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O NARCISISMO NA PROSA DE MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO: UMA LEITURA DE A CONFISSÃO DE LÚCIO COMO DISCURSO AMOROSO1 Lia B.

Martins2

Resumo O presente artigo se propõe a uma análise da obra A Confissão de Lúcio – publicada pelo autor modernista português Mário de Sá-Carneiro em 1 1! – nos moldes do "ue se con#encionou c$amar% na terminologia de Bart$es &2''() e *riste#a &1 ++)% discurso amoroso% com en,o"ue em seu principal aspecto constituinte% "ual se-a% o narcisismo% "ue tamb.m representa um elemento central na obra analisada.

Palavras-chave: Mário de Sá-Carneiro/ narcisismo/ A Confissão de Lúcio/ discurso amoroso

In ro!u"#o 0este artigo pretende-se analisar os elementos denunciadores da presen1a do narcisismo na prosa do poeta português Mário de Sá-Carneiro – um dos mais importantes nomes entre os responsá#eis pela introdu12o do modernismo nas artes e nas letras portuguesas –% bem como a interliga12o de tais elementos e a rele#3ncia de sua e4istência. 5ersonalidade dissociada% corro6da pela neurose% agitando-se numa acuidade sensorial le#ada ao paro4ismo% Sá-Carneiro le#ou uma #ida atormentada entre a nostalgia do ontem &tema constante em sua obra) e o ,asc6nio pela modernidade% em suas cores e nuances. Seu narcisismo enternecido era entremeado de melanc7licos rasgos de repugn3ncia por si mesmo% cu-a ,re"uência se ,a8ia mais intensa 9 medida "ue

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:rtigo apresentado na disciplina de Leitura e 5rodu12o de ;e4tos :cadêmicos% sob orienta12o da pro,a. <ra. ;.rcia Montenegro Lemos% em no#embro de 2'1'. 2 =raduanda em Letras->rancês – ?>C.

Com o amor% tal risco% aliás trágico% passa a ser admitido% normali8ado% garantido ao má4imo. 2!) sobre o des.erecer uma s7lida% embora introdut7ria% conceitua12o do narcisismo en"uanto . garantido ao má imo. um pouco redundante a e4press2o à figura e à arte de Mário de Sá-Carneiro% #isto "ue% de t2o intensa a cone42o entre autor e obra% ambos entram em uma simbiose pro.erecidos pelo mito de 0arciso e pelos construtos te7ricos .igura e 9 arte de Mário de Sá-Carneiro.inida por *riste#a como vertigem de identidade.2o e4tra#agante no seu orgul$o "uanto na sua $umildadeD – assim se e4pressa Eulia *riste#a &1 ++% p.irma *riste#a &1 ++)G Bsta .iguradores do narcisismo – ine#ita#elmente imiscu6dos na melancolia% "ue . passa a ser admitido. Bm seguida% utili8ando como corpus o romance A Confissão de Lúcio% publicado por Mário de Sá-Carneiro em 1 1!% proceder-se-á a uma in#estiga12o de elementos con. Bm #erdade% por#entura soe at.raseando a autora% dir6amosG com a poesia de Mário de Sá-Carneiro . O "ue 2 .sua #ida a#an1a#a para o trágico . 5ara.). cit.alecimento da e4periência amorosa. uma constante em toda a prosa e poesia de Mário de Sá-Carneiro – % sendo analisadas as interte4tualidades e interrela1ões poss6#eis entre as passagens em "ue se e#idencia tal caracter6stica em sua obra.enAmeno ps6"uico. 5arece-nos% no entanto &ou n2o $a#eria contradi12oF)% "ue tais di8eres aplicam-se inteiramente 9 . vertigem de palavras &op.im "ue te#e – Mário de Sá-Carneiro cometeu suic6dio aos 2@ anos de idade.orma "ue nos condu8 9 poesia ou 9 alucina12o delirante sugere um estado de instabilidade em "ue o su-eito dei4a de ser indi#is6#el e aceita perder-se no outro% pelo outro. normalizado. aliás trágico.unda "ue descon$ece precedentes% 9 e4ce12o da"uela obser#ada entre amante e coisa amada% de. tal risco.undamentais o.ornecidos por nomes consagrados como os de Bart$es &2''() e *riste#a &1 ++) – ambos ligados a uma abordagem interte4tual e semi7tica &com nuances psicanal6ticas) do discurso amoroso –% o. 0o corpo deste artigo% pretende-se% primeiramente% partindo dos substratos . :. Conce$ o !e narc$s$smo C.

