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Apresentação

Nesta Página preparamos uma seleção de alguns
dos mais importantes textos da literatura chinesa
produzidos até o século V d.C. para que você
estudioso desta civilização possa ter um !ácil
acesso " compreensão dos mesmos. #s nomes dos
autores $ou dos livros% estão listados ao lado &asta
você clicar para conhecer um pouco mais so&re
eles. 'e(a &em vindo)
................................................
ÍNDICE
A escola de Confúcio
Lunyu, ou Conversações de Confúcio(01)
Conversações de Confúcio(02)
Conversações de Confúcio(03)
Daxue, ou O Grande Estudo de Confúcio (I.
Raposo)
Daxue, ou A Grande Ciência (por A. Doeblin)
O Zhong Yong ou A Doutrina do Meio
Zhong Yong, ou o Justo Meio de Confúcio (por A.
Do...
Xiaojing, ou Tratado da Piedade Filial
Mêncio (01)
Mêncio (02)
Mêncio (03) - por Alfredo Doeblin
Xunzi
Lunyu, ou Conversações de Confúcio(01)
Confúcio (Kungfuzi, 551 - 479 a.C.) foi, provavelmente, o
sábio mais importante que a história chinesa já teve.
Fundador da chamada Escola dos Letrados, este famoso
mestre destacou-se por defender o retorno e a manutenção
das tradições através de um amplo programa filosófico -
cultural que incluía a disseminação e a prática da educação,
a atuação politica consciente e a busca por uma
espiritualidade maior. Junto com Laozi, foi um dos primeiros
autores a abordar a questão do conhecimento do Dao
(Caminho) como busca fundamental do ser humano. Lunyu,
ou Diálogos, é uma recolha dos principais aforismos do
mestre Confúcio, recolhidos por seus discípulos. Contém as
informações básicas sobre a doutrina dos letrados e suas
concepções éticas.
..........................
Capítulo 1
1.1 O Mestre disse: "Aprender algo e colocá-lo em prática
no momento certo: não é uma alegria? Receber amigos que
vêm de longe: não é um prazer? Não ficar transtornado
quando os próprios méritos são ignorados: não é isso a
marca distintiva de um cavalheiro?"
1.2 Mestre You disse: "Um homem que respeita seus pais e
os mais velhos seria pouco propenso a desafiar seus
superiores. Um homem que não é propenso a desafiar seus
superiores nunca fomentará uma rebelião. Um cavalheiro
estuda as raízes. Uma vez que a raiz está assegurada, o
Caminho se revela. Respeitar os pais e os mais velhos é a
raiz da humanidade".
1.3 O Mestre disse: "Conversa inteligente e modos afetados
raramente são sinais de bondade".
1.4 Mestre Zeng disse: "Examino a mim mesmo três vezes
por dia. Ao intervir em favor dos outros, fui digno de
confiança? Na relação com meus amigos, fui leal? Pratiquei
o que aprendi?"
1.5 O Mestre disse: "Para governar um estado de tamanho
médio, é preciso resolver os negócios com dignidade e boa
fé; ser econômico e amar todos os homens; mobilizar o
povo somente nos momentos certos".
1.6 O Mestre disse: "Em casa, um jovem deve respeitar
seus pais; fora de casa, deve respeitar os mais velhos. Deve
falar pouco, mas de boa fé; amar todas as pessoas, mas
associar-se aos virtuosos. Tendo feito isso, se ainda tiver
energia disponível, que estude literatura".
1.7 Zixia disse: "Um homem que valoriza mais a virtude do
que a boa aparência, que despende toda a sua energia a
serviço de seu pai e de sua mãe, que está disposto a dar a
vida por seu soberano, que nas relações com os amigos é
fiel à sua palavra, mesmo que alguns digam que não é
educado, devo dizer que ele é um homem educado".
1.8 O Mestre disse: "Um cavalheiro destituído de gravidade
não tem autoridade e seu estudo será sempre superficial.
Um cavalheiro coloca a lealdade e a fidelidade acima de
tudo; não se alia aos moralmente inferiores. Quando comete
uma falta, não hesita em retificar sua conduta".
1.9 Mestre Zeng disse: "Quando se honram os mortos e a
memória dos ancestrais remotos se mantém viva, a virtude
de um povo encontra-se em seu apogeu".
1.10 Ziqin perguntou a Zigong: "Quando o Mestre chega a
outro país, ele sempre se informa sobre sua política. Ele
pede tais informações, ou estas lhe são dadas?" Zigong
respondeu: "O Mestre as obtêm sendo afável, bom, cortês,
moderado e deferente. O Mestre tem uma maneira de
inquirir bastante diferente da de outras pessoas, não é
verdade?"
1.11 O Mestre disse: "Quando o pai está vivo, observa as
aspirações do filho. Quando o pai está morto, observa as
ações do filho. Se, três anos mais tarde, o filho não se
desviou do caminho do pai, ele poderá, de fato, ser
considerado um filho devotado".
1.12 Mestre You disse: "Ao praticar o ritual, o que mais
importa é a harmonia. Foi isso que deu beleza ao Caminho
dos antigos reis; que inspirou cada um de seus movimentos,
pequenos ou grandes. Mas eles sabiam onde parar: a
harmonia não pode ser um fim em si mesma, ela deve
sempre estar subordinada ao ritual; de outra forma, não
deve ser usada".
1.13 Mestre You disse: "Se tuas promessas estão de acordo
com o que é correto, serás capaz de manter tua palavra. Se
tua conduta está de acordo com o ritual, serás capaz de
manter a vergonha e a desgraça afastada. O melhor apoio
provém de nossos próprios parentes".
1.14 O Mestre disse: "Um cavalheiro come sem estufar a
barriga; escolhe uma residência sem exigir conforto; é
diligente em seu trabalho e prudente na sua fala; busca a
companhia dos virtuosos a fim de regular sua própria
conduta. De um homem destes, pode-se certamente dizer
que ele gosta de aprender".
1.15 Zigong disse: " 'Pobre sem servilismo; rico sem
arrogância'. O que dizer disso?" O Mestre disse: Nada mal,
mas melhor seria: 'Pobre, mas alegre; rico, mas que tem
consideração' ". Zigong disse: "Nos Poemas, está escrito:
'Como cinzelar presas, como esculpir marfim, como talhar
jade, como polir pedras'. Não é a mesma idéia?" O Mestre
disse: "Ah, pode-se realmente começar a discutir os Poemas
contigo! Digo-te uma coisa e consegues representar o
resto".
1.16 O Mestre disse: "Não te preocupes se as pessoas não
reconhecem teus méritos; preocupa-te se não reconheceres
os delas".
Capítulo 2
2.1 O Mestre disse: "Quem governa pela virtude é como a
estrela polar, que permanece imóvel no seu lugar enquanto
todas as outras estrelas circulam respeitosamente em torno
dela".
2.2 O Mestre disse: "Os trezentos Poemas resumem-se
numa única frase :'Não penses no mal'".
2.3 O Mestre disse: "Guia-o por meio de manobras políticas,
contém-no com castigos: o povo se tornará dissimulado e
desavergonhado. guia-o pela virtude, contém-no pelo ritual:
ele desenvolverá um senso de vergonha e um senso de
participação".
2.4 O Mestre disse: "Aos quinze anos, orientei minha mente
para aprender. Aos trinta, plantei meus pés firmemente no
chão. Aos quarenta, não tinha mais dúvidas. Aos cinqüenta,
conhecia a vontade do Céu. Aos sessenta, meu ouvido
estava sintonizado. Aos setenta, sigo todos os desejos de
meu coração sem transgredir nenhuma regra".
2.5 O senhor Meng Yi perguntou sobre piedade filial. O
Mestre disse: "Nunca desobedeças".
Quando Fan Chi o estava conduzindo em sua carruagem, o
Mestre lhe disse: "Meng Yi perguntou-me sobre piedade filial
e eu respondi: 'Nunca desobedeças' ". Fan Chi disse: "O que
isso significa?" O Mestre disse: "Quando teus pais estão
vivos, serve-os de acordo com o ritual. Quando eles
morrem, enterra-os de acordo com o ritual, oferece-lhes
sacrifícios de acordo com o ritual".
2.6 O senhor Meng Wu perguntou sobre piedade filial. O
Mestre disse: "O único momento em que um filho devotado
faz seus pais se preocuparem é quando está doente".
2.7 Ziyou perguntou sobre piedade filial. O Mestre disse:
"Hoje em dia as pessoas acham que são filhos devotados
quando sustentam seus pais. Mas elas também sustentam
seus cachorros e cavalos. Se não há respeito, qual é a
diferença?"
2.8 Zixia perguntou sobre piedade filial. O Mestre disse: "É
a atitude que importa. Se os jovens apenas oferecem seus
serviços quando há trabalho para fazer, ou deixam os mais
velhos beber e comer quando há vinho e comida, como isso
pode ser considerado piedade filial?"
2.9 O Mestre disse: "Posso falar o dia inteiro com Yan Hui -
ele nunca levanta nenhuma objeção, parece estúpido. No
entanto, observa-o quando está sozinho: suas ações
refletem plenamente o que ele aprendeu. Oh não, Hui não é
estúpido!"
2.10 O Mestre disse: "Descobre por que um homem age,
observa como ele age e examina onde ele encontra sua paz.
Haverá algo que ele ainda possa esconder?"
2.11 O Mestre disse: "Quem, ao repassar o velho, descobre
o novo é apto para ser professor".
2.12 O Mestre disse: "Um cavalheiro não é um pote".
2.13 Zigong perguntou sobre o verdadeiro cavalheiro. O
Mestre disse: "Ele prega apenas o que pratica".
2.14 O Mestre disse: "O cavalheiro considera mais o todo do
que as partes. O homem pequeno considera mais as partes
do que o todo".
2.15 O Mestre disse: "Estudar sem pensar é fútil. Pensar
sem estudar é perigoso".
2.16 O Mestre disse: "Atacar uma questão pelo lado errado
- isso é de fato danoso".
2.17 O Mestre disse: "Zilu, vou ensinar-te o que é o
conhecimento. Tomar o que sabes pelo que sabes, e o que
não sabes pelo que não sabes, isso é conhecimento".
2.18 Zizhang estudava na esperança de obter um cargo
oficial. O Mestre disse: "Recolhe muita informação, põe de
lado o que é duvidoso, repete cuidadosamente o resto;
então, raramente dirás algo errado. Faz muitas
observações, deixa de lado o que é suspeito, dedica-te
cuidadosamente ao resto; então raramente terás do que te
arrepender. Com poucos erros no que dizes e poucos
arrependimentos pelo que fazes, tua carreira está
garantida".
2.19 O duque Ai perguntou: "O que deveria fazer para
conquistar o coração do povo?" Confúcio respondeu:
"Promove os homens retos e coloca-os acima dos tortos, e
conquistarás o coração do povo. Se promoveres os tortos e
os colocares acima dos retos, o povo te negará apoio".
2.20 O senhor Ji Kang perguntou: "O que deveria fazer para
tornar o povo respeitoso, leal e zeloso?" O Mestre disse:
"Aproxima-te dele com dignidade e ele será respeitoso. Sê,
tu mesmo, um bom filho e um pai gentil, e o povo será leal.
Promove os bons e educa os incompetentes, e o povo será
zeloso".
2.21 Alguém perguntou a Confúcio: "Mestre, por que não
estais atuando no governo?" O Mestre disse: "Nos
Documentos está escrito: "Basta cultivares a piedade filial e
seres gentil com teus irmãos, e estarás contribuindo para a
política". Esta também é uma forma de ação política; não é
necessário atuar no governo".
2.22 O Mestre disse: "Com um homem que não fosse
confiável, eu não saberia o que fazer. Como poderias puxar
uma carroça sem uma canga ou uma carruagem sem as
varas?"
2.23 Zizhang perguntou: "Podemos prever o futuro daqui a
dez gerações?" O Mestre disse: "Yin adotou o ritual de Xia:
podemos saber o que desapareceu e o que foi adicionado.
Zhou adotou o ritual de Yin: podemos saber o que
desapareceu e o que foi adicionado. Se Zhou tiver
sucessores, poderemos saber como eles serão, mesmo
daqui a centenas de gerações".
2.24 O Mestre disse: "Adorar deuses que não são os nossos
é bajulação. Não agir quando a justiça exige é covardia".
Capítulo 3
3.1 O chefe da família Ji usava oito fileiras de dançarinos
nas cerimônias de seu templo ancestral. Confúcio
comentou: "Se ele é capaz disso, do que não será capaz?"
3.2 As Três Famílias apresentavam o poema Yong no final
de seus sacrifícios ancestrais. O Mestre disse: "Este poema
diz:
Os senhores feudais estão presentes,
O Filho do Céu está sentado em seu trono.
Que aplicação isso pode ter nos salões das Três Famílias?"
3.3 O Mestre disse: "Se um homem não tem humanidade, o
que ele pode ter a ver com o ritual? Se um homem não tem
humanidade, o que ele pode ter a ver com a música?"
3.4 Lin Fang perguntou: "Qual o fundamento do ritual?" O
Mestre disse: "Boa pergunta! Nos rituais, prefere a
simplicidade à prodigalidade; em funerais, prefere o pesar à
formalidade".
3.5 O Mestre disse: "Os bárbaros que têm dirigentes são
inferiores às várias nações da China que não os têm".
3.6 O chefe da família Ji estava planejando uma
peregrinação real ao monte Tai. O Mestre disse a Ran Qiu:
"Não podes impedir isso?" Ran Qiu respondeu: "Não posso".
O Mestre disse: "Ai de mim! Quem disse que o Espírito do
monte Tai tem menos conhecimento ritual que Lin Fang?"
3.7 O Mestre disse: "Um cavalheiro evita competições. Mas,
se for preciso competir, que seja no tiro de arco. Então, se
ele se inclinar e trocar gentilezas antes da disputa e durante
as comemorações que se seguem, continuará sendo um
cavalheiro mesmo numa competição".
3.8 Zixia perguntou: "O que significam estes versos:
Oh, as covinhas do sorriso dela!
Ah, o preto e branco de seus lindos olhos!
É sobre a seda puramente branca que as cores brilham".
O Mestre disse: "A pintura se inicia na seda puramente
branca". Zixia disse: "O ritual é algo que vem
posteriormente?" O Mestre disse: "Ah, realmente abriste
meus olhos! É apenas com um homem como tu que se
podem discutir os Poemas".
3.9 O Mestre disse: "Posso falar sobre o ritual Xia? Seu
herdeiro, o país de Qi, não preservou suficientes evidências.
Posso falar sobre o ritual Yin? Seu herdeiro, o país de Song,
não preservou suficientes evidências. Não existem registros
suficientes e tampouco homens sábios suficientes; caso
contrário, eu poderia obter evidências a partir deles".
3.10 O Mestre disse: "No sacrifício do Ancestral da Dinastia,
depois de realizada a primeira libação, não desejo assistir ao
resto".
3.11 Alguém pediu a Confúcio para explicar o significado do
sacrifício do Ancestral da Dinastia. O Mestre disse: "Eu não
sei. Quem soubesse isso poderia dominar o mundo como se
o tivesse na palma da mão". E ele colocou o dedo na palma
da mão.
3.12 Sacrifício implica presença. Dever-se-iam fazer
sacrifícios aos deuses como se eles estivessem presentes. O
Mestre disse: "Se eu não faço o sacrifício com todo o meu
coração, não deveria fazer sacrifícios".
3.13 Wangsun Jia perguntou: "O que significa este ditado:
'Homenageia o deus da cozinha mais do que o deus da
casa'?" O Mestre disse: "Tolice. Se ofendes o Céu, qualquer
prece é inútil".
3.14 O Mestre disse: "A dinastia Zhou modelou-se pelas
duas dinastias precedentes. Que esplêndida civilização! Sou
um seguidor de Zhou".
3.15 O Mestre visitou o grande templo do Fundador da
Dinastia. Ele indagou sobre tudo. Alguém disse: "Quem
disse que esse sujeito era um especialista em rituais? Ao
visitar o grande templo, teve de indagar sobre tudo". Ao
escutá-lo, o Mestre disse: "Precisamente, é esse o ritual".
3.16 O Mestre disse: "No tiro de arco, não interessa perfurar
o alvo, pois os arqueiros podem ter força desigual. Tal era a
concepção dos antigos".
3.17 Zigong desejava eliminar o sacrifício de um carneiro na
Cerimônia da Lua Nova. O Mestre disse: "Amas o carneiro,
eu amo a cerimônia".
3.18 O Mestre disse: "Quando um homem serve ao seu
senhor com completa observância do ritual, o povo pensa
que ele é um adulador".
3.19 O duque Ding perguntou: "Como um dirigente deveria
tratar seu ministro? Como um ministro deveria servir ao seu
dirigente?" Confúcio respondeu: "Um dirigente deveria
tratar seu ministro com cortesia, um ministro deveria servir
ao seu dirigente com lealdade".
3.20 O Mestre disse: "O Poema 'As Águias pescadoras' é
alegre sem lascívia e triste sem amargura".
3.21 O duque Ai perguntou a Zai Yu qual madeira deveria
ser usada para o totem local. Zai Yu respondeu: "Os
homens de Xia usavam pinho; os homens de Yin usavam
cipreste; os homens de Zhou usavam batalha (1), pois (eles
diziam) o povo deveria batalhar".
O Mestre ouviu e disse: "O que está feito está feito, é tudo
passado; de nada adiantaria discutir".
3.22 O Mestre disse: "Guan Zhong tinha de fato poucos
méritos!" Alguém objetou: "Guan Zhong não era um homem
frugal?" Ele respondeu: "Guan Zhong tinha três palácios,
cada um deles em pleno funcionamento. Como poderia ser
considerado frugal?" - "Mas ele não conhecia o ritual?" - "Só
o dirigente de um estado pode colocar um anteparo em seu
pórtico; mas Guan Zhong também colocou um anteparo em
seu pórtico. Somente o dirigente de um estado, ao se
encontrar com outro dirigente, pode usar um pedestal
especial para descansar sua taça, mas Guan Zhong também
usava um desses pedestais. Se consideras que Guan Zhong
conhecia o ritual, então, quem não conhece o ritual?"
3.23 O Mestre conversava sobre música com o mestre de
música de Lu. Ele disse: "O que podemos saber sobre
música é apenas isto: primeiro, há um trecho de abertura
com todos os instrumentos em uníssono; a partir dai ela flui
harmoniosa, clara e continuamente; então termina".
3.24 O oficial responsável pela fronteira em Yi pediu uma
entrevista com Confúcio. Ele disse: "Toda vez que um
cavalheiro chega a este lugar, peço para vê-lo". Os
discípulos conseguiram uma entrevista. Quando esta
terminou o oficial lhes disse: "Senhores, não se preocupem
com a demissão dele. O mundo está sem o Caminho já há
muito tempo. O Céu irá servir-se de seu mestre para tocar o
sinal de alarme".
3.25 Do Hino da Coroação Pacifica, o Mestre disse que ele
era totalmente belo e totalmente bom. Do Hino da
Conquista Militar, disse que era totalmente belo, mas não
totalmente bom.
3.26 O Mestre disse: "Autoridade sem generosidade,
cerimônia sem reverência, luto sem dor - isso eu não
suporto contemplar".
Capítulo 4
4.1 O Mestre disse: "É belo viver cercado de humanidade.
Escolher um local de moradia destituído de humanidade é
muito pouco sábio".
4.2 O Mestre disse: "Um homem sem humanidade não
poderia viver por muito tempo na adversidade nem poderia
conhecer a alegria por muito tempo. Um homem bom apoia-
se em sua humanidade, um homem sábio beneficia-se de
sua humanidade".
4.3 O Mestre disse: "Somente um homem bom pode amar
as pessoas e pode odiar as pessoas".
4.4 O Mestre disse: "A vontade de alcançar a humanidade
não deixa lugar para o mal".
4.5 O Mestre disse: "Riqueza e posição é o que todo homem
almeja; no entanto, se a única maneira de obtê-lo contraria
seus princípios, ele deveria desistir de tal objetivo. Pobreza
e obscuridade é o que todo homem detesta; no entanto, se
a única maneira de escapar delas contraria seus princípios,
ele deveria aceitar sua sina. Se um cavalheiro abandona a
humanidade, como poderá construir um nome para si?
Nunca, nem por um momento, um cavalheiro se afasta da
humanidade; ele se agarra a ela em meio às provações, ele
se agarra a ela em meio às tribulações".
4.6 O Mestre disse: "Jamais vi um homem que
verdadeiramente amasse a bondade e odiasse o mal. Quem
ama verdadeiramente a bondade nunca poria nada acima
dela; quem odeia verdadeiramente o mal praticaria a
bondade de tal forma que nenhum mal pudesse penetrar
nele. Haverá alguém que tenha dedicado todas as suas
forças à bondade durante um único dia? Ninguém nunca o
fez e, no entanto, não foi por falta de forças - pode ser que
haja pessoas que não tenham nem a pequena quantidade
de força que isso exige, mas nunca conheci nenhuma".
4.7 O Mestre disse: "Tuas faltas te definem. É precisamente
pelas tuas faltas que podemos conhecer tuas qualidades".
4.8 O Mestre disse: "De manhã escuta o Caminho; à noite,
morre contente".
4.9 O Mestre disse: "Um erudito coloca seu coração no
Caminho; se ele se envergonha de suas roupas surradas e
de seu alimento modesto, ele não merece ser escutado".
4.10 O Mestre disse: "Nos assuntos do mundo, um
cavalheiro não tem parti pris: ele assume o lado da justiça".
4.11 O Mestre disse: "Um cavalheiro busca a virtude; um
homem pequeno busca terra. Um cavalheiro busca justiça;
um homem pequeno busca vantagens".
4.12 O Mestre disse: "Quem age considerando apenas seus
próprios interesses, desperta muito ressentimento".
4.13 O Mestre disse: "Se conseguimos governar o país
observando o ritual e demonstrando deferência, nada mais
há para ser dito. Se não conseguimos governar o país
observando o ritual e demonstrando deferência, qual a
utilidade do ritual?"
4.14 O Mestre disse: "Não te preocupes se não tens uma
posição; preocupa-te caso não mereças uma posição. Não te
preocupes se não fores famoso; preocupa-te caso não
mereças ser famoso".
4.15 O Mestre disse: "Shen, minha doutrina é percorrida por
um único fio". Mestre Zeng Shen respondeu: "De fato".
O Mestre saiu. Os outros discípulos perguntaram: "O que ele
quis dizer?" Mestre Zeng disse: "A doutrina do Mestre é:
lealdade e reciprocidade, e isto é tudo".
4.16 O Mestre disse: "Um cavalheiro considera o que é
justo; um homem pequeno considera o que é vantajoso".
4.17 O Mestre disse: "Quando vires um homem de valor,
procura equiparar-te a ele. Quando vires um homem sem
valor, examina a ti mesmo".
4.18 O Mestre disse: "Ao servires teus pais, podes
gentilmente discordar deles. Se perceberes que eles não
aceitaram teu conselho, continua sendo respeitoso e não os
contradigas. Não permitas que teus esforços se
transformem em amargura".
4.19. O Mestre disse: "Enquanto teus pais estiverem vivos,
não viajes para longe. Se tiveres de viajar, terás de deixar
um endereço".
4.20 O Mestre disse: "Se três anos após a morte do pai, o
filho não altera os modos do pai, ele é de fato um bom
filho".
4.21 O Mestre disse: "Tem sempre em mente a idade de
teus pais. Permite que este pensamento seja tanto uma
alegria quanto uma preocupação".
4.22 O Mestre disse: "Os antigos relutavam em falar,
temendo a vergonha caso seus feitos não equivalessem a
suas palavras".
4.23 O Mestre disse: "O autocontrole raramente leva para o
mau caminho".
4.24 O Mestre disse: "Um cavalheiro deveria ser lento no
falar e pronto no agir".
4.25 O Mestre disse: "A virtude não é solitária; ela sempre
tem vizinhos".
4.26 Ziyou disse: "A serviço do senhor, a intolerância traz
desgraça; nas relações de amizade, a intolerância traz
desavença".
Capítulo 5
5.1 O Mestre disse a respeito de Gongye Chang: "Ele daria
um bom marido. Embora tenha estado encarcerado, ele era
inocente". E lhe deu sua filha em casamento.
5.2 O Mestre disse a respeito de Nan Rong: "Num país onde
prevalece o Caminho, ele não passará despercebido. Num
país sem o Caminho, ele saberá se preservar". E lhe deu sua
sobrinha em casamento.
5.3 O Mestre disse a respeito de Zijian: "Este é um
verdadeiro cavalheiro! Se de fato não houvesse cavalheiros
em Lu, onde ele teria adquirido suas qualidades?"
5.4 Zigong perguntou: "O que pensais a meu respeito?" O
Mestre disse: "És um pote". - "Que tipo de pote?" - "Um
precioso vaso ritual".
5.5 Alguém disse: "Ran Yong é bom mas não é eloqüente".
O Mestre disse: "De que serve a eloqüência? Uma língua ágil
cria muitos inimigos. Não sei se Ran Yong é bom, mas ele
certamente não necessita da eloqüência".
5.6 O Mestre recomendou Qidiao Kai para um cargo oficial,
mas o outro respondeu: "Ainda não estou pronto para a
tarefa". O Mestre ficou contente.
5.7 O Mestre disse: "O Caminho não prevalece. Pegarei uma
jangada e me lançarei ao mar. Tenho certeza de que Zilu
me acompanhará". Ao ouvir isso, Zilu encheu-se de alegria.
O Mestre disse: "Zilu é mais audacioso do que eu. Todavia,
onde conseguiremos as toras para a nossa embarcação?"
5.8 O senhor Meng Wu perguntou ao Mestre se Zilu era
bom. O Mestre disse: "Não sei". Perguntou novamente e o
Mestre disse: "No governo de um país de tamanho médio,
poderiam confiar-lhe o ministério da defesa. Mas não sei se
ele é bom".
"E quanto a Ran Qiu?" O Mestre disse: "Ran Qiu? Ele poderia
ser o prefeito de uma cidade pequena ou o administrador de
uma grande propriedade. Mas não sei se ele é bom".
"E quanto a Gongxi Chi?" O Mestre disse: "Gongxi Chi,
cingido de sua faixa, poderia permanecer na corte e entreter
os convidados ilustres. Mas não sei se ele é bom".
5.9 O Mestre perguntou a Zigong: "Quem é melhor, Yan Hui
ou tu?" - "Como poderia eu me comparar a Yan Hui? De
uma coisa que aprende, ele deduz dez; de uma coisa que eu
aprendo, só deduzo duas". O Mestre disse: "De fato, não és
igual a ele; e eu tampouco".
5.10 Zai Yu estava dormindo durante o dia. O Mestre disse:
"Madeira estragada não pode ser entalhada; paredes de
esterco não podem ser rebocadas. De que serve admoestá-
lo?"
O Mestre disse: "Houve um tempo em que eu ouvia o que
as pessoas diziam e acreditava que elas iriam agir em
conformidade, mas agora ouço o que dizem e observo o que
fazem. Foi Zai Yu quem me fez mudar".
5.11 O Mestre disse: "Jamais vi um homem que fosse
realmente constante". Alguém respondeu: "Shen Cheng?" O
Mestre disse: "Shen Cheng é dirigido por seus desejos.
Como poderia ele ser considerado constante?"
5.12 Zigong disse: "Não quero fazer aos outros o que não
quero que me façam". O Mestre disse: "Oh, ainda não
chegaste tão longe!"
5.13 Zigong disse: "As opiniões de nosso Mestre sobre
cultura podem ser compiladas, mas não é possível escutar
suas opiniões sobre a natureza das coisas e sobre o
Caminho para o Céu".
3.14 Quando Zilu aprendia uma coisa, seu único receio era
vir a aprender outra antes de ter a oportunidade de praticar
a primeira.
5.15 Zigong perguntou: "Por que Kong, o Civilizado, era
chamado de "Civilizado"? O Mestre disse: "Porque tinha uma
mente ágil, gostava de aprender e não tinha vergonha de
pedir esclarecimentos aos seus inferiores".
5.16 O Mestre disse a respeito de Zichan: "Ele seguiu o
Caminho de um cavalheiro em quatro aspectos: na sua
conduta privada era digno; a serviço de seu superior era
respeitoso; ao prover o povo era generoso; ao empregar o
povo era justo".
5.17 O Mestre disse: "Yan Ying conhecia a arte do trato
social: com ele, um relacionamento de longa data nunca se
convertia em familiaridade".
5.18 O Mestre disse: "Zang Sunchen construiu uma casa
para sua tartaruga, com pilares em forma de montanhas e
caibros decorados com plantas aquáticas. Terá ele perdido o
juízo?"
5.19 Zizhang perguntou: "Três vezes Ziwen foi nomeado
primeiro-ministro, mas ele nunca demonstrou nenhum
júbilo. Três vezes ele foi demitido, mas ele nunca
demonstrou nenhum desapontamento. A cada vez, ele
zelosamente informou seu sucessor sobre os assuntos de
sua pasta. O que pensais a respeito?" O Mestre disse: "Ele
era leal". Zizhang disse: "Ele era bom?" O Mestre disse:
"Não sei; não vejo por que deveríamos considerá-lo bom".
"Quando Cui Zhu matou o soberano de Qi, Chen Xuwu, que
possuía um grande território, abandonou suas propriedades
e partiu de Qi. Tendo se estabelecido em outro país, ele
disse: 'Eles não são melhores do que Cui Zhu', e partiu.
Tendo se estabelecido ainda em outro país, ele disse uma
vez mais: 'Eles não são melhores do que Cui Zhu', e
novamente partiu. O que pensais a respeito?"
O Mestre disse: "Ele era puro". Zizhang disse: "Ele era
bom?" O Mestre disse: "Não sei. Não vejo por que
deveríamos considerá-lo bom".
5.20 O senhor Ji Wen sempre pensava três vezes antes de
agir. Ao saber disso, o Mestre disse: "Duas vezes já é
suficiente".
5.21 O Mestre disse: "Quando o Caminho prevalecia no país,
o senhor Ning Wu era inteligente. Quando o país se afastou
do Caminho, o senhor Ning Wu tornou-se estúpido. Sua
inteligência pode ser igualada; sua estupidez é sem-par".
5.22 O Mestre estava em Chen. Ele disse: "Voltemos para
casa, voltemos para casa! Nossos jovens estão cheios de
ímpeto, têm talentos brilhantes, mas ainda não sabem como
usá-los".
5.23 O Mestre disse: "Boyi e Shuqi nunca se lembravam de
velhos agravos e raramente provocavam ressentimentos".
5.24 O Mestre disse: "Quem disse que Weisheng Gao era
correto? Quando alguém lhe pediu vinagre, ele foi esmolá-lo
na porta vizinha e ofereceu-o como se fosse seu".
5.25 O Mestre disse: "Fala solta, afetação e subserviência -
Zuoqiu Ming desprezava tudo isso e eu também desprezo.
Ser amigo de um homem de quem nos ressentimos em
segredo - Zuoqiu Ming desprezava isso, e eu também
desprezo".
5.26 Yan Hui e Zilu estavam presentes. O Mestre disse:
"Que tal me contardes vossos desejos secretos?"
Zilu disse: "Desejo compartilhar minhas carruagens,
cavalos, roupas e peles com meus amigos sem ficar
zangado se eles os estragarem".
Yan Hui disse: "Desejo nunca me gabar de minhas boas
qualidades ou chamar a atenção para minhas boas
realizações".
Zilu disse: "Poderíamos perguntar quais são os desejos
secretos de nosso Mestre?"
O Mestre disse: "Desejo que os velhos possam desfrutar de
paz, os amigos possam desfrutar de confiança e os jovens
possam desfrutar de afeto".
5.27 O Mestre disse: "Ai de mim, nunca vi um homem capaz
de reconhecer suas próprias faltas e expô-las ao tribunal de
seu coração".
5.28 O Mestre disse: "Numa aldeia de dez casas, decerto
encontrarás pessoas tão leais e confiáveis quanto eu, mas
não encontrarás um homem que goste tanto quanto eu de
aprender".
Capítulo 6
6.1 O Mestre disse: "Ran Yong tem dentro de si as
qualidades essenciais de um príncipe".
6.2 Ran Yong perguntou sobre Zisang Bosi. O Mestre disse:
"Seus modos condescendentes são bastante corretos". Ran
Yong disse: "Ser exigente consigo mesmo mas
condescendente com o povo é aceitável. Ser
condescendente consigo mesmo e condescendente com o
povo seria frouxidão demais. Estou certo?" O Mestre disse:
"Estás certo".
6.3 O duque Ai perguntou: "Qual dos discípulos tem amor
pela aprendizagem?" Confúcio respondeu: "Havia Yan Hui
que amava aprender; ele nunca descarregava suas
frustrações sobre os outros; nunca cometia o mesmo erro
duas vezes. Infelizmente, o tempo de vida que lhe coube foi
curto: ele está morto. Agora, de todos os que conheço, não
há nenhum com tanto amor pela aprendizagem".
6.4 Gongxi Chi foi enviado em missão a Qi. O mestre Ran
Qiu requisitou uma bonificação em grãos para a mãe de
Gongxi. O Mestre disse: "Dá-lhe um pote cheio". Ran Qiu
pediu mais. O Mestre disse: "Dá-lhe uma medida". O mestre
Ran Qiu deu-lhe cem vezes mais. O Mestre disse: "Gongxi
Chi está viajando para Qi com magníficos cavalos e peles
finas. Sempre ouvi dizer que um cavalheiro socorre os
necessitados e não torna os ricos ainda mais ricos".
6.5 Yuan Xian tornou-se o camareiro de Confúcio e
ofereceram-lhe uma bonificação de novecentas medidas de
grãos, mas ele declinou. O Mestre disse: "Não faças isso!
Podes dá-lo ao povo de teu vilarejo".
6.6 O Mestre disse a respeito de Ran Yong: "Alguns
poderiam hesitar ao escolher para o sacrifício a cria de um
boi carreiro; contudo, se um jovem touro tem bons chifres e
o couro marrom avermelhado, os espíritos das Montanhas e
dos Rios iriam rejeitá-lo?"
6.7 O Mestre disse: "Ah! Yan Hui poderia dedicar sua mente
à bondade durante três meses sem interrupção, ao passo
que os outros só o conseguem vez por outra".
6.8 O senhor Ji Kang perguntou: "Zilu poderia ser feito
ministro?" O Mestre disse: "Zilu é resoluto; por que não o
fazer ministro?"
O outro perguntou novamente: "Zigong poderia ser feito
ministro?" - "Zigong é sagaz; por que não o fazer ministro?"
O outro perguntou ainda: "Ran Qiu poderia ser feito
ministro?" - "Ran Qiu é talentoso; por que não o fazer
ministro?"
6.9 O chefe da família Ji convidou Min Ziqian para gerir sua
propriedade em Bi. Min Ziqian respondeu ao mensageiro:
"Transmite gentilmente minhas recusas. Contudo, se uma
nova oferta fosse feita, eu teria de me retirar para a outra
margem do rio Wen".
6.10 Bonju estava doente. O Mestre foi pedir notícias dele.
Segurando a mão de Bonju através da janela, ele disse:
"Perdemo-lo. É o destino, ai de mim! Que um homem
desses tivesse de ter uma doença dessas, que um homem
desses tivesse de ter uma doença dessas!"
6.11 O Mestre disse: "Que pessoa admirável era Yan Hui!
Um punhado de arroz para comer, uma cuia de água para
beber, uma choupana para se abrigar; ninguém suportaria
tanta miséria, mas a alegria de Yan Hui não se alterava.
Que pessoa admirável era Yan Hui!"
6.12 Ran Qiu disse: "Não é que eu não goste do caminho do
Mestre, mas não tenho a força para segui-lo". O Mestre
disse: "Quem não tem a força pode sempre desistir no meio
do caminho. Mas tu desistes antes de começar".
6.13 O Mestre disse a Zixia: "Sê um homem culto nobre,
não um pedante vulgar".
6.14 Ziyou era governador de Wucheng. O Mestre disse:
"Tens lá o tipo de gente adequada?" - "Há um certo Tantai
Mieming: ele não faz uso de expedientes; nunca veio à
minha casa, exceto para assuntos oficiais".
6.15 O Mestre disse: "Meng Zhifan não era um fanfarrão. Na
estrada, ele ficava atrás para cobrir a retaguarda. Era
apenas ao atingir a porta da cidade que ele esporeava seu
cavalo e dizia: "Não foi a coragem que me manteve na
traseira, mas a lentidão de meu cavalo".
6.16 O Mestre disse: "Para sobreviver numa época como a
nossa, não basta ter a beleza do príncipe Zhao de Song.
Necessita-se também da língua ágil do Sacerdote Tuo".
6.17 O Mestre disse: "Quem sairia de uma casa sem usar a
porta? Por que as pessoas insistem em andar fora do
Caminho?"
6.18 O Mestre disse: "Quando a natureza prevalece sobre a
cultura, obténs um selvagem; quando a cultura prevalece
sobre a natureza, obténs um pedante. Quando natureza e
cultura estão em equilíbrio, obténs um cavalheiro".
6.19 O Mestre disse: "Um homem sobrevive graças à sua
integridade. Se ele sobrevive sem isso, é pura sorte".
6.20 O Mestre disse: Conhecer alguma coisa não é tão bom
quanto amá-la; amar alguma coisa não é tão bom quanto
regozijar-se nela".
6.21 O Mestre disse: "Podes explicar coisas superiores a
pessoas médias; não podes explicar coisas superiores a
pessoas inferiores".
6.22 Fan Chi perguntou sobre sabedoria. O Mestre disse:
"Garante os direitos do povo; respeita espíritos e deuses,
mas mantendo-os a distância - isso, na verdade, é
sabedoria".
Fan Chi perguntou sobre bondade. O Mestre disse: "As
tentativas de um homem bom geram frutos - isso, na
verdade, é bondade".
6.23 O Mestre disse: "Os sábios encontram alegria na água,
os bons encontram alegria nas montanhas. Os sábios são
ativos, os bons são tranqüilos. Os sábios são alegres, os
bons vivem por muitos anos".
6.24 O Mestre disse: "Com uma reforma, o país de Qi
poderia atingir o nível de Lu; com uma reforma, Lu poderia
atingir o Caminho".
6.25 O Mestre disse: "Um vaso quadrado que não é
quadrado - vaso quadrado, deveras!"
6.26 Zai Yu perguntou: "Se disséssemos a um homem bom
que a bondade encontra-se no fundo do poço, deveria ele
pular para juntar-se a ela?" O Mestre disse: "Por que
deveria? Um cavalheiro pode ser mal informado, não pode
deixar-se seduzir: ele pode ser enganado, não pode deixar-
se desencaminhar".
6.27 O Mestre disse: "Um cavalheiro amplia sua
aprendizagem por meio da literatura e se refreia pelo ritual;
por isso, é improvável que cometa erros".
6.28 O Mestre foi ver Nanzi, a concubina do duque Ling. Zilu
não gostou. O Mestre jurou: "Se fiz algo de errado, que o
Céu me condene! Que o Céu me condene!"
6.29 O Mestre disse: "O poder moral do Caminho do Meio é
supremo, e contudo já há muito tempo ele não é encontrado
comumente entre o povo".
6.30 Zigong disse: "O que diríeis de um homem que cumula
o povo de bênçãos e que poderia salvar a multidão? Poderia
ele ser considerado bom?" O Mestre disse: "O que tem isso
a ver com bondade? Ele seria um santo! Até mesmo Yao e
Shun revelar-se-iam deficientes a esse respeito. Quanto ao
homem bom: o que deseja alcançar para si ele ajuda os
outros a alcançar; o que deseja obter para si ele possibilita
que os outros obtenham - a habilidade de simplesmente
tomar as próprias aspirações como guia é a receita da
bondade".
Capítulo 7
7.1 O Mestre disse: "Eu transmito, não invento nada. Confio
no passado e o amo. Nisso, ouso comparar-me ao nosso
venerável Peng".
7.2 O Mestre disse: "Armazenar conhecimento em silêncio,
permanecer para sempre faminto de aprendizagem, ensinar
os outros sem se cansar - tudo isso é natural para mim".
7.3 O Mestre disse: "Fracassar no cultivo do poder moral,
fracassar na exploração do que aprendi, ser incapaz de
defender o que sei ser o correto, ser incapaz de reformar o
que não é bom - são estas as minhas preocupações".
7.4 Em casa, o Mestre era sereno e alegre.
7.5 O Mestre disse: "Estou ficando assombrosamente velho.
Passou-se muito tempo desde que vi o duque de Zhou em
sonhos pela última vez".
7.6 O Mestre disse: "Coloca teu coração no Caminho; confia
no poder moral: persegue a bondade; desfruta das artes".
7.7 O Mestre disse: "Nunca neguei meus ensinamentos a
quem quer que os buscasse, mesmo que fosse alguém
pobre demais para oferecer mais do que um presente
simbólico por sua instrução".
7.8 O Mestre disse: "Esclareço apenas os entusiastas:
oriento apenas os fervorosos. Depois de eu ter levantado
um lado de uma questão, se o estudante não conseguir
descobrir as outras três, não repito".
7.9 Quando o Mestre comia perto de alguém enlutado, ele
nunca se saciava plenamente.
7.10 Num dia em que tivesse chorado, o Mestre nunca
cantava.
7.11 O Mestre disse a Yan Hui: "Aparecer quando necessário
e esconder-se quando dispensável - somente tu e eu
conseguimos fazer isso".
Zilu disse: "Se tivésseis o comando das Três Armas, quem
tomaríeis como vosso lugar-tenente?" O Mestre disse: "Para
meu lugar-tenente, não escolheria um homem que luta com
tigres ou que atravessa os rios a nado sem temer a morte.
Ele deveria estar cheio de apreensão antes de entrar em
ação e sempre preferir uma vitória alcançada por meio da
estratégia".
7.12 O Mestre disse: "Se buscar a riqueza fosse um objetivo
decente, também eu a buscaria, mesmo que tivesse de
trabalhar como zelador. Como as coisas são, prefiro seguir
minhas inclinações".
7.13 Temas que o Mestre abordava com circunspecção:
jejum; guerra; doença.
7.14 Quando o Mestre estava em Qi, ele ouviu o Hino da
Coroação de Shun. Por três meses, esqueceu o gosto da
carne. Ele disse: "Nunca imaginei que a música pudesse
atingir esse ponto".
7.15 Ran Qiu disse: "Nosso Mestre apoia o duque de Wei?"
Zigong disse: "Bem, vou perguntar-lhe". Zigong entrou e
perguntou a Confúcio: "Que tipo de pessoas eram Boyi e
Shuqi?" - "Eram velhos homens virtuosos". - "Eles se
queixavam?" - "Eles buscaram a bondade, eles conseguiram
a bondade. Por que deveriam queixar-se?"
Zigong saiu e disse a Ran Qiu: "Nosso Mestre não apoia o
duque de Wei".
7.16 O Mestre disse: "Mesmo que tenhas apenas grãos
ordinários como alimento, água para beber e teu braço
dobrado como travesseiro, ainda podes ser feliz. Riquezas e
honrarias sem justiça são para mim como nuvens
passageiras".
7.17 O Mestre disse: "Que me sejam dados alguns anos
mais; se eu puder estudar as Mutações até os cinqüenta,
estarei livre de cometer grandes erros".
7.18 Ocasiões em que o Mestre não utilizava o dialeto: ao
recitar os Poemas e os Documentos e ao realizar
cerimônias. Em todas essas ocasiões, ele utilizava a
pronúncia correta.
7.19 O governante de She perguntou a Zilu sobre Confúcio.
Zilu não respondeu. O Mestre disse: "Por que não disseste:
'Ele é o tipo de homem que, em seu entusiasmo, se esquece
de comer, em sua alegria se esquece de se preocupar, e que
ignora a aproximação da velhice?' "
7.20 O Mestre disse: "Quanto a mim, não sou dotado de um
conhecimento inato. Sou simplesmente um homem que ama
o passado e que é diligente em investigá-lo".
7.21 O Mestre nunca falava de: milagres; violência;
desordens; espíritos.
7.22 O Mestre disse: "Coloca-me na companhia de duas
pessoas escolhidas ao acaso - elas invariavelmente terão
algo para me ensinar. Poderei tomar suas qualidades por
modelo e seus defeitos como alerta".
7.23 O Mestre disse: "O Céu revestiu-me de poder moral. O
que tenho a temer de Huan Tui?"
7.24 O Mestre disse a seus discípulos: "Amigos, achais que
estou escondendo alguma coisa de vós? Não escondo nada.
Tudo o que faço compartilho convosco. É assim que sou".
7.25 O Mestre fazia uso de quatro pontos em seu ensino:
literatura; realidades da vida; lealdade; boa- fé.
7.26 O Mestre disse: "Um santo, não posso ter esperança de
encontrar. Ficaria feliz se pudesse ao menos encontrar um
cavalheiro".
O Mestre disse: "Um homem perfeito, não posso ter
esperança de encontrar Ficaria feliz se pudesse ao menos
encontrar um homem de princípios. Quando o Nada passa
por ser Algo, o Vazio passa por ser Plenitude e a Penúria
passa por ser Prosperidade, é difícil ter princípios".
7.27 O Mestre pescava com anzol, não com rede. Na caça,
nunca atirava num pássaro empoleirado.
7.28 O Mestre disse: "Talvez existam pessoas que consigam
agir sem conhecimento, mas não sou uma delas. Ouvir
muito, selecionar o melhor e segui-lo; ver muito e manter
um registro disso: esse ainda é o melhor substituto para o
conhecimento inato".
7.29 O povo de Huxiang era surdo a todo ensinamento, mas
um menino veio visitar o Mestre. Os discípulos estavam
perplexos. O Mestre disse: "Aprovar sua visita não significa
aprovar as outras coisas que ele faz. Por que ser tão
meticuloso? Quando um homem se limpa antes de uma
visita, apreciamos sua limpeza, não endossamos seu
passado ou seu futuro".
7.30 O Mestre disse: "A bondade encontra-se fora de
alcance? Enquanto eu ansiar por bondade, a bondade estará
à mão".
7.31 Chen Sibai perguntou: "O seu duque Zhao conhece o
ritual?" Confúcio disse: "Ele conhece o ritual".
Confúcio retirou-se. Chen, inclinando-se para Wuma Qi,
convidou-o a se adiantar e disse: "Ouvi dizer que um
cavalheiro nunca é parcial. Contudo, seu Mestre não é
deveras parcial? O duque escolheu uma esposa de Wu; mas,
como ela pertencia ao seu próprio clã, ele mudou-lhe o
nome. Se isso é conhecer o ritual, então quem não conhece
o ritual?"
Wuma Qi contou isso a Confúcio. O Mestre disse: "Sou
realmente um homem de sorte: toda vez que cometo um
erro, há sempre alguém para percebê-lo".
7.32. Quando o Mestre estava cantando acompanhado, se
alguém cantasse uma peça de que gostava, ele sempre lhe
pedia para repeti-la e depois cantava junto.
7.33. O Mestre disse: "Meu zelo é tão forte quanto o de
qualquer pessoa; mas ainda não consegui viver de maneira
nobre".
7.34 O Mestre disse: "Não reivindico a sabedoria ou a
perfeição humana - como ousaria? Contudo, meu objetivo
permanece imutável e nunca me canso de ensinar as
pessoas". Gongxi Chi disse: "Isso é precisamente o que nós,
discípulos, não conseguimos emular".
7.35 O Mestre estava gravemente doente. Zilu pediu licença
para rezar. O Mestre disse: "Existe tal prática?" Zilu disse:
"Oh sim, e a invocação é a seguinte: 'Rogamos a vós,
Espíritos de cima e Espíritos de baixo' ". O Mestre disse:
"Nesse caso, já venho rezando há muito tempo".
7.36 O Mestre disse: "A opulência pode levar à arrogância;
a frugalidade pode levar à parcimônia. Sê antes
parcimonioso que arrogante".
7.37 O Mestre disse: "Um cavalheiro é condescendente e
livre; um homem vulgar é sempre tenso e desassossegado".
7.38 O Mestre era afável, embora fosse sério; ele tinha
autoridade sem ser autoritário; era digno mas facilmente
acessível.
Conversações de Confúcio(02)
Capítulo 8
8.1 O Mestre disse: "Sobre Taibo, pode-se efetivamente
dizer que seu poder moral era supremo. Três vezes ele
renunciou ao domínio sobre o mundo inteiro, sem dar ao
povo oportunidade de louvá-lo".
8.2 O Mestre disse: "Sem ritual, a cortesia é cansativa; sem
ritual, a prudência é tímida; sem ritual, a bravura é
encrenqueira; sem ritual, a franqueza é ferina. Quando os
cavalheiros tratam seus parentes generosamente, o povo é
atraído para a bondade; quando os velhos laços não são
esquecidos, o povo não é volúvel".
8.3 Mestre Zeng estava doente. Ele chamou seus discípulos
e disse: "Olhai para meus pés! Olhai para minhas mãos!
Está escrito nos Poemas:
Trêmulo e vacilante,
Como na beira de um abismo,
Como caminhando sobre o gelo fino.
Mas agora, meus pequenos, sei que cheguei com segurança
ao porto".
8.4 Mestre Zeng estava doente. O senhor Mengjing veio
visitá-lo. Mestre Zeng disse: "Quando um pássaro está
prestes a morrer, seu canto é triste; quando um homem
está prestes a morrer, suas palavras são verdadeiras. Ao
seguir o Caminho, um cavalheiro presta especial atenção a
três coisas: na sua atitude, ele evita precipitação e
arrogância; na sua expressão, ele se apega à boa- fé; na
sua fala, ele evita a vulgaridade e a falta de sentido. Quanto
aos detalhes da liturgia, que sejam deixados aos
sacristãos".
8.5 Mestre Zeng disse: "Competente, mas disposto a ouvir
os incompetentes; talentoso, mas disposto a ouvir os
destituídos de talento; possuidor, mas parecendo
despossuído; pleno, mas parecendo vazio; engolindo
insultos sem se ofender - muito tempo atrás, eu tinha um
amigo que praticava essas coisas".
8.6 Mestre Zeng disse: "Podes confiar a ele os cuidados de
um pequeno órfão, podes confiar a ele o governo de todo
um país; quando posto à prova, ele permanece firme. Um
tal homem é um cavalheiro? Ele é deveras um cavalheiro".
8.7 Mestre Zeng disse: "Um erudito tem de ser forte e
resoluto, pois sua carga é pesada e sua jornada é longa.
Sua carga é a humanidade: isso não é pesado? Sua jornada
só termina com a morte: isso não é longo?"
8.8 O Mestre disse: "Inspira-te nos Poemas; firma teu
comportamento com o ritual; encontra tua satisfação na
música".
8.9 O Mestre disse: "Podes fazer as pessoas seguirem o
Caminho, não podes fazer com que o compreendam".
8.10 O Mestre disse: "Confinado na pobreza, um homem
bravo pode rebelar-se. Pressionado demais, um homem sem
moralidade pode rebelar-se".
8.11 O Mestre disse: "Um homem pode ter os esplêndidos
talentos do duque de Zhou, mas se ele é arrogante e
egoísta, todos os seus méritos não valem nada".
8.12 O Mestre disse: "É difícil encontrar homem que estude
por três anos sem pensar em nenhum momento em sua
carreira".
8.13 O Mestre disse: "Preserva a fidelidade, ama o
aprender, defende o bom Caminho com a tua vida. Não
entres em nenhum país que seja instável: não residas num
país que esteja tumultuado. Destaca-te num mundo que
segue o Caminho; esconde-te quando o mundo se afasta do
Caminho. Num país em que o Caminho prevalece, é
vergonhoso permanecer pobre e obscuro; num país que se
afastou do Caminho, é vergonhoso tornar-se rico e
honrado".
8.14 O Mestre disse: "Não discutas os assuntos políticos de
um cargo que não seja o teu".
8.15 O Mestre disse: "Quando Zhi, o mestre de música, está
regendo, no trecho de abertura e no final de 'As Águias
pescadoras', que plenitude penetra os ouvidos!"
8.16 O Mestre disse: "Impetuosas, mas insinceras;
ignorantes, mas imprudentes; ingênuas, mas não confiáveis
- tais pessoas realmente escapam à minha compreensão".
8.17 O Mestre disse: "Aprender é como uma perseguição na
qual, quando não consegues alcançar a meta, temes perder
o que já ganhaste".
8.18 O Mestre disse: "Quão sublimes eram Shun e Yu: eles
tinham domínio sobre tudo o que está sob o Céu, e, no
entanto, não se apegavam a isso".
8.19 O Mestre disse: "Que grande dirigente era Yao! Que
sublime! Apenas o Céu é grande, e Yao seguiu seu modelo.
As pessoas não encontravam palavras para louvar sua
generosidade. Que sublimes suas realizações e que
esplêndidas suas instituições!"
