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Luciana Villela de Moraes Sarmento

Ticket to ride: as tensões entre contracultura e consumo nas letras de músicas dos Beatles

Dissertação de Mestrado Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC-Rio. Orientador: Prof. Dr. Everardo Pereira Guimarães Rocha

Rio de Janeiro, janeiro de 2006

Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução total ou parcial do trabalho sem autorização da universidade, da autora e do orientador.

Luciana Sarmento Graduou-se em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo em dezembro de 2001 pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Dedica-se atualmente a pesquisas no campo da música popular e sua relevância acadêmica na área de Comunicação Social.

Ficha Catalográfica Sarmento, Luciana V. de M.

Ticket to ride: as tensões entre consumo e contracultura nas letras dos Beatles / Luciana V. de M. Sarmento; orientador: Everardo Rocha. – Rio de Janeiro: PUC, Departamento de Comunicação Social, 2006.

1v. 143p.

Dissertação de mestrado - Comunicação Social - PUC-Rio

Incluí referências bibliográficas.

1. Comunicação social, teses; 2. Música popular; 3. Rock and roll ; 4. Contracultura; 5. Cultura de massa I Rocha, Everardo (Everardo Rocha) II Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Departamento de Comunicação Social.

Para meus pais, Rosane e Milton, pelo apoio de sempre nas horas mais difíceis. Para meus irmãos, Ricardo, Adriana e Cristiana pela minha criação espiritual e musical. Para meu namorado Andrei, “por todo amor que houver nessa vida”

A toda minha família. pela hospitalidade e acolhimento nas horas difíceis. Everardo Rocha. . pelo amadurecimento. pela paciência. Ao meu namorado Andrei. Ao meu irmão Ricardo e ao meu cunhado Ricardo. no lugar certo e estar sempre do meu lado. À minha tia Angela e à Catarina. fiéis companheiros de longas jornadas. À secretária Marise. Aos meus amigos. Aos professores do mestrado da PUC-Rio. estão perto. À Cecília. mesmo quando estão longe. que. Ao meu primo-irmão Luiz Eduardo. pela sapiência. por me guiarem textos afora.Agradecimentos Ao meu orientador. especialmente meus avós e meus pais. pelas experiências compartilhadas e multiplicadas. por me ensinarem o sentido da vida. por ter aparecido “bem devagar” na hora certa. carinho e incentivo. pelas viagens musicais e beatlenianas.

Palavras-chave Música popular. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.que pertence à sociedade capitalista . 2006.Resumo SARMENTO. de alguma forma. . Dissertação de Mestrado . Ticket to ride: as tensões entre contracultura e consumo nas letras dos Beatles. A contracultura foi um movimento impulsionado pela juventude da década de 1960 que se chocou com a sociedade capitalista e ia contra os seus princípios. ele necessitava da cultura de massa . Rio de Janeiro. para que este movimento de contracultura pudesse se desenvolver. Cultura de massa. São essas tensões entre consumo e contracultura que são detalhadas nesta dissertação. Luciana. a partir das letras das músicas dos Beatles (grupo musical que foi um dos maiores ícones da contracultura) que retratam. Contracultura. 144p. Beatles. o universo do consumo. Rock and roll.para se desenvolver e espalhar sua mensagem pelo mundo.Departamento de Comunicação Social. Consumo. Entretanto.

Abstract SARMENTO. the consumption’s universe. Beatles. Rock and roll. in some way. inspired on the Beatles’ lyrics (a rock group that was one of the most popular icons of the countercultere movement) that shows. MSc. Mass culture. Luciana. However. Consumption.Departamento de Comunicação Social. for this movement to work. Dissertation . 144p. . These tensions between the counterculture movement and consumption are detailed on this dissertation. it needed the mass culture – that belongs to the capitalist society – to spread it’s message around the world. 2006. Ticket to ride: the tensions between the counterculture movement and consumption in Beatles’ lyrics. Key-words Popular music. Rio de Janeiro. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. Counterculture. The counterculture was a movement impulsed by the young people in the 1960’s decade that ran into the capitalist society and it’s principals.

3. Trilha sonora 4 The Beatles – mito. Antecedentes 3.1. produto e discurso 4.Sumário 1 Introdução 2 Cultura de massa 3 A Contracultura 3. O movimento 3. Beatles for sale 4.1.2. Discurso 5 Considerações finais e perspectivas futuras 6 Referências bibliográficas 7 Anexo 9 13 29 29 35 43 54 54 80 116 119 121 .2.

the love you take is equal to the love you make. John Lennon e Paul McCartney .And in the end.

o recorte cairá justamente sobre os Beatles. Este trabalho irá observar como o mercado se apodera do universo da cultura como um todo. como o próprio nome já revela. o consumismo e a “tecnocracia”. é dos Beatles a música mais regravada do mundo. em se colocar contra o sistema vigente.1 Introdução Os Beatles venderam no mundo inteiro mais de um bilhão de discos. eles dependeram do mesmo sistema contra o qual lutavam para se estabelecerem como um dos maiores fenômenos da cultura de massa no século XX. Este estudo está fundamentado em pesquisa bibliográfica e na análise das letras de música dos Beatles que falam.com>.aboutthebeatles. Para melhor compreensão das relações entre consumo e contracultura. Tal movimento consistia. contrastando-as com o movimento de contracultura no qual o grupo estava inserido. São essas tensões e ambigüidades entre o consumo e a contracultura que serão assinaladas nesta dissertação. trinta e cinco anos após terem se separado. Além de outros recordes. Por isso. o capitalismo. Esse número faz da banda recordista em vendas até hoje. e como isso aconteceu especificamente com o movimento de contracultura. de alguma forma. Acesso em: 4 jan. . se os Beatles alimentavam e eram alimentados pela contracultura. Entretanto. o industrialismo. As tensões entre consumo e contracultura presentes nas letras de música dos Beatles serão destacadas para a compreensão de uma parte de nossa cultura de massa. componente cotidiano da maioria da população mundial. de consumo. Este é o propósito desta dissertação. iniciado na década de 1960. é tão importante para o campo da Comunicação Social tentar compreender o que faz dos Beatles um fenômeno da cultura de massa. a partir de um universo de 42 músicas selecionadas entre as 218 músicas1 gravadas pelos Beatles durante sua carreira oficial que retratam o consumo de forma direta ou indireta (estaremos observando 1 Informação retirada de: <http://www. 2006.

nos jornais. mas continua atraindo uma legião de fãs que carregam na memória suas mensagens sobre um mundo melhor. Dois integrantes da banda ainda estão vivos e ativos no meio musical: Ringo Starr. . Junto com o empresário Brian Epstein e o produtor musical George Martin. dentro da sua música. John Lennon foi assassinado em 1980. ambos com músicas inéditas e aclamados pela crítica e pelo público. George Harrison faleceu de câncer em 29 de novembro de 2002. foi relançado em DVD o Concert for Bangladesh. os quatro beatles mudaram os rumos da música. e Paul McCartney. ainda fornecem muito material para a mídia e continuam gravando composições próprias. econômica. em poder de várias pessoas. em Nova York. estavam fragmentados. de bens de consumo. todos esses processos. No dia 8 de dezembro de 2005. trabalho. composição e produção. profissões. quando completaram-se 25 anos da morte de Lennon. No ano de 2005. produtos midiáticos. nas revistas – nos meios de comunicação de massa como um todo – foi uma gama de reportagens. particularmente com o músico Ravi Shankar (músico indiano). Os processos musicais de gravação. os músicos de estúdio. mas também não foi esquecido pela mídia.Introdução 10 as representações de dinheiro. calcado na paz e no amor. Sua ligação com a música indiana. uma iniciativa do artista para arrecadar dinheiro no ano de 1971. reapresentações de programas e exibições de documentários ligadas aos Beatles. centralizando o poder de decisão sobre o que iria ser gravado e difundido pela cultura de massa. com 63. Ringo lançou o álbum Choose love e Paul lançou Chaos and creation in the backyard. No ano de 2005. social e culturalmente o ocidente capitalista – que se utilizou da música para gritar ao mundo suas insatisfações. foi uma das grandes mudanças observadas na trajetória do rock durante a década de 1960 e uma das heranças deixadas pelos Beatles às gerações seguintes. o que se assistiu na televisão. Os dois continuam fazendo shows pelo mundo. Os Beatles assumiram. no início da década de 1960. para a população de Bangladesh. havia os compositores. os intérpretes. entre outros). Por exemplo. Eles transformaram o rock and roll no rock e se tornaram porta-vozes de uma geração jovem – insatisfeita com o modo como o Estado conduzia política. entre outros. com 65 anos. nem pelos fãs.

do teatro – só para citar alguns – são constantemente observados como estudo da Comunicação. cultura e consumo (1995:112) a partir de um estudo de Carl Sagan em que ele coloca toda a história do universo desde o seu surgimento até os dias de hoje na escala de um ano. especificamente Estados Unidos e Inglaterra. os temas das letras. em obras literárias. pelo rock. a década de 1960 também pode ser assim relativizada. Entretanto. E a escolha pelos Beatles provém do fato da banda ser um fenômeno quase que incomparável na cultura de massa. se relativizado em relação a uma escala maior. em termos de vendas. em alguns casos. também. o surgimento do videoclipe como um mercado segmentado (relativo aos jovens e ao rock) e as atitudes frente a um mundo em constante e veloz transformação – não pode passar em branco pelos olhos dos comunicadores. Portanto. Este estudo é delimitado nos países ocidentais capitalistas desenvolvidos. a música não recebe a mesma atenção que estes produtos. ao mesmo tempo em que está presente na vida das pessoas de todas as classes sociais e faixas etárias e. é parte integrante destes mesmos produtos – ela está dentro das novelas. . Nesta relativização. a partir da segunda metade do século XX. A escolha do tema parte de uma visão pessoal. como faz Everardo Rocha. É importante ressaltar que esta análise compreende um período curto de tempo. de influências na vida das pessoas e no campo da música como um todo. no livro A sociedade do sonho – Comunicação. da literatura. de inovações. as relações entre indústria fonográfica e artistas. pelos próprios Beatles e também de uma visão como profissional da área de Comunicação Social. do cinema. de forma que são continuamente regravadas e ganham versões em várias línguas pelos quatro cantos do mundo até hoje. Os produtos culturais da televisão. dos filmes. A contribuição dos Beatles para o mundo da música pop/rock – incluindo aí a musicalidade das canções. Portanto. falar no tipo de sociedade construída a partir da Revolução Industrial é algo como falar sobre cinco décimos de segundo da história do universo – e a amplitude da nossa sociedade Ocidental é reduzida a uma miniatura.Introdução 11 Os Beatles continuam vivos e ativos no imaginário das pessoas – que viveram ou não a década de 1960 – e suas músicas contém uma atualidade sobre o mundo em que vivemos. das peças e atua como referência. da paixão pela música. é extremamente necessário dar ao campo da música a atenção que ele merece dentro dos estudos de Comunicação.

partindo-se de autores como Theodor Adorno e Max Horkheimer. . Serão abordados: o período de expansão do capitalismo. desde o fim da II Guerra Mundial até o fim da década de 1960. pretende-se destacar as tensões entre consumo e contracultura expressas nas letras de música dos Beatles. entre outros assuntos. de modo a abranger produtos midiáticos. o surgimento do rock and roll. as revoluções social e cultural e a ascensão do movimento de contracultura . Dessa forma. representações de trabalho e de profissões. O segundo capítulo faz uma contextualização histórica da época.e como ele adotou o rock como um de seus ícones/produtos principais. bens materiais.Introdução 12 O primeiro capítulo destina-se a entender algumas discussões sobre a cultura de massa. Também nele está inserida a análise das 43 letras de músicas selecionadas que trazem representações de consumo – e consumo aí está entendido como algo muito mais amplo do que efetuar uma compra em uma loja. A história dos Beatles. As discussões levantadas por esses autores serão utilizadas ao longo da dissertação para se entender os paradoxos nos quais os Beatles estavam inseridos e como isso refletiu nas letras de músicas deles. constitui parte do terceiro capítulo. a consolidação dos jovens como agentes sociais e mercado consumidor. Andréas Huyssen. entendida como um mito e um produto da cultura de massa. Edgar Morin e Everardo Rocha. A noção de consumo foi ampliada.

C. deveria estar apenas sob o controle dos dominadores. quando o homem tenta se libertar do pensamento mítico/mágico. Por isso. Adorno e Horkheimer entendiam a comunicação de massa como meio de difusão de tais ideologias: o rádio e o cinema. Adorno e Horkheimer defendem a idéia de que a razão tal qual ela se desenvolveu a partir do Iluminismo – e que iria resultar na Revolução Industrial e. vão tentar combater a Indústria Cultural. como modo de evitar que o nazismo se espalhasse novamente e como meio de chamar atenção para os espetáculos fascistas que tinham ocorrido na Europa nas décadas de 30 e 40.. Nada mais importa. o conceito de esclarecimento não se confunde com o Iluminismo. principalmente (o cinema foi muito utilizado para fazer propaganda nazista. o esclarecimento eliminou com seu cautério o último resto de sua própria autoconsciência. e Adorno se preocupava muito com tal fato). No entanto. nas I e II Guerras – tornou-se instrumento de dominação e que. posteriormente. Os autores condenam o que vão chamar de Indústria Cultural e defendem a autonomia da arte burguesa. em 1947. nunca nas mãos dos dominados: O que os homens querem aprender da natureza é como empregá-la para dominar completamente a ela e aos homens. Para eles. Os dois começam criticando a evolução da indústria como um todo. consagrou o termo Indústria Cultural como uma forma de se dirigir aos meios de comunicação de massa e aos produtos (formas e conteúdos) por eles veiculados. pois tais alterações implicariam em uma simplificação de forma e conteúdo para que o grande público pudesse entender e gostar do que estaria sendo transmitido pelos meios de comunicação de massa. o livro Dialética do Esclarecimento. Eles argumentam que esta não deveria sofrer alterações para ser vendida para a massa. desenvolvendo a razão. Só o pensamento que se faz violência a si mesmo é suficientemente duro para destruir os mitos. 1985: 20) . Sem a menor consideração consigo mesmo. (ADORNO e HORKHEIMER.2 Cultura de massa Desde sua publicação. de Theodor Adorno e Max Horkheimer. mas está relacionado com o século V a.

O princípio da imanência. parecia garanti-lo um sujeito livre. assim. dizer a origem. já que ele continua a utilizar o comportamento mimético. explicar. mas também expor. opondo-se ao caminho da razão (que busca sempre conhecer para poder controlar). para se tornarem uma doutrina. Muito cedo deixaram de ser um relato. pois passa longe do caminho da razão. (ADORNO e HORKHEIMER. é o princípio do próprio mito. porque ainda não venceu completamente o mito. os próprios “mitos que caem vítimas do esclarecimento já eram o produto do próprio esclarecimento” (ADORNO e HORKHEIMER. tanto mais inexoravelmente a repetição. Mas quanto mais se desvanece a ilusão mágica. Com o registro e a coleção dos mitos.) O lugar dos espíritos e demônios locais foi tomado pelo céu e sua hierarquia.Cultura de massa 14 O mito é uma forma usada pelo homem para explicar o mundo. eles afirmam. O comportamento mimético seria utilizado pelo homem “primitivo” para se defender da natureza que não controlava. o homem tem que se libertar do pensamento mágico e conhecer o mundo em que habita e. segundo os dois autores. a razão que o homem pensou ter adquirido a partir do Iluminismo. para isso. 1985: 23). medo da natureza que não domina. E continuam os autores: O mito queria relatar. prende o homem naquele ciclo que. é apenas ilusória. a cópia não perfeita. Adorno e Horkheimer não viram a razão sendo utilizada durante a época do nazismo. sob o título da submissão à lei. fixar. escapar a seu poder. objetualizado sob a forma da lei natural. que o esclarecimento defende contra a imaginação mítica. o homem retorna à barbárie. por medo do que não conhece. a crítica à mímesis alega que esta também é uma volta à barbárie e ao pensamento mítico. quando se utiliza do fascismo. . No entanto. (ADORNO e HORKHEIMER. 1985: 23) Em determinado momento. Portanto. essa tendência reforçou-se. pelo sacrifício bem dosado e pelo trabalho servil mediado pelo comando. Adorno e Horkheimer também condenam a mímesis – a representação. denominar. a imitação.. 1985: 26) Assim. assim. Entretanto. (. A doutrina da igualdade entre a ação e a reação afirmava o poder da repetição à ilusão de que pela repetição poderiam se identificar com a realidade repetida e. empregando tal mímesis também na indústria como um todo e particularmente na Indústria Cultural.. o lugar das práticas de conjuração do feiticeiro e da tribo. ele usa a razão. a explicação de todo acontecimento como repetição. Na realidade. Dessa forma.

como também na multiplicação do número de produtos por meio das tecnologias. é feito para ser distribuído em grande número de cópias. Portanto. que é o que visa a Indústria Cultural. o próprio esclarecimento. de Charles Chaplin. Até entoam o mesmo louvor do ritmo de aço” (ADORNO e HORKHEIMER. a questão dos produtos da Indústria Cultural serem vendidos é outro motivo de crítica de Adorno e Horkheimer ao sistema dos meios de comunicação de massa: O cinema e o rádio não precisam mais se apresentar como arte. Como continuam Adorno e Horkheimer: A essência do esclarecimento é a alternativa que torna inevitável a dominação. agora é a própria razão. Forçado pela dominação. senão não consegue pagar o seu próprio custo de produção e muito menos gerar lucros. levado pela mesma dominação. uma crítica ferrenha à própria indústria como um todo: “Pois a cultura contemporânea confere a tudo um ar de semelhança. A mímesis na Indústria Cultural é encontrada não somente na questão da representação. onde ele interpreta um operário que. os dois autores insistiram tanto em condená-la. A verdade de que não passam de um negócio. obedecendo a divisão do trabalho. logo no início. a partir do momento em que passa a se guiar pela razão e pelo logos. o trabalho humano tendeu sempre a se afastar do mito. segundo os dois autores. Os homens sempre tiveram de escolher entre submeter-se à natureza ou submeter a natureza ao eu. No capítulo A Indústria Cultural: O esclarecimento como mistificação das massas há. O cinema. sob cujos raios gelados amadurece a sementeira da nova barbárie. eles a utilizam como uma ideologia destinada a . acaba se confundindo com a máquina. por exemplo. substitui a fonte dominadora: antes era a natureza. de tanto fazer os mesmos movimentos enquanto trabalha. Com a difusão da economia mercantil burguesa. 1985: 113). Cada setor é coerente em si mesmo e todos o são em conjunto. voltando a cair sob o seu influxo. (ADORNO e HORKHEIMER.Cultura de massa 15 Vemos a mímesis presente no trabalho do operário nas indústrias – a repetição de movimentos para realizar tarefas isoladas dentro da fábrica. Aliás. O cinema. o homem. o rádio e as revistas constituem um sistema. e também sua crítica no filme Tempos Modernos (1936). o horizonte sombrio do mito é aclarado pelo sol da razão calculadora. 1985: 42) E o que é observado na Indústria Cultural senão a própria mímesis e a formação de uma mitologia contemporânea? Por isso.

A breve seqüência de intervalos fácil de memorizar. como mostrou a canção de sucesso. e as cifras publicadas dos rendimentos de seus diretores gerais suprimem toda dúvida quanto à necessidade real de seus produtos. o fracasso temporário do herói. (ADORNO e HORKHEIMER. o público não é o único culpado por consumir os produtos da Indústria Cultural – isso apenas faz parte do sistema como um todo. nem veiculada pelos meios de comunicação de massa. e. Eles se definem a si mesmos como indústrias. (ADORNO e HORKHEIMER. ao escutar a música ligeira. sua rude reserva em face da herdeira mimada são. favorece o sistema da indústria cultural é uma parte do sistema. Assim. os astros. os economicamente mais fortes estão exercendo seu poder sobre a população. o ouvido treinado é perfeitamente capaz. pretensamente e de fato. de adivinhar o desenvolvimento do tema e sente-se feliz quando ele tem lugar como previsto2. eis aí sua razão de ser. . desde os primeiros compassos. que ele sabe suportar como good sport que é. compondo-o. E os dois vão além quando dizem que a técnica é um poder que os economicamente mais fortes exercem sobre a sociedade. Defendem também a idéia de que a mistura entre a “arte séria” e a “arte leve” (para utilizar os termos que os autores empregam no texto) só traz malefícios a ambas: 2 Grifo nosso. Desde o começo do filme já se sabe como ele termina. mas o conteúdo específico do espetáculo é ele próprio derivado deles e só varia na aparência. 1985: 117) Contra a mímesis nos produtos da Indústria Cultural. clichês prontos para serem empregados arbitrariamente aqui e ali e completamente definidos pela finalidade que lhes cabe no esquema. quando ela é utilizada também nos produtos culturais veiculados pelos meios de comunicação de massa. portanto. eles também criticam o seu conteúdo.Cultura de massa 16 legitimar o lixo que propositalmente produzem. Dizem que: “a atitude do público que. as novelas ressurgem ciclicamente como invariantes fixos. 1985: 114) E daí por diante não cessam mais de criticar a Indústria Cultural e a sociedade por ela envolvida. não sua desculpa” (ADORNO e HORKHEIMER. 1985: 115) e que. como todos os detalhes. a boa palmada que a namorada recebe da mão forte do astro. Confirmá-lo. O número médio de palavras da short story é algo em que não se pode mexer. Os detalhes tornam-se fungíveis. quem é recompensado. os autores defendem a autonomia da arte burguesa: que ela não seja dependente. a sua reprodução em massa. como podemos observar: Não somente os tipos das canções de sucesso. Mas as críticas feitas por Adorno e Horkheimer aos produtos da indústria cultural não se limitam a sua forma.

nota-se. que defendia a pureza de raças. Entretanto. (ADORNO e HORKHEIMER.Cultura de massa 17 A arte séria recusou-se àqueles para quem as necessidades e a pressão da vida fizeram da seriedade um escárnio e que têm todos os motivos para ficarem contentes quando podem usar como simples passatempo o tempo que não passam junto às máquinas. no seu livro Memórias do Modernismo: As fronteiras entre a alta arte e a cultura de massa se tornaram cada vez mais fluidas. na atualidade. Há muitas tentativas bemsucedidas feitas por vários artistas de incorporar formas de cultura de massa em seus trabalhos. A arte leve acompanhou a arte autônoma como uma sombra. Ele diz que Adorno foi um dos teóricos que mais defendiam o . No momento em que a globalização se torna cada vez mais ampla – homogeneizando e. Mas é isto que tenta a indústria cultural. nesta conjuntura. é quase impossível pensar em algo totalmente puro. Essa divisão é ela própria a verdade: ela exprime pelo menos a negatividade da cultura formada pela adição de duas esferas. discurso que predominou durante muito tempo nas discussões sobre comunicação. O que esta – em virtude de seus pressupostos sociais – perdeu em termos de verdade confere aquela a aparência de um direito objetivo. paradoxalmente. ao mesmo tempo em que eles estão escrevendo contra o nazismo. indicam que ela não deve se misturar com a “arte leve” e são definitivamente contra os produtos híbridos que a cultura de massa pode produzir. (HUYSSEN. que não tenha se misturado ou sofrido influências de algum lugar e de algum tempo. essa postura não consegue abranger mais as hibridações presentes nos produtos da cultura de massa. e devemos começar a ver este processo como uma oportunidade. torna-se obsoleto falar na oposição entre a “arte séria” e a “arte leve”. Portanto. 1997: 11) Huyssen chama essa tensão entre a alta arte e a cultura de massa de o Grande Divisor. incentivando o desenvolvimento das diferenças –. ao invés de lamentar a perda de qualidade e a falta de ousadia. ao mesmo tempo. e certos segmentos da cultura de massa têm cada vez mais adotado estratégias vindas da alta-arte3. Ela é a má consciência social da arte séria. 1985:127) Adorno e Horkheimer defendem a pureza da arte burguesa. Por outro lado. que há a compulsão por uma pureza por parte dos dois autores. como cita Andreas Huyssen. que não seja híbrido. A pior maneira de reconciliar essa antítese é absorver a arte leve na arte séria ou vice-versa.

na fala e na escrita. Por isso. mais tarde. antes do fim da II Guerra Mundial. e como isso resulta num novo produto. Veremos mais tarde o modo como o rock and roll se utiliza de instrumentos considerados da alta arte..) figura singular. proveniente da música clássica. como defendem Adorno e Horkheimer. composta de elementos espaciais e temporais: a aparição única de uma coisa distante. as vanguardas não conseguiram atingir seu objetivo. Walter Benjamin destaca. é a cultura de massa. o progresso que ela poderia trazer. numa tarde de verão. Quem consegue. 1985: 170). defendida pelo discurso do Grande Divisor. tais vanguardas já propunham uma visão diferente daquela que separava alta arte e cultura de massa. que utilizavam-na em suas indústrias. por mais perto que ela esteja. uma arte de demonstrações e festividades de massa.. Além disso. propunham uma arte que acabasse com a dicotomia arte/vida. uma cadeia de montanhas no horizonte. no texto A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica como a indústria cultural altera a aura da obra de arte. Eles queriam uma arte que interviesse no cotidiano sendo tanto útil quanto bonita. ou seja. dada pela tensão entre a alta arte e a cultura de massa. . Entretanto. significa respirar a aura dessas montanhas. (HUYSSEN. na vida e nas roupas. na segunda metade do século XX. De qualquer forma. ou um galho. Estes artistas (os vanguardistas) não queriam uma arte meramente decorativa que concedesse um brilho ilusório a um cotidiano crescentemente instrumentalizado. trazendo-a para o cotidiano das pessoas. Huyssen argumenta que o discurso do Grande Divisor é algo que já se esgotou e inicia uma análise sobre as vanguardas do início do século XX. Observar. desse galho” (BENJAMIN.Cultura de massa 18 conceito desse Grande Divisor. produção e cultura seriam eliminadas. Entretanto. que proteja sua sombra sobre nós. enxerga por trás dos trabalhos de Adorno alguns importantes impulsos políticos – a necessidade de defender a autonomia da alta arte do totalitarismo e dos espetáculos de massa que o fascismo realizava pela Europa nos anos 30 e 40. em repouso. integrar realmente a arte no cotidiano da vida. mas também como forma de chocar os burgueses. 4 Aura: “(. os vanguardistas utilizavam também em sua arte a tecnologia – tanto como forma de demonstrar o encantamento com o que ela poderia proporcionar. queriam uma arte que pudesse intervir nas transformações do mundo para melhor – ainda havia a crença no progresso e na tecnologia. Na sua concepção. que não integrava a arte na vida. uma arte ativa em objetos e atitudes. não necessariamente inferior. que colocava a arte como algo a ser admirado e “auratizado”4: As barreiras artificiais entre trabalho e lazer. Mas ela não realiza o sonho das vanguardas de utilizar esta arte para mudar o mundo: 3 Grifo nosso. segundo Huyssen. abolir a dicotomia arte/vida. 1997: 34) As vanguardas históricas do início do século XX.

como afirma Huyssen. 1997: 49) A cultura de massa identificada com o feminino traz a necessidade de se resistir à tentação interna ao seu encanto. mas que. mas é também inútil tentar revivê-la sob qualquer forma. (HUYSSEN. O que é interessante na segunda metade do século XIX. com o surgimento das mulheres como grandes artistas e “com a concomitante reavaliação de formas e .Cultura de massa 19 Não só a vanguarda histórica é coisa do passado. E ressalta que ela. por isso. tais movimentos despontam juntamente com a emergência do movimento feminista. sonhos e consumo.. começa a ser vista como.) e daí para a identificação da mulher com as massas em termos de ameaça política. é inútil se ater a essa discussão sobre os perigos que a cultura de massa oferece. o que tem sido exaustivamente documentado pelas teóricas feministas. Huyssen segue analisando a cultura de massa como o outro. o espectro da alta arte. seu envolvimento. sempre marginalizada.. 1985) como são os produtos da cultura de massa. na vida. tão “desauratizada” (BENJAMIN. de filmes de Hollywood. porém. os movimentos artísticos. de alguma forma. 1997: 37) Assim. voltam a desconstruir e questionar a alta arte. E a partir do momento em que ela é também identificada com as massas. (HUYSSEN. Suas invenções artísticas e suas técnicas foram absorvidas e cooptadas pela cultura de mass media ocidental em todas as suas manifestações. Coincidência ou não.. como a Pop Art. não tem poder de transformar o mundo. Hoje. A partir dos anos 60. degradada: De qualquer forma. a sombra. levanta um grande temor na burguesia: que as massas se revoltem. design industrial e arquitetura até a estetização da tecnologia e a estética da mercadoria. propondo uma arte que faça parte da vida. O lugar legítimo de uma vanguarda cultural que carregava as esperanças utópicas de uma cultura de massa emancipadora sob o socialismo foi gradualmente preenchido com a ascensão da cultura de massa midiatizada e suas indústrias e instituições de apoio. desde o século XIX. a representação de uma cultura de massa inferior como feminina caminha de braços dados com a emergência da mística masculina no modernismo (especialmente na pintura). sua sensualidade – o medo de se perder em ilusões. televisão. associada à mulher.. ao feminino (enquanto a cultura real é ligada ao mundo masculino) e.) à associação da mulher com a cultura de massa (. é um certo efeito-chave de significação: da obsessivamente declarada inferioridade da mulher como artista (. que queiram assumir o controle dos meios de produção e que desenvolvam uma cultura tão misturada no cotidiano. no entanto.

Cultura de massa 20 gêneros de expressão cultural tradicionalmente desvalorizadas (como por exemplo as artes decorativas. (HUYSSEN. falando do rosto da mulher na capa da revista – a cover girl5: 5 Cover Girl é o termo utilizado para indicar a mulher que está na capa da revista. que fazem com que a velha estratégia de representação de gênero tenha se tornado obsoleta.. aventura. mas ainda são minoria). Dessa forma.. a partir do feminismo da década de 1960. E Morin continua. que é enorme . o alto e o baixo. em seu livro Cultura de Massas no Século XX – O Espírito do Tempo. o espiritual e o material. querendo que a separação entre alta e baixa artes fosse eliminada. na produção econômica e nas estruturas judicial e social. a velha retórica perdeu seu poder de persuasão porque as realidades mudaram. tanto quanto a emergência de novos tipos de mulheres performers e produtoras na cultura de massa. coisa do passado.) a presença pública e visível das mulheres como artistas na alta arte. o cultivado e o não-cultivado. A atribuição universalizante de feminilidade à cultura de massa sempre dependeu da exclusão real das mulheres da alta cultura e de suas instituições. intensifica a decadência da separação entre arte e vida: (. Comparando com o setor feminino. na contemporaneidade. Huyssen conclui que o discurso do Grande Divisor torna-se cada vez menos influente nas produções teóricas e que a emergência das mulheres no mercado e na vida social. homicídio. então hoje a meta do artista é romper a torre de marfim da arte e contribuir para uma mudança do cotidiano. 1997: 65) Quem também defende a idéia de que a cultura de massa é associada aos valores femininos é Edgar Morin.” ( HUYSSEN.. os textos autobiográficos. entre outros. (. programas de rádio e televisão. Um programa de televisão ou uma revista especificamente direcionados aos homens são casos ainda hoje isolados. dicas culinárias e de beleza. lar. conforto – o setor masculino é extremamente restrito e se resume mais a temas como agressão. 1997: 61) E continua Huyssen: Se a Pop Art chamou nossa atenção para o imaginário do cotidiano.). as cartas. temas como amor. o teórico e o prático. .composto por revistas. etc. Ele exemplifica isso com o fato de não haver setores especificamente masculinos na cultura de massa (atualmente eles começam a despontar com mais freqüência. na vida política. mas também uma mudança no cotidiano..) não mais aceitando a separação entre o filosófico e o não-filosófico. e não planejando apenas uma mudança no Estado. portanto. 1997: 116) Assim. Tais exclusões são. (HUYSSEN.

Cultura de massa

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Se o rosto da mulher e não do homem impera na revista feminina, é porque o essencial é o modelo identificador da mulher sedutora, e não o objeto a seduzir. Se na grande imprensa periódica a mulher eclipsa igualmente o homem, é porque ela ainda é sujeito identificador para as leitoras, enquanto ela aparece como objeto de desejo para os leitores. Essa coincidência da mulher-sujeito e da mulher-objeto assegura a hegemonia do rosto feminino. É o reino, não só da mulher sujeitoobjeto, mas dos valores femininos no seio da cultura. Não há o modelo identificador masculino que se imponha concorrentemente6. (MORIN, 1967: 150)

Nesse livro, Morin critica o termo cultura de massa (mas ainda assim utiliza, constantemente, o termo), dizendo que ele é limitado, pois nossa sociedade é industrial, capitalista, técnica, burocrática, de classes, burguesa, individualista, etc. E ainda descreve o percurso da cultura de massa no século XX, alegando que ela, como nenhuma outra forma de cultura que existiu antes, conseguiu integrar a arte na vida.

Não há dúvida de que, já o livro, o jornal eram mercadorias, mas a cultura e a vida privada nunca haviam entrado a tal ponto no circuito comercial e industrial, nunca os murmúrios do mundo – antigamente suspiros de fantasmas, cochichos de fadas, anões e duendes, palavras de gênios e de deuses, hoje em dia músicas, palavras, filmes levados através de ondas – não haviam sido ao mesmo tempo fabricados industrialmente e vendidos comercialmente. Essas novas mercadorias são as mais humanas de todas, pois vendem a varejo os ectoplasmas da humanidade, os amores e os medos romanceados, os fatos variados do coração e da alma. (MORIN, 1967: 15/16)

Além disso, o autor explica que a cultura de massa é “projetiva” e “identificativa” e isso constitui grande parte de sua força. Ela é identificativa, porque veicula valores como amor, lar, bem-estar, conforto, beleza, entre outros, com os quais o público pode se identificar; e é projetiva quando transmite valores como aventura, agressão, homicídio, que a maioria não pode experimentar efetivamente em sua vida, mas pode projetar nos filmes, músicas, programas de televisão, contos, etc., onde os personagens podem transgredir a lei e se aventurar sem preocupações, porque não estão no mundo real. A cultura de massa também desenvolve uma “dupla consciência” nas pessoas: ao mesmo tempo em que elas se distraem, ficam absortas e desligadas. Entretanto, ao entrar no imaginário de um filme, por exemplo, elas têm a

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consciência de aquilo é um filme, e não a realidade – “o imaginário permanece conhecido como imaginário” (MORIN, 1967: 81). E continua Morin:

Esse universo imaginário adquire vida para o leitor se este é, por sua vez, possuído e médium, isto é, se ele se projeta e se identifica com os personagens em situação, se ele vive neles e se eles vivem nele. Há um desdobramento do leitor (ou espectador) sobre os personagens, uma interiorização dos personagens dentro do leitor (ou espectador), simultâneas e complementares, segundo transferências incessantes e variáveis. Essas transferências psíquicas que asseguram a participação estética nos universos imaginários são, ao mesmo tempo, inframágicas (eles não chegam aos fenômenos propriamente mágicos) e supramágicos (eles correspondem a um estágio no qual a magia está superada). (...) Em outras palavras, eu não defino a estética como a qualidade própria das obras de arte, mas como um tipo de relação humana muito mais ampla e fundamental. (MORIN, 1967: 82)

Os conteúdos imaginários, segundo o autor, se manifestam, na sociedade atual, principalmente através dos espetáculos, é por meio do estético que se realiza o consumo imaginário. E este incita o consumo real:

O que constitui a originalidade, a especificidade da cultura de massa é a direção de uma parte do consumo imaginário, pela orientação dos processos de identificação, para as realizações. Nas sociedades ocidentais esse desenvolvimento do consumo imaginário provoca um aumento da procura real, das necessidades reais (elas mesmas cada vez mais embebidas do imaginário, como as necessidades de padrão social, luxo, prestígio); o crescimento econômico caminha num sentido que teria parecido incrível há um século atrás: realizar o imaginário. (MORIN, 1967: 176)

A concepção de felicidade criada pela cultura de massa envolve valores que são externos ao indivíduo, para que este possa não apenas consumir os produtos, mas também consumir sua própria vida nas produções da cultura de massa, através dos movimentos de projeção e de identificação já indicados acima. Morin descreve a indústria cultural no segundo capítulo deste mesmo livro e, ao contrário de Adorno e Horkheimer, privilegia seu status na sociedade contemporânea. Ele argumenta que a padronização que a indústria cultural exige busca no pensamento racional a divisão do trabalho, presente em qualquer sistema industrial. Alega que isso não torna a indústria cultural inferior, mas que cria uma tensão entre a padronização e a individualização que a leva a um termo médio – nas palavras do próprio autor, a indústria cultural se aproxima da mediocridade, no sentido exato da palavra, ou seja, no sentido do que é médio, não pejorativamente. E Morin continua sua defesa da cultura de massa:

Cultura de massa

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Ao mesmo tempo que repugna à alta cultura desprestigiar seus valores, a cultura industrial tende a integrar bem demais em seus moldes as formas e os conteúdos de que se apropria. Há portanto, ao lado da democratização propriamente dita (multiplicação pura e simples), uma vulgarização (transformação tendo em vista a multiplicação) (...). O digest moderno, diversamente do resumo que é um auxílio para a memorização, substitui a obra lenta e densa pela condensação agradável e simplificadora.7 (MORIN, 1967: 58)

O autor explica, ainda, os meios de se vulgarizar, aclimatar as obras de “alta cultura” na cultura de massa, tornando-as híbridos culturais. São eles: simplificação, maniqueização, atualização e modernização. Tais produtos híbridos provenientes da cultura de massa são os mesmos os quais Adorno e Horkheimer tinham dificuldade de trabalhar por defenderem a pureza e a autonomia da obra de arte burguesa. Mas esta pureza é, hoje em dia, praticamente impossível de se encontrar nas produções culturais do mundo inteiro, visto que a tecnologia e a cultura de massa contribuem para um mundo cada vez mais globalizado. O autor ainda desenvolve a idéia de que a cultura de massa é uma cultura de lazer, ou seja, o tempo em que o trabalhador não está na fábrica, não é mais um tempo de repouso e recuperação, mas um tempo para consumir o que ele considera o seu entretenimento, a distração de todos os seus problemas da vida real. Por isso, o fator projetivo da cultura de massa, também descrito por Morin, é tão importante, já que ele proporciona ao trabalhador realizar aventuras e viagens que ele nunca poderia fazer nas suas férias, por exemplo. Também as próprias férias tornam-se momento de consumo, como cita o autor:

O turista não é apenas um espectador em movimento. Ele não se beneficia apenas (sobretudo quando circula de automóvel) de uma volúpia particular que vem da consumação do espaço (devorar os quilômetros)8. (...) Por algumas compras de objetos simbólicos tidos como souvenirs – Torre de Pisa em miniatura, cinzeiros figurativos e outras bugigangas do gênero – ele se apropria magicamente da Espanha ou da Itália. Enfim, ele consome o ser físico do país visitado, na refeição gastronômica (...). (MORIN, 1967: 77)

Assim, a cultura de massa se assume como globalizante e se apropria de quaisquer manifestações culturais que possam aparecer, utilizando o mecanismo

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Grifo do autor. Grifo do autor.

nosso tempo e lugar. liberdades). através do olhar antropológico-relativista. (MORIN. classificada como “sociedade do sonho”. encanta. O autor descobre. (ROCHA. a partir do Iluminismo. anúncios. cultura e consumo. emergem as novas necessidades individuais. ao reproduzir esta espécie de vida em paralelo que nos envolve a todos e a cada um. . 1972). palavras. para tentar descobrir as características dessa sociedade intrínseca aos meios de comunicação de massa: Vamos começar a conhecer o significado do mundo mágico de imagens. o homem sempre precisou explicar os fenômenos naturais de alguma forma. músicas. a mitologia foi substituída pela razão (ou seria a própria razão a nova mitologia do homem?)9. dentro do mundo dos programas de televisão. no próximo capítulo. onde Everardo Rocha observa os produtos da Indústria Cultural por um viés antropológico. 1967: 166) Outra análise sobre a cultura de massa que será válida para esta dissertação está no livro A sociedade do sonho – Comunicação. nossa experiência de ser no mundo.Cultura de massa 24 de vulgarização descrito acima para aclimatá-la e torná-la consumível por todo o globo: Efetivamente. etc. em sua natureza. a cultura de massa é. impulsionado pelo pensamento racional. Rocha propõe uma análise dessa sociedade como se não estivéssemos acostumados com ela. O avanço tecnológico. engana. Vamos discutir idéias a respeito deste universo de produções simbólicas. Mas é precisamente isso que constitui sua força conquistadora. antiacumuladora. A 9 Analisaremos mais este tópico quando falarmos no Mito da Consciência Objetiva (ROSZAK. colocou o próprio homem como o centro de seu mundo. 1995: 23) Para dar sentido ao mundo. uma outra sociedade que não a nossa própria. A ciência e a razão substituíram a magia e a mitologia como formas de compreensão e controle da natureza e do universo. Em toda parte onde o desenvolvimento técnico ou industrial cria novas condições de vida. movimentos e cores através do qual os Meios de Comunicação invadem nosso cotidiano. a procura do bem-estar e da felicidade. sons. ou materiais (bemestar). Seus conteúdos essenciais são os das necessidades privadas. traduz. filmes. amor). a-estatal. As culturas tribais criavam mitos e deuses para dar conta de tal tarefa. Entretanto. enfim. imaginárias (aventuras. afetivas (felicidade. em toda parte onde se esboroam as antigas culturas tradicionais. a-nacional. Entender a lógica e a mágica dessa Indústria Cultural que organiza. A partir daí.

dos meios de comunicação de massa. E é dentro dos meios de comunicação de massa – o que nos é mostrado na televisão (novelas. (. com suas demandas de alta tecnologia. o surgimento da televisão. da Revolução Industrial. embora um pouco mais do lado britânico (depois assumido pelos EUA) que entre os alemães com seu espírito científico: radar. enfim) – que começa a se construir a “sociedade dentro da Comunicação de Massa” (ROCHA. preparou vários processos revolucionários para posterior uso civil. (HOBSBAWN. do telefone e. utilizando sempre a razão para explicar os acontecimentos e os fenômenos alheios a sua vontade. do surgimento do automóvel e do avião – e também através da comunicação: a partir do telégrafo. mais tarde. Erick Hobsbawn explica: A guerra. baseado nos avanços tecnológicos. 1995: 260) Da mesmo forma que traziam o progresso.. celebridades.) O estilo de praticar temporalidade dentro da Comunicação de Massa estabelece . o que é contado nas músicas que ouvimos. Este é o momento do desenvolvimento do capitalismo. É exatamente nesse momento. É nesse momento de desenvolvimento da razão junto com a ciência que o homem deposita todas as suas esperanças de um mundo melhor. presente e futuro perdem o sentido costumeiro. etc. esses avanços tecnológicos foram utilizados para destruição de cidades e vidas nas grandes guerras da primeira metade do século XX. 1995). que os meios de comunicação de massa começam a se desenvolver: a expansão do rádio. motor a jato e várias idéias e técnicas que prepararam o terreno para a eletrônica e a tecnologia de informação do pós-guerra. a eletricidade foi dominada e direcionada para onde ele quisesse. apresentadores.Cultura de massa 25 partir do estudo do próprio corpo. uma sociedade às avessas: Nela – como no mito – passado. propagandas. a amplificação do cinema. entre outros) e nos filmes. um novo mundo foi criado ao redor do homem. Uma sociedade totalmente contrária à nossa. cantores. desenhos animados.. do início da desilusão humana com a tecnologia. Assim. nos estudos sobre as curas para o corpo e na melhoria da qualidade de vida a partir da organização das cidades com melhores condições sanitárias. da diminuição das distâncias físicas – através da construção de estradas de ferro. e até mesmo a própria imagem que se forma dos artistas (atores. o homem pôde criar curas para as doenças.