# claro $ue um dia c%egava a desilusão. particularmente signi.ossem% e n2o as #er como realmente eram.eito% en"uanto eu te amo% eu me encontro amante% em ti% estando eu a pensar em mim% e recobro-me por mim mesmo% perdido na min$a negligência% conser#ando-me em ti. : desilus2o% logicamente% . &>HCH0O% apud *IHS. &gri.or1a de sustentar o encanto.ica &os anos de 5aris% a atra12o pela morte) como de testemun$o dos 3 .ine-se admira#elmente% nesse parágra..o nosso) Bssa . bastante simb7lico o modo como se descre#e a personagemG uma criatura superior% mas% ao mesmo tempo% incompleta% Cincapa8 de se condensar numa obra – disperso% "uebrado% ardido. Consiste ela em atribuir ao outro caracter6sticas originalmente pertencentes a si mesmo% ou ao "ue se gostaria de ser. ine#itá#el.. 5ois este e4iste na"uele.icati#o o "ue Mário de SáCarneiro escre#e sobre seu $ábito de construir as indi#idualidades como l$e agrada#a "ue . 1L).erir-se% em A Confissão de Lúcio% a uma das muitas idiossincrasias da personagem =er#ásio Jila-0o#a% ... como a todos "ue% em grau maior "ue a maioria% escol$em ou n2o escapam ao destino de adaptar a realidade a seus pontos de #ista. 0a #erdade% somos todos narcisos% primários e secundáriosD &apud *IHS.irma Motta "ue% C"uando n2o . O em%o& o es%a"o e os 'a os 0uma linguagem impregnada de poesia% A Confissão de Lúcio – obra "ue tem tanto de autobiográ. Se l$e apresenta#am uma criatura com a "ual% por "ual"uer moti#o% simpati8a#a – logo l$e atribu6a opiniões% modos de ser do seu agrado/ embora% em #erdade% a personagem .. &p.BJ:% 1 ++% p. su-eito% 0arciso instala-se no ob-eto.o transcrito% o mecanismo . B a"uele e4iste% mas neste. a coragem "ue se e4ige dos enamorados% estes narcisos #oluntários – "uer se mirem em si mesmos% "uer no mundo% "uer no outro.$a#eria% realmente% de mais e#ocati#o desse autor "ue as e4pressões alucina!ão delirante e insta"ilidadeF 0a #erdade cada um tem a si pr7prio e ao outro. &.BJ:% op.o nosso) <e.osse a ant6tese disso tudo.) 'ão foi um fal%ado por$ue teve a coragem de se despeda!arD. Com e..) :o re. Bntretanto% longo tempo ele tin$a .enAmeno do narcisismo/ a c$amada din&mica de identifica!ãoidealiza!ão.undamental presente na base do . 2K% gri. :. : prop7sito de =er#ásio Jila-0o#a% . cit.

