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Aspectos da ética no Islã

Rosalie Helena de Souza Pereira1

Resumo: A pluralidade de discussões e a diversidade com que as principais questões éticas foram abordadas no mundo islâmico permitem separar suas formulações em três dimensões distintas: a moral religiosa, a ética teológica e a ética filosófica. A moral religiosa foi elaborada com base exclusivamente nos preceitos do Corão e nos ensinamentos da Tradição (Hadīth). Essa moral estabelece os fundamentos para determinar: a) a natureza do que é correto e do que é iníquo; b) o alcance da justiça e do poder divinos; c) a liberdade e a responsabilidade moral de cada um. Dentre os pensadores que elaboraram uma ética teológica fundada nos preceitos corânicos e na Tradição (Hadīth), servindo-se de conceitos teológicos, de categorias filosóficas e, às vezes, de inspirações provindas do sufismo, destaca-se Al-Ghazālī, o mais conceituado teólogo do Islã sunita. Dentre os filósofos, Al-Fārābī, Avicena, Avempace e Averróis fizeram amplo uso da Ética Nicomaqueia. Na medida em que procuraram conciliar os ensinamentos do Corão e da Tradição (Hadīth) com a filosofia, esses filósofos encontraram na ética aristotélica as indicações apropriadas para a realização do modelo de vida ideal da sociedade humana. Destaca-se também o pensador Miskawayh, que, embora não tenha elaborado nenhum sistema ético nos moldes filosóficos, serviu-se proficuamente das doutrinas de Aristóteles e de Platão e das obras de filósofos árabes anteriores a ele, como Al-Kindī, Al-Rāzī e Al-Fārābī. Palavras-chave: Islã – moral religiosa – ética teológica – ética filosófica.

O mundo islâmico – social, legal, religioso e moral – gravita em torno do Corão. A vontade divina, expressa no Livro sagrado dos muçulmanos, determina não apenas a prática religiosa, mas também a vida social, o direito, a política, a eco1 Mestre em Filosofia (FFLCH-USP); doutora em Filosofia (IFCH-UNICAMP); atualmente em estágio de pós-doutorado no Programa de Filosofia da PUC-SP sob a supervisão do Prof. Carlos Arthur R. do Nascimento. E-mail: rosaliepereira@uol.com.br.

um manual da moral islâmica. O Hadīth constitui também a estrutura da Lei islâmica (Sharī‘a6) e. e a moral como os costumes que representam o material que a ética investiga. legais e sociais. Com a força dessa tradição. A introdução de Muslim trata da ciência do Hadīth com um capítulo preliminar sobre a fé. The Encyclopaedia of Islam (EI²). Ethical Theories in Islam. L’Authentique tradition musulmane. Ver EL-BOKHÂRÎ. cujas principais coleções (Sahīh4) são a de Bukhārī (810-870) e a de Muslim (817-875). contudo. conceitos idênticos. consideramos a ética como ciência. uma vez que constituem também o Hadīth (compilação das tradições transmitidas) e a sunna (paradigma da conduta exemplar que se tornou normativo). fundador de uma das quatro principais escolas sunitas de direito islâmico (fiqh). os costumes sociais. Em matéria religiosa e civil. Os Sahīhs de Bukhārī e de Muslim são considerados as melhores compilações dos hadīths no Islã sunita. p. pois. pp. inseparáveis da vida moral. Esse corpus compreende fundamentalmente o Hadīth. o jurisconsulto Shāfi‘ī (767-820). os 2 Para a finalidade aqui proposta. a ética. uma testemunha ocular da intenção real do Profeta. contudo. 2/2010. essas coleções canonizadas são de suma importância. v. ROBSON. ainda que sua autenticidade histórica não possa ser confirmada. Introduction to Islamic hadīths (tradições) referiam-se mais à prática dos Companheiros e de seus sucessores que propriamente à do Profeta. consequentemente. A legitimidade de uma conduta ou de uma declaração só era estabelecida se recebida por uma cadeia (isnād) de transmissores que remontasse ao juízo de um Companheiro. religiosos.762 tradições que considerou autênticas. XLV:18. Já nos primórdios do Islã. SCHACHT.5 É possível. II. cap. no sentido de que a observância dos deveres religiosos e o correto entendimento da doutrina religiosa são. uma vez que eles remontam ao tempo do Profeta. isto é. 23-29. está fundada no Corão e no corpus dos textos do século IX no qual os juristas se baseiam. De origem persa. XLVI:30) pelos ancestrais à qual todo muçulmano deve aderir.. Para a elaboração de uma prática moral condizente com os preceitos corânicos recorreu-se aos Companheiros do Profeta Muhammad. 3 Sobre a história da compilação do Hadīth. Cerca de dois séculos. uma das mais antigas exposições da teologia islâmica. ver GOLDZIHER. que correspondem cada qual às principais questões do direito (fiqh) e da teologia.104 Pereira. Bukhārī levou 16 anos para compilar sua coleção. Mohammedanism. Com a passagem do tempo. 5 FAKHRY. Permanece inquestionável. 6 Sharī‘a ou Shar‘ é a Lei islâmica. Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. na visão islâmica. A datação exata dos hadīths é problemática. III. The Origins of Muhammadan Jurisprudence. . separam a presumível origem da compilação final. pp. afirmar que o Hadīth representa. as gerações que os sucederam receberam informações transmitidas oralmente a respeito das condutas a serem adotadas por todos os muçulmanos. 4 Sahīh significa “autêntico”. um conjunto sistemático de conhecimentos racionais e objetivos a respeito do comportamento moral dos seres humanos. Todavia. Essa prática foi registrada no corpus que constitui o Hadīth e é chamada sunna. para que fosse considerada autoridade.3 No início. determinou que não se Theology and Law. Todos os transmissores da corrente deveriam ser absolutamente fidedignos. a declaração deveria ser transmitida por um isnād ininterrupto que tivesse origem no testemunho de um Companheiro.103-130. O Hadīth documenta o que os Companheiros de Muhammad transmitiram sobre o que é correto e justo em questões religiosas.2 Embora não haja no Corão nenhuma teoria ética em sentido estrito. S. porém. posto que viveram a seu lado e testemunharam suas declarações e ações. portanto. Aspectos da ética no Islã 105 nomia e. a “Via traçada” (Corão III:195. a relevância do Hadīth em todas as épocas e regiões do Islã para a formação e a determinação dos ideais morais da sociedade islâmica. porém. cujas fontes. como não poderia deixar de ser. GIBB. foram transmitidos oralmente por várias gerações sucessivas e vieram a ser compilados somente no século IX. legais e morais foram estabelecidos como autoridade porque remontavam à prática inicial do Islã. The Origins and Evolution of Islamic Law. No subsequente desenvolvimento da moral teológica. HALLAQ. O Sahīh de Muslim está dividido em 52 livros. H. não se limitam ao Corão. o consenso comunitário (ijmā‘) e o raciocínio analógico (qiyās). Hadīth e sunna não são. os Companheiros eram os mais autorizados a determinar a prática de conduta a ser seguida. os hadīths). dele pode ser extraído todo o ethos islâmico. a mais fiel fonte para o conhecimento de sua vontade. as jurisprudências da sunna (tradição islâmica legada pelos ditos e feitos do Profeta. em sentido amplo. R. 28. em que classificou por matéria as 2. teve início a elaboração da moral islâmica. conduzida sob os olhos do próprio Profeta. Desse modo. do direito islâmico (fiqh). de acordo com os ensinamentos do Profeta.

