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ESCRITOS SOBRE A HISTÓRIA

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ESCRITOS SOBRE A HISTÓRIA

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SUMÁRIO

Prefácio I. OS TEMPOS DA HISTÓRIA 1. O Mediterrâneo e o Mundo Mediterrâneo à Época de Filipe II. Extraído do Prefácio 2. Posições da História em 1950 II. A HISTÓRIA E AS OUTRAS CIÊNCIAS DO HOMEM

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13 17

História e Duração

Ciências Sociais.

A

Longa • ff) 78 91 115 125

4. Unidade e Diversidade das Ciências do Homem j 5. História e Sociologia 6. Para uma Economia Histórica 7. Para uma História Serial: Atlântico (1504-1650) Sevilha e o

8. Há uma Geografia do Indivíduo Biológico? 143 9. Sobre uma Concepção de História Social . 161 10. A Demografia e as Dimensões da Ciência do Homem 177 III. HISTÓRIA E TEMPO PRESENTE 11. No Brasil Baiano: O Presente Explica o Passado 219 12. A História das Civilizações: Explica o Presente Bibliografia O Passado 235 289

PREFÁCIO A origem desta coletânea me é estranha. Meus amigos poloneses, primeiro, e depois os espanhóis, decidiram há dois ou três anos, traduzir e reunir num volume alguns artigos e estudos que publiquei no decorrer dos últimos vinte anos sobrejL própria natureza da história. Daí derivou por fim estã~coTetanea francesa. Cãs6 contrário, teria eu pensado nisso por mim mesmo? É a questão que me proponho no momento em que acabo de ler-lhe as provas. Como toda e qualquer pessoa, sem dúvida, não reconheço minha voz quando escuto seu registro. Tampouco, não estou certo, na leitura, de reconhecer

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de lembranças. É pois lógico que eu as olhe um pouco de longe e no seu conjunto. sua casa do Jura . evidentemente. do 8 . chego — diálogo e polêmica sendo uma dupla necessidade que não se pode evitar — a dialogar. quando a noite. estas páginas aparecem sob sua forma original e com sua data. não a única mas que coloca põr si só todos õs~grandes problemas das estruturas sociais. essa estrada essencial_da história. permaneço responsável. esses artigos relidos um após o outro evocam para mim circunstâncias antigas. jantando à rua Vaneau. Reencontro aí. Foi o mesmo sentimento ontem que me levou a reescrever La Méditerranêe. Revejo-me com Henri Brunschwig medindo o campo de Lübeck durante nossa interminável prisão. poderia trazgr a nossos jyizinhos. meu pensamento de ontem. Agrada-me que esse conjunto seja coerente. a me despreender naturalmente de textos pelos quais. é o meu pensamento? Sim e não. ainda hoje. tantas coisas novas me assediam hoje! Visto que não sou um homem de polêmica. sob os cedros do jardim. sem cessar.presente^converrendõ. Um pensamento alimentado de tantos ecos.^m_^ontrapartida. não se tratava de reescrever. tão reticentes em solicitar e até mesmo em escutar nossa opiniâCT Õ entendimento útil deveria fazer-se (digo-o e repito-o insistindo) sobre a longa duração. conversando com Lucien Febvre. ouvindo-o como em determinado fim de tarde em Souget. mais freqüentemente ainda. Desta vez. É a única linguagem que liga ^ J i i s M r i ^ ^ . onde as vozes ouvidas revivem naturalmente. a polemizar comigo mesmo. ou antes. Salvo mínimas correções materiais.imediatamente o que se chama reconhecer. a meu caminho só. nos engolira a todos na sua sombra já de há muito. Talvez eu ainda tivesse ò tempo de me explicar a respeito dessa preocupação essencial.Desde então tantas coisas se passaram. que sou atento a meu caminho. em casa de Georges Gurvitch. presentes e passadas. Antes de tudo.1 !^ em um todo indissolúvel. essa preocupação que. me leva a confrontar a historia — nosso ~oficio çpm outras ciências tão vivas do homem: a ver as luzes que^elas_projetam_no campo de nosso~tfã5ãI5õ~é"o qiIê~õ~Tnstoriador.

