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Excreção de amônia por tambaqui

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Excreção de amônia por tambaqui (Colossoma macropomum) de acordo com variações na temperatura da água e massa do peixe(1)
Rosa Angélica Ismiño-Orbe(2), Carlos Alberto Rego Monteiro Araujo-Lima(3) e Levy de Carvalho Gomes(4)

Resumo – A amônia, produto de excreção dos peixes, é tóxica para organismos aquáticos. O objetivo deste trabalho foi quantificar taxas de excreção diária de amônia em tambaqui (Colossoma macropomum), principal espécie criada na Amazônia, que podem variar de acordo com a temperatura da água e a massa dos peixes. As taxas de excreção foram determinadas a cada 2 horas por um período de 24 horas e os resultados analisados por uma regressão linear múltipla. O tambaqui apresentou de dois a cinco picos de atividade de excreção durante 24 horas, caracterizados por rápidos aumentos de até dez vezes na taxa horária de excreção. O modelo desenvolvido pela regressão linear múltipla explicou 95,2% da taxa diária de excreção de amônia, que aumentou com a massa do peixe, mas diminuiu com o aumento da temperatura da água. Termos para indexação: qualidade da água, ambiente de criação, produtos nitrogenados, peso, proteína. Ammonia excretion by tambaqui (Colossoma macropomum) related to water temperature and fish mass Abstract – Ammonia, an excretion product of fish, is toxic to aquatic organisms. The objective of this study was to account daily ammonia excretion rates of tambaqui (Colossoma macropomum), the main fish species of the Amazonia related to water temperature and fish mass. Ammonia excretion rates were measured every two hours during a 24-hour period and results were evaluated by a multiple linear regression. Tambaqui presented two to five excretion peaks during the 24-hour period, reaching up to ten times the mean excretion rates. The model developed by the multiple linear regression explained 95.2% of the daily ammonia excretion rates, which increased according to fish mass and decreased when water temperature increased. Index terms: water quality, rearing environment, nitrogen products, weight, protein.

(1) Aceito

para publicação em 29 de julho de 2003. Extraído da dissertação de mestrado apresentada pelo primeiro autor ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Manaus, AM. (2) Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana, Av. Abelardo Quiñónez, km 2,5, Iquitos, Peru. E-mail: rayo14@hotmail.com (3) INPA, Caixa Postal 478, CEP 69011-970 Manaus, AM. E-mail: calima@inpa.gov.br (4) Embrapa-Centro de Pesquisa Agroflorestal da Amazônia Ocidental, Caixa Postal 319, CEP 69011-970 Manaus, AM. E-mail: levy@cpaa.embrapa.br

Pesq. agropec. bras., Brasília, v. 38, n. 10, p. 1243-1247, out. 2003

Exposições a altas concentrações de amônia. Os peixes foram mantidos por duas semanas em dois tanques de 500 L.5oC e pH de 6 a 6. Os aquários foram mantidos com aeração constante. causam degeneração na pele e danificação das brânquias e rins (Soderberg. Cuvier. Presidente Figueiredo. Os valores da taxa de excreção e da massa foram transformados em logaritmo (ln). 1994). ocorrendo principalmente no fígado. 10. Apesar da diferença entre peixes. sendo a taxa de excreção de amônia a variável dependente. houve uma tendência de sincronização nos picos de excreção de amônia. 1818). obtidos na estação de piscicultura de Balbina. AM. Em solução aquosa. 2003 .6. As medidas de excreção de amônia foram calculadas pela média das três amostras e corrigidas pelo aquário controle (sem peixe). v. e um aquário sem peixe foi utilizado como controle. Brasília. A.3 butanodiona monoxina). de acordo com mudanças na temperatura da água e massa dos peixes. além de retardar o crescimento e ter conseqüências negativas na sobrevivência (Jobling. (1978). 1994). a principal espécie criada na Amazônia. a temperatura de 25. em 3% da biomassa. variando entre aquários. 1994). A concentração de amônia total (NH3 + NH4+) foi analisada pelo método descrito por Golterman et al.33 e 238. O experimento foi delineado para o desenvolvimento de um modelo de regressão linear múltipla. O primeiro Pesq.54 g. variáveis independentes. A taxa de excreção de uréia foi quantificada ao final do experimento pelo método de diacetilmonoxina (2. 38. equipados com filtro biológico e bomba para recirculação de água. A taxa diária de excreção de amônia (mg NH3 + NH4+/dia) foi calculada com uma regressão linear múltipla. p. Este trabalho teve o objetivo de determinar a variação na quantidade de amônia excretada pelo tambaqui (Colossoma macropomum. os peixes foram alimentados na taxa de 3% do peso vivo. n. Foram utilizados 18 peixes com peso entre 17. A amônia produzida é transportada pelo sistema sangüíneo até as brânquias. 1999). Foram coletadas três amostras de água de cada aquário em intervalos de duas horas. bras. A amônia é o principal produto da excreção dos peixes. e a temperatura média de cada aquário e a massa dos peixes. sendo responsável por 80% do total excretado por várias espécies (Westers. 1994). Durante este período os peixes foram alimentados diariamente. Os peixes apresentaram de dois a cinco picos de atividade de excreção. normalmente está em equilíbrio entre a forma ionizada (NH4+) e a não-ionizada (NH3) (Boyce. Os peixes foram transferidos individualmente para aquários independentes com capacidade para 36 L.5 a 27. Estes picos foram caracterizados por rápidos aumentos de até dez vezes na taxa horária de excreção.5% de proteína). situação comum em sistemas de criação. No início do experimento.. Ismiño-Orbe et al. de onde é excretada para a água. com ração comercial (24. Esta molécula é derivada da digestão das proteínas e do catabolismo dos aminoácidos (Boyce. preenchidos com 20 L de água. que teve a duração de 24 horas.1244 R. em aquários. agropec. 2001). modificado para análise por injeção de fluxo (FIA). A excreção de amônia não foi constante durante o período de 24 horas (Figura 1). 1999) e sua síntese é energeticamente mais eficiente que outros produtos de excreção (Jobling. A toxidez da amônia em organismos aquáticos é atribuída principalmente à forma não-ionizada (Tomasso. 1243-1247. out.

