o trabalho na manufatura. outros ali. é inevitável que a medi­ da seja superada. conforme seus gostos naturais.

não é mais que uma engrenagem inerte. que age sobre elas e responde. mas a unidade viva de um todo orgânico. é impossível -. se não sabe a que tendem essas operações que reclamam dele. co­ mo quer que se represente o ideal moral. de fato. acabarão necessaria­ mente por se encontrar e. mas sem se interessar por eles. se dobra e se transforma segundo as necessidades e as circunstâncias. de resto demasiado exígua para a multi­ dão das coisas que deveria abarcar. que uma força externa aciona e que sempre se move no mesmo sentido e da mesma maneira. Não é mais a célula viva de um organismo vivo. com freqüência. E. se dilata. por sinal.o que. ele repete os mesmos movimentos com uma regularidade monótona. por tomar consciência de sua solidariedade. A unidade da ciência se formará. por si mesma. mas basta que todos os que a cultivam sintam que cola­ boram para uma mesma obra. nem compreendê-los. por sua vez. pelo simples fato de que levarão suas pesquisas cada vez mais longe de seus pontos de partida. reduzindo-o ao papel de máquina. se não as vincula a nenhum objetivo. se contrai. só ppde reali­ zá-las por rotina. não é necessário que caiba inteira no campo de visão de uma só e mesma consciência . Ela foi acusada. que vibra sem cessar em contato com as células próximas. Todos os dias. assim. Evidentemente. de diminuir o indi­ víduo.388 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL neceram até aqui demasiado distantes uns dos outros pa­ ra sentirem todos os vínculos que os unem. Para que a ciência seja una. Mas. à sua ação. por conseguinte. O que precede priva de todo e qualquer fundamen­ to uma das mais graves críticas que se fez à divisão do trabalho. não é possível permanecer indiferente a semelhante aviltamento da na­ . não a unidade abstrata de uma fórmula.

o operário exclusivamente ocupado. por vezes. belas generalidades. sem impaciência.AS FORMAS ANORMAIS 389 tureza humana. na ordem material. supondo-se que seja possível redimir assim alguns dos efeitos nefastos atribuí­ dos à divisão do trabalho. tal remédio só tomaria a especia­ lização inofensiva. infelizmente. na ordem intelectual. por conse­ guinte. vastas vistas de conjunto. o emprego exclu­ sivo e contínuo do cérebro humano na solução de algu­ mas equações ou na classificação de alguns insetos: o efeito moral. quem não vê que essas duas existências são demasiado opostas para serem conciliáveis e poderem ser vividas pelo mesmo homem? Se nos acostumamos com vastos horizontes. em ambos os casos. etc. . A divisão do trabalho não muda de natureza se a fazemos ser precedida por uma cultura geral. lamentar menos. não nos deixamos mais confinar. uma instrução geral. “Se se deplorou com freqüência. Aliás. é bom que o trabalhador esteja em condições de se interessar pelas coisas da arte. é.. nos limites estreitos de uma tarefa especial. mas nem por isso deixa de ser ruim ele ser tratado todo dia como uma máquina. Sem dúvi­ da. proposto como remédio dar aos tra­ balhadores. Mas. Portanto. não pode deixar secar a própria fonte da vida social. não é este um meio de preve­ ni-los. durante a vida intei­ ra. diz A. Comte. Se a moral tem por objetivo o aperfeiçoa­ mento individual. por­ que o mal não ameaça apenas as funções econômicas. mas todas as funções sociais. mais ou menos impossível. por mais elevadas que se­ jam. “a filosofia sadia não deve.”27 Foi. ela não pode permitir que se arruine a esse ponto o indivíduo e. sobre­ maneira análogo. junto com seus conhecimentos técnicos e es­ peciais. da literatura. se tem por fim a sociedade. no fundo. tomando-a intolerável e. na fabricação de cabos de faca ou cabeças de alfine­ tes”.

Ele não é.390 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL O que resolve a contradição é que. mas sabe que tendem a algum lu­ gar. não é necessário temperá-la com seu contrário. Para que ela possa desenvolver-se sem ter sobre a consciência humana uma influência tão desastrosa. uma máquina que repete movimentos cuja direção não percebe. antes de mais nada. das mudanças que nelas sobrevêm. não é necessário que abarque vastas proporções do horizonte social. ao contrário do que se disse. se tivessem visto que ela é. etc. por mais especial. se não a ti­ vessem reduzido a não ser mais que um meio de aumen­ tar o rendimento das forças sociais. pois terá um sentido. Ele sente servir a algo. mas basta que perceba o suficiente dele para com­ preender que suas ações têm uma finalidade fora de si mesmas. aja sobre eles e sofra sua ação. Porque. pois. normalmente. ela será a atividade de um ser in­ teligente. Para tanto. . mas mantenha-se em relação constante com as funções vizinhas. não perca de vista seus colaboradores. a uma finalidade que ele concebe mais ou menos distintamente. A di­ visão do trabalho supõe que o trabalhador. uma fonte de solidariedade. o jogo de cada função especial exige que o indivíduo não se encerre es­ treitamente nela. tome consciência de suas ne­ cessidades. por mais uniforme que possa ser sua atividade. e ele o sabe. que nada venha do ex­ terior desnaturá-la. Assim. Os econo­ mistas não teriam deixado na sombra essa característica essencial da divisão do trabalho e. em conseqüência. mas apenas em circunstâncias excepcionais e anor­ mais. não a teriam exposto a essa crítica desmerecida. longe de per­ manecer debruçado sobre sua tarefa. é necessário e bastante que ela seja ela mesma. a divisão do trabalho não produz essas con­ seqüências em virtude de uma necessidade da sua natu_reza.

Daí as guer­ ras intestinas que se devem à maneira como o trabalho é distribuído. pois. A instituição das classes ou das castas constitui uma organização da divisão do trabalho. uma fonte de dissensões. Sem dúvida. os diferentes tecidos guerreiam-se e alimentam-se uns à custa dos outros.CAPÍTULO II A DIVISÃO DO TRABALHO FORÇADA I No entanto. algumas vezes. O motivo disso é . com freqüência. as clas­ ses inferiores aspiram às funções que lhes são vedadas e delas procuram despojar os que as exercem. com o papel que o costume ou a lei lhes atribui. e uma organização estritamente regulamentada. essas próprias regras são a causa do mal. nos momentos de crise. ela é. É o que acontece nas guerras de classes. ou não mais o estando. Mas nunca uma célula ou um órgão procura usurpar um ou­ tro papel que não aquele que lhe cabe. no entanto. não basta haver regras. Não estando satisfeitas. Não se observa nada semelhante no organismo.

há uma distância maior entre as dispo­ sições hereditárias do indivíduo e a função social que ele desempenhará. antes. desde o nosso nascimento. a menos que este a abandone. não há outro meio. predestina­ dos a certo emprego especial. é essa condição que não está realizada no exemplo que examinamos. que cada um tenha a sua tare­ fa.392 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL que cada elemento anatômico visa mecanicamente seu objetivo. pois. Sua constituição. Para que a divisão do trabalho produza a soli­ dariedade. que essa tarefa lhe convenha. sua tarefa é uma conseqüência da sua natureza. no entanto. também o é ao jogo de uma multidão de causas que podem fazer a natureza individual desviar de sua direção normal e criar um estado patológi­ co. De fato. não mais corresponde à distribui­ ção dos talentos naturais. temos gostos e aptidões que limitam nossa escolha. Nelas. se são incessantemente contrariados por nossas ocupações cotidianas. co­ mo acontece nos raros casos de substituição de que fala­ mos. por vezes. a dolorosos atritos. essa organização também é mais delicada e mais acessível à mudança. é porque a distribuição das funções sociais em que ela repousa não corresponde. Ele pode desempenhá-la mal. Ora. não é unicamente por espírito de imitação . Sem dúvida. além disso. mas não po­ de assumir a de outro. não obstante o que se tenha dito1. sua posição no organismo de­ termina sua vocação. em vez de produzir a solidariedade. a con­ tingência é maior. a não ser mudar a ordem estabelecida e refazer uma nova. Porque. ou. se a instituição das classes ou das castas dá origem. Se não se os leva em conta. Por ser mais flexível. aberto às tentativas e à deliberação. O mesmo não se dá nas sociedades. sofremos e procuramos um meio para pôr fim a nossos sofrimentos. é necessário. Ora. não basta. não estamos mais. Esse espaço. as primeiras não acarretam as segundas com uma necessidade tão imediata.

mais ou menos violenta e mais ou menos direta. Para que certas necessidades se difundam de uma classe a outra. Sucede com o contágio moral o mesmo que com o con­ tágio físico: ele só se manifesta em terrenos predispostos. só uma solidarie­ dade imperfeita e perturbada é possível. não era apenas para imitar estes últimos. esse resultado não é uma conseqüência necessária da divisão do trabalho. Só se produz em cir­ cunstâncias bem particulares. apenas a coerção. Mesmo. mais nume­ rosos. pois supõe outra coisa que ela mesma. sem que nada venha incomodar as iniciativas dos indivíduos. os supera­ vam. Como resultado des­ sas transformações. É bem diferente quando ela se estabelece em virtude de espontaneidades puramente in­ ternas. por conseguinte. mas porque se tinham tomado mais inteligentes. uns se tenham tomado aptos a funções que. liga-os a suas funções. Quando os plebeus puseram-se a disputar com os patrícios a honra das funções religiosas e administrativas. De fato. mais ricos. enquanto os outros perdiam sua superioridade ori­ ginal. a imitação nada pode explicar por si só. e porque seus gostos e suas ambições se haviam modificado em conseqüência disso.AS FORMAS ANORMAIS 393 que as classes inferiores acabam ambicionando a vida das classes mais elevadas. Portanto. ela não se produz entre espécies ou variedades diferentes. por um efeito das mudanças que se produziram na sociedade. a saber. Ela só é possível entre seres que já se assemelham e na medida em que se assemelham. sob essa condição. quando é o efeito de uma coerção externa. é necessário que as diferenças que separavam primitivamente essas classes tenham desaparecido ou di­ minuído. a harmonia entre . para dizer a verdade. É necessário que. quebra-se em toda uma região da so­ ciedade a concordância entre as aptidões dos indivíduos e o gênero de atividade que lhes é atribuído. num primeiro tempo.

394 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL as naturezas individuais e as funções sociais não pode deixar de se produzir. a divisão se dá. mórbidos. suas necessi­ dades se acham proporcionadas a seus meios. é inevitável que só as consigam os mais aptos a cada gênero de ativi­ dade. Mas é preciso não se enganar sobre o sentido dessa palavra. no organismo. no sentido das aptidões. a maneira co­ mo o trabalho se divide é a diversidade das capacidades. Assim. É por isso que. o homem fica feliz ao consumar sua natureza. pois não há razão para que ela se produza de outra maneira. mas são casos ex­ cepcionais e. como acabamos de ver. A divisão do trabalho forçada é. a har­ monia entre a constituição de cada indivíduo e sua con­ dição. cada órgão só reclama uma quantidade de alimentos proporcional à sua dignidade. Pela força das coisas. É verdade. pelo menos na média dos casos. que há homens cujos desejos sempre superam suas faculdades. De fato. É o que se dá mesmo sob o regime das castas. se nada tolhe ou favorece indevidamente os con. Mas quando ela funciona numa sociedade de ma­ neira regular e sem resistência. Dir-se-á que nem sempre é o bastante para con­ tentar os homens. Porque. por si mesma. O que faz a coer­ ção não é qualquer espécie de regulamentação. essa instituição não é sempre e por toda parte arbi­ trária. pois. Normalmente. correntes que disputam as tarefas entre si. Realiza-se assim. pois. pois. enquanto ele está fundado na natureza da sociedade. o segundo ti­ po mórbido que reconhecemos. A única causa que determina. podemos dizer. a divisão do trabalho não pode dispensar uma regulamentação. pelo menos em linhas gerais. a divisão não é necessariamente o efeito de uma coerção. a maneira imutável como se dis­ tribuem as aptidões profissionais. embora . então. é porque exprime. Mesmo que as funções se dividam de acordo com regras preestabelecidas. ao contrário.

mas de tudo o que pode tolher. não sendo exagerado nem num sentido. que a divi­ são do trabalho só produz a solidariedade se for espontâ­ nea e na medida em que for espontânea. por nada que lhe fosse estranho. portanto. mesmo indiretamente.AS FORMAS ANORMAIS 395 as tarefas sejam em certa medida repartidas pela lei. Ora. mas também que ne­ nhum obstáculo. para tanto. nem noutro. é necessário e basta que estas últimas não sejam nem realçadas. Portanto. Objetar-se-á que. a es­ pontaneidade perfeita nada mais é que uma conseqüên­ cia e uma outra forma deste outro fato: a absoluta igual­ dade nas condições exteriores da luta. nem depreciadas por alguma causa externa. não correspondendo mais à verdadeira natureza das coisas e. a livre expansão da força social que cada um traz em si. por es­ pontaneidade. e que estes últimos nunca aceitarão sua derrota se­ . só se sustenta pela força. Mas. não apenas de qualquer violência expressa e formal. o trabalho só se divide espon­ taneamente se a sociedade for constituída de maneira que as desigualdades sociais exprimam exatamente as desigualdades naturais. cada órgão desempenha a sua espontaneamente. A espontaneidade supõe não apenas que os indivíduos não sejam relegados à força a funções determinadas. podemos dizer. A coerção só começa quando a regulamentação. ainda há luta. no âmbito social. Ela consiste não num estado de anarquia que permitiria aos homens satis­ fazerem livremente a todas as suas tendências. já não tendo base nos costumes. os impeça de ocupar. em conseqüên­ cia. boas ou más. seria estimado a seu justo preço. mas numa organização inteligente em que cada va­ lor social. Inversamente. de qualquer natureza. mesmo nessas condi­ ções. deve-se entender a ausência. Numa palavra. em conseqüência vencedores e ven­ cidos. a posição proporcional a suas faculdades.

são superados. Mesmo ho­ je e entre os povos mais cultos. ou de mais difícil acesso aos deser­ dados da fortuna. certo desfavor a outros. casos em que o indivíduo não está em harmonia com as funções que lhe são atribuídas. há carreiras que são ou totalmente fechadas. Sempre há exceções à regra e. vantagens que não corres­ pondem necessariamente a seu valor pessoal. Depois de desaparecer juridicamente. até o dia em que os marcos. é que sequer se deixe um combater. luta é impossível. tomando-se de­ masiado estreitos. a transmissão hereditária da riqueza basta para tomar bastante desiguais as condi­ ções exteriores em que a luta é travada. em benefício de alguns. poderia parecer que não se tem o direito de considerar normal uma característica que a divisão do trabalho nunca apresenta no estado de pure­ za. de outro lado. mesmo que. por conseguinte. que quanto mais . Enfim. independentemente de seus méritos. as crianças repitam identicamente os pais. Portanto. De fato. não reste mais nenhum resquício de to­ dos esses vestígios do passado. se não se percebesse. isso só se dá de uma maneira aproximada e.396 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL não por coerção. É verdade que essa espontaneidade perfeita não é encontrada em parte alguma como fato realizado. Não há sociedade em que ela seja pura. pois ela consti­ tui. certo favor se prende a uns. em suma. graças à persistência de certos preconcei­ tos. Essas discordâncias se tomam mais numerosas à medida que a sociedade se de­ senvolve. gros­ seira. Se a instituição das cas­ tas corresponde à repartição natural das capacidades. mesmo onde encontra as condições mais favo­ ráveis à sua influência. por assim dizer. o regime das castas sobrevive a si mesmo nos costumes. Mas essa coerção não se assemelha à outra e só tem em comum com ela o nome: o que consti­ tui a coerção propriamente dita é o fato de que a própria . a hereditariedade nunca age com tal preci­ são que.

