Revista eletrônica de musicologia

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Volume XIV - Setembro de 2010
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Daniel Ribeiro Medeiros*

Resumo: Este trabalho apresenta uma análise da Sonata em Sol menor (Hob XVI/44) do compositor austríaco Joseph Haydn através de conceitos estabelecidos na Sonata Theory, desenvolvida por James Hepokosky e Warren Darcy. Através do processo dialógico, um dos princípios fundamentais desta teoria voltada à forma sonata, pretende-se investigar como Haydn dialoga – através da Sonata em Sol menor (Hob XVI/44) - com o universo normativo da forma sonata disponível em sua época. Palavras-chave: Teoria e análise musical; Franz Joseph Haydn; Sonata Theory; Forma sonata.

Analysis of Franz Joseph Haydn’s Sonata in G minor (Hob XVI – 44) Abstract: This article presents an analysis of Joseph Haydn’s Sonata in G minor (Hob XVI/44) in the light of dialogical process involved in the considerations of sonata form proposed by James Hepokosky and Warren Darcy in Elements of Sonata Theory: Norms, Types and Deformations in the Late-Eighteenth-Century Sonata. Palavras-chave: Theory and Musical analysis; Franz Joseph Haydn; Sonata Theory; Sonata form.

Considerações sobre a Sonata Theory A Sonata Theory é uma abordagem analítica basicamente voltada ao estudo da forma sonata nos séculos XVIII e XIX. Desenvolvida por James Hepokosky e Warren Darcy, suas bases estão apresentadas no livro Elements of Sonata Theory: Norms, Types and Deformations in the Late-Eighteenth-Century Sonata. Conforme os autores, uma de suas premissas está na [...] convicção de que devemos procurar compreender a cortina de fundo [backdrop] dos

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p. Suas divisões principais são: exposição.9. [. tradução nossa). ao longo do livro. este modelo articula uma estrutura binária reexpositiva (rounded binary structure) em grande escala. Como se pode notar. por exemplo. HEPOKOSKY. tradução nossa). sob algumas circunstâncias. Portanto. p. é interessante destacar aqui . HEPOKOSKY. o compositor.11.20-22).16. Tal processo “parte da premissa de que uma composição individual é uma expressão musical que é definida (pelo compositor) através de um diálogo com normas implícitas” (DARCY.em contraposição à concepção de Darcy e Hepokosky . 2006. Conforme os autores.ou grupo de obras . tradução nossa). Ambas as partes podem apresentar ritornellos ou não. ou seja.1): FIG. os autores reforçam: “A essência da Sonata Theory reside em descobrir e interpretar o diálogo de uma peça individual com o conjunto de normas de fundo” (DARCY. Para tal..e seu universo formal/normativo. a peça de Haydn se relaciona diretamente com a sonata de tipo 3. é proposta uma abordagem que considera o processo dialógico entre uma determinada obra .rem. dentro do processo dialógico. pode eliminar a repetição da parte 2 ou. 2006.10. Mais tarde. tradução nossa). são considerados através de uma perspectiva histórico-estilística. Cada uma é marcada por diversos temas e texturas sucessivas. HEPOKOSKY. o foco destina-se preponderantemente ao contexto que permeia aspectos puramente musicais.Revista eletrônica de musicologia http://www. 2006. Além disso: Cada um dos três espaços é usualmente sujeitado à diferenciação temática e textural. Dentre estes. Considerações iniciais Darcy e Hepokosky. apresentando três espaços de ação que são organizados da seguinte maneira (FIG. em Fundamentos da Composição Musical (1991): “A forma allegro-de-sonata. serão discutidos aspectos referentes ao relacionamento desta sonata com seu “meio” formal/normativo. 2006.. ou seja.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. as quais são normalmente reconhecíveis como genericamente adequadas para suas localizações específicas.]. apresentam basicamente 5 tipos normativos de sonatas. 2006.ufpr. p. eliminar as duas repetições (DARCY.1: Exemplo de como Darcy e Hepokosky consideram a articulação da estrutura em larga escala da forma sonata. p. p. a Sonata em Sol menor (Hob XVI/44) de Haydn será investigada através desta perspectiva analítica proposta por Darcy e Hepokosky. HEPOKOSKY. Segundo Schoenberg. No que diz respeito à diferença de concepções da forma sonata entre alguns autores e/ou teóricos. é essencialmente uma estrutura ternária. HEPOKOSKY. elaboração e recapitulação” 2 de 15 23/09/2013 00:20 .html procedimentos normativos dentro das diferentes zonas ou espaços de ação [action-space] das sonatas do final do século XVIII (DARCY. Estes três espaços podem ser vistos como expansões das três fases da continuous rounded binary form (a estrutura de rounded binary em que a primeira parte termina em uma tonalidade secundária) (DARCY.a maneira como Arnold Schoenberg considerava a divisão das partes da forma sonata como um todo.