Pesq.. 1243-1247. segundo e terceiro período de excreção de amônia de 18 tambaquis. A sincronização no ritmo da excreção diminuiu nos horários seguintes. 12 10 8 6 4 2 0 0 12 10 2a excreção 1a excreção 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 Freqüências 8 6 4 2 0 0 12 10 8 6 4 2 0 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 3a excreção 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 22 24 Horas após o início do experimento Figura 1. n. até 24 horas após o início do experimento. 2003 .Excreção de amônia por tambaqui 1245 período de excreção ocorreu entre 2 e 10 horas após o início do experimento. agropec. out. No segundo e terceiro período a maior sincronia de excreção ocorreu em 33% dos peixes às 8 e 14 horas. bras. e em 55% dos peixes. entre 12 e 22 horas após o início do experimento. 10. o pico ocorreu 4 horas após o início do experimento. As maiores freqüências no segundo período ocorreram entre 8 e 18 horas e no terceiro período. 38. Brasília. v. Distribuição das freqüências absolutas do primeiro. respectivamente. p.

0001) é explicada pela massa do peixe e pela temperatura da água. v. Para comparar a taxa de excreção do tambaqui com outras espécies. se considerarmos que esta espécie excreta uma quantidade de nitrogênio sob a forma de ácido úrico mais creatinina igual à quantidade de uréia. Ritmos de excreção semelhantes já foram relatados em outras espécies. 1997).0028). Echevarria et al. A relação entre a amônia total excretada. O coeficiente de relação entre a massa e a taxa de excreção de amônia foi 0.3%. Peixes carnívoros como Dicentrarchus labrax Pesq. como a quantidade de alimento e a porcentagem de proteína.0068 mg/dia. considerou-se que os experimentos foram realizados nas condições de temperatura e alimentação ótimas para as espécies.1246 R. 10. A. A quantidade de uréia excretada variou de 0.03(2. O erro padrão dos coeficientes está entre parênteses.P.06) . com valor médio de 0. O coeficiente do modelo gerado mostra que a excreção de amônia aumenta com o aumento da massa do peixe e com a diminuição da temperatura da água. Coeficiente menor que um indica que a excreção de amônia por unidade de massa diminui conforme o peixe aumenta de massa (Saint Paul.32(0. p= 0. foram mantidos constantes e dentro dos valores normalmente utilizados na criação da espécie (Araujo-Lima & Goulding. Em Sparus aurata (Porter et al.35 mg de amônia/dia.. sendo independente do tamanho do peixe (r= 0. Rychly & Marina (1977) também registraram dois picos de excreção em truta arco-íris (Salmo gairdneri). 38. 2003 . (1993) verificaram que Sparus aurata apresenta dois picos definidos de excreção de amônia. agropec. p= 0.t x 1. a maior parte da amônia excretada (95. a massa do peixe e a temperatura da água é descrita pelo seguinte modelo: ln taxa diária de excreção de amônia = 31. A excreção de amônia pelo tambaqui variou ritmicamente. 1987) e truta arco-íris (Ming.0032 mg/dia (D. Ismiño-Orbe et al. O ritmo de excreção parece estar relacionado com o ciclo do apetite (Ming. 1985). a fração de amônia excretada seria 87. bras. p.79. Porém. Outros fatores que poderiam influenciar na excreção. que depende da secreção periódica de corticosteróides.7%). O principal pico de excreção ocorreu quatro horas após a refeição e foi o mais freqüente.16. m é a massa em gramas e t a temperatura em oC. cuja freqüência é relacionada com a temperatura (Porter et al. Outros produtos de excreção nitrogenados não foram medidos neste estudo. com a rápida oxidação dos aminoácidos ingeridos ou com o ritmo hormonal diário.2%.00016 a 0. n= 6.96) + ln m x 0. como ocorre com outras espécies (Jobling. 1987).79(0. A quantidade de amônia excretada pelo tambaqui esteve diretamente relacionada com a massa do peixe e inversamente relacionada com a temperatura.. O principal produto nitrogenado excretado pelo tambaqui foi amônia (93.. n= 6. Brasília. 1994).76) e da temperatura dos aquários (r =0.64) em que amônia é NH3 + NH4+ em mg/L. out. Um tambaqui pesando 90 g a 27oC excreta 0. De acordo com o modelo de regressão linear múltipla gerado.= 0. 1986). Após esse pico. n. 1985).76). em períodos de aproximadamente quatro horas.16. ou seja. próximo ao expoente da relação alométrica entre massa e metabolismo para esta espécie. o máximo de excreção também ocorre quatro horas após a refeição. enquanto a uréia contribuiu com 6. houve menos sincronia no ritmo de excreção entre os indivíduos. p<0. 1243-1247.4%.