mais também essas desi­ gualdades tendem a se nivelar completamente. a igualdade nas condições exterio­ res da luta. mas de­ ve exprimir. como os progressos da divisão do trabalho implicam. Os preconceitos a que deram origem e que deixam atrás de si não sobrevivem indefinidamente a elas. algum aspecto da reali­ dade. De fato. uma desigualdade sem­ pre crescente. porque. assistindo por diver­ sos meios os que se encontram numa situação demasiado desvantajosa e ajudando-os a dela sair. Mas o que manifesta me­ lhor ainda essa tendência é a crença. o que toma necessá­ rio esse nivelamento. Enfim. Ela atesta. a partir do momento em que a divisão do trabalho se estabeleceu. mas extinguem-se pouco a pouco. de maneira confusa. de que a igualdade se toma cada vez maior entre os ci­ dadãos e que é justo ela se tomar maior. que vem do fato de haver ricos e po­ bres de nascimento. elas regridem necessariamente com essa organização. mesmo esta úl­ tima desigualdade. É fácil compreender. a igualdade cuja necessidade é assim afir­ mada pela consciência pública só pode ser aquela de que falamos. sem desaparecer completamente. assim. A sociedade esforça-se por reduzi-la na medida do possível. por sinal. De fato. sem condição de fortuna. Por outro lado. o declínio progressivo das castas. hoje tão difundida. como são ligadas ã organiza­ ção político-familiar. ao contrário. acabamos de ver que qual­ .AS FORMAS ANORMAIS 397 subimos na escala social. Um sentimento tão geral como esse não poderia ser pura ilusão. a saber. que se sente obrigada a abrir espaço para todos os méri­ tos e que reconhece como injusta uma inferioridade que não é pessoalmente merecida. é uma lei da história. Os empregos pú­ blicos são cada vez mais livremente abertos a todo o mundo. mais o tipo segmentário desa­ parece sob o tipo organizado. é pelo menos um pouco atenuada.

servindo de base para a or­ dem moral e religiosa. Esse resultado nada tem de muito desastroso para as sociedades inferiores. É o contrário que se produz quando a solidariedade orgânica se torna predominante. os atritos que assim se produ­ . as atividades especiais se exercem de maneira mais ou menos contínua. co­ mo não são eles que prendem mais fortemente o indiví­ duo à sociedade. ela se lhes apresenta como sagra­ da. pois. por mais tensos que nela pos­ sam ser os vínculos derivados da divisão do trabalho.398 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL quer desigualdade exterior compromete a solidariedade orgânica. nas quais a solidariedade é . porque. como a consciên­ cia coletiva se enfraquece. é fácil acostumar-se a eles. nessas condições. Portanto. mas por­ que ela resume. elas não podem ser contrariadas sem que disso resultem sofrimen­ tos de todos os instantes. Em seguida. a coesão social não é ameaçada por is­ so.assegurada sobretudo pela comunidade das crenças e dos sentimentos. De fato. De resto. Atritos privados e de natureza temporal são. como. são fracamente sentidos. Por todas essas razões. então. porque todas as suas con­ vicções a supõem. demasiado leves para abalar estados de consciên­ cia que conservam dessa origem uma força excepcional. evidente­ mente. chega-se a achar essas desigualdades não só toleráveis. O mal-estar que resulta das aspirações contrariadas não basta para virar os que sofrem com isso contra a or­ dem social que é sua causa. como a vida profisisonal é pouco desenvolvida. tudo o que a afrouxa atinge o vínculo social em sua parte vital. uma multidão de crenças e de práticas de que vivem. esses atritos são intermitentes. não por nela encontrarem o campo necessário ao desenvolvimento da sua atividade profissional. Apegam-se a ela. porque toda a sua vida interior é ligada a ela. Rrimeiro. a seu ver. mas até naturais. pois eles se apegam a essa ordem.

Por isso. não é apenas porque essa empresa é bela. pode-se prever que essa obra de justiça tomar-se-á cada vez mais completa. Eis por que. o dique que o continha é abala­ do. para eliminar na medida do possível as desigualdades exteriores. obra totalmen­ te humana. à medida que o tipo organizado se desenvolve. ao mesmo tempo que é mais atacada. é indispensável que a divisão do trabalho se aproxime cada vez mais desse ideal de espontaneidade que acabamos de definir. mas porque sua existência está comprometida no problema. e a solidariedade só é possível com essa condição. Pois elas só se podem manter se todas as partes que as formam são solidárias. Os sentimentos comuns não têm mais a mesma for­ ça para manter. e devem se esforçar. verossimilmente eles só pro­ porcionam uma tênue idéia dos que serâo consumados. mas também para ligar as funções umas às outras. se manifestam mais facilmente. portanto. Perdendo ca­ da vez mais o caráter transcendente que a colocava como que numa esfera superior aos interesses humanos. a or­ ganização social não tem mais a mesma força de resistên­ cia. ela não pode mais se opor tão bem às reivin­ dicações humanas. o indivíduo preso ao grupo. já não tendo o mesmo contrapeso. . nas sociedades organizadas. as tendências subversivas. ele se mostra muito mais perigoso. apesar de tudo. Por mais importantes que sejam os progres­ sos realizados nesse sentido.AS FORMAS ANORMAIS 399 zem não podem mais ser tão completamente neutraliza­ dos. II A igualdade nas condições exteriores da luta não é apenas necessária para prender cada indivíduo à sua fun­ ção. Se elas se esforçam. No mesmo momento em que o fluxo se toma mais violento.

não pode ser ameaçada sem que a unidade do corpo social seja ameaçada ao mesmo tempo. que. Sem dúvida. tanto mais que o contrato supõe algo mais que ele mesmo. colocada ao abrigo de tudo o que a pode perturbar. as relações contratuais se desenvolvem ne­ cessariamente com a divisão do trabalho. Portanto. a solidariedade contratual seja. Porque se. pois esta não é possível sem a troca. a solidariedade contratual pode ser instável sem maiores inconvenientes. porém. enquanto há sociedades primiti­ vas que não intervém nem mesmo para resolvê-los2. não basta que a autoridade pública zele para que os compro­ missos contratados sejam cumpridos. nas es­ pécies superiores. é necessário que. sejam es­ pontaneamente cumpridos. ora. Os conflitos que nas­ cem dos contratos adquirem. é preciso ainda. maior gravidade à me­ dida que o próprio contrato adquire maior importância na vida geral. pois. vínculos especiais que têm sua origem na vontade dos indivíduos. Se os contratos só fossem ob­ . na medi­ da do possível. Para que esse resultado seja alcançado. Por isso. pelos motivos que dissemos. pelo menos na grande média dos casos. nessas mes­ mas sociedades. uma das variedades importantes da solidariedade orgânica é o que poderíamos chamar de solidariedade contratual. o di­ reito contratual dos povos civilizados se toma cada vez mais volumoso. no entanto. é errado acreditar que todas as relações sociais possam reduzir-se ao con­ trato. de que o contrato é a forma jurídi­ ca. representa um fator importante do consenso geral. seu único objetivo é assegurar o concurso regular das funções que entram em relações dessa maneira. Há um consenso de certo gênero que se exprime nos contratos e que. Em outras palavras. nas sociedades menos avançadas.400 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL De fato. onde ela é uma das formas eminentes da solidariedade social. há.

é em tomo desse ponto que oscila o valor médio. para obtê-lo. em cada momento. Ele representa a quantidade de trabalho útil que contém. aproveitei de uma situação. basta que os contratos sejam livremente consentidos. a extensão da satisfação que pro­ porciona. mas a parte dessa energia capaz de produzir efeitos sociais úteis. um valor determinado. a soma de esforços necessários à produção do objeto. Deve-se entender com isso não o trabalho integral que pode ter custado. que poderíamos chamar de seu valor social. nem por isso ela é menos real. a solidarieda­ de contratual seria singularmente precária. nesse caso. é. antes de mais nada. Uma ordem totalmente exterior dissimularia mal atritos tão gerais para poderem ser indefinidamente contidos. pois o que constitui o livre consentimento? A aquiescência ver­ bal ou escrita não é prova suficiente dele: alguém pode aquiescer apenas se forçado. enfim. cada objeto de troca tem. Conquanto tal grandeza não possa ser calculada matematicamente. de que eu não era a causa. é verdade. mas que colocava outrem na necessidade de ceder a mim ou morrer? Numa sociedade dada. diz-se.AS FORMAS ANORMAIS 401 servados pela força ou por medo da força. esse valor só se afasta dele sob a influência de fatores anormais e. como seria ele válido se. mas onde começa a coerção? Ela não consiste apenas no emprego direto da violência. a dificuldade nem por isso está resolvida. Mas. a consciência pública . Con­ tudo. para que esse perigo não precise ser temido. que correspondam a necessidades normais. De fato. é preciso que toda coerção esteja ausente. Logo. a intensidade das necessidades a que satisfaz e. Se o compromisso que arranquei ao ameaçar alguém com a morte é moral e legalmente nulo. Percebe-se facilmente até as principais condições em função das quais ela varia. pois a violência indireta suprime igualmente a liberdade. isto é. É verdade.

Nessas condições. diremos que o contrato só é plenamente consentido se os serviços trocados possuí­ rem um valor social equivalente. algumas vezes. os valores trocados não se contrabalançam. apenas ela altera o consentimento. pelo produto que cedemos. pro­ duz-se e se mantém por si mesmo. para que a força obrigatória do contrato seja plena. não poderia ser confundida com a que nos priva dos meios de obter a justa remune­ ração de nosso trabalho. Mas essa coerção. É verdade que. mesmo os mais desregrados. e essa pressão constitui uma violência. portanto. pois não é mais que uma conseqüência e uma outra forma do pró­ prio equilíbrio das coisas. Ela acha injusta toda troca em que o preço do objeto não tem relação com a fadiga que custa e os serviços que presta. mais do que ele vale. Colocada essa definição. é necessário. por conseguinte. que seja justo. com efeito. além disso. cada um recebe a coisa que deseja e entrega a que dá em troca pelo que ambas valem. Numa palavra. A primeira não existe para o ho­ mem sadio. Ora. só se moderam por conterem-se mutuamente. Uma simples manifestação . e ele não é justo pelo simples fato de ter sido verbalmente consentido. ao contrário. Ambas as partes são lesadas. Somente a segunda merece ser chamada por esse nome. que o contrato constata e consagra. que nos impede de satisfazer sem comedimento nossos desejos. Se. ela não existe no caso que acabamos de mencionar.402 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL tem geralmente um sentimento mais ou menos vivo des­ sa defasagem. desejamos receber. Esse equilíbrio das vontades. não basta que ele tenha sido objeto de um assentimento expresso. É verdadeiramente espontâneo. as vontades só pu­ deram ser postas de acordo se uma delas sofreu uma pressão direta ou indireta. nossas am­ bições são ilimitadas e. só podem equilibrar-se se alguma força exterior é posta na balança.

como a apreciação das coisas não pode ser determi­ nada a priori. ela defor­ ma as condições morais da troca. enquanto a outra pode privar-se deles. elas não têm sobre a determina­ ção dos valores outra influência além da de estabelecer entre estas últimas uma graduação paralela à hierarquia das funções sociais. de seus serviços sociais. se ela não depende da pessoa dos indivíduos. seu mérito desigual sempre redundará em situações desiguais para os homens na so­ ciedade. por hipó­ tese. gra­ ças aos recursos de que dispõe e que. por si só. Sem dúvida. porque qualquer outro fator capaz de fazê-los variar é. no entanto. Qualquer superioridade tem seu reflexo sobre a maneira como os contratos se formam. os valores das coisas correspondem exatamente aos ser­ viços que elas prestam e à fadiga que custam. As coisas deixam de ser assim se al­ guns recebem de alguma outra fonte um suplemento de energia. é necessário que repouse num fundamento objetivo. para viver. pois esta tem necessariamente por efeito deslo­ car o ponto de equilíbrio. outra força além da que extraem de seu mérito social. eliminado. pelo menos. Se uma classe da socie­ dade é obrigada. mas essas desigualdades só em aparência são exteriores. dessa maneira. a impor a qualquer preço seus serviços. pois apenas traduzem exteriormente desigual­ dades internas. portanto. Portanto. para fazer apreciar o que seu trabalho vale. A condição necessária e suficiente para que essa equivalência seja a regra dos contratos é que os contra­ tantes sejam postos em condições exteriores iguais. e é claro que esse deslocamen­ to é independente do valor social das coisas. Com efeito. esse poder vinculatório que é inerente às convenções. mas decorre das próprias trocas. para que o consentimento tenha essa virtude.AS FORMAS ANORMAIS 403 do sujeito não seria capaz de engendrar. é necessá­ rio que os indivíduos que trocam não tenham. não são ne­ . De fato.

elas têm menos oportunidades de se produzir e. não pode haver ricos e pobres de nascimento sem . como quer que tenha si­ do obtido. elas se tomam mais in­ suportáveis.404 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL cessariamente devidos a alguma superioridade social. Mas. todo contrato firmado de acordo com as normas tem força obrigatória. O acordo das vontades não basta para ligá-las. e os vínculos formados não resultam diretamente desse acordo. Mas essas injustiças não são fortemente sentidas en­ quanto as relações contratuais são pouco desenvolvidas e a consciência coletiva é forte. porque as circunstâncias que lhes dão origem retomam com maior freqüência e. é necessário e suficien­ te que certas cerimônias sejam consumadas. mas pelas fórmulas empregadas3. a se­ gunda impõe-se injustamente à primeira. Em outras pala­ vras.que haja contratos injustos. e a natureza dos compro­ missos é determinada não pela intenção das partes. É isso que atesta a história do direito contratual. também. porque os sentimentos que elas despertam não podem mais ser tão completamente temperados por sentimentos contrários. O contrato consensual só aparece numa época relativamente recente4. Com maior razão. que ten­ de cada vez mais a negar qualquer valor às convenções em que os contratantes se encontram em situações demasiado desiguais. Mas. assim aconte­ cia quando a própria condição social era hereditária e o di­ reito consagrava toda sorte de desigualdades. que certas palavras sejam pronunciadas. durante mui­ . Em conseqüência da rarida­ de dos contratos. Para que o contrato exista. É um pri­ meiro progresso no sentido da justiça. sobretudo. O consentimento não é sequer seu fator pri­ mordial. Originalmente. A sociedade não sofre com elas porque não está em perigo por isso. as crenças comuns neutralizam seus efeitos. à medida que o trabalho se divide e que a fé social se debilita.

mas enganaram-se quanto à natureza dessa liberdade. normalmente. Enfim. A consciência pública reclama de maneira cada vez mais insistente uma exata reciprocidade nos serviços trocados e. extorquido pela força ou pela fraude. de fa­ to. É aos economistas que cabe o mérito de terem sido os primeiros a assinalar o caráter espontâneo da vida so­ cial. reconhecendo apenas uma forma obrigatória reduzidís­ sima para as convenções que não preenchem esse requi­ sito fundamental de qualquer justiça. ele supõe que um dos contratantes fica totalmente à mercê do outro. pôde ser imperfeito. devi­ damente estabelecida. Como vêem nela um atributo constitutivo do indivíduo em si. o consentimento. a lesão.AS FORMAS ANORMAIS 405 to tempo. ela se mostra muito mais indulgente do que a lei para com os que as violam. a moral comum condena mais se­ veramente ainda qualquer espécie de contrato leonino. prestaram um im­ portante serviço à ciência da moral. Ao mesmo tempo. isto é. em que uma das partes é explorada pela outra. fazendo-se abstração . por essa razão que todos os povos civilizados se recusam a reconhecer o contrato de usura? É que. ela re­ sulta não de arranjos externos e impostos. de terem mostrado que a coerção necessariamente a desvia de sua direção natural e que. foi admitida entre as causas que podem. A esse título. de resto. mas de uma li­ vre elaboração interna. ela lhes parece existir por inteiro no estado natural. viciar os contratos7. Não é. Nosso direito tomou-se mais exi­ gente sobre esse ponto. que bastava para validar os pactos. por ser a mais fraca e não receber o justo preço por seu esforço. em certos casos. Foi bem tarde que o pretor romano con­ cedeu às vítimas das espertezas e da violência a ação de dolo e a ação quod metus causa>\ mas a violência só existia legalmente se tivesse havido ameaça de morte ou de suplícios corporais6.