embora invoquem a autoridade do Corão e das tradições (hadīths). embasaram suas teorias no cerne do Corão. Shāfi‘ī inaugurou um novo conceito. resumem-se a três principais problemas: 1) o livre-arbítrio e sua relação com a onipotência divina.8 Como a sunna descreve o modo estabelecido da ação e digno de ser imitado. É possível. desde o período inicial do Islã. porém. Para os primeiros muçulmanos. termo árabe que designa o conjunto de relatos sobre os feitos e as palavras do Profeta Muhammad que serviram para estabelecer a sunna. pp. imbuídos de genuíno espírito islâmico. uma vez que poderiam ter afirmado opiniões incompatíveis com as dele. desenvolveu-se uma visão essencialmente islâmica do universo e do homem.103-130. Ethical Theories in Islam. 12 FAKHRY. persas. na concepção árabe de sunna. o modelo a ser imitado estava fundado no exemplo dos usos e costumes estabelecidos por indivíduos cujas ações exemplares instituíram uma prática específica. 2-3. as quais podem ser classificadas como “escriturárias” ou “teológicas”. pp. visto que se referia aos usos e procedimentos estabelecidos por determinados indivíduos. 47.14 11 Designação em árabe da filosofia de cunho grego que se desenvolveu em terras do Islã. p. mas. S. A prática da comunidade decerto existia. no entanto. 13 FAKHRY. mais tarde. 2) a natureza do que é correto e justo. o que não aconteceu com a filosofia. a ser conforme os ditos e os feitos – e também os silêncios – do Profeta fundador do Islã. que passou a ser o modelo de comportamento com base nos ditos e feitos de Muhammad. Nessas três direções. que absorveu influências gregas. As teorias éticas filosóficas. que edificaram uma moral estritamente islâmica. 10 Os tradicionalistas (muhadditūn) são os sábios que se consagraram à atividade de recolher e transmitir o Hadīth. p. dos tradicionalistas10 e dos jurisconsultos (fuqahā’). Ethical Theories in Islam. marcadas por um alto grau de complexidade. . o exemplo dado pela vida (ações e palavras) de Muhammad e que todo muçulmano deve seguir. Inicialmente. Com o advento da teologia (kalām). e do que é iníquo e injusto. Assim. as tentativas para desenvolver e teorizar uma moral derivada do Corão e das tradições (hadīths) estavam restritas aos trabalhos dos exegetas do Corão. a jurisprudência (fiqh) e a teologia escolástica (kalām). Esses temas pertencem às investigações sobre a ética nas várias correntes que surgiram ao longo do tempo. sunna não significava a prática anônima da comunidade. os filósofos e os sufis. no século VIII. p. houve uma especulação pré-ética de questões que foram. desde então. Os rumos dessas investigações constituíram três disciplinas separadas: a exegese corânica (tafsīr). Aspectos da ética no Islã 107 poderia concluir que os Companheiros conhecessem as reais intenções do Profeta Muhammad. Ethical Theories in Islam. os exegetas. que. contudo. no século IX. isto é. 2/2010. 14 FAKHRY. e da filosofia (falsafa11). “uma tipologia da ética islâmica”13 deve considerar essa diversidade: de um lado. identificadas com o objeto de estudo da ética. a sunna do Profeta. 9 SCHACHT.7 Para Shāfi‘ī. todas. H. os jurisconsultos e os teólogos (mutakallimūn). isolar os temas básicos que serviram de ponto de partida para a elaboração de uma ética islâmica. de outro. The Origins of Muhammadan Jurisprudence. 1. p. que afirmava o uso de uma “tradição viva” da comunidade. embora esse jurisconsulto mantenha em sua obra alguns traços da doutrina anterior ao aceitar que as tradições dos Companheiros e as opiniões de seus sucessores poderiam auxiliar como argumentos suplementares. Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. o Corão é a palavra de Deus. The Origins and Evolution of Islamic Law. 1 (grifo do autor). 3. remetendo-se ao Texto revelado e às tradições (hadīths). R. apenas as ações do Profeta são representativas de autoridade. em contraste com a posição anterior.106 Pereira. o paradigma da prática social e individual passou.9 Nos primórdios do Islã. distanciam-se da classe de teorias fundadas no Corão e nas tradições (hadīths). tiveram início as discussões sistemáticas sobre conceitos éticos. 7 HALLAQ. The Origins of Muhammadan Jurisprudence. poderiam ser considerados “puristas” porque. p. Já a partir do século VIII surgem três distintas direções na busca de uma ética fundamentalmente islâmica. porém. 3. são marcados por uma influência exógena. 3) a manifestação da justiça divina neste mundo e o julgamento divino após a morte..12 Como afirma Majid Fakhry. porém. indianas e cristãs. 8 SCHACHT. A sunna se refere apenas ao Profeta. pois as questões às quais os muçulmanos procuraram responder.