8.20 Shun governou o mundo inteiro com apenas cinco
ministros. O rei Wu disse: "Tenho dez ministros".
Confúcio disse: "Pessoas capazes são difíceis de encontrar:
que verdade! Supunha-se que os tempos de Yao e Shun
fossem ricos em talentos e, contudo, Shun encontrou
apenas cinco ministros; quanto ao rei Wu, já que um de
seus ministros era uma mulher, na verdade ele apenas
encontrou nove homens. Embora a Casa de Zhou dominasse
dois terços do mundo, continuava sendo vassalo de Shang.
Pode-se efetivamente dizer que o poder moral de Zhou era
supremo".
8.21 O Mestre disse: "Em Yu, não encontro nenhum defeito.
Ele bebia e comia uma refeição frugal, mas demonstrava
profunda devoção em suas oferendas aos fantasmas e aos
espíritos; ele usava roupas ordinárias, mas suas vestes
litúrgicas eram magníficas: sua morada era modesta, e ele
despendia sua energia drenando a água das enchentes. Em
Yu, não encontro defeitos".
Capítulo 9
9.1 O Mestre raramente falava de proveito, ou destino, ou
humanidade.
9.2 Um homem de Daxiang disse: "Vosso Confúcio é
realmente grande! Com sua vasta erudição, ele ainda não
conseguiu sobressair em nenhum campo em particular". O
Mestre soube disso e disse aos seus discípulos: "Que
habilidade deveria eu cultivar? Talvez a arte da condução de
carruagens? Talvez a arte do arco e flecha? Está bem,
dedicar-me-ei à arte de conduzir carruagens".
9.3 O Mestre disse: "De acordo com o ritual, o barrete
cerimonial deveria ser feito de cânhamo; hoje em dia, ele é
feito de seda, que é mais conveniente; então eu sigo o uso
geral. De acordo com o ritual, deveríamos nos inclinar no pé
da escada: hoje em dia as pessoas se inclinam no topo da
escada, o que é rude. Embora contrariando o uso geral,
inclino-me no pé da escada".
9.4 O Mestre evitava absolutamente quatro coisas:
extravagância, dogmatismo. teimosia, presunção.
9.5 O Mestre foi emboscado em Kuang. Ele disse: "O rei
Wen está morto; a civilização não depende agora de mim?
Se o Céu pretende que a civilização seja destruída, por que
a depositou em mim? Se o Céu não pretende que a
civilização seja destruída, o que tenho a temer do povo de
Kuang?"
9.6 O Grande Camareiro perguntou a Zigong: Seu Mestre
não é um santo? Mas então por que deveria ele possuir
também tantas aptidões particulares?" Zigong respondeu:
"O Céu de fato fez dele um santo; mas ele também tem a
sorte de ter muitas aptidões". Ao saber disso, o Mestre
disse: "O Grande Camareiro realmente me conhece. Na
minha juventude, eu era pobre; por isso, tive de me tornar
competente numa variedade de habilidades modestas. Tal
versatilidade corresponde a um cavalheiro? Não, não
corresponde".
9.7 Lao disse: "O Mestre disse que seu fracasso na vida
pública forçou-o a desenvolver várias habilidades".
9.8 O Mestre disse: "Sou instruído? Não. Um aldeão me fez
uma pergunta, e minha mente ficou vazia. Contudo, estudei
seu problema com afinco por todos os lados até descobrir
alguma coisa".
9.9 O Mestre disse: "O Fênix não vem, o Rio não revela
nenhum mapa. Está tudo terminado para mim!"
9.10 Toda vez que o Mestre via alguém de luto, ou em
vestes cerimoniais. ou quando via um homem cego, mesmo
mais jovem do que ele, sempre se levantava, ou
respeitosamente dava passagem".
9.11 Yan Hui disse com um suspiro: "Quanto mais o
contemplo, mais alto ele está: quanto mais fundo escavo,
mais ele resiste: eu o vi na minha frente, e então,
subitamente, ele estava atrás de mim. Passo a passo, nosso
Mestre realmente sabe como atrair as pessoas. Ele me
estimula com literatura, ele me refreia com o ritual. Mesmo
que eu quisesse parar, não poderia. Quando todos os meus
recursos estão exauridos, a meta ergue-se no alto bem à
minha frente; anseio abraçá-la, mas não encontro o
Caminho".
9.12. O Mestre estava muito doente. Zilu organizou os
discípulos num séquito, como se eles fossem os sequazes de
um senhor. Durante uma remissão de sua doença, o Mestre
disse: "Zilu, esta farsa já durou tempo demais. A quem
posso enganar com esses falsos sequazes? Posso enganar o
Céu? A morrer entre sequazes, prefiro morrer nos braços de
meus discípulos. Posso não vir a receber um funeral de
estado, mas tampouco hei de morrer à beira da estrada".
9.13 Zigong perguntou: "Se tivésseis uma preciosa peça de
jade, vós a esconderíeis com segurança numa caixa, ou
tentaríeis vendê-la por um bom preço?" O Mestre disse: Eu
a venderia! Eu a venderia! Só estou esperando a melhor
oferta".
9.14 O Mestre pretendia estabelecer-se entre as nove tribos
bárbaras do Leste. Alguém disse: "Mas a vida é selvagem
naquelas paragens. Como agüentaríeis?" O Mestre disse:
"Como poderia ser selvagem, uma vez que um cavalheiro se
estabelecesse ali?"
9.15 O Mestre disse: "Foi só depois do meu retorno de Wei
para Lu que a música voltou à sua ordem: peças curtas por
um lado, hinos por outro.
9.16 O Mestre disse: "Nunca me pareceu difícil servir aos
meus superiores fora de casa e aos mais velhos em casa; ou
enterrar os mortos com a devida reverência; ou controlar
meu vinho".
9.17 O Mestre encontrava-se à margem de um rio e disse:
"Tudo flui assim, sem cessar, dia e noite".
9.18 O Mestre disse: "Nunca vi ninguém que amasse a
virtude tanto quanto o sexo".
9.19 O Mestre disse: "É como a construção de um túmulo:
se paras antes do último cesto de terra, ele permanece para
sempre inacabado. É como o aterro de uma vala: uma vez
que jogaste o primeiro cesto, basta continuar a fim de
progredir".
9.20 O Mestre disse: "O que era único em Yan Hui era sua
capacidade de atenção sempre que alguém falava com ele".
9.21 O Mestre disse sobre Yan Hui: "Ai de mim, acompanhei
seu progresso, mas não o vi atingir o objetivo".
9.22 O Mestre disse: "Existem brotos que não produzem
flores, e existem flores que não produzem frutos".
9.23 O Mestre disse: "Dever-se-ia olhar os jovens com
admiração: como saber se a próxima geração não se
equiparará à presente? Se contudo, com a idade de
quarenta ou cinqüenta, um homem não construiu um nome
para si, ele já não merece ser levado a sério".
9.24 O Mestre disse: "Como poderiam palavras
admonitórias deixar de obter nossa aquiescência? O
principal deveria ser, porém, a retificação de nossa conduta.
Como poderiam palavras elogiosas deixar de nos agradar? O
principal deveria ser, porém, a compreensão de sua
intenção. Algumas pessoas demonstram agrado mas
nenhuma compreensão, ou elas aquiescem sem retificar
seus hábitos - realmente não sei o que fazer com elas".
9.25 O Mestre disse: "Coloca a lealdade e a confiança acima
de qualquer coisa; não te alies aos moralmente inferiores;
não receies corrigir teus erros".
9.26 O Mestre disse: "Pode-se despojar um exército de seu
comandante- em- chefe; não se pode privar o homem mais
humilde de seu livre-arbítrio".
9.27 O Mestre disse: "Apenas Zilu consegue permanecer em
seus andrajos ao lado de pessoas vestindo finas peles sem
sentir nenhum embaraço:
Sem inveja e sem cobiça
Ele deve ser um bom homem.
Dali em diante, Zilu ficava continuamente cantarolando
esses dois versos. O Mestre disse: Ora, isso não é uma
receita de perfeição".
9.28 O Mestre disse: "É no frio do Inverno que se percebe o
quanto são verdes os pinheiros e os ciprestes".
9.29 O Mestre disse: "Os sábios não têm perplexidade; os
bons não têm aflição; os valentes não têm medo".
9.30 O Mestre disse: "Há pessoas com quem se pode
compartilhar informações, mas não compartilhar o Caminho.
Há pessoas com quem se pode compartilhar o Caminho,
mas não compartilhar um compromisso. Há pessoas com
quem se pode compartilhar um compromisso, mas não
compartilhar conselhos".
9.31
A cerejeira
Acena com suas flores.
Não deixo de pensar em ti
Mas tua casa fica tão longe!
O Mestre disse: "Ele não a ama realmente; se ele a amasse,
importar-se-ia com a distância?"
Capítulo 10
10.1 No seu vilarejo, Confúcio tinha modos despretensiosos
e falava com hesitação.
No templo ancestral e na corte, sua fala era eloqüente mas
circunspecta.
10.2 Na corte, ao conversar com os ministros menos
importantes, ele era afável; ao conversar com os ministros
mais importantes, ele era respeitoso. Diante do dirigente,
ele era humilde mas sereno.
10.3 Quando o dirigente lhe ordenava dar as boas-vindas a
um convidado, ele demonstrava gravidade e expectativa.
Inclinando-se e cumprimentando à direita e à esquerda, seu
manto acompanhava os movimentos de seu corpo e,
quando ele avançava, suas mangas agitavam-se como asas.
No final da visita, ele sempre anunciava: "O convidado
partiu".
10.4 Ao transpor os portões do palácio do duque, ele
caminhava discretamente. Nunca parava no meio da
passagem nem pisava na soleira. Quando passava diante do
trono, adotava uma expressão de gravidade, apressava o
passo, e parecia perder a fala.
Ao subir os degraus do salão de audiências, erguia a orla de
seu manto e inclinava-se, como se perdesse a respiração;
ao sair, depois de descer o primeiro degrau, expressava
alívio e contentamento.
No final da escada, movia-se rapidamente, como se tivesse
asas. Ao retornar ao seu lugar, reassumia sua fisionomia
humilde.
10.5 Ao segurar a placa de jade, ele se inclinava como que
curvando-se sob seu peso. Colocava a mão de cima como
que para saudação e a mão de baixo como que para
oferenda. Sua expressão refletia admiração, ele andava a
passos curtos através de um caminho estreito.
Na apresentação ritual de presentes, sua expressão era
cortês.
Na audiência privada, mostrava-se alegre.
10.6 Um cavalheiro não usa lapelas cor de púrpura ou cor
de malva; vermelho e violeta não deveriam ser usados nas
vestimentas caseiras diárias.
No calor do verão, ele usa linho leve, fino ou rude, mas
nunca sai sem colocar um manto.
Com um roupão preto, ele usa pele de cordeiro; com um
roupão branco, pele de cervo; com um roupão amarelo, pele
de raposa.
Seu roupão de pele para usar dentro de casa é longo, com a
manga direita mais curta.
Sua camisa de dormir é do comprimento do joelho.
Peles grossas de raposa e texugo são para ser usadas
dentro de casa.
Exceto quando está de luto, ele usa todos os seus
ornamentos da cintura.
Afora seu manto cerimonial, que é composto de uma única
peça, todas as suas roupas são cortadas e costuradas.
Em funerais, peles de cordeiro e barretes pretos não
deveriam ser usados.
No dia do Ano Novo, ele tem de freqüentar a corte em
indumentária da corte.
10.7 Em períodos de abstinência, ele usa o roupão de
purificação, feito de linho grosseiro.
Em períodos de abstinência, ele segue uma outra dieta e,
em casa, não senta no seu lugar de costume.
10.8 Mesmo seu arroz sendo da mais fina qualidade, ele não
se vangloria; mesmo sua carne sendo finamente cortada,
ele não se vangloria.
Se o alimento está mofado ou rançoso, se o peixe não está
fresco se a carne está estragada, ele não o come. Se o
alimento perdeu a cor, ele não o come. Se o alimento cheira
mal, ele não o come. Se está mal cozido, ele não o come.
Se não é servido na hora certa, ele não o come. Se não está
adequadamente cortado, ele não o come. Se não é servido
no molho correto, ele não o come.
Mesmo havendo muita carne, ele não deve comer mais
carne do que arroz.
Quanto ao vinho, contudo, não existem restrições, enquanto
ele mantiver a mente clara.
Ele não consome vinho comprado em loja, ou carne seca do
mercado.
Ele deixa um pouco de gengibre sobre a mesa durante a
refeição, mas utiliza-o com moderação.
10.9 Depois de um sacrifício de estado, a carne não deve
ser guardada de um dia para o outro. A carne de sacrifícios
domésticos não deve ser guardada mais do que três dias.
Depois do terceiro dia, ela não deve ser ingerida.
10.10 Não deve haver conversas durante as refeições, e não
se deve conversar na cama.
10.11 Por mais ordinário que seja o alimento, deve-se rezar
antes de cada refeição, e rezar com devoção.
10.12 Não sentes sobre uma esteira que não esteja
esticada.
10.13 Ao beber numa reunião do vilarejo, não se deve sair
antes dos mais velhos.
10.14 Quando um exorcismo era realizado no seu vilarejo,
ele aparecia com sua vestimenta da corte, no estrado
localizado a leste.
10.15 Ao enviar uma mensagem para alguém de fora,
inclinava-se duas vezes antes de autorizar o mensageiro a
seguir caminho.
10.16 O senhor Ji Kang enviou-lhe alguns remédios. Ele se
inclinou e aceitou o presente, mas disse: "Como não
conheço esta substância, não ouso experimentá-la".
10.17 Os estábulos queimavam. O Mestre deixou a corte e
perguntou: "Alguém se feriu?" Ele não perguntou sobre os
cavalos.
10.18 Quando o príncipe lhe manda um presente de
alimento cozido, ele precisa endireitar sua esteira e
experimentá-lo imediatamente. Quando o príncipe lhe
manda um presente de alimento cru, ele tem de cozinhá-lo
e oferecê-lo aos ancestrais. Quando o príncipe lhe dá um
animal vivo, ele tem de criá-lo.
Ao aguardar o príncipe na hora da refeição, enquanto o
príncipe realiza a oferenda sacrificial, ele experimenta o
alimento primeiro.
10.19 Ele adoeceu. O duque veio visitá-lo. Ele estava
deitado com a cabeça para o leste, sua vestimenta da corte
estava dobrada sobre a cama, e a faixa colocada de través.
10.20 Sempre que o duque o convocava, o Mestre para lá se
dirigia sem esperar que os cavalos fossem atrelados à sua
carruagem.
10.21 Ao visitar o grande templo, ele indagava sobre tudo.
10.22 Um amigo morreu; não havia ninguém para se ocupar
do funeral. Ele disse: "Deixai isso comigo".
10.23 Ao receber um presente de um amigo, mesmo que
fosse tão considerável quanto uma carruagem e cavalos, ele
não se inclinava - a não ser que fosse um presente de carne
sacrificial.
10.24 Na cama, ele não se deitava duro como um cadáver;
em casa, não se sentava ereto como um convidado.
10.25 Sempre que via uma pessoa recentemente enlutada,
mesmo que fosse alguém que encontrava todos os dias, ele
sempre expressava sua dor. Sempre que via alguém com
um barrete cerimonial, ou um homem cego, mesmo que
fosse de uma condição inferior, expressava respeito. Ao
dirigir, inclinava-se de dentro de sua carruagem para
qualquer passante de luto, mesmo que fosse um mero
mascate.
Quando diante de uma rara delícia num banquete, ele
expressava apreço e punha-se de pé.
Um súbito trovão ou um violento vendaval sempre afetavam
sua fisionomia.
10.26 Ao subir em sua carruagem, ele sempre parava e a
olhava de frente, depois pegava na maçaneta. Dentro da
carruagem, não olhava para trás, nem falava muito, nem
apontava com o dedo.
10.27 Assustado, o pássaro ergueu-se; saiu voando e em
seguida pousou novamente.
Está escrito: "O faisão fêmea sobre a ponte da montanha
sabe o momento certo, sabe o momento certo!"
Zilu inclinou-se para o pássaro, que bateu as asas três
vezes e saiu voando.
Capítulo 11
11.1 O Mestre disse: "Antes de assumir um cargo, os
plebeus têm primeiro de avançar no conhecimento dos ritos
e da música, ao passo que os nobres podem deixar isso
para depois. Se eu tivesse de escolher funcionários
escolheria entre os primeiros".
11.2 O Mestre disse: "De todos aqueles que compartilharam
minhas tribulações em Chen e Cai, nenhum deles continua
comigo".
11.3 Virtude: Yan Hui, Min Ziqian, Ran Boniu, Ran Yong.
Eloqüência: Zai Yu, Zigong. Governo: Ran Qiu, Zilu. Cultura:
Ziyou, Zixia.
11.4 O Mestre disse: "Yan Hui não pode me ajudar: tudo o
que digo lhe agrada".
11.5 O Mestre disse: "Min Ziqian é um filho tão bom! Nunca
ninguém discorda de seus pais e irmãos quando eles o
elogiam".
11.6 Nangong Kuo adorava repetir:
Um defeito num cetro de jade branco pode ser eliminado
Mas um defeito nas palavras é irrecuperável.
Confúcio deu-lhe em casamento a filha de seu irmão mais
velho.
11.7 O senhor Ji Kang perguntou: "Qual de vossos
discípulos ama aprender?" Confúcio respondeu: "Havia Yan
Hui que amava aprender. Ai de mim, sua vida foi curta: ele
está morto, e agora não há ninguém".
11.8 Yan Hui morreu. Seu pai, Yan Lu, perguntou se podia
dispor da carruagem do Mestre para proporcionar-lhe um
enterro pomposo. O Mestre disse: "Talentoso ou não, um
filho é um filho. Quando Li, meu próprio filho, morreu, foi
enterrado apenas com um caixão e sem um enterro
pomposo. Não andei a pé a fim de proporcionar um enterro
pomposo. Ocupo uma posição logo atrás dos importantes
oficiais, não é próprio que eu ande a pé".
11.9 Yan Hui morreu. O Mestre disse: "Ai de mim! O Céu
está me destruindo, o Céu está me destruindo!"
11.10 Yan Hui morreu. O Mestre lamentava-se
desesperadamente. Seus seguidores disseram: "Mestre,
tanta dor não é apropriada". O Mestre disse: "Ao prantear
um homem desses, que tipo de dor seria apropriada?"
11.11 Yan Hui morreu. Os discípulos queriam dar a ele um
enterro imponente. O Mestre disse: "Isso não está certo".
Os discípulos deram-lhe um enterro imponente. O Mestre
disse: "Yan Hui tratou-me como seu pai, e no entanto não
me foi dada a oportunidade de tratá-lo como meu filho. A
culpa não é minha, mas vossa, meus amigos".
11.12 Zilu perguntou como servir aos Espíritos e aos
deuses. O Mestre disse: "Ainda não és capaz de servir aos
homens, como poderias servir aos Espíritos?" Zilu disse:
"Posso vos perguntar sobre a morte?" O Mestre disse:
"Ainda não conheces a vida, como poderias conhecer a
morte?"
11.13 Quando se encontravam presentes ao lado do Mestre,
Min Ziqian tinha um ar respeitoso; Zilu tinha um ar
entusiasmado; Ran Qiu e Zigong tinham um ar afável. O
Mestre estava contente.
(O Mestre disse:) "Um homem como Zilu não morrerá de
morte natural".
11.14 O povo de Lu estava reconstruindo o Longo Tesouro.
Min Ziqian disse: "Por que não reconstruí-lo conforme as
linhas antigas? Por que mudar o projeto?" O Mestre disse:
"Esse homem raramente fala, mas quando fala acerta o
alvo".
11.15 O Mestre disse: "Que tipo de música Zilu está tocando
na minha casa?" Os discípulos deixaram de respeitar Zilu. O
Mestre disse: "Zilu subiu até o salão; ele ainda não entrou
no quarto".
11.16 Zigong perguntou: "Quem é melhor: Zizhang ou
Zixia?" O Mestre disse: "Zizhang se excede e Zixia é
insuficiente". Zigong disse: "Então Zizhang deve ser o
melhor?" O Mestre disse: "Ambos erram o alvo".
11.17 O chefe da família Ji era mais rico que um rei, e,
contudo, Ran Qiu continuava pressionando os camponeses
para enriquecê-lo ainda mais. O Mestre disse: "Ele já não é
meu discípulo. Tocai o tambor, meus pequenos, e atacai-o:
tendes minha permissão".
11.18 Zigao era estúpido; Zeng Shen era lento; Zizhang era
extremado; Zilu era impetuoso.
11.19 O Mestre disse: "Yan Hui chegou perto da perfeição e,
contudo, freqüentemente sofria penúria. Zigong não aceitou
seu destino e entrou nos negócios; seu julgamento
freqüentemente é acertado".
11.20 Zizhang perguntou sobre O- Caminho- do- Homem-
Bom. O Mestre disse: "Não é uma rota antiga, mas
tampouco conduz ao quarto interno".
11.21 O Mestre disse: "Suas opiniões são sensatas,
concordo; mas é ele um cavalheiro ou trata-se apenas de
um solene fingimento?"
11.22 Zilu perguntou: "Devo praticar de imediato o que
acabei de aprender?" O Mestre disse: "Teu pai e teu irmão
mais velho ainda estão vivos; como poderias praticar de
imediato o que acabaste de aprender?"
Ran Qiu perguntou: "Devo praticar de imediato o que acabei
de aprender? O Mestre disse: "Pratica-o imediatamente".
Gongxi Chi disse: "Quando Zilu perguntou se ele deveria
praticar de imediato o que acabara de aprender, dissestes
que consultasse primeiro seu pai e seu irmão mais velho.
Quando Ran Qiu perguntou se deveria praticar de imediato o
que acabara de aprender, dissestes que o praticasse de
imediato. Estou confuso; podeis me explicar?" O Mestre
disse: "Ran Qiu é lento, por isso eu o instigo; Zilu tem a
energia de dois, por isso eu o contenho".
11.23 O Mestre foi emboscado em Kuang; Yan Hui ficou
para trás. Quando acabaram por se reunir, o Mestre disse:
"Pensei que estavas morto". Yan Hui disse: "Enquanto
estiverdes vivo, como ousaria eu morrer?"
11.24 Ji Ziran perguntou: "Poder-se-ia dizer que Zilu e Ran
Qiu são grandes ministros?" O Mestre disse: "Pensei que
perguntarias algo de interessante, mas eis que me
perguntas somente sobre Zilu e Ran Qiu! Um grande
ministro é um ministro que serve ao seu senhor sem se
afastar do Caminho e que se demite tão logo as duas coisas
já não sejam conciliáveis. Agora, no que tange a Zilu e Ran
Qiu, estão qualificados apenas para cobrir a vaga de algum
gabinete". Ji Ziran disse: "Quereis dizer que eles
simplesmente cumpririam qualquer ordem?" O Mestre disse:
"Não a ponto de assassinar seu pai ou seu senhor".
11.25 Zilu indicou Zigao como guardião de Bi. O Mestre
disse: "Estás prestando um mau serviço àquele jovem". Zilu
disse: "Ele se ocupará do povo do local e de seus assuntos;
aprenderá coisas que não estão nos livros". O Mestre disse:
"É por esse tipo de observação que detesto juízos espertos".
11.26 Zilu, Zeng Dian, Ran Qiu, e Gongxi Chi estavam
sentados com o Mestre. O Mestre disse: "Esquecei por um
instante que sou mais velho do que vós. Freqüentemente
dizeis: 'O mundo não reconhece nossos méritos'. Mas, dada
a oportunidade, o que desejaríeis fazer?"
Zilu apressou-se em responder primeiro: Dá-me um país
não muito pequeno, mas espremido entre poderosos
vizinhos; ele está sendo atacado e está ameaçado pela
fome. Dá-me o comando: em três anos, eu restauraria o
moral do povo e o colocaria novamente de pé".
O Mestre sorriu. "Ran Qiu, e quanto a ti?"
O outro respondeu: "Dá-me um domínio de sessenta a
setenta ou, digamos, cinqüenta a sessenta léguas; em três
anos eu garantiria a prosperidade de seu povo. Quanto ao
seu bem- estar espiritual, contudo, teria naturalmente de
esperar pela intervenção de um verdadeiro cavalheiro".
"Gongxi Chi, e quanto a ti?"
"Não digo que seria capaz de fazê-lo, mas gostaria de
aprender: nas cerimônias do Templo Ancestral, como uma
conferência diplomática por exemplo, usando casula e
barrete, gostaria de desempenhar o papel de um assistente
júnior".
"E quanto a ti, Zeng Dian?"
Zeng Dian, que estivera tocando suavemente sua citara,
puxou uma última corda e colocou seu instrumento de lado.
Ele respondeu: "Temo que meu desejo não esteja à altura
daqueles dos meus três companheiros". O Mestre disse:
"Não há nada de mau nisso! Afinal de contas, cada um está
simplesmente confessando suas aspirações pessoais".
"No fim da primavera, terminada a confecção das roupas de
primavera, junto com cinco ou seis companheiros e seis ou
sete jovens, gostaria de me banhar no Rio Yi, e depois
desfrutar da brisa no Terraço da Dança da Chuva, e voltar
para casa cantando". O Mestre exalou um profundo suspiro
e disse: "Estou com Dian!"
Os outros três saíram; Zeng Dian permaneceu ali e disse:
"O que achais de seus desejos?" O Mestre disse: "Cada um
simplesmente confessou suas aspirações pessoais".
"Por que sorristes para Zilu?"
"Um estado deveria ser governado por meio da contenção
ritual; contudo, suas palavras estavam cheias de
arrogância".
"Quanto a Ran Qiu, não estava ele de fato falando sobre um
estado plenamente desenvolvido?"
"Efetivamente; já ouviste falar de 'um domínio de sessenta
a setenta, ou cinqüenta a sessenta léguas'?"
"E Gongxi Chi? Não estava também falando sobre um
estado?"
"Uma conferência diplomática no Templo Ancestral! O que
poderia ser, senão um encontro internacional? E se Gongxi
Chi estivesse lá apenas para desempenhar o papel de um
assistente júnior, quem estaria qualificado para o papel
principal?"
Capítulo 12
12.1 Yan Hui perguntou sobre humanidade. O Mestre disse:
"A prática de humanidade resume-se a isto: domar o eu e
restaurar os ritos. Doma o eu e restaura os ritos por apenas
um dia, e o mundo inteiro irá juntar-se à tua humanidade. A
prática de humanidade tem origem no eu e não em outra
pessoa".
Yan Hui disse: "Posso perguntar quais passos devem ser
dados?" O Mestre disse: "Observa os ritos da seguinte
maneira: não olhes para nada que seja impróprio; não dês
ouvidos a nada que seja impróprio; não digas nada
impróprio; não faças nada impróprio".
Yan Hui disse: "Posso não ser muito inteligente, mas, com
vossa permissão, procurarei fazer o que dissestes".
12.2 Ran Yong perguntou sobre humanidade. O Mestre
disse: "Quando estiveres fora de casa, comporta-te como se
estivesses diante de um importante convidado. Conduz o
povo como se estivesses realizando uma grande cerimônia.
Aquilo que não desejas para ti mesmo não imponhas aos
outros. Não permitas que o ressentimento se imiscua nos
assuntos públicos; não permitas que o ressentimento se
imiscua nos assuntos privados"
Ran Yong disse: "Posso não ser muito inteligente, mas, com
vossa permissão, procurarei fazer o que dissestes".
12.3 Sima Niu perguntou sobre humanidade. O Mestre
disse: "Quem pratica a humanidade reluta em falar". O
outro disse: "Reluta em falar? E chamais isso de
humanidade?" O Mestre disse: "Quando a prática de algo é
difícil, como alguém poderia falar a seu respeito de forma
leviana?"
12.4 Sima Niu perguntou: "O que é um cavalheiro?" O
Mestre disse: "Um cavalheiro não fica triste nem tem
medo". Sima Niu disse: "Não fica triste nem tem medo? E
isso faz um cavalheiro?" O Mestre disse: "Sua consciência é
imaculada. Por que deveria ele ficar triste, o que deveria ele
temer?"
12.5 Sima Niu estava triste: "Todos os homens têm irmãos;
só eu não tenho nenhum". Zixia disse: "Escutei isto: vida e
morte são decretadas pelo destino, riquezas e honrarias são
conferidas pelo Céu. Desde que um cavalheiro se comporte
com reverência e diligência, tratando as pessoas com
deferência e cortesia, todos os habitantes dos Quatro Mares
são seus irmãos. Como poderia um cavalheiro queixar-se de
não ter irmãos?"
12.6 Zizhang perguntou sobre clarividência. O Mestre disse:
"Quem está mergulhado na calúnia e ensurdecido por
denúncias, e ainda assim não se abala, pode ser
denominado clarividente. Na verdade também pode ser
denominado providente".
12.7 Zigong perguntou sobre governo. O Mestre disse:
"Alimento suficiente, armas suficientes e a confiança do
povo". Zigong disse: "Se tivésseis de chegar a bom termo
sem um desses três, qual descartaríeis?" - "As armas". - "Se
tivésseis de chegar a bom termo sem um dos dois
restantes, qual descartaríeis?" - "O alimento; em última
instância, todo o mundo acaba morrendo um dia. Mas, sem
a confiança do povo, nenhum governo se mantém".
12.8 Ji Zicheng disse: "Uma pessoa é um cavalheiro
simplesmente por sua natureza. De que serve a cultura?"
Zigong disse: "Senhor, o que acabais de dizer é deveras
deplorável. 'Uma parelha de quatro cavalos não consegue
alcançar uma língua solta'. Natureza é cultura, cultura é
natureza. Sem o pêlo, a pele de um tigre ou de um leopardo
é exatamente igual à de um cachorro ou à de um carneiro".
12.9 O duque Ai perguntou a You Ruo: "A safra foi fraca;
estou quase sem verbas, O que devo fazer?" You Ruo
respondeu: "Por que não cobrar um dízimo?" O duque Ai
disse: "Nem mesmo o dobro disso resolveria minhas
necessidades; de que serviria um mero dízimo?" You Ruo
respondeu: "Se o povo tem o suficiente, como poderia seu
senhor não ter o suficiente? Se o povo não tem o suficiente,
como poderia seu senhor ter o suficiente?"
12.10 Zizhang perguntou como acumular poder moral e
como reconhecer a incoerência emocional. O Mestre disse:
"Coloca a lealdade e a fé acima de tudo, e segue a justiça. É
assim que se acumula poder moral. Quando se ama alguém,
deseja-se que viva; quando se odeia alguém, deseja-se que
morra. Agora, se desejares simultaneamente que a pessoa
viva e que morra, este é um exemplo de incoerência".
Se não por amor à riqueza,
Então por amor à mudança...
12.11 O duque Jing de Qi perguntou a Confúcio sobre o
governo. Confúcio respondeu: "Que o senhor seja um
senhor; o súdito um súdito; o pai um pai; o filho um filho".
O duque disse: "Excelente! Se, de fato, o senhor não for um
senhor, o súdito não for um súdito, o pai não for um pai, o
filho não for um filho, não poderei ter certeza de mais nada
- nem mesmo de meu alimento diário".
12.12 O Mestre disse: "Fazer um julgamento com base
apenas em meia evidência: só Zilu consegue fazer isso".
Zilu nunca consultava o travesseiro no que dizia respeito a
uma promessa.
12.13 O Mestre disse: "Posso julgar processos judiciais tão
bem quanto qualquer um. Mas eu preferiria tornar os
processos judiciais desnecessários".
12.14 Zizhang perguntou sobre governo, O Mestre disse:
"Pondera sobre ele incansavelmente. Leva-o a cabo de
forma leal".
12.15 O Mestre disse: "Um cavalheiro amplia sua
aprendizagem por meio da literatura e se refreia pelo ritual;
por isso é improvável que cometa erros".
12.16 O Mestre disse: "Um cavalheiro faz brotar o que há de
bom nas pessoas, não faz brotar o que há de ruim. Um
homem vulgar faz o contrário".
12.17 O senhor Ji Kang perguntou a Confúcio sobre como
governar. Confúcio respondeu: "Governar é ser reto. Se
diriges com retidão, quem ousaria não ser reto?"
12.18 O senhor Ji Kang estava sendo molestado por ladrões.
Ele consultou Confúcio. Confúcio respondeu: "Se não fosses
ganancioso, eles não te roubariam, mesmo que lhes
pagasses para fazê-lo".
12.19 O senhor Ji Kang perguntou a Confúcio sobre como
governar, dizendo: "Suponhamos que eu fosse matar os
maus para ajudar os bons: o que acharíeis disso?" Confúcio
respondeu: "Estás aqui para governar; qual a necessidade
de matar? Se desejas o que é bom, o povo será bom. O
poder moral do cavalheiro é vento, o poder moral do
homem comum é grama. Sob o vento, a grama tem de se
curvar".
12.20 Zizhang perguntou: "Quando é possível dizer que um
erudito alcançou uma percepção superior?" O Mestre disse:
"Depende: o que entendes por 'percepção'?" Zizhang
respondeu: "Ser reconhecido na vida pública, ser
reconhecido na vida privada". O Mestre disse: "Isso é
reconhecimento, não percepção. Para alcançar a percepção,
um homem tem de ser talhado em madeira reta e amar a
justiça, examinar as palavras dos homens e observar suas
expressões, e ter em mente a necessidade de deferir aos
outros. Quanto ao reconhecimento, basta assumir um ar de
virtude, ainda que comportando-se contrariamente. Mantém
apenas uma aparência imperturbável, e certamente obterás
reconhecimento na vida pública, e certamente obterás
reconhecimento na vida privada".
12.21 Fan Chi estava fazendo uma caminhada com Confúcio
sob o Terraço da Dança da Chuva. Ele disse: "Posso
perguntar-vos como se acumula poder moral, se neutraliza
a hostilidade e se reconhece a incoerência emocional?" O
Mestre disse: 'Excelente pergunta! Colocar sempre o esforço
acima da recompensa: não é esse o caminho para acumular
poder moral? Atacar o mal em si mesmo e não o mal que
está nas pessoas: não é esse o caminho para neutralizar a
hostilidade? Pôr a si mesmo e seus parentes em perigo num
súbito ataque de ira: não é isso um exemplo de
incoerência?"
12.22 Fan Chi perguntou sobre humanidade. O Mestre
disse: "Ama todos, sem distinção".
Ele perguntou sobre conhecimento. O Mestre disse:
"Conhece todos os seres". Fan Chi não entendeu. O Mestre
disse: "Promove os homens retos e coloca-os acima dos
tortos, para que eles possam endireitar os tortos".
Fan Chi retirou-se. Ele encontrou Zixia e perguntou: "Um
momento atrás, estando com o Mestre, perguntei-lhe sobre
o conhecimento, e ele disse: 'Promove os retos e coloca-os
acima dos tortos, para que eles possam endireitar os tortos'.
O que isso quer dizer?" Zixia disse: "Palavras deveras
valiosas! Quando Shun dirigia o mundo, escolhendo entre a
multidão ele promoveu Gao Yao, e os maus desapareceram.
Quando Tang dirigia o mundo, escolhendo entre a multidão
ele promoveu Yi Yin, e os maus desapareceram".
12.23 Zigong perguntou como tratar os amigos. O Mestre
disse: "Dá-lhes conselhos leais e guia-os com tato. Se isso
falhar, pára: não te exponhas à repulsa".
12.24 Mestre Zeng disse: "Um cavalheiro reúne amigos por
meio de sua cultura; e com esses amigos ele desenvolve
sua humanidade".
Capítulo 13
13.1 Zilu perguntou sobre como governar. O Mestre disse:
"Guia-os. Estimula-os". Zilu pediu-lhe para desenvolver
esses preceitos. O Mestre disse: "Incansavelmente".
13.2 Ran Yong era camareiro da família Ji. Ele perguntou
sobre como governar. O Mestre disse: "Guia os oficiais.
Perdoa pequenos erros. Promove homens de talento".
"Como se reconhece que um homem tem talento e merece
ser promovido?" O Mestre disse: "Promove aqueles que
conheces. Aqueles que não conheces dificilmente
permanecerão ignorados".
13.3 Zilu perguntou: "Se o dirigente de Wei vos confiasse o
governo do país, qual seria vossa primeira iniciativa?" O
Mestre disse: "Por certo seria retificar os nomes". Zilu disse:
"Realmente? Isso não é um pouco forçado? De que serve a
retificação?" O Mestre disse: "Como podes tornar-te
grosseiro! Sobre aquilo em que um cavalheiro é
incompetente, ele deve permanecer calado. Quando os
nomes não são corretos, a linguagem fica sem sentido.
Quando a linguagem fica sem sentido, nenhum assunto
pode ser resolvido. Quando nenhum assunto pode ser
resolvido, os ritos e a música cessam. Quando os ritos e a
música cessam, punições e penalidades erram o alvo.
Quando punições e penalidades erram o alvo, as pessoas
não sabem onde estão. Por isso, aquilo que um cavalheiro
concebe, ele tem de ser capaz de dizer; e aquilo que ele diz,
ele tem de ser capaz de fazer. No que se refere à
linguagem, um cavalheiro não deixa nada ao acaso".
13.4 Fan Chi pediu a Confúcio para lhe ensinar agronomia.
O Mestre disse: "Melhor perguntar a um velho agricultor".
Fan Chi pediu que lhe ensinasse jardinagem. O Mestre
disse: "Melhor perguntar a um velho jardineiro".
Fan Chi saiu. O Mestre disse: "Que homem vulgar! Se os
dirigentes cultivarem os ritos, o povo não ousará ser
desrespeitoso. Se os dirigentes cultivarem a justiça, o povo
não ousará ser desobediente. Se os dirigentes cultivarem a
boa- fé, o povo não ousará ser mendaz. A um país como
esse, as pessoas afluiriam de todas as partes com seus
bebês atados às costas. De que serve a agronomia?"
13.5 O Mestre disse: "Considera um homem que sabe
recitar os trezentos Poemas; dás a ele um posto oficial mas
ele não está à altura da tarefa; tu o mandas para o exterior
numa missão diplomática, mas ele é incapaz de uma
simples réplica. De que serve sua vasta aprendizagem?"
13.6 O Mestre disse: "Ele é reto: as coisas funcionam por si
mesmas, sem que ele tenha de transmitir ordens. Ele não é
reto: tem de multiplicar as ordens, que de qualquer modo
não serão seguidas".
13.7 O Mestre disse: "Em política, os estados de Lu e Wei
são irmãos".
13.8 O Mestre comentou sobre o príncipe Jing de Wei: "Ele
sabe como viver. Quando começou a ter um pouco de
riqueza, ele disse: 'É suficiente'. Quando sua riqueza
aumentou, ele disse: 'É confortável'. Quando sua riqueza
tornou-se considerável, ele disse: 'É esplêndido' ".
13.9 O Mestre estava a caminho de Wei, e Ran Qiu estava
dirigindo. O Mestre disse: "Quanta gente!" Ran Qiu disse:
"Quando as pessoas já são muitas, o que deveria ser feito
em seguida?" - "Enriquecê-las". - "Quando elas já são ricas,
o que se deveria fazer em seguida?" - "Educá-las".
13.10 O Mestre disse: "Se um dirigente me empregasse, em
um ano eu faria as coisas funcionarem e em três anos os
resultados seriam evidentes".
13.11 O Mestre disse: " 'Quando, por cem anos, o país for
dirigido por homens bons, a crueldade poderá ser vencida e
o homicídio eliminado'. Como é verdadeiro esse ditado!"
13.12 O Mestre disse: "Mesmo com um verdadeiro rei,
certamente passaria uma geração antes que a humanidade
prevalecesse".
13.13 O Mestre disse: "Se um homem consegue dirigir com
retidão sua própria vida, as tarefas de governo não devem
ser um problema para ele. Se ele não consegue dirigir sua
própria vida com retidão, como pode dirigir outras pessoas
com retidão?"
13.14 Ran Qiu estava retornando da corte. O Mestre disse:
"O que o reteve por tanto tempo?" O outro respondeu:
"Havia assuntos de estado". O Mestre disse: "Queres dizer
assuntos privados. Se houvesse quaisquer assuntos de
estado, mesmo não estando no governo, eu teria ouvido
falar deles".
13.15 O duque Ding perguntou: "Existe alguma máxima que
garanta a prosperidade de um país?" Confúcio respondeu:
"Meras palavras não conseguiriam realizar isso. Existe,
contudo, o seguinte ditado: 'É difícil ser um príncipe, não é
fácil ser um súdito'. Uma máxima que pudesse fazer o
dirigente compreender a dificuldade de sua tarefa ajudaria a
garantir a prosperidade do país".
"Existe alguma máxima que possa arruinar um país?"
Confúcio respondeu: "Meras palavras não conseguiriam
fazer isso. Contudo, existe o seguinte ditado: 'O único
prazer de ser príncipe é nunca ser contradito'. Se estiveres
certo e ninguém te contradisser, tudo estará bem; mas se
estiveres errado e ninguém te contradisser - não é este o
caso de uma única máxima que pode arruinar um país?"
13.16 O governante de She perguntou a Confúcio sobre
como governar. O Mestre disse: "Torna o povo local feliz e
atrai imigrantes de longe".
13.17 Zixia era guardião de Jufu. Ele perguntou sobre
política. O Mestre disse: "Não tentes apressar as coisas.
Ignora as pequenas vantagens. Se apressares as coisas, não
atingirás teu objetivo. Se perseguires pequenas vantagens,
empreendimentos maiores não virão a se concretizar".
13.18 O governante de She declarou a Confúcio: "Em meu
povo, existe um homem de firme integridade: quando seu
pai roubou um carneiro, ele o denunciou". Confúcio disse:
"Em meu povo, homens íntegros fazem as coisas de outra
maneira: um pai encobre seu filho, um filho encobre seu pai
e há integridade no que eles fazem".
13.19 Fan Chi perguntou sobre humanidade. O Mestre
disse: "Sê cortês na vida privada; reverente na vida pública;
leal nas relações pessoais. Mesmo entre os bárbaros, nunca
te afastes dessa atitude".
13.20 Zigong perguntou: "O que faz que alguém mereça ser
chamado cavalheiro?" O Mestre disse: "Quem se comporta
de forma honrada e, ao ser enviado numa missão aos
quatro cantos do mundo, não traz desgraça para seu
senhor, merece ser chamado cavalheiro".
"E além disso, se me permite perguntar?"
"Seus parentes louvam sua piedade filial e o povo de seu
vilarejo louva o modo como ele respeita os mais velhos".
"E além disso, se me permite perguntar?"
"Pode-se confiar em sua palavra; tudo o que empreende,
ele leva até o fim. Nisso, ele poderia apenas mostrar a
obstinação de um homem vulgar; contudo, ele
provavelmente seria qualificado de um cavalheiro de
categoria inferior".
"Nesse sentido, como avaliaríeis nossos políticos atuais?"
"Ai de mim! Essas criaturas insignificantes nem são dignas
de menção!"
13.21 O Mestre disse: "Se, para me associar, eu não
conseguisse encontrar pessoas que propusessem um meio-
termo, contentar-me-ia com os loucos e os puros. Os loucos
ousam fazer qualquer coisa, ao passo que existem coisas
que os puros nunca farão".
13.22 O Mestre disse: "As pessoas do sul têm um ditado:
'Um homem sem constância não seria apropriado para ser
um xamã'. Que grande verdade!"
Sobre o que está escrito em As Mutações: "Ter poder moral
sem perseverança expõe a pessoa à desgraça", o Mestre
comentou: "Não é necessário fazer um horóscopo para
alguém nessa condição".
13.23 O Mestre disse: "Um cavalheiro busca harmonia mas
não conformidade. Um homem vulgar busca conformidade,
mas não harmonia".
13.24 Zigong perguntou: "O que pensaríeis de um homem
se todas as pessoas de seu vilarejo gostassem dele?" O
Mestre disse: "Isso não basta". - "E se todas as pessoas do
vilarejo não gostassem dele?" - "Isso não basta. Seria
melhor se as pessoas boas do vilarejo gostassem dele, e as
pessoas más não gostassem dele".
13.25 O Mestre disse: "É fácil trabalhar para um cavalheiro,
mas não é fácil contentá-lo. Tenta contentá-lo por meios
imorais, e ele não ficará contente; mas ele nunca exige
nada que esteja além de tuas capacidades. Não é fácil
trabalhar para um homem vulgar, mas é fácil contentá-lo.
Tenta contentá-lo, mesmo por meios imorais, e ele ficará
contente; mas suas exigências não têm limites".
13.26. O Mestre disse: "Um cavalheiro demonstra
autoridade, mas não arrogância. Um homem vulgar
demonstra arrogância, mas não autoridade".
13.27 O Mestre disse. "Firmeza, resolução, simplicidade,
silêncio - isso nos aproxima da humanidade".
13.28. Zilu perguntou: "O que faz que alguém mereça ser
chamado cavalheiro?" O Mestre disse: "Quem demonstra
uma atenção rigorosa e cordialidade merece ser chamado
cavalheiro. atenção rigorosa para com os amigos e
cordialidade para com os irmãos".
13.29 O Mestre disse: "O povo tem de ser instruído por
homens bons por sete anos antes de poder pegar em
armas".
13.30 O Mestre disse: "Enviar para a guerra um povo que
não foi propriamente instruído é desperdiçá-lo".
Capítulo 14
14.1 Yuan Xian perguntou sobre vergonha. O Mestre disse:
"Quando o Caminho prevalece no estado, serve-o. Servir a
um estado que se afastou do Caminho - isso é deveras
vergonhoso".
"Quem se livrou da ambição, do orgulho, do ressentimento e
da cobiça alcançou a plena humanidade?"
O Mestre disse: "Alcançou algo muito difícil; se isso é a
plena humanidade, não sei".
14.2 O Mestre disse: "Um erudito que se preocupa com seu
conforto material não merece ser chamado erudito".
14.3 O Mestre disse: "Quando o Caminho prevalece no
estado, fala destemidamente e age destemidamente.
Quando o estado se afastou do Caminho, age
destemidamente e fala suavemente".
14.4 O Mestre disse: "Um homem virtuoso sempre dá bons
conselhos; um homem que dá bons conselhos nem sempre
é virtuoso. Um homem bom é sempre corajoso; um homem
corajoso nem sempre é bom".
14.5 Nangong Kuo abordou Confúcio, dizendo: "Yi era um
bom arqueiro e Ao um bom marinheiro: nenhum deles
morreu de morte natural. Yu e Ji conduziam um arado: eles
herdaram o mundo". O Mestre não deu resposta.
Nangong Kuo saiu. O Mestre disse: "Que cavalheiro! Esse
homem realmente valoriza a virtude!"
14.6 O Mestre disse: "Cavalheiros nem sempre alcançam a
plena humanidade. Pequenos homens nunca alcançam a
plena humanidade".
14.7 O Mestre disse: "És capaz de poupar aqueles a quem
amas? A lealdade é capaz de impedir que faças
admoestações?"
14.8 O Mestre disse: "Sempre que um edito tinha de ser
escrito, Pi Chen fazia o primeiro rascunho, Shi Shu o
revisava, Ziyu, o Mestre do Protocolo, o editava e Zichan de
Dongli acrescentava o último polimento".
14.9 Alguém perguntou a respeito de Zichan. O Mestre
disse: "Era um homem generoso".
"E quanto a Zixi?"
"Oh, este, nem me fale nele!"
"E quanto a Guan Zhong?"
"Que homem! Em Pian, ele tirou trezentas famílias do feudo
de Bo. Este último, embora condenado a comer alimentos
ordinários até o fim de seus dias, nunca chegou a
pronunciar uma palavra de queixa contra ele".
14.10 O Mestre disse: "Ser pobre sem ressentimento é
difícil; ser rico sem arrogância é fácil".
14.11 O Mestre disse: "Meng Gongchuo é qualificado demais
para o cargo de camareiro de uma grande família, mas não
suficientemente qualificado para o cargo de ministro de um
pequeno estado".
14.12 Zilu perguntou como definir um "homem realizado". O
Mestre disse: "Alguém que tivesse a sabedoria de Zang
Wuzhong, a imparcialidade de Gongchuo, a valentia de
Zhuangzi de Bian, a habilidade de Ran Qiu, e conseguisse
embelezar todas essas qualidades com ritos e música,
poderia ser considerado um homem realizado". Depois
acrescentou: "Atualmente, talvez menos coisas bastem para
essa qualificação: quem não perde o senso de justiça diante
da possibilidade de tirar proveito, permanece pronto a dar a
vida em meio a todos os perigos e mantém a palavra em
meio a longas tribulações também pode ser considerado um
homem realizado".
14.13 O Mestre indagou Gongming Jia sobre Gongshu
Wenzi: "É verdade que teu mestre não falava, nem ria, nem
aceitava nada?" Gongming Jia respondeu: "Aqueles que lhe
contaram isso exageraram. Meu mestre falava apenas na
hora certa, para que ninguém pensasse que ele falava
demais; ria somente quando estava feliz, para que ninguém
pensasse que ele ria demais; só aceitava a justa
recompensa, para que ninguém pensasse que ele aceitava
demais". O Mestre disse: "Oh, é mesmo? Era realmente
assim?"
14.14 O Mestre disse: "Tendo ocupado Fang, Zang Wuzhong
exigiu que este fosse reconhecido por Lu como seu feudo
hereditário. O que quer que se diga, não acredito que ele
não tenha exercido pressão sobre o seu senhor".
14.15 O Mestre disse: "O duque Wen de Jin era sutil mas
não reto; o duque Huan de Qi era reto, mas não sutil".
14.16 Zilu disse: "Quando o duque Huan assassinou o
príncipe Jiu, um dos tutores do príncipe, Shao Hu, morreu
com ele, mas o outro, Guan Zhong, escolheu viver.
Deveríamos dizer que a qualidade humana de Guan Zhong
era deficiente?" O Mestre disse: "Se o duque Huan foi capaz
de reunir todos os estados nove vezes, não foi pela força de
seus exércitos, mas graças à autoridade de Guan Zhong.
Era esta a sua qualidade, era esta a sua qualidade!"
14.17 Zigong disse: "Guan Zhong não era um homem sem
princípios? Depois que o duque Huan assassinou o príncipe
Jiu, ele não somente escolheu viver, como se tornou
ministro do assassino". O Mestre disse: "Ao servir como
ministro do duque Huan, Guan Zhong impôs sua autoridade
sobre todos os estados e colocou o mundo inteiro em
ordem; até os dias de hoje, o povo ainda desfruta dos
benefícios de suas iniciativas. Sem Guan Zhong, nada
seríamos além de selvagens desgrenhados que dobram suas
vestes do lado errado. Pois bem, preferirias que, como um
miserável qualquer, completamente desnorteado, ele
tivesse se enforcado na beira de alguma vala e desaparecido
sem que ninguém notasse?"
14.18 Zhuan, o camareiro de Gongshu Wenzi, graças ao seu
mestre, foi promovido junto com ele à posição de ministro.
O Mestre ouviu isso e disse: "Gongshu realmente mereceu
seu titulo póstumo de "O Civilizado'".
14.19 O Mestre disse que o duque Ling de Wei não tinha
princípios. O senhor Kang perguntou: "Se é assim, como é
possível que ele não tenha perdido seu estado?" Confúcio
disse: "Ele tem Kong Yu encarregado dos assuntos
estrangeiros, o Sacerdote Tuo encarregado do culto dos
ancestrais e Wangsun Jia encarregado da defesa. Sob tais
condições, como poderia perder seu estado?"
14.20 O Mestre disse: "Uma promessa precipitada é difícil
de manter".
14.21 Chen Heng matou o duque Jian de Qi. Confúcio fez
uma ablução ritual e dirigiu-se para a corte; ele disse ao
duque Ai de Lu: "Chen Heng matou teu príncipe. Por favor,
pune-o". O duque disse: "Informai os Três Senhores".
Confúcio disse: "É por eu ter um cargo oficial que me senti
obrigado a transmitir essa informação. Mas meu príncipe
apenas disse: 'Informai os Três Senhores' ".
Ele foi e informou os Três Senhores. Eles se recusaram a
intervir.
Confúcio disse: "É por eu ter um cargo oficial que me senti
obrigado a transmitir essa informação".
14.22 Zilu perguntou como servir a um príncipe. O Mestre
disse: "Diz-lhe a verdade mesmo que ela o ofenda".
14.23 O Mestre disse: "Um cavalheiro avança para cima.
Um homem vulgar avança para baixo".
14.24 O Mestre disse: "Nos velhos tempos, as pessoas
estudavam para se aperfeiçoar. Hoje, elas estudam para
impressionar os outros".
14.25 Qu Boyu enviou um mensageiro a Confúcio. Confúcio
ofereceu-lhe um assento e perguntou: "Como vai teu
mestre?" O outro respondeu: "Meu mestre deseja cometer
menos erros, mas ainda não conseguiu".