Mas se ela não se encerra estritamente nesses limites. elas sintam necessidade de se orientar nesse sentido. uma obra de justiça. que é. A tarefa das sociedades mais avançadas é. na medida em que ele se toma um ser social. Contudo. pois. Naturalmente. Ela é tão pouco uma propriedade inerente ao estado natural. uma conquista da sociedade sobre a natureza. e aca­ bamos de ver que todas essas desigualdades são a nega­ ção mesma da liberdade. foi o que já mostramos e o que nos prova a experiência de ca­ . a própria vida doméstica. os homens são desiguais em for­ ça física. a que depende mais estritamente de causas naturais. amoral. Ora. Enfim. o que constitui a liber­ dade é a subordinação das forças exteriores às forças so­ ciais. Que. que as liberdades concorrentes não se prejudiquem mu­ tuamente. essa subordinação é muito mais a inversão da ordem natural8. Porque ele não pode escapar da natureza senão criando outro mun­ do. ao contrário. pois é apenas com essa condição que estas últimas podem se desenvolver livremente. invade o domínio legítimo delas e o diminui. tudo o que ela pode e deve fazer é regular seu funcionamento exterior de maneira . do qual a domina. podemos dizer. dela resulta. ela só se pode realizar progressivamente. portanto. absurdo. ocorre que a própria liberdade é produto de uma regulamentação. de todas as formas da vida social. isto é. e esse mundo é a sociedade9. de fato. a lhe acrescentar. para despojá-las de seu caráter fortuito. Longe de ser uma es­ pécie de antagonista da ação social. além de ser falso que toda regulamentação é produto da coerção. Segundo eles.406 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL de qualquer sociedade. com a hereditariedade dos bens que implica e as desigualdades que daí derivam é. à medida que o ho­ mem se eleva acima das coisas para impor-se a elas. a ação social nada tem. Portanto. eles são colocados em condições externas desi­ gualmente vantajosas.

A harmonia das funções e. numa palavra. Não há necessidades mais bem fundamentadas do que essas tendências. a existência têm esse preço. os homens se contentaram com uma justiça muito menos perfeita. as condições que dominam a evolução social permanecerem idênticas. antes de mais nada. se não representam muito mais um desvio do estado normal do que uma antecipação do estado normal por vir. talvez. por conseguinte. se. em que o indivíduo viesse se absorver. como tudo faz prever. perguntamo-nos se essas aspirações não se deveriam. necessidade da fé co­ mum para viver. a impaciências sem motivo. o meio de curar o mal cuja existência revelam é satisfazê-las ou combatê-las. é indispensável que as condições externas se ni­ velem. Como o tipo segmentário desaparece e o tipo organizado se desenvolve. o nosso é colocar cada vez mais eqüidade em nossas relações so­ ciais. No entanto. Do mesmo modo que o ideal das sociedades infe­ riores era criar ou manter a vida comum mais intensa possível. e pode-se ter certeza de que essa necessidade tomar-se-á cada vez mais exigente se. pois elas são uma conseqüência necessária das mudanças que se produziram na estrutura das sociedades. Do mesmo modo que os povos antigos tinham. durante séculos. a fim de garantir o livre desenvolvimento de todas as forças socialmente úteis. .AS FORMAS ANORMAIS 407 da dia. quando pensa­ mos que. como a solidariedade or­ gânica substitui pouco a pouco a que resulta das seme­ lhanças. As proposições estabelecidas nos livros precedentes permiti­ ram-nos responder com precisão a essa questão que nos preocupa. nós necessitamos de justiça.

.

os movimentos se ajustam mal entre si. casos em que a divisão do trabalho. as funções eram especia­ lizadas ao infinito. produz uma integração bastante imperfeita. assim. as operações se fazem sem conjunto. sabe-se que. nisso. que as funções sejam distribuídas de tal sorte que não proporcionam matéria suficiente para a atividade dos indivíduos. Temos. numa empresa comercial. O que deve nos inte­ ressar é outro fato que sempre acompanha esse desperdí­ cio. É evidente que há. a incoerência e a desordem apare­ cem. uma deplorável perda de forças. Na corte do Baixo Império. De fato. levada muito longe. a saber. industrial ou outra. e no entanto disso resultava uma ver­ dadeira anarquia. mas não nos cabe tratar aqui do lado econômico do fenômeno. Acontece com freqüência. uma descoordenação mais ou menos grande dessas funções. De onde vem isso? Seriamos tentados .CAPÍTULO III OUTRA FORMA ANORMAL Resta-nos descrever uma última forma anormal. numa palavra. a soli­ dariedade se afrouxa. numa administra­ ção em que cada empregado não tem com que se ocupar o suficiente.

a solidariedade depende estreitamente da atividade funcional das partes especializadas. pois. necessitará imprescindivelmente dos funcionários vizinhos e não poderá deixar de sentir-se solidário des­ tes. porque. esse estado doentio é obra do próprio poder dirigente. se a desempenha com exatidão. se cada funcionário tem uma tarefa bem determinada. a vida inteira depende intimamente da respiração. Onde são frouxas. as funções. se coordenam mal entre si e sentem de maneira incompleta sua depen­ dência mútua. de fato. distribuir o trabalho de maneira que cada um fique suficientemente ocupado. e a ordem renascerá espontanea­ mente. uma direção. O primeiro cuidado de um chefe inteligente e experiente será suprimir os empregos inúteis. ao mesmo tempo que o trabalho será mais econo­ micamente organizado. enfim. não basta. aumentar por conseguinte a atividade funcional de cada trabalhador. Que importa que essa tarefa seja pequena ou grande. E sabemos de que maneira ela se exercerá. com freqüência. Esses dois termos variam um de acordo com o outro. Porque. de um modo geral. a res­ . Pois. numa rã. Num homem. mesmo que especiais. é necessário que ela se exer­ ça de certo modo. Alguns exemplos vão tornar esse fato bas­ tante sensível. Para que o mal desapareça. importa muito. Mas. contanto que seja especial? Que importa que essa absor­ va ou não seu tempo e suas forças? Ao contrário. “a sufocação opõe uma re­ sistência à passagem do sangue através dos capilares. haver uma ação reguladora.410 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL a responder que o que falta é um órgão regulador. e esse obstáculo é seguido de uma congestão e de parada cardíaca. Portanto. A explicação é pouco satisfatória. em alguns segundos. Como isso acontece? É difícil percebê-lo à primeira vista. produz-se uma grande perturbação em todo o organismo e ao cabo de um ou dois minutos as funções cessam”1.

permanece sensivelmente o mesmo. uma solidariedade imperfeita entre a função de respira­ ção da rã e as outras funções do organismo. só se alimenta entre longuíssimos intervalos. a tal ponto que nenhuma delas pode permanecer suspensa por muito tempo sem perigo para as outras e para a vida geral. suas funções respiratórias. . seus períodos de repouso nunca são muito lon­ gos. no estado normal. Esse resultado se deve ao fato de que os tecidos da rã. pois estas podem subsistir sem o socorro daquelas. um mamífero precisa alimentar-se com grande regularidade. o ritmo da sua respi­ ração. mas podem isolar-se umas das outras sem incon­ veniente. por conseguinte. aliás. tendo uma ativi­ dade funcional menor do que os do homem. as reparações são necessárias com menor freqüência. suas funções de nutrição. ou seja. seja até porque ela fique inteiramente privada de ar respirável e se contente com o oxigênio armazenado em seus tecidos. bastante aparente em certos momentos. uma grande independência e. seja porque lhe baste o areja­ mento do sangue que se efetua através da pele. também têm menor necessidade de renovar seu oxigênio e de se desembaraçar do ácido carbônico produzido por sua combustão. eles necessitam menos de oxigênio. Sendo o dispêndio dos tecidos menor. ao contrário. seus períodos de atividade e de torpor são muito distantes um do outro. Spencer. assim como os movimentos desti­ nados a perseguir uma presa e pegá-la. em outras palavras. Do mesmo modo. sendo o desgaste menor.AS FORMAS ANORMAIS 411 piração pode ser suspensa por muito tempo sem acarre­ tar nenhuma desordem. A cobra. Há. suas funções não são intimamente li­ gadas. suas funções de relação são inces­ santemente necessárias umas às outras e ao organismo inteiro. sua respira­ ção. A causa disso está em que sua atividade funcio­ nal é menor que a dos mamíferos. é quase nu­ la às vezes. pois.

que essas reações não se produzem indefinidamente.412 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL observa que encontramos na natureza não organizada exemplos do mesmo fenômeno. se o da precedente au­ mentar mais uma vez. ser-lhes-á neces­ sária uma alimentação mais rica. Em outras palavras. por uma nova reação. quando as mudanças rítmicas da máquina são rápidas. mas chega um mo­ mento em que o equilíbrio toma a se estabelecer. Se os músculos e os nervos trabalharem mais. sugere. os movimentos se desintegram.”2 O que faz que qualquer aumento da atividade funcio­ nal determine um aumento de solidariedade é o fato de que as funções de um organismo só podem tornar-se mais ativas se também se tomarem mais contínuas. e então tomam-se. examinem-na quando parar”. Con­ siderem uma em particular. mas o rendimento destas só pode aumentar. só pode produzir mais se as outras também o fizerem. Como ela nada pode fazer sem o concurso das outras. contanto que funcione de maneira mais ativa. implica um novo aumento da primeira. põem-se de novo em movimento por efeito da continuação do mo­ vimento das outras. por implicar um aumento correspondente das funções solidárias. . cau­ sas de renovação do movimento nas outras partes que ha­ viam parado de se mover. à medi­ da que a velocidade diminui. por seu turno. cujas partes não estão bem ajustadas. que o estômago lhes fornecerá. as ações e as reações que exercem umas sobre as outras são regulares e todos os movimentos são bem integrados. o que só é possível se esta se tor­ nar mais contínua. ou fi­ caram frouxas demais em conseqüência do desgaste. Todo aumen­ to de atividade de uma função. produzem-se irregularida­ des. É claro. “Observarão certas irre­ gularidades de movimento perto do momento em que chega ao repouso: algumas partes param antes. “Eis uma máquina com­ plicadíssima. mas. de resto. por sua vez.

Sob o reinado da grande indústria. sendo mais contínuas. mas além disso não é suficiente. para tanto.AS FORMAS ANORMAIS 413 mas. e esses materiais só poderão ser obtidos por um novo dispêndio de energia nervosa ou muscular. reparar suas perdas. ao contrário. Se. será necessário que ele receba mais ma­ teriais nutritivos a elaborar. por sua vez. o em­ presário é mais dependente dos operários. é ininterrupto porque passa sem parar de umas às outras. o que também se dá com as relações que unem as funções. impedem que o capital se mante­ nha. pois as greves. porque suas necessidades aumentaram com seu trabalho. isto é. que por is­ so mesmo é mais frouxa. É o que acontece . além disso. De fato. a continuidade de cada uma delas aumentará ainda mais. Quando o movimento que anima todas as partes de uma máquina é muito rápido. as necessidades são mais intermitentes. Só de vez em quando sentem sua solidariedade. requer uma produção industrial maior. Quando. conforme falte mais ou menos. elas serão mais solidárias. Em conseqüência. Elas se movimentam mu­ tuamente. para po­ der manter-se. é natural que a própria solidariedade não apenas seja menos per­ feita. a atividade é menor. Portanto. mas todas ao mesmo tempo que se tomam mais ativas. mas esse capital. se o trabalho fornecido não apenas não é considerável. Portanto. não é apenas uma função isolada. elas sentem melhor sua dependência. Mas o operário também pode ficar menos facilmen­ te sem trabalhar. pagar o preço de seu aluguel. parando a produção. Uma produção industrial maior requer a imobilização de uma maior quantidade de capital na for­ ma de máquinas. contanto que estes saibam agir de maneira concertada. por assim dizer. elas se encontram em relação de uma maneira mais seguida e têm continuamente necessi­ dade umas das outras.

então. Os economistas expli­ caram. com o talento do trabalhador. ela estreita os poros da jornada de trabalho. menos tempo é gasto em hesitações e expe­ rimentações. desde há muito. que a divisão do trabalho desenvolve. as mesmas causas que nos obrigam a nos especializar mais também nos obrigam a trabalhar mais. a divisão do trabalho tende por si mesma a tomar as fun­ ções mais ativas e mais contínuas. também aumenta em cada profissão em particular. segundo a expressão de Karl Marx. Normal­ mente.414 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL nas empresas em que as tarefas são partilhadas de tal sorte que a atividade de cada trabalhador seja reduzida abaixo do que deveria ser normalmente. a luta se toma mais viva e. O sociólogo americano Carey ressaltou muito bem essa característica da divisão do trabalho: “Não pode ha­ ver continuidade nos movimentos do colono isolado”. Eis de onde vem a incoerência que constatamos. 2. As diferentes funções são. afirma. é neces­ sário deslocar-se sem cessar. De fa­ to. ela não se desenvolve sem que a atividade funcio­ nal cresça ao mesmo tempo e na mesma medida. Quando o número dos concorrentes aumenta no conjunto da socie­ dade. Mas são necessárias circunstâncias excepcionais para que a divisão do trabalho se faça dessa maneira. passar de uma ocupação a outra. Eis as principais: 1Q Quando os trabalhos não são divididos. as razões desse fenômeno. Além disso. A divisão do trabalho economiza todo esse tempo perdido. por demais descontínuas para que 'possam se ajustar exatamente umas às outras e caminhar sempre em harmonia. “Dependendo para sua subsistência de sua força . são necessá­ rios mais esforços para poder sustentá-la. por conseguinte.A atividade funcional aumenta com a habilidade.

enfim. sua miserável habita­ ção e ele mesmo. mas.. ele só necessita de frutas. com esse desenvolvimento. devido à irregularidade do aprovisionamento dos diferentes gêneros de que desejam desfazer-se. outro a came. os pais por aqueles dos filhos. alfaiate. Chegando aí. ao mesmo tempo.. é forçado a suspender suas buscas e a pensar em efetuar as mudanças de residência indispensáveis para transpor­ tar. Privado do auxílio da luz artificial. é forçado a se tomar su­ cessivamente cozinheiro. enquanto um quarto transforma a lã em pano. e o pescador não as possui. com o tempo. ao mesmo tempo em que a capacidade de dar a seus dias um uso proveitoso depende completamente dos acasos do tempo. como ambos ocu­ pam partes diferentes da ilha. apre­ sentam-se dificuldades para fixarem as condições do co­ mércio. manifestase um aumento no movimento da sociedade.. constatamos um aumento da rapidez do . um obstáculo difícil de superar. para a associação. que tem um vizi­ nho3. A cada passo.. nesse momento. um tercei­ ro o trigo. corre com freqüência o risco de mor­ rer por falta de comida. Mas. Mesmo que consiga obtê-la. “No entanto. o marido troca seus serviços por aqueles da mulher. seus víveres. a riqueza e a população se desenvolvem e. de modo que. a au­ sência dessa condição proporcionaria nesse caso. ocorrem trocas entre eles. Como a diferença é indispensável para a associação. nós o sabemos. e os filhos trocam serviços recíprocos: um fornece o peixe.AS FORMAS ANORMAIS 415 de apropriação e sendo forçado a percorrer superfícies imensas de terreno. suas noites são completamente ociosas. O pesca­ dor teve sorte e pescou uma grande quantidade de pei­ xes. mas o acaso permitiu que o caçador conseguisse peixes. quando se encontram. então. são forçados a se aproxi­ mar exatamente como as pedras com ajuda das quais moem o trigo. Além disso. ao descobrir.