“retidão”. p.108 Pereira.20 O termo que melhor expressa a moral religiosa do Corão é birr 21.103-130. Parte integrante da moral normativa religiosa são as biografias do Profeta Muhammad. integridade. a ética não estava ainda sistematizada. do latino pietās . R. tais como “bondade”. cujo conteúdo são ensinamentos de moral prática e normativa. 23-25. Reason & Tradition in Islamic Ethics. George F. 2) moral teológica. 15-16. os tradicionalistas e os juristas fizeram incursões no campo da ética que levaram à elaboração de uma moral que poderia ser classificada de “escriturária”. os tradicionalistas e os doutores da lei procuravam analisar e interpretar a verdade na fonte original. Essa moral estabelece os fundamentos para determinar: a) a natureza do que é correto e do que é iníquo. 20 FAKHRY. 13. Wael B. ou seja. no entanto. moldada nas fontes do Islã. cujos textos normatizam a moral. mais amplo do que o sentido de “retidão”. Assim. “conhecido e aprovado” e “piedade”. Os exegetas do Corão. 1) a natureza da retidão e da iniquidade. Cf. honra. cf. procuravam determinar os significados exatos de palavras corânicas e seu conteúdo moral. “justiça”. probidade. em sentido filosófico. 57-66. p. Ethical Theories in Islam. 18 HOURANI. 22 No sentido do sentimento de dever para com Deus. teológicas e filosóficas. sendo. 3) moral filosófica e 4) moral religiosa. designadas por Sīra. que implica justeza. expressa a relação entre a teoria legal e a lei substantiva. 6-8. An introduction to Sunnī usūl al-fiqh. no sentido. surgiu uma variada literatura sobre a moral islâmica: 1) os livros de furū‘ (sing. Todavia. a partir do século VIII. virtude. o termo khayr. H. Reason & Tradition in Islamic Ethics. “equidade”. FAKHRY. 2/2010. a ética teológica e a ética filosófica. Por exemplo. p. antigos e novos. FAKHRY. Reason & Tradition in Islamic Ethics. 153. Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. -tātis 22. HALLAQ. essa moral “escriturária” tornou-se normativa.18 3) os livros dos sūfis. portanto.. Hadīth e Sīra estão repletos de julgamentos morais que confirmam a visão que Muhammad e seus Companheiros tinham sobre a realização da comunidade dos muçulmanos (umma). p. nem sempre o Corão e os hadīths são claros em suas prescrições. o que gerou muita controvérsia entre os teólogos muçulmanos. coleção de casos conhecidos. 19 HOURANI. 17 No direito islâmico (fiqh). ocorre 190 vezes no Corão. far‘17). b) o alcance da justiça e do poder divinos. retidão. Essas também foram as questões que constituíram a principal matéria para as posteriores discussões jurídicas. que significa literalmente “ramos”. os de meditação e os de instruções para seguir a via até Deus. 11. conforme o contexto. os tratados e manuais conhecidos por “livros de furū‘” contêm a lei positiva ou substantiva. “verdadeiro e correto”. sistematizam e classificam as prescrições corânicas e as tradições (hadīths). pp. 16. mas não seguiam qualquer metodologia racional. HOURANI. no Livro revelado e na Tradição (Hadīth). no Corão e nas tradições (hadīths). cf. que significa “bondade”. Seu real propósito era obter conhecimento sobre os três principais problemas já mencionados. S. pp. a palavra divina perfeitamente compreendida pelo Profeta e por seus seguidores próximos. p. Os sábios do período inicial. 15-22. Furū‘. isto é. o sentido do termo latino . cujo conteúdo expõe as virtudes religiosas. mas. porém. de acordo com os livros de furū‘ de uma determinada escola (madhhab). cf. Ethical Theories in Islam. Com base nessas principais fontes. c) a liberdade e a responsabilidade moral de cada um. pp. Aspectos da ética no Islã 109 A pluralidade de discussões e a diversidade com que as principais questões foram abordadas permitem separar as formulações éticas elaboradas no Islã em três dimensões distintas: a moral religiosa.15 A moral religiosa A moral religiosa é elaborada com base exclusivamente nos preceitos do Corão e nos ensinamentos da Tradição (Hadīth). Islamic Legal Theories. isto é. 16 FAKHRY.19 No período inicial do Islã. 21 Fakhry traduz birr por “righteousness”. Ethical Theories in Islam. 15 Fakhry divide os grupos em: 1) moral escriturária. 12. 2) os livros das “qualidades nobres do caráter” (makārim al-akhlāq). Julga-se um novo caso com base em um caso similar. e estabelecem sobretudo a intenção e o espírito do Corão. e às vezes contêm também decisões da corte judicial. Esses livros providenciam ao jurista uma pois descrevem e analisam detalhes da Lei islâmica.16 Com o tempo. pois. Hourani analisa as diversas teorias éticas e as separa em “objetivistas” e “subjetivistas” com suas respectivas subdivisões. os primeiros comentadores do Corão. em geral traduzido por piedade. p. prescreve normas e regras para a vida individual e social dos muçulmanos. Ethical Theories in Islam. 2) a justiça e o poder divinos e 3) a liberdade e a responsabilidade moral. O pensamento ético como tal surge somente com o advento da teologia (kalām). pode ou não ser moralmente neutro.

a doação (zakāt) e a peregrinação a Meca (hajj).26 pietās. por isso. 46. amor e amizade. Por sua própria natureza e propósito. Helmi Nasr. Essas condições estão fundadas em dois preceitos: a obrigação religiosa e seu pré-requisito inevitável. a verdadeira piedade é a de quem crê em Deus. religiosidade.28 A não observância ou a infração desses preceitos acarretam desobediência. algumas suposições podem. o estudioso Majid Fakhry observa que não há nes27 FAKHRY. p. p. está implícita uma moral normativa na definição de piedade.” NASR. como no citado. fica à mercê dessa contingência. a de Bukhārī e a de Muslim. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. A distribuição do zakāt é um dos cinco pilares da fé islâmica. ou seja. o seu significado é muito amplo. e a daquele que. a oração (salāt). feito que os intérpretes do Corão. é a dos que na adversidade. no Derradeiro Dia. e aos necessitados e aos filhos do caminho23. pp. nota 1. em alguns versículos. Do modo como estão expressas suas mensagens de conteúdo moral. Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. NASR. mas não no da responsabilidade humana. A partir dessas suposições desenvolveram-se as diversas linhas de pesquisa sobre o real significado das mensagens divinas. embora não seja um livro de filosofia.29 Ainda que o Hadīth trate da questão da predestinação (qadar) e de seu correlato. justiça. nota 4. cf. 25 Tradução de zakāt. em viagem. Embora no Corão e no Hadīth haja evidências implícitas da responsabilidade moral. e nos profetas. R. bondade. os distribui aos parentes.103-130. não apresenta respostas claras às perguntas. a liberdade humana. NASR. e aos pedintes. e aos cativos24. no sentido do poder divino. virtude. a justiça divina e a liberdade humana –. . e nos anjos. embora apegado a seus bens. ternura.. Cf. os textos não são explícitos. p. 12. 28 FAKHRY. é a de quem observa a oração e concede esmolas25. A moral predominante no Corão concerne à correta relação do homem com Deus e Seus mandamentos. benevolência. não realizaram. equidade. 24 Tradução de mukātab. 23. não destinam seções separadas para as três questões básicas que norteiam a moral islâmica – a natureza da retidão e da iniquidade.5% ou 1/40 avos do excedente dos limites anuais da necessidade patrimonial do muçulmano a serem distribuídos ao longo do ano. o jejum (sawm ou siyām). Embora o termo birr não ocorra tantas vezes como khayr (bom). surge com um sentido próximo ao da formulação de um artigo de fé islâmico. Corresponde a 2. O Hadīth. clemência. parte dos bens concedida em caridade. embora nelas haja seções dedicadas ao problema da predestinação (qadar). 22. 2/2010.27 Nesse versículo. p. Aspectos da ética no Islã 111 como está expresso em Corão II:177: A piedade (birr) não consiste em voltar vossas faces ao Oriente ou ao Ocidente. 29 FAKHRY. o Corão não contém nenhuma teoria teológica e. p. e aos órfãos. pois implica ainda os sentimentos de devoção. estes são os tementes de Deus. As duas principais coleções. 23 Conforme o Prof. despojado de recursos e sem condições de recorrer a seus outros bens. é a daqueles que compactuam e são fiéis a seus pactos. dedicação. a meio caminho de seu destino. no infortúnio e em tempo de guerra são perseverantes. S. e no Livro. “filho do caminho é tradução direta da expressão metafórica ibn al-sabīl. no sentido de violação da Lei divina. 26 Tradução modificada a partir de NASR. Ethical Theories in Islam. tampouco de teologia. Essa moral deve satisfazer a determinadas condições. categoria de cativos que podem ser tanto escravos como prisioneiros de guerra. Ethical Theories in Islam. 13. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. aquele que. Ethical Theories in Islam. contudo. cujo caráter é mais circunstancial.110 Pereira. H. que os posteriores teólogos procuraram sistematizar em suas teorias éticas. p. 46. os quais são: a profissão de fé (shahāda). nota 2. talvez seja menos explícito ainda que o Corão. O Corão contém sugestões para indagações relativas à ética. sobretudo as relativas à retidão e à piedade. retidão. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. estes são os verdadeiros em sua fé. a obediência. 46. nos primórdios do Islã. -tātis abrange também o sentimento de dever para com os pais e com a pátria. ser deduzidas. p. a fim de garantir ao ser humano o seu lugar no paraíso.