orma propositalmente imprecisa dois dos conceitos mais essenciais da narrati#a% sutilmente os sub#ertendo – o tempo e o espa1o.cie.orma guiadas por alguma . de "uêF <e um destino implacá#el e cego como um programa biol7gico% como o camin$o da esp. dotado de propriedades "ue usualmente n2o l$e s2o atribu6das% como a de ser#ir de ob-eto a um ardente amor – no caso% o "ue o poeta Iicardo de Loureiro nutre por 5aris% o "ual n2o se limita% como em princ6pio se poderia supor% a um deslumbramento ante a bele8a do ob-eto cultural% ante a realidade art6stica da cidade. de si mesmo.atal pelo destino – como se LMcio .olaP% um c6rculo luminoso "ue a circunda% aur. LMcio comporta-se% nesse aspecto – como em tantos outros –% como um leg6timo enamorado/ de "uêF% de "uemF% perguntar6amos..ico desse e4certo% concentremo-nos no trec$o entre #6rgulasG não sei "em como.) O espa!o% por sua #e8% . B4cusando-nos de comentar o cun$o marcadamente autobiográ. :ssim declara LMcio na abertura do primeiro cap6tulo &p.BJ:% 1 ++% p...tempos &na sua urgência% na sua decadência% no seu . O amor% o amado anulam a contagem do tempo. cit.renesi sensacionista) –% aborda de .rio "ue perpassa toda a obra% e% especialmente% de certa atra12o . 2@) LMcio parece #i#er% permamentemente% no estado suspenso da espera% em "ue CantesD e CdepoisD colidem num tem6#el -amais. & *IHS. 122). O tempo% na narrati#a% .orma% de uma ..le46#el% pronto a penetrar ou partil$ar o do outro% "uanto #igilante% desperto% lMcido no seu el2. de sua pr(pria imagem refletida no espel%o do mundo ..BJ:% op.ola n2o #ista pelos sentidos e4ternos mas percepcionada de "ual"uer outra .osse por algum moti#o incapa8 de e4ercer controle sobre suas a1ões% como se .orma "ue ele n2o sabe e4plicar racionalmenteD & =:ICBQ% 1 + % p.. de . &*IHS. CO artista discerne% en#ol#endo 5aris% uma Oaur.. 1K)G C5or 1+ L% n2o sei bem como% ac$ei-me estudando <ireito na >aculdade de 5aris% ou mel$or% n2o estudandoD. Ná% em sua linguagem% a indica12o de certa in#oluntariedade% do mist. 4 .ato coisa bastante incerta. : c%amada% sua c$amada% transbordame num .lu4o em "ue se misturam perturba1ões do corpo &o "ue c$amamos emo1ões) e um pensamento em #ertigem% t2o #ago% .. LMcio trasladouse de Lisboa a 5aris para reali8ar um curso uni#ersitário e não sa"e "em como.or1a "ue ele pressente mas ignora. uma resposta poss6#el.ossem elas de alguma .

$eráldico% me . signi.. L'-L1) B aindaG :$S como se respira #ida% #ida intensa e sadia% nesses domingos de 5aris% nestes mara#il$osos domingosS. (') – da6 sua import3ncia t2o . @')/ comentá-la-emos mais adiante. &pp..undamental para ambos.reos son$adores de bele8a% ro1ados de :l. O seu cenário literário &por"ue o lemos em no#elas)% a grande sala de tapete #ermel$o e% ao .. Noras "ue nos n2o pertencem – et. 5oucos parágra... a Mnica coisa em "ue LMcio e Iicardo se igualam% como a.ola% tal#e8% "ue a en#ol#e a constitui em alma – mas "ue eu n2o #e-o/ "ue eu sinto% "ue eu realmente sinto% e "ue n2o l$e sei e4plicarS.. .Mteis "ue s7 acedem 9 escrita atra#. :mo-a por "ual"uer outra coisaG por uma aur.eto ao c.s% pelas suas atri8es% pelos seus monumentos.s de um imenso es. :ssim declara IicardoG <e 5aris% amo tudo com igual amorG os seus monumentos% os seus teatros% os seus bule#ares% os seus -ardins% as suas ár#ores. Luar de outono% .irma o primeiro & SR-C:I0BHIO% p. LL) :"ui claramente se percebe o caráter di.udo nele me .lebre restaurante.em-se nesse trec$o per..) Bntretanto% LMcio% n2o creia "ue eu ame esta grande terra pelos seus bule#ares% pelos seus ca..icati#o "ue% e4atamente nesse cenário on6rico% LMcio #á ou#ir de Iicardo a mais estran%a confissão – Ca mais perturbadora% a mais densaD &p. &.ol$as secas% bei-os e c$ampan$e.eito e4emplo da citada din3mica de identi.. Como escre#e Ioland Bart$es &2''(% p.Bm #erdade% em termos de tra1os comuns entre caracteres% o amor por 5aris . &p. litMrgico.m% ungidos de Jago. 02o sei...or1oG desanimamos de escre#er o "ue% ao ser escrito% denuncia sua pr7pria 5 . B .luido do espa1o e do tempo% e a impossibilidade de controlá-lo – a #ida escoa% as $oras não nos pertencem..era de grande #ida% me e#oca#a por uma saudade long6n"ua% sutil% bru4uleante% a recorda12o astral de certa a#entura amorosa "ue eu nunca #i#era.ace.. Uuanto 9 a12o propriamente dita% obser#a-se "ue na obra ela tem pouca import3ncia por si mesma.ica12oideali8a12o% bem como da atribui12o ao espa1o de caracter6sticas sentimentais – e#ocati#as de uma realidade son$ada ou de um passado por #ir.igura do romanceVdrama% Os acontecimentos da #ida amorosa s2o t2o . 1(()% ao comentar sobre a .... @') . T a #ida simples% a vida útil% "ue se escoa em nossa . &p.undo% a escadaria/ as ár#ores rom3nticas "ue e4ternamente o ensombram% o pe"ueno lago – tudo isso% na"uela atmos.. 02oS 02oS Seria mes"uin$o.os depois% ao mencionar a sugest2o do amigo de "ue -antassem no 5a#il$2o de :rmenon#ille – aplaudida por ele do mel$or agrado –% LMcio comentaG Sempre ti#e muito a.uso e .