de fato. era interrompido por uma porção de festas ou de dias nefastos5. um hábito e até. pelo simples fato de que aumenta a sua vida. Assim. à medida que se avança. . mas também porque a aumenta. no estado normal. Os animais e os selvagens trabalham da maneira mais casual. uma necessidade. quando são levados pela necessidade de satisfazer a alguma ne­ cessidade imediata. como outrora.416 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL movimento. Ela aumenta a unidade do organismo. podemos observar. Na Idade Média. se esse hábito for suficien­ temente consolidado. Não apenas ela torna os indivíduos solidários. pelo menos. No entanto. que o trabalho se torna mais contínuo à medida que se divide. se o trabalho tivesse per­ manecido irregular e intermitente. Em Roma. Nas sociedades exclusivamente agrí­ colas e pastoris. somos levados a reconhecer uma nova razão que faz da divisão do trabalho uma fonte de coesão so­ cial.”4 Aliás. ao mesmo tempo que um aumento da força. Mas esse hábito não teria podido constituir-se e a necessidade correspon­ dente não teria podido nascer. o trabalho é quase todo suspenso duran­ te a má estação. ela não produz um desses efeitos sem o outro. de parte do homem. como dissemos até aqui. porque limita a atividade de cada um. o trabalho se toma uma ocupação permanente. os dias de folga multiplicaram-se ainda mais6.

num grau inferior. é porque não é nosso semelhante. as similitudes exigidas são menos numerosas. cuja ausência nos deixa em estado de falta moral. Neles. o crime conta menos categorias dife­ rentes. nada ter de pessoal. conquanto ainda graves. no entanto. mas. os atos simplesmente imorais e proibidos como tais são os que atestam desse­ melhanças menos profundas. nem em termos de práticas. hoje. nem em termos de crenças. é a que nos manda realizar em nós os traços essenciais do tipo coletivo.CONCLUSÃO i Podemos agora resolver o problema prático que nos colocamos no início deste trabalho. confor­ me vimos. o primeiro dever é se parecer com todo o mundo. Do mesmo modo. É nos povos inferiores que ela alcança seu máximo de rigor. Se há uma regra de conduta cujo caráter moral não é contestado. algumas. . Nas sociedades mais avançadas. como outrora. se o criminoso é objeto da reprovação. Sem dúvida. há.

Mesmo o moralista que crê poder.418 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL Aliás. e não o de determinada espécie social. e que ela só po­ de desempenhar esse papel se tiver um caráter moral. Por outro lado. decorrente de seu temperamento pessoal. o ho­ mem que ela nos manda ser seria o homem em geral. por conseguinte. conquanto numa linguagem um pouco diferente. É por isso que cada nação tem sua escola de filosofia moral correspon­ dente a seu caráter. isto é. essa consciência humana que devemos realizar integral­ mente em nós nada mais é que a consciência coletiva do grupo de que fazemos parte. Cada um o representa à sua ima­ gem. de fato. subtrair-se à influência das idéias ambien­ tes. se não em nós e em tomo de nós? Se acreditamos que esse ideal coletivo é o da humanidade inteira. não é essa regra que a moral comum exprime. na realidade. da solidariedade social. Mas. mostramos que essa regra tinha por função prevenir qualquer abalo da consciência comum e. se tomarmos essa fórmula ao pé da letra. cada povo tem desse tipo presumidamente humano uma concepção particular. pela força do pensamento. ter todas as idéias e todos os senti­ mentos que constituem uma consciência humana? Sem dúvida. É impossível que as ofensas aos sentimentos coletivos mais fundamentais sejam toleradas sem que a sociedade se de­ sintegre. Mas. são elas que ele en­ contra como resultado de suas deduções. Pois de que pode ela ser composta. não obstante o que faça. não seria capaz de consegui-lo. mas é necessário que sejam combatidas com . quan­ do manda o homem ser um homem em toda a acepção da palavra. é porque ele se tomou bastante abstrato e geral para parecer convir a todos os homens indistintamente. pois está impregna­ do delas e. senão das idéias e dos sentimentos a que so­ mos mais apegados? Onde iríamos buscar os traços de nosso modelo.

Em conse­ qüência. Sem dúvida. não é menos indispensável. pelo menos a partir de certo momento de sua evolução. a solidarie­ dade que ela assegura difere da precedente. As sociedades su­ periores só se podem manter em equilíbrio se o trabalho for dividido. em cada momento da his­ tória. Portanto. o que é necessário é dar a cada uma. não mais apenas o signo . a importância que lhe convém.CONCLUSÃO 419 ajuda dessa reação particularmente enérgica que se pren­ de às regras morais. é porque conduzem ao mesmo fim. não é necessário escolher entre elas de uma vez por todas. a regra contrária. Por conseguinte. embora seja outra. mas por caminhos opostos. podemos induzir o Valor moral de uma do valor moral da outra. se o caráter moral da primeira dessas regras é necessário para que ela possa desempenhar seu papel. não é que elas sirvam a finalidades diferentes. tem exatamente a mesma função. sob certos pontos de vista. Estamos. pelo me­ nos. de fato. sem que seja necessário especular sobre o fundamento primeiro da ética. porque as próprias condições de exis­ tência das sociedades diferem. Ora. Ambas correspondem à mesma necessidade social e apenas a satisfazem de ma­ neiras diferentes. em melhores condições do que no início para perceber. Talvez possamos até generalizar mais. nem condenar uma em nome da outra. ou. essa necessi­ dade não é menor para a segunda. Se. a classificar as regras morais e a passar em revista suas espécies principais. que nos manda especializarnos. mas. para fazer conjeturas sobre. Ela também é ne­ cessária à coesão das sociedades. As necessidades de nosso tema obrigaram-nos. a atração do semelhante pelo semelhante basta cada vez menos para produzir esse efeito. há entre elas um verdadeiro antagonismo. ao contrário. assim.

pode-se dizer. como se faz com tanta freqüência. acham intole­ rável a idéia dessa dependência. a sociedade não é. tirar-lhe parte da sua liberdade de movimento. torná-lo parte integrante de um todo e. Vê-se quão inexato é defini-la. tudo o que é fon­ te de solidariedade. é verdade. as da solidariedade ne­ gativa1 e da solidariedade orgânica. tudo o que força o homem a contar com outrem. de maneira geral. ela tem como função essencial. Por vezes encontramos. Longe de ser­ vir para emancipar o indivíduo. Mas é porque não per­ cebem as fontes de que mana sua própria moralidade. Dividimo-las em dois gêneros: as regras com sanção repressiva. pois. como se acreditou com freqüência. ao contrá­ rio. por conse­ guinte. ela consiste antes num estado de dependência. as segundas. porque essas fontes são demasiado profundas. Portanto. seja difusa. e a mora­ lidade é tanto mais sólida quanto mais numerosos e mais fortes são esses vínculos. para separá-lo do meio que o envolve. que fazem da massa dos indivíduos um agregado e um todo coerente. O direito e a moral são o conjunto de vín­ culos que nos prendem uns aos outros e à sociedade. seja organizada. um acontecimento estranho à moral ou que . pela liberdade. e as regras com sanção restitutiva.420 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL exterior. almas que não são desprovidas de nobreza e que. porque não penetra nele. É moral. mas o caráter interno que é comum a todas elas e que pode servir para defini-las. a reger seus movimentos com base em ou­ tra coisa que não os impulsos do seu egoísmo. Podemos dizer. A cons­ ciência é um mau juiz do que acontece no fundo do ser. no entanto. Vimos que as primeiras exprimem as condições dessa solidariedade sui generis que deriva das semelhanças e à qual demos o nome de mecânica. que a característica das regras morais é que elas enunciam as condições fundamentais da solida­ riedade social.

ao mesmo tempo. na realidade. é pelo menos amorah. como elemento essencial em nossa definição. alguns não se­ jam úteis por si mesmos ou tenham uma força despro­ porcional a seu grau de utilidade. não tendo mais objeto a que se prender. mas a solida­ riedade é apenas uma das suas condições de existência. em todos os seus graus. Sem dúvida. deveres para com a sociedade. A idéia de útil não en­ tra. sujeito e objeto. com isso. e a vi­ da moral desaparecerá ao mesmo tempo. pode acontecer que. é. pois. nessa rede de vínculos que constituem a moral. ao entrar. à fórmula que exprime a moral em fun­ ção do interesse social. subsis­ tiriam mesmo que ele fosse só. é o que o próprio Rousseau reconhecia. Aliás.CONCLUSÃO 421 tem sobre ela apenas repercussões secundárias. A moral. . mas o homem só é um ser moral porque vive em sociedade. Os deveres do indivíduo para consigo mesmo são. uma moralidade intrínseca. nunca variou senão em função de condições so­ ciais. não volta­ mos. se não é imoral. por conseguinte. Façam desaparecer toda vida social. Há várias outras que não são menos necessárias e que não são morais. que só o ligariam a si mesmo e que. Além disso. a sociedade não po­ de existir se suas partes não são solidárias. é sair dos fatos e entrar no domínio das hipóteses gratuitas e das imaginações inverificáveis perguntar-se o que ela poderia tomar-se se as sociedades não existissem. O estado natural dos filósofos do século XVIII. Portanto. se entendermos por isso um conjunto de deveres de que o indivíduo seria. ao contrário. pois a moralidade consiste em ser solidário de um grupo e varia de acordo com essa solidariedade. Quanto ao que chamamos de moral individual. sua condição necessária. nunca se encontrou senão no estado social. é uma concepção abstrata que não corresponde em nada à realidade. Não é uma simples justaposição de indivíduos que trazem.

Isso porque o sentimento de que ela é objeto não é menos ofendido num caso como no outro. Hoje. segundo a fórmula kantiana. da dignidade individual de que acabamos de falar e que. e é nisso que reside o essencial da moral que chamamos de individual. há em todas as cons­ ciências sadias um vivo sentimento de respeito pela dig­ nidade humana. os vínculos que prendem o indivíduo à sua família. em nós como em nossos semelhantes. como a inteligência se torna . ao solo natal. forma cada vez mais suas próprias idéias e sentimentos. aos usos co­ letivos do grupo se distendem. mesmo que o agente e o paciente do delito sejam uma só pessoa. Mais móvel. nem quando o ofensor e o ofendi­ do são uma só e mesma pessoa. Mas quão pouca coisa ê isso. nem toda consciência comum desaparece com isso. por reper­ cussão. sem­ pre permanecerá pelo menos esse culto da pessoa. ao qual somos obrigados a conformar nossa conduta. como tende cada vez mais a se tornar a condição essencial da solida­ riedade social. Sem dúvida. devemos respeitar a personalidade humana onde quer que ela se encontre.422 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL eles correspondem a certos sentimentos coletivos que não se pode ofender. é o único centro de união de tantos espíritos. nem quando são dois seres distintos. sobretudo quando se pensa na extensão sempre crescente da vida social e. Eis por que. Ora. Todo ato que contravém a ela é censurado. por exemplo. das consciências individuais! Porque. tanto em nossas relações conosco mes­ mos como em nossas relações com outrem. ele muda mais facilmente de meio. deixa os seus para ir viver em outro lugar uma vida mais autônoma. como estas se tomam mais volumosas. às tradições que o passado lhe legou. isto é. desde hoje. não só a divisão do trabalho apresenta a carac­ terística pela qual definimos a moralidade. À medida que avançamos na evolução.

Portanto. se não se formassem outros. podemos dizer literalmente que. o dever não é estender nossa atividade na superfície. que modera seu egoísmo e que faz dele um ser moral. isto é. Sem dúvida. e não dos serviços que presta.CONCLUSÃO 423 mais rica e a atividade mais variada. em vez de fazermos de nosso ser uma espécie de obra de arte acabada. na mèdida em que ele exis­ te. é necessário que os vínculos que o prendem a ele se tomem mais fortes e numerosos. escolher uma tarefa definida e empenhar-nos nela de corpo e alma. ao mesmo tempo. o indivíduo retoma consciência de seu estado de de­ pendência para com a sociedade. a base da or­ dem moral. idéias comuns. para que o indivíduo permaneça fixado ao grupo com uma força simplesmente igual à de outrora. Há sentimentos comuns. já que a divi­ são do trabalho se toma a fonte eminente da solidarieda­ de social. que extrai todo o seu valor de si mesma. Numa palavra. não se é um homem. com­ pleta. como se diz. já não sentiria o bastante à sua volta e aci­ ma dele essa pressão salutar da sociedade. para que a moralida­ de permaneça constante. essa especialização deve ser levada tanto mais longe quanto mais elevada for a espé­ cie da sociedade. O homem já não seria suficiente­ mente retido. Por­ tanto. Devemos limitar nosso horizonte. o desaparecimento do ti­ po segmentário seria acompanhado de uma diminuição regular da moralidade. também devemos trabalhar para rea­ lizar em nós o tipo coletivo. É que. além dos vínculos que derivam das semelhanças. ela se toma. Enfim. por ela. sem que seja possível atribuir-lhe outro limite2. nas socie­ dades superiores. A regra que nos man­ da especializar-nos permanece limitada pela regra contrá­ . Eis o que constitui o valor moral da divisão do trabalho. mas concentrá-la e especializá-la. sem os quais. é dela que vêm as for­ ças que o retêm e o contêm.

eles lhe escapam e. se quiserem. nem com a continuidade que seria necessária. formal e vacilante. não os pode puxar muito para fora deles mesmos. não podendo ser calculada a priori. Quanto à parte a distribuir entre essas duas necessida­ des antagônicas. ademais.424 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL ria. Isso porque. precisamente porque não a sentem nem com a vivacidade. enamorados em demasia de uma cultura ex­ clusivamente geral. não é sem razão que o sentimento público experimenta um distanciamento cada vez mais pronun­ ciado em relação ao diletante e até mesmo a esses ho­ mens que. Ninguém se prende a grande coisa quando não tem um objetivo mais definido e. Basta-nos ter mostrado que a segunda não é de natureza diferente da primeira. mas tão longe quanto necessá­ rio. a sociedade não os prende o bastante. a cada instante. aquele que se dedicou a uma tarefa definida é. por conse­ guinte. . Ao contrário. Como o ideal geral a que se prendem é. ela se determina pela experiência. chamado ao sentimento da solidariedade comum pelos mil deveres da moral profissional3. pelos motivos que disse­ mos. ou. mas que ela mesma é moral e que. não têm consciência de todas as obrigações que lhes impõe sua condição de seres sociais. não se pode elevar acima de um egoísmo mais ou menos refinado. de fato. porque as qualidades gerais de que acabamos de falar são cada vez menos suficientes para socializar o indivíduo. esse dever se toma cada vez mais importante e mais premente. Nossa conclusão não é que é bom levar a especializa­ ção o mais longe possível. Portanto. eles não se prendem o bastante à sociedade. recusam-se a se deixar apanhar intei­ ros nas malhas da organização profissional.