os mutazilitas encontraram respostas coerentes com as questões formuladas. Ethical Theories in Islam. No Corão. e. o ser humano estaria destinado a ser um mero autômato ou um escravo à mercê da vontade divina. restringindo. sem ela. Tradução do sentido do Nobre Alcorão para a língua portuguesa. “bom” e “reto” pode ser. p. bons ou maus. com o que é louvável ou com o que é censurável. nem todas as ações podem ser moralmente determinadas. Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. pois formularam teorias que serviram de base para ulteriores elaborações. elas o serão apenas quando tiverem uma qualidade identificada com o bem ou com o mal. tal como prescreve o versículo XVI: 93: “(. uma vez que a ação moral é definida em relação à consciência e à capacidade do agente. Essas fontes são as tradições (hadīths). os quais sustentavam que o homem é inteiramente responsável por seus atos. seja nas palavras. A defesa da liberdade e da responsabilidade humanas gerou a primeira controvérsia que dividiu a comunidade islâmica. desde os inícios do século VIII. I. A ética teológica As teorias teológicas. que provém sempre da vontade do agente. Seus argumentos definem o . que poderia ser vertido por “responsabilizado ou obrigado a responder” por atos e crenças que o Texto sagrado considera repreensíveis31. todas derivadas da suprema fonte. Todavia. H. por exemplo. passim. em qadarītas33 (defensores da liberdade humana) e seus oponentes. estabelecia que valores como a justiça e o bem têm uma existência real. um termo árabe com significado equivalente a “responsabilidade”. em outros. como. independente da vontade de Deus. na voz passiva. A responsabilidade é condição fundamental da liberdade porque. A posição dos mutazilitas poderia ser chamada de “racionalismo parcial”. sempre que necessário. o consenso comunitário (ijmā‘) e o juízo por analogia (qiyās). 34 Ver SHAHRASTĀNĪ. Entre os séculos VIII e X..) e sereis interrogados acerca do que fazíeis. pois. R. o qadarismo amalgamou-se com o mutazilismo nascente. v. 2/2010. uma com a outra. 31 Corão XVI:56. isto é. a responsabilidade do agente não poderá ser reclamada. desse modo. pp. caracterizam-se por uma ética de cunho racionalista.”32 A questão da responsabilidade é um tópico de suma importância no subsequente desenvolvimento da teologia islâmica. para os mutazilitas.103-130. O qualificativo de qadarī parece ter surgido com valor pejorativo destinado a alguns oponentes do regime omíada. a onipotência divina na forma de predeterminação dos atos humanos pelo decreto divino (qadar). como quiseram os deterministas que defendiam a predestinação de tudo. o pecado não poderia ser atribuído à vontade de Deus. 32 NASR. S. mas jamais opondo uma à outra. posto que o seu conteúdo reflete sobretudo o pensamento das correntes religiosas dominantes que atuavam nas controvérsias legais e teológicas após a morte do Profeta.112 Pereira. Isso significa que a ação. posto que implica a liberdade de cada um. XLIII:44. ocorre o termo yus’alu. 33 Qadariyya é a corrente de pensamento político-religiosa que desde o século VIII advogou o livre-arbítrio. conhecido pela razão e. 23-24. Aspectos da ética no Islã 113 sas coleções material sistematizado de valor histórico. complementando. se não corresponder. seja nas ações. Embora frequentemente não haja em suas teses uma demarcação nítida entre o racional e a obrigação religiosa. A discussão sobre o livre-arbítrio parece ter se originado das polêmicas que os muçulmanos mantinham com os cristãos. A corrente dos mutazilitas. Os mutazilitas são considerados os primeiros pensadores genuínos em questões éticas. entre os sábios muçulmanos anteriores ao advento da filosofia. a natureza do bem e do mal poderia. a responsabilidade humana. uma vez que eles defendiam a tese de que o que for “justo”. cujos principais representantes são os mutazilitas e os asharitas.30 Com relação à liberdade e à responsabilidade humanas. as relativas à retidão e à iniquidade. em apenas alguns casos. Fakhry adverte para o problema de não haver. XXI:23. sobretudo nos círculos teológicos.34 30 FAKHRY. deve corresponder à vontade de seu agente. Livre des religions et des sectes (Kitāb al-milal wa al-nihal). com base em um conhecimento racional fundado na veracidade de categorias. portanto.. ser determinada com base na razão e independentemente das prescrições contidas no Corão.. Os teólogos “racionalistas” mutazilitas encontraram na ética a maneira de harmonizar a razão com a Revelação. 93. teólogos considerados “racionalistas”. No início do califado abássida. que foi significativa para o desenvolvimento ulterior da ética islâmica. XXIX:13. pp. 434. os deterministas (mujbirah e jabriyyah). somente pela Revelação e fontes derivadas. que é o Corão.

Desse modo. de inspirações provindas do sufismo38.114 Pereira. desde a gramática e a lexicologia da língua árabe até as ciências do Corão. quando. de categorias filosóficas e. o argumento é considerado falso e. Em Mi‘yār al-‘ilm. Sendo Deus o Criador e o Legislador supremo. a felicidade suprema. o tratamento dispensado a esta disciplina é mais metódico. taca-se Al-Ghazālī. uma ética que defende a vontade divina acima de tudo. 1111). . às vezes. pp. Em sua enciclopédica obra Ihyā’ ‘ulūm al-dīn (Vivificação das Ciências Religiosas) há passagens que correspondem à ética. Ghazali’s Theory of Virtue (cf. Grammaire et théologie chez Ibn Hazm de Cordue. Mīzān al-‘amal (Balança da Ação). servindo-se de conceitos teológicos. Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. determinaram que cabe somente à vontade divina decidir o que é justo ou injusto. configura-se o “voluntarismo ético”. que inclui Mi‘yār al-‘ilm fī fann al-mantiq (Critério da Ciência na Arte da Lógica) e Tahāfut al-Falāsifa (Destruição dos Filósofos). Sua vontade é a fonte última do ser e do bem no mundo. como indicam os títulos. religiosos e místicos. p. O termo “ação” tem um significado mais amplo. “bom” e “reto” o que for aprovado e prescrito por Deus. Aspectos da ética no Islã 115 que é justo e bom quando são apresentadas qualidades reais ou relações entre atos. Al-Ghazālī desenvolveu em Mīzān al-camal. em que os valores morais devem ser compreendidos somente à luz da vontade divina. apoiamo-nos principalmente no estudo de SHERIF. que prega a supremacia da vontade de Deus. Em sua importante obra de crítica às religiões e doutrinas Kitāb al-fasl wa-al-nihal. Segundo Fakhry. seu pensamento abrange o direito islâmico (fiqh). Os asharitas não rejeitaram de todo os métodos discursivos dos mutazilitas. coragem. a teologia e o conjunto das ciências islâmicas. no Mīzān. em que a discussão sobre as questões morais é apresentada extensivamente. p. “Al-Ghazālī. moderação e justiça. 37 Ver ARNALDEZ. como o próprio Al-Ghazālī reconhece. Os seguidores de Al-Ash‘arī. O justo e o bom são definidos “verdadeiros” quando as requeridas qualidades e relações estão presentes no argumento. No século XI. para as considerações que seguem. ainda que sejam fundamentadas nas quatro virtudes cardinais da tradição grega: sabedoria.40 Al-Ghazālī parte do princípio de que as qualidades boas e más são definidas pela Lei revelada. 39 Por se tratar de um trabalho aprofundado sobre a ética gazaliana. que. Seu pensamento articulou a síntese entre conceitos filosóficos.39 Al-Ghazālī compôs um tratado de ética. Sua obra se dirige ao conhecimento e à ação. as passagens dedicadas a questões éticas em Ihyā’ parecem ser mais um esboço ou um sumário do que. mas. 40 FAKHRY. 41 LAOUST. A defesa do Islã sunita”. para Al-Ghazālī. É considerado “justo”. sobre Al-Ghazālī. não se chega à definição do que é justo e bom. ver GUERRERO. 193. Al-Ghazālī adapta a análise das premissas éticas aumentando-as e fundindo-as com conceitos teológicos islâmicos. mas proclamaram uma ética “voluntarista”. essa linha se tornou dominante no meio sunita com a escola fundada pelo teólogo Al-Ash‘arī (873-935) e com as escolas de direito dos shāfi‘itas35 e dos hanbalitas36. 36 Seguidores da escola de direito sunita fundada por Ahmad ibn Hanbal (780-855). Ethical Theories in Islam. 38 FAKHRY. 73. nele estão ausentes.103-130. só pode se realizar na vida futura. 6-7. pp.41 O Mīzān al-‘Amal é parte de uma trilogia. pois inclui também o refinamento espiritual e a prática cultual (‘ibāda). como atesta o jurista. Autor versátil. 2/2010. R.37 Dentre os pensadores que elaboraram uma ética teológica fundada nos preceitos corânicos e na Tradição (Hadīth). Ethical Theories in Islam. bom ou mau. portanto. que seguia a escola jurídica zāhirita. isto é. Entre os teólogos. 4-8). Desse modo. mais tarde. ele critica o asharismo. pensador e poeta de Córdova Ibn Hazm (994-1063).. a teologia asharita já era conhecida na parte ocidental do Islã. Al-Ghazālī aplica essas premissas éticas ao conhecimento e à ação que conduzem à suprema felicidade. La Politique de Ghazālī. inclusive o teólogo AlGhazālī (m. pp. o mais conceituado teólogo do Islã sunita. ao contrário. S. 177-210. mas ao conhecimento e à ação relevantes para o mais elevado fim humano. este último título serviu a Averróis para refutar as teses gazalianas contra a falsafa em seu célebre tratado Tahāfut al-Tahāfut (Destruição da Destruição). isto é. p. des35 Seguidores da escola de direito sunita fundada por Muhammad ibn Idrīs al-Shāfi‘ī (767-820). ele aceita a sua importância para o aprendizado estritamente islâmico. das tradições (hadīths) e dos comentários corânicos. H.

Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. para esse teólogo. Em Mīzān al-‘amal. 2/2010. Al-Ghazālī alerta para os possíveis perigos e decepções que podem advir quando se aceita a concepção filosófica da ética. as primeiras dizem respeito ao conhecimento derivado exclusivamente do intelecto humano. o modo específico de treinar o caráter. asserção que enfatiza 42 Sherif expõe de modo bastante claro a divisão dessa importante obra gazaliana em SHERIF. afirmando que a ética não é uma criação dos filósofos. A ética filosófica A concepção da ética que os filósofos muçulmanos do Medievo têm não é a mesma que temos hoje. que é o conhecimento dos profetas.”45 As concepções de Al-Ghazālī tornaram-se poderosas no fim do século XI e prevaleceram no Islã sunita. Al-Ghazālī concebe a ética como disciplina independente da política cujo principal objetivo é o refinamento moral do indivíduo. o caminho para a felicidade. a política e a administração econômica. As três concepções de ética de Al-Ghazālī – racional. A ética. o refinamento da alma. destacam: a insensatez de negligenciar a busca da felicidade. pois eles a tomaram emprestada dos místicos. ele a concebe como disciplina originária dos ensinamentos dos místicos. especificamente dedicada a questões éticas. Com esse sentido. a moral é parte de um todo maior. Ele define a ética como parte da ciência prática. Al-Ghazālī muda sua terminologia e divide as ciências que “residem no coração” em racionais (‘aqliyya) e religiosas (shar‘iyya). pp. Mohamed Ahmed Sherif observa que a ética gazaliana “inclui elementos filosóficos. a ética é sem dúvida a disciplina mais importante. Os principais temas sobre os quais Al-Ghazālī se debruçou em sua obra Mīzān al-‘amal44. Como os místicos estão voltados para a purificação de suas almas e o refinamento de seus caracteres. Ghazali’s Theory of Virtue. pp. suas faculdades e as qualidades de caráter. em relação às outras duas partes. desse modo. que Al-Ghazālī deliberadamente traz à luz e funde de modo que se completem entre si e formem um todo que não seja meramente a soma das partes. a noção de que a ética lida com o refinamento do caráter individual. Para Al-Fārābī e Averróis. ou por uma inspiração (ilhām) de fonte desconhecida. Ghazali’s Theory of Virtue. Ghazali’s Theory of Virtue. o conhecimento chega a seus corações por inspiração. a moral é o aspecto da conduta humana entendido como hábitos e traços de caráter a serem desenvolvidos a fim de que o indivíduo aja de acordo com os ditames da reta razão. Contudo. 3) somada a essas duas concepções (racional e religiosa). religiosos e místicos. inserida numa divisão das ciências em ciências religiosas derivadas da Sharī‘a e ciências não religiosas (ġayr Sharī‘a). também é parte de um todo maior. A importância da ética como disciplina fundamental é destacada em sua obra máxima Ihyā’ ‘ulūm al-dīn (Vivificação das Ciências Religiosas). religiosa e mística – levantam problemas quanto à resolução das diferenças e possíveis contradições que encerram. a mística confere à ética um ingrediente essencial para o conhecimento. mas tenha características próprias como teoria ética. trata-se de uma reflexão (i‘tibār) baseada na observação dos fenômenos físicos – quanto por uma Revelação divina (wahy). H. Neste tratado. 10-15 43 SHERIF. pp. ou seja. mas expande sua teoria com o acréscimo de noções místicas e religiosas islâmicas. é parte das ciências religiosas. Nessa obra. que é o conhecimento dos místicos. 2) na introdução à segunda metade de Ihyā’. Aspectos da ética no Islã 117 De início. . Al-Ghazālī define a ética na perspectiva filosófica.103-130. pp.116 Pereira. o sinal do primeiro lugar de repouso para os que buscam Deus. que é o conhecimento e a ação. 21-22. R. as principais virtudes. ao passo que as segundas se referem ao conhecimento recebido das profecias. pois é integrante do co44 A obra está dividida em trinta seções intituladas bayān (exposição). ou seja. 45 SHERIF. é parte da virtude. por sua vez. Al-Ghazālī classifica explicitamente a ética como disciplina mística e critica a sua direção filosófica.43 Em Al-munqid min al-dalāl (O que libera do erro). é uma disciplina fundamental que não apenas supre as outras ciências. como ainda é por elas utilizada. a concepção gazaliana de ética está exposta em três livros42 e pode ser resumida em: 1) a concepção da ética como disciplina que. a excelência da razão. do conhecimento e da instrução. 12-15. A virtude. O conhecimento pode ser adquirido tanto por meio da instrução e do aprendizado – neste caso.. S.

