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Visões sobre a Antiguidade Tardia

. O Cristianismo e Antiguidade Tardia - um estudo introdutório sobre a questão, por Carlo Moreschini e Enrico Norelli. . Algumas pala ras sobre a Antiguidade Tardia ! Neste te"to, o pro#essor $aldir Oli eira apresenta alguns dados b%sicos sobre o conceito de &Antiguidade Tardia'. . (obre a Antiguidade Tardia ! $aldir Oli eira apresenta em seu li ro &Antiguidade Tardia' um bre e quadro dos acontecimentos da )poca . *ma No a Antropologia - *ma isão sobre as mudan+as na percep+ão do corpo e da sociedade na Antiguidade Tardia, por ,eter -ro.n. . O /ecl0nio da Ci ili1a+ão Antiga - Apesar de antigo, o li ro 23istória de 4oma2 de M. 4osto t1e## continua interessante em muitos aspectos. Aqui, selecionamos dois te"tos sobre o #inal da ci ili1a+ão antiga, no qual o autor

apresenta suas no+5es sobre o assunto. . Causas do /ecl0nio da Ci ili1a+ão Antiga - Após uma apresenta+ão do quadro histórico, 4osto t1e## aplica as no+5es conceituais sobre o tema. Comentado por Ma6te 7ieira. . O Conceito de Antiguidade Tardia - 3enri Marrou apresenta a questão da Antiguidade tardia na introdu+ão de seu cl%ssico li ro, 2/ecad8ncia romana ou Antiguidade Tardia92, te"to que marca o emprego do termo na historiogra#ia. . O :im do mundo antigo - uma introdu+ão - por :erdinand ;ot, uma isão <antiga= sobre o conceito de #im do mundo antigo. >?@A. . Conclus5es sobre o :im do Mundo Antigo - uma proposta da isão de conBunto de ;ot sobre o #inal do mundo antigo. Comentado por Ma6te 7ieira . O :im do Mundo Cl%ssico - e"tra0do do cl%ssico de ,eter -ro.n, 2O :im do mundo cl%ssico2 - Bunto com o li ro de Marrou, considerado um dos pilares na de#ini+ão da )poca e da terminologia. . A ressurrei+ão do OcidenteC DEF-GEF - continua+ão do ;i ro de -ro.n, analisando a primeira #ase da antiguidade tardia. . O ,re+o da 4essurrei+ãoC A sociedade ocidental, GEF-AFF - #inali1ando esta apresenta+ão do te"to de -ro.n, uma introdu+ão a segunda #ase da antiguidade tardia.

O Cristianismo e Antiguidade Tardia

Huando oltamos a percorrer a literatura do per0odo compreendido entre os s)culos I7 e 7 d.C., isto ), da )poca que assistiu, no MediterrJneo ocidental, K queda do imp)rio romano e K sucessão dos reinos romano-b%rbaros, deparamos o conceito, de uso bastante comum, de 2decad8ncia2 do mundo antigo, de modo que ser% muito Ltil deter-nos sobre ele. Decadência e fim do império romano do ocidente O primeiro a sustentar que hou e uma decad8ncia do imp)rio romano #oi o humanista :la io -iondoC a seu er, o in0cio dela pode ser apro"imati amente #i"ado no ano G>F, com a in asão dos godos na It%lia e o #amoso saque de 4oma. Montesquieu, por sua e1, reconhecia as causas da decad8ncia no poder do e")rcito e no lu"o e"cessi oC podemos er nele uma acusa+ão impl0cita ao cristianismo como #or+a desagregadora do Imp)rio, acusa+ão que se torna mais e idente em 7oltaire e em Mibbon. Mibbon 8 na no a concep+ão de ida propugnada pelo cristianismo um perturbador elemento de mudan+a para o imp)rio romano, a ponto de pro ocar seu #im. No s)culo NIN, as in as5es b%rbaras passaram a ser consideradas pelos estudiosos como a causa principal da queda de 4oma, ao passo que Mar" e seus seguidores #a1iam-na deri ar e"clusi amente de moti os econOmico-sociaisC o sistema econOmico antigo, baseado na escra idão, #oi substitu0do pelo sistema #eudal. As id)ias de Mibbon podem ser aceitas ainda hoBe, mas com os de idos esclarecimentos e cautelas. /e #ato, o cristianismo, desde as origens, contrapusera ao mundo pro#ano e K realidade pol0tica a 2cidade de /eus2C isso era normal para uma religião 0tima das persegui+5es e que se choca a cotidianamente com um poder pol0tico inimigo e pagão. (ó na Idade M)dia, partindo da ideologia constantiniana, ) que se a#irmar% que a e"ist8ncia de um reino, at) mesmo de um imp)rio cristão esta a nos proBetos de /eus e que, portanto, serão sanadas as de#ici8ncias entre, pol0tica e religião. O esgotamento do pensamento pagão no mundo ocidental Mas, no s)culo I7, a IgreBa se a#irma como organi1a+ão totalmente

autOnoma, capa1 de #a1er concorr8ncia ao EstadoC os melhores homens, que, noutro tempo, se teriam dedicado K ida militar e pol0tica, tornando-se generais e go ernadores de pro 0ncias, agora optam pela carreira eclesi%stica, que con#ere e"traordin%rios pri il)gios entre os quais, o de ser Bulgados pelos próprios bispos e não pelas autoridades estatais. /esse modo, Ambrósio, que Censura e e"comunga o imperador Teodósio, ) um e"emplo da mudan+a de perspecti a que se dera. A IgreBa tende a se substituir ao Estado, os cristãos se sentem mais cristãos que cidadãos do imp)rioP os bispos #undam e administram institui+5es de caridade <como no caso de -as0lio=, organi1am a de#esa contra os b%rbaros, porque o Estado Qabdicou desse seu de er <) o caso de Mregório Magno=. ,ortanto, a prosperidade da IgreBa ), ao mesmo tempo, causa e conseqR8ncia da decad8ncia do imp)rio. Tal e1 um #enOmeno sugesti o como o do eremitismo apresente uma dupla cha e de leituraC a ida as c)tica no deserto atrai realmente não apenas os que busca am o sil8ncio e a solidão para meditar as (agradas Escrituras, orar e #ugir das ins0dias do mundo, mas tamb)mC mercen%rios, desertores do e")rcito romano, gente perigosa para a sociedade. :oi necess%rio que ,acOmio, -as0lio e, posteriormente, Soão Cassiano e -ento estabelecessem regras precisas para que o monaquismo se tornasse uma #onte ulterior de poder para IgreBa e perdesse sua tend8ncia destruti a. Ainda no que se re#ere aos b%rbaros, a IgreBa soube demonstrar um alcance de isão maior que o do poder imperial. No Oriente, o problema, dos b%rbaros #oi menos premente, at) mesmo porque a disparidade social era in#erior e a IgreBa apóia o Estado na luta em de#esa das #ronteiras. ,or outro lado, no Ocidente, as plebes urbanas e camponesas tendiam a entrar em coali1ão com os b%rbaros in asores contra o EstadoC a IgreBa se substitui, portanto, ao Estado no relacionamento com os b%rbaros, con erte-os e ci ili1a-os. Mas al)m dos #atores pol0ticos e sociais, não se pode esquecer que, no s)culo I7 e no s)culo 7, no Jmbito latino, as #or+as intelectuais

do paganismo se en#raqueceram, at) esgotar-se. A esse respeito, de e-se limpar o campo de uma id)ia erradaC que tenha e"istido um c0rculo de intelectuais, recolhido em torno de (0maco e capa1 de se contrapor aos mais altos engenhos do ambiente cristão. Na realidade, entre os amigos de (0maco, pode-se contar AusOnio, que era cristão, mesmo que não muito ardoroso, ao passo que não comparecem Amiano Marcelino, Claudiano e 4ut0lio Namaciano. Claudiano, que #oi de#inido por Agostinho como 2pagão obstinado2, iniciou sua carreira sob a prote+ão da poderosa #am0lia dos Anicii. 4ut0lio Namaciano, inimigo dos cristãos, escre eu seu poemeto, O meu regresso K p%tria, quin1e anos depois da morte de (0maco e não ) nem mesmo mencionado nos (aturnais de Macróbio, que, escritos por olta de GDF, recordam um di%logo entre literatos pagãos ocorrido muitos anos antes. Em suma, o 2c0rculo de (0maco2 ou não e"istiu ou #oi bem pouco representati o. Tamb)m não ) erdade que de emos a sobre i 8ncia dos cl%ssicos Ks grandes edi+5es cr0ticas organi1adas pelos intelectuais pagãos do s)culo I7. Essas 2pretensas2 edi+5es #oram tão-só o resultado da corre+ão da cópia pessoal de um te"to, le ada a cabo com a aBuda de um grammaticus. Na realidade, não h% pro as de uma ati idade, da parte de (0maco e de seus amigos, oltada para a sal a+ão da cultura pagã. Isso porque o Cristianismo B% se apoderara dela. -aste pensar que as Metamor#oses de Apuleio, uma obra declaradamente pagã <o autor era considerado uma esp)cie de mago=, eram lidas at) por Agostinho que, entre outras coisas, ) o Lnico a ter conser ado seu subt0tulo, O asno de ouro. O Lnico g8nero liter%rio culti ado e"clusi amente pelos pagãos #oi, na era antiga tardia, a historiogra#iaC a historiogra#ia dos cristãos era algo bem di#erente. Eutrópio e :esto escre eram para a corte do Oriente uma s0ntese de toda a história de 4oma. Aur)lio 70tor, uma história do imp)rio. Amiano Marcelino, o mais ilustre entre os historiógra#os dessa )poca, #alando dos cristãos, não se pronuncia claramente. A historiogra#ia dos cristãos ) algo bem di#erente porque ), ao mesmo tempo, história da IgreBa e crOnica dos in0cios

do mundo, com um mani#esto desinteresse pelas circunstJncias pol0ticas de 4oma. No que se re#ere K #amos0ssima 3istória dos imperadores <3istoria augusta=, durante muito tempo se acreditou que ela ti esse sido escrita com propósitos anticristãos. Na realidade, trata-se de uma compila+ão de #ins do s)culo I7, que tal e1 não tenha sido escrita antes do imp)rio de Teodósio, mas que pretende ser ista como pertencente K era dos Tetrarcas e de Constantino. Nela não se e"prime nenhum Bu01o contra os cristãos, chega-se at) a propor um ago ideal de tolerJncia, t0pico de certo paganismo da )poca. No s)culo I7, as tradu+5es do grego tornam-se cada e1 mais numerosasC uma das obras mais lidas dentre todas as tradu1idas ) a 7ida de ApolOnio de Tiana, de :ilostrato, reali1ada pelo pagão NicOmaco :la iano. Ora, a ida desse mago pagão #oi lida at) mesmo por SerOnimo e AgostinhoC pro a elmente SerOnimo tomou como modelo essa biogra#ia para escre er suas idas de santos. Como se 8, os cristãos substituem os pagãos nos %rios g8neros liter%rios. O neoplatonismo se apresentou como o mo imento mais ital no Jmbito pagãoC no Ocidente ele te e o apoio de 7)tio Agório ,retestato, cOnsul designado para o ano DTE. Esse personagem, autor de algumas tradu+5es de obras de Aristóteles, ) ideali1ado por Macróbio, que #e1 dele o protagonista das (aturnais, di%logo entre doutos pagãos ambientado no ano DTG <o ano da disputa entre Ambrósio e (0maco pelo altar da 7itória, disputa da qual não h% est0gio nas (aturnais=, mas realmente escrito entre os anos G@F e GDF, quando qualquer sinal de re i esc8ncia pagã B% tinha desaparecido. Na realidade, at) o mo imento neoplatOnico, que na Mr)cia recolheu e organi1ou o dissenso contra o cristianismo, logo passa a ser patrimOnio comum dos dois grupos. /e #ato, a obra de ,or#0rio, Contra os cristãos, ) lida com mais aten+ão e"atamente por aqueles que eram o obBeto de sua cr0tica. E não sóC quando Constantino ordenou a destrui+ão dessa obra, ela continuou a ser estudada e re#utada. O coment%rio de Macróbio ao (omnium (cipionis de C0cero ) inteiramente neoplatOnico e, mesmo assim,

alcan+ou um imenso sucesso entre os cristãos, que o transmitiram K Idade M)dia. /essa #orma, muitas obras cl%ssicas #oram redescobertas e"atamente na idade antiga tardia. A obra /e publica de C0cero, pouco lida K )poca dos imperadores <ob iamente por conta de seu argumento= e citada apenas nos tratados dos gram%ticos, atraiu a aten+ão de ;actJncio e de Agostinho, que lhe de ol eram a honra de oltar a ser estudada. Decadência e antiguidade tardia A lenta trans#orma+ão da cultura que se eri#ica na era antiga tardia e a passagem da ci ili1a+ão antiga para a ci ili1a+ão medie al #oram, no passado, ligadas K id)ia de 2decad8ncia2P apenas recentemente ) que se recuperou o conceito de 2continuidade2C não e"iste uma #ratura entre o mundo antigo e o mundo medie al, mas no mundo medie al se reencontram, modi#icados e trans#ormados e mesmo assim reconhec0 eis, os elementos culturais do primeiro. A esse propósito, ) emblem%tica a e olu+ão do pensamento do grande historiador 3enri- Ir)n)e Marrou". Ele escre eu seu ensaio sobre (anto Agostinho e o #im do pensamento antigo em >?DT, a#irmando que a )poca antiga tardia era uma )poca de decad8ncia tout court, na qual desponta a, como g8nio isolado, (anto Agostinho. /e1 anos mais tarde, em >?G?, escre eu uma 2retractatio2 <seguindo um procedimento t0pico de seu amado bispo de 3ipona= de seu ensaio anterior, #a1endo muitas corre+5esP em >?UU, oltou a e"aminar todo o problema da )poca antiga tardia e o modo de entend8-la em um ensaio cati ante, mas tal e1 um pouco 2ir8nico2, no qual se inclina a a eliminar as di#eren+as entre o cristianismo e o paganismo. Esse ensaio se intitula /ecad8ncia romana ou AntigRidade tardia9 <a tradu+ão italiana, /ecaden1a romana o tarda antichitK9, ) de >?UT= e a tese que ele apresenta ) a de uma releitura da )poca antiga tardia como per0odo de 2trans#orma+ão2, não de 2decad8ncia2. Em sua 3istória da educa+ão na AntigRidade, Marrou de#inira a AntigRidade tardia como o per0odo da 2cidade de /eus2 <Theopolis=, tanto no sentido pagão como no sentido cristão, contrapondo-a ao per0odo da polis, que era o da Mr)cia cl%ssica. Tratar-se-ia de um per0odo de

2pseudomor#ose2, ou seBa, no os conteLdos culturais são introdu1idos nas, #ormas tradicionais para assumir #ormas ou apar8ncia similares Ks precedentes. Marrou, portanto, identi#ica o per0odo da 2decad8ncia2 em uma )poca posterior, ou seBa, no tempo da segunda aga das in as5es b%rbaras na It%lia, no #im do s)culo 7I. Cristianismo e cultura clássica na era antiga tardia ;iberado o campo do conceito de 2decad8ncia2, ) preciso en#rentar o problema da ineg% el di ersidade entre mundo pagão e mundo cristão. A id)ia de que esses dois mundos #ossem contrapostos e completamente estranhos e hostis entre si surge apenas durante o humanismo e posteriormente se chegou a di1er que a #orma liter%ria, que permanecera antiga, teria embalado um conteLdo no o, cristão. No s)culo N7I, e especialmente nos s)culos posteriores, desen ol eu-se a id)ia de uma cisão n0tida entre a tradi+ão cl%ssica e o cristianismo. Os estudiosos modernos da AntigRidade tardia atualmente re#utam essa interpreta+ão. Na realidade, ) preciso buscar entender quais alores #ormais e quais t)cnicas de e"pressão eram, de e1 em quando, alori1adas e aceitas pelos autores dessa )poca, que não são, portanto, 2autores cristãos2 ou 2autores pagãos2, mas, e"atamente, autores da 2AntigRidade tardia2. Nessa )poca, pagãos e cristãos partilha am uma mesma est)tica. 3% dados culturais de base comum a todos os autores, independentemente do #ato de que um deles, cristão, escre a homilias ou um outro, pagão, composi+5es )picas. Esses dados culturais de base eram #ruto de um condicionamento social so#rido pela cultura que eles receberam anteriormente, que prescindia de qualquer escolha de #orma e de conteLdo que eles #i1essem. O condicionamento social se de e a alguns #atos que passamos a analisar. Em primeiro lugar, não obstante a tentati a de Suliano Apóstata de e"cluir os cristãos do ensino e de criar uma escolha con#essional pagã <tentati a de curta dura+ão, como o reino daquele que a quisera=, cristãos e pagãos ti eram no -ai"o Imp)rio uma escola comum. Esta escola imprimiu sua marca de erdadeiro classicismo na mais própria acep+ão do termoC ou seBa,

#ormou-os por meio de um programa de leitura e de e"egese de autores considerados cl%ssicos. A própria #orma+ão de base se encontra nos autores latinos, pagãos e cristãos, e at) mesmo nos autores estrangeiros como Amiano Marcelino e Claudiano, que eram origin%rios do Oriente e aprenderam latim nas escolas de Antioquia ou de Ale"andria do Egito e depois continuaram a estudar no Ocidente, onde se desen ol eu sua carreira liter%ria. O pagão Amiano Marcelino critica o imperador So iano mais por sua ignorJncia que por sua #) cristã <NN7, >F, >E= e admita ConstJncio, apesar de ele ser inimigo de seu imperador ideal, Suliano <NNI, >A=, por sua re#inada educa+ão liter%ria. *m leitmoti da )poca de Constantino e da tetrarquia #oi o da reno a+ão das letras, apoiado em um c)lebre paneg0rico pagão do #inal do s)culo III, intitulado /iscurso de Eumene pela restaura+ão da escola de Autun. Essa 2reno a+ão2 ser% entendida como retorno Ks #ontes da cultura cl%ssica e identi#icada com o ideal de restaura+ão perseguido pela Tetrarquia. :ala-se de uma contemporaneidade nos escritoresC ou seBa, dispensa a-se aten+ão Ks obras contemporJneas, independentemente do credo religioso. :ontaine d% a notar que um poeta pagão como AusOnio era atentamente lido at) pelos cristãos ,rud8ncio e ,aulino. Não se de e, portanto, imaginar, no plano social, uma n0tida oposi+ão entre pagãos e cristãosC muitos cristãos, rec)m-con ertidos, tinham uma #) d)bil e pouco e"igente, muitos pagãos, por outro lado, torna am-se c)ticos de suas próprias cren+as e tradi+5esC cria a-se, assim, um modus i endi do qual não esta am e"clu0das rela+5es amig% eis entre pagãos e cristãos, como no caso de (0maco e de Agostinho, entre os quais hou e amigos de religi5es opostas, At) mesmo na pintura, a di ersidade dos estilos nada tem a er com as di ersidades ideológicas. A cr0tica recente #ala de 2sobredetermina+ão cristã2 de s0mbolos e esquemas de #igura+ão de origem antiga. O substrato cultural comum #a1ia com que religi5es pro#undamente di ersas condi idissem certo modo de conceber o sagrado e certa sensibilidade religiosaC esquemas iconogr%#icos iguais #oram utili1ados ora por pagãos, catacumbas de Calisto, de ,riscila, de ,edro e Marcelino, de /omitila. A bas0lica cristã, grandiosa e"pressão do cristianismo de

Constantino, ) a trans#orma+ão de um edi#0cio romano, di#undido a partir da era augusta. -ianchi -andinelli inLmeras e1es ressaltou a semelhan+a entre as #ormas da arte pagã antiga tardia e as #ormas da arte cristãC 2Na realidade, essa pintura cristã <dos s)culos III e I7=... não se distingue, do ponto de ista da #orma art0stica, da pintura não cristã. A di#eren+a, 8-se somente na iconogra#ia, nos assuntos e no conteLdo. No plano histórico-art0stico, de eria ser considerada Bunto K pintura pagã. Mas um antigo preconceito de classi#ica+ão #a1 com que ainda seBa tratada K parte ... 2. Formas literárias cristãs e antigas tardias Assim como na era imperial imediatamente anterior, ) e idente que as #ormas liter%rias da AntigRidade tardia basea am-se no ideal e na pr%tica da retórica. Isso ) e idente tanto em ,rud8ncio e em Claudiano como em ;ucano e Est%cio, tanto em Agostinho e Tertuliano como em (8neca e T%cito. Os cr0ticos do passado iam na retórica algo conden% el, tachandoa de insinceridade e de arti#iciosidadeC essa condena+ão deri a a da contraposi+ão, e"istente B% na )poca antiga, entre retórica e #iloso#ia, depois, na )poca human0stica, entre retórica e dial)tica, e te e como conseqR8ncia redu1ir a retórica a mero estudo das #iguras do discurso. Nas Lltimas d)cadas, O Bu01o sobre a retórica #oi amplamente re isto. 4ealidade e retórica estão, na )poca antiga tardia, estreitamente unidas, unidas de um modo at) mesmo indissolL el. O processo de retori1a+ão #oi geral, abarcou at) os documentos da chancelaria imperial e eclesi%stica e pode ser detectado at) nas cartas pri adas. Naquela )poca, Busti#ica a-se a 2retori1a+ão2 pela 2e"ig8ncia de imitar os antigos2. Essa Busti#icati a #oi muitas e1es reBeitada na )poca moderna porque entra a em contraste com nosso conceito de 2originalidade2C mas esse conceito ) completamente estranho ao mundo antigo e at) mesmo ao mundo cl%ssico. S% dissemos isso quando #alamos de Su 8ncio <p. @GT=.

*m e#eito da 2retori1a+ão2 #oi que a prosa assumiu um colorido po)tico e, no sentido oposto, a poesia passou a se assemelhar sempre mais K prosa ersi#icada. O papel da escola nessa caracteri1a+ão #oi muito signi#icati o. Como o a#irma Cameron, a inicia+ão K poesia se da a &não por obra das musas no monte 3)licon, mas por obra dos gramaticus da aula escol%stica'. Muitos grammatici eram tamb)m poetas. :a1ia parte do comple"o retórico todo o patrimOnio mitológicoP não ) de admirar que ele esteBa presente at) mesmo em autores cristãos. O te"to po)tico tinha necessidade da mitologia, sem que se de a er nisso uma adesão dis#ar+ada K religião antiga. Al)m disso, a elabora+ão retórica torna di#usos os limites entre os g8neros liter%riosC Ks e1es, g8neros liter%rios di ersos são, por assim di1er, 2entroncados2. Contudo, #alar de 2retori1a+ão2 implica que se saiba com clare1a o que entendemos pelo termo 2retórica2. Os estudiosos pro enientes da #ilologia cl%ssica t8m entendido a retórica como 2a arte do di1er2, com uma isão um pouco limitadoraP Huacquarel>i, por sua e1, procurou ca ar mais #undo, descobrir suas ra01es baseando-se tamb)m no uso que dela #a1em os escritores cristãos, como Agostinho e Cassiodoro. Ele concluiu que 2a retórica ) tanto mais uni ersal quanto mais natural2, ou seBa, corresponde K estrutura do intelecto e da psicologia humanos. Nem mesmo os cristãos se subtraem K imita+ão dos cl%ssicos e, conseqRentemente, K retori1a+ão geral. Mesmo sal aguardando o patrimOnio cultural que ) espec0#ico deles <a dupla bibliotheca sacra, ou seBa, a -0blia e os autores cristãos a partir de Tertuliano=, os cristãos so#rem o #asc0nio est)tico das obras cl%ssicas e o 2belo2 tamb)m ) para eles uma categoria #undamental. Al)m do estudo da retórica, h% muitas outras caracter0sticas comuns a cristãos e pagãos <e que, portanto, de em ser de#inidas sobretudo como caracter0sticas simplesmente 2antigas tardias2=. Na AntigRidade tardia, assiste-se ao e ol er das #ormas liter%riasC as #ormas antigas sobre i em com um no o aspecto. At) mesmo

nesse caso, ) necess%rio rea#irmar que não e"istem no s)culo I7 #ormas liter%rias e"clusi amente pagãs ou e"clusi amente cristãs <tal e1 com uma Lnica e"ce+ão, a homiliaP mas isso se de e K origem desse g8nero, nascido como e"egese da Torah na sinagoga=. O escritor cristão não de e escre er enquanto cristão, a partir do momento em que, desde muito tempo, at) os te"tos sacros tinham sido obBeto de elabora+ão liter%ria <alguns li ros do Antigo Testamento tinham sido escritos em grego, segundo os modos e as #ormas da literatura helen0stica=. Na AntigRidade tardia, assiste-se ao #enOmeno de uma dupla con ersãoC a cultura antiga se con erte em cultura cristã, e o cristianismo se con erte em cultura antiga. ,ara os cristãos, a #orma não ) mais algo de estranho com o qual re estir um conteLdo no o. Nessa )poca, a linguagem ) unit%ria, tanto quanto o gostoC a tipologia das #ormas liter%rias, al)m de Antão, o monge do deserto, e a do mago ApolOnio de Tiano, entre a hinódia cristã e a hinódia pagã, entre os paneg0ricos imperiais e os dos m%rtires, entre as cartas de Ambrósio e as de (0maco. A essa altura, podemos perguntar-nos se o que estamos a#irmando não representa uma contradi+ão com aquilo que sempre #oi proclamado pelos cristãosC isto ), que a 2con ersão2 implica urna mudan+a radical da própria personalidade. Na realidade, at) mesmo um rigorista como Tertuliano não e"clui que o cristão se interesse pelo mundo em que i e. Al)m disso, especialmente a partir de Constantino, 2con erter-se2 B% não signi#ica abolir os alores sociais nos quais anteriormente se acredita a, mas orient%los de modo di#erente. Os letrados cristãos não consideram que e"ista uma dissensão irremedi% el entre o #im, que ) no o, e os meios, que são os da cria+ão liter%ria tradicional. Isolar o estudo da literatura cristã em nome de seus conteLdos, seBa com propósitos anticlericais e anticristãos <como o #i1eram 7oltaire e Mibbon=, seBa com intentos est)ticos <por despre1o por tudo o que seBa nãocl%ssico ou pós-cl%ssico, corno o #e1 todo o s)culo N7III, ou não-2original2, corno o #e1 o s)culo NIN=, seBa com propósitos apolog)ticos <para ressaltar a absoluta originalidade do pensamento cristão e de sua e"pressão=, não #a1 o menor sentido. Acabar-se-ia

por tomar como e"pressão original do pensamento cristão aquilo que ) t0pico do pensamento antigo tardio e que se e"prime nas #ormas liter%rias dessa )pocaC urna )poca de angLstia, corno a de#ine /odds, da dor de i er, corno o di1 -ianchi -andinelle, do estranhamento em um outro mundo, corno o a#irma -ro.n. Na est)tica desse tempo, a magnitude silenciosa e a nobre simplicidade do mundo cl%ssico não podem ter lugar <:ontaine=. ,or MO4E(C3INI, C. V NO4E;;I, E. Manual de literatura cristã antiga grega e latina. (ão ,auloC (antu%rio, @FFE. Algumas palavras sobre a Antiguidade Tardia O per0odo histórico a que se re#ere o presente trabalho ) por muitos designado como Antiguidade Tardia. 3%, contudo, quem não aceite esta denomina+ão, pre#erindo design%-lo como ,rimeira Idade M)dia, antecessora do que se costuma identi#icar como Alta Idade M)dia <de :4ANCO S*NIO4, 3. A Idade M)dia e o nascimento do Ocidente. (ão ,aulo, -rasiliense, >?TU=. Huanto K denomina+ão Antiguidade Tardia, di#undiu-se, a partir dos anos >?EF, após a acolhida que lhe deram alguns historiadores alemães, entre outros, ,. E. 3Rbinger e W. :. (troheXer. E o termo &(patantiXe' ultrapassou #ronteiras, passando a ser utili1ado por grande nLmero de pessoas, no resto do mundo. Em >?UU, o historiador #ranc8s 3enri-Ir)n)e Marrou, recentemente #alecido, deu como t0tulo K sua obra derradeira &/ecad8ncia 4omana ou Antiguidade Tardia9', nela declarando que 2o que importa ) que o termo Antiguidade Tardia receba, de uma e1 por todas, uma conota+ão positi a2. Mas, ao questionar se seria l0cito a#irmar que o mesmo B% participa a da linguagem corrente dos historiadores, lastima a que tal não hou esse ainda acontecidoC 2Em #ranc8s <e o mesmo se dir% dos seus equi alentes italiano e ingl8s=, a e"pressão conser a ainda alguma coisa de esot)rico2P e conclu0aC 2(ó o alemão, mais pl%stico, parece ter acolhido melhor a pala ra (patantiXe2.