Cultura de massa 26 irremediavelmente sua aproximação com a cultura do “outro” e da “exclusão”10. numa lógica complementar e distintiva muito próxima das classificações totêmicas11. se ajudam. castas. que aproxima esta sociedade das sociedades antigas. Outra característica da nossa sociedade. é o ‘individualismo’. (ROCHA. Persuadir para fora só é viável porque primeiro a persuasão acontece dentro12. traduzidas em uma caminhada em direção a um mundo melhor e mais desenvolvido – na “sociedade dentro da Comunicação de Massa” o tempo é cíclico – chamado de ‘tempo totêmico’ – como é das sociedades sem escrita. 12 Grifo do autor. Ou seja. No lugar de indivíduos. E Rocha nos explica que: (. Diferentemente do ‘historicismo’ – onde as coisas acontecem a partir do modelo causa/conseqüência. (ROCHA.(ROCHA. dos povos sem escrita. onde todos se conhecem. o poder não é exercido através da violência e do Estado. famílias. próxima das sociedades antigas. 1995: 172) Outra questão importante em nossa sociedade.) esse processo só é logicamente possível porque os atores sociais da cultura de dentro representam e atualizam constantemente sua própria persuasão. em vez de uma visão “psicológica”. no mesmo gesto. vivem em harmonia e pensam no próximo. Nesta.. excluídas anteriormente para dar lugar a nossa própria sociedade ocidental. “comportamental” e “individualizante” do consumo ou do consumidor. traduzida na “sociedade dentro da Comunicação de Massa” como ‘holismo’: uma espécie de teia. vemos os problemas serem resolvidos pelo todo: Assim.. . leis e regras – é transformado na “sociedade dentro da Comunicação de Massa”. mais uma vez. 1995: 164) A questão do ‘tempo’ é apenas uma das desenvolvidas por Rocha. a tendência expressa pela Comunicação de Massa (instrumento poderoso de socialização para o consumo) é a de uma “antropologia” do pertencimento a grupos. Consumimos para fazer parte de grupos determinados e. linhagens ou alguma outra forma qualquer de unidade sociológica. nos diferenciarmos de outros grupos. sendo substituído pela ‘persuasão’ (instrumento por excelência da publicidade). totens. o ‘poder’ – organizador dos grupos. 1995:189) 10 11 Grifo do autor. segundo Rocha.

. os meios para sua satisfação. o ‘poder do Estado’ pelo ‘poder da persuasão’ e o ‘produtivismo’ pelo ‘ócio’. (ROCHA. A Comunicação de Massa.) Por outro lado. aparece uma sociedade de abundância. 1995: 152) Constata-se que a Sociedade Industrial criou a “sociedade dentro dos produtos da Comunicação de Massa”: “Inventamos. que trabalhavam apenas o necessário para sua sobrevivência. não aparece ali senão para ser resolvido. fica ainda mais enfatizada esta estranheza. Usamos aquele mundo para falar de outras coisas. por uma lógica impecável. esta sociedade se aproxima da sociedade do “outro” – qualquer cultura que não a Sociedade Industrial. (ROCHA. o próximo e o distante. Ao mesmo tempo. essencial para a construção e manutenção da Sociedade Industrial.. Aproximando novamente a sociedade de dentro da Indústria Cultural dos povos antigos. (. excluída. para favorecer a sociedade capitalista tal como ela é hoje: Um plano mostra uma estranha conjunção. se posicionou na contramão da cultura que a inventa. A Indústria Cultural só coloca ali problemas que ela é capaz de solucionar: O domínio da economia. A sociedade representada nestes sistemas simbólicos se acha presa no paradoxo de estar em conjunção com o universo social do excluído e em disjunção com o universo social do seu produtor.Cultura de massa 27 A última característica observada pelo autor é o ‘produtivismo’. onde a Comunicação de Massa se aproxima das sociedades objeto do etnocídio e da exclusão. a um só tempo. 1995: 208). pois tudo indica que ela possui sentido inverso em relação à Sociedade Industrial. No segundo plano. que inverte as características da sociedade que a criou: substitui o ‘individualismo’ pelo ‘holismo’. segundo Rocha (1995: 136): “cultura dos chamados ‘primitivos’ ou ‘índios’ ou ‘selvagens’ ou ‘sociedades tribais’” – sempre. onde nada falta. Coisas do ‘outro’. sob determinado ângulo. que é substituído na “sociedade dentro da Comunicação de Massa” pelo ‘ócio’. de certa forma” (ROCHA.. o ‘tempo histórico’ pelo ‘tempo totêmico. de alguma forma. na cultura da Comunicação de Massa – anúncios principalmente – os desejos e as necessidades encontram. portanto. indicando semelhanças com a cultura do ‘outro’ e da ‘falta’. a inversão e a recuperação. 1995: 203) Percebe-se que o construído nessa “sociedade dentro da Comunicação de Massa” é uma sociedade às avessas.

uma outra sociedade – a “sociedade do sonho”. Destacou-se a discussão de Adorno e Horkheimer (1985). no terceiro capítulo. com Rocha (1995).Cultura de massa 28 Neste primeiro capítulo. que defendiam a pureza da arte. foram assinalados alguns conceitos relativos à cultura de massa que irão guiar esta dissertação. O capítulo seguinte irá descrever o contexto histórico em que os Beatles se encontravam – para que se tente entender um pouco mais sobre o mundo que acabava de sair da II Guerra Mundial: o surgimento de um mercado direcionado aos jovens e o desenvolvimento do movimento de contracultura. . opondo-se à Indústria Cultural. Depois. como essa postura dos autores alemães se tornou obsoleta para compreender os híbridos culturais atuantes na cultura de massa contemporânea. Em seguida. Morin (1967) possibilitou a continuação da discussão sobre essa mistura entre arte e vida. foi observado. Este autor ainda chamou a atenção para a inserção da arte no cotidiano da vida. portanto. a análise sobre as tensões entre consumo e contracultura poderá ser desenvolvida. foi observado. industrial e consumista. presente na “sociedade dentro da Comunicação de Massa” – que possui características opostas à sociedade capitalista. Por fim. realizada pela cultura de massa. com Huyssen (1997). como ela criou. ressaltando aspectos inerentes à cultura de massa. dentro de seus próprios produtos.

O mundo passou por um período de “ouro”: basta lembrar que de 1950 a 1973 o preço do barril de petróleo custava menos de dois dólares (HOBSBAWN. até então mantidas fora do mercado de trabalho. enquanto os Estados Unidos apenas deram continuidade ao crescimento acelerado que vinham mantendo desde o fim da Grande Depressão (depois de 1930). um equilíbrio entre o crescimento da produção e a capacidade dos consumidores de comprá-la. a não ser como consumidores. 1995: 258). no resto do mundo só houve acentuação das diferenças sociais e econômicas. isso não foi óbvio. espaços silenciosos cheios de bancos de . sem seres humanos. embora só se realizasse aos poucos. Mas se tal crescimento aconteceu nos países ocidentais capitalistas desenvolvidos (o que foi uma espécie de globalização da situação dos Estados Unidos antes de 1945). o ímpeto e rapidez do surto econômico eram tais que. iniciou-se no Ocidente capitalista um período de desenvolvimento econômico e político que daria impulso a grandes transformações sociais e culturais. E continua Hobsbawn (1995: 262): A grande característica da Era de Ouro era precisar cada vez mais de maciços investimentos e cada vez menos gente. Em todos os países avançados. era a produção ou mesmo o serviço. o ideal a que aspirava a Era de Ouro. Pelo contrário. Contudo. e mulheres casadas.” (HOBSBAWN. entraram nele em número crescente.1. com exceção dos EUA. Apesar disso. Antecedentes Com a vitória dos Aliados na II Guerra Mundial. os reservatórios de mão-de-obra preenchidos durante a depressão pré-guerra e a desmobilização do pós-guerra se esvaziaram. durante uma geração. A “Era de Ouro” dependia “do que estivera tão dramaticamente ausente no entreguerras.3 A Contracultura 3. robôs automatizados montando carros. novos contingentes de mão-de-obra foram atraídos da zona rural e da imigração estrangeira. sobretudo a partir da década de 1960. a economia cresceu tão depressa que mesmo nos países industrializados a classe operária industrial manteve ou mesmo aumentou seu número de empregados. O impressionante desenvolvimento econômico pós-1945 só foi sentido em termos materiais na Inglaterra em meados da década de 50. 1995: 279) Ela dependia também da hegemonia dos Estados Unidos.

na Guerra do Vietnã. como a futura morte do universo por entropia. pela mecanização que substituíra os criados pessoais. que não mais necessitavam com tanta urgência de ajuda financeira. por exemplo). como no setor de viagens a praias ensolaradas. produtivista: a sociedade construída dentro dos produtos da Comunicação de Massa (ROCHA. pensando em uma educação de nível superior13. 1995). da qual os cientistas vitorianos haviam avisado a raça humana. que antes eram convocados para o front de guerra. a partir dos anos 50. (. Na Era de Ouro. Os jovens.. as transformações sociais e culturais decorrentes desse período da “Era de Ouro” iriam afetar o mundo e. Dessa forma. agora viviam em famílias prósperas.. trens sem maquinistas. o telefone.. estava se desenvolvendo e se consolidando uma sociedade de consumo. Hobsbawn. já que.. Ao contrário. era agora possível o cidadão médio desses países viver como só os muito ricos tinham vivido no tempo de seus pais – a não ser. o potencial destrutivo dos avanços tecnológicos ainda não tinha sido utilizado pelo homem.A Contracultura 30 computadores controlando a produção de energia. por um lado. a família passou a sustentar o jovem durante muito mais tempo. como expressiva força estudantil e como agente social ainda neste capítulo. explica melhor esse período de grande desenvolvimento dos países capitalistas. sociais (acentuação das diferenças econômicas – os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres) e mesmo transformações culturais. capitalista. 1995: 259) É claro que algumas conseqüências iriam surgir dessa “Era de Ouro” – tais como problemas ecológicos. (HOBSBAWN. Os seres humanos só eram essenciais para tal economia num aspecto: como compradores de bens e serviços. no livro A era dos extremos: o breve século XX – 1914-1991. conseqüentemente. . que ele chama de “Era de Ouro”: Bens e serviços antes restritos a minorias eram agora produzidos para um mercado de massa. como foi feito nas duas grandes guerras (e como continuava sendo feito ainda nos anos 60. claro. isso ainda parecia irreal e distante. 13 Analisaremos com mais atenção a consolidação dos jovens como consumidores. a lavadora de roupas automática. Mas não há dúvida de que o período instigava o progresso. nesta época. (. essa mesma sociedade. no entanto. pelo menos nos países ricos: a geladeira. as pessoas não mais acreditavam nele como o faziam antes das I e II Guerras Mundiais. Por outro lado.) O que antes era um luxo tornou-se o padrão do conforto desejado. Aí estava seu problema central.) Em suma.

As moças. também começaram a estudar. Uma das impressionantes mudanças foi o crescimento de cargos que passavam a exigir educação secundária e até mesmo superior – coisa até então pouco comum. e os pais tinham de dar contribuições financeiras a seus rebentos até quando eles já beiravam os vinte anos ou até mais. os pais começaram a se preocupar com o futuro dos filhos. o conseqüente crescimento acelerado das cidades (e todas as mudanças que isso traz consigo) e a emergência das mulheres como agente social e cada vez mais importante classe consumidora (privilegiada desde sempre na cultura de massa). Hobsbawn ressalta esta como sendo uma das várias transformações sociais e culturais da década de 1960 – e que iria ter grande relevância também para o plano econômico. sendo incentivados a estudar até os vinte e poucos anos. Durante a década de 1960. o estudo superior se tornou tão comum para as moças quanto para os rapazes. nas classes média e alta. Os jovens rapazes já não eram mais convocados para a guerra e. ele destaca a morte do campesinato (a impressionante migração dos camponeses para as cidades). o trabalho pago para as mulheres casadas da classe média deixou de ser basicamente uma 14 Analisaremos mais as conseqüências da entrada maciça dos jovens nas universidades e como eles acabaram por constituir uma classe consumidora de suma importância na cultura de massa e também como se tornaram agentes sociais e políticos. Hobsbawn (1995: 312) observa: Na verdade. pois este era o meio de garantir-lhes uma vida melhor. que antigamente se casavam cedo. Assim. Além dessa transformação. Mas talvez a mais importante delas tenha sido o destaque que a juventude passou a ter como classe estudantil. como consumidores e como molde da cultura de massa. . também já não começavam a trabalhar cedo. não poupando esforços para colocá-los em uma universidade14.A Contracultura 31 As mudanças advindas do acelerado desenvolvimento econômico da “Era de Ouro” – incluindo aí a aparição dos meios de comunicação de massa como importante fator de consumo e de construção do imaginário coletivo – trouxe inúmeras conseqüências para o mundo. pois a renda familiar que era complementada com o emprego dos filhos homens. Assim. Hobsbawn centraliza as revoluções social e cultural no eixo das mudanças nas estruturas de relação entre os sexos e as gerações. agora passou a ser responsabilidade das mulheres. à medida que a educação superior para os filhos da classe média se tornava quase universal. antes não reconhecidos.

o que não acontecia anteriormente. (HOBSBAWN..) nos países desenvolvidos. que girou em torno das mudanças na família tradicional e nas atividades domésticas – e nelas encontraram expressão – de que as mulheres sempre tinham sido o elemento central. constituindo grande parte de sua força consumidora. fruto de seu trabalho.. Outra grande transformação social/cultural iniciada na década de 1960 foi a entrada das mulheres no mercado de trabalho e a emergência do movimento feminista. Elas começaram a ingressar no mercado de trabalho na época da II Guerra. sobretudo as casadas. na década de 1960. embora às vezes não diretamente relevante para os interesses do resto do grupo feminino ocidental. as mulheres mais pobres.como já foi observado com Edgar Morin no primeiro capítulo desta dissertação . Mas o destaque é que. As mulheres foram cruciais nessa revolução cultural. tendo consciência de que isso seria uma atitude de independência em relação aos seus maridos: (. revolução moral e cultural. necessariamente. que iria estourar na década de 1960. uma maneira de equilibrar o orçamento.A Contracultura 32 declaração de independência e tornou-se o que há muito era para as pobres. ou o movimento de mulheres educadas ou intelectuais. ou pelo menos da auto-afirmação das mulheres. e muitas vezes súbita. uma relação direta com a visão social e política dos direitos das mulheres – o feminismo. 1995: 313) As mulheres sempre foram . elas passaram a contar com o próprio dinheiro. O reconhecimento dos jovens como classe social e consumidora e a emergência das mulheres como força social e política causaram uma enorme . o feminismo de classe média. uma dramática transformação das convenções de comportamento social e pessoal. Isso se dava porque o feminismo específico da classe média inicial. alargou-se numa espécie de sensação genérica de que chegara a hora da libertação feminina. suscitava questões que interessavam a todas: e essas questões se tornaram urgentes à medida que a convulsão social que esboçamos gerava uma profunda. O movimento feminista só tomou impulso quando as mulheres das classes alta e média entraram no mercado de trabalho. Crescia também o número de mulheres que chefiavam as famílias sozinhas – fato decorrente das mudanças de comportamento sexual e também não podemos esquecer que muitos homens morreram na II Guerra. quando não havia mão-de-obra masculina suficiente para manter a economia estável. se viram forçadas a entrar no mercado de trabalho para complementar a renda familiar. Como destaca Hobsbawn.um foco importante da cultura de massa. o que não tinha.

mulheres ocupando posições sociais antes inimagináveis. muito melhores do que seus pais algum dia esperaram ver. a geração que não passou pela Grande Depressão. pelo menos nos países ocidentais ‘desenvolvidos’. liberação sexual. No entanto. nem por qualquer uma das duas Grandes Guerras. que parecia girar mais depressa tal a quantidade e a velocidade das transformações. tinham muito medo de repetir o mesmo erro . Divórcios. Na “Era de Ouro”pleno emprego. férias remuneradas. tornavam seus problemas mais urgentes. etc – a geração que tinha vivido antes da II Guerra nem pensava em transformações e se satisfazia com as melhorias visíveis por quase todo o globo. famílias consistindo em várias pessoas (. Pois as insatisfações dos jovens não eram amortecidas pela consciência de ter vivido épocas de impressionante melhoria. mesmo não sabendo exatamente como. embora de forma desigual mesmo dentro dessas regiões. assim como às gerações mais jovens.A Contracultura 33 transformação em grandes instituições que tinham sido fundamentais para que o capitalismo pudesse ter vencido até então: a família tradicional e as igrejas tradicionais do Ocidente. Os pais que se esforçavam por colocar seus filhos nas universidades queriam que estes tivessem uma vida melhor do que a que eles tinham tido (lembremos do período de crises e guerras antes de 1945). Os novos tempos eram os únicos que os rapazes e moças que iam pra universidade conheciam. Ao contrário. eles sentiam que tudo podia ser diferente e melhor. não conseguia entender como seus pais se contentavam: A própria juventude do corpo estudantil. estabilidade.. na segunda metade do século XX. Ao mesmo tempo. mais pessoas morando sozinhas.) a vasta maioria da humanidade partilhava certo número de características. sua atitude mais crítica. Como continua Hobsbawn (1995: 314/315): (. a própria largura do abismo de gerações entre esses filhos do mundo do pós-guerra e seus pais. aposentadoria. esses arranjos básicos e há muito existentes começaram a mudar com grande rapidez. jovens concentrados em universidades pelo mundo todo.. estes capazes de lembrar e comparar. (HOBSBAWN.) Contudo.. 1995: 295/296) Os jovens que se encontravam nas universidades na década de 1960 queriam mudar o mundo porque não poderiam imaginar o que as gerações anteriores tinham passado. pílulas anticoncepcionais. como a existência de casamento formal com relações sexuais privilegiadas para os conjugues (o ‘adultério’ é universalmente tratado como crime). a superioridade dos maridos em relação às esposas (‘patriarcado’) e dos pais em relação aos filhos..

Os jovens de todo o mundo concentrados em universidades. serviços e bens de consumo poderiam ser encontrados por quase todo o globo ao mesmo tempo). como o estágio final do pleno desenvolvimento humano”. com a vantagem de ainda disporem de uma maior facilidade para lidar com as novas tecnologias. mas. eram não apenas radicais e explosivas. constituíam um novo fator na cultura e na política. Formou-se uma “cultura popular jovem” (HOBSBAWN. contadas aos milhões ou pelo menos centenas de milhares em todos os Estados. serviços e bens de consumo – como o rock and roll15. se comunicaram e criaram uma espécie de língua que todos falavam. mas singularmente eficazes na expressão nacional. roupas. de descontentamento político e social.e daí os protestos e a rebeldia tão característica da geração de 1960/70. a não ser nos muito pequenos e excepcionalmente atrasados. em certo sentido. símbolos materiais e/ou culturais. gestos. Segundo Hobsbawn (1995: 319): “a ‘juventude’ era vista não como um estágio preparatório para a vida adulta. 1995: 292) Essa “cultura popular jovem” que se consolidou na década de 1960 se caracterizava também por ser dominante nas economias de mercado de quase todo o mundo. e mesmo internacional. e provavelmente estavam mais à vontade com a tecnologia das comunicações que os governos. A partir de meados da década de 1960. e concentradas em campi ou ‘cidades universitárias’ grandes e muitas vezes isolados. Essa juventude esbarrava com a gerontocracia que governava o mundo – homens que já eram adultos na II Guerra Mundial . 15 Este tópico será mais desenvolvido adiante. que se destacava por seu internacionalismo (as mesmas transformações e produtos. na maioria. gírias. 1995). 1972). o chamado movimento de contracultura se consolidou. apáticos diante do massacre da II Guerra Mundial (ROSZAK. Como revelou a década de 1960. portanto. . (HOBSBAWN. etc. baseada no consumo desses símbolos ideológicos e materiais: Essas massas de rapazes e moças e seus professores. filmes específicos para os jovens (que não se definiam nem como crianças. Eram transnacionais. O mercado rapidamente percebeu que a juventude estava se tornando um grupo de atores conscientes de si mesmos e não perdeu a oportunidade de oferecer-lhe produtos. movimentando-se e comunicando idéias e experiências através de fronteiras com facilidade e rapidez.A Contracultura 34 de seus pais. que ficaram. nem como adultos).

(HOBSBAWN. a contracultura teve uma relação contraditória com a cultura de massa: Paradoxalmente. já previamente analisada. Mas dentro da contracultura. 1995). a revolução cultural foi a vitória do indivíduo sobre a sociedade – ao contrário do que observamos na “sociedade dentro da Indústria Cultural” (ROCHA. que resultaram na II Guerra Mundial e na detonação de duas bombas atômicas. Só reduzindo a zero nossa concepção de cidadania é que poderíamos desculpar nossa geração adulta por sua espantosa omissão. de salvaguardar a sociedade contra os rapinantes. Vale dizer: renunciaram a sua responsabilidade de tomar decisões de valor. Desde o começo. O movimento A geração que movimentou os anos 60 não queria cometer o mesmo erro de seus pais. tecnocracia é “um sistema de organização político e social baseado em princípios técnicos” (1972: 15). A contracultura.. fechando os olhos para o totalitarismo e a ganância do capitalismo. também não é o individualismo que triunfa. ou pelo menos as motivações psicológicas que os que vendiam bens de consumo e serviço achavam mais eficazes para promover sua venda. de gerar ideais. 16 .A Contracultura 35 Essa revolução cultural trouxe transformações decisivas para o curso da humanidade – a própria contracultura foi uma conseqüência dela. ter problemas financeiros e ser capaz de comprar bebida sem fazer prova de idade. os que se rebelavam contra as convenções e restrições partilhavam as crenças sobre as quais se erguia a sociedade de consumo de massa. 1995: 327) Ainda segundo o autor.) na verdade abriram mão de sua madureza. acometidos pela paralisia de desnorteada docilidade (. de controlar a autoridade pública. assim. se aproxima dessa sociedade de dentro da Indústria Cultural. Os adultos do período da II Guerra Mundial.. como explica Theodore Roszak em seu livro A Contracultura (1972: 33/34): Por que seriam os jovens os principais contestadores da expansão da tecnocracia?16 Não há como evitar a resposta mais óbvia: os jovens assumem tamanho destaque porque atuam contra um pano de fundo de passividade quase patológica por parte da geração adulta.2. se é que esse termo significa alguma coisa que ser mais alto. 3. Segundo Hobsbawn (1995: 328). como veremos a seguir.

Parecia que pela primeira vez eles se davam conta do poder que tinham. ela experimenta. (. que lhes deram um superego anêmico. como destaca Roszak (1972: 41): Se perguntarmos quem são os responsáveis por essas crianças peraltas. e do segmento que o mercado havia começado a direcionar especificamente para eles. os jovens são ‘estragados’. na cultura de massa. ou seja. .) Assim. no sentido de que são levados a acreditar que ser humano implica de alguma forma com prazer e liberdade. principalmente pela concentração nas universidades. contra as guerras e ditaduras que eclodiam por todo o mundo – assumia-se ‘contra a cultura’ dominante. contudo. de modo extremamente vivo. Entretanto.. 1967: 161) Crianças protegidas dos malefícios do capitalismo pelos pais que tinham sofrido na pele com as duas Grandes Guerras e com a Grande Depressão que ocorreu nos anos 30. sua necessidade de aventura. mas também tocada por um espírito sincero..impulsionado por um contingente de jovens ociosos e. rigidamente treinados. contra as bases do capitalismo e da sociedade de consumo. ela talvez esteja profundamente marcada por esse sentimento de aniquilamento-suicídio possível da humanidade que fez nascer a bomba atômica. uma afirmação de valores privados que corresponde a seu individualismo. a grande questão do sentido da existência humana. dispostos a lutar contra a “tecnocracia”. Encontra. além disso. a burocracia e. só pode haver uma resposta: os responsáveis são seus pais. Podem tomar como natural a segurança econômica – e sobre ela constroem uma nova e descomprometida personalidade. o capitalismo. ao contrário de seus pais. que atribui à juventude papel fundamental na cultura de massas do século XX: A adolescência atual está profundamente desmoralizada pelo tédio burocrático que emana da sociedade adulta: e mais ainda.. e a aventura imaginária. talvez. como também salienta Morin. (. por um lado. Ao mesmo tempo.. pela inconsistência e hipocrisia dos valores estabelecidos. (MORIN.) Uma sociedade de lazer.A Contracultura 36 Os jovens da contracultura caracterizavam-se pelo inconformismo radical e pelo desejo de inovação cultural e. que também anseiam pela abundância e pelo lazer da sociedade de consumo. mas também mostravam-se mais atentos à humanidade como um todo. por estarem reunidos em grande número pelo mundo – em termos estatísticos. esses jovens eram mimados. conseqüentemente. os jovens não tiveram de se vender em troca de seus confortos ou de aceita-los em regime de meio expediente. um estilo estético-lúdico que se adapta a seu niilismo. com alto nível de consumo. que mantém sem sacia-lo. talvez maculada por um ócio irresponsável. O movimento de contracultura . simplesmente não precisa de contingentes de jovens trabalhadores ‘responsáveis’. ao mesmo tempo.

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dependia dos meios de comunicação de massa para se espalhar por todo o mundo. Se a contracultura tinha suas características próprias – música, vestimentas, comportamento, livros, filmes, ídolos, artistas, gestos, gírias, entre outros – ela necessitava dos meios de comunicação de massa para difundir sua ideologia. Dessa forma, como diria Morin (1967: 58), a cultura de massa passa a se utilizar dos mecanismos de vulgarização para tornar a obra consumível por um público mais extenso. A consolidação dos jovens como agente sociais e como classe consumidora deu a eles um destaque que antes não existia. A rebeldia e os protestos contra a gerontocracia e contra o sistema cultural vigente – a “tecnocracia”, a sociedade capitalista, industrial, produtivista e consumista – ganharam força na mídia e se espalharam por todo o Ocidente capitalista, contribuindo para a formação da “cultura popular jovem” e iniciando um movimento exatamente contrário à sociedade da época - a contracultura. Nesta análise sobre esse movimento, é importante entender o que Roszak quer dizer com o termo “sociedade tecnocrática” ou “tecnocracia”: “produto de um industrialismo maduro e em aceleração” (ROSZAK, 1972: 31), que é justamente o objeto de combate da contracultura. O autor destaca que a “tecnocracia” é um “imperativo cultural” (ROSZAK, 1972: 9), que se faz “ideologicamente invisível” (ROSZAK, 1972: 21), exatamente porque, desta forma, fica mais difícil combatê-la. Ela é um regime de especialistas, que possuem um conhecimento científico objetivo e seguro sobre determinado assunto, onde tudo é puramente técnico e objetivo; a ciência e a razão são suas bases, suas estruturas, os moldes de sua realidade – e os próprios especialistas sempre recorrem a elas quando precisam resolver qualquer problema:

A política, a educação, o lazer, o entretenimento, a cultura como um todo, os impulsos inconscientes e até mesmo, como veremos, o protesto contra a tecnocracia – tudo se torna objeto de exame e de manipulação puramente técnicos. O que se procura criar é um novo organismo social cuja saúde dependa de sua capacidade de manter o coração tecnológico batendo regularmente. (ROSZAK, 1972: 19)

Dessa forma, é a “tecnocracia” que os jovens da contracultura querem substituir por uma sociedade diferente, com outras características. Eles enxergam na “tecnocracia” a grande fundadora das duas Grandes Guerras. A gerontocracia

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que está no poder da “sociedade tecnocrática” até reconhece seus erros; entretanto, não quer abrir mão de seu comando, nem das melhorias alcançadas durante a “Era de Ouro”, proporcionadas pela “tecnocracia”:

Na verdade, de vez em quando o sistema à prova de erros atola-se em distúrbios, lassidão apática ou erros de supercentralização; na verdade, a obscenidade crônica da guerra termonuclear paira sobre o sistema como uma ameaçadora ave de rapina que consome a maior parcela de nossa opulência e inteligência. Mas a atual geração de pais agarra-se à tecnocracia devido ao sentido míope da próspera segurança por ela proporcionada. (ROSZAK, 1972: 25)

Mas, de fato, os jovens – agora concentrados em universidades, como já observamos neste capítulo -, com o apoio do mercado (eram grande público alvo consumidor, que gerava muitos lucros), da mídia, da publicidade, na década de 1960, passaram a sentir mais a potência que tinham como número:

Não resta dúvida de que em grande parte isto se deve ao fato de a máquina publicitária de nossa sociedade de consumo haver dedicado muita atenção ao cultivo da consciência etária, tanto dos velhos como dos jovens. Os adolescentes dispõem de um enorme volume de dinheiro e gozam de muito lazer; era inevitável, assim, que passassem a constituir um mercado especial. Foram adulados, utilizados, idolatrados e tratados com uma deferência quase nauseante. O resultado disto é que tudo quanto os jovens criaram para si serviu de alimento à máquina comercial – inclusive17 o novo ethos de descontentamento (...). (ROSZAK, 1972: 38)

Poderíamos, então, perguntar porque a “tecnocracia” não combateu as universidades, que eram o locus onde estavam os jovens que queriam construir uma sociedade diferente da que viviam. A resposta é que é dentro das universidades que se formam os tais especialistas, responsáveis pelo funcionamento da sociedade “tecnocrática”. Mas o modo que a “tecnocracia” arranjou de acabar com a contracultura foi o mesmo que ela utiliza com toda e qualquer manifestação que apareça, por ventura, fora de seu controle e de suas previsões: a absorção, simplificação e vulgarização18 pelo mercado,

transformando a própria contracultura em produto consumido por um grande contingente de jovens. Contudo, em 1972, quando Theodore Roszak escreveu A

Grifo do autor. Lembremos dos meios de “vulgarização” e “aclimatação” – já estudados no primeiro capítulo desta dissertação - utilizados pela Indústria Cultural para transformar determinado produto em algo que pode ser consumido por muitos (MORIN, 1967).
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Contracultura, o movimento ainda estava acontecendo, de forma que ele não poderia prever qual seria seu futuro – embora defenda a juventude da época e já alerte-a para o perigo que a cultura de massa (comandada pela “tecnocracia”) oferece. Entretanto, não se pretende, nesta dissertação, se ater a conceitos binários e/ou maniqueístas, mas estudar e questionar as tensões entre a contracultura (e o que talvez tenha sido seu principal e mais duradouro motor e produto – o rock and roll) e o mercado. Pontua-se aqui a necessidade de se entender essa “cultura popular jovem”, formada na segunda metade do século XX, pois esta não teve o mesmo destino da contracultura; ela – a “cultura popular jovem” - não só está ainda viva, como é um dos principais elementos que mantém a funcionalidade da cultura de massa tal como é entendida hoje:

Assim, através de uma dialética que Marx jamais poderia ter imaginado, a América tecnocrática produz um elemento potencialmente revolucionário entre sua própria juventude. Em lugar de descobrir o inimigo de classes em suas fábricas, a burguesia enfrenta-o na sala de jantar, nas pessoas de seus próprios filhos mimados. (ROSZAK, 1972: 45)

Agora será definido o que é a contracultura, tal qual Roszak a localiza: “(...) uma cultura tão radicalmente dissociada dos pressupostos básicos de nossa sociedade que muitas pessoas nem sequer a consideram uma cultura, e sim uma invasão bárbara de aspecto alarmante”. (ROSZAK, 1972: 54) Neste ponto, chama-se atenção para o conceito evolucionista utilizado pelo autor – uma “invasão bárbara”. Mais do que simplesmente uma visão sobre o assunto, Roszak já inicia um processo que perdurará por todo o livro: a aproximação da contracultura com uma cultura diferente, que não é a nossa, com a cultura do “outro”, do excluído, do bárbaro. Mas antes de se aprofundar nesse tema, vejamos quais as características dessa contracultura. Experimentação cultural, formada e dirigida por e para a juventude, que ataca as bases da “tecnocracia” e da “cosmovisão científica”, aproximando os jovens de uma outra concepção de tempo, religião, poder, produção e indivíduo:

Ademais, o que significa afirmar o primado dos poderes não-intelectivos senão questionar tudo quanto nossa cultura valoriza como ‘razão’ e ‘realidade’? Negar que o verdadeiro eu seja esse pequeno e sólido átomo de objetividade intensa que conduzimos de um lado para o outro a cada dia, enquanto construímos pontes e

A Contracultura 40 carreiras. Em seu nível mais profundo o mito é aquela criação coletiva que cristaliza os valores eminentes. incontestável da “tecnocracia”. é a “consciência objetiva” – o mito que molda a nossa cultura. como mostra Roszak durante todo o livro. as bases da “tecnocracia”. o mito tem sido identificado como um fenômeno universal da sociedade humana. por que hesitar em chamar isto de mito? Afinal de contas. por assim dizer. o tempo todo. no lugar do ‘individualismo’. criar a sua própria. Assim. mas que não quer ser visto como tal. racionalidade. o sistema de intercomunicações da cultura. 1972: 217/218) Desconstruindo o poder intocável e. a partir daí. a própria ciência é. por meio de suas tendências místicas ou das drogas. o ‘holismo’ – os jovens que viviam em comunidades ‘hippies’19 tentavam aproximá-la de uma tribo. negando a validade de tudo a que se referem quando pronunciam a palavra mais preciosa que possuem em seu vocabulário: ‘eu’. Assim. agride a realidade do ego como uma unidade de identidade isolável. Uma delas. por isso. enxergando a “consciência objetiva” como um mito. Se a cultura da ciência situa seus valores supremos não em símbolos ou rituais místicos ou em narrativas épicas de terras e épocas remotas. ataca. a juventude que promove a contracultura pode começar a contestar as bases da “sociedade tecnocrática” e. centrais de uma cultura. então. incorpora os conceitos tecnocráticos de razão. 1972: 65/66) A contracultura sabe muito do que não quer ser e pouco sobre o que realmente deseja. Entretanto. puramente cerebral. (ROSZAK. ciência. tal qual ela se apresenta na sociedade atual: Estaremos usando a palavra ‘mitologia’ ilegitimamente ao aplicá-la à objetividade como um estado de consciência? Creio que não. (ROSZAK. ela teria características opostas a esta. sugerida por Roszak. um fator constitutivo de importância tão grande que se torna difícil imaginar que uma cultura pudesse ser dotada de coerência se lhe faltasse o elo mitológico. e sim num mundo de consciência. Se a sociedade que a juventude pretendia construir era ‘contra a cultura’ dominante. encarada por Roszak como mito e não como desmitificação. objetividade e se assume como o único modo de se acessar a realidade. dicionarizado. até então. será decerto brincar com a psicopatologia. o termo “hippie” é: “membro de um grupo não conformista. caracterizado pelo rompimento com a sociedade tradicional. é isso que faz a contracultura quando. O ‘poder do Estado’ seria substituído pelo ‘poder da No sentido mais simples. É. e não uma verdade inabalável. Significa atacar os homens no âmago de sua segurança. onde todos poderiam viver em harmonia e ninguém mandaria em ninguém. alguma comunidade “primitiva”. especialmente no que 19 .

negando ao mesmo tempo humanidade plena a qualquer geração acima dos trinta anos de idade.. com exceção do guru ocasional.) há também nela [na cultura jovem contemporânea] uma concepção muito mais madura e muito diferente do que significa investigar a consciência não-intelectiva. 1972: 89/90) Até mesmo o ‘tempo histórico’ passa a ser encarado de forma diferente por esses jovens (já que esse próprio tempo histórico foi a base para a consolidação da “tecnocracia”).A Contracultura 41 persuasão’. Com a contestação da “cosmovisão científica”.. com ternura. . 1999: 1053). (ROCHA. De ‘histórico’. com sua herança de contemplação dócil. no plano do imaginário inventamos uma cultura representada dentro da Comunicação de Massa que inverte nossas escolhas. nasce também um interesse por outras religiões: (. pacífica e de consumada civilidade. Do mesmo modo. e por um enfático ideal de paz e amor universal” (FERREIRA. ao prazer. Sua principal fonte está na forte influência exercida sobre os jovens pela religião oriental.. não pretendiam ser uma sociedade ‘produtivista’ como a nossa: utilizavam o trabalho para produzir apenas o que lhes era necessário. o tempo passa a ser ‘totêmico’.) do produtivismo. 1995: 318) Assim. 1995: 200) respeita à aparência pessoal e aos hábitos de vida. pode exemplificar este fato. O slogan da década de 1960: “Não acredite em ninguém com mais de trinta anos”..) se no plano das sociedades reais nos afastamos do ‘outro’. mas o que faz no mais tranqüilo e comedido dos tons.. a sociedade que contracultura pretendia construir possuía características inversas à sociedade “tecnocrática” capitalista industrial. (ROSZAK. Neste momento. que rejeitava o status de crianças e mesmo de adolescentes (ou seja. da individualidade e (.. do valor da pujança tecnológica. e até mesmo com uma dose de astuciosa argumentação. Por força de inversões nas nossas concepções da temporalidade.. do poder. Temos aqui uma tradição que contesta radicalmente a validade da cosmovisão científica. é possível retomarmos o conceito de Rocha (1995) sobre a “sociedade dentro dos produtos da Comunicação de Massa” e aproximá-lo dos anseios da contracultura: (. ao desejo.. na tentativa de eternizar a juventude: A radicalização política dos anos 60 (.) foi dessa gente jovem. dando prioridade ao ‘ócio’. a sociedade dentro da Comunicação de Massa se aproxima e nos aproxima das escolhas realizadas pelo ‘outro’. (HOBSBAWN. com humor. da supremacia da cognição cerebral. adultos ainda não inteiramente amadurecidos).