Nesta última. peripateticorum principis Moralium Nicomachiorum cum Averrois Cordubensis expositione. pp. in: AL-FĀRĀBĪ. El Camino de la felicidad (Kitāb al-tanbīh ‘alà sabīl al-sa‘āda). a associação política e a felicidade em várias obras. Obtenção da Felicidade (Al-Tahsīl al-sa‘āda). The Fihrist. 52. foi na Ética Nicomaqueia. temperança.. 1903. 53 AVERRÓIS (IBN RUŠD). p. Conforme Peters. p.”54 seções da Ética Nicomaqueia e duas da Grande Ética. 18. El Camino de la felicidad. 17. Ta’rīkh al-hukamā’. The Enumeration of the Sciences (Ihsā’ al-‘ulūm). Bayard Dodge. ver BUTTERWORTH. p. de maneira bastante sumária. cf. editor e tradutor para o inglês do Fihrist. Mais confusa ainda é a notícia de que o comentário de Porfírio está disposto em 12 seções. pp. L’Humanisme arabe au IVe/Xe siècle.103-130. sem dúvida. em parte aristotélica. Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. ‘Adī. que melhor sorveram os ensinamentos a esse respeito. R. 160H. 2/2010.118 Pereira. Al-Fārābī desenvolveu conceitos éticos sobre a virtude. chegar à perfeição da alma com a aquisição do conhecimento teorético. segundo a lista de BADAWI.) e das virtudes do pensamento (dianoéticas). os dois Livros Grandes de Ética e a Nicomaqueia Pequena. The Harmonization of the Two Opinions of the Two Sages. sabe-se de sua existência por uma informação de seu próprio punho51 e por citações de Ibn Bājjah (Avempace)52 e de Averróis53.50 O primeiro a comentar a Ética Nicomaqueia foi Al-Fārābī. Posto que a alma humana é concebida como racional e sua perfeição maior é a obtenção do conhecimento teorético. apud GUERRERO. 50 ARKOUN. pp. Avempace e Averróis fizeram amplo uso dela. além da Ética Nicomaqueia. para Aristóteles. pois sabe-se que a Ética Nicomaqueia é composta de dez livros. a amizade. A felicidade maior neste mundo é. hoje perdido. Esse comentário. fol.49 A notícia do Fihrist. 3-46. 147-148. principalmente o do pensador Miskawayh (ca. em seu célebre Fihrist (Catálogo). p. as inclinações e os estados de caráter (alakhlāq) que conduzem a tais ações e regimes. 160L. pp. in: AL-FĀRĀBĪ.8-10. traduzido por Ishāq ibn Hunayn. 932-1030). Guerrero apresenta um quadro sobre as edições da Ética Nicomaqueia. “La Ética nicomaquea en el mundo árabe”. o comentário de Porfírio pode ter recebido na tradução árabe tanto uma divisão especial dos dez livros da Ethica Nicomachea quanto uma adição da Magna Moralia. p. 417-430. 51 AL-FĀRĀBĪ. Na Introdução à sua tradução do Kitāb al-tanbīh ‘alà sabīl al-sa‘āda (El camino de la felicidad). todavia. 995). Leipzig. Aspectos da ética no Islã 119 nhecimento teorético. Porfírio escreveu um comentário em 12 seções. Aristoteles Arabus. La Transmission de la philosophie grecque au monde arabe. parece ter contribuído significativamente para a formação do pensamento ético islâmico. por exemplo. Edição J. 224-239. 48 IBN AL-NADĪM. 49 IBN AL-QIFTĪ. como. noticia. Aristoteles Arabus. não há virtude de pensamento que não esteja acompanhada de virtude de caráter. DODGE. todas as virtudes estão ordenadas de modo a contribuir para que se atinja esse fim. cf. base para o desenvolvimento das virtudes de caráter (coragem. PETERS. Dentre os mais notáveis. p. é ambígua. A Ética Eudemia e a Grande Ética não foram traduzidas para o árabe. portanto. a Ética Eudemia. PETERS.”48 O historiador Ibn al-Qiftī (1172-1248) confirma que o tradutor da 46 A esse respeito. nota 27: consta que os vários biobibliógrafos e alguns filósofos citam de Aristóteles. assim como as disposições morais. Ainda que pareça plausível que os filósofos do Islã tenham tido conhecimento da existência das diversas obras de Aristóteles sobre ética 47. . afirma que é possível que o Kitāb al-Akhlāq (Livro de Ética) incluísse as dez Ética foi Ishāq ibn Hunayn. 98. em parte platônica: a ciência política (al-‘ilm al-madanī ou al-‘ilm al-siyāsa) é definida como a ciência “que investiga os vários tipos de ações voluntárias e regimes (al-siyar). a existência da Ética: “Dentre os livros de Aristóteles. V. 52. The Fihrist. 24. “Ethics in Medieval Islamic Philosophy”. há o Livro de Ética (Kitāb al-Akhlāq) copiado do que fora escrito pelo punho de Yahyà b. Lippert. p. in: IBN AL-NADĪM. p. obra em que Aristóteles desenvolve a noção da disposição de caráter (héxis). 606. Aristotelis Stagiritae. p. a ideia farabiana de ética funde-se com uma visão da política. Caminho da Felicidade (Al-Tanbīh ‘alà sabīl alsa‘āda) e Catálogo das Ciências (Al-Ihsā’ al-‘ulūm). Al-Fārābī. generosidade etc. É oportuno observar que. cap. Ibn al-Nadīm (m.46 Reconhece-se nessas concepções a influência sobretudo da Ética Nicomaqueia. Rafael R. 205. p. Na medida em que procuraram conciliar os ensinamentos do Corão e da Tradição (Hadīth) com a filosofia. As notícias biobibliográficas sobre essa obra aristotélica. no entanto. são confusas. encontraram na ética aristotélica as indicações apropriadas para a realização do modelo de vida ideal da sociedade humana. 47 Ver GUERRERO. H. nota 135. pois não oferece dados suficientes sobre esse texto aristotélico. 606. cf. Ver ainda GUERRERO. S. “Lectura de la ética griega por el pensamiento de Ibn Bājjah”. Avicena. p. 54 AL-FĀRĀBĪ. 52 Ver LOMBA. 42. Embora esse comentário não tenha sobrevivido.