irma o mesmo autor% resgatando o sentido arcaico "ue .) o estarem 9 mesma altura% bem acima dos outros% os apro4imou numa ami8ade . $ue podia valer a noite fantástica em face do nosso encontro 2 desse encontro "ue marcou o princ6pio da min$a #idaF A%4 sem dúvida amizade predestinada a$uela $ue come!ava num cenário tão estran%o. /Sá-Carneiro1 <e tra1os especialmente autobiográ. um drama% como a.) O acontecimento% 6n.eti#a – entre SáCarneiro e >ernando 5essoa.s de seu ressoar% enorme &.D &0HB.. 1(!) 0o uni#erso de A Confissão de Lúcio% os .al $ip7tese% no entanto% de t2o sub-eti#a% se"uer poderia ser seriamente le#antada – n2o nos atre#amos% pois.am as dificuldades da rela!ão amorosa. 3e resto. circula toda uma %umanidade.)..NBS% op. A figura se refere à -poca feliz imediatamente su"se$uente à primeira sedu!ão.. antes $ue sur.. Morto Sá-Carneiro% lamenta-se 5essoaG C:$% meu maior amigo% nunca mais 0a paisagem sepulta desta #ida Bncontrarei uma alma t2o "uerida :s coisas "ue em meu ser s2o as reais. .. dado 9 pala#ra por 0iet8sc$eG CO drama antigo tin$a em #ista grandes cenas declamat7rias% o "ue e4clu6a a a12o &esta acontecia antes ou depois da cena). tão pertur"ador. tão dourado.imo% e4iste apenas atra#.*..eferimos certos acontecimentos de nossa vida a outros mais fundamentais 2 e muitas vezes. :cerca disso% comentou Berardinelli &apud SR-C:I0BHIO%1 L+% p. em torno de um "ei. O enamoramento . cit. /0art%es1 . no caso presente.atos #alem pelo "ue representam% pela sua carga simb7lica – com Sá-Carneiro% tudo s2o ind6cios.icos nos parece "ue se-a a ami8ade entre LMcio e Iicardo. L(c$o e R$car!o )'C*'+. o ele#ado grau de pro4imidade – intelectual e a. O "ue se pode apontar% com base em dados concretos% .% p..#acuidade &. K)G &..eita de compreens2o% carin$o e admira12o mMtua.o.QSCNB% apud B:I.D 6 .

