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2 de maio de 2013 12:11 - Atualizado em 2 de maio de 2013 12:11 DIREITO PENAL DO INIMIGO – VISÃO CRÍTICA TRÊS VELOCIDADES, UM INIMIGO, NENHUM DIREITO

: UM ESBOÇO CRÍTICO DOS MODELOS DE “DIREITO” PENAL PROPOSTOS POR SILVA – SÁNCHEZ E JAKOBS Autor: Eduardo Luiz Santos Cabette, Delegado de Polícia, Mestre em Direito Social, Pós –graduado com especialização em Direito Penal e Criminologia e Professor de Direito Penal, Processo Penal e Legislação Penal e…

“(…) el mundo cambia y sigue siendo como antes”. “También el hilo que divide la inteligencia de la estupidez es mui fino, ya te darás cuenta. Cuando se rompe, ambas cosas se funden (…)”.

Oriana Fallaci – Carta a un niño que nunca nació, p. 61 e 82.

1 – INTRODUÇÃO

Em sua obra “O Estrangeiro” Albert Camus retrata o personagem Mersault levando uma vida banal, marcada pela indiferença. Ele comete um homicídio, é preso, julgado, mas tudo se processa de forma inexplicada, sem sentido, apresentando-se somente um homem arrastado pela corrente da vida e da história. Um homem sem uma base sólida em que sustentar-se, desprovido de fé, religião, valores morais, em suma, um homem desamparado e, absurdamente, por isso mesmo, livre. E é essa liberdade, essa falta de parâmetros que concomitantemente o liberta e angustia. Encaminhando-se para a execução da pena capital, Mersault revela seus pensamentos pela escrita de Camus: “Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio”. [1] Efetivamente o homem pós – moderno encontra-se abandonado à própria liberdade, mergulhado na desorientação de um relativismo conglobante a conformar um individualismo exacerbado. [2]

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dando forma ao que chama de um “Direito Penal do Inimigo” em contraposição a um “Direito penal 2 .Nesse contexto o Direito ganha destaque como instrumento funcional de redução de complexidades e contingências e “estabilização de expectativas”. Então o que o Direito pode fazer é “domesticar” e institucionalizar o “primado da força física no processamento de transgressões ao Direito” de forma a perseverar na manutenção das expectativas lesadas pela conduta desviante. das “expectativas normativas”. intentando um mínimo de segurança e orientação no convívio social. Aponta um núcleo duro do Direito Penal. Intentar-se-á demonstrar que ambas propostas são incompatíveis com um Estado de Direito Democrático e falham totalmente em seus anelos de refrear ou limitar as tendências autoritárias que permeiam o discurso jurídico – penal da atualidade. mesmo assim. [3] Mas. [6] De outra banda. desformalização e redução de garantias. surge um seguimento de infrações penais para as quais não se cogita. com previsão de penas privativas de liberdade rigorosas. 2 – AS PROPOSTAS DE SILVA – SÁNCHEZ E JAKOBS Silva Sánchez constata que o Direito Penal na atualidade não opera de forma homogênea. Günther Jakobs também aponta para um Direito Penal menos formalista e garantista com relação a certos infratores. [4] Em uma sociedade complexa as possibilidades de transgressão tendem a acentuar-se e as soluções para que o Direito. Por outro lado. em todos os casos. o qual comportaria uma certa desformalização e redução de garantias. especialmente o Direito Penal. O autor expõe com perspicácia um processo de diferenciação dos ritmos do Direito Penal no que tange à agilidade. Neste caso. de modo que o “desapontamento” em relação a estas é previsível e inevitável. Neste trabalho analisar-se-á as propostas de Jesús – María Silva Sánchez (“Direito Penal de Terceira Velocidade”) e de Günther Jakobs (“Direito Penal do Inimigo”). É nesse espaço eu se desenvolve aquilo que Silva Sánchez denomina de “Direito Penal de Segunda Velocidade”. venha a enfrentar de forma satisfatória tal situação podem passar a ganhar contornos extremamente autoritários. seria admitida uma desformalização e sensível redução de garantias penais e processuais. o Direito não pode garantir infalivelmente a plena satisfação. Nesse núcleo sobrelevam os procedimentos mais formais e garantistas. mas. de penas privativas de liberdade. apresentadas como eventuais opções frente ao fenômeno da criminalidade pós – moderna. [5] Em seguida o autor acena com uma suposta “terceira velocidade” do Direito Penal. tratar-se-iam de infrações penais graves. para as quais. via de regra. representado pelas infrações para as quais se impõem penas privativas de liberdade.