ser um órgão da sociedade. Portanto. mas circunscrita? Por que haveria mais dignidade em sermos completos e medíocres do que em vivermos uma vida mais especial. ser uma pessoa é ser uma fonte autônoma de ação. como dizia Aristóteles. Entre os povos inferiores. sobretudo se nos é possível reencontrar o que assim estamos perdendo. o ato próprio do homem é asse­ melhar-se a seus companheiros. Notemos.CONCLUSÃO 425 II Mas será que a divisão do trabalho. sua natureza é. Contudo. realizar em si todos os tra­ ços do tipo coletivo que é confundido. Há mais: longe de ser prejudicada pelos progressos da especialização. De fato. a personalidade individual se desen­ volve com a divisão do trabalho. por conseguinte. nas sociedades mais avançadas. mais ainda que hoje. porém mais intensa. só de­ . ao fazer de cada um de nós um ser incompleto. seria superior a uma atividade mais concentrada. por nossa associação com outros seres que possuem o que nos falta e que nos completam? Parte-se do princípio de que o homem deve realizar sua natureza de homem. Mas essa natureza não permanece constante nos diferentes momentos da história. com o tipo humano. em grande parte. o homem só adquire essa qualidade na medida em que há nele algo que lhe é próprio. em primeiro lugar. não acarreta uma diminui­ ção da personalidade individual? É uma crítica que se lhe fez com freqüência. Por que uma atividade mais extensa. é representar seu papel de órgão. consumar seu [o i k e í o v Êpyov]. e seu ato próprio. ela se modifica com as sociedades. porém mais disper­ sa. que é difícil ver por que seria mais conforme à lógica da natureza humana desenvolver-se em superfície do que em profundidade. então.

empírica e variável dos indivíduos. não é esse atributo metafísico. por isso mesmo. im­ pessoal. O desaparecimento do tipo segmentário. além dis­ so. ele é do. vimos no segundo livro desta obra que a divisão do trabalho se produz progressi­ vamente.426 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL le e que o individualiza. que só se podem exercer sobre as coisas simples e gerais. Em outras palavras. Esta não poderia ser constituída pelo poder totalmente abstrato de escolher entre dois contrários. por vezes. é em conseqüência de uma verdadeira ilu­ são que se pôde crer. em conseqüência dessa dupla emanci­ pação. na medida em que ele é mais do que uma simples encarnação do tipo genérico da sua ra­ ça e de seu grupo. A própria divisão do traba­ lho contribui para essa emancipação. são em parte subtraídas à ação coletiva e às influências hereditárias. assim como do meio social que a envolve e. porque as nature­ zas individuais. é neces­ sário que os próprios materiais da sua consciência te­ nham um caráter pessoal. se tornam mais com­ plexas e. invariável. especializando-se. que pode servir de base única para a personalidade concreta. que a personalidade era mais inteira enquanto a divisão do trabalho nela não ha­ via penetrado. mas. seja essa liberdade o que for. o indivíduo se toma ainda mais um fator indepen­ dente de sua própria conduta. separa parcialmente a consciência individual do meio orgânico que a suporta. vendo de fora a diversidade de ocupações que abraça então o indivíduo. Sem dúvida. pode pare­ cer que ele se desenvolve de uma maneira mais livre e . é necessário que essa faculdade se exerça sobre fins e móveis próprios do agente. Portanto. objeto de tantas discussões. à medida que a própria divisão do trabalho progride. ao mesmo tempo que necessita de uma maior especializa­ ção. Ora. Dir-se-á que. Mas. tado de livre arbítrio e que isso basta para fundar sua personalidade. seja como for.

É um sonho desde há muito afagado pelos homens o de conseguir. como já o são as dos indivíduos entre si. Porém. essa atividade que ele manifesta não é sua. o mesmo se dando com as ações que inspi­ ram. que é dado maior espaço à livre fantasia. Conquanto essas . Ora. em que todos os homens colaborariam para a mesma obra e viveriam a mesma vida. enfim. que é mais fácil para cada um seguir nelas seus gostos próprios. e ser cada vez mais. em que as relações das socièdades entre si seriam regidas pacificamente. Assim. é impossível querer uns sem querer os outros. Embora não vol­ tem com a mesma periodicidade de hoje. os progressos da personalidade individual e os progressos da divisão do trabalho dependem de uma só e mesma causa. realizar nos fatos o ideal da frater­ nidade humana. sob certos aspectos. Os povos anseiam por um estado em que a guerra não seria mais a lei das relações internacio­ nais. uma pessoa. os móveis que governam a conduta não deixam de ser coletivos. Como a vida dessas sociedades é. na realidade. menos regular.CONCLUSÃO 427 mais completa. logo impessoais. ninguém contesta hoje o caráter obrigatório da regra que nos manda ser. ele é tão-só o intermediário pelo qual elas se realizam. mostramos acima como a atividade se toma mais rica e mais intensa à medida que se toma mais especial4. é a raça que agem nele e por ele. então. É a sociedade. Portanto. de empréstimo. Sua liberdade é apenas aparente e sua personalidade. Por outro lado. Uma última consideração vai mostrar a que ponto a divisão do trabalho está ligada a toda a nossa vida moral. costu­ ma-se imaginar que os talentos originais podem manifes­ tar-se mais facilmente nelas. Mas isso é esquecer que os senti­ mentos pessoais são raríssimos.

A rigor. e devemos ape­ gar-nos. desde já. do mesmo m odo que os conflitos privados só podem ser contidos pela ação reguladora da sociedade que envolve os indivíduos. Ora. não está demonstrado . uma vez colocado o problema nesses ter­ mos. porque. Já vimos que tende a se formar. algum sentimento de si e um começo de organização5. é preciso reconhecer que esse ideal não se realizará integralmente tão cedo. de resto. elas só podem ser satisfeitas se todos os homens formarem uma mesma sociedade. porém. O que é possível. é que as sociedades de mesma espécie se agre­ guem. acima dos po­ vos europeus. e é nesse sentido que parece orientar-se nossa evolução. não deixam de ser vivacíssimas e adquirem cada vez mais força. por um movimento espontâneo. em nada. é por ela ser uma sociedade que está se reali­ zando dessa maneira e de que somos solidários7. se nos apegamos à humanidade. Porque. todavia. submetida às mesmas leis. . os conflitos intersociais só podem ser contidos pela ação reguladora de uma sociedade que compreenda em seu seio todas as outras.428 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL aspirações sejam em parte neutralizadas pelas que têm por objeto a sociedade particular de que fazemos parte. a definição que demos da moralidade. Se a formação de uma so­ ciedade humana única é para sempre impossível . a única que pode servir de moderadora para o egoísmo dos grupos é a de outro grupo que os englobe. uma socie­ dade européia que tem.o que. pelo menos a formação de sociedades cada vez mais vastas nos aproxima indefi­ nidamente desse objetivo. Esses fatos não contradizem. A única força capaz de servir de moderadora para o egoísmo individual é a do grupo.6. porque há demasiadas diversidades intelectuais e morais entre os diferentes tipos sociais que coexistem na terra para que eles possam confraterni­ zar no seio de uma mesma sociedade.

podemos formular a seguinte proposição: o ideal da fra­ ternidade humana só se pode realizar na medida em que a divisão do trabalho progride. para determinar as condições em que a . e. Por conseguinte. sustentaram que as sociedades humanas podiam e deviam resolver-se em associações puramente econô­ micas. é porque ela cria entre os homens todo um sistema de direitos e deve­ res que os ligam uns aos outros de maneira duradoura. acompanhado de um aumento de densidade. é porque acreditaram que ela só afetava interesses individuais e temporários. como dizem os economistas8. a divisão do trabalho dá origem a regras que asseguram o concurso pacífico e regular das funções divididas. III Mas. Do mesmo modo que as similitudes sociais dão origem a um direito e a uma moral que as protegem. se nos recusarmos a circunscre­ ver ainda mais nossa atividade. É preciso escolher: ou re­ nunciar a nossos sonhos. ou então buscar sua reali­ zação. co­ mo.CONCLUSÃO 429 Ora. para estimar os interesses em conflito e a maneira como devem se equilibrar. o aumento do número de concorrentes bastaria para produzir mecanicamente esse resultado. sabemos que sociedades mais vastas não se po­ dem formar sem que a divisão do trabalho se desenvol­ va. se a divisão do trabalho produz a solidarieda­ de. porque não apenas elas não poderiam manter-se em equilíbrio sem uma maior especialização das funções. não é apenas porque ela faz de cada indivíduo um “trocador”. em conse­ qüência. mas sob a condição que acabamos de assinalar. como quer que esta se realizasse. em geral. além disso. Portanto. Se os economis­ tas acreditaram que ela engendraria uma solidariedade suficiente. isto é. e isso tanto mais que o aumento de volume é.

As regras que a constituem não têm uma força coercitiva. de resto. veremos que o que ca­ racteriza a moral das sociedades organizadas. por nós. e tanto mais inti­ mamente quanto mais forem divididas. Ela não prende nossa atividade a finalidades que não nos concernem di­ retamente. é que ela tem algo mais humano. mais racional. que sufoca o li­ vre exame.e.430 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL troca deve efetuar-se. em certo sentido. Ora. Ela nos pede apenas que sejamos temos com nossos semelhantes e que sejamos justos. mas por serem muito mais feitas para nós e. elas se determinam por si mesmas. mas funções sociais. ela será sadia ou doente. como esses interesses estão em perpétuo devir. Assim se for­ mam essas regras cujo número aumenta à medida que o trabalho se divide e cuja ausência torna a solidarieda­ de orgânica ou impossível. É por isso que ela não as pode deixar num estado de indeterminação . que seguem seus cami­ nhos próprios sem se preocupar com os interesses dos homens. elas têm de ser justas e. é necessário que as condições ex­ ternas da concorrência sejam iguais. A divisão do trabalho não põe em presença indivíduos. não há espaço para nenhuma regulamentação permanen­ te. que cumpra­ mos nossa tarefa. portanto. ela não faz de nós os servidores de forças ideais e de natureza diferente da nossa. somos mais livres diante de­ . Portanto. sua existência depende delas. recordarmos que a consciência coletiva se reduz cada vez mais ao culto do indivíduo. para tanto. sob todos os pontos de vista. E. comparada com a das sociedades segmentárias. ou imperfeita. a socieda­ de está envolvida no jogo destas últimas: conforme con­ corram regularmente ou não. por outro lado. Mas tal concepção é. além disso. Se. somente os indivíduos são compe­ tentes. Mas não basta haver regras. inadequada aos fatos. trabalhemos para que cada um seja convocado para a função que pode desempenhar melhor e receba o justo preço de seus esforços.

mas que abra à nossa atividade uma carreira bastante longa . con­ correrá espontaneamente para o bem de todos e de cada um. elas se emanciparam do tipo segmentário com uma rapidez e em proporções de que não encontra­ mos outro exemplo na história. Do mesmo modo. o juízo individual emancipou-se do juízo coleti­ vo. Disseram? com razão que a moral . Sabemos perfeitamente que é uma obra árdua edificar essa sociedade em que cada indiví­ duo terá o lugar que merece. mas não é neces­ sário que ela nos agrilhoe até nos imobilizar. será recompensado como merece.e por moral há que entender não apenas as doutrinas. Sem dúvida. O que importa não é que ele paira muito acima de nós. ela tem de nos prender a algo mais que nós mesmos. a ponto de se nos tomar estranho. a tradição perdeu seu império. mas também os costumes .passava por uma crise terrível. mas sem que a outra se desenvolvesse depressa o bastante para ocupar o terreno que a primeira deixava vazio em nossas consciências. Mudanças profundas produziram-se. Nossa fé turvou-se. Aliás. por escapar mais da reflexão. de outro lado. uma moral não está acima de ou­ tra por comandar de maneira mais seca e autoritária.e ele está longe de se realizar. e em pouquíssimo tempo. a mo­ ral que corresponde a esse tipo social regrediu. Mas. na estrutura de nossas sociedades.CONCLUSÃO 431 las. Queremos compreendê-las e tememos menos mudálas. mas porque nos prepara perspectivas mais vastas. as funções que se dissociaram no curso da tormenta não tiveram tempo de se ajustar umas . O que prece­ de pode nos ajudar a compreender a natureza e as cau­ sas desse estado doentio. a pre­ texto de que é demasiado terra-a-terra e demasiado a nosso alcance. em que todo o mundo. em conseqüência. Em conseqüência. Um ideal não é mais elevado por ser mais transcendente. há que evitar achar insuficiente tal ideal.

como alguns desses deveres não mais se baseiam na realidade das coisas. Em suma. não é um novo sistema filosófico que poderá dissipá-la um dia. essa moral está irremediavel­ mente abalada e a que nos é necessária está apenas se formando. de ordem intelec­ tual: ele se deve a causas mais profundas. . é introduzir em suas relações mais jus­ tiça. o remédio para o mal não está em procurar ressuscitar. atenuando cada vez mais essas desigualdades exter­ nas que são a fonte do mal. nosso primeiro de­ ver atualmente é criar uma moral. Foi o que procuramos fazer. Não sofremos porque não sabemos mais em que noção teórica devemos apoiar a moral que praticávamos até aqui. é encontrar os meios para fazer esses órgãos que ainda se chocam em movimentos discordantes concorrerem harmoniosamente. tradições e práti­ cas que. mas porque. em algumas de suas partes. ela só se po­ de erguer por si mesma. só poderiam ter uma vida artificial e aparente. Mas a refle­ xão pode e deve servir para assinalar o objetivo que se deve alcançar. não mais correspondendo às presentes condições do estado social. Portanto. como por vezes alguns parecem crer. O que é necessário é fazer cessar essa anomia. não se organizou de maneira a satisfazer a necessi­ dade de justiça que despertou. Tal obra não poderia ser improvisada no silêncio de um gabinete. apesar dos pesares. por conseguinte. mais ardente.432 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL às outras. mas. resultou disso um afrouxamento que só poderá ter fim à medida que uma nova disciplina se estabelecer e se consolidar. Se assim é. pouco a pouco. Nossa ansiedade não vem do fato de que a crí­ tica dos cientistas arruinou a explicação tradicional que nos era dada de nossos deveres. em nossos corações. sob a pressão das causas internas que a tomam necessária. nosso mal-estar não é. sobre­ tudo. a nova vida que se desprendeu como que de repente não pôde se organizar completamente e.

392). . abaixo. conclusão. II. trata-se apenas de uma lenda. 6. 165-167 e 206-207. Cf. Plutarco. liv. LHndustrie dans la Grèce antique. Cf. que. mas ela prova que os ro­ manos viam suas corporações como uma das mais antigas insti­ tuições. explicamonos sobre essa supressão no lugar em que foi efetuada. p.). 2. Limitamo-nos a suprimir da antiga Introdução cerca de trinta páginas. em virtude de süa profissão. Resta saber se. o artesão era até privado do direito de cidadania (ibid. parecem-nos inúteis.. p. 5. não havia uma clandestina. 8.. 4te B. Cf. 398. Cf.. Sem dúvida. Francotte. t. 3a ed. Tomaremos mais longe sobre esse ponto. Às vezes. pp. 204 ss. Numa. XXXIV. pp. I. hoje. 350 ss. III. pp. 4. Plínio. Aliás. 368.. 205-206-207 e p. Lehrbuch des griechiscben Antiquitüten. III. par. pp. na ausência de uma organização legal e oficial. nat. abaixo. Le suicide. Hist. 7.NOTAS PREFÁCIO À SEGUNDA EDIÇÃO 1. 3. O certo é que havia corporações de comerciantes (cf. Hermann. cap. XVII.