eitamente as nossas almas – tanto "uanto duas almas se podem compreenderD &p. Meus pais adora#am-me. :p7s as primeiras con#ersas% comenta LMcioG 5ela primeira #e8 eu encontrara e. 2(/ gri.irma Iicardo. Iicardo a LMcioG :ntes de o con$ecer% n2o lidara sen2o com indi. : cada instante do encontro% descobrem no outro um outro eu mesmo & B:I.erentes – criaturas #ulgares "ue nunca me compreenderam% muito pouco "ue ..o nosso).osse. &p.NBS% 2''().m "ue sabia descer um pouco aos recantos ignorados do meu esp6rito – os mais sens6#eis% os mais dolorosos para mim.ato – uma e4tens2o do eu.Hmposs6#el n2o associar tais pala#ras 9 ami8ade surgida entre LMcio e o poeta Iicardo de Loureiro% com "uem simpati8ou de imediato% Cadi#in$ando nele uma nature8a "ue compreenderia um pouco a min$a almaD &SR-C:I0BHIO% 2''2% p.) 5ara recuperar uma identidade amea1ada ou mesmo perdida% LMcio e Iicardo come1am a reencontrá-la na sua comun$2o de almas% comun$2o "ue% no entanto% segundo Iicardo% n2o pode ser plena por"ue a ele n2o l$e basta a simples ami8ade. !1) B aindaG CCompreendiam-se per. 0o entanto% ele dese.. (').D &1 ++% p..igura de Marta – a misteriosa e l3nguida esposa de Iicardo% a "uem LMcio con$ece em Lisboa e de "uem se torna amante. Mas% por isso e4atamente% ainda menos me compreendiam. Bn"uanto "ue o meu amigo . Uuestiona *riste#a – C<ois amores n2o s2o essencialmente indi#iduais% logo incomensurá#eis% condenando assim os parceiros a s7 se encontrarem no in.initoF A menos $ue eles comunguem num terceiroG ideal% <eus% grupo sacrali8ado.. Mar a: %erman)nc$a !o !ese*o ou !a !ece%"#o+ <estinada a se en"uadrar na categoria do terceiro% surge assim a . 7 . e4plorado por =arce8 &1 + % p..aria $ue fosse mais. uma alma rasgada% ampla% "ue tem a lucide8 necessária para entre#er a min$a.eti#amente algu. @') Uuase – ou de . CT -á muitoD% a. 122) na seguinte passagemG &. B com ele o mesmo acontecera – $a#eria de mo contar mais tarde.al aspecto .. . & SR-C:I0BHIO% 2''2% p. ! ).

&p.a8er os meus dese-os% posso realmente sentir a"uilo "ue os pro#ocou.:s circunst3ncias do aparecimento de Marta na #ida do poeta s2o de nature8a bastante incerta% e muito di..or1oso me seria antes possuir "uem eu estimasse% ou mul$er ou $omem. claro% "ue o poeta se casara $á pouco% durante a min$a ausência.etos – -á l$e contei –% apenas ternuras.m como se se tratasse de uma irrealidade/ de "ual"uer coisa "ue eu -á soubesse% $ue fosse um desenlace.imG de possuirS Ora eu% s7 depois de satis.usamente descritas por LMcio – como% aliás% -á se disse de toda a a12o da narrati#a. 8 .idenciara Iicardo% muito antes% ap7s a aludida re.% para ser amigo de algu. Logo eu s( poderia ser amigo de uma criatura do meu se o.ato – tamb. Ble escre#era-mo na sua primeira carta/ mas sem -untar pormenores% muito brumosamente – como se se tratasse de uma irrealidade .alta#a para "ue pudesse considerar plena sua ami8ade com LMcioG T isto s7G – disse – não posso ser amigo de ningu-m.. de estreitar. 5ara as sentir% isto . 02o proteste.initi#amente% por seu turno. Mas uma criatura do nosso se4o% n2o a podemos possuir. :o c$egar a Lisboa% Iicardo espera-o na esta12o. <e sua mul$er% nem uma pala#ra. &p.us2o.m &#isto "ue em mim a ternura e"ui#ale 9 ami8ade) .icando assente "ue nessa mesma tarde eu -antaria em sua casa. 0unca soube ter a.. : ami8ade má4ima% para mim% tradu8ir-se-ia unicamente pela maior ternura.ei12o no 5a#il$2o de :rmenon#ille% o "ue . Bn. @(). Bu n2o sou seu amigo. O artista acompan$ou-me ao $otel% ... :bra1amo-nos com e. @1) >ica patente% nesses e4certos% a nature8a do empecil$o – simb7lico ou n2o% como se "ueira considerá-lo – "ue se instala entre LMcio e Iicardo.. @!) Con. @1) B em seguida assinalaG : #erdade% por conse"uência% .oi nula –% circunst3ncias materiais e as saudades de seu amigo le#am LMcio a sair de 5aris% de... &p. "ue as min$as pr7prias ternuras% nunca as senti% apenas as adivin%ei. :p7s de8 meses de $armAnico con#6#io de alma e estreitamento de la1os com LMcio% Iicardo% embora o seu grande amor por 5aris% resol#e regressar a 5ortugal – Ca Lisboa% onde em realidade coisa alguma o de#ia c$amarD &p. se essa criatura ou eu mudássemos de se o. <epois de um ano de separa12o – durante o "ual sua correspondência ... B uma ternura tra8 sempre consigo um dese-o cariciosoG um dese-o de bei-ar. Comenta LMcioG Bu -á sabia% .undamentalmente l$e . 5elo meu lado% respondera com #agos cumprimentos% sem pedir detal$es% sem estran$ar muito o .