que o historiador do futuro "será programador. desses conceitos para nos integrar se possível no trabalho de nossos vizinhos. que não haja nisso qualquer ilusão ou qualquer álibi. Que sociólogo retomaria hoje a seu cargo a sociedade global de Georges Gurvitch? Ora. nos últimos anos sobre a convergência das ciências humanas. cumplicidades ou abandonos. Mãls que a renovação dos setores.lugar da história na sociedade. Em seguida. £ possível? Dito isto. temos necessidade desses utensílios. para contestar de passagem Emmanuel Le Roy Ladurie. construir nossa economia. recusas.de todas as riquezas de ontem e de amanhã. ou não existirá". falando de uma "história estatística". temo. Interdita-nos. . I. é o que me interessa. a fragmentação da Sociologia tornou-se a regra ou a moda. com face à modificação ou à tradição. refere-se sempre a nossas relações cruciais com a Sociologia. uma saída ou um fácil acesso. é o que ela explica da vida dos homens a tecer-se sob nossos olhos. . A parte mais difícil dessa reestruturação de conjunto das ciências do homem. nossa psicologia . Desde o desaparecimento de Georges Gurvitch. pois que os sociólogos não no-la oferecem inteiramente pronta. da maneira pela qual a história se enraíza na sociedade onde vive o historiadory Pois a única coisa que me apaixona em nosso mister. a nós que estamos fora de suas pesquisas próprias. Numa discussão recente — e que. aquiescências e reticências. uma vez mais achei decepcionante — com especialistas das ciências sociais. atual cujas inovações se precisam em nosso horizonte. Esboça-lhes somente a circunferência. Não quis insinuar nos intervalos vazios as páginas de meus cursos. o lugar da estatística 1 Q papeT dos compuraaoresTãs possibiJidades J e um entendimén!õ~cõrrT a Psicologia Social ê a Psicanálise^óücorn a~cíencia política tão lenta em tornar-se científica. Chiva sorrindo me aconselhava e aconselhava aos historiadores a fabricar a nossa sociologia. para afirmar. O programa do programador. ciência maciça e confusa . o problema Tõntinua sendo o da globalidade. No . A presente coletânea não aborda esses problemas.

10 .momento ele deveria visar à reunião das ciências do homem (pode-se fabricar para eles. graças à informática. uma linguagem comum?) n v s que o aperfeiçoamento de tal ou tal canteiro de obras. Q_historiador de amanhã fabricará essa. linguagem —t ou não existirá.

OS TEMPOS DA HISTÓRIA .I.

1 i! i .

.1. X I I I e X I V da 1» ed. Paris. 589 e 629 pp. 2» ed. feita com freqüência de retornos 1. 1966.. uma história lenta no seu transcorrer e a transformar-se. in-81?. p. Cf. A primeira põe em questão uma história quase imóvel. sendo cada uma. uma tentativa de explicação. . a do homem em suas relações com o meio que o cerca. O MEDITERRÂNEO E O MUNDO MEDITERRÂNEO À ÉPOCA D E FILIPE II Extraído do prefácio1 Este livro 1 divide-se em três partes. O livro a c a b a d o e m 1946. 2 v.. revista e a u m e n t a d a . foi publicado cm 1949: La Méditerranée et le monde méditerranéen à l'époque de Philippe I I . A r m a n d Colin. por si mesma. in 8o. ibid.. X V + 1160 p.