14. 238. pelo menos.. I. 25. I. Das Deutsche Genossenschaftswesen. I. cit. Cf.. desde o início. des doctrines économiques. 331.Op. 13. 217-218. 194. Certos historiadores acreditam que. o fato é que elas não afetavam a estrutura política. Mesmo que. notadamente Année sociologique. des­ de o início. 384. Op. 17. Em todo caso. Dionísio de Halicamasso nos afirma taxati­ vamente que os operários assim agrupados tinham uma função puramente militar [eíç xòv TtoXe^òv]. 24. as corporações estiveram em relação com o Estado. 16. t. E o que nos importa. Cf. 194. 19. p. I. colégios propriamente ditos.. 11. Op. desde o princípio. I. I. cit. 23. 240-261. pois. cit. eram sociedades de ajuda mútua. I. cit. p. Desenvolvemos essa idéia em Le suicide. I.. 12. 56-57. 18. interveio em sua formação. pp. 15. sua situação é ain­ .. mas divisões do exército. p. Op. 433. Descendo um degrau na evolução. no que concerne à Alemanha. 20. todos os ferrei­ ros. Ashley. 330. I.434 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 9. Op. pp. Op. sobre o mesmo caráter moral da corporação. Gierke.Parece mais verossímil que as centúrias assim deno­ minadas não englobavam todos os carpinteiros. 101. Não eram. La religion romaine. p. 287-288. pp. cit. Étude historique sur les corporations pro/essionnelles chez les Romains. Tudo o que dizemos sobre a situação das corporações deixa intacta a controvertida questão de saber se o Estado. 22.. *é certo que seu caráter oficial foi muito mais desenvolvido durante o Império. elas tivessem ficado sob a dependência do Estado (o que não parece verossímil). 221. 21. I. 313 e ss. Hist. Op. pp. p. II. 10. mas apenas os que fabricavam ou reparavam as armas e as máquinas de guerra. A maioria dos historiadores estima que certos colé­ gios. cit. Les classes ouvrières en France jusqu’à la Révolution. p. para a Inglaterra. cit..

como a sociedade é organizada reli­ giosamente. essencialmente. cit.. 34. Markt und Stadt in ihrem rechtlichen Verhãltniss. essas assembléias. A primeira. 29. isso de acordo com proporções correspondentes à importância res­ pectiva atribuída pela opinião pública a esses dois fatores da produção. Cada uma tem seu grau próprio de religiosidade. mas quase extralegais. Op.l. cit. Mas. Waltzing. não um grupo profissional. cit. assim como os tri­ bunais encarregados de aplicar a regulamentação profissional. 27. encarregadas de representar a corporação. Bouglé. 31. 183. IV).T. Não falaremos da organização internacional que. 193. Op. Ibid.NOTAS 435 da mais excêntrica. 28. Em Atenas. essa religiosidade. 30. pois só esta pode constituir atualmente uma instituição jurídica. 31.. cit. se desen­ volveria necessariamente acima dessa organização nacional. I. quando os ofícios se organizam em castas. “Remarques sur le régime des castes”. I. Essa especialização só poderia fazer-se mediante as­ sembléias eleitas. 33. I. passim. Rietschel. 26. E verdade que. que depende de diversas causas. Année sociologique. É.N. No estado atual da indústria. se é necessário que ambos se encontrem nos . como já acontece nos tribunais de prud’ hommes [justiça do trabalho . em conseqüência do caráter internacional do mercado. elas não são apenas extra-sociais. no presente estado do direito europeu. e todos os trabalhos de Sohm a esse respeito. Mas seu papel econômico não tem nada a ver com essa situação oficial (cf. E.. Op. atribui a cada casta uma posição determinada no conjunto do sistema social. pp. op. Leipzig. 1897. 32. deveriam evidentemente compreender representantes dos em­ pregados e representantes dos empregadores.. Cf. I. I. 191. 85 ss.. um grupo familiar e religioso. só pode re­ sultar de livres acertos entre corporações nacionais. às vezes adquirem desde cedo uma posição aparente na constituição social: é o caso das sociedades da índia. Mas a cas­ ta não é a corporação.

a organização política e social com base terri­ torial certamente subsistirá. precisamente porque esse vínculo perde a for­ ça. 36. pois seus interesses são freqüentemente ri­ vais e antagônicos. p. cap. Mas o testamento nada mais é que a faculdade de derrogar à regra do direito sucessório. III.436 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL conselhos diretores da corporação. onde o testamento existe. não apenas por sobrevivência. Para que possam tomar consciência livre­ mente. Cf. 35. em geral são limitadas e sempre constituem exceção. 37. que as circunscrições ter­ ritoriais estão destinadas a desaparecer completamente. abaixo. entre as diversas corporações de uma mesma localidade ou de uma mesma região. Le suicide. liv. As instituições an­ tigas nunca desvanecem diante das novas instituições. A proximida­ de material constituirá sempre um vínculo entre os homens. abaixo. formem grupos distin­ tos e independentes. É verdade que. a ponto de não mais deixarem vestígios de si mesmas. 38. aliás. II. par. Apenas. designar seus representantes nas assembléias comuns. é essa regra a norma segundo a qual se fazem essas transmissões. III. pp. De resto. mas apenas que passarão para o segundo plano. em seguida. inclusive na base da corporação. . abaixo. ela não mais terá sua atual preponderância. não é menos indispensável que. haverá necessariamente relações especiais de solidariedade que sempre reclamarão uma organização apropriada. 39. o proprietá­ rio pode determinar ele mesmo a transmissão de seus bens. Cf. Os dois agrupamentos assim constituídos poderiam. Cf. 434 ss. liv. por sinal. II. cap. é preciso que tomem consciência separadamente. mostramos acima que sempre encontraremos divi­ sões geográficas. por conseguinte. na base da organização corporativa. IV. Não queremos dizer. 207. Essas derrogações. 40. mas porque persistem também algumas das necessidades a que correspondiam. Além disso. Elas persistem.

liv. fala­ mos aqui apenas da cultura humanista que é. Na primeira edição deste livro. capítulo sobre a influência da divisão do trabalho. qualquer que seja. sim. La démocratie en Amérique. 7. Loc. em nossa boca. 189. p. cap. 6. 2.. 2a ed. cit. 16). aXV è E . a esterilidade desse . 3. como sobressai do contexto. Le príncipe de la morale. p. cap. a nosso ver. uma cultura geral. Mas Marion examinou o problema de outro prisma. desenvolvemos longa­ mente as razões que provam. 1133 a. p. 2634. 9. Raison ou folie. Não precisamos lembrar que a questão da solidarieda­ de social já foi estudada na segunda parte do livro de Marion sobre a Solidarité morale. mas não a única possível. 8. íaxpoü ícat TE top Y O ÜKai Ô X coçèxêpojv abic lacov (Éthique à Nicomaque. Criticaram-nos (Beudant. procurando estabelecer sobretudo a realidade do fenômeno da solidariedade. novembro de 1884. 244) por havermos qualificado de sutil.NOTAS 437 PREFÁCIO À PRIMEIRA EDIÇÃO 1. Histoire des Sciences et des Savants. Traité d ’économiepolitique. I. 3. 238. Se afastamos esse problema. não pode es­ torvar nossas pesquisas. E. VIII. 5. De Candolle. Falamos a esse respeito mais adiante. Le droit individuel et l'État. p. O. 2. em algum lugar. Ox> T È tp èK Svo laxpcóv yíyvexoti Kovvtováo. é unicamente por­ que a solução que dele se dá. 211. Na realidade. nada tinha de desdenhosa. Interpretou-se algumas vezes essa passagem como se implicasse uma condenação absoluta de qualquer espécie de cultura geral. p. essa questão da liberdade. I. liv. Journal des Économistes. INTRODUÇÃO 1. A expressão. 10.

F. re­ lata muitos fatos do mesmo gênero. 8. Alcan. liv. tomado em si. Waitz.. Moralstatistik. de Simmel (Leipzig.76. 9. de uma maneira geral.. pol. em primeiro lugar. em seguida. 1155 a. Há. 139). 567. 1882.. o livro de Bücher. LIVRO I CAPÍTULO I \ 1. em que não se trata da divisão do trabalho especialmente. 11. eine Studie. cap. Erlangen. 5. Tarde. com vários capítulos consagrados à divisão do trabalho econômico. 6. 3. 154. pois. VIII. 135. 1880. foram publicadas e chegaram a nosso conhecimento duas obras que dizem respeito ao problema tra­ tado em nosso livro. Alcan). Das Gehimgewitch des Menschen. tr. p. Para os suicídios. Essais scienti/iques. 300. II. Porque ela está em antagonismo com uma regra moral (cf. Cf. Anthropologie. Spencer. Cf. Vhomme et les sociétés. tr. 10. par. 7. p. Paris.). II (Paris. Bonn. 1.. Topinard. 2. II. É. 4. 37 ss. Cf. abaixo. cap. Paris. Morale. caps I e V. 32. in Revue d ’écon. I. F. 6). II. Émotions et volonté. . p. não possui esse caráter” (Janet. mas do processo de individuação. p. “La division du travail étudiée au point de vue historique”. F. VII-147 pp. fr. p. Éthique à Nic. p. 12. em sua Anthropologie der Naturvoelker. Acreditam os hoje p o d erm o s ser mais breve. recentemente traduzido em francês com o título de Études d ’histoire et d ’ économie politique (Paris. a de ser obrigatório. II. Desde 1893. Alexander von Oettingen. Sociale Differenzierung. 1901). I.438 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL m étodo. O verdadeiro. 1889. par. H á discus­ sões q u e não se d e v em p ro lo n ga r indefinidam ente. Alcan. cf.. Die Entstehung der Volkswirtschajt. fr. liv. “A característica essencial do bem comparado com o verdadeiro é. Criminalité comparée. 146. Alcan.

passim. III. Mutterrecht und Raubehe irn Germanischen Rechte. Há idéias análo­ gas em Schaeffle. Cours dephilosophiepositive. parece renunciar a ele quando reconhece a impossibili­ dade de fazer uma lista de fatos universalmente punidos ( Criminologie. F. Foi esse. Cf. op. 14. 67. em suma. 1883. o que ofen­ de os sentimentos que estão. o crime natural é. Bau und Leben des sozialen Koerpers. 154. 121. p. seria menos crime do que os demais? Garo­ falo é levado. I. pp. a estreitar de maneira artifi­ cial o âmbito da criminalidade.. Ver abaixo. V. Também é flutuante. 19. por conseguinte. Cf. e Clément. em toda parte. Alcan. 12. F. Príncipes de psychologie. Op. tr. a recusar o caráter de crime a atos que fo­ ram universalmente reconhecidos como criminosos em certas espécies sociais e. liv. Pode-se dizer de um fato social que ele é anormal em relação ao tipo da . a parte invariável do sentido moral e apenas esta. 13.. cit. 101-102. que trata de anormais. para ele. 235 s. 1885. pois o autor não inclui em suas comparações todos os tipos sociais. I. o método seguido por Garofalo. isto é. 425. Antbropologie. Waitz. F. cap. fr. Alcan. 391. Spencer.. 16. porém. assim. Mas por que o crime que ofende um sentimento particular a certos tipos sociais. cap. Paris. 20. IV. notadamente Smith. parte VIII.NOTAS 439 11. 18. na base do direito penal. III. Bain. 17. Spencer. Breslau. A família materna certamente existiu entre os germa­ nos. Waitz.. 5). 117 ss. 15. CAPÍTULO II 1. é exagero. Paris. Daí resulta que sua noção de crime é singularmente incompleta. VI. Alcan. p. Sem dúvida. de resto. Cambridge. Marriage and Kinship inEarly Arabia. pois que. cit. Émotions et volonté. III. Science sociale. Paris. Dargun. o que. Sociologie. Mas acaba voltan­ do. II. excluindo um grande número.

1872. se designa toda a vida psíquica da sociedade. Rein. par. Die Normen und ihre Uebertretung. Handbuch der Griechischen Staatsalterthümer. 7. aí. Portanto. 6. Gilbert. a relação é direta. cap. Kriminalrecht der Roemer. A confusão não é desprovida de perigo. O que lhe permite assinalar assim um limite para as mudan­ ças que se farão num sentido ou noutro? 3. 24 e 27. como veremos.1 . Histoire de la procédure civile et du droit criminei chez les Romains. 829. 6 s. para quem a vida social só é verdadeiramente natu­ ral nas sociedades industriais. 5. Tácito. fr. Nesse caso. nada é mais falso. As duas pa­ lavras não podem ser acopladas. Tudo depende do senti­ do que se dá à palavra. a relação de variação é inversa. 138. Cf. 4. esse esforço não é realizado com um método suficiente­ mente exato e preciso.1 .. um retomo à doutrina de Spencer. 8. . Por mais interessante que seja o esforço de Garofalo para chegar a uma noção científica do delito.440 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL espécie. Binding. em Nouvelle Revue historique du droit français et étranger. 9. As únicas exceções verdadeiras a essa particularidade do direito penal se produzem quando é um ato da autoridade púfclica que cria o delito. Não vemos que razão científica tem Garofalo para di­ zer que os sentimentos morais atualmente adquiridos pela parte civilizada da humanidade constituem uma moral “não suscetível de perda. p. Cf. o dever é geralmente de­ finido independentemente da sanção. 1881. muitos por vezes perguntam se a consciência individual varia ou não de acordo com a consciência coletiva. Leipzig. 1882. 9). 63. Germania. Cf. Walter. 2. É o que mostra essa expressão de delito natural que ele emprega. o leitor se dará conta adian­ te da causa dessa exceção. é necessário distinguir. Esboço histórico do direito criminal da antiga Roma. pp. XII. Leipzig. tr. Assim. Se esta última representa similitudes so­ ciais. mas uma espécie não poderia ser anormal. Quer dizer que nem todos os delitos são naturais? É provável que tenhamos. e sim de um desenvolvimento sempre crescente” (p. Infelizmente.

Études sur Vhistoire du droit criminei. op. é o que reconhecem precisamente aqueles que acham ininteligível a idéia de expiação. XXII. Cf. 12-18. 19. VIII. Isso significa que ela repousa e sempre re­ pousou no princípio que eles combatem (cf. XII. 45): o faz segundo uma apreciação pessoal que não repousa em nenhum caráter objetivo. o roubo. Ancient Society. I. 79317. Cf.. o ato se situa nos limites do direito penal e do direito restitutivo. 11. Fouillée. Walter. Entre os hebreus. 4 e 5. como nâo é mais que uma reparação cujo montante é fixo. mas todo juiz era o representante de Deus. 20. Aliás. mas essa função era vista como essencialmente religiosa (Manu. Êxodo. 1870. 18. Londres. Bausteine fü r eine allgemeine Rechtswissenchaft. 28). p. Na índia. quando a multa é toda a pena. pp. XXI. Por exemplo. Não entramos na questão de saber se a consciência coletiva é uma consciência como a do indivíduo. Rein. 13.). o homem de Deus (Deut. 16. sem prejulgar a categoria pela qual esse sistema de fenô­ menos deve ser definido. Por sinal. 111. os golpes eram tratados como delitos pri­ vados. era o rei que julgava. Por essa pala­ vra. porque sua conclu­ são é que. a concepção tradicional da pena deveria ser totalmente transfor­ mada e reformada. 230-231. p. cit. Science sociale.. Lev. a violação de depósito. 14. I.NOTAS 441 10. 303-311). 307 ss. Deuteronômio. I. designamos simplesmente o conjunto das similitudes so­ ciais. 12. XX. Êxodo. 70 e 178 s. v. 76. Êxodo. Thonissen.. 28.. o abuso de confiança.Cf. par. Post. . XX. 16. 21. cit. Basta ver como Garofalo distingue o que ele chama de verdadeiros crimes dos demais crimes (p. op. 15. os juizes não eram sacerdotes. 17. para ser posta em harmonia com sua doutrina. a faca que serviu para perpetrar o cri­ me. notadamente Morgan. Na Judéia.