. Aspectos da ética no Islã 121 Averróis não escreveu nenhum tratado de ética. 118. 57 FAKHRY. sob enfoque místico. p. 305)57.. 7. 1. nesse domínio. p. Em outras obras. apenas transmitiram sua filosofia. em Aristóteles. “uma tentativa 55 BERMAN. Traité d’éthique.”61 Não há dúvida de que o comentário de Porfírio à Ética Nicomaqueia circulava em ambiente islâmico. partes dos Livros VIII-IX sobre a amizade e a segunda parte do Livro X.” MISKAWAYH. 31-59.). Miskawayh assevera ter conhecimento dos livros de ética de Aristóteles em Tahdhīb al-akhlaq wa-tathīr al-a‘rāq. este é citado apenas uma vez. Dodge registra: “possivelmente dez seções da Ética Nicomaqueia e duas da Magna Moralia”. p. pp. do Livro V sobre a justiça. p. em alguns pensadores. p. 992) compôs a antologia filosófica Kitāb al-sa‘āda wa al-is‘ād (Livro sobre a felicidade e o fazer feliz). Nesta obra. dirige-se à questão do bem e do mal. 606. Ethical Theories in Islam. que. p. entretanto. Sobre Miskawayh ter conhecimento do comentário de Porfírio à Ética Nicomaqueia. em certa medida. cap. 234-ca. “Excerpts from the Lost Arabic Original of Ibn Rushd’s ‘Middle Commentary on the Nicomachean Ethics’”. no entanto. em Galeno e nos ‘sábios’ persas de maneira rapsódica. que consiste de amplas citações da ética e da política de obras gregas. com a ajuda de Deus. 94-103. p.. o pensamento de Averróis. Temístio e. Miskawayh menciona “o livro de Aristóteles. Livro III. ainda que. as teorias filosóficas sobre a ética derivam diretamente dos comentários de autores neoplatônicos sobre as éticas de Platão e de Aristóteles. Porfírio. ele cita suas fontes com precisão. 122. constituindo-se na principal fonte das elaborações da ética dos filósofos. Ethical Theories in Islam. 6.. nesse processo. sobretudo nos tópicos éticos. nos livros III-V de seu tratado. palavra por palavra. p. trata do bem supremo (. pp. da justiça e da injustiça. cap. S. o pensador escreve: “Neste livro. 295-296. L’Humanisme arabe au IVe/ Xe siècle. 60 FAKHRY. É possível. Traité d’éthique (Tahdhīb al-akhlaq wa-tathīr al-a‘rāq). “Porphyry and the Arabic Tradition”. não pode ser visto como um tratado de ética no sentido estrito. e está mais próximo de um discurso teológico-legal do que de um discurso propriamente filosófico. (. contudo. pp. iniciamos por fazer. “embora este livro contenha uma vasta quantidade de material. cujo comentário à Ética Nicomaqueia em 12 livros (maqāla) é relatado pelas fontes árabes58 e serviu de base – além do próprio texto aristotélico – a Miskawayh para redigir seu tratado Tahdhīb al-akhlaq watathīr al-a‘rāq (Reforma dos Caracteres e Influência dos Costumes)59. na medida do possível. pp. Richard Walzer observa que Miskawayh “reproduz. 125.. nos temas políticos.. 62 FAKHRY.). em especial os asharitas e seu principal expoente. H. o filósofo de origem persa Abū al-Hasan Muhammad ibn Yūsuf al-‘Āmirī (m. no Livro II. que ele deve ter lido a Ética Nicomaqueia com a ajuda de uma paráfrase ou de um comentário.. 6. o que tomamos emprestado dos comentadores de seus livros e dos que de amalgamar as doutrinas éticas de Platão e de Aristóteles e apresentá-las sob enfoque neoplatônico e. 205.120 Pereira. Há tradução (inglesa) de extratos do tratado de ética de Miskawayh em ROSENTHAL. 294-296. Já no século X. Ethical Theories in Islam. em sua introdução. 56 Sobre a ética e a política em Averróis.”60 Miskawayh.”62 O que importa dessa observação de conjunto é o fato de a Ética Nicomaqueia ser lida e consultada no mundo islâmico. pois.” WALZER. ou melhor. 2/2010. amplas seções de um desconhecido comentário neoplatônico à Ética Nicomaqueia que se é tentado a identificar com o comentário de Porfírio (. em seguida. eudaimonía. ao contrário da prática corrente entre os autores medievais.) Miskawayh não cobre a totalidade da Ética Nicomaqueia. sobreviveram alguns fragmentos do original árabe55 do Comentário Médio (talkhīs) sobre a Ética Nicomaqueia e o texto completo nas versões hebraica e latina. cap. mas somente uma grande parte do Livro I sobre a felicidade. No entanto. Como observa Fakhry.103-130. 59 MISKAWAYH. ver PEREIRA. citaremos Aristóteles. a distinção entre o bem e a felicidade. 61 MISKAWAYH. pp. Acrescentaremos. Al-‘Āmirī cita Alexandre de Afrodísia. Dos seus comentários à obra de Aristóteles. Na nota 135.56 Entre os pensadores de expressão árabe. p. não elaborou nenhuma teoria própria sobre ética. A leitura desses livros mostra claramente. no meu entender. ver ARKOUN. Livro I. 54. 58 IBN AL-NADĪM. 606. No início do Livro III de Tahdhīb al-akhlāq. p. ver WALZER. a fim de segui-lo e conceder-lhe o que lhe é devido. Traité d’éthique. não parece ter se limitado ao comentário de Porfírio. O principal elo. Passaremos a referir o que ele disse acrescentando o que colhemos em outras passagens de sua obra para juntar o que ele disseminou. Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. 7. R. discernir o seu pensamento em relação à ética em certas passagens do Comentário sobre a República e sobretudo em suas obras que criticam a teologia dos mutakallimūn. The Classical Heritage in Islam. Al-Ghazālī.” . Averróis e a arte de governar. seria Porfírio de Tiro (ca. Fakhry observa que “Al-‘Āmirī se inspira amplamente em Platão. Fihrist. 2. “Porphyry and the Arabic Tradition”.

mas usou proficuamente as doutrinas de Aristóteles e de Platão. L’Humanisme arabe au IVe/Xe siècle. “a projetar uma iluminação filosófica sobre a imagem simbólica ideal do homem perfeito. p. cujo capítulo II é dedicado ao estudo da justiça e em que Miskawayh afirma que Aristóteles. pp. as obras de filósofos árabes anteriores. o seu propósito é transmitir uma tradição por meio de uma “coerência racional”. Miskawayh merece o título de “filósofos dos letrados” porque é um dos pensadores de sua geração “que mais eficazmente contribui para fazer prevalecer. H. Miskawayh escreveu para um público avesso a uma tecnicidade elaborada. “From Galen’s Ethics”.65 Miskawayh se propôs. p. diz: ‘A Lei suprema emana de Deus. e tanto Al-Fārābī quanto Averróis teceram comentários a ela. Em sua obra há uma constante preocupação pedagógica. Traité d’éthique. 67 ARKOUN. desde o estágio de uma moralidade limitada a um grupo social ou a uma época determinada até a elaboração de uma ética propriamente. pp. “A Translation of the Arabic Epitome of Galen’s book ΠΕΡΙ ΗΘΩΝ”. p. que sobreviveu apenas na versão árabe com o título Kitāb al-Akhlāq li Gālīnūs63. Seu objetivo é uma reforma dos hábitos para a realização da cidade virtuosa e para a orientação “na via rumo à felicidade suprema dos homens”. cita-se a passagem do Livro IV. O Tratado de Ética. porém. pp.68 Leitor e conhecedor dessa literatura filosófica. 85-94. p. outra obra seminal que serviu de inspiração aos autores muçulmanos. 25-34. in: ROSENTHAL. 1274) e de Jalāl al-Dīn al-Dawwānī (m. porém satisfatórias. transmite ao leitor. Na tradição da ética filosófica que se desenvolveu no Islã há. Uma Maqāla desse tratado foi traduzida por Franz Rosenthal para o alemão. Avicena segue os ensinamentos dessa obra do Estagirita. II) do caráter e da educação. 207. Traité d’éthique. preferindo contorná-los com alusões a suas “dificuldades ou obscuridades”. é importante orientar os jovens discípulos sobre as leituras apropriadas acerca de cada tema. entre seus contestadores. é um manual em que estão expostas doutrinas de cunho helenizante sobre a vida moral. Aspectos da ética no Islã 123 por meio do comentário de Porfírio. 68 ARKOUN. Al-Rāzī. nº V. em certas passagens Miskawayh adapta o pensamento do Estagirita à realidade islâmica. 66 ARKOUN. 65 FAKHRY. Das Fortleben der Antike im Islam. III) do bem supremo ou felicidade. . Traité d’éthique. 53. pp. 1965.122 Pereira. de Miskawayh. uma difícil argumentação. “em seu livro conhecido como Nicômaco. 208. dade ao ensino prático. Existe uma tradução direta do árabe desse tratado: GALENO. Stuttgart: Artemis & Winkler Verlag. certas preocupações de origem filosófica. de modo claro. em que imperava mais a vontade de brilhar do que o aprofundamento das questões. não se empenha apenas em compor comentários rigorosamente filosóficos como os de Avicena e de Al-Fārābī.. 70 ARKOUN.”66 Como o próprio Miskawayh sublinha acerca da educação das crianças e dos jovens. pois ele considera que. e que também serviu de base para as formulações de Miskawayh64 e de seus sucessores. IV) do exercício das virtudes. R. 235-260. p. V) do amor e VI) da medicina da alma. porém. Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. Absteve-se de discorrer sobre problemas teóricos. ca. xi. Ethical Theories in Islam. “Introduction” in: MISKAWAYH. The Classical Heritage in Islam. Al-Fārābī. 200) Perì Ethon. não significa que em sua obra não haja um método de exposição assinalando o encadeamento de suas ideias.67 Miskawayh. p. 64 FAKHRY. L’Humanisme arabe au IVe/Xe siècle. 7. 216. 2/2010. Ethical Theories in Islam. a saber. além da ética aristotélica. Miskawayh afirma conhecer o tratado de Galeno sobre ética: MISKAWAYH. trata-se de “um talentoso vulgarizador que domina suficientemente sua matéria a fim de integrá-la na cultura geral.103-130. 1939. e vertida para o inglês. Este é um autor cujo estilo. 120-133. Como exemplo. como Al-Kindī. in: ROSENTHAL.”69 Partícipe de um ambiente em que importavam as respostas simples. L’Humanisme arabe au IVe/Xe siècle. diante de uma vasta bibliografia disponível ao filósofo. particularmente de Nasīr al-Dīn al-Tūsī (m. Miskawayh concede priori63 Editado por Paul Kraus in: Bulletin of the Faculty of Arts of the Egyptian University. o tratado de Galeno (m. ao mesmo tempo simples e elegante. Embora a fonte mais citada seja a ética de Aristóteles. “Introduction” in: MISKAWAYH. como observa Mohammed Arkoun. p. Está dividido em seis livros que tratam: I) da alma e das virtudes. além das sínteses de Galeno e de referências ao corpus alquímico jābiriano. Como afirma Arkoun. 7. S. x. Segundo Arkoun. tal como ela se impunha à consciência moral árabe. Isso. pp. o juiz é uma segunda lei 69 ARKOUN. 1501). Franz.”70 Miskawayh não elaborou nenhum sistema ético nos moldes filosóficos.