inutilmente colocadas ao limiar de tantos livros. como se os navios não tivessem de vogar sobre um mar real. não é puro domínio de responsabilidades individuais. de seus sonhos e de suas ilusões. que muda com as estações. ientamentè ritmlicfa^ dTr-se-ia de bom grado. a da história tradicional. mas do indivíduo. No século XVI. ao contato das coisas inanimadas. Uma história com oscilações breves. como se as flores não voltassem a cada primavera. dos humildes. estudando sucessivamente as economias e os Estados. uma história social. no ritmo de sua vida. Terceira parte. Acima dessa história imóvel. relativamente a ela. mostrar como todas essas forças de profundidade agem no domínio complexo da guerra. descreveram. quase fora do tempo. Ultra-sensível por definição. suas lavras e suas flores que as pessoas mostram rapidamente e das quais em seguida não mais tomam conhecimento. se quisermos. para melhor esclarecer minha concepção da história. tal como os contemporâneos a sentiram.insistentes. com suas paisagens minerais. Mas que. após o verdadeiro Renascimento. rápidas. enfim. a dos grupos e dos agrupamentos. virá o Renascimento dos pobres. nervosas. sendo assim. tentando enfim. breve como a nossa. Como é que essas ondas do fundo levantam o conjunto da vida mediterrânea? Eis o que me perguntei na segunda parte de meu livro. a história ocorrência! (événementide) de François Simiand:_uma agitação de superfície. encarniçadamente empenhados em escrever. a mais perigosa também. com essas tradicionais introduções geográficas à história. o menor passo põe em alerta todos os seus instrumentos de medida. narrar e 14 . Pois a guerra. as ondas que as marés elevam em seu poderoso movimento. nem me contentar. a mais rica em humanidade. Desconfiemos dessa história ainda ardente. não fosse a expressão desviada de seu sentido pleno. Não quis negligenciar essa história. da história à dimensão não do homem. Ela tem a dimensão de suas cóleras. de ciclos incessantemente recomeçados. é a mais apaixonante. nós o sabemos. uma história. como se os rebanhos parassem em seus deslocamentos. as sociedades^ as civilizações. viveram.

não falharia em uma 15 . . com essas águas sobre as quais nosso barco navega como o mais ébrio dos barcos. Ou se preferimos ainda. um mundo cego como todo mundo vivente. no tempo da história. fixado essas grandes correntes subjacentes. que esses planos não pretendem ser mais que meios de exposição. segundo as regras de nossos canteiros de obras. de ir de um a outro . dizíamos.falar dos outros. . meu desejo e minha necessidade de ver em ampla escala. ao qual faltaria uma dimensão. Espero também que não me reprovarão minhas ambições demasiado largas. mas do qual teríamos conjurado os sortilégios e os malefícios havendo. mesmo se afirmo contra Ranke ou Karl Brandi. de um tempo individual. que a históría-relato não é um método ou o métodoobjetivo por excelência. como o nosso. Toda essa preciosa papelada é assaz deformante. Mas de que serve pleitear? Se me reprovam por ter reunido mal os elementos desse livro. à decomposição do homem num cortejo de personagens. à distinção. a história viva e entranhadamente una. despreocupado com as histórias de profundidade. mas antes uma filosofia da história. se quisermos. freqüentemente silenciosas. espero que se encontrarão os fragmentos convenientemente fabricados. que manifestações desses largos destinos e só se explicam por eles. cujo jjentido só se revela quando se abarcam amplos períodos do tempçu__. É para um mundo bizarro. Um mundo perigoso. seguramente um mundo de vivas paixões. mesmo se afirmo e mostro em seguida. Ou.Os acontecimentos retumbantes nacTsãò amiúde mais que instantes. mesmo se afirmo que < os cortes tradicionais fracionam. toma aí um lugar que não condiz com a verdade. A história talvez ísteja condenada a estudar somente jardins bem fechalos por muros. de um tempo social. que não estou proibido. também. que se vê transportado o historiador-leitor dos papéis de Filipe II. Do contrário. invade abusivamente esse tempo perdido. Assim chegamos a uma decomposição da história em planos escalonados. como que sentado em seu lugar e porto. É talvez isso o que menos me perdoarão. previamente. de um tempo geográfico. no caminho.