A questão essencial ), sem dL ida, a da #i"a+ão dos limites entre a Antiguidade e a Idade M)dia. Em princ0pios do s)culo NIN, tr8s opini5es di idiam entre si a pre#er8ncia dos especialistas - a primeira, estabelecendo-os em D@G, quando Constantino assumiu o poder, na condi+ão de primeiro imperador #a orecedor do cristianismoP a segunda, pre#erindo o ano de D?E, data da di isão de#initi a do Imp)rio 4omanoP e a terceira, escolhendo o ano de GUA, quando 4omulus Augustulus, o Lltimo imperador do Ocidente, #oi deposto por Odoacro. 3% de reconhecer-se, no entanto, que o per0odo que ai da crise do s)culo III at) o #inal do Imp)rio 4omano do Ocidente possui caracter0sticas que lhe propiciam uma de#ini+ão melhor que a de decl0nio ou decad8ncia do Imp)rio 4omano. (egundo Marrou, ele se apresenta como 2uma outra Antiguidade, uma outra ci ili1a+ão que ) preciso aprender a reconhecer na sua originalidade e a Bulg%-la por si mesma, e não atra )s de cJnones estabelecidos em tempos passados2. E, se em erdade e"istem di#iculdades para #i"ar-se uma #ronteira n0tida entre a Antiguidade e a Idade M)dia, ) precisamente neste ponto onde a denomina+ão Antiguidade Tardia encontra ra1ão para estabelecer-se, identi#icando um tempo de transi+ão rico em mudan+as e muito distante de um conceito simples de decad8ncia. O historiador ingl8s ,eter -ro.n, em seu li ro &4eligion and societ6 in the age o# (aint Augustine', chama a aten+ão para o #ato quando a#irmaC Os s)culos da Antiguidade Tardia t8m sido demasiadas e1es desquali#icados como per0odo de desintegra+ão, de #uga para o Al)m, em que as almas d)beis, delicadas, 2boas almas2, se li raram da sociedade que K sua olta ca0a, para ir buscar re#Lgio numa outra cidade, a Cidade Celeste. Nada mais distante da erdade. Na história da Europa, mal ter% ha ido algum per0odo que haBa legado aos s)culos seguintes institui+5es tão perdur% eisC os códigos do

/ireito romano, a estrutura hier%rquica da IgreBa Católica, o ideal de um Imp)rio cristão, o monaquismo. /a Escócia K Etiópia, de Madri a Moscou, quantos homens i eram desta imponente heran+a, quantos se #oram sempre re#erindo a essas cria+5es da Antiguidade Tardia para nelas encontrar um principio de organi1a+ão da sua ida neste mundo. 4econhecendo a importJncia desse tempo, admitimos, tamb)m, a di#iculdade da sua delimita+ão. 3% quem o #a+a atingir as pro"imidades do ano AFF, sob a alega+ão de ha erem sido os anos entre os #ins do s)culo 7I e os princ0pios do s)culo 7II repletos de acontecimentos de importJncia, como a cria+ão pelos lombardos da Lltima #orma+ão estatal germJnica sobre as terras romanas <EAT=, o ponti#icado de Mregório, o Mrande <E?F-AFG=, as re#ormas do Imp)rio -i1antino sob 3er%clio <A>F-AG>=, a apari+ão dos % aros e dos esla os como #or+as no as atuantes sobre os -%lcãs e o come+o da e"pansão dos %rabes <AD@=, que modi#icaram, substancialmente, a e olu+ão histórica do Ocidente. Outros, contudo, o le am apenas at) a morte de Sustiniano <EAE= e a in asão da It%lia pelos lombardos <EAT=. Huanto a nós, pre#erimos conceber a Antiguidade Tardia como o per0odo que, no Ocidente, ai da crise do s)culo III at) a derrocada do Imp)rio, com a deposi+ão de 4omulus Augustulus por OdoacroP e, no Oriente, at) a proclama+ão como imperador de 3er%clio. Aceitando, desse modo, a denomina+ão de Alta Idade M)dia para os tempos que se iniciam, a partir desses momentos, em cada uma das partes con encionalmente designadas como Ocidente e Oriente, aceitos, em geral, como de transi+ão, possuidores, no entanto, de caracter0sticas di ersas daquelas que identi#icam a Antiguidade Tardia. Considerando, no entanto, os obBeti os imediatos do presente trabalho, destinado a leitores de um pa0s inculado, de modo direto, Ks culturas que se constitu0ram na Europa Ocidental, somente iremos cuidar dos #atos ocorridos at) o ano de GUA, o da queda #inal do Imp)rio 4omano do Ocidente, dei"ando de acompanhar aqueles que, a partir desta data at) a )poca de 3er%clio, irão

desenrolar-se sobre a %rea do Imp)rio 4omano do Oriente. E ainda que admitamos ser esta posi+ão pass0 el de cr0ticas pertinentes, resol emos adot%-la por con eni8ncia did%tica. Con encidos de que a mesma poder% permitir, Kqueles que se destina este li ro, uma compreensão mais e"ata de um per0odo de importJncia decisi a para a história do Mundo Ocidental.

O;I7EI4A, $. A Antiguidade Tardia. (ão ,auloC >??F <Introdu+ão, p.E-T=

Sobre a Antiguidade Tardia No Ocidente, entre a ascensão ao poder de COmodo <>TF= e a deposi+ão de 4omulus Augustulus <GUA=, tr8s s)culos se ha iam passado. Atra )s da an%lise dos #atos e das trans#orma+5es ocorridas no mundo romano, tentamos identi#icar, nesse per0odo, caracter0sticas próprias, di ersas daquelas do chamado Mundo Antigo. Elas #oram, gradati amente, se corpori#icando, a partir dos Lltimos anos do s)culo II, e surgiram, plenas de italidade, em meados do s)culo I7, durante o go erno de Constantino. E incorporaram-se a#inal, ao sistema econOmico, K organi1a+ão da sociedade e K mentalidade dos habitantes do Imp)rio, de modo de#initi o. Mas, enquanto esti ermos condicionados pelo conceito de decad8ncia do Imp)rio 4omano, seremos incapa1es de compreend8las. (e, ao contr%rio, adotarmos ponto de ista di erso, encarandoas, idealmente locali1ados no seio do próprio Imp)rio, sem nos considerarmos espectadores do processo, iciados, de ido a erros de #orma+ão, por preconceitos que nos #a1em, inconscientemente, lamentar o #im do mesmo, iremos reconhecer nesse per0odo um tempo de grandes reali1a+5es que marcaram, de modo indel) el, a e olu+ão histórica dos po os do Ocidente.

Em primeiro lugar, de endo aceitar a id)ia de que as elites romanas do s)culo I7 não i eram aterradas ante uma perspecti a de cat%stro#e. Eram prósperas e con#ia am em si mesmas. Acredita am ser poss0 el manter-se, ainda por muito tempo, nos postos que conquistaram, mesmo ante a amea+a dos po os i1inhos, particularmente dos germanos. Como a#irma ,eter -ro.n em seu &O #im do Mundo Cl%ssico', no Imp)rio do Ocidente a sociedade e a cultura são <então= dominadas por uma aristocracia senatorial cinco e1es mais rica, em m)dia, do que os senadores do s)culo I. E as cidades do Imp)rio conheceram, nessa )poca, uma #ase de grande desen ol imento, como constituem e"emplos as cidades de Ystia e Constantinopla. O que de emos acentuar, de modo #risante, ) a enorme distJncia que e"istia entre ricos e pobres. Nunca ha ia esta distJncia atingido tão grandes propor+5es. /onde a crise econOmica muito gra e na parte ocidental do Imp)rio. O que e"plica a tragicidade das pala ras de (al iano, denunciando a degrada+ão moral da sociedade do seu tempo e chegando a elogiar a moral e o comportamento dos po os b%rbaros. Tais elites, contudo, B% não eram constitu0das de modo igual ao dos s)culos passados. (eus integrantes eram, agora, bem distintos dos antigos senadores da )poca do ,rincipado. /elas participa am pro inciais e elementos pro indos diretamente das #or+as armadas, dado o prest0gio crescente da classe dos eqRestres. E pouca liga+ão e"istia entre os no os elementos e a cidade de 4oma. Muitos deles nunca ao menos a isitaram. Eram pessoas ligadas, de modo essencial, Ks pro 0ncias onde ha iam nascido e atuado. Todos, no entanto, interessados em preser ar o modo de ida herdado do passado. 3a endo, contudo, no as atitudes e modos de pensar que repercutiam na alori1a+ão da pessoa humana, nas cren+as religiosas, nos gostos, nas próprias estimentas e na arte no a que então surgia. As pro 0ncias marca am, a#inal, sua presen+a no conBunto do

Imp)rio. /e um certo modo poderemos di1er que se emancipa am, libertando-se da tutela dos it%licos. /iremos, ainda, que a ci ili1a+ão romana do s)culo I7 #oi mais liberal que em outros tempos, no sentido de propiciar a elementos pro indos das classes mais bai"as da sociedade a ascensão social, e"pressa pela participa+ão dos mesmos na ida pLblica, tanto na %rea da administra+ão como na eclesi%stica, nos comandos militares, no campo das letras e das artes. ,ersistiam, no entanto, em todos eles, o sentimento de pertencerem ao Imp)rio e o da necessidade de preser %-lo. /entre as modi#ica+5es então ocorridas de e ser considerada a mais importante, a da propaga+ão do cristianismo, tornado religião o#icial do Imp)rio a partir de Teodósio. ,ois com ele eio a preocupa+ão pelo sobrenatural, atra )s da aceita+ão da id)ia da e"ist8ncia de um /eus Todo ,oderoso, capa1 de inter#erir no mundo dos homens, impondo-lhes (ua ontade. *m /eus, contudo, de todos os homens, ricos ou humildes. E tamb)m a cren+a nos demOnios, nas #or+as do mal, tentando indu1ir ao erro as pessoas sobre as quais atuassem. Era a itória do mundo in is0 el sobre o material. *m mundo que a todos en ol ia e somente poderia ser compreendido e en#rentado com o au"0lio da no a religião que ensina a aos mortais um seguro e adequado modo de con i 8ncia com as suas entidades. E isso se tradu1, principalmente, nas mani#esta+5es art0sticas da )poca, nas quais a presen+a de cenas e #iguras ligadas ao cristianismo ) dominante. /e tudo isto resulta uma preocupa+ão e"agerada pelas quest5es teológicas, apai"onando elite e multidão. /esde que todos por elas se interessa am, buscando, desesperadamente, a sal a+ão de si mesmos após a morte #0sica. ,ois que o racionalismo grego se desprestigiara, a despeito da atua+ão brilhante dos gnósticos e dos neoplatOnicos, da a+ão de um prodigioso pensador como ,lotino ou da energia e disposi+ão de Suliano, o mais culto dos Lltimos imperadores de 4oma, tentando re i er o paganismo e a #iloso#ia

hel8nica. No s)culo I7, no Ocidente, a IgreBa triun#ara e se tornara, na pr%tica, a dirigente das mentalidades no Imp)rio. A atua+ão de Ambrósio mostra bem isto. -em como a tese #undamental da Cidade de /eus, de (anto Agostinho. E acelerara-se o ritmo das trans#orma+5es que esta am a ocorrer, tendo ao seu lado, neste papel, a presen+a cada e1 maior e mais ati a dos elementos germanos in#iltrados na sociedade romana, ocupando altos postos na administra+ão ci il e no comando das #or+as armadas, tais como Estilicão, Argobasto ou 4icimero. Os germanos, contudo, assimilando o romanismo, não o conser aram na sua integridade original. :oram, em erdade, preparando o caminho para os no os tempos que se acerca am e iriam trans#ormar a ci ili1a+ão do Ocidente numa ci ili1a+ão que continuaria romana em suas bases, possuindo, no entanto, caracter0sticas di ersas, em #un+ão da cultura dos po os habitantes das %rias pro 0ncias que constitu0ram o Imp)rio do Ocidente. E a principal e id8ncia desse processo #oi o surgimento, na )poca, do latim ulgar, utili1ado como l0ngua #ranca, principalmente pelos propriet%rios, cobradores de impostos e pelos bispos, do qual se iriam originar l0nguas do mesmo distintas, dele contudo deri adasC as l0nguas neolatinas. Huanto K ordem econOmica, ser% a real incapacidade da maioria dos habitantes do Ocidente para o pagamento dos impostos que lhes eram, e"torsi amente, cobrados que ir% não só determinar o surgimento da agita+ão nas 1onas rurais das M%lias e 3ispJnia, com as bagaudes, como tamb)m o #ortalecimento do poder dos grandes propriet%rios, os potentiores, a apari+ão do sistema da ser idão, por interm)dio do colonato, a debilita+ão dos imperadores e, após a chegada maci+a dos germanos, a #ragmenta+ão do Imp)rio em reinos que procurarão, a despeito de toda uma s)rie de #atores, manter o que poder0amos chamar, com propriedade, de uma tardia ci ili1a+ão romana.

Huanto ao Oriente, entre a morte de Teodósio <D?E= e a ascensão de 3er%clio ao poder <A>F=, pouco mais de dois s)culos se passaram. /urante este per0odo, caracteri1ou-se o Imp)rio 4omano do Oriente como o #iel deposit%rio e de#ensor da cultura e ci ili1a+ão greco-romana, K qual se integrara, desde Constantino, o cristianismo. Empenharam-se, por todos os modos, seus dirigentes, por este moti o, e de modo especial Sustiniano, em preser ar esses alores. Em erdade, contudo, B% esta a ali a #ormar-se uma no a ci ili1a+ãoC a bi1antina. Con indo assinalar, então, o #ato de, con ictos de serem os continuadores do antigo Imp)rio 4omano uni#icado e cristão, incapa1es, por)m, por %rias circunstJncias, de en"ergar as trans#orma+5es que, ao seu redor, esta am a ocorrer, continuaram os que o habita am a denominar-se romanos e a assim considerar-se, sem poderem a aliar que as caracter0sticas no as que assumiam não mais poderiam, em erdade, Busti#icar a continuidade no uso da e"pressão. Esta ) a Antiguidade Tardia, )poca com identidade própria e de importJncia decisi a para a e"ata compreensão dos tempos medie ais e da história do Ocidente. ,or O;I7EI4A, $. A Antiguidade Tardia. (ão ,auloC >??F <p.AD-AT=

Uma Nova Antropologia ,assar das elites do per0odo antonino do s)culo II e do come+o do s)culo III d.c. ao mundo do Buda0smo tardio a partir do s)culo II a.c. equi ale a dei"ar para tr%s uma moral tranqRilamente arraigada no sentimento da distJncia social e penetrar no mundo de uma na+ão a#lita. S% não são as #ronteiras que separam uma elite incontestada e coerente de seus in#eriores tradicionais situados no nLcleo da ansiedade moral, mas a sobre ida da totalidade de um grupo muito

distinto. /A (O;I/A4IE/A/E... A perpetua+ão das tradi+5es de Israel, a lealdade constante dos Budeus para com essas tradi+5es e entre si constituem a questão central, comum a personalidades Budias tão ariadas como os disc0pulos de Sesus de Na1ar), são ,aulo e os s%bios rabinos ulteriores, sem #alar das e"peri8ncias comunit%rias dos ess8nios e de Humran. 4aramente se encontra na história do mundo antigo um sentimento tão e"pl0cito da necessidade de mobili1ar todo o eu a ser i+o de uma lei religiosa e da necessidade concomitante de mobili1ar plenamente um sentimento de solidariedade entre os membros de uma comunidade amea+ada. Mas agora os Bustos #oram reunidos, e os pro#etas adormeceram, e nós tamb)m dei"amos a terra, e o (ião nos #oi arrancado, e dora ante nada mais temos, e"ceto o Todo-,oderoso e sua lei. Mais raramente ainda encontra-se na literatura antiga a e"pressão clara e persistente do lado sombrio da preocupa+ão de lealdade e de solidariedade, o medo permanente de que os participantes não consigam se dedicar totalmente a uma empreitada tão e"igente. ,ois somente por essa lealdade se poderia in erter a in#elicidade de IsraelC (e, pois, go ernarmos e ordenarmos nossos cora+5es, receberemos tudo que perdemos, O 2cora+ão2, no qual repousa tão grande esperan+a torna-se o obBeto de e"ames melancólicos e minuciosos, Como engenheiros que, diante da massa incerta de um edi#0cio, concentram-se nas menores #endas, obser am com aten+ão as estruturas cristalinas ainda não e"aminadas dos metais que a (ustentam, assim os escritores Budeus antigos perscrutam com constante aten+ão o cora+ão humano. Ainda como engenheiros, atentos ao desgaste e aos ,ontos de ruptura de seus metais, esses autores notam com

inquieta+ão e minuciosa precisão as 21onas de intimidade negati a2, as perigosas opacidades do cora+ão que amea+am suplantar as e"ig8ncias de /eus e dos correligion%rios Budeus <ou cristãos= com rela+ão K coer8ncia interna do eu. ...Z INTIMI/A/E O que emerge desses s)culos de insistente interesse na solidariedade de um grupo amea+ado ) um sentimento iolentamente negati o da intimidade. O que h% de mais pri ado no indi 0duo, os sentimentos e moti a+5es mais recOnditos, os moti os da a+ão que permanecem impenetr% eis para o grupo, os 2pensamentos do cora+ão2 são e"aminados com uma aten+ão particular como #onte poss0 el de tens5es que só podem pro ocar #endas na solidariedade ideal da comunidade religiosa. [ um modelo di#erente da pessoa humana. O ponto de partida ) o 2cora+ão2, apresentado como um nLcleo de moti a+5es, re#le"5es e obBeti os imagin%riosP idealmente de e ser simples e un0 oco, quer di1er, transparente Ks e"ig8ncias de /eus e do pró"imo. O cora+ão, como #acilmente se percebe, o mais das e1es ) duploC as pessoas de cora+ão duplo se apartam de /eus e do pró"imo retirando-se para essas 1onas per#0dias da intimidade negati a que as subtraem a suas e"ig8ncias, /a0 as caracter0sticas agudas das rela+5es do Budeu - e, mais tarde, do cristão -, com o mundo sobrenatural, ,rotegido do olhar dos homens pela &intimidade negati a2, o cora+ão parece ser completamente pLblico ao olhar de /eus e seus anBosC Huando algu)m comete uma transgressão em segredo, ) como se recha+asse a ,resen+a di ina. /urante o s)culo I d.e, esse modelo #oi escorado, com di ersos graus de urg8ncia e rigide1, pela #irme cren+a de que atra )s da a+ão de /eus um estado social atualmente go ernado pelas opacidades destruti as da 2duplicidade de cora+ão2 cederia lugar entre os aut8nticos herdeiros de Israel a um tempo de transpar8ncia

absoluta com rela+ão aos outros e a /eus. Em tal comunidade, erdadeira e resgatada, as tens5es do 2cora+ão mal ado2 #oram eliminadas. 4e#or+ada por uma cren+a i a no #im dos tempos e no Su01o :inal, essa grande esperan+a a#irma que um estado de solidariedade completa e de transpar8ncia aos outros ) o estado predestinado e natural do homem social, um estado in#eli1mente perdido ao longo da história, mas que ser% reconquistado no #im dos tempos. Numerosos grupos acreditam que as condi+5es ideais que serão de#initi amente adquiridas no #im dos tempos B% se anunciam numa comunidade religiosa atual. *m grupo como a primeira comunidade cristã cr8 na presen+a do Esp0rito (anto entre os aut8nticos herdeiros de Israel. (eus adeptos podem esperar e"perimentar - ainda que sob a #orma con#usa e #uga1 da posse - esses momentos solenes em que &as coisas ocultas do cora+ão2 são re eladas, assim como a comunhão dos 2santos2 se mant)m inteira, cora+5es des endados, na presen+a de /eus. Essa ) a isão de uma solidariedade sem #alha <e, por conseguinte, da permeabilidade total da pessoa pri ada Ks e"ig8ncias da comunidade religiosa= que obceca o mundo antigo em seus Lltimos s)culos. *MA COM*NI/A/E COM ,4O-;EMA( Huando mencionamos a ascensão do cristianismo nas cidades mediterrJneas, #alamos de uma #ra+ão do Buda0smo das seitas cuBas estruturas são e"cepcionalmente h%beis e inst% eis. A missão de são ,aulo <de D@ a AF apro"imadamente= e dos outros &apóstolos2 consiste em 2reunir2 os gentios num no o Israel colocado K sua disposi+ão no #im dos tempos pelo messianismo de Sesus. Na pr%tica esse no o Israel comp5e-se primeiro de pagãos atra0dos, segundo ari% eis graus de en ol imento, para as comunidades Budias in#luentes das cidades da \sia Menor e do mar Egeu e pela asta comunidade Budia de 4oma. O no o Israel se 8 como uma 2reunião2P Sesus enquanto Messias 2lan+ou por terra2 os 2muros de separa+ão]]. ,aulo enumera em suas cartas a lista tradicional dos grupos antagonistas - Budeus e gentios, escra os e homens li res, gregos e b%rbaros, homens e mulheres - para declarar que todas as cate-

gorias #oram apagadas no interior da no a comunidade. A inicia+ão ao grupo, um simples banho puri#icador, consiste, segundo ,aulo, em despoBar-se das 2 estes2 de todas as categorias religiosas e sociais anteriores e 2re estir-se2 de CristoP com isso ,aulo entende a aquisi+ão de uma identidade Lnica e não estanque, comum a todos os membros da comunidade, como con )m aos] ]#ilhos de /eus2 rec)m-adotados 2em Cristo2. [ a miragem poderosa de uma comunidade unida numa no a solidariedade obtida gra+as K miraculosa elimina+ão de todas as #ormas precedentes de di#erencia+ão. Mas acilam no hori1onte grupos de mulheres e homens cuBa presente situa+ão na sociedade romana #a1 da obten+ão de tal solidariedade uma esperan+a inacess0 el e que, por isso, a t8m mais dramaticamente incrustada no centro de suas preocupa+5es morais. Aos primeiros cristãos con ertidos #alta a situa+ão social que teria iabili1ado o poderoso ideal de ,auloC uma solidariedade indi#erenciada 2em Cristo2. Os protetores e os disc0pulos de ,aulo e de seus sucessores não são almas simples, nem humildes e oprimidos, como deseBa a romJntica imagina+ão moderna. (e o #ossem, o ideal de ,aulo teria se reali1ado mais #acilmente. (ão, antes, pessoas medianamente ricas e que em geral iaBaram muitoP por isso acham-se e"postas a um leque de contatos sociais e de ocasi5es de escolha e, da0, ao con#lito potencial da 2duplicidade de cora+ão2 em dom0nios muito mais numerosos que os pobres rurais do 2mo imento Sesus2 da ,alestina, por e"emplo, ou os membros da colOnia Budia sedent%ria e #echada de Humran. 2(eguir Sesus2, indo de aldeia em aldeia na ,alestina e na (0ria, ou 2escolher a ;ei2, abandonando 2a ontade do próprio esp0rito2, num grupo mon%stico instalado nos con#ins do deserto da Sud)ia, e"p5e os crentes a escolhas e identemente mais restritas que as daqueles que a#rontam os homens e as mulheres das &assembl)ias de santos2 nas grandes cidades prósperas, como Corinto, [#eso e 4oma. Ao longo da história das IgreBas cristãs dos dois primeiros s)culos, descobrimos um eio muito rico de material humano, sensi elmente di erso dos 2bem-nascidos2 das cidades como dos alde5es dos E angelhos.