. desesperos. 2KL) :o comentar sobre a .a12o plena de seu dese-o pudesse reali8ar-se.#oas% da min$a #ida.irma Motta &apud *IHS.orma12o simb7lica para al. @@).igura da 02o $á% no entanto% totalidade – s6ntese – sem transcendência e con.alante. e o encontro prestigioso $ue nos revelou inicialmente um ao outro. O c$(me e o !es'echo 5A se$u6ncia7 . :lguma coisa "ue% partindo da totalidade% #em a e4cedê-la.m do espel$o% este outro &.ica12o% por"ue n2o . 1!) "ue o amor . depress8es.eli8% em n. o outro .undir-se ao ser amoroso% tornar-se dele parte e a ele possuir% no sentido original de tornar-se donoF Con. LK)% O su-eito n2o e4iste sen2o por identi. vivendo então incessantemente so" a amea!a de uma desgra!a $ue atingirá simultaneamente o outro. angústias.icar-se com um outro ideal "ue .oi a mais simples% a mais serena.% p.orme obser#a *riste#a &1 ++% p.igura surge assim como ideal do Bgo% cria12o con-unta – ainda "ue tácita – dos enamorados% para "ue a satis.alante% o outro en"uanto .. constrangimentos e armadil%as de $ue me torno presa. :$S esses seis meses constitu6ram em #erdade a Mnica . >antasma% .us2o se4ual &MO. plenitude% Bart$es a de.. eu mesmo.ulmina-me. Marta seria% portanto% a pr(pria representa!ão sim"(lica do amor% e sua . :.ine como uma precipita12oG alguma coisa se condensa% abate-se sobre mim% . /0art%es1 C<urante seis meses a nossa e4istência .:% 1 ++% p. O "ue me repleta assimF ?ma totalidadeF 02o. cit.) .D% suspira LMcio em A Confissão &p. mágoas. 9 .Mas "ue sentido se pode atribuir ao #6#ido dese-o de posse de Iicardo em rela12o a LMcio% "ue a"uele coloca como condi12o mesma de e4istência de uma poss6#el ami8adeF 02o seria apenas uma #aria12o e4acerbada – conse"uentemente mais percept6#el – da 3nsia partil$ada por todos os enamorados no "ue toca a .o longo rastro de sofrimentos. &2''(% p. Cintermediário – daimon – entre dois dom6nio separados% c$amado a preenc$er um #a8io e a constituir uma unidade totalD.BJ:% op.. um ob-eto de necessidade nem de dese-o. 1!).. ressentimentos.poca . um polo de identi.