Possa ela reviver! - 16 . escrevia Edmond Faral em 1942. em 1946. mas tão imperialistas como são as ciências do homem? Pode haver um humanismo atual.de suas tarefas presentes. manter-se em ligação com as ciências tão jovens. consciente de seus deveres e de seus imensos poderes? "Foi o medo da grande história que matou a grande história". sem história ambiciosa. que é também responder aos angustiantes problemas da hora.

diante de responsabilidades temíveis. inquietude é pois a própria inquietude que pesa sobre nossos corações e nossos espíritos. suas respostas mais precisas e mais seguras ontem. mais ainda. hoje. 1950. essas experiências. E se seus métodos. L i ç ã o i n a u g u r a l no CoUège de F r a n c e feita a ! ° de dezembro de 17 .2. durante estes últimos quarenta anos. em seu ser e em suas mudanças. Ora. -"A história é filha de seu tempo. POSIÇÕES DA HISTÓRIA EM 195 O1 A história se encontra. seus programas. 1. de depender de condições sociais concretas. mas também exaltantes. é sob o peso de nossas reflexões. se seus conceitos estalam todos de uma só vez. de nosso trabalho e." Sua. Sem dúvida porque jamais cessou. de nossas experiências vividas.

. ou melhor. I As grandes catástrofes não são forçosamente as produtoras. naquele semestre. diante de nós. o instante inicial de um ciclo. sobre a Revolução Francesa. uma longa trégua iria percorrer o Ocidente. um levantar de cortina. de um século de revoluções. depois as de seus discípulos inimigos. que testemunho mais ao abrigo do que Jacob Burçkhardt em sua querida Universidade de BãsüSíãf' ÉTentfetanto. que. pressiona-o uma necessidade de grande história. e constituem sempre uma intimação a ter que pensar. que não cessaram. seus erros. de sofrer. Mas quem dirá quanto esses anos relativamente pacíficos.foram particularmente cruéis para todos os homens. de 1871 a 1914. como se nosso mister para estar alerta neces18 . suas certezas e seus sonhos — diremos o mundo do primeiro século XX? Nós o deixamos. . de pensar. declara numa profecia muito justa. durante anos. nos problemas cruciais da história. visita-o a inquietude. . foi toda a história dramática do mundo. de atormentar os espíritos e os raciocínios dos homens. no mais profundo de nós mesmos e. ele se subtrai inexoravelmente. por que a frágil arte de escrever a história escaparia à crise geral de nossa época? Abandonamos um mundo sem sempre termos tido tempo de conhecer ou mesmo de apreciar seus benefícios. no destino conjunto dos homens. iriam progressivamente restringir a ambição da história. Seu curso versa. mas são seguramente as anunciadoras infalíveis das revoluções reais. repensar o universo. nasce a meditação do Conde de Saint-Simon. Da tormenta da grande Revolução Francesa. Aliás. além. . Karl Marx. quase felizes. Ela não é. Século interminável. na verdade. e que marcará com seus traços rubros a estreita Europa e o mundo inteiro. Ocasião de nos apiedar. Pequeno exemplo mais próximo de nós: durante o inverno seguinte à guerra franco-alemã de 1870-1871. elas nos lançaram. destinado a durar . de recolocar forçosamente tudo em questão. violentamente. ou antes. Proudhon. Entretanto. isto é. senão um primeiro ato. desde então. Auguste Comte.