3E4MA( -asta obser ar a comunidade cristã de 4oma por olta do ano >@F tal como a re elam as is5es reunidas no ,astor de 3ermas para compreender o que isso signi#ica. Esse grupo religioso cont)m todos os elementos que o estudioso de religi5es antigas percebe que são contr%rios a uma comunidade] ]pauliniana2 urbanaP e tal #oi o caso. 3ermas ) um pro#eta obcecado pelo deseBo de preser ar a solidariedade do 2cora+ão simples2 entre os crentes. Com pungente ardor deseBa que em sua comunidade reine uma inoc8ncia ]]in#antil2, li re de astLcia, de ambi+ão e da ansiedade própria dos 2cora+5es di ididos2. Entretanto os receios de 3ermas re elam um grupo cuBos pecados são proporcionais a seu sucesso na sociedade. Em 4oma a IgreBa ) mantida por ricos protetores cuBos contatos com a comunidade pagã em seu conBunto lhe aleram prote+ão e prest0gio. Con#orme se podia pre er, o cora+ão dos cristãos in#luentes est% di idido entre as e"ig8ncias de solidariedade e intercJmbios sinceros entre cristãos e a preocupa+ão com a condu+ão de seus negócios, e, pois, de seus contatos com os amigos pagãos. A opul8ncia de sua casa e o #uturo de seus #ilhos os preocupam. Embora seBam uma perp)tua #onte de ansiedade e da tensão inerente aos 2cora+5es di ididos2, 3ermas não du ida de que tais homens desempenham um papel crucial numa comunidade cristã prósperaC são a madeira seca e sólida ao redor da qual se enrosca a inha lu"uriante de uma comunidade religiosa próspera e bem articulada. 2,aciente, pouco dado K indigna+ão, sempre sorridente2, 3ermas, o pro#eta, não ), contudo, um 2cora+ão simples2. Escra o próspero e corrompido de uma resid8ncia citadina, e"perimentou uma atra+ão se"ual por sua senhora que, apesar de boa cristã, sempre espera a que ele a aBudasse a sair nua de seu banho no Tibre. 3ermas testemunhou de asta+5es pro ocadas pelas ardilosas rela+5es dos &cora+5es di ididos2 entre os ricos protetores cristãos, os padres e os pro#etas ri ais. No entanto redige boa parte de sua mensagem num cen%rio de id0lio arc%dicoP e, embora despre1ando o cont%gio

da rique1a no 2cora+ão di idido2, recebe suas is5es numa pequena e bem cuidada propriedade it0cola que possui nos arredores de 4oma. Como bem o disse Ortega 6 Masset, 2as irtudes que não possu0mos são as que mais contam para nós'. Mrande parte da história das primeiras igreBas cristãs ) a história da urgente procura de um equil0brio entre pessoas cuBo ideal - a lealdade do 2cora+ão simples2 com rela+ão aos outros e a Cristo - ) constantemente atacado pela comple"idade obBeti a de sua inser+ão na sociedade mediterrJnea. 7eBamos rapidamente o que a busca de solidariedade signi#ica nas comunidades cristãs citadinas anteriores ao ano DFF, dispensando especial aten+ão K maneira como a moral se"ual cristã suporta a carga de representar, no Jmbito da IgreBa e diante do mundo e"terior, um no o ideal de solidariedade numa no a #orma de comunidade religiosa. IN7EN^_O /A /I(CI,;INA Na prima era do ano EG pro a elmente, ,aulo escre ia K comunidade de Corinto que &/eus não ) gerador de con#usão, mas de pa1P como em todas as IgreBas dos santos `...a2. Como acontece com #reqR8ncia, ,aulo escre e para impor sua interpreta+ão de uma situa+ão e"tremamente comple"aP nesse caso, para sublinhar a necessidade de pregar as Escrituras em l0nguas intelig0 eis para todos. Con#orme imos, as IgreBas cristãs nas cidades dependem de che#es de #am0lia respeit% eis e prósperos. Membros de sua #am0lia podem acolher #a ora elmente certos rituais da solidariedade indi#erenciada. No entanto, a menos que seBa permanentemente i ida no meio dos desgarrados e dos marginais, o que não ) o caso nas comunidades cristãs urbanas dos tr8s primeiros s)culos, a ida num ambiente urbano não pode se basear em momentos tão #ortes. (e a 2simplicidade do cora+ão2 de e sobre i er nas IgreBas cristãs e sobre i er, num mundo pagão descon#iado, na cena da ida cotidiana #eita de con#rontos permanentes, somente sobre i er% na #i"a+ão de uma ida de grupo conscientemente estruturada segundo normas muito condescendentes.

/a0 o parado"o da ascensão do cristianismo como #or+a moral num mundo pagão. Essa ascensão altera pro#undamente a te"tura moral do mundo romano tardio. Contudo os dirigentes cristãos pouco ino am em mat)ria de moral. O que #a1em ) muito mais crucial. Criam um no o grupo cuBa e"cepcional insist8ncia na solidariedade #ace a suas tens5es internas garante que seus membros pratiquem o que os moralistas pagãos e Budeus B% come+aram a pregar. Essa ]]simplicidade do cora+ão2, K qual 3ermas aspira a na comunidade próspera de 4oma, ser% alcan+ada menos atra )s das obras indi#erenciadas do Esp0rito que pela disciplina 0ntima de um grupo estreitamente coeso, cuBas atitudes morais de base não di#erem daquelas de seus i1inhos pagãos e Budeus senão pela insist8ncia com que são adotadas e postas em pr%tica. /esde B%, por)m, ) importante notar a di#eren+a crucial entre a moral geral, que os grupos cristãos #i1eram sua, e os códigos de comportamento igentes entre as elites c0 icas. Muito do que se rei indica como deliberadamente 2cristão2 na moral das primeiras IgreBas ), na erdade, a moral distinti a de uma #ra+ão da sociedade romana di#erente daquelas que conhecemos atra )s da literatura dos 2bem-nascidos2. [ a moral do homem socialmente ulner% el. Nas casas modestas, agir com autoridade não constitui um modo de controlar os escra os e as mulheres. /a0 serem maiores as preocupa+5es relati as K ordem 0ntima, Ks reser as 0ntimas de comportamento, K #idelidade entre esposos e K obedi8ncia dentro da casa, obtidas 2na simplicidade do cora+ão temente a /eus] ]. A obedi8ncia por parte dos dom)sticos, as boas rela+5es entre parceiros e a #idelidade dos esposos contam muito mais para homens suscet0 eis de serem mortalmente #eridos pela in#idelidade se"ual, pelas trapa+as e pela insubordina+ão do pequeno nLmero de seus escra os, do que para os homens erdadeiramente ricos e poderosos. :ora da #am0lia desen ol e-se um sentimento de solidariedade com um nLmero maior de concidadãosP contrasta #ortemente com a atitude dos no-

t% eis c0 icos que durante algum tempo continuam a er o mundo atra )s das estreitas Banelas de sua de#ini+ão 2c0 ica2 tradicional da comunidade urbana. *m sentimento de solidariedade constitui o complemento natural de uma moral do homem socialmente ulner% el. ,or conseguinte nada h% de estranho e ainda menos de especi#icamente cristão na inscri+ão gra ada no tLmulo - sem dL ida pagão - de um imigrante grego, mercador de p)rolas, na 7ia (acra de 4omaC 2`Aquia Ba1em encerrados os ossos de um homem bom, um homem de misericórdia, um apai"onado pelo pobre2. A MO4A; /O( 7*;NE4\7EI( ,or isso a di erg8ncia das atitudes de doa+ão e partilha com outrem entre as classes superiores e os cidadãos m)dios o#erece um contraste singularmente gritante. Os cidadãos not% eis 2alimentam2 sua cidadeC espera-se deles que gastem largas somas para manter o sentimento de cont0nua alegria e prest0gio dos cidadãos normais. (e tais generosidades por acaso ali iam alguma a#li+ão dos pobres da cidade, o #ato ) isto como um e#eito secund%rio puramente acidental do al0 io do qual se bene#icia o corpo c0 ico no conBunto, os ricos como os pobres, pelo #ato de serem cidadãos. Mrande nLmero dos habitantes da cidade - e mais comum ente os erdadeiros pobres, como os escra os e os imigrantes - não se bene#iciam com tais largue1as. E sobretudo elas são dadas K 2cidade2 e a seus] ]cidadãos2 para enaltecer a condi+ão do corpo c0 ico no conBunto mais do que para ali iar um estado particular de a#li+ão humana numa categoria especial de 2pobres2. Tais doa+5es indi iduais podem ser comparadas a magn0#icos #ogos de arti#0cioC celebram as grandes ocasi5es, o poder e a generosidade dos protetores, o esplendor da cidade. A id)ia de um #lu"o regular de doa+5es, sob a #orma de esmolas, para a categoria permanente dos a#litos, os pobres, ultrapassa o hori1onte desses homens. O modo de er das pessoas socialmente ulner% eis ) mais realista. Cotidianamente elas percebem que e"iste uma rela+ão entre o 2sup)r#luo2 de que des#ruta a gente modesta e a 2#alta de meios2 dos seus i1inhos mais pobres. Melhor ainda, tal desequil0brio pode

ser eliminado, ou pelo menos atenuado, com a redistribui+ão de pequeninas somas, ao alcance de qualquer modesta #am0lia citadina ou de um próspero culti ador entre os pobres rurais. Como muito antes ha iam obser ado as comunidades Budaicas, as comunidades cristãs sabem que para os humildes a manuten+ão de uma margem de independ8ncia #inanceira num mundo hostil ) poss0 el gra+as a modestas medidas de aBuda mLtua. O#erecendo esmolas e uma oportunidade de emprego aos membros mais despro idos de sua comunidade, Budeus e cristãos podem proteger seus correligion%rios do empobrecimento e, portanto, de uma ulnerabilidade total #ace aos empregados ou aos credores pagãos. Nesse conte"to bem de#inido compreendemos melhor como a pr%tica da esmola aos pobres logo se torna um sinal e idente da solidariedade dos grupos amea+ados de crentes. A substitui+ão #inal de um modelo de sociedade urbana, que ressalta a o de er de os 2bem-nascidos2 2alimentarem2 sua cidade, atra )s de um modelo baseado na no+ão de solidariedade impl0cita dos ricos com rela+ão aos pobres na desgra+a permanece como um dos mais claros e"emplos da trans#orma+ão de um mundo cl%ssico num mundo pós-cl%ssico cristiani1ado. Essa trans#orma+ão iniciou-se no s)culo II entre as comunidades cristãs. /e resto, independentemente das IgreBas cristãs, podemos detectar a lenta emersão, paralela aos códigos ]]c0 icos2 dos not% eis, de uma moral de #aro di#erente, baseada num mundo di erso de e"peri8ncia social. S% no come+o do s)culo III, muito antes do estabelecimento da IgreBa cristã, aspectos da lei romana e da ida de #am0lia são a#etados por uma sutil mudan+a das sensibilidades morais da maioria silenciosa dos pro incianos do Imp)rio. *ma ida conBugal respeit% el torna-se uma norma que inclui at) as #am0lias de escra os. Os imperadores posam como guardiães da moral priada. At) o suic0dio, essa orgulhosa asser+ão do direito do 2bem-nascido2 de dispor da própria ida, se necess%rio, ) a iltado como um 2distLrbio2 contra a nature1a. NO7A MO4A; (EN*A;

Entretanto ) a IgreBa cristã que se apossa dessa no a moral e a submete a um sutil processo de mudan+a, tornando-a ao mesmo tempo mais uni ersal em sua aplica+ão e muito mais bntima em seus e#eitos sobre a ida pri ada. Os cristãos adotam uma ariante melancólica de moral popular para #acilitar a busca obstinada de no os princ0pios de solidariedade que isam a incutir ainda mais pro#undamente no indi 0duo o sentimento do olhar de /eus, o medo do Bulgamento di ino e um #orte sentimento de compromisso na coesão da comunidade religiosa. -asta oltar-nos para as #am0lias cristãs e e"aminar as estruturas do casamento e da disciplina se"ual que surgem ao longo dos s)culos II e III para a aliar a e"tensão das mudan+as nos ideais morais ocorridas nas IgreBas. Obser ador das comunidades cristãs do #im do s)culo II, o m)dico Maleno se surpreende com sua austeridade se"ualC 2(eu despre1o pela morte a cada dia nos ) e idente, assim como sua modera+ão em mat)ria de coabita+ão. ,ois elas se constituem não só de homens como tamb)m de mulheres que durante toda a ida se abst8m de coabitarP contam-se entre eles igualmente indi 0duos que, pela autodisciplina e pelo autocontrole, ele am-se K altura de aut8nticos #ilóso#os'. Ao que parece os cristãos praticam uma moral se"ual austera, #acilmente reconhec0 el e bem aceita pelos pagãosC renLncia se"ual completa para alguns, 8n#ase na harmonia conBugal <que B% come+ou a impregnar a conduta pLblica das elites, embora por moti os muito di ersos=, se era desapro a+ão de um segundo casamento. [ um lado das coisas que constantemente se o#erece aos pagãos. :ronteiras rituais precisas, como as que a circuncisão e as regras diet)ticas #ornecem ao Buda0smo, não e"istem entre os cristãosP estes procuram #a1er com que sua e"cepcional disciplina se"ual atinBa seu obBeti oC e"primir a di#eren+a que os separa do mundo pagão. A mensagem dos apologistas cristãos ) semelhante Kquela dos #uturos admiradores do celibato clerical, como Niet1sche o

descre iaP in ocam &a cren+a segundo a qual uma pessoa que constitui uma e"ce+ão nesse ponto igualmente constituir% uma e"ce+ão em outros aspectos'. ,or essa ra1ão ) importante ser claro a propósito das no as estruturas internas que suportam o que pareceria apenas uma moral austera, admirada pelo homem m)dio. Os #atos ordin%rios da disciplina se"ual são sustentados por uma estrutura mais pro#unda de preocupa+5es especi#icamente cristãs. /esde são ,aulo espera-se dos parceiros casados que constituam um an%logo em microcosmo da solidariedade &simples de cora+ão2 do grupo. Mesmo se Ks e1es são perigosamente perturbadas pelas obras do Esp0rito (anto nas 2assembl)ias dos santos2 indi#erenciadas, as rela+5es entre marido e mulher e entre senhor e escra o rea#irmam-se de modo inequ0 oco na #am0lia cristãP pois tais rela+5es in estem-se do sentimento de que semelhantes #idelidade e obedi8ncia mani#estam de #orma singularmente transparente o ideal muito apreciado de uma 2simplicidade de cora+ão2 que de Beito nenhum ) #ingida. ,4IMEI4A 4Ac_O /A CA(TI/A/E Com o entusiasmo moral caracter0stico de um grupo que atiamente procura oportunidades para testar sua ontade de coesão, as comunidades cristãs urbanas abandonam os modos nos quais os homens Budeus e pagãos se #ia am para disciplinar e satis#a1er suas mulheres. 4eBeitam o di órcio e desapro am um segundo casamento de iL as. As ra15es que in ocam, #reqRentemente emprestadas das m%"imas dos #ilóso#os, satis#ariam ,lutarcoC uma moral conBugal e"cepcional, praticada dora ante por homens e mulheres modestos, testemunha uma ontade de ordem e"cepcionalC 2*m homem que se di orcia de sua esposa admite que não ) capa1 nem de go ernar uma mulher'. As comunidades cristãs poderiam ter se contentado com isso. A moral conBugal podia ser apresentada como uma mani#esta+ão particularmente re eladora da ontade do grupo de alcan+ar a 2simplicidade do cora+ão2, sendo o adult)rio e as intrigas se"uais

entre parceiros casados sintomas por e"cel8ncia da 21ona de intimidade negati a2 ligada K 2duplicidade do cora+ão] ]. (em o espa+o de tolerJncia que a cidade antiga proporciona a aos homens das classes superiores, autori1ados a procurar um e"utório para suas puls5es adolescentes numa pr%tica relati amente li re da se"ualidade, os Bo ens pLberes se casariam o mais cedo poss0 el a #im de controlar, gra+as a uma ida conBugal l0cita, as tens5es e"plosi as da atra+ão se"ual. As mulheres e - con#orme as circunstJncias tamb)m se deseBa isso - os homens seriam disciplinados por um casamento precoce e pelo sentimento de que o olhar penetrante de /eus de assa os recantos da alco a. E itando um segundo casamento, a comunidade poderia garantir-se uma reser a permanente de ener% eis iL os e iL as dispon0 eis e suscet0 eis de dedicar suas energias e tempo ao ser i+o da IgreBa. Menos e"postos que os not% eis Ks tens5es ligadas ao e"erc0cio do erdadeiro poder - corrup+ão, perBLrio, hipocrisia, iol8ncia e #uror -, esses tranqRilos cidadãos de 2condi+ão mediana2 poderiam testemunhar sua preocupa+ão com ordem e coesão na es#era mais dom)stica da autodisciplina se"ual. Ademais, a perturbadora #acilidade com que os se"os se misturam nas assembl)ias dos cristãos constitui uma #onte de sincera repugnJncia para os pagãos respeit% eis. Esses estranhos e itam #alar aos cristãos por essa ra1ão, e um cristão contemporJneo de Maleno solicita ao go ernador de Ale"andria permissão para se castrarC somente esse meio lhe permitir%, assim como a seus correligion%rios, li rar-se da acusa+ão de promiscuidaded Num n0 el mais modesto, a di#iculdade de arranBar os #uturos casamentos dos Boens e sobretudo das mo+as cristãs numa comunidade preocupada em e itar os casamentos mistos com pagãos #a1ia com que as medidas de controle se"ual #ossem postas em pr%tica com maior intensidade que em comunidades mais bem assentadas e que moral resultante #osse mais bem compreendida pelos estranhos e mais rigorosamente aplicada pelos crentes. Tais press5es e"plicam em grande parte a tonalidade moral da

comunidade cristã m)dia da Antiguidade tardia. O que elas não podem e"plicar ) a re olu+ão suplementar pela qual a renLncia se"ual - tanto a irgindade desde o nascimento como a castidade adotada após o casamento pelos cOnBuges ou pelos iL os torna-se o #undamento da domina+ão masculina na IgreBa cristã. Nesse ponto a cristandade escolheu il gran ri#iuto. ,recisamente ao longo dos s)culos em que o rabinato adquire sua preemin8ncia no Buda0smo aceitando o casamento como crit)rio quase obrigatório de sabedoria, os dirigentes das comunidades cristãs se orientam num sentido diametralmente opostoC o acesso aos cargos de dire+ão nessas comunidades identi#ica-se com o celibato quase obrigatório. [ raro que uma estrutura de poder se eriBa com tal rapide1 e acuidade sobre um ato tão 0ntimo como a renLncia se"ual. O que Maleno ha ia percebido no #im do s)culo II ) o que distinguir% a IgreBa cristã do Buda0smo e do islã ao longo de todos os s)culos indouros. Comecemos por descartar uma e"plica+ão muito di#undida desse estado de coisas. /i1-se que B% se di ulgara amplamente pelo mundo pagão uma #orte a ersão ao corpo humano. A partir disso sup5e-se que, quando a IgreBa cristã se a#astou de suas ra01es Budaicas, nas quais pre aleciam atitudes otimistas com rela+ão K se"ualidade e ao casamento considerados como partes da cria+ão di ina, boa no conBunto, os cristãos adotaram os sombrios princ0pios de seu ambiente pagão. Tal isão não se sustenta. O #%cil contraste entre o pessimismo pagão e o otimismo Budaico negligencia a importJncia da renLncia se"ual como meio de chegar K 2simplicidade do cora+ão2 no Buda0smo radical do qual surgiu a cristandade. Ademais, as origens poss0 eis de tal tend8ncia podem ser e"tremamente di ersas, mas, em si, não e"plicam sua #un+ão, quer di1er, a constela+ão distinti a de id)ias que a renLncia se"ual cristali1ar% como um sinal de domina+ão especi#icamente masculina nas comunidades cristãs dos s)culos II e III. Em e1 de nos perguntar por que o corpo humano #oi considerado com tal inquieta+ão no decorrer da Antiguidade tardia, #a+amos a

pergunta in ersaC por que o corpo #oi escolhido e apresentado como o lugar recOndito de moti a+5es especi#icamente se"uais e como centro de estruturas sociais que são apresentadas em termos se"uais, quer di1er, como sendo #ormado sobretudo de uma energia #atal e especi#icamente se"ual, orientada para o casamento e a gesta+ão9 A partir da0 podemos nos perguntar por que se admitiu que essa constela+ão particular de percep+5es do corpo pesasse tanto sobre os primeiros c0rculos cristãos. [ a intensidade e a particularidade da 2carga2 de signi#icado que contam, e não o #ato indubit% el de que esse signi#icado #reqRentemente se e"primia em termos tão negati os que despertam a aten+ão do leitor moderno, chocado, como imaginamos, com tal linguagem. [ a0 que se torna mais e idente a linha di isória entre cristandade e Buda0smo. Tal como os rabinos pre#erem apresent%-la, a se"ualidade constitui um complemento permanente da personalidade. (e bem que a priori impulsi a, ela ) suscet0 el de modera+ão, assim como as mulheres são ao mesmo tempo honradas como necess%rias K e"ist8ncia de Israel e #irmemente impedidas de inter#erir nos assuntos s)rios da sabedoria masculina. E um modelo baseado no controle e no isolamento de um aspecto irritante por)m necess%rio da e"ist8ncia. Entre os cristãos ocorre e"atamente o contr%rioC a se"ualidade torna-se um ponto de re#er8ncia de #orte carga simbólica precisamente porque se Bulga poss0 el seu desaparecimento no indi 0duo comprometido e porque tal desaparecimento de e pro ar, de modo mais signi#icati o que qualquer outra trans#orma+ão humana, as qualidades necess%rias K dire+ão de uma comunidade religiosa. A supressão da se"ualidade ou, mais humildemente, a retirada da se"ualidade signi#ica um estado de disponibilidade decidida com rela+ão a /eus e ao outro, ligado ao ideal da pessoa de 2cora+ão simples2. por -4O$N, ,. 2Antiguidade Tardia2 in A4IE(, ,. V /*-e, M. <orgs.= 3istória da 7ida ,ri ada. ol. > (ão ,auloC Companhia das ;etras, >?T?.

Comentário de Mayte Vieira Neste texto, eter !ro"n, destaca as peculiaridades do cristianismo #ue possi$ilitaram sua so$re%i%ência ao &mpério 'omano tornando a permanência da &gre(a Cristã uma das caracter)sticas mais %is)%eis da *ntiguidade +ardia, -sta preser%a.ão de%eu/se a sua forma de condu0ir os cristãos #ue fa0iam parte da sua comunidade, num primeiro momento por sua $usca de e#uil)$rio atra%és da nega.ão do indi%)duo em fa%or da comunidade, da solidariedade com os mais necessitados, da modifica.ão da estrutura do casamento, as restri.1es ao di%2rcio, ao segundo casamento, a sexualidade e, principalmente, a domina.ão no imaginário dos crentes pelo preceito #ue Deus tudo %ê e tudo sa$e, portanto cometer um pecado em segredo é desrespeitar Deus, *ssim não 3á mais pri%ado, tudo é comunitário, o #ue a comunidade cristã não %ê, ele está %endo, -sta ideologia tem como fim a unidade e a disciplina destes cristãos #ue, por fim, temem a Deus acima de tudo e de todos,

O Declínio da Civilizaç o Antiga O /E(EN7O;7IMENTO histórico não conhece interrup+5es. Após a )poca de /iocleciano e Constantino, o Imp)rio 4omano continuou e"istindo por muitos s)culos, di idido, por)m, em duas partesC o Imp)rio Ocidental, tendo 4oma como capital, 4oma dos romanosP e o Imp)rio Oriental, comumente chamado 2-i1antino2, porque sua capital, Constantinopla, ou 4oma dos romaio0, #Ora #undada por Constantino no local da antiga -i1Jncio. S% descre emos o sistema de go erno d8sse nO o Imp)rio 4omano. (uas caracter0sticas essenciais permaneceram, tanto no Oriente como no Ocidente, tal como /iocleciano e Constantino as ha iam moldado. A estrutura que constru0ram era, como B% imos, no a em seu todo, estranha Ks concep+5es greco-romanas do Estado e mais de acOrdo, embora não inteiramente, com as teorias pol0ticas do Oriente iraniano e semita.

Algumas lembran+as da antiga Constitui+ão #oram conser adasC a elha #órmula do (enatus populusque 4omanus era ainda usada. /ois (enados, um em cada capital, ainda se reuniam, e alguns t0tulos de magistrados, como 2cOnsul2, continuaram i os. 7eBamos quais eram as principais caracter0sticas da ida nesse nO o Estado. O Imp)rio Ocidental gradualmente se #ragmentou em suas %rias partes componentes, que eram a It%lia e as antigas pro 0ncias, as quais passaram a ser, em alguns casos, go ernadas pelos che#es de di#erentes tribos germJnicas, que ha iam tomado esta ou aquela parte do mundo romano. O #enOmeno não ) inteiramente nO o, pois ainda na )poca de /iocleciano, de Constantino e seus sucessores imediatos, os germanos se destaca am no e")rcito e na cOrte imperial. No Imp)rio Oriental o processo de dissolu+ão ) mais lento, e as elhas tradi+5es são mantidas com tenacidade. ,or outro lado, a in#lu8ncia do Oriente ) mais #orte, e o go 8rno tende a assemelhar-se, cada e1 mais, aos regimes despóticos orientais. O centro de gra idade do Imp)rio Oriental passa da pen0nsula balcJnica para a \sia Menor. Ao mesmo tempo, os pa0ses que ha iam sido os principais centros da ida ci ili1ada e da ida pol0tica entram em decad8ncia, e seu lugar ) tomado pelas regi5es da \sia e Europa que at) então desempenha am apenas papel secund%rio. Embora a pol0tica e a economia da )poca ainda possam ser denominadas de 2mediterrJneas2, aos poucos partes da \sia e Europa que não t8m liga+ão com aqu8le mar adquirem importJncia decisi a na 3istória da humanidade. (ão elas o norte da Alemanha, o norte da :ran+a, a Mrã--retanha, os pa0ses escandina os, a 4Lssia central e setentrional, na Europa. A ,)rsia dos sassJnidas e os mongóis, na \sia. Nesses distritos do norte e do sudeste surgiram gradualmente institui+5es pol0tica, sociais e econOmicas destinadas a determinar a e olu+ão #utura da ra+a humana. A 3istória dos antigos centros de ci ili1a+ão torna-se, cada e1 mais, uma história de dissolu+ão e decad8ncia. As elhas

institui+5es são substitu0das pelas condi+5es mais primiti asP nos assuntos sociais, econOmicos e intelectuais, h% uma ininterrupta re ersão K barb%rie. *m aspecto da situa+ão econOmica ) particularmente not% elC a completa modi#ica+ão dos m)todos agr0colas em todo o imp)rio. A agricultura cient0#ica, sustentada pelo capital e pela intelig8ncia, desaparece inteiramente sendo substitu0da em tOda parte por um sistema que apenas arranha a super#0cie do solo e se a#unda cada e1 mais na rotina primiti a. Embora as #a1endas possam ser grandes e seus propriet%rios perten+am K no a aristocracia imperial, a agricultura se baseia no trato do solo por pequenos culti adores, propriet%rios ou arrendat%rios. Em todo o mundo, o campon8s se mant)m pr8so K terra, perten+a ela ao imperador ou aos grandes senhores lati#undi%rios, seBa 8le o dono ou arrende apenas um lote na %rea dos territórios urbanos. A ida econOmica do Estado em conBunto, e das classes dominantes do imp)rio e das cidades, baseia-se na sua ati idade. Assim sendo, B% não se trata mais de ampliar a %rea culti ada - pelo contr%rio, ela se redu1. No Egito, temos documentos escritos que nos permitem tra+ar 8sse processo, sendo poss0 el quase pro %-lo com nLmeros. O mesmo ocorreu no resto do imp)rio. /ar bra+os J la oura torna-se a principal preocupa+ão do Estado e dos propriet%rios particulares. A quantidade de terra era ilimitada o problema esta a em encontrar agricultores que pagassem arrendamento e trabalhadores que la rassem o solo. S% não ha ia qualquer possibilidade de basear a indLstria no trabalho ser il - a escasse1 da #Or+a de trabalho ) pro a clara de que a popula+ão do imp)rio dei"ara de crescer e, pelo contr%rio, se redu1ia. O bai"o 0ndice de natalidade e a r%pida e"tin+ão das #am0lias entre os ricos, que pro ocaram ansiedade nos primeiros dias do imp)rio, e identemente se proQ paga am Ks outras camadas da popula+ão, tomando-se uma caracter0stica not% el da ida di%ria das classes trabalhadoras em geral. 4elati amente menos importante era a tend8ncia, e idenciada pelo trabalhador agr0cola, de procurar outra ocupa+ão, pois isso representa a apenas uma redistribui+ão da po-