BJ:% op. JerásSD &p.. Uue me . Marta% pu4a de um re#7l#er e% antes "ue LMcio possa esbo1ar um gesto% .. tomado% instigados nele pela aura de mist. LK-L+) <essarte% ap7s o drástico des.eti#amente amante dela% LMcio sente-se arrancado da es.inal – a um tempo imposs6#el e ine#itá#el –% Iicardo con.. & *IHS.rer muito% muito. 1(). +L-+@) O id6lio dos primeiros tempos .. :o tornar-se e. K).ec$a em sua compan$eira um tiro 9 "ueima-roupa. Como pro#a suprema de seu a.rio. o auge do intolerá#el/ o amante "ue sobre#i#e a#alia ent2o o abismo "ue separa a morte imaginária% "ue #i#ia em sua pai42o% da realidade implacá#el de "ue o amor o tin$a sempre a.. B em Marta era tudo mist.. 0o ardor de um embate . da#a-se me toda em lu8..) coisa estran$a – este amor pleno% este amor sem remorsos% eu #ibra#a-o insatis..idencia a LMcio a nature8a da .a8ia por ocultar a mim pr7prio% tentando substitu6-lo pelos meus antigos des#arios. Jerás. 1'').igura de MartaG C>oi como se a min$a alma% sendo se4uali8ada% se materiali8asse para te possuir.. Ccorpo para a morte% ou ao menos para se postergar% por amor do Outro% e para "ue Bu se-a.irma na introdu12o &p.. :ssim ele o di8G &. <a6 a min$a angMstia – da9 o meu ciúmeD &p. uma morte "ue me ...irmaG CO meu orgul$o s7 n2o admitia segredos. &pp.BJ:% 1 ++% p.ato% ele a.. :ma#a-a% e ela me "ueria tamb.. Mas por "uê% meu <eusF Cruel enigma.rio.. s7 min$aS T s7 min$aS S7 para ti a procurei. 12!).a8er um mo#imento% des.rio "ue en#ol#e Marta% e pelo ciMme "ue nutre por ela – CciMme "ue eu oculta#a 9 min$a amante como uma #ergon$a% "ue .) Mist. <e . Bla .. Mas n2o consinto "ue nos separe.B apressa-se o ciMme a corroer a delicada plenitude – pro#is7ria ou ilusoriamente – alcan1ada pela intermedia12o de Marta..astadoG sal#ado. inteiramente rompido pelas obsessões% angMstias e des#arios de "ue LMcio .ec$o de seu &duploF) romance% ap7s o cessar da e4istência de Iicardo e sua outra .. O amor .eito% dolorosamente..m% decerto..a8 ser.. LK) 0o entanto% Uuando a morte intr6nseca 9 pai42o amorosa produ8-se na realidade e arrebata o corpo de um dos amantes% ela .alta#aF &. cit% pp. : morte de Iicardo e o desaparecimento de Marta% "ue ad#êm como conse"uência% representam para LMcio a dissolu12o do Bgo% posto "ue o Bgo .. 10 . >a8ia-me so.ace% Marta% LMcio ac$a-se morto – se n2o em realidade% ao menos em esp6rito/ Cmorto para a #ida e para os son$osG nada podendo -á esperar e coisa alguma dese-andoD% como ele a.D &*IHS..eto% Iicardo re#ela a LMcio seu segredo – mais "ue isso% arrasta-o at.era de tran"uila serenidade em "ue se ac$a#a imerso. Mas sempre embaldeD &p..

es '$na$s : alma .D &p.rustra1ões como conse"uência da din3mica de identi. : mat. Cons$!era"..m essa% possi#elmente% a .erramenta para a mani. Sua pena &pelo assassinato de Iicardo)% de de8 anos% a.alta de 0arciso consiste em ignorar "ue ele . a origem de sua sombraD & apud *IHS. B at. 1(').ica12o-ideali8a12o "ue ele% como 11 ..BJ:% 1 ++)% Mário de Sá-Carneiro encontra#a a essência de sua #ida e arte na busca pela #ibratilidade das sensa1ões% o auto-erotismo da imagem pr7pria% a auto-identi.le4o de sua . :p7s seu cumprimento% re.unesto de #aidade% de orgul$o e de loucura% reali8a-se em Sá-Carneiro como apenas um re.) de "ual"uer modo% separado ou dissol#ido% n2o sou recol$ido em parte alguma.% p. 1@).. !-L)G Uuando assim me acontece de abismar-me% . COs anos #oaramD.ugia-se em uma #i#enda rural% isolada e perdida% donde nunca mais arredará p.igura-se-l$e curta.ades &5LO.. :du8-se "ue Mário de Sá-Carneiro era% pois% todo alma &CTramos todos almaD% a. 9 morte real% s7 me resta contemplar as $oras a esgueirar-se em min$a . C:ermaneci. por"ue -á n2o $á lugar para mim em parte alguma% nem mesmo na morte. : imagem do outro – 9 "ual eu me cola#a% da "ual #i#ia – -á n2o e4iste/ &.A"isma-se LMcio% na terminologia de Bart$es &2''(% pp.H0O% apud *IHS.BJ:% 1 ++)..BJ:% op.ace..H0O% apud *IHS. :ssim se constr7i todo o seu narcisismo O narcisimo% por #e8es dito emblema .en7rio da Motta "ue Ca . Seus dias transcorrem tran"uilos – sem dese-os% sem esperan1as. T tamb. mas não me sou.ica12o no outro..irma LMcio em A Confissão).esta12o do esp6rito.irma Leda . A morte real – apenas um sono mais denso.. :..% a um s7 tempo% Cob-eto amado% amor e amor de siD% lemos nas Bn.alta de Sá-Carneiro – ao n2o compreender sua #is2o do mundo como re.ria ser#ia% a ele% como mera .le4o de sua alma atormentada% torna-se-l$e imposs6#el recon$ecer e combater suas .orma de intera12o com o mundo – e4tremamente espirituali8ada% desmateriali8ada% "uase se diria su"limada – % e% como C-amais o ol$o poderia #er o sol sem tornar-se semel$ante ao solD &5LO. T essa a real e4tens2o de seu psi"uismo. cit.

S2o 5auloG Martins >ontes% 2''(.ernando :essoa e Mário de Sá-Carneiro.ria Martine8 de :guiar. +X ed.. :oesia.ragmentos de um 3iscurso Amoroso.oi sua pr7pria #idaF Seu narcisismo . por ela pro#ado.r/'$cas B:I.sicas sensa1ões em campos mais ele#ados. Sá-Carneiro pro-etou a si mesmo em sua arte% e% ao mirar-se no espel$o . Comenta LMcio – em .D 5ergunta-seG realmenteF Iesta saber – "uanto% na #ida% escapa 9 es..ica#a tudo a"uilo. Eulia.. Iio de EaneiroG Bdiouro% 2''2.era da :rteF B "uanto da arte de Mário de Sá-Carneiro .NBS% Ioland.rad.rad.letido% atirou-se nas águas "ue ele mesmo tur#ara% dei4ando a realidade para oscilar suas sinest. :. Sabia bem o "ue signi. <ist(rias de Amor. A Confissão de Lúcio. Org. =:ICBQ% Maria Nelena 0erW. pro#a bastante da indissociabilidade dos dois elementos% ao mesmo tempo em "ue . . 12 .ace de um dos arroubos de =er#ásio Jila-0o#aG CBu sorria apenas. Hsto s7G Arte. . Leda . Cleonice Berardinelli.erra% 1 ++.sua personagem LMcio% e4perimenta#a em sua percep12o da realidade/ da6 deri#a sua crAnica melancolia. Iio de EaneiroG 5a8 Mário de.ormado% n2o #endo nele o mundo re. Iio de EaneiroG :gir% 1 L+. Re'er)nc$as -$-l$o. Márcia Jal.. S2o 5auloG Bdusp% 1 + .en7rio da Motta. SR-C:I0BHIO% YYYYYYYY. +ril%as em . .igura-se% pois% A Confissão de Lúcio como o pr7prio mito de 0arciso re#isitado% pintado em no#as cores sobre o mesmo molde – eterno e uni#ersal. Bsta#a -á acostumado.BJ:% e . *IHS.