a ciência. nossa velha profissão de historiador não cessa de desabrochar e de reflorir em nossas mãos . Michelet tornava a ser seu Deus: "pareceme. evoluíram semelhantemente. nos apoiávamos mesmo sem o saber. tornava a partir. Nossa época é muito rica em catástrofes. a fim de renascer para uma vida diferente. A ciência sobre a qual. jamais teremos outra vez o tempo nem a possibilidade de reencetar com ela um diálogo conveniente. A questão é saber se nos será possível. profanos. . transformou-se brutalmente. a aventurosa história. A realidade do social. em lances teatrais. os carros. e. de um dia ^ para outro. Historie et Destiti. ou quase todos — e alguns pelos quais seríamos mortos ontem sem discutir muito — esvaziaram-se de seu conteúdo. as carroças. Em meus velhos dias. . não menos decisiva. era isso a França ! . sobre a grande estrada nacional. .sitasse sempre do sofrimento e da insegurança flagrante dos homens. a história. não viver. n a c i o n a l . livro profético. juntar-se-ia o sentimento do infortúnio público. quantas mudanças! Todos os símbolos sociais. por que não uma nova história? 19 . na minha vila de Gevrey-Chambertin. Esse pânico imenso. uma lamentável humanidade. ao vento da infelicidade. escrevia-me ainda. Posso dizer com que emoção li. em surpresas. . mas inacessível. Sim. sempre em movimento. Mas. em revoluções. prestigiosa. Acabava de ver passar. de ^ maneira menos espetacular. . sem dúvida. queira-se ou pão. . . mas viver e pensar pacificamente sem suas indicações e à luz de seus faróis. em 1943. as pessoas a pé. inclusive a história. do doloroso êxodo. * Um novo mundo. esse refúgio e essa nova razão de viver do século XIX. Todas as ciências sociais. mas instável. a grande. as ondas do êxodo. soldados sem armas . todas as velas infladas. Todos os conceitos intelectuais curvaram-se ou romperam-se. as pobres pessoas. mas. o gênio que preenche a história". das últimas meditações de Gaston Roupnel. a última obra de Gaston Roupnel. . a realidade entranhada do homem se jJesca-^S» bre nova a flossos olhos e. aos infortúnios irremediáveis da vida privada. toda a miséria das estradas. alucinado. meio perdido no sonho mas transportado por tanta piedade pelo "sofrimento dos humanos"? Escrever-me-ia mais tarde: Comecei (esse livro) nos primeiros dias de julho de 1940. e isso em confusão com as tropas.

a realidade do passado — uma realidade verificada. contra ele a crítica deve permanecer vigilante. D o mesmo modo. sem muito esforço. isso seria suficiente para preservar o entusiasmo necessário à história? Certamente. mas ontem e durante longos anos. é fazer tudo o que é preciso para se afogar. Tal é. . hoje sem alcance. se nos dirigíssemos. Espantoso ponto de parada. é preciso que seja inculcado. cheio de princípios e de recomendações miúdas. é reconstrução. Nada omitir: contudo. portanto no estado de matérias brutas. escovada. a história fosse tomada no estado nascente. O espírito histórico é crítico em sua base. O instinto natural de um homem na água. nossa volta ao começo. Assim. pois o ideal seria suprimir o observador. o que Charles Seignobos soube dizer. essa Introáuction aux études historiques. quando nos entregamos a ele sem estarmos previamente prevenidos contra o instinto. se fossemos mais longe. um retrato do historiador no início deste século. toda uma paisagem tranqüila. nos afogamos nele. Que se nos perdoe! Eis o diminuto livro de Charles-Victor Langlois e de Charles Seignobos. o hábito da crítica não é natural. árvores. estradas. Nada temos a dizer contra a crítica dos documentos e materiais da história. após tantas precauções. Dessa paisagem nada devia escapar ao pintor. por duas ou três vezes. Mas. nem essa fumaça . além das cautelas que evidentemente se impõem. O observador é fonte de erros. Desse livro remoto. com sua inteligência aguda. e somente se torna orgânico por exercícios repetidos. em face do historiador. reconstruída. colinas. o pintor esquecerá sua própria pessoa. a três gran- 20 . de fatos puros. nem esses silvados. obra decisiva. Mas é também. Imaginai um pintor. o trabalho histórico é um trabalho crítico por excelência. como se fora de nossas reconstruções. publicada em 1897. aprender a nadar é adquirir o hábito de reprimir os movimentos espontâneos e executar outros. casas.Também evocaremos com ternura e um pouco de irreverência nossos mestres de ontem e de anteontem. dessa vez. escrevia sem sorrir Charles-Victor Langlois. se desprefideria. Diante dele. como se fosse preciso surpreender a realidade sem assustá-la. um paisagista. .