pula+ão. A migra+ão da #Or+a de trabalho para as cidades #oi interrompida pelo dec>0nio do com)rcio e indLstria, e ) impro % el que tenha ha ido em qualquer )poca um 8"odo consider% el do trabalho para lugares #ora do imp)rio. As classes trabalhadoras desapareciam com a mesma rapide1 de seus superiores sociais, e seu lugar era preenchido tamb)m por rec)m-chegados e estrangeiros - b%rbaros de al)m-4ena e do /anLbio, germanos e iranianos, mais tarde re#or+ados pelos esla os. fsse nO o elemento era #orte demais para que a popula+ão e"istente o incorporasse e assimilasse. Os estrangeiros adota am as l0nguas romanicas, mas não iam al)m disso. Iniciando-se nas #ronteiras, a inunda+ão da #Or+a de trabalho estrangeira cobriu as partes centrais do imp)rio, acentuando ainda mais a queda da t)cnica agr0cola e portanto da produti idade ela terra. /e ido K menor %rea de culti o e redu1ida produti idade do solo, a classe agr0cola tornou-se ainda menos capa1 de pagar impostos, e sua capacidade aquisiti a decaiu acentuadamente. Cada #a1enda pretendia produ1ir tudo o que lhe era necess%rio, sem ter de recorrer aos outros. A moeda tornou-se menos importante na ida do pequeno propriet%rio, ou do grande senhor, ou da própria #a1enda. (e não no com)rcio, pelo menos nas transa+5es entre propriet%rio e agricultor, ou entre 8stes e o Estado, os pagamentos eram #eitos quase in aria elmente in natura, pela trans#er8ncia de alguns produtos. A situa+ão do com)rcio e da indLstria era igualmente desastrosa. A ati idade industrial, que prosperara muito em %rias regi5es do imp)rio, trabalhando para um mercado local mais ou menos amplo, diminuiu sua produ+ão, en#raqueceu e acabou morrendo, e com ela desapareceu tamb)m o intercJmbio dentro do imp)rio. Os Lnicos ramos da indLstria que continua am em plena ati idade eram os itais para o Estado. S% imos, por)m, que 8sse g8nero de ati idade #Ora gradati amente subtra0do K iniciati a pri ada e assumido pelo Estado. Não sabemos claramente at) que ponto 8ste reali1a a as endas dos artigos produ1idos em suas #%bricas, mas não ) pro % el

que pretendesse um monopólio geral do com)rcio e indLstria. A troca de mercadorias certamente continua a, entre as di#erentes partes do imp)rio e tamb)m entre o imp)rio e seus i1inhos. Embora o Estado reali1asse em grande escala o transporte do que era necess%rio K cOrte, e")rcito, #uncion%rios e K popula+ão das capitais, o com)rcio, com essa e"ce+ão, se ocupa a principalmente de artigos de lu"o importados dos pa0ses do ;este, e naturalmente passou Ks mãos dos mercadores orientais - s0rios, le antinos e Budeus. (eus melhores clientes eram os representantes da nobre1a rica, especialmente na cOrte, cuBo aspecto e"terno se orientali1a a acentuadamente. O esplendor oriental, com sua orgia de cOres, sua decora+ão carregada, sua tend8ncia ao tamanho e p8so e"cessi os nos adornos pessoais, tinha grande atra+ão para os germanos e iranianos que então ocupa am altas camadas da sociedade. O olume apenas, com e"clusão de qualquer re#inamento, tornou-se a moda na corte e entre a aristocracia. A prosperidade das cidades #oi minada por essas condi+5es econOmicas. As grandes cidades, e particularmente as capitais, resistiram mais tempo. Ainda no s)culo I7 edi#0cios espl8ndidos eram constru0dos em 4oma, mas no s)culo seguinte tem in0cio um processo gradual de decad8ncia. A no a capital, -i1JncioConstantinopla, trans#ormou-se numa cidade mundial, de lu"o abundante, adornada de uma arquitetura mara ilhosa e imponente, principalmente nos pal%cios e igreBas. As grandes cidades mar0timas - Ale"andria, Antioquia, #C#eso, Cartago - ainda sobre i iam, e podemos colocar ao lado delas as cidades onde os co-participantes do poder real mantinham suas cortes - 4a ena, Mediolano <Milão=, Tre es, Nicom)dia, Nic)ia. Nota-se, por)m, que o aparecimento de no as cidades nas pro 0ncias, comum ainda durante o reinado de Adriano, cessou. Ao mesmo tempo, na maioria das cidades pro inciais de tamanho moderado o pulso da ida come+ou a bater mais de agar. As igreBas cristãs e os mosteiros eram os Lnicos edi#0cios no os, e os antigos conser a am-se com di#iculdade. O mato come+ou a crescer nas cidades. Os nobres di idiam o tempo entre

as capitais e as ilas - que se erguiam, como pal%cios #orti#icados, no centre. de (uas imensas propriedades. Huando as cidades eram destru0das pelos b%rbaros, como por 81es ocorria nas regi5es do imp)rio mais distantes, não ) de surpreender que Bamais se reconstru0ssem. O aspecto social do imp)rio correspondia Ks modi#ica+5es econOmicas que descre emos. Continuou o mesmo que #Ora sob /iocleciano e Constantino, ou seBa, conser ou as #ei+5es adquiridas no per0odo cr0tico do s)culo l7. O imperador, com sua #am0lia e cortesãos, os o#iciais do e")rcito, os altos prelados e a burocracia constitu0am as classes superiores da sociedade e des#ruta am todos os pri il)gios, i endo uma ida altamente ci ili1ada. Todos os membros dessa classe dominante tinham bens, em propor+5es ari% eis, constitu0dos principalmente de terras. Na escala social inham em seguida os negociantes especuladores, homens abastados, alguns ricos, e na maioria semitas. A classe m)dia urbana, caracter0stica do in0cio do imp)rio, esta a desaparecendo com suas antigas #am0lias que, quando sobre i iam, perdiam-se em meio K ral) das grandes cidades, que trabalha a para o Estado e era por 8le mantida, ou entre a popula+ão rural, prKticamente ser a do Estado ou dos grandes senhores. A escra idão, embora e"istisse como institui+ão, perdera tOda a importJncia econOmica. Os escra os B% não desempenha am qualquer papel na agricultura, com)rcio ou indLstria - sua Lnica #un+ão era ser ir nas grandes casas dos ricos e nobres. A energia e a capacidade de trabalho desapareceram, os gostos se ulgari1aram, e um pequeno grupo pri ilegiado mano te e-se K tona de um mar de decad8ncia. /essa situa+ão geral podemos dedu1ir a condi+ão intelectual da )poca. As escolas ainda e"istiam e continua am #uncionando, mas B% não atra0am ningu)m, a não ser entre as classes superiores, e se dedica am inteiramente K tare#a de preparar seus alunos para o ser i+o pLblico do Estado. O curr0culo não se modi#icaraC a educa+ão elementar b%sica consistia no aprendi1ado do grego ou latim, ou de ambos, e o conhecimento dos principais cl%ssicos. *ma educa+ão superior inclu0a a retórica,

ou preparo para #alar e escre er, e a aquisi+ão de conhecimentos Bur0dicos. Na es#era da Burisprud8ncia, ainda ha ia ida e alguma ati idade criadora. ,elo trabalho de Buristas eminentes - entre os quais ,aulo, ,apiniano e *lpiano são os maiores nomes do s)culo l7 - o /ireito 4omano tornou-se aos poucos a lei de todo o mundo ci ili1ado. A teoria e a pr%tica ainda continua am marchando lado a lado, uma #ertili1ando a outra. A tend8ncia geral de ambas era tornarem-se mais humanas, e um surpreendente e"emplo disso ) o progresso da condi+ão dos escra os. A #iloso#ia tamb)m esta a i a, mas tendia a restringir-se a um c0rculo estreito. Z medida que se #undia com a religião, menos se distinguia da teologia. /epois de ,lotino, não encontramos nenhum g8nio criador entre os #ilóso#os. (ua re#ormula+ão do platonismo tornou-se, como B% dissemos, o Lltimo re#Lgio do pensamento 2pagão2 e o Lltimo baluarte do conhecip>ento e da erudi+ão antigos. Nem esta a morta a literatura. Nas di is5es latina e grega do mundo antigo surgiram ainda autores importantes, na poesia e na prosa - eram, por)m, #lores de estu#a. Os escritores produ1iam para si mesmo, ou para um pequeno c0rculo de leitores cultos e aristocr%ticos. (ua t)cnica ) quase sempre per#eita, mas estão presos K repeti+ão de #órmulas e temas do passado. Como representantes t0picos dessa poesia outonal, tão #ormal e retórica, a metade latina do mundo tinha a o#erecer os seguintes nomesC Cl%udio Claudiano, grego romani1ado e poeta )picoP 4ut0lio Namaciano, natural da M%lia, que escre eu no ano GFF de nossa era um poema eleg0aco glori#icando 4omaP e AusOnio, outro gaul8s romani1ado, mestre da #orma, que e idencia uma erdadeira inspira+ão po)tica na descri+ão de sua iagem pelo Mosela, escrita c8rca do ano DUF. Ainda mais populares entre a sociedade culta eram os e"erc0cios puramente retóricos, na #orma de discursos e cartas, pelos quais (0maco adquiriu #ama e tra ou batalha em

de#esa da antiga #) e cultura. (0maco era natural do Ocidente. O Oriente produ1iu, apro"imadamente na mesma )poca, as cartas e discursos do Imperador Suliano e de seu contemporJneo, ;ibJnio de Antioquia. Tamb)m a 3istória não morreraC na pessoa de Amiano Marcelino <DEF-GFF=, produ1iu mais um grande pensador e obser ador, que continuaria a obra de Tacito. Em tOda essa ati idade, por)m, não ha ia realmente idaC os autores mencionados e de1enas de outros escritores semelhantes, #ilóso#os e poetas, a partir do s)culo III e pelos dois s)culos seguintes, tra1em a marca do cansa+o, desencantamento e desesp8ro. (omente a literatura cristã esta a realmente i a. O nLmero de leitores por ela atingidos e con encidos aumenta a constantemente. Inspirada num impulso cada e1 mais #orte, obtinha #Or+as na luta sangrenta contra os de#ensores do elho mundo e os dissidentes entre suas próprias #ileiras. :ertili1a a-a um contato 0ntimo com a cultura antiga, da qual aprendia tudo o que necessita a para a tare#a de proporcionar uma educa+ão cristã a todos os sLditos do imp)rio. Na #orma, essa literatura não poderia ri ali1ar com os de#ensores do passadoP esta a por)m cheia de id)ias no as e mantinha #ortes liga+5es com o po o em geral, nela interessado. Era, na realidade, unilateral e limitadaC a religião e a teologia constitu0am seus temas principais. Com o tempo, entretanto, abarcou outros temas e procurou cristiani1ar a retórica e a 3istória e in#luenciar as escolas. Algumas correntes liter%rias surgiram nas pro 0ncias, entre as quais, nos s)culos I7 c 7, as #iguras mais destacadas #oram os ,ais A#ricanos, como ;actJncio <c8rca de D@E= e Agostinho <DEG-GDF=, que #oram precedidos por Tertuliano, em #ins do s)culo II, e Cipriano, um s)culo mais tarde. Estr8Ias brilhantes da cristandade latina são o igoroso Ambrósio, bispo de Milão na segunda metade do s)culo I7, e o culto SerOnimo, que i eu de DDE a G@F. Ainda mais igorosa #oi a ida do cristianismo no Oriente. Ali, o s)culo I7 constitui a culminJncia do crescimento liter%rio. As bases da teologia e poesia cristãs #oram então lan+adas por Atan%sio de

Ale"andria, Eus)bio de Cesar)ia, Mregório de Na1ian1o e Soão Crisóstomo. /e emos notar que a maioria d8sses homens nasceu nas cercanias, e não no centro, do mundo hel8nico. Essa literatura cristã nos coloca K #rente um nO o mundo e no a gente, cuBos atos estão #ora do alcance da 3istória antiga. Na competi+ão com os representantes do passado, 8sses escritores sa0ram itoriosos, mas não nos de emos esquecer que tamb)m 8les ieram da ci ili1a+ão antiga e le antaram seu edi#0cio nO o sObre alicerces elhos. O desen ol imento das artes pl%sticas - escultura, pintura e artes aplicadas - não #oi di erso do liter%rio. A arte helen0stico-romana ainda sobre i ia, a arquitetura ainda #lorescia. Embora o arco triun#al de Constantino seBa uma simples cópia de obras semelhantes pertencentes K era de /omiciano e TraBano, muitos outros edi#0cios - os banhos de /iocleciano em 4oma, seus pal%cios em Esp%lato e Antioquia, os banhos e a bas0lica de Constantino em 4oma - são originais e imponentesC de em seu e#eito K liberdade do desenho e K habilidade com que a lu1 e o ar são distribu0dos pelas paredes colossais, e K singular ariedade de seus tetos arqueados. Impressionam o espectador tamb)m por sua conquista do espa+o e pelo esplendor maci+o de sua decora+ão, com uma imponente ariedade de cOres. Não podemos consider%-las como os mais nobres produtos da arquitetura antiga, mas mesmo assim seria imposs0 el negar a seus autores impulso criador e a capacidade de lhe dar #orma magn0#ica. esse impulso não se esgotou logoC #oi sob o go 8rno de Sustiniano que se ergueu a mara ilha arquitetOnica que chamamos de IgreBa de (anta (o#ia. Mais tarde ainda muitos edi#0cios magistrais #oram le antados no Oriente e Ocidente por uma arte patrocinada pela IgreBa e pelo Estado, principalmente pela primeira. O decl0nio da originalidade e da #Or+a ) mais acentuado na escultura e na pintura. Os bustos-retratos de muitos dos imperadores, com sua impon8ncia sombria, re#letem a tend8ncia caracter0stica do imp)rio, para as #ormas maci+as e pesadas. A escultura, como a arquitetura, perdera a graciosidade, a habilidade

t)cnica, a preocupa+ão com o detalhe, o amor K originalidade. ,ouco sabemos da pintura, mas tamb)m nela a bele1a e harmonia de composi+ão, que le am K considera+ão dos detalhes, #oram a#astadas pelos e#eitos istosos da cOr. ,arece, portanto, que o en#raquecimento da #Or+a criadora em todo o imp)rio ) menos acentuado na arte do que nos outros setores da ati idade humana. Como em outras )pocas da 3istória, a arte continuou seu curso indi idual, re#letindo com brilho e capacidade criadora a ida a seu redor, e o pensamento e o sentimento dos contemporJneos. (ua principal tare#a, naturalmente, era encontrar #ormas adequadas para os principais artigos do credo cristão e por isso os arquitetos se empenharam em #a1er as igreBas cristãs, ou casas de ora+ão, tão per#eitas quanto poss0 el, com todos os adornos de pintura, mosaico e escultura. Essa no a arte cristã, embora empregando a t)cnica e as #ormas da arte antiga, dela se distancia a. As #iguras naturalistas e os ornamentos sutis, que marcaram o estilo greco-romano das )pocas imperiais, com todo o seu simbolismo e impressionismo, #oram a#astados no doloroso es#Or+o de encontrar #ormas art0sticas que representassem as pessoas e s0mbolos caros a todos os cristãos. Com o tempo, as #iguras centrais da religião e culto cristãos, Cristo e a Mãe de /eus, encontraram sua e"pressão t0pica, numa t)cnica antiga reno ada por um impulso art0stico nO o e por um pro#undo sentimento religioso. Ao mesmo tempo, o progresso obtido pelos artesãos era preser ado e continuado, com o decorrer do tempo. Encontramos, ) erdade, certa perda de re#inamento e acabamento, certa tend8ncia consciente ou não para o arca0smo. Mas em tudo isso não h% sabor de morte, e sim o palpitar de uma no a ida. As artes aplicadas #oram menos atingidas pela modi#ica+ão do pensamento associada ao cristianismo, embora a IgreBa naturalmente e"igisse seus ser i+os, adaptando as elhas t)cnicas e as elhas #ormas Ks necessidades do culto cristão. Essa arte, por)m,

era antes a pre#erida da cOrte e de um grupo de homens ricos, a cuBo gOsto tinha de ser ir. A no a aristocracia não podia apreciar a elegJncia da antiga arte industrial - necessita a de algo mais rude e mais #%cil de sentir. Hueria que a ornamenta+ão, as roupas, Bóias e mó eis atra0ssem imediatamente o olhar e chocassem o obser ador. O Oriente podia atender a tal e"ig8ncia com #acilidade, especialmente o Oriente iraniano, que so#rera menos in#lu8ncia hel8nica e por isso era in#erior K (0ria e ao Egito em elegJncia e re#inamento. Assim, as artes aplicadas do Irã e da \sia Central chegaram a 4oma por di#erentes caminhos e derrotaram todos os concorrentes, em todo o imp)rio. Mais uma e1, era o triun#o do olume, da ariedade da cOr, das linhas duras e agudas - na erdade, de todos os tra+os peculiares K arte oriental, em sua #ase primiti a. O mundo antigo en elheceu e lentamente passou K decrepitude, redu1indo-se a pó. *ma no a ida, entretanto, cresceu entre as ru0nas, e o nO o edi#0cio da ci ili1a+ão europ)ia le antou-se sObre o antigo alicerce, que continua a #irme e bom. O nO o edi#0cio #oi erguido pedra a pedra, mas suas linhas principais #oram determinadas pela elha estrutura, e muitas pedras antigas empregaram-se na constru+ão. Embora aqu8le mundo ti esse en elhecido, não morreu nem desapareceu nuncaC continua i o em nós, como base do nosso pensamento, de nossa atitude para com a religião, nossa arte, nossas institui+5es sociais e pol0ticas e at) mesmo nossa ci ili1a+ão material. ,or 4O(TO7TcE::, M. 3istória de 4oma. 4io de SaneiroC cahar, >?UU <original de >?@@=

Causas do Declínio da Civilizaç o Antiga N*M li ro dedicado K 3istória da ci ili1a+ão antiga, o leitor tem o direito de buscar a resposta K seguinte perguntaC ,or que uma ci ili1a+ão tão poderosa e brilhante, resultado de s)culos e

aparentemente destinada a durar muito mais, degenera gradualmente9 Em outras pala ras, por que a capacidade criadora de seus construtores esmorece, e com isso a humanidade lentamente retoma a condi+5es de ida primiti as e e"tremamente simples, e recome+a a criar outra ci ili1a+ão, partindo dos rudimentos, re i endo as antigas institui+5es e estudando os elhos problemas9 ,ara oltar ao n0 el em que o homem i eu durante muitos s)culos, ) necess%rio um nO o es#Or+o, tamb)m de %rios s)culos. Muitas respostas #oram dadas a essa pergunta por historiadores, #ilóso#os, economistas, estudantes de (ociologia, :isiologia e Teologia. Não ) 8ste o momento de e"aminarmos todos os m)todos propostos para a solu+ão do problema. /igo, por)m, uma coisaC a maioria dessas publica+5es le a em conta apenas um dos sintomas, que anunciam a queda da cria+ão cultural, e o considera como a causa do decl0nio, no conBunto. ,ermito-me, sem entrar em discussão pol8mica, e"por a solu+ão do secular problema que acho mais pro % el. Hue entendemos por 2decl0nio2 de uma ci ili1a+ão antiga9 Hue h% na rai1 dessa constante re ersão do homem ci ili1ado ao estado primiti o de barb%rie9 (empre que obser amos 8sse processo, notamos tamb)m uma trans#orma+ão psicológica nas classes da sociedade que, at) então, ha iam sido as criadoras da cultura. (ua capacidade de cria+ão e sua energia se esgotam, o homem se cansa e perde inter8sse na cria+ão, dei"ando de alori1%la. /esencanta-se, sua ida 0% não ) mais um es#Or+o em prol de um ideal criador em bene#icio da humanidade. (eu esp0rito passa a ocupar-se dos inter8sses materiais, ou de ideais desligados da ida terrestre, e noutra consubstanciados. Neste Lltimo caso, o centro de atra+ão se desloca da Terra para o C)u, ou da Terra para o mundo do al)m-tLmulo. ,rocesso semelhante repetiu-se com #reqR8ncia na 3istória antiga,

e seus e"emplos mais e identes e inequ0 ocos são o decl0nio da ci ili1a+ão da idade hel8nica e do Imp)rio 4omano. Na 3istória do Oriente, são muitas as quedas de grandes ci ili1a+5es, pro ocadas pelas causas e"ternas, como uma conquista estrangeira. Assim #oi que os cassitas conquistaram a -abilOnia e os hicsos go ernaram o EgitoP os persas destru0ram a Assiria, o imp)rio hitita #oi derrubado pelos tr%cios <g nota atualC O imp)rio hitita #oi derrubado não pelos tr%cios, e sim pelos 2po os do mar2= e o reino #rigio pelos cim)rios. Aconteceu #reqRentemente ser o declinio apenas tempor%rio, logo seguido pela recupera+ãoC #oi o que ocorreu no Egito, por e"emplo. Al)m disso, a trans#er8ncia de uma ci ili1a+ão a outra ) caracter0stica do Oriente, de modo geralC os ass0rios herdaram a cultura da -abilOnia, que passa em seguida aos persas e d8stes aos partos e K dinastia sassJnida, numa sucessão ininterrupta at) nossos dias. 3% pausas maiores ou menores, mas não uma cessa+ão de#initi a. ,ode ser que a cultura oriental tenha mais capacidade de perman8ncia, pelo #ato de seu es#Or+o criador não atingir nunca as culminJncias a que chega o g8nio grego e romano. No ;este, não obser amos nunca aquela modi#ica+ão geral e permanente da atitude mental, que ) caracter0stica do Oeste, e a ra1ão ) pro a elmente estaC a cultura oriental se basea a numa interpreta+ão religiosa de#inida, que sobre i ia a tOdas as modi#ica+5es circunstanciais e sal a a os homens de ca0rem na inati idade do desesp8ro. A 3istória da cultura ocidental, por)m, ) di#erente. Ela pertencia a pequenos grupos separados, pequenas unidades sociais e pol0ticas, combinadas na #orma+ão de uma cidade-Estado, nas quais continua a sendo algo indi idual, con#inada a uns poucos escolhidos. Nascia da luta - luta contra inimigos estrangeiros e luta dentro do Estado, na de#esa de certos ideais. O obBeti o da guerra contra os estrangeiros era a independ8ncia pol0tica, ao passo que o con#lito interno era criado pelo deseBo de condi+5es de ida melhores, mais per#eitas e Bustas, embora cada homem, sem dL ida, ti esse sua própria concep+ão de 2Busti+a2. A cren+a na onipot8ncia do homem, na sua ra1ão e na capacidade desta em

resol er todos os problemas, pr%ticos ou estritamente #ilosó#icos e cient0#icos - essa cren+a inspirou e tornou poss0 el aos melhores esp0ritos lan+ar as bases do que chamamos de atitude cient0#ica. A isso se acrescenta uma mara ilhosa capacidade art0stica, que lhes permitiu estir seus ideais com #ormas is0 eis e produ1ir obrasprimas de literatura e arte. Na 3istória remota das cidades-Estados gregas essa cultura, criada por uma minoria, era propriedade comum de todos os cidadãos, estendendo-se mesmo a todos os habitantes da cidade, sem e"clusão dos escra os. O desen ol imento econOmico, por)m, produ1iu com o tempo uma aguda distin+ão na sociedade e di idiu a popula+ão das cidades gregas em dois grupos constantemente opostos - 2os melhores2 e 2os piores2, que de modo geral podemos identi#icar como os ricos e os pobres. Assim, gradualmente a cultura tornou-se restrita aos seus criadores e K classe a que pertenciamC tornou-se a cultura da aristocracia apenas. Huando, após a morte de Ale"andre, o Mrande, a cultura da cidadeEstado grega conquistou a cultura oriental e tomou seu lugar quando os habitantes das no as e antigas cidades-Estados tornaramse a classe dominante nó ;este, a ci ili1a+ão grega #loresceu então mais e"uberante do que nunca, pois a ati idade criadora da aristocracia intelectual grega encontrou um campo mais amplo, com a e"pansão do nLmero de suas cidades. Essa cultura, por)m, esta a ainda con#inada a uns poucos eleitos, especialmente no Oriente, onde a massa do po o nunca aceitou integralmente um sistema que lhe era estranho e incompreens0 el. Enquanto isso, na Mr)cia, a luta de classes acentuou-se ainda mais, e 8sse, Buntamente com a tend8ncia ao separatismo, #oi o moti o pelo qual as cidades-Estados não ti eram, em conBunto, 8"ito na luta contra os monarcas que herdaram o poder de Ale"andre. Nunca se renderam, por)m, de #orma de#initi a K autocracia hel8nica e, com o tempo, grande nLmero de cidades gregas des#rutou independ8ncia completa ou parcial.