. 10. C. 214 p. n. p. 105. out. B. PORTER. The ammonia excretion of trout during 24-hour period. Amsterdam. M. RYCHLY. Inglaterra. p. 7-35.. 1. Aquaculture. W. 1977. v. Production. M. 1. Amsterdam. 27-35. In: WEDEMEYER. ZAMORA. J. 1986. respectivamente (Guerin-Ancey. 66. Porter et al. excreta menos amônia que espécies carnívoras cuja dieta é mais rica em nitrogênio. n. conservation. 147 p. CLYMO. 1987).. G. O. The neotropical Serrasalmid Colossoma macropomum: a promising species for fish culture in Amazonia. Fish bioenergetics. 46. M... A. n. Amsterdam. 31-90. JOBLING. 1994. KROM. Boca Raton: CRC Press. 11. MARINA. v. (Ed.. 1987. L. n. Study of nitrogen excretion in the gilthead seabream (Sparus aurata L. Journal of Fish Biology. Aquaculture. S. SAINT PAUL. 2001. 1993. So fruitful fish : ecology. DAVIDSON. n. R. O tambaqui. 71-80. Hamburg. Analysis Research and Development. M.. 2nd ed. S. em temperaturas de 24oC. A. BOYCE. Nitrogenous excretion in the Antarctic plunderfish. Toxicity of nitrogenous wastes to aquaculture animals.. p. 2003 . GOULDING.52 e 0. 1. 2. O modelo de excreção de amônia gerado neste trabalho fornecerá subsídios para se determinar a taxa de renovação de água e a capacidade de carga de sistemas de criação do tambaqui. Ammonia excretion rates: an index for comparing efficiency of dietary protein utilization among Rainbow trout (Salmo gairdneri). M. G. M. 1243-1247. L. p. 1. U.. N. 1994. 9. 38. p.. 1976.). 2. TOMASSO. B. ROBBINS. 1. London: Chapman & Hall. 1999. Etude expérimentale de l’excrétion azotée du bar (Dicentrarchus labrax) en cours de croissance – I: effets de la température et du poids du corps sur l’excrétion d’ammoniac et d’urée. Ammonia excretion and total –N budget for gilthead seabream (Sparus auratus) and its effect on water quality conditions. Cambridge. 1994. p. BRICKELL. 22. Pesq. v. Methods for physical and chemical analysis of fresh water. WESTERS. com mesma massa. v. H. n. Reviews in Fisheries Science. C. 1. v. agropec. LÓPIEZ-RUIZ. W. p. Brasília.. M. Aquaculture. v. por ser um peixe onívoro. n. S. New York: Columbia University Press. v. Amsterdam. Fish hatchery management. 72-81. 294 p. 287-297. G.. F. R.42 mg de amônia/dia. A. A. ECHEVARRIA. D. R. ZARAUZ. 54. p. Referências ARAUJO-LIMA. MING. Bethesda: American Fisheries Society. v. J. J.): influence of nutritional state. 1978. 1997. 1. 157 p. New York. bras. A. and aquaculture of the Amazon’s tambaqui. excretam 0. Aquaculture. GUERIN-ANCEY. p. 17-19. 1976. SODERBERG. Flowing water fish culture. p.. OHNSTAD. 291-314. H. n. R. Comparative Biochemistry and Physiology. J. 1985. Amsterdam. GOLTERMAN.Excreção de amônia por tambaqui 1247 e Sparus aurata. Oxford: Blackwell Scientific. 173-178. v. n.