com justos prêmios somente concedidos ao trabalho e à paciência. um Paul Lacombe. não é menos verdadeiro que suas respostas não concordariam com nossas perguntas: historiadores de hoje. temos o sentimento de pertencer a uma outra era.des espíritos. Ele não nos deixa essa certeza de haver cingido a matéria inteira da história que. nosso mister não mais nos parece essa empresa calma. mesmo antes do início deste século. 21 . um Cournot. esses precursores — ou a três grandes historiadores. na bancarrota de uma história-ciência. . Pensaríamos hoje que nenhuma ciência social. que. para se nos entregar. como e por que a modificação se operou. sobretudo. apenas esboçada. não nessa falência da filosofia da história. preparada muito tempo antes e em cujas ambições e conclusões precoces ninguém mais aceitava. segura. capaz de prever: devia ser profética ou não existir . Albert Tribaudet pretendia que as verdadeiras reviravoltas são sempre simples no plano da inteligência. essa inovação eficaz? Certamente. aliás. é profética e. não esperaria mais que nossa coragem aplicada. Sobretudo. no qual há tantos relâmpagos e premonições geniais — entretanto. que ainda é o maior de todos. seu gênio nos impediria de sorrir. Só havia ciência. nada é mais estranho ao nosso pensamento do que essa observação de Ranke ainda jovem. Mil pormenores nos solicitam. um Jacob Burckhardt. inclusive a história. somente haveria profecia. um Ranke. Entretanto — excetuando-se talvez Michelet. nenhuma delas teria direito ao belo nome de ciência. Então. a uma outra aventura do espírito. onde se situa essa pequena coisa simples. por conseguinte. um Fustel de Coulanges. em 1817. numa apóstrofe entusiasta a Goethe. dizia-se ontem. Tampouco. Além disso. ^Seguramente. . um Michelet sobretudo. segundo as antigas regras do jogo. falava com fervor v " d o terreno sólido da história"^ II É uma tarefa difícil — previamente condenada — dizer em algumas palavras o^ que verdadeiramente mudou no domínio de nossos estudos e.

fatores de progresso ou de ruína. esse impulso vegetal com suas conseqüências de a retardar sobre a vida das coletividades. nem esse espiritualismo difuso de um Ranke pelo qual se sublimam. o indivíduo e a vasta história geral. nele se demorarem. da objetividade e da subjetividade na história do qual . feito do entrelaçamento de problemas inextrincavelmente misturados e que pode tomar. significaram um enriquecimento sem precedente. para poder apreendê-la ou ao menos aprender alguma coisa nela? Numerosas tentativas poderiam nos desencorajar de a n t e m ã o . não todos os historiadores. cem aspectos diversos e contraditórios. de nossos estudos históricos. ^ Assim não mais cremos na explicação da história^ por este ou aquele fator dominante. Por nós.notai-o bem. j nem o conflito das raças cujos choques ou acordo teriam determinado todo o passado dos homens. mas na própria paisagem. talvez por hábito. ainda mais estéril. colocam violentamente em dúvida. que nos resignaríamos sem esforço a não crer na obrigação da antítese. nem as constantes tensões sociais. alternadamente. Não há história unilateral. movediço. enquanto não ousarem perguntar a si mesmos que as ciências mais gloriosas do real não são. entre quadro e paisagem que se situa o problema da história. j Como a própria vida. para reduzir o múltiplo ao simples ou ao quase simples. Não a dominam exclusivamente.-nem o impulso demográfico. Como abordar e fragmentar essa vida complexa. a história se nos aparece como um espetáculo fugidio. nem os poderosos ritmos econômicos. Mas para que discutir sobre essa tumultuosa palavra ciência e sobre todos os falsos problemas que daí derivam? Para que empenhar-se no debate. ou mesmo. para ele. essas tentativas. objetivas e subjetivas ao mesmo tempo. Contudo. aliviaríamos de bom grado desse debate nossas habituais discussões de método. o que os sociólogos. desde mais de um século. mais clássico. O homem é complexo de outro modo. também. porém.não nos libertaremos enquanto os filósofos. Não é entre pintor e quadro. Colocaram-nos progres- 22 . nem o reino da técnica. audácia que se julgou excessiva. se houvesse continuidade da história. no coração da vida.