A cidade-Estado grega perdeu #inalmente sua liberdade quando a Mr)cia #oi conquistada pelos romanos, conquista precedida de um longo per0odo de anarquia pol0tica e social. Apesar de sua cultura superior, apesar de seus mara ilhosos tro#)us intelectuais e art0sticos, a Mr)cia tornou-se escra a dos homens que considera a b%rbaros. Na con#usão que precedeu K conquista romana e na apatia que a ela se seguiu, as principais 0timas #oram os melhores esp0ritos, aqu8les que ainda mantinham i os os ideais de liberdade gregos. Tais homens esta am, mais do que os outros, suBeitos Kquela modi#ica+ão da atitude mental de que #alei acima. ,assaram a du idar da ra1ão, seus ideais #oram esmagados por seus próprios p)s, e mergulharam num materialismo ulgar ou buscaram a sal a+ão nas religi5es m0sticas. Encontraram, por)m, sucessores no Ocidente - homens guiados pelos mesmos ideais e cren+as intelectuais e go ernados pelas mesmas institui+5es pol0ticas. A cidade-Estado grega #oi substitu0da pela cidade italiana e pela cidade de 4oma, a l0der de uma alian+a entre elas. A aristocracia romana tomou o #acho da ci ili1a+ão da Mr)cia e continuou, dentro das mesmas linhas, a sua missão, acrescentando-lhe as qualidades que lhe eram peculiares. 4oma, por)m, era mais do que uma cidade-EstadoC era a cidade que go erna a um imp)rio, e para cada cidadão romano tinha centenas de sLditos. Na própria 4oma, a aristocracia que ha ia criado a no a ci ili1a+ão italiana #oi #or+ada a suportar o con#lito dom)stico que di idira a Mr)cia. Mas, enquanto 4oma luta a pelo predom0nio pol0tico no mundo antigo, a di isão de classes dentro do Estado permanecia em segundo plano, ou pelo menos não pro oca a derramamento de sangue. ;ogo, por)m, que ela se tornou dona do mundo, o poder dos 2melhores homens2, os opt0mates ou aristocracia, #oi assaltado pelos cidadãos em geral. (eu grito de guerra era uma distribui+ão melhor e mais Busta da rique1a e uma #orma mais democr%tica de go 8rno. ,or oito anos arrastou-se 8sse sangrento con#lito, e a aristocracia d8le saiu derro tada e desmorali1ada. (eu lugar #oi tomado pela classe m)dia italiana, e a esta coube, por sua e1, o de er de manter o ele ado padrão da

ci ili1a+ão. A classe m)dia pagou caro sua itória, Embora a constitui+ão municipal e a liberdade dos cidadãos #Osse preser ada, pelo menos aparentemente e durante certo tempo, mesmo assim uma no a superestrutura, na #orma do poder imperial, paira a acima do Estado. Aquela liberdade - não apenas a pol0tica, mas tamb)m a de pensamento e cria+ão, que maior alor tinha para os esp0ritos mais nobres - diminuiu ainda mais, e a própria concep+ão de liberdade #oi rebai"ada, at) signi#icar a submissão olunt%ria de todos a um, mesmo que 8sse um #Osse o melhor dos melhores, mesmo que #Osse o ,rinceps. E at) mesmo essa liberdade pertencia apenas aos que possu0am O t0tulo de cidadãos romanosC aos milh5es espalhados por todo imp)rio, 8sse discut0 el pri il)gio era negado. O estabelecimento do imp)r0o trou"e consigo um nO o impulso do g8nio criador. Mas, como B% dissemos antes, #altaram a 8sse progresso o entusiasmo e a #Or+a que marcaram as reali1a+5es das cidades gregas e mesmo da 4oma republicana. /esde o in0cio, tra1 8le a marca do cansa+o e desapontamento - a marca caracter0stica de uma era pós-re olucion%ria. Mais tarde, na atmos#era calma da pa1, ordem e prosperidade, 8le se torna ainda mais #raco, e sua energia acaba por desaparecer inteiramente. As classes superiores, com e"ce+ão das casas senatoriais que os imperadores perseguiram e e"terminaram, le a am uma ida calma e #%cil. (ob a guarda do imperador, não precisa am preocupar-se com o #uturo. 4oma não tinha ri al, a ci ili1a+ão romana não encontra a competidor. A opinião geral era que 4oma, sua ci ili1a+ão, seu sistema pol0tico, eram imortais. Não ha ia com quem lutar, nem por que lutar. O próprio go ernante prega a a pa1 e não o con#lito K comunidade. Hue ha ia então para buscar, quando tudo B% #Ora encontrado9 Al)m do mais, a busca era algo de perigoso, e poderia tra1er conseqR8ncias desagrad% eis para quem a empreendesse. Nessa atmos#era de contentamento indolente, as classes priilegiadas, particularmente a classe m)dia urbana, encontraram

seus ideais no pra1er, na procura do lucro e na consecu+ão das antagens materiais. O homem tornou-se ego0sta, buscando apenas a ociosidade e a distra+ão. Em tal era de estagna+ão e esterilidade, os melhores esp0ritos tornaram-se descontentes com a ida, que lhes parecia incompleta - quando eri#icaram que isso a nada condu1ia, perderam a #) na #Or+a da ra1ão, que lhes #alta a a todo momento, enquanto a igilJncia e a censura do go ernante se acentuaram. O g8nio criador minguou e a ci8ncia repetia resultados S% conhecidos. O li ro did%tico tomou o lugar da pesquisaP nenhuma no a descoberta art0stica #oi #eita, ou indo-se apenas os ecos do passado, per#eitos na sua #orma, mas destitu0dos de signi#icado. Tamb)m a pena, o buril e o l%pis produ1iram trabalhos e"tremamente inteligentes, capa1es de atrair e di ertir, mas incapa1es de ele ar e inspirar o esp0rito. Os que se recusaram K rendi+ão buscaram re#Lgio na religião. ,rocuraram li rar-se da mesquinhe1 da ida real com a contempla+ão de /eus e na comunhão com o mundo in is0 e>. Incapa1es de trabalhar para outros ou de lutar pela itória de qualquer grande causa, retiraram-se inteiramente para dentro de si mesmos, adotando a autoper#ei+ão como ideal, o desen ol imento constante de seu próprio ser moral e espiritual. (ob o e"terior brilhante do Imp)rio 4omano sentimos a #al8ncia da #Or+a criadora e a #alta de gOsto por ela. (entimos o cansa+o e a indi#eren+a que minaram, não apenas a cultura do Estado, mas tamb)m seu sistema pol0tico, sua #Or+a militar e seu progresso econOmico. *m dos sintomas dessa indi#eren+a ) o suic0dio da ra+a - a recusa K perpetua+ão da esp)cie. As classes superiores eram recrutadas de #ora, e não de dentro, e se e"tinguiam antes de ter tempo de passar Ks gera+5es seguintes a heran+a da cultura. Essa ida #%cil e requintada não esta a ao alcance de todos os sLditos do imp)rio. A cultura se limita a a uma minoria - K classe urbana próspera. [ certo que os membros dessa minoria tornaramse muito mais numerosos naquele per0odoC no as cidades surgiram por tOda parte - entre os celtas, iberos, il0rios, tr%cios e berberes,

no OcidenteP nas montanhas e ales da \sia Menor, e (0ria, e nas plan0cies da Ar%bia, no Oriente. Esse aumento num)rico de e ser analisado em rela+ão a outros #atos. O proletariado urbano de escra os e libertos crescia com a mesma rapide1, ou tal e1 mais rKpidamente ainda, e o mesmo ocorria com a popula+ão rura>. Nenhuma dessas classes participa a da ociosidade e da prosperidade de seus superiores sociais - seu quinhão era o trabalho e algo pró"imo da mendicidade. A cultura dos habitantes da cidade não lhes era destinada, e de iam sentir-se #eli1es quando podiam recolher-lhes as migalhas. Assim, a impot8ncia e a ociosidade das classes dominantes pro ocaram no a crise social e econOmica no imp)rio. Os imperadores de maior isão compreenderam o perigo, mas era di#0cil, e at) arriscado para um go ernante, despertar as classes superiores de sua apatia. ,or outro lado, a resist8ncia teimosa, embora passi a, das 2classes2 torna a quase imposs0 el ele ar li remente a situa+ão das massas. A e olu+ão d8sses estados de esp0rito - apatia entre os ricos e descontentamento entre os pobres - #oi a princ0pio lenta e secreta. (ubitamente, tornou-se aguda, quando o imp)rio #oi #or+ado, após dois s)culos de pa1 e tranqRilidade, a de#ender-se contra inimigos e"ternos. A )poca pedia uma grande demonstra+ão de entusiasmo. Mas os ricos não podiam ser despertados de sua indi#eren+a, e os pobres, endo a impot8ncia e a #raque1a dos que lhes eram superiores, e pri ados de qualquer participa+ão naquela satis#a+ão ociosa e indolente, enche4AM se de ódio e in eBa. Compreendendo essa doen+a interna do Estado, os go ernantes tentaram #or+ar seus sLditos a de#ender o imp)rio e sua ci ili1a+ão. A mão da autoridade caiu pesadamente tanto sObre os ricos como sObre os pobres. ,ara sal ar. o imp)rio, come+ou a esmagar e arruinar a popula+ão, humilhando os alti os, mas sem ele ar os humildes. /a0 surgiu a cat%stro#e social e pol0tica do s)culo l7, quando o Estado, apoiando-se no e")rcito ou, em outras pala ras, nas classes in#eriores, derrotou as classes superiores, dei"ando-as humilhadas e

na mis)ria. :oi um golpe #atal na ci ili1a+ão aristocr%tica e urbana do mundo antigo. Este Bamais se recuperou d8sse golpe. A #Or+a criadora da aristocracia #Ora, #inalmente, minada. A satis#a+ão indolente e pac0#ica dos dois primeiros s)culos deu lugar K apatia da senilidade, K indi#eren+a e ao desesp8ro. Em seus so#rimentos, o homem procurou abrigo não na ida, mas al)m delaC espera a descanso e #elicidade num mundo #uturo. As classes in#eriores nada lucraram com a itóriaC a escra idão e a ru0na #inanceira #oram seu quinhão. Tamb)m elas, após os horrores do s)culo I7, encontraram re#Lgio na religião e na esperan+a de #elicidade na ida #utura. Nessa condi+ão de impot8ncia o imp)rio passou seus Lltimos dias, simpli#icando cada e1 mais a e"ist8ncia e dela e"igindo cada e1 menos. O Estado, apoiando-se sobre as ru0nas da passada grande1a, continuou e"istindo enquanto sua cultura e organi1a+ão #oram superiores Ks de seus inimigos. Huando essa superioridade desapareceu, no os senhores tomaram conta daquilo que se tornara um organismo e"angue e lasso. TOda a #Or+a criadora que lhe resta a a#asta a-se d8ste mundo e de suas e"ig8ncias, para aprender como conhecer /eus e unir-se com ele. Tamb)m no caso do Imp)rio 4omano o declinio da ci ili1a+ão não pode ser atribu0do K decad8ncia #0sica, a qualquer en#raquecimento do sangue entre as classes superiores, pro ocado pela escra idão, nem Ks condi+5es econOmicas e pol0ticas, mas antes a uma modi#ica+ão na atitude do esp0rito dos homens. Tal modi#ica+ão #oi pro ocada por uma cadeia de circunstJncias que produ1iu as condi+5es de ida especi#ica do Imp)rio 4omano. O processo #oi o mesmo na Mr)cia. *ma dessas condi+5es, e de grande importJncia, #oi a nature1a aristocr%tica e e"c>usi ista da ci ili1a+ão antiga. A rea+ão mental e a di isão social, em conBunto, pri aram o mundo antigo do poder de conser ar sua ci ili1a+ão, ou de de#end8-la contra a dissolu+ão interna e a in asão e"terna da barb%rie.

,or 4O(TO7TcE::, M. 3istória de 4oma. 4io de SaneiroC cahar, >?UU <original de >?@>=.

oltar para 7is5es sobre a Antiguidade Tardia

Comentário de Maytê Vieira O autor $usca a explica.ão para o fim do mundo antigo, inicia com o seu o$(eti%o responder o #uestionamento4 como uma ci%ili0a.ão $ril3ante e poderosa degenera gradualmente5 ara responder a #uestão são usados exemplos de ci%ili0a.1es anteriores a romana #ue ap2s algum tempo de crescimento e gl2ria igualmente c3egaram ao fim, se(a por conflitos internos ou externos, sendo totalmente destru)das ou a$sor%idas por outro po%o, 'osto%t0eff demonstra #ue para entendermos o #uadro geral da situa.ão primeiramente é necessário entender o significado de decl)nio de uma ci%ili0a.ão, O #ue torna este desfec3o poss)%el e contri$ui para isto, 6ma de suas 3ip2teses é a transforma.ão psicol2gica da sociedade, principalmente nas classes criadoras da cultura, geralmente as classes mais altas e aristocráticas, 7eu mundo se desloca do terreno para o além tumulo, esperando lá encontrar uma %ida mel3or #uando se esgotam as possi$ilidades neste, -m sua $usca da resposta, o autor aponta uma das diferen.as cruciais entre Oriente e Ocidente4 8a cultura oriental se $asea%a numa interpreta.ão religiosa definida9, a Ocidental é diferente, $aseia sua cultura na ciência e na ra0ão, * cultura é indi%idual, acess)%el a poucos escol3idos, :uando a ;récia foi con#uistada por 'oma, sua cultura encontrou o eco na sociedade romana #ue tomou como missão continuar a cultura grega, entretanto, 'oma era mais #ue uma cidade/estado, era a cidade #ue go%erna%a um império, * sociedade romana a considera%a a 8cidade eterna9, a 8sen3ora do mundo9, com o império e a pa0 garantida, a sociedade romana passou a $uscar apenas o lucro, a ociosidade e a distra.ão, Os poucos #ue não se contenta%am com esta existência %a0ia,

$usca%am preenc3imento na religião e no mundo espiritual, *o in%adirem 'oma, os $ár$aros encontraram uma popula.ão sem for.as, sem energias e adormecida em sua indolência e incapa0 de lutar, +oda a %italidade do império esta%a %oltada para Deus e o mundo celeste, *o final sua conclusão consisti em #ue as mudan.as de mentalidade somadas aos conflitos internos impediram as ci%ili0a.1es antigas de se manterem pr2speras e de afastar os ata#ues exteriores dos $ár$aros estrangeiros,

O Conceito de Antiguidade Tardia *m pouco contrariado <dir-se-ia contra o tempo=, o Museu do ;ou re continua a e"por aquela imensa m%quina de Thomas Couture que, ao ser apresentada ao (alon de >TGU, #oi saudada como obrahprima. O pintor, que, no #undo, como bom disc0pulo de Ingres, o que mais queria na era pintar nus #emininos e atitudes oluptuosas, deu-lhe o muito s%bio nome de 2Os 4omanos da decad8ncia2, e o seu quadro suscitou coment%rios apai"onados, de um ardor que não pode dei"ar de nos espantar. Mas era de esperar que o seu signi#icado pretensamente histórico #i1esse dele obBecto de sisudas re#le"5es. Menos 8n#ase, e uma boa dose de ironia, encontramos em ] 2;angueur2, soneto que, em >TTD, 7erlaine dedica a a Meorges Courteline e que, no ano seguinte, entraria, sob a rubrica 2A maneira de muita gente2, no seu 2Sadis et Naguere2C (ou o Imp)rio no #im da decad8ncia, que 8, altos e brancos, os -%rbaros passar, e comp5e e comp5e acróstico indolente, de um estilo de oiro em que dan+a a languide1 do (ol. (o1inha, a alma pena, perdida em denso t)dio, /i1-se que algures se tra am longas lutas sangrentas. Huem me dera poder <tão #raco e em ritmos lentosd=, Huem me dera querer #lorir ar a minha idad

Oh não querer... , oh não poder morrer ar um pouco A ta+a B% secou <não te rias, -ath6llal= Tudo B% est% bebido, e comidod (il8ncio (ó um poema idiota que ou lan+ar ao #ogoP (ó um escra o atre ido que não trata de mim] (ó o t)dio de tudo, e de nada, consome d

78-se bem que o poeta não toma muito a s)rio esse t0tulo de 2decadente2 com que os estetas 2#in de siicle2 gosta am de se adornar. Mas, se por esses anos de >TTF a ?F, e não digo apenas em :ran+a mas tamb)m na It%lia, na Inglaterra, na própria Alemanha, a imagem da decad8ncia este e assim tanto em moda, #oi porque tal no+ão - melhor di1endo, ]clich)] ou mania - ha ia quatro s)culos que circula a na consci8ncia ocidental. /esde o s)culo N7, desde o humanismo renascentista, todo este per0odo para que querer0amos chamar a aten+ão do leitor esta a #erido de um mesmo Bu01o peBorahti oC entre o esplendor da Antiguidade cl%ssica e a 2reno a+ão]2 das ;etras e das Artes, nada ha ia - literalmente nada. *m a1io, um negro tLnel separa a esses dois momentos gloriosos da ci ili1a+ão. As mani#esta+5es art0sticas da Antiguidade tardia eram, tal como os balbuceios das idades obscuras, englobadas nesse geral despre1o. Os humanistas italianos não usam senão adBecti os desagrad% eis para as quali#icarC Arte ultramontana, tudesca, gótica, - este termo de gótico, que ha ia de ser tão glori#icado, era então, na pena de tais homens, o mesmo que b%rbaro. Escutemos 7asari nas suas 7idas dos mais e"celentes pintores, escultores e arquitectos <a obra ) de >EEFP mas, B% um s)culo antes, Mhiberti, o escultor das portas do -aptist)rio de :loren+a, tamb)m data a a decad8ncia da )poca de Constantino=C 2(e bem que as artes ti essem continuado a #lorescer at) ao #im do imp)rio dos NII C)sares, não puderam manter-se na mesma per#ei+ão e qualidade que anteriormente tinham atingido <...= /eclinando de dia para dia, elas acabaram, pouco a pouco, por perder toda a per#ei+ão da #orma. E disso dão testemunho claro as obras de escultura e de arquitectura

e"ecutadas em 4oma no tempo de Constantino < ... =.2 Em :ran+a, na )poca cl%ssica, este Bu01o peBorati o ir% a ser re#or+ado pela estreite1a do gosto e a rigide1 do cJnon est)tico. Assim, emos Moli)re, celebrando, em >AAD, a obra do seu amigo Mignard na cLpula do 7al-de-MrJceC < ... = Tu, que #oste um dia a senhora do Mundo, /outa e #amosa escola, #)rtil em raridades, onde, por nobre es#or+o, as obras e"umadas compensaram as perdas dos -%rbaros do Norte, :onte dos belos restos dos s)culos memor% eis, Y 4oma < ... = No s)culo N7III, a mesma atitude se repete, ainda mais n0tida. ,ara Montesquieu, a arte do -ai"o-Imp)rio ) B% decadenteC nada mais tem que 2essa dure1a gótica2 <ao isitar a colec+ão dos bustos romanos de :loren+a, Montesquieu sentiu muito bem que, na arte romana, desde o s)culo I7 at) ao #im da dinastia dos (e eros, se esbo+a a uma iragem. Nos #ilóso#os do ()culo das ;u1es, o neoclassicismo conhBuga-se com a a ersão que sentem pelo Cristianismo. Ed.ard Mibbon condensou a tese do seu grande li ro /ecl0nio e Hueda do Imp)rio 4omano <>UUAjTT=, na #órmula c)lebreC &/este modo, assistimos ao triun#o da religião e da barb%rie2 - sinónimos, para este oltaireano. E curioso que o processo não #oi aberto, pelo 4omantismo quando este redescobriu a Idade M)dia, embora este termo tenha dei"ado de ter, nessa altura, o alor neutro de um inter alo a1io, para progressi amente se ir enchendo de conteLdo positi o. A arte e toda a ci ili1a+ão do -ai"o-Imp)rio <em :ran+a, ainda est% em oga esta desihgna+ão, de ressonJncias peBorati as, que ;ebeau #orBou em >UE?= continuaram a ser subestimados. ,or e"emplo, Sacob -urcXhardt, no seu &Constantin' <>TED=, não 8 nelas senão mani#esta+5es de senilidade e decad8ncia do mundo antigo. ,ara ele, essa arte, que Bulga remontar, na sua degeneresc8ncia, a meados do s)culo II, mostra-nos a dissolu+ão de#initi a do sistema estrutural que 4oma herdara da Mr)cia...

,odemos di1er que só com a nossa gera+ão esse preconceito #oi ultrapassado, embora essa corre+ão ti esse come+ado com o s)culo e com os li ros, publicados em >?FFj>, desses pioneiros que #oram /mitri 7. Ainalo <The 3ellenistic Origins o# -61antine Art. (ão ,etersburgo, >?F>=, em ,etersburgo, e Alois 4iegl <(patromische Wunstindustrie nach der :unden in Oesterreich. 7iena. >?F>=, glória da escola de 7iena. Mas a erdade ) que a adop+ão de uma óptica no a não ) apenas de ida aos progressos da in estiga+ão históricaC depende tamb)m das pro#undas trans#orma+5es operadas no plano da e"pehri8ncia est)tica e na sensibilidade contemporJnea, entre o #im do e"pressionismo e o aparecimento da arte abstracta, re olu+ão do gosto que eio a ser e"pressa nos li ros brilhantes de Andr) Malrau", desde les 7oi" du silence <>?GUjE>= at) a ;a M)tamorphose des dieu" <>?EU=, para não citar outros. No entanto, se ) certo que ) hoBe geralmente reconhecida a originalidade da primeira arte bi1antina, e a arte pr)-romJnica tem sido obBecto de estudos cuidadosos e dei"ou de ser desdenhada como horrendo in#antilismo, temos de reconhecer que essa re alorih1a+ão ainda não transpOs erdadeiramente o c0rculo dos historiadores pro#issionais. O per0odo que estudamos ) ainda demasiadas e1es e ocado em termos meramente negati os, Huer nele se eBa 2o #im da Antiguidade2, quer 2os come+os da Idade M)dia2. O que nós querer0amos era aBudar o leitor a olhar, #inalmente, esse per0odo em si mesmo e pelo Hue representa. 7amos dei"ar, por ora, de parte os aspectos propriamente 2decadentes2, que, no mundo ocidental, #oram o resultado das in as5es b%rbaras. O que importa ) que o termo 2Antiguidade tardia2 receba de uma e1 por todas uma conota+ão positi a <como, B% o imos, aconteceu com O termo Idade M)dia=. Mas ser% l0cito di1er que o termo entrou mesmo no uso corrente9 Em #ranc8s <e o mesmo se dir% dos seus equi alentes italiano e ingl8s, a e"pressão conser a ainda alguma coisa de esot)rico. (ó o alemão, mais pl%stico, parece ter acolhido melhor a pala ra (patantiXe.

(er% B% tempo de admitir que a Antiguidade tardia não ) somente a Lltima #ase de um desen ol imento cont0nuoC ) uma outra antiguidade, uma outra ci ili1a+ão, que temos de reconhecer na sua originalidade e Bulgar por si própria e não atra )s dos cJnones das )pocas anteriores. A 3istória regista neste ponto uma muta+ão, se ) l0cito ir buscar a pala ra e a imagem K -iologia. *m esp0rito no o se mani#esta nos mais di ersos dom0nios, desde as t)cnicas mais materiais e as #ormas mais e"ternas da e"ist8ncia quotidiana, K estrutura mais secreta da mentalidade colecti a, K id)ia, ao ideal que os homens desse tempo conceberam em rela+ão ao mundo e K ida, o seu ;ebens-und $eltanschauung. E oquemos, de ambos os lados do #osso de quatro s)culos e meio que os separa, esses dois homens bem representahti os do seu tempo, C0cero e (anto AgostinhoC quantas coisas mudaram, na passagem de um para o outrod

No plano da cultura, recordemos que as obras de C0cero eram transcritas, coluna a coluna, em longos retJngulos de papiro ou de pergaminho, enrolados em cilindro, que se iam desenrolando K medida da necessidade da leitura, para em seguida os enrolar de no o - #orma de li ro #r%gil, atra ancadora, incOmoda <imobili1ando as duas mãos, impedia o #olhear r%pido, obter unia isão sint)tica duma obra e"tensa, e rel8-la=. Na Antiguidade tardia, o olumen cedeu o lugar ao code", isto ), ao li ro que ainda agora utili1amos, #ormado de cadernos cosidos, e que permite edi+5es compactas como os actuais (haXespeare completos num só olume <basta am a (anto Agostinho cinco ou mesmo dois tomos para compor a obra de dimens5es consider% eis que ) a sua Cidade de /eus=, e que, por outro lado, permite ainda Buntar numa só pessoa as #un+5es de leitora e de escrita. Cada e1 mais se ai dispensando o ser i+o de um leitor, dantes praticamente indispens% elP di#unde-se o uso da leitura em sil8ncio, e assim a escrita suplanta de#initi amente o primado por tanto tempo incontestado da #ala, que só oltar% a impor-se quando se der esta no a re olu+ão que os nossos olhos

estão a er, #ruto dos embates conBugados do disco, da #ita magn)tica, da r%dio e da tele isão. MA44O*, I. /ecad8ncia 4omana ou Antiguidade Tardia9 ;isboaC Aster, >?U?.