pelo menos não neste momento”. 3 – BOAS INTENÇÕES E CONSEQÜÊNCIAS FUNESTAS Nada poderia ser mais injusto e equivocado do que acusar Silva Sánchez e Jakobs de pretensões ao autoritarismo e à formulação de uma teorização justificadora do arbítrio e da crueldade penais. Assim sendo. mas a sanção confirma que essa afirmação é irrelevante”. A única saída que vislumbram é a contenção parcial dessa tendência.g. O intento de ambos os autores é blindar uma significativa parcela do Direito Penal contra a contaminação autoritária. [8] Por isso. Para Jakobs o conceito de pessoa está diretamente ligado à atuação e à postura do agente perante a sociedade e as normas que a regem. isso poderia retirá-lo da proteção legal. Na visão de Jakobs o Direito Penal cumpre a função de garantir a “identidade normativa” e a “constituição da sociedade”.). Os autores sob comento assumem que o Direito Penal vai sendo permeado insidiosamente pela redução das garantias e formalidades e que esse processo não permite uma reação que o detenha. isolando-a a determinados setores. tornando-o uma “não – pessoa”. quando a conduta e a subjetividade do agente neguem de forma muito intensa as normas sociais. de modo que a repressão empregada contra o transgressor reafirma a vigência e a validade das normas. “todo aquele que negue a racionalidade de modo demasiado evidente ou estabeleça sua própria identidade de forma excessivamente independente das condições de uma comunidade jurídica já não pode ser tratado razoavelmente como pessoa em Direito. uma vez que as demandas atuais da própria sociedade perante o Direito Penal a tornariam inevitável. um 3 . Nesse contexto. racionalidade. conformando aquilo que Moccia denominou de “perene emergência”. Silva Sánchez é bem explícito quando indica o fato de que as chamadas “legislações de emergência” vão dominando o Direito Penal.do Cidadão”. [9] Perdida a qualidade de “pessoa” em Direito. sabemos as limitações quanto às formalidades legais e garantias que podem a partir desse ponto serem impostas ao infrator. Não uma qualidade inerente qualquer do indivíduo lhe conferiria o “status” de pessoa (v. mas sim sua atitude perante a sociedade e as normas. pertencimento ao gênero humano etc. Ambos deixam muito claro em suas exposições que apenas constatam uma tendência do Direito Penal atual e procuram justamente evitar que esta possa contaminar todo o ordenamento indistintamente. [7] Nessa medida “a sanção contradiz o projeto de mundo do infrator da norma: este afirma a não – vigência da norma para o caso em questão. de modo que procuram delimitar situações extremas em que esse novo Direito Penal minimalista quanto às garantias poderia ser aplicado.