1884. 1865.. XVI.. Didot). cit. Munck. trata-se de um homem que blasfemara o nome de Deus. cit. 26. Deutsche Rechtsgeschichte. 803. 34. Du Boys. 35). As testemunhas o detêm.. Thonissen. o que acentua o caráter penal do direito pri­ vado é o fato de que ele acarretava a infâmia. VI. Études sur Vhistoire du droit criminei. 384 s. p. Em outro passo. Deut. Walter. 69 e 70. 33. I. porquanto ainda não estava declarado o que se lhe devia fazei1 ’ (Números. mas não sabem como deve ser tratado. Walter. 32. 28. 36. “Foi o filho de Satumo que deu aos homens a justi­ ça”. Júpiter de longa vista lhes inflige um pronto castigo” {ibid. 35. V. 27. ibid. Histoire du droit criminei des peuples modemes. 25. XXIV. 14. 145. 38. 30. cit. 353. Meteram-no em guarda. p. XV. 107. par.Todavia. importa notar que a vendetta é coisa eminentemente coletiva. 27-36. às ações perversas. D e l’infamie en droit romain. ed.. 266. e a toda a congregação. 12-16). Palestine. Um homem foi encontrado apanhando lenha no dia do sabá: “Os que o acharam apanhando lenha o trouxeram a Moisés e Arão. op. Em todo caso..). passim. 216.442 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 22. p. Rein. cit. mais tarde. é ao clã ou ã família que a composição é paga.. “Quando os mortais se entregam. 788. 11. Cf. Não é o indivíduo que se vinga. pp. 24. op. Gesetz und Recht im alten China. p. 25. diz Hesíodo ( Travaux et jours. 909. mas Veu clã. 23. Thonissen. O próprio Moisés o ignora e vai consultar o Senhor (Lev.. I. op. 39. 37. 29.. Plath... 916. Iliade. Thonissen. VI. e Bouvy. Germania. op. 32-36). 31. cit.. par. Du Boys. Paris. cf. 279 e 280. Ancien droit. Zoepfl. . XII. Rein. verdadeira pena pública (cf. op.

Tarde. fazemos parte de vá­ rios grupos e há em nós várias consciências coletivas. Alcan. Pode até acontecer que seja necessário combater uma prática que foi comum. Para simplificar a exposição. Cf. 2.. 3. p. 42. fr. Criminalité comparée. 45. mas não o é mais. Thonissen. CAPÍTULO III 1. Devemos ater-nos aqui a essas indicações gerais.NOTAS 443 40. E. . supomos que o indivíduo pertence apenas a uma sociedade. F. 41.. Dizendo que a pena. isto é. tal qual é. passim. nada é tão inútil e tão ruim quanto tentar mantê-la artificialmente e à força. 44. 67. 113. essa autoridade moral vem dos costu­ mes. I. apesar de tu­ do. De fato. ela correspondeu a algum sentimento coletivo. Em li­ nhas gerais. p. cap. Physiologie de Vesprit. Cf. Cf. ao contrário. Tal regra só tem ra­ zão de ser se este último ainda é vivo e enérgico. mas essa complicação nada muda na relação que estamos estabelecendo. não entendemos que ela seja perfeita e não possa ser me­ lhorada. Sociétés animales. As teste­ munhas do crime por vezes tinham um papel preponderante na execução. Études. pp. F. VII) provas numerosas dessa ver­ dade em relação à parte desse direito que corresponde à solida­ riedade produzida pela divisão do trabalho. 43. co­ muns a todas as formas do direito restitutivo. Alcan. Paris. 46. p. Se ele desapa­ receu ou enfraqueceu. trata-se apenas de uma justificação. só pode estar muito imperfeitamente ajustada a seu papel. num momento dado. acima. 270. n. da sociedade. 36. Isso não quer dizer que seja necessário. sendo pro­ duzida por causas em grande parte totalmente mecânicas. e que se opõe ao estabelecimento de práticas novas e ne­ cessárias. etc. Maudsley. conservar uma regra penal porque. além do mais. Espinas. Mas não nos cabe entrar nessa questão de casuística. Paris. 30 e 232. É por demais evidente. tem uma razão de ser. tr. Encontraremos mais longe (mesmo livro. que. Cf.

O contratante que falta com seus compromissos tam­ bém é obrigado a indenizar a outra parte. Por exemplo. de fi­ lho. Cours dephilosophiepositive. 11. Foi dito algumas vezes que as qualidades de pai. Mas. Mas muitas distinções seriam necessárias. desenvolvemos. 1382-1386 do Código Civil. Não é por ter prejudicado que o violador paga. 13. mas ela precisaria ser definida. no quadro se­ guinte. Para precisar as idéias. Poderíamos acrescentar os artigos sobre a repetição do indébito. p. 10. eram objeto de direitos reais (cf. 9. 660). que essas funções são as que se encontram imediatamente colocadas sob a ação dos centros go­ vernamentais. pois as relações que elas determinam são negativas.. a in­ denização serve de sanção a um vínculo positivo. mas penetram-se de to­ dos os lados. Art. nesse caso. no caso do empréstimo a juros. a classificação das regras jurídicas que está encerrada implicitamente neste capítulo e no precedente: . Instituts. E por isso que o direito que rege as relações das fun­ ções domésticas não é penal. 5. em linhas gerais. E também as que dizem respeito aos direitos reais das pessoas jurídicas da ordem administrativa. mesmo livro. Mas essas qualidades não são mais que símbolos abstratos de direitos diversos. 14. mas por não ter cumprido o compromisso prometido. e não estamos em condição de fazêlo. 15. 6. Paris. Todavia. I. por exemplo). 7. IV. 8. cap. outros pessoais. uns reais (direito do pai sobre a fortuna de seus filhos menores. embora essas funções sejam bas­ tante gerais. Parece-nos. essas duas consciências não são regiões geo­ graficamente distintas de nós mesmos.444 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 4. 12. etc. p. 419. Cf. VII. Ortolan. Mantemos a expressão empregada correntemente. alguns desenvolvimentos sobre esse ponto. Bases dela morale évolutionniste. 124.

p. etc. usufruto. 116. Regras com sanção restitutiva determinando Direito de propriedade em suas diferentes formas (mobiliária. Anthropologie der Naturvoelker. Lessociétés. 193. pp. Waitz.) Diversas modalidades do direito de propriedade (servidão. etc.) Determinadas pelo exercício normal dos direitos reais Determinadas pela violação culposa dos direitos reais Relações negativas ou de abstenção da coisa com a pessoa das pessoas entre si Entre as funções domésticas rEntre as funções econômicas difusas Relações positivas ou de cooperação Relações contratuais em geral Contratos especiais Das funções administrativas Entre si Com as funções governamentais Com as funções difusas da sociedade Entre si Com as funções administrativas Com as funções políticas difusas Das funções governamentais CAPÍTULO IV 1. 2. p. 75-76. I. Regras com sanção repressiva organizada (O leitor encontrará uma classificação no capítulo seguinte) II. I. . 3.NOTAS 445 I. imobiliária.

10. 435. eles são mais ou menos altos. ao mesmo tempo. 14. Les origines de la civilisation. Cf. Lois de Vimitation. p. Ethnography and philology o f the Un. Paris. VII. adiante. Anthropologie. 18. Selden. 19. 216. DeSunedriis. ibid. Topinard. II e III. Paris. 14-24. Cf. de tronco único sem dúvida. Op. Dizendo de um tipo social que é mais avançado do que outro. 15. 7. mais ou me­ nos elevada segundo os momentos da história. nem sobre a antiguidade relativa das partes que a compõem. 1846. p. todas elas apresentam sensivelmente a mesma característica. para explicar e para confirmar os fatos que estabelecemos aqui. mas de ramos divergen­ tes. Sociologie. 3935. tomamo-las em bloco. Munck. 17. Cf. O que aí dizemos po­ de servir. 889-903. p.. 17. p. 8. 13. 12. p. Filadélfia. Logo. 16. XXIV.. Apesar dessa disposição. 6. trad. States. Cf. do que entre as pessoas das classes superiores” {op cit. 20. Palestine. 13. p. 11. Perrier. Ao contrário. liv. não entendemos que os diferentes tipos sociais se escalonem numa mesma série linear ascendente. p. baseando-se em Maimônides. Loiseleur. F. Alcan. se o quadro genealógico dos tipos sociais pudesse ser completamente elaborado. F. Lubbock. a distância entre dois tipos é men­ surável. 77. enumera. cit. Alcan. Tem-se sobretudo o di­ . p. Spencer. p. 235. é certo que. Não nos cabe pronunciar-nos sobre a antiguidade real da obra (basta-nos que ela se refira a uma sociedade de tipo muito inferior). p. todos os pre­ ceitos que se incluem nessa categoria. teria a forma de uma árvore frondosa. v. que permaneceu fiel a seus velhos costumes. pp.. do ponto de vista que nos interessa. pois. cap. É o que leva Tarde a dizer: “O viajante que atravessa vários países da Europa observa mais dessemelhanças entre a gente do povo. Todos esses versículos reunidos (menos os que tratam das funções públicas) são em número de 135. Lois de Manou. I. 59). II.446 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 4. Cf. 440. Transformisme. 446. 9.

p.NOTAS 447 reito de dizer de um tipo que ele está acima de outro quando começou tendo a forma deste último e a superou. 26. 54. 9. 18. 352. Cf. Dez (leis suntuárias) não mencionam expressamente uma sanção. D ie X II Tafeln. 1 e 2. p. p. XLIV. q u e as intrusões de . Morgan. II. a tutela. Cf. Parte I. Ancien droit.. 19. 22. 347. 24. É certamente porque pertence a um ramo mais alto. p. 3. par. 23. cit. 51. 8. Sociologie. pp. Dionísio de Halicam. LIX. I. Veremos também. II. V erem o s tam bém . 1846. Voigt. que o vínculo que une o indivíduo à sua família é tanto mais forte. Ele inspira esses sentimentos enquanto permanece estran­ geiro. Ancient Society. XLVI. III. Tit. XLV. 21. LX. nessas sociedades. 27. 244. Histoire des institutions politiques de Vancienne France. 25. mas seu caráter penal não é duvidoso. são coisas desconhecidas do Pentateuco. LXII. Précis de droit romain. 6. n o capítulo VII. no capítulo VII. Ancien droit.. 9. Accarias. Parte I. Sociologie. p. etc. 5. XII Tafeln. I. 348. quanto mais dividido é o trabalho doméstico. 7. par. Procédure de la loi salique. 80. o estrangeiro é objeto de repul­ sa. VI. Esse fato não é em absoluto inconciliável com este ou­ tro. 381. par. Thonissen. Kiel. o direito de testar. Das alte Recht der Salischen Franken. 2. a adoção. p. cap. Fustel de Coulanges. p.. Cf.. 448. II. I. op. etc. tanto mais difí­ cil de se romper. Walter. O que dizemos é que ele perde facilmente essa qualida­ de de estrangeiro para ser nacionalizado. p. p. 43. CAPÍTULO V 1. 20. 4. de que. 359-360. Cf. O direito contratual. Anthropologie.

18-21. XXI. 11. o direito penal era me­ nos estranho à vida doméstica. 10. entre eles só há diferenças de graus. XXI. 16. Patronus. v. Droit pénal de la République athénienne. Portanto. 12. Talvez se surpreenda o leitor com que se possa falar de uma regressão dos sentimentos domésticos em Roma. XXI. 15. No princípio da cidade. aliás. pelo me­ nos em parte. 17. X II Tafeln. Uma separação exata entre essas duas subclasses é. notadamente a repulsa que inspira o estado de degradação em que o homem ébrio naturalmente se encontra. Os sentimentos que chamamos de positivos são os que impõem atos positivos. Mas elas são importantes. Deuter. 288. A pena não era determinada. si clientifraudem fecerit. saceresto. amaldiçoava o filho que exercera sevícias contra seus pais (Festus. diz a lei das XII Tábuas. Cf.. 230. 17. Enumeramos nesse item os atos que devem. 14. mas parece ter consisti­ do na degradação (cf. 15. Êxodo. seu caráter criminoso ao poder de reação próprio do órgão da consciência comum. cit. É provável que outros motivos intervenham em nossa reprovação do alcoolismo. 291). op. ela variou de casa em . s. 20. pois assi­ nalam dois momentos de seu desenvolvimento. Abriu-se. A partir do dia em que a vida familiar foi subtraída à ação social para se encerrar na casa. uma fonte de variações que até então não existia. Êxodo. Voigt. constituir uma esfera de ação privada.. II. Ibid.448 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL forasteiros na sociedade familiar são tanto mais fáceis quanto menos dividido é o trabalho doméstico. os sentimen­ tos negativos impõem apenas a abstenção. 273. 18. que a tradição faz remontar a Rômulo. lugar de eleição da família patriarcal. 16. uma espécie de foro interior. O que os explica. Plorarè). Thonissen. Podemos apenas constatar os fatos. muito difícil de se fazer. como a prática da fé. Thonissen. 13. Cf. 19.. p. p. XXVII. p. é que a formação da família patriarcal teve por efeito retirar da vida pública uma multidão de elemen­ tos. Uma lex regia. assim.

. Ibid. cap. Meier e Schoemann. p. Rein. 28.. 804. Thonissen. 368. cit.. 24. p. cit. XX II. 30. Post. 35. 21.NOTAS 449 casa. Fustel de Coulanges diz. p. Reproduzimos essa lista a partir de Meier e Schoe­ mann. par. 11.. O mesmo acontecia no antigo Egito (cf. p. op. verb. 2a ed. Cité antique. Dictionnaire des Antiquités.. 34. Post. e os sentimentos domésticos perderam um pouco de sua uniformidade e de sua determinação. XVIII. op. fatos em apoio a isso em Thonissen. op. op. é verdade. 5. cit. cit. 12 e X IV . Thonissen. 26. 46). Kriminalrecht der Roemer.. XXII. 369. nem o estu­ pro. “Não semearás a tua vinha com duas espécies de se­ mentes” {ibid. . pp. Walter. p. “Não lavrarás com junta de boi e ju­ mento” {ibid. Ber­ lim.. 36. Cf. 33. 86923. que. ibid. I. 3 s.. Cf. 2* ed. 185. em que entram outros elementos. 226. op. Études sur l’histoire du droit criminei despeuples anciens. I. op. O próprio Fustel de Coulanges reconhece que essa característica era muito mais acentuada na cidade ateniense {La cité. 31. 9). 887-888. 22. 25. 29. 266. t. 30. 10). a celebração das festas era obrigatória. Bausteine. cit. Roemische Staatsveifassung.. “Asebeia”. cap. 1. Mas o texto citado fala de uma profanação positiva e não de uma abstenção. 37. Deuter.. XIV. São muito mais atos de violência do que de impudor. Meier e Schoemann.. Der attische Prozess. Ibid. 865. 32. XV. segundo um texto de Pólux (VIII. Não incluímos nesse item nem o rapto. p. 187. II. 38. 149). cit. 39. 27. Marquardt. p. Números. últimas linhas). p... III.V. 367.