O !im do mundo antigo " uma introduç o Hue a Idade M)dia não eio a suceder-se bruscamente K Antiguidade parece-me, a priori, um #acto e idente. A própria no+ão de um per0odo interm)dio entre os tempos antigos e a )poca moderna le ou algum tempo a surgir. Entre isto tal e1 desde o s)culo N7II, só eio, contudo, a ser aceite pela ci8ncia numa data relati amente recente. /urante longo tempo, os historiadores limitaram-se a desen ol er as suas narra+5es sem se preocuparem em operar uma pontua+ão cronológica, sem sentirem necessidade de se deterem numa ou noutra pausa de primordial importJncia. Huando o conceito de medie ismo eio a impor-se K aten+ão de todos e de cada um - h% apenas um s)culo -, o dogma da e olu+ão, da trans#orma+ão lenta e continua da nature1a e da humanidade le ou ao menospre1o do problema da descontinuidade. /e tal modo que as oposi+5es cardinais entre o per0odo ao qual con )m reser ar o termo kAntiguidadel e os tempos subseqRentes teriam, sem dL ida, continuado a ser ignoradas se não hou esse a necessidade de operar adentro da narra+ão histórica, determinado tipo de demarca+5es para #ins pedagógicos. In#eli1mente, essas di is5es cronológicas para #ins escolares #oram #eitas com tão pouco tacto, ou at), por e1es, de um modo tão rid0culo, que acabaram por comprometer toda e qualquer tentati a de discrimina+ão entre a Antiguidade e a Idade M)dia. Contudo, esta separa+ão corresponde a uma realidade, e seria perigoso recusarmo-nos a oper%-la. (e ) erdade que o rio do

tempo #lui com um mo imento continuo, tamb)m ) erdade que a elocidade do seu curso nem sempre ) igualC ora diminui ao ponto de o seu mo imento ser quase impercept0 el, parecendo ser poss0 el resumir em algumas p%ginas a narra+ão de %rios s)culos, ora a oluma desmesuradamente o seu caudal, #er ilha e desaparece ao longe, obrigando o historiador, como que esmagado pela abundJncia dos #actos que, r%pidos, #luem em tumultuoso cachão, a ter de passar toda uma ida ocupado em tra+ar o quadro de umas quantas Bornadas re olucion%rias. Ao longo da história da humanidade, h% certos per0odos em que o homem B% não compreende os seus antepassados, a come+ar pelo próprio pai. ,arece ha er como que uma ruptura de continuidade psicológica. *m contemporJneo de ()ptimo (e ero ou at) mesmo de /iocleciano ter-se-ia podido reconhecer num seu antepassado do tempo de Augusto. ,orque, durante esse inter alo de dois ou tr8s s)culos, o seu gosto, a sua l0ngua, a sua arte, a sua concep+ão do mundo, as suas pai"5es, não tinham so#rido mais do que algumas modi#ica+5es de contorno, sem que ti esse ha ido qualquer esbatimento da similitude intr0nseca de base. Mas, que h% de comum entre um contemporJneo de /iocleciano e um contemporJneo do rei /agoberto9 O mundo que os homens do s)culo 7II 8m a contemplar ) totalmente di#erente daquele que os homens do s)culo m ou do s)culo I7 ti eram ocasião de erC o Imp)rio 4omano B% não e"iste, sal o no Oriente, mas sob uma #orma que B% nada tem de latinoP no as na+5es o in adiram, estando elas mesmas, por seu turno, amea+adas por outros po os, ainda mais #ero1es e estranhosP no as l0nguas, no as leis, no os h%bitos ieram a impor-se. E, principalmente no caso do mundo interior, hou e uma total re#ormula+ão i encial. O homem passou a des iar-se com indi#eren+a ou repulsa dos obBectos mais queridos aos seus mais pró"imos antepassadosC B% não compreende a literatura antiga, porque B% não a amaP a própria #orma que lhe ser e de eiculo, a l0ngua, ) algo que lhe escapaP as mara ilhosas artes pl%sticas dei"aram de o encantar. Os deuses ieram a morrer Ks mãos do /eus Lnico, cuBos mandamentos imp5em uma regra de

ida de tal modo ino adora que dora ante o mundo terreno passar% para segundo planoP o s%bio imbu0do da kno a #iloso#ial ir% passar a situar o obBecto dos seus deseBos no dom0nio do al)m. Entre o homem dos no os tempos e o homem dos tempos antigos B% não ha er% mais lugar para um pensamento comum. (eguir, tal como seria con eniente, a cur a e oluti a de uma tão completa trans#orma+ão da psicologia humana e"igiria o recurso a testemunhos preciosos, delicados, abundantes. In#eli1mente, a nossa documenta+ão ) indigente, #ragment%ria, incerta. Colocado perante o kmais di#0cil dos problemas da histórial, o historiador sente-se dolorosamente aqu)m da tare#a a cumprir. A #im de não acabar por ir a renunciar, a #im de poder triun#ar dos seus escrLpulos, quando não mesmo da (uas angLstias, tem de nunca se esquecer da importJncia do #im prosseguido, assim como de que nunca ) ben)#ico que um e"cesso de humildade enha a impedirnos de ser ir o culto. `...a ;OT, :erdinand O :im do Mundo Antigo e o princ0pio da Idade M)dia. ;isboaC Ed.UF, >?TE <original, >?@A=

Conclusões Huando a unidade romana se des#e1 no Ocidente, ha ia duas #órmulas politicas poss0 eis caso se quisesse e itar que o mundo so+obrasse na barb%rieC a reconstitui+ão do Imp)rio ou o estabelecimento de um modus i endi entre os 4omanos e os -%rbaros instalados no seu território. Sustiniano Bulgou-se K altura de reconstituir a unidade romana. ,Ode recuperar a A#rica e, ainda que a muito custo, a It%lia, seguindo-se-lhe algumas parcelas da Espanha. A M%lia, contudo, encontra a-se #ora do seu alcance e sem esta não era i% el qualquer reconstru+ão no Ocidente. A reconquista não correspondia, de modo algum, a um deseBo e"presso dos romanos

do Ocidente. As popula+5es não chamaram os romanos do Oriente, que, tanto pelo esp0rito como pela lingua e pelos costumes, lhes eram B% estranhos. A situa+ão de Constantinopla era demasiado e"c8ntrica para lhe permitir dominar o conBunto do MediterrJneo. -em #eitas as contas, a obra de Sustiniano re ela-se arcaica, arti#icial, mal#a1eBa, pois eio a ter por resultado dei"ar a It%lia sem de#esa contra os Mermanos do /anLbio e acabar por entregar a \#rica nas mãos dos semi-sel agens berberes. Mas uma outra ia #ora B% tra+ada pelos próprios acontecimentos. /esde os anos de DUT e GFU que se tornara e idente que 4oma, não só B% não podia continuar a repelir o mundo b%rbaro das suas #ronteiras, como tamb)m que B% não tinha meios para conseguir assimilar, romani1ar, as inLmeras hordas que se iam instalando no seu solo. Não obstante, at) era poss0 el chegar a um acordo com os Mermanos, particularmente com os Modos. Esses po os não pensa am, de modo algum, em destruir o mundo romano, mas sim apenas em porem-se ao seu ser i+o, ou então em i er Ks suas custas. /e #acto, a despeito de inLmeros so#rimentos de ordem indi idual, não hou e qualquer altera+ão de ordem social, qualquer golpe mortal des#erido na cultura antiga, resultante da instala+ão dos Ostrogodos na Il0ria, e, mais tarde, na It%lia, dos 7isigodos na M%lia e em Espanha, dos -orguinh5es no ale do 4ódano ou at) mesmo dos 7Jndalos na \#rica do Norte. O mundo romano só conseguira at) então subsistir K custa de uma impiedosa repressão, e esta repressão, quebrando toda a energia das popula+5es, toda a sua capacidade de resist8ncia, tornara o Imp)rio numa presa #%cil para os -%rbaros, que, por si sós, não eram nem muito numerosos, nem muito perigosos. Huando os la+os que uniam entre si as di ersas popula+5es teoricamente romani1adas, mas separadas na pr%tica pela geogra#ia, pela ra+a, pelos usos e costumes, pelas aspira+5es, se ieram a romper, não teria sido poss0 el tirar partido do #acto consumado9 Ao porem #im a uma #orma politica caduca, o Imp)rio, ser% que os -%rbaros não teriam podido ir a libertar os po os, e assim, sem o saberem nem

o quererem, lhes irem a ser indirectamente ben#a1eBos9 A It%lia, a M%lia, a Mrã--retanha, at) mesmo a \#rica do Norte, são indi idualidades geogr%#icas. Cada uma destas regi5es podia e de ia ser a sede de uma ci ili1a+ão autOnoma. A grande crise do s)culo III, ao despeda+ar em mil e um #ragmentos o mundo romano, parecera por instantes pass0 el de ir a #a orecer a constitui+ão de nacionalidades K base da cultura latina. Mas as popula+5es tinham perdido todo o sentimento nacional ou at) mesmo particularista. No seu conBunto, não passa am de simples #ragmentos que aspira am oltar a unir-se a #im de que pudesse ter lugar a reconstitui+ão do imponente conBunto do Imp)rio. /ois s)culos mais tarde, as popula+5es B% não passam de uma simples massa amor#a sem qualquer espontaneidade, radicalmente incapa1 de dirigir os seus próprios destinos. Cristali1ando aquilo que ainda pudesse subsistir de energias latentes entre os ind0genas em torno de uma dinastia b%rbara, teria sido poss0 el oltar a dar a estes paises, esmagados sob a uni#ormidade romana, uma #igura pessoal e uma ida original. Na erdade, #oi isto o que se passou em Espanha, mesmo a despeito do obst%culo constitu0do pelo arianismo da ra+a. dominante. Em #ins do s)culo 7II, a #usão entre Modos e 3ispano-4omanos era B% bastante a an+ada, e, de todos os pontos de ista, a Espanha tendia para a unidade. E teria sido isto que certamente acabaria por suceder na A#rica Menor e na It%lia com os 7Jndalos e os Ostrogodos, se não #osse a inconsiderada empresa de Sustiniano, assim como na M%lia, se não ti esse ha ido um acidente chamado Cló is. In#eli1mente, estes Estados romano-germJnicos bem depressa ieram a re elar-se como Estados de uma grande #ragilidade. A cultura romana não #oi #a or% el aos -%rbaros. Estes limitaram-se a macaque%-la, sem nunca conseguirem ir a assimil%-la. O clima meridional contribuiu certamente para os debilitar. Eram pouco numerosos e os seus e")rcitos sempre permaneceram onde, tal

como na \#rica ou na It%lia, persistiram em constituir um grupo K parte. Huanto aos 7isigodos da M%lia e da Espanha, que se misturaram com os ind0genas, tendo-os inclusi e alistado no e")rcito, acabaram indubita elmente por ir a ser esmagados pela enorme mole destes Lltimos. :inalmente, estes po os desenrai1ados não tra1iam qualquer no a institui+ão pol0tica para al)m da reale1a. A sua coesão era unicamente de ida ao ascendente de um che#e ilustre, ao prest0gio de uma dinastia. Huando as elhas #am0lias, tidas como de ascend8ncia di ina, dos Amales e dos -altos ieram a desaparecer, isto entre os Modos, o trono passou a estar da0 em diante K merc8 de incessantes lutas pelo poder. O Estado Jndalo de \#rica, o Estado gótico de Toulouse, o Estado gótico de Toledo, sucumbiram numa só batalha. E se os Ostrogodos o#ereceram uma prolongada e tena1 resist8ncia, isso ad )m em boa parte do #acto de Sustiniano só lhes ter podido opor #or+as bastante irrisórias. Os Estados #undados pelos :rancos e pelos ;ombardos não ti eram pelo menos de in0cio - esse car%cter misto, an#0bio, dos Estados góticos. Os ;ombardos são conquistadores rudes e implac% eis, mas, entre eles, e quase de seguida, a aristocracia em a abater a monarquia. Os reis não conseguem unir toda a It%lia sob a sua autoridade, não só de ido K oposi+ão de -i1Jncio e do papado, mas tamb)m porque o seu Estado só compreende praticamente o ale do ,Y e uma parte da ToscJnia, B% que os principados lombardos do Centro e do (ul são, na realidade, independentes. A na+ão lombarda nunca #ora, numericamente #alando, um grande po o, nem na MermJnia, nem na ,anónia. Integralmente trans#eri da para a It%lia, bem depressa de e ter indo a ser absor ida pela popula+ão ind0gena. No s)culo 7III, um lombardo ) um homem que i e sob a autoridade de um pr0ncipe de origem b%rbara e con#ormemente ao direito germJnico, mas que pela l0ngua e pelo sangue B% ), muito pro a elmente, um italiano. E bastarão duas campanhas para pOr #im ao reino de ,a ia. S% imos qual o car%cter espec0#ico do Estado #ranco. A sua constitui+ão nasceu da ambi+ão de um homem. A popula+ão galo-

romana aceitou de imediato o dom0nio, ou, mais e"actamente, a preponderJncia dos :rancos. O centro do poder bem depressa em a ser trans#erido para território romano. Contudo, possui na sua rectaguarda, e ) precisamente isso que #alta ao Estado lombardo, #ortes reser as germJnicas, no Escaut, no bai"o Mosa, no Mosela, no 4ena. Os :rancos conser arão a sua indi idualidade no meio da popula+ão ind0gena. 7irão mesmo a impor-se-lhe pelo seu prest0gio. A partir de in0cios do s)culo 7I, eles constituem a mais tem0 el pot8ncia da Europa Ocidental, indo a dominar a M%lia, quase toda a MermJnia, e, ainda que só momentaneamente, o Norte da It%lia. Mas tamb)m entre eles a Lnica institui+ão e"istente ) a reale1a. E esta em a entrar em decad8ncia em #ins do s)culo 7I. No s)culo 7II, a. aristocracia sobrep5e-se-lhe. Apenas a institui+ão do mordomo-mor do pal%cio, aut8ntico ice-rei, impede o Estado de entrar em total desagrega+ão. *ma #am0lia h%bil e ambiciosa da Austr%sia consegue mesmo ir a reconstituir a unidade do 4egnum :rancorum, a#astando os seus ri ais da N8ustria e da -orgonha e passando, depois, a reinar sob o nome do Mero 0ngio degenerado. Mas, no princ0pio do s)culo 7II, parece que esta casa ir%, por seu turno, desaparecer. E se não #osse o aparecimento de um no o Cló is, Charles Martel, o Estado #ranco acabaria por perecer sob os golpes dos germanos pagãos, por um lado, e dos mu+ulmanos da Espanha, por outro. No s)culo 7III, a derrocada ), portanto, geral. Os Estados mais germJnicos, dos :rancos e dos ;ombardos parecem ser tão ruinosos como os Estados romano-germJnicos dos Modos. A entrada dos -%rbaros no mundo romano, seBa qual a #orma sob que tenha tido lugar, não conseguiu, pois, nem regenerar o mundo antigo, nem ir a substituir-lhe no as e melhores #ormas pol0ticas. A regenera+ão pelos -%rbaros ) uma tese a priori sedutora. Mas, após termos tido ocasião de entre er, pelos te"tos de então, a medonha corrup+ão desses tempos, ) imposs0 el er numa tal tese outra coisa para al)m de um simples tema retórica de declama+ão.

As monarquias #ranca, isigótica, ostrogótica, lombarda, são outras tantas -i1Jncio germJnicas, alian+a da decrepitude com a barb%rie. (emelhantes Estados, sem #rescura, sem quaisquer irtudes puri#icadoras, não eram i% eis ou mais não podiam do que limitarse a arrastar uma e"ist8ncia miser% el. Nenhuma #or+a ital contribuiu para os reanimar, uma e1 passado o per0odo guerreiro da sua constitui+ão. Huanto K IgreBa católica, eio a re elar-se impotente para melhorar, por pouco que #osse, as no as sociedades. Tamb)m neste caso a #al8ncia #oi total. Z margem destes Estados, os Mermanos ieram a #undar alguns outros totalmente b%rbaros, em territórios que outrora #oram romanos, entre o curso superior do /anLbio e os Alpes, assim como na Mrã--retanha. Não h% tempo nem moti o para neles nos determosC os ducados da AlamJnia e da -a iera so#reram a in#lu8ncia dos :rancos, acabando por serem quase que um ane"o do seu 4egnum. Na grande ilha, Anglos, Sutas e (a"5es procederam K mais impiedosa das conquistas, #a1endo desaparecer, tanto quanto lhes #oi poss0 el, toda e qualquer lembran+a da passagem de 4oma. A história dos seus pequenos reinos e das suas inLmeras #ragmenta+5es não tem nada que seBa digno do nosso interesse. Tal como os Estados mistos romano-germJnicos, tamb)m os Estados inteiramente germJnicos não denotam, neste per0odo histórico, quaisquer progressos apreci% eis na marcha da humanidade. Contudo, no as #or+as tinham nascido ou esta am em ias de nascer, sendo a elas que o #uturo esta a reser adoC o Islão, cuBo prodigioso sucesso tem algo de milagrosoP o papado, que iria tomar nas mãos a direc+ão da IgreBa e tentar dominar a sociedade ci ilP e, #inalmente, a assalidade, g)rmen orgJnico do regime #eudal, que ir% a encarnar a ida da Europa Ocidental durante longos e longos s)culos. E ) com estas #or+as que tem realmente in0cio a Idade M)dia.

;OT, :erdinand O :im do Mundo Antigo e o princ0pio da Idade M)dia. ;isboaC Ed.UF, >?TE <original, >?@A=.

O !im do #undo Cl$ssico Ocupamo-nos, neste li ro, da e olu+ão da sociedade e da cultura. Hueremos que o leitor saiba como, quando e porque ) que o Lltimo per0odo do mundo antigo <de @FF a UFF, sensi elmente= di#ere da ci ili1a+ão &cl%ssica', porque ) que as grandes trans#orma+5es do per0odo determinaram, por sua e1, a e olu+ão da Europa do Ocidente ao ;e ante. O estudo deste per0odo obrigam-nos a obser ar constantemente as tens5es entre as mudan+as e a continuidade no caracter0stico mundo que cerca o mediterrJneo. ,or outro lado, ) então que algumas elhas institui+5es <cuBa aus8ncia pareceria quase imposs0 el a um homem, cerca de @EF= desaparecem irre oga elmente. Em GUA, cai o imp)rio romano do ocidenteP em AEE, desaparece do oriente o imp)rio persa. [ #%cil escre er acerca do termo do mundo antigo como se tratasse da melancólica história do &decl0nio e queda'C do #im do imp)rio romano, isto do ocidenteP do #im do imp)rio persa, isto do islã. Espantam-nos, por outro lado, as no idades do come+o deste per0odoC por que se torna cristã a Europa, e o oriente se torna mu+ulmanoP por que se mostra dotado de qualidades &contemporJneas' a no a arte abstrata desta )pocaP por que nos surpreendem os escritos de homens como ,lotino e Agostinho, quando eri#icamos que <como se se tratasse de uma estranha sin#onia= tantos europeus sens0 eis se consideram &modernos'. Huando nos ocupamos do ultimo per0odo do mundo antigo, emonos entre a contempla+ão saudosa das elhas ru0nas e as aclama+5es esperan+osas de um mundo no o. O que, muitas e1es, não conseguimos descobrir ) o que tinha condi+5es de ida. Como muitos dos que assistiram Ks mudan+as de que tratamos, ora nos

sentimos e"tremamente conser adores, ora histericamente radicais. *m senador romano pede escre er como se ainda i esse no tempo de Augusto, e er, ao acordar, como aconteceu a muitos, no #im do s)culo , que B% não h% imperadores romanos na it%lia. *m bispo cristão, por sua e1, pode aplaudir os desastres das in as5es b%rbaras, por ha erem des iado, irre ogK elmente, os homens da ci ili1a+ão terrena para a Serusal)m celestial, ser ido ainda por um latim ou um grego inconscientemente modelado nos cl%ssicos, e adoptar atitudes, preconceitos e procedimentos que o mostram enrai1ado em TFF anos de ida mediterrJnica. Como apro eitar um grande passado sem uma modi#ica+ão aniquiladoraP como mudar sem destruir as ra01esP e, sobretudo, como proceder, com desconhecidos pelo meio, com homens postos de lado por uma sociedade aristocr%tica tradicional, pensamentos pri ados de e"pressão por uma cultura rotineira, necessidades alheadas de uma religião con encional, estrangeiros de paragens distantes - tais são os problemas que toda a sociedade ci ili1ada se 8 obrigada a de#rontar. Eram particularmente gra es no Lltimo per0odo da história antiga. Custa-me a conceber um leitor tão indi#erente ao classicismo grego ou romano, tão indi#erente K ac+ão do cristianismo, que não deseBe ter uma ideia do #im do Mundo Antigo, que não pretenda er as trans#orma+5es radicais, de um lado, a itória sobre o paganismo, do outro. /e o, no entanto, esclarecer que, atendo-me K realidade, considerei, especialmente, a maneira como os homens do #im da Antiguidade en#rentaram o problema da mudan+a. O Imp)rio 4omano abrangia um território e"tenso e ariado. As metamor#oses que e"perimentou neste per0odo #oram numerosas e comple"as. 7ão das classes e das modi#ica+5es claras, bem documentadas, tais como as repercuss5es da guerra e do aumento dos impostos sobre a sociedade dos s)culos III e I7, as acti idades re#erentes Ks rela+5es do homem consigo próprio e com o seu pró"imo. Creio que o leitor não dei"ar%, pois, de concordar comigo se come+ar a primeira parte deste li ro com tr8s cap0tulos

destinados a tra+ar um esbo+o das modi#ica+5es da ida pLblica do Imp)rio, entre @FF e GFF, e a analisar, em seguida, as trans#orma+5es religiosas, menos pLblicas, mas igualmente decisi as, le adas a e#eito durante o no o per0odo. :i1 o poss0 el, sempre que me pareceu indicado, por relacionar a e olu+ão social e económica com o desen ol imento religioso do tempo. /urante este per0odo, o MediterrJneo e a MesopotJmia são os principais teatros da mudan+a. O mundo dos b%rbaros do Norte mant)m-se peri#)rico a estas %reas. A -retanha, a M%lia (etentrional e as pro 0ncias danubianas, após as in as5es esla as do #im do s)culo 7I, não são abrangidas pelo meu estudo. Trato especialmente do MediterrJneo Oriental. O meu relato tem, naturalmente, mais em ista a -agdade de 3%rune Arra"ide do que a Ai"-la-Chapelle do seu contemporJneo Carlos Magno. Espero que o leitor <mspecialmente o medie alista habituado a obser ar a #orma+ão da sociedade ocidental pós-romJnica= me desculpe a escolha desta %rea. ,ara a Europa Ocidental tem B% guias s)rios, aos quais todos estamos igualmente gratos. Não ) l0cito negar a e"ist8ncia de la+os estreitos entre a re olu+ão social e a re olu+ão espiritual do Lltimo per0odo da Antiguidade. Tão 0ntimos são que não podem redu1ir-se a uma rela+ãojsuper#icial de kcausa e e#eitol. [ #requente o historiador di1er apenas que determinadas modi#ica+5es coincidem de certa maneira, que determinada personalidade não pode compreender-se sem re#er8ncia a outra. A história do #im do Mundo Antigo, isto ), a história dos imperadores e b%rbaros, soldados, propriet%rios, publicanos, dar-nos-ia apenas um quadro descolorido e mentiroso da importJncia da )pocaC o mesmo sucederia se 0ssemos apenas os humildes, os monges, os m0sticos, os teólogos do tempo. Huero que o leitor decida por si mesmo se a minha e"posi+ão o le ou a compreender como tantas e ariadas mudan+as ieram a moldar um per0odo distinto da ci ili1a+ão europeia - o #im do Mundo Antigo. O rigor deste li ro de e muito a :ilipe 4ousseau, cuBo cuidado

ultrapassou, como de costume, a simples eri#ica+ão das datas e cita+5es. ,ara a sua conclusão contribuiu grandemente minha mulher, cuBa curiosidade e conhecimentos históricos ti e a #elicidade de compartilhar longamente.

A( :4ONTEI4A( /O M*N/O C;\((ICO &7i emos K olta do mar como o ne oeiro K olta de um lago', di1ia (ócrates aos seus amigos de Atenas. (ete s)culos depois, por alturas do ano @FF, o mundo cl%ssico mantinha-se #i"ado K olta do &lago', continua a preso Ks costas do MediterrJneo. Os centros da Europa moderna #icaram muito para Norte e Ocidente do mundo dos homens antigos. ,ara estes, alcan+ar o 4eno era chegar a kmeio caminho dos b%rbaros'P um homem t0pico do (ul transporta a esposa, que #alecera, de Tr) eros para ,a ia, a #im de poder sepult%-la Bunto dos antepassados. *m senador grego da \sia Menor, nomeado go ernador nas margens do /anLbio, quei"a-se, nestes termosC &O( habitantes...le am a ida mais miser% el da humanidadeP não sabem culti ar a oli eira nem bebem inho'. O Imp)rio 4omano ha ia-se estendido at) onde lhe parecera necess%rio, no tempo da 4epLblica e durante o ,rincipado, para amparar e enriquecer o mundo cl%ssico, erguido K olta das costas do mediterrJneo ha ia mais de quatro s)culos. O que nos espanta ) a e"traordin%ria mar) de ida mediterrJnea deste imp)rio, durante o seu apogeu, no s)culo III. A an+a pela terra dentro at) uma distJncia nunca at) então atingida, especialmente na A#rica do Norte e no ,ró"imo Oriente. ,or algum tempo ) igual o rancho militar preparado na It%lia e em #rente dos MrJmpios, na EscAcia. Sunto dos montes 3odna, onde hoBe são os ermos territórios do (ul da Arg)lia, le antam-se grandes cidades, como Timgad, com o seu an#iteatro, biblioteca, est%tuas dos #ilóso#os cl%ssicos. Na )idade de /ura-Europos, nas margens do Eu#rates, a guarni+ão obser a o mesmo calend%rio das #esti idades de 4oma. O derradeiro Mundo Antigo herda este e"traordin%rio legado. Como manter, atra )s de

tão asto imp)rio, um estilo de ida e de cultura, originKriamente baseado numa estreita linha costeira de cidades-estados, eis um dos problemas principais do per0odo compreendido entre @FF e UFF. O MediterrJneo cl%ssico ha ia sido sempre um mundo condenado K indig8ncia. [ um mar cercado por altas montanhasP as suas plan0cies #)rteis e ales #lu iais são como remendos de uma sarapilheira. Muitas das maiores cidades dos tempos cl%ssicos #ica am em pobres lugares alcantilados. Os seus habitantes iam-se obrigados a descer constantemente Ks regi5es i1inhas, em busca de alimento. /escre endo os sintomas da #alta de alimenta+ão das popula+5es destes lugares no meado do s)culo II, o /r. Malen obser aC kOs habitantes das cidades costuma am colher e enceleirar cereais su#icientes para o ano imediato K colheita. 4ecolhiam todo o trigo, ce ada, #eiB5es e lentilhas, e dei"a am os restos aos camponeses.l 7ista a esta lu1, a história do Imp)rio 4omano ) a história da maneira como de1 por cento da popula+ão <que i ia nas cidades e dei"ou a sua marca na ci ili1a+ão europeia= se alimenta a da #orma sum%ria indicada por Ma>en, K custa do trabalho dos restantes no enta por cento que trabalha am a terra. O alimento era a rique1a mais preciosa do mundo mediterrJnico. Implica a o transporte. ,oucas das grandes cidades do Imp)rio 4omano dispunham, nos arredores, de terras que pudessem satis#a1er as suas necessidades alimentares. 4oma dependeuD durante muitos anosD da grande #rota anual da \#rica. /urante o s)culo 7ID Constantinopla recebiaD anualmente, >UE @FF toneladas de cereais do Egipto. A %gua #oi, nos primeiros sistemas de transporte, o que #oram os caminhos de #erro nos transportes modernos - a art)ria indispens% el dos transportes pesados. ;ogo que um carregamento dei"a as %guas do MediterrJneo ou de um grande rio, ao mo imento r%pido e seguro sucede a morosidade ruinosa. :ica mais barato le ar um carregamento de trigo de uma e"tremidade do MediterrJneo K outra do que transport%-la por terra at) K distJncia

de @UE quilómetros. O Imp)rio 4omano #oi sempre #ormado por dois mundos. At) UFF, as grandes cidades mar0timas não estão a grandes distJncias umas das outrasP em inte dias de boa na ega+ão, um iaBante ai de um canto a outro do MediterrJneo, o centro do mundo romano. Em terra, por)m, a ida romana tende sempre a concentrar-se em pequenos o%sis, semelhantes a gotas de %gua numa plan0cie ressequida. Eram #amosas as estradas romanas que corriam atra )s do Imp)rioP mas atra essa am cidades cuBos habitantes obtinham tudo o que comiam, e a maior parte do que usa am, dentro de um raio de uns >DF quilómetros. Era no interior, nas terras que ladea am as grandes ias, que as enormes despesas do Imp)rio se torna am mais pesadas. O Imp)rio 4omano #a1ia um es#or+o consider% el para manter a sua unidade. (oldados, administradores, correios, au"iliares, isita am constantemente as pro 0ncias. 7isto pelos imperadores em @FF, o mundo romano parece uma rede] de caminhos, interrompidos por postos, ocupados por pequenas comunidades, que cobram os impostos em alimentos, estu%rio, animais, e recrutam a mão-deobra e"igida pelas necessidades da corte e do e")rcito. Esta rude m%quina era ser ida, obrigatoriamente, por muitos homens. A iol8ncia não representa a uma no idade. Era tão elha como a ci ili1a+ão, em certos lugares. Na ,alestina, por e"emplo, Cristo ensinara aos seus ou intes como de iam proceder quando um #uncion%rio kos requisitasse para o acompanhar <carregando a sua bagagem= durante uma milhal. A pala ra &requisi+ão' não era, originKriamente, uma pala ra gregaP deri a a do persa, tinha mais de EFF anos de idade, remonta a ao tempo em que os Aquem)nidas ha iam aberto as #amosas estradas do seu asto imp)rio= empregando os mesmos duros m)todos. O Imp)rio 4omano, que, perigosamente, se estendera at) tão longe