Na tecnocracia.. conseqüências dos avanços científicos. 1995): ambas substituíram a razão pela magia e trouxeram de volta os ‘excluídos’ – o bruxo. portanto. alegria e realização tornam-se uma forma indispensável de controle social. alegando ser uma forma de prazer (fundamental na constituição da contracultura). As mudanças no comportamento sexual. Estaremos em melhor situação que o selvagem que acredita que foi curado da febre pela expulsão de um espírito maligno? . o poeta. através de hábeis manipulações. a invenção e o embelezamento de traiçoeiras paródias de liberdade.A Contracultura 42 A sociedade inventada pela contracultura também realizou essa inversão e. Eles simplesmente não queriam mais assistir às demonstrações de prazer. afinal de contas. acabou por gerar algo semelhante à “sociedade do outro” (ROCHA. além disso. pode ser aproximada da “sociedade dentro da Comunicação de Massa”. Queriam eles mesmos experimentá-las na vida real: O que ocorre com a sexualidade ocorre em todos os outros aspectos da vida. por todo o mundo. (. Jovens praticavam o sexo livre. títulos e diplomas. As revoluções social e cultural. se juntarem em tais comunidades hippies. a criança e a mulher. já estudadas neste capítulo. Acreditamos que em algum lugar além das pílulas e dos gráficos econômicos existem especialistas que entendem o que deve ser entendido.. o índio. na tentativa de construção de uma nova sociedade a partir do combate à “tecnocracia”. liberdade e felicidade oferecidas pela “sociedade dentro da Comunicação de Massa”. falam como especialistas e. Conseqüentemente. 1972: 28) A juventude. o xamã. tentam integrar a insatisfação gerada por aspirações frustradas. A tecnocracia tem como centuriões falsários que. o louco. É claro que nem todos os jovens aderiram radicalmente à contracultura a ponto de. como a pílula anticoncepcional – apareciam de forma radical entre os hippies. Em todos os meios sociais. Mas esta demonstração de interesse geral por um tipo de sociedade que não a nossa refletiu em toda a produção cultural da época. agimos movidos pela fé. publicitários e especialistas em relações públicas adquirem proeminência cada vez maior. (ROSZAK. possuem graus. Como bem exemplifica Roszak (1972: 259): Vivemos na superfície de nossa cultura e fingimos saber o suficiente. Sabemos que são especialistas porque. licenças. influenciaram a contracultura. 1995: 136) – excluída culturalmente por nossa sociedade.) Além de manipular tais noções superficiais. a contracultura se aproximou muito da “sociedade dentro da Comunicação de Massa” (ROCHA. o feiticeiro. por exemplo – ironicamente.

uma mistura de . em um momento anterior à contracultura. materiais culturais específicos dessa época constitui um fato importante.3. O foco desse estudo recai sobre o surgimento do rock and roll. serão analisados aspectos e músicas da banda de rock mais expressiva da década de 1960. dessa maneira. e como ela o adotou e o transformou em um de seus principais ícones. 1967) para aclimatar as formas de arte. que a cultura de massa tenha utilizado seus processos de “simplificação” e de “vulgarização” (MORIN. Trilha sonora Em meados do anos 50. A contracultura tentou transformá-la em “sociedade da realidade”. Analisar. seria erguida uma sociedade extremamente semelhante àquela encontrada dentro dos produtos da cultura de massa. transformando a tentativa da contracultura novamente em “sociedade do sonho”. 1995). é de extrema importância observar que a juventude da década de 1960 – em determinado momento. Simultaneamente. Em seu lugar. a chamada “sociedade do sonho”. Mesmo que tenha sido manifestação de desejos ou apenas uma tentativa frustrada. No próximo capítulo. por se tratar de uma dupla afirmação de sentido da “sociedade dentro da Comunicação de Massa” (ROCHA. a cultura de massa enxergou no movimento jovem uma séria ameaça à sociedade inventada pela sociedade “tecnocrática” capitalista industrial. portanto. foi encampada pela cultura de massa. um novo ritmo surgiu no cenário musical norte-americano: o rock and roll – nascido como híbrido cultural.A Contracultura 43 Não é de se estranhar. Como as duas – contracultura e “sociedade dentro da Comunicação de Massa” (ROCHA. A contracultura. quando a cultura de massa já estava solidificada – tenha tentado destruir a sociedade que a consolidou. como a contracultura se demonstrou mais tarde. 1995) – estavam muito próximas. pois. os símbolos e as ideologias da contracultura dentro de seu mercado. 3. o mercado continuou se apoderando disso tudo. colocando-a em tensão com a própria sociedade que a inventou. cuja influência e número impressionante de vendas perduram até hoje: os Beatles.

através das tentativas de fusão em diferentes épocas. Mas o próprio R&B já é uma mistura de ritmos: o blues – urbano e rural -. deu origem ao rock and roll. 1973). Em seu livro.A Contracultura 44 ritmos. p. esses homens utilizavam o blues rural para extravasar suas aflições e dificuldades. a partir das várias culturas que conviviam dentro dos Estados Unidos já no início do século XX: A música é um elemento importante em todas essas culturas e a troca de influências será acelerada pela expansão dos meios de comunicação (transportes e mass media). mas para determinar. duas grandes correntes – a ‘música branca’ e a ‘música negra’ – irão se alimentar uma da outra. consistiu na junção do rhythm & blues (R&B) com a música country & western (segundo Friedlander. com um estilo de cantar que possuía uma carga fortemente emocional. Durante a época de Depressão. Uma maciça migração negra durante a Depressão e os anos da Segunda Guerra Mundial criaram um grande número de comunidades afro-americanas nos centros urbanos do Norte do país ao final da guerra em 1945. em certa medida. quando homens negros do Sul dos Estados Unidos cantavam a vida difícil que levavam invocando o grito africano que nunca deixaram na terra natal (MUGGIATI. assim como outras áreas urbanas e palcos teatrais. musicalmente. convergente. utilizando-se das blue . nos bares de beira de estrada. e as chamadas jump band jazz (FRIEDLANDER. 2003. a atual música de consumo das sociedades industrializadas. O processo que. 2003). ou na praça das cidades perderam importância na década que se seguiu à Segunda Guerra Mundial – até serem substituídas pelo blues urbano do Norte e Oeste. Aos poucos.32) As letras do blues rural eram quase sempre depressivas. naquela época. não para compor um idioma uniforme. (FRIEDLANDER. a ausência do lar rural e da família – e de seu apoio emocional e material – ajudaram a criar o cenário no qual o blues urbano floresceu. a música gospel. As novidades e a alienação da existência urbana. (1973: 31) O blues surgiu no cenário norte-americano no final do século XIX. continuava sendo uma música essencialmente de negros): As apresentações de blues rural sulista nas varandas. O centro passou a ser os bares enfumaçados da região sul de Chicago. Roberto Muggiati sinaliza sobre as fusões de ritmos que iriam dar lugar ao rock and roll. Durante esse intenso cruzamento de influências. o blues foi se espalhando por todo o país até assumir a forma do blues urbano (mas. country é a música rural do ‘branco pobre’ e o western é a música dos cowboys do Oeste dos Estados Unidos). a maior parte dos estilos e gêneros que compõem o diversificado panorama musical norte-americano e. Rock: o grito e o mito – a música pop como forma de comunicação e contracultura (1973).

trazendo para o R&B um pouco de influências do jazz: No final dos anos 40. . preencheu admiravelmente seu papel no período entre guerras. também teve grande influência na formação do rock and roll. geralmente derivada dos grandes shows musicais da Broadway (Gershwin. (MUGGIATI. Cole Porter.. (. gospel e do jump band jazz no estilo conhecido como rhythm and blues. grande participação física por parte dos cantores e do público (como palmas e gestos corporais espontâneos). Mas depois do choque da Segunda Guerra. A música gospel tem um estilo vocal emocionado. as “notas sustentadas”. A canção popular..).. complexidade rítmica. cultivam o que Stearns chama ‘um ceticismo enxuto que penetra na fachada florida de nossa cultura como uma faca’. como as letras do rock. As coisas tinham mudado. Cultivava. por exemplo. como define Friedlander. Segundo Simon Frith (2002: 8). tinha sobrevivido a todas essas mudanças. com força suficiente para acordar qualquer bêbado”. (. música religiosa que tem suas origens no final do período de escravidão nos Estados Unidos (FRIEDLANDER. o formato “chamado e resposta” (que será fundamental no diálogo entre vocalista e guitarra no rock and roll). conseqüentemente. visionários da música negra transformaram os elementos do blues. com a diferença de que começa a utilizar temas mais positivos nas suas letras. 2003). havia a necessidade de começar a se inventar um som urbano: “um som capaz de competir com o barulho do tráfego e das multidões urbanas e que pudesse fazer um escarcéu no palco. A guitarra. euforizante ou então melancólica nos anos da Depressão. as letras dos blues. como a coisa complexa que é.. O jump band jazz. 20 Segundo Friedlander.. Rodgers & Hart. acompanhamento com percussão. O blues urbano mantém as mesmas características. uma certa ironia (.. 1973: 11) Outro estilo musical que muito contribuiu para a formação do R&B e. concreto e vital.A Contracultura 45 notes20.) Se a canção popular americana já por volta de 1950 havia perdido sua função social. O ritmo tinha surgido com as grandes bandas da época da II Guerra Mundial.). eufórica no clima otimista dos twenties. é preciso lembrar que o blues. etc. o modo direto e irônico de abordar os temas nas letras foram apenas algumas características do blues herdadas pelo rock and roll: No plano ideológico.) O blues olhava o mundo sem ilusões. Irving Berling. com a diferença de que era uma banda menor: cinco ou seis músicos e um saxofonista tocavam numa batida “suingada”. exigia-se uma música aberta para a realidade do mundo que começava a pulsar de novo. complexidade harmônica. para a formação do rock and roll foi o gospel. ela não comunicava mais nada às novas gerações.

de certa forma. 2003: 34) O rhythm and blues falava sobre as adversidades da vida (herança do blues). ambas heranças do gospel.. Como no jump band jazz. marcadas principalmente pela bateria. principalmente – falta assinalar a síntese do R&B com o country & western. (FRIEDLANDER. de uma nova raça que começa a se manifestar no cenário da sociedade americana: a juventude. A batida envolvente e a autenticidade das letras começava a criar um público de jovens ouvintes negros depois da II Guerra Mundial. Finalizando a análise das influências musicais recebidas pelo rock and roll – para se detalhar sua história social e as conseqüências que ele iria ter na década de 1960. que enfatizava a base rítmica 2/4 (ou ‘backbeat’). principalmente.). Emoção na voz e sustentação nas notas foram herdadas do blues. criava um movimento corporal que estimulava os ouvintes. (MUGGIATI. ele é também a música de uma outra minoria. Em sua qualidade de race music. o rock and roll clássico. O solo instrumental.nem por isso deixa de ser encarado socialmente como ‘música de negro’. mais tarde. foram importantes componentes do R&B (..22 Dessa mistura de ritmos ‘negros’ com ritmos ‘brancos’ nasce o rock and roll: Se o rock n’roll é uma síntese e um híbrido dos dois idiomas – ‘música branca’ e ‘música negra’. Mesmo o jazz era desprezado nessa época pela maioria da população: 21 Aqui podemos perceber a inserção da música no cotidiano da vida. como relacionamentos amorosos e sexuais – o que fazia corar a maior parte dos brancos. enfrentavam grande preconceito por parte das classes alta e média. Na primeira metade do século XX.A Contracultura 46 Essa fusão tornou-se. O virtuosismo vocal e a criatividade no palco. . surgem várias questões que irão. combinava a fluidez improvisada do jazz com as longas repetições do blues. 1973: 37) A partir dessas explicações. mas também sobre temas cotidianos21. todos os ritmos negros que surgiam nos Estados Unidos. A influência do gospel. complementada por um solista de sax-tenor do jazz. feito principalmente pelo sax-tenor. Uma delas é exatamente o problema que foi enfrentado na época: o racismo. como alertou Huyssen – estudado no primeiro capítulo desta dissertação – sobre o poder dos meios de comunicação de massa de abolir a dicotomia arte/vida. nos guiar pela história social do rock and roll. a base para a primeira era do rock. o importante era o swing. A síntese musical do R&B consistia na formação básica das bandas de blues.

As pequenas estações de rádio de áreas urbanas transmitiam programas de R&B (e posteriormente de rock and roll). a procura de um novo estilo de vida que não o de seus pais – como já foi assinalado no contexto histórico pós-guerra. que vinham decaindo depois da chegada e conseqüente concorrência com a televisão. transformando-os em um híbrido que recebeu o nome de rockabilly e que seria o trampolim para muitos ‘roqueiros clássicos’ que surgiam em meados da década de 1950.A Contracultura 47 Antes do surgimento estrondoso do rock n’roll no início da década de 1950. inicialmente. as escolas. pois o que estava sendo ameaçado eram a moral e os bons costumes da sociedade americana. o rhythm and blues e o rock and roll foram deixados nas mãos das pequenas gravadoras. 1973: 34) Assim. Para as grandes gravadoras. como o rock and roll serviu para criar uma identidade de grupo entre a juventude dos anos 50 e 60. Até então. produzir covers significava pagar A hipótese trabalhada por Paul Friedlander é a de que Elvis Presley foi quem juntou os ritmos. abordado no início deste capítulo -. O rock and roll e o R&B. pois elas não possuíam artistas de R&B. ouviam este novo ritmo e corriam para as lojas de discos das cidades23. não agradavam os pais desses jovens brancos que começavam a consumir o ritmo. As rádios. Por volta de 1953. Mas um problema se delineava neste ponto. sobretudo a de vanguarda. Apenas uma minoria da classe média branca. 23 Veremos. (MUGGIATI. com uma pequena diferença: a sua preferência por uma música de dança ligeiramente mais ruidosa. os filhos dessa ‘maioria silenciosa’ não diferiam grandemente dos pais em matéria de gosto. logo adiante. com seu excesso de sensualidade tanto nas letras das músicas quanto na forma de dançar. Tampouco satisfaziam as grandes instituições sobre a qual a “tecnocracia” se desenvolveu – a Igreja. 22 . prestigia de modo elitista o jazz negro ao lado da música erudita. E tais ritmos também não agradavam as grandes gravadoras que controlavam o mercado fonográfico. as grandes ignoraram o R&B. e não se negavam a executar tais músicas das classes baixas: No início. o blues. formado basicamente por negros. o consumo de música se distribuía num esquema compartimentalizado. Jovens brancos. tampouco de rock and roll. pois atendiam a um público consumidor não muito extenso. o governo -. de preferência do gênero ‘ligeiro’ e/ou música popular: canções românticas açucaradas ou cançonetas mais rápidas no balanço diluído das orquestras brancas de swing. a venda de gravações de R&B e a execução nas rádios fizeram com que elas produzissem covers dos sucessos de R&B. a intelligentsia. recusando como ‘lixo’ qualquer tipo de música popular. Grande parte da população urbana branca consumia ‘música clássica’. os órgãos oficiais. viram nos novos ritmos uma possibilidade de salvação econômica.

esses covers eram modificados. bonés. bottons. p. davam mais ênfase à melodia. O rock nasceu como produto e como revolta. 36) 24 . 2003: 39) No geral. gravada por um artista pop da casa. que enxergava no mesmo rock and roll imoral um grande filão a ser explorado entre os jovens. cativante – e branco. calças. em troca de mais dinheiro pelo produto rock – dinheiro que não vinha apenas da venda de discos. ‘cobrindo’ material original negro. Na grande maioria dos casos. Aí estava se desenvolvendo a tal “cultura popular jovem” (HOBSBAWN.” (1973. vão ao seu encontro em todo canto do país” 24. o próprio rock and roll é fruto de várias tensões entre uma sociedade que se preocupava com a moral e os bons costumes da juventude e uma sociedade de consumo. por parte da sociedade americana. As independentes simplesmente não conseguiam prensar discos suficientes e perderam o sistema de distribuição nacional – e elas não tinham uma rede de influência necessária com os responsáveis pelas estações de rádio para assegurar a execução. Dessa forma. Mas as transformações sociais e culturais decorrentes dessa permissividade em relação ao rock and roll. A sociedade americana se viu obrigada a abrir mão de seus valores tradicionais. suavizando as letras que falassem de relacionamentos amorosos e sexuais de forma menos envergonhada. Muggiati ainda assinala: “Novamente a criação original negra é empacotada por brancos e vendida ao grande público branco. camisetas. são cópias que cantores brancos fazem. A cópia institucionalizava-se e ressurge o mecanismo das covers (‘coberturas’) – cópias exatas de canções já lançadas ou gravadas. ao mesmo tempo. mas que ainda assim fizessem sucesso entre os jovens. mas também dos shows. (FRIEDLANDER. ainda não podiam sequer ser imaginadas em meados dos anos 50. com seus eficientes sistemas de distribuição. 1995) que iria trazer tantas mudanças ao longo da década de 1960. calçados e até mesmo álbum de figurinhas com os ídolos da juventude.A Contracultura 48 royalties pelos direitos de gravação de uma música – quase sempre trocando as letras e amenizando as partes mais pesadas – e lançar sua própria versão. mais tarde. Como observa Paul Friedlander (2003: 46): Nesse ponto. da audiência dos programas de televisão que mostravam os ídolos adolescentes do rock e. Durante aproximadamente três anos (1953-1955). São óbvias as razões por que muitas canções de sucesso só acabaram sendo aceitas quando expostas à massa consumidora por um artista simpático. essa prática teve o efeito de obscurecer as versões negras originais. Como sinaliza Muggiati (1973: 40): “Não é qualidade o que preocupa as grandes gravadoras: existe um público ávido para consumir a nova música e elas. de revistas.

já que a única coisa que vivenciaram tinha sido a “Era de Ouro” – eles ajudavam a solidificar a “sociedade dentro da Comunicação de Massa”. Nadar. acontece uma transição para a chamada música popular. que rejeitavam exatamente essa sociedade capitalista “tecnocrática”. Isto ocorreu porque os roqueiros saíram de cena (Elvis Presley se alistou no exército. a consumir os produtos oferecidos pela sociedade capitalista “tecnocrática”. a identidade isolada que esses jovens buscavam foi o que os levou. Com o dilúvio de dados provocado pelos novos media – sobretudo os eletrônicos – esses compartimentos estanques de classes e hierarquias foram invadidos e todo mundo se viu bruscamente na situação do náufrago: nadar para sobreviver. criaram um campo de informação próprio. a partir da venda de produtos simbólicos. como será assinalado adiante: os jovens da contracultura. O grande e acelerado desenvolvimento tecnológico – principalmente o boom desse desenvolvimento relativo aos meios de comunicação de massa – influenciou de maneira direta essa “cultura popular jovem” que começou a se formar com a explosão do rock and roll: Até o começo do século. a tradicional família praticava impunemente a lavagem cerebral dos filhos: o mesmo repertório de informações e valores era transmitido quase intacto de geração a geração. para se defender. o rock se tornou um catalisador para os adolescentes formarem sua própria identidade de grupo – um companheirismo entre aqueles que gostavam da música e se identificavam com ela. O rock and roll lhes deu um senso de comunidade. como dariam os protestos antiguerra da geração seguinte. Muitos jovens dos anos 50 viam no rock and roll uma expressão de rebeldia e de uma inquietude crescente contra a perceptível rigidez e banalidade de uma época dominada por políticos republicanos conservadores e pela musicalidade de Mictch Miller.A Contracultura 49 Na era do homem de empresa. no caso. aproximadamente. A partir de 1959. na qual os pais trabalhadores se esforçavam para ter seu lugar e se conformar. pois o rock clássico tinha desaparecido de cena. Mas isso resultava apenas na fortificação da sociedade de consumo. Ao mesmo tempo em que os jovens buscavam uma vida diferente da que seus pais tiveram – estando alheios aos problemas das épocas de crise e de guerras. esse primeiro estouro do rock and roll ocorreu de meados até o fim da década de 50. (MUGGIATI. Foi dentro dessas condições que os jovens. desfazendo a imagem de roqueiro-delinqüente- . culturais e materiais (o rock aí incluído) que a rejeitasse. exatamente. equivalia a digerir e manipular convenientemente a massa de informação despejada diariamente pela indústria das comunicações. adotaram o rock como idioma de sua sociedade. Essa tensão iria se agravar ainda. 1973: 11/12) Segundo Friedlander.

) uma variedade de estilos que pouco tinham em comum além da ausência de uma batida forte. No lugar do rock ficou: (. compunham suas próprias músicas e gravavam com suas próprias bandas. de outros instrumentais do pré-reggae caribenho (a maior parte apresentando guitarras).. morreram). sistema governante”.26 (FRIEDLANDER.br/michaelis>. o termo establishment significa: “autoridades (públicas e privadas) estabelecidas. Entretanto. e outros também se afastaram da música. a pressão da Igreja. Disponível em: <http://www2.com. além disso. essa fase pela qual a música pop passava. de uma visão de mundo e de um estilo de performance que veiculavam mais o amor romântico em detrimento do apelo sexual. dos pais e dos órgãos oficiais – do establishment25 – também contribuiu para enterrar a primeira era do rock. e a gravadora Motown. do surf sound californiano e dos primeiros sucessos do soul e dos artistas da Motown. as grandes gravadoras não tinham muito poder de ação dentro do rock e as pequenas não suportaram a pressão. Durante a primeira fase do rock and roll. Acesso em: 4 jan. Os ídolos dessa juventude do início dos anos 60 eram apenas uma visão não-rebelde dos ídolos do rock – produtos sobre os quais o establishment pudesse ter algum controle. como afirma Friedlander (2003: 106): “Os artistas. Segundo Simon Frith. os artistas faziam questão de participar diretamente de todo o processo. essa: “a equação do processo musical pelo fabrico de discos e dinheiro não satisfazia a Segundo o dicionário Michaelis. temos o exemplo de Joan Baez. 2003: 110/111/112/113) 25 . 2003: 105) Mas não foi apenas como conteúdo e forma que o rock and roll revolucionou as bases da música. como Buddy Holly. Marvin Gaye e Marvelettes (FRIEDLANDER. os artistas eram apenas intérpretes. 2006 . também o processo de gravação e distribuição de músicas foi transformado. músicos de estúdio temporários que gravavam as músicas e os compositores eram profissionais contratados. do calipso ‘étnico’. arranjos açucarados e uma profusão de seguras e ingênuas mensagens românticas”. o “surf sound” tem os Beach Boys como seu maior representante. cantavam um rock artificial com pouco ou nenhum ritmo.A Contracultura 50 juvenil. 26 Os vários ritmos citados por Friedlander podem ser exemplificados: nos primeiros anos da década de 1960. o establishment reafirmou seu controle sobre todo o processo. alguns.. famosa por lançar artistas de “soul music” lançava os primeiros sucessos de Smokey Robinson. na música “folk”. Estes novos estilos pop iam desde as iniciativas bem-sucedidas dos chamados ídolos da juventude até as novas tendências da emergente música folk. o que o autor chama de “calipso étnico” e de “pré-reggae caribenho” foi o que deu destaque a ritmos como o reggae (que se desenvolveria mais tarde) e a salsa.uol. no início dos anos 60. a maioria homens bonitos e elegantes.

é modelo para a juventude ocidental. gravação e produção da música para eles mesmos . Começava a segunda e definitiva era do rock – onde ele próprio iria se transformar e adquirir uma dimensão nunca antes imaginada. o mundo da música inicia uma nova revolução. que iria alimentar a “cultura popular jovem”. Muitos autores. 2002: 47) A partir de 1963. Desde então. o rock também passou por 27 Como veremos mais detalhadamente no próximo capítulo desta dissertação.e consolidariam uma carreira mundial através das mudanças introduzidas por eles na música27: A experimentação realizada pelos Beatles e outros grupos da invasão inglesa ajudou a redefinir a natureza da música do rock. o rock veio para ficar e moldar um novo estilo de vida que.). como Paul Friedlander e Roberto Muggiati. (FRIEDLANDER. até hoje. Os Beatles iriam transformar o rock and roll em rock – tirando das mãos dos “especialistas” da “tecnocracia” o controle sobre o material produzido e assumindo os processos de composição. mantendo a postura irônica já iniciada pelo rock and roll). . (FRITH. e gravações de guitarra tocadas ao fundo.. localizam essa revolução com o surgimento dos Beatles. Na forma. saídos de fábricas de sucesso (. arranjadores e produtores. que era a de fazer música direta” (2002: 17). assim como letras que continham interpretações do Livro Tibetano dos Mortos. falavam de assuntos mais sérios (embora ainda ligados ao cotidiano e. O autor ainda observa que: A atenção criativa passou dos artistas para os que faziam discos – os compositores. geralmente. para os quais os cantores eram apenas uma fachada adolescente. um instrumento de cordas indiano.A Contracultura 51 idéia original do rock´n´roll. Junto com os Beatles veio a chamada “invasão inglesa”: vários grupos de rock britânicos – num cenário antes dominado pelos norteamericanos – começaram a despontar e fazer muito sucesso em todo o mundo. das letras e da cultura que a cercava. As letras da música rock. O declínio do rock´n´roll como dança representou o crescimento de novos tipos de som pop.. 2003: 24/25) Por volta de 1965. o rock já poderia se diferenciar bem do rock and roll da década de 1950 – e os Beatles tiveram grande participação nisso. que caracterizaram a década de 1960. As fronteiras musicais foram tão alargadas que puderem incluir a cítara.

o mercado parecia não dar atenção – o importante era vender e essa função o rock sempre cumpriu muito bem: Em meados dos anos 60. Muggiati comenta: “Mas o rock n´roll da década de 1950 se preocupou demasiadamente com o ritmo e por isso não desenvolveu em toda a sua potencialidade os potenciais da amplificação. sua habilidade de mover platéias e de dominar a vida das pessoas. ao mesmo tempo. em meados da década de 60.) O que começou com um resgate do pop. eles adotaram e foram adotados pela contracultura e representaram. uma nova explosão de rock´n´roll adolescente. houve um boom inédito no mercado musical. 59) 28 . E para entendê-la. acabou então sugerindo um rol de novas possibilidades para a música popular. (. dessa vez. um gigantesco número de vendas. Ao adaptar os sofisticados canais do estúdio à música rudimentar dos shows baratos. irônicas e pessoais. Somente o rock posterior a 1965 exploraria essas possibilidades. mas também no auge da inovação artística. Essa tensão entre contracultura e “tecnocracia” é bem representada. p. de revolta e barulho – uma outra música para um outro mundo. mas que eram engraçadas.. O sucesso dos Beatles mostrou que era possível ter um impacto cultural de massa ao mesmo tempo que se preservava o status de músico ‘de verdade’. os Beatles estavam no seu auge – não apenas no auge da carreira. analisaremos a história dos quatro rapazes ingleses no próximo capítulo: Os discos dos Beatles lembraram-nos da força do rock´n´roll – não somente de sua força sonora. Mais uma vez. (FRITH.. Entretanto. mas também de sua força cultural. (FRITH. alimentando a sociedade “tecnocrática” de consumo. 2002: 21) Neste capítulo destacou-se a “Era de Ouro” pela qual o ocidente capitalista desenvolvido passou no momento posterior ao fim da II Guerra Mundial e as Sobre essa mudança do rock. e. os músicos compunham seu próprio material e começavam a controlar os sons de seus próprios discos. Curiosamente.” (1973. se os jovens se utilizavam do rock para ir contra a “sociedade tecnocrática”. como uma forma de expressão artística: o rock´n´roll virou rock.A Contracultura 52 mudanças – o rock-de-estúdio28 -. portanto. Logo ficou mais fácil escrever músicas que soassem bem do que trabalhar em cima dos trabalhos dos outros. a prática dos Beatles tornou-se modelo para todos os demais. fazendo da própria amplificação um novo médium e tentando repetir nos concertos ao vivo a riqueza e a densidade do rock-de-estúdio. 2002: 20) Quando o movimento de contracultura se inicia. Eles escreveram músicas adolescentes que não seguiam regra alguma. os grupos britânicos tiveram de aprender como arranjos e músicas funcionavam. mas manteve o caráter da juventude. pelos Beatles.

Paradoxalmente. que resultaram no surgimento do movimento de contracultura. como será observado no capítulo seguinte.A Contracultura 53 conseqüências sociais e culturais decorrentes deste fato. Assim. . esses jovens encontravam-se em um momento de constante tensão entre consumo e contracultura. a cultura de massa – que vende o tempo todo esta sociedade – engoliu a contracultura. Essas tensões entre consumo e contracultura. entre a “sociedade dentro da Comunicação de Massa” e a sociedade que os jovens estavam tentando criar estão presentes nas letras de músicas dos Beatles que foram selecionadas. 1995). ao mesmo tempo em que eles rejeitavam o establishment através da contracultura. Observou-se também neste capítulo como as características da contracultura se aproximaram das características da “sociedade dentro da Indústria Cultural” (ROCHA. É neste momento ambíguo que os quatro componentes dos Beatles se juntam e formam um grupo de rock and roll no final da década de 1950. alimentavam-no quando consumiam os produtos culturais e/ou simbólicos que a própria contracultura fabricava e que só poderia circular através do consumo. se apropriando de sua ideologia. seus produtos e símbolos para ganhar mais dinheiro. Por isso. liderado pelos jovens que ganharam status de agentes sociais a partir do momento em que se forma um mercado consumidor exclusivamente voltado para eles. ameaçando-a.

com a qual eles travaram uma relação dialética entre propagar a mensagem que o movimento jovem pregava contra o establishment e. GUINESS WORLD RECORDS. Antologia (GENESIS “Biggest All-Times Sales For A Band”. Disponível em: <http://www. mais que o dobro do número conseguido por Elvis Presley). consecutivamente. é tão importante para o campo da Comunicação Social tentar compreender o que faz dos Beatles um fenômeno da cultura de massa. A pesquisa foi realizada em diversos livros. na qual os Beatles estão inseridos.asp?searchstring=beatles>.5 milhões de cópias no mundo inteiro no primeiro mês que se seguiu ao lançamento. Seção Find a world record. The Beatles: an illustrated record (CARR e TYLER.guinnessworldrecords. Neste momento.asp?recordid=50910>. será detalhada a história da banda. produto e discurso 4. 2006. vendeu 13. no Reino Unido. Acesso em: 5 jan. e o álbum 1. 1997). Já foi destacado até aqui as discussões sobre cultura de massa.1. 1978).com/content_pages/record. Seção Arts and Media – Pop Stars. simultaneamente. depender dele para realizar tal propagação.4 The Beatles – mito. Beatles for sale Os Beatles venderam no mundo inteiro mais de um bilhão de discos29. 29 . 30 GUINESS WORLD RECORDS. 1995). lideram a lista de artistas com mais singles nos topos das paradas (foram vinte músicas entre 1964 e 1970) e são o grupo com maior número de álbuns no topo das paradas musicais (foram dezenove discos que alcançaram o primeiro lugar em vendas. Paz. com mais de 1600 versões. eles lideram a lista dos que tiveram mais singles em primeiro lugar. 2005. 2006. Pepper (MARTIN e PEARSON. como Rock and roll: uma história social (FRIEDLANDER. que reúne os maiores sucessos dos Beatles.com/content_pages/search. até 1986. incluindo aí a contracultura. amor e Sargent Pepper’s: os bastidores de Sgt.guinnessworldrecords. Por isso. 2005. São colecionadores de recordes30: nos Estados Unidos. Disponível em: <http://www. o contexto histórico em que eles surgiram. Acesso em: 5 jan. também registraram o recorde da música mais regravada do mundo – Yesterday.

Destaca-se. Os jovens de Liverpool. como no título de seu quarto álbum Beatles for sale. Paul McCartney visitou uma feira em Liverpool. no ano de 1940. 2003).de 1964. nasceu James Paul McCartney e. com Elvis Presley representando uma classe média branca americana. onde. que começava a se rebelar contra o establishment – o que iria se agravar na década de 1960.cujo vocalista e guitarrista era John Lennon. mas a estrutura de todas as histórias encontradas nos livros e DVD’s citados acima são semelhantes entre si mesmas e também semelhantes a uma estrutura mitológica. O rock n´roll. 2001) e também nos 5 DVD’s que compõe o Anthology (WONFOR. também já tocava guitarra e ficou impressionado com a habilidade de .The Beatles – mito. Enquanto o resto da Inglaterra ouvia o skiffle. estouraria em 1954. Não está sendo aqui posta em dúvida a veracidade dos fatos. já que os próprios Beatles são um produto da cultura de massa e assim se assumem. nasceram Richard Starkey (7 de julho) e John Winston Lennon (9 de outubro). políticas. como os quatro componentes do grupo se conheceram e formaram a banda.Beatles à venda . de rhythm & blues e de rock n’roll americanos chegavam à cidade antes que chegassem à capital. os discos de blues. formada por estudantes: The Quarrymen . 2001). trazendo inúmeras transformações econômicas. durante a II Guerra Mundial. A Segunda Guerra terminaria em agosto de 1945. ou seja: o ‘mito’ dos Beatles que é vendido ainda hoje como um ‘produto’. totalmente diferente do mundo da juventude de seus pais. Os jovens da década de 50 teriam muita dificuldade em se posicionar nesse novo mundo. Em 18 de junho de 1942. Paul. onde viu se apresentar uma banda de rock n’roll. como já observamos no capítulo anterior. agora. então com 15 anos. Liverpool é uma cidade portuária inglesa. a ‘história-mito’ do grupo tal qual ela é vendida como produto. sociais e culturais. produto e discurso 55 PUBLICATIONS. No dia 6 de julho de 1957. A primeira parte da história conta o ‘encontro mágico’. tinham grande vantagem sobre os jovens de Londres – como viviam numa cidade portuária. George Harrison (GENESIS PUBLICATIONS. aonde isso aconteceu e qual era o contexto da época. em 25 de fevereiro de 1943. fusão de ritmos brancos e negros. O que se encontrou neste material foram diversas versões de uma só história. ou . entretanto. Liverpool via nascer as primeiras bandas de rock n´roll de estilo americano (WONFOR. 2003). um ritmo semelhante ao blues.

2001). e John ficou impressionado como Paul articulava bem as palavras. pois a banda precisava de um baixista. contra-baixo. que ficaria conhecido nos Beatles como Ringo Starr. George. Mais tarde reduziram o nome apenas para The Beatles. Sutcliffe sugeriu que a banda se chamasse The Silver Beetles (Os Besouros Prateados). Eles se apresentavam em bares e clubs noturnos. ele mostrou a John e Paul que realmente sabia tocar guitarra e também entrou no grupo. mas recompensador em termos musicais para os Beatles. produto e discurso 56 Lennon para a música. George Harrison. Paul. mas. Mas o convite exigia uma banda com cinco integrantes – e eles realmente precisavam de um baterista. em homenagem à banda de Buddy Holly. vocal e guitarra. Depois. A escolha de The Quarrymen foi feita porque. 2003). solicitou a McCartney que tocasse alguma coisa. As diversas temporadas que eles passaram em Hamburgo. porque Pete Best não aparecia em todos ensaios (WONFOR. 2003). na época. todos os integrantes estudavam na Quarry Bank High School. Um dia. na Alemanha. logo ele foi incluído na banda (WONFOR. Aliás. em Liverpool – foi chamado na véspera da ida dos então Silver Beetles para Hamburgo (GENESIS PUBLICATIONS. a banda recebeu um convite para passar uma temporada em Hamburgo. Rory Storm & The Hurricanes. por ser mais novo. A etapa seguinte da história dos Beatles retrata o ‘período de sofrimento’ pelo qual os rapazes passaram.The Beatles – mito. 2003). de Eddie Cochran. vocal e guitarra. não conseguia ganhar muita atenção. apesar de não terem um baterista – quando perguntados o porquê de tal situação. Paul McCartney. Os cinco rapazes – John. Na temporada que fizeram na cidade alemã em 1960. George já conhecia Paul. Stuart e Pete – seguiram para Hamburgo junto com outros grupos de rock n’roll que surgiam na época em Liverpool e adjacências. Pete Best filho da dona de um club noturno. um tanto quanto desconfiado. . The Crickets (Os Grilos). Paul tocou Twenty Flight Rock. são retratadas como um período penoso. entre eles. cujo baterista era Richard Starkey. agora formado por: John Lennon. Em agosto de 1960. Pediu pra entrar na banda e John. vocal e guitarra e Stuart Sutcliffe. Certa vez. Stuart era um amigo de John da escola de artes de Liverpool e artista plástico talentoso. apresentando-se em casas noturnas. Ringo tocou algumas vezes com eles. tocando todas as noites. alegavam que “o ritmo estava nas guitarras” (WONFOR. o nome da banda passou por muitas transformações. vendeu um quadro por uma quantia razoável e John o convenceu de que ele tinha que comprar um contra-baixo com o dinheiro.

Sutcliffe se apaixonou por Astrid Kishnerr . os Beatles gravam com Tony Sheridan. que iria tirar muitas das mais famosas fotos dos Beatles e que sugeriu o tão famoso corte de cabelo PUBLICATIONS. 2001: 50). de hemorragia cerebral. 2003). tomavam estimulantes – Preludin (GENESIS PUBLICATIONS. Mas os Beatles cumpriam seu contrato. a canção My Bonnie. Em dezembro de 1960. desta vez. Trata-se de um novo ‘encontro mágico’. O compacto sai creditado a Tony Sheridan & The Beat Brothers (GENESIS PUBLICATIONS. Insatisfeito com a ida dos rapazes para outro club. permanecendo na cidade até junho de 1962. eles ainda retornaram a Hamburgo para curtas temporadas em novembro e dezembro (WONFOR. Em 11 de abril de 1962. fazendo backing vocal. tocaram em casas noturnas – como o Indra Club e o Kaiserkeller . Quando chegatam. eles voltaram para Hamburgo para uma outra temporada de dois meses. como profissionalmente pois eles tocavam a noite inteira (quase sem tempo de descanso). George então foi deportado e os outros tiveram suas licenças de trabalho cassadas (GENESIS PUBLICATIONS. o Top Ten Club. Neste mesmo ano. eles assinaram contrato com a principal casa noturna de Hamburgo. eles voltaram para mais uma temporada na cidade alemã.moraram num antigo cinema abandonado. dizendo que George era menor de idade – ele faria 18 anos em Fevereiro de 1961. tocando desta vez no Star Club. Em abril de 1961.uma fotógrafa alemã. Stuart decidiu ficar com Astrid e entrou para a escola de arte em Hamburgo. 2001: 55/56). produto e discurso 57 mudando a grafia para possibilitar o duplo sentido. 2001: 50) – buscando disposição para tocar a noite toda. Foi uma temporada bastante proveitosa para os jovens rapazes. receberam a notícia de que o amigo e ex-integrante da banda Stuart Sutcliffe tinha morrido na noite anterior. Sem tempo para dormir. 2003). dos próprios Beatles com o empresário Brian Epstein e com o produtor típico da banda (GENESIS . 2001: 59). Quando os Beatles retornaram à Liverpool.The Beatles – mito. e deixaram o Kaiserkeller. A etapa seguinte dessa ‘história-mito’ atua como uma ‘recompensa’ pelo árduo período passado em Hamburgo. Paul assumiu o contrabaixo. o dono deste bar fez uma denúncia à polícia alemã. desenvolvendo muito seus talentos musicais. Em junho. tanto pessoalmente. Em Hamburgo. já que beat significa batida em inglês (WONFOR.

que foi atrás de alguma gravadora que quisesse contratá-los. começamos a prestar muito mais atenção ao que estávamos fazendo. que foram indispensáveis para que o grupo se tornasse o fenômeno da cultura de massa como é conhecido hoje. foi a soma total de pedidos do disco nessa época em Liverpool. um garoto me pediu um disco de um grupo chamado The Beatles. úmido e sujo Hamburgo. Verificar na segundafeira. Fiz contatos e descobri o que não tinha percebido ainda. onde haviam tocado em clubes. Entre as idas e vindas de Hamburgo. Respeitávamos as suas opiniões. Dick Rowe.. 2003). The Beatles. Epstein foi ao Cavern Club31 ver quem eram os tão procurados Beatles. ao contrário da lenda. (GENESIS PUBLICATIONS.. fazíamos o máximo para sermos pontuais e nos arrumávamos melhor. passando uma imagem de garotos mais comportados. John Lennon conta: Ele estava tentando limpar a nossa imagem: disse que a nossa aparência não estava correta. realizando a primeira notável mudança: o figurino.) Tínhamos que escolher isso ou continuar comendo galinha no palco. que acabava de retornar do extremo quente. 2001: 31 Os Beatles se apresentaram no Cavern Club 292 vezes de março de 1962 até agosto de 1963 (FRIEDLANDER. duas garotas entraram na loja e pediram um disco desse grupo. Escrevi num bloco: ‘ ‘My Bonnie’. 2001: 67) Os Beatles realizaram um disco patrocinado por Epstein.’ (. Esta. Estão no Cavern toda semana.. que nunca atravessaríamos a porta de um lugar melhor. (GENESIS PUBLICATIONS..’. três pedidos de um disco desconhecido em dois dias. Ele enxergou todo o potencial dos rapazes e tornou-se seu empresário. 2001: 65) Em 9 de novembro de 1961. Sempre foi a nossa política considerar todo e qualquer pedido. Brian Epstein era o jovem dono de uma loja chamada NEMS – North End Music Stores. em Liverpool. Os Beatles abandonaram as roupas de couro e passaram a usar terninhos mais modernos.. Uma garota que eu conhecia me disse: ‘Os Beatles? São o máximo. 28 de Outubro de 1961.The Beatles – mito. algo curioso ocorreu. A Decca foi apenas uma das que os rejeitou – o diretor da gravadora na época. Paramos de mastigar pães com queijo e sanduíches de geléia. que os Beatles eram um grupo de Liverpool. Mas eu tive certeza de que era significativo. (. Ele iria se tornar o empresário que alavancaria a carreira dos Beatles e conta como ouviu falar do grupo pela primeira vez: No sábado. produto e discurso 58 musical George Martin.) Antes de eu ter tempo de checar na segunda-feira. comentou que os grupos de guitarra estavam com os dias contados (GENESIS PUBLICATIONS. ..

eles conquistaram até a Rainha da Inglaterra: em 4 de novembro de 1963. Please. Em junho de 1962. Os dois bateristas tocaram no dia da gravação. levando os Beatles ao topo das paradas. como já analisamos. Love Me Do tem a bateria de White. Em seguida.” (GENESIS PUBLICATIONS. eles entraram em contato com o produtor musical. enquanto John. sendo que oito composições de Lennon e McCartney. ainda foram extremamente ousados. diante de Sua Majestade e. que aconteceu em 11 de setembro de 1962. O compacto foi um sucesso de vendas – correu o boato de que o próprio Epstein teria comprado dez mil cópias do disco. Em março de 1963 foi lançado o primeiro álbum dos Beatles. 2003). nesta declaração de Lennon no Royal Variety Show tal contradição só é reforçada.ser ‘contra-a-cultura’ dominante e ser produto dessa mesma cultura. nasceu como um híbrido cultural. os Beatles se apresentaram no Royal Variety Show. O resto. 2001: 92) -. carregando uma contradição em si mesmo . chacoalhe as jóias. além de muito aplaudidos. quando John declara: “Para nossa última música gostaria de pedir sua ajuda. em novembro de 1963. mas pela atitude displicente do artista. uma de George Harrison e as outras seis de outros compositores).S.The Beatles – mito. simultaneamente -. por favor. O pessoal da geral pode bater palmas. George Martin (que iria acompanhá-los durante toda a carreira). Please Me – gravado em uma única sessão de doze horas (GENESIS PUBLICATIONS. No compacto. que pertencia à gravadora EMI. Sucesso absoluto em toda a Europa. I Love You. que não gostou de Pete Best e providenciou um baterista de estúdio (Andy White) para a gravação do primeiro compacto Love Me Do / P. foram lançados diversos compactos e o álbum With The Beatles (com quatorze faixas: sete composições de Lennon e McCartney. Alguns criticavam muito os Beatles por se colocarem ao lado do movimento de contracultura ao mesmo tempo em que ganhavam muito dinheiro com as músicas (que levavam exatamente essas mensagens da contracultura): . não só pela música rock and roll sendo apresentada para a Rainha da Inglaterra. Please Please Me. já conta com Ringo Starr como baterista. produto e discurso 59 67). Se o rock and roll. O álbum tinha quatorze faixas. conseguiram um contrato com o selo Parlophone. Paul e George acionaram rapidamente o amigo Ringo. 2001: 105). Finalmente. de onde não sairiam tão cedo (WONFOR. a versão que está no primeiro álbum dos Beatles. que atingiu o primeiro lugar nas paradas britânicas.

ainda seguindo o pensamento de Muggiati. Os Beatles entram em cena no momento exato em que começa a liquidação final do Império Britânico: o escândalo Profumo (1962) desmascara a ‘pureza’ das instituições. essa ‘diversão-produto’ do establishment passou a criticar de forma mais aberta o próprio establishment. (MUGGIATI. nem o mudariam destinando seu dinheiro a organizações de caridade ou a grupos revolucionário. (MUGGIATI. foram utilizados pelo sistema para mascarar os problemas que o país vinha enfrentando: Os Beatles como personagem são um prolongamento daquele tipo de anti-herói (ou working class hero) esboçado na ficção dos angry young men ingleses (. de maneira a diminuir a visibilidade dos problemas enfrentados pela Inglaterra na época. os Beatles se colocaram com um modelo explosivo. capaz de comprometer toda a ordem social. O consumo do entretenimento Beatles servia para distrair e divertir as pessoas. os Beatles se tornaram os queridinhos de toda a Inglaterra e foram condecorados com a medalha de Membro do Império Britânico. Sua força – além da música. 1973: 71/72) De forma contraditória os Beatles foram utilizados pelo establishment para distraírem a população. mas aos poucos. com a tomada de consciência de toda uma geração e dos próprios rapazes. Também no início dos anos 60. durante a primeira metade da década de 1960. Isso ajudou sua arte e lhes deu recursos para se devotarem única e exclusivamente ao rock. em 1965. com a mini-saia e os novos dândis de Carnaby Street. que provocou risos entre a platéia – em hora nenhuma causou revolta ou foi encarado como um deboche. como será detalhado mais adiante. o próprio sucesso dos Beatles já implicava em uma crítica. a Pop Art recém-criada cobre de irreverência uma cultura metida a séria. mesmo de pretensos revolucionários: a compra de discos. uma vez que eles não se importavam com o establishment e até podiam zombar dele. Longe de se tornarem inimigos do Império. é claro – estava no fato de que se tornaram ricos e poderosos. não havia a necessidade de criticar o sistema abertamente.. Por outro lado. Ao contrário.). ao mesmo tempo em que se colocaram numa posição contrária ao próprio sistema. os Beatles.The Beatles – mito.. produto e discurso 60 Os Beatles não mudariam o mundo fazendo voto de pobreza. ao proporem um estilo de vida impossível para todos. os Estados Unidos estavam precisando de algo para distrair a juventude: . como Lennon fez com essa declaração. a imprensa satírica ataca o até então inatacável através de revistas como The Private Eye e a palavra Establishment serve de nome ao cabaré satírico mais freqüentado de Londres: vai começar o reinado mod. É óbvio que se os Beatles enriqueceram isso aconteceu através de um ato de escolha ‘livre’ de cada pessoa. 1973: 70) Assim.

(FRIEDLANDER. não houve índices criminais em todo o país. que é o que veremos a seguir. como a imprensa inglesa. nos lugares certos. produto e discurso 61 A conquista dos corações de mentes da juventude americana foi facilitada pela perda do carismático presidente John F. lotado de jovens histéricas e partiram direto para uma entrevista coletiva. Kennedy. Apresentaram-se no programa de televisão Ed Sullivan Show pela primeira vez em 9 de fevereiro. em Nova York. Brian Epstein conseguiu fazer com que a Capitol Records (selo pertencente à EMI) lançasse o compacto I Wanna Hold Your Hand/I Saw Her Standing There em 26 de dezembro de 1963 (WONFOR. 73 milhões de pessoas assistiram a esse primeiro show. em meados da década de 1960. onde ficaram impressionados com tamanho assédio. seu bom humor e músicas animadas e voltadas para o amor ofereciam uma distração positiva para a tristeza. Em 15 de janeiro de 1964. como cavalo de Tróia da Invasão Inglesa no campo da música – mais especificamente do rock and roll – não só serviram como distração para a juventude mundial. 2003). 2003: 127/128) E os Beatles. . o que até hoje é considerada uma das maiores audiências dos Estados Unidos (WONFOR. em fevereiro de 1964. Nascia a Beatlemania. 2003). o primeiro grande fenômeno musical planetarizado. enquanto os Beatles estavam fazendo shows em Paris. Depois de muito insistir com a gravadora EMI para lançar os discos dos Beatles nos Estados Unidos.The Beatles – mito. inclinada a voltar suas atenções para algo menos pesado. dizendo que a banda tinha alcançado o primeiro lugar nas paradas americanas com a música I Wanna Hold Your Hand. durante os primeiros cinco minutos da apresentação deles no Ed Sullivan. Kennedy. os Beatles desembarcaram no aeroporto John F. tornando-os aptos para alcançar a recompensa: o ‘sucesso’. A imprensa americana estava. onde o apresentador leu no ar um telegrama de Elvis Presley desejando sucesso aos Beatles. chegou um telegrama da Capitol Records endereçado à EMI. 2003). nas horas certas – que foram indispensáveis para a alavancada do grupo e um ‘período de sofrimento’. Segundo o DVD Anthology (WONFOR. mas cresceram e ingressaram no movimento de contracultura. Notamos que as três primeiras etapa do ‘mito’ dos Beatles teve como base dois ‘encontros mágicos’ – as pessoas certas. A personalidade dos Beatles. junto com essa mesma juventude. mas que também os fez crescer e amadurecer. Assim.

.The Beatles – mito. No dia 28 de agosto. O resultado foi uma comédia leve.. num hotel em Nova York. um gênero que 32 . 2001: 158). A Hard Day´s Night. passando por Escandinávia. como observa Friedlander (2003: 132): A linguagem do videoclipe começa a surgir no filme A Hard Day’s Night e ganha impulso quando os Beatles param de fazer shows e. Filmado em preto e branco. aliás. 2003: 128)33 1964. já estava sendo produzido o primeiro filme dos Beatles. mas de quatro pessoas separadas. Friedlander observa (2003: 132/133): “O rock. Veremos isso mais detalhadamente ainda neste capítulo. já que nenhum deles era ator profissional. o ursinho vulnerável que dava vontade de abraçar. vivenciada pelo grupo (GENESIS PUBLICATIONS. Dylan também teve grande influência no rumo que os próximos álbuns iriam tomar: as letras e músicas dos Beatles assumiriam uma forma e um conteúdo mais mergulhados no experimentalismo intuitivo. deixando de lado o iê-iê-iê e consolidando o estilo rock – e não o rock n’roll34. Hong Kong. George. Além da primeira experiência com maconha. diferente do que acontecia com freqüência. O filme foi lançado em julho de 1964. na análise pessoal de cada um. iniciada em junho. produto e discurso 62 Nesse ano. mandam os promotion films – videoclipes. Austrália e Nova Zelândia. enquanto estavam em mais uma turnê que passou pelos Estados Unidos e Canadá. Sobre isso. 33 O que nos remete aos conceitos de projeção e identificação utilizados por Morin (1967) para teorizar sobre a cultura de massa. em vez de se apresentarem ao vivo nos programas de televisão do mundo inteiro. Nessa época. o diretor Dick Lester e o roteirista Alun Owen fizeram questão de captar as características pessoais de cada integrante. (FRIEDLANDER. os Beatles se apresentaram (e o filme é um reflexo disso) como uma banda formada por quatro personalidades separadas: (. John era o extrovertido espirituoso. As fãs tinham quatro potenciais arrasadores de coração para escolher. como também de mudanças. Paul. realizaram uma turnê mundial. é o ano dos Beatles: não só um ano de consolidação. 34 Roberto Muggiati defende a idéia de que foram os Beatles quem fizeram a transição do rock and roll para o rock. dirigido por Richard Lester. o bonitinho e inteligente. na contestação. com personalidades individuais. inteligente e recheada de videoclipes32. tal como os entendemos hoje. com premiére em Londres e em Liverpool e foi sucesso de público e crítica. mais precisamente em fevereiro. Além disso.) a banda não consistia em um líder e três seguidores. os Beatles foram apresentados a Bob Dylan. o mais calmo e Ringo. que consolidaria a Beatlemania em todo o mundo.

O segundo filme da banda foi filmado nas Bahamas. (GENESIS PUBLICATIONS. refletindo estas experiências musicalmente com modificações tanto na forma quanto no conteúdo. 2001: 159) A rotina estressante de shows sucessivos e as incansáveis fãs deixavam apenas os quartos de hotel como recanto de sossego para os Beatles.The Beatles – mito. como relata John: (. Friedlander (2003: 131) observa que. “a vida em excursões tornou-se uma insana paródia da paródia de A Hard Day’s Night”. para eles. estava adquirindo uma dimensão ‘séria’. era simplesmente brilhante. Ninguém conseguia se comunicar com a gente.o Help! (agosto de 1965). por exemplo. os ingleses estavam em busca de uma análise filosófica e política do status quo.” . numa época em que. como o feedback de guitarra em I Feel Fine. só para citar alguns. nada do que estava sendo produzido se comparava a isso. fumavam maconha no café da manhã. talvez. que também foi trilha sonora do filme homônimo. produto e discurso 63 As letras dos Beatles estavam sofrendo uma simultânea evolução de temas – intensificada pelos amigos e conhecidos. de 1964. que viviam estilos de vida culturais alternativos. além disso. também passaram a inserir sons não identificáveis. Dick Lester não nos contou sobre o que era. prestando mais atenção nas letras.. porque não tínhamos passado muito tempo juntos entre ‘A Hard Day’s Night’ e o ‘Help!’ e em parte porque estávamos fumando maconha no café da manhã nesse período. E os Beatles estavam entre os pioneiros. com altos e baixos. Bob Dylan foi um dos primeiros catalisadores destas mudanças. flauta e cordas). de 1965.) com “Help!”. cítara. Eu percebo agora o quanto era avançado. eram olhares nem mesmo seus mais sérios defensores poderiam chamar de filosoficamente importante. Mas ele nunca explicou para nós. Áustria e Inglaterra. Isso já pode ser percebido no álbum que sucede Beatles For Sale (novembro de 1964) . Começaram a utilizar instrumentos diversos. Como os americanos. Em parte. Ringo declara: Eu sentia que estávamos progredindo musicalmente. Foi um precursor daquelas onomatopéias visuais do Batman ‘Pau! Uau!’ na TV – esse tipo de coisa. principalmente do mundo das artes. e sons de arranhado e de tosse.. Uma parte do material em “Beatles For Sale” e no álbum “Rubber Soul”. que não os usuais do rock and roll (como. O trabalho no estúdio estava ficando realmente muito bom. mais característico. Eles começaram a se preocupar em fazer um som diferente. oferecendo também uma solução que consistia em variados graus de mudança ou escape. como os próprios Beatles declararam. Os Beatles participaram destas mudanças.

George mostrou incrível melhora em suas composições e duas de suas canções são incluídas no álbum (I need you e You like me too much). 2003) e no livro Antologia (GENESIS PUBLICATIONS. com arranjos mais complexos. antes de receber a medalha. Apareceram sem os famosos terninhos. por George. introdução de novos instrumentos (a cítara indiana. eles receberam a medalha MBE (Member of British Empire) . A músicatítulo. 2003: 132) Em 1965. escrita num momento de depressão: Em um ano. mas vestidos com túnicas e a histeria pareceu também contagiá-los. No dia 27 de agosto. Muitos militares que tinham recebido a medalha devolvem-na. indo encontrar-se novamente com a Rainha e causando grande polêmica quanto à situação. 2001: 167) No álbum Help!. (FRIEDLANDER. realizando um sonho antigo de conhecer o já ‘velho’ ídolo. No DVD Anthology (WONFOR. (GENESIS PUBLICATIONS. em Nova York – com um público de aproximadamente 60 mil pessoas. as letras dos Beatles adquiriram um formato psicofilosófico. Ringo cantou sozinho pela primeira vez em Act Naturally e John se destacou na música Help!. seu primeiro vôo solo . principalmente John que tocou teclado pela primeira vez no palco. 2003). Hide Your Love Away até mesmo soava como Dylan. os Beatles encontram-se com Elvis Presley. vemos as personalidades de cada um mais destacadas – Paul em Yesterday. 2001: 182/184). fica a dúvida se eles teriam ou não fumado maconha no banheiro do Palácio de Buckingham.The Beatles – mito. No dia 15 de agosto. onde a mudança iniciada pelo encontro com Bob Dylan é facilmente identificada em todas as músicas.a medalha de Membro do Império Britânico. A trilha sonora de Help continha nuances de introspecção e vulnerabilidade. eles realizaram o famoso show no Shea Stadium. Ringo chega a comentar que eles teriam levado 5 cigarros – um para cada beatle e um para presentear o jovem príncipe Charles (WONFOR. produto e discurso 64 no vazio e risadinhas o tempo todo. mostra uma consciência psicológica rara naquela época. No nosso mundo. é um bom exemplo) e letras de . que Lennon mais tarde descreveria como um grito deprimido por ajuda. letras menos românticas. pois não admitiam estar no mesmo patamar que artistas pop. foi lançado o álbum Rubber Soul. Em dezembro de 1965.

eles haviam parado de fazer turnês no ano anterior. eles estavam. . Trouxe Taxman. investindo em som. uma canção de protesto. Os fãs da música pop também estavam mudando. os recursos técnicos disponíveis não eram muitos e a execução ao vivo das músicas mais complexas que estavam sendo compostas tornava-se quase impossível. eles também entram em contato pela primeira vez com o LSD. organizaram PromoFilms – videoclipes para mandar para as televisões de todo mundo. I’m Only Sleeping com seu solo de guitarra invertido – uma inovação na época. na verdade.The Beatles – mito. Revolver. o artista tem o poder de controlar a sua apresentação visual. a música dos Beatles havia ficado tão sofisticada que eles não podiam mais apresentá-la com seus instrumentos em um estúdio de TV. como Nowhere Man. droga psicodélica que iria influenciá-los muito nos próximos trabalhos (GENESIS PUBLICATIONS. Eleanor Rigby com seus arranjos de violino. que se transformaria em filme mais tarde. produto e discurso 65 cunho mais político. que é contratado para produzí-lo. Primeiro. Já com o sucesso garantido e cansados da correria para fazer shows e apresentações em estúdios de TV. Na verdade. muito mais tempo. que geralmente está pagando pelo vídeo. confirmou a tendência mais introspectiva dos Beatles. mais que o rock´n´roll. dividido com a gravadora. Em Strawberry fields forever eles apareciam no filme. e com o diretor. (FRITH. lançado em agosto de 1966. de George Harrison. Os músicos de rock combinavam uma ênfase de virtuosismo e técnica com a concepção romântica da arte como expressão individual. e não ficar simplesmente à mercê do estúdio de TV. 2002: 22/23) O álbum seguinte. No entanto. mas que acaba dando certo: Por volta de 1967. as revoltas nos campi das universidades. a música feita naqueles princípios aparentemente não-comerciais veio a ter seu próprio público. as celebrações hedonísticas de drogas e sexo. Yellow Submarine. As duas principais razões pela qual eles fizeram aquele promo são tão válidas hoje quanto eram na época. atitude ousada e inovadora. 2001: 177/179/180). É claro que esse poder é. Eles alegavam não ser comerciais – a lógica de sua música não era a de fazer dinheiro ou de encontrar um mercado. Aliás. como também para dançar e divertir-se. dando início à transição do rock and roll para o rock: O rock era algo mais que o pop. eles decidiram não mais ir aos programas de televisão para divulgar suas músicas: em vez disso. desdenhando o pop comercial. original e sincera. embora não cantando ou tocando: o filme acabou como uma série de imagens surreais complementando o clima da música. atualmente. preferindo os álbuns aos compactos. usando música como fonte de instrução pessoal e experiência. Entretanto. Nessa época. O rock abasteceu (e sugou) o lado rebelde da juventude do final do anos 60: o movimento contra a guerra do Vietnã – dentro e fora do exército -.

Em maio de 1966. entrevistou Lennon. Foram maltratados e ainda houve o incidente com a Rainha Imelda Marcos. Quando a repórter Maureen Cleave. que teria marcado um encontro com a banda. 2001: 223). 2001: 219/220). Quando estiveram em Tóquio. Saíram às pressas do país. o vídeo pode ser enviado para emissoras de TV em todo o mundo: uma alternativa muito mais barata e eficaz de se promover um compacto. em 04 de julho de 1966. 2001: 223) No mundo todo. Hoje em dia os Beatles são maiores que Jesus Cristo.The Beatles – mito. Não estão fazendo o suficiente por Jesus. já que os próprios fãs tiveram . a Beatlemania começou a entrar em crise. com medo que a situação piorasse (GENESIS PUBLICATIONS. (NISSIM. as pessoas protestaram contra a polêmica declaração e contra os próprios Beatles – e Epstein convenceu John a pedir desculpas publicamente (WONFOR. Os fãs queimaram discos da banda em praça pública – o que só fez aumentar a venda de discos. havia protestos de alguma forma. (GENESIS PUBLICATIONS. ainda assim. todos no local se voltaram contra eles. Segundo. um templo religioso – era impróprio para tal acontecimento. os Beatles concordavam que a Igreja Anglicana estava perdendo fiéis e decaindo cada vez mais e que ela deveria refletir sobre suas opiniões quanto às mudanças pelas quais o mundo vinha passando (GENESIS PUBLICATIONS. um grupo de pessoas se manifestou alegando que o local onde iria ocorrer o show – o Budokan. em vez de mandar um artista numa volta ao mundo. alegando que os Beatles não se envolviam em política. o qual Brian recusou. produto e discurso 66 dinheiro e energia criativa são gastos para se fazer um vídeo do que em qualquer apresentação na TV. para quem falávamos as coisas na lata. eles têm de fazer mais”. a rainha continuou esperando-os. Por cada cidade em que passavam. Paul explica o que aconteceu na época: Se você ler o artigo inteiro. Com a ausência do grupo no encontro. 2002: 410) A Beatlemania tinha chegado num ponto insuportável. percebe que o que ele estava tentando dizer era algo em que todos nós acreditávamos: ‘Eu não sei o que está acontecendo com a Igreja. Naquela época. 2003). Mas. Mas ele cometeu o erro infeliz de falar muito abertamente porque Maureen era alguém que conhecíamos muito bem. do London Evening Standard. a conversa fluiu para o lado da religião e John afirmou que os Beatles eram mais populares que Jesus Cristo. Mas a pior situação ocorreu durante a passagem dos Beatles pelas Filipinas.

criaram seu próprio estilo. os Beatles conseguiram uma pequena folga: Ringo foi para a Espanha. por exemplo. que lançava os discos dos Beatles com menos canções do que os lançamentos britânicos. A folga gerou boatos sobre uma possível separação da banda (WONFOR. no Candlestick Park. produto e discurso 67 que comprar os que tinham jogado fora. Mais maduros e buscando melhorar a qualidade musical. Além disso. Sua integridade criativa. George foi para a Índia (ele estava cada vez mais envolvido com a música e com a religião indianas) e Paul assinou a trilha sonora do filme The Family Way. o que fez com que os Beatles deixassem de se apresentar ao vivo. incluindo principalmente singles que não foram lançados em álbuns. que estava no álbum Help!. 2003). Os Beatles se utilizaram dos fundamentos do rock clássico e. 2003). em San Francisco (WONFOR. A canção Yesterday. Assim. a famosa foto da capa da coletânea Yesterday and Today – onde os Beatles aparecem vestidos com aventais de açougueiros. como os próprios Beatles afirmam no DVD Anthology (2003). Em dezembro de 1966. John trabalhou como ator no filme How I Won the War. só foi lançada nos Estados Unidos nessa coletânea. abriram um caminho que expandiu continuamente as fronteiras do rock. e a música não tinha nada a ver com aquilo. de 1965. 2003: 149) Pela primeira vez em quatro anos. (FRIEDLANDER. Era um tipo de espetáculo circense: os Beatles eram o show. desafiaram a moral prevalecente e inauguraram uma época de criatividade e experimentação. ao lado de George Martin. o Revolver lançado pela Capitol tinha apenas duas. com . eles temiam pela própria segurança. O último show aconteceu em 29 de agosto 1966.” (GENESIS PUBLICATIONS. Outra razão para o lançamento dessa coletânea se refere principalmente à Capitol. Como declarou John Lennon: “A música não era ouvida. pela EMI na Inglaterra e pela Capitol nos Estados Unidos. os Beatles lançaram sua primeira coletânea de sucessos.The Beatles – mito. 2001: 229). A grande histeria dos fãs e os novos arranjos mais complexos prejudicavam o desempenho profissional dos quatro rapazes nos shows. Yesterday and Today. O álbum Revolver britânico tinha cinco composições de Lennon. que construíram o comportamento rebelde da década anterior. os Beatles agora faziam parte da juventude inconformada com o mundo: Os jovens dos anos 60. ao mesmo tempo. idealismo e espontaneidade colocaram o desafio para os principais críticos – levar a sério a forma e o conteúdo do rock.

sobre todo tipo de coisa estranha. os Beatles voltam ao estúdio para gravar um novo álbum. (GENESIS PUBLICATIONS. e depois gravamos ‘When I’m SixtyFour’ e ‘Penny Lane’. o surrealismo começou a tomar conta das músicas dos Beatles. . 2003: 129) Em novembro de 1966. A partir daí. (FRIEDLANDER. Nós não sabíamos que era Sgt. Penny Lane é uma rua de um bairro de Liverpool. mas naquela época era um aspecto de nossa tentativa de dar ao público valor pelo dinheiro. por onde os quatros integrantes dos Beatles também passaram durante toda a vida. produto e discurso 68 carne crua e pedaços de uma boneca espalhados por todo o cenário – foi uma forma de vingança contra a Capitol: Depois de os DJs americanos reclamarem da foto. Como esclarece Muggiati (1973: 61): “Depois de 1965. (GENESIS PUBLICATIONS. E. 2001: 237) Strawberry Fields é um orfanato que ficava próximo à casa que John morava em Liverpool quando criança. as músicas não ultrapassavam três minutos. Como conta George Martin: Nós começamos com ‘Strawberry Fields’. como relata Paul McCartney: O legal é que muitas das nossas músicas estavam começando a ficar um pouco mais surreais. Ele costumava ir lá sempre que queria pensar e ficar sozinho. George Martin explica: “Isto é absurdo hoje em dia. a Capitol gastou 200 mil dólares para trocá-la por uma foto diferente. E a partir daí. 2001: 239) Quando o rock and roll surgiu. Eram todas destinadas para o próximo álbum. o rock havia evoluído bastante para comportar.The Beatles – mito. 2001: 237) John compôs Strawberry Fields durante as filmagens de How I Won The War. foi idêntica. começando com o de Sargent Pepper’s Lonley Hearts Club Band pela Capitol. a maioria dos lançamentos britânicos e americanos. Eu lembro do John ter em casa um livro chamado ‘Bizarre’.” (GENESIS PUBLICATIONS. sem risco de tédio. As duas músicas foram os primeiros lançamentos do ano de 1967 e só não foram incluídas no álbum porque eles não costumavam incluir singles que já tivessem sido lançados em compactos. todo o espaço de um LP. eram lançadas primeiro em compactos e depois como uma das faixas do LP dos artistas. e ia haver músicas que não poderiam ser executadas ao vivo. Estávamos nos abrindo artisticamente e deixando as viseiras de lado. Pepper ainda – elas seriam apenas faixas para O Novo Álbum – mas era para ser um disco criado em estúdio.

Mas depois. Muggiati define o álbum como uma “arte aberta”. lançaram o LP primeiro e só depois pinçaram do álbum uma ou duas canções. o poder aquisitivo dos jovens (. 1973: 61). a coisa se inverteu: primeiro o LP.”. alguma coisa do tipo. os Beatles tinham mais tempo de pensar nas músicas que iriam fazer. E realmente. Comecei a pensar que o nome seria realmente louco para dar a uma banda. Agora.The Beatles – mito. e havia uma aura de badalação hippie em todos os EUA. sendo ponto de referência para muitos artistas até hoje. O curioso é que o resultado final é realmente de um álbum conceitual – aclamado por público e crítica – e os Beatles assumiram os personagens da fictícia banda quando se fantasiam com fardas coloridas para a capa do disco. sem nenhum preconceito ou hierarquia” (MUGGIATI. em 1967. digamos. Podiam se dar ao luxo. duas canções mais ‘massificáveis’ do LP para formar um compacto (MUGGIATI. É Paul quem conta sobre a idéia de se fazer o Sargent Pepper’s: Foi o começo da era hippie. . os Beatles. Levei a idéia para os caras em Londres: ‘Como estamos tentando nos livrar de nós mesmos – para sair das turnês e entrar em uma coisa mais surreal – que tal se a gente se tornasse uma banda alter ego.. Dois dias depois.. de maior agrado popular. gênero popularizado na época pelo grupo inglês The Who. que é lançado no dia 1o de junho de 1967. Jimi Hendrix tocou a música tema num show em Londres (WONFOR. depois. começaram a mudar o comércio da música no mundo do rock: Os Beatles subverteram de tal maneira o esquema rotineiro de comercialização que. A partir daí. Além disso. Na época. 2003). a banda alegou que desistiu da idéia e foram apenas compondo. aquela coisa toda de andar em carruagens pelo Velho Oeste. junto com Brian Epstein e George Martin. ‘Sargent Pepper’s Lonely Hearts’? (GENESIS PUBLICATIONS. com nomes longos e extravagantes. Tucker’s Medicinal Brew and Compound’. Sargent Pepper’s foi uma revolução na música do mundo inteiro. onde “o rock decidiu utilizar todos os recursos musicais a sua disposição. as duas primeiras músicas do álbum – Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band e With a Little Help From My Friends – seguem esta linha. lançando-as em compacto. naquele momento.) aumentou a ponto de favorecer o LP como médium principal. de serem mais artistas. produto e discurso 69 também. havia muitos grupos com nomes como ‘Laughing Joe and His Medicine Band’ ou ‘Col. com Sargent Pepper’s. sem ter que organizar turnês e estar se apresentando ao vivo quase todo dia. Juntei então essas palavras: Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band. 2001: 241) A idéia deles era fazer um álbum conceitual – um tipo de ópera-rock.

Vencido esse pudor inicial. mas se você divulgar a coisa toda ao público.’ Eu havia tomado umas quatro vezes naquela época e disse isso a ele.. foram os próprios Beatles que. Vou dizer a verdade. Aliás. Achei que foi razoável. então não será minha responsabilidade. os Beatles garantiam aos fãs que apenas uma faixa do LP empregava ‘truques de estúdio’.) A . Paul foi entrevistado por repórteres que apareceram na porta de sua casa e perguntaram: “É verdade que vocês tomam drogas?” e ele confirma. 2003). eu tomei LSD. mas. ou eu tento blefar ou vou contar a verdade pra ele’... Nas notas da contracapa do seu primeiro álbum. sim. Vou dar a eles a verdade’. (GENESIS PUBLICATIONS. George Martin. cantando All We Need Is Love. no dia 19 de junho de 1967. então não divulgue. Sua popularidade coincidiu com a grande expansão da tecnologia das comunicações. com o álbum Sargent Pepper’s. mas aquilo se tornou um grande tópico das notícias. Diz-se que “A Day in the Life” (a coda desta suíte psicodélica) nasceu quando o produtor e engenheiro de som dos Beatles. sua principal conseqüência. feita tradicionalmente através de instrumentos antigos e artesanais. O próprio Paul explica: Eles estavam na minha porta – eu não podia mandá-los embora – então pensei: ‘Bem. vestidos com roupas coloridas.. As músicas dos Beatles haviam se tornado musicalmente complexas. (MUGGIATI. foi realizada a primeira transmissão mundial via satélite ao vivo para 24 países dos 5 continentes do mundo e teve 400 milhões de espectadores na época (WONFOR.The Beatles – mito. através do LP. Mas se você tiver alguma preocupação quanto ao efeito da notícia sobre as crianças. outra de John Lennon. fizeram pela primeira vez um uso consciente e sistemático de todos os recursos que a gravação de estúdio oferecia. considerando que você está me perguntando. foi a criação do studio rock. por fazerem alusão às drogas.) Eu disse: ‘Vou contar para você. uma de Paul McCartney. juntou duas composições separadas. 2001: 255) No dia 25 de junho de 1967. rock-de-estúdio. produto e discurso 70 1973: 59). Não estou certo se desejo recomendar isso. Tomei uma decisão relâmpago: ‘Dane-se. O programa transmitido – Our World – contou com a participação dos Beatles. num cenário cheio de flores e corações – flower power. foram parte de um momento. como se diria na época – transmitindo uma mensagem de amor e paz para o planeta: Os Beatles. (. até então considerados uma ‘apelação’ pelos rockers. (. assim como Elvis. 1973: 65/66) As músicas A Day In The Life e Lucy In The Sky With Diamonds foram proibidas na BBC de Londres. No campo da música pop. iniciando a era do rock-de-estúdio: Um dos principais efeitos da eletrônica sobre a música foi revolucionar a própria dinâmica sonora.

. (FRIEDLANDER. um cruzamento de duas ruas em um bairro de San Franscisco. como qualquer vício. e os Beatles participavam dele e contribuíam com músicas. 2001: 254) – a onda hippie. famoso entre os hippies. as conexões com a filosofia oriental. os protestos pacíficos. sem deixar de fazer sucesso. ao mesmo tempo em que cada um buscava aprofundar seus talentos pessoais. 2003: 148/149) A partir deste momento. com ciganos maravilhosos. Nesse momento. Roszak diz que o uso de drogas. (GENESIS PUBLICATIONS. Não era o que eu pensava – o despertar espiritual e a prática artística – era como alcoolismo. pinturas e esculturas em pequenas oficinas. (. a capital do movimento hippie. Entretanto. produto e discurso 71 beatlemania se desenvolveu nos cinco continentes. que morava lá. o flower power. declarações e comportamentos.) Aquilo certamente me mostrou o que estava de fato acontecendo na cultura das drogas. Em agosto de 1967. fazendo obras de arte. Eu apenas poderia descrevê-la assim: um monte de vagabundos e desgarrados. o marketing e a subseqüente proliferação da cultura popular ocidental pelo mundo fizeram dos Beatles a força musical mais poderosa da história. Decidem passar por Haight-Ashbury. Devido à deificação da banda. como produto. 1967 foi declarado como o ‘verão do amor’ pela imprensa de todo o mundo (GENESIS PUBLICATIONS. assim como seu impacto significativo nas culturas britânica e americana. os quatro componentes ainda seriam de grande utilidade e mesmo o mito dos Beatles é até hoje re-contado e re-atualizado para que as pessoas continuem consumindo-o. George foi com sua mulher Pattie Boyd (que conheceu durante as filmagens de A Hard Day’s Night) para San Francisco. a revolução feminista. o movimento de ‘paz e amor’. muitos deles meninos bem jovens que caíam nas drogas e vinham de todos os lados do país para essa Meca do LSD. começa a ser contado o declínio dos Beatles (a morte do empresário Brian Epstein e o fracasso da loja da Apple) que levaria à ‘morte/separação’ do grupo dentro desta ‘história-mito’.. a liberação sexual e as drogas – o movimento de contracultura estava consolidado. George conta um pouco mais sobre a experiência: Fui lá esperando que fosse um lugar radiante. 2001: 259) George percebeu que não poderia continuar embarcando na psicodélica e perigosa viagem das drogas. atitudes. Mas estava cheio de meninos abandonados com a pele manchada e ligados em drogas e imediatamente compreendi a situação. a banda continuava a produzir. visitar a irmã de Pattie.The Beatles – mito. amplamente .

Eu tinha feito um pequeno progresso e então o Maharishi apareceu no momento em que eu desejava experimentar a meditação. inocência e liberdade? Em caso positivo. Paul e George entram em contato com Ringo e os quatro seguem para Bangor. E daí? Ter-se-ia realizado a revolução? Teríamos. no hotel Hilton. 1972: 180) George Harrison se enredou.. Afinal. produto e discurso 72 divulgado no movimento de contracultura. de repente. John. 2001: 260/261). como ele mesmo explica no DVD Anthology (2003). onde o Maharishi iria realizar outro seminário (GENESIS PUBLICATIONS.. então. uma sociedade de amor. que teríamos a dizer sobre a integridade do nosso organismo? Não seríamos obrigados a admitir que os técnicos behavioristas é que estavam com toda a razão? (ROSZAK.) E é claro que as principais companhias farmacêuticas também não perderiam tempo em distribuir LSD a todas as farmácias. Eles ficam encantados com a palestra e. demos uma entrevista coletiva dizendo que havíamos desistido das drogas. onde ele faria um seminário no final de semana. Maharishi Mahesh Yogi. mansidão. Não era realmente por causa do Maharishi. (. por um outro viés da contracultura: a filosofia oriental. Quando a palestra termina. de certa forma. (GENESIS PUBLICATIONS.The Beatles – mito. Para tanto. precisava de um ‘mantra’. George continua: Em Bangor. E no dia 24 de agosto daquele ano. uma espécie de guru indiano que estava espalhando sua filosofia pelo mundo. 2001: 262) O guru ainda teria muita influência no próximo álbum e na vida dos integrantes da banda. George chama Paul e John para o acompanharem e eles ficam muito bem impressionados com o Maharishi. Depois deste seminário. Mas o final de semana em Bangor foi interrompido por uma trágica notícia que abalaria não só a vida pessoal como o destino dos próprios . O beatle já tinha grande simpatia pelos instrumentos indianos e resolveu buscar o caminho da meditação. decidem substituir as drogas pela meditação transcendental. fez uma palestra em Londres. Vinha de meu desejo de ampliar a experiência da meditação. 2003) e o guru os convida para ir com ele para Gales. eu estava fazendo exercícios de ioga para aprender a tocar cítara. eles vão aos bastidores (como os próprios declaram. acaba desviando os jovens do seu propósito de criar uma sociedade diferente da sociedade “tecnocrática”: E se os defensores das drogas conseguissem que elas fossem legalizadas? Sem dúvida o comércio de maconha seria controlado imediatamente pelas grandes companhias de cigarros – o que sem dúvida seria melhor que deixá-lo nas mãos da Máfia. uma das coisas boas de ser um beatle é que não existem portas fechadas) (WONFOR.

Quando estávamos na trilha certa ou errada.. O que estávamos tentando fazer era vender todas as coisas de que gostávamos. (GENESIS PUBLICATIONS. Eles anunciaram que queriam apoiar novos talentos – e choveram fitas demo. nenhum dos quatro tinha mais poder sobre a banda do que o outro. 2001: 267) Entretanto. nenhum deles poderia tornar-se o empresário. Afora as roupas malucas e o material hippie flower-power. Eles criaram. Sabemos o que devemos e o que não devemos fazer. incenso e tudo o mais.. 2001: 268) A Apple era uma editora. Eu ainda gostaria de ter uma loja que vendesse coisas que valessem a pena.) Não temos a menor idéia se encontraremos um novo empresário. porque eles se diziam uma ‘democracia’ – não havia um líder.. O objetivo era diversificar o negócio. uma empresa que pertencia aos Beatles. E a meditação ajudou-os a superar o choque inicial de uma forma mais branda. já que depois que pararam de viajar. parece que eles não sabiam assim tão bem o que fazer. a Apple.. 2001: 270) Todos tinham idéias brilhantes. como conta George Harrison: A butique Apple começou como uma idéia excelente. (. por uma acidental overdose de soníferos e bebida. na verdade. houve rumores de que ele. Sempre estivemos no controle do que estávamos fazendo e agora teremos de fazer o que é preciso. mas ajudar jovens artistas. teria se suicidado. Mas os próprios Beatles não acreditaram na hipótese.) e venderíamos livros sobre coisas que nos interessavam.The Beatles – mito. e seu espírito sempre estará trabalhando conosco. mas ninguém sabia como colocá-las em prática. como .. gravadora e boutique – cuidava tudo que se relacionava ao grupo. (GENESIS PUBLICATIONS. bem como objetos espirituais. John declarou: Brian morreu apenas no corpo. ele sabia e nos dizia – normalmente tinha razão.. embora reconheçam que ele andava muito triste. finanças e negócios. (GENESIS PUBLICATIONS.) Eles a haviam organizado de forma que faríamos o mesmo que a Northern Songs – vender nós mesmos para nós mesmos”. produto e discurso 73 Beatles: a morte do empresário e amigo Brian Epstein. Brian não tinha muito o que fazer. Nenhum dos quatro entendia nada de administração. então. Sua energia e força eram tudo e perdurarão. deveríamos apoiar todos os tipos de música diferente (. poemas e roteiros na Apple. Na época. Segundo os próprios Beatles. no dia 27 de agosto de 1967. o principal objetivo da Apple não era ganhar muito dinheiro. John Lennon explica no livro Anthology: “ela foi concebida pelos Epsteins e pela NEMS antes de assumirmos (. George Martin mantinha com eles uma posição de diálogo apenas musical.

na Índia.) para ver se podemos efetivamente ter liberdade artística dentro de uma estrutura empresarial e se podemos criar coisas boas e vendê-las sem cobrar três vezes nosso o custo” (GENESIS PUBLICATIONS. produto e discurso 74 melhor explica Lennon: “(. Ringo e sua esposa Maureen não ficaram muito tempo – ele não agüentou a comida indiana e ela não se dava bem com os mosquitos. como James Taylor. era um filme colorido apresentado em preto e branco.The Beatles – mito. A Apple foi uma tentativa de integrar os dois lados desse paradoxo. The Fool on the Hill. se preferirem. 1995) criada especificamente pelos Beatles e pelo movimento de contracultura. embora o álbum tenha conseguido carreira melhor. eles descobriram que o Maharishi tinha tentado dormir com Mia Farrow (GENESIS PUBLICATIONS. que seria o White Album. Mas. Tinha uma imagem horrorosa e foi um desastre. entre outros famosos. utilizando o poder comercial dos Beatles para incentivar a criatividade tão valorizada na contracultura. paralelamente. Badfinger e Mary Hopkin. (GENESIS PUBLICATIONS. os Beatles decidiram passar algumas semanas com o Maharishi em Rishikesh. meditando e compondo muito para o próximo disco. Fizeram o filme e o álbum Magical Mistery Tour. porque não havia cor na BBC1 naquele tempo.. ainda beirando o surrealismo em músicas como I Am the Walrus. Eles mesmos dirigiram o filme. Todos diziam que era horroroso e pomposo. Ou seja. que acabou se revelando um fracasso na época. em algum momento houve a tentativa de colocar na realidade a “sociedade dentro da Indústria Cultural” (ROCHA. Alguns artistas foram efetivamente lançados pela empresa na época. definitivamente. Quando apareceu originalmente na televisão inglesa. John e George passaram alguns meses no local. 2001: 287). mas era uma espécie de vídeo de vanguarda. voltar a produzir. nenhum dos integrantes da banda tinha jeito com os negócios (WONFOR. 2003). Decidiram.. 2001: 274) Em fevereiro de 1968. entre outras. como o cantor Donovan e Mike Love. então. No entanto. 2001: 286) – que também estava em Rishikesh. dos BeachBoys – e outras . Isso reflete o paradoxo em que os Beatles se encontravam constantemente – eles estavam sempre entre a cultura de massa e a contracultura. lançado em 27 de novembro de 1967. George Martin fala sobre o assunto: ‘Magical Mistery Tour’ não foi realmente um sucesso – de fato isto é atenuar a coisa.

o filme foi lançado nos Estados Unidos e se tornou sucesso de público e crítica. se você é tão cósmico. Em 22 de novembro de 1968... em Londres (WONFOR. mas voltou depois de pedidos dos outros três beatles.The Beatles – mito. o novo filme dos Beatles. A gravação deste disco foi um tanto quanto conturbada – cada um queria impôr suas vontades. ninguém se sentia muito confortável e John passou a levar Yoko para todas as gravações dentro do estúdio – o que não agradou nenhum pouco os outros três Beatles. sempre presente nas gravações da banda. com a editora e a gravadora Apple. o White Album – que era um álbum duplo – foi lançado e chegou no topo das paradas nos Estados Unidos e na Inglaterra. John Lennon conta como foi avisar ao “guru”. seu desgraçado’. quando ele olhou pra mim. sabe por quê’. Eles simplesmente resolveram dar tudo ao público – cada um poderia entrar e sair com uma peça. que se mudou para a Saville Row. a boutique Apple fechou suas portas.uma metáfora do movimento de contracultura. relatando a experiência enganosa que tiveram. mas continuaram acreditando na meditação. O processo de separação da banda já tinha começado. E eu soube na hora. . tanto que All We Need Is Love foi incluída na trilha sonora. Ficaram. John então compôs a música Sexy Sadie. estreou em Londres. John Lennon já havia se separado da primeira mulher Cynthia e já estava com Yoko Ono. 2001: 285/286) Eles assumiram que erraram no julgamento quanto ao Maharishi. mais uma prova de que os Beatles não sabiam lidar com os negócios. então. Quatro meses depois. produto e discurso 75 mulheres que estavam por lá e decidiram ir embora. (GENESIS PUBLICATIONS. que eles estavam partindo: Eu disse: ‘Estamos indo embora’. Yellow Submarine – que Muggiati define como a “síntese audiovisual do rock” (1973: 64) -. do protesto contra a guerra e o desejo pela paz. E eu estava dizendo: ‘Você sabe por quê’. Porque todos os auxiliares dele estavam sempre sugerindo que ele fazia milagres. ‘Por quê?’ – ‘Bem. Ele me deu um olhar desses. Por volta desta época. que eu havia arrancado a sua máscara. 2003). Em 17 de julho de 1968.) E ele me lançou um olhar tipo ‘Eu mato você.(. Ringo Starr chegou mesmo a abandonar a banda durante algum tempo. Este filme foi um desenho animado dos Beatles lutando contra os Blue Meanies (que podem ser interpretados como o establishment) . No dia 31 de julho.

Depois da morte de Brian Epstein. problemas com a Nemsporor Holdings . criada em 1963. 2001: 297) Os Beatles começaram a se deparar com problemas financeirosadministrativos. o filho de John Lennon que estava sofrendo com a separação dos pais.The Beatles – mito. que tinha perdido sua mãe e passado uma parte de sua infância num orfanato. Lennon sentiu uma certa afinidade por este contador levemente gorducho. Klein garantiu que ele iria adquirir a NEMS para os Beatles sem custo. tentando consolar Julian. mas que não era comandada por eles . De fato. um homem que se fizera por si mesmo. eu cheguei a dizer: ‘Vocês não podem fazer um single tão longo assim’. Fui silenciado pelos rapazes – não pela primeira vez em minha vida – e John perguntou: ‘Por quê não?’. (GENESIS PUBLICATIONS. Hey Jude foi basicamente composição de Paul McCartney. empresa de Brian Epstein que administrava os negócios dos Bealtes. Ao mesmo tempo. sua futura esposa) para defender os direitos dos Beatles. Paul chamou o advogado americano Lee Eastman (pai de Linda. Ele disse: ‘Tocarão se formos nós’. Não consegui realmente pensar em uma boa resposta – exceto a patética de que os disc-jóqueis não a tocariam. Allen Klein (que tinha sido o primeiro empresário dos Rolling Stones). Paul preferiu Lee Eastman. sem contar nada a ninguém: . de forma que esta fosse adquirir 25 por cento dos royalties dos Beatles que pertenciam à NEMS. produto e discurso 76 Ainda em 1968. que tem aproximadamente 8 minutos. mas que também não estava nas mãos deles. seu irmão Clive ficou como seu sucessor na NEMS e propôs aos Beatles vendê-la para a empresa de investimentos Triumph Investment Trust.e com a Nothern Songs. John. até hoje é um sucesso. (FRIEDLANDER. Klein era o próprio batalhador. 2003: 141) No início de 1969. depois de cronometrá-la. George Martin comenta sobre ela: Gravamos ‘Hey Jude’ na Trident Studios. A NEMS acabou sendo perdida e as acusações começaram. ofereceu seus serviços a John: Enfatizando seu detalhado cálculo das finanças de John. Enquanto os Eastman eram figuras da alta sociedade. os Beatles lançaram o compacto Hey Jude / Revolution. Preocupado com o que pudesse acontecer. A canção. a editora das músicas do quarteto. E é claro que ele estava absolutamente certo. Era uma canção comprida. o ex-cantor Dick James – que era fundador da Northern Songs junto com Brian Epstein – vendeu mais de trinta e um por cento da sua parte na editora para o empresário Sir Lew Grade. O fechamento da loja da Apple. George e Ringo ficaram com Klein.a NEMS.

No entanto. em Londres. Paul se casou com Linda e John com Yoko. porque elas realmente não querem que todos saibam o quanto são maldosas. pela segunda vez na história recente. Então. ganhasse o controle da Northern Songs. (FRIEDLANDER.com a direção de Michael Lindsay-Hogg. Havia dúvidas quanto ao destino dos Beatles. uma boa surpresa surge no cenário. cuidar das suas coisas. Nasceu aí o projeto Get Back – que mais tarde se chamaria Let it Be . os Beatles se reuniram novamente. George Martin explica: . a ATV. os trinta por cento de participação que os Beatles tinham na Northern Songs se mostraram insuficientes para impedir que a empresa de Grade.) Billy foi para o piano elétrico e logo de saída houve uma melhora de 100% na vibração da sala. partiu de George: É curioso ver como as pessoas se comportam de maneira delicada quando entra um convidado. Mais um passo em direção à dissolução dos Beatles. produto e discurso 77 John descobriu ao ler sobre isto num jornal. O clima é um pouco amenizado quando eles chamaram o tecladista Billy Preston para participar das gravações. Cada um foi para um canto. os ensaios foram só desentendimentos entre os quatro integrantes da banda. mais uma vez.. com a idéia de fazer um disco ao vivo – músicas novas e os ensaios seriam todos filmados . Ainda restavam os problemas com orçamentos e a falta de empresários. O convite. Foi nessa época que Dick James vendeu sua parte na Northern Songs para o empresário Lew Grade. Paul tomou conhecimento sobre o assunto durante sua lua-de-mel nos Estados Unidos. (GENESIS PUBLICATIONS. que ainda se sentiam muito incomodados com a presença constante das câmeras. Em março de 1969. eles tocaram ao vivo no chamado Roof Top Concert – uma performance realizada no telhado dos estúdios de gravação da Apple.. 2003: 142) Em janeiro de 1969. Ter essa quinta pessoa foi o bastante para quebrar o gelo que havíamos criado entre nós. Mas.The Beatles – mito. 2001: 318) No dia 30 de janeiro. O grande show ao vivo nunca foi realizado e o projeto Let it Be foi engavetado.o que resultaria em um filme. filmando toda e qualquer discussão. (. cujo final seria um grande concerto ao vivo. na verdade. uma importante parte do império de negócios dos Beatles tinha sido vendida aos empresários do establishment. Depois dos meses de brigas internas e negociações.

se tornando o maior catalisador do amadurecimento da música rock. 2001: 337) Abbey Road foi gravado no estúdio homônimo – que tinha sediado a gravação da maioria dos álbuns de toda a carreira da banda . Durante esse período. sem saber exatamente se o grupo tinha terminado ou não. Vamos nos juntar novamente’. entre 1962 e 1970. em 1970. ultrapassava as vendas de todas as outras áreas de entretenimento. fiquei muito surpreso quando Paul me ligou e disse: ‘Vamos fazer outro disco – você gostaria de produzí-lo?’. Cada um dos Beatles ia seguindo com a vida. Minha resposta imediata foi: ‘Só se vocês me deixarem produzi-lo da maneira que costumávamos fazer’. 2003. Várias vezes. 2003: 147/148) 35 A indústria musical triplicou suas vendas entre 1960 e 1970 – de 600 milhões de dólares para 1. – ‘Inclusive John?’ – ‘Sim. John ameaçou dizer à imprensa que tinha saído da banda. O sucesso comercial dos Beatles assegurou a divulgação dessas idéias para o maior número de pessoas possível. Suponho que tenha sido porque todos achavam que seria o último. Os Beatles exploraram a criatividade. produzido por Phil Spector a partir das gravações dos ensaios realizados em janeiro do ano anterior. de verdade’. No dia 8 de maio. p. Ele disse: ‘Nós deixaremos. cada um tocava seus projetos pessoais. inclusive o cinema. 148) . Paul já preparando um disco solo.The Beatles – mito.5 por cento. Eles fizeram inovações musicais importantes e ajudaram a transformar a indústria musical. Eu pensava: ‘Que pena terminar desse jeito’. foi lançado e chegou em primeiro lugar nas paradas inglesas e americanas. Por isso.35 Os temas e as idéias contidas em suas canções refletiam a consciência não só dos membros da banda. (FRIEDLANDER. ao lado de velhos roqueiros como Chuck Berry e Jerry Lee Lewis. Foi um disco muito feliz. o rock evoluiu de suas raízes na era do rock clássico para a época de ouro do final dos anos 60 e começo dos 70. (FRIEDLANDER.66 bilhão de dólares. John realizando seus trabalhos com Yoko e participações como no Sweet Toronto Peace Festival. vamos fazê-lo. 2003): A banda que tinha se reunido em Hamburgo em 1960 acabou amargamente dez anos depois. mas os outros o convenciam a não fazê-lo. A venda de discos. produto e discurso 78 ‘Let it Be’ foi um disco tão infeliz (ainda que existam nele algumas canções excelentes) que eu realmente acreditei que era o fim dos Beatles. foram além dos limites.e lançado em 26 de setembro de 1969. Paralelamente. Paul McCartney declarou publicamente que deixou os Beatles. Aí eu disse: ‘Bem. Os percentuais de royalty dos Beatles cresceram de 3 por cento para 17. No dia 20. mas também da crescente contracultura da época. o disco Let it Be. (GENESIS PUBLICATIONS. Em 10 de abril de 1970. o filme homônimo estreou em Londres – e nenhum dos Beatles compareceu (WONFOR. deixando John furioso – já que seis meses antes o próprio Paul o tinha convencido a não deixar a banda. Supus que nunca mais trabalharia com eles de novo. se vocês realmente desejam. nós queremos’.

vocês têm apenas de continuar. Dificilmente há alguma que diga: ‘Vamos lá. quando percebeu que não podia competir com a “sociedade dentro da Indústria Cultural” (ROCHA. de John. ainda gravam discos com músicas inéditas e realizam turnês. GEORGE HARRISON (GENESIS PUBLICATIONS. Foi maravilhoso e acabou. Em seguida. Em 2004. aos 63 anos. serão analisadas as letras de músicas do grupo que trazem representações de consumo e como a tensão entre o próprio consumo e o movimento de contracultura foi retratado pelos Beatles. Em 8 de dezembro de 1980. Digam a todos para caírem fora. Ringo Starr. A contracultura também estava chegando a seu final. Abandonem seus pais. George Harrison faleceu de câncer no dia 29 de Novembro de 2001. caros amigos. compreensão.The Beatles – mito. O sonho acabou. Demos a eles um sentimento positivo de que havia um dia de sol adiante e que havia um tempo bom a ser mantido e que você é sua própria pessoa e que o governo não é dono de você. hoje com 65 anos. 2001: 356) Acho que demos esperança aos fãs dos Beatles. garotada. Seja como for. Eles compuseram – nós todos compusemos – sobre outras coisas. Paul participou do Rock in Rio Lisboa. produto e discurso 79 Durante a década de 1970. RINGO STARR (GENESIS PUBLICATIONS. 2001: 357) Éramos honestos e éramos honestos em relação à música. mas a mensagem básica dos Beatles foi o Amor. os Beatles eram uma coisa grandiosa. o ‘sonho’ está aqui representando muito mais do que o sonho dos Beatles. paz. 2001: 357) Todos têm este sonho maravilhoso de como era e jamais será assim. JOHN LENNON (GENESIS PUBLICATIONS. A história dos Beatles tal qual ela se apresenta como produto da cultura de massa foi aqui apresentada e incita o consumo até os dias de hoje. Fico muito contente porque a maioria das canções falava de amor. todos os ex-integrantes dos Beatles continuaram em carreiras solo. 35 anos depois que o grupo se desfez. porque nunca foi como todo mundo acha que foi. John Lennon foi assassinado em Nova York. 2001: 352) Quando Lennon diz que “o sonho acabou”. E por isso. PAUL MCCARTNEY (GENESIS PUBLICATIONS. e Paul McCartney. Havia um espírito bom por trás de tudo. Eles nunca mais se reuniram publicamente para tocar.. por um fã alucinado. Era positiva no amor. Havia esse tipo de mensagem em muitas de nossas canções. do qual me orgulho muito. 1995).. .’ É sempre ‘tudo que você precisa é de amor’ ou ‘dê uma chance à paz’. A música era positiva.

que ocorreu de forma bastante intensa na década de 1960. Outros temas se relacionam à vida cotidiana passando. serão destacadas as letras de músicas dos Beatles. ela também está incluída nesta análise. letras de música que falam sobre algum tipo de trabalho. 36 . A música Come together. estabelecendo com ela uma relação de mútua dependência durante um certo período. produtos midiáticos. / Didn't get to bed last night” a extinta empresa de aviação B. entre a “sociedade real” e a “sociedade dentro da Comunicação de Massa” (ROCHA. trabalho.A.C. ou seja. Por isso. O rock foi um dos combustíveis da contracultura. a noção de consumo foi ampliada e não se restringe aos atos de compra e venda.C.A. quando se fundiu com outra empresa de aviação. vida cotidiana e protestos contra o governo são aqui entendidos como parte do universo do consumo. A busca por letras de músicas que falassem especificamente de marcas de empresas resultou em apenas duas.O.The Beatles – mito. a British European para formar a British Airways. que atuou de 1939 a 1974. profissão. cita no verso “Flew in from Miami Beach B. Back in USSR e Come together36 não serão aqui analisadas por não constituírem uma quantidade significativa e por não utilizarem as marcas como tema principal. Temas como dinheiro. Sendo os Beatles um dos maiores ícones do rock – e também da música como um todo . cinema e carros. bens materiais. primeira faixa do álbum Abbey Road cita a Coca-cola no verso “He wear no shoeshine / He got toe jam football / He got monkey finger / He shoot Coca Cola”. Discurso Neste momento. Quando os Beatles fazem referência às suas próprias canções antigas em suas letras também entende-se isso como o consumo do produto Beatles explicitado em uma música.é importante observar como suas letras falavam de um movimento ‘contra-a- Back in USSR.O.2. 1995). Por exemplo. produto e discurso 80 4. foram selecionados para análise. compostas por Lennon e McCartney. de alguma forma pelo universo do consumo. primeira faixa do álbum The Beatles. se a letra de música fala sobre um casal que vive feliz e está planejando economizar para viajar nas férias. atentando para as representações de consumo nelas inseridas. O propósito desta análise é compreender que tipo de ‘sociedade’ a banda criou dentro de suas músicas e como esta “sociedade dos Beatles” se relacionava no contexto de tensão entre a “tecnocracia” e a contracultura.

The Beatles (ou White Album). Revolver. de 1966. Help! e Rubber Soul. Em seu livro Cenas da Vida Pós-Moderna: Intelectuais. utilizando-se exatamente desse sistema da “tecnocracia” e da expansão crescente da tecnologia dos meios de comunicação de massa. O que está sendo analisado como objeto nesta dissertação são as músicas dos Beatles que se incluem na discografia oficial. e como. Somos livremente sonhados pelas capas de revistas. Beatriz Sarlo observa que: A cultura sonha. ao mesmo tempo em que alimentavam cada vez mais o mercado: Um dos pontos mais complexos na discussão do rock é determinar onde acaba o ‘novo’ e onde começa – através de um mecanismo típico da sociedade de consumo – a ‘diluição’. de 1965. (MUGGIATI. essas músicas foram executadas em todo o mundo.). de 69. Nascida do protesto e da rebelião. Mas há também a contrapartida: ao absorver elementos da contracultura. e Let it be. a contracultura tende a ser assimilada pela cultura oficial. com alcance cada vez maior e mais intenso por todo o globo. (p. E quanto mais essas músicas eram ouvidas. Yellow submarine e Abbey Road. Os jovens da época foram sonhados por essa cultura rock juvenil e encontraram nela os seus desejos pessoais que eram universalizados através dos meios de comunicação de massa. ao mesmo tempo. 25) Esse “sonho da cultura” pode ser adaptado pelo mercado rock que se desenvolveu a partir da década de 1960. mais jovens simpatizavam com o movimento contracultura. a cultura oficial se deixa modificar (. somos sonhados por ícones da cultura. please me e With the Beatles.The Beatles – mito. o capitalismo e o industrialismo ocidentais). Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Magical Mistery Tour. pela publicidade. é importante delimitar o campo de estudo. mas que dependem dela para se fazer ouvir entre os jovens é o foco de nossa análise. produto e discurso 81 cultura’ oficial (a “tecnocracia”. cada vez mais rapidamente. como demonstram os muitos movimentos de vanguarda deste século. p. nessa trama tecida com desejos absolutamente comuns.. de 1970) e os singles lançados em compacto durante os anos de 1963 a 1970 (alguns foram incluídos em . pelos cartazes.. A hard day’s night e Beatles for sale. pela moda: cada um de nós encontra um fio que promete conduzir a algo profundamente pessoal. Arte e Videocultura na Argetina (2000). de 1967. 1964. 69) Antes de darmos início à análise. ou seja: 13 álbuns (Please. de 1963. Observar essa tensão entre músicas que falam ‘contra a cultura’. de 1968. 1973.

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coletâneas). Não está sendo delimitada a questão da autoria, ou seja: as músicas que serão analisadas não foram, todas elas, compostas pelos Beatles; algumas são de outros autores. Mas o que está sendo levando em consideração, dada a história do grupo, sabendo que eles nunca foram obrigados a gravar nada37, é a mensagem que eles transmitiram durante o tempo em que ficaram juntos. Segundo o critério de consumo que já explicado no início deste capítulo, 43 músicas foram aqui selecionadas, dentre as 218 gravadas pelos Beatles38. São elas: A day in the life; A hard day’s night; Act naturally; Baby, you’re a rich man; Being for the benefit of Mr. Kite; Birthday; Can’t buy me love; Doctor Robert; Drive my car; Eleanor Rigby; Glass onion; Good morning, good morning; Honey pie; I am the walrus; I’m down; Lady Madonna; Love you to; Lovely Rita; Magical Mistery Tour; Mean Mr. Mustard; Money; Mr. Postman; Norwegian wood; Ob-la-di, ob-la-da; Only a Northern song; Paperback writer; Penny Lane; Piggies; Revolution; Roll over Beethoven; Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band; Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band (reprise); She came in through the bathroom window; She’s leaving home; Taxman; The ballad of John and Yoko; Ticket to ride; Two of us; When I’m sixty-four; While my guitar gently weeps; Within you, without you; You never give me your money e; Your mother should know. Todas estão transcritas no anexo desta dissertação. Quatro dessas 43 músicas são de outros compositores, seis são de George Harrison e trinta e três de John Lennon e Paul McCartney. É importante frisar que a parceria Lennon e McCartney teve início antes dos Beatles alcançarem o sucesso. Os dois fizeram um acordo, nunca firmado oficialmente, de que eles assinariam suas músicas juntos, mesmo que a composição tivesse sido somente de um ou de outro, mesmo que um tivesse apenas ajudado o outro. Brian Epstein adorou a idéia, que passava uma sensação de união, já que a banda não tinha um líder.
Como vimos no capítulo anterior, os Beatles nunca foram obrigados, seja pela gravadora, pelo empresário Brian Epstein ou pelo produtor musical George Martin, a gravar nada que eles não quisessem. Um bom exemplo disso é a música How do you do it, composição de Mitch Murray, que os Beatles chegaram a gravar, mas não lançaram porque não achavam que tinha a marca deles. A canção alcançou o primeiro lugar na Inglaterra com o grupo Gerry and the Pacemakers (GENESIS PUBLICATIONS, 2002, p. 77). Portanto, o que está sendo levado em conta nesta dissertação são as letras compostas por eles – como uma mensagem direta – ou músicas de outras pessoas que eles tenham interpretado e lançado em sua discografia oficial – como uma mensagem indireta.
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Andreas Huyssen, autor abordado no primeiro capítulo dessa dissertação, alega que a abolição da dicotomia entre arte e vida é realizada pela cultura de massa. É ela que insere a arte no cotidiano das pessoas; é a pop art que absorve as manifestações da contracultura:

Ela (a pop art) também representava o beat e o rock, a arte em pôster, o culto às crianças e às flores e o ambiente da droga – sem dúvida valia para qualquer manifestação de ‘subcultura’ e underground. Em resumo, o Pop se tornou sinônimo do novo estilo de vida da geração mais jovem, um estilo que se revoltava contra a autoridade e buscava a libertação das normas da sociedade. Enquanto uma ‘euforia de emancipação’ se espalhava, principalmente entre os estudantes secundaristas e universitários, o Pop, em seu sentido mais geral, se amalgamou com as atividades públicas e políticas da esquerda anti-autoritária. (HUYSSEN, 1997: 94)

Assim, há uma correspondência entre a expansão da cultura de massa na década de 1960 - que integra a arte no cotidiano da vida - e o fato de o pop estar se aliando ao movimento de contracultura, constituindo um novo estilo de vida entre a juventude da época, como também observa Beatriz Sarlo (2000: 34):

O rock foi mais do que uma música; moveu-se desde o início com o impulso de uma contracultura que se espalhou pela vida cotidiana. O rock se identificou de modo extramusical: sustentada pela música, a cultura rock definiu os limites de um território onde houve mobilização, resistência e experimentação.

As representações de “vida cotidiana” constituem um tema recorrente nas músicas dos Beatles que abordam o consumo. Dentre elas, algumas destacam o jornal – seja ele explicitado na música, ou como forma de inspiração para esta, a partir de uma notícia. Foram selecionadas três músicas que abordam o jornal e a imprensa de maneiras diferentes, retratando alguma espécie de consumo: A day in the life e She’s leaving home, de Lennon e McCartney, do álbum Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band e The ballad of John and Yoko, dos mesmos autores (embora esta seja uma composição quase autobiográfica de Lennon), lançada em compacto em maio de 1969. As duas primeiras músicas foram compostas a partir de notícias de jornal, enquanto a terceira abastece a imprensa com notícias sobre a própria vida de Lennon.

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A lista completa das músicas está disponível <http://www.aboutthebeatles.com/misc_songindex.html>. Acesso no dia 4 jan. 2006.

em:

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A day in the life é uma junção de duas músicas – uma de Lennon, outra de McCartney, realizada pelo produtor musical George Martin, que contou com a participação de quarenta músicos das orquestras Sinfônica de Londres e Real Filarmônica (GOMES e PASTA, 2004, p.261) para fazer a ligação entre as duas diferentes músicas. A canção começa:

I read the news today, oh boy / about a luck man who made the grade / and though the news was rather sad / well I just had to laugh / I saw the photograph / He blew his mind out in a car / he didn’t notice that the lights have changed / a crowd of people stood and stared / they’d seen his face before. 39

Portanto, o próprio compositor explicita na letra que leu a notícia no jornal, e essa notícia se torna a própria música. E continua: “I saw a film today, oh boy / the English army had just won the war / a crowd of people turned away / but I just had to look / having read the book”
40

. E, além da referência cotidiana a uma

notícia de jornal, também há a referência cotidiana a um filme que ele viu hoje – e o cinema faz parte da cultura de massa, já integrada no dia-a-dia das pessoas naquela época. E da mesma forma, a última parte da música endossa: “I heard the news today, oh boy / four thousand holes in Blacburn, Lancashire / and though the holes were rather small / they had to count them all” 41. A parte da música inserida no meio pelo produtor George Martin é a composição de McCartney, que só exalta o cotidiano presente na canção:

Woke up, got out of bed / dragged a comb across my head / found my way downstairs and I drank a cup / and looking up, I notice I was late / Found my coat and grabbed my hat / made the bus in seconds flat / found my way upstairs and had a smoke / and somebody spoke and I went into a dream 42.

“Eu li as notícias de hoje / sobre um homem que tinha feito uma boa fortuna /e, apesar da notícia ser bem triste / eu simplesmente tive que rir /eu vi a fotografia. / Ele estourou seus miolos dentro do carro / não notou que o sinal tinha mudado. /Uma multidão de pessoas ficou parada olhando / elas tinham visto a cara dele antes”. 40 “Eu vi um filme hoje / o exército inglês tinha acabo de ganhar a guerra. / Uma multidão de pessoas foi embora / mas eu simplesmente tinha que ver o filme / porque já tinha lido o livro”. 41 “Eu ouvi as notícias de hoje / quatro mil buracos na estrada de Blackburn, em Lancashire. / E apesar dos buracos serem bem pequenos, eles tiveram que contar todos”. 42 “Acordei, saí da cama / passei um pente na cabeça. / Encontrei meu rumo descendo a escada e tomei uma xícara / olhei para cima e vi que estava atrasado. / Encontrei meu paletó, agarrei meu chapéu / alcancei o ônibus no segundo exato. / Encontrei meu rumo subindo a escada e dei uma fumada / alguém falou e eu entrei em um sonho”.

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você sabe o quanto pode ser difícil. Esse verso é cantado como se os pais da menina estivessem fazendo constatações quanto ao fato de ela ter fugido de casa. Mesclando o tema do feminismo com o tema da incompreensão dos pais em relação aos filhos nos anos 60 (e a incompreensão dos filhos em relação aos pais) e com o desejo por uma vida repleta de diversão e vazia de obrigações e responsabilidades. concluindo que os pais pensavam que poderiam resolver a vida dos jovens com o dinheiro. é “Fun is the one thing that money can’t buy” 43. é a faixa 6 do álbum Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band. mas esses jovens estavam buscando algo a mais do que isso. é a história de uma garota que foge de casa e o que os pais sentem quando descobrem o fato. o jornal é nesta música. associado ao cotidiano e é também material para a própria canção. A idéia da próxima música a ser analisada também partiu de uma notícia de jornal. A música The ballad of John and Yoko é quase toda uma autobiografia de John naquele momento: “Christ. Mas o verso que nos chama atenção aqui. O tema do feminismo está presente. melhor detalhada na primeira parte deste capítulo. que eles deram a ela tudo que o dinheiro podia comprar (“we gave her everything money could buy”) e terminam constatando exatamente que eles não puderam comprar pra ela diversão e que é isso que ela está buscando agora. que eles nunca pensaram neles mesmos (“we never thought of ourselves”). Ele estava falando de sua relação com Yoko. o que eles fizeram de errado (“what did we do that was wrong?”). da “Diversão é a única coisa que o dinheiro não pode comprar”. particularmente. She’s leaving home. de Lennon e McCartney. “Cristo.The Beatles – mito. Do jeito que as coisas estão indo. você sabe que não é fácil. junto com o abismo entre as gerações de pais e filhos na década de 1960 que. de 1967. foi um dos combustíveis para que o rock and roll – e depois o rock – se consolidasse. que eles deram a ela e sacrificaram a maior parte de suas vidas (“we gave her most of our lives / sacrificed most of our lives”). como já se assinalou no segundo capítulo desta dissertação. os Beatles fizeram uma música que abordasse esses questionamentos da contracultura. A música foi proibida nos Estados Unidos por evocar Cristo – basta lembrar a polêmica declaração de John em relação ao Cristianismo em 1966. eles vão me crucificar”. 44 43 . Perguntam-se porque ela teria feito isso. produto e discurso 85 Assim. you know it ain’t easy / You know how hard it can be / The way things are going / They’re gonna crucify me” 44.

quando a música foi lançada – Lennon compôs uma música sobre as coisas que abastecem a imprensa. inseridas no tema do cotidiano. 48 “Quando eu estiver mais velho. E continua: “Will you still need me / will you still feed me / When I’m sixty-four?” 49. que pretende economizar um pouco dinheiro para dias difíceis ao lado de sua amada Yoko. inclusive sobre as músicas que o grupo estava gravando. garrafa de vinho?”. if it’s not too dear / We shall scrimp and save / Grandchildren on your knee / Vera. McCartney descreve o cotidiano de um casal. o mesmo fez Paul McCartney nas músicas When I’m sixty-four (faixa 9 do álbum Sargent Pepper’s) e Two of us (faixa 1 do álbum Let it be). demonstrando isso através de representações de consumo. o rapaz continua: “Every summer we can rent a cottage / in the Isle of Wright. 49 “Você ainda precisará de mim / você ainda vai me alimentar / quando eu tiver sessenta e quatro anos?”. Ao mesmo tempo em que os Beatles podem ser totalmente ‘contra-a-cultura’. A primeira foi composta por Paul quando ele tinha 16 anos. no fim da música. dando palpites a todo momento. quando o rapaz se questiona: “When I get older. contando sua história com a esposa Yoko . eles podem também passar a imagem de 45 46 “Economizando para enfrentar possíveis tempos difíceis”. quando. Assim. perdendo meu cabelo / daqui a muitos anos / você ainda vai me mandar um cartão de dia dos namorados / comemoração de aniversário. O consumo aparece nessa música quando John se dirige à imprensa. seus problemas e conta como a própria imprensa já se tornou parte de seu cotidiano.The Beatles – mito. Como Lennon. fala: “The men from the press said we wish you sucess. produto e discurso 86 forma como a imprensa. Também de forma ligada ao cotidiano. os outros três beatles só o ajudaram a adaptá-la quando foi gravada para o LP Sargent Pepper’s. Como em The ballad of John and Yoko. it’s good to have the both of you back” 47. E se Lennon descreveu em sua balada com Yoko o cotidiano de uma relação. aos jornais. essas três músicas falam de duas relações diferentes com o jornal e a imprensa. “Doa suas roupas para caridade”. 47 “Os homens da imprensa disseram / ‘nós desejamos sucesso a vocês / é bom tê-los de volta’”. losing my hair / many years from now / Will you still be sendind me a Valentine / birthday greetings bottle of wine?”48. Prevendo o futuro. sobre sua própria vida.com quem tinha casado há dois meses. Chuck and Dave”50. os fãs e os outros três beatles encaravam o fato de ela estar sempre junto dele. McCartney também demonstra a mesma preocupação. e também nos versos: “Saving up money for a rainy day” 45 e “Giving up your clothes to charity” 46. .

Assim. onde o dinheiro – ou qualquer coisa que ele compre – era desprezado. que sonham em construir uma vida boa e confortável junto da amada e. de 1968. Scott. sempre repetia essa frase para Paul McCartney quando o encontrava. com quem ele iria se casar em breve. A canção conta a história do casal Desmond e Molly Jones (ela é cantora de uma boate durante a noite). ela começa a cantar / ob-la-di. faixa 4 do disco 1 do White Album. é outra canção que fala desse cotidiano da vida amorosa. mas não se importa de gastá-lo se é para fazê-la feliz: “Two of us riding nowhere / Spending someone’s hard earned pay” 51. / Estou feliz que é seu aniversário / feliz aniversário para você”. A próxima música a ser aqui analisada é Birthday. embora assinada por ambos. “Todo verão podemos alugar um chalé na Ilha de Wright / se não for muito caro. como Lennon fez em sua balada. ele morreu de pneumonia. mesmo que eles estivessem inseridos no contexto de contracultura. em ioruba. mas conta a vida de Paul e Linda. faixa 1 do disco 2 do White Album. 52 Obladi oblada.The Beatles – mito. produto e discurso 87 rapazes totalmente tradicionais. / Dizem que é seu aniversário / nós vamos nos divertir. também auto-biográfico. p. 297). não se incomodam em economizar dinheiro. nota-se que o fato de se presentear a amada. composição muito mais de Paul McCartney do que de John Lennon. é Ob-la-di. 54 “Você diz que é seu aniversário / é meu aniversário também. que tem uma relação feliz. a imigração deixou-o nu em uma sala durante duas horas. quer dizer a vida continua ou life goes on como diz o refrão da música (GOMES et PASTA. Jimmy Scott. em uma das suas viagens para a Inglaterra. Em determinada parte da música. com quem se leva uma vida amorosa feliz. Ob-la-da. / Nós deveremos economizar e poupar / Os netos no seu colo: Vera. seguindo a vida52. she begins to sing / Ob-la-di. No dia seguinte. A música descreve um aniversário: “You say it’s your birthday / It’s my birthday too – yeah / They say it’s your birthday / We’re gonna have a good time / I’m glad it’s your birthday / happy birthday to you” 50 54 . ob-la-da. 2004. Outra música dos Beatles que também se encaixa nesse cotidiano da vida amorosa. Notamos a mesma posição tradicionalista. o compositor conta que: “Desmond takes a trolley to the jewellers stores / buys a twenty carat golden ring / takes it back to Molly waiting at the door / and as he gives it to her. O músico nigeriano que tocava conga. a vida continua”. através de representações de consumo. é um ato considerado válido pelos Beatles. 53 “Desmond pega um bonde até as joalherias / compra um anel de ouro de 20 quilates / leva-o de volta para Molly. Two of us. para isso. Chuck and Dave”. 51 “Nós dois dirigindo para lugar nenhum / gastando o dinheiro que alguém trabalhou duro para receber”. do cara que economiza dinheiro para viver um futuro feliz ao lado da amada. que está o esperando na porta / Enquanto ele lhe dá o anel. . ob-la-da / life goes on” 53 .

para pedir para tocar uma gravação de rock and roll – o que já retrata uma forma de consumo da música que se destinava a consolidar um mercado jovem. ouví-la e tocá-la no dia do próprio aniversário. / It’s a rockin’ little record / I want my jockey to play / Roll over Beethoven / I gotta hear it again today / You know my temperature’s risin’ / and the jukebox’s blowin’ a fuse / My heart’s beating rhythm / And my soul keeps singing the blues / Roll over Beethoven / and tell Tchaikovsky the news55. que Adorno e Horkheimer consideraram em sua Dialética do Esclarecimento (1985) .”. as músicas dos Beatles e o circo – também são temas recorrentes nas letras selecionadas. de 1963 (essa música fazia parte do repertório da banda desde os tempos em que eles tocavam em Hamburgo e no Cavern Club).que abordamos no primeiro capítulo desta dissertação . no cotidiano da sua vida através dos meios de comunicação de massa (aqui representados pelo rádio.aqui representada pelo jovem deixando de lado compositores clássicos como Beethoven e Tchaikovsky (considerados membros da alta arte) e assumindo o rock and roll como a música que ele quer ouvir. nenhum dos beatles lembra se a música foi composta em homenagem ao aniversário de alguém e que: “Paul compôs a música no piano do estúdio. A sessão começou às cinco da tarde e a música nem existia. para que as pessoas pudessem cantá-la.J. Beethoven / tenho que ouvir a música de novo hoje. As músicas que trazem representações de “produtos midiáticos” – cinema. pode-se supor que. / É uma gravação de rock / que eu quero que ele toque / sai pra lá. de Chuck Berry. / Você sabe que minha temperatura está subindo / e a jukebox está queimando / meu coração bate no ritmo e / 55 . como estavam surgindo muitos produtos que levavam a marca The Beatles. pelo disc jockey e “Vou escrever uma cartinha / enviar para o meu DJ local. Assim. gonna write a little letter / gonna mail it to my local D. Roll Over Beethoven. de fato. eles poderiam estar querendo fazer uma música comercial de aniversário.The Beatles – mito. a música que está presente. Às cinco da manhã estava pronta. produto e discurso 88 Segundo Elaine Gomes e Leda Pasta (2004: 323). Observa-se que o jovem está escrevendo uma carta para o DJ de sua cidade. gravada no álbum With the Beatles. o próprio rock and roll. fala sobre a febre do rock and roll e traduz a ânsia dos jovens por consumir a nova música: Well. Destacase também a separação entre a “alta” e a “baixa” artes.

No verso “my heart’s beatin’ rhythm” (meu coração batendo no ritmo).. Não era representação. os Beatles entraram no mundo do cinema. Help!. Em 1964. vamos esquecer as falas e fazer qualquer coisa. onde ele. Interessante observar também como o compositor interliga o rock and roll ao rhythm and blues. a música que os jovens queriam ouvir nunca iria parar: bastava consumí-la. Muitos gostaram de sua cena em A hard day’s night. Dick Lester esperava lá com todo o pessoal e um menino que faria a cena comigo. (GENESIS PUBLICATIONS.The Beatles – mito. mas eu não tinha cabeça para isso. produto e discurso 89 pela pneumonia de rock. realizando seu primeiro filme A hard day’s night. que teve a direção de Richard Lester. quando a letra fala que: “I got a rockin’ pneumonia / I need a shot of rhythm and blues”56). que faz parte de sua origem. O próprio Ringo explica: Fui para as filmagens direto de uma balada noturna e estava com ressaca. e foi o que fizemos. Estava acabado. era como eu me sentia mesmo. Tentaram com o menino dizendo suas falas e alguém. embora os quatro tivessem interpretados a si mesmos em ambos os filmes. o rock and roll como componente da cultura de massa é exaltado aqui nessa canção através do consumo de música rock and roll pelo rádio. Beethoven. enquanto o mercado estiver abastecido pelo consumo. fora das câmeras. / Sai pra lá. / e conte as novidades para Tchaikovsky”. pela compra de discos. anda solitário pela beira de um rio.’ Então eu sugeri: ‘Vou andar um pouco e você filma’. . também tem seu status elevado quando é escolhido em detrimento de compositores clássicos (Beethoven e Tchaikovsky). 57 “Enquanto ela tiver uma moeda / a música nunca vai parar”. Assim. Em um dos últimos versos da canção. Eu estava tão ‘fora’ que eles disseram: ‘Bom. de certa forma. “and my soul keeps singing the blues” (e minha alma continua cantando blues). 2001: 129) minha alma continua cantando blues. o compositor explica: “Long as she’s got a dime / the music will never stop” 57.. Então. depois de ter brigado com os outros três beatles. Tentamos filmar de várias formas. percebemos que um dos ritmos que deu forma ao rock and roll é. 56 “Eu estou com a pneumonia do rock / Preciso de uma injeção de rhythm and blues”. lançado em 1965. Ele foi também diretor do segundo filme da banda. gritando as minhas. Ringo Starr foi o beatle que mais mereceu elogios como ator. É por isso que pareço tão distraído e solitário. para dizer o mínimo. Outra representação de consumo importante nos tempos de rock and roll também aparece nesta música: a jukebox. homenageado na canção.

a personagem de Drive my car conta que: “I wanna be famous / a star on the screen” 61. / O cinema vai fazer de mim um grande astro / porque eu sei interpretar tão bem o meu papel”. Nos anos 60. 61 “Quero ser famosa / uma estrela nas telas”. nunca se sabe. 59 “Eles vão me colocar no cinema / vão fazer de mim um grande astro. A gravação original é de Buck Owens. eu aposto com você que serei um grande astro / posso até ganhar o Oscar. até hoje. temos a exata noção de que é sobre isso que ele está falando. Por isso.The Beatles – mito. embora ainda não saiba bem como. Ringo interpreta uma canção que adquire um significado a mais pelo fato de ser ele quem está cantando: a música é sobre um cara triste e solitário que é escalado para fazer um papel em um filme de um cara triste e solitário. / Bem. estudados no primeiro capítulo desta dissertação. no entanto. segundo Morin. produto e discurso 90 Assim. interpretar a ele mesmo. A personagem da música quer ser uma estrela de cinema. 58 . muitos sonham em ser estrelas de cinema ou astros de rock somente por causa da fama e do dinheiro que isso pode trazer – e é isso que vai permití-los serem iguais às celebridades que eles tanto veneram60. Assim. a ambição em ser uma estrela de cinema é fato que notamos na música Drive my car. e por isso tudo que ele tem que fazer é agir naturalmente. a incrível expansão dos meios de comunicação de massa e o crescente desenvolvimento acelerado das novas tecnologias começavam a fazer com que as pessoas desejassem estar participando ativamente – e não apenas como espectadores – daquele mundo dentro da indústria cultural. E que ele pode até ganhar um Oscar (sempre pensando na fama e no dinheiro que o cinema pode trazer a um ator) e que. A canção descreve: They’re gonna put me in the movies / they’re gonna make a big star out of me / we’ll make a film about a man that’s sad and lonely / And all I gotta do is act naturally / We’ll I bet you I’m gonna be a big star / Might win a Oscar. Da mesma maneira. / Vamos fazer um filme sobre um homem que é triste e solitário / e tudo que eu tenho que fazer é agir naturalmente. 60 Lembremos dos processos de projeção e de identificação dos quais a cultura de massa se uitliza. Ringo gravou a música Act naturally. para a trilha sonora do segundo filme. Quando sabemos o que Ringo Starr passou para filmar a cena citada acima no filme A hard day’s night. de Johnny Russel e Voni Morrison58. tudo que ele tem que fazer é agir naturalmente. em 1963. you can never tell / The movies gonna make me a big star / ´Cause I can play my part so well59. Por isso. Russel era um escritor famoso de música country.

que deixou a Inglaterra para se tornar uma estrela de cinema nos Estados Unidos. 63 Na tradução literal. Quis uma música para cantar como um crooner. exatamente do jeito que McCartney planejou. faixa 5 do álbum Magical Mistery Tour. uma reunião familiar realizada através do hit – que. 64 “Vamos nos levantar e dançar uma canção que foi um hit / antes de sua mãe nascer”. que ele adorava. que seria um apelido carinhoso para a namorada. agora uma estrela famosa. muitas canções são feitas por jovens. Your mother should know é um convite aos jovens para que eles ouçam o que seus pais têm a dizer. já fazia sucesso muito tempo antes que os pais do jovem tivessem nascido. Portanto. Uma outra composição de Lennon e McCartney. como já assinalamos nesta dissertação. de 1967.The Beatles – mito. mesmo que isso tivesse acontecido há muito tempo atrás. segundo a música. 62 “Venha e me mostre a magia da sua canção de Hollywood / você se tornou uma lenda nas grandes telas / e que agora só de pensar em encontrá-la / sinto fraquejar os joelhos”. faixa 9 do disco 2 do White Album. Na década de 1960. Cresceu ouvindo show de radio e adorava Fred Astaire cantando Cheek to cheek em seus disco de 78 rotações. que eram as músicas existentes antes da II Guerra Mundial. Entretanto. “torta de mel”. utiliza o hit como uma representação de consumo ligado à cultura de massa e convoca todos os presentes a se “Let’s get up and dance to a song that was a hit / before you mother was born”64. Your mother should know. volte para casa e para os braços dele. O compositor pede que sua garota.que se torna o agregador de pais e filhos. como um crooner. . produto e discurso 91 A imagem de estrela de cinema também aparece na música Honey pie. de forma bastante cotidiana. A canção traz um clima de musicais da Broadway. . era difícil que os filhos pudessem compreender seus pais e vice-versa. volte para casa: “Come and show me the magic of your Hollywood song / You became a legend on the silver screen / and now the thought of meeting you / makes me weak in the knee” 62. essa música também aborda aspectos da cultura de massa e ainda traz a musicalidade das canções da Broadway. composição de Lennon e McCartney. Por isso. dentro de um álbum tão diverso como o White Album. E tudo que o compositor quer é que sua honey pie63. Gomes e Pasta explicam (2004: 337): Mais uma homenagem de Paul ao ‘vaudeville’. o teatro de revista do começo do século. para jovens e carregam mensagens na forma e no conteúdo incompreensíveis para uma geração de pais que cresceu ouvindo as letras de amor romântico.

Magical Mistery Tour (composição de Lennon e McCartney. no show/álbum Sgt.. produto e discurso 92 As duas próximas músicas a serem analisadas são. segue essa idéia de ser um álbum conceitual.. como se o álbum realmente fosse um show da banda alter-ego dos Beatles. retrata os produtos midiáticos – os 65 “Esperamos que vocês tenham gostado do show / (. Pepper e sua banda. a penúltima música . Pepper é conhecido como o primeiro disco conceitual. Pepper é representada por A day in the life.)” (GENESIS PUBLICATIONS. mas funciona porque dissemos que funcionava (.. mas ele não chega a lugar nenhum. como foi observado agora com as duas versões de Sargent Pepper’s e com o próprio conceito do álbum.Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise). eles agradecem ao público antes de tocar a última música que. Entretanto.Good morning. 2001: 241).. quase uma só: Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band – a faixa 1 do álbum homônimo – e Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band (reprise) – faixa 12 do mesmo álbum.. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Reprise) e A day in the life – percebe-se que uma emenda na outra. good morning. A idéia era que os Beatles assumissem a personalidade da banda título do novo trabalho e cada um ganhasse novos nomes que não os seus originais. Embora a idéia não tenha sido finalizada (apenas as duas primeiras músicas do álbum se encaixam no conceito Sgt. prestando atenção nas três últimas faixas do disco .. a segunda faixa do álbum é With a little help from my friends.) / We’d like to thank you once again” 65.. Pepper’s). Todas as minhas contribuições para o disco não têm absolutamente nada a ver com esta idéia de Sgt. até hoje Sargent Pepper’s é considerado um disco conceitual pela grande maioria dos fãs dos Beatles. É importante ressaltar a partir deste ponto como o próprio cotidiano da banda – shows. que começa sendo um álbum conceitual.The Beatles – mito. Mas a idéia não funciona daí pra frente. mas é hora de ir embora / (. John explica: “Sgt. pois é nela que a banda fictícia agradece a presença do público: “We hope you have enjoyed the show / (. Sgt. através de efeitos de estúdio.) / Gostaríamos de agradecê-los novamente”. Assim. como nos shows que os próprios Beatles realizavam..) Lamentamos. na verdade. Assim.. E. . que o vocalista Billy Shears (Ringo Starr) cantaria para dar início ao show / álbum.. que é homônima ao terceiro filme dos Beatles). fãs e até mesmo as próprias músicas dos Beatles – passam a ser objeto de tema das canções.) / We’re sorry but it’s time to go / (.

as senhoras e senhores embarcavam numa excursão-surpresa. em fevereiro de 1843. que comprou em um antiquário um cartaz vitoriano que anunciava uma apresentação do Circus Royal de Pablo Fanques. faixa 13 do álbum Abbey Road. 2004: 249). através de representações de consumo. elas foram emendadas no estúdio. que entrou pela janela do banheiro da casa de Paul McCartney e abriu a porta da frente para que outras fãs também entrassem. com as lembranças dos parques de diversões infantis. produto e discurso 93 passeios e o próprio filme. como explicam Gomes e Pasta (2004: 269): Os Mistery Tour (Passeios Mistério) existiam de fato. o chamado era para outra viagem. A canção conta a história de uma fã. A partir daí surgiu a idéia para a música. novamente. cuja principal atração era um tal de Mr. Kite. Apesar de estarem em faixas separadas. (GOMES e PASTA. a da maconha. . o ônibus colorido que aparece no filme Magical Mistery Tour promete. Como contam Gomes e Pasta (2004: 389): “Antes de serem postas para fora. levar o passageiro para longe dali e dá garantia de satisfação (“satisfaction guaranteed”). Assim. Quando a dupla compôs essa música. uma outra sociedade bem longe. faixa 7 do mesmo disco. a letra foi praticamente toda copiada do cartaz. sem saber aonde o ônibus ia. como acontece com outras músicas no mesmo álbum. os Beatles estão falando da própria cultura de massa como diversão e entretenimento nas letras de suas músicas. Diane Ashley. Para toda a juventude.The Beatles – mito. composição de Lennon e McCartney. que foi gravada junto com a música anterior Polythene Pam. de 1969. O mesmo pode ser observado na canção She came in through the bathroom window. Um artifício dos Beatles para falar aos jovens da década de 1960 do mundo das drogas. E. Para quem ainda não tinha entendido a mensagem. pensando em construir uma sociedade diferente daquela que ali se apresentava. falando de um passeio. convocações para um passeio. como a música. Os apregoadores diziam ‘Roll up!’ (Vamos!). convocando os turistas. que se aproximasse do movimento de contracultura. também de Lennon e McCartney. veio de Lennon. que é sobre um passeio. A idéia de Being for the benefit of Mr. Assim. a expressão já era uma gíria para ‘enrole um baseado’. Durante toda a música se repete a frase de duplo sentido. elas remexeram em tudo e furtaram coisas. Kite. como souvenirs”. citando expressões como make a reservation (faça uma reserva).

O compositor se utiliza de um título de sua própria música Lucy in the sky with diamonds. eu estava escrevendo de modo vago. O próprio Lennon justifica: “Naquele tempo. 72 Faixa 2 do álbum Magical Mistery Tour. mas dando a impressão de algo. se referem à músicas dos próprios Beatles.The Beatles – mito. mas Lennon negou a história durante toda a vida). de 1967. em março de 1968. com imagens estranhas como egg-man66 e walrus67. nunca dizendo o que pretendia. de Lewis Carrol. A letra. 67 66 . 70 Faixa 6 do álbum Magical Mistery Tour. I am the walrus70. na qual os artistas de rock estão enveredados. produto e discurso 94 utilizando-se de temas que estão presentes no cotidiano dos Beatles e que fazem parte da cultura de massa. Mas o que nos convém observar aqui é o trecho da música em que Lennon descreve: “Mr. A primeira delas é I am the walrus (faixa 6 do álbum Magical Mistery Tour). / Estou chorando”. influenciam pessoas que fazem música. Durante a canção há cinco referências a músicas anteriores dos Beatles: Strawberry fields69. pequeno policial bonitinho em uma fila / veja como eles voam. anterior a Magical Mistery Tour – que também foi proibida na rádio BBC de Londres por causa de seu título. Lady Madonna71. em especial. / Veja como eles correm. Eles mesmos já se viam como formadores de opinião de uma juventude ocidental e já sentiam a liberdade de citar a si mesmos em suas músicas. Duas músicas. 71 Lançada em compacto. que está em Alice no país das maravilhas. policial sentado. 2001: 273). A canção foi proibida na rádio britânica BBC por causa do verso “you let your knickers down” ou “você deixou sua lingerie descer”. cujas iniciais são LSD (imaginava-se que tivesse algo a ver com o ácido lisérgico. à la Dylan. The fool on the hill72 e “Homem-ovo” “Morsa” 68 “Senhor Cidade. faixa 3 do álbum Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band. faixa 3 do disco 1 do White Album. de 1968. como Lucy no céu. 2001: 273). até os dias de hoje. 69 Lançada em fevereiro de 1967 em um compacto junto com a canção Penny Lane. A canção é um tanto quanto surreal. O fato é que os Beatles já tinham se firmado como astros do rock e. embora os dois a tenham assinado. segundo John (GENESIS PUBLICATIONS. onde se pode ler mais ou menos. Podemos observar isso melhor na música Glass onion.” (GENESIS PUBLICATIONS. City policeman sitting pretty little policeman in a row / see how they fly like Lucy in the sky / see how they run / I’m crying – I’m crying I’m crying” 68. composição que leva mais o crédito de Lennon do que de McCartney. também de Lennon e McCartney. foi inspirada no poema The Walrus and the Carpenter.

mas tanto esforço nesse dia difícil é recompensado quando ele chega à noite em casa e encontra aconchego ao lado de seu amor. Então. pelo viés da contracultura. A letra fala de um dia de muito trabalho. “Você sabe que trabalho o dia inteiro / para conseguir dinheiro para comprar coisas para você / E vale a pena apenas ouvir você dizer / que me dará tudo”. As representações de “trabalho e profissões” nas letras dos Beatles aqui selecionadas aparecem de diversas maneiras: inseridas no cotidiano. 2001. A canção. já há uma certa oposição à cultura dominante. que era a cultura do trabalho. 75 “Por quê eu deveria me queixar? / Porque quando nós estamos sozinhos / você sabe que me sinto bem”. o rapaz já está cansado e não vê a hora de voltar para casa. como algo entediante e desnecessário. O título – uma das expressões cômicas e esquisitas de Ringo Starr – significa “a noite de um dia difícil” (GENESIS PUBLICATIONS. segundo Lennon (GENESIS PUBLICATIONS. produto e discurso 95 Fixing a hole73. Mas essa música ainda não se encaixa na categoria contracultura. como uma forma de se alcançar a amada ou. onde tudo parece estar bem. com imagens jogadas sem qualquer conexão umas com as outras. Faixa 5 do álbum Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band. a partir do momento em que ele associa tais imagens a músicas anteriores dos Beatles. do esforço para conseguir ganhar mais e mais dinheiro e assim comprar as coisas das quais a família precisa e/ou deseja. 74 73 . de Lennon e McCartney. dirigido por Richard Lester. em 1964. para os braços de sua amada. 129). Nesta música. P. De maneira sutil. A hard day’s night. eles continuam: “So why on earth shoul I moan / ‘cos when I get you alone / you know I feel okay” 75. entretanto.The Beatles – mito. pois já estavam familiarizadas com a sociedade dos Beatles. 2001: 206) segue a mesma forma de I am the walrus. porque o amor que o rapaz recebe compensa qualquer trabalho árduo que ele possa ter tido durante o dia. observamos a oposição trabalho X lar. Os compositores assim justificam o por quê de tanto trabalho: “you know I work all day / to get you money to buy you things / and it’s worth it just to hear you say / you’re gonna give me everything”74. os ouvintes que acompanhavam a carreira da banda já tinham alguma base para tentar entender o que ele estava querendo dizer. está no terceiro álbum da banda e também é o título do primeiro filme.

trazendo uma relação entre cotidiano e amor adolescente. A representação da profissão de ‘carteiro’ também está presente nas letras de músicas cantadas pelos Beatles. dos compositores Dobbin. acrescentando aos vocais predominantes uma batida mais própria do rock and roll. Garret. 76 . em 1961. Supõe-se. gravações. Garman e Brianbert. traz o cotidiano do trabalho em um tema urbano e recorrente na literatura desde o crescimento das grandes cidades: a solidão no meio da multidão. típicos da primeira fase do rock and roll (de meados da década de 1950 até. foi gravada pela primeira vez pelo grupo The Marvelettes. Postman – que verifique se não chegou nenhuma carta. Era uma das músicas que os Beatles tocavam nos clubs noturnos de Hamburgo. Quando a história do padre começa a ser contada: “Father McKenzie / writing the words of a sermon that no one will hear / No one comes near / Look at him working / darning his “Todas as pessoas solitárias / de onde todas elas vêm? / Todas as pessoas solitárias / a que lugar todas elas pertencem?”. utilizando as guitarras de forma diferente. No filme. aproximadamente. os Beatles interpretam eles mesmos. Eleanor Rigby. ao final do dia – ou ao final do filme – viria a “noite de um dia difícil”. o que faz o próprio ouvinte indagar se ele próprio também não está sozinho no meio da multidão. compensado pelo dinheiro que se ganha para satisfazer os próprios desejos e os desejos da amada. A música. conta a história de dois personagens: Eleanor Rigby – entendida como uma solteirona que vive sozinha – e o padre McKenzie. entrevistas. A música pede ao carteiro – Mr.Postman. faixa 2 do álbum Revolver. 1960). também um solitário. apresentações em programas de televisão. fãs alucinadas. composição de Lennon e McCartney. assim que. pois o compositor está esperando uma carta dizendo que seu amor está retornando para casa. Please Mr.The Beatles – mito. utilizando seus nomes verdadeiros e vivendo uma rotina estressante de shows. mais de Paul McCartney do que de John Lennon. produto e discurso 96 É importante também observar o que esta música tem a dizer a partir do momento em que ela é homônima ao título do primeiro filme dos Beatles. O refrão: “All the lonely people / Where do they all come from? / All the lonely people / Where do they all belong?” 76 vem exatamente depois de o compositor contar um pouco da história de cada um dos dois personagens solitários. pertencente à gravadora Motown.

Penny Lane – que poderia ser traduzida como “Avenida dos centavos” – é também o título de uma canção dos Beatles.The Beatles – mito. pois ela agora é famosa. lançado em fevereiro de 1967. / E se ela pudesse apenas me ouvir / eis o que eu falaria”. que já foi analisada acima por se referir ao cinema.) / in Penny Lane there is a fireman with an hourglass / and in his pocket is a portrait of the Queen / he likes to keep his fire engine clean / it’s a clean machine / (. o banqueiro com um carro. A canção descreve as lojas que realmente existiam em Penny Lane: o barbeiro. 78 “Ela era uma trabalhadora / operária do norte da Inglaterra.. dos musicais da Broadway e até mesmo do próprio rock and roll.. uma música que também trazia recordações de Liverpool). the barber shaves another costumer.) / behind the shelter in the middle of a roundabout / the pretty nurse is selling poppies from a tray / And though she feels as if she’s in a play / she is anyway / In Penny Lane. com o advento do cinema. / Ninguém chega perto. A música Honey pie. Ao analisar este trecho da música. lançada no lado B de um compacto (cujo lado A era Strawberry Fields Forever. Nota-se aqui a oposição entre a trabalhadora da Inglaterra e a estrela dos Estados Unidos. we see the banker sitting waiting for a trim / and then the fireman rushes in / from the pouring rain – very strange. 77 . quase surreal. tem-se a impressão de que a garota que largou o trabalho de operária na Inglaterra para se tornar uma estrela de cinema nos Estados Unidos não dá mais atenção ao namorado que deixou em seu país natal. como conta Paul McCartney.. o bombeiro que guarda o retrato da Rainha. / Com o que ele se importa?”. / Veja-o trabalhando / cerzindo suas meias à noite. / Agora ela faz sucesso / nos Estados Unidos. quando ninguém está lá. escrevendo as palavras de um sermão que ninguém vai ouvir. já que foi neste país que a cultura de massa nasceu. produto e discurso 97 socks in the night / when there’s nobody there / What does he care?” 77 observa-se a representação do tema do trabalho para exemplificar a trajetória solitária do personagem da música. fala também sobre trabalho: “She was a working girl / North of England way / And now she’s hit the big time / in the USA / And if she could only hear me / this is what I’d say”78. A cidade onde os Beatles nasceram e cresceram aparece em forma de representação de consumo.. a enfermeira79 – mas todas essas lembranças são colocadas na canção de forma muito obscura. 79 In Penny Lane there is a barber showing photographs / of every had he’s had the pleasure to know / and all the people that come and go / stop and say hello / On the corner is a banker with a motocar / the little children laugh at him behind his back / And the banker never wears a mac / in the pouring rain – very strange / (. no livro Antologia (2001: 237): “Padre McKenzie.

fala da personagem.e trabalhar dentro de casa. começaram a ingressar no mercado de trabalho já durante a II Guerra Mundial. que. Nessa 80 “Penny Lane está nos meus ouvidos e nos meus olhos / lá. lady Madonna. produto e discurso 98 A letra era inteira baseada em coisas reais. tinha fotos dos cortes de cabelo que você podia escolher. As mulheres das classes mais baixas. que levam uma vida próxima da escravidão”. através do tema do trabalho e das diversas profissões que preenchiam o comércio de Penny Lane. Como Elaine Gomes e Leda Pasta ressaltam (2004: 279): “Sobre a letra. o feminismo das classes média e alta só começou quando elas sentiram necessidade de entrar no mercado de trabalho. Um barbeiro mostrando fotografias. Tinha um barbeiro que se chamava Bioletti. composição de Lennon e McCartney. Lady Madonna. na correria do dia-a-dia. mas ouvimos que: “Lady Madonna children at your feet / Wonder how you manage to make ends meet / Who finds the money when you pay the rent / Did you think that money was heaven sent?”81 e continua descrevendo o cotidiano da personagem. na verdade). O trabalho simplesmente faz parte do cotidiano e é encontrado na sociedade que os Beatles criaram dentro de suas músicas. Como já foi detalhado no segundo capítulo. como uma exposição. O refrão diz: “Penny Lane is my ears and in my eyes / there beneath the blue suburbain skies”80. já que estavam na guerra ou porque tinham morrido nela. os Beatles constroem uma música que evoca memórias de um cotidiano pelo qual eles passaram e que sentem falta dele. como todos os barbeiros. Mas em vez de dizer “The barber with pictures of haircuts in his windows”. cuidando da família. em momento algum a palavra trabalho (work ou job) aparece explicitamente na letra da música. mas porque precisavam do dinheiro que os maridos não podiam prover. entretanto. foi mudado para: “Every had he’s had the pleasure to known”. Dessa forma. tentando integrar as duas jornadas. Entretanto. Paul conta que primeiro pensou na Virgem Maria. mas como uma forma de não depender mais dos maridos.The Beatles – mito. . lançada em compacto em março de 1968. descrevendo o comércio de uma rua onde passaram grande parte da vida. mas decidiu fazer uma homenagem às mulheres das classes baixas. ou algo assim (eu acho que ele continua lá na Penny Lane. que tem a dupla jornada de trabalhar fora de casa – arrumando dinheiro para sustentar os filhos . embaixo dos céus azuis do subúrbio”. não porque necessitavam disso para sobreviver.

Eu via um pouco disso e. via nela um ar ‘militar’. e para mim uma ‘maid’ (donzela) era sempre uma coisa um pouco sexy: ‘Meter maid. A expressão ‘meter maid’ (fiscal de parquímetro) era tão americana que atraía.The Beatles – mito. 2001: 247): Li uma matéria no jornal sobre ‘Lovely Rita’. Assim. Ei. até mesmo um pouco mandona – o “ar militar” que ele enxergou nela –. Paul fala no livro Antologia (GENESIS PUBLICATIONS. Isso é feito no auge do movimento feminista. Sobre ela. impensável nos anos 50. o compositor fala dessas mulheres menos favorecidas social e financeiramente e o trabalho que elas têm para criar os filhos e manter uma família. produto e discurso 99 música. nota-se que ele teve a idéia a partir de uma notícia de jornal onde uma diretora de trânsito estava se aposentando. age de acordo com os valores do feminismo: “Took her out and tried to win her / had a laugh and over dinner / told her I would really like to see her again / got the bill and Rita paid it”82. . Ela acabara de se aposentar como diretora de trânsito. por outro lado. / Quem encontra o dinheiro. O que interessa particularmente aqui é notar que a personagem da música. mas só conseguiu uma risada) e que pagou a conta do jantar. Uma imagem nova sobre a mulher. as crianças nos seus pés / imagino como você faz para equilibrar receita e despesa. que não era uma mulher fácil (ele tentou ganhá-la. quando você paga o aluguel? / Você achou que o dinheiro caía do céu?”. acabam assumindo essa dupla jornada de donas-de-casa e profissionais. de 1967. baby’. Lovely Rita é a décima faixa do álbum Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band. esta música também pegou uma 81 “Lady Madonna. 82 “Levei-a para sair e tentei ganhá-la / consegui um sorriso e um jantar / Disse a ela que queria vêla de novo/ veio a conta e Rita pagou”. quando ingressam no movimento feminista. de manejar o orçamento para alimentar as crianças e pagar o aluguel. A imagem que o compositor fez da personagem que descreveu nesta canção foi de uma mulher independente. a fiscal de parquímetro. ainda que os trabalhos do lar não estivessem sendo valorizados nos anos 60. As mulheres. Analisando a declaração de Paul sobre essa música. Os Beatles se utilizam de expressões de duplo sentido para dar uma conotação sexual às suas músicas – e essa não foi a única vez que fizeram isso. falando de dinheiro. vem dar uma olhada no meu medidor. que procura valorizar o trabalho profissional da mulher em detrimento dos trabalhos de dona-de-casa. Rita. que é uma fiscal de estacionamento. por exemplo.

através de representações de consumo. . A idéia partiu de Paul McCartney. a crítica se volta contra a própria arte – ou a banalização dela. De modo sutil. Nesta canção. Embora não entendessem muito bem da parte financeira dos direitos autorais de suas músicas. pode ter os direitos autorais / que vão lhe render um milhão da noite para o dia”. produto e discurso 100 representação de consumo – o trabalho e a conta do jantar – para explicitar o tema do feminismo.The Beatles – mito. Foi a primeira vez que um lado A dos compactos da banda não era uma música que falava de amor. onde um jovem está escrevendo a possíveis editores: “Dear Sir or Madam will you read my book / it took me years to write. é uma crítica à proliferação de obras de arte com a expansão das tecnologias dos meios de comunicação de massa que ocorriam na época. nota-se que a arte de escrever está sendo um tanto quanto banalizada na música – o dom da escrita já não é mais uma condição especial de artista. Conta a história de um escritor de livros baratos. Assim. vocês vão dar uma olhada? / É baseado num romance de um homem chamado Lear / e eu preciso de um emprego. / Se você realmente gostar. observa-se o trabalho inserido no dia-a-dia nas letras dos Beatles. que pensou em escrever uma música como se fosse uma carta. então quero ser um escritor de livros baratos”. / If you realle like it you can have the rights / it could make a million for you overnight. 83 “Caro senhor ou senhora . mas de alguém que precisa de um emprego e decidiu que quer ser um escritor de livros baratos. 84 “Eu posso tornar o livro mais longo. portanto. impressos em papel de segunda categoria”. como explicam Gomes e Pasta (2004: 201): “Os ‘paperback’ não são obrigatoriamente livros de bolso. Mas se torna ainda mais interessante observar a parte da música em que o tal escritor fala: I can make it longer if you like the style / I can change it round / and I want to be a paperback writer / paperback writer. lançada em compacto em junho de 1966) é uma carta em forma de música.Mais uma vez. mas sempre são livros baratos. de tamanho menor. Paperback writer (Lennon e McCartney.84”. os Beatles sabiam que ganhavam muito dinheiro com eles. se você gostar do estilo / eu posso virar o livro ao contrário / eu quero ser um escritor de livros baratos. que fazia parte do movimento de contracultura. will you take a look? / It’s based on a novel by a man named Lear / and I need a job / so I want to be a paperback writer” 83 . porque sabe que não são necessárias muitas aptidões para realizar tal tarefa. vocês lerão o meu livro? / Levei anos para escrevê-lo. o modo como cada vez mais pessoas ganhavam dinheiro fazendo qualquer coisa que poderia se julgar uma forma de arte – e Paperback writer foi uma maneira de chamar atenção pra isso.

apartamentos. eu estava escrevendo a partir das minhas experiências: mulheres. produto e discurso 101 Outra canção que também retrata o trabalho é Norwegian Wood. / We talked until two / and then she said / ‘it’s time for bed’ / She told me she worked in the morning and started to laugh / I told her I didn’t. mas o homem. / Então eu coloquei fogo / isso não é bom? / Madeira norueguesa”. não – e nota-se também como uma música que está contando casos de John Lennon fora do casamento – o que para ele era algo normal. De maneira sutil. Então. mas que tudo tinha que ser contado de uma maneira misteriosa para que sua mulher Cynthia não desconfiasse: “Não me lembro de uma mulher específica. / Ela me contou que trabalhava de manhã e eu comecei a rir.The Beatles – mito. faixa 2 do álbum Rubber Soul. essas coisas”. Assim. Sobre o título da canção. fazia parte do seu cotidiano – traz a representação do trabalho ligado a esse dia-a-dia. John Lennon explica no livro Antologia (2001: 196) que a letra era sobre os casos que ele tinha fora do casamento. / Nós conversamos até as duas / então ela disse / que estava na hora de ir pra cama. as autoras Elaine de Almeida Gomes e Leda Pasta (2004: 173) esclarecem: “Era moda na época decorar quartos revestindo-os de madeira. 2004). a letra descreve a história de um homem contando: “I once had a girl / or should I say / she once had me / She showed me her room / isn’t it good? / Norwegian wood”86. O quarto onde se passa essa canção é revestido de madeira norueguesa. observa-se o tema do feminismo – a mulher tem que trabalhar de manhã. ele Essa música também tem a participação importante instrumental de George Harrison tocando cítara. quando a mulher saiu para trabalhar de manhã. fosse pinho barato ou um material melhor”. o fato de a mulher ter falado que precisava dormir porque trabalhava na manhã seguinte aborreceu o homem. 85 . 88 “E quando eu acordei / estava sozinho / o pássaro tinha voado. / So I lit a fire / isn’t it good / Norwegian wood”88. No caso específico dessa música. and crawled off to sleep in the bath87. A música continua: “And when I awoke / I was alone / this bird has flown. deixando-o sozinho no seu quarto. de 1965. composição de Lennon e McCartney85. Mas a parte que particularmente nos interessa aqui é quando ele descreve: I sat on a rug / biding my time / drinking her wine. que foi dormir no banheiro. / Disse a ela que eu não trabalhava de manhã e me arrestei para dormir no banheiro”. 87 “Eu me sentei num tapete / oferecendo meu tempo / bebendo o vinho dela. 86 “Uma vez eu tive uma garota / ou talvez deveria dizer / que ela uma vez me teve. / Ela me mostrou o seu quarto / isso não é bom? / Madeira norueguesa”. é o primeiro registro do instrumento em uma música ocidental (GOMES e PASTA.

idéia que foi vendida por um comercial de cereais. feeling low down / heading for home you start to roam then you’re in town / everybody knows there’s nothing doing / everything is closed. you don’t want to go. utilizando-se de representações de trabalho para fazê-lo. ele começa a rir e aproveitar o dia. 1995). já que tinha que acordar cedo. um doutor dos sonhos que tem drogas para todos os males” (GOMES e PASTA. 91 Gíria utilizada para designar a pessoa que não toma drogas. o compositor coloca: “After a while you start to smile. A oposição entre trabalho e ócio é observada em Good morning. tradicional e “careta”91. o que interessava aos jovens dessa época era diversão. ambas composições de Lennon e McCartney. dois anos depois que essa música foi lançada: “Dele surgiu a inspiração para o doutor desta letra. que cuidava das celebridades. então você está na cidade / todos sabem que não há nada acontecendo / que tudo está fechado como uma ruína / e todos que você vê estão sonolentos”.The Beatles – mito. se distrair para melhorar o estado de espírito. Good morning. 89 . Ele perdeu sua licença médica em 1968. Mais uma vez. tedioso e maçante. agora você se sente bem”. falam de dois temas muito recorrentes no movimento de contracultura. misto de médico e traficante. “Indo para o trabalho. como de fato ocorre no movimento de contracultura. começa a perambular. a contracultura se aproxima da “sociedade dentro da Indústria Cultural” (ROCHA. Robert Freyman era um médico alemão muito famoso na época. em Nova York. Já Doctor Robert aborda o tema das drogas. 2004: 257): Going to work. good morning – cujo título foi retirado de um anúncio de sucrilhos na televisão (GOMES e PASTA. perambular pela cidade. 90 “Depois de um tempo você começa a sorrir. Depois de um tempo. que antes estava entediado com o fato de estar indo para o trabalho. depois dessa mudança de humor. amplamente divulgadas e utilizadas na década de 1960 como uma forma de se rebelar contra a sociedade “tecnocrática”. Dessa forma – não indo para o trabalho. está se sentindo deprimido / indo para casa. produto e discurso 102 colocou fogo na madeira norueguesa como um modo de vingança por ela ter ido dormir. now you feel cool”90 e. mas indo passear na cidade – o compositor pode ter um bom dia (good morning). É importante ressaltar que a questão do trabalho e das responsabilidades é vista como algo chato. good morning (faixa 11 do álbum Sargent Pepper’s) e Doctor Robert faixa 4 do álbum Revolver). mas não quer ir. it’s like a ruin / everyone you see is half asleep89.

que. mas também uma piada sobre o sujeito que curava todo mundo de tudo com todas aquelas pílulas e tranqüilizantes. 2001: 209) Agora serão analisadas algumas canções dos Beatles que trazem representações de “crítica ao governo/establishment”. 93 92 . Em determinado momento. de Harrison – a primeira faixa do álbum Revolver93. dois nomes são citados como cobrador de impostos: Mr. ouvíamos falar de um cara em Nova York: ‘Dá pra conseguir qualquer coisa com ele – qualquer comprimido’. 95 “Cinco por cento deveria parecer pequeno / agradeça que eu não vou lhe tomar tudo”. E a sonoridade e as músicas do disco representavam exatamente isso: uma reviravolta na carreira dos Beatles e a consolidação da música rock. a música fala: “Don’t pay money just to see yourself with / Doctor Robert”92. I’ll tax the heat / If you take a walk. Revolver quer dizer revolver. como já vimos com Roszak (1972). injeções para isso e aquilo. Ele simplesmente mantinha Nova York ligada. quando tomavam pílulas estimulantes para conseguirem ficar despertos (GENESIS PUBLICATIONS. uma forma de escapar da realidade para conseguir enxergar outra sociedade. I´ll tax the street / If you try to seat. ‘Doctor Robert’ era sobre isso. 2001: 50). McCartney fala sobre Doctor Robert: ‘Doctor Robert’ é como uma piada. (GENESIS PUBLICATIONS. revirar. I’ll tax your seat / If you get too cold . Mais tarde veio a maconha (GENESIS PUBLICATIONS. Wilson é uma referência a Harold Wilson. 2001: 158) e o LSD (GENESIS PUBLICATIONS. de 1966 – é uma crítica sobre os impostos pagos na Inglaterra: “Let me tell you how it will be / there’s one for you. 2004: 205). Durante a música. 94 “Deixe-me contar como isso vai ser / tem um pra você e dezenove para mim / porque eu sou o cobrador de impostos”. também se tornaria ministro em 1970 (GOMES e PASTA. A letra fala também: “Should five per cent apeear too small / be thankful I don’t take it all”95 e continua: “If you drive a car. mais tarde. mas elas acabaram desviando muitos jovens de seu real propósito. que foi primeiro-ministro da Inglaterra. líder do Partido Conservador britânico. Os Beatles sempre foram adeptos das drogas. Mr. Era algo proibido. I’ll tax your “Não pague em dinheiro apenas para se encontrar com / Doutor Robert”. 2001: 177) e outras drogas mais pesadas. agitar. Heath. desde a época em que tocavam em Hamburgo. nineteen for me / ‘cos I’m the Taxman”94. Esse é um tema recorrente no movimento de contracultura. um médico com comprimidos que vê você ficar legal.The Beatles – mito. Wilson e Mr. produto e discurso 103 2004: 225). Nos EUA. Taxman. E o outro cobrador de impostos era Edward Heath.

Sobre essa música. atingindo jovens do mundo inteiro. 2001: 206/207) ‘Taxman’ era bem George. é uma música totalmente anti-establishment.) Eles (os advogados e contadores) diziam: ‘Olha.The Beatles – mito. ‘Qual?’ ‘Taxa de óbito. depois que morrer. eu vou taxar o calor / se você for dar uma volta. / Eles precisam de uma boa palmada”. taxman”97. através de um meio de comunicação de massa. eu vou taxar os seus pés”. estavam agora criticando o primeiro-ministro abertamente. Piggies (faixa 12 do primeiro disco do álbum duplo White Album). Nas reuniões de negócios. como declarou John Lennon (GENESIS PUBLICATIONS.’ Daí ele (George Harrison) apareceu com aquele verso ótimo: ‘declare the pennies on your eyes’98. Paul McCartney declara no livro Antologia (GENESIS PUBLICATIONS. um ano antes. ainda vai pagar imposto’. só para mim.. 96 . Outra canção de Harrison. eu vou taxar a rua / se você tentar sentar. o cobrador de impostos”. os advogados e contadores nos explicavam como as coisas funcionavam. e ela fala contra-a-cultura reclamando que o Estado confisca todo o dinheiro que as pessoas ganham com seu árduo trabalho. 97 “E você está trabalhando pra mais ninguém. 98 O verso completo é: “Now my advice for those who die / declare the pennies in your eyes” ou “Meu conselho para aqueles que morrem. (. Ela se utiliza dos porcos como metáfora: Have you seen the bigger piggies in their starched white shirts? / You will find the bigger piggies stirring up the dirt / Always have clean shirts to play around in / In their styes with all their backing / they don’t care what goes around / In their eyes there’s something lacking / What they need’s a damn good whacking99. que era a indignação justificada do George em relação à idéia de ter chegado ali. portanto. “Se você dirigir um carro. com todo apoio / eles não se importam com nada que acontece ao redor. Taxman. essa música estava presente em um álbum dos Beatles – os mesmos que. Éramos muito ingênuos. também aparece com destaque. como dá pra ver pelos nossos acordos de negócios. eu vou taxar o seu assento / se você estiver com muito frio. declarem as moedas nos seus olhos”. produto e discurso 104 feet”96 e termina com a frase: “And you’re working for no-one but me. 2001: 207).. Entretanto. tinham sido condecorados pela Rainha da Inglaterra com uma medalha de Membro do Império Britânico (Member of British Empire). 99 “Você já viu os porcos maiores em suas camisas brancas engomadas / Você vai achar os porcos maiores agitando a sujeira / Eles sempre têm camisas brancas para brincar para brincar nela / Em seus chiqueiros. ganhado todo aquele dinheiro e metade dele estava prestes a ser arrancado à força.

classificando. George Harrison a fez por pura obrigação. Aqui. denotando uma posição contra ou a favor dele. 101 “É só uma canção da Northern Songs” 102 Money foi gravada originalmente por Barret Strong em 1960. nesta música. . E o compositor. Money de Janie Bradford e Barry Gordy Jr. essa música como uma das que se utiliza de representações de consumo – levar a “esposa-porca” para jantar fora – para dar seu recado ‘contra-a-cultura’.a editora das músicas dos Beatles – para completar o álbum. nada está sendo pedido ao governo. usa representações de consumo – a própria editora Northern Songs e o mercado fonográfico com suas exigências e problemas com direitos autorais – para se criticar o próprio sistema das gravadoras. que só se importam com suas próprias vidas. ou seja.102. O próprio título da canção já explicita seu significado – Dinheiro. que não ligam para o que acontece ao seu redor. “Por todo o canto. das outras seis músicas restantes. Observa-se que. algum tipo de “representação de dinheiro”. As outras quatro tiveram que ser compostas especialmente para o filme. não é nada demais. duas já eram sucessos consagrados Yellow submarine e All you need is love. A leitura interpretativa identifica os “porcos” como sendo aqueles que governam. A letra começa falando que: 100 . 2004: 345). mais uma vez. Esse álbum conta com treze músicas: sete delas são apenas instrumentais e foram compostas pelo produtor George Martin. é a última faixa do segundo álbum da banda With the Beatles. que estão no controle da cultura oficial.The Beatles – mito. Algumas músicas dos Beatles selecionadas para esta análise demonstram. Harrison continua com sua crítica na canção Only a Northern Song – a segunda faixa do álbum Yellow submarine. levam suas “esposasporcas” para jantar fora e só se importam com suas “camisas limpas e engomadas” e em “espalhar a sujeira”. os “porcos”. trilha sonora do filme homônimo de 1969. dizendo: “it’s only a Northern song”101. como em Taxman. existem muitos porcos vivendo vidas de porcos / você pode vê-los levando suas esposas-porcas para jantar”. onde o compositor reclama a grande quantia de dinheiro perdida com a arrecadação de impostos. produto e discurso 105 E fala que: “Everywhere there’s lots of piggies living piggie lives / You can see them out for dinner with their piggie wives”100. de forma muito clara. portanto. A letra irônica despreza a própria editora. por exigência da Northern Songs . apenas para cumprir o contrato com a gravadora (GOMES e PASTA.

muito dinheiro. o Bambi Kino. 103 . como fazia o movimento de contracultura. Assim. E vem o refrão: “Baby. can’t you see / I wanna be famous. eu não posso usar / Agora me dê dinheiro / é o que eu quero”. it’s true / What it don’t get. é isso que eu quero”. E não havia vergonha nenhuma em declarar isso cantando: “Agora me dê dinheiro. lançado no final de 1965. de Lennon e McCartney é a primeira faixa do álbum Rubber soul. essa música trata mais do sonho de ser uma estrela e de ter um carro luxuoso e não propriamente de ter o carro e ser uma estrela. é verdade / O que ele não consegue. I can’t use / Now give me money / that’s what I want / a lot of money / that’s what I want / that’s what I want103. 2001: 46) – tudo que os quatro rapazes pobres que tinham vindo da cidade portuária de Liverpool estavam vislumbrando com o sucesso repentino que se acentuava a cada dia mais era ganhar dinheiro com suas músicas e poder ajudar suas famílias a construir um futuro com um pouco mais de comodidade.onde eles chegaram a dormir em um cinema velho. Entretanto. A canção conta a história de um rapaz: “Asked a girl what she wanted to be / she said ‘baby. sob um ponto de vista positivo. ainda no início da carreira. sem um lugar limpo e descente onde pudessem morar (GENESIS PUBLICATIONS. produto e discurso 106 The best things in life are free / but you can keep them for the birds and bees / Now give me money / that’s what I want / that’s what I want / You’re lovin’ gives me a thrill / but your love don’t pay my bills / Now give money / that’s what I want / that’s what I want / Money don’t get everything. a star on the screen / but you can do something in between’”104.The Beatles – mito. num álbum onde oito músicas eram do grupo e seis eram de outros compositores. Drive my car. 104 “Perguntei a uma menina o que ela queria ser / ela falou: ‘baby. you can drive my car / And “As melhores coisas da vida são de graça / mas você pode dá-las para os pássaros e as abelhas / Agora me dê dinheiro / é o que eu quero / O seu amor me dá muitas emoções / mas o seu amor não paga as minhas contas / Agora me dê dinheiro / é o que eu quero / Dinheiro não consegue tudo. uma estrela nas telas / mas você pode fazer algo enquanto isso’”. I wanna be a star / Baby. Essa música fala de carros e sobre ser uma estrela da cultura de massa. you can drive my car / Yes. quando os Beatles ainda tinham na memória a árdua temporada passada em Hamburgo . perto dos banheiros. você não consegue ver? / Eu quero ser famosa. Money é uma das músicas que se encaixa perfeitamente dentro da ideologia capitalista de acumulação de bens e os Beatles demonstraram isso cantando essa música. e não depreciativo.

A letra de Lennon e McCartney (na verdade. também significa “fazer sexo” (GOMES e PASTA. 2004: 171) – e os Beatles adoravam letras ambíguas. a letra fala de uma garota que sonha em ser uma estrela de cinema. Sem uma defesa explícita da acumulação de bens e da ambição. se inserida no contexto no qual ela foi criada. eu já entendi. 105 . sonha em ter um carro. eu vou ser uma estrela / você pode dirigir o meu carro / e talvez eu te ame”. Assim. mas que já explicita alguns questionamentos do movimento de contracultura. a primeira letra de cunho político de Lennon e McCartney. que pudessem ter alguma malícia. A letra continua dizendo que: “I told that girl that my prospects were good / And she said ‘baby. I’ve got something to say / I’ve got no car and it’s breaking my heart / But I’ve found a driver and that’s a start”108. Curioso é observar que Rubber soul é o primeiro álbum onde as mudanças musicais e pessoais pelas quais os Beatles vinham passando pode ser notada claramente.The Beatles – mito. dos padrões da contracultura. com sua ambição: “eu já achei um motorista e isso já é um começo”. como sempre foi característico no rock and roll. você pode dirigir o meu carro / sim. it’s understood / working for peanuts is all very fine / but I can show you a better time”106 e repete o refrão107. 107 “Baby. portanto. uma menina ambiciosa. you can drive my car / And maybe I’ll love you”. Importante ressaltar aqui o duplo sentido da expressão drive my car. a quarta é Nowhere Man. que não fala de representações de consumo. E se a primeira faixa do álbum é Drive my car. I’m gonna be a star / Baby. mas que ainda não tem nenhuma das coisas com as quais ela sonha. I’ll love you”105. não quer ficar “trabalhando por uns trocados”. 106 “Eu disse a garota que minhas perspectivas eram boas / e ela lhe disse: ‘baby. Quando o álbum Let it be foi gravado. os Beatles estavam brigando muito uns com os outros por vários motivos: cada “Baby. E a forma como ela conquista o rapaz é com seus sonhos. produto e discurso 107 maybe. a música trata as representações de consumo de uma maneira onde não há por quê se desculpar em sonhar em ser uma estrela de cinema e ter um carro. baby. no entanto. mais de McCartney) só pode ser melhor entendida. You never give me your money está no penúltimo álbum da banda (embora tenha sido o último a ser gravado) Abbey Road. em inglês. Trabalhar por alguns trocados é válido. que além de “dirigir o meu carro”. finalizando com o verso: “I told that girl I could start right away / She said “listen. Totalmente fora. you can drive my car / Yes. mas eu posso lhe mostrar dias melhores’”.

a presença constante e os palpites de Yoko Ono nas gravações incomodavam Paul. xelins e pences. tenho algo para lhe falar / eu não tenho carro e isso está partindo o meu coração / mas eu já achei um motorista e isso já é um começo’”. demonstrando o interesse explícito pelo “Eu disse àquela garota que poderia começar naquele momento / e ela me disse: ‘escute. mas saber concretamente o dinheiro que ganhamos parece impossível. baby. a letra de You never give me your money ou “Você nunca me dá o seu dinheiro” começa: “You never give me your money / you only give me your funny paper / And in the middle of negotiation you break down. Percebe-se que é a música retratava a briga entre os próprios integrantes da banda e a briga que a própria banda travava com o mundo externo e também entre eles mesmos por causa da perda da NEMS e da Northern Songs. mas nunca temos realmente libras. Nós todos tínhamos um casarão e um carro e um escritório. Lee Eastman ou Allen Klein – foi o que motivou a letra de You never give me your money. pay no rent / all the money’s gone. money spent / see no future.”110.The Beatles – mito. A música pode ser interpretada como dirigida diretamente a John ou como dirigida diretamente às pessoas que tomavam conta dos negócios dos Beatles – os quatro nunca entenderam muito o que estava sendo feito com o dinheiro que eles ganhavam. A briga de Paul e John para escolher quem os representaria depois que Brian Epstein morreu – se seria o pai de Linda. Pedaços de papel dizendo quanto se ganha e o que é isto e aquilo. você se afasta”). as desavenças criadas pela venda da Northern Songs (a editora das músicas dos Beatles) e da NEMS (a empresa que administrava os negócios deles) para empresários do establishment. em vez de ganhar dinheiro vivo. Como a declaração de George Harrison explica: ‘Funny paper’ – é o que temos. e a dificuldade em manter um diálogo entre eles (“no meio da negociação. George e Ringo. E a letra continua: “Out of college. 108 . antes da morte de Brian. Ao mesmo tempo em que a briga por dinheiro entre os quatro beatles é exaltada. na época namorada de Paul. produto e discurso 108 um estava tomando um rumo musical diferente. 109 “Você nunca me dá o seu dinheiro / você só me dá o papel esquisito / e no meio da negociação / você se afasta”. nowhere to go / Any jobber got the sack / Monday morning turning back.”109 O que destacase aqui é a referência aos funny papers que os Beatles ganhavam. mas. 2001: 337) Assim. não se preocupavam com isso. (GENESIS PUBLICATIONS.

de ir pra bem longe. não pago aluguel / todo dinheiro se foi. dinheiro gasto / não vejo futuro. E continua falando em fugir dali: “Soon we’ll be away from here / Step on gas and wipe that tear away / One sweet dream / Came true today”111. Nenhuma das três últimas músicas acima carrega o sentimento de culpa por ganhar ou desejar ganhar dinheiro (o que era muito comum na época da contracultura). mas foi lançada primeiro como compacto. A frase: “I don’t care too much for money” (“não dou muita importância para dinheiro”) insere definitivamente esta música no contexto da contracultura. de Lennon e McCartney. E continua em um verso mais à frente: “Say you don’t need no diamond rings / and I’ll be satisfied / Tell me that you want the kind of things / that money just can’t buy” 113 e. pois tinham Brian Epstein tomando conta de tudo e ele era de inteira confiança dos quatro. ainda: “I may not have a lot to give / but what I’ve got / I’ll give to you / ‘Cause I don’t care too much for money / For money can’t buy me love”114. No “Fora da faculdade. é algo que não pode ser vendido. E. that magic feeling). produto e discurso 109 dinheiro – num movimento contrário à contracultura -. como se houvesse uma nostalgia em relação à época onde os Beatles não precisavam se preocupar com problemas financeiros e administrativos. nem comprado. 113 “Me diga que você não precisa de um anel de diamantes / e eu estarei satisfeito / Me diga que você quer o tipo de coisas / que o dinheiro não pode comprar”. nenhum lugar para ir / qualquer corretor é despedido / voltando na segunda-feira de manhã”. my friend / if it makes you feel all right / ‘Cause I don’t care too much for money / for money can’t buy me love”112. faz parte da trilha sonora do filme A hard day’s night. Amor. 110 . a música continua falando de um “sentimento mágico” (Oh. my friend / if it makes you feel all right / I’ll get you anything. Can’t buy me love. E foi o que os Beatles acabaram fazendo quando se separaram. ou de sumir dali. apesar de You never give me your money estar falando explicitamente de dinheiro e das brigas que estavam acontecendo por causa dele. um desejo talvez de voltar ao tempo em que os Beatles não brigavam por questões financeiras. A letra desta canção – cujo título significa “você não pode comprar meu amor” – retrata o rapaz falando para a garota: “I´ll buy you a diamond ring. 112 “Eu comprarei para você um anel de diamantes / se você se sentir bem com isso / eu conseguirei qualquer coisa pra você / se você se sentir bem por isso / porque eu não ligo muito para dinheiro / com dinheiro você não compra o meu amor”. 111 “Logo estaremos longe daqui / pé na tábua.The Beatles – mito. no entender dos compositores. ela fala de um desejo de estar longe dali. enxugue aquela lágrima / um sonho doce se realizou hoje”.

nota-se na música Can’t buy me love exatamente essa forma de pensar dos jovens ingleses: o rapaz pode não se “importa com o dinheiro”. 116 “Homem compra anel. as brigas por várias razões (inclusive acrescentando uma pitada sobre sexo – ou sobre a garota não querer fazer sexo – o que ainda era algo avançado para a época. porque a namorada está mentindo pra ele: “You telling lies thinking I can’t see / you don’t cry ‘cos you’re laughing at me”115. eu dou para você / Porque eu não ligo muito para dinheiro / Com dinheiro você não me compra amor”. também de Lennon e McCartney. entretanto. não é isso que vai fazer o rapaz feliz. 115 “Você está me dizendo mentiras pensando que eu não estou percebendo / Você não chora porque está rindo de mim”. mas sempre foi característica do rock and roll). nem tampouco “Eu posso não ter muitas coisas para dar / mas o que eu tiver. E continua descrevendo que: “Man buy ring woman throws it away / Same old thing happens everyday”116. No caso específico de I’m down. Entretanto. e continua: “We’re alone and there’s nobody else / You still moan: ‘Keep your hands to yourself’”117. O anel jogado fora aqui está representando não só o dinheiro do rapaz jogado fora. Observa-se nessa música o tema do amor adolescente – nesse caso a perda do amor da garota. E diz que está triste. fala de um rapaz que está triste. 114 . onde ela defende a idéia de que os jovens de classe média americanos desprezam o dinheiro como forma de se colocar ‘contra-a-cultura’ “tecnocrática”. a mulher o joga fora / a mesma velha coisa acontece todos os dias”. esbanjar o dinheiro também é uma forma de desprezá-lo: “No fundo. ele pode esbanjá-lo. porque não faz a mínima diferença. pra baixo. 2004: 137). como também o seu amor indo para o lixo.The Beatles – mito. tomando a música anteriormente analisada Can’t buy me love. produto e discurso 110 livro Rock: o grito e o mito – a música pop como forma de comunicação e contracultura (1973: 71) Roberto Muggiati analisa uma declaração da jornalista Susan Lydon. De forma inversa. para os jovens ingleses. I’m down. desprezar o dinheiro ou esbanjá-lo são duas maneiras de contrariar a ordem econômica e subverter o sistema de relações em que repousa o estilo de vida da classe média”. parece que agora é a garota que está falando: “você não pode comprar meu amor com um anel”. Assim. lançado em 23 de Julho de 1965 (GOMES e PASTA. isso está exemplificado no anel que o homem compra para a mulher e que ela joga fora e que isso sempre acontece. deprimido. portanto. utilizando-se de elementos de representação do consumo para descrever a situação.

com participação de Eric Clapton fazendo o solo de guitarra . While my guitar gently weeps . no sentido de ser medíocre. reclamam do governo e não fazem nada para mudar a situação. 117 . composição de George Harrison. E a música prossegue: “His sister Pam119 works in a shop / she never stops / she’s a go getter / Takes him out to look at the Queen / only place he’s ever been / Always shouts out something obscene / such a dirty old man / dirty old man”120.pode ser interpretada como falando de arte. Mustard sleeps in the park / shaves in the dark / trying to save paper / Sleeps in a hole on the road / saving up to buy some clothes / Keeps a ten bob note up his nose / such a mean old man. Harrison conta que estava envolvido com os conceitos orientais e que neles a concepção que temos de coincidência (como algo que acontece por acaso) não existe. Dessa forma. Mustard. a faixa seguinte do mesmo álbum Abbey Road. os Beatles se utilizam da mesquinharia. faixa 11 do álbum Abbey Road. ainda por cima. que. um homem mesquinho. A única coisa que pode fazêlo feliz seria o amor dela que ele já não tem mais. mau: Mean Mr. Outra canção que também fala do dinheiro e da mesquinharia de maneira negativa é Mean Mr. 118 “Mesquinho Sr. tão mesquinho”.The Beatles – mito. do fato de se economizar coisas pequenas para descrever um velho sujo. no primeiro livro que Harrison abriu “Nós estamos sozinhos e não tem mais ninguém / você continua dizendo: ‘guarde suas mãos para você mesmo’”.faixa 7 do primeiro disco do White Album. Mustard. Isso pode ser interpretado como uma crítica às tantas pessoas que só sonham em acumular bens e deixam de aproveitar a vida. Então. ele decidiu compor uma música que seria baseada na primeira coisa que ele visse ao abrir um livro qualquer – gently weeps (uma expressão que significa “suavemente lamenta”) foi o que apareceu ao acaso. e está presente em Polythene Pam. Mustard dorme no parque / se barbeia no escuro / tentando economizar papel / Dorme em um buraco na estrada / economizando para comprar algumas roupas / Mantém uma nota de dez schillings no nariz / um homem tão mesquinho. Embora de forma um tanto despretensiosa. mean. de Lennon e McCartney. 119 Pam é outra personagem das músicas dos Beatles. such a mean old man118. ofende a Rainha. a música descreve o velho Mr. 120 “Sua irmã Pam trabalha numa loja / ela nunca pára / ela é uma procriadora / Ela o leva para ver a Rainha / o único lugar em que ele esteve / ele sempre grita coisas obscenas / É um sujeito mesquinho e sujo”. mau e medíocre. embora também possa ser lida como uma música de amor dirigida a uma mulher. produto e discurso 111 seria reaver o tal anel que ele comprou para a amada.

indo contra as concepções materialistas da sociedade “tecnocrática” e a favor de uma maior espiritualização. onde as pessoas sempre alegam que não tem tempo para fazer as coisas. comprar e vender coisas. without you. 2001: 306). à música como um todo. de 1966 e Within you. assim como poderia estar se referindo à uma guitarra. faixa 3 do álbum Revolver. colocandose contra o poder do dinheiro de controlar. A parte da música que convém analisar aqui é: “I don’t know how someone controlled you / they bought and sold you”121. A mensagem de amor que a contracultura carregava consigo está aqui presente oposta ao ato de comprar – assim como não se pode comprar amor – “can’t buy me love” – não se pode comprar mais tempo de vida ou outra vida. pessoas e idéias.The Beatles – mito. É necessário amar enquanto se está vivo e esquecer a correria da vida urbana. George poderia estar falando de uma garota. como era típico do movimento de contracultura (fato já observado no segundo capítulo desta dissertação). / Ame-me enquanto você pode / antes que eu seja um velho morto. o “ter tudo” e a vida e a alma. de 1967 serão aqui analisadas. Outras duas composições de Harrison: Love you to. faixa 8 do Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Love you to foi uma música composta especificamente para a cítara – instrumento indiano com o qual Harrison se envolveu ao longo da década de 1960 – e fala: Each day just goes so fast / I turn around. como em Paperback writer. A mesma mensagem é transmitida em Within you. “Cada dia passa tão rápido /quando eu olho para trás. / O tempo de uma vida é tão curto / um novo não pode ser comprado / mas o que você tem significa muito para mim”. 122 121 . pois isso é algo transcendental. produto e discurso 112 (GENESIS PUBLICATIONS. à uma forma de arte que estaria sendo vendida por um preço muito barato. já é passado / você não tem tempo para me mandar um sinal. without you e nota-se também o tema da ambição se opôr à alma de “Eu não sei como alguém te controlou / eles te venderam e te compraram”. O compositor está falando de um tema urbano. mas ele observa que é necessário amar antes que a vida se acabe e que as pessoas não vão poder comprar mais tempo de vida. it’s past / you don’t get time to hand a sing on me. As duas músicas fazem uma oposição entre dinheiro ambição. / Love while you can / before I’m a dead old man / A life-time is so short / a new one can’t be bought / but what you’ve got means such a lot to me122. tendendo para o lado das religiões orientais.

não podemos usar parte dela? Qual o sentido de detonar Wall Street? Se vocês querem mudar o sistema. de 1967) fala de um tipo de gente: beautiful people ou “pessoas bonitas”. 123 . you’re a richman / baby. quero saber o que vocês vão fazer depois que a derrubarem. irmão. assinada por Lennon e McCartney. é que você tem que esperar”. they can’t see – are you / one of them?”123. Não me esperem nas barricadas.eles não sabem. como Harrison fala por metáforas dos “porcos” – Piggies. No verso: “You ask me for a contribution / well. Revolution foi lançada originalmente no lado B do compacto Hey Jude / Revolution e. A composição de Lennon e McCartney faz um diálogo entre alguém que faz perguntas e as “pessoas bonitas”. you’re “Nós estávamos falando sobre o amor que / ficou tão frio e as pessoas / que ganham o mundo e perdem a sua alma . you have to wait”124 é através do dinheiro que o compositor explicita sua posição no movimento de contracultura. portanto. música analisada anteriormente. you’re a rich man (faixa 10 do álbum Magical Mistery Tour. produto e discurso 113 uma pessoa: “We were talking – about the love that’s / gone so cold and the people / who gain the world and lose their soul – they don’t know. matando e/ou machucando pessoas para conseguirem abolir o establishment e aqueles que se colocavam ao lado dos movimentos pacificistas: Estou fora se for pela violência. 2001: 299) Lennon se coloca ao lado dos pacifistas e se preocupa com uma consciência sobre o desejo de se mudar o sistema – o que os revolucionários iriam fazer depois que o tivessem destruído? Eles tinham que ter um plano.The Beatles – mito. E o refrão fala: “Baby. brother. (GENESIS PUBLICATIONS. a menos que seja com flores. carrega mais a autoria de Lennon e discute que lado se deve tomar dentro da revolução cultural pela qual o mundo passava. Quer dizer. Não faz sentido matar as pessoas. A canção. No que diz respeito a derrubar alguma coisa em nome do marxismo ou do cristianismo. you know / we’re all doing what we can / But if what money for people with minds that hate / All I can tell you is. 124 “Você me pede uma contribuição / bem. Baby. que contam que estão entrosadas na sociedade – de forma bastante irônica. entrou no segundo disco do álbum duplo The Beatles. mudem o sistema. você sabe / todos estamos fazendo o que podemos / mas se você quer dinheiro para pessoas com mentes que odeiam / tudo que posso lhe dizer. fala da contracultura dividida: havia aqueles que partiam para a luta armada. e não só o desejo de derrubar e destruir. posteriormente. Essa música. de 1968. eles não podem ver – você é / uma dessas pessoas?”.

Como Elaine Gomes e Leda Pasta contam no livro The Beatles: Letras e canções comentadas (2004: 265): Depois da surpresa dos tempos de Can’t buy me love. A questão a ser mais atentamente observada aqui é que “a garota tem um bilhete para viajar com o rapaz. entretanto. não quer ficar dependendo do namorado – o que seria um bom exemplo do tema do feminismo despontando. você é um homem rico também. Ticket to ride. agora os Beatles já eram confortavelmente ricos e estavam ficando adultos. Pode-se também interpretar essa música como o hino de uma geração que tem um ingresso para uma vida social e economicamente segura – a vida da época da “Era de Ouro”. quer viajar. não se interessa por essa vida e quer se libertar dos valores aos quais está agarrada: “She said that living with me / is bringing her down / that she 125 “Baby. que foi estudada no segundo capítulo desta dissertação -. foi lançada antes do álbum em compacto. essa música também utiliza representações do dinheiro – mais especificamente.The Beatles – mito. . Assim. independente. em abril do mesmo ano. 126 “Acho que vou ficar triste / acho que é hoje. A personagem da música é uma garota dos anos 60 que quer ser livre. produto e discurso 114 a richman / baby. de agosto de 1965. mas essa geração não liga. ingresso. / Você guarda todo o seu dinheiro em uma grande sacola marrom / dentro do zoológico”. algo que foi comprado para se ter acesso a alguma coisa. sem utilizar as representações de consumo para se colocar ‘contra-a-cultura’. mas artistas da linha de frente da cultura do mundo. Tinham subido na vida e tomavam consciência de ser formadores de opinião. zombando da “nata da sociedade”. you’re a richman too / you keep all your money in a big brown bag / inside the zoo”125. do fato de se acumular dinheiro – para ir contra a sociedade que não estava ligada com os valores da contracultura e só pensava nos seus próprios bens. Não eram mais os garotos deslumbrantes e deslumbrados. mas ela não liga”. da classe média baixa de Liverpool. você é um homem rico / baby. A canção conta a história de um rapaz que está triste porque a namorada está indo embora: “I think I’m gonna be sad / I think it’s today / The girl that’s driving me mad / is going away / She’s got a ticket to ride / she’s got a ticket to ride / she’s got a ticket to ride / but she don’t care”126. de Lennon e McCartney. faixa 7 do álbum Help!. / A garota que está me levando à loucura / está indo embora / Ela tem um bilhete para viajar / mas ela não se importa”. Ticket quer dizer bilhete.

produto e discurso 115 would never be free / when I was around”127. a sua própria sociedade. . Musicalmente. 127 “Ela disse que viver comigo / está deixando-a triste / que ela nunca seria livre / enquanto eu estiver por perto”. “minha gata” ou. totalmente diferente do resto da música. ao pé da letra. Os jovens de 1960 queriam procurar a sua própria vida. “meu bebê”.The Beatles – mito. “My Baby” pode significar aqui duas coisas: no sentido de “meu amor”. os seus próprios valores. o que era uma idéia completamente nova em 1965. Ticket to ride integra duas melodias diferentes – o trecho em que eles cantam “my baby don’t care”128 tem um ritmo mais acelerado. Eles sonhavam com uma outra sociedade. que eram os filhos rebeldes da “tecnocracia” que não se importavam com o futuro garantido e seguro que os pais estavam vislumbrando para eles. 128 “Meu amor não se importa”. embarcando no trem do movimento de contracultura.

na década de 1960. George and Ringo. devido à “Os Beatles – Paul. John. nos países da América Latina. a partir de representações da mulher nas letras de músicas dos Beatles. John. utensílios de cozinha. 129 . mochilas. George e Ringo – fizeram mais pela queda do comunismo do que qualquer outra instituição ocidental”. fazer uma pesquisa detalhada sobre todos os tipos de produtos que chegaram ao mercado e que levaram a marca The Beatles: calçados.há uma declaração do sociólogo Artemy Troitsky: “The Beatles. 1995) influenciaram a difusão do idioma inglês. Ainda utilizando o conceito de contracultura definido por este estudo. quando a censura atuava de forma bastante rígida e não permitia que determinados produtos culturais chegassem às mãos da população. como na Alemanha Oriental e na extinta União Soviética. Entretanto.5 Considerações finais e perspectivas futuras Diante da importância da obra dos Beatles – tanto em quantidade. Ou. seria interessante fazer uma pesquisa que relatasse as relações entre contracultura e feminismo. que foram decisivas para o mundo – pode-se extrair material relevante para estudos e análises. have done more for the fall of comunism than any other western institution”129. Na década de 1960. e como eles atuaram dentro deste mesmo contexto de tensões entre a contracultura e o consumo. no campo da Comunicação Social. como por exemplo: será que eles. num mundo que começava um movimento de globalização? Na contra-capa do DVD Paul McCartney in Red Square: a concert film (2005) – que é um documentário que intercala imagens dos shows que o artista fez na Praça Vermelha e em São Petersburgo. aproximando-o da “sociedade dentro da Comunicação de Massa” (ROCHA. inovações artísticas e influências. o comunismo era regime político em alguns países. como em números de vendas. Interessante seria observar a influência dos Beatles nesses países durante seus regimes fechados. na Rússia . entre muitos outros. camisetas. 1995). bottons. Paul. ainda. existiam vários tipos de ditadura. como componentes de uma “cultura popular jovem” (HOBSBAWN.

dos seguintes autores: Adorno e Horkheimer. Os Beatles viviam dentro de uma grande questão. pôde-se observar a trajetória dos Beatles. era de se esperar que se afastasse completamente desta e de seus produtos. assumiu um tempo totêmico e não o tempo . apresentadas no início desse trabalho. destacaram-se conceitos referentes à cultura de massa. finalmente. inserida na “tecnocracia”. “dinheiro”. para que pudesse se estabelecer uma visão geral sobre a cultura de massa. 1995).Considerações finais e perspectivas futuras 117 limitação de uma dissertação de mestrado. No lugar do individualismo o holismo. da qual os Beatles fazem parte. A contracultura se colocava em oposição ao establishment. os produtos da cultura de massa. em vez do produtivismo o ócio. Entretanto ela dependeu. presente dentro dos produtos da cultura de massa. Ela privilegiou o poder pela persuasão e não pela violência e pelo Estado e. A contracultura. pôde-se constatar as tensões entre o consumo e a contracultura nas letras das músicas dos Beatles. nem sempre percebida conscientemente: seriam eles parte do establishment ou estariam lutando para destruí-lo? E este questionamento reflete em muitas de suas letras. Em seguida. Verificou-se as representações de “trabalho e profissões”. “produtos midiáticos” e “vida cotidiana”. se afastam da sociedade real. detalhou-se o movimento de contracultura. Durante esta dissertação. seus antecedentes e seu principal produto e expressão – o rock. ao industrialismo. em suas músicas e suas constantes ambigüidades. Delineado o contexto histórico. O desenvolvimento da questão da contracultura apresentou um interessante aspecto: a aproximação desta com a “sociedade do sonho”. desse mesmo sistema para poder divulgar suas idéias para a juventude da década de 1960. dentro da sociedade criada pelos Beatles. ao se distanciar da sociedade “tecnocrática”. assim. como já foi assinalado. Edgar Morin e Everardo Rocha. ao capitalismo. Como ela se colocava contra a “tecnocracia”. tal qual ela se apresenta nos dias atuais: como um mito e um produto a ser consumido. A seguir. inclusive aqueles veiculados pela cultura de massa. Andreas Huyssen. foi essencial se ater apenas ao que foi proposto no início deste trabalho. em relação a um mundo que aspirava colocar na prática as características da “sociedade dentro dos produtos da Comunicação de Massa” (ROCHA. ao consumismo e à “tecnocracia”. durante toda a sua existência. criou para si uma sociedade com valores totalmente opostos a esta. Como vimos com Rocha (1995).

numa sociedade real. do poder exercido pelo Estado e da concepção de tempo historicista para existir. memórias. . bijuterias. respectivamente – sempre foram deixados a cargo dos produtos da cultura de massa. 2001: 352).presente na sociedade capitalista ocidental.para que o capitalismo pudesse se desenvolver. Ao tentar colocar tais características em prática.Considerações finais e perspectivas futuras 118 historicista . os feiticeiros. não como uma possibilidade de realização. a contracultura trouxe de volta para a realidade os povos excluídos anteriormente – os bruxos. a persuasão e o tempo totêmico. o sonho acabou (GENESIS PUBLICATIONS. ao tentar realizar tal feito. a contracultura se aproximou da “sociedade dentro da Comunicação de Massa” e se apresentou como uma ameaça real à “tecnocracia”. O sonho está à venda em músicas. os loucos. a cultura de massa não encontrou outra alternativa senão encampar a contracultura e trazê-la de volta apenas para o imaginário. Mais do que isso. industrialista. histórias. de forma a incentivar o desenvolvimento da sociedade capitalista. que depende do trabalho. Segundo John Lennon. as crianças e as mulheres . para que os indivíduos satisfizessem seus desejos e sonhos projetivamente (MORIN. As características opostas a essas – o ócio. documentários. programas de televisão. O sonho alimenta a sua própria delimitação. constata-se que ele ainda existe como produto. Dessa forma. o holismo. mitos. para que ela se fortaleça a cada dia mais. longe da sua concretização real. filmes. bottons. da concepção individualista. camisetas. consumista e “tecnocrática”. Porém. os índios. a contracultura se colocou em concorrência com a “sociedade dentro dos produtos da cultura de massa”. 1967) dentro dos produtos da indústria cultural. Dessa forma.

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without you You never give me your money Your mother should know . ob-la-da Only a Northern song Paperback writer Penny Lane Piggies Revolution Roll Over Beethoven Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band − Sargent Pepper’s Lonely Hearts Club Band (reprise) − She came in through the bathroom window − − − − − − − − − − She’s leaving home Taxman The ballad of John and Yoko Ticket to ride Two of us When I’m sixty-four While my guitar gently weeps Within you. Kite Birthday Can’t buy me love Doctor Robert Drive my car Eleanor Rigby Glass onion Good morning. organizadas em ordem alfabética: − − − − − − − − − − − − − − − − − − − − − − − A day in the life A hard day’s night Act Naturally Baby. good morning Honey pie I am the walrus I’m down Lady Madonna Love you to Lovely Rita Magical Mistery Tour Mean Mr. you’re a rich man Being for the benefit of Mr. Postman Money Norwegian wood − − − − − − − − Ob-la-di.7 Anexo Letras de música dos Beatles analisadas nesta dissertação.Mustard Mr.

Woke up. got out of bed dragged a comb across my head Found my way downstairs and drank a cup and looking up. Oh! So why I love to come home 'cause when I get you alone You know I feel okay When I'm home Everything seems to be all right when I'm home feeling you holding me tight. boy Four thousand holes in Blackburn. boy The English army had just won the war A crowd of people turned away But I just had to look Having read the book I love to turn you on.Anexo A day in the life Lennon / McCartney I read the news today oh. Lancashire And though the holes were rather small They had to count them all Now they know how many holes it takes to fill the Albert Hall I'd love to turn you on A hard day’s night Lennon / McCartney It's been a hard day's night And I've been working like a dog It's been a hard day's night I should be sleeping like a log But when I get home to you I find the things that you do Will make me feel all right You know I work all day To get you money to buy you things And it's worth it just to hear you say You're gonna give me everything So why I love to come home 'cause when I get you alone You know I feel okay When I'm home everything seems to be all right when I'm home feeling you holding me tight. I just had to laugh I saw the photograph He blew his mind out in a car He didn't notice that the lights had changed A crowd of people stood and stared They'd seen his face before Nobody was really sure if he was from the House of Lords I saw a film today oh. tight Yeah. I noticed I was late Found my coat and grabbed my hat Made the bus in seconds flat Found my way upstairs and had a smoke Somebody spoke and I went into a dream I read the news today oh. it's been a hard day's night And I've been working like a dog It's been a hard day's night I should be sleeping like a log But when I get home to you I find the things that you do Will make me feel all right. it's been a hard day's night And I've been working like a dog It's been a hard day's night I should be sleeping like a log But when I get home to you I find the things that you do Will make me feel all right You know I feel all right You know I feel all right . all through the night Yeah. boy About a lucky man who made the grade And though the news was rather sad Well.

Anexo Act naturally Morrison / Russel They're gonna put me in the movies They're gonna make a big star out of me We'll make a film about a man that's sad and lonely And all I gotta so is act naturally Well. What did you see.. Now that you've found another key What are you going to play? Baby you're a rich man. Baby you're a rich man. I'll bet you I'm gonna be a big star Might win an Oscar you can never tell The movies gonna make me a big star 'Cause I can plat the part so well Well I hope you come and see me in the movies Then I know that you will plainly see The biggest fool that ever hit the big time And all I gotta do is act naturally We'll make the scene about a man that's sad and lonely And beggin down upon his bended knee I'll play the part but I won't need rehearsal All I gotta do is act naturally Well. Baby you're a rich man too. I'll bet you I'm gonna be a big star Might win an Oscar you can never tell The movies gonna make me a big star 'Cause I can plat the part so well Well I hope you come and see me in the movies Then I know that you will plainly see The biggest fool that ever hit the big time And all I gotta do is act naturally Baby. Baby you're a rich man. Baby you're a rich man. Baby you're a rich man too. What a thing to do. Baby you're a rich man. Baby you're a rich man. Baby you're a rich man too. You keep all your money in a big brown bag inside a zoo. you’re a rich man Lennon / McCartney How does it feel to be One of the beautiful people? Now that you know who you are What do you want to be? And have you travelled very far? Far as the eye can see. What a thing to do. Baby you're a rich man. How does it feel to be One of the beautiful people? How often have you been there? Often enough to know. How does it feel to be One of the beautiful people? Tuned to A natural E Happy to be that way. when you were there? Nothing that doesn't show. . You keep all your money in a big brown bag inside a zoo..

party Yes we're going to a party. Kite flies through the ring.Anexo Being for the benefit of Mr. Kite there will be a show tonight on trampoline The Hendersons will all be there late of Pablo Fanques'fair. Kite Lennon / McCartney For the benefit of Mr. party I would like you to dance (birthday) Take a cha-cha-cha-chance (birthday) I would like you to dance (birthday) Ooo. yeah I would like you to dance (birthday) Take a cha-cha-cha-chance (birthday) I would like you to dance (birthday) Ooo. assure the public their production will be second to none And of course Henry the Horse dances the waltz The band begins at ten to six when Mr. don't be late Messers K. yeah They say it's you birthday We're gonna have a good time I'm glad it's your birthday Happy birthday to you Yes we're going to a party. what a scene Over men and horses hoops and garters and lastly through a hogshead of real fire In this way Mr. Kite is topping the bill Birthday Lennon / McCartney You say it's your birthday It's my birthday too. and H. K performs his tricks without a sound And Mr. dance You say it's your birthday It's my birthday too. yeah They say it's you birthday We're gonna have a good time I'm glad it's your birthday Happy birthday to you Happy birthday to you . K will challenge the world The celebrated Mr. dance. party Yes we're going to a party. H will demonstrate ten somersets he'll undertake on solid ground Having been some days in preparation a splendid time is guaranteed for all And tonight Mr. K performs his feats on Saturday at Bishopsgate The Hendersons will dance and sing as Mr.

he'll make you Doctor Robert Ring. well. my friend I said you'd call Doctor Robert Doctor Robert . can't buy me love. love Can't buy me love. no Say you don't need no diamond ring And I'll be satisfied Tell me that you want those kind of things that money just can't buy For I don't care too much for money For money can't buy me love Can't buy me love Everybody tells me so Can't buy me love No. well. you're feeling fine Well. he'll make you Doctor Robert My friend works for the National Health Doctor Robert Don't pay money just to see yourself Doctor Robert Doctor Robert You're a new and better man He help you to understand He does everything he can Doctor Robert Well. my friend I said you'd call Doctor Robert Day or night he'll be there any time at all Doctor Robert Doctor Robert You're a new and better man He help you to understand He does everything he can Doctor Robert If you're down he'll pick you up Doctor Robert Take a drink from his special cup Doctor Robert Doctor Robert He's a man you must believe Helping anyone in need No one can succeed like Doctor Robert Well. no . well.no.Anexo Can’t buy me love Lennon / McCartney Can't buy me love. well. no Say you don't need no diamond ring And I'll be satisfied Tell me that you want those kind of things that money just can't buy For I don't care too much for money For money can't buy me love Ooh. well. love Can't buy me love I'll buy you a diamond ring my friend If it makes you feel all right I'll get you anything my friend If it makes you feel all right 'Cause I don't care too much for money For money can't buy me love I'll give you all I've got to give If you say you love me too I may not have a lot to give but what I've got I'll give to you For I don't care too much for money For money can't buy me love Can't buy me love Everybody tells me so Can't buy me love No. well.no. well. no . well. no Doctor Robert Lennon / McCartney Ring. you're feeling fine Well.

look at all the lonely people Eleanor Rigby. yeah Eleanor Rigby Lennon / McCartney Ah. a star of the screen But you do something in between" "Baby. died in the church and was buried along with her name Nobody came Father McKenzie. look at all the lonely people Ah. yeah "Baby. you can drive my car yes. you can drive my car yes. wiping the dirt from his hands as he walks from the grave No one was saved All the lonely people Where do they all come from? All the lonely people Where do they all belong? .Anexo Drive my car Lennon / McCartney Asked a girl what she wanted to be She said "baby can't you see I wanna be famous. wearing the face that she keeps in a jar by the door Who is it for All the lonely people Where do they all come from? All the lonely people Where do they all belong? Father McKenzie. I'm gonna be a star Baby you can drive my car And maybe I'll love you" Beep beep mm beep beep. look at all the lonely people Ah. yeah Beep beep mm beep beep. I'm gonna be a star Baby you can drive my car And maybe I'll love you" Beep beep mm beep beep. you can drive my car yes. I'm gonna be a star Baby you can drive my car And maybe I'll love you" I told that girl I could start right away And she said "listen baby I've got something to say I got no car and it's breaking my heart But I've found a driver and that's a start "Baby. darning his socks in the night when there's nobody there What does he care All the lonely people Where do they all come from? All the lonely people Where do they all belong? Ah. picks up the rice in the church where a wedding has been Lives in a dream Waits at the window. writing the words of a sermon that no one will hear No one comes near Look at him working. you can drive my car yes. I'm gonna be a star Baby you can drive my car And maybe I'll love you" I told that girl that my prospects were good And she said "baby it's understood Working for peanuts is all very fine But I can show you a better time" "Baby. yeah Beep beep mm beep beep. look at all the lonely people Eleanor Rigby.

man You know that we’re as close as can be. good morning Lennon / McCartney Good morning good morning good morning good morning good morning Nothing to do to save his life call his wife in Nothing say but what a day how’s your but been Nothing to do. you’re in the street After a while you start to smile now you feel cool Then you decide to take a walk by the old school Nothing has changed it’s still the same I’ve got nothing to say but it’s O.K. yeah Lady Madonna trying to make ends meet. it’s up to you I’ve got noting to say but it’s O. Good morning good morning good morning Going to work don’t want to go feeling low down Heading for home you start to roam then you’re in town Everybody knows there’s nothing doing Everything is closed. yeah Looking through a glass onion Oh yeah.K. it’s like a ruin Everyone you see is half asleep And you’re on your own.K. oh yeah Looking through a glass onion I told you about the fool on the hill I tell you man he’s living there still Well here’s another place you can be Listen to me Fixing a hole in the ocean Tryin’ to make a dovetail joint Looking through a glass onion Good morning. man Well here’s another clue for you all The walrus is Paul Standing on the cast iron shore. Good morning good morning . Good morning good morning good morning People running ‘round it’s five o’clock Everywhere in town it’s getting dark Everyone you see is full of life It’s time for tea and meet the wife Somebody needs to know the time glad that I’m here Watching the skirts you start to flirt no you’re in gear Go to a show you hope she goes I’ve got nothing to say but it’s O.Anexo Glass onion Lennon / McCartney I told you about strawberry fields You know the place where nothing is real Well here’s another place you can go Where everything flows Looking through the bent backed tulips To see how the other half live Looking through a glass onion I told you about the walrus and me. oh yeah.

If the sun don't come. you been a naughty boy. I'm crying. come back to me Come. I am the walrus.Anexo Honey pie Lennon / McCartney She was a working girl North of England way Now she's in the big time In the USA And if she could only gear me this is what I'd say Honey pie. See how they run like pigs from a gun. Elementary penguin singing Hari Krishna. they are the eggmen. goo goo g'joob g'goo goo g'joob. dripping from a dead dog's eye. I am the walrus. honey pie I am the walrus Lennon / McCartney I am he as you are he as you are me and we are all together. Expert textpert choking smokers. . see how they run. Sitting on a cornflake. come back to me. I am the walrus. I'm crying. Mister City Policeman sitting Pretty little policemen in a row. honey pie You are driving me frantic Sail across the Atlantic To be where you belong Honey pie. I'm crying. Don't you thing the joker laughs at you? See how they smile like pigs in a sty. you let your face grow long. they are the eggmen. you get a tan From standing in the English rain. Man. See how they fly like Lucy in the Sky. goo goo g'joob. See how they snied. I am the eggman. Crabalocker fishwife. goo goo g'joob g'goo goo g'joob. Semolina pilchard. Goo goo g'joob g'goo goo g'joob g'goo. I'm crying. I am the eggman. ha. I'm crying. I am the eggman. Yellow matter custard. Honey Pie My position is tragic Come and show me the magic of you Hollywood song You became a legend of the silver screen And now the though of meeting you makes me weak in the knee Oh. I'm crying. you been a naughty girl you let your knickers down. you are making me crazy I'm in love. they are the eggmen. Sitting in an English garden waiting for the sun. Now honey pie You are making me crazy I'm in love but I'm lazy Son won't you please come home Honey pie. T. climbing up the Eiffel Tower. goo goo g'joob. Man. waiting for the van to come. stupid bloody Tuesday. Boy. but I'm lazy So won't you please home Oh. Tee. ha Honey pie. Honey pie ha. Corporation tee-shirt. they are the eggmen. see how they fly. I am the walrus. I am the eggman. pornographic priestess. you should have seen them kicking Edgar Allan Poe. come back to me Will the wind that blew her boat across the sea kindly send her sailing back to me T.

Lady Madonna. Man buys ring woman throws it away Same damn thing happens everyday I’m down (I’m really down) I’m down (Down on the ground) I’m down (I’m really down) How can you laugh when you know I’m down (How can you laugh) When you know I’m down. See how they run. children at your feet. Thursday night you stockings needed mending. Monday’s child has learned to tie his bootlace. We’re all alone and there’s nobody else You still moan: “Keep your hands to yourself!” I’m down (I’m really down) I’m down (Down on the ground) I’m down (I’m really down) How can you laugh when you know I’m down (How can you laugh) When you know I’m down. down. Lady Madonna. Don’t you know that I’m down (I’m really down) Don’t you know that I’m down (I’m really down) Down on the ground (I’m really down) Don’t you know that I’m down (I’m really down) Down. baby at your breast. Listen to the music playing in your head. Lady Madonna Lennon / McCartney Lady Madonna. See how they run. .Anexo I’m down Lennon / McCartney You telling lies thinking I can’t see You don’t cry ‘cos you’re laughing at me I’m down (I’m really down) I’m down (Down on the ground) I’m down (I’m really down) How can you laugh when you know I’m down (How can you laugh) When you know I’m down. Lady Madonna. down. Wednesday morning papers didn’t come. Wonder how you manage to feed the rest. lying on the bed. Wonder how you manage to make ends meet. Who finds the money? When you pay the rent? Did you think that money was heaven sent? Friday night arrives without a suitcase. children at your feet. See how they run. Tuesday afternoon is never ending. Sunday morning creep in like a nun. Wonder how you manage to make ends meet.

meter maid . Lovely Rita meter. you'll see I'll make love to you If you want me to Lovely Rita Lennon / McCartney Lovely Rita meter maid nothing can come between us When it gets dark I tow your heart away Standing by a parking meter when I caught a glimpse of Rita Filling in a ticket in her little white book In a cap she looked much older And the bag across her shoulder Made her look a little like a military man Lovely Rita meter maid may I inquire discreetly When are you free to take some tea with me Took her out and tried to win her had a laugh and over dinner Told her I would really like to see her again Got the bill and Rita paid it Took her home and nearly made it Sitting on a sofa with a sister or two Lovely Rita meter maid where would I be without you give us a wink and make me think of you Lovely meter maid Rita meter maid oh.Anexo Love you to Harrison Each day just goes so fast I turn around. it's past You don't get time to hang a sign on me Love me while you can Before I'm a dead old man A life time is so short A new one can't be bought But what you've got means such a lot to me Make love all day long Make love singing songs Make love all day long Make love singing songs There's people standing round Who'll screw you in the ground They'll fill you in with all their sins.

roll up for the mystery tour. The magical mystery tour is waiting to take you away. roll up for the mystery tour. roll up for the mystery tour. roll up for the mystery tour. roll up for the mystery tour. take you away.Anexo Magical Mistery Tour Lennon / McCartney Roll up. roll up for the mystery tour. The magical mystery tour is dying to take you away. Roll up satisfaction guaranteed. Roll up and that’s an invitation. roll up for the mystery tour. Roll up. The magical mystery tour is hoping to take you away. Roll up to make a reservation. Mustard sleeps in the park shaves in the dark. she's a go getter Takes him out to look at the Queen Only place that he's ever been Always shouts out something obscene Such a dirty old man Dirty old man . Dying to take you away. Mean Mr. Coming to take you away. Mustard Lennon / McCartney Mean Mr. Roll up. roll up for the mystery tour. roll up for the mystery tour. Waiting to take you away. Roll up to make a reservation. Roll up. tries to save paper Sleeps in a hole in the road Saving up to buy him some clothes Keeps a ten bob note up his nose Such a mean old man Such a mean old man His sister Pam works in a shop she never stops. The magical mystery tour is coming to take you away. Roll up. roll up for the mystery tour. Roll up we’ve got everything we need. roll up for the mystery tour. Hoping to take you away. Roll up. roll up for the mystery tour. Roll up and that’s an invitation.

I can't use Now give me money That's what I want That's what I want. yeah that's what I want. wait just a minute mister postman Wait. money Wow. wait a minute wait a minute Mister Postman. I can't use Now give me money That's what I want That's what I want. yeah .Anexo Mr. yeah That's what I want Well now give me money Ow. yeah. yeah. wait mister postman (Mister postman look and see) (If there's a letter in the bag for me) Please mister postman (I've been waiting a long long time) (Since I heard from that girl of mine) There must be some mail today From my girlfriend so far away Please mister postman look and see If there's a letter. money Wow. Postman Dobbin /Garrett /Garman /Brianbert Oh yes. yeah That's what I want Money don't get everything it's true What it don't get. yeah That's what I want You're lovin' gives me a thrill But you're lovin' don't pay my bills Now give me money That's what I want That's what I want. give me money That's what I want. the sooner the better Money Bradfor / Gordy The best things in life are free But you can keep them for the birds and bees Now give me money That's what I want That's what I want. for me I've been waiting such a long long time Since I heard from that girl of mine You gotta. yeah. well Now give me money ow. you need money now. I wanna be free Oh I want money That's what I want That's what I want. wait a minute wait a minute Wait a minute wait a minute (you gotta) check and see one more time for me You gotta. deliver the letter. yeah That's what I want. look and see Is there a letter. a letter for me I've been standing here waiting Mister Postman So patiently for just a card or just a letter Saying she's returning home to me Please Mister Postman (Mister postman look and see) (If there's a letter in the bag for me) Please mister postman (I've been waiting a long long time) (Since I heard from that girl of mine) So many days you past me by See the tears standing in my eyes You didn't stop to make me feel better By leaving me a card or letter Mister Postman. wah Money don't get everything it's true What it don't get.

bra La la how the life goes on Ob-la-di. Life goes on. ob-la-da. ob-la-da Life goes on. In a couple of years they have built a home sweet home With a couple of kids running in the yard of Desmond and Molly Jones Happy ever after in the market place Desmond lets the children lend a hand Molly stays at home and does her pretty face And in the evening she's a singer with the band Refrão Happy ever after in the market place Molly lets the children lend a hand Desmond stays at home and does his pretty face And in the evening she's a singer with the band Refrão . ob-la-da Lennon / McCartney Desmond has a barrow in the marketplace Molly is the singer in a band Desmond say to Molly. girl I like you face And Molly says this as she takes him be the hand Refrão: Ob-la-di. bra La la how the life goes on Desmond take a trolley to the jewelers store Buys a twenty carat golden ring.Anexo Norwegian wood Lennon / McCartney I once had a girl Or should I say she once had me She showed me get room Isn't it good Norwegian wood? She asked me to stay And she told me to sit anywhere So I looked around And I noticed there wasn't a chair I sat on a rug biding my time drinking her wine We talked until two and then she said "it's time for bed" She told me she worked in the morning and started to laugh I told her I didn't and crawled off to sleep in the bath And when I awoke I was alone This bird had flown So I lit a fire Isn't it good Norwegian wood? Ob-la-di. (rinring) Takes it back to Molly waiting at the door And as he gives it to her she begins to sing (sin-sing) Refrão Yeah.

.Anexo Only a Northern song Harrison If you’re listening to this song You may think the chords are going wrong But they’re not He just wrote it like that When you’re listening late at night You may think the bands are not quite right But they are They just play it like that It doesn’t really matter what chords I play What words I say or time of day it is As it’s only a Northern Song It doesn’t really matter what clothes I wear or how I fare or if my hair is brown When it’s only a Northern Song If you think the harmony Is a lttle dark and out of key You’re correct There’s nobody there And I told you there’s no one there Paperback writer Lennon / McCartney Paperback Writer.. Paperback writer. Paperback writer. Paperback writer. It could make a million for you overnight. so I want to be a paperback writer. . give or take a few.. Paperback writer It’s a thousand pages. you can send it here But I need a break and I want to be a paperback writer. If you must return it. If you really like it you can have the rights. will you take a look? Based on a novel by a man named Lear And I need a job. His son is working for the Daily Mail. will you read my book? It took me years to write. I’ll be writing more in a week or two.. It’s a steady job but he wants to be a paperback writer.. It’s the dirty story of a dirty man And his clinging wife doesn’t understand. I can change it round and I want to be a paperback writer. Paperback writer. Paperback writer Paperback writer – paperback writer Paperback writer – paperback writer.. I can make it longer if you like the style. Dear Sir or Madam.

And all the people that come and go Stop and say hello. Penny Lane is in my ears and in my eyes. and meanwhile back. And the banker never wears a mack In the pouring rain. We see the banker sitting waiting for a trim. the corner is a banker with a motorcar. Piggies Harrison Have you see the little piggies crawling in the dirt And for all the little piggies Life is getting worse Always having dirt to play around in Have you see the bigger piggies In their starched white shirts You will find the bigger piggies Stirring up the dirt Always have clean shirts to play around in In their sties with all their backing They don't care what goes on around In their eyes there's something lacking What they need's a darn good whacking Everywhere there's lots of piggies Living piggy lives You can see them out for dinner With their piggy wives Clutching forks and knives to eat their bacon One more time . There beneath the blue suburban skies I sit. There beneath the blue suburban skies I sit. meanwhile back Behind the shelter in the middle of a roundabout The pretty nurse is selling poppies from a tray And tho' she feels as if she's in a play She is anyway. very strange. Penny Lane is in my ears and in my eyes. The little children laugh at him behind his back.Anexo Penny Lane Lennon / McCartney In Penny Lane there is a barber showing photographs Of every head he's had the pleasure to know. Penny lane is in my ears and in my eyes. It's a clean machine. A four of fish and finger pies In summer. and meanwhile back In penny Lane there is a fireman with an hourglass And in his pocket is a portrait of the Queen. And then the fireman rushes in From the pouring rain. In Penny Lane the barber shaves another customer. very strange. He likes to keep his fire engine clean.

you know You better free you mind instead But if you go carrying pictures of chairman Mao You ain't going to make it with anyone anyhow Don't you know it's gonna be all right Don't you know it's gonna be all right Don't you know it's gonna be all right Ah ah ah ah ah ah ah ah ah ah all right. you know We'd all love to see the plan You ask me for a contribution Well. you know We all want to change the world You tell me that it's evolution Well. all right all right. you know We all want to change the world But when you talk about destruction Don't you know that you can count me out Don't you know it's gonna be all right Don't you know it's gonna be all right Don't you know it's gonna be all right You say you got a real solution Well.J. all right.Anexo Revolution Lennon / McCartney You say you want a revolution Well. It's a rockin' little record I want my jockey to play Roll over Beethoven I gotta hear it again today You know my temperature's risin' and the jukebox's blowin' a fuse My hearts beatin' rhythm and my soul keeps singing the blues Roll over Beethoven and tell Tchaikovsky the news I got a rockin' pneumonia I need a shot of rhythm and blues I think I got it off the writer sittin' down by the rhythm review Roll over Beethoven we're rockin' in two by two Well if you fell you like it Get your lover and reel and rock it roll it over and move on up just jump around and reel and rock it roll it over Roll over Beethoven a rockin' in two by two . all right. all right. all right Roll over Beethoven Berry Well gonna write a little letter Gonna mail it to my local D. all right all right. oh Well early in the mornin' I'm a givin' you the warnin' Don't you step on my blue suede showes Hey little little gonna play my fiddle Ain't got nothing to lost Roll over Beethoven and tell Tchaikovsky the news You know she winks like a glow worm Dance like a spinnin' top She got a crazy partner oughta see 'em reel an rock Long as she's got a dime the music will never stop Roll over Beethoven and dig these rhythm and blues . you know We all want to change your head You tell me it's the institution Well. all right all right. you know We're doing what we can But when you want money for people with minds that hate All I can tell is brother you have to wait Don't you know it's gonna be all right Don't you know it's gonna be all right Don't you know it's gonna be all right You say you'll change the constitution Well.

Pepper’s Lonely Heart’s Club Band we hope you will enjoy the show Sgt. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band Sgt. Pepper’s Lonely Sgt. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band We’re Sgt. Pepper’s Lonely. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band . Pepper’s Lonely Heart’s Club Band We hope you will enjoy the show Sgt. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band It’s wonderful to be here It’s certainly a thrill You’re such a lovely audience We’d like to take you home with us We’d love to take you home I don’t really want to stop the show But I thought you might like to know that the singers going to sing a some And he wants you all the sing along So may I introduce to you The one and only Billy Shears Sgt. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band Sit back and let the evening go Sgt. Sgt. Sgt. Pepper’s Lonely Sgt.Anexo Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band Lennon / McCartney It was twenty years ago today Sgt. Pepper’s Lonely Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (reprise) Lennon / McCartney We’re Sgt. Pepper’s Lonely Sgt. Pepper’s one and only Lonely Heart’s Club Band It’s getting very near the end Sgt. Pepper’s Lonely. Sgt. Sgt. Pepper’s Lonely. Pepper taught the band to play They’ve been going in and out of style But they’re guaranteed to raise a smile So may I introduce to you the act you’ve know for all these years Sgt. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band We’re sorry but it’s time to go Sgt. Pepper’s Lonely. Pepper’s Lonely Heart’s Club Band We’d like to thank you once again Sgt.

yeah She’s leaving home Lennon / McCartney Wednesday morning at five o'clock as the day begins Silently closing her bedroom door Leaving the note that she hoped would say more She goes downstairs to the kitchen clutching her handkerchief Quietly turning the back door key Stepping outside she is free She (we gave her most of our lives) is leaving (sacrificed most of our lives) home (we gave her everything money could buy) She's leaving home after living alone for so many years (bye bye) Father snores as his wife gets into her dressing gown Picks up the letter that's lying there Standing alone at the top of the stairs She breaks down and cries to her husband Daddy our baby's gone Why would she treat us so thoughtlessly How could she do this to me She (We never thought of ourselves) is leaving (never a thought for ourselves) home (we struggled hard all our lives to get by) She's leaving home after living alone for so many years (bye bye) Friday morning at nine o'clock she is far away Waiting to keep the appointment she made Meeting a man from the motor trade She (what did we do that was wrong) is having (we didn't know it was wrong) fun (fun is the one thing that money can't buy) Something inside that was always denied for so many years (bye bye) She's leaving home (bye bye) .Anexo She came in through the bathroom window Lennon / McCartney She came in through the bathroom window protected by a silver spoon But now she sucks her thumb and wonders By the banks of her own lagoon Didn't anybody tell her Didn't anybody see Sunday's on the phone to Monday Tuesday's on the phone to me She said she's always been a dancer She worked at fifteen clubs a day And though she thought I knew the answer Well I knew what I could not say And so I quit the Police Department And got myself a steady job And though she tried her best to help me She could steal. but she could not rob Didn't anybody tell her Didn't anybody see Sunday's on the phone to Monday Tuesday's on the phone to me Oh.

They look just like two gurus in drag". near Spain"..think!" Made a lightning trip to Vienna. Finally made the plane into Paris. The men from the press said. The newspapers said. Talking in our beds for a week. You know how hard it can be. Peter Brown called to say. "Say what you doing in bed?" I said. The way things are going They're going to crucify me. yeah. Refrão Drove from Paris to the Amsterdam Hilton. "She's gone to his head. eating chocolate cake in a bag. nineteen for me 'cause I'm the taxman. "You've got to turn back". Last night the wife said. Refrão Saving up your money for a rainy day. "We're only trying to get us some peace". Refrão . I'm the taxman Now my advice for those who die Declare the pennies on your eyes 'cause I'm the taxman. I'm the taxman Should five percent appear too small Be thankful I don't take it all 'cause I'm the taxman. I'm the taxman And you're working for no one but me The ballad of John and Yoko Lennon / McCartney Standing in the dock at Southampton. Yeah. Trying to get to Holland or France. yeah. when you're dead You don't take nothing with you But your soul . Refrão: Christ you know it ain't easy. yeah. Giving all your clothes to charity. I'll tax your feet Taxman 'Cause I'm the taxman. You can get married in Gibraltar. Fifty acorns tied in a sack. I'll tax the heat If you take a walk.K. I'll tax your seat If you get too cold. yeah. Honey mooning down by the Seine.Anexo Taxman Harrison Let me tell you how it will be There's one for you. Refrão Caught an early plane back to London. "We wish you success. The man in the mac said. It's good to have the both of you back". I'll tax the street If you try to sit. I'm the taxman If you drive a car. You know they didn't even give us a chance. "Oh boy. The newspapers said. "You can make it O. I'm the taxman Don't ask me what I want it for If you don't want to pay some more 'cause I'm the taxman.

Yeah The girl that's driving me mad is going away Refrão: She's got a ticket to ride She's got a ticket to ride She's got a ticket to ride but she don't care She said that living with me is bringing her down. I think it's today. yeah. Yeah The girl that's driving me mad is going away. yeah For she would never be free when I was around Refrão I don't know why she's riding so high She ought to think right She ought to do right by me Before she gets to saying goodbye She ought to think right She ought to do right by me I think I'm gonna be sad. I think it's today. yeah For she would never be free when I was around She's got a ticket to ride She's got a ticket to ride She's got a ticket to ride but she don't care My baby don't care Two of us Lennon / McCartney Two of us riding nowhere spending someone's hard earned pay You and me Sunday driving Not arriving on our way back home We're on our way back home We're on our way home We're going home Two of us sending postcards writing letters on my wall You and me burning matches lifting latches on our way back home We're on our way back home We're on our way home We're going home You and I have memories longer that that road that stretches out ahead Two of us wearing raincoats standing solo in the sun You and me chasing paper getting nowhere on our way back home We're on our way back home We're on our way home We're going home You and I have memories longer that that road that stretches out ahead Two of us wearing raincoats standing solo in the sun You and me chasing paper getting nowhere on our way back home We're on our way back home We're on our way home We're going home We're going home .Anexo Ticket to ride Lennon / McCartney I think I'm gonna be sad. oh Refrão I don't know why she's riding so high She ought to think right She ought to do right by me Before she gets to saying goodbye She ought to think right She ought to do right by me She said that living with me is bringing her down.

oh oh oh oh oh oh oh oh oh oh. oh oh. bottle of wine If I’d been out till quarter to three would you lock the door Will you still need me Will you still feed me When I’m sixty-four You’ll be older too And if you say the word I could stay with you I could be handy mending a fuse when your light have gone You can knit a sweater by the fireside Sunday mornings. Chuck. go for a ride Doing the garden. digging the weeds Who could ask for more Will you still need me Will you still feed me When I’m sixty-four Every summer we can rent a cottage on the Isle of Wight. and Dave Send me a postcard. oh oh Yeah yeah yeah yeah yeah yeah yeah yeah . drop me a line stating point of view indicate precisely what you mean to say yours sincerely wasting away Give me your answer fill in a form mine forever more Will you still need me Will you still feed me When I’m sixty-four While my guitar gently weeps Harrison I look at you all see the love there that’s sleeping While my guitar gently weeps I look at the floor and I see it need sweeping Still my guitar gently weeps I don’t know why nobody told you how to unfold you love I don’t know how someone controlled you they bought and sold you I look at the world and I notice it’s turning While my guitar gently weeps With every mistake we must surely be learning Still my guitar gently weeps I don’t know how you were diverted you were perverted too I don’t know how you were inverted no on altered you I look at you all see the love there that’s sleeping While my guitar gently weeps I look at you all Still my guitar gently weeps Oh. if it’s not too dear We shall scrimp and save Grandchildren on your knee Vera. oh.Anexo When I’m sixty-four Lennon / McCartney When I get older losing my hair many years from now will you still be sending me a valentine birthday greeting.

nowhere to go Any jobber got the sack Monday morning turning back Yellow lorry slow. Ooo. pay no rent All the money's gone. nowhere to go But oh.Anexo Within you. that magic feeling Nowhere to go Oh. Ah. that magic feeling nowhere to go nowhere to go Ah. they can't see Are you one of them When you've seen beyond yourself then you may find peace of mind is waiting there And the time will come when you see we're all one and life flows on within you and without you You never give me your money Lennon / McCartney You never give me your money you only give me you funny paper And in the middle of negotiation you break down I never give you my number I only give you my situation And in the middle of investigation I break down Out of college money spent See no future. with our love we could save the world if they only knew Try to realize it's all within yourself no one else ca make you change And to see you're really only very small and life flows on within you and without you We were talking about the love that's gone so cold and the people who gain the world and lose their soul They don't know. without you Harrison We were talking about the space between us all and people who hide themselves behind a wall of illusion never glimpse the truth then it's far too late when they pass away We were talking about the love we all could share When we find it to try our best to hold it there with our love. Ah One sweet dream Pick up the bags and get in the limousine Soon we'll be away from here Step on the gas and wipe that tear away One sweet dream Came true today Came true today Came true today One two three four five six seven All good children go to heaven . Ooo.

..) .) Your mother should know (Yeah....) Lift up your hearts and sing me a song That was a hit before your mother was born.. long time ago Your mother should know (Your mother should.) Your mother should know (.) Your mother should know (Your mother should.) Your mother should know (Yeah... long time ago Your mother should know (Your mother should.) Your mother should know (Yeah. Though she was born a long..) Your mother should know (Your mother should.know. Though she was born a long. long time ago Your mother should know (Your mother should...know.. Though she was born a long..) Your mother should know (Aaaah.. Da-da-da-da..) Your mother should know (... long time ago Your mother should know (Your mother should.) Sing it again. Though she was born a long.) Your mother should know (Aaaah.) Your mother should know (Your mother should.) Sing it again...Anexo Your mother should know Lennon / McCartney Let's all get up and dance to a song That was a hit before your mother was born.. Let's all get up and dance to a song That was a hit before your mother was born.