45. X II Tafeln.450 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 40. tr. 47. pp. Mas os indivíduos têm sempre uma vida or­ gânica distinta.. 49. 39. in fine. a personalidade individual inexiste. diz Lombroso em apoio à sua afir­ mação. XI. Thonissen. e só contamos como tais os que são ofensas dire­ tas contra as coisas divinas. Essa proposição não contradiz esta outra. V. Cf. 48. o vínculo entre a coisa e a pessoa é ainda mais frágil. pela primeira vez. o sacrilégio ainda é resgatado mediante uma compensação de 30 libras de prata (Du Boys. sanciona a pena de morte contra os heréticos. que o fortalecimento das penas contra esses crimes é um fenômeno anormal. Aulo Gélio. etc. ade­ mais. Roemische Alterthümer. pois. L ’homme criminei. 248. op. Deixamos de lado um ou dois scelera que tinham um caráter laico ao mesmo tempo ^que religioso. de que. VI. sobretudo. Thonissen. Pode-se crer. A que falta então é a personalidade psíquica. Marquardt. 36. Diodoro. 44. nem. o que significa que o direito do indivíduo sobre a coisa não é tão forte quanto hoje. É um de­ creto de 1226 que. os atentados contra esse direito são tão graves. p. 18. E o que não se deve esquecer para julgar certas idéias dos povos primitivos sobre o roubo. Segundo Voigt. 231). I. 42. 36. 41. cit. pp. Études. Noctes Atticae. Criminalité. a personalidade psíquica superior. p. e. 46. I. Du Boys. que a severidade contra os crimes religiosos foi muito tar­ dia. nesse momen­ to da evolução. 363. e isso basta para dar origem a essa simpatia. Isso não significa que o roubo seja tolerado: ele não existe na medida em que a propriedade priva­ da não existe.. p. . Thonissen e Tarde. 43. 40). I. 450-455. devido a circunstâncias excepcionais e que o desenvolvimento normal do cristianismo não implicava.. Onde o comunismo é re­ cente. No século IX. 62 ss.. enunciada com freqüência no curso deste trabalho. As conjeturas são fáceis (cf. É preciso notar. 168. por conseguinte. fr. op. “Mesmo nos povos civilizados a propriedade privada demorou a se estabelecer”. VI. cit.

o clã forma uma família indivisa. op. mas do mesmo gênero. Wyss. v.. I. esse estado foi aquele pelo qual passaram originalmente as sociedades indígenas da Améri­ ca (cf. cit. Londres. e Masqueray. pp. 3. 4. como essas famílias sâo se­ melhantes e iguais entre si. Wilhelm Borchardt. É por erro que Waitz apresenta o clã como derivado da família. começam a se esboçar novas segmenta­ ções. verbete sobre o budismo na Encyclopédie des sciences religieuses). Morgan. A verdade é o contrário. 50. 258. Kamilaroi e Kumai. aparecem no fundo primitivamente homogêneo. 51. Leipzig. Formation des cités chez les populations sédentaires de lAlgéríe. Cf. 1888. ela carece um pouco de precisão. 1886. 7. Mas esse aparecimento não altera as características essenciais da organização social que descreve­ mos. . Die Sprichwoertlichen Redensarten. p.NOTAS 451 muito embora ela se tome mais forte quando a personalidade é mais desenvolvida. 1890. V. no estado de pureza. op. 2. 90. 1889. II. Aliás. XII. 62-122. pelo menos assim acredita­ mos. 52. se essa descrição é importante por causa da competência do autor. Se. Zurique. cit. CAPÍTULO VI 1. mais tarde famí­ lias particulares. La Kabylie et les coutumes kabyles. O budismo (v. Morgan. O clã permanece a unidade política e. Hanoteau e Letoumeux. Die Sprichwoerter bei den Roemischen Komikem. é por isso que não há motivo para nos determos nela. confusa. a sociedade permanece formada de segmentos similares e homogêneos. Aliás. distintas umas das outras.). Paris. Cf. Morgan. The Ewe-Speaking Peoples o f the Slave Coast. AfrikanischeJurisprudenz. Ancient Society. no seio dos segmentos primitivos. 5. cap. conquanto. 6. p.

Cf. liv. Acabamos de ver. p. Esses agregados são coerentes.452 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 8. porque o homogêneo é instável por natureza e a socieda­ de é essencialmente um todo coerente. Ela se modifica: a sociedade atravessa uma série de revoluções. Tarde. Cf. mas pode-se dizer que existe sozinha. que elas têm uma vida coletiva muito forte. tal como ele a entende. Anthropologie. fim). I. Morgan. como. p. 368). uma sociedade que fosse perfeitamente homogênea não seria verdadeiramente uma socie­ dade. “Fizemos a história de uma crença. cap. Cf. principiava por um estágio de mais ou menos perfeita homogeneidade. mas por uma grande abundância de crenças e práticas comuns. 10. Ela se estabelece: a sociedade humana se constitui. III.. op. Veremos as razões adiante. Palestine. 125. III.. Lois de Vimitation. não podemos tratá-los como quantidades desprezíveis. Ademais. 12. pp. que compreendia ao todo quatro famílias. Glasson. Números.. p. Munck. essas sociedades possuem um ti­ po definido que deriva de sua homogeneidade. Não só a comunidade não é demasiado frágil neles. Portanto. 15. contava. Ela desaparece: a sociedade mu­ da de face” (Cifé antique. 153 ss. cap. mas na medida em que são homogêneos. pp. O papel social da ho­ mogeneidade é totalmente secundário. mas não é uma fonte específica de vida social. não se parece em nada com a que acabamos de desenvolver. 390). 14. cit. a tribo de Rubens. não somente apesar de serem homogêneos. Le droit de succession datts les lois barba- . ■mais de quarenta e três mil adultos de mais de vinte anos (cf. o zero da vida social ( ibid. 116. a evolução universal. de acordo com Números (XXVI. 11. pp.. de res­ to. Spencer parece não ver nas sociedades que acabamos de descrever na­ da mais que uma justaposição efêmera de indivíduos indepen­ dentes. Mas essa proposição. Em certos momentos. Assim. ao contrário. Josué. 15 s. para Spencer. ela pode abrir caminho para uma cooperação ulterior (Soc. IV. que se manifesta não por trocas e contratos. 7). 13. VII. 3599. 402-412. con­ quanto sui generis. 14. Spencer já disse que a evolução social. 191). II. De fato. Cf.

“La division du travail étudiée au point de vue historique”. III.. por mais formal que pareça o texto em que Glasson se ba­ seia. Op. par. 32. Schmoller. mesmo livro.. Atenas perdia sua independência. I. Cf. 29.. Ibid. 19. 17. I. Perrier.. 167. 16. adiante. mesmo depois de Clístenes. 771. pol. cit. 778. 31. Levasseur. cap. I). por grupo de gentes.Cf. Colon. esse novo modo de agrupamento resulta.. VI e VII. 142 e 200). Tarde. que se tomam o centro de concentração da população (cf. par. Mas.. o título D e Migrantibus da lei sálica. 317. F. Lois de Vimitation. votava-se por gentes (Gell. 195. embora tendo perdido qualquer caráter político. VII. p. 28. anim. dois séculos depois. Marquardt. p. 19. Gilbert. . cit. Ibid. o yévoç. p. o clã ateniense. 1890. p. 33. 18. 20. dentro de ca­ da cúria. 4). Cf... 24. p. Colonies animales. Até Clístenes. V. 23. Transformisme. Paris. de novas causas que perturbam o antigo modo. PrivatLeben derRoemer. d ’écon. o voto era dado por cúria. Além disso.. 4. pol. Rev. ao me­ nos em parte. ele é segmentário. abaixo. p. pp. 27. 145-148. é verdade. 22. Les classes ouvrières en France jusqu’à la Révolution. Ora. 21. 144.NOTAS 453 res. liv. 145. II e liv. cap. II. ao contrário. Le transformisme. 779. XV. d ’écon. 26. isto é. II. Deutsche Vetfassungsgescbicbte. II. I. O fato. op. “La division du travail étudiée au point de vue historique”. II. Nesses comícios. Schmoller. Não queremos dizer que esses distritos territoriais não são mais que uma reprodução dos antigos arranjos familiares. Alcan. é contestado por Fustel de Coulanges. Perrier. passim. p. 2a ed. liv. 30. p. p. A principal delas é a formação das cidades. cap. Um texto parece dizer que. cap. p. 27. 159. p. Cf. conservou uma organização bastante forte (cf. Rev. Cf. 25. pp. II. quaisquer que sejam as origens desse arranjo.

Cf. Ibid. II. pp. constatada mais acima. dos sentimentos coletivos concernentes à família. 763 ss.. p. 1885. p. 5. p. Ibid. cit.. 332 ss. Krauss. 240 ss... Accarias.. 160. 426-427. Smith. II. Bem entendido. também LHndividu contre 1’ État. Ancient Society. p. op. 10. Morgan.. Alcan. 153. pp. o mesmo se dá no caso da dissolução do vínculo conjugal. II. que faz da força governamental uma emanação da vida inerente à consciência coletiva. 154-155. I. pp.454 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL 34. Cf. cit. 8. F. porque. Paris. O progresso dessa ação reguladora não contradiz a regressão. 402. ao contrário. Krauss. XXXI. p.. pp. Marriage and Kinship in early Arabia. III. 813. 14. III.. 81. Science sociale. Ibid. 13. p. 38. Ibid. p. 332 ss. III. o primeiro fenômeno supõe o outro. 15. Sociol. Por exemplo. 16.. Colon. cap. 406. 113 ss. 8). pp. Encontramos aqui uma confirmação da proposição já enunciada mais acima. 6. nota. Précis de Vhistoire du droitfrançais. 35.. E o que faz Fouillée. 36. tit. Ibid. 4. 2. nos casos de tutela e de interdição. 95. op. pp. pp. 7. anitn. p. Essais de morale. que opõe contrato a compressão (cf. 135. para que esses sentimentos diminuíssem ou fossem de­ . Précis de droit romain. Viollet. 37. 194. 12. II. p. 17. LX. Sitte und Brauch der Südslaven. 9. em que algumas vezes a autoridade pública intervém de ofício. Sociol. 11. p. Cambridge. passim. 808. Lei sálica. Sociol. CAPÍTULO VII 1. III. 3.. Viollet. p.

I. 742. X. 347.Aliás. 187. I. Psychologiepbysiologique. etc. 479. loc. Bases de la morale évolutionniste. Cf. Psycbologie. 22. Laplace. Anthropologie.. Erlangen. 1882. II. cap. 12. Four years in Southern Africa. cit. demissão de em­ pregados. 17923. essa transformação era necessária para que a família pudesse se tomar. 9. 346. Sociol. sobretudo o prefácio. Rabier. 283. essa censura. Moralstatistik. III. Paris. Cf. Cf.. Essais de morale. I. Waitz. par. I. 1847. Fechner. em que nos exprimimos mais explicitamente a esse respeito. 173. as Tábuas de Morselli. 6. um órgão da sociedade. 5. I. 187. Wundt. 4.Essais de morale. I. 19. no Dictionnaire encyclopédique des sciences médicales. Cf. 432. 822-834. 20. III. p. Cowper Rose. 7.) LIVRO II CAPÍTULO I 1. Ver seu verbete “Douleur”. Philosophie de Vinconscient. 1829. Richet. Ibid.NOTAS 455 bilitados. p. Spencer.Fora os casos em que o instinto de conservação é . Ora. liv. pp. Théorie analytique des probabilités. 8. 10. cap. p. 13. Tarde. Cf. 236. 3. Criminalité comparée. p. Leçons dephilosophie. perda da^ relaçòes. porque um órgão é uma parte indi­ vidualizada desta. 48. Psycbopbysik. como toda pena moral. pp. 11. 21. traduz-se por movimentos externos (penas disciplinares.Wundt. Oettingen. Hartmann. subtraída à consciência comum. 18. 2. 124 ss. foi necessário que a família cessasse de se confundir com a sociedade e constituísse para si uma esfera de ação pes­ soal. I. em segui­ da.

640. 5. 2. Também sobre esse ponto podemos apoiar-nos na autoridade de Comte: “Devo apenas indicar agora o adensa­ mento progressivo da nossa espécie como um último elemento geral que concorre para ajustar a velocidade efetiva do movi­ mento social. 31. primeiro. e isso basta para que a presença de um ateste a do outro. Raciocinando assim. 27315.. op. II. 3 - 8. Cf. diz Tácito dos germanos. 273 ss. etc. III. VIII. sobre esse ponto Dumont.Cf. IV. Moralstatistik.. podemos. Sohm. 13. Todavia. Parece-nos que é a opinião de Tarde em suas Lois de l'imitation. cap. I. CAPÍTULO II 1. passim. 6. reconhecer facil­ . Précis. IV. 200. Cours dephilosphiepositive.. Cf. 3. 14. Os dois fatos condicionam-se mutuamente. 1890. Portanto. p. II. A aldeia. “ Colunt diversi ac discref. 23. Dépopulation et civilisa- tion. Era a teoria de Georges Leroy. Levasseur. La population française. II. Paris. Cf.. patrióticos. 12. t. Levasseur. Tácito. Cf. e Oettingen. Fustel. XVI. em que a densidade material e a densidade moral talvez não sejam to­ talmente proporcionais. excepcionais. 10. só a conhecemos pelo que Comte fala em seu Cours dephilos. que originalmente é tão-só um clã fixo. nota final. Cf. em Accarias. p. Sociologie.. 14. La cité antique. não pretendemos dizer que os progressos da densidade resultam das mudanças econômicas. Germ. pp. I. Rômische Altertbümer. cit. 449. 4. cap. mais fraco. por isso. Ver adiante.. “suam quisque domum spatio circundaf ( German. a lista das servidões ur­ banas. posit. 2a ed. 9. Sociologie. IV.456 DA DIVISÃO DO TRABALHO SOCIAL neutralizado por sentimentos religiosos. p. sem que seja. há casos particulares. XVI). Ueber die Entstehung der Stádte. 65.

seja levando os indivíduos a tentar novos esforços para assegu­ rar-se. sobretudo no início. vemos que não se trata aqui do aumento absoluto do nú­ mero de indivíduos. Cf. I. verb. 1886. 1335 b. 131. Linguistisch-historische Forschungen zur Handelsgeschichte. “Der Handel auf den primitiven Kulturstufen” ( Zeitschr: f. Histoire de la crêation naturelle. Origine des espèces. Võlkerpsychologie. no Dictionnaire encydopédique des sciences médicales. o desenvolvimento mais rápido da evolução social. IV. 19. para determinar no conjunto do trabalho humano uma divisão cada vez mais especial. Vie des sociétés. Esse desenvolvimento da vida propriamente intelectual ou científica tem mais outra causa. 18. III. posit. Em ambos os casos. IV. 24. Sociologie. op. Émotions et volonté. Bordier.Cf.. Sociologie. Féré. VEurope et la Révolution française. 20 s. esse adensamento estimula diretamente. p. Dégénérescence et criminalité. de outro modo. Politique. 33126. embora ainda mais capi­ tal. 27. mas sobretudo de seu concurso mais inten­ so num espaço dado” ( Cours. 16. Premiers príncipes. X. 21. tomar-se-ia mais difícil. 28. por meios mais refinados. Cf. 378) e Schrader. 9 e 10. 22. 17. 381. 332. por uma proprie­ dade mais íntima e menos conhecida. 240. “Aliénation mentale”. necessariamente incompatível com um pequeno número de cooperadores. 88. 419. III. cit. uma existência que. Bordier. 16. 20. 29.. de uma maneira fortíssima. 25. IV (VII). Além disso. Cours dephilos. Iena. 45. 455). 23. 15. Kulischer. 421. que veremos no capítulo se­ guinte. 166 s. . seja também obrigando a socie­ dade a reagir com Uma energia mais obstinada e mais bem con­ certada para lutar com maior pertinácia contra o desenvolvi­ mento mais forte das divergências particulares.NOTAS 457 mente que essa influência contribui muito. 1877.

sobre o mutualismo Espinas. . como provam tanto a autonomia da vida local como a autoridade que a tradição conserva. notadamente. em geral. inteligências suficientes o bastante para garantir o sucesso. Por isso. porque a divisão do trabalho. como acabamos de ver. embora o tipo segmentário ainda seja fortemente acentuado. esse gênero de talento não se transmite por hereditariedade. de fato. o que é verdade sobretudo para a divisão do trabalho econômico. Ora. mesmo que as causas internas de que dependem não sejam em geral modificadas. sendo a parte culminante e. Sociétés animales. mostram-se muito mais acessíveis à ação das causas externas. o entendiment