do MediterrJneo no ano @FF, conser a a-se unido de ido K ilusão de que era ainda muito pequeno. 4aramente se iu um imp)rio tão dependente como este da delicada per0cia dos go ernantes. Neste momento, preside aos seus destinos uma estranha aristocracia, unida pela mesma cultura, gosto e linguagem. No Ocidente, a classe senatorial continua a ser um escol tena1 e absor ente, que domina na It%lia, \#rica, :ran+a do (ul, ales do Ebro e do Muadalqui ir. No Oriente, a cultura e o poder local concentram-se nas mãos das orgulhosas oligarquias das cidades. Atra )s do mundo hel)nico, di#eren+a alguma, no ocabul%rio e na pronLncia, denuncia o lugar de nascimento dos habitantes. No mundo ocidental, os aristocratas bilingues passam, inconscientemente, do latim para o grego. *m natural da \#rica sente-se K ontade num salon liter%rio de Esmirna, #requentado por gregos educados. Esta espantosa uni#ormidade era mantida por homens que sentiam obscuramente que a sua cultura cl%ssica se destina a a e"cluir as alternati as do seu próprio mundo. Como muitas aristocracias cosmopolitas - como as dinastias do #im da Europa #eudal ou os aristocratas do Imp)rio Austro-3Lngaro -, os homens da mesma classe e cultura sentiam-se, em qualquer parte do mundo romano, mais unidos uns aos outros do que com a maioria dos camponeses ksubdesen ol idos, seus i1inhos. Os kb%rbarosl e"ercem uma pressão silenciosa e persistente sobre a cultura do Imp)rio 4omano. k-%rbarosl não eram apenas os primiti os de al)m-#ronteirasP cerca de @FF, estes kb%rbarosl ha iam-se Buntado aos habitantes do interior do Imp)rio. Os aristocratas passam de um lugar para outro, administram a Busti+a, #alam a mesma l0ngua, obser am os mesmos ritos, desempenham os modos de ida de todos os homens educados. A estes costumes só se mant8m alheios os territórios habitados por certas tribos aliadas da MermJnia ou da ,)rsia. Na M%lia, os camponeses ainda #alam o c)lticoP na \#rica do Norte, o pLnico ou o l0bioP na \sia Menor, antigos dialeetos, como o licaónio, o #r0gio, o capadócio ou o sir0aco e o aramaico, na (0ria. 7i endo lado a lado com o imenso mundo kb%rbarol, as classes

go ernamentais do Imp)rio 4omano ha iam-se libertado dos] mais irulentos e"clusi ismos dos regimes coloniais modernos. Eram bastante tolerantes quanto K ra+a e religi5es locais. Mas o pre+o que e"igiam pela inclusão no seu próprio mundo era con#ormidade a adop+ão do seu estilo de ida, das suas tradi+5es, da sua educa+ão, e, ainda, das suas duas l0nguas cl%ssicas - o latim, no Ocidente, o grego, no Oriente. Os que não esta am em condi+5es de cumprir eram corridos, #rancamente despre1ados como krLsticosl e kb%rbarosl. Os que podiam participar mas não queriam - especialmente os Sudeus - eram tratados ora]2 com ódio ora com despre1o, sentimentos só ocasionalmente sua i1ados por certa curiosidade respeitosa pelos representantes da antiga ci ili1a+ão do ,ró"imo Oriente. Os que participa am uma e1 mas kdeserta aml ostensi amente - os cristãos, sobretudo - podiam ser e"ecutados sumKriamente. ,or alturas de @FF, muitos go ernadores das pro 0ncias, acompanhados pelas turbas, assinalam, em di ersos lugares, com hist)rica certe1a as #ronteiras do mundo cl%ssico, mediante persegui+5es contra os cristãos. kNão h% coisa que mais me incomode do que ou ir as pessoas di1erem mal da religião romanal, declara a um magistrado aos cristãos. A sociedade cl%ssica de cerca de @FF era uma sociedade de #ronteiras #irmes, mas não estagnante. No mundo grego, a tradi+ão cl%ssica B% tinha mais de UFF anos. A sua primeira erup+ão criadora, em Atenas, B% não sedu1ia de maneira tão #orte como nos tempos das conquistas de Ale"andre MagnoP adoptara um ritmo de sobre i 8ncia, rico de cambiantes delicados, de repeti+5es pacientes, como no canto chão. /era-se um prometedor renascimento no s)culo lI. Coincidira com a re i esc8ncia da ida econOmica e a iniciati a pol0tica das classes superiores das cidades hel)nicas. Na )poca dos Antoninos assiste-se ao apogeu dos so#istas gregos. Estes homens, apai"onados pela retórica, eram, ao mesmo tempo, le5es liter%rios do tempo e grandes rica+os urbanos. /ispunham de enorme in#lu8ncia e popularidade. *m deles, ,olemo de Esmirna, considera a &reles todas as cidades, os imperadores como não sendo mais do que ele, e os deuses ...como iguais'. Atr%s

destes homens esta am as ]#lorescentes cidades do mar Egeu. As principais lembran+as cl%ssicas em [#eso e Esmirna <e, semelhantemente, as cidades e templos contemporJneos em ;)ptis Magna, na Tun0sia, e -aalbecX, no ;0bano= parecem-nos hoBe um resumo do mundo de então. Não passa am, no entanto, de simples amostras de algumas gera+5es de magni#ic8ncia barroca do per0odo que ai de Adriano <>>U->DT= a ()timo (e ero <>?D-@>>=. [ Bustamente no #im do s)culo II e come+os do I7 que a cultura grega se apresenta senhora do que #orma o lastro da tradi+ão cl%ssica atra )s da Idade M)dia. (ão compilados nesta altura as enciclop)dias e os manuais de medicina, ci8ncias naturais e astronomia que todos os homens cultos <latinos, bi1antinos, %rabes= maneBam durante os mil e quinhentos anos seguintes. Os te"tos liter%rios e as atitudes pol0ticas que se conser am no mundo grego at) ao #im da Idade M)dia surgem, primeiramente, na )poca dos Antoninos. Os senhores bi1antinos do s)culo " ainda empregam um grego %tico secreto, usado pelos so#istas do tempo de Adriano. Nesta altura, o mundo grego absor e o Imp)rio 4omano. ,odemos apreciar a identi#ica+ão com o Estado 4omano e as subtis modi#ica+5es reali1adas, obser ando um grego da -it0nia, enquadrado, como senador, na classe go ernamental- /0on C%ssio, que escre e a sua 3istória de 4oma por alturas de @@?. Apesar da maneira entusi%stica como 8 o (enado 4omano, lembra-nos constantemente que o Imp)rio se estendera aos Mregos, habituados, ha ia s)culos, a um despotismo esclarecido. O imperador romano era um autocrata. O decoro ulgar e algumas aten+5es para com as altas classes educa das eram as suas Lnicas preocupa+5es - não o delicado maquinismo da constitui+ão de Augusto. ;imita+5es #r%geis, como sabia. Assistira a uma reunião do (enado, na qual um astrólogo acusara certos kcal osl de conspirarem contra o imperador, le ando, instinti amente, a mão ao alto da cabe+a. Mas aceita a a rude lei de um homem destinado a dar-lhe um mundo ordenado. (ó o imperador podia suprimir a guerra ci ilP só ele podia pOr termo Ks contendas das #ac+5es, nas

cidades gregasP só ele podia tornar a sua classe #irme e respeitada. Os escolares bi1antinos que, s)culos depois, procuram conhecer a história de 4oma atra )s de /0on, 8em-se sem esperan+a, #rente ao mar, quando l8em os #eitos dos heróis da )poca da 4epLblicaP mas compreendem per#eitamente os #ortes e s)rios imperadores do tempo de /0on, porque a história de 4oma ) B% a história de uma Mr)cia do #im do s)culo II e come+os do s)culo I7, isto ), a sua história. /%-se uma mudan+a do centro de gra idade do Imp)rio 4omano para as cidades gregas da \sia MenorP desabrocha um mandarinato grego. A própria )poca dos Antoninos inclina-se para -i1Jncio. Os homens do tempo de /0on C%ssio en#rentam, por)m, outros destinosC são #ortemente conser adoresP de em os seus maiores sucessos a uma reac+ão culturalP as #ronteiras do mundo cl%ssico são, para eles, claras e r0gidas. Mesmo -i1Jncio, mesmo a ci ili1a+ão que esta cidade poderia erguer sobre a sua elha tradi+ão, mesmo as no idades re olucion%rias, como o estabelecimento do cristianismo e a trans#orma+ão de Constantinopla em &No a 4oma' - tudo isto era inconceb0 el para homens como /0on. Esta ci ili1a+ão só pode surgir com a Lltima re olu+ão romana, nos s)culos III e I7. Este li ro tem por assunto a mudan+a e de#ini+ão das #ronteiras do mundo cl%ssico depois de @FF. ,ouco se relaciona com os problemas con encionais do decl0nio e queda do Imp)rio 4omano. O dec>0nio e queda a#ectam *nicamente a estrutura pol0tica das pro 0ncias romanas do OcidenteP dei"am incólume o centro cultural do #im da Antiguidade - o MediterrJneo Oriental e o ,ró"imo Oriente. Mesmo nos estados b%rbaros da Europa Ocidental, o Imp)rio 4omano, tal como sobre i e em Constantinopla, ) considerado, nos s)culos 7I e 7II, como o maior estado ci ili1ado do Mundo, e continua a ser chamado 4espublica. O problema que preocupa então os homens ), sobretudo, a penosa modi#ica+ão dos antigos limites. MeogrK#icamente, o Jmbito do MediterrJneo diminuiu.

/epois de G>F, #oi abandonada a -retanhaP depois de GTF, a M%lia passou a ser #irmemente dirigi da do Norte. No Oriente, parado"almente, o recuo do MediterrJneo come+ou mais cedo e mais impercepti elmente, mas de maneira decisi a. At) ao s)culo I, uma apar8ncia de ci ili1a+ão grega cobre ainda uma grande %rea do planalto iraniano. *ma arte greco-budista #loresce no A#eganistão, e as leis de um go ernante budista são acatadas #ora de Cabul, tradu1idas num impec% el grego #ilosó#ico. Em @@G, toda ia, uma #am0lia de :ars, o ktaciturno (ull do intacto patriotismo iraniano, apodera-se do go erno do Imp)rio ,ersa. Este reBu enesce, e a dinastia dos (assJnidas depressa sacode do corpo o estu%rio grego. *m imp)rio e#iciente e agressi o, dominado por uma classe superior alheia K in#lu8ncia ocidental, de#ronta o Imp)rio 4omano, na #ronteira oriental. Em @E@, @EU e, de no o, em @AF, o grande (hahnshah, o rei dos reis (hapur I, re#ere-se assim aos triun#os dos seus ca aleirosC &Naleriano C)sar eio contra nós K #rente de um e")rcito de UFF FFF homens ... tra ou-se uma grande batalha, e 7aleriano C)sar caiu-nos nas mãos ... E incendi%mos, de ast%mos, conquist%mos, as pro 0ncias da (0ria, Cilicia, Capadócia, e torn%mos cati os os seus habitantes'. O medo de repetir a e"peri8ncia inclinou a balan+a do dom0nio imperial do lado do 4eno e muito mais do lado do Eu#rates. ,ior ainda, o choque com a ,)rsia sassJnida modi#icou as #ronteiras do mundo cl%ssico no ,ró"imo OrienteP a preemin8ncia passou para a MesopotJinia, e o mundo romano #icou suBeito K in#lu8ncia da arte e da religião daquela imensa, e"ótica %rea. Nem sempre as datas con encionais são as mais decisi as. Todos sabemos que os Modos saquearam 4oma em G>F, mas as pro 0ncias perdidas do Ocidente continuaram a manter uma ksubci ili1a+ão romanal durante s)culos. ContrKriamente, quando as pro 0ncias orientais do Imp)rio passaram ao poder do Islão, em AGF, dei"aram de ser sociedades ksub-bi1antinasl e &orientali1aram-se' rKpidamente. O próprio Islão #oi arrastado para oriente das suas primeiras conquistas de ido K submissão do asto Imp)rio ,ersa. No

s)culo 7III, o MediterrJneo ) go ernado de -agdadeP torna-se um lago para os homens que esta am hC]lbituados a na egar atra )s do gol#o ,)rsico, e a corte de 3%rune Arra"ide <UTT-TF?=, com os seus pesados en#eites de ksubcultura persa'-, era uma pro a de que a irre ers0 el itória do ,ró"imo Oriente sobre os Mregos come+ara lentamente, mas com seguran+a, por alturas da re olta de :ars, em @@G. Z medida que o MediterrJneo recua, um mundo mais antigo passa a re elar-se. Os homens da -retanha adaptam os padr5es art0sticos da idade de ;a Tene. O ser o da Lltima M%lia ressuscita com o nome c)ltico de assus. Os %rbitros da piedade do mundo romano, os eremitas coptas do Egipto, restauram a l0ngua dos #araós. Os himnólogos cantam a reale1a de Cristo, ser idos por e"press5es que #a1em lembrar a )poca sum)ria. Z olta do MediterrJneo recuam mesmo as #ronteira mais a#astadas do interior. *ma outra #ace do mundo romano, que i ia desde h% muito na obscuridade, em K super#0cie, como as terras de cores di#erentes, re ol idas pela charrua. Tr8s gera+5es após /0on C%ssio, o cristianismo torna-se a religião dos imperadores. As pequenas coisas assinalam, muitas e1es, mais #ielmente as mudan+as, porque inconscientemente. Sunto de 4oma, uma o#icina de escultores do s)culo I7 continua a #ornecer est%tuas impecK elmente estidas de toga, mas os aristocratas que encomendam estas obras usam estu%rio K moda dos kb%rbarosl não mediterrJnicos - a tLnica de lã do /anLbio, a capa da M%lia do Norte, presa nos ombros por uma #0bula de #iligrana da MermJnia, mesmo as cal+as ksa"ónicasl. Em todas as 1onas do MediterrJneo, cada e1 mais pro#undamente, a #iloso#ia grega dei"a-se impregnar de no os sentimentos religiosos. Estas trans#orma+5es representam os principais temas da e olu+ão do derradeiro mundo antigo. Nos dois pró"imos cap0tulos eremos os aspectos sociais e pol0ticos da re olu+ão come+ada com estas metamor#oses no #im do s)culo III e no s)culo I7.

-4O$N, ,. O #im do Mundo cl%ssico. ;isboaC 7erbo, >?U@.

A ressureiç o do Ocidente% &'(")'( Entre a )poca de Marco Aur)lio e o meado do s)culo I7 parece que o centro de gra idade da ci ili1a+ão antiga tem por assento a costa do MediterrJneo Oriental. As pro 0ncias latinas são raramente atingidas pelas tempestades religiosas e intelectuais que assolam o mundo oriental. As ideias que descre emos nos cap0tulos precedentes são todas e"pressas, originariamente, em grego. Huando o imperador ConstJncio II em de Constantinopla para 4oma, em DEU, aparece como um conquistador que deseBa ane"ar uma região atrasada. Entra na cidade com a pompa de um roi soleil constantinopolitano e le a, com #irme1a, o 2simplório2 clero do mundo latino a katuali1ar-sel, impondo-lhe o seu credo sutil. O mundo grego considera-se sempre como dador. Amiano MarcElino, natural de Antioquia, em para 4oma, por alturas de DTE, para #alar aos ;atinos, mal in#ormados acerca de Suliano, o Apóstata, o maior e mais grego dos Lltimos imperadores. No s)culo I7, parece que a capa de T%cito só pode assentar nos ombros de um grego como Amiano. ,ara um iaBante do Oriente, pOr o p) na It%lia era entrar num outro mundo, um mundo ao mesmo tempo grandioso e raro. 23% em 4oma - escre e-se então - um senado de homens ricos ... Todos os senadores t8m compet8ncia para e"ercer cargos importantes. Mas pre#erem não o #a1er. Conser am-se li res, pre#erindo go1ar da sua #ortuna sossegadamente.2 Otium <saber desinteressado= e grandes pal%cios e moradias campestres são as caracter0sticas desta aristocracia senatorial de 4oma e das pro 0ncias latinas. Na It%lia, os grandes propriet%rios inclina am-se, ha ia muito, para uma ida particular, dedicada ostensi amente ao estudo, mas, na realidade, K protec+ão da localidade de cada um e ao con 0 io com os respecti os amigos. No s)culo I7, ha ia, espalhadas pelas suas

propriedades da EtrLria e da (icilia, muitas #am0lias para as quais a 2crisel2 do s)culo III pouco signi#icara e nada a con ersão de Constantino. A correspond8ncia de um destes senadores, (imaco <c. DDF-c. GF@=, retrata-nos a ida de um aristocrata estudioso durante a longa tarde esti al da e"ist8ncia romana. Estas cartas descre em o protocolo das reuni5es do (enado, o punctilio das cerimónias pLblicas pagãs, a pompa solene das iagens atra )s das pro 0ncias, a kcome1ainal dos Bogos do pretor, que assinalaram a estreia do #ilho de (imaco em 4oma. A minoria são cartas de recomenda+ão. Eram le adas K corte por pretendentes a empregos, demandistas, reclamantes, todos os que conheciam as rela+5es tentaculares de um italiano do mundo antigo, como (imaco. Este estilo de ida ) posto em moda pela nobre1a da M%lia e da Espanha, bem como pelos par enus das pequenas cidades da \#rica e da AquitJnia. Na sociedade ocidental do #im do s)culo I7, a aristocracia senatorial domina a paisagem como um arranha-c)us erguido no meio de cho+as. No mundo latino tamb)m a IgreBa católica tomara o se ero aspecto de uma aristocracia #echada. /urante mais tempo do que no Oriente, os cristãos latinos são uma minoria perseguida. Como muitas minorias, chegam a esta situa+ão procedendo como um escol superior. Nestas condi+5es, a IgreBa católica em a considerar-se como um grupo kseparadol do mundo. O mo imento mon%stico re#or+a este sentimento entre os cristãos latinosP e, com a con ersão de membros da aristocracia senatorial, a ideia de que #ormam um agrupamento K parte imp5e-se no #im do s)culo I7. As di#iculdades da IgreBa latina não deri am de problemas meta#isicos, como entre os bispos gregos, mas da tend8ncia para a constitui+ão de agrupamentos que quebram a unidade e procedem como con enticulos de eleitos - donatismo, em \#rica, priscilianismo, em Espanha, adeptos de ,el%gio, em 4oma. ,ertencer a um agrupamento igorosamente resol ido a manter a sua identidade contra o mundo e"terno ) um incenti o criador. A

aristocracia senatorial precisa a de manter o alto ni el de cultura que supunha di#erenci%-la das outras classes. A IgreBa católica, em contato com os mo imentos i os do pensamento e do ascetismo gregos, ansia a por conquist%-los, precisando, para isso, de boa literatura. /aqui a terceira e grande )poca da literatura latina, representada pela Lltima gera+ão do s)culo I7 e primeira d)cada do s)culo . [ neste curto per0odo que Ausónio de -ord)us <c. D>F-c. D?E= comp5e os seus poemas, re eladores de um no o sentimento romJntico da Nature1a, poemas atra )s dos quais passam os inhedos das margens do Mosela, mirando-se nas %guas do rio. Serónimo <c. DG@-G>?= gra a sat0ricas inhetas da sociedade romana cristã - retratos das en#eitadas matronas, tão atro1es como as de um Aubre6 -eardsle6, iolentas descri+5es do clero, escritas num estilo em que os ataques de Isa0as se misturam com a bai"a com)dia de Ter8ncio, numa maneira que agrada, ao mesmo tempo, a pagãos e cristãos. :i"ado, posteriormente, em -el)m, inunda o mundo latino com a erudi+ão que conquistara no contato com os Mregos e com o espantoso #eito da tradu+ão da -0blia directamente do hebreu. Ausónio e ,aulino de Nola comp5em hinos e in entam um no o estilo po)tico. Agostinho ser e-se do seu idioma latino para transmitir a lu1 da #iloso#ia grega. ;era ,lotino, pela primeira e1, em Milão <DTE=, quando ainda simples leigo em contacto com a ida cosmopolita da corte imperial. Em D?U, as suas Con#iss5es, história Lnica do cora+ão, apresentam a l0ngua latina maneBada brilhantemente por um homem cuBa sensibilidade pode combinar, com igual mestria, 7irg0lio, ,lotino e os r0tmicos salmos. Com a estudada descon#ian+a de todos os senadores, escre endo ostensi amente apenas para entreter os seus amigos, (ulp0cio (e ero &dei"a correr' uma 7ida de (. Martinho que se torna o modelo de todas as #uturas hagiogra#ias latinas. Huando, posteriormente, no #im do s)culo I7, Claudiano, grego de Ale"andria, em procurar a #ortuna na It%lia, encontra, em 4oma e Milão, c0rculos onde pode aprender um latim per#eito e protectores que comunicam ao Bo em grego o seu próprio entusiasmo pelo latim e

pela cidade de 4oma. Ao mesmo tempo, Agostinho escre e um grande li ro, /a Trindade, no qual mostra a possibilidade de um latino encontrar originalidade #ilosó#ica superior a qualquer contemporJneo grego. O ocidente latino alcan+ara a sua própria personalidade. /uas gera+5es depois o Imp)rio do Ocidente desaparece. Os bisnetos dos aristocratas que ha iam #eito o renascimento do s)culo I7 caem sob o dom0nio dos reis b%rbaros. O Ocidente, di1 um obser ador oriental, torna-se um caos. A impossibilidade de os imperadores do Ocidente se de#enderem do peso dos ataques b%rbaros depois de GFF e, quando atacados, de reconquistarem os territórios perdidos pode atribuir-se #undamentalmente K #raque1a económica e social desta parte do Imp)rio. ,ara os contemporJneos, a #al8ncia dos imperadores do Ocidente, no s)culo , #oi a crise mais impre ista do Estado 4omano. Os imperadores não eram historiadores económicos, mas sim soldados. ,ara eles, era a"iom%tico que as pro 0ncias setentrionais do mundo latino, M%lia do Norte e /anLbio, eram reser atórios inesgot% eis de poder humano. Os soldados latinos dominam o mundo b%rbaro, de Tr) eros ao Tomi, durante todo o s)culo I7. ,ara os soldados de #ala latina, entre os quais são recrutados os imperadores, era o Oriente, com as suas aidosas cidades e os seus camponeses pac0#icos, que parecia a parte mais #raca do Imp)rio.

As ra15es do colapso do go erno imperial no Ocidente não são simples. Aos moti os de ordem moral acrescem os de ordem económica e social. A ca usa mais importante da decad8ncia do go erno imperial, entre DTF e G>F, #oi tal e1 o #acto de a aristocracia senatorial e a IgreBa católica - os dois agrupamentos principais do mundo latino - se ha erem alheado da sorte do e")rcito romano, que os de#endia. Ambos estes grupos destroem inconscientemente a #or+a do e")rcito e da administra+ão imperial. Tendo cortado as pernas aos seus protetores, eri#icam, com surpresa, que nada podem #a1er sem eles. [ uma heran+a ines-

perada do renascimento que descre emos. O desaparecimento do Imp)rio do Ocidente era, desta maneira, o pre+o da sobre i 8ncia do (enado e da IgreBa católica. At) DUE, o e")rcito romano contata com a ida da corte nas grandes resid8ncias militares de Tr) eros, Milão e (0rmio, onde a sociedade do Ocidente #orma uma tena1 de #erro. Nesta altura era ainda poss0 el a um soldado como Amiano Marcelino trilhar as grandes ias militares que liga am Tr) eros ao Eu#rates, #alando o #%cil latim dos acampamentosP atra essar sem e"plica+5es as #ronteiras que a #antasia da popula+ão ci il do MediterrJneo alargara desmedidamenteP entrar em contacto com o#iciais de nascimento romano e germJnico, latinos e gregos, pagãos e cristãos. /e DAG a DUE, um se ero panónio, 7alentiniano I, go erna com #irme1a o Ocidente, da sua #ronteira setentrional. Os seus administradores pro#issionais são odiados e temidos pelo (enado e, apesar de cristão, e ita, inteligentemente, a intolerJncia dos bispos católicos. [ o Lltimo grande imperador do Ocidente. Os acontecimentos que se seguem K sua morte in alidam o esprit de corps pro#issional da burocracia imperial. A administra+ão cai nas mãos da aristocracia senatorial com e"traordin%ria rapide1 e tenacidade. O imperador Teodósio I <DU?-D?E=, homem #raco e propriet%rio como eles, abre a corte aos aristocratas e bispos católicos. No tempo de 3onório <D?E-G@D= e, depois, de 7alentiniano I7 <G@E-GEE=, os cargos mais ele ados tornam-se apan%gio irtual da nobre1a da M%lia e da It%lia. Os senadores do s)culo não podem ser acusados de ha er dei"ado de participar na ida pol0tica do Imp)rio Adaptam a m%quina go ernamental ao seu modo de ida - um modo de ida que 8 a pol0tica com hesita+ão estudada e a administra+ão como a oportunidade de ser ir os amigos. O amadorismo, a itória dos direitos adquiridos, istas curtas, eis o que caracteri1a o go erno aristocr%tico do Imp)rio do Ocidente, no come+o do s)culo . Mas trata a-se, pelo menos, do seu próprio Imp)rio 4omano. Mrupo algum de romanos ideali1ara Bamais 4oma tão entusiKsti-

camente. como os poetas e oradores do #im do s)culo I7 e come+os do s)culo . O mito de 4oma, que ha ia de obcecar os homens da Idade M)dia e do 4enascimento - 4oma aeterna, 4oma concebida como o cl0ma" da ci ili1a+ão, destinado a continuar para sempre -, não #oi criado pelos homens do Imp)rio 4omano cl%ssicoP #oi um legado directo do #orte patriotismo do mundo latino do #im do s)culo I7. No entanto, na sociedade ocidental, esta onda de patriotismo di ide os homens leais, em e1 de os unir. Os patriotas mais entusiastas do #im do s)culo I7 são teimosamente pagãos. (0maco, por e"emplo, ama 4oma como uma cidade santa. /aqui os ritos pagãos que acompanham a ida do Imp)rio at) DT@ <quando o imperador Mraciano kdesligal as estais e retira do (enado o altar pagão=. ,osteriormente, (0maco pede %rias e1es aos imperadores cristãos para continuarem a manter a t%cita concordata em irtude da qual 4oma se considera a um o%sis pri ilegiado do paganismo como um 7aticano pagão. Os bispos Católicos combatem #ortemente esta pretensão. O kmito de 4omal continua a se discutido nos meios cristãos, desde as cartas de Ambrósio, em resposta ao pedido de (0maco, em DTG, K monumental Cidade de /eus, de Agostinho, come+ada em G>D. Neste pleito, a situa+ão de 4oma não passa de condicional. A maioria dos leigos cristãos concordam com (0maco. 4oma, di1em, era, sem dL ida, uma cidade santa, e o Imp)rio 4omano go1a a de especial protec+ão di ina, mas isto de ido ao #acto de os corpos dos apóstolos ,edro e ,aulo estarem na colina do 7aticano. A ideologia dos papas do #im do s)culo I7 e o culto de (. ,edro na Europa Ocidental de em muito K conhecida ri alidade com os pagãos de#ensores do mito de 4oma. (0maco, parado"almente, ) um inconsciente arquitecto do papado medie al. Mas mesmo o mais entusi%stico patriota cristão tem de admitir que o culto de 4oma de (. ,edro era, em parte, como que uma tentati a de agarrar um #antasma. Os Lltimos pagãos de 4oma lembra am aos cristãos, no momento e"tremo, o 0mpio passado