ocorre uma nítida dominação de um tecnicismo meramente pragmático – funcional. O tempo no mundo globalizado da atualidade impõe um ritmo veloz que não condiz com a maturação das idéias necessária para a intelectualidade. inclusive do Direito Penal. Visam criar uma represa contra a inundação do autoritarismo. como ensina desde antanho a sabedoria popular. No entanto. é menos perigoso. Constata-se. desde a perspectiva do Estado de Direito. aliás. que entrelaçar todo o Direito Penal com fragmentos de regulações próprias do Direito Penal do inimigo”. suplantados e relegados a peças de museu pelos políticos. 4 . o fenômeno do “silêncio dos intelectuais”. já que não seria possível evitálas. administradores e técnicos. Até mesmo nas universidades que deveriam ser o manancial por excelência da produção do pensamento. aí sim. passará a ser incontrolável e se alastrará como uma praga por todo o ordenamento jurídico – penal.“Direito Penal de Terceira Velocidade” não deixaria de ser encarado como um “mal” (como. procurando ao menos controlá-las. rápido e equivocadamente. da despersonalização do homem. todo o Direito Penal). Nesse contexto não é surpresa o surgimento de uma concepção meramente funcional do Direito. transformando-as pouco a pouco em produtoras de “fazedores” muito mais do que de “pensadores”. como obra de uma pragmática oca que passa ao largo da intelectualidade e que. claramente delimitado. [11] Realmente as intenções dos penalistas em estudo são louváveis. “de boas intenções o inferno está cheio”. [10] Diverso não é o pensamento de Jakobs ao assevera r que “um Direito Penal do inimigo. os referidos autores acabam abrindo as portas para um Direito Penal autoritário e anti – garantista que. 4 – A GÊNESE DE UM “NÃO – DIREITO” PENAL Em um mundo dominado pelo “fazer” o “pensar” vai perdendo terreno e até mesmo tornando-se um empecilho à agilidade das decisões e atuações. que vão sendo calados. Em seguida intentar-se-á demonstrar como em seu esforço de racionalizar o irracional. por isso mesmo. se dirige inexoravelmente ao abismo dos grandes erros daqueles que agiram sem pensar ou pensando pouco. por assim dizer. mas se apresentaria como um “mal menor” ante a possibilidade de um domínio absoluto de um Direito Penal não – garantista.

violenta. na medida em que sua interação é sempre violadora das normas. Acontece que isso tudo pouco importa quando se chega à percepção de que a base principiológica do Direito independe do comportamento daqueles que atuam de forma avessa a ele. O que assusta é que do seio da intelectualidade emirja um conformismo que tende a adaptar-se à irracionalidade de um tecnicismo acrítico e amoral (ou imoral?). Não uma oposição eventual ou pontual. A atuação do “inimigo” não é comunicativa. de forma que. ainda que de forma limitada ou controlada. 5 . Da mesma forma se o Direito se orienta por suas violações e reage a elas relativisando os princípios que o regem. ao contrário de participar da comunicação. [13] Acatar. Aparentemente restaria inviabilizada até mesmo a comunicação através de um discurso entre seres livres e racionais. já não é mais “Direito” e converte -se. Isso sempre foi característico dos covardes portadores de “consciências de aluguel”. Como lembra Oriana Fallaci. mas meramente contestadora ou melhor dizendo agressiva. portanto jamais deve ser instrumentalizado para curvar sua espinha dorsal ante os acontecimentos. por mais devastadores e poderosos que sejam.Não há realmente susto com o surgimento desse fenômeno na atualidade. o “inimigo” de Jakobs não permitiria um “agir comunicativo” concebido por Habermas [15]. é permitir o desmoronamento do Estado Democrático de Direito com todas as suas orientações humanistas. até mesmo loucos em seus tempos. Se o homem justo se pautasse pelo comportamento do injusto. [12] O intelecto está diretamente ligado à posição ereta do homem. até mesmo da configuração de todo ser humano como “pessoa”. a timidez jamais foram bons conselheiros. então junte-se a eles”? As grandes obras do intelecto advieram de Quixotes idealistas e sonhadores. em um “Não – Direito”. O medo. Se já era lamentável a constatação do “silêncio dos intelectuais” perante a realidade dinâmica da sociedade contemporânea a não concederlhes o tempo necessário para o exercício do pensamento. aceitando a irracionalidade como inevitável pelo medo de tornar-se Quixote? O que dizer da postura assumida num típico “se não pode com eles. inclusive aquelas que regem a legitimidade procedimental do discurso que atribui validade às normas. em verdade. já não seria digno de ser chamado de justo. mas um completo desalinho com o sistema legal. É bem verdade que sob uma ótica funcionalista de matriz luhmanniana torna-se difícil estabilizar expectativas a respeito do comportamento de indivíduos que se mostram tenazmente avessos às normas. irracional. Por exemplo. uma concepção permissiva da supressão de garantias básicas. é preciso ser valente para ser otimista. o que dizer de sua pusilanimidade. Jamais foi mister dos intelectuais a conformação perante a avalanche dos acontecimentos e a adaptação das idéias às circunstâncias. [14] Talvez sob esse prisma pareça incoerente dispor garantias derivadas de normas legais àqueles que perseveram em afrontá-las e agir em franca oposição a elas. justamente a inviabiliza.