é uma norma (ár. “A moeda. Não se trata. proficuously utilized the Aristotelian and Platonic doctrines. Ética nicomaqueia V.”71 Depois de afirmar que é a Lei que fixa o justo meio e o equilíbrio. deslizamento corrente na filosofia árabe-islâmica. 74 ARISTÓTELES. o juiz e a moeda são regulados pela Lei de Deus. Avempace and Averroes made ample use of Nicomachean Ethics.103-130. não é possível considerar a ética de Miskawayh uma moral religiosa. integrando as principais virtudes árabe-islâmicas. que inspirem a conduta do próprio autor ou pelo menos instiguem debates constantes em seu espírito. p. Al-Fārābī. “a moeda é o meio termo que realiza o justo. dirigida a um público culto. fundada em conceitos retirados da Ética Nicomaqueia. S. p.124 Pereira. na sua língua. Nāmūs quer dizer. decerto. Keywords: Islam – religious morality – theological ethics – philosophical ethics. faltava entre os árabes um tratado de ética 71 MISKAWAYH. portanto. o qual é o guardião do justo e dotado de palavra. mas também um manual de regras que representasse para o público das cortes buídas o que a Ética Nicomaqueia representou para o público grego: uma exposição sistemática. a moeda é uma terceira. theological ethics and philosophical ethics. Cadernos de Ética e Filosofia Política 17. Al-Rāzī and Al-Fārābī. Contudo. Como o trabalho de alguém pode ter um valor maior que o de outro. de Miskawayh. R. Traité d’éthique. faz referência aos juízes “mediadores” (dikastèn méson) e imparciais75. . at times. Cf. não afirma que “a Lei emana de Deus”. 1132a 20-29. Miskawayh also stands out who. administração etc.”72 O homem. é necessário que vivam em um sistema de trocas segundo um modo de retribuição proporcional. de um tratado de moral religiosa. gr. 181. Among the philosophers. Among the thinkers who elaborated a theological ethic founded on the koranic precepts. Avicenna. b) that which is within the law and divine power’s reach. sobretudo daquela de Aristóteles. 2/2010. Al-Ghazālī stands out as the most respected theologian of sunni Islam. utiliza a moeda para avaliar as transações. and of what is iniquous. As they sought to conciliate the teachings of the Koran. pp. 76 Arkoun adverte que o Tratado de Ética.. 181. diz Aristóteles. recorre-se ao juiz. L’Humanisme arabe au IVe/Xe siècle.77 Aspects of Ethics in Islam Abstract: The plurality of discussions and the diversity with which the main ethical questions were approached permit the separation of relative theories elaborated in Islam into three distinct dimentions: religious morality. 77 ARKOUN. nómos) que estabelece a reciprocidade proporcional. p. making use of theological concepts. a moeda estabelece a equivalência proporcional entre as partes: assim. Traité d’éthique. 75 ARISTÓTELES. This morality establishes the fundamentals to determine: a) the nature of what is correct. although did not elaborate any ethical system based on philosophical norms. Miskawayh retoma o axioma aristotélico – os homens são políticos por natureza e. Religious morality was elaborated based exclusively on the precepts of the Koran. and on the Tradition (Hadīth). A discussão do Livro V da Ética Nicomaqueia estabelece a diferença entre a lei natural e a legal em relação ao justo (díkaion) na esfera política74. Traité d’éthique. 365. mas não afirma nada sobre o juiz representar “uma segunda lei que vem de Deus”. já que ele se vale da filosofia grega. p. H. Ética nicomaqueia V.76 Como bem sintetizou Arkoun. 35. and of the Tradition (Hadīth) with philosophy. 1134b 18-25. these philosophers found in the Aristotelian ethics the appropriate indications to realize the ideal model for human society. and the moral responsibility of each one. se houver desacordo entre as partes. 181. philosophical categories and. 72 MISKAWAYH. em estilo muito acessível. deve ser considerado não somente uma aproximação científica da questão moral. governo. e que se aproxima de um tratado moralista. A Lei de Deus (Nāmus Allāh) é o modelo de todas as outras. L’Humanisme arabe au IVe/Xe siècle.”73 Aristóteles. inspirations coming from Sufism. ou seja. and the works of Arab philosophers before him such as Al-Kindī. uma “islamização” do pensamento de Aristóteles. Há. dotado de palavra. da moral de Aristóteles. Aspectos da ética no Islã 125 que vem Dele. apoiada em uma metafísica e em uma psicologia platônicas. embora ela seja muda. a Sharī‘a. nāmūs. evidentemente. 73 MISKAWAYH. p. portanto. ARKOUN. c) the liberty. and on the teachings of the Tradition (Hadīth). mas de uma tentativa de sistematização da ética em linguagem acessível.

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