O mensageiro foi embora. O Mestre disse: "Que
mensageiro! Que mensageiro!"
14.26 O Mestre disse: "Quem não ocupa um cargo oficial
não discute políticas oficiais". O Mestre Zeng disse:
"Nenhum cavalheiro chegaria a contemplar a idéia de
exceder-se em seu cargo".
14.27 O Mestre disse: "Um cavalheiro deveria envergonhar-
se quando seus feitos não correspondem a suas palavras".
14.28 O Mestre disse: "Um cavalheiro acata três princípios
que sou incapaz de seguir: sua humanidade não conhece a
ansiedade; sua sabedoria não conhece a hesitação; sua
coragem não conhece o medo". Zigong disse: "Mestre,
acabastes de desenhar vosso próprio retrato".
14.29 Zigong estava criticando outras pessoas. O Mestre
disse: "Zigong já deve ter atingido a perfeição, o que lhe
proporciona um tempo ocioso que eu não possuo".
14.30 O Mestre disse: "Não é a tua obscuridade que deveria
afligir-te, mas tua incompetência".
14.31 O Mestre disse: "Não antecipar um logro ou suspeitar
de má-fé, mas ser capaz de detectá-los de imediato, isso é
deveras sagacidade".
14.32 Weisheng Mu disse a Confúcio: "Ei, tu! O que te faz
ficares andando por ai o tempo todo? É para mostrares ter
uma fala inteligente?" Confúcio disse: "Não me vanglorio de
ter uma fala inteligente, simplesmente detesto obtusidade".
14.33 O Mestre disse: "O famoso cavalo Ji era valorizado
não por seu vigor físico, mas por sua força interna".
14.34 Alguém disse: "Retribuir o ódio com gentileza - o que
pensais disso?" O Mestre disse: "E com o que retribuirias a
gentileza? Melhor retribuir o ódio com justiça e a gentileza
com gentileza".
14.35 O Mestre disse: "Ninguém me entende!" Zigong
disse: "Por que ninguém vos entende?" O Mestre disse:
"Não acuso o Céu nem culpo os homens; aqui embaixo
estou aprendendo e lá em cima estou sendo ouvido. Se sou
compreendido, deve ser pelo Céu".
14.36 Gongbo Liao difamou Zilu perante Ji Sun. Zifu Jingbo
relatou isso a Confúcio, dizendo: "A mente de meu mestre
está sendo dominada por Gongbo Liao; mas ainda tenho o
poder de fazer sua carcaça ser exposta no mercado". O
Mestre disse: "Se for vontade do Céu, a verdade
prevalecerá; se for vontade do Céu, a verdade perecerá. O
que importa Gongbo Liao comparado com a vontade do
Céu?"
14.37 O Mestre disse: "A suprema sabedoria é evitar o
mundo; depois, evitar certos lugares; depois, evitar certas
atitudes; depois, evitar certas palavras".
O Mestre disse: "Sete homens fizeram isso".
14.38 Zilu passou a noite no Portão de Pedra. O porteiro
disse: "De onde vens?" Zilu disse: "Sou da casa de
Confúcio". - "Oh, é aquele que continua perseguindo aquilo
que sabe ser impossível?"
14.39 O Mestre estava tocando um carrilhão de pedras em
Wei. Um homem carregando um cesto passou diante de seu
portão e disse: "Ele realmente coloca o coração em sua
música!" Um pouco mais tarde, porém, ele acrescentou:
"Que medíocre essa musiquinha! Se o mundo o ignora, que
assim seja!
Se a água do passo é funda, atravessa-a sem tirar a roupa;
Se a água é rasa, ergue a orla de teu manto".
O Mestre disse: "Que atrevimento! Estou sem fala".
14.40 Zizhang disse: "Nos Documentos está escrito:
"Quando o rei Gaozong estava de luto por seu pai, ele não
falou por três anos". O que isso significa?" O Mestre disse:
"Não há necessidade de destacar o caso do rei Gaozong,
todos os antigos faziam o mesmo. Durante os três anos
seguintes à morte de um dirigente, todos os oficiais que
haviam sido indicados por ele permaneciam no cargo,
recebendo ordens de seu primeiro-ministro".
14.41 O Mestre disse: "Quando os dirigentes cultivam a
civilidade, o povo é facilmente dirigido".
14.42 Zilu perguntou o que constitui um cavalheiro. O
Mestre disse: "Pela auto-instrução, ele alcança a dignidade".
- "É só isso?" - "Pela auto-instrução, ele estende sua paz
aos vizinhos". - "É só isso?" - "Pela auto-instrução, ele
estende sua paz a todos os povos. Pela auto-instrução,
estender a própria paz a todos os povos: nem mesmo Yao e
Shun poderiam ter almejado mais que isso".
14.43 Yuan Rang estava sentado, esperando, com as pernas
abertas. O Mestre disse: "Um jovem que não respeita os
mais velhos nada conquistará quando crescer e tentará até
esquivar-se da morte quando alcançar a velhice: ele é um
parasita". E bateu em sua canela com a bengala.
14.44 Um menino do vilarejo de Que foi empregado como
mensageiro do Mestre. Alguém indagou sobre ele, dizendo:
"Está fazendo progressos?" O Mestre disse: "Pelo que vejo,
observando-o quando apanha um assento para si ou
caminha ao lado de pessoas mais velhas, parece que o que
lhe interessa não é como avançar, mas como chegar
rápido".
Capítulo 15
15.1 O duque Ling de Wei perguntou a Confúcio sobre
táticas militares. Confúcio respondeu: "Tenho alguma
experiência no manejo de vasos rituais, mas nunca aprendi
a manejar tropas". E partiu no dia seguinte.
15.2 Em Chen, ele ficou sem suprimentos. Seus seguidores
enfraqueceram: já não conseguiam manter-se em pé. Zilu
veio até ele e disse indignado: "Como é possível que um
cavalheiro esteja em tamanha miséria?" O Mestre disse:
"Um cavalheiro pode efetivamente estar na miséria, mas só
um homem vulgar se preocupa com isso".
15.3 O Mestre disse: "Zigong, achas que sou alguém que
aprende muitas coisas e depois armazena todas elas?" - "De
fato, não é assim?" O Mestre disse: "Não. Tenho um único
fio com o qual amarrá-las todas".
15.4 O Mestre disse: "Zilu, como são raros aqueles que
compreendem o poder moral".
15.5 O Mestre disse: "Shun era decerto um desses que
sabem governar pela inatividade. Como ele fazia isso?
Ficava sentado no trono, reverente, voltado para o sul - e
isso era tudo".
15.6 Zizhang perguntou sobre a conduta. O Mestre disse:
"Fala com lealdade e boa- fé, age com dedicação e
deferência, e mesmo entre os bárbaros tua conduta será
irrepreensível. Se falares sem lealdade e boa- fé, se agires
sem dedicação ou deferência, tua conduta será inaceitável,
mesmo no teu próprio vilarejo. Onde quer que te encontres,
deves ter esse preceito sempre diante dos olhos, inscreve-o
na canga de tua carruagem, e somente então serás capaz
de ir para adiante". Zizhang escreveu-o na sua faixa.
15.7 O Mestre disse: "Como Shi Yu era reto! Sob um bom
governo, ele era reto como uma flecha; sob um mau
governo era reto como uma flecha. Que cavalheiro era Qu
Boyu! Sob um bom governo, exibia seus talentos. Sob um
mau governo, guardava-os em seu coração".
15.8 O Mestre disse: "Ao tratares com um homem capaz de
compreender teus ensinamentos, se não o instruíres,
estarás desperdiçando o homem. Ao tratares com um
homem incapaz de compreender teus ensinamentos, se o
instruíres, estarás desperdiçando teu ensino. Um professor
sábio não desperdiça nenhum homem e não desperdiça
nenhum ensinamento".
15.9 O Mestre disse: "Um homem correto, um homem
ligado à humanidade, não procura a vida às expensas de
sua humanidade; existem situações em que ele dará a vida
para realizar sua humanidade".
15.10 Zigong perguntou como praticar humanidade. O
Mestre disse: "Um artífice que deseje fazer um bom
trabalho terá primeiro de afiar suas ferramentas. Seja qual
for o país em que te estabeleças, oferece teus serviços aos
ministros mais virtuosos e associa-te àqueles cavalheiros
que cultivam a humanidade".
15.11 Yan Hui perguntou como governar um estado. O
Mestre disse: "Observa o calendário de Xia; dirige a
carruagem de Yin; veste o barrete de Zhou. Quanto à
música, acompanha o Hino da Coroação de Shun e o Hino
da Vitória de Wu. Proscreve a música de Zheng. Mantém
distância dos de fala inteligente. A música de Zheng
corrompe. Os de fala inteligente são perigosos".
15.12 O Mestre disse: "Um homem que não se interessa
pelo futuro tende a inquietar-se com o presente".
15.13 O Mestre disse: "O fato é que nunca vi um homem
que amasse a virtude tanto quanto o sexo".
15.14 O Mestre disse: "Zang Sunchen roubou seu cargo! Ele
sabia que Liuxia Hui estava melhor qualificado, e ainda
assim não dividiu sua posição com ele".
15.15 O Mestre disse: "Exige muito de ti mesmo e pouco
dos outros, evitarás descontentamentos".
15.16 O Mestre disse: "Com aqueles que não sabem dizer 'O
que devo fazer? O que devo fazer?', realmente não sei o que
devo fazer".
15.17 O Mestre disse: "Não tolero essas pessoas que são
capazes de despender todo um dia juntas numa exibição de
sagacidade sem chegar a uma única verdade".
15.18 O Mestre disse: "Um cavalheiro adota a justiça como
base, aplica-a em conformidade com o ritual, expõe-na com
modéstia e, pela boa- fé, promove sua realização. É assim
que procede um cavalheiro".
15.19 O Mestre disse: "Um cavalheiro se ressente de sua
incompetência; ele não se ressente de sua obscuridade".
15.20 O Mestre disse: "Um cavalheiro preocupa-se em não
desaparecer deste mundo sem ter construído um nome para
si".
15.21 O Mestre disse: "Um cavalheiro exige de si mesmo;
um homem vulgar exige dos outros".
15.22 O Mestre disse: "Um cavalheiro é orgulhoso sem ser
briguento, é sociável mas não sectário".
15.23 O Mestre disse: "Um cavalheiro não aprova uma
pessoa por ela expressar uma determinada opinião,
tampouco rejeita uma opinião por ser expressa por uma
determinada pessoa".
15.24 Zigong perguntou: "Existe uma única palavra que
possa guiar toda a nossa vida?" O Mestre disse: "Não seria
reciprocidade? O que não desejas para ti, não faças aos
outros".
15.25 O Mestre disse: "No meu trato com as pessoas,
alguma vez elogio alguém, alguma vez critico alguém? Se
elogio alguém, só o faço depois de o ter testado. As pessoas
de hoje em dia são as mesmas que outrora permitiram que
as Três Dinastias abrissem a trilha reta".
15.26 O Mestre disse: "Ainda me lembro do tempo em que
os escribas, ao encontrarem uma palavra duvidosa,
deixavam um espaço em branco, e os proprietários de
cavalos pediam a especialistas para testarem seus cavalos
novos. Atualmente, essas práticas já não são seguidas".
15.27 O Mestre disse: "A fala inteligente arruina a virtude.
Pequenas impaciências arruinam grandes planos".
15.28 O Mestre disse: "Quando todos antipatizam com um
homem, devemos investigar. Quando todos simpatizam com
um homem, devemos investigar".
15.29 O Mestre disse: "O homem pode ampliar o Caminho.
Não é o Caminho que amplia o homem".
15.30 O Mestre disse: "Uma falta não corrigida é deveras
uma falta".
15.31 O Mestre disse: "Numa tentativa de meditar, passei
certa vez um dia inteiro sem me alimentar e uma noite
inteira sem dormir: foi inútil. É melhor estudar".
15.32 O Mestre disse: "Um cavalheiro procura o Caminho,
ele não procura um meio de sobrevivência. Ara os campos e
eventualmente continuarás faminto. Dedica-te a aprender e
eventualmente farás uma carreira. Um cavalheiro pergunta
a si mesmo se encontrará o Caminho, não se pergunta se
continuará pobre".
15.33 O Mestre disse: "O poder que pode ser alcançado pelo
conhecimento mas não pode ser mantido pela bondade
certamente acabará sendo perdido. O poder que é
alcançado pelo conhecimento e mantido pela bondade não
será respeitado pelo povo se não for exercido com
dignidade. O poder que é alcançado pelo conhecimento,
mantido pela bondade e exercido com dignidade, se não é
manejado de acordo com o ritual, ainda não é o tipo
adequado de poder".
15.34 O Mestre disse: "A habilidade de um cavalheiro não
pode ser percebida em assuntos de pouca importância; mas
podem-se confiar a ele grandes tarefas. A um homem
vulgar não se podem confiar grandes tarefas, mas sua
habilidade pode ser percebida em assuntos de pouca
importância".
15.35 O Mestre disse: "A humanidade é mais essencial para
o povo do que água e fogo. Vi homens perderem suas vidas
por entregarem-se à água ou ao fogo; nunca vi alguém
perder a vida por se entregar à humanidade".
15.36 O Mestre disse: "Na busca da virtude, não temas
superar teu professor".
15.37 O Mestre disse: "Um cavalheiro tem princípios mas
não é rígido".
15.38 O Mestre disse: "Ao servir ao príncipe, que a devoção
ao próprio dever venha antes de qualquer idéia de
recompensa".
15.39 O Mestre disse: "Meu ensinamento dirige-se a todos
indistintamente".
15.40 O Mestre disse: "Com quem segue um Caminho
diferente, trocar idéias é inútil".
15.41 O Mestre disse: "Palavras servem apenas para a
comunicação".
15.42 Mian, o mestre de música cego, veio fazer uma visita.
Quando ele chegou aos degraus, o Mestre disse: "Cuidado
com os degraus". Levando-o até seu assento, o Mestre
disse: "Aqui está teu assento". Quando todos estavam
sentados, o Mestre explicou: "Fulano está aqui, sicrano está
aqui".
Depois que o mestre de música partiu, Zizhang perguntou:
"É assim que devemos nos dirigir a um músico?" O Mestre
disse: "Sim; é assim que se guia um músico".
Capítulo 16
16.1 O senhor Ji ia atacar Zhuanyu. Ran Qiu e Zilu vieram
ver Confúcio e lhe disseram: "O senhor Ji irá intervir em
Zhuanyu".
Confúcio disse: "Qiu, não serás tu o culpado disso? Nossos
antigos reis estabeleceram Zhuanyu como um domínio
autônomo; além disso, ele se encontra no coração de nosso
território; ele nos paga vassalagem. Por que atacá-lo?"
Ran Qiu disse: "É o desejo de nosso patrão, não é o desejo
de nenhum de nós".
Confúcio disse: "Qiu! Zhou Ren disse: 'Quem detém a força
mantém-se firme; Quem se sente inadequado retira-se'.
Que tipo de assistente é esse que não consegue sustentar
seu patrão quando ele vacila, nem segurá-lo quando ele
tropeça? Ademais, o que disseste está errado. Se um tigre
ou um rinoceronte escapam da jaula, se a carapaça de uma
tartaruga ou um jade se quebra dentro de seu estojo,
ninguém é responsável pelo infortúnio?"
Ran Qiu disse: "Agora Zhuanyu tem defesas fortes e está
próximo do castelo de nosso patrão. Se ele não o tomar
hoje, no futuro se converterá numa ameaça para seus filhos
e netos".
Confúcio disse: "Qiu! Um cavalheiro abomina as pessoas
que inventam desculpas para seus atos em vez de dizer
claramente: 'Quero isto'. Sempre ouvi dizer que o que
preocupa o dirigente de um estado ou o chefe de um clã não
é a pobreza mas a desigualdade, não é a falta de população
mas a falta de paz. Pois se houver igualdade não haverá
pobreza, e onde há paz não há falta de população. E então,
se as pessoas que moram em terras longínquas ainda
resistem à tua atração, tens de traze-las a ti pelo poder
moral da civilização; e então, uma vez que as atrais-te,
permite que desfrutem de tua paz. Mas agora, tendo-vos
como seus ministros, vosso patrão é incapaz de atrair as
pessoas distantes, sua terra está sacudida por cismas e
agitações, ele já não consegue mantê-la unida - e ainda
assim quer iniciar uma guerra contra uma de suas próprias
províncias! Temo pelo senhor Ji, a ameaça real não vem de
Zhuanyu, encontra-se dentro dos muros de seu próprio
palácio".
16.2 Confúcio disse: "Quando o mundo segue o Caminho, os
ritos, a música e as expedições militares são todos
determinados pelo Filho do Céu. Quando o mundo se afasta
do Caminho, os ritos, a música e as expedições militares são
todos determinados pelos senhores feudais. Quando são os
senhores feudais que determinam esses assuntos, a
autoridade deles raramente dura por dez gerações; quando
são seus ministros que determinam esses assuntos, a
autoridade deles raramente dura por cinco gerações;
quando os assuntos do país caem nas mãos dos camareiros
dos ministros, a autoridade deles raramente dura três
gerações. Num mundo que segue o Caminho, a iniciativa
política não pertence aos ministros; num mundo que segue
o Caminho, os plebeus não necessitam discutir sobre
política".
16.3 Confúcio disse: "Há cinco gerações a Casa Ducal de Lu
perdeu sua autoridade; há quatro gerações o poder político
caiu nas mãos dos ministros; por isso, o futuro de seus
descendentes está em situação precária".
16.4 Confúcio disse: "Três tipos de amigos são benéficos;
três tipos de amigos são nefastos. A amizade com os retos,
os dignos de confiança e os eruditos é benéfica. A amizade
com os desviantes, os subservientes e os eloqüentes é
nefasta".
16.5 Confúcio disse: "Três tipos de prazeres são
proveitosos; três tipos de prazeres são nefastos. O prazer
de realizar os ritos e a música adequadamente, o prazer de
louvar as qualidades das outras pessoas, o prazer de ter
muitos amigos talentosos é proveitoso. O prazer de
demonstrações extravagantes, o prazer de divagar
ociosamente, o prazer de embriagar-se de forma indecente
é nefasto".
16.6 Confúcio disse: "Ao prestar serviços a um cavalheiro,
devem-se evitar três erros. Falar antes de ser convidado a
fazê-lo - isso é precipitação. Não falar quando convidado a
fazê-lo - isso é dissimulação. Falar sem observar a
expressão do cavalheiro - isso é cegueira".
16.7 Confúcio disse: "Um cavalheiro tem de se guardar
contra três perigos. Na juventude, quando a energia do
sangue ainda está alvoroçada, ele deve guardar-se contra a
volúpia. Na maturidade, quando a energia do sangue está
no seu apogeu. ele deve guardar-se contra a raiva. Na
velhice, quando a energia do sangue está em descenso, ele
deve guardar-se contra a rapacidade".
16.8 Confúcio disse: "Um cavalheiro teme três coisas. Ele
teme a vontade do Céu. Ele teme grandes homens. Ele
teme as palavras dos santos. Um homem vulgar não teme a
vontade do Céu, pois não a conhece. Ele despreza a
grandeza e zomba das palavras dos santos".
16.9 Confúcio disse: "Aqueles que têm um conhecimento
inato são os mais elevados. Depois vêm aqueles que
adquirem conhecimento pela aprendizagem. Em seguida
vêm aqueles que aprendem pelas provações da vida. No
nível mais baixo estão as pessoas comuns que passam pelas
provações da vida sem aprender nada".
16.10 Confúcio disse: "Um cavalheiro tem nove
circunstâncias:
- ao olhar, para ver claramente;
- ao escutar, para escutar nitidamente;
- na sua expressão, para ser amigável;
- na sua atitude, para ser deferente;
- na sua fala, para ser leal;
- em serviço, para ser respeitoso;
- na dúvida, para perguntar;
- quando zangado, para ponderar sobre as conseqüências;
- ao obter uma vantagem, para considerar se ela é justa".
16.11 Confúcio disse: " 'Sede de bondade; recuo do mal':
ouvi esse ditado e o vi ser praticado. 'Retira-te do mundo e
persegue as aspirações de teu coração; anda com retidão
para atingir o Caminho': ouvi esse ditado mas nunca o vi ser
praticado".
16.12 "O duque Jing de Qi tinha mil carruagens de guerra.
No dia de sua morte, o povo não conseguia encontrar nada
que pudesse louvar sua memória. Boyi e Shuqi morreram de
fome em paragens ermas; até o dia de hoje, o povo
continua celebrando seus méritos. Não é isso uma ilustração
do que acabou de ser dito?"
16.13 Chen Ziqin perguntou ao filho de Confúcio:
"Recebeste algum ensinamento especial de teu pai?" O
outro respondeu: "Não. Certa vez, quando se encontrava de
pé sozinho e eu discretamente atravessava o pátio, ele me
perguntou: "Estudaste os Poemas?' Eu respondi: "Não". Ele
disse:
'Se não estudares os Poemas, não serás capaz de sustentar
nenhuma discussão". Retirei-me e estudei os Poemas. Num
outro dia, estando ele novamente de pé sozinho e eu
atravessando discretamente o pátio, ele me perguntou:
"Estudaste o ritual?' Eu respondi: "Não". Ele disse: "Se não
estudares o ritual, não serás capaz de ocupar teu lugar na
sociedade". Retirei-me e estudei o ritual. Foram estes os
dois ensinamentos que recebi". Chen Ziqin foi embora
encantado e disse: "Perguntei uma coisa e aprendi três.
Aprendi sobre os Poemas, aprendi sobre o ritual e aprendi
como um cavalheiro mantém-se reservado para com seu
filho".
16.14 Vários títulos são usados para a consorte de um
dirigente. O dirigente a chama 'Minha Senhora'. Ela chama a
si mesma 'Tua pequena criada'. O povo a chama 'A Senhora
do Senhor', mas, ao conversar com forasteiros, o povo se
refere a ela como 'Nossa pequena soberana'. Os forasteiros
também a chamam de 'A Senhora do Senhor'.
Capítulo 17
17.1 Yang Huo queria ver Confúcio. Confúcio não queria vê-
lo. Yang Huo enviou-lhe um leitão. Confúcio escolheu um
momento em que o outro não estava em casa e passou por
ali para agradecer o presente. Eles se encontraram na
estrada.
Yang Huo disse a Confúcio: "Aproximai-vos! Tenho algo para
vos dizer". Ele prosseguiu: "Um homem pode ser
considerado virtuoso se guarda seus talentos apenas para si
enquanto seu país está se extraviando? Não creio. Um
homem pode ser considerado sábio se anseia por agir mas
perde todas as oportunidades de fazê-lo? Não creio. Os dias
e meses passam, o tempo não está do nosso lado".
Confúcio disse: "Está bem, aceitarei um cargo".
17.2 O Mestre disse: "O que a natureza junta, o hábito
separa".
17.3 O Mestre disse: "Só os mais sábios e os mais estúpidos
nunca mudam".
17.4 O Mestre foi para Wucheng, onde Ziyou era
governante. Ele ouviu o som de instrumentos de corda e de
hinos. Achou graça e disse com um sorriso: "Por que um
cutelo de boi para matar uma galinha?" Ziyou respondeu:
"Mestre, no passado vos ouvi dizer: 'O cavalheiro que
cultiva o Caminho ama todos os homens; as pessoas do
povo que cultivam o Caminho são fáceis de governar' " O
Mestre disse: "Meus amigos, Ziyou está certo. Eu só estava
brincando".
17.5 Gongshan Furao, que ocupava a fortaleza de Bi,
rebelou-se e convidou Confúcio para juntar-se a ele: O
Mestre ficou tentado a ir. Zilu ficou consternado com isso e
disse: "É muito ruim não termos para onde ir, mas será
essa uma razão suficiente para juntar-se a Gongshan?" O
Mestre disse: "Já que ele está me convidando, deve ser por
algum motivo. Se pelo menos alguém me empregasse, eu
poderia estabelecer uma nova dinastia Zhou no Leste".
17.6 Zizhang perguntou a Confúcio sobre humanidade. O
Mestre disse: "Quem conseguisse espalhar as cinco práticas
no mundo inteiro implementaria a humanidade". "E quais
são elas?" "Cortesia, tolerância, boa- fé, diligência,
generosidade. A cortesia repele os insultos; a tolerância
conquista todos os corações; a boa- fé inspira a confiança
dos outros; a diligência garante o sucesso; a generosidade
confere autoridade sobre os outros".
17.7 Bi Xi convidou Confúcio. O Mestre ficou tentado a ir.
Zilu disse: "Mestre, no passado vos ouvi dizer: "Um
cavalheiro não se associa àqueles que cometem
pessoalmente a maldade". Bi Xi está fazendo uso do
baluarte de Zhongmou para iniciar uma rebelião. Como
podeis pensar em juntar-vos a ele?" O Mestre disse: "De
fato, eu disse isso. Contudo, o que resiste à moagem é
realmente forte, o que resiste à tintura preta é realmente
branco. Serei eu uma abóbora amarga, que apenas serve de
decoração, mas não de alimento?"
17.8 O Mestre disse: "Zilu, já ouviste falar das seis
qualidades e suas seis perversões?" - "Não". - "Senta-te, eu
te contarei. O amor pela humanidade sem o amor pela
aprendizagem degenera em tolice. O amor pela inteligência
sem o amor pela aprendizagem degenera em frivolidade. O
amor pelo cavalheirismo sem o amor pela aprendizagem
degenera em banditismo. O amor pela franqueza sem o
amor pela aprendizagem degenera em brutalidade. O amor
pela coragem sem o amor pela aprendizagem degenera em
violência. O amor pela força sem o amor pela aprendizagem
degenera em anarquia".
17.9 O Mestre disse: "Meus pequenos, por que não estudais
os Poemas? Os Poemas podem vos fornecer estímulo e
observação, capacidade de comunhão e um veículo para
aliviar a dor. Em casa, eles vos permitem servir ao vosso pai
e fora de casa servir ao vosso senhor. Neles também
aprendereis os nomes de muitos pássaros, animais plantas e
árvores".
17.10 O Mestre disse a seu filho: "Estudaste a primeira e a
segunda partes dos Poemas? Quem entra na vida sem ter
estudado a primeira e a segunda partes dos Poemas fica
paralisado, como que diante de uma parede".
17.11 O Mestre disse. "Eles falam dos ritos a torto e a
direito - como se ritual significasse apenas oferenda de jade
e de seda! Eles falam de música a torto e a direito - como
se música significasse apenas sinos e tambores!"
17.12 O Mestre disse: "Um covarde que assume um olhar
feroz é - para tomar uma imagem grosseira - como um
ladrão que se esgueira por cima de um muro".
17.13 O Mestre disse: "Aqueles que fazem da virtude sua
profissão são a ruína da virtude".
17.14 O Mestre disse: "Contadores de mentiras são
deserdados da virtude".
17.15 O Mestre disse: "Pode-se servir a um príncipe na
companhia de um homem vil? Antes de obter sua posição,
seu único temor é não a obter, e, uma vez que a obtém, seu
único temor é perdê-la. E, quando ele teme perdê-la, torna-
se capaz de qualquer coisa".
17.16 O Mestre disse: "Os antigos tinham três defeitos que
os homens de hoje nem mesmo conseguem ter. A
excentricidade dos antigos era despreocupada, ao passo que
a excentricidade hoje é licenciosa. O orgulho dos antigos era
rude, ao passo que o orgulho hoje é perverso. A inocência
dos antigos era franca, ao passo que a ingenuidade hoje é
uma impostura".
17.17 O Mestre disse: "Conversa inteligente e modos
afetados raramente são sinais de bondade".
17.18 O Mestre disse: "Detesto púrpura no lugar de
vermelhão; detesto música popular corrompendo a música
clássica; detesto línguas soltas subvertendo reinos e clãs".
17.19 O Mestre disse: "Desejo não mais falar". Zigong
disse: "Mestre, se não falardes, de que maneira seres
pequenos como nós ainda poderemos legar algum
ensinamento?" O Mestre disse: "O Céu fala? E mesmo assim
as quatro estações seguem seu curso e centenas de
criaturas continuam a nascer. O Céu fala?"
17.20 Ru Bei queria ver Confúcio. Confúcio declinou
alegando doença. Quando o mensageiro de Ru Bei estava
partindo, o Mestre apanhou sua citara e cantou bastante
alto para que ele ouvisse.
17.21 Zai Yu disse: "Três anos de luto pelos pais - isso é
muito tempo. Se um cavalheiro interromper todas as
práticas rituais por três anos, as práticas irão decair; se ele
interromper todas as apresentações musicais por três anos,
a música se perderá. Quando a velha safra foi consumida,
uma nova safra cresce, e para acender o fogo um novo
acendedor é usado a cada estação. Um ano de luto deveria
ser suficiente". O Mestre disse: "Se passado apenas um ano
voltasses a comer arroz branco e vestir seda, te sentirias à
vontade?" - "Com certeza". - "Nesse caso vai em frente! Um
cavalheiro prolonga seu luto simplesmente porque, já que
os alimentos finos lhe parecem sem gosto, a música não lhe
proporciona nenhuma alegria e o conforto de sua casa o
deixa pouco à vontade, ele prefere abster-se de todos esses
prazeres. Mas, se consegues desfrutar deles, vai em frente!"
Zai Yu saiu. O Mestre disse: "Zai Yu é destituído de
humanidade. Depois que uma criança nasce, nos primeiros
três anos de sua vida ela não sai do colo dos pais. Três anos
de luto é um costume observado em todas as partes do
mundo. Será que Zai Yu nunca desfrutou do amor de seus
pais, nem mesmo por três anos?"
17.22 O Mestre disse: "Não suporto essas pessoas que
enchem a barriga o dia inteiro, sem nunca usarem a cabeça!
Por que não jogam xadrez? Seria melhor do que nada".
17.23 Zilu disse: "Um cavalheiro louva a coragem?" O
Mestre disse: "Um cavalheiro coloca a justiça acima de tudo.
Um cavalheiro que seja valente mas não justo pode tornar-
se um rebelde; um homem vulgar que é valente mas não
justo pode tornar-se um bandido".
17.24 Zigong disse: "Um cavalheiro tem ódio?" O Mestre
disse: "Tem. Ele odeia aqueles que repisam o que é odioso
nos outros. Ele odeia os inferiores que difamam seus
superiores. Ele odeia aqueles cuja coragem não é
temperada por modos civilizados. Ele odeia os impulsivos e
os teimosos". Ele continuou: "E vós? Não tendes vossos
próprios ódios?" - "Odeio os plagiários que fingem ser
eruditos. Odeio os arrogantes que fingem ser valentes.
Odeio os maliciosos que fingem ser sinceros".
17.25 O Mestre disse: "Com mulheres e subalternos é
especialmente difícil lidar: sê amigável e eles se tornam
confiados; sê distante e eles se ressentem disso".
17.26 O Mestre disse: "Alguém que, aos quarenta anos,
ainda é desestimado, assim permanecerá até o fim".
Capítulo 18
18.1 O senhor de Wei fugiu do tirano, o senhor de Ji foi
escravizado pelo tirano e Bi Gan foi executado por protestar
contra o tirano. Confúcio disse: "A Dinastia Yin tinha três
modelos de humanidade".
18.2 Liuxia Hui era um magistrado. Ele foi demitido três
vezes. Pessoas disseram: "Por que não vais para outro
lugar?" Ele respondeu: "Se trabalho honestamente, onde
não encontraria o mesmo destino? Se eu tiver de trabalhar
contra a minha consciência, por que teria de abandonar a
terra de meus pais?"
18.3 O duque Jing de Qi havia convidado Confúcio. Ele
disse: "Não posso tratar-te em pé de igualdade com o
senhor Ji. Irei tratar-te como se tua posição estivesse entre
a do senhor Ji e a do senhor Meng". Então ele disse
novamente: "Estou muito velho. Não posso empregar-te".
Confúcio partiu.
18.4 O povo de Qi enviou de presente para Lu cantoras e
dançarinas. O senhor Ji Huan as aceitou e, por três dias,
não compareceu à corte. Confúcio partiu.
18.5 Jieyu, o louco de Chu, passou por Confúcio cantando:
Fênix, oh Fênix!
O passado não retorna,
Mas o futuro ainda guarda uma oportunidade.
Desiste, desiste!
Os dias dos que estão no poder estão contados!
Confúcio deteve sua carruagem, pois queria conversar com
ele, mas o outro saiu correndo e desapareceu. Confúcio não
conseguiu conversar com ele.
18.6 Changju e Jieni estavam arando juntos. Confúcio,
passando por ali, enviou Zilu para perguntar onde era o rio.
Changju disse: "Quem está na carruagem?" Zilu disse: "É
Confúcio". - "O Confúcio de Lu?" - "Ele mesmo". - "Então ele
já sabe onde é o rio".
Zilu então perguntou a Jieni, que respondeu: "E tu, quem
és?" - "Sou Zilu". - "O discípulo de Confúcio de Lu?" - "Sim".
- "O universo todo é percorrido pelo mesmo curso de água;
quem conseguiria reverter seu fluxo? Em vez de seguir um
cavalheiro que fica correndo de um patrão para outro, não
seria melhor seguir um cavalheiro que desertou do mundo?"
Enquanto falava, ele continuou lavrando seu campo.
Zilu voltou e informou Confúcio. Absorto em pensamentos, o
Mestre suspirou: "Não é possível associar-se a pássaros e
animais. De quem deveria eu me acompanhar, se não de
minha própria espécie? Se o mundo estivesse seguindo o
Caminho, eu não teria de reformá-lo".
18.7 Viajando com Confúcio, Zilu ficou para trás. Ele
encontrou um velho que carregava nas costas um cesto
pendurado em seu cajado.
Zilu lhe perguntou: "Senhor, por acaso viste meu mestre?"
O velho disse: "Não labutas com teus quatro membros, nem
consegues distinguir entre os cinco tipos de grãos - quem
pode ser teu mestre?" Ele enfiou o cajado no solo e
começou a capinar.
Zilu observava-o com respeito.
O velho acolheu-o durante a noite, matou uma galinha,
cozinhou um pouco de painço e lhe apresentou seus dois
filhos.
No dia seguinte, Zilu reiniciou sua viagem e informou
Confúcio.
O Mestre disse: "O homem que encontraste é um eremita".
Ele enviou Zilu para procurá-lo, mas, ao chegar à sua casa,
Zilu descobriu que o velho partira.
Zilu disse: "Não é correto retirar-se da vida pública. Não se
pode ignorar a diferença entre a idade e a juventude, e
menos ainda as obrigações mútuas entre príncipe e súdito.
Não se podem descartar as relações humanas mais
essenciais apenas para preservar a própria pureza. Um
cavalheiro tem a obrigação moral de servir ao estado,
mesmo prevendo que o Caminho não prevalecerá".
18.8 Aqueles que se retiraram do mundo: Boyi, Shuqi,
Yuzhong, Yiyi, Zhuzhang, Liuxia Hui, Shaolian. O Mestre
disse: "Nunca faças concessões, nunca aceites um insulto -
isso resume a atitude de Boyi e Shuqi". Sobre Liuxia Hui e
Shaolian ele comentou: "Eles fizeram concessões e sofreram
insultos; ainda assim, conseguiram preservar a decência em
suas palavras e a prudência em seus atos". Sobre Yuzhong
e Yiyi, ele comentou: "Eles se tornaram eremitas e deixaram
de falar. Permaneceram puros e foram astutos em sua
discrição. Quanto a mim, faço as coisas de modo diferente:
não sigo nenhuma prescrição rígida quanto ao que deve ou
não deve ser feito".
18.9 Zhi, o grande mestre de música, partiu para Qi. Gan,
músico do segundo banquete, partiu para Chu. Liao, músico
do terceiro banquete, partiu para Cai. Que, músico do
quarto banquete, partiu para Qin. Fangshu, o tocador de
tambor, atravessou o rio Amarelo. Wu, o tocador de
tímbale, atravessou o rio Han. Yang, o mestre de música
substituto, e Xiang, que tocava o carrilhão de pedras,
atravessaram o mar.
18.10 O duque de Zhou disse a seu filho, o duque de Lu:
"Um cavalheiro não descuida de seus parentes. Não dá aos
seus ministros motivos para se queixarem de não serem
dignos de confiança. Sem uma causa séria, não demite
velhos servidores. Não espera perfeição de nenhum
indivíduo".
18.11 A Dinastia Zhou tinha oito cavaleiros: os irmãos mais
velhos Da e Gua; os segundos irmãos Tu e Hu; os irmãos
mais novos Ye e Xia; os caçulas Sui e Gua.
Capítulo 19
19.1 Zizhang disse: "Diante do perigo, um cavalheiro se
prontifica a dar a vida; a perspectiva de proveito não o faz
esquecer o que é correto; quando faz sacrifícios, ele o faz
com piedade; quando está de luto, é com dor - o que mais
se poderia desejar?"
19.2 Zizhang disse: "Se um homem abraça a virtude sem
muita convicção e segue o Caminho sem muita
determinação, devemos realmente dizer que ele está
abraçando a virtude e seguindo o Caminho?"
19.3 Os discípulos de Zixia perguntaram a Zizhang sobre as
relações sociais. Zizhang disse: "O que Zixia vos disse?"
Eles responderam: "Zixia disse: 'Associai-vos ao tipo certo
de pessoas; evitai aquelas que não são do tipo certo' ".
Zizhang disse: "Ensinaram-me algo um pouco diferente: um
cavalheiro respeita os sábios e tolera os medíocres, louva os
bons e tem compaixão pelos incapazes. Se tenho uma vasta
sabedoria, quem eu não toleraria? Se não tenho uma vasta
sabedoria, as pessoas me evitarão; com base em que
deveria eu evitá-las?"
19.4 Zixia disse: "Até as disciplinas inferiores têm seus
méritos; mas quem tem uma longa jornada pela frente
teme os atoleiros e é por isso que um cavalheiro não entra
em atalhos".
19.5 Zixia disse: "Quem, dia após dia, lembra-se do que
ainda precisa aprender e, mês após mês, não esquece o que
já aprendeu, efetivamente gosta de aprender".
19.6 Zixia disse: "Expande tua aprendizagem e mantém-te
fiel aos teus propósitos; questiona rigorosamente e medita
sobre as coisas que se encontram à mão: assim encontrarás
a plenitude de tua humanidade".
19.7 Zixia disse: "Os cem artesãos vivem em suas oficinas
para aperfeiçoar seus ofícios. Um cavalheiro continua
aprendendo para alcançar a verdade".
19.8 Zixia disse: "Um homem vulgar sempre tenta encobrir
seus erros".
19.9 Zixia disse: "Um cavalheiro produz três impressões
diferentes. Olha para ele de longe: ele é austero. Aproxima-
te: ele é amável. Ouve o que ele diz: ele é incisivo".
19.10 Zixia disse: "Um cavalheiro primeiro ganha a
confiança de seu povo, e depois pode mobilizá-lo. Sem essa
confiança, o povo pode sentir-se usado. Primeiro o
cavalheiro ganha a confiança de seu príncipe, e depois pode
fazer críticas. Sem essa confiança, o príncipe pode sentir-se
difamado".
19.11 Zixia disse: "Princípios maiores não são passíveis de
transgressão. Princípios menores admitem concessões".
19.12 Ziyou disse: "Os discípulos e jovens seguidores de
Zixia saem-se bem enquanto apenas têm de limpar e varrer
o chão, atender à porta, dizer bom- dia e adeus. Mas isso
são ninharias. Quando se trata de assuntos fundamentais,
ficam completamente perdidos. Como isso é possível?" Zixia
ouviu-o e disse: "Não! Ziyou está profundamente enganado.
Na doutrina do cavalheiro, o que deve ser ensinado primeiro
e o que é menos importante? É como as plantas e as
árvores: existem muitas variedades adequadas a diferentes
lugares. Na doutrina do cavalheiro, como poderia haver
alguma futilidade? Somente um santo, contudo, seria capaz
de abraçá-la do começo ao fim".
19.13 Zixia disse: "O descanso da política deveria ser
dedicado à aprendizagem. O descanso da aprendizagem
deveria ser dedicado à política".
19.14 Ziyou disse: "O luto deveria expressar a dor e mais
nada".
19.15 Ziyou disse: "Meu amigo Zizhang é um homem de
rara habilidade, mas não atingiu a plena humanidade".
19.16 Mestre Zeng disse: "Zizhang ocupa espaço demais:
não é fácil cultivar a humanidade ao seu lado".
19.17 Mestre Zeng disse: "Aprendi o seguinte do Mestre: se
existe uma ocasião em que um homem revela seu
verdadeiro eu é quando ele está de luto por seus pais".
19.18 Mestre Zeng disse: "Aprendi o seguinte do Mestre: Se
existe um aspecto inimitável da piedade filial do senhor
Meng Zhuang é a maneira como ele conservou os servidores
de seu pai e preservou suas políticas".
19.19 A família Meng indicou Yang Fu como juiz. Yang Fu
pediu conselho ao mestre Zeng. Mestre Zeng disse: "As
autoridades afastaram-se do Caminho; e o povo tem estado
sem guia há muito tempo. Sempre que resolveres um caso,
faze-o com compaixão e não com um sentimento de
vitória".
19.20 Zigong disse: "Zhouxin não era tão mau quanto sua
reputação. É por isso que um cavalheiro detesta dar muita
atenção à corrente da opinião pública: toda a imundície do
mundo é arrastada para lá".
19.21 Zigong disse: "O erro de um cavalheiro é como um
eclipse do sol ou da lua. Ele comete um erro e todos
percebem; ele corrige seu erro e todos erguem a vista com
admiração".
19.22 Gongsun Chao de Wei perguntou a Zigong: "De quem
Confúcio extraiu sua sabedoria?" Zigong disse: "O Caminho
do Rei Wen e do Rei Wu nunca caiu no esquecimento,
sempre permaneceu vivo entre o povo. Os sábios
guardaram a sua essência, os ignorantes guardaram um
certo número de detalhes. Todos eles tinham alguns
elementos do Caminho do Rei Wen e do Rei Wu. Não existe
ninguém de quem nosso Mestre não possa aprender algo; e
não existe ninguém que possa ser o único professor de
nosso Mestre".
19.23 Shusun Wushu estava conversando na corte com
alguns ministros e disse: "Zigong é melhor que Confúcio".
Zifu Jingbo contou isso a Zigong. Zigong disse: "É como o
muro que circunda uma residência: meu muro chega apenas
até o ombro; com uma simples olhada, qualquer pedestre
pode ver a beleza do edifício que ali dentro se encontra. O
muro do nosso Mestre tem várias vezes a altura de um
homem; a não ser que te permitam entrar pelo portão, não
podes imaginar o esplendor e a riqueza do templo ancestral
e as centenas de apartamentos que ali se encontram. Mas
são poucos os que ali conseguem entrar! A observação de
teu mestre, portanto, não surpreende".
19.24 Shusun Wushu difamou Confúcio. Zigong disse: "Não
tem importância. Isso não o atinge. Os méritos de outras
pessoas são como uma montanha que podes transpor; mas
Confúcio é como o sol ou a lua, sobre os quais não é
possível pular. Se alguém desejasse furtar-se à sua luz,
como isso poderia afetar o sol e a lua? Ele simplesmente
revelaria seu próprio desatino".
19.25 Chen Ziqin disse a Zigong: "Senhor, és modesto
demais; em que poderia Confúcio ser considerado superior a
ti?" Zigong disse: "Com uma palavra, um cavalheiro revela
sua sabedoria; com uma palavra, ele trai sua ignorância - e
é por isso que ele pondera suas palavras cuidadosamente.
As realizações do Mestre não podem ser igualadas, assim
como o Céu não pode ser alcançado com uma escada.
Tivessem confiado ao Mestre a direção de um país ou de
uma propriedade, ele teria realizado o ditado: "Ele os
ergueu, e eles se levantaram; ele os guiou, e eles
marcharam; ele lhes ofereceu paz, e se tornaram seu
rebanho; ele os mobilizou, e eles responderam ao seu
chamado; em vida, ele foi glorificado; na morte, ele foi
chorado". Como poderiam suas realizações ser igualadas?"
Capítulo 20
20.1 Yao disse:
Oh, Shun!
A sucessão celestial te escolheu;
Mantém-te fielmente no Caminho do Meio!
Se os povos dos Quatro Mares caírem no desespero e na
penúria
Este dom celestial será para sempre eliminado.
Shun passou essa mensagem a Yu.
Tang disse: Eu, o pequeno, ouso sacrificar um touro preto, e
ouso proclamá-lo ao mais augusto Deus soberano: não ouso
perdoar aqueles que são culpados; vossos servos nada
podem esconder de vós; já os julgastes em vosso coração.
Se eu for culpado, não castigueis os povos dos dez mil
feudos por minha causa; se os povos dos dez mil feudos
forem culpados, que sua culpa recaia sobre minha cabeça.
Zhou enfeudou muitos vassalos. As pessoas boas
prosperaram.
Embora eu possua meus próprios parentes, prefiro apoiar-
me em homens virtuosos.
Se o povo cometer erros, que sua culpa recaia sobre minha
cabeça.
Estabelece padrões de pesos e medidas, restabelece os
cargos que foram abolidos e a autoridade do governo se
espalhará por toda parte. Restaura as propriedades que
foram destruídas; revive linhagens dinásticas interrompidas,
reempossa os exilados políticos e conquistarás o coração do
povo no mundo inteiro.
Temas importantes: o povo; o alimento; o luto; o sacrifício.
A generosidade ganha as massas. A boa - fé inspira a
confiança do povo. A diligência garante o sucesso. A justiça
traz alegria.
20.2 Zizhang perguntou a Confúcio: "Como alguém se
qualifica para governar?" O Mestre disse: "Quem cultiva os
cinco tesouros e evita os quatro pecados está pronto para
governar" Zizhang disse: "Quais são os cinco tesouros?" O
Mestre disse: "Um cavalheiro é generoso sem ter de gastar;
ele faz as pessoas trabalharem sem as fazer padecer; ele
tem ambição mas não rapacidade; ele tem autoridade mas
não arrogância; ele é rigoroso mas não violento". Zizhang
disse: "Como é possível ser generoso sem ter de gastar?" O
Mestre disse: "Se deixares o povo procurar o que lhe é
benéfico, não estarás sendo generoso sem ter de gastar? Se
fizeres o povo trabalhar apenas em tarefas razoáveis, quem
padecerá? Se tua ambição é a humanidade e se realizas a
humanidade, que lugar pode haver para a rapacidade? Um
cavalheiro trata com igualdade os muitos e os poucos, os
humildes e os grandes. Ele dá a mesma atenção a todos:
não tem ele autoridade sem arrogância? Um cavalheiro se
veste corretamente, seu olhar é reto, o povo olha-o com
admiração: não é ele rigoroso sem ser violento?"
Zizhang disse: "Quais são os quatro pecados?" O Mestre
disse: "O terror, que se apóia na ignorância e no
assassinato. A tirania, que exige resultados sem aconselhar
adequadamente. A extorsão, que é conduzida por meio de
ordens contraditórias. A burocracia, que recusa ao povo
aquilo a que ele tem direito".
20.3 Confúcio disse: "Quem não compreende o destino é
incapaz de se comportar como um cavalheiro. Quem não
compreende os ritos é incapaz de ocupar seu lugar. Quem
não compreende palavras é incapaz de compreender os
homens".
[fim]
Daxue, ou !rande "studo de Confúcio (#$ %aposo)
Advertência de Chu xi:
Meu mestre Tchang tse disse: O "Grande Ensinamento" é a
obra de Confúcio e de seus discípulos. É como a porta que
abre o caminho da virtude. Os antigos seguiam estudo este
texto que por nós só é conhecido atualmente graças ao
esforço de conserva-lo por parte de Confúcio e seus
discípulos. Certamente, o estudante da sabedoria que
começar por este livro não estará desamparado nem
exposto aos enganos.
Palavras de Confúcio:
1.° - O que ensina a Grande Ciência é o método pelo qual
podemos exemplificar a virtude ilustre, renovar o povo, e
atingir a suprema excelência da vida.
2.° - É necessário conhecermos primeiramente o fim para
onde devemos tender, ou nosso destino definitivo, e
tomarmos, em seguida, uma determinação; tomada essa
determinação, podemos ter, depois, o espírito calmo e
tranqüilo; estando o nosso espírito calmo e tranqüilo,
podemos, conseqüentemente, gozar desse repouso
inalterável que nada pode perturbar; atingido este repouso
inalterável que nada pode perturbar, podemos, depois,
meditar e formar juízo sobre a essência das coisas;
meditado e formado esse juízo sobre a essência das coisas,
podemos alcançar, em seguida, o estado de
aperfeiçoamento desejado.
3.° - Os seres da natureza têm uma causa e efeitos: as
ações humanas têm um principio e conseqüências; conhecer
as causas e os efeitos, os princípios e as conseqüências, é
aproximar-se muito do método racional com que se atinge a
perfeição.
4.° - Os antigos príncipes que desejavam desenvolver e
ascender, em seus estados, o principio luminoso da razão
que nós recebemos do céu, trataram desde logo de bem
governar os seus reinos; aqueles que desejavam bem
governar os seus reinos, trataram logo de pôr a boa ordem
em suas famílias; aqueles que desejavam pôr a boa ordem
em suas famílias, trataram logo de corrigir-se a si mesmos;
aqueles que desejavam corrigir-se a si mesmos, trataram
logo de pôr sua alma em retidão ; aqueles que desejavam
pôr sua alma em retidão, trataram logo de tornar puras e
sinceras as suas intenções; aqueles que desejavam tornar
suas intenções puras e sinceras, trataram logo de
aperfeiçoar o mais possível os seus conhecimentos morais:
aperfeiçoar o mais possível os seus conhecimentos morais
consiste em penetrar e aprofundar o principio das ações.
5.° - Sendo penetrados e aprofundados os princípios das
ações, os conhecimentos morais chegam, depois, a seu
ultimo grau de perfeição; tomam-se, depois, sinceras e
puras as intenções, enche-se a alma de retidão e probidade,
toma-se a pessoa correta e melhorada; tornando-se a
pessoa correta e melhorada, torna-se a família logo bem
dirigida; sendo a família bem dirigida, o reino, em
conseqüência, passa a ser bem governado; sendo bem
governado o reino, o mundo goza, em conseqüência, de paz
e de harmonia.
6.° - Desde o mais elevado homem em dignidade até o mais
humilde de todos, têm todos o mesmo dever de corrigir-se e
melhorar-se: o aperfeiçoamento de si mesmo é a base
fundamental de todo o progresso e de todo o
desenvolvimento moral.
7.° - Ha coisas na natureza que, embora tenham a sua base
fundamental em desordem e confusão, podem ter em bom
estado tudo o que delas derive necessariamente.
Tratar com superficialidade o principal ou o mais
importante, e com gravidade o secundário, é um modo de
agir que se deve desprezar.
CAPITULO I
1.° - O Khang-kao (1) diz: "O rei Wen (2) chegou a
desenvolver e fazer brilhar com todo o seu brilho o principio
luminoso da razão, que nós recebemos do céu."
2.° - O Tai-kio diz: "O rei Tching (3) tinha sempre os olhos
fixados sobre este dom brilhante da inteligência, que nós
recebemos do céu."
3.° - O Ti-tien diz: "Yao (4) pôde desenvolver e fazer brilhar
com todo o seu brilho o principio sublime da inteligência,
que nós recebemos do céu."
4.° - Todos estes exemplos indicam que todos devem
cultivar sua natureza racional e moral.
CAPITULO II
1.° - Caracteres gravados na banheira do rei Tching-thang
diziam: "Renova-te completamente todos os dias: faze-o de
novo, ainda de novo, sempre de novo."
2.° - O Livro de Versos (5) diz:
"Ainda que possuísse por muito tempo a família Tcheú um
principado real,
Ela obteve do céu (na pessoa de Wen-wang) uma
investidura nova"
3.° - Isto prova quanto pode o sábio atingir até o ultimo
grau da perfeição.
CAPITULO III
1.° - O Livro de Versos diz:
"É na razão de mil li (cem léguas) da residência real,
que o povo gosta de fazer sua residência."
2.° - O Livro de Versos diz:
"O pássaro amarelo de choroso canto, mien-màn,
Faz sua residência no buraco relvoso das montanhas."
O filosofo (Khung-Tsen) disse:
Fixando até sua residência ele prova conhecer o lugar da
sua destinação; e o homem, por mais inteligente que seja,
não lograria saber isto tanto como o pássaro.
3.°.- O Livro de Versos diz:
"Como a virtude de Wen-wang era vasta e profunda!
Como ele soube juntar o esplendor à maior solicitude para
completar seus vários destinos!"
Como príncipe, ele colocava a sua destinação na pratica da
humanidade ou no zelo universal sobre os homens; como
súdito, colocava a sua destinação no respeito devido ao
soberano; como filho, colocava a sua destinação na pratica
da piedade, filial; como pai, colocava a sua destinação na
ternura paternal; entretendo relações ou entabulando
negócios com os homens, colocava a sua destinação na
prática da sinceridade e da fidelidade.
4.° - .O Livro de Versos diz:
"Olha para baixo, das margens do rio:
Oh!... Como são belos e abundantes os verdes bambus...
Nós temos um príncipe ornado de ciência e de sabedoria;
Assemelha-se ao artista que corta e trabalha o marfim,
Aquele que talha e poli as pedras preciosas.
Oh!... Como parece grave e silencioso!
Como sua conduta é austera e digna...
Nós temos um príncipe ornado de ciência e de sabedoria;
Nós não poderemos nunca esquece-lo"
5.° - Assemelha-se ao artista que corta e trabalha o marfim,
indica o estudo ou a aplicação da inteligência em busca dos
princípios das nossas ações; assemelha-se daquele que
talha e poli as pedras preciosas, indica o aperfeiçoamento
de si mesmo. A expressão: Oh! Como parece grave a
silencioso! indica o temor e a solicitude que ele experimenta
para atingir a perfeição; como sua conduta é austera e
digna exprime quanto cuidado empregava para tomar sua
conduta digna de ser imitada. Nós temos um príncipe
ornado de ciência e de Sabedoria; nós não poderemos
nunca esquece-lo! indica aquela sabedoria completa, aquele
perfeição moral que o povo jamais pode esquecer.
6.° - O Livro de Versos diz:
"Como o renome dos antigos reis (Wen e Wu) (6) é
conservado na memória dos homens..."
Os sábios e os príncipes que os seguiram, imitaram sua
sabedoria e sua solicitude pelo bem-estar da posteridade.
As populações gozaram em paz do que eles haviam feito por
sua felicidade, e muito aproveitaram com o que eles fizeram
de bom e de apreciável na divisão coerente e na distribuição
das terras.
É por isso que jamais serão esquecidos nos séculos futuros.
CAPITULO IV
Disse o filosofo: Eu posso ouvir as questões e julgar os
processos como os outros homens. Mas não seria melhor
que se evitassem processos? Àqueles que são velhacos e
maus, não seria permitido levar suas acusações mentirosas
e seguir seus culposos desígnios. Chegar-se-ia, por este
meio, a submeter, inteiramente as más intenções dos
homens. Chama-se isto conhecer a raiz ou a causa. .
CAPITULO V
Este capítulo desapareceu, conservando-se dele apenas
estas palavras. Chama-se isto conhecer a raiz ou a causa - a
perfeição do conhecimento.
CAPITULO VI
1.° - A expressão tornar suas intenções puras e sinceras,
significa: Não obliteres tuas inclinações honestas, como
quem foge a um cheiro desagradável e preza um objeto
agradável e atraente. É o que se chama a satisfação de si
mesmo. É que o sábio vela atentamente sobre suas
intenções e seus pensamentos secretos.
2.° - Os homens vulgares que vivem retraídos, sem
testemunhas de seus atos, praticam ações viciosas: não ha
males que não realizem. Observam os homens sábios que
velam sobre si mesmos, e fingem imita-los, escondendo sua
conduta viciosa e fazendo ostentações de sua virtude
simulada. Quem os vê é como se penetrasse em seu fígado
e seus rins: então de que lhes serve dissimular? Está ai o
que se compreende no provérbio: A verdade se encontra no
interior e a forma no exterior. Esta é a razão por que deve o
sábio velar atentamente sobre suas intenções e seus
pensamentos secretos.
3.° - Thseng-tseu (7) disse: "Aquele à quem dez olhos
fitam, aquele à quem dez mãos apontam, quanto não deve
temer, se não vela sobre si mesmo!"
4.° - As riquezas ornam e embelezam urra casa, a virtude
orna e embeleza a pessoa; neste estado de felicidade pura,
a alma se engrandece e a substancia material que lhe está
submetida aproveita com isto. Esta é a razão por que o
sábio deve tomar suas intenções puras e sinceras.
CAPITULO VII
1.° - Estas palavras: corrigir-se a si mesmo de todas as
paixões viciosas consiste em dar retidão à sua alma, querem
dizer que, se a alma está perturbada pela cólera, se se vê
dominada pelo medo, se se encontra agitada por urra
paixão da alegria ou do prazer, se se sente acabrunhada
pela dor, não pode conseguir esta retidão.
2.° - Não sendo o ser senhor de si mesmo, olha, mas não
vê; escuta, mas não ouve; come, mas não sente o sabor
dos alimentos. Isto explica porque a ação de corrigir-se á si
mesmo de todas as paixões viciosas, constitui obrigação de
dar retidão à sua alma.
CAPITULO VIII
1.° - O que significam estas palavras: pôr em boa ordem
sua família, consiste em corrigir-se continuadamente a si
mesmo de todas as paixões viciosas, é o seguinte: os seres
humanos são parciais para com seus parentes e aqueles a
quem amam; respeitam e reverenciam, mas são também
parciais, ou injustos, para com todos os homens que
desprezam ou odeiam; são parciais e misericordiosos para
com aqueles que inspiram compaixão e piedade ; mas são
também parciais ou altivos para com aqueles a quem se
ama; odiar e reconhecer as boas qualidades daquele a quem
se odeia, é coisa bem rara debaixo do céu.
2.° - Daí vêm o provérbio que diz : Os pais não querem
reconhecer os defeitos de seus filhos, e os lavradores, a
fertilidade de suas terras.
3.° - Isto prova que o homem que não sabe corrigir-se a si
mesmo de suas inclinações injustas, é incapaz de por em
boa ordem a sua família.
CAPITULO IX
1.° - As expressões do texto: para governar um reino, é
necessário sobretudo empenhar-se em pôr em boa ordem a
sua família, podem ser explicadas deste modo: é impossível
admitir-se que um homem incapaz de instruir a sua família,
possa instruir as pessoas. É por esta razão que o filho de
um Príncipe se aperfeiçoa na arte de instruir e de governar
um reino. A piedade filial é o principio que o dirige em suas
relações com o soberano; a deferência é o principio que o
dirige em suas relações com aqueles que são mais velhos do
que ele: a mais terna benevolência é o principio que o dirige
em suas relações com a multidão.
2.° - O Khang-Kao disse: "É como a mãe que abraça
ternamente o seu recém-nascido. Esforça-se de todo o
coração por prevenir os seus desejos nascentes; se ela os
não adivinha inteiramente, não se engana assaz sobre o
objeto dos seus votos"; não é, pois, natural, que uma mãe
aprenda primeiro a nutrir o seu filho, para casar depois.
3.° - Uma família, tendo humanidade e caridade, bastará
para fazer nascer em toda a nação essas mesmas virtudes,
caridade e humanidade; uma só família, tendo polidez e
condescendência, bastará para tornar uma nação inteira
condescendente e polida; um só homem, e príncipe, sendo
avaro e cupido, bastará para causar desordem numa nação.
Tal é o princípio e o móvel destas virtudes e destes vícios. É
por isso que diz o provérbio: Uma palavra estraga um
negocio, um só homem determina a sorte de um império.
4.° - Yao e Chun governaram o império com humanidade, e
o povo os imitou. Kia (8) e Tcheú (9) governaram o império
com perversidade, e o povo os imitou. Mas o que estes dois
últimos ordenavam era contrario ao que eles amavam, e o
povo não se submeteu a eles. É por esta razão que o
príncipe deve espontaneamente praticar todas as virtudes, e
levar depois os outros a pratica-las também. Se ele as não
possui e não pratica, por si mesmo, não as deve exigir dos
outros homens. Quem não é bom nem virtuoso em seu
coração, não pode ser capaz de impor aos outros homens o
que é bom e virtuoso, isto é impossível e contrario á
natureza das coisas.
5.° - Eis a razão por que o bom governo de um reino
consiste na obrigação prévia de pôr em boa ordem a sua
família.
6.° - O Livro de Versos diz:
"Como é belo e resplandecente o pessegueiro!
Como é florida e abundante a sua fronde...
Assim é uma noiva, ainda jovem, que se entrega á
habitação do esposo conduzindo-se convenientemente com
todas as pessoas de sua família".
Conduzi-vos convenientemente com as pessoas da vossa
família, e podereis, depois, instruir e dirigir uma nação de
pessoas.
7.° - O Livro de Versos diz:
"Fazei tudo que é conveniente entre irmãos e irmãs de
diferentes idades."
Se fizerdes o que é conveniente entre eles, podereis instruir
os irmãos mais velhos e os irmãos mais novos de vosso
reino.
8,° - O Livro de Versos diz:
"O príncipe cuja conduta é sempre cheia de eqüidade e de
sabedoria verá os homens das quatro partes do mundo
imitarem a sua retidão."
Preenche os seus deveres de pai, de filho, de irmão mais
velho, de irmão mais novo e logo o povo o imitará.
9.° - Isto se acha no texto: A arte de bem governar uma
nação consiste em pôr, antes que tudo, em boa ordem a
família.
CAPITULO X.
l.° - As expressões do texto: fazer gozar o mundo a paz e a
harmonia consiste em bem governar o seu reino, devem ser
assim explicadas: Todo aquele que estiver em posição de
superioridade, ou seja um príncipe, trate seu pai e sua mãe
com respeito, e o povo terá piedade filial; honre o príncipe a
superioridade da idade entre seus irmãos e haverá entre o
povo a deferência fraternal; tenha o príncipe comiseração
pelos órfãos e o povo não terá, decerto, procedimento
contrário. O príncipe tem consigo a regra e a medida de
todas as ações.
2.° - Quanto reprovais nos que estão acima de vós, não vos
cumpre fazer ao que estão abaixo de vós; não pratiqueis
para com vossos superiores o que reprovais em vossos
inferiores; não façais aos que vos seguem o que reprovais
nos que vos precedem ; não façais aos que vos precedem o
que reprovais nos que vos seguem; não façais aqueles que
estão ao vosso lado o que reprovais nos outros; não façais
aos outros o que reprovas aos que estão do vosso lado; eis
o que se deve chamar a regra e a razão de ser de todas as
ações.
3.° - O Livro de Versos diz:
"O único príncipe que inspira alegria,
É o que é o pai e a mãe do povo!"
O príncipe que ama o que o povo ama e odeia o que o povo
odeia, é o que se pode chamar: o pai e a mãe do povo.
4.° - O Livro de Versos diz:
"Vedes de longe aquela grande montanha ao sul,
Com seus rochedos escarpados e ameaçadores?
Assim, ministro Yu, tu brilhas no meio da tua dureza
enorme
E o povo te contempla com temor!"
O que possui um império, não deve negligenciar no cuidado
que deve ter sobre si mesmo, para praticar o bem e evitar o
mal; se não tomar em consideração estes princípios, a ruína
do seu império será fatal.
5.° - O Livro de Versos diz:
"Antes, que os príncipes da dinastia dos Yin, (ou Tchang)
tivessem perdido, a afeição do povo,
Eles podiam ser comparados ao Altíssimo.
Nós podemos ver neles
Que o mandato do céu não é fácil de conservar."
O que é o mesmo que dizer;
Obtém a afeição do povo e obterás o império.
Perde a afeição do povo e, perderás o império.
6.° - Esta é a razão por que um príncipe deve atentamente
velar pelo seu principio racional e moral. Se ele possuir as
virtudes que são a conseqüência disto tudo, possuirá
também o coração dos homens; se ele possuir o coração
dos homens, possuirá também o território; se possuir o
território, terá os seus rendimentos; se ele tiver os seus
rendimentos, poderá fazer uso deles na administração do
Estado. O principio racional e moral é a base fundamental;
as riquezas não passam de acessórios.
7.° - Tratar superficialmente da base fundamental ou do
princípio racional e moral, é dar muita importância ao
acessórios, ou as riquezas; é perverter os sentimentos do
povo e excita-lo, por exemplo, á pratica do roubo e das
rapinas.
8.° - É por esta razão que, se um príncipe só pensa em
armazenar riquezas, o povo, para imita-lo, abandona-se à
todas as suas más paixões; se, porém, o príncipe dispõe dos
rendimentos públicos convenientemente, então o povo se
mantém em ordem e na submissão.
9.° - É também por isso que, se um soberano, por seus
magistrados, publica decretos ou ordenações contrarias á
justiça, sofre resistência das opiniões á execução delas e
também por meios contrários á justiça; se os príncipes e
magistrados adquirem riquezas, por meios violentos e
contrários á justiça, eles as perderão também por meios
violentos e contrários á justiça.
10.° - O Khang-kao diz: "O mandato do céu que dá a
soberania a um homem, não lh'a confere para sempre". O
que equivale a dizer-se que, praticando-se o bem ou a
justiça, tudo se obtém, e, praticando-se o mal e a injustiça,
tudo se vem a perder.
11.° - As Crônicas de Thsu (11) dizem: "A nação de Thsu
não olha os ornamentos de ouro com pedrarias, como coisas
preciosas; mas são verdadeiramente preciosos para ela os
homens virtuosos, os bons ministros e os sábios".
12.° - Kieu-fan (l2) diz: "Nas viagens que fiz no exterior,
nada encontrei que tenha por precioso: a humanidade e a
amizade entre parentes são as únicas coisas que acho
preciosas".
13.° - O Thsin-chi (13) diz: "Tivesse eu um ministro com
retidão completa, mesmo quando outra qualidade não
possuísse que a de um coração simples e sem paixões, eu o
aceitaria de boa vontade como se ele tivesse inúmeros
talentos. Quando visse homens de capacidade, ele os
aproveitaria, sem os invejar, como se fosse ele o próprio o
possuidor dos talentos. Quando viesse a distinguir um
homem por suas virtudes e inteligência, não se limitaria e
elogia-lo da boca para fora, mas o procuraria sinceramente,
empregando-o nos negócios públicos. Eu poderia descansar
sobre este ministro do cuidado que tenho de proteger meus
filhos, os seus, e o povo, em geral. Quantas vantagens não
traria ele para o reino?"
"Mas sé um ministro inveja o talento alheio, e, levado por
essa inveja, afasta ou mantém no afastamento aqueles que
possuem virtude e habilidade eminentes, não os
aproveitando nos cargos importantes, criando-lhes toda a
sorte de obstáculos, tal ministro, ainda que possua talento,
é incapaz de proteger meus filhos, seus próprios filhos e o
povo. Não se poderia dizer que seria este homem um perigo
iminente, como que talhado para causar a ruína do
império?"
14.° - Só um príncipe virtuoso e cheio de humanidade pode
afastar de si tais homens, e relega-los aos bárbaros que
habitam nas quatro extremidades do império, proibindo-lhes
de residirem no reino do meio.
Quer isto dizer que só o homem justo e cheio de
humanidade é capaz de amar e de odiar convenientemente
os homens.
15.° - Ver um homem de bem e de talento e não lhe dar
acesso; dar-lhe acesso sem o tratar com a preferência
merecida, é fazer-lhe injustiça. Ver um homem perverso e
não o repelir; repeli-lo, mas sem afasta-lo a grande
distancia, é condenável coisa para um príncipe qualquer.
16.° - Um príncipe que ama os que são objeto de geral
desprezo, e que odeia aqueles que são amados por todos,
faz o que se chama um ultraje à natureza humana. Horríveis
calamidades atingirão, decerto, este príncipe.
17.° - É ai que têm os soberanos uma grande regra de
conduta com a qual se devem conformar: eles, se adquirem
esta regra pela sinceridade e pela fidelidade, perdem-na
pelo orgulho ou pela violência.
18.° - Ha um grande princípio para aumentar os
rendimentos do Estado ou da família. Seja maior o numero
dos produtores que o dos consumidores, os que fazem
crescer os rendimentos trabalhem mais, e os que dissipam,
dissipem menos: por este processo os rendimentos serão
bastantes.
19.° - O homem bom e caridoso atrai consideração para sua
pessoa, usando de sua fortuna com generosidade; o homem
sem bondade e sem caridade aumenta as suas riquezas,
com prejuízo de sua consideração.
20.° - Quando um príncipe ama a humanidade e pratica a
virtude, torna-se impossível ao povo não amar a justiça; e
quando o povo ama a justiça, torna-se impossível o malogro
dos negócios do príncipe; é igualmente impossível que os
impostos convenientemente exigidos não sejam pagos.
21.° - Meng-hien-tsen (14) disse:
"Aqueles que nutrem corcéis e possuem carros de quatro
cavalos, não criam galinhas e porcos, que são o ganho dos
pobres. Uma família, que se serve de espelho na cerimônia
de seus ancestrais, não alimenta bois nem carneiros. Uma
família que possui cem carros, ou um príncipe, não mantém
ministros que não procurem aumentar impostos para
acumular tesouros. Se houvesse ministros que só
procurassem aumentar os impostos para armazenar
riquezas, seria melhor que os houvesse apenas para
esbanjar o tesouro do soberano".
Quer isto dizer que os homens que governam um reino não
devem fazer sua riqueza privada com os rendimentos
públicos; mas que eles devem fazer da justiça e equidade a
sua única riqueza.
22.° - Se aqueles que governam os Estados só pensam em
acumular riquezas para seu uso pessoal, atrairão sem
dúvida a si todos os homens depravados; estes homens os
farão crer que eles são ministros virtuosos, e esses homens
depravados governarão o reino. Mas a administração destes
ministros chamará para o governo os castigos divinos e a
vingança do povo. Quando os negócios públicos chegam a
este ponto, que ministros embora justos e virtuosos,
demoveriam semelhantes desgraças? O que é o mesmo que
dizer não deverem aqueles que governam, fazer fortuna á
custa das rendas publicas, mas fazerem da justiça e da
equidade sua única riqueza.
___________________________
(l) Khang-kao, Tai-kia e Ti-hen fazem hoje parte dos "anais"
(Chu-King), que segundo Regis e Abel Remusat contêm
livros que remontam a vinte e três séculos antes de Cristo.
(2) Wen-wang (1031 a 1127 antes de Cristo), fundador da
dinastia Tcheú. Dizem-no autor dos comentários sobre as
linhas quebradas de Fo Lu (Kua), que formam, com as
explicações de Confúcio, o texto do Y-king, primeiro dos
livros sagrados chineses.
(3) Tching-tchang (1782 a 1753, antes de Cristo), fundou a
dinastia de Tchang, que mais tarde se chamou Yin.
(4) Yao (2373 a 2258 antes de Cristo), imperador chinês,
animou o estudo da astronomia, reorganizou o Calendário e
criou a musica religiosa. Fez grandes trabalhos de hidráulica
e associou a seu trono,
Chum, simples lavrador.
(5) Em chinês Chi-King, linda coleção de poesias, com 111
cantos populares, coligidas pelos antigos imperadores e
revistas por Confúcio. É um dos maiores monumentos
poéticos da humanidade.
(6) Refere-se a Wen-Wang e Wu-wang.
(7) Célebre filosofo chinês, discípulo de Confúcio e um dos
seus comentadores. O seu verdadeiro nome era San.
(8) Rei cruel e devasso (1766) que foi derrotado por
Tchang, chefe de um dos pequenos estados, que se fez
aclamar imperador. É este o fundador da dinastia de
Tchang.
(9) Tcheù ou Cheù-Sin, o mais cruel e debochado tirano que
já subiu a um trono. Matou uma rapariga belíssima que um
pai desnaturado lhe entregara, porque resistiu a seus
brutais desejos, e, fazendo-a em pedaços, mandou-a servir
na mesa do monstro que a vendera. Vencido, numa revolta,
por Wu-sang, que se fez depois imperador, revestiu-se dos
trajos imperiais e fechou-se numa torre que incendiou com
todos os seus tesouros, morrendo em l134, antes de Cristo,
como se fora um outro Sardanapalo.
(10) Durou esta dinastia de 1783 a 1122 antes de Cristo.
(11) Hoje Kiang-Nan; produz óleo de Tung, perolas e
tecidos de seda.
(12) Celebre escritor e navegador chinês da antiguidade.
(13) Mu-Kung, principe do reino de Thsin em 650 antes de
Cristo.
(14) Não confundir com Meng-tsen, o filósofo. Meng-hien-
tsen foi um nobre de muito saber, natural de Lu.
Daxue, ou A !rande Ci&ncia (por A$ Doe'(in)
Pequeno Manual de introdução ao Confucionismo, contendo
as indicações básicas da doutrina. O texto do Daxue aparece
como um capítulo do Liji,mas não se sabe se foi incluído ou
extraído de lá.
.....................................
1. O que ensina a Grande Ciência é a exemplificar a virtude
ilustre, renovar o povo, descansar na suprema excelência.
2. Conhecido o ponto em que se deve descansar, fica
determinado o objetivo que se deseja e pode-se conseguir
uma tranqüila imperturbabilidade. A essa calma sucederá
um repouso tranqüilo. Nesse repouso pode haver prudente
deliberação e essa deliberação será sucedida pela obtenção
do fim desejado.
3. As coisas têm suas raízes e seus ramos. Os assuntos têm
fim e começo. Conhecer o que é primeiro e o que é último,
levará ao que é ensinado na Garnde Ciência.
4. Os antigos, que desejavam dar exemplo da virtude ilustre
em seu reino, começaram por bem ordenar seus próprios
Estados. Desejando ordenar bem seus Estados ordenaram
primeiro suas famílias. Desejando ordenar suas famílias,
cultivaram antes suas pessoas. Desejando cultivar suas
pessoas, primeiro corrigiram seus corações. Desejando
corrigir seus corações, primeiro trataram de ser sinceros em
seus pensamentos. Desejando ser sinceros em seus
pensamentos, primeiro ampliaram ao máximo o seu
conhecimento. Essa extensão do conhecimento baseia-se na
investigação das coisas.
5. Uma vez investigadas as coisas, seu conhecimento
tornou-se completo. Sendo completo seu conhecimento,
seus pensamentos foram sinceros. Sinceros que foram seus
pensamentos, seus corações corrigiram-se. Corrigidos os
corações, suas pessoas foram cultivadas. Cultivadas que
foram suas pessoas, ordenaram-se-lhes as famílias.
Ordenadas suas famílias, foram justamente ordenados seus
Estados. Justamente governados seus Estados, todo o reino
viveu tranqüilo e foi feliz.
6. Desde o Filho do Céu até a massa do povo, todos devem
considerar o cultivo da pessoa como a raiz de todas as
outras coisas.
7. Quando a raiz é descuidada, não pode o que dela nasce
ser bem ordenado. Nunca se deu o caso daquilo que tem
grande importância ter sido cuidado levianamente, e, ao
mesmo tempo, tenha sido objeto de grandes cuidados
aquilo que tem pouca importância.
8. Na proclamação a Tang, ficou dito: "Era capaz de tornar
ilustre sua virtude¨.
No Tai Chia, diz-se: "Contemplou e estudou os decretos
ilustres do Céu¨.
No Cânon do imperador (Yao), diz-se: "Era capaz de tornar
ilustre sua virtude iminente¨.
9. Na banheira de Tang estavam gravadas as seguintes
palavras: "se um dia puderes renovar-te a ti mesmo, fá-lo
todos os dias. Sim, que seja diária a renovação¨.
Na Proclamação Tang, diz-se: "Aguilhoar o novo povo¨.
No Livro de Poesia ficou dito: "Embora Zhao seja um Estado
antigo, era nova a lei que o regia¨.
Portanto, o homem superior põe em tudo os seus maiores
esforços.
2o capítulo.
1. No Livro de Poesia ficou dito: "No domínio real de mil li é
que descansa o povo¨.
2. No Livro de Poesia ficou dito: "O gorjeante pássaro
amarelo descansa num canto da colina¨. Disse o Mestre:
"Quando descansa, sabe onde descansar. Será possível que
o homem não seja igual a esse pássaro?¨.
3. No Livro de Poesia ficou dito: "O rei Wen era profundo.
Com que claro e incessante sentimento de reverência
contemplava seus lugares de descansos! Como soberano,
descansava na benevolência. Como ministro, descansava na
reverência. Como filho, descansava na piedade filial. Como
pai, descansava na bondade. Em suas relações com os
súditos, descansava na boa fé¨.
4. No Livro de Poesia ficou dito: "Olhai o curso tortuoso do
Qi, com os verdes bambuais luxuriosos. Eis o nosso príncipe
elegante e perfeito! Assim como nós cortamos e logo depois
limamos, assim como cinzelamos e logo polimos, assim
cultivou-se ele a si mesmo. Como é grave, como é digno!
Como é majestoso e distinto! Nosso príncipe elegante e
perfeito nunca pode ser esquecido! Esta expressão: "Assim
como cortamos e logo depois limamos¨ indica o trabalho do
aprendizado. "Assim como cinzelamos e logo polimos¨ indica
o de autodidatismo. "Como é grave, como é digno!¨ indica o
sentimento da prudente reverência. "Como é majestoso e
distinto!¨ indica um porte que inspira respeito. "Nosso
príncipe elegante e perfeito nunca pode ser esquecido!¨,
indica como, quando é completa a virtude e extrema a
excelência, o povo não pode esquece-las¨.
5. No Livro de Poesia ficou dito: "Ah! Os primeiros reis não
são esquecidos¨. Os príncipes subseqüentes julgam
meritório aquilo que eles julgaram meritório e amam o que
eles amaram. Os plebeus se comprazem naquilo que lhes
dava prazer e se beneficiam com suas benéficas medidas.
Eis por que os reis primitivos mesmo depois de terem
abandonado o mundo, não são esquecidos.
3o Capítulo.
1. Disse o Mestre: "Em ouvir litígios, sou como qualquer
outro corpo. O necessário é fazer que o povo não tenha
litígios¨. Assim, os que estão desprovidos de princípios
consideram impossível pronunciar seus discursos e um
grande temor se apoderará da inteligência dos homens; a
isso se chama conhecer a própria causa¨.
"A isto se chama conhecer pela raiz¨.
A isto se chama perfeição do conhecimento¨.
4o Capítulo.
1. O que se quer dizer com "tornar sinceros os
pensamentos¨ é que não se deve permitir o engano de si
mesmo, como quando odiamos um mau cheiro e como
quando amamos o que é belo. A isto se chama gozo de si
mesmo. Por conseguinte, o homem superior deve vigiar-se
a si mesmo, quando está sozinho.
Não há maldade em que não incorra um homem vil quando
vive isolado, mas ao ver um homem superior trata
instantaneamente de disfarçar-se, ocultando sua maldade e
mostrando o que nele há de bom. O outro o vê, como se
visse seu coração e suas paixões. Para que lhe serve o
disfarce? Este é um exemplo do adágio: "O que
verdadeiramente existe no intimo, manifestar-se-á
exteriormente.¨ Portanto, o homem superior deve vigiar-se
a si mesmo, quando está só.
2. O discípulo Cang disse: "O que vêem dez olhos, o que dez
mãos apontam, deve ser contemplado com reverência¨.
Os ricos enfeitam uma casa e a virtude enfeita a pessoa. A
inteligência desenvolve-se e o corpo descansa. Portanto, o
homem superior deve tornar sinceros seus pensamentos.
O Capítulo quinto foi perdido.
6o Capítulo.
1. O que se quer exprimir ao dizer que o "cultivo da pessoa
depende da correção do coração pode ser assim
exemplificado: Se um homem se acha sob a influência da
paixão, será incorreto em sua conduta. Será o mesmo se ele
se encontrar sob a influência do terror, ou sob a influência
de um olhar carinhoso, ou sob a desgraça e a angústia¨.
2. Quando a inteligência não se torna presente, olhamos e
não vemos, ouvimos e não escutamos, comemos e não
sabemos o gosto do que comemos.
3. Eis o que explica que o cultivo da pessoa depende da
correção da inteligência.
7o Capítulo.
1. O que se quer dizer com a "ordem da própria família,
depende do cultivo da própria pessoa¨ é isto: Os homens
são parciais quando sentem afeto e amor; parciais quando
desprezam e sentem aversão; parciais quando temem e
reverenciam; parciais quando sentem pena e compaixão;
parciais quando se mostram arrogantes e rudes. Por isso,
poucos homens existem no mundo que amem e ao mesmo
tempo conheçam as más qualidades do objeto de seu amor,
ou que odeiem e não obstante reconheçam as excelências
do objeto de seu ódio.
Daí ao dizer-se no ditado popular: "Um homem que não
conhece a maldade de seu filho, não conhece a riqueza de
sua nova colheita¨.
Eis o que significa o dizer que se a pessoa não é cultivada,
um homem não pode dar ordem à família.
8o Capítulo.
1. O que se quer dizer com "para governar justamente o
Estado é preciso primeiro dar ordem à família¨ é isto: não é
possível a ninguém ensinar os outros se não se pode ensinar
primeiro à própria família. Portanto, o governante, sem ir
além de sua família, completa as lições para o Estado. Há a
piedade filial, de que deve ser provido o soberano. Há a
submissão fraterna, com ela devem ser servidos os maiores
e os superiores. Há a bondade, com a qual deve ser tratada
a multidão.
2. Na proclamação a Tang, diz-se: "Age como se estivesses
cuidando de uma criança.¨ Se (uma mãe) está realmente
ansiosa, embora não possa acertar acerca dos desejos de
seus filhos não estará longe de agir desse modo. Nunca
houve jovem que aprendesse a criar uma criança de modo a
que logo pudesse casar-se.
Pelo exemplo amoroso de uma família todo um Estado se
torna amorável e por suas cortesias todo o Estado se torna
cortês, enquanto pela ambição e perversidade de um
homem todo o Estado pede ser levado à desordem rebelde.
Tal é a natureza de sua influência. Isso comprova o rifão:
"Os negócios podem arrumar por uma única sentença: um
reino pode ser assegurado por seu único homem¨.
3. Yao e Shun governam o reino com benevolência e o povo
seguiu-os. Chieh e Chau governaram o reino com violência,
e o povo não seguiu-os. As ordens destes eram contrárias
às práticas que amavam e por isso o povo não mais os
seguiu. A esse respeito, o governante deve estar
impregnado de boas qualidades para que possa exigi-las do
povo. Não deve possuir as más qualidades, e assim poderá
exigir que não as tenha o povo. Nunca houve homem que
sem ter em conta seu caráter e desejos em relação aos
demais fosse capaz de instrui-los eficazmente.
4. Assim vemos como o governo do Estado depende da
ordem na família.
5. No Livro de Poesia, diz-se: "Esse pessegueiro, tão
delicado, tão elegante! Que frondosa ramaria! Esta jovem
vai à casa do esposo. Quer ordenar devidamente a sua
casa. Que a casa seja devidamente ordenada e o povo do
Estado poderá ser ensinado¨.
6. No Livro de Poesia, diz-se: "Podem cumprir seus deveres
com seus irmãos maiores¨. Que o governante cumpra seus
deveres com seus irmãos maiores e menores e assim
poderá ensinar o povo do Estado.
No Livro de Poesia, diz-se: "Em seu comportamento não há
nada mal feito. Corrige todo o povo do Estado¨. Sim,
quando os governantes, como pai, filho e irmão, são um
modelo, o povo os imita.
Eis o que quer dizer "O governo do seu reino depende da
ordem que ele dá à família¨.
9o Capítulo.
1. O que se quer dizer com "fazer todo o reino pacífico e
feliz depende do governo de seu Estado¨ é isto: quando o
soberano procede com seus maiores como estes ancestrais
teriam procedido com o povo, torna-se filial: quando o
soberano procede bem com seus maiores, trata
compassivamente o jovem e o desvalido, o povo faz o
mesmo. Assim o governante possui um principio mediante o
qual, como um esquadro, pode medir sua conduta.
2. Aquilo que um homem despreza em seus superiores não
deve manifestar no trato com seus subordinados. Aquilo que
odeia nos que estão antes dele não deve antepor aos que
estão depois dele. Aquilo que não quer receber com a direita
não deve dar com a esquerda. Aquilo que não quer receber
com a esquerda, não deve dar com a direita. Isso é o que se
chama "o princípio com o qual, como com um esquadro,
pode-se medir a própria conduta¨.
3. No Livro de Poesia diz-se: "Quão dignos de regozijo são
esses príncipes pais do povo¨ Quando um príncipe ama
aquilo que o povo ama e odeia o que o povo odeia, então é
o que se chama "pai do povo¨.
No Livro de Poesia diz-se: "Alta é a colina do sul, com suas
rochas escarpadas! Grandemente ilustres sois, ó grande
mestre Yin, e todos o respeitem¨. Os governantes não
devem descuidar de ser prudentes. Se se desviam para um
baixo egoísmo, serão uma desgraça para o reino.
4. No Livro de Poesia diz-se: "Antes de terem perdido seus
corações os soberanos da dinastia de Yin, podiam
apresentar-se a Deus. Tomais o exemplo da casa de Yin. O
grande decreto não se cumpre facilmente¨. Isso mostra
como, ganhando o povo, ganha-se o reino, enquanto
perdendo o povo perde-se o reino.
5. O governante deve preocupar-se, antes de tudo, com sua
própria virtude. A virtude possuída dar-lhe-á o povo. O povo
possuído dar-lhe-á o território. O território dar-lhe-á
riqueza. A riqueza possuída dar-lhe-á recursos para suas
despesas.
6. A virtude é a base. A riqueza, o resultado.
Quando se faz da base o objetivo secundário, e do resultado
objetivo primeiro, não faz mais do que disputar com o povo
e lhe ensinará a rapina.
Daí que a acumulação da riqueza seja o meio de dispersar o
povo e o deixar que a riqueza seja repartida seja o modo de
reunir o povo.
7. E daí que se as palavras do governante são contrárias ao
que é justo, a ele sucederá o mesmo, e a riqueza adquirida
por meios impróprios, por esses mesmos meios
desaparecerá.
Na Proclamação a Tang ficou dito: "certamente o mandato
não pode descansar sempre em nós¨; isto é, a bondade
obtém o mandato e a falta de bondade o perde.
No Livro de Chu se disse: "O reino de Chu não considera
isso valioso. Em compensação, valoriza seus homens bons¨.
8. Fan, o tio do duque Wen, disse: Nossos fugitivos não
consideram isso precioso. O que consideram precioso é o
afeto devido a seus pais¨.
9. Na proclamação do duque de Qin se disse: tenha eu um
só ministro, simples e sincero, que não pretenda outras
habilidades, mas com clara e elevada inteligência, possuído
de generosidade, considere os talentos dos demais como se
ele mesmo os possuísse, e quando encontre homens cultos
e perspicazes os ame de coração mais do que exprime sua
boca e se mostre capaz de apoiá-los e utilizá-los,
semelhante ministro será capaz de defender meus filhos e
meus netos e as pessoas de cabelos negros, e também se
poderá esperar dele que beneficie igualmente o reino. Mas
se o seu caráter fosse tal que quando encontra homens
hábeis, sente-se despeitado e os odeia e quando encontra
homens cultos e perspicazes a eles se opõem e não permite
que progridam, mostrando-se realmente incapaz de apoiá-
los; semelhante ministro não será capaz de proteger meus
filhos nem meus netos nem as pessoas de cabelos negros. E
não será também perigoso para o Estado?
10. O homem verdadeiramente virtuoso é o único que pode
despedir esse homem e desterrá-lo e arrojando-o entre as
tribos bárbaras dos arredores, decidido a não viver mais
tempo com ele no reino do Meio. Isso está de acordo com a
máxima: "O homem verdadeiramente virtuoso é o único que
pode amar e odiar os outros¨.
Ver homens dignos e não ser capaz de elevá-los ao
ministério. Elevá-los ao ministério, mas não fazê-lo
rapidamente, isso é ser desrespeitoso. Ver homens maus e
não ser capaz de destituí-los. Destituí-los, mas não
imediatamente, isso é debilidade.
11. Amar aquilo que os homens odeiam e odiar aquilo que
os homens amam, isso é ultrajar os sentimentos naturais do
homem. A quem age desse modo não podem sobreviver
senão calamidades.
Vemos, assim, que o soberano tem de realizar uma grande
obra. Deve mostrar completa dedicação e sinceridade para
alcançá-la e não a alcançará por meio de orgulho ou de luxo
desmedido.
12. Também existe um grande sistema para a produção da
riqueza. Os produtores devem ser muitos e poucos os
consumidores. Deve haver atividade na produção e
economia nos gastos. Assim a riqueza será sempre
suficiente.
13. O governante virtuoso, por meio de sua riqueza, ainda
mais se distingue. O governante vicioso acumula a riqueza à
custa de sua vida.
14. Nunca se deu o caso de um soberano amar a
benevolência e o povo não amar a retidão. Nunca se deu o
caso de o povo amar a retidão sem que os negócios do
soberano tenham alcançado êxito. E nunca se deu o caso de
a riqueza de semelhante Estado, reunida, em tesourarias e
arsenais, não continuar de posse do soberano.
15. O funcionário Mang Xien disse: "Aquele que tem
cavalos, e uma carruagem, não dão atenção às galinhas e
aos porcos. A família que tem provisões de gelo não cria
gado nem ovelhas. Assim a casa que possui uma centena de
carroças não terá um ministro que cuide dos impostos que
pode obter do povo. Melhor do que ter semelhante ministro
seria, para essa casa, ter alguém que lhe roubasse suas
rendas¨. Isto está de acordo com a máxima: "Num Estado,
o lucro pecuniário não deve ser considerado prosperidade,
pois que a prosperidade deve ser encontrada na sua
retidão¨.
16. Quando aquele que dirige um Estado ou uma família faz
de suas rendas principal preocupação, deve estar sob a
influência de algum homem mesquinho e vil. Pode-se
considerar bem esse homem, mas quando semelhante
criatura é empregada na administração de um Estado ou de
uma família, cairão sobre eles, ao mesmo tempo, as
calamidades do Céu e a maldição dos homens e ainda que
um homem bom o substitua, não será capaz de remediar o
mal que causou. Isto constitui outro exemplo da máxima:
"Num Estado, o lucro pecuniário não deve ser considerado
prosperidade, pois que a sua prosperidade deve ser
encontrada na sua retidão¨.
)*on+ ,on+ ou A Doutrina do -eio
Tratado que teria sido compilado por Zisi, neto de Confúcio
e Mestre de Mêncio, acerca da questão do caminho central
na doutrina dos letrados e seus aspectos filosóficos e
sociais.
...............................
I. A Harmonia Central.
(I) O que é dado por Deus é o que chamamos natureza
humana. Cumprir a lei de nossa natureza humana é o que
chamamos caminho. O cultivo do caminho é o que
chamamos instrução.
O Caminho é uma lei a que não podemos, por um só
instante que seja em nossa existência, fugir. Se
pudéssemos dele escapar, não seria mais o Caminho. Por
conseqüência, eis porque o homem moral (ou homem
superior) espreita diligentemente o que seus olhos não
podem ver, receia e se atemoriza com o que seus ouvidos
não podem ouvir.
Nada há de mais evidente do que o que não pode ser visto
com os olhos e nada de mais palpável do que o que não
pode ser percebido pelos sentidos. Por conseguinte, o
homem moral espreita diligentemente seus pensamentos
secretos.
Quando as paixões, tais como a alegria, a cólera, o pesar e
o prazer ainda não acordaram, temos nosso eu "central" ou
ser moral (chung). Quando essas paixões acordam e cada
qual, e todas, atingem uma certa medida e grau, temos a
"harmonia", ou ordem moral (ho). Nosso eu central, ou ser
moral, é a grande base da existência, e a "harmonia", ou
ordem moral, é a grande base da existência, é a lei
universal no mundo.
Quando nosso verdadeiro eu central e a harmonia forem
atingidos, o universo então torna-se um cosmo e todas as
coisas chegam a seu completo desenvolvimento e grandeza.
II. O Meio Dourado.
(II) Confúcio observou - "A vida do homem moral é uma
exemplificação da ordem moral universal (shung - yung,
comumente traduzida como "o Meio") (1). A vida da pessoa
vulgar, por outro lado, é uma contradição da ordem moral
universal.
A vida do homem moral é uma exemplificação da ordem
universal, porque ele é uma pessoa moral que cultiva
incessantemente o seu verdadeiro eu ou ser moral. A vida
da pessoa vulgar é uma contradição da ordem universal,
porque ele é uma pessoa vulgar que, em seu coração, não
tem consideração, ou receio, pela lei moral.
(III) Confúcio disse - "Achar o fio central para nosso ser
moral, fio que nos una à ordem universal, eis na verdade o
mais alto alcance humano. Durante muito tempo o povo
raramente se mostrou capaz disso".
(IV) Confúcio observou - "Sei agora por que a vida moral
não é praticada. Os prudentes confundem a lei moral com
algo mais alto do que é realmente; e os ignorantes não
sabem suficientemente bem o que a lei moral é. Sei agora
por que a lei moral não é compreendida. As naturezas
nobres desejam viver alto demais, bem acima de seu eu
moral, comum, e as naturezas ignóbeis não vivem
suficientemente alto, isto é, não à altura de seu verdadeiro
eu moral ordinário. Não existe ninguém que não coma e não
beba. Porém poucos são os que conhecem verdadeiramente
o sabor".
(V) Confúcio observou - "Não há no mundo, realmente, são
poucos os que seguem o caminho".
(VII) Confúcio observou - "Todos os homens dizem "Sou
esperto"; porém quando arrastados para diante e presos
numa rede, armadilha, ou cilada, não há um só que saiba
como encontrar um modo de fugir. Todos os homens dizem
"Sou sábio"; porém, na procura do verdadeiro fio central e
do equilíbrio em seu moral (isto é, seu eu normal, ordinário,
verdadeiro), não são capazes de conservá-lo por um mês
inteiro".
(VIII) Observou Confúcio falando de seu discípulo favorito:
Yen Huei - "Huei foi um homem que durante toda sua vida
procurou o fio central de seu ser moral, e quando lança mão
de uma coisa que seja boa, segura-a com toda sua força e
jamais a perde".
(IX) Confúcio observou - "Um homem pode ser capaz de pôr
um país em ordem, ser capaz de tratar com desprezo as
honras e os proveitos do cargo, ser capaz de pisar sobre
armas nuas e descobertas; com tudo isso, ele ainda não
será capaz de encontrar o fio central de seu ser moral".
(X) Tselu perguntou em que consistia a força de caráter.
Confúcio disse - "Refere-se à força de caráter do povo do
norte, ou se refere à força de caráter do povo do sul; ou
quer falar da força de caráter dos de seu tipo? Ser paciente
e gentil, pronto a ensinar, não pagar o mal com o mal; eis a
força de caráter do povo das regiões do sul. É o lugar ideal
para o homem moral. Viver debaixo das armas e encontrar
a morte sem lamentos, eis a força de caráter do povo da
região norte. É o ideal dos homens bravos de seu tipo.
Portanto, o homem com a verdadeira fortaleza de caráter é
o que é gentil, mas firme. Como é forte em sua força!
Quando há ordem moral social no país, se ele entra na vida
pública não deixa de ser aquilo que era quando dele estava
separado. Quando não há ordem moral social no país, ele
fica ocupado até a morte. Como é insensível em sua força"!
(XI) Confúcio observou - "Existem homens que procuram o
obscuro e o estranho e vivem vida singular afim de poderem
deixar um nome para a posteridade". Eis uma coisa que eu
jamais faria. Há, outrossim, bons homens que tentam viver
em conformidade com a lei moral, mas que, quando em
meio caminho, abandonam tudo. Eu nunca poderia
abandonar tudo. Finalmente existem homens
verdadeiramente morais que, inconscientemente, vivem
uma vida em completa harmonia com a ordem moral
universal e que vivem desconhecidos para o mundo e não
são notados pelos homens sem nenhum pesar. São apenas
os homens de natureza divina e sagrada que são capazes de
tal coisa".
III.Lei moral por toda parte.
(XII) A lei moral deve ser encontrada por toda parte e, no
entanto, ela é um segredo.
A inteligência simples do homem comum e da mulher
comum pode compreender algo da lei moral; porém em
seus mais altos alcances há coisas que mesmo os mais
sábios e santos homens não podem compreender. As
naturezas ignóbeis dos homens comuns e das mulheres do
povo podem ser capazes de suportar a lei moral; mas em
seus mais altos alcances até os mais sábios e mais santos
dos homens não conseguem viver para ela.
Grande como é o Universo, o homem, contudo, não se
mostra sempre satisfeito com ele. Pois não há nada tão
grande que a mente dos homens morais não possa conceber
ainda maior. Não há nada tão pequeno, que a mente do
homem moral não possa conceber ainda menor.
Diz o "Livro dos Cânticos":
"O falcão voa alto nos céus e os peixes mergulham nas
profundidades".
Isto é, não há lugar no mais alto dos céus, nem na mais
profunda das águas, onde a lei moral não possa ser
encontrada. O homem moral encontra o começo da lei moral
nas relações entre o homem e a mulher; no mais o término
está nas vastidões do universo.
(XVI) Confúcio observou - "O poder das forças espirituais no
Universo - como se faz sentir por toda a parte! invisível aos
olhos, e impalpável aos sentidos, é inerente a todas as
coisas e nada escapa à sua influência".
É fato que existem essas forças que fazem com que os
homens de todos os países jejuem e se purifiquem e com
solenidade de roupas instituam serviços de sacrifício e de
adoração religiosa. Tal como o ímpeto das águas poderosas,
a presença dos Poderes invisíveis se faz sentir; algumas
vezes sobre nós, outras ao redor de nós.
Diz o "Livro dos Cânticos":
"A presença do Espírito: Não pode ser imaginada sem
fundamento, como então pode ser ignorada!"
Tal é a evidência das coisas invisíveis que é impossível
duvidar da natureza espiritual do homem.
IV. O Padrão Humanístico.
(XIII) Confúcio disse - "A verdade não se separa da
natureza humana. Se o que é considerado verdade se
separar da natureza humana, não pode ser considerado
verdade. Diz o "Livro dos Cânticos":
"Ao moldar o cabo de um machado, o modelo não está
longe".
Assim, quando pegamos o cabo de um machado para
moldarmos um outro cabo de machado e olhamos de um
para o outro, alguns ainda pensam que o modelo está
longe. Por conseguinte, o homem moral ao tratar dos
homens apela para a natureza humana comum e muda seu
modo de viver e nada mais.
"Quando um homem tem em si os princípios de consciência
e de reciprocidade, não está longe da lei moral". Não faça
aos outros o que não quer que lhe façam.
"Existem quatro coisas na vida moral de um homem,
nenhuma das quais eu fui capaz de manter em minha vida.
Servir meu pai como esperaria que meu filho me servisse;
isso não fui eu capaz de fazer. Servir meu soberano como
esperaria que um ministro me servisse; isto não fui capaz
de fazer. Agir para como meus irmãos mais velhos como
esperaria que meu irmão mais novo agisse para comigo;
isso não fui capaz de fazer. Ser o primeiro a comportar-me
para com os amigos como esperaria que eles se
comportassem para comigo; isto não fui capaz de fazer.
"No desempenho dos deveres comuns da vida e no cuidado
da conversação ordinária, sempre que houver um erro
jamais deixe de lutar para melhorá-lo e quando há muito o
que dizer, sempre diga menos do que é necessário. Não é
exatamente essa pureza e falta de simulação o que
caracteriza o homem moral?"
(XV) A vida moral do homem pode ser comparada a uma
viagem a um lugar distante: precisa-se partir do ponto mais
próximo. Também pode ser comparada à ascensão a
determinada altura: é preciso começar do degrau mais
baixo. O "Livro dos Cânticos" diz:
"Quando as Esposas e os filhos, juntamente com seus
senhores fazem um só, É tal como a harpa e o alaúde em
uníssono. Quando os irmãos vivem em paz e concórdia,
os sons harmoniosos jamais cessam.
A lâmpada da união feliz ilumina o lar.
E dias promissores se seguirão quando vierem os filhos".
Confúcio, comentando o trecho acima, observou: "Em tal
estado de coisas que maior satisfação podem os pais ter?".
(XIV) O homem moral conforma-se com as circunstâncias
de sua vida; nada deseja que esteja fora de sua posição.
Encontrando-se em posição de riqueza e honrarias, vive
como deve viver quem está numa posição de riquezas e
honrarias. Encontrando-se na pobreza e em circunstâncias
de humildade, vive como deve viver o que se encontra em
condições de humildade e pobreza. Encontrando-se em
países sem civilização, vive como deve viver quem habita
países incivilizados. Encontrando-se em perigo e
dificuldades, age de acordo com o que é preciso a um
homem sob tais circunstâncias. Numa palavra, o homem
moral não pode encontrar-se em nenhuma posição na qual
não seja dono de si mesmo.
Em alta posição, não abusa do poder sobre seus
subordinados. Em posição subordinada, não adula os
superiores. Põe em ordem sua própria conduta pessoal e
nada pesquisa na dos outros; daí não tem nenhuma queixa
a fazer. Não maldiz de Deus nem se lamenta contra os
homens.
Assim é que o homem moral vive o teor de sua vida
calmamente esperando pelo chamado de Deus, ao passo
que o vulgar envereda por caminhos perigosos esperando
incertas mudanças de sorte.
Confúcio observou - "Na prática do arco e flecha temos algo
que se parece com o princípio na vida de um homem moral.
Quando o arqueiro não atinge o centro do alvo, volta-se e
procura a razão de ter falhado dentro de si mesmo".
V- Certos Modelos.
(VI) Confúcio observou disse: como era grande a sabedoria
e a argúcia de Shun! Shun tinha uma curiosidade natural de
espírito e gostava de fazer perguntas nas conversas
comuns. Ignorava as más palavras e aumentava o
conhecimento das boas. Tocando os dois extremos das
coisas, tomava a média entre elas e aplicava no que dizia
respeito ao povo. Era essa a característica do grande
intelecto de Shun".
(XVII) Confúcio observou - "O Imperador Shun podia ser
talvez considerado um homem piedoso no mais alto sentido
da palavra. Era um santo quanto às qualidades morais. Em
dignidade de cargo era o governante do império. Quanto à
riqueza, tudo o que o largo mundo continha era seu. Após
sua morte fizeram sacrifícios a seu espírito no templo dos
ancestrais e seus filhos e netos observaram esses sacrifícios
durante longas gerações".
"Assim é que aquele que possui grandes qualidades morais
certamente fará tudo para corresponder à alta posição que
ocupa, para corresponder à grande prosperidade que
desfruta, para corresponder ao grande nome que tem, para
corresponder à idade avançada".
"Pois Deus ao dar vida a todas as coisas criadas foi
seguramente liberal para elas segundo suas qualidades. Daí
a árvore que é cheia de vida. Ele a nutre e sustém ao passo
que quando está em vésperas de cair, ele a corta e destrói.
Diz o "Livro dos Cânticos":
"Aquele Príncipe grande e nobre dava
a todas as suas ações o toque de justiça;
Cobria com o espírito de sua sabedoria
O camponês e o nobre; a plebe e a corte.
Por isso o Céu, que coroa os soberanos, restaurou
para eles todas as honras sem fim que tinham conhecido:
Pois o Céu guarda e mantém para sempre
O Mandato concedido para subir ao trono.
É, portanto, verdade que aquele que possui extraordinárias
qualidades morais certamente receberá o divino mandato
para o trono imperial.
(XVIII) Confúcio observou - Talvez o homem que tenha
gozado a mais perfeita felicidade tenha sido o Imperador
Wen. Teve por pai um homem dos mais notáveis, o
Imperador Chi, e por filho um homem também notável, o
Imperador Wu. Seu pai lançou os fundamentos de sua Casa
e o filho manteve-a. O Imperador Wu, continuando a grande
obra de seu ancestral, o grande Imperador, seu avô Chi e
seu pai o Imperador Wen, teve apenas que afivelar sua
armadura e o Império imediatamente caiu em seu poder.
Quanto à dignidade de cargo, ele foi o governante do
Império; em riqueza, tudo o que esse mundo extenso
continha, pertencia-lhe. Após sua morte seu espírito foi
homenageado no templo dos ancestrais e seus filhos e netos
observaram essas homenagens durante longas gerações.
O Imperador Wu recebeu o mandato dos Céus para
governar, já velho. Seu irmão, o Duque Chou, obrigou-se a
completar a fundação da Casa Imperial na altura das
qualidades morais dos Imperadores Wen e Wu. Elevou o
título imperial à altura do Grande Imperador (avô de Wen) e
do Imperador Chi (pai de Wen). Homenageava todos os
passados Duques da Casa que tinham reinado fazendo-lhes
sacrifícios com honras imperiais.
"Essa regra é agora observada universalmente desde os
príncipes reinantes e nobres até os gentis-homens e povo.
No caso do pai ser um nobre e o filho um simples gentil-
homem, o pai quando morre, é sepultado com as honras de
um nobre, porém recebe as homenagens de sacrifício como
um simples gentil-homem. No caso do pai ser um simples
gentil-homem e o filho ser um nobre, o pai, quando morre,
é sepultado como um simples gentil-homem, mas recebe as
homenagens de sacrifício com as honras de um nobre. A
regra de um ano de luto para os parentes é atribuída para
os que têm titulo nobre, todavia a regra de luto de três anos
pelos pais é atribuída para todos até o Imperador. No luto
pelos pais há apenas uma regra, e não há distinção entre o
nobre e o plebeu" (2)
(XIX) Confúcio disse: "O Imperador Wu e seu irmão, o
Duque Chou, eram, na verdade, homens eminentemente
piedosos. Ora, a verdadeira piedade filial consiste em levar
a cabo com sucesso a obra inacabada de nossos pais e
transmitir sua execução à posteridade".
"Na primavera e no outono eles reparam e põem em ordem
o templo dos ancestrais, arranjam os vasos de sacrifício,
exibem as insígnias e os vínculos de bens móveis da família,
e apresentam as oferendas próprias da estação".
"O princípio na ordem da precedência nas cerimônias de
adoração no templo dos ancestrais é, em primeiro lugar, de
colocar os membros da família segundo seu parentesco. Os
títulos são considerados em segundo lugar, a fim de haver o
reconhecimento do princípio de distinção social. Os serviços
a render em seguida são considerados como um
reconhecimento da distinção em dignidade moral. No
banquete geral, os que ficam abaixo tomam a precedência
dos que ficam acima em brindar os presentes a fim de
mostrar que a consideração é feita aos mais medíocres. Em
conclusão, é oferecido um banquete em separado para os
mais velhos, a fim de reconhecer o princípio de ancianidade
segundo a idade".
"Reunir-se nos mesmos lugares em que nossos pais se
reuniram antes de nós; cumprir as mesmas cerimônias que
eles cumpriram antes de nós; tocar a mesma música que
tocaram antes de nós; respeitar aqueles a quem eles
prestaram honras; amar os que lhe foram caros - de fato,
servir aqueles que estão agora mortos como se vivos
fossem, e os que estão separados como se ainda conosco
estivessem: eis o mais alto alcance da verdadeira piedade
filial".
"O cumprimento dos sacrifícios ao Céu e à Terra é traduzido
pelo serviço de Deus. O cumprimento das cerimônias no
templo dos ancestrais é traduzido pela adoração dos
ancestrais. Se alguém apenas compreendesse o significado
dos sacrifícios ao Céu e à Terra, e a significação dos serviços
na adoração aos ancestrais no verão e no outono, seria tão
fácil governar uma nação como apontar um dedo para a
palma da mão.
VI. Ética e Política.
(XX) O Duque Ai (governador de Lu, onde nasceu Confúcio),
quis saber o que constituía um bom governo.
Confúcio respondeu - "Os princípios de bom governo dos
Imperadores Wen e Wu estão abundantemente ilustrados
nas ripas de bambu ("lembranças conservadas")". Quando
os homens ali estão, o bom governo florirá, porém quando
os homens se forem, o bom governo decai e se extingue.
Com os homens justos, o desenvolvimento de um bom
governo é tão rápido como o crescimento da vegetação em
terreno apropriado. Na verdade, o bom governo é como
uma planta de crescimento rápido. A conduta de governo,
portanto, depende dos homens. Os justos são obtidos pelo
caráter pessoal do governante. Para cultivar seu caráter
pessoal, o governante deve usar a lei moral (tao). Para
cultivar a lei moral, o governante deve usar o senso moral
(fim, ou princípio da verdadeira virilidade). "Uma boa
administração é como um rio ornado de juncos, que nascem
naturalmente no terreno que lhes é propício".
"O senso moral é o atributo característico do homem. Sentir
afeição natural por aqueles que estão proximamente
aparentados conosco é a mais alta expressão de senso
moral. O sentimento de justiça (yi ou propriedade) é o
reconhecimento do que é direito e apropriado. Honrar os
que são mais dignos do que nós mesmos é a mais alta
expressão do senso de justiça. Os graus relativos de afeição
natural que devemos sentir pelos que estão mais de perto
ligados a nós por parentesco e os graus relativos de honra
que devemos mostrar para os que são mais dignos do que
nós mesmos: dão razão às formas e distinções na vida
social (li, ou princípios de ordem social). Pois, a menos que
as desigualdades sociais tenham uma base verdadeira e
moral (ou a menos que os que estejam sendo governados
sintam qual o seu lugar próprio com respeito aos que os
governam), o governo de um povo é uma coisa impossível.
"Portanto é necessário para um homem, da classe dos que
governam, que estabeleça as regras para sua conduta
pessoal e seu caráter. Ao considerar como deve regular sua
conduta pessoal e seu caráter, é preciso para ele que
cumpra os deveres para com os que estão mais
proximamente aparentados com ele. Ao considerar como
cumprir seus deveres para com os que estão mais
proximamente ligados a ele por parentesco é preciso que
compreenda a natureza e a organização da sociedade
humana. Ao considerar a natureza e a organização da
sociedade humana é necessário para ele que compreenda as
leis de Deus".
"Os deveres de obrigação universal são cinco, e as
qualidades morais pelas quais eles são sustentados são três.
Os deveres são os compreendidos entre o governante e o
governado, entre pai e filho, entre marido e mulher, entre o
irmão mais velho e o mais novo, e os que decorrem entre os
amigos. São esses os cinco deveres de obrigação universal.
Sabedoria, compaixão e coragem (3) - são essas as três
qualidades morais do homem, universalmente reconhecidas.
Não importa de que modo os homens põem em exercício
essas qualidades morais, o resultado é um único e o
mesmo".
"Alguns homens nascem com o conhecimento dessas
qualidades morais; outros o adquirem como resultado da
educação; outros ainda o obtêm como resultado de árdua
experiência. Porém quando esse conhecimento é adquirido,
ele vai dar numa única e mesma coisa. Alguns exercem
essas qualidades morais natural e facilmente; outros porque
acham vantajoso exercê-las; outros com esforço e
dificuldade. Mas quando chegam ao fim, vão dar uma única
e mesma coisa".
Continuou Confúcio, dizendo: "O amor ao saber tem
afinidade com a sabedoria. Esfalfante atenção à conduta
raia à compaixão. Sensibilidade à vergonha é parente
próximo da coragem".
"Quando um homem compreende a natureza e o uso dessas
três qualidades morais, compreenderá então como deve pôr
em ordem sua conduta pessoal e seu caráter. Quando um
homem compreende como pôr em ordem sua conduta
pessoal e seu caráter, compreenderá como governar os
homens. Quando um homem compreende como governar os
homens, então compreenderá como deve governar as
nações e os impérios.
"Para cada um dos que foram chamados para o governo de
nações e impérios, existem nove direções cardeais que
devem ser observadas":
1. Cultivo da conduta pessoal.
2. Honrar os sábios.
3. Afeição e cumprimento do dever para com os que lhe são
aparentados.
4. Mostrar respeito pelos altos ministros de estado.
5. Identificar-se com os interesses e o bem-estar de todo o
corpo de empregados públicos.
6. Mostrar-se como um pai para o povo.
7. Encorajar a introdução de todas as artes úteis.
8. Mostrar bondade para os estrangeiros de países
distantes.
9. Tomar interesse no bem-estar dos príncipes do império.
"Quando um governante presta atenção ao cultivo de sua
conduta pessoal, haverá respeito pela lei moral. Quando o
governante honra os homens dignos, não será enganado
(pelos oficiais astuciosos). Quando o governante tem afeição
pelos parentes, não haverá falta de afeto entre os membros
de sua família. Quando o governante mostra respeito aos
altos ministros de estado, não cometerá erro. Quando o
governante se identifica com os interesses e o bem-estar do
corpo de servidores públicos, haverá um forte espírito de
lealdade entre os nobres do país. Quando o governante se
torna um pai para o povo, a massa de povo esforçar-se-á
pelo bem do estado. Quando o governante encoraja a
introdução de todas as artes úteis, haverá suficiente riqueza
e renda no país. Quando o governante mostra-se bondoso
para com os estrangeiros de terras distantes, o povo de
todas as quatro partes do mundo correrá em bandos para o
país. Quando o governante toma interesse pelas condições e
bem-estar dos príncipes do império, inspirará temor e
respeito por sua autoridade através o mundo inteiro".
"Atendendo à limpeza e à pureza de sua pessoa e à
propriedade e dignidade de suas vestes, e em cada palavra
e ato nada permitindo que seja contrário ao bom - gosto e à
decência; eis como o governante cultiva sua conduta
pessoal. Banindo todos os aduladores e conservando-se
longe da sociedade das mulheres, tendo em baixa estima a
posse dos bens terrestres, porém apreciando as qualidades
morais nos homens - eis como o governante encoraja os
homens dignos. Elevando-os a altos lugares de honra e
dando-lhes amplos auxílios para sua manutenção;
partilhando e simpatizando com seus gostos e opiniões - eis
como o governante inspira amor por sua pessoa entre os
membros de sua família. Estendendo os poderes de suas
funções e permitindo-lhes o arbítrio no emprego de seus
subordinados - eis como o governante dá coragem aos altos
ministros de estado. Portando-se lealmente e com
pontualidade em todos os tratos que com eles faz e
permitindo-lhes uma regra de pagamento liberal - eis como
o governante dá coragem aos homens no serviço público.
Limitando estritamente o tempo de seu serviço e tornando
os impostos os mais leves possíveis - eis como o governante
encoraja a massa do povo. Ordenando uma inspeção diária
e um exame mensal e premiando cada um de acordo com o
grau de sua habilidade - eis como o governante encoraja a
massa do povo. Ordenando inspeção diária e exame mensal
e recompensando cada qual segundo o grau de sua perícia -
eis como o governante encoraja a classe dos artífices.
Recebendo-os bem quando chegam e dando-lhes proteção
quando vão louvando o que há de bom neles e levando em
conta sua ignorância - eis como o governante demonstra
bondade para com os estrangeiros dos países distantes.
Restaurando linhas de sucessão partidas e revivendo
estados subjugados, derrubando a anarquia e a desordem
onde quer que sejam encontradas e defendendo os fracos
contra os fortes, fixando tempos marcados para sua
permanência e a permanência de seus mensageiros na
corte, enchendo-os de presentes quando partem, posto que
extorquindo pouco deles, a modo de contribuição, quando
chegam - eis como o governante se interessa pelo bem-
estar dos príncipes do império".
"Para cada um dos que são chamados para o governo das
nações e dos impérios, existem nove direções cardeais a
serem atendidas; e há apenas um único modo de levá-las a
cabo".
"Em todos os assuntos, o sucesso depende do preparo; sem
preparo haverá sempre derrocada. Quando determinamos
previamente o que deve ser dito, não haverá dificuldade em
sustentá-lo. Quando uma linha de conduta é previamente
determinada não haverá ocasião para vexame. Quando os
princípios gerais são determinados previamente, não haverá
perplexidade em saber o que fazer".
VII. Ser o Próprio Eu.
"Se as pessoas de posição inferior não tivessem confiança
nos que estão acima delas, seria impossível governar o
povo. Há apenas um meio de ganhar a confiança para a
autoridade de alguém: se um homem não tem a confiança
de seus amigos, não terá confiança nos que estão acima
dele. Há apenas um meio de obter a confiança dos amigos:
se um homem não tem afeição para com seus pais, não terá
a confiança de seus amigos. Há apenas um meio de ser
afeiçoado a seus pais: se um homem, olhando o fundo do
coração, não for sincero para consigo mesmo, não será
afeiçoado a seus pais. Há apenas um meio para um homem
ser sincero para consigo mesmo. Se não souber o que é
bom, um homem não poderá ser sincero para consigo
mesmo".
"Ser sincero para consigo mesmo é uma lei de Deus. Tentar
ser sincero para consigo mesmo é a lei do homem (4)".
Aquele que é naturalmente sincero para consigo mesmo é o
que, sem esforço, acha-se sobre o que é direito, e sem
pensar compreende o que ele quer saber, é aquele cuja vida
decorre fácil e naturalmente em harmonia com a lei moral.
Tal homem é o que podemos alcunhar de santo ou homem
de natureza divina. Aquele que aprende a ser sincero
consigo mesmo é o que aprende a conhecer o que é bom e
se aferra a ele.
"A fim de aprender a ter um verdadeiro eu é preciso obter
um conhecimento largo e profundo do que tem sido dito e
feito no mundo; indagar sobre isso com espírito de critica;
ponderar cuidadosamente; sondar claramente; e levá-lo
avante logo depois".
"Não importa o que você aprender; porém, assim que
aprender alguma coisa, não o abandone enquanto não o
souber bem. Não importa o que motiva suas indagações,
porém, quando as fizer sobre alguma coisa, jamais deverá
abandoná-la enquanto não a compreender perfeitamente.
Não importa o que você tenta meditar, porém, desde que
você tenta meditar sobre uma coisa não deve deixar de
fazê-lo enquanto não chegar à conclusão desejada. Não
importa o que você tenta sondar, porém uma vez que você
tentou sondar uma coisa, não deve abandoná-la enquanto
não a tiver sondado clara e distintamente. Não importa o
que você tenta levar a cabo, porém, desde que tentou levar
a cabo uma coisa não deve abandoná-la enquanto não a
tiver levado a cabo perfeitamente bem. Se outro homem
obtiver sucesso por meio de um só esforço, você lançará
mão de centena de esforços. Se um outro homem for bem
sucedido com dez esforços, você usará mil".
"Proceda um homem realmente dessa maneira e, embora
tolo, ele se tornará inteligente na certa: embora fraco, ficará
forte, seguramente".
(XXI) Chegar à compreensão de ser o próprio eu é chamado
natureza, e chegar a ser o próprio eu pela compreensão,
isto é chamado instrução. Aquele que é seu verdadeiro eu,
tem por esse meio compreensão e aquele que tem
compreensão encontra, por esse meio, seu verdadeiro eu
(5).
VIII. Os que têm um Eu absoluto e verdadeiro
(XXII) Somente os que têm um eu absoluto e verdadeiro no
mundo podem preencher sua própria natureza; somente os
que podem preencher sua própria natureza podem
preencher a natureza dos outros; apenas os que podem
preencher a natureza dos outros podem preencher a
natureza das coisas; os que preenchem a natureza das
coisas são dignos de ajudar a Mãe Natureza no
desenvolvimento e no sustento da vida, são iguais ao Céu e
a Terra.
(XXIII) Por ordem, os que vêm em segundo lugar, são os
que são capazes de atingir o domínio de um determinado
ramo de estudo. Por meio de tais estudos, eles estão aptos,
outrossim, a aprender a verdade. A realização do verdadeiro
eu obriga à expressão; a expressão se torna evidência; a
evidência se torna claridade ou luminosidade de
conhecimento; claridade ou luminosidade de conhecimento
age; o conhecimento ativo se torna poder e o poder se
transforma em influência penetrante. Somente os que têm
seu eu verdadeiro e absoluto neste mundo podem ter
influência penetrante.
(XXIV) É um atributo da posse do verdadeiro eu absoluto
ser capaz de prever. Quando uma nação ou família está a
ponto de florir, existem seguramente presságios de sorte.
Quando uma nação ou família está a ponto de perecer,
existem, seguramente, signos e agouros. Essas coisas se
manifestam nos instrumentos de adivinhação e na agitação
do corpo humano. Quando a felicidade, ou a calamidade,
está a ponto de vir, pode ser conhecida com antecedência.
Quando é boa, pode ser conhecida de antemão. Quando é
má, pode ser também conhecida de antemão. Por
conseguinte, aquele que compreende seu verdadeiro eu é
igual a um espírito celestial.
(XXV)A verdade significa cumprimento do próprio eu; e a lei
moral significa o seguimento da lei de nosso ser. A verdade
é o começo e o fim (a substância) da existência material.
Sem verdade não há existência material. É por essa razão
que o homem moral dá valor à verdade.
A verdade não é somente o cumprimento de nosso próprio
ser; é aquilo, por intermédio do qual as coisas externas a
nós têm uma existência. O cumprimento de nosso ser é
sentido moral. O cumprimento da natureza das coisas
externas a nós é intelecto. Essas coisas, o senso moral e o
intelecto são os poderes ou faculdades de nosso ser. Eles
combinam a utilidade íntima, ou subjetiva, e externa, ou
objetiva, do poder da mente. Portanto, com a verdade, tudo
o que for feito está direito.
(XXVI)Assim a verdade absoluta é indestrutível. Sendo
indestrutível é eterna. Sendo eterna, é auto-existente.
Sendo auto-existente é infinita. Sendo infinita, é vasta e
profunda. Sendo vasta e profunda, é transcendental e
inteligente. E por ser vasta e profunda é que contêm toda
existência. E por ser transcendental e inteligente é que
abrange toda existência. E por ser infinita e eterna é que
preenche ou aperfeiçoa toda existência. Em vastidão e
profundidade é como a Terra. Em inteligência
transcendental é como o Céu. Infinita e eterna é como o
próprio Infinito.
Tal sendo a natureza da verdade absoluta, ela se manifesta
sem ser vista; produz efeitos sem mover-se; chega a seus
fins sem ação.
O princípio no curso e operação da natureza pode ser
resumido numa só palavra; porque obedece apenas à sua
própria lei imutável, modo pelo qual produz a variedade de
coisas imensuráveis.
A natureza é vasta, profunda, alta, inteligente, infinita e
eterna. O céu que se estende diante de nós é apenas uma
massa brilhante e brilhosa; mas em sua extensão
imensurável, o sol, a lua, as estrelas e as constelações nele
estão suspensos, e todas as coisas são por ele abrangidas. A
Terra, tal como nos aparece, não passa de uma mão cheia
de terra; mas em toda sua largura e profundidade sustém
poderosas montanhas sem recear seu peso; rios e mares
arrojam-se contra ela sem causar-lhe rombos. A montanha
que divisamos é apenas uma massa de rocha; porém em
todo seu tamanho, a relva e a vegetação nela crescem, os
pássaros e as feras nela moram e tesouros de minerais
preciosos são nela encontrados. A água que aparece diante
de nós não passa de uma colherada de liquido; porém em
todas suas imensuráveis profundezas, os maiores
crustáceos, dragões, peixes e tartarugas ali se reproduzem
e nelas abundam todos os produtos úteis.
No "Livro dos Cânticos" está escrito:
"As leis de Deus, como são impenetráveis e vivem para
sempre".
É o mesmo que dizer, essa é a essência de Deus. Nesse
livro também está escrito:
"Como é excelente a perfeição moral do Rei Wen".
É o mesmo que dizer, essa é a essência do nobre caráter do
Imperador Wen. A perfeição moral jamais perece.
IX. Louvar a Confúcio.
(XXVII) Oh, como é grande a divina lei moral do Sábio.
Transbordante e ilimitada dá nascimento e vida a todas as
coisas criadas e se eleva até os próprios céus. Como é
magnificente! Como se impõem os trezentos princípios e as
três mil regras de conduta! Elas esperam o homem que
possa pôr o sistema em prática. Daí se diz: A menos que
haja o mais alto caráter moral, a mais alta lei moral não
pode ser posta em prática.
Por conseguinte, o homem moral, enquanto honra a
grandeza e o poder de sua natureza moral, não negligencia
ainda assim de indagar e andar em busca do saber.
Enquanto alarga o escopo de seus conhecimentos, ainda
procura esgotar o mistério das pequenas coisas. Enquanto
procura atingir a mais alta compreensão, ainda assim dirige
sua conduta de acordo com o curso médio (literalmente
chung yung). Indo além do que ele já aprendeu, ganha
novos conhecimentos. Ardente e simples, respeita e
obedece às leis e aos costumes da vida social (li).
Portanto, quando está numa posição de autoridade, não é
orgulhoso; na posição de subordinado, não é insubordinado.
Quando há ordem social moral no país, o que ele fala trará
prosperidade à nação; e quando não há ordem social moral
no país, seu silêncio assegurará clemência para si (6).
No "Livro dos Cânticos" está escrito:
"Com sabedoria e bom senso, ele preserva sua vida dos
males".
É esta a descrição do homem moral.
(XXIX) Para atingir a soberania do império são precisas três
coisas importantes, que o tornarão perfeito: os ritos, as leis
e os escritos.
(XXVIII) (7) Embora um homem possa ocupar um cargo de
autoridade, ainda assim, a menos que possua o caráter
moral indicado para essa tarefa, não pode encarregar-se de
fazer mudanças nas instituições religiosas e artísticas já
estabelecidas (literalmente "ritual e música"). Embora
alguém possa possuir o caráter moral que o indique para
essa tarefa, ainda assim, a menos que ocupe cargo de
autoridade, não pode encarregar-se de fazer mudanças nas
instituições religiosas e artísticas já estabelecidas.
Confúcio observou: "Tentei compreender as instituições
morais e religiosas (li) da Dinastia Hsia, mas o que resta
dessas instituições no atual estado de Ch'i não fornece uma
evidência suficiente. Estudei as instituições morais e
religiosas da Dinastia Shang (yin); o que delas resta está
ainda conservado no atual estado de Sung. Estudei as
instituições morais e religiosas da presente Dinastia Chou,
que estando agora em uso, sigo na prática".
(XXIX)Imaginado pelos que estão no poder, um sistema
pode ter falhas em autoridade histórica (evidências
históricas) embora possa ser excelente; o que lhe falta em
autoridade histórica não pode merecer fé; e o que não pode
merecer fé, o povo jamais obedecerá. Imaginado pelos que
não estão com a autoridade, um sistema pode não merecer
respeito, mesmo que seja excelente; o que não merece
respeito não pode ter crédito e o que não pode ter crédito, o
povo jamais obedecerá.
Por conseguinte, cada sistema de leis morais deve ser
baseado na consciência do próprio homem, verificada pela
experiência comum da humanidade, provada pela devida
sanção de experiência histórica e encontrada sem erros
aplicada às operações e processos da natureza no universo
físico e sendo encontrada sem contradição, posta diante dos
deuses sem perguntas ou receio, e capaz de esperar
centenas de gerações e tê-la confirmada, sem uma dúvida,
por um Sábio da posteridade. O fato dele ser capaz de
confrontar os poderes espirituais do universo sem medo
nenhum, mostra que ele compreende as leis de Deus. O fato
de estar preparado para esperar uma centena de gerações
para confirmação da parte do Sábio da posteridade sem
qualquer receio, mostra que ele compreende as leis do
homem.
Por conseguinte, é isso o que é a verdade do homem de real
grandeza moral, pois cada movimento que faz se torna um
exemplo para as gerações, cada ato que cumpre torna-se
um modelo durante gerações e cada palavra que profere se
torna um guia durante gerações. Os que estão bem
distantes erguem os olhos para ele, ao passo que os que
estão perto não sentem diminuir o respeito que por ele
sentem. Há o seguinte trecho no "Livro dos Cânticos":
"Lá não lhe encontram falta nenhuma, aqui jamais se
cansam dele; assim de dia para dia e de noite para noite
eles perpetuarão seu louvor!"
Nunca houve um homem moral que não correspondesse a
essa descrição e que, contudo, pudesse obter
reconhecimento oportunamente através o mundo.
(XXX) Confúcio ensinava a verdade originalmente
transmitida pelos antigos Imperadores Yao e Shun, e adotou
e aperfeiçoou o sistema de leis sociais e religiosas
estabelecido pelos Imperadores Wen e Wu. Ele prova que se
harmoniza com a ordem divina que governa as revoluções
das estações no Céu que nos cobre e que se adaptam com o
plano moral que deve ser visto na natureza física sobre a
Terra em baixo.
Essas leis morais formam um sistema com as leis pelas
quais o Céu e a Terra suportam e contém, protegem e
abrigam todas as coisas. Essas leis formam o mesmo
sistema com as leis pelas quais as estações se sucedem
uma à outra e o sol e a lua aparecem com as alternações do
dia e da noite. E esse mesmo sistema e leis pelo qual todas
as coisas criadas são produzidas e se desenvolvem cada
qual em seu sistema e ordem sem causar mal a outra, e
pelo qual as operações da Natureza seguem o curso sem
conflito ou confusão; as forças menores correndo por toda
parte como as correntes dos rios, ao passo que as grandes
forças da Criação vão silenciosas e firmes. É isso (um
sistema passando através de tudo) o que faz o Universo tão
impressionantemente grande.
(XXXI) É somente o homem com a mais perfeita natureza
moral e divina que é capaz de combinar em si rapidez de
apreensão, inteligência, conhecimento profundo e
compreensão - qualidades necessárias para o exercício do
comando, da magnanimidade, da generosidade, da
benignidade e da gentileza - qualidades necessárias para o
exercício da paciência; originalidade, energia, força de
caráter e determinação - qualidades necessárias para o
exercício da paciência, da piedade, da seriedade nobre, da
ordem e da regularidade - qualidades necessárias para o
exercício da dignidade, da graça, do método, da sutileza e
da penetração - qualidades necessárias para o exercício do
julgamento crítico.
Desse modo tudo abrange e é vasta a natureza de um tal
homem. Profunda é ela e inexaurível, tal como uma
nascente d'água, sempre brotando com vida e vitalidade. É
vasta e tudo abrange, tal como o Céu. Profunda e
inexaurível, tal como o abismo.
Assim que um homem dessa força fizer sua aparição no
mundo, todos o reverenciarão. Tudo o que ele disser, todos
o acreditarão. Tudo o que fizer, o povo ficará satisfeito.
Desse modo sua faina e seu nome se espalharão e encherão
todo o mundo civilizado (literalmente "China"), estendendo-
se mesmo até os países selvagens, onde quer que alcancem
os navios e as carruagens, onde quer que o trabalho e o
empreendimento do homem penetrarem, onde quer que os
céus abriguem e a terra sustenha, onde quer que o sol e a
lua brilhem, onde quer que a geada e o orvalho caiam.
Todos os que tiverem vida e alento o honrarão e o amarão.
Portanto podemos dizer - Ele é igual a Deus.
(XXXII) É somente aquele no mundo que alcançou seu eu
absoluto que pode pôr em ordem e ajustar as grandes
relações da sociedade humana, fixar os princípios
fundamentais da moralidade e compreender as leis de
crescimento e reprodução do Universo.
Ora, donde um tal homem deriva seu poder e
conhecimento, senão de si mesmo? Como é simples e em si
mesmo contida sua verdadeira virilidade! Como é
imensurável a profundeza de seu espírito! Como é
infinitamente grande e vasta a extensão moral de sua
natureza! Quem pode compreender uma tal natureza,
exceto aquele que recebeu o dom da mais perfeita
inteligência e é dotado das mais altas e divinas qualidades
de caráter, e que, em seu desenvolvimento moral, chegou
ao mesmo nível dos deuses?
X. Epílogo.
Há o seguinte no "Livro dos Cânticos":
"Por cima de sua roupa de brocado, ela usava um vestido
simples e liso"
Desse modo mostrando sua aversão pelas cores gritantes e
pela magnificência. Assim os caminhos do homem moral são
modestos e levam aos poucos, contudo, para o poder e para
a evidência; ao passo que os caminhos do homem vulgar
são cheios de ostentação, porém levam à perda gradual da
influência até que ele pereça ou desapareça.
A vida do homem moral é igual e, no entanto, não é sem
atrativos; é simples e, no entanto, é cheia de graça; é fácil
e ainda assim é metódica. Ele sabe que para terminar as
grandes coisas é preciso fazer as pequenas bem feitas. Sabe
que os grandes efeitos são produzidos pelas pequenas
causas. Conhece a evidência e a realidade do que não pode
ser percebido pelos sentidos. Desse modo, está apto a
entrar no mundo de idéias e de moralidades.
Diz o "Livro dos Cânticos"
"Mesmo que o peixe mergulhe profundamente, é, ainda
assim, visto perfeitamente".
Portanto o homem moral deve examinar bem o interior de
seu coração e ver se não tem motivo de auto - reprovação,
se não tem nenhum pensamento maldoso em sua mente.
Onde se verifica que o homem moral é superior aos outros
homens naquelas coisas mesmo que não podemos notar.
Diz o "Livro dos Cânticos":
"Em seu quarto, bem escondido mesmo, você é julgado;
verifique não fazer nada pela qual tenha que enrubescer,
Embora só o teto esteja olhando para o que fizer".
Portanto o homem moral, mesmo quando não está fazendo
nada, é sério; e mesmo quando não está falando, é sincero.
Diz o "Livro dos Cânticos":
"Durante todo o rito solene nem foi pronunciada uma só
palavra e, no entanto, toda a luta fora banida de seus
corações".
Donde se deduz que o homem moral, sem indução de
recompensas, é capaz de fazer o povo bom; e sem mostras
de cólera, os domina com o receio maior ainda do que se
usasse os mais pavorosos instrumentos de castigo.
Diz o "Livro dos Cânticos":
"Ele não fazia ostentações de sua dignidade moral, contudo,
todos os príncipes seguiam-lhe os passos".
Donde o homem moral, vivendo uma vida de verdade
simples e de seriedade, sozinho pode ajudar a levar a paz e
a ordem ao mundo.
Diz o "Livro dos Cânticos":
"Guardo em mente as belas qualidades morais que não
fazem grande barulho ou ostentação".
Confúcio observou - "Entre os meios de regeneração da
humanidade, os que são feitos com ostentação e barulho
são os de menor importância".
Noutra parte do "Livro dos Cânticos":
"Sua virtude era leve como a pluma".
A pluma é ainda algo material. "Os trabalhos do Céu não
têm nem som nem cheiro". Eis o mais alto grau de
desenvolvimento de nossa natureza moral.
___________________________
(1) Chung significa "central" e yung significa "constante". A
idéia inteira exprime a concepção de uma norma. É possível
que as seções 2, 3, 4, 5, 6, formassem originalmente um
livro separado, mais tarde amalgamado com outras seções
(1, 7, 8, 9, 10). Os estilos das duas partes são muitos
diferentes. A isso se atribui a mudança súbita de chung ho
(harmonia central) na primeira seção para chung yung
(Meio Dourado) na segunda.
(2) Esse parágrafo faz parte do texto original de Confúcio.
Seu conteúdo, entretanto, muito se parece com um
comentário.
(3) Ku traduziu-as como "inteligência, caráter moral e
coragem".
(4) Essa parte do começo desse trecho é encontrada no
"Livro de Mêncio", livro IV parte 1. A entrevista completa é
achada, outrossim, em "Lembranças de Família de Confúcio"
(K'ungtso Chiayu) sem o trecho que vem imediatamente
depois.
(5) Esse parágrafo constitui um "capítulo" por si mesmo no
texto chinês. A tradução desse parágrafo e os dois
parágrafos seguintes foi feita por mim inteiramente,
diferindo da de Ku.
(6) Aqui vemos a ligação entre a realização do verdadeiro
eu e da harmonia com o mundo externo, entre "sinceridade"
e "harmonia".
(7) Os dois capítulos seguintes foram incorporados aqui e
tirados do "Capítulo 28". As "três coisas importantes"
(posição, caráter e apelo à história) tornaram-se por outro
lado ininteligíveis.
)*on+ ,on+, ou o .usto -eio de Confúcio (por A$
Doe'(in)
1.Aquilo que o céu outorgou se chama Natureza. A
harmonia com essa natureza chama-se Caminho do Dever.
A ordenação desse caminho chama-se Instrução.
2. Nem por um instante se pode abandonar o caminho. Se
pudesse ser abandonado, não seria o caminho. A esse
respeito, o homem não superior, para ser prudente, não
espera até ver as coisas nem para ser apreensivo espera até
ouvir as coisas.
3. Nada há mais visível do que o secreto. Nada mais mani-
festo do que o minúsculo. Portanto, o homem superior cuida
de si mesmo quando está sozinho.
4. Quando não há agitações de prazer, de cólera, de pesar
ou de alegria, pode-se dizer que a mente se encontra em
estado de Equilíbrio. Quando esses sentimentos se agitam e
atuam em seu devido grau, produz-se o que se pode
chamar estado de Harmonia. Esse Equilíbrio é a grande base
da qual procedem todos os atos humanos no mundo e essa
Harmonia é o caminho universal que todos eles devem
seguir.
5. Se existem em sua perfeição esses estados de equilíbrio e
da harmonia, prevalecerá uma ordem feliz no Céu e na
Terra e todas as coisas serão estimuladas e florescerão.
6. "Que o homem superior sintetize o sistema do Meio,
deve-se ao fato de ser um homem superior e assim manter
sempre o Meio. Que o homem inferior atue contra o sistema
do Meio, deve-se ao fato de ser ele um homem inferior e
não ter cautela¨.
Disse o Mestre: "Perfeita é a virtude que está de acordo com
o Meio. Entre o povo, raros foram aqueles que puderam
praticá-la!"
7. Os homens e as mulheres comuns, ainda que ignorantes,
podem participar no conhecimento do bom caminho.
Contudo, em seus últimos desenvolvimentos existe aquilo
que nem mesmo o sábio conhece. Os homens e as mulheres
comuns, por muito baixo que seja o nível do seu caráter,
podem leva-lo à prática; contudo, em seus últimos
desenvolvimentos existe aquilo que nem mesmo o sábio é
capaz de levar à prática. Grandes como são o Céu e a Terra,
ainda os homens encontram neles algumas coisas que não
satisfazem. Assim é que se o homem superior falasse de seu
sistema em toda a sua grandeza, nada se encontraria no
mundo capaz de abarca-lo, e se mencionasse sua pequenez,
nada no mundo se encontraria capaz de parti-lo.
No Livro de Poesia se diz: "Eleva-se ao céu o falcão. Saltam
na profundidade os peixes¨. Isto exprime como é visto, por
cima e por baixo, esse sistema.
8. O sistema do homem superior pode ser encontrado em
seus elementos simples, no trato dos homens e das
mulheres comuns. Mas, em seus extremos limites, brilha.
9. Disse o Mestre: "O caminho não está longe do homem.
Quando os homens tratam de seguir um caminho que esteja
longe das indicações comuns da consciência, esse caminho
não pode ser considerado O Caminho¨.
No Livro de Poesia se diz: "Ao cortar um cabo de machado,
o modelo não está longe¨. Empunhamos um cabo de
machado para cortar o outro; e, no entanto, se olhando de
relance um e outro, podemos considerá-los diferentes. Eis
como o homem superior governa os homens, de acordo com
sua natureza, com o que lhe é próprio, e assim que estes
mudam o que estava errado, ele se detém.
10. Quando se cultiva até o máximo o princípio de sua
natureza e assim se procura exercita-los segundo o principio
de reciprocidade, não se está longe do caminho. Não façais
aos outros aquilo que não quereis que vos façam.
11. Disse o mestre: "No caminho do homem superior há
quatro coisas que ainda não alcancei: servir a meu pai como
queria que meu filho me servisse; isto, não consegui! Servir
ao meu príncipe como quisera que meu ministro me
servisse; isto, não consegui. Servir a meu irmão mais velho
como quisera que me servisse meu irmão mais moço; isto,
não consegui. Ser um exemplo de conduta como um amigo
como quisera que este fosse para mim; isto, não consegui.
Sincero na prática das virtudes ordinárias e prudente ao
menciona-las, se tem algum defeito na prática, o homem
superior não se atreve mais do que a exigir esforços novos
de si mesmo; se comete algum excesso verbal, não se
atreve a conceder-se semelhante licença. Assim suas
palavras estão de acordo com seus atos, e seus atos de
acordo com suas palavras. Não será precisamente uma
completa sinceridade o que caracteriza o homem superior¨.
12. O homem superior faz aquilo que é próprio da situação
em que se encontra. Não deseja ir além.
Numa situação de riqueza e honrarias, faz o que é próprio
de uma situação de riqueza e honrarias. Numa situação
pobre e humilde, faz o que é próprio de uma situação pobre
e humilde. Situado entre tribos bárbaras, faz o que é próprio
de uma situação entre tribos bárbaras. Numa situação de
penosas dificuldades, faz o que é próprio de uma situação
de penosas dificuldades. O homem superior não pode
encontrar-se numa situação em que não seja ele mesmo.
13. Numa situação elevada não trata com desprezo os
inferiores. Numa situação humilde não pede o favor dos
superiores. Corrige-se a si mesmo e nada pede aos outros,
de modo que não tem decepções. Não murmura contra o
céu, não resmunga contra os homens.
Eis por que o homem superior é tranqüilo e plácido, e
espera os decretos do céu, enquanto o homem inferior
caminha por perigosas sendas, em busca de acontecimentos
afortunados.
14. Disse o Mestre: "Como são abundantes as
demonstrações que os seres espirituais fazem das
faculdades que lhes correspondem! Andamos a procura-los,
mas não os vemos. Andamos a ouvi-los, mas não os
ouvimos. E, no entanto, intervêm em todas as coisas e nada
existe sem eles. Fazem que todos os habitantes do reino
jejuem e se purifiquem e se ataviem com suas mais ricas
roupagens para assistir a seus sacrifícios. Então, como a
água que transborda, parecem estar sobre as cabeças e à
esquerda e à direita de seus adoradores.
15. O duque Ai indagou sobre o governo.
Disse o Mestre: "O governo de Wen e Wu mostra-se nos
registros: as tabuinhas de madeira e bambu. Se há homens,
o governo florescerá. Mas, sem homens seu governo decai e
se encerra.
16. Disse o Mestre: "Eu sei por que não é freqüentado o
caminho do Meio. O inteligente vai além dele e o estúpido
não chega até ele. Eu sei por que não é compreendido o
caminho do Meio. O homem virtuoso vai além dele e o
indigno não chega até ele. Não há corpo que não coma e
não beba. Mas são poucos os que podem diferenciar os
sabores¨.
Disse o Mestre: "Ah! Como é pouco freqüentado o caminho
do Meio!¨
17. Disse o Mestre: `Todos os homens dizem: "Somos sá-
bios¨, mas se são empurrados e aprisionados numa rede,
armadilha ou laço, não sabem como livrar-se. Todos os
homens dizem: "Somos sábios¨ mas se lhes acontece
escolherem o caminho do Meio não são capazes de aí
permanecer nem por um mês. Zi lu perguntou sobre a
energia.
Disse o Mestre: "Mencionas a energia do Sul, a energia do
Norte ou aquela que tu mesmo poderias cultivar?¨.
"Mostrar indulgência e doçura ao ensinar aos demais e não
se vingar de uma conduta injustificada: esta é a energia das
regiões meridionais, e o homem bom procura estuda-la.
Estar sob o peso das armas e encontrar a morte sem la-
mentos: esta é a energia das regiões do Norte, e o homem
forte a estuda. Mas o homem superior cultiva uma harmonia
amistosa sem ser débil. Como é firme, na sua energia!
Permanece erguido, ao centro, sem se inclinar para um nem
outro lado! Como é firme, na sua energia! no governo do
seu país prevalecem os bons príncipes, não deixa de ser
aquilo que era em seu refúgio. Quando prevalecem os maus
príncipes no país, mantêm sem desfalecimentos seu
caminho até a morte. Como é firme, em sua energia!¨
18. Disse o Mestre: "Viver na obscuridade e apesar disso
realizar prodígios para ser mencionado com honra nas
idades futuras: eis o que não faço¨.
19. Disse o mestre: "O homem bom trata de proceder de
acordo com o bom caminho, mas quando já andou meio
caminho, abandona-o: eu não sou capaz de deter-me
assim¨.
"O homem superior põe-se de acordo com o caminho do
Meio. Ainda que possa ser completamente desconhecido,
ainda que o mundo não repare nele, não sente pesar. Só o
sábio é capaz disso¨.
"Com os homens justos, o desenvolvimento do governo é
rápido como é rápida o da vegetação na terra. E seu
governo pode ser chamado uma torrente que facilmente se
avoluma¨.
20. Portanto, a administração do governo consiste em
conseguir homens adequados. Esses homens devem ser
conseguidos por meio do próprio caráter do governante.
Esse caráter deve ser cultivado trilhando os caminhos do
dever. E freqüentar esses caminhos do dever é ser cultivado
mediante o fomento da benevolência.
21. "A benevolência é o elemento característico da
humanidade e o seu grande exercício está no amor aos
parentes. A retidão é a concordância dos atos com o que é
correto, e o seu grande exercício consiste em honrar o que é
digno. A diminuição do amor devido aos parentes e a
interrupção das honras devidas ao homem digno são
produzidas pelo princípio da correção¨.
22. "Quando os que estão em situações inferiores não
possuem a confiança dos seus superiores, não podem reter
o governo do povo¨.
"Daí que o soberano não possa descuidar o cultivo do
caráter. Desejando cultivar seu caráter, não pode deixar de
servir a seus pais. Para servir a seus pais, não pode deixar
de adquirir o conhecimento dos homens. Para conhecer os
homens não pode dispensar o conhecimento do Céu¨.
23. "Os deveres de obrigação universal são cinco e são três
as virtudes com as quais são eles praticados. Os deveres
são os que existem entre o soberano e o ministro, entre pai
e filho, entre esposo e esposa, entre irmão maior e irmão
menor e os que correspondem ao trato entre amigos. Esses
cinco são deveres de obrigação universal. O conhecimento,
a magnanimidade e a energia são as três virtudes
universalmente obrigatórias. E o meio pelo qual põem os
deveres em prática é a simplicidade.
24. "Alguns nascem com o conhecimento desses deveres.
Alguns o conhecem através do estudo. Alguns adquirem
esse conhecimento depois de um penoso sentimento de sua
ignorância. Mas, uma vez possuído o conhecimento, o
resultado é o mesmo. Alguns o praticam com naturalidade.
Outros atraídos pelos seus benefícios. Outros, através de
esforços enérgicos. Mas, uma vez praticados, o resultado é
o mesmo´¨.
25. Disse o Mestre: "Ser amante do saber é estar próximo
do conhecimento. Agir com energia é estar próximo da
magnanimidade. Possuir o sentimento da vergonha é estar
próximo da energia¨.
26. "Aquele que conhece essas três coisas sabe como
cultivar o caráter. Sabendo como cultivar o caráter, sabe
como governar os homens. Sabendo como governar os
homens, sabe como governar o reino com todos os seus
Estados e famílias.¨
27. Todos os que detêm o governo do reino com seus
Estados e famílias têm de seguir nove regras fixas: o cultivo
do caráter, a honra devida aos homens virtuosos e de
talento, o afeto a seus parentes, o respeito aos grandes
ministros, o trato bondoso e equânime a todo o corpo de
funcionários, o trato com a massa do povo como se fossem
crianças, o estimulo à concorrência de todas as classes de
artífices, o trato indulgente com os homens à distância e o
bondoso apreço aos príncipes dos Estados.
28. "Mediante o cultivo do seu próprio caráter, pelo
governante, realizam-se os deveres de obrigação universal.
Honrando os homens virtuosos e de talento, livra-se dos
erros de julgamento. Mostrando afeto para com os parentes,
não há murmuração nem ressentimento entre seus tios e
seus irmãos. Respeitando aos grandes ministros, livra-se de
erros na prática do governo. Tratando com bondade e
consideração a todo o corpo de funcionários, estes são
levados a responder com o maior agradecimento a suas
cortesias. Tratando a massa do povo como se fossem
crianças, estas são levadas a exortar-se entre si para
praticar o bem. Estimulando a consciência de todas as
classes de artífices, ampliam-se seus recursos para as
despesas. Tratando indulgentemente os homens a distância,
de toda parte estes acodem para ele. E apreciando
bondosamente os princípios dos Estados, chega à veneração
de todo o reino.
29. A correção pessoal e a purificação, com a ordenação
cuidadosa de suas vestes e o não fazer movimento contrário
às regras da correção: tal é, para um governante, o modo
de cultivar sua pessoa. Afastar os caluniadores livrar-se das
seduções da beleza, não dar importância aos ricos e honrar
a virtude. Tal é, para ele, o meio de estimular os homens
dignos e de talento. Dar-lhes postos de honra e grandes
emolumentos, compartilhar com eles seus gostos e
aversões, tal é para ele, o meio de estimular seus parentes
para que o amem. Dar-lhes numerosos funcionários para
aliviá-los de suas ordens e incumbências, tal é, para ele, o
meio de estimular os grandes ministros. Conceder-lhes
confiança generosa, aumentar seus emolumentos tal é o
meio de estimular o povo. Exames diários e provas mensais,
e conseguir que suas reações estejam de acordo com seus
trabalhos, tal é o meio de estimular as classes de artífices.
Acompanhá-los quando saem e ir-lhes ao encontro quando
chegam, recomendar o bom dentre eles e mostrar
compaixão pelo incompetente, tal é o modo de tratar
indulgentemente os homens distantes. Restaurar as famílias
cuja linha dinástica se rompera e revivificar os Estados que
se tenham extinguido, pôr em ordem os Estados em que
haja confusão e apoiar os que estejam em perigo, assinalar
datas fixas para as audiências na Corte e para a recepção de
seus enviados, despedi-los depois de tratá-los liberalmente
e celebrar sua chegada com pequenos tributos tal é o modo
de apreciar os príncipes dos Estados.
30. Todo aquele que mantêm o governo do reino com seus
Estados-família deve ter em vista as anteriores nove regras
fixas. E o meio pelo qual são elas postas em prática, é a
simplicidade.
31. Em todas as coisas o êxito depende da preparação
prévia e sem essa preparação prévia o malogro é certo. Se
de antemão se determina aquilo que se há de dizer, não
haverá hesitação na voz. Se previamente se determinam os
assuntos, estes não oferecem dificuldades. Se previamente
se determinam as próprias ações, não haverá aborrecimento
por via deles. Se previamente foram determinados os
princípios de conduta, sua prática será inesgotável.
32. Quando os que se encontram em situações inferiores
não obtém a confiança do soberano, não podem ter êxito no
governo do povo. Há um meio de conquistar a confiança do
soberano.
Quando os amigos não têm confiança em alguém poderá
este obter a confiança do soberano. Quando alguém não
obedece a seus pais, não será sincero com os amigos. Há
um meio de ser obediente com os seus pais. Se alguém, ao
pensar em si mesmo, vê que lhe falta sinceridade, não será
obediente a seus pais. Há um meio para conseguir a
sinceridade consigo mesmo. Se um homem não compreende
o que é o bem, não alcançará a sinceridade em si mesmo.
33. A sinceridade é o caminho do Céu. Alcançá-la, é o
caminho dos homens. É sincero aquele que sem esforço vê
o que é justo e compreende sem excitar o pensamento. Este
é o sábio que natural e facilmente personifica o bom
caminho. Aquele que alcança a sinceridade é o que escolhe
o que é bom e ao que é bom se prende firmemente.
34. Para isso alcançar, requer-se o estudo intensivo do bem,
sua exata investigação, uma cuidadosa reflexão sobre ele,
um claro discernimento e a prática sincera do bem.
35. O homem superior, quando há algo que não estudou, ou
quando no que estudou algo existe, que não pode
compreender, não interrompe o trabalho. Quando há algo
que não investigou ou no que investigou, algo existe que ele
não sabe, não interrompe o trabalho. Quando há algo ainda
por meditar ou naquilo que meditou há algo que não
compreende, não interrompe o trabalho. Quando há algo
que não discerniu ou não pode discernir claramente, não
interrompe o trabalho. Se algo existe que não praticou ou
cuja prática carece de seriedade, não interrompe o trabalho.
Se outro homem consegue êxito mediante um esforço, ele
utilizará uma centena de esforços. Se outro homem alcança
êxito mediante dez esforços, ele utilizará mil esforços.
36. Deixai um homem proceder desse modo e, ainda que
seja duro de entendimento, certamente se tornará
inteligente, ainda que seja fraco, certamente chegará a ser
forte¨.
Quando possuímos inteligência como resultado da
sinceridade, esta condição deve ser atribuída à natureza.
Quando possuímos sinceridade como resultado da
inteligência, esta condição deve ser atribuída à instrução.
Mas, dada à sinceridade, haverá inteligência. Dada a
inteligência, haverá sinceridade.
Só aquele que possui a sinceridade mais completa que pos-
sa existir sob o Céu poderá desenvolver completamente sua
natureza. Sendo capaz de desenvolver sua própria natureza,
pode fazer o mesmo com a natureza dos demais. Sendo
capaz de desenvolver completamente a natureza dos
demais, pode desenvolver completamente as naturezas dos
animais e das coisas. Sendo capaz de desenvolver
completamente as naturezas das criaturas e das coisas,
pode ajudar as forças transformadoras e nutrizes do Céu e
da Terra. Sendo capaz de ajudar as forças transformadoras
e nutrizes do Céu e da Terra, pode formar uma trindade
com o Céu e a Terra.
37. Próximo deste está aquele que cultiva ao máximo os
vestígios de bondade que nele existe. Através deles pode
chegar à posse da sinceridade. Essa sinceridade se
evidencia. Evidenciando-se, torna-se manifesta. Tornando-
se manifesta, faz-se brilhante. Fazendo-se brilhante, afeta
os demais. Afetando os demais, estes mudam, graças a ela.
Mudados, graças a ela, transformam-se. Unicamente aquele
que possui a mais completa sinceridade que possa existir
sob o céu é capaz de transformar.
38. A sinceridade é aquela mediante a qual se efetua a
perfeição de si mesmo, e seu meio é aquele pelo qual o
homem deve dirigir-se a si mesmo.
39. A sinceridade é o fim e o começo de todas as coisas.
Sem sinceridade, nada haverá. A esse respeito, o homem
superior considera a obtenção da sinceridade como a coisa,
sobre todas, excelente.
Aquele que possui a sinceridade não se limita a realizar a
perfeição de si mesmo. Com essa qualidade completa
também os outros homens e coisas. O completar-se a si
mesmo mostra a sua perfeita virtude. O completar os outros
homens e coisas mostra o seu conhecimento. Estas são
duas virtudes que correspondem à natureza, este o modo
pelo qual se efetua uma união no exterior e no interior.
Portanto, sempre que ele, o homem inteiramente sincero, as
utiliza, isto é, essas virtudes - seus atos serão justos.
Portanto, à sinceridade completa corresponde o incessante.
Se não cessa, continua por muito tempo. Continuando por
muito tempo, evidencia-se a si mesma.
Evidenciando-se a si mesma, chega longe. Chegando longe,
torna-se grande e substancial. Sendo grande e substancial,
torna-se alta e brilhante.
40. Grande e substancial: eis como contém todas as coisas.
Alta e brilhante: eis como esparge sobre todas as coisas.
Chegando longe e continuando por muito tempo: eis como
aperfeiçoa todas as coisas.
Sendo tão grande e substancial, o indivíduo que a possui é o
igual da Terra. Sendo tão alta e brilhante torna-o igual do
Céu. Chegando tão longe e continuando por tanto tempo,
fez-se infinito.
Sendo essa a sua natureza, sem nenhuma ostentação se
manifesta, sem nenhum movimento produz mudanças, sem
nenhum esforço cumpre seus fins.
41. O modo do Céu e da Terra pode ser completamente
exposto numa frase: não tem nenhuma duplicidade, e assim
produz as coisas de um modo impenetrável.
O modo do Céu e da Terra é grande e substancial, alto e
brilhante, de amplo alcance e larga duração.
O céu que temos diante de nós não é mais do que esse
ponto que brilha claramente. Mas quando o vemos em sua
extensão inesgotável, o Sol, a Lua, as estrelas e as
constelações do zodíaco aparecem suspensas dele e todas
as coisas cobertas por ele. A terra que temos diante de nós
não é mais do que um punhado de solo. Mas quando a
contemplamos em sua amplitude, em sua espessura,
sustenta montanhas como o Hua e o Yo, sem lhes sentir o
peso e contém os rios e os mares, sem que estes se
esparramem. A montanha que temos diante de nós parece
apenas uma pedra, mas quando contemplada em toda a sua
amplitude vemos como nela crescem a erva e as árvores e
os pássaros e os animais que nela vivem; e nela se
encontram coisas preciosas que os homens recolhem. A
água que temos diante de nós não parece mais do que um
gole, mas se estendemos o olhar às suas profundidades
insondáveis, vemos que nela nascem as grandes tartarugas,
as iguanas, os lagartos, os dragões e os peixes e nela
pululam os artigos de valor e as fontes de riqueza.
Como é grande o caminho do sábio!
Como a água que derrama, produz e nutre todas as coisas e
se eleva à altura do céu.
A grandeza completa! Abrange as trezentas regras de
cerimônia e as três mil regras da conduta.
Espera o homem adequado, e logo é encontrada.
Por isso se disse: "Só pela virtude perfeita pode converter-
se em realidade o perfeito caminho, em todas as suas
direções¨.
42. Portanto, o homem superior honra sua natureza virtuosa
e investiga e estuda constantemente, procurando leva-la à
sua amplitude e grandeza, para não omitir nenhum dos
pontos mais estranhos e diminutos que ela abrange, e
eleva-la à maior altura e brilho, a fim de seguir o caminho
do Meio. Utiliza seus antigos conhecimentos e
continuamente adquire outros novos. Exerce honesta e
generosa seriedade na avaliação e prática de toda regra
social.
43. Assim, quando ocupa uma alta situação, não é
orgulhoso, e quando ocupa uma situação modesta não é
insubordinado. Quando o reino é bem governado, está certo
de elevar-se por suas palavras. E quando o reino é mal
governado, está certo de obter indulgência pelo seu silêncio.
Não é isto o que lemos no Livro de Poesia: "É inteligente e
prudente, e assim protege sua pessoa?¨
44. Todas as coisas realizam-se conjuntamente sem
prejudicar-se umas às outras. O curso das estações e do Sol
e da Lua realizam-se sem colisão. As menores energias são
como correntes fluviais. As maiores energias são vistas em
poderosas transformações. É isso que torna tão grande o
céu e a terra.
45. Unicamente aquele que possui todas as qualidades
sábias que possam existir sob o Céu mostra-se rápido na
compreensão, claro no discernimento, de inteligência ampla,
com um conhecimento que tudo abrange, dotado para
exercer o governo, magnânimo, generoso, benigno e
humilde, dotado para exercer a indulgência, impulsivo,
enérgico, firme e constante, capaz de manter uma influência
firme, apto, grave, nunca desviado do meio e correto, digno
de veneração, culto, distinto, concentrado, investigador,
capaz de exercer o discernimento.
Tudo abarca e é amplo, profundo e ativo como uma fonte e
mostra suas virtudes em tempo oportuno.
Tudo abarca e é amplo como o céu. Profundo e ativo como a
fonte, parece-se com o abismo. É visto, e todo o povo o
venera. Fala, e todo o povo acredita. Age, e todo o povo o
apóia.
46. Portanto sua fama ultrapassa o Reino do Meio e se
estende a todas as tribos bárbaras. Até onde chegam os
barcos e as carruagens. Até onde penetra a força do
homem, onde os céus dão sombra e a terra sustenta, onde
brilham o Sol e a Lua, onde caem a geada e o orvalho,
todos os que têm sangue e respiram honram-no e
sinceramente o amam. Por isso se disse: "Ele é o igual do
Céu¨.
Unicamente aquele que possui a sinceridade mais completa
que pode existir sob o céu pode ajustar as grandes relações
invariáveis da humanidade e conhecer as operações de
transformação e de nutrição do Céu e da Terra. Terá esse
indivíduo algum ser ou algo superior a ele, do qual
dependa?
Chamai-o homem em seu ideal; quanto é sincero! Chamaio
abismo: quanto é profundo! Chamai-o Céu: quanto é vasto!
47. Quem pode conhecê-lo senão aquele que é rápido na
compreensão, claro no discernimento, de inteligência ampla,
com um conhecimento que tudo abrange e possui todas as
virtudes celestes?
No Livro de Poesia se diz: "Sobre sua túnica bordada, ela
veste uma roupa simples, sem adornos¨, indicando que não
lhe agrada a ostentação de elegância na túnica. Assim
também o costume do homem superior é preferir ocultar a
sua virtude, enquanto cada dia mais ilustre fica, e o
costume do homem inferior é procurar notoriedade,
enquanto cada dia pior vai ficando. É característico do
homem superior parecer insípido e no entanto jamais saciar,
mostrar uma negligência simplória e no entanto fazer com
que a reconheçam em suas obras, parecer ingênuo e no
entanto saber discernir. Ele sabe como o distante está
contido no que é próximo. Sabe se tornar visível. Sabe de
onde sopra o vento. Um homem desses, podemos estar
certos, far-se-á virtuoso.
No Livro de Poesia se diz: "Embora o peixe esteja submerso
e parado no fundo das águas, podemos vê-lo claramente´.
Assim o homem superior examina seu coração para que
nele nada possa haver de injusto, o não possa ter motivo de
insatisfação consigo mesmo. Aquilo que no homem superior
não pode ser igualado é simplesmente isto: sua obra, que
os outros homens não podem ver¨.
48. No Livro de Poesia se diz: "Contemplo com prazer tua
virtude brilhante, que não faz grande exibição de si mesma
com ruídos e aparências¨. Disse o Mestre: "Entre os
instrumentos para transformar o povo, os ruídos e
aparências não exercem mais do que influências banais.¨
Em outra se diz: "Sua virtude é leve como um fio do
cabelo¨. Pode-se dizer também que o fio de cabelo é leve
com seu tamanho. "As obras do Céu supremo não têm som
nem cheiro. Essa é a perfeita virtude¨.
/iao0in+, ou 1ratado da 2iedade 3i(ia(
Este pequeno texto, embora não incluído no Sishu, foi
intensamente utilizado pelos confucionistas e trata dos
problemas fundamentais da Piedade Filial e de questões
sociais relacionadas a família e a política.
"xtratos
'0etivos e extensão do 1ratado$
1. Uma vez, quando Kung-ni (nome de casamento de
Confúcio) estava desocupado e seu discípulo Zang sentado
junto dele, fazendo-lhe companhia, disse o Mestre: "Shan,
os antigos reis possuíam virtude perfeita e uma regra de
conduta que tudo abrangia, e por meio delas se punham de
acordo com tudo o que existe sob o Céu. Mediante a prática
dessa virtude, o povo era levado a viver em paz e harmonia
e não havia má vontade entre superiores e inferiores. Sabes
qual era?¨ Zang levantou-se de sua esteira e disse: "Como
poderia eu, Shan, que sou tão desprovido de inteligência,
ser capaz de sabe-lo?¨
2. O Mestre disse: "Era a piedade filial. Pois bem, a piedade
filial é a raiz de toda virtude e o tronco do qual nasce todo
ensinamento moral. Senta-te de novo e te explicarei a
questão. Nossos corpos - cada fio de cabelo, cada
fragmento de pele - nós herdamos de nossos pais e não
devemos atrever-nos a danifica-los ou feri-los. Este é o
começo da piedade filial. Quando formamos nosso caráter
mediante a prática da conduta filial, para tornar famoso
nosso nome nas idades futuras e glorificar com isso nossos
pais, este é o fim da piedade filial. Começa com o serviço de
nossos pais, continua com o serviço do governante, e se
completa pela formação do caráter¨.
Na Ode Maior do Reino se diz:
Pensa sempre no teu passado, Cultivando tua virtude.
A piedade fi(ia( no 3i(*o do C4u$
1. Aquele que ama seus pais não temerá incorrer no perigo
de ser odiado por homem algum; e aquele que venera seus
pais não temerá incorrer no risco de ser desprezado por
homem algum. Quando o amor e a veneração do Filho do
Céu são assim ao máximo no serviço de seus pais, as lições
de virtude afetam todo o povo e se convertem num modelo
para todos, dentro dos quatro mares. Esta é a piedade filial
do Filho do Céu.
2. No Marques de Fu se diz, a respeito dos Castigados:
"O homem Único será feliz e os milhões de homens do povo
dependerão daquele que assegura sua felicidade¨.
A piedade fi(ia( nos +randes funcion5rios e di+nit5rios$
1. Não se atrevem a levar outras vestes que não as
indicadas pelas leis dos reis antigos, nem a falar outras
palavras que não sancionadas por sua linguagem, nem a
exibir outra conduta que a exemplificada por seus métodos
virtuosos. Desse modo, não sendo nenhuma de suas
palavras contrárias a essas sanções e nenhuma de suas
ações contrária à sua conduta devida, não brota de seus
lábios uma linguagem excepcional nem se descobrem em
sua conduta ações excepcionais. Suas palavras podem
encher tudo sob o Céu e não se pode encontrar nelas
nenhum erro de linguagem. Suas ações podem encher tudo
sob o céu e não podem despertar insatisfação nem
desgosto. Quando estas três coisas - suas vestes, suas
palavras e sua conduta - são completas como devem ser,
podem conservar seus templos ancestrais. Esta é a piedade
filial dos altos dignitários e funcionários.
No Livro de Poesia se diz:
Nunca está ocioso de dia nem de noite
A serviço do Único.
A piedade fi(ia( entre os su'a(ternos$
1. Assim como servem a seus pais também servem às suas
mães e igualmente as amam. Assim como servem a seus
pais servem aos seus governantes e igualmente os
veneram. Amor se tributa principalmente à mãe e
veneração é que principalmente se tributa ao governante,
quando estas duas coisas são cultuadas no pai. Portanto,
quando servem ao governante com piedade filial, são leais.
Quando servem aos seus superiores com veneração, são
obedientes. Por não faltarem, em sua lealdade e obediência,
aqueles a quem servem, são capazes de conservar seus
vencimentos e posições e manter seus sacrifícios. Esta é a
piedade filial dos funcionários inferiores.
No Livro da Poesia se disse:
Levantando-te cedo e indo dormir tarde,
não desonras a quem te deu o ser.
A piedade fi(ia( no 6u(+o$
1. Seguem o curso do Céu na mudança das estações,
distinguem as vantagens dos diferentes terrenos, cuidam de
sua conduta e são econômicos em seus gastos, para poder
alimentar os pais. Tal é a piedade filial no vulgo.
2. Portanto, desde o Filho do Céu até o homem comum
nunca houve ninguém cuja piedade filial carecesse de um
princípio e um fim em que não aparecesse a calamidade.
A7p(iação da virtude perfeita$
Disse o Mestre: "O ensino da piedade filial pelo homem
superior não exige que vá de família em família e veja
diariamente os membros de cada uma delas. Seu
ensinamento da piedade filial é um tributo de veneração a
todos os pais que existem sob o céu. Seu ensinamento da
submissão fraterna é um tributo de veneração a todos os
irmãos mais velhos que existem sob o céu. Seu
ensinamento do dever de um súdito é um tributo de
veneração a todos os governantes que existem sob o Céu¨.
No Livro da Poesia se disse.
O soberano feliz e cortês
É o pai do povo.
"Se não houvesse uma virtude perfeita, como poderia ser
reconhecida de modo tão geral pelo povo como de acordo
com sua natureza?¨
-&ncio (01)
O principal pensador da escola dos letrados depois de
Confúcio foi Mêncio (Mengzi, 371 - 289), que destacou-se
por suas teses inovadoras e pela profunda análise dos
conceitos confucionistas. Os pontos que mais se destacam
em sua obra são o estudo sobre a natureza humana e a
bondade inata (questão que teria que disputar com outro
confucionista, Xunzi, que acreditava na maldade inata) e a
defesa de um governo devotado às causas e necessidades
populares. Seu texto seria incluído ao Sishu (Quatro Livros)
do Canone confucionista por sua popularidade e importância
filosófica.
"xtratos
LIVRO 1 - PARTE 1
CAPÍTULO I
1. Mêncio visitou o rei Huei de Liang.
2. O rei disse: "Venerável senhor, desde que para chegardes
aqui não vos pareceu grande uma distância de mil lis, devo
presumir que vindes provido de conselhos para proveito do
meu reino?".
3. Mêncio replicou: "Porque usais, Majestade, a palavra
proveito? Aquilo de que venho provido são conselhos de
benevolência e de justiça (1) eis os meus únicos tópicos.
4. Majestade, se disserdes: "Que se há de fazer em proveito
do meu reino?" Os dignitários dirão: Que havemos de fazer
em proveito das nossas famílias?"E os subalternos, como o
povo, perguntarão: "Que convém fazer em proveito de nós
mesmos?" Superiores e inferiores procurarão tirar proveito
uns dos outros, e o reino correrá perigo. No reino de dez mil
carros, o assassino do seu soberano será o chefe duma
família de mil carros. No estado de mil carros, o assassino
do seu governante será o chefe duma família de cem carros.
Possuir mil em dez mil e cem num milhar não pode ser
considerado um quinhão mesquinho. Se, porém, se
antepuser o proveito à justiça, esses bem aquinhoados não
estarão satisfeitos, se não açambarcarem tudo.
5. Nunca se viu um homem afeito à clemência desamparar
seus pais. Nem se mencionou jamais um homem costumado
à justiça que desrespeitasse o seu soberano.
6. "Fazei igualmente, Majestade, da clemência e da justiça
os vossos únicos temas; porque falais de proveito?".
CAPÍTULO II
1. Quando, no outro dia, Mêncio viu o rei Huei de Liang,
este o conduziu à beira dum lago; e, olhando à roda de si os
veados e os gansos bravos, disse: "Acham prazer nestas
coisas os príncipes bons e sábios?"
2. Mêncio replicou: "Por serem bons e sábios é que
encontram prazer nestas coisas. Se não fossem bons e
sábios, embora as tivessem, não achariam prazer nelas".
3. O Livro de Poesia reza:
"Quando ele projetou começar a Torre Maravilhosa",
"Planeou-a e definiu-a";
"O povo em massa empreendeu a obra",
"E logo a terminou".
"Quando planeou o princípio, ele disse: "Não haja pressa".
"Mas todos acudiram, como se fossem filhos dele".
"O rei estava no Parque Maravilhoso",
"Onde dormem as corças",
"As corças nédias e lisas",
"O Parque Maravilhoso rutilante de pássaros brancos".
"O rei estava à beira do Lago Maravilhoso",
"Tão cheio de peixes saltitantes!"
O rei Wen aproveitou a energia do povo para levantar a sua
torre e fazer o seu lago; e o povo folgava de realizar a obra,
chamando à torre "Torre Maravilhosa" e ao lago: "Lago
Maravilhoso"; alegrava-se de que o rei tivesse gamos,
peixes e tartarugas. Os velhos incitavam os seus a folgarem
como eles próprios; em conseqüência, também desfrutavam
esses dons.
4. "Na Declaração de T'ang lê-se: "Ó sol, quando expirarás
tu? Nós morremos contigo". Portanto, morrendo Chieh, o
povo desejava morrer com ele. Embora tivesse a torre, o
lago, as aves, os animais, como podia ele ter satisfação,
sozinho?"
CAPÍTULO III
1. O rei Huei de Liang disse: "Apesar da minha fraca
virtude, ponho todo o empenho em governar bem o meu
reino. Se o ano for infausto em Ho, removo todas as
pessoas que posso para leste do Ho e transporto cereais
àquela região. Se o ano for mau a leste do rio, procedo,
noutra parte, de acordo com o mesmo plano. Examinando
os métodos governamentais, nos reinos vizinhos, não vejo
soberano que se esforce como eu. Contudo, a população dos
reis vizinhos não diminui; nem aumenta o meu povo. Como
é isto?"
2. Mêncio replicou: "Vós prezais a guerra, Majestade.
Permiti que vos trace um quadro da guerra. Os soldados
avançam, ao som do tambor; e, quando o gume das suas
armas se embota, eles despem as couraças, arrastam as
armas atrás de si e fogem. Alguns correm cem passos e
param; outros dão cinqüenta passos e param. Que
pensaríeis vós, se os que só andaram cinqüenta passos se
rissem dos que deram cem passos?"
O rei observou: "Eles não podem fazer isso. Os outros não
alcançaram cem passos, mas também fugiram".
"- Desde que sabeis isso, Majestade", tornou Mêncio, "não
tendes razão para esperar que o vosso povo se torne mais
numeroso do que as populações dos reinos vizinhos".
3. "Se as estações da lavoura não forem alteradas, haverá
mais trigo do que é possível comer. Se não se permitir que
se mergulhem redes espessas nas lagoas, sobrarão peixes e
tartarugas. Se a foice e o machado entrarem na floresta da
montanha, em tempo oportuno, os bosques serão mais
cerrados do que é preciso. Quando o trigo, os peixes, as
tartarugas e a madeira excedem o consumo, o povo conta
com o seu sustento e cuida de se preparar para a morte,
sem rancor contra ninguém. Mas esta condição: ter o povo o
sustento assegurado, para viver em sossego, sem
ressentimento, é o primeiro passo na senda real".
4. Plantem-se amoreiras à roda das herdades, e as pessoas
de cinqüenta anos poderão usar seda; se na criação de
aves, de cães e de porcos, não se descurarem as épocas da
procriação, as pessoas de setenta anos comerão carne.
Cultivando a tempo o campo de cem acres, a família de
várias bocas não sofrerá fome. Dedique-se escrupulosa
atenção ao ensino nas diferentes escolas, inculcando
repetidamente a noção dos deveres filial e fraternal, e não
se verão nas estradas homens grisalhos, carregando fardos
na cabeça ou aos ombros. Num estado, onde se observam
estes resultados, jamais se viram setuagenários vestindo
sedas e comendo carne, enquanto a população mais jovem
sofre fome e frio; nem houve ali governante que não
atingisse a dignidade real.
5. "Os vossos cães, os vossos porcos comem o alimento dos
homens, e vós não sabeis acumular. Morrem criaturas
humanas de fome, nas estradas; e vós não sabeis
aproveitar as vossas reservas, para lhes aliviar as
necessidades. Quando os homens morrem, dizeis: "A culpa
não é minha; são as más colheitas". Que diferença há entre
isso e apunhalar mortalmente um homem, para dizer
depois: "Não fui eu; foi a arma"? Deixai, Majestade, de
lançar a culpa às colheitas escassas, e instantaneamente
todas as criaturas que vivem debaixo do céu virão a vós.
CAPÍTULO IV
1. O rei Huei de Liang disse:
"Desejo receber sossegadamente os vossos ensinamentos".
2. Mêncio replicou: "Há diferença entre matar um homem
com um pau e matá-lo com uma espada?"
"Não há diferença", respondeu o rei.
3. Mêncio continuou: "Há diferença entre matar com a
espada e matar com medidas governamentais?"
"Não há" - replicou de novo o rei.
4. Então, Mêncio disse: "Tendes, nos vossos estábulos,
animais bem tratados; nas vossas estrebarias, os cavalos
são nédios. Mas o vosso povo parece esfomeado; e jazem
nos campos os que pereceram à míngua. Isto eqüivale a
levar os animais a devorarem os homens".
5. "Os animais se entredevoram, e isto os torna odiosos aos
olhos dos homens. Quando o que é cognominado pai do
povo orienta o seu governo, de modo que se lhe possa
atribuir a culpa de levar os animais a devorarem os homens,
onde está a relação paternal com o povo?"
6. "Chung-ni" (2) disse: "Não ficou sem posteridade o
primeiro que fez imagens de madeira, para as enterrar com
o morto?"
"O rei dizia isso, porque esse homem recortava imagens
humanas e usava-as para aquele fim".
"Que se há de pensar, então, do que deixa o seu povo
morrer de fome?"
CAPÍTULO V
1. O rei Huei de Liang disse: "Não havia no reino, como
sabeis, venerável senhor, estado mais forte do que Ch'in.
Mas, desde que ele se tornou meu vassalo, fomos
derrotados a leste por Ch'i, onde pereceu o meu filho mais
velho; no oeste, perdemos setecentos lis de território, a
favor de Ch'in; ao sul, sofremos desastres, por obra de
Ch'u. Eu desonrei os meus predecessores mortos; por amor
deles, desejo delir de vez esta vergonha. Que normas devo
seguir para alcançar o meu fim?"
2. Mêncio replicou: "Já se obteve a dignidade real apenas
com um território de cem lis quadrados".
3. "Se outorgardes realmente ao povo um governo
benévolo, Majestade, usando moderadamente os castigos e
as sanções, aliviando as taxas e as dízimas em frutos,
obtereis que os campos sejam bem lavrados e mondados,
conseguireis que os homens válidos cultivem, nos
momentos de lazer, a piedade filial, o dever fraterno, a
lealdade, a verdade, servindo portanto, em casa, os pais e
os irmãos mais velhos, e fora os mais idosos e os
superiores. Tereis então súditos que podereis empregar,
com os cajados feitos por eles, contra as fortes couraças e
as armas afiadas das tropas de Ch'in e Ch'u?
4. "Os soberanos daqueles estados tiram ao povo o seu
tempo, de modo que os súditos não podem arar e mondar
os campos, para sustentarem os seus. Os pais sofrem frio e
fome; os irmãos mais velhos e mais novos, as esposas e os
filhos separam-se e dispersam-se fora do lar".
5. "Aqueles soberanos arremessam os seus povos a
armadilhas ou arrastam-nos à água. E vós ireis castigá-los,
Majestade. Neste caso, quem se vos oporá, Senhor?".
6. "Daí deriva o provérbio; "O bom não tem inimigos".
Rogo-vos, Majestade, que não duvideis do que disse".
CAPÍTULO VI
1. Mêncio teve uma entrevista com o rei Hsiang de Liang
2. Ao sair, disse a algumas pessoas: "Quando eu o
observava de longe, ele não me parecia um soberano.
Vendo-o de perto, não notei nele nada de venerável. E ele
perguntou-me de súbito: "Como pode estabelecer-se o reino
debaixo do céu?"
3. "Eu respondi: "Estabelece-se, unindo-se sob uma
autoridade".
4. "Quem o pode unir assim?" Perguntou o rei.
5. "Quem não tiver prazer em matar os homens", repliquei
eu, "saberá uni-los assim".
6. "Quem o dará aos homens?" Tornou ele.
7. "Eu repliquei: "O que está debaixo dos céus o dará a esse
homem. Sabeis, Majestade, de que modo medra o trigo?
Durante o sétimo e o oitavo mês, quando prevalece a
estiagem, a planta seca. Depois, as nuvens se acumulam
densamente no céu e despejam torrentes de chuva; então o
trigo levanta-se de repente. Quando brota assim, quem o
poderia fazer voltar atrás? Ora, em todo o reino, entre os
que são pastores dos homens, não há um só que não folgue
de matar os seus semelhantes. Se houver um que tenha
prazer nisso, todos os seres, sob o céu, cravarão os olhos
nele. Assim sendo, os homens o procurarão, como a água
desce impetuosamente, rio abaixo, com uma violência que
ninguém pode reprimir".
CAPÍTULO VII
1. O rei Hsüan de Ch'i perguntou: "Posso ser informado por
vós das transações de Huan de Ch'i e Wen de Chin?"
2. Mêncio replicou: "Nenhum dos discípulos de Chung-ni
tratou dos feitos de Huan e Wen; em conseqüência, eles não
foram transmitidos aos pósteros; este vosso servo não
ouviu falar deles. Se desejardes ouvir-me, deixe-me
discorrer sobre os princípios adequados para atingir a
autoridade real".
3. Disse o rei: "De que espécie devem ser as virtudes do
que pode atingir a dignidade real?"
"Se ele amar e proteger o povo," respondeu Mêncio, "é
impossível obstar a que ele a alcance".
4. "Um pobre mortal como eu" tornou o rei, "é competente
para amar e proteger o povo ?" "Sim".
"Como sabeis que sou competente para isso?"
"Ouvi Hu Heh contar o episódio seguinte", replicou Mêncio.
"O rei", disse ele, "estava sentado no terraço, quando
apareceram alguns indivíduos, em baixo, guiando um touro.
O soberano viu-os e perguntou aonde levavam o animal.
Responderam-lhe: "Vamos consagrar um sino com o sangue
dele". "Soltem esse touro", tornou o rei; "não lhe posso ver
a cara assustada de criatura inocente, arrastada ao
matadouro. "Os outros perguntaram-lhe, então, se deviam
desistir de consagrar o sino. O rei, porém, replicou: "Como
é possível? Troquem o touro por um carneiro". Não sei se
este episódio aconteceu realmente".
5. "Aconteceu", confirmou o rei.
E Mêncio replicou: "A bondade, que transparece nesse
gesto, é suficiente para elevar-vos à dignidade real. O povo
supôs que vós recusáveis o touro; mas os vossos servidores
sabiam com certeza, Majestade, que não podíeis suportar a
vista do sofrimento dum ser vivo, e que isso vos induziu a
fazer o que fizeste".
6. "Tendes razão", disse o rei. "Contudo, houve realmente
uma aparência do que o povo imaginou. Mas embora Ch'i
seja estreito e pequeno, como podia eu negar um touro?
Foi, em verdade, porque não pude resistir ao terror dele, ao
seu aspecto de criatura inocente, enviada ao matadouro,
que o substitui por um carneiro".
7. Disse Mêncio: "Não estranheis, Majestade, se o povo
julgou que lhe negáveis o touro. Vendo-vos trocar um
animal grande por outro menor, como podiam os vossos
súditos adivinhar o motivo? Se tínheis pena de ver um ser
vivo, enviado sem culpa ao matadouro, porque escolhíeis
entre um touro e um carneiro?"
O rei riu-se e observou:
"Em que pensava eu, na verdade? Não regateava o valor do
touro; contudo, mandei substitui-lo por um carneiro. O povo
tinha razão, em dizer que mostrei má vontade".
8. "Não há mal em que eles digam isso, retorquiu Mêncio.
"Foi um artifício da clemência. Vós vistes o touro e não
vistes o carneiro. Assim, o homem superior tem tamanho
interesse aos animais que, se os vir vivos, não conseguirá
comer-lhes a carne. Por este motivo, conserva-se afastado
do estábulo e da cozinha.
9. O rei mostrou-se satisfeito e tornou:
"A Ode (3) diz":
"Graças à reflexão, posso avaliar".
"O que os outros homens têm na mente".
"Isto poderia ser-nos aplicado, Mestre. Pratiquei aquele ato;
mas, meditando-o, não percebi o meu próprio intuito.
Quando pronunciastes essas palavras, Mestre, os
movimentos da compaixão começaram a lavrar em mim.
Como pode, porém, este ato de bondade equivaler à
consecução da dignidade real?"
10. "Suponde, senhor," disse Mêncio, "que um homem vos
declare: "A minha força é suficiente para levantar três mil
"catty" (4), mas insuficiente para erguer uma pena; a minha
vista é bastante aguçada para examinar a ponta dum
cabelo; contudo, não vejo um carregamento de lenha";
acreditaríeis no que ele diz, Majestade?"
"Não", replicou o rei.
"Ora", continuou Mêncio, "no nosso episódio, há bondade
suficiente para poupar os animais; todavia os benefícios
dessa bondade não se estendem ao povo. Como é isto?
Trata-se acaso duma exceção? A verdade é que não se
ergue a pena, porque não se empregou a força; não se viu a
carroçada de lenha, porque não se exerceu a visão; e o
povo não é amado e protegido, porque não se usou a
bondade. Logo, Majestade, não atingis a dignidade real,
porque não vos empenhais em alcançá-la, e não porque
sejais inepto para a conseguir".
11. "Como se pode exemplificar a diferença entre o que não
faz uma coisa e o que é incapaz de fazê-la?" perguntou o
rei.
E Mêncio replicou: "Suponhamos que quisésseis levar a
montanha de T'ai debaixo do braço, para atravessardes com
ela o mar setentrional; se disserdes ao povo: "Não sou
capaz de fazer isto, a vossa incapacidade tem um motivo
real. Se um superior vos mandar quebrar um galho de
árvore, e vós disserdes ao povo: "Não sou capaz de fazer
isto", não será um caso de incapacidade. Do mesmo modo,
Majestade, não é o caso de carregar a montanha de T'ai que
vos inibe de atingir a dignidade real, e sim o de quebrar o
galho duma árvore.
12. "Tratai com o respeito devido à velhice os anciãos da
vossa família, para que nas demais famílias os velhos sejam
tratados da mesma maneira. Dispensai a bondade devida à
juventude aos moços da vossa família, para que os das
outras famílias recebam o mesmo tratamento. Procedei
assim, e o reino girará em torno da palma da vossa mão.
Lê-se no Livro de Poesia":
"O seu exemplo agiu na esposa",
"Estendeu-se aos irmãos",
"E foi sentido em todos os clãs e estados".
"Daí vemos que o rei Wen era espontaneamente
magnânimo e estendia a sua bondade aquelas partes do seu
reino. Logo, a manifestação da grandeza de alma dum
soberano bastará para garantir amor e proteção a tudo o
que abrangem os quatro mares; e, se ele não a exercer,
não será apto para proteger a sua esposa e os seus filhos. O
modo como os antigos conseguiam sobressair dentre os
seus semelhantes não era senão agir escrupulosamente
segundo o bem, granjeando assim o interesse alheio. Ora, a
vossa bondade basta para alcançar os animais; todavia, os
seus benefícios não se estendem aos homens. Como é isto?
Trata-se, acaso, duma exceção?".
13. "A pesagem habilita-nos a distinguir os corpos leves dos
pesados; a medida nos dá idéia das extensões longas e
curtas. Todas as coisas podem ser tratadas por esse
método, e o bom senso requer particularmente que seja
assim. Valei-vos Majestade, desse meio de avaliação".
14. "Vós acumulais os vossos equipamentos de guerra,
Majestade, arriscais o vosso exército e provocais os
ressentimentos dos vários príncipes. Parece-vos que essas
coisas vos possam causar prazer".
15. O rei disse: "Não. Como poderia eu haurir satisfação de
tais coisas? O meu objetivo, é procurar, por meio delas, o
que desejo intensamente".
16. "Posso ouvir, Senhor, o que desejais intensamente?"
O rei sorriu e não respondeu.
"Ambicionais acaso", continuou Mêncio, "porque não tendes
suficiente riqueza ou iguarias para a vossa boca? Ou porque
vos faltem luz e calor para o vosso corpo? Ou careceis de
coisas belas e coloridas, para vos alegrarem os olhos? Ou
não contais bastantes servos e favoritas para vos rodearem
e receberem as vossas ordens? Os vossos funcionários,
Majestade, bastam para vos suprirem de todas essas coisas.
Como podeis ter semelhante desejo por causa deles?"
"Não" disse o rei; "o meu desejo não lhes concerne".
"Então", observou Mêncio, "é fácil adivinhar o que desejais
intensamente, Majestade. Aspirais a dilatar os vossos
territórios, a ter Ch'in e Ch'u por vassalos, a governar os
estados centrais, a atrair para vós as tribos bárbaras que os
cercam. Mas agirdes, como fazeis, à procura do que
desejais, é como trepar numa árvore, em busca de peixe".
17. "Será tão mau assim?" Redargüiu o rei.
"Temo que seja pior", foi a resposta. Se subirdes a uma
árvore à procura de peixe, embora não o encontreis, não
sofrereis outras calamidades. Se, porém, procederdes, como
tendes feito, para encontrar o que desejais, empenhando-
vos de coração, ides sem dúvida, ao encontro de desastres.
"Posso saber", perguntou o rei, "quais serão estes?"
Replicou Mêncio: "Se o povo de Tsou lutasse com o de Ch'u,
qual dos dois, na opinião de Vossa Majestade, seria o
vencedor?"
"Venceria o povo de Ch'u", respondeu o rei.
"Em conseqüência", prosseguiu Mêncio, "um estado
pequeno não pode contender com um grande; poucos não
podem lutar com muitos; nem pode o fraco afrontar o forte.
O território entre os mares abrange nove divisões, cada qual
de mil lis quadrados. Ch'i é uma delas. Se, com uma das
partes, tentardes subjugar as outras oito, qual é a diferença
entre isso e a contenda de Tsou e Ch'u? Dado o vosso
desejo, para o atingirdes deveis seguir caminho inverso".
18. "Ora, Majestade, se instaurardes um governo de efeito
benigno, inculcareis em todos os funcionários do reino o
desejo de viver nos vossos domínios; os mercadores
ambulantes e estáveis quererão vender os seus produtos
nos vossos domínios; os mercadores ambulantes e estáveis
quererão vender os seus produtos nos vossos mercados; os
forasteiros e viandantes desejarão percorrer vossas
estradas; e todos os seres opressos pelos seus soberanos
sentir-se-ão impelidos a queixar-se a Vossa Majestade.
Quando os dominar esse pendor, quem os fará voltarem
atrás?"
19. "Sou tão obtuso", observou o rei, "que não consigo
perceber isso. Mas desejo. Mestre, que me assistais nas
minhas intenções. Ensinai-me claramente; e, embora me
faltem inteligência e forças, folgarei de instaurar enfim um
governo desse feitio".
20. Mêncio replicou: "Só os homens cultos sabem conservar
o ânimo firme, se bem que não tenham a subsistência certa.
O povo, pelo contrário, se lhe faltar o sustento, não há o
que não faça, na senda do desânimo, da transgressão
moral, da depravação, do desregramento. E, depois que os
homens se desgarraram e espojaram no crime, a punição é
privá-los da liberdade. Como pode tal sistema ser aplicado,
sob o governo dum homem clemente?".
21. "Em conseqüência, o soberano perspicaz deve
regularizar a subsistência do seu povo, assegurando-lhe em
primeiro lugar o bastante para manter os pais;
secundariamente, o necessário para a esposa e os filhos;
cumpre fazer que, nos anos de fartura, todos sejam
supridos com abundância e que, nos anos de carestia, não
se exponham ao risco de perecer. Agindo assim, o rei
poderá mostrar-se exigente, que os súditos procederão de
acordo com o bem e obedecerão, sem vacilar".
22. "Agora, porém, a subsistência dos súditos está regulada
de tal modo, que em primeiro lugar, eles carecem de meios
de servirem seus pais, secundariamente, falta-lhes o
necessário para manterem a esposa e os filhos; nos próprios
anos de fartura, vivem amargurados; e, nos anos de
carestia, correm perigo de sucumbir. Em tais circunstâncias,
o seu único objetivo é escapar à morte; e eles vivem no
receio de não o conseguirem... Que tempo lhes sobra para
cultivarem a propriedade e a justiça?".
23. "Se desejais, Majestade, exercer um governo benigno,
porque não voltais ao que é o passo essencial para o
conseguir?".
24. "Plantem-se amoreiras nas herdades de cinco acres, e
as pessoas de cinqüenta anos usarão seda. Se não se
descurar a criação das aves, dos porcos e dos cães, as
pessoas de setenta anos poderão comer carne. Cultivando o
campo de cem acres, família de oito bocas não sofrerá
privações. Ensine-se escrupulosamente, nas várias escolas,
insistindo em inculcar os deveres filiais e fraternal, e não se
verão homens grisalhos, nas estradas, carregando fardos na
cabeça ou aos ombros. Nos estados onde se alcançaram
esses fins, nunca se viram velhos usando sedas e nutrindo-
se de carne, enquanto os moços sofrem fome e frio; nem
houve governante que não atingisse a dignidade real".
LIVRO 1 - PARTE - II
CAPÍTULO 1
1. Indo visitar Mêncio, Chuang Pao disse-lhe: "Obtive uma
audiência do rei. Sua Majestade falou-me do seu amor à
música, e eu não estava preparado a responder-lhe. Que
direis vós sobre o amor da música?"
"Se o rei prezasse deveras a música", disse Mêncio, "o reino
de Ch'i estaria na iminência de ser bem governado".
2. Noutra ocasião, Mêncio obteve audiência do soberano e
disse: "O funcionário Chuang falou-me do vosso amor da
música, Majestade. É deveras tão grande?"
O soberano mudou de cor e respondeu:
"Sou incapaz de prezar a música dos antigos reis. Gosto
apenas da que se adapta aos usos do nosso tempo".
3. Mêncio replicou: "Se o vosso amor da música, Majestade,
for deveras grande, creio que Ch'i, está na iminência de ser
bem governado. Para este efeito, a música atual equivale à
música da Antigüidade".
4. Tornou o rei: "Posso ter uma prova do que dizeis?"
"Que é mais agradável?" Respondeu-lhe o seu interlocutor.
"Ouvirdes música sozinho ou em companhia de outrem?"
"Em companhia de outrem", respondeu o rei.
5. "Permitis, Senhor", prosseguiu Mêncio, que o vosso servo
vos fale de música?
6. "Admitamos, Majestade, que tenhais música aqui. O povo
ouve o som dos vossos tímpanos e tambores, as notas dos
vossos pífaros e flautas; e todos, com a cabeça dorida,
contraindo os sobrolhos, comentam: "O nosso soberano
gosta de música; mas porque nos reduz a esta extrema
penúria? Os pais não vêem os filhos; os irmãos mais velhos,
as esposas, as crianças separam-se e dispersam-se fora do
lar".
"Depois estareis caçando. Majestade. O povo escuta o fragor
das carruagens e da cavalgada; vê a beleza das vossas
plumas e galhardetes. E todos observam, tristes e amuados:
"Como o nosso rei preza a caça! Mas porque nos reduz a
esta miséria? Os pais separados da prole; os irmãos, as
esposas, os filhos, dispersos fora do lar". E esse azedume
não tem outra causa senão que vós não outorgais ao povo a
oportunidade de folgar como vós.
7. "Agora, suponhamos que tenhais música aqui, Senhor.
Ouvindo os sons dos vossos instrumentos, todos exclamam,
satisfeitos, trocando olhares alegres: "Ao que parece, o
nosso rei está livre de tristezas! Que linda música nos faz
ouvir!" Ou estais caçando, Majestade; o povo admira a
pompa da vossa comitiva; e os vossos súditos dizem,
contentes: "Ao que parece. O nosso rei não tem
preocupações. Como sabe caçar!" E isto, só porque permitis
que o povo participe dos vossos passatempos.
8. "Se vos divertirdes em comum, com o vosso povo, a
dignidade real aguarda-vos".
CAPÍTULO II
1. O rei Hsüan de Ch'i perguntou: "É verdade que o parque
do rei Wen media setenta lis quadrados?"
"Assim está nos Anais", respondeu Mêncio.
2. "Era, pois, tão vasto?" Tornou o rei.
"O povo ainda o julgava pequeno", replicou Mêncio.
"O meu parque", ponderou o soberano, "abrange só
quarenta lis quadrados e o povo o considera grande. Como
é isto?"
"O parque do rei Wen media setenta lis quadrados: mas os
jardineiros, os lenhadores tinham o privilégio de freqüentá-
lo, juntamente com os caçadores de faisões e de lebres. O
rei partilhava-o com o novo; não era com razão que o
achavam estreito?"
3. "A primeira vez que cheguei às vossas fronteiras, antes
de aventurar-me na região, informei-me acerca das grandes
ordenações proibitórias; soube assim que, além dos portões
da divisa, havia um parque de quarenta lis quadrados, e
quem abatesse nele, um gamo, grande ou pequeno,
incorreria em crime equivalente ao de matar um homem.
Em conseqüência, esses quarenta lis quadrados são uma
armadilha, no meio do reino. Não é com razão que o povo a
considera vasta?"
CAPÍTULO VII
1. Por ocasião da sua visita ao rei Hsüan de Ch'i, Mêncio
disse ao soberano:
"Quando os homens falam dum "reino antigo", não aludem
a uma terra de árvores altas, mas a uma nação que, desde
gerações, conte ministros de estirpes ilustres. Vós,
Majestade, não tendes intimidade com os vossos. Os que
promovestes ontem foram-se hoje, e vós nem o sabeis".
2. "Como hei-de saber se são ineptos?" Indagou o rei. "E
como posso abster-me de empregá-los?"
3. Mêncio respondeu: "Só em caso de necessidade, um
soberano nomeia, para um cargo, novos funcionários de
talentos e virtude. Se, em razão disso, pode o medíocre
sobrepujar o homem digno de estima e os estranhos
suplantarem os parentes, não deve o rei proceder com
cautela?".
4. "Embora todos os que vos cercam digam de alguém: "É
homem de talento e virtude", não os acrediteis
imediatamente. Ainda que os vossos dignitários afirmem:
"Ele é homem de talento e virtude", não lhes deis ouvidos,
sem refletir. Quando todo o vosso povo clamar: "Eis um
homem de talento e virtude", examinai o caráter desse
homem; se achardes que é de fato o que o proclamam,
empregai-o. Se todos os que vos rodeiam disserem: "Ele
não satisfaz", não os escuteis. Se os vossos dignitários
sustentarem: "Ele não satisfaz", não os escuteis igualmente.
Se todo o vosso povo opinar: "Ele não satisfaz", então
examinai o caráter desse homem; e, se averiguardes que
não satisfaz, dispensai-o, Senhor.
5. "Se os que vos cercam disserem: "Esse homem merece a
morte", não lhes deis ouvido. Se os vossos dignitários
repetirem: "Esse homem merece a morte, "também não os
escuteis. Se todo o vosso povo bradar: "Esse homem
merece a morte", examinai o caso; e, se vos persuadirdes
de que o homem merece a morte, condenai-o. É por isso
que temos a sentença: "O povo o leva à morte".
6. "Procedei assim, e seras o pai do povo".
CAPÍTULO VIII
1. O rei Hsüan de Ch'i perguntou: "É exato que T'ang baniu
Chieh, e o rei Wu executou Chou?"
"Assim rezam os Anais", respondeu Mêncio.
2. "Pode um súdito condenar à morte o seu soberano?"
Inquiriu o rei.
3. "O que ultrajar a clemência, chama-se bandido" (5),
replicou Mêncio. "O que ofende a justiça faz jus ao título de
celerado. É ao indivíduo que chamamos bandido e celerado.
Sei da eliminação do indivíduo Chou (6); no seu caso, não
ouvi dizer que se condenara à morte um soberano".
CAPÍTULO X
1. O povo de Ch'i atacou e conquistou Yen.
2. O rei Hsüan perguntou: "Uns aconselham-me a não
tomar posse de Yen; outros alvitram o contrário. Realmente,
o fato dum reino de dez mil carros haver atacado outro do
mesmo poder, consumando a conquista, em cinqüenta dias,
é façanha superior à mera força humana. Se eu não me
apossar de Yen, as calamidades do Céu descerão, sem
dúvida, sobre mim. Que vos parece?"
3. Mêncio replicou: "Se o povo de Yen concordar em que vos
assenhoreeis dele, tomai posse da região. Houve, entre os
antepassados, quem procedesse assim, especialmente o rei
We".
4. "Se, com o poder do vosso reino de dez mil carros,
atacastes outro reino da mesma força, e o seu povo vem ao
encontro do exército de Vossa Majestade, com cestos de
arroz e cumprimentos, que razão o pode mover, senão a
esperança de escapar ao fogo e à água? Se tomardes a
água mais funda (7), e o fogo mais violento, eles farão em
troca outra revolução".
CAPÍTULO XI
1. Como o povo de Ch'i acometeu e tomou Yen, os outros
príncipes propuseram tomar as medidas necessárias para
libertar Yen. E disse o rei Hsüan: "Desde que numerosos
príncipes projetam atacar-me, como devo preparar-me para
isso?"
Mêncio replicou: "Sei de alguém que, com setenta lis, ditava
ao reino inteiro; nunca, porém, ouvi dizer que um soberano
com mil lis tivesse medo de outros".
2. O Livro de História diz: "Quando T'ang iniciou a sua obra
de punição, deu-lhe princípio com Ko. Todos confiavam nele.
Quando a obra se estendeu ao leste, as tribos selvagens do
oeste murmuraram. Quando foi a vez do sul, as do norte
murmuraram: "Por que nos deixa ele para o fim ?"
reclamaram todos. E o povo fitava os olhos nele, como em
períodos de forte estiagem se espreitam as nuvens e o arco-
íris. Os freqüentadores dos mercados não paravam; os
lavradores não faziam barganhas. Ao mesmo tempo que
eliminava os soberanos, T'ang confortava o povo. A sua
passagem era como chuva benfazeja, e todos alegravam-se.
Lê-se ainda no Livro de História: "Esperávamos há muito o
nosso príncipe; a sua chegada é a nossa ressurreição".
3. "Ora, o soberano de Yen tiranizava o seu povo e vós,
Majestade, o puniste. O povo supôs que o íeis livrar da água
e do fogo, e correu ao encontro das hostes de Vossa
Majestade com cestos de arroz e cumprimentos. Mas vós lhe
matastes os pais e os irmãos mais velhos, agrilhoastes os
filhos e os irmãos mais novos. Arrasastes o templo ancestral
dos soberanos, e mandastes despojá-lo dos seus vasos
preciosos. Como se pode admitir tal sistema? Já antes, os
outros estados do reino temiam o poder de Ch'i; agora, que
dobrastes o vosso território, se não governardes com
clemência, o reino se erguerá em armas contra vós".
4. "Se vos apressardes a publicar um decreto, alforriando os
cativos jovens e velhos, e sustando a remoção dos vasos
sacros, se consultardes o povo de Yen e, de acordo com ele,
lhe escolherdes um novo soberano, retirando-vos em
seguida da região, ainda podeis conjurar o ataque
ameaçado".
CAPÍTULO XII
1. Ocorreu uma escaramuça entre algumas tropas de Tsou e
de Lu; referindo-se a essa peleja, perguntou o duque Mu:
"Tombaram trinta e três dos meus oficiais e nenhum plebeu
quis morrer em defesa deles. Se eu tiver de condenar à
morte, é impossível estender a minha ação a tamanho
número; se eu não pronunciar a sentença, ficará impune o
crime de assistir o povo, com olhos malévolos, à morte dos
seus oficiais, sem os salvar. Como convém afrontar as
exigências do caso?"
2. Replicou Mêncio: "Em anos de calamidades e anos de
carestia, os velhos encontrados, exânimes, nos valos e nos
canais e os homens válidos dispersos aos quatro ventos,
subiram a milhares. Entretanto, ó príncipe, os vossos
celeiros transbordavam de arroz e d'outros cereais; as
vossas tesourarias e arsenais estavam repletos; mas
nenhum dos vossos oficiais vos informou da penúria. Bem
negligentes e cruéis com os inferiores têm sido, no vosso
Estado. Os superiores! O filósofo Tseng diz: "Cuidado!
Cuidado! O que vem de vós a vós reverte". Afinal, o povo
teve a oportunidade de retribuir-lhes o procedimento. Não o
censureis, ó príncipe.
3. "Se praticásseis um governo benigno, o povo prezaria
acima de tudo os seus oficiais e morreria por eles".
LIVRO II - PARTE I
CAPÍTULO VI
1. Disse Mêncio: "Todos os homens são dotados dum
coração (8) que não suporta a vista dos sofrimentos
alheios".
2. "Os antigos reis tinham esse senso da compaixão e
exerceram assim um governo magnânimo (9). Quando, com
um coração compassivo, se pratica um governo magnânimo,
instaurar a ordem, debaixo do céu, é tão fácil como fazer
girar um pequeno objeto na palma da mão".
3. "O princípio em que me baseio, para dizer que todos os
homens são dotados dum coração, que não suporta a vista
da dor alheia, é este: "Ainda hoje, quando vêem de súbito
uma criança prestes a cair num poço, os homens
experimentam um sentimento de alarma e de dó. Não o
sentem, porque possam granjear assim as boas graças dos
pais nem porque aspirem ao louvor dos seus vizinhos e
amigos, ou por desdém da reputação de ser indiferente a
semelhante coisa (10).
4. "Considerando positivamente este caso, veremos que
carecer desse senso da aflição não é humano, como não é
humano ser destituído do senso da vergonha e do desdém,
do senso da modéstia e da condescendência, do senso da
aprovação e da reprovação (11)".
5. "O sentimento de angústia é o princípio de clemência; o
senso da vergonha é o princípio de justiça; o senso da
modéstia, e da condescendência é o princípio da correção; e
o senso de aprovação e reprovação é o princípio de
discernimento".
6. "Os homens são dotados destes quatro princípios,
exatamente como têm, de nascença, quatro membros.
Quando os homens dotados desses quatro princípios dizem
de si próprios que não podem manifestá-los, defraudam-se
(12) a si mesmos; e quem o disser do seu soberano, ultraja
o seu soberano".
7. "Desde que todos nós somos dotados desses quatro
princípios, cumpre-nos desenvolvê-los e aperfeiçoá-los; e o
resultado será como o do fogo que principiou a arder ou o
da fonte que começou a jorrar. Deixemo-los chegarem ao
pleno desenvolvimento, e eles serão suficientes para amar e
proteger tudo, no âmbito dos quatro mares; se lhes
negarmos este desenvolvimento, não bastarão para fazer
que um homem ampare seus pais".
LIVRO II - PARTE II
CAPÍTULO I
1. Disse Mêncio; "As oportunidades de tempo, outorgadas
pelos Céus, não igualam as vantagens de situação
oferecidas pela terra; e as vantagens de situação,
proporcionadas pela terra, não equivalem à força que deriva
da concórdia dos homens (13)".
2. "Imaginemos uma cidade, com um muro interior de três
lis de circunferência e outra muralha de sete lis. O inimigo
põe-lhe assédio e ataca-a; não consegue toma-la. Ora, para
a sitiar e atacar, o Céu deve ter outorgado ao agressor
oportunidade de tempo; neste caso, se ele não conquistou a
cidade, é que as oportunidades de tempo, concedidas pelo
Céu, não igualam as vantagens de situação, oferecidas pela
terra".
3. "Consideremos outra cidade de muros altos, rodeada de
fossos tão fundos quanto se pode desejar, uma cidade onde
as armas e as cotas de malha dos defensores se distinguem
pela resistência e pelo gume cortante, onde os celeiros
transbordam de arroz e trigo. Contudo, esta cidade
capitulou e foi abandonada - isto, porque as vantagens de
situação, oferecidas pela terra, não equivalem à força que
deriva da concórdia dos homens".
4. "De acordo com estes princípios, foi dito: "A coesão dum
povo não depende dos limites de diques e fronteiras; um
estado não é garantido pela força das montanhas e dos
cursos d'água; o reino não se faz respeitar pelo fio aguçado
das suas armas, pela resistência das cotas de malha dos
seus defensores. O que encontra o caminho certo (14) há de
ter muitos a assistí-lo; o que se extraviar terá poucos
assistentes. Quando esta última condição chegar ao
extremo, os próprios parentes e familiares do rei sublevam-
se contra ele. E, quando se elevar ao máximo a condição de
ser assistido por muitos, tudo o que está sob os Céus
obedece ao soberano".
5. "Quando o soberano, a quem tudo o que está debaixo dos
Céus se dispõe a obedecer, pelejar com o soberano contra
quem se insurgem os próprios parentes e familiares, qual
será o resultado? Por isto, o verdadeiro soberano prefere
não guerrear; contudo, se tiver de combater, está certo da
vitória".
LIVRO III - PARTE I
CAPÍTULO III
13. O duque Wen de T'eng enviou Pi Chan informar-se
acerca do sistema dos nove quadrados (15).
Disse-lhe Mêncio: "Desde que o vosso soberano, desejando
pôr em prática um governo benigno, vos escolheu e confiou-
vos este encargo, deveis usar de todo o vosso empenho. O
governo clemente deve começar pela definição das
fronteiras. Se elas não forem demarcadas cuidadosamente,
a divisão do território em quadrados não seria exata, e a
produção aproveitável para os salários não seria distribuída
com equidade. Eis porque os soberanos opressores e os
ministros impuros descuram invariavelmente a demarcação
dos limites. Quando estes são definidos corretamente, a
divisão dos campos e a regulamentação dos salários são
fáceis de determinar".
14. "Embora o território de T'eng seja estreito e reduzido,
devem existir neles homens de categoria superior e
camponeses. Se não houvesse indivíduos de classe elevada,
não haveria quem governasse os lavradores; se faltassem
os lavradores, não haveria quem sustentasse os homens de
categoria superior.
15. "Aconselho-vos a observar, em distritos puramente
rurais, a divisão em nove quadrados, um deles cultivado
pelo sistema do auxílio mútuo; nas terras centrais do
Estado, instituí-se uma dízima a ser paga pelos próprios
lavradores (16)".
16. "A partir dos supremos dignitários, tenha cada qual o
seu campo santo (17) de cinqüenta acres".
17. "Os extranumerários masculinos recebam os seus vinte
e cinco acres".
18. "Em ocasiões de morte ou de mudança, não haja
necessidade de sair do distrito. Nos campos de cada um
deles, os que pertencem aos mesmos nove quadrados
oferecerão espontaneamente o seu préstimo uns aos
outros; deverão ajudar-se mutuamente na vigilância e na
guarda; e serão obrigados a sustentarem-se uns aos outros,
em períodos de doença".
19. "Um li quadrado abrange nove quadrados de terra, e
estes por sua vez contém novecentos acres. O quadrado
central consta dos campos públicos; oito famílias, cada qual
provida de cem acres, o cultivam juntas. E só depois de
realizada a tarefa comum, poderão cuidar dos seus campos
privados. É por este meio que os camponeses se diferençam
dos homens de categoria superior.
20. "Eis o esboço geral do sistema. Cabe ao vosso soberano
e a vós modificá-lo e adaptá-lo com acerto".
LIVRO III - PARTE II
CAPÍTULO VIII
1 . Tai Ying - chie disse a Mêncio: "Não posso instituir já a
dízima e suprimir ao mesmo tempo os impostos nas
barreiras e nos mercados. Com vossa licença, pretendo
minorar todas as taxas extraordinárias atuais, até ao ano
vindouro, quando as abolirei. Que vos parece esta
resolução?"
2. Respondeu Mêncio: "Há um homem que todos os dias se
apropria das aves dos vizinhos, extraviadas nas suas
terras". Alguém lhe disse: "Isso não são modos dum homem
de bem". E ele retrucou: "Com vossa licença, eu diminuirei
as apropriações; apanharei só uma ave por mês, até ao ano
vindouro; então, acabarei com este sistema".
3. "Se reconheceis que o método é injusto, abandonai-o
imediatamente, Senhor. Porque haveis de esperar até ao
ano vindouro?"
CAPÍTULO X
1. K'uang Chang disse a Mêncio: "Não é Ch'en Chung um
homem puro e abnegado? Ele vivia em Wu- ling; passou
três dias sem alimentos, a ponto de não ouvir nem ver. À
beira dum poço, crescia uma ameixeira, de cujos galhos
pendia um fruto meio devorado pelos vermes. Ch'en Chung
trepou na árvore, procurou comer algumas ameixas e, ao
cabo de três bocados, recobrou a vista e o ouvido".
2. "Entre os eruditos de Ch'i" respondeu Mêncio, "Chung é
para mim como o polegar entre os dedos. Mas, assim
mesmo, como se lhe pode atribuir pureza e abnegação?
Aplicando os princípios que ele professa, cada um de nós se
tornaria um verme da terra".
3. "Ora, um verme da terra come barro seco e bebe água
turva. A casa onde vive Chung foi edificada por um "poyi"
ou por um salteador como Cheh? O trigo, de que ele se
nutre, foi semeado por um "poyi" ou por um ladrão como
Cheh? Eis o que não é possível saber".
4. "Mas, que importa?" Insistiu Chang. "Ele calça sandálias
trançadas de cânhamo; a mulher fia o cânhamo e troca-o
por outras coisas".
5. "Chung pertence a uma antiga e nobre família de Ch'i",
acrescentou Mêncio.
"Seu irmão mais velho recebeu de Kai uma renda de dez mil
"chungs"; todavia, Ch'an considerava esses emolumentos
injustos e não queria morar naquele sítio. Evitando o irmão
e abandonando a mãe, mudou-se para Wu- ling. Ao cabo
dum dia, voltou a casa da mãe e do irmão; sucedeu que
este recebera de presente um ganso. "Que pretendeis fazer
dessa coisa cacarejante?" perguntou Chung, de sobrecenho
franzido. Logo depois, a mãe matou o ganso e serviu parte
dele a Chung. Nesse momento, entrou o irmão, e observou:
"É carne da coisa cacarejante". Ouvindo-o, Chung saiu e
vomitou o que acabava de comer.
6. "Assim, ele rejeitou o que lhe dava a mãe, mas come o
que lhe dá a esposa. Não quer alojar-se em casa do irmão;
entretanto, mora em Wu - ling. Como pode, em tais
condições, aperfeiçoar o estilo da vida que professa?
Adotando os princípios de Chung, e para os pôr em prática,
o homem teria de se tornar um verme da terra
_______________________
(1) "Amor e justiça" seriam interpretação mais adequada: a
tradução acima é a de Legge. Giles traduz esses termos, em
Chuangtsé, por "dever" e "caridade".
(2) Nome pessoal de Confúcio.
(3) Livro de Poesia.
(4) Peso chinês.
(5) Tsei - ladrão.
(6) O último imperador tirano de Shang.
(7) Água funda: penúria, desgraça.
(8) Ou simplesmente: "um coração misericordioso".
(9) Um governo de clemência.
(10) Baseado no conceito menciano de bondade inato da
natureza humana.
(11) Leia-se: "O que não tem um coração misericordioso
não é um homem; e não é um homem quem for destituído
do senso do pudor, da cortesia, da consideração para com
outrem; não é um homem quem não possuir o senso do
bem e do mal".
(12) Preferivelmente: "injuriam-se".
(13) Mêncio é mais conciso: "O tempo é menos importante
do que o terreno: o terreno é menos importante do que a
unidade moral do povo".
(14) Tao - a verdadeira doutrina.
(15) O antigo sistema agrícola comunal de dividir um lote
em nove quadrados iguais, sendo do centro a fazenda do
governo.
(16) Leia-se: "Nos confins da cidade, onde a terra não pode
ser dividida em nove quadrados, imponha-se uma dízima
calculada pelos contribuintes".
(17) Para oferecer sacrifícios.
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LIVRO IV - PARTE I
CAPÍTULO VII
1. Disse Mêncio: "Quando prevalece no reino o governo
justo, os príncipes de pouco valor e virtude mostram-se
submissos aos de grandes predicados e de subido valor.
Quando predomina o mau governo, os pequenos são
sujeitos aos grandes, os fracos servem os fortes (18)".
"Estes dois casos são lei do Céu. Os que se harmonizam
com o Céu são poupados; os que se rebelam contra o Céu
têm de perecer".
CAPÍTULO VIII
4. "O homem despreza-se a si mesmo, antes que outrem o
despreze. Uma família desagrega-se por si mesma e depois
os outros a desunem. Um estado aniquila-se a si mesmo;
depois os outros o destruirão".
5. "Ilustra estas asserções esta passagem de T'ai - chia: "As
calamidades enviadas pelo céu podem ser evitadas: mas,
quando nós acarretamos calamidades a nós mesmos, não é
possível viver".
CAPÍTULO IX
1. Disse Mêncio: "Chieh e Chou (19) perderam o reino, em
conseqüência de haverem perdido o povo; perder o povo
significa perder o amor dos súditos. Há um modo de
conquistar o reino: conquiste-se o povo, e o reino está
ganho. Há um meio de conquistar o povo: cative-se o
coração popular, e o povo está adquirido. Há maneira de
cativar o coração do povo: é simplesmente oferecer-lhe o
que ele deseja e não lhe impor o que detesta".
2. "O povo volta-se para um soberano clemente, como a
correnteza desce o rio, e os animais ferozes correm para as
selvas".
3. "Assim como a lontra favorece as águas profundas,
atraindo os peixes para elas, e o falcão favorece as matas,
chamando para elas os passarinhos, assim Chieh e Chou
auxiliam T'ang e Wu, encaminhando o povo para estes".
4. "Se entre os atuais soberanos do reino houver um que
preze a clemência, todos os outros príncipes o ajudarão,
encaminhando o povo para ele. E embora esse rei não
deseje exercer a autoridade real, não a poderá evitar".
CAPÍTULO XIV
1. Disse Mêncio: "Ch'in exercia as funções de primeiro
oficial, à frente da família de Chi, cujos sistemas
condenáveis não logrou mudar, enquanto extorquia ao povo
uma dízima em trigo, equivalente ao dobro da taxa anterior.
Confúcio disse: "Ele não é meu discípulo. Filhos, rufai o
tambor e atacai-o".
2. Examinando este caso, percebemos que, se um rei não
exercia um governo benigno, todos os ministros que o
enriqueciam eram renegados por Confúcio. Muito mais
repudiaria ele os que se atiram impetuosamente à luta, pelo
seu soberano. Serve-lhes de fundamento qualquer contenda
territorial; e eles derrubam homens, até que os campos
regurgitem de cadáveres; ou combatem pela posse duma
cidade fortificada, e semeiam os muros de mortos. Eis o que
se chama "levar a terra a devorar carne humana" (20).
"A morte não é pena bastante para tal crime".
3. "Em conseqüência, os que são destros na luta sofrerão o
castigo mais severo (21). Depois deles, serão punidos os
que unem os príncipes em alianças; em seguida os que
conquistam vastas charnecas e impõem o cultivo do solo ao
povo".
LIVRO IV - PARTE II
CAPÍTULO III
1. Mêncio dirigiu-se ao rei Hsüan de Ch'i nestes termos:
"Quando um soberano considera os seus ministros suas
mãos e seus pés, eles o consideram seu ventre e coração;
se o rei os julgar cães e cavalos, os ministros o julgarão um
homem vulgar (22); e se o senhor do reino reputar os seus
ministros terra (23) ou ervas, eles o reputarão ladrão e
inimigo".
CAPÍTULO VIII
Mêncio sentenciou: "Quando os homens têm o que não
querem fazer, estão preparados a agir no que podem
realizar com eficiência (24)".
CAPÍTULO XII
Disse Mêncio: "O grande homem é o que não perde o seu
coração de criança (25)".
CAPÍTULO XXXIII
1. "Um homem de Ch'i tinha esposa e concubina e vivia com
ambas em sua casa. Quando ele saia, era certo voltar farto
de bebidas e de carnes. Perguntando-lhe a esposa com
quem estivera comendo e bebendo, o marido mencionava
invariavelmente homens ricos e eminentes. A esposa
informou a concubina, dizendo: "Quando o patrão sai, é
certo vê-lo voltar bem alimentado de carnes e bebidas; e,
quando eu lhe pergunto com quem partilhou o festim, todos
os seus comensais são, no dizer dele, homens ricos e de
alta posição. Contudo, não vem aqui nenhum fidalgo. Hei de
espreitar aonde vai o nosso amo!" Em conseqüência, a
esposa levantou-se um dia, muito cedo, e seguiu às
escondidas o marido. Em toda a cidade, ninguém parou a
falar com ele. Afinal o homem chegou-se aos que ofereciam
sacrifícios entre os túmulos, além do muro externo de leste,
e pediu os restos. Não sendo atendido, dirigiu-se a outro
grupo; era assim que ele conseguia comer à farta. A esposa
voltou para casa e informou a concubina, dizendo: "Esse é o
amo que contemplávamos, cheias de esperança, e ao qual a
nossa sorte está ligada para toda a vida (26); e são esses
os seus hábitos". Ambas verberaram o procedimento do
chefe da casa e desataram a chorar no meio do pátio.
Entretanto, ignorando tudo, ele entrou, garboso, e
aproximou-se delas, com um jeito altivo.
2. "Do ponto de vista do homem superior, quanto aos meios
pelos quais os homens procuram obter a riqueza, as honras,
o lucro, as promoções, raras são as esposas e as concubinas
desses ambiciosos que não tenham de se envergonhar e
chorar por eles".
LIVRO V - PARTE 1
CAPÍTULO V
1. Disse Wan Chang: "Narra-se que Yao deu o império a
Shun. É exato?"
"Não", replicou Mêncio. "O imperador não pode dar o
império a outro soberano".
2. "Seja; mas Shun possuía o império. Quem lho deu?"
"O Céu", respondeu o mestre.
3. "O Céu deu-lhe o império; investiu-o o Céu nessa
dignidade, com injunções especificadas?"
4. "Não", tornou Mêncio. "Céu não fala; mostrou apenas a
sua vontade, mediante a atitude de Shun e a sua gestão
pessoal dos negócios".
5. "Mostrou a sua vontade, mediante a sua gestão pessoal
dos negócios. Que significa isso?"
Mêncio replicou: "O imperador pode apresentar um homem
ao Céu; não pode, no entanto, fazer que o Céu dê o império
a esse homem. Um príncipe feudal pode apresentar ao
imperador um homem, para lhes tomar o trono; não pode,
porém obrigar o imperador a dar o principado àquele
homem. Um grande oficial pode apresentar um homem ao
seu príncipe; não pode constranger o príncipe a fazer desse
homem um dignitário e a ceder-lhe o lugar. Há muito
tempo, Yao apresentou Shun ao Céu: o Céu aceitou-o e
exibiu-o ao povo; o povo, por seu turno, o aceitou. Por isso
digo: "O Céu não fala. Indicou simplesmente a sua vontade
pelo procedimento de Shun e com a sua gestão dos
negócios".
6. "Tornou Chang: "Tomo a liberdade de perguntar como foi
que, sendo Yao apresentado ao Céu, o Céu o aceitou e
exibiu ao povo, pelo qual também foi aceito".
Respondeu-lhe Mêncio: "Yao concedeu a Shun o ensejo de
presidir aos sacrifícios, e os espíritos mostraram-se
propícios às oferendas. Eis como o Céu o aceitou. Ofereceu-
se a Shun a oportunidade de assumir a gestão dos negócios,
e estes foram bem administrados, de modo que a nação
descansou sob o governo dele; eis como o povo o aceitou.
Foram o Céu e o povo que lhe conferiram o império. Por
isto, digo: "O imperador não pode dar o império a outro
soberano".
7. "Shun assistiu Yao no governo, durante vinte e oito anos;
isto é mais do que se poderia fazer; e ele o fez por vontade
do Céu. Findos os três anos de luto, pela morte de Yao,
Shun separou-se do filho do imperador e retirou-se ao Sul
do Ho meridional. Voltando à corte, os príncipes do império,
porém, não procuraram o filho de Yao, e sim Shun. Os
litigantes não se dirigiam ao filho de Yao, mas a Shun. Os
cantores não cantavam o filho de Yao; entoavam loas a
Shun. Eis porque digo que foi o Céu que lhe deu o império.
Então, Shun, voltou ao estado do centro, e ocupou o trono
do filho do Céu. Se, antes dessas coisas, se instalasse no
paço de Yao e exercesse pressão sobre o filho do morto,
este procedimento constituiria um ato de usurpação e não
uma dádiva do Céu".
8. "Este aspecto do modo como Shun obteve o império
concorda com o que foi dito na "Grande Declaração". "O Céu
vê, como vê o meu povo; o Céu ouve, como ouve o meu
povo".
LIVRO VI - PARTE 1
1. Disse Kaotsé: "A natureza do homem assemelha-se a um
salgueiro; a justiça é como um copo ou uma taça (27).
Formar bondade e justiça fora da natureza humana equivale
a fazer do salgueiro copos e taças".
2. Mêncio replicou: Podeis, em harmonia com a índole do
salgueiro, convertê-lo em copos e taças? Antes de conseguí-
lo, teríeis de recorrer à violência e maltratar a árvore;
maltrataríeis e ofenderíeis igualmente um homem, para tirar
dele bondade e justiça? Aí de nós! As vossas palavras
seriam, com todos os homens, uma calamidade para a
clemência e a justiça (28)".
CAPÍTULO II
1. Disse Kaotsé: "A natureza do homem é como água
redemoinhando num canto. Abri-lhe passagem a leste, e ela
correrá para leste; se lhe abrirdes passagem ao oeste, ela
seguirá esta direção. A natureza do homem é indiferente ao
bem e ao mal, como a água é indiferente ao leste e ao
oeste".
2. Replicou Mêncio: "Em verdade, a água corre
indiferentemente para leste ou para oeste; mas, corre, com
a mesma indiferença, para cima ou para baixo? O pendor da
natureza humana para a bondade, assemelha-se à
tendência da água para descer. Não há quem não tenha
esse pendor para a bondade, como a água tem propensão
para correr em declive".
3. "Ora, agitando a água e fazendo-a ressaltar, podeis tê-la
à altura da vossa fronte, represando-a e dirigindo-a
conseguireis levá-la ao topo dum monte. Mas condizem
esses movimentos com a natureza da água? É a força
aplicada o que os provoca. No caso do homem induzido a se
desviar da prática do bem, a sua natureza é tratada por
esse meio".
CAPÍTULO III
1. Disse Kaotsé: "É ao fenômeno da vida que eu chamo
natureza".
"Dizeis" respondeu Mêncio, "que a vida é natureza como
dizeis que o branco é branco?"
"Sim".
"É a alvura duma pena branca igual à alvura da neve
branca? E a alvura da neve, é como a do jade branco?"
Insistiu Mêncio.
"Sim," replicou o outro.
"Muito bem", retrucou Mêncio. Será a natureza do cão igual
à do boi, e a do boi como a do homem? (29)"
CAPÍTULO IV
1. Disse Kaotsé: "Comprazer-se nos requintes da mesa e
nos gozos lascivos é natureza. A bondade vem de dentro e
não de fora; a justiça vem de fora e não de dentro (30)".
2. "Em que vos fundais", perguntou Mêncio, "para dizer que
a bondade vem de dentro e não de fora?"
Replicou-lhe o outro: "Imaginemos um homem mais velho
do que eu; eu presto homenagem à sua idade. Isto não
significa decerto que exista em mim o princípio do respeito à
velhice. É como quando, ao ver um homem branco, eu o
considero branco, pois externamente ele é tal para mim. Eis
a razão por que digo que a justiça vem de fora".
3. Disse Mêncio: "Não há diferença para nós entre a alvura
dum cavalo branco e a do homem branco; mas ignoro se há
diferença entre o olhar com que avaliamos a idade dum
cavalo velho em relação a nós. E que é o que chamamos
justiça? O fato de ser o homem mais velho do que nós, ou o
fato de tributarmos homenagem à sua idade? (31)"
4. Kao observou: "Tenho um irmão mais novo: quero-lhe
muito. Não estimo, no entanto, o irmão mais moço dum
homem de Ch'in. É o parentesco o motivo da minha afeição
(32). Por isto digo que a bondade vem de dentro. Honro
devidamente a velhice dum homem de Ch'in, como dum
meu parente; neste caso, o motivo é a velhice. Eis porque
digo que a justiça vem de fora".
5. Replicou-lhe Mêncio: "Não achamos diferença entre o
gosto da carne assada por um parente nosso. O ponto em
que insistis repete-se no exemplo que acabo de citar. E a
nossa satisfação em comer carne assada também vem de
fora?"
CAPÍTULO V
1. Meng Chi interrogou o discípulo Kung- tu: "Em que se
baseia a asserção de que a justiça vem de dentro?"
2. "Ela é a manifestação do nosso sentimento de respeito",
respondeu Kung- tu; "diz-se, por isto, que a justiça procede
do nosso íntimo".
3. Tornou o outro: "No caso dum aldeão, um ano mais idoso
do que o vosso irmão mais velho, a qual dos dois
manifestaríeis mais respeito?"
"A meu irmão".
"Mas a quem serviríeis bebidas primeiro?"
"Ao aldeão," replicou Kung-tu.
"O vosso sentimento de respeito dirige-se a um deles; a
vossa reverência pela velhice é tributada ao outro",
argumentou Meng Chi: "a justiça é, sem dúvida,
determinada por fatores externos e não por um sentimento
interior".
4. "O discípulo Kung - tu não soube responder; comunicou a
conversação a Mêncio, que disse: "Devíeis perguntar-lhe: "A
quem respeitais mais: a vosso tio ou a vosso irmão mais
novo? "Ele responderia: "A meu tio". E vós tornaríeis: "Se o
vosso jovem irmão personificasse um antepassado morto, a
quem manifestaríeis mais respeito: a vosso irmão ou a
vosso tio?" Ele replicaria: "A meu irmão". E vós poderíeis
continuar: "Mas que é da maior veneração devida, segundo
dizeis, a vosso tio?" Ele diria: "Respeito mais o meu jovem
irmão, porque ele representou o antepassado morto".
Então diríeis vós: "Porque ele substitui o antepassado
defunto; assim, de ordinário, tributo o meu respeito ao meu
irmão mais velho; mas momentaneamente, posso mostrar
deferência ao aldeão".
5. Ouvindo estas considerações, Meng Chi observou:
"Quando o respeito for devido a meu tio, manifesto-o a meu
tio; procedo do mesmo modo, em relação ao meu irmão
mais novo. Esta atitude é, certamente, determinada por
fatores externos, e não vem de dentro".
"No inverno", replicou Kung. "Tomamos bebidas quentes: no
verão, preferimos refrescos; acaso o ato de comermos e
bebermos é determinado por fatores externos?"
CAPÍTULO VI
1. O discípulo Kung - tu referiu: "A natureza do homem não
é boa nem má".
2. Uns dizem: "A natureza do homem pode ser educada
para o bem, como para o mal; conseqüentemente, sob o
reinado de Wen e Wu, o povo prezava o que fosse bom; sob
Yu e Li, preferia-se a crueldade".
3. Outros afirmam: "Certas naturezas são boas; outras são
más. Assim, sob um soberano como Yao que surgiu Hsiang;
e foi sob um pai como Kusau que apareceu Shun.
Finalmente, foi no reinado de Chou que se manifestaram
Ch'i, o visconde de Wei e o príncipe Pikan".
4. E agora dizeis: "A natureza é boa". Então, os demais
estavam enganados?
5. Replicou Mêncio: "Há sentimentos que nos levam à
conclusão de que a natureza humana está constituída para
praticar o bem (33). Eis o que pretendo dizer, quando
afirmo que a natureza humana é boa".
6. "Se o homem se desviar do bem, não se atribua a culpa
às suas faculdades naturais".
7. "O senso de angústia compassiva pertence a todos os
homens, assim como o da vergonha e do desprezo, o da
modéstia e do respeito, o da aprovação e da reprovação
(34). O senso da compaixão é o princípio de bondade; o
senso da vergonha e desprezo é o princípio da justiça: o
sentimento de modéstia e respeito é o princípio de correção;
e o sentimento de aprovação e reprovação é o princípio de
discernimento. Bondade, justiça, correção e discernimento
não se insinuam em nós de fora; fazem parte de nós
naturalmente; considerá-los sob outro aspecto, é simples
irreflexão. Por isto, foi dito: "Procura-os e hás de achá-los;
descura-os e os perderás". Por eles, os homens diferem uns
dos outros; estes em medida igual à de outros; esses, cinco
vezes mais; aqueles um número incalculável de vezes; isto,
porque não podem desenvolver plenamente os seus
predicados.
8. "Lê-se no Livro de Poesia":
"Dando nascimento a massas de indivíduos",
"O Céu anexou as suas leis a toda faculdade e relação".
"O homem possuí esta natureza normal",
"E, conseqüentemente, preza as virtudes normais".
"Confúcio disse: "O autor desta ode conhecia, em verdade,
a constituição da nossa natureza". Assim, podemos ver que,
a toda faculdade e relação, se liga uma lei; e, desde que é
dotado dessa natureza normal, o homem preza as virtudes
normais.
CAPÍTULO VII
1. Disse Mêncio: "Nos anos faustos, os filhos dos homens
são na sua maioria bons; os anos aziagos os tornam maus.
São as circunstâncias e não os predicados naturais,
outorgados pelo céu, que originam a diferença".
2. "Tomemos como exemplo um campo de cevada; semeie-
se a terra e cubram-se as sementes. No mesmo terreno,
semeado na mesma ocasião, o cereal cresce
exuberantemente e amadurece em tempo oportuno. Se
houver desigualdades de produção, são elas devidas ao solo
mais ou menos rico, à maior ou menores quantidades de
chuva e de rega, e às diferentes maneiras pelas quais o
homem executa suas tarefas."
3. Assim, todas as coisas do mesmo gênero são
semelhantes; porque temos dúvidas a respeito do homem,
como se ele constituísse uma exceção isolada? O sábio e
nós somos da mesma espécie.
4. De conformidade com isto, Lungtsé diz: "Se um homem
fabricar sandálias de cânhamo, embora desconheça o
tamanho dos pés dos homens, tenho certeza de que não as
fará como cestos. As sandálias são iguais umas às outras,
porque os pés dos homens são todos do mesmo feitio".
5. "O mesmo ocorre com o paladar e o sabor. Todos os
paladares regalam-se da mesma maneira. Antes de mim,
Yiya apreciava simplesmente o que delicia o paladar.
Suponhamos que o seu paladar, o seu gosto pelos sabores
fossem diferentes dos dos outros homens, como os cães e
os cavalos diferem de nós; como poderiam todos os homens
adotar os gostos de Yiya? Em matéria de gostos, o reino
inteiro molda-se por Yiya; é que todos os homens têm o
mesmo paladar.
6. "A mesma coisa se dá com o ouvido. Em matéria de sons,
o reino inteiro norteia-se pelo mestre de música K'uang; é
que todos os homens são dotados do mesmo ouvido".
7. "E sucede outro tanto com a vista. Não há, sob os céus,
quem não reconheça que Tsetu era formoso. Se alguém não
reconhecesse a beleza de Tsetu dizia-se que esse não tinha
olhos".
8. "Por isto, digo: "Os paladares dos homens gostam dos
mesmos sabores; os seus ouvidos apreciam os mesmos
sons; os seus olhos reconhecem todos a mesma beleza.
Carecerão só as suas almas de coisas que prezem
igualmente? E quais podem ser estas coisas? São os
princípios de coisas e as conseqüentes determinações de
justiça. Já antes de mim, os sábios adivinharam as coisas
que eu e outros concordaríamos em aprovar (35). Portanto,
os princípios de coisa e as determinações de justiça são
agradáveis ao meu espírito, como a carne dos animais bem
tratados saberá bem ao meu paladar".
CAPÍTULO VIII
1. Disse Mêncio: "Outrora, as árvores da montanha de Niu
eram belas. Mas, como ficavam nos subúrbios da capital
dum grande estado, foram derrubadas. Seria possível
conservar a beleza dessas matas? Ainda assim, dia e noite,
a exuberância da vida vegetativa, o alimento da chuva e da
irrigação enchia-as de rebentos e botões. Mas vinham as
cabras e o gado, e logo os devoravam. A isto se deve o
aspecto desolado da montanha. Quem a vê não imagina que
ela já foi lindamente arborizada. É essa, acaso, a natureza
da montanha?".
2. "Outro tanto pode - se dizer do homem; será licito
afirmar que a alma humana é destituída de bondade e
justiça (36)? O modo como o homem perde a bondade da
sua alma assemelha-se ao modo como se abateram aquelas
árvores a machado. Devastada dia a dia, pode ela conservar
a sua excelência? Revivendo dia e noite, no ar sereno da
manhã, entre o dia e a noite, a alma sente em certo grau os
desejos e aversões peculiares da humanidade; mas essas
sensações não são fortes; desvanecem-se, subjugadas pelas
ações do homem durante o dia. Isto repete-se
continuamente; a influência benéfica da noite não basta
para preservar a bondade; e, quando se manifestar essa
insuficiência, a natureza humana torna-se pouco diferente
da dos irracionais. À vista disto, sói-se pensar que nunca
existiram as qualidades que eu apregôo. Mas representará
essa condição os sentimentos próprios da humanidade?
3. "Logo, se a alma receber o alimento conveniente, nada
deixará de medrar; faltando-lhe esse alimento, nada haverá
que não se perverta".
4. "Confúcio disse: "Retende-a firmemente e ela ficará
convosco; se a soltardes, é certo que a perdereis". Refere
esta máxima à índole moral".
CAPÍTULO IX
1. Disse Mêncio: "Não é de estranhar que o rei não adquira
sabedoria".
2. "Imaginemos a planta mais fácil de medrar, neste
mundo. Se a expusermos dez dias ao calor benfazejo e dez
dias ao frio, ela não poderá desenvolver-se. Quando
obtenho uma audiência do rei, é raro que, ao retirar-me,
não veja chegar os que atuam nele como o frio. Embora eu
consiga provocar alguns rebentos de bondade, de que vale
isto?".
3. "Jogar xadrez é uma arte, se bem que de pequenas
proporções; contudo, se não lhe consagrarmos toda a
atenção, não conseguiremos praticá-la com êxito. O
enxadrista Ch'iu é o mais hábil jogador do reino.
Suponhamos que ele ensine o jogo a dois homens; um
destes dedica-lhe toda a atenção, e não faz senão ouvir as
lições de Ch'iu; o outro, embora pareça escutar, distrai-se,
observando um cisne, que espera ver aproximar-se, e pensa
em tender o arco e despedir a flecha, para abater a ave. Em
conseqüência, ainda que o segundo discípulo aprenda
juntamente com o primeiro, ambos não progridem na
mesma medida. Depende isto de desigualdade de
inteligência? Não, decerto".
CAPÍTULO X
1. "Gosto de peixe", disse Mêncio, "e gosto igualmente de
perna de urso. Se não posso ter as duas coisas, renuncio ao
peixe e como a perna de urso. Se aprecio a vida, prezo
também a justiça. Se não conseguir obter as duas, renuncio
à vida e atenho-me à justiça.
2. "Aprecio em verdade a vida; mas há coisas que prezo
mais; em conseqüência, não procurarei conservar a vida por
meios indignos. Aborreço em verdade a morte; entretanto,
há coisas que abomino mais; logo, em certas ocasiões, não
me esquivo a calamidade donde me pode resultar a morte".
3. "Se entre as coisas prezadas pelo homem, nenhuma lhe
fosse mais cara do que a vida, porque não usaria ele de
todos os meios ao seu alcance para a preservar? Se, entre
as coisas que o homem detesta, nenhuma lhe parecesse
mais abominável do que a morte, porque não faria ele o
possível, para evitar as calamidades que lhe podem ser
fatais?
4. "Mas, tal como é o homem, há casos em que, por certos
meios, ele poderia conservar a vida. Contudo, não os
emprega; nem lhe faltariam certos recursos para se
esquivar às calamidades mortais; e ele não os utiliza".
5. "Logo, há coisas que os homens prezam mais do que a
vida, e coisas que eles aborrecem mais do que a morte.
Nem só os indivíduos de talento e virtude têm essa
mentalidade. Todos os homens a têm; ela faz parte deles,
simplesmente porque não lhes seria possível desfazer-se
dela".
6. "Aqui temos um cestinho de arroz e uma terrina de sopa.
Suponhamos que obtê-los nos conservasse a vida e
carecermos deles significasse a morte. Se forem oferecidos
em tom insultante, o próprio vagabundo da estrada os
enjeitará; ou, se nós os rejeitarmos, nem um mendigo se
deterá a apanhá-los".
7. "Há, todavia, quem aceite dez mil "chungs" (37), sem
indagar da correção e da justiça do seu ato. Que lhe podem
acrescentar, em verdade, os dez mil "chungs"? Se ele os
receber, não poderá adquirir mansões suntuosas? Não
garantirá a si próprio a posse de esposas e concubinas? Não
terá meios, para socorrer os pobres e os necessitados dos
vizindários?
8. "No primeiro caso, a esmola não é aceita, embora
salvasse da morte; no segundo exemplo, o homem aceita os
emolumentos, por amor das mansões suntuosas. Rejeita-se
a oferta, que salvaria da morte, e aceitam-se os honorários
que asseguram a posse de esposas e concubinas. Recusa-se
a esmola, que pouparia a vida, e recebem-se os meios de
socorrer os indigentes e os aflitos do vizíndário. Não é
possível então declinar, em tais circunstâncias, os
emolumentos? Eis um exemplo do que se chama perder a
natureza peculiar do próprio coração".
CAPÍTULO XI
1. Disse Mêncio: "A bondade é qualidade própria do coração
humano; a justiça é a senda própria do homem".
2. Quão lamentável é descurar e não seguir essa senda,
perder o coração(38) e não saber encontrá-lo!
3. "Quando se lhe extraviam as aves e os cães, o homem
empenha-se em achá-los; quando perde o coração, não
sabe como o há-de encontrar".
4. "O objeto do saber não é senão procurar o coração
perdido (39)".
CAPÍTULO XII
1. Disse Mêncio: "Existe um homem, cujo quarto dedo se
encurvou, não havendo meio de o endireitar. Não dói nem
estorva o trabalho; contudo, se soubesse que alguém pode
livrá-lo desse defeito, esse homem não vacilaria em
percorrer, para esse fim, toda a distância entre Ch'in e Ch'i,
porque o sen dedo não é como o dos seus semelhantes.
2. "Quando o dedo dum homem não é como o dos outros
indivíduos, esse homem não se sente satisfeito; entretanto,
quando o seu coração não for como o dos outros, ele não o
estranhará. Isto é o que se chama ignorar a importância
relativa das coisas.
CAPÍTULO XIII
Disse Mêncio: "Quem quiser cultivar um pé de t'ung ou tse,
que possa ser agarrado com as duas mãos, ou mesmo com
uma delas, sabe como deve alimentar a planta; tratando-se,
porém, da sua pessoa, desconhece os meios adequados.
Devemos supor que o cuidado pela nossa pessoa seja
inferior ao que dedicamos a um pé de t'ung ou de tse? É
carência extrema de reflexão".
CAPÍTULO XIV
1. "Os homens prezam todas as partes da sua pessoa" disse
Mêncio; "e, se prezam todas as partes do seu corpo, devem
nutrir cada uma delas. Não há polegada de epiderme que
eles não apreciem; em conseqüência, não há polegada de
pele, que não devam alimentar. Averiguando se o seu
método de nutrição é ou não conveniente, se há regras que
o possam simplificar e refletindo em si mesmo, determina o
homem onde esse método pode ser aplicado?".
2. "Algumas partes do corpo são nobres; outras são vis.
Umas são grandes; outras, pequenas. O que alimentar as
partes vis será um homem insignificante; o que nutrir as
grandes será um grande homem (40)".
3. "Imaginemos um plantador, que descure o seu wu e o
seu chia, para cuidar das suas jujubeiras; é um plantador
mesquinho".
4. "O que nutrir um dos dedos, esquecendo (41) os ombros
e as costas, sem ter consciência do que faz, é um homem
que se assemelha a um lobo apressado (42)".
5. "O homem, que se limita a comer e a beber, parecerá
medíocre aos outros, pois nutre apenas as partes vis do seu
corpo e descura as grandes".
6. "Se um homem ávido de comer e beber não deixar, assim
mesmo, de nutrir o que tem de grande, podemos considerar
a sua boca e o seu ventre mais do que uma polegada de
pele? (43)".
CAPÍTULO XV
1. O discípulo Kung - tu inquiriu: "Todos os homens são
iguais; uns, porém, são grandes; outros, pequenos. Como é
isto?"
"Os que seguem as partes sublimes do seu eu são grandes",
replicou Mêncio. Os que seguem as partes vis, são pequenos
(44)."
2. "Kung - tu prosseguiu: "Todos os homens são iguais; mas
alguns servem as partes nobres de si próprios e outros, as
partes vis. Como é isto?"
Disse Mêncio: "Os olhos e os ouvidos não têm por função
pensar, e estão sujeitos a serem turvados e embotados
palas coisas que os afetam. Mas pensar é função da mente.
Pensando obtemos uma visão justa das coisas, impossível
de conseguir, se descurarmos de pensar (45). Os sentidos e
a inteligência são as dádivas do céu. Apoie-se o homem na
supremacia das partes maiores e mais nobres da sua
constituição, e as partes mesquinhas não as sobrepujarão
(46). É isto simplesmente o que faz um grande homem".
CAPÍTULO XVI
1. Disse Mêncio: "Há uma nobreza celeste e uma nobreza
humana. Bondade, justiça, abnegação, fidelidade, júbilo
inalterado na excelência dessas virtudes: eis a nobreza
celeste. Ser duque, ministro ou grande oficial: eis a nobreza
humana".
2. "Os homens da Antigüidade cultivavam a sua nobreza
celeste; e a nobreza humana vinha-lhe na esteira".
3. "Os homens de hoje cultivam a nobreza celeste, com o
fito de conseguir a nobreza humana; obtida esta, desfazem-
se daquela. O seu engano é profundo. O resultado sói ser
simplesmente perderem eles também a nobreza humana".
CAPÍTULO XVII
1. Disse Mêncio: "O desejo de ser o que se considera digno
de respeito é pensamento comum dos homens. E todos têm
em si o que é deveras honroso; apenas, nenhum deles cuida
disso".
2. "As honras conferidas pelo homem não são realmente
honras duradouras. Chao - meng podia rebaixar os que
elevava a uma posição eminente (47).
3. "Lê-se no "Livro de Poesia":
"Vós nos fizeste beber todas as vossas bebidas".
"Saciaste-nos com a vossa bondade".
Para significar que os hóspedes foram cumulados de
bondade e justiça, de modo que não desejavam a carne
gorda e o painço dos homens. A quem couber uma boa
reputação e amplo louvor, não é lícito ambicionar adornos
materiais (48).
CAPÍTULO XVIII
1. Disse Mêncio: "A bondade domina os seus antagonistas
como a água vence o fogo (49)". Os que ora praticam a
bondade o fazem, como se com um copo d'água pudessem
salvar uma carroça de lenha em chamas; e, se não
apagarem o incêndio, dirão que a água não consegue
dominar o fogo. Semelhante sistema constitui, além de
tudo, o maior auxílio à maldade (50).
2. "O resultado final é simplesmente a perda desse reduzido
quinhão de bons sentimentos".
CAPÍTULO XIX
Disse Mêncio: "As melhores sementes são as cinco espécies
de cereais; se, porém, não estiverem maduras, não se
igualam sequer ao ti ou ao pai (Joio). Assim também, o
mérito da clemência está em fazê-la chegar à maturidade".
CAPÍTULO XX
1. Disse Mêncio: "Ensinando os homens a atirar, Yi
estabeleceu como regra entesar bem o arco; e exigia que os
seus discípulos fizessem a mesma coisa".
2. Um artífice - mestre, um capataz, instruindo outros
artesãos, deve usar compasso e exigir que os aprendizes se
costumem a empregá-lo com perícia".
LIVRO VI - PARTE II
CAPÍTULO II
1. Perguntou Chiao de T'sao: Costuma-se dizer: "Todos os
homens podem ser Yaos e Shuns"; é certo?
"É certo", replicou Mêncio.
2. "Ouvi contar", prosseguiu Ch'ao, "que o rei Wen media
dez côvados de altura; e T'ang, nove côvados. Ora, eu
tenho nove côvados e quatro polegadas de estatura, mas
posso apenas comer o meu painço. Que hei-de fazer, para
corresponder ao provérbio?
3. Replicou-lhe Mêncio: "Que tem com isso a questão da
estatura? Tudo está em procederdes, segundo aqueles
modelos. Havia um indivíduo mais fraco do que um frango
ou um marrequinho. Hoje, ele diz: "Sou capaz de levantar
trezentos "cattys". É agora um homem de grande vigor.
Assim, o que puder levantar o peso, que Wu Huo levantava,
é outro Wu Huo. Porque se queixa o homem de
incapacidade? Ele é incapaz, porque quer."
4. "Andar lentamente, atrás dos mais velhos, é
desempenhar o papel dum jovem. Apressar-se,
ultrapassando os mais velhos, é infringir o dever dum moço.
Mas quem não poderá andar lentamente? Só não o fará
quem não quiser. O procedimento de Yao e de Shun
consistia simplesmente em praticar a piedade filial e o dever
fraterno".
5. "Usai as roupas de Yao, repeti-lhe as palavras, imitai-lhe
as ações, e sereis exatamente um Yao. Se usardes as
roupas de Chieh, se repetirdes as suas palavras e lhe
imitardes as ações, sereis exatamente um Chieh".
6. "Quando obtiver uma audiência do soberano de Tsou",
disse Chiao, "pedir-lhe-ei que me dê uma casa para morar.
Quero ficar aqui e receber ensinamentos à vossa porta".
7. "A senda da verdade", replicou Mêncio, é como a estrada
real; não custa reconhecê-la. O mal está em que os homens
não a procuram. Ide para casa, tratai de encontrar esse
caminho, e tereis numerosos mestres".
CAPÍTULO XV
1. "Disse Mêncio: "Shun elevou-se ao trono, vindo dos
campos sulcados de valos; Fu Yüeh foi chamado às suas
funções, do meio da sua ferramenta de carpinteiro e
calceteiro. Chiao Keh subiu da sua pesqueira: Kuan Yiwu,
das mãos do funcionário incumbido de guardá-lo. Sun Shu -
ao, do seu esconderijo na praia; e Poli Hsi, do mercado.
2. "Logo, quando o céu quer confiar uma alta missão a
alguém, forja antes a alma do eleito com o sofrimento,
exercita-lhe os nervos e os ossos com a fadiga, expõe-lhe o
corpo à fome, sujeita-o à extrema indigência, confunde-lhe
os empreendimentos. Por todos esses meios, estimula-lhe a
inteligência, enrija-lhe a têmpera e supre às suas
incompetências (51)".
3. "Os homens erram continuamente, mas podem
regenerar-se. Têm o coração aflito, a mente perplexa, e
depois abalançam-se ao grande esforço. Quando as coisas
se evidenciarem nos olhos dos homens e lhes
transparecerem nas palavras, eles as entenderão.
4. "Se um rei não tiver a sua corte adstrita às leis e provida
de funcionários capazes, se no exterior não impender sobre
o seu território a ameaça de calamidades e de estados
hostis, por via de regra o seu reino descambará para a ruína
(52)".
5. "Daí vemos que a vida brota da tristeza e das
calamidades, ao passo que a morte deriva da comodidade e
do prazer".
LIVRO VII - PARTE II
CAPÍTULO XIV
1. Disse Mêncio: "O povo é o elemento principal dum país;
os espíritos da terra e o trigo ocupam o segundo lugar; o
soberano é o fator menos importante".
CAPÍTULO XXXVIII
4. "De Confúcio até os nossos dias, decorreu mais dum
século. Tão remota é a distância do sábio no tempo, quão
próxima, ao alcance da mão, está a residência do sábio. Em
tais circunstâncias, não há ninguém que transmita as suas
doutrinas? Em verdade, não haverá ninguém?"
________________________
(18) Em termos mais precisos e claros: "Quando prevalece a
doutrina justa, o moralmente inferior serve o moralmente
superior e a mentalidade inferior acata a mentalidade
superior. Quando não prevalece a doutrina justa, o pequeno
serve o grande e o fraco serve o forte".
(19) O tirano Chou. E não a dinastia Chou.
(20) Literalmente: "Na guerra pelo território, a morte enche
a região; na guerra pelas cidades, a morte enche as
cidades. Isto é permitir que o território devore carne
humana".
(21) Mais simplesmente: "Os melhores combatentes
receberão o máximo castigo".
(22) Um cidadão comum.
(23) Imundície.
(24) "Os homens recusam fazer certas coisas, antes de
poderem praticar grandes feitos".
(25) O coração da inocência.
(26) "O marido é a pessoa considerada um arrimo para a
vida".
(27) "Um cesto de vime".
(28) "Destroem as doutrinas de amor e justiça", por
presumir que não se harmonizam com a nossa natureza,
mas são doutrinas exteriores que nos moldam a índole em
formas estabelecidas. Mêncio acreditava que a bondade é
parte inata da natureza humana.
(29) Mêncio insiste em que, em nós, o humano difere do
bestial.
(30) A justiça ou os deveres para com o próximo derivam da
vida social, enquanto o amor é inato. Mêncio insiste em que
ambos são inatos, inclusive o amor pelo procedimento justo.
(31) O respeito à velhice é subjetivo - e inato.
(32) Eu prezo naturalmente a minha raça.
(33) "Se lhe permitirmos seguir a própria natureza, o
homem praticará o bem".
(34) Leia-se: "O coração misericordioso está em todos os
homens; o senso da vergonha está em todos os homens; o
senso da cortesia e do respeito está em todos os homens; o
senso do bem e do mal está em todos os homens".
(35) Mais exatamente: "Os sábios são os que descobrem o
que é comum aos nossos corações".
(36) Preferivelmente: "Amor e justiça".
(37) Como honorários oficiais.
(38) O termo chinês hsin significa "inteligência" e "coração".
Aqui tem o sentido de "coração originalmente bondoso".
(39) "O coração da infância".
(40) Leia-se: "Na nossa constituição, há uma natureza mais
baixa e uma natureza mais elevada, um eu menor e um eu
maior. Não se deve desenvolver a natureza mais baixa, a
expensas da mais alta, o eu menor à custa do eu maior. O
que limitar o seu cuidado ao eu menor, será um homem
insignificante; quem se consagra ao eu maior, tornar-se-á
um grande homem".
(41) Perdendo.
(42) Leia-se: "disforme".
(43) "Se o homem comer e beber, sem esquecer o eu
maior, será lícito dizer que o alimento introduzido na sua
boca não nutre senão o seu envoltório corporal".
(44) "Os que servem o eu maior são grandes homens; os
que servem o eu menor, são pequenos".
(45) "A função da mente é pensar; pensando, conservais a
mente: se não pensardes, a perdereis".
(46) Quem cultivar o seu eu mais elevado, verá o eu
mesquinho seguí-lo espontaneamente.
(47) O que o povo sói considerar honras ou uma posição
elevada não é verdadeira honra, pois Chão - meng
(poderosa dinastia reinante da China) tinha a faculdade de
degradar os que honrava".
(48) "Quando o homem usa o manto da fama, não lhe deve
importar um trajo bordado".
(49) "A bondade sobrepuja a crueldade, como a água
domina o fogo".
(50) Os que praticam a bondade são como os que apanham
um copo d'água para apagar um carregamento de
combustível em chamas. Não conseguindo dominar o
incêndio, exclamam: "A água não vence o fogo!" Isto é
apenas ajudar os que não crêem na bondade.
(51) "Assim, quando o céu se dispõe a confiar a um homem
uma grande obra, primeiro aflige-lhe o coração, fatiga-lhe
os músculos e os ossos, sujeita-o à fome e às privações,
frustra-lhe todos os planos. Isto eqüivale a estimular-lhe a
ambição, a fortalecer-lhe o caráter, a aumentar-lhe a
capacidade".
(52) Se não houvesse famílias antigas, conselheiros sábios
no interior, inimigos e ameaças no exterior, freqüentemente
o país pereceria.
-&ncio (08) 9 por A(fredo Doe'(in
1o Seção.
1. Pang Kang disse "O objetivo do carpinteiro e do cons-
trutor de carruagens é ganhar a vida com seu trabalho. Será
também propósito do homem superior ganhar a vida com a
prática de seus princípios?¨ "Que tens a ver com seu
propósito?¨, perguntou Mêncio. "Ele é útil a ti. Merece ser
apoiado e será apoiado. Deixe que pergunte: Remuneras a
intenção de um homem ou remuneras seu serviço?¨ Ao que
Kang replicou: "Remunero sua intenção¨.
2. Disse Mêncio: "Há aqui um homem que quebra o teu
telhado e desenha figuras repugnantes em tuas paredes.
Seu propósito pode ser o de ganhar a vida com isso; mas tu
irás remunerá-lo?¨ "Não¨, disse Kang. Mêncio então
concluiu: "Nesse caso não é a intenção que remuneras, e
sim a obra realizada¨.
3. Disse Mêncio: "Ao estudar extensamente e ao discutir
minuciosamente o que estuda, o objeto do homem superior
é capacitar-se para resumir e explicar com brevidade o
essencial¨.
4. Disse Mêncio: "Aquele que quer dominar os homens com
sua excelência nunca foi capaz de dominá-los. Deixai que
um príncipe trate de educar os homens com sua excelência
e será capaz de dominar todo o reino. É impossível que
possa chegar a governar um povo aquele a quem o povo
não outorgou a submissão de seu coração¨.
5. Disse Mêncio: "Aquilo pelo qual o homem superior se
distingue dos demais é o que guarda no coração:
benevolência e correção¨.
"O homem benévolo ama os demais. O homem correto
respeita os demais¨.
"Aquele que ama os demais é constantemente amado por
eles. Aquele que respeita os demais é constantemente
respeitado por eles¨.
Há um homem que me trata de modo perverso e nada
razoável. Neste caso, o homem superior dirá a si mesmo:
"Deve haver-me faltado benevolência. Deve haver-me
faltada correção. Como pode ter acontecido isso?¨
6. "Examina-se a si mesmo e é acentuadamente benévolo.
Esquadrinha o seu íntimo, e é especialmente respeitoso à
correção. A perversidade e a má conduta do outro, no
entanto, continuam a existir. O homem superior voltará a
dizer-se: "Não terei feito tudo o que podia?¨
7. "Volta sobre si mesmo e continua a fazer tudo o que
pode, mas apesar disso repetem-se a perversidade e a má
conduta do outro. À vista disso, o homem superior diz:
"Evidentemente, este é um homem completamente perdido!
Pois que se conduz desse modo, que diferença existe entre
ele e um animal? Por que hei de contender com um
animal?¨
8. Disse Mêncio: "O homem superior tem três coisas com as
quais se apraz e ser governante do reino não é uma delas¨.
"Que seu pai e sua mãe estejam vivos e a situação de seus
irmãos não seja motivo de inquietação; este é o primeiro
prazer¨.
"Que ao olhar para cima tenha motivo de se envergonhar
diante do Céu, e quando olha para baixo não tenha motivo
para ruborizar-se diante dos homens: este é o segundo
prazer.
"Que possa obter em todo o reino os indivíduos de mais
talento e ensiná-los e educá-los: este é o terceiro prazer¨.
9. "O homem superior tem três coisas com as quais se
deleita e ser governante do reino não é uma delas¨.
Disse Mêncio: "O homem superior deseja amplo território e
numerosos cidadãos, mas não é isso que lhe dá prazer¨.
"Manter-se à frente do reino e tranqüilizar o povo dentro
dos quatro mares. O homem superior deleita-se com isso,
mas não é esse o mais alto prazer de sua nobreza¨.
"O que por sua natureza corresponde ao homem superior
não pode aumentar pela amplitude de sua esfera de ação
nem diminuir pelo fato de viver ele em pobreza e em retiro,
pois que isso é proporcionado determinadamente pelo Céu¨.
"O que corresponde por sua natureza ao homem superior é
a benevolência, a retidão, a correção e o conhecimento.
Estas coisas estão arraigadas em seu coração. Seu
desenvolvimento e manifestação são uma humilde harmonia
no semblante, uma rica plenitude no peito e o caráter
manifestado em seus quatro membros. Esses membros
sabem agir por si mesmos, sem serem ensinados¨.
10. Disse Mêncio: "Quando os bons princípios prevalecem
em todo o reino, os princípios do cada um devem aparecer
juntos com a pessoa de cada um. Quando os bons princípios
desaparecem do reino, a pessoa de cada um deve
desaparecer com os princípios de cada um¨.
"Não ouvi que os princípios de cada um dependem de sua
manifestação em outros homens¨.
2o Seção.
1. Disse Mêncio: "A benevolência é a inteligência do homem
e a retidão é o seu caminho¨.
"Que lamentável é descuidar o caminho e não segui-lo,
perder sua inteligência e não saber buscá-la de novo!¨
"Quando os homens perdem suas aves e seus cães sabem
procurá-los de novo, mas perdem a inteligência e não
sabem como encontrá-la¨.
"O grande fim da ciência não é outro senão o de procurar a
inteligência perdida¨.
2. Mêncio disse: "Todos os homens possuem uma inteli-
gência que não pode suportar a visão dos sofrimentos dos
demais¨.
"Os antigos reis possuíam inteligência compassiva e, como
natural conseqüência, exerciam igualmente um governo
compassivo. Quando com inteligência compassiva se exercia
um governo compassivo, governar o reino era coisa tão fácil
como fazer girar alguma coisa na palma da mão¨.
"Quando digo que todos os homens possuem uma inteli-
gência que não pode suportar a visão dos sofrimentos
alheios, o significado de minhas palavras pode ser assim
esclarecido: hoje em dia inclusive, se os homens vêem de
repente uma criança que está quase caindo num poço,
todos eles, sem exceção, experimentam uma sensação de
alarma e angústia. Sentirão assim, não porque por isso
possam obter o favor dos pais da criança, nem porque
possam conseguir o elogio dos vizinhos e amigos, nem
porque seja desagradável a fama de terem ficado
insensíveis ante esse espetáculo¨.
"Por este exemplo podemos verificar que o sentimento de
comiseração é essencial no homem, o sentimento de
vergonha e tristeza é essencial no homem, o sentimento de
modéstia e complacência é essencial ao homem e o
sentimento de aprovação e desaprovação é essencial ao
homem¨.
3. "O sentimento de comiseração é o princípio da benevo-
lência. O sentimento de vergonha e desgosto é o princípio
da retidão. O sentimento de modéstia e complacência é o
princípio da correção. O sentimento da aprovação e
desaprovação é o princípio do conhecimento¨.
4. "Os homens possuem estes quatro princípios do mesmo
modo que possuem seus quatro membros. Quando os
homens, tendo estes quatro princípios, dizem de si mesmos
que não podem desenvolve-los, enganam-se a si mesmos. E
aquele que diz de seu príncipe que não pode desenvolve-los,
engana o príncipe¨.
"Pois que todos homens possuem em si mesmos esses
quatro princípios, fazei com que saibam dar-lhes todo o seu
desenvolvimento e terminação, e a conseqüência será como
a do fogo que começou a arder ou a da fonte que começou
a jorrar. Deixai que se desenvolvam completamente e
bastarão para amar e proteger tudo o que está dentro dos
quatro mares. Nega-lhes esse desenvolvimento, e não
bastarão para que um homem sirva com eles a seus pais¨.
5. Disse Mêncio: "Aquele que faz as flechas é menos
benévolo do que o que faz a armadura defensiva? No
entanto, o que faz as flechas só teme que os homens não
sejam feridos e o homem que faz a armadura só teme que
os homens sejam feridos. O mesmo acontece ao sacerdote e
ao construtor de esquifes. A escolha de uma profissão, por
isso mesmo, é coisa que requer grande prudência¨.
6. Disse o filósofo Gao: "A natureza do homem é como o
arbusto Chi, a retidão é como uma chávena. Formar a
benevolência e a retidão com a natureza do homem é como
fazer chávena com o arbusto Chi.¨
Replicou Mêncio. "Poderás, sem tocar a natureza do
arbusto, fazer chávenas com ele? Deves violentar e danificar
o arbusto antes de chegares a fazer chávenas com ele. Se
deves violentar e danificar o arbusto para fazer chávenas
com ele, de acordo com teus princípios, assim também
deves violentar e danificar a humanidade para formar com
ela a benevolência e a retidão. Tuas palavras, ah!
Certamente levarão todos os homens a reconhecer que a
benevolência e a retidão são calamidades!¨
7. O filósofo Gao disse: "A natureza do homem é como a
água que redemoinha a um canto. Abri-lhe uma passagem
para o leste e ela correrá para leste. Abri-lhe uma passagem
para o oeste e ela correrá para oeste. A natureza do homem
é indiferente ao bem e ao mal, como a água é indiferente ao
leste e ao oeste¨.
Replicou Mêncio: "Evidentemente a água pode correr
indiferentemente para leste ou oeste, mas poderá
indiferentemente correr para cima ou para baixo? A
tendência da natureza humana para o bem é como a
tendência da água para escorrer. Todos os homens têm
essa tendência para o bem como todas as águas tendem a
correr¨.
"Pois bem, batendo a água e fazendo-a saltar podes con-
seguir que se levante sobre a tua cabeça. Represando-a,
conduzindo-a, podes levá-la ao alto de uma colina. Mas
estarão esses movimentos de acordo com a natureza da
água? É a força aplicada que os produz. Quando os homens
estão feitos para saber o que é bom, sua natureza é tratada
desse modo¨.
8. "Pois bem, tu dizes: "A natureza é boa¨. Então, tudo isso
é falso?¨
Disse Mêncio: "Em virtude de sentimentos apropriados para
isso, está constituída para a prática do bem. Eis o que quero
dizer quando digo que a natureza é boa¨.
"Se os homens fazem o que não é bom, não se pode culpar
suas faculdades naturais¨.
"O sentimento de comiseração pertence a todos os homens.
O mesmo acontece ao de vergonha e aborrecimento e ao de
reverência e respeito e ao de aprovação e desaprovação. O
sentimento de comiseração implica o princípio da
benevolência. O de vergonha e aversão, o princípio de
retidão. O de reverência e respeito, o princípio de correção.
O de aprovação e desaprovação, a retidão, a correção e o
conhecimento que nos inculcam de fora. Estamos providos
desses sentimentos, é claro. E a opinião diferente nasce
apenas da falta de reflexão. Daí o se ter dito: "Procurai e
encontrareis. Descuidai e perdereis¨. Os homens diferem
entre si, acerca de si mesmos. Alguns duas vezes mais do
que outros, outros cinco vezes e alguns um número de
vezes incalculável. Assim acontece porque não podem
desenvolver completamente suas faculdades naturais.
9. Disse Mêncio: "Nos anos bons a maioria das criaturas é
boa, enquanto nos anos maus a maioria dos homens se
entrega ao mal. O se mostrarem tão diferentes não decorre
de nenhuma diferença nas faculdades naturais que o Céu
lhes outorgou. O abandono é devido às circunstâncias em
meio das quais permitem que sua inteligência caia na
armadilha que lhes estende o mal, e nela se deixam cair¨.
10. "Por isso digo: "As bocas dos homens coincidem nos
mesmos gostos. Seus ouvidos coincidem em desfrutar os
mesmos sons. Seus olhos coincidem em reconhecer a
mesma beleza. Só suas inteligências não coincidem em
aprovar a mesma coisa? Que é, então, o que igualmente
aprovam? Eu digo que são os princípios de nossa natureza e
as decisões da retidão. Só os sábios compreenderam antes
de mim aquilo que minha inteligência aprova juntamente
com os demais homens. Portanto, os princípios de nossa
natureza e as decisões de retidão são agradáveis à minha
inteligência do mesmo modo que a carne dos animais que
se alimentam de erva e cereal é agradável à minha boca¨.
3o Seção.
1. Disse Mêncio: "As árvores da montanha Niû eram for-
mosas, outrora. Mas como estavam situadas na fronteira de
um grande Estado, foram abatidas a machado. Como
podiam conservar sua beleza? No entanto, graças à
atividade da vida vegetal, de dia e de noite, e à influência
nutritiva da chuva e do orvalho, seus brotos floresceram.
Mas chegaram os bois e as cabras e comeram os brotos. A
essas causas se deve a desnuda e desoladora aparência da
montanha. E quando agora vamos vê-la julgamos que
nunca esteve povoada de bosques. Será esta de agora, a
natureza da montanha?¨.
2. "Assim sucede ao que propriamente corresponde ao
homem. Pode-se dizer que a inteligência de qualquer
homem careça de benevolência e retidão? O modo pelo qual
um homem perde sua bondade de inteligência é como o
modo pelo qual perdem as árvores seus ramos à força de
machado. Dia e noite ferida, poderá a inteligência conservar
sua beleza? Mas se a vida dia e noite se desenvolve numa
atmosfera tranqüila, matutina, justamente entre a noite e o
dia, a inteligência sente de certo modo esses desejos e
aversões que são próprios da humanidade, mas esse
sentimento não é forte e é encadeado e destruído pelo que
aconteceu durante o dia. Esse encadeamento se produz uma
vez ou outra, e a influência restauradora não é suficiente
para conservar a bondade própria da inteligência. E quando
se mostra insuficiente para esse fim, a natureza não se
torna muito diferente da dos animais irracionais. Quando
então se vê, julga-se que nunca teve essa faculdade que eu
afirmo que possui. Acaso representará, essa condição, os
sentimentos próprios da humanidade?
3. "Portanto, se recebe seu alimento adequado, não há
motivo para que não se possa desenvolver. Se perde seu
alimento adequado, não há motivo para que não decaia.
5. Disse Mêncio: "Gosto de peixe e também gosto de patas
do urso. Se não posso comer as duas coisas ao mesmo
tempo deixarei o peixe e tomarei as patas de urso. Do
mesmo modo, amo a vida e amo também a retidão. Se não
posso ter ao mesmo tempo as duas, deixarei a vida e ficarei
com a retidão¨.
6. "Amo verdadeiramente a vida, mas há algo que mais amo
do que a vida, portanto não tratarei de possuí-la por meios
impróprios. Verdadeiramente abomino a morte, mas há algo
que mais abomino do que a morte, portanto há ocasiões em
que não fugirei ao perigo¨.
7. "Se entre as coisas de que o homem gosta não houvesse
nada que lhe agradasse mais do que a vida, por que não
havia de utilizar todos os meios para conservá-la? Se entre
as coisas de que homem não gosta não houvesse nada que
menos lhe agradasse do que a morte, por que não faria
tudo para evitar o perigo?¨.
8. "Há casos em que os homens, mediante certa conduta,
podem conservar a vida, e no entanto não a utilizam. Há
casos em que mediante certas coisas podem evitar o perigo,
e no entanto não as praticam.
"Portanto, os homens têm aquilo que mais amam do que a
vida, e aquilo que mais aborrecem do que a morte. Não são
os homens de grande talento e virtude os únicos que
possuem essa natureza. Todos a possuem. O que acontece
aos primeiros é simplesmente isto: não a perdem¨.
9. Disse Mêncio: "As palavras bondosas não penetram tão
profundamente nos homens como uma reputação de
bondade¨.
"O bom governo não lança no povo tão profundas raízes
quanto as boas recomendações¨.
"O bom governo é temido pelo povo, enquanto as boas
recomendações são amadas por ele. O bom governo se
apodera da riqueza do povo, enquanto as boas instruções se
apossam do seu coração¨.
10. Disse Mêncio: "Aqueles que aconselham os grandes
devem desprezá-los e não se deixarem deslumbrar por sua
pompa e exibição. Salões que tem uma altura desmedida,
com vigas que ressaltam, se se realizassem meus desejos,
eu não teria salões assim. Alimentos servidos à minha
frente em salas descomunais e servidores e concubinas às
centenas, se meus desejos se realizassem, eu não teria
essas coisas. Prazer e vinho e excursões venatórias, com
milhares de carruagens que me seguissem se meus desejos
se realizassem, eu não os teria. Nada teria eu a fazer com
aquilo que os outros apreciam. O que eu aprecio é a lei dos
antigos. Por que hei de temê-las?
4o Seção.
1. Mêncio foi visitar o rei Hûi de Liang.
Disse o rei: "Venerável senhor: pois que não te pareceu
longe este palácio, à distância de uma centena de li, posso
presumir que vens provido de conselhos que beneficiem
meu reino?¨
Replicou Mêncio: "Que necessidade tem Sua Majestade de
usar a palavra "benefício¨? O que eu trago são conselhos de
benevolência e retidão e esses são os meus únicos temas.
Se Sua Majestade diz: "Que há a fazer para beneficiar o
meu reino?¨, dirão os altos funcionários: "Que há a fazer
para beneficiar nossas famílias? E os funcionários
subalternos e o vulgo dirão: "Que há a fazer para beneficiar
nossas pessoas?¨ Superiores e inferiores tratarão de
arrebatar-se o proveito uns aos outros e o reino correrá
perigo. No reino de dez mil carruagens, o assassino de seu
soberano será o chefe de uma família que possua mil
carruagens. No reino de mil carruagens o assassino de seu
príncipe será o chefe de uma família que possua uma
centena de carruagens. Possuir um milhar contra dez ml e
uma centena contra mil, não se pode dizer que seja grande
parcela; mas se a retidão é postergada e prevalece o ganho,
não se satisfarão enquanto não se apoderarem de tudo.
"Nunca houve homem benévolo que abandonasse seus pais.
Nunca houve homem reto que tributasse pouco respeito ao
soberano¨.
"Que a benevolência e a retidão sejam também os únicos
temas de Sua Majestade. Por que há de empregar a palavra
proveito¨?
2. O rei Hûi de Liang disse: "Pequena como é minha virtude,
no governo de meu reino de certo exerço o máximo da
minha inteligência. Se o ano é mau na parte interior do rio,
levo todos os cidadãos que posso ao leste do rio e mando
cereal a outra parte. Quando o ano é mau a leste do rio,
ponho em prática o mesmo plano. Ao examinar o governo
dos reinos vizinhos não creio que haja neles príncipe algum
que utilize, como eu, a sua inteligência. E no entanto o povo
do reino vizinho não diminui, nem o meu povo aumenta.
Como é?¨
3. Mêncio respondeu: "Sua Majestade ama a guerra.
Permita que tome um exemplo da guerra. Os soldados
marcham adiante ao som dos tambores e depois de cruzar
as armas com o inimigo, atiram fora suas cotas de malha,
arrastam as armas pelo chão e fogem. Uns fogem algumas
centenas de passos e se detém. Outros correm cinqüenta
passos e estacam. Que pensaria se os que correm cinqüenta
passos se rissem dos que correm cem passos?¨ Disse o rei:
"Não devem fazer isso. Ainda que fujam cinqüenta passos
apenas, também fogem¨.
"Se Sua Majestade sabe disso - replicou Mêncio - não tem
porque esperar que seu povo se torne mais numeroso do
que o dos reinos vizinhos¨.
"Se o tempo indicado para lavrar a terra não é perturbado,
haverá mais cereal do que se pode consumir. Se não
permite introduzir redes nos remansos e lagoas, haverá
mais peixes e tartarugas do que se pode consumir. Se se
utilizam os machados nas colinas e nos bosques unicamente
no tempo apropriado, haverá mais madeira do que se pode
utilizar. Quando o cereal e os peixes e as tartarugas são
mais do que se pode comer, habilita-se o povo a alimentar
sua vida e chorar seus mortos, sem nenhum ressentimento
contra ninguém. Essa situação na qual o povo alimenta sua
vida e enterra seus mortos sem nenhum ressentimento
contra ninguém é o primeiro passo do governo real¨.
"Plantai amoreiras em torno das casas com seus cinco mâu
e as pessoas de cinqüenta anos poderão vestir-se de seda.
Se tiverdes aves domésticas, porcos e cães, não descuideis
das épocas de cria e as pessoas de setenta anos poderão
comer carne. Não deixeis passar o tempo adequado ao
cultivo da granja com seus cem mâu e a família de várias
bocas que dela se alimenta não sofrerá fome. Atentai bem
na educação das escolas, especialmente inculcando nelas os
deveres filiais e fraternos e os homens de cabelos brancos
não serão vistos a levar pelas estradas cargas na cabeça ou
nas costas. Nunca se viu um governante do Estado onde
semelhantes resultados surgem - gente de setenta anos
vestindo seda e comendo carne, gente de cabelos brancos
que não sofre de fome nem de frio - deixar de alcançar a
dignidade real¨. "Seus cães e porcos comem os alimentos
dos homens e não toma medidas restritivas. Há gente que
morre de fome pelos caminhos e não lhes entrega o que
têm depositado nos seus celeiros. Quando morre o povo,
diz: "Eu não tenho culpa. A culpa é do ano, que é mau¨.
Qual é a diferença entre apunhalar um homem e matá-lo
dizendo: "não fui eu, foi a arma? Deixe Sua Majestade de
culpar o ano e instantaneamente virão a si os homens de
todas as Nações¨.
4. Disse o rei Hûi, de Liang: "Desejo receber tuas
instruções¨.
Mêncio disse: "Há alguma diferença entre matar um homem
com um cajado ou uma espada?¨ "Não há diferença¨, disse
o rei. "Há alguma diferença entre matar com uma espada ou
com o estilo de governo?¨ "Não há diferença¨, foi a
resposta.
5. Então disse Mêncio: "Na tua cozinha há carne gorda e
cavalos gordos na sua cavalariça. Mas o teu povo parece
faminto e nos lugares despovoadas há quem tenha morrido
de fome. Isso leva as feras a devorar os homens¨.
"As feras devoram-se umas às outras, e os homens as
odeiam por isso. Quando um príncipe, que é o pai do seu
povo, administra seu governo de tal modo que se pode
culpá-lo de as feras devorarem os homens, onde está sua
relação de parentesco com o povo?¨
6. Disse o rei: "Que virtude se deve possuir para alcançar o
poder real?¨ Respondeu Mêncio: "O amor e a proteção do
povo. Com isso não há força capaz de impedir que um
governante alcance o poder real¨.
Perguntou novamente o rei: "Um homem como eu é
competente para amar e proteger o povo?¨ Mêncio disse:
"Sim¨. Como sabes que eu sou competente para isso?¨
"Ouvi Hû contar o seguinte incidente: "O rei - disse ele -
estava sentado no alto do salão quando apareceu um
homem conduzindo um boi. O rei o viu e perguntou: "Onde
levas esse boi?¨ Respondeu o homem: "Vamos consagrar
um sino com sangue do boi¨. Disse o rei: "Deixa-o ir. Não
posso suportar sua aparência assustada, como se fosse uma
pessoa inocente a caminho da execução¨. O homem
retrucou: "Suprimiremos, então, a consagração do sino?¨
Disse o rei: "Como pode ser suprimido isso? Troca-o por
uma ovelha¨. "Não sei se esse incidente ocorreu realmente¨.
O rei respondeu: "Realmente¨ - e então Mêncio disse: "O
coração que mostraste nessa ação é suficiente para dar-te o
poder real. Todos supunham que tua Majestade cobiçava o
animal, mas teus servidores sabem com certeza que o fato
de tua Majestade não ser capaz de suportar o aspecto do
boi foi o que te fez agir como agiste¨.
O rei disse: "Tens razão. E, no entanto, o ato tinha a
aparência de ser um daqueles que o povo condena. Mas
ainda que Chu fosse um Estado pequeno e pobre, como
poderia eu cobiçar um boi? Evidentemente foi porque não
podia suportar seu aspecto assustado, como se fosse uma
pessoa inocente a caminho da execução e por isso troquei-o
por uma ovelha¨.
7. Mêncio prosseguiu: "Não pareça estranho a tua
Majestade que o povo pensasse que cobiçavas o animal.
Quando trocaste um animal grande por outro pequeno,
como podiam saber a verdadeira razão? Se te sentias
angustiado porque o levavam para a morte sem ter culpa,
que diferença poderia haver entre um boi e uma ovelha?¨ O
rei sorriu e disse: "Qual era realmente minha intenção,
nesse caso? Não cobiçava o boi e troquei-o por uma ovelha.
Tinha razão o povo para dizer que eu o cobiçava¨.
"Não há mal em que digas isso - afirmou Mêncio. Tua
conduta era um artifício de benevolência. Viste o boi e não
viste a ovelha. O homem superior sente tanta afeição pelos
animais que tendo-os visto vivos não pode suportar o vê-los
mortos. Tendo ouvido seus gritos, não pode comer sua
carne. Por isso mantêm-se afastado do matadouro e da
cozinha¨.
8. O rei mostrou-se satisfeito e disse: "No Livro de Poesia
está escrito: "Mediante a reflexão sou capaz de julgar as
intenções dos outros¨. Isso prova, Mestre, ao descobrires os
motivos do meu ato. Eu fiz aquilo, mas quando voltei meus
pensamentos para mim mesmo e examinei o meu íntimo,
não pude descobrir minha própria intenção. Quando tu,
Mestre, disseste essas palavras, os movimentos de
compaixão começaram a trabalhar na minha mente. Como é
que este coração tem em si aquilo que iguala o poder real?¨
Mêncio replicou: "Supõe que um homem fizesse a tua
Majestade esta declaração: "Minha força é suficiente para
levantar três mil "kâti¨ mas não basta para levantar uma
pena. Minha vista é bastante aguda para examinar a ponta
de um cabelo, mas não vejo um carro carregado de lenha¨.
Admitiria tua Majestade estas palavras?¨ "Não¨, foi a
resposta, depois da qual, Mêncio prosseguiu: "Pois bem, há
bondade suficiente para beneficiar os animais, mas o povo
não se beneficia com ela. Como é isto? Ter-se-á de fazer aí
uma exceção? A verdade é que a pena não é levantada
porque não se emprega a força. O carro carregado de lenha
não é visto porque não se emprega a vista. E o povo não é
amado nem protegido porque não se emprega a bondade.
Portanto, o fato de tua Majestade não exercitar o poder real
se deve a que não o exercitas e não a que não sejas capaz
de fazê-lo¨.
9. O rei perguntou: Como pode ser representado a diferença
entre não fazer uma coisa e não ser capaz de fazê-la?¨
Mêncio respondeu: "Se se trata de algo como por sob o
braço a montanha Tai e com ela pular o mar do Norte, e
dizes ao povo: "Não sou capaz de fazê-lo¨, trata-se de um
verdadeiro caso de incapacidade. Se se trata de arrancar os
galhos de uma árvore por ordem de um superior e dizer:
"Não sou capaz de fazê-lo, trata-se de um caso de não fazer
e não de um caso de não ser capaz de fazê-lo. Portanto, o
fato de tua Majestade não exercer o poder real não é um
caso como tomar a montanha Tâi sob o braço e saltar com
ela sobre o mar do Norte. O fato de tua Majestade não
exercer o poder real é um caso como quebrar os galhos de
uma árvore¨."Trata com o respeito devido à idade os mais
velhos de tua própria família, de modo que os mais velhos
das famílias alheias sejam igualmente tratados. Trata com a
bondade devida à juventude os jovens de tua própria
família, de modo que os jovens das famílias alheias sejam
tratados igualmente. Faz isso e o reino andará bem. No
Livro de Poesia está escrito: "Seu exemplo influiu na
esposa. Chegou até os irmãos e a família do Estado foi por
ele governada¨. Esta declaração mostra como o rei Wen
tomou simplesmente seu coração bondoso fazendo-o agir.
Portanto o exercício da bondade de coração por um príncipe
bastará para o amor e proteção de todos os que vivem
dentro dos quatro mares, e se não o faz agir não será capaz
de proteger nem mesmo a esposa e os filhos. O modo pelo
qual os antigos chegaram a superar em muito os outros
homens não foi outro senão este: simplesmente sabiam
muito bem como realizar o que faziam, de modo a que
influísse nos demais. Pois bem, tua bondade é suficiente
para beneficiar os animais, mas dela não decorrem
benefícios para o povo. Como é isto? Terei de fazer nesse
ponto uma exceção?
"Pesando-as, sabemos quais são as coisas leves e as
pesadas. Medindo-as, sabemos quais as grandes e quais as
pequenas. As relações de todas as coisas podem ser
determinadas do mesmo modo e é da maior importância
julgar os movimentos da mente. Rogo a tua Majestade que
os julgue¨.
"Reúnes teus equipamentos de guerra, pões em perigo teus
soldados e oficiais e excitas o ressentimento dos outros
príncipes. Essas coisas causam prazer à tua mente?¨
10. Respondeu o rei: "Não. Como podem causar prazer
essas coisas? Meu objetivo, ao fazê-las, é conseguir aquilo
que tanto desejo¨.
Mêncio disse: "Posso ouvir de teus lábios que é isso que
tanto desejas?¨ O rei sorriu e silenciou. Mêncio resumiu: "O
que te leva a desejar isso é não teres alimento bastante
para tua boca? Nem roupas leves e quentes para teu corpo?
Ou não teres suficientes objetos de belas cores para prazer
de teus olhos? Ou não teres vozes bastantes nem músicas
para deleite de teus ouvidos? Ou não teres suficientes
ajudantes e favoritos que diante de ti esperam suas ordens?
Os numerosos funcionários de tua Majestade são suficientes
para proporcionar-te essas coisas. Como pode tua
Majestade ser levada a abrigar semelhante desejo a respeito
delas¨. "Não - disse o rei - meu desejo não se refere a elas¨.
Acrescentou Mêncio: "Então, o que tua Majestade tanto
deseja pode ser conhecido. Desejas aumentar teu território,
ter a serviço de tua corte Qin e Chu, governar o Reino do
Meio e atrair para ti as tribos bárbaras que o cercam. Mas
fazer o que fazes para conseguir o que desejas é como subir
a uma árvore à procura de peixes¨.
11. Disse o rei: "É tão errado assim?¨ "Pior ainda¨, foi a
resposta. "Se sobes a uma árvore para procurar peixes,
ainda que não consigas peixes não sofrerás calamidades
como conseqüência. Mas fazendo o que fazes para conseguir
o que desejas e ainda mais fazendo de todo o coração,
decerto encontrarás mais tarde as calamidades
conseqüentes¨. O rei perguntou: "Podes dar-me prova
disso?¨ Disse Mêncio: "Se o povo de Zhao lutasse contra o
povo de Chu, qual deles tua Majestade julga que sairia
vencedor?¨ "O povo de Chu sairia vencedor¨. "Sim. É certo
que um país pequeno não pode lutar contra muitos, pois o
fraco não pode com o forte. O critério dentro dos quatro
mares abrange nove divisões, cada uma com um milheiro
de li quadrado. Todo Qi junto não é mais do que uma delas.
Se com uma parte tratas de submeter as outras oito, qual é
a diferença entre isso e a contenda de Zhao e Chu? Pois
com semelhante desejo deves voltar ao método apropriado
para conseguí-lo.
12. Disse o rei: "Sou um estúpido e não sou capaz de atingi-
lo. Desejo que tu, Mestre, ajudes minhas intenções. Ensina-
me claramente; ainda que minha inteligência e meu vigor
não sejam suficientes, procurarei levar à prática tuas
instruções¨.
Mêncio replicou: "Só os homens instruídos são capazes, sem
certos meios de subsistência, de manter um coração
constante. Quanto ao povo, se não tem certos meios de
subsistência, não terá um coração constante. E se não tem
um coração constante, nada fará senão por meio do
abandono, do desvio moral, da depravação e da
libertinagem. Quando assim se envolve no crime segui-lo e
castigá-lo, é agarrar o povo numa armadilha. Como se pode
fazer uma coisa como esta, agarrá-lo numa armadilha, sob
o governo de um homem benévolo?
"Portanto, um governante inteligente ordenará a subsis-
tência do povo, de modo a assegurar que os que estão por
cima tenham o suficiente para servir seus pais e aqueles
que estão por baixo tenham o suficiente para manter suas
esposas e seus filhos; que nos anos bons todos possam
satisfazer abundantemente suas necessidades e nos anos
maus todos escapem ao perigo da morte. Depois disso,
deve estimular o povo para que faça - e ele deve também
fazer - o bem, pois nesse caso o povo fará com facilidade¨.
Pois bem, a subsistência do povo é regulada de tal modo
que os de cima não têm o suficiente para servir a seus pais
e os de baixo não têm o suficiente para manter suas
esposas e seus filhos. Apesar dos anos bons, suas vidas
estão continuamente amargurada, e nos anos maus não
escapam à morte. Em semelhantes circunstâncias só tratam
de salvar-se a si mesmos da morte e têm medo de não
conseguí-lo. De que ócio dispõem para cultivar a correção e
a honradez?
"Se tua Majestade deseja levar a cabo essa
"regulamentação da subsistência do povo¨ por que não
adota o que constitui providência inicial para conseguí-la?
"Plantai amoreira em redor das casas com seus cinco mu e
as pessoas de cinqüenta anos poderão vestir-se de seda. Se
tiverdes aves domésticas, porcos e cães, não descuideis das
épocas de cria, e as pessoas de setenta anos poderão comer
carne. Não deixeis passar o tempo adequado para o cultivo
da granja com seus cem mâu e a família de várias bocas
que dela se alimenta não passará fome. Dedicai cuidadosa
atenção à educação das escolas, inculcando especialmente
os deveres filiais e fraternos e homens de cabelos brancos
não mais serão vistos pelos caminhos levando carga na
cabeça e nas costas. Nunca se viu que o governante de um
Estado no qual não se encontram semelhantes resultados -
gente de setenta anos vestindo seda e comendo carne,
gente de cabelos brancos que não passa fome nem sofre frio
- não atinja a dignidade real¨.
5o Seção.
1. O povo de Qi atacou Yen e o conquistou.
O rei Xuan perguntou: "Alguns me dizem que não tome
posse dele por mim mesmo, e outros dizem que tome posse
deles. Para um reino de dez mil carruagens, completar sua
conquista em cinqüenta dias é uma façanha que supera a
força humana. Se não toma posse dele, cairão sobre mim,
de certo, as calamidades do Céu. Que dizes acerca de minha
posse sobre ele?¨
Respondeu Mêncio: "Se o povo de Yen se alegrasse de que
te aposses deles, deves fazê-lo. Entre os antigos havia um
que agia de acordo com esse principio, o rei Wu. Se o povo
de Yen não se alegra em tomares posse dele, não o faças.
Entre os antigos havia um que agia de acordo com esse
princípio, o rei Wen¨.
"Quando, com toda a força de teu país de dez mil
carruagens, atacaste outro país de dez mil carruagens e o
povo trouxe cestos de arroz e oferendas de boas-vindas
para receber as hostes de tua Majestade, havia outra razão
para essa atitude, além do desejo de se livrarem do fogo e
da água? Se tornares a água mais profunda e mais cruel o
fogo, farão, do mesmo modo, outra revolução¨.
2. O povo de Qi tendo vencido o de Yen , apossou-se dele.
Ao ter noticia disso, os príncipes dos diversos Estados se
reuniram para deliberar e resolveram libertar Yen do seu
poder. O rei Xuan disse a Mêncio: "Os príncipes formaram
muitos planos para me atacar. Como devo preparar-me para
vencê-los? "Mêncio replicou: "Ouvi de algum que com
setenta li exerceu todas as funções do governo no reino. Era
Tang. Nunca ouvi de um príncipe que com um milhar de li
sentisse medo dos outros¨.
3. No Livro de História está escrito: "Mal começara sua
tarefa de fazer justiça, Tang começou com Ho. Todo o reino
tinha confiança nele. Quando realizava sua obra no leste, as
tribos do oeste murmuravam. O mesmo fizeram as do norte
quando ele estava ocupado no sul. Seu clamor era este:
"Por que nos deixa para o fim ?¨ Assim, o povo esperava o
que nós esperamos em tempo de seca das nuvens e do
arco-íris. Os freqüentadores dos mercados não discutiam.
Os agricultores não faziam traçada em suas operações.
Enquanto punia a seus governantes, amparava o povo. Seu
progresso era como a queda de uma chuva oportuna, e o
povo estava encantado. Também se diz no Livro de História:
"Esperamos durante muito tempo o nosso príncipe. A
chegada do príncipe será a nossa restauração!¨
"Pois bem, o governante de Yen tiraniza seu povo e tua
Majestade foi e o puniu. O povo supôs que fosses para livrá-
lo da água e do fogo e levou cestos de arroz e oferendas de
boas-vindas para receber as hostes de tua Majestade. Mas
tu mataste seus pais e irmãos mais velhos e, prendestes
seus filhos e irmãos mais moços. Demoliste o templo
ancestral do Estado e levaste para Qi seus vasos preciosos.
Como pode ser considerado justo esse procedimento? O
resto do reino teme, na verdade, a força de Qi. E agora,
quando tens o dobro do território, não pões em prática um
governo benévolo. Isto é o que põem em movimento as
armas do reino.
4. "Se tua Majestade se apressasse a ordenar a libertação
de seus prisioneiros, velhos e jovens, a interrupção do
transporte dos vasos preciosos e, depois de consultar o
povo de Yen, designasses para ele um governante e te
retirasses do país, ainda serias capaz de deter o ataque que
te ameaça¨.
5. Houvera uma escaramuça entre Cau e Lu, quando o
duque Mu perguntou a Mêncio: "Entre meus funcionários
foram mortos trinta e três homens e ninguém do povo quis
morrer em defesa deles. Ainda que os tenha condenado à
morte por sua conduta é impossível matar a multidão. Se
não os mato, fica sem castigo o crime de ter visto a morte
de seus funcionários e não tê-los salvado. Que se deve
fazer, neste caso?¨
Mêncio respondeu: "Nos anos calamitosos e nos anos de
fome, teus sábios velhos e fracos, que foram encontrados
jazendo nos fossos e canais, e os fortes que se dispersaram
pelos quatro cantos, chegaram a vários milhares. Enquanto
isso teus celeiros, ó Príncipe, estavam cheios de cereais e
teus tesouros e arsenais repletos. E nenhum de teus
funcionários te falou em miséria. Assim foram negligentes
os superiores do teu Estado e cruéis com os inferiores. O
filósofo Cang disse "Cuidado, cuidado, o que vem de ti
voltará novamente a ti¨. Pois bem, afinal o povo vingou-se
do procedimento dos funcionários. Não o culpes, ó Príncipe.
"Se tivesse realizado um governo benévolo, esse povo teria
amado a ti e a todos os que estão sobre ele: teria morrido
pelos funcionários¨.
6. Kung-sun Chao perguntou a Mêncio: "Mestre: se fosses
designado para alta nobreza, no cargo de primeiro-ministro
de Qi, de modo que pudesses por em prática os teus
princípios, não haveria que admirar se elevasses o
governante à chefia de todos os outros príncipes e até à
dignidade real. Nessa posição, tua mente perturbar-se-ia ou
não?¨ Mêncio respondeu: "Não. Aos quarenta anos de idade,
consegui tornar imperturbável a minha mente¨.
Chao disse: "Pois que assim, é, Mestre, superas em muito a
Man Pan¨. "A mera obtenção - disse Mêncio - não é difícil.
O douto Zhou conseguiu mente imperturbável muito mais
cedo na vida, do que eu¨.
7. Chao perguntou; "Existe algum modo de conseguir tornar
a mente imperturbável?¨ A resposta foi: "sim¨.
"Pi kung Yu tinha o seguinte modo de se educar: não se
acovardava ante nenhum golpe recebido no corpo. Mantinha
fixos os olhos ante qualquer avanço. Considerava que se
alguém lhe dava o mais leve empurrão, era como se fosse
espancado diante da multidão na praça do mercado, e o que
não tivesse suportado de um homem comum com sua
ampla veste de pele de porco, também não tinha por que
suportar de um príncipe de dez mil carruagens. Considerava
apunhalar um príncipe de dez mil carruagens o mesmo que
apunhalar um homem vestido de pele de porco. Não temia
nenhum dos príncipes. Respondia sempre a qualquer má
palavra que lhe dissessem.
8. "Mang Shi She tinha o seguinte modo de se educar:
"Considero do mesmo modo o conquistador e o conquistado.
Examinar rapidamente o inimigo e logo avançar. Calcular as
oportunidades de vitória e logo se atirar à luta. Eis o que é
temer a força adversa. Como posso garantir-me o triunfo? A
única coisa que posso fazer é tornar-me superior a todo o
medo¨.
9. O povo de Chia destruiu Yen. Alguém perguntou a
Mêncio: "É verdade que aconselhaste Chia a destruir Yen?
Ele respondeu: "Não. Shan Tung me perguntou se Yen podia
ser destruído, e eu respondi: "Pode¨. Em conseqüência, fo-
ram e o destruíram... Se me houvesse perguntado: "Quem
pode destruí-lo?¨, eu teria respondido: "Aquele que é
ministro do Céu pode destruí-lo¨. Supõe o caso de um
assassino sobre o qual alguém me pergunta: "Pode ser
morto esse homem?" Eu responderia: "Pode¨. Se me
perguntam: Quem pode matá-lo?¨, eu responderia: "Pode
matá-lo o juiz dos que julgam o crime¨. Pois bem, como
posso aconselhar que um Yen destrua outro Yen?¨
10. O duque de Wen de Tang perguntou a Mêncio acerca do
modo adequado de governar um reino.
Disse Mêncio: "Não se pode atender descuidadamente os
assuntos do povo. No Livro de Poesia está escrito¨:
Durante o dia, vai-te e recolhe o gado,
E, de noite, trança as cordas,
Sobe depressa ao telhado;
Logo devemos começar a nova sementeira.
"O modo de agir do povo é o seguinte: "Se possuem um
meio de vida seguro terão um coração constante. Se não
possuem um meio de vida seguro, não têm um coração
constante. E se não têm um coração constante, nada haverá
que não façam por meio do abandono de si mesmo, do
desvio moral, da depravação e de libertinagem. Uma vez
envoltos assim no crime, perseguí-los e castigá-los é
agarrar o povo numa armadilha. Como se pode fazer uma
coisas dessas, agarrar o povo numa armadilha, sob o
governo de um homem benévolo?¨
"Portanto, um governante dotado de talento e virtude será
muito complacente e econômico, demonstrará respeitosa
cortesia para com seus ministros e tomará do povo apenas
dentro de limites previamente regulados¨
6o Seção.
1. Chegou de Chu a Tang um tal Xu Xing, que declarou agir
de acordo com as palavras de Shan Mang. Foi direito à porta
e se dirigiu ao duque de Wen, dizendo: "Homem de
longínqua religião, ouvi que tu, Príncipe, realizas um
benévolo governo e desejo receber um terreno para edificar
uma casa e converter-me em cidadão do teu povo¨. O
duque Wen deu-lhe uma casa. Seus discípulos, que
ascendiam a várias dezenas, vestiam todos roupas de crina,
faziam sandálias de cânhamo e teciam esteiras para as
casas.
Ao mesmo tempo, Chan Xiang, discípulo de Chan Liang, e
seu irmão mais moço, Xin com suas esteiras às costas
chegaram de Sung a Tang, dizendo: "Ouvimos que tu,
Príncipe, pões em prática o governo dos antigos sábios
demonstrando que também és um sábio. Desejamos ser
súditos de um sábio¨.
2. Quando Chan Xiang viu Xu Xing, este lhe agradou muito
e abandonando completamente tudo o que aprendera, fez-
se seu discípulo. Numa entrevista com Mêncio, mencionou
com aprovação as palavras de Xu Xing, que eram as seguin-
tes: "O príncipe de Tang é na verdade um príncipe digno. No
entanto, não ouviu ainda as verdadeiras doutrinas da Anti-
güidade. Pois bem os príncipes sábios e capazes devem
cultivar a terra do mesmo modo que seu povo e juntamente
com ele e comer o fruto do seu trabalho. Devem preparar
seus próprios alimentos, de manhã e de noite, enquanto ao
mesmo tempo exercem o governo. Pois bem: o príncipe de
Tang tem celeiros próprios, tesouros e arsenais e oprime o
povo para se alimentar. Como pode ser considerado um
príncipe verdadeiramente digno?¨
Disse Mêncio: "Suponho que Xu Xing semeia e come o
cereal. Não é assim?¨ "Assim é¨, foi a resposta.. "Suponho
também que teça um pano, e vista o pano que teceu. Não é
assim?¨ "Sim, Xu veste roupas de crina¨. "Com barrete?´
"Com barrete¨. "Que espécie de barrete?¨ "Um barrete
simples¨. "Ele mesmo o teceu?¨ "Não. Obteve-o em troca de
cereal¨. "Por que não tece o próprio Xu?¨ "Isso prejudicaria
sua produção agrícola¨. "Cozinha Xu seus alimentos em
panelas e caçarolas de barro e ara a terra com uma ponta
de ferro?¨ "Sim¨. "Faz ele mesmo esses utensílios?¨ "Não.
Consegue-os em troca de cereal¨.
3. Então disse Mêncio:
"Conseguir tudo isso em troca de cereal não é menos
opressivo para o oleiro e o fundidor, e por sua vez, estes ao
trocarem seus diversos utensílios pelo cereal, não são
menos opressores do lavrador. Como pode imaginar
semelhante coisa? Por que Xu não trabalha também como
oleiro e fundidor, obtendo os artigos que utiliza em seu
próprio estabelecimento? Por que negocia e troca
atabalhoadamente com os artesãos? Por que não se livra de
tanto trabalho?¨ Chan Xiang respondeu: "Não se pode de
modo algum realizar ao mesmo tempo o negócio do artesão
e o do lavrador¨. Mêncio concluiu: "Então, só o governo do
reino pode ser realizado juntamente com a prática da
lavoura? Os grandes homens têm seus negócios próprios e
os homens pequenos têm seus negócios próprios. Além
disso, no caso de um só indivíduo, quaisquer que sejam os
artigos de que possa necessitar, estão ao seu alcance,
produzidos pelos diversos artesãos. Se tivesse de fazê-los
ele mesmo, todo mundo andaria de um lado para outro,
pelos caminhos a fora. Por isso se disse: "Uns trabalham
com sua inteligência e outros com sua força. Os que
trabalham com sua inteligência governam e os outros, que
trabalham com sua força, são governados. Os que são
governados ajudam os que governam. Os que governam
são ajudados pelos governados¨. Este é um princípio
universalmente reconhecido¨.
4. Outra vez, numa entrevista com o rei, disse Mêncio:
"Majestade ouvi o funcionário Zhuang dizer que a música te
agrada. É certo?¨ O rei mudou de cor e disse: "Sou incapaz
de amar a música dos antigos soberanos. Só me agrada a
música que se acomoda aos costumes do tempo presente¨.
Disse Mêncio: "Se o amor de sua Majestade à música fosse
muito grande, Qi estaria a ponto de ser um Estado bem
governado. A música de hoje em dia é como a música da
Antigüidade, nesse ponto¨.
Disse o rei: "Podes demonstrá-lo?¨ Mêncio perguntou: "Que
é mais agradável: gozar a música sozinho ou fruí-la com
outros?¨ "Com outros¨, foi a resposta. "Que é mais
agradável: gozar a música com poucos ou fruí-la com
muitos?¨ - "Com muitos¨.
5. Mêncio continuou: "Teu servo deseja explicar o que eu
disse sobre a música a tua Majestade¨.
"Pois bem: tua Majestade tem música aqui. O povo ouve o
som de teus sinos e tambores e as notas de teus pífanos e
gaitas, todos, com a cabeça em febre, franzem a testa e
dizem uns aos outros: "É assim que nossos reis gostam de
música! Por que nos reduzem a este extremo de desgraça?
Pais e filhos não se podem ver. Os irmãos mais velhos e os
mais moços, as esposas e os filhos estão separados e
disseminados por aí¨. Pois bem: tua Majestade está aqui
caçando. O povo ouve ruído de tuas carruagens e cavalos e
vê a beleza de teus penachos e galhardetes, e todos, com a
cabeça em febre, franzem as sobrancelhas e dizem uns aos
outros: "É assim que os nossos reis gostam de caça! Por
que nos reduzem a este extremo de desgraça? Os irmãos
mais velhos e os mais moços, esposas e os filhos, estão
separados e por aí¨. Esse sentimento não se deve a outra
razão senão ao povo que desfrute como tu mesmo.
"Pois bem, tua Majestade recreia-se aqui com a música. O
povo ouve o som de teus sinos e tambores e as notas de
teus pífanos e gaitas, e todos, deliciados, com alegria no
olhar dizem uns aos outros: "Isto soa como se o nosso rei
estivesse livre de qualquer doença! Se não estivesse como
poderia ouvir essa música?¨ Pois bem, tua Majestade está
aqui caçando. O povo ouve o ruído de tuas carruagens e
teus cavalos e vê a beleza de teus penachos e galhardetes,
e todos, deliciados e com alegria no olhar, dizem uns aos
outros: "Isto soa como se nosso rei estivesse livre de
qualquer doença! Se não estivesse como poderia divertir-se
com esta caça?¨ Esse sentimento não se deve a outra razão
senão ao fato de proporcionares a essa gente os seus
prazeres, como tens os teus.
Se tua Majestade fizesse do prazer um bem comum para o
povo e para ti mesmo, esperar-te-ia o poder real¨.
Instruindo o grande mestre de música de Lû, disse o
Mestre: "Pode-se saber como tocar a música. No começo da
obra, todas as partes devem soar juntas. A medida que se
desenvolve a composição todas as partes devem estar em
harmonia, enquanto permanecem individualmente distintas,
fluindo sem dissonância e assim até o fim¨.
6. Disse Mêncio: "O poder de visão de Li Lao e a habilidade
manual de Kung shu, sem o compasso e o esquadro, não
podem formar quadrados e círculos. O ouvido percuciente
do mestre de música Zhuang, sem o diapasão, não pode
determinar corretamente as cinco notas. Os princípios de
Yao e Shun, sem um governo benévolo, não podem
assegurar a tranqüilidade do reino.
"Quando os sábios esgotam o vigor de seus olhos chamaram
em seu auxilio o compasso, o esquadro, o nível e a régua
para tornar as coisas quadradas, redondas, niveladas e
retas. O uso de instrumentos é inesgotável. Quando esgota-
ram seu poder de ouvir ate o máximo chamaram em seu
auxílio o diapasão para determinar as oito notas. O uso do
diapasão é inesgotável Quando exerceram até o máximo os
pensamentos de seus corações, chamaram em sua ajuda
um governo que não podia suportar a visão do sofrimento
dos homens. E sua benevolência espalhou-se por todo o
reino¨.
7. Disse Mêncio: "O compasso e o esquadro produzem cír-
culos e quadrados perfeitos. Por meio dos sábios
manifestam-se perfeitamente as relações humanas¨.
Disse Mêncio: "O povo tem este ditado: "O reino, o Estado,
a família¨. A raiz do reino está no Estado. A raiz do Estado
na família. A raiz da família na pessoa do seu chefe¨.
"Agora desejam não ter opositor em todo o reino, mas não
procuram conseguir isso sendo benévolo. É como um
homem que pega uma substância quente e antes não a
mergulha n´água¨.
8. Disse Mêncio: "Como é possível falar com esses príncipes
que não são benévolos? Consideram que seus perigos são
seguranças, suas calamidades proveitosas e acham prazer
nas coisas pelas quais encontram a morte. Se fosse possível
conversar com aqueles que assim violam a benevolência,
como poderíamos ter semelhante destruição de Estados e
ruína de Famílias?¨.
9. Disse Mêncio: "Que Xie e Chao perdessem o trono, deve-
se a que haviam perdido o povo e perder o povo significa
perder seu coração. Há um modo de conservar o reino:
conservar o povo. Há um modo de conservar o povo:
conservar seu coração. Há um modo de conservar seu
coração, que consiste simplesmente em recolher para eles o
que desejam e não deixar neles o que não lhes agrada¨.
10. O povo volta a um governo regular como a água corre
para baixo, como os animais selvagens voltam à solidão da
selva.
7o Seção.
1. Mêncio disse: "Com os que violentam a si mesmos é
impossível falar. Com os que se desperdiçam a si mesmos, é
impossível fazer alguma coisa. Renunciar à correção e à
retidão na conversação é o que entendemos por violentar-se
a mesmo. Dizer: "Não sou capaz de viver benevolamente ou
seguir o caminho da virtude¨, é o que entendemos por
desperdiçar-se a si mesmo.
2. "A benevolência é a habitação tranqüila do homem e a
virtude é seu caminho reto¨.
3. "Ai daqueles que deixam vazia a vivenda tranqüila e nela
não residem e dos que abandonam o caminho verdadeiro e
não o seguem!¨
4. Disse Mêncio: "O caminho do dever está no que é
próximo e os homens o procuram no que é remoto. A obra
do dever está no que é fácil e os homens a procuram no que
é difícil. Se cada homem amasse pai e mãe e mostrasse o
devido respeito aos seus maiores, o país inteiro gozaria de
tranqüilidade¨.
5. Kung-sun Chao disse: "Por que o homem superior não
ensina por si mesmo ao seu filho?¨
Mêncio replicou: "As circunstâncias impedem que ele assim
proceda. O mestre deve ensinar o que é correto. Quando
ensina o que é correto e suas lições não são praticadas,
leva-as adiante com cólera. Quando as leva adiante com
cólera, contra o que deverá acontecer, ofende-se com seu
filho. Ao mesmo tempo diz o discípulo: "Meu mestre me
ensina o que é correto e ele mesmo segue um caminho
incorreto¨. O resultado disso é que pai e filho se ofendem
um com o outro. Quando pai e filho chegam a ofender-se
um com o outro, a situação é má.
"Os antigos trocavam seus filhos e um ensinava ao filho do
outro¨.
"Entre pai e filho não deve haver reprovações e conselhos
para o bem. Semelhantes censuras levam à desunião e nada
mais é desfavorável do que a desunião¨.
6. Disse Mêncio: "O mais rico fruto da benevolência é este:
o serviço prestado aos próprios pais. O fruto mais rico da
virtude é este: a obediência aos irmãos mais velhos¨.
"O fruto mais rico da sabedoria é esse: conhecer essas duas
coisas e delas não se afastar. O mais rico fruto da virtude é
esse: a obediência aos irmãos nessas duas coisas. O fruto
mais rico da música é esse: regozijar-se com essas duas
coisas. Quando se regozijam com elas crescem. Crescendo,
como podem ser reprimidos? Quando chegam a esse estado
em que não podem ser reprimidos, os pés começam a
dançar e as mãos a mover-se inconscientemente¨.
O discípulo Kung tu disse: "Em todo o reino se acusa
Zhuang Chang de não cumprir seus deveres para com os
pais. Mas tu, Mestre, fazes companhia a ele e até o tratas
com cortesia. Atrevo-me a perguntar "por que?¨
Respondeu Mêncio: "Há cinco coisas que são consideradas
pelo uso comum da época como faltar ao dever para com os
pais. A primeira é a preguiça no uso dos quatro membros
sem atender à alimentação dos pais. A segunda é jogar a
dinheiro e abusar do vinho sem atender à alimentação de
seus pais. A terceira é apaixonar-se pelos objetos e pelo
dinheiro a apegar-se egoisticamente à mulher e aos filhos,
sem atender à alimentação dos pais. A quarta é seguir os
despojos de seus próprios ouvidos e olhos, até o ponto de
provocar a desgraça sobre seus pais. A quinta é gostar de
valentia, lutando e disputando a ponto de por seus pais em
perigo. Será Chang culpado de algumas dessas coisas?¨.
"Pois bem, entre Chang e seu pai há desacordo, pois ele, o
filho, reprova o pai para estimulá-lo ao que não é bom¨.
"Induzir alguém ao que é bom por meio de censuras é o
método dos amigos. Mas semelhante incitamento entre pai
e filho é o maior dano para a bondade que deve prevalecer
entre eles.¨
7. Um homem de Qi tinha uma esposa e uma concubina e
vivia com elas em casa. Quando o marido saía, fartava-se
de vinho e carne e voltava para casa. E quando a esposa
perguntava com quem comia e bebia, estava certa de que
todas elas eram pessoas ricas e distintas. A esposa informou
à concubina. Quando nosso bom homem sai tem a certeza
de que voltará depois de farta libação e comezaina.
Perguntei-lhe com quem come e bebe, e todos, segundo
parece, são pessoas ricas e distintas. No entanto nunca vem
aqui nenhuma pessoa distinta. Quero ver aonde vai o nosso
bom homem. Levantou-se cedo e seguiu secretamente o
marido por toda parte onde ele foi. Em toda a cidade não
houve uma só pessoa que aparecesse falar com ele.
Finalmente chegou até os que faziam sacrifícios entre as
tumbas fora da muralha de leste, e pediu-lhes o que
tinham. Não satisfeito, olhou em torno e foi para outro
lugar. Esse era o modo pelo qual se saciava. A esposa
voltou para casa e informou a concubina, dizendo: "Este é o
nosso esposo, que víamos com esperança e ao qual unimos
a nossa sorte toda a vida. Esses são os seus métodos!¨ Isso
dito, junto com a concubina, renegou o marido e, juntas
choram na sala. Enquanto isto, o marido sem nada saber,
entrou com ar triunfante aproximando-se orgulhosamente
da esposa e da concubina. Na opinião de um homem
superior, no que se refere aos meios pelos quais os homens
buscam riquezas, honrarias, lucro e proveito são poucas as
esposas e concubinas que não se envergonhariam e
chorariam juntas ao saber dos meios que eles utilizam.
8. Wang Chang perguntou a Mêncio: "Atrevo-me a
perguntar quais são os princípios da amizade¨. Mêncio
respondeu: "A amizade deveria manter-se sem nenhuma
presunção oriunda da idade de um, ou de sua posição
social, ou das circunstâncias de seus parentes. A amizade
com um homem é amizade com sua virtude e não admite
pressupostas superioridades¨.
9. Disse Mêncio: "A habilidade que os homens possuem sem
havê-la adquirido pelo estudo é habilidade intuitiva e o
conhecimento que possuem sem o exercício do pensamento
é seu conhecimento intuitivo¨.
`Todas as crianças de peito sabem amar seus pais e quando
crescem um pouco todos sabem amar seus irmãos mais
velhos. "O afeto filial pelos pais é obra da benevolência. O
respeito pelos mais velhos é obra de retidão. Não há outra
razão para esses sentimentos. Pertencem a todos os que
vivem sob o Céu¨.
10. Disse Mêncio: "Quando Shun vivia no profundo retiro
das montanhas, entre árvores e rochedos, vagando entre
veados e porcos selvagens, a diferença entre ele e as rudes
habitantes daquelas alturas remotas, pareciam muito
pequenas. Mas quando ouvia uma só palavra boa ou via
uma só boa ação, era como um regato ou um rio que saísse
da nascente e fluísse numa corrente irresistível¨.
/un:i
O grande opositor de Mêncio foi Xunzi (355 - 288), cujas
teses se contrapunham diretamente a perspectiva otimista
da bondade inata no ser humano. Xunzi defendeu a idéia de
que o ser humano nascia com propensão para o mal, tal
como acontecia nos animais selvagens. A diferença, porém,
é que ele poderia se salvar através da educação e da prática
do ritual e dos costumes. Xunzi era um confucionista
convicto, apesar de ser relativamente pessimista. Suas
propostas foram amplamente discutidas no campo da
educação e na formação do homem, e acredita-se que seus
textos só não forma incluídos no Canone confucionista
porque um dos seus principais alunos, Hanfeizi, haveria de
macular sua imagem transformando-se num dos grandes
ideólogos do Legismo, doutrina que perseguiu
ameaçadoramente o confucionismo durante o período Qin
(III a.C.)
"xtratos de /un:i
%ituais
(...) os sacrifícios são realizados com os sentimentos de
devoção e do desejo. Cumprem a lealdade, a fé, o amor, e o
respeito. A conduta ritual é a perfeição do decoro. Somente
os sábios compreendem inteiramente isso. Os Sábios
compreendem isso, os cavalheiros o carregam
confortavelmente consigo, os oficiais preservam-no, e os
povos comuns consideram-no como sendo o costume. Os
cavalheiros sabem-no ser arte da maneira do homem; o
povos comum pensa, no entanto, que tem algo haver com
fantasmas (...)
;ature:a *u7ana
A natureza do homem é má. Bom é o produto humano. A
natureza humana é tal que os povos nascem com amor ao
lucro, e se seguirem essa inclinações, eles lutarão e
arrebatar-se-ão uns aos outros, e as inclinações ao dever e
a produção morrerão. Eles nascem com medos e ódios. Se
os seguirem, transformar-se-ão em violentos e tendenciosos
indo de contra a boa fé, que morrerá. Se forem indulgentes,
e desordem da licenciosidade sexual resultará na perda dos
princípios rituais e da moral. Em outras palavras, se o povo
agir de acordo com a natureza humana e seus desejos, eles
inevitavelmente lutarão, arrebatar-se-ão, violarão as
normas e agirão com um violento abandono.
Conseqüentemente, somente depois de transformados por
professores e por princípios rituais e morais, conforme a
cultura, poderão permanecer em boa ordem. Visto por este
lado, é óbvio que a natureza humana é má e bom é o
produto humano.
rde7 e desorde7
Constantes princípios regem o conhecimento do céu. O Céu
não prevalece porque você é o sábio Yao ou desaparece
porque você é o Tirano Jie. Bênçãos resultam quando você
responde ao céu com a ordem criativa: e as desgraças
surgem quando você o responde com desordem.(...) Mas a
ordem e a desordem são produtos do Céu? Eu digo, o sol e
a lua, as estrelas e constelações estavam no mesmo lugar
quando Yu criou a ordem e quando Jie fez a desordem; mas
a ordem ou a desordem não vieram do Céu.