o Direito jamais poderá impedir totalmente os desapontamentos. carece de legitimidade. O Direito impõe “expectativas normativas”. 6 . Permitir que o Direito seja atingido pelos “desapontamentos”. cedendo espaço para a atuação de um “Não – Direito”. A partir daí o Direito não se impõe em sua legitimidade ao corpo social e a si mesmo. por isso. de modo que o Direito nada mais é do que um instrumento através do qual se pretende reduzir complexidades e contingências. qualquer normatização que venha a alijar indivíduos arbitrariamente. seguro. o qual atribui central relevância à ética discursiva democraticamente moldada.Durkheim já observou que o crime não é uma patologia social e sim integrante da fisiologia normal de qualquer sociedade sã. mas para reafirmá-la em sua vigência. A infração à norma não serve para invalidá-la. Estas. Dessa forma o Direito se compatibiliza “com a ampla diferenciação entre as morais e as consciências individuais”. inclusive procedendo à distinção entre “pessoas” e “não – pessoas”. mas impedindo a partir daí sua integração no discurso racional entre pessoas. modificando sua operacionalidade é apresentá-lo como um conjunto de regras que constituem meras “expectativas cognitivas”. alicerçando a legitimidade do Direito no “agir comunicativo”. [18] O Direito deve permanecer intacto frente aos “desapontamentos”. o que a torna inválida e ilegítima. deve-se ter em mente que Luhmann parte exatamente dessa dificuldade de conhecer e expectar os comportamentos e reações humanas. ainda que aplicável contra o suposto infrator. mas é submetido ao crivo do próprio desviante que passa a ter o poder de excepcioná-lo. de forma que a infração indica a validade da norma e a necessidade de sua imposição. [16] Ora. Mesmo no que tange à insustentabilidade de expectativas válidas perante certos indivíduos. que em face de desapontamentos mais intensos venha o Direito a recuar em seus mandamentos como se de certa forma admitisse a violação e se adaptasse a ela. admitir que a postura do infrator venha a ser o guia para a aplicação das garantias legais ou não a certos indivíduos. Qualquer norma que exclua alguém do atributo de “pessoa” lhe tolhe a “fala” e. [17] E isso sem submeter-se a uma relativização que o tornaria inócuo em face de sua fluidez. [19] Por outro lado. criando um razoável espectro de expectativas sujeitas a menos desapontamentos. retomando o pensamento de Habermas. Pelo menos o “ordenamento jurídico” deve permanecer “abstratamente assegurado frente a conteúdos desconhecidos e variáveis”. criando para si um campo de “Não – Direito” reconhecido elo próprio Direito. é imprescindível que haja um ambiente que permita sempre a livre manifestação dos indivíduos. desde que o façam por livre escolha. fere a ética do discurso democrático. ainda que baseada em sua auto – exclusão. diversamente das “normativas”. ao menos o Direito deve permanecer expectável. permitindo ajustes que as incorporem à sociedade. No entanto. Se é difícil em sociedades complexas prever e avaliar as motivações individuais e a atuação de cada um. sendo temerário e a nosso ver pouco funcional. vigência e validade do Direito. “sujeitos de direitos” e “excluídos dos direitos”. deve-se lembrar que não importa o fato de que certos indivíduos permaneçam de fora da comunicação. admitem uma certa adaptação e não são necessariamente rechaçadas ou reprovadas. No entanto. Dessa forma. é conceder que o criminoso é quem dita a aplicabilidade.

o importante é que ele possa seguir as normas com discernimento. na realidade espécies de Direito Penal de Autor em contraposição ao Direito Penal do Fato. Assim sendo. quando não contrariar princípios morais”. [22] Desse poder. Isso porque. a exclusão de certas parcelas da população da condição de pessoas que. E não se pretenda opor a esta afirmação a alegação de que somente se poderá apurar a contradição do agente com relação ao ordenamento jurídico através de suas condutas lesivas insistentemente perpetradas e de suma gravidade. Os modelos de Direito Penal do Inimigo e de terceira velocidade constituem. a qualquer momento. e tal pré – condição. [23] Conferir esse “direito” não se coaduna com a concomitante ameaça concretizável de destituição da condição de pessoa pelo seu efetivo exercício. sabe-se bem através das lições da história a que atrocidades essa espécie de pensamento conduziu. Ao final e ao cabo. senão por sua postura íntima perante o ordenamento jurídico. por exemplo. na verdade. [20] E é bem difícil imaginar imoralidade maior do que excluir seres humanos do conceito de pessoa. passando por todo o processo para só depois alcançar a fase de cumprimento de pena. mas pela subjetividade do agente perscrutada por intermédio de suas ações. resulta que “cada um deve ser protegido contra a subtração unilateral dos direitos de pertença. Outro aspecto a ser destacado é o de que não se trata de uma formulação de modelos penais a incidirem sobre condenados. Não há necessidade de que o indivíduo siga as normas jurídicas com convicção pessoal. a retirada do homem da condição de pessoa se dá mesmo não por aquilo que ele faz. mas no estabelecimento de “procedimentos que garantem a todos os interesses iguais chances de participação nas negociações e na influenciação recíproca”. não pode admitir em qualquer hipótese. de forma que “uma ordem jurídica só pode ser legítima. não são as condutas. Aliás. através da ética do discurso. que pode perfeitamente recusá-lo sem ser alijado do mundo do Direito. possam optar pelo uso e gozo de seu direito de comunicação e ação legítimos. iniciando sua aplicação na fase investigatória. conforme resulta claro. uma espécie de penalização do pensamento. A chave da questão não está na efetiva participação no discurso democrático. [24] Trata-se da criação de uma pré – condição a conferir validade a tudo o mais que se siga. o que implica em uma atuação espúria do Direito Penal sobre as consciências. Até mesmo o exercício da comunicação deve revestir-se de uma opção do sujeito. sem deixar 7 . mas por aquilo que ele é. Note-se que. porém ele deve ter o direito de renunciar ao status de membro”. [21] O ordenamento jurídico não se impõe às consciências. mas realmente as convicções íntimas do sujeito o fiel da balança que o penderá para a condição de “cidadão” ou de “inimigo”. a eleição da “Terceira Velocidade” ou a atribuição do anátema de “inimigo” a alguém arrasa totalmente. mas às ações. senão um sistema de exclusão de direitos que atua em um momento anterior. A distinção de tratamento é dada verdadeira e profundamente não pela conduta externa.Para Habermas Direito e Moral imbricam-se “numa relação de complementação recíproca”. seja por que razão for. um indivíduo será classificado como “inimigo” não pela sua conduta lesiva de bens jurídicos.