mais simplesmente. o "que seria pueril. perto da Bahia. ou. Não. Nem mais nem menos que o primeiro filme autêntico. muito tristemente. sem romper a noite com verdadeiras claridades. o indívíduo é. O problema não consiste em negar o individual a pretexto de que foi afetado pela contingência. todas as histórias particulares se nos apresentam sob a forma de uma série de eventos: entendam atos sempre dramáticos e breves. indivíduo encerrado em si mesmo. de ter sido envolvido por um fogo de artifício de pirilampos fosforescentes. é preciso abordar agora. A vida. acaba de realizar-se somente diante de nós. um discurso importante. Ali está talvez o passo decisivo que implica e resume todas as transformações. Não negamos. uma carta capital. a obscuridade permanece vitoriosa. como diz a Sociologia. na Primeira Guerra Mundial. nos Estados Unidos. Durante mais de uma hora.sivamente no caminho da superação do indivíduo e doeventoj superação prevista muito tempo antes. na história. muito freqüentemente. mas em ultrapassá-lo. sobre a Grande Guerra.papeLdns indivíduos. convertida desde então. brilhavam de novo. flns eventos ou o . cujo incerto mas imenso domínio. suas luzes pálidas reluziam. uma noite. produzia uma sensação sem igual. a história do mundo. dizia-se. todas as aventuras individuais se fundenuffima realidade mais complexa. Não há jamais na realidade viva. na sua plenitude. uma abstração. « rpaiirjarie. em reagir contra uma história arbitrariamente reduzida ao papel dos heróis quinta-essenciados: não cremos no culto de todos esses semideuses. um filme anunciado muito tempo antes. um encontro de homens de Estado. somos contra a orgulhosa palavra unilateral de Treitschke: "Os homens fazem a história". em distingui-lo das forças diferentes dele. . Há uns vinte anos. Uma outra lembrança permitir-me-á abreviar ainda mais o meu raciocínio. pressentida. entrevista. mas que. Assim são os acontecimentos: para além de seu clarão. uma realidade "entrecruzada". são instantâneos da história. a história também faz os homens e talha seu destino — a história anónima) profunda e amiúde silenciosa. se extinguiam. Xirida assim cumpriria notar que. para taptp. a do social. Uma batalha. Guardei a lembrança.

ela se apresenta como uma interpretação. um jogo que coloca em questão situações sempre análogas. Ou digamos. ou pelo nosso presidente Raymond Poincaré. tornava ainda mais fantasmagóricas e irreais. arrancado de seu contexto. a história-narrativa cara a Ranke. outras. quando fala de "história geral". visão de um mundo demasiado estreito. a vida dos homens é dominada por acidentes dramáticos. o signo de um eterno e impiedoso retorno das coisas. E. era representada por três ou quatro truques e explosões fictícias: um cenário. além disso.^ pelo jogo dos seres excepcionais que aí surgem. como uma autêntica filosofia da história. a todo um desfile de pessoas ilustres.nos foi dado reviver . ou pelo imperador da Alemanha. Na realidade. Ranke acreditou profundamente nessa palavra quando a pronunciou. mas sem humanidade. passadas pelo rei George V da Inglaterra. onde se poderia crer de boa fé que a história é um jogo monótono. O exemplo é sem dúvida excessivo. todos nós o sabemos. em jogo. mas sem claridade. Notai que essa história-narração tem sempre a pretensão de dizer "as coisas como elas se passaram realmente". sempre diferente.as horas oficiais do conflito. Falaciosa ilusão. que freqüentemente são essas tênues imagens do passado e do suor dos homens. umas. é finalmente no entrecruzamento desses destinos excepcionais que pensa. onde o historiador se apraz em freqüentar os príncipes desse mundo — um mundo. a seu modo dissimulada. mais equitativamente. fatos. Para ela. amiúcie senhores de seu destino e mais ainda do nosso. pelo rei dos belgas ou pelo rei da Itália. porque é preciso que cada herói conte com um outro herói. 'à força de ter sido prospectado e posto em questão. entretanto. à saída das grandes conferências diplomáticas e militares. . ^Clarões. mas esquecidas. Confessai. mas sempre semelhante. familiar. como todos os exemplos que julgamos carregados de ensinamento. sentimentos sempre os mesmos. . que a projeção saracoteada dos filmes. assistir a cinqüenta revistas militares. a história tradicional. que nos oferece a crônica. como as milhares de combinações das figuras de xadrez. Foi-nos dado assistir. sob . Quanto à verdadeira guerra. 24 .