pagão do Imp)rio. Associa am o mito de 4oma aeterna a sinistras lembran+as. ,or toda a Idade M)dia, K super#0cie da cidade santa de (. ,edro, espreita sempre, como mancha indel) el da imagina+ão cristã, a ideia de que 4oma #ora a kcidade do demóniol. Em Constantinopla, ia-se o Imp)rio 4omano, sem qualquer dL ida, como um imp)rio cristão. Em contraste com isto, o mais que os bispos do Ocidente medie al podiam #a1er era e ocar a p%lida sombra clerical de um ksantol Imp)rio 4omano. A sociedade das pro 0ncias ocidentais do Imp)rio 4omano esta a #ragmentada. No #im do s)culo I7, as #ronteiras solidi#icam-se, e um #orte sentimento de identidade le a a uma intolerJncia mais dura do e"terior. Os senadores, que ha iam participado num renas cimento impressionante dos altos modelos da literatura latina, re elam pouca ontade de suportar o kb%rbarol. Os bispos, que podiam angloriar-se de terem por colegas Ambrósio, Serónimo e Agostinho, mostra am-se pouco inclinados a tolerar os estranhos K IgreBa católica. O resultado #oi as tribos b%rbaras entrarem numa sociedade que não era su#icientemente #orte para as conser ar K margem nem bastante #le"0 el para kmanter os seus conquistadores cati osl, mediante a sua absor+ão na ida romana. Eis o signi#icado das chamadas kin as5es b%rbarasl do come+o do s)culo . Estas in as5es não são mo imentos cont0nuos e destruidores, mas sim campanhas organi1adas para a conquista, ou, antes, uma esp)cie de kcorridas ao ourol de emigrantes dos pa0ses subdesen ol idos do Norte em direc+ão Ks terras ricas do MediterrJneo. Os b%rbaros são ulner% eis. ,odem ganhar batalhas, de ido ao nLmero e capacidade militar, mas não sabem ganhar a pa1. Os 7isigodos atra essam a #ronteira do /anLbio em DUA e caminham sobre a It%lia, em GF@, comandados por Alarico, seu rei. Os andalos entram na M%lia e na Espanha em GFA-GF?. Os -orguinh5es #i"am-se no ale do m)dio 4ódano depois de GDF. Estes triun#os são impressionantes e totalmente inesperados. As tribos conquistadoras

eram inimigas umas das outras e mostra am-se di ididas. Em cada uma domina a uma aristocracia guerreira bastante estranha aos gostos e ambi+5es da sua classe e condi+ão. Esta aristocracia mostra a-se disposta a abandonar os seus ksubdesen ol idosl companheiros tribais e a troc%-las pelo prest0gio e lu"o da sociedade romana. Teodorico, rei dos Ostrogodos <G?D-E@A=, costuma a di1erC k*m godo esperto deseBa parecer-se com um romanoP só um pobre romano pode deseBar parecer-se com um godo.l Nas regi5es dos -alcãs, go ernadas pela corte de Constantinopla, são sucessi amente aplicadas as li+5es aprendidas pelos dirigentes militares romanos no s)culo I7. *ma Budiciosa combina+ão de #or+as, adaptabilidade e pesados impostos neutrali1a os e#eitos da imigra+ão isigótica. A aristocracia guerreira isigoda ) &integrada', mediante a ocupa+ão de postos de comando superior ou o desempenho de tare#as diplom%ticas ao ser i+o do Oriente romano. Huando Alarico ) corrido dos -alcãs para Ocidente, en#renta uma sociedade sem #or+as nem habilidade. Os senadores 8em-se obrigados a pagar os impostos ou a #ornecer soldados para o e")rcito romano. Huando, em GFT, são con idados a pagar uma diplomacia baseada nos subs0dios a Alarico, a #im de esconder a sua #raque1a militar, o (enado reBeita a proposta, por lhe parecer que cheira a kapa1iguamentol dos despre1ados -%rbaros. kIsto ) um contrato de escra os, não um subs0dio. Nobres pala rasP mas, dois anos depois, estes patriotas t8m de pagar tr8s e1es mais do que a contribui+ão que lhes #ora pedida, para resgatar a sua cidade do rei dos 7isigodos. *m clamoroso e"cesso de patriotismo e a recusa de negociar com os -%rbaros le am ao saque de 4oma por Alarico, em G>F. Não ) um come+o auspicioso das rela+5es romano-b%rbaras do s)culo seguinte. Isto quanto aos senadores romanos. Huanto K IgreBa católica, os bispos eram os procuradores das cidades do MediterrJneo, quando se trata a das suas quei"as. As popula+5es urbanas temiam os -%rbaros, mas tamb)m não gosta am dos soldados. O seu

cristianismo era mais #ortemente ci il do que paci#ista. (ulp0cio (e ero gasta muito espa+o para dis#ar+ar o #acto de o seu herói, (. Martinho de Tours, ter sido sempre soldado romanoP só nas sociedades mais militaristas da Idade M)dia os artistas se compra1em em retrat%-la como ca aleiro. Não ha ia lugar para o soldado santo nas comunidades latinas do s)culo I7, e parece que não mostra am grande entusiasmo pelo e")rcito romano. O b%rbaro, considerado sucessor do soldado romano, era estigmati1ado como homem de guerra, animado de &#erocidade de alma', no meio do pac0#ico krebanho do (enhorl, e tamb)m era her)tico, pois as tribos do /anLbio ha iam adoptado o igoroso arianismo da região. Os ocupantes b%rbaros do Ocidente 8em-se poderosos mas repudiados. Cerca-os uma muralha de pesado ódio. Não podem kdestribali1ar-sel, mesmo querendo, porque, sendo b%rbaros e her)ticos, são homens marcados. A intolerJncia que os rodeia le a, desta maneira, directamente K #orma+ão dos seus reinos. Não ha ia melhor estimulo para conser ar a identidade de uma classe dirigente do que o seu repLdio por ?T por cento dos que os cerca am. Os 7Jndalos, na \#rica <G@T-EDD=, os Ostrogodos, na It%lia <G?A-EEG=, os 7isigodos, em Tolosa <desde G>T, e, depois na Espanha, at) K con ersão ao catolicismo, em ET?=, mant8m-se como reinos her)ticos, porque são pro#undamente odiados. Continuam a ser uma classe guerreira, unida e armada durante muito tempo, de ido aos sLbditos. Não surpreende, nestas condi+5es, que o Lnico legado direto de dois s)culos e meio de dom0nio isigótico em Espanha seBa o termo kcarrascol, transmitido K linguagem. Os :rancos eram a e"cep+ão que ser e para pro ar a erdade da regra. 3a iam sido os Lltimos a chegar. Os bandos guerreiros deste po o só conquistam a supremacia no #im do s)culo , muito tempo depois do estabelecimento de outras tribos germJnicas. Não 8m como conquistadoresP in#iltram-se em pequeno nLmero, como mercen%rios, mas não se misturam com as popula+5es distribu0das K

olta do MediterrJneo. A M%lia do Norte ) o centro de gra idade do Estado :ranco. Os bispos do (ul e os senadores acolhem estes estrangeiros, comparati amente insigni#icantes. 4esultadoC os :rancos sentem-se li res para se tornarem católicos. Na corte mero ingia do s)culo 7I, romanos e #rancos chacinam-se tanto como se unem pelo casamento, sem discrimina+ãoP e os bispos galoromanos, per#eitamente conhecedores da situa+ão dos #ortes estados arianos do (ul <os isigodos da Espanha tomam Narbona e os ostrogodos da It%lia alastram K ,ro en+a=, consideram o #ero che#e de guerra dos :rancos, Cló is <GT>-E>>=, como um &no o Constantino'. O que o aut8ntico sucesso dos rudes :rancos mostra, na realidade, ) a #raca tolerJncia que a popula+ão romana do MediterrJneo est% disposta a estender aos estados b%rbaros da i1inhan+a. Este estado de coisas ) usualmente isto como ine it% el pelos historiadores da Europa Ocidental dos s)culos e 7I. Não era, por)m, a Lnica atitude de um grande imp)rio para com os seus b%rbaros conquistadores. A China do Norte, por e"emplo, #oi mais largamente ocupada pelos b%rbaros da Mongólia do que as pro incias ocidentais do Imp)rio 4omano pelas tribos germJnicas. No entanto, na China, os -%rbaros &tornam-se nati os' dentro de algumas gera+5es e continuam as tradi+5es imperiais chinesas, sem quebra, de dinastia em dinastia. Os reinados dos 7isigodos, dos Ostrogodos e dos 7Jndalos da Europa Ocidental nunca são absor idos desta maneiraP sobre i em como corpos estranhos, inseguramente sobrepostos Ks popula+5es, que os ignoram, e adoptam, a seu respeito, as mais estranhas maneiras de er.

-4O$N, ,. O #im do mundo cl%ssico. ;isboaC 7erbo, >?U@.

O *reço da +essureiç o% A sociedade ocidental, )'("-((

(e as in as5es b%rbaras não destru0ram a sociedade romana do Ocidente, alteraram pro#undamente o modo de ida das respecti as pro 0ncias. O go erno imperial, #i"ado em 4oma, perde tantas terras e impostos que #ica em estado de #al8ncia at) K sua e"tin+ão, em GUA. Os senadores perdem os rendimentos das suas propriedades dispersadas e procuram compensar alguns dos danos recorrendo Ks rendas e"orbitantes e K chicanice nas %reas onde o seu poder ) maior. Os grandes propriet%rios da It%lia e da M%lia, cuBo dom0nio continua a pesar #ortemente sobre os camponeses, são os antip%ticos sobre i entes dos poderosos senhores absentistas do s)culo anterior. As comunica+5es são di#0ceis. No #im do s)culo I7, as damas senatoriais da Espanha do Norte iaBam li remente atra )s de todo o Imp)rio do OcidenteP no s)culo , escre endo das AstLcias, mal sabem o que se passa #ora da sua pro 0ncia. Na Europa Ocidental, o s)culo la+os de solidariedade. ;ogo depois do saque de 4oma,a IgreBa católica #ortalece a sua unidade. O cisma ) suprimido pela #or+a, na \#rica, depois de G>>, e em G>U a heresia de ,el%gio ) e"pulsa de 4oma. Os homens sentem que não pode manter-se a ardente luta religiosa de um per0odo mais seguro. Os Lltimos pagãos ligam-se K IgreBa. A sua cultura e patriotismo contribuem para alargar as #ronteiras do catolicismo. *m e"emploC nos mosaicos colocados na IgreBa de (.ta Maria Maggiore, em GD>, o #undo da cena da Apresenta+ão de Cristo no Templo ) o elho Templum *rbis. ;eão I <GGF-GA>=, o primeiro papa natural da campina romana, considera esta 4oma como a s) de (. ,edro, numa linguagem que lembra e"aetamente a #er orosa de o+ão de (0maco pelos deuses do Capitólio. O catolicismo tornase a Lnica religião kromanal, num mundo cada e1 mais consciente da presen+a dos não romanos. Esta no a solidariedade religiosa concorre para o #ortalecimento dos la+os locais, como pode er-se claramente na M%lia. ) o per0odo dos hori1ontes limitados, do #ortalecimento das ra01es locais, da consolida+ão dos elhos

A aristocracia pro incial gaulesa #ora sempre leal para com a sua p%tria e bem sucedida na #requ8ncia da corte. A tradi+ão come+ou em Tr) eros, no s)culo I7, e continuou gostosamente nas cortes b%rbaras mais ostentosas do s)culo . (idónio Apolin%rio <c. GD>GT?= conta a, entre as suas habilidades, a delicada arte de er satis#eita uma peti+ão sabendo calcu>adamente perder ao gamão, quando Boga a, em Tolosa, com Teodorico, rei dos 7isigodos. Os no os reinos b%rbaros o#ereciam amplo campo Ks acti idades dos cortesãos. Apesar dos seus preconceitos, os senadores locais compreenderam rKpidamente que contar por i1inho com um homem poderoso, senhor de uma #or+a militar, tinha a sua antagem. Os 4omanos e"ploram os e#eitos da distribui+ão da no a #ortuna pela nobre1a b%rbara e procuram comprometer os reis entre os seus irrequietos sLbditos, le ando-os a #undar dinastias de2 modelo imperial. O e"emplo t0pico da sobre i 8ncia do burocrata culto numa corte b%rbara ) Cassiodoro <c. G?F - c. ETD=, ministro do ostrogodo Teodorico e dos seus sucessores na It%lia. ABusta os editos reais ao estilo tradicionalP tem o cuidado de apresentar Teodorico e os seus #amiliares como &reis #ilóso#os' <porque mal lhes poderia chamar leg0timos go ernantes romanos=P e escre e uma 3istória dos Modos, na qual a tribo, em geral, e a #am0lia de Teodorico, em particular, são apresentadas como participantes da história do MediterrJneo desde o tempo de Ale"andre Magno. Os 4omanos 8m a reconhecer, mais gra emente, que o diabo que se conhece ) melhor do que o diabo que não se conhece. Na AquitJnia, a presen+a dos 7isigodos protege as propriedades de (idónio e dos seus amigos da cobi+a de tribos, como a dos (a"5es, que ha iam aterrori1ado a -retanha. Em GE>, são os senadores locais que persuadem os 7isigodos a Buntarem-se ao e")rcito romano que pretende deter a a alancha dos hunos de \tila. [ a presen+a da guarni+ão b%rbara da M%lia que #a1 com que <enquanto na -retanha não sobre i e uma Lnica propriedade romana= as aldeias do Marona e da Al )mia continuem, at) hoBe, a conser ar os nomes das #am0lias Ks quais pertenciam no s)culo .

A pol0tica dos cortesãos romanos nas no as cortes b%rbaras #oi a pol0tica local. Os homens que ama am erdadeiramente o pequeno mundo das suas pro 0ncias desconheciam a id)ia de um Imp)rio do Ocidente uni#icado. Nas cartas de (idónio Apolin%rio emos a pai"ão pro#unda do senhor rural pela sua terra, dis#ar+ada pela m%scara do otium senatorial. Nas cartas de (0maco descobrimos apenas um estilo de idaP nas de (idónio encontramos um ambiente di#erente, a sua amada Clermont, 2onde as pastagens sobem ao topo dos montes e as inhas re estem as encostas, onde h% moradias nos ales e castelos entre os rochedos, #lorestas aqu)m e al)m, retalhos de terra regados pelos rios...2 (idónio toma-se bispo de Clermont, em GU>, porque, para dirigir uma comunidade local nas condi+5es do #im do s)culo , só um bispoP só a solidariedade do agregado católico, ligado ao senhor e seus sLbditosP só o prest0gio das basilicas recentemente constru0das e dos relic%rios dos m%rtires, que, na M%lia do (ul, mant8m o estado de Jnimo das pequenas cidades. ,arado"almente, o alastramento do mo imento mon%stico #acilita a delicada transi+ão do (enado para o bispo. As comunidades mon%sticas de ;)rins, Marselha e outras esta am cheias de nobres re#ugiados da #uriosa guerra do 4eno. /estas comunidades sai o clero da M%lia do (ul - homens de alta categoria e de grande cultura. A recon#ortante lembran+a de que o homem de /eus intercede pelo pecador #a1 com que (idónio i a sossegadamente, enquanto leigo católico, e a ideia da oca+ão mon%stica, longe de o le ar ao abandono completo do mundo, d%-lhe, e aos do seu meio, a no+ão simples de que h% tempo e ocasião para todas as coisas, de que a idade a an+ada obriga o homem a arcar com as suas responsabilidades espirituais. 3a endo semeado os seus campos bra ios, tendo #undado as suas #am0lias, (idónio e os seus amigos passam para a austera gerontocracia da IgreBa católica. Acompanham-nos as #rancas lembran+as dos bons Bantares, d% termina+ão das ig0lias dos m%rtires ao ar #rio da manhã, das #estas

campestres, do contacto com os cl%ssicos nas espa+osas bibliotecas particulares, de onde os padres da IgreBa eram retirados discretamente quandoQ morriam as esposas. Os bispos e propriet%rios rurais, como (idónio, completam a re olu+ão silenciosa que con erte a M%lia em terra cristã e de #ala latina. o seu lento trabalho de e angeli1a+ão dos camponeses inclina #inalmente a balan+a do c)ltico para o bai"o latim, a l0ngua #alada. /aqui um duplo mo imento, is0 el em todo o Ocidente. A cultura cl%ssica torna-se menos limitada e esot)rica. As cidades da M%lia mal t8m escolas. *m s)culo depois de Ausónio e os seus colegas ha erem ministrado o ensino cl%ssico a centenas de Bo ens na #lorescente cidade uni ersit%ria de -ord)us, o estudo da literatura latina encerra-se nas grandes bibliotecas das raras ilas senatoriais. Em e1 de propriedade de qualquer homem, a educa+ão cl%ssica torna-se apan%gio de uma oligarquia limitada. Como esta restrita aristocracia das letras entra na IgreBa, a retórica cl%ssica conquista, no #im do s)culo e durante o s)culo 7I, um brilhantismo e"traordin%rio. Huando os bispos se reLnem, em ocasi5es solenes, ou escre em uns aos outros, ressoa o &grande estilo'. O seu brando rio de #rases, &polidas como Oni"', torna-se tão impenetr% el aos contemporJneos estranhos ao seu gr)mio como aos leitores modernos. As cartas e Beu" d]esprit dos bispos, como A ito de 7iena <c. G?FE>T= e Enódio de ,a ia <E>D-E@>=, e a retórica dos edictos compostos por Cassiodoro são produtos t0picos deste mo imento. Amputados dos seus pri il)gios, redu1ida a #ortuna pelos con#iscos, go ernados por estrangeiros, os senadores do Ocidente mostram, deleitados com o seu retórico latim rococó, a ontade de sobre i er, de serem istos a sobre i er. Como bispos, estes homens t8m de manter o moral do grosseiro rebanho. (er em-se, para isso, do estilo 2humilde2. Na M%lia, por e"emplo, o s)culo 7I ) uma )poca de idas de santos, escritas num latim corrente. Normalmente lembramo-nos de bispos como

Mregório de Tours <EDT-E?G=, autor da 3istória dos :rancos, c)lebre pelas i as narrati as das hediondas manobras dos 4omanos e :rancos da corte mero 0ngia. (ão do maior interesse as suas idas dos grandes santos protectores das M%lias. Entre estes encontramse alguns caros ao seu cora+ão - uma #ria nobre1a celestial, como ele in#le"0 el na retribui+ão, mas tamb)m como ele minuciosamente preocupada com as particularidades da ida dos homens da cidade e do campo. Com este re#or+o dos la+os locais nas pro 0ncias, a It%lia torna-se a ke"pressão geogr%#ical, que perdura. O Norte e o (ul ha iam sempre estado muito di ididos. Os bispos e os propriet%rios do Norte tinham-se habituado, h% muito, K presen+a de um go erno militar b%rbaro. Encontraram-se como em casa na corte de Odoacro <GUA-G?D= e, depois, na de Teodorico, em 4a ena. Mas atra essar os Apeninos era penetrar num mundo di#erente, onde a corte esta a longe e o passado sempre presente. Em 4oma, as astas basilicas católicas e as memórias da Antiguidade escondiam o presente. *ma dupla oligarquia de senadores e cl)rigos - agora estreitamente misturados - ela a pelo espl8ndido isolamento da cidade. O (enado limita a-se, caracteristicamente, a mandar cunhar a moeda, poder que perdera desde o #im do s)culo III. ;ogo que os imperadores do Ocidente #oram apeados <GUA=, a imagem do soberano #oi discretamente substitu0da por uma pintura de 4ómulo e 4emo, amamentados pela loba, e a legenda 4oma in icta. A romJntica ideologia da 4oma in icta preenche, desta maneira, o %cuo da soberania imposto pelo #im do dom0nio leg0timo de 4oma, na It%lia. Os k4omanos de 4omal do #im do s)culo edo s)culo 7I são #iguras r0gidas, impedidas de crescer pela asta sombra de 4oma, como as representam os mar#ins consulares. Na sua grande biblioteca #amiliar, o senador -o)cio <c. GTF-E@G= comp5e a lista dos ricos intelectuais que primeiro se interessam pelo renas cimento latino do s)culo I7. ;an+a os #undamentos da lógica medie al, ser ido pelos li ros que ha iam pertencido aos seus bisa ósP e, na sua Consola+ão da :iloso#ia, ainda nos espanta a

tranqRilidade com que um en)rgico aristocrata romano cristão do s)culo 7I encontra o sossego, em #ace da morte, de acordo com a sabedoria pr)-cristã dos Antigos. Teodorico manda-o e"ecutar, acusado de trai+ão, em E@G. ,rocedendo assim, #a1 desaparecer, prudentemente, o mais eminente e, por isso, o mais isolado de um grupo irreconcili% el. Orgulhoso e solit%rio, ) morto por ha er i ido tão bem uma ida que conser ara alguma coisa de 4oma tudo, menos um imperador. /epois de EDD, um imperador romano olta ao MediterrJneo Ocidental. O e")rcito de Sustiniano conquista a \#rica, de uma assentada, em EDD. Em EGF, o seu general -elis%rio entra em 4a ena. As campanhas de S ustiniano são preBudicadas pelo renascimento da amea+a persa <EGF=, pela peste ine"or% el, que continua a grassar desde EG@, pelo colapso da #ronteira danubiana ante a primeira in asão dos Esla os <EGT=. O dom0nio dos romanos do Oriente mant)m-se, no entanto, em 4a ena, 4oma, (icilia e \#rica, por algum tempo. A inesperada inter en+ão dos e")rcitos imperiais #oi uma dura pro a para a relati a #or+a dos discretos agrupamentos da sociedade romana na It%lia e na \#rica. A reconquista de Sustiniano representa a um desastre para a aristocracia senatorial. *m autocrata oriental, senhor de colaboradores e#icientes, não era o imperador que ha iam e"perimentado at) então. As guerras de Sustiniano na It%lia marcam o #im de um modo de ida para esta renitente aristocracia. As amargas recrimina+5es dos senadores italianos são bem recebidas pela cobarde nobre1a de ConstantinoplaP 8m a escurecer as p%ginas da descri+ão cl%ssica das guerras góticas, de ,rocópio de Cesareia, e irrompem contra Sustiniano na impotente #Lria do mesmo autor, na 3istória (ecreta. Não de emos Bulgar os triun#os de Sustiniano no Ocidente apenas em rela+ão com a sorte deste agrupamento bem organi1ado. O clero católico não mani#esta o ressentimento do (enado romano. A IgreBa romana liberta-se do arianismo e recebe as astas pro-

priedades dos templos arianos. No tempo do papa Mregório I <ET?AFD=, homem comple"o, a importJncia clerical da aristocracia romana, antecipada nos padres e papas da sua #am0lia, sobe ao m%"imo. Na asta biblioteca particular do seu parente, o papa Agapito <EDE-EDA=, Mregorio #amiliari1a-se com Agostinho, de maneira só poss0 el a um aristocrata. A chama do misticismo platónico, que transitara de ,lotino para Agostinho, #lameBa de no o nos seus serm5es. ;embrado dos costumes passados da sua classe, mant)m a casa aberta ao po o romano. Emprega os rendimentos da IgreBa, cuidadosamente guardados, na compra de trigo para os pobres e em subs0dios alimentares a senadores empobrecidos. Chamaram-lhe 2cOnsul de /eus2, no epit%#io. Não era um mero sobre i ente do passado aristocr%tico de 4oma. 7i ia numa altura em que 4oma #ora integrada, por uma gera+ão, no Imp)rio 4omano do Oriente. A sua austeridade, a sua sensibilidade K de o+ão popular <como mostram as histórias milagrosas dos seus /i%logos=, o austero sentido da missão de bispo <re elado na sua 4egra=, #a1em dele a imagem latina dos piedosos homens de /eus que, como patriarcas de Constantinopla, Antioquia, Serusal)m e Ale"andria, go ernam as grandes cidades do Oriente, em nome dos imperadores bi1antinos. 7istas de 4oma, toda ia, a posi+ão e ati idades dos imperadores do Oriente são interpretadas de maneira caracteristicamente latina. Os Lnicos retratos de Sustiniano e Teodora que possu0mos - as cenas da corte dos mosaicos de (. 7ital de 4a ena #iguram Bunto do altar de uma igreBa católica. ,ara os bispos católicos da It%lia, o Imp)rio e"istia para seu bene#0cio. Estes bispos eram os herdeiros directos do (enado romano. A libertas, a posi+ão pri ilegiada do (enado romano, era um dos ideais da aristocracia da cidade, no come+o do s)culo 7I. Este ideal passa, impercepti elmente, para o clero romano, e mani#esta-se atra )s de toda a Idade M)dia. [ o acontecimento mais parado"al da reconquista de Sustiniano. Sustiniano surge, oportunamente, no MediterrJneo Ocidental para reconquistar o que considera a as pro 0ncias perdidas do ksem

imp)rio. Tinha pouca simpatia pela libertas do (enado romano, e esta a disposto a combater qualquer papa que não aceitasse os seus esquemas eclesi%sticos. Contudo, os e")rcitos bi1antinos permanecem durante s)culos na It%lia, para proteger os pri il)gios da IgreBa romana. Aos olhos dos Ocidentais, o Imp)rio do Oriente e"istia para proteger militarmente o papado. Os prudentes orientais que ser iam em 4a ena como e"arcas < ice-reis do imperador= eram considerados, em 4oma, como representantes da (antissima 4espublica <a (ant0ssima Comunidade=. O Imp)rio do Oriente em, desta #orma, a ser considerado como o k(antol Imp)rio 4omano. O modelo do reno ado imp)rio de Carlos Magno não ) Augusto, mas Sustiniano, o piedoso monarca católico dos e"atas de 4a ena. Sustiniano ) o direto, ainda que inconsciente, antepassado da ideia de que uma &comunidade cristã', um (anto Imp)rio 4omano, de eria sempre e"istir, para ser ir os interesses do papado e de#ender a libertas da IgreBa católica. Os h%bitos e costumes de uma cidade mudam pouco. No s)culo 7II, os membros da oligarquia clerical da cidade de 4oma continuam a proceder nas suas igreBas como os cOnsules procediam no s)culo 7I #esteBados com lumin%rias, generosos para com a popula+ão, usando as chinelas de seda dos senadores. O ,al%cio ;ateranense era assim chamado, pensa-se, porque ainda ali se #ala a o &bom latim'. Nas suas grandes basilicas, os papas continuam a re1ar pela 4omana libertas. A ideia de que a sociedade ocidental de ia reconhecer o predom0nio de um escol clerical per#eitamente de#inido, como os imperadores romanos ha iam reconhecido outrora os direitos especiais dos membros do (enado romano, era ligada Ks pr)dicas e cerimónias do papada medie al. A 4oma aeterna, Lltimo amor dos senadores romanos, #lameBa na solene #achada da 4oma papal como o derradeiro clarão do #im do dia.

-4O$N, ,. :im do mundo cl%ssico. ;isboaC 7erbo, >?U@.