não há para ti garantias defensivas. pois que fere de morte o “Direito Penal”. Não obstante. Este tem uma função eminentemente garantista. a partir de então. portanto. portanto. jamais liberando das amarras o poder punitivo. inclusive referentes à sua ampla defesa.qualquer vestígio. a idéia de uma contenção dessas tendências teve seu mérito. o Princípio da Presunção de Inocência. limitando. Ora. ao lado do Processo Penal. és inimigo… Enfim. Além disso. um campo onde só pode existir um “Não – Direito”. como poderá. de forma que um impropriamente chamado “Direito Penal do Inimigo” destrói toda a concepção daquilo que seria um genuíno “Direito Penal”. Antes deles poucas vezes se teve a coragem de admitir abertamente 8 . não é motivo para o recuo e a conformação daqueles que pretendem formular um Direito Penal cientificamente sustentável e democrático. a própria expressão “Direito Penal do Inimigo” é contraditória. Mesmo quando alguma decisão judicial seja a que determine ou corrobore semelhante tratamento. são fatores imprescindíveis de contenção do arbítrio estatal. ser tal decisão eficazmente combatida? Todo o raciocínio torna-se circular (um círculo vicioso): és inimigo. praticamente administrativiza a decisão sobre a aplicação desse formato autoritário. suprimindo-lhe garantias básicas. 5 – CONCLUSÃO As teorias que preconizam a aceitabilidade. para conformar em seu lugar um campo isolado onde Direito algum penetra ou sobrevive. de um “Direito Penal de Terceira Velocidade” (Silva Sánchez) ou de um “Direito Penal do Inimigo” (Jakobs) são absolutamente inadmissíveis frente ao Estado Democrático de Direito. ainda que limitada. é incontestável que tratarse-á invariavelmente de uma escolha arbitrária como uma petição de princípio [25] ou uma profecia que se auto – realiza. [26] Os princípios penais. sem sutilezas ou subterfúgios a presença ameaçadora de um “Direito Penal do Inimigo” destruidor de garantias e corroedor impassível do Estado Democrático de Direito. se o Juiz ou uma Autoridade Administrativa atribuem ao réu ou investigado a pecha de “inimigo” ou lhe impõem por quaisquer critérios um “Direito Penal de Terceira Velocidade”. O fato concreto de que tais fenômenos são constatáveis em uma terrível expansão do Direito Penal com supressão de garantias na atualidade. vez que na maioria das vezes tal se operará desde a fase investigatória pré – processual. Autores como Silva Sánchez e Jakobs colocaram a descoberto.

legitima-se a ofensa aos direitos dos cidadãos (todos eles). [28] Portanto. absolutamente ilusória. olvidando o fato de que se a expansão de um modelo autoritário não tem sido contida pela reação contrária. É ilusão pensar que um Direito Penal Autoritário em expansão vai estagnar. mas certamente o saldo de prejuízos já será enorme e talvez irreversível.tal fenômeno. Nesse contexto. concedendo-se “ao poder a faculdade de estabelecer até que ponto será necessário limitar os direitos para exercer um poder que está em suas mãos”. seu erro está em acreditar ser possível como um “mal menor” a “contenção estática” de um Direito Penal anti – garantista. de maneira que suas iniciativas tiveram a virtude de suscitar uma discussão aberta e franca do problema. A admissão resignada de um tratamento penal diferenciado para um grupo de autores ou criminosos graves não pode ser eficaz para conter o avanço do atual autoritarismo cool no mundo. [30]Na verdade já estamos mais do que atrasados em rever e conter essa expansão indevida. a limitação da supressão de garantias a certas pessoas é. Mais ainda. Sabe-se que um dia haverá a profunda percepção dos equívocos cometidos. cedendo terreno. desde o início. E isso eqüivale à abolição do Estado de Direito. muito menos o será pelo recuo. conforme prevê Zaffaroni. da moral e da justiça. Urge reagir à irracionalidade da expansão punitiva e lembrar com Brecht que muitas vezes é justamente aquele que fala do inimigo o verdadeiro inimigo. a partir da constatação de que qualquer um pode a todo tempo ser rotulado como “inimigo” ou envolvido em suspeitas da prática de infrações abrangidas por um “Direito Penal de Terceira Velocidade”. dado que não sabemos ab initio quem são essas pessoas. Isso é desconsiderar o fato de que o Direito jamais é estático e sim dinâmico. O mesmo Brecht nos fala poeticamente das grandes 9 . incomensuravelmente mais lamentável será toda uma sociedade que abdique dos mais básicos princípios humanistas e democráticos. satisfazendo-se com o pouco espaço que se lhe conceda. O grande equívoco de ambos os autores está em considerar a hipótese de transigir em relação aos Princípios Democráticos e Humanísticos que devem reger o Direito Penal e o Processo Penal. [29] É preciso ter em mente que se é lastimável que um ou alguns indivíduos atuem à margem da lei. Ninguém está imune ao arbítrio dessa catalogação sem defesa possível. entre outras razões porque não será possível reduzir o tratamento diferenciado a um grupo de pessoas sem que se reduzam as garantias de todos os cidadãos diante do poder punitivo. [27] Torna-se imperioso neste ponto transcrever a lição de Zaffaroni: “O senso comum mais elementar indica que a limitação dos direitos de todos os cidadãos para conter o poder punitivo que se exerce sobre estes mesmos cidadãos não pode ser eficaz. O poder seletivo está sempre nas mãos de agências que o empregam segundo interesses conjunturais e o usam também com outros objetivos”.

Albert. Valerie Rumjanek. Trad. 1987. 19ª ed. 2005. Veio o momento em que As águas negras baixaram. CAMUS. Paulo Cesar Souza. Bertolt. São Paulo: RT. 4ª ed. 20ª ed. São Paulo: Martins Fontes. Trad. mas deixam seus rastros indeléveis em “Lendo Horácio”: “Mesmo o dilúvio Não durou eternamente. 1999. Luigi. Oriana. mas quão poucos Sobreviveram!” [31] 6. São Paulo: Brasiliense.REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABBAGNANO. Rio de Janeiro: Record. Barcelona: Noguer. 2002. Trad. Direito e Razão. 10 . Nicola. O Estrangeiro. Poemas. Dicionário de Filosofia. Atílio Pentimalli.catástrofes que passam sim. BRECHT. Ana Paula Zomer et al. 2000. Carta a un niño que nunca nació. Sim. Trad. Trad. Alfredo Bosi. FALLACI. FERRAJOLI. 3ª ed.

A expansão do Direito Penal. Porto Alegre: Livraria do Advogado. Volume I. Direito e Democracia entre facticidade e validade. Günther. Niklas. A sociedade pós – moralista. Flávio Beno Siebeneichler. Sociologia do Direito.HABERMAS. Sociedade. 2005. Barueri: Manole. O inimigo no Direito Penal. 144 – 147. 11 . 19ª ed. 2002. 2003. São Paulo: RT. JAKOBS. Volume I. Günther. Eugenio Raúl. Gilles. LUHMANN. 126. [3] LUHMANN. Albert. André Luís Callegari e Nereu José Giacomolli. Trad. Barueri: Manole. Luiz Otávio de Oliveira Rocha. 1983. [4] Ibid. Manuel Cancio. Niklas. Trad. 2007. JAKOBS. Rio de Janeiro: Record. [1] CAMUS. Sérgio Lamarão. 2ª ed. Direito Penal do Inimigo – Noções e Críticas. Rio de Janeiro: Revan.. Gustavo Bayer. Trad. ZAFFARONI. Trad. Jürgen. Luiz Otávio de Oliveira Rocha. 123 – 125. 2002. Maurício Antonio Ribeiro Lopes. p. LIPOVETSKY. p. 2ª ed. 2003. Armando Braio Ara. [5] SILVA SÁNCHEZ. Trad. Volumes I e II. Trad. 2007. Trad. Trad. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. p. p. São Paulo: RT. Trad. 2005. Sociologia do Direito. Jesús – María. SILVA SÁNCHEZ. Jesús – María. Armando Braio Ara. Trad. Gustavo Bayer. Barueri: Manole. 57. Valerie Rumjanek. MELIÁ. 1999. norma e pessoa. “passim”. Gilles. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Trad. O Estrangeiro. [2] Para um aprofundamento desse tema: LIPOVETSKY. A Sociedade Pós – Moralista. 1983. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. A expansão do Direito Penal.

148 – 151. [16] DURKHEIM. [8] Ibid. 151. Pietro Nassetti. Rio de Janeiro: Revan. Porto Alegre: Livraria do Advogado. As regras do método sociológico. p. Trad.. norma e pessoa. [9] Ibid. Direito e Democracia entre facticidade e validade. [10] SILVA SÁNCHEZ. constataremos que há mais de três décadas essas leis vêm sendo sancionadas na Europa – tornando-se ordinárias e convertendo-se na exceção perpétua – tendo sido amplamente superadas pela legislação de segurança latino – americana”. Trad. Ibid. André Luís Callegari e Nereu José Giacomolli. [11] JAKOBS. 50. Direito Penal do Inimigo – Noções e Críticas. Niklas. p. Trad. Émile. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. No original: “Yo no era optimista porque no era valiente”. Flávio Beno Siebeneichler. p. [7] JAKOBS. 14. 12 . 46. Também Zaffaroni menciona esse fenômeno expansivo das legislações de emergência. 2003. Niklas. [12] Usa-se a expressão cunhada por Dostoiévski no romance “O Adolescente”. O inimigo no Direito Penal. Sociedade. p. 57. p. ao referir-se justamente à atuação de certos juristas. 81. 2ª ed. é que a invocação de emergências justificadoras de Estados de exceção não é de modo algum recente. p. 2007. 2001. Ibid. Maurício Antonio Ribeiro Lopes. destacando que tal ocorre não somente nos países periféricos da América Latina. [15] HABERMAS. Günther... Trad. 2ª ed. Günther. 2003. MELIÁ. 13. 140 – 141. Sérgio Lamarão. Volumes I e II. “passim”. p. Se nos limitarmos à etapa posterior à Segunda Guerra Mundial. ZAFFARONI. p. [20] HABERMAS. Manuel Cancio. Flávio Beno Siebeneichler. Volume I. Trad.[6] Ibid... [14] LUHMANN. 130 – 131. Jürgen.. Ibid. Jesús – María. p. Trad. 56. p. São Paulo: Martin Claret. porém. 62. p.. 2007. p. 1. Eugenio Raúl. p. Jürgen. [13] Ibid. 2003.. [17] LUHMANN. p. 82 – 90. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. Direito e Democracia entre facticidade e validade. Barueri: Manole. mas também tem grande incidência nos países centrais da Europa e América do Norte há bastante tempo: “O certo. [18] Ibid. [19] Ibid..

p./Aquele que fala do inimigo/É ele mesmo o inimigo”. Direito e Razão. 2000. 158. 316.. 208. São Paulo: Brasiliense. 1987. 161. São Paulo: Martins Fontes. BRECHT. [23] Ibid. Poemas.. [26] Neste sentido: FERRAJOLI.. Trad. na demonstração. Luigi. 763. que “consiste em pressupor. 2002. Nicola.[21] Somente o exemplo do Nazismo e do Holocausto basta para demonstrar a verdade da imoralidade ínsita nessa espécie de pensamento. [22] Ibid. 160. ABBAGNANO. Eugenio Raúl. um equivalente ou sinônimo do que se quer demonstrar”. p. Bertolt. 191 – 192. p.. p./Muitos não sabem/ Que seu inimigo marcha à sua frente. [31] Ibid. 13 . [25] Petição de Princípio é a conhecida “falácia”. Dicionário de Filosofia.. analisada por Aristóteles. Alfredo Bosi. Ana Paula Zomer et al. Paulo Cesar Souza. Trad. [27] Ver a respeito: ZAFFARONI. p. p. São Paulo: RT. [28] Ibid. p. [30] “No momento de marchar. 155 – 183. 192. 4ª ed. Ibid. p. [29] Ibid. 3ª ed. [24] Ibid. “passim”../A voz que comanda/ É a voz de seu inimigo. Trad.. p.