guiados em grande parte pelo padrão de ordenação temática estabelecido na exposição). HEPOKOSKY.. p. 2006. GILBERT. Gilbert.ufpr. 1991.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. Entretanto. Darcy e Hepokosky possuem uma consideração semelhante: Em termos de suas estratégias retóricas. em Introducción al Análisis Schenkeriano (1992). p.]. Embora ambas as concepções observem as ocorrências da Parte B em um relacionamento íntimo com a exposição. assim como de ordem terminológica (desenvolvimento para Darcy e Hepokosky.] o significado de tudo que acontece no desenvolvimento deve ser considerado em comparação com o que aconteceu na exposição (DARCY.249). talvez. p. Embora haja diferenças nas concepções dos autores referentes à divisão das partes. 3 de 15 23/09/2013 00:20 . [Geralmente]. seções que habitualmente se chamam exposição. p. a elaboração (Durchfürung) “é quase exclusivamente devotada a elaborar a grande variedade do material temático ‘exposto’ na primeira divisão [Parte 1 . o desenvolvimento e a reexposição compreendendo as distintas partes. nota-se que. [. 1991. é característica de Haydn. Os dois tipos estão representados no repertório tonal. Mozart e do primeiro Beethoven (FORTE. esteja no fato de que os primeiros consideram em grande medida a participação fundamental do processo harmônico dentro do desenvolvimento. no mínimo.. Para Schoenberg (1991.332).331-332). Allen Forte e Steven E.. com a exposição.rem. em um nível de abordagem mais aprofundado.243). é forma binária ou ternária? As grandes seções aparecem designadas como ABA [. A forma binária reexpositiva com. desenvolvimento e reexposição (recapitulação).19. p. ou por uma retransição”. finalizam: Entretanto.exposição]”. quando se indicam as repetições.243). Após as considerações destacadas acima. 1992. a forma parece ternária.html (SCHOENBERG.. Este é o ponto de vista adotado neste livro (FORTE. mais comumente selecionadas. p. as considerações referentes aos materiais que comumente são trabalhados na parte B são muito parecidas. GILBERT. estes módulos tomados e trabalhados através do desenvolvimento são apresentados na ordem em que apareceram originalmente na exposição [.. considerando como aspecto primordial a interrupção harmônica no V que ocorre no final a desta parte. a repetição do desenvolvimento e reexposição. podem destacar contraposições bastante consistentes entre as concepções binária e ternária. há muitos que acham convincente e conveniente considerar a forma sonata como uma forma a três partes.Revista eletrônica de musicologia http://www. Embora não tenham sido aqui expostas considerações de vários outros autores sobre este ponto. os desenvolvimentos podem ou não ser totalmente ou parcialmente rotacionais [rotational] (que é. elaboração [Durchfürung] para Schoenberg). A diferença entre a concepção binária (Darcy e Hepokosky) e ternária (Schoenberg)..]. Schoenberg somente destaca que a elaboração (Durchfürung) “tende a ser modulatória”. o assunto apresenta diferenças que. Os desenvolvimentos frequentemente se referem a uma ou mais idéias da exposição. terminando “com o estabelecimento de um acorde ‘anacrúsico’ apropriado. apresentam uma interessante discussão em torno da forma sonata no que diz respeito às considerações ternárias e binárias: Em primeiro lugar. Assim. como acontece. parece uma forma binária reexpositiva: ||:A:||:BA:||. Esta visão possivelmente venha do fato de que os autores consideram as concepções de teóricos dos séculos XVIII e XIX [1]. os quais preparam a recapitulação (SCHOENBERG. 1992. Tradução nossa). da primeira metade da Rotation 1’s (P e TR) [os autores se referem aos materiais contidos no espaço referente ao tema e à transição].