É preciso abordar. para as quais. Mas essas rupturas são mais raras. Quero dizer que. elas brilham. são movimentos que não têm nem a mesma duração. E sobretudo. depois se extinguem. por vezes. inscrever no mesmo quadro. mas que. ou como se se quisesse explicar as ações de indivíduos excepcionais1 em torno dos quais o historiador se demora com complacência. em tal ou tal área de civilização. Por certo. mais espaçadas do que se pensa. Além disso. elas não destroem tudo igualmente. outros nesse tempo das sociedades paraf as quais uma jornada. as civilizações enfim. as instituições. há. salvo assombrosos precursores. viram com demasiada freqüência como um pano de fundo. não ignoraram. as civilizações são mortais nas suas florações mais preciosas. 25 . por certo. um século inteiro não é mais que um instante de duração. uma história dos homens j em suas relações estreitas com a terra que os suporta j e os alimenta. nos seus traços estruturais e geográficos. nas suas profundezas abissais. as realidades sociais. disposto apenas para explicar. mas um tempo social com mil velocidades. é um diálogo que não cessa de repetir-se. as arquiteturas sociais. quase imóvel. ainda mais lenta que a história ^ das civilizações. as economias. nem a mesma direção. y Imensos erros de perspectiva e de raciocínio./'A tarefa é justamente ultrapassar essa primeira margem da história. certamente. o de nossa vida breve e fugidia. com mil lentidões que quase nada têm a ver com o tempo jornalístico da crônica e da história tradicional. em si mesmas e por si mesmas. Creio assim na realidade de uma histó-] ria particularmente lenta das civilizações. Entendo por isto todas as formas amplas da vida coletiva. uns no tempo dos homens. sobretudo elas — todas as realidades que os historiadores de ontem. Entendamo-nos: não há um tempo social com uma única e simples corrente. o conteúdo social pode renovar-se duas ou três vezes quase inteiramente sem atingir certos traços i profundos de estrutura que continuarão a distingui-la fortemente das civilizações vizinhas. para reflorir sob outras formas. porque o que assim se procura harmonizar. que se integram. um ano não significam grande coisa.

os historiadores começam a tomar consciência. métodos do trabalho por &SUHCSS"* V"' Portanto. de uma nova história. Cada forma de história implica. entre 1580 e 1585. Posso dizer que todos aqueles que se ocupam dos destinos econômicos. tenaz. abandonam suas lojas para comprar terras na Toscana. indicam-na por sinais tão claros quanto esses repatriamentos de mercadores florentinos que deixam então a França e a Alta Alemanha e por vezes.que se repete para durar. Eis bem identificada em Florença. há todo um passado por reconstruir. que pode mudar e muda na superfície. Essa crise. de breve ' duração. com efeito. os ritmos econômicos. se encontram em face de pesquisas diante das quais os trabalhos dos eruditos mais conhