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Latusa Digital – número 28 – ano 4 – junho de 2007 O objeto a e o drama da subjetivação* Carlos Augusto Nicéas No Livro 10 do seu Seminário

, A angústia, Lacan enumera os objetos a, cada uma de suas formas sendo isolada como um pedaço de corpo, lembra-nos Miller introduzindo-nos, em Roma, ao tema do próximo Congresso da AMP: “Os objetos a na experiência analítica”. No Livro 16, De um Outro ao outro, Lacan extrai dessa experiência os termos que, segundo ele, permitem situar propriamente a psicanálise: sujeito, objeto a, gozo, Outro. Ele diz: “O a é o efeito de queda que resulta disto: no jogo do significante é o gozo, no entanto, que é visado. O sujeito surge da relação indizível com o gozo” 1. E pelo fato de sua entrada no sistema dos significantes, ele é “marcado por uma relação com aquilo que, desenvolvendo-se a partir daí, vai tomar forma como Outro”.2 Em várias lições do Livro 16, Lacan vai acentuar a importância que toma o objeto a na anterioridade dessa relação indizível com o gozo, quando a estrutura do sujeito, precisa ele numa delas, eclode em “drama”; importância dada ao objeto a “não enquanto ele seria presentificado nesse momento, mas em razão de se poder demonstrar retroativamente que é ele que outrora constituía toda a estrutura do sujeito”.3 A clínica vai lhe permitir desdobrar essa demonstração. A perversão lhe abre o caminho na direção da fobia para que ele tente responder à questão sobre o momento de surgimento da neurose. Da perversão ele sublinha o que ela permite reafirmar clinicamente: que ela “é a restauração, de alguma maneira primeira, a restituição do a ao campo do Outro” 4. Maneira de Lacan nos devolver ao efeito do encontro do “ser animal” com a linguagem, resultando disso alguma coisa que nele “se determina como a, esse a restituído ao Outro” 5. A perversão, em sua definição, é justamente “a estrutura do sujeito para quem a referência à castração (...) está fechada, mascarada, preenchida pela operação misteriosa do objeto a. É um modo de evitar essa hiância radical na ordem do significante, que a castração representa. A base e o princípio da estrutura perversa são de evitá-la provendo esse Outro de alguma coisa que substitua a falta fálica” 6. Desde, então, que na experiência analítica alguém “se encontra em postura de
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Este texto é o editorial do Boletim Um-por-um n° 32 que traz contribuições dos Membros da EBP sobre o tema do VII Congresso da EBP, “A variedade clínica dos objetos (a)”, realizada em 28 e 29 de abril de 2007, na Bahia-Salvador.

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) e. Num outro tempo do seminário. de um lado. diante da exigência de ter de tomar uma posição. a primeira designando uma relação de apoio no nível do Outro.. de outro lado. perfeitamente típico das primeiras sensações mais ou menos ligadas ao onanismo (. a junção entre o a. um caso clínico exemplar para que dele se extraia a resposta que dá o sujeito no instante crucial do drama da subjetivação: se “é preciso que o jovem sujeito responda aos efeitos que se produzem pela intrusão da função sexual em seu campo subjetivo” 14 . a saber. isto é. essencial à constituição.. Lacan se volta para a fobia. “pelo fato de definir propriamente o que eu situei no nível da estrutura fundamental da perversão. o que vai se pôr em jogo nesse momento? Nós sabemos. não podendo contar somente com os 2 . para ele há um impossível de dizer o que lhe acontece. nesse momento. diz Lacan. à intrusão traumática de um gozo auto-erótico em seu campo psíquico. um certo jogo.funcionar como o Outro.) na criança” 10 . dito perverso. da posição do sujeito. o gozo. Então. Dessa relação positiva com o gozo sexual surge o desejo de saber. a saber. ponto preciso que corresponde ao “momento mesmo onde se produz a positivação do gozo erótico. para a psicanálise. a relação anaclítica ganha o seu estatuto de relação. assim. a positivação do sujeito enquanto dependência anaclítica do desejo do Outro” 12 . e que está presente em todas as variedades de efeitos que nos interessam”. o campo do Outro onde se ordena o saber”. indicando-nos. Lacan não hesita em considerar essa articulação.. no Livro 16. e onde se produz. preenchido. dá-se algo “na ordem das satisfações restituídas ao Outro” 8. Ele vai então reler Freud. “o ponto por onde a 11 estrutura do sujeito produz-se como drama” . para Lacan. Hans. mascarado. através do qual o estatuto do Outro está assegurado como coberto. aquilo onde o sujeito pode reencontrar sua essência real (. ele. primordial. para a neurose do pequeno Hans. o grande Outro” 7.9 A análise de Hans possibilitou a Lacan interrogar o momento em que acontece a eclosão de uma neurose. E. como todo “jovem sujeito” não pode dar nome. e vai repensar o que vai se pôr em jogo em função de algo que se situa na origem do sujeito. como “o passo decisivo dado por Freud. revelando a relação da curiosidade sexual com toda a ordem do saber. e isso pela operação de inclusão do a.. e para que ele não desapareça. E ele respondeu a essa questão referindo-se à “intrusão positiva de um gozo auto-erótico. correlativamente. retomando a diferença por ele estabelecida entre a relação anaclítica e a relação narcísica.13 Hans continua sendo. do a.

para Lacan. 321. 3 Idem. ibidem. 6 Idem. 291. Idem. nós o pensaríamos. p. 10 Idem. livre XVI: D’un Autre à l’autre. ibidem. ibidem. 14 Idem. 327. 12 Idem. 4 Idem.significantes que lhe vêm de um Outro do qual ele depende. p. p. ibidem. ibidem. 303. vai por em jogo a resposta que o positiva: na forma particular que constitui a relação anaclítica. Paris: Seuil. 322. 13 Idem. p. 7 Idem. o “jovem sujeito” mascara com um pedaço de corpo o que ele supõe faltar ao Outro. 9 Idem. J. p. como “o que existe de mais estrangeiro para representar o sujeito”. Le Séminaire. 292. 302. 313. p. 11 Idem. p. p. em seus primeiros encontros corporais. ibidem. 322. justamente. 5 Idem.15 1 2 Lacan. ibidem. 15 Idem. 3 . ibidem. 8 Idem. 2006. Esse a que. p.