Dessa forma. dentro do processo comparativo entre o modelo apresentado acima e o gráfico da Sonata em Sol menor de Haydn. nota-se que na recapitulação o espaço de ação (action-space) referente à transição (TR) é eliminado (FIG. veremos. Darcy e Hepokosky fazem questão de reiterar esse aspecto [2]. tais deformações se apresentam como expansões.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. Entretanto. Entretanto. como se dá a articulação da primary-theme zone (P) em direção à secondary-theme zone (S) na exposição e na recapitulação. levam em consideração algumas concepções de forma sonata de alguns teóricos contemporâneos a Haydn. 2): FIG. através de um processo dialógico interno na Sonata em Sol menor de Haydn. p. Análise Um dos principais interesses da abordagem analítica da Sonata Theory é a consideração e discussão em torno do conceito de deformação (deformation). Mozart e Beethoven. Entretanto. assim como permite ter a idéia dos processos normativos que a norteavam. 3): 4 de 15 23/09/2013 00:20 .ufpr.html Vale mencionar uma das características que mais chama a atenção no que diz respeito aos conceitos que permeiam a Sonata Theory: a de que os autores. Conforme os modelos normativos apresentados por Darcy e Hepokosky. conforme colocado anteriormente. alterações ou substituições dos espaços de ação (action-spaces) dos modelos normativos da forma sonata. Geralmente. 2: Modelo genérico apresentado por DARCY e HEPOKOSKY (2006. As descrições destes teóricos eram bastante variáveis. nota-se que a sonata de Haydn não apresenta uma deformação (deformations) em larga escala. Através desta leitura. a consideração destas concepções dentro da Sonata Theory é de fundamental importância para o processo dialógico que os autores propõem.rem.17). bem como sua manifestação em uma determinada obra. a sonata de Haydn enquadra-se no tipo 3 (FIG. pode-se ter uma leitura mais contextualizada da forma sonata dentro deste período.Revista eletrônica de musicologia http://www.

p. especialmente em direção ao seu fim. mas sim. Mozart and Beethoven (1998). de modo que a tonalidade subordinada possa emergir como uma tonalidade concorrente na exposição.) reside o conflito entre a tonalidade principal e sua tonalidade subordinada rival. Além disso. 3: O círculo destaca a eliminação da transição (TR). que serve para desestabilizar a tonalidade principal. liquida as características do material melódico-motívico a fim de “limpar a cena” para a entrada do tema subordinado (CAPLIN. tradução nossa). ela já é em si 5 de 15 23/09/2013 00:20 . rondó. Darcy e Hepokosky.rem. por sua vez. Arnold Schoenberg observa que: O propósito de uma transição não é.93-94. apenas. comentam que: O que hoje chamamos de transição foi.Revista eletrônica de musicologia http://www. e. provavelmente. Caplin. em Classical Form: A theory of formal functions for the instrumental music of Haydn. a transição desamarra a forma estabelecida pelo coeso tema principal. p.html FIG. 2006. Através da comparação entre os gráficos. HEPOKOSKY. um intensificado movimento adiante – um conjunto de etapas de continuações modulares que aceitaram a P-idea precedente como base para uma sonata e que trouxe a música para a próxima zona genérica do processo sonata (DARCY. tradução nossa). concerto. a transição possui a seguinte função: No centro do drama tonal na exposição de uma forma de movimento completo (sonata. etc.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol.125. As funções formais do tema principal e do tema subordinado são responsáveis por estabelecer e confirmar estas tonalidades. conferindo uma maior continuidade rítmica e impulso para o movimento. nota-se que o diálogo da sonata de Haydn com o modelo normativo (tipo 3) apresenta uma pequena deformação (deformation) que não se dá no nível de expansão ou substituição das opções disponíveis.ufpr. 1998. o de introduzir um contraste. Conforme William E. no nível de eliminação de um espaço de ação (action-space) que possui importante papel na exposição [3]. nada mais do que a convenção de seguir uma idéia inicial com um apropriado. Localizada entre estas funções está a transição.

.ufpr.. ou pode acontecer também que o tema principal seja temática ou harmonicamente modificado. liquidação das características motívicas e estabelecimentos do acorde ‘anacrúzico’ conveniente (SCHOENBERG. com novas formulações.1-4) está estruturado através de um modelo de período bastante usual. [. de modo a se transformar em um segmento conectivo. 4) a primary-theme zone (P) e a transição (TR) na exposição da sonata de Haydn: FIG. ou seja.rem. 1991. ao final de um tema principal. Ela pode iniciar.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. O espaço de ação da primary-theme zone (P) (c. o papel genérico da transição é o de estabelecer uma eliminação gradual de características motívicas referentes à primary-theme zone (P) e de direcionar harmonicamente à região tonal da secondary-theme zone (S). conforme Schoenberg (1991. Vejamos na figura abaixo (FIG.Revista eletrônica de musicologia http://www. modulação (em vários graus).] A estrutura de uma transição inclui. um contraste.51). Como se pode ver. quatro elementos: estabelecimento da idéia transitória (através de uma repetição freqüentemente seqüencial).html mesma. p. basicamente.2) e o conseqüente terminando no i (terceiro 6 de 15 23/09/2013 00:20 . p. com o antecedente terminando no V (final do c.215-216). 4: Primary-theme zone (P) e transição (TR) na Sonata de Haydn.

Caplin (1998) comenta: Se uma unidade inicial que termina com uma cadência fraca [meia cadência ao V] está repetida e leva a um fechamento cadencial [aqui. em outras palavras: “significa apenas uma realização propositadamente deslocada [deformation] ou não-normativa de um espaço de ação musical [. proposto por Darcy e Hepokosky.. Darcy e Hepokosky (2006) e Schoenberg (1991): o estabelecimento gradual da nova região tonal (se dirige de forma clara a III:HC). etc].. podemos dizer então.12. a deformação (deformation) nesta sonata de Haydn não ocorre através de expansões. p. vejamos o significado do termo deformação (deformation). HEPOKOSKY. a transição (TR) da sonata de Haydn também apresenta características já destacadas nas palavras de Caplin (1998). alargamentos. Sobre a constituição do período. que a primeira unidade é um antecedente para o seguinte conseqüente. tradução nossa).]” (DARCY. conforme dito anteriormente.. tais como: V-I. tradução nossa). 2006. V/III-III.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. 1998.Revista eletrônica de musicologia http://www. o autor parece sugerir um fechamento cadencial completo. etc. Assim como na primary-theme zone (P). 2006..614. Segundo os autores.]... através da eliminação da transição (TR) na recapitulação. [.]” (DARCY.4). p. as duas funções de antecedente e conseqüente se combinam para criar a theme-type normalmente chamada de período (CAPLIN. A título de recapitulação de conceitos. ou. tradução nossa).] alargamento de um procedimento normativo aos seus limites máximos esperados ou mesmo além destes [. etc.html tempo do c.ufpr. apresentação variada do tema (com novo direcionamento) com posterior dissolução de características do tema principal através do processo de liquidação [4]. todas estas colocações servem meramente para reforçar o entendimento de como se constituem e quais as funções formais destes módulos. Entretanto.. Juntas. 5): 7 de 15 23/09/2013 00:20 . mas sim.. HEPOKOSKY. Entretanto. refere-se ao “[. p. Vejamos a figura abaixo (FIG.rem.11.

a região de subdominante é tonicizada. p. Caplin (1998) comenta: A transição é a seção da recapitulação mais provável de ser alterada. O ajustamento pode estar acompanhado por qualquer número de expedientes harmônicos e de estruturação de frases. Se a transição original é modulatória. e podem ocorrer em qualquer lugar da transição.rem. Porém. na recapitulação deve ser tonalmente ajustada para permanecer na tonalidade principal. promovendo assim [.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. 1998.ufpr. o autor destaca que além destas.Revista eletrônica de musicologia http://www. Como se vê nas palavras de Caplin (1998). A respeito dessa eliminação.. a transição é geralmente modificada por razões de lógica e compreensibilidade. 1998. mais adiante. p. 8 de 15 23/09/2013 00:20 .. “algumas outras alterações são regularmente encontradas” (CAPLIN.163.] uma sucessão lógica para a dominante no final da transição (CAPLIN. 5: recapitulação: sem transição (TR).163. tradução nossa). Frequentemente.html FIG.

Através da perspectiva analítica schenkeriana. reforça o caráter de deformação (deformation) – conceito proposto por Darcy e Hepokosky . a repetição não pode ser muito adiada.51). a primary-theme zone (P) apresenta um período organizado de maneira bastante usual. perfazendo. Porém. Conforme Schoenberg: A estruturação do início [antecedente] determina a construção da continuação. O fato de Caplin considerar a eliminação da transição (TR) como um “caso extremo”.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. Sob o subtítulo Delections and compressions (Supressões e compressões). daí o fato de a segunda metade [. Com isso. não retira o aspecto de repetição mencionado acima: 9 de 15 23/09/2013 00:20 . 1991. p. A primeira frase não é repetida imediatamente.] o conseqüente. reforçando a manifestação do processo de exclusão de um módulo de ação. tradução nossa). 7) destaca uma transferência de registro de uma voz interna.na recapitulação da sonata de Haydn. a primeira metade do período: o antecedente. 1998. a transição inteira pode estar eliminada) (CAPLIN. O período na exposição da Sonata em Sol menor de Haydn apresenta-se da seguinte maneira (FIG.Revista eletrônica de musicologia http://www. mas sim. ser construída como uma espécie de repetição do antecedente (SCHOENBERG.html tradução nossa).164-165. a maneira como Haydn conecta a primary-theme zone (P) e a Secondary-theme zone (S).1-4). comenta: A transição na recapitulação frequentemente apaga ou comprime uma porção substancial do material usado na exposição (Nos casos mais extremos. p. Haydn estabelece a variação da segunda metade do período. a fim de não colocar em perigo a compreensibilidade. mas unida a formas-motivo mais remotas (contrastantes). o que mais chama a atenção não é o simples fato da eliminação deste espaço de ação (action-space). nota-se que a figura abaixo (FIG. É interessante notar como Haydn estabelece a variação da segunda metade do período. assim.ufpr.rem. Este aspecto leva à necessidade de discutir sobre a re-elaboração que o período sofre na recapitulação. Mesmo assim. Conforme dito anteriormente. 6: período na exposição (c. Após este elemento de contraste. O período difere da sentença pelo fato de adiar a repetição.6): FIG.

Pode-se dizer que ocorre uma espécie de “deformação” (deformation) na estrutura do período se estabelecermos uma leitura dialógica através do que ocorre na exposição. O direcionamento harmônico final.html FIG.50) através de uma determinada voz. também é modificado.rem.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. Observando comparativamente a FIG. 2006. Conforme mencionado anteriormente. 2006.53). 5. a “superposição acontece quando uma ou mais vozes internas aparecem acima da voz principal ou registro obrigatório“ (FRAGA. Conforme Orlando Fraga.Revista eletrônica de musicologia http://www. ou seja. em Progressão Linear: uma breve introdução à Teoria de Schenker (2009). 4 e a FIG. a reorganização da prymary-theme zone (P) na recapitulação apresenta-se como um aspecto fundamental no que diz respeito ao processo de eliminação da transição (TR). nota-se um alargamento da estrutura do período em dois compassos (recapitulação). 8): 10 de 15 23/09/2013 00:20 . Como veremos mais adiante. p. ele estabelece tanto a conexão do final da exposição com o seu reinício. bem como com o início do desenvolvimento (FIG.ufpr. essa superposição possui um papel importante dentro da reelaboração do período na recapitulação. Mais especificamente. p. 7: transferência de registro de voz interna. Este último segmento possui um papel conectivo. a transferência de registro se caracteriza como uma técnica de progressão linear. Na observação do mesmo autor. O alargamento ocorre através da amálgama entre o segmento inicial da frase conseqüente e um segmento apresentado anteriormente no final da exposição. na qual ocorre uma mudança do “registro agudo para o grave ou vice-versa” (FRAGA. a transferência de registro destacada acima se caracteriza como uma superposição.

Conforme dito anteriormente. a forma sentença? Para 11 de 15 23/09/2013 00:20 . pode-se dizer que nos c.Revista eletrônica de musicologia http://www. surge a seguinte pergunta: considerando a modificação da estrutura harmônica e o encaixe do segmento final da exposição. a meia-cadência (HC).52-57 se mantém a forma de período? Ou se estabelece. 8). Levando em conta o alargamento que ocorre na estrutura do período no início da recapitulação.rem. Este direcionamento harmônico ao V.ufpr.html FIG. a superposição possui um papel importante no sentido de que facilita o encaixe entre o primeiro segmento da frase conseqüente com o material extraído do final da exposição (ver FIG. 8: Segmento do final da exposição e sua re-elaboração na recapitulação. 7 e FIG. é mantido quando o segmento é utilizado na estrutura do período na recapitulação. por exemplo. O segmento final da exposição se caracteriza por seu direcionamento harmônico às meiascadências tanto de Sol menor (i:HC – quando retoma o início da exposição) como de Dó menor (iv:HC – quando se dirige ao início do desenvolvimento). ou seja.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol.

59. Ao invés disso. 1998. A segunda frase começa com novo material e modula para a região de dominante. p. p. 1998. Esses últimos temas têm recebido pouca discussão teórica. alguns comportam pequena relação a cada forma. Conforme o autor: Muitos temas são difíceis de classificar dentro dos modelos de sentença ou período. a fragmentação das idéias precedentes de dois compassos em unidades de um compasso (CAPLIN. a prymary-theme zone (P) na recapitulação da sonata de Haydn confere com este modelo discutido por Caplin (1998). p. isto é. FIG. contudo. Como se pôde ver. será necessária uma breve discussão sobre o que Caplin (1998) denomina “hybrid themes”.52 ao c. um número considerável combina características de ambos os tipos. Conforme Caplin (1998). tradução nossa). Para ter certeza.html responder tais questões.59.330 (FIG. são compostos de um antecedente de quatro compassos seguido por uma continuação de quatro compassos (CAPLIN. tradução nossa). p.59. p. mas terminam como uma sentença. uma característica híbrida.9): A primeira frase é um antecedente padrão – uma idéia básica de dois compassos seguida por uma idéia contrastante que termina com uma meia cadência. 9: Exemplo extraído de Caplin (1998. Caplin (1998) desenvolve uma discussão em torno de temas que “podem exibir características tanto sentenciais quanto periódicas” (CAPLIN.Revista eletrônica de musicologia http://www. Uma vez que a idéia básica não retorne.60). num primeiro momento. 1998. É através desta perspectiva que o trecho pode ser lido. Sendo assim. a frase projeta a mais típica característica da função de continuação – ou seja. Para fundamentar melhor este padrão expresso na peça de Haydn. 1998. tradução nossa). tradução nossa). 12 de 15 23/09/2013 00:20 . tomemos uma descrição que o autor faz de um exemplo extraído do Andante da Sonata para piano em Dó maior de Mozart. é interessante notar que o espaço de ação (action-space) que vai do c. mas não poderia descrever precisamente como o tema se encaixaria dentro de uma estrutura teórica que consiste exclusivamente de dois tipos fundamentias (CAPLIN. a priori.rem.57 apresenta.59.ufpr. sobre os temas híbridos (Hybrid 1: antecedent + continuation): Muitos temas híbridos começam como um período. K. ou seja.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. sugere aspectos relativos ao período e a sentença. Na melhor das hipóteses. a frase não pode ser considerada como um conseqüente. alguém familiarizado com as idéias de Schoenberg pode observar que um determinado tema está [construído] ‘mais como uma sentença do que um período’ (ou vice-versa).

html Conforme o autor. acredita-se que este aspecto não se apresenta como algo essencial a ser discutido. De forma similar. Haydn optou por realizar uma reelaboração do período apresentado na exposição.ufpr. Para tal. Através da mudança de funções (antecedente – conseqüente (exposição) para antecedente – continuação 13 de 15 23/09/2013 00:20 . O que se trouxe à tona através desta abordagem foi a maneira como o compositor equilibrou estruturalmente a recapitulação em decorrência da eliminação de tal espaço de ação (action-space). Considerações finais Através da abordagem acima. pode-se fazer as seguintes considerações: Embora a sonata de Haydn apresente uma deformação (deformation) através da eliminação da transição (TR) na recapitulação. 10: Primary-theme zone (P) na recapitulação. Haydn desenvolve tal estruturação na primary-theme zone (P) da recapitulação: FIG.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. este modelo de Mozart se organiza da seguinte maneira: função antecedente + função continuação.rem.Revista eletrônica de musicologia http://www.

ufpr.63. 14 de 15 23/09/2013 00:20 .e aí se entramos em um campo mais especulativo .br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. 11: Recapitulação na Sonata em Sol menor Hob XVI/44 de Franz Joseph Haydn.html (recapitulação)). mais especificamente no sentido de que não deixa perder a expectativa criada pela meia-cadência (HC) que leva a secondary-theme zone (S) – como se fosse uma substituição à meia-cadência (HC) ao final da transição (TR). através desta elaboração.Revista eletrônica de musicologia http://www.rem. 10 nota-se que a fragmentação se dá através de uma seqüenciação do segmento final da idéia básica apresentada no antecedente) e o segmento extraído do final da exposição. Portanto. Notas [1] Ver p. mais especificamente da superposição. 11): FIG. ou seja. pode-se dizer que Haydn. pôde-se notar que Haydn não elimina aspectos básicos que envolvem o espaço de ação (action-space) referente à recapitulação. Types and Deformations in the Late-Eighteenth-Century Sonata. o compositor parece ter estabelecido um equilíbrio na forma. sua capacidade de interconectá-los. Este aspecto mostra a habilidade do compositor em manusear os materiais disponíveis. Haydn optou por remodelar a prymary-theme zone (P) (FIG. Conforme dito anteriormente sobre a transferência de registro. Embora não haja a transição (TR) dirigida à meia-cadência que leva à secondary-theme zone (S).14-15 de Elements of Sonata Theory: Norms. pôde tornar mais natural a conexão entre a fragmentação da idéia básica (na FIG. Talvez .o compositor também tenha optado por essa elaboração no sentido de não enfraquecer a sensação de fechamento da ESC (essencial structural closure) no c.

Allen. [3] Para uma melhor compreensão do conceito de deformação (deformation). SCHOENBERG. Types and Deformations in the Late-Eighteenth-Century Sonata. GILBERT. por sua vez. Elements of Sonata Theory: Norms. restam apenas elementos residuais que pouco possuem em comum com o motivo básico” (SCHOENBERG. Trad. Durante o curso. Pedro Purroy Chicot.rem. and Beethoven. [4] Segundo Schoenberg.ufpr. foi contemplado duas vezes com Bolsa de Desempenho Acadêmico no projeto Violão Camerístico. Barcelona: Editorial Labor. atuou como solista e camerista. Types and Deformations in the Late-Eighteenth-Century Sonata. até que permaneçam. sendo orientado pelo Prof. São Paulo: Universidade de São Paulo. No período de 2006 a 2008 trabalhou como professor substituto no curso de Licenciatura em Música da UFPel.html [2] Ver (DARCY. HEPOKOSKY. Atualmente é mestrando em Teoria e Criação pelo Programa de Pós-Graduação em Música da UFPR. Introducción al Análisis Schenkeriano. William E. Warren. 1998. Arnold. p. ver pág. Curitiba: DeArtes. com o patrocínio da PETROBRAS.14). 1991. HEPOKOSKY. Progressão linear: uma breve introdução à Teoria de Schenker. DARCY. Classical form: A Theory of Formal functions for the Instrumental Music of Haydn. Mozart. apenas. onde ministrou as disciplinas de Violão.br/_REM/REMv14/04/analise_da_sonata_emsol. Nova Iorque: Oxford University Press. 1992. No ano de 2006. 2006. 15 de 15 23/09/2013 00:20 . não exigem mais uma continuação. “a liquidação é um processo que consiste em eliminar gradualmente os elementos característicos. Em geral. No final de 2006. Ivanov Basso. Fundamentos da Composição Musical. FORTE. *Daniel Ribeiro Medeiros é Bacharel em Violão pelo Conservatório de Música da Universidade Federal de Pelotas (2004) sob a orientação do Prof. arranjador. Referências CAPLIN. Arranjo Vocal e Instrumental. Destaca-se aqui sua participação no Grupo Camerístico de Violões (Fábio Dalla Costa e Ivanov Basso). Teoria e Percepção Auditiva. FRAGA. transcritor e recitalista. Como recitalista. aqueles não-característicos que. dentre outras. Eduardo Seincman. 2009. o trio foi selecionado pela FUNARTE/MinC para a realização do projeto Concertos Didáticos nas Escolas Públicas. atuando como pesquisador de repertório. James. Nova Iorque: Oxford University Press. Trad. fez parte da comissão organizadora do V Encontro de Violonistas do Conservatório de Música da UFPel.59). Steven E. Norton Dudeque. 1991. 2006. p. Orlando. 614 a 621 do livro Elements of Sonata Theory: Norms.Revista eletrônica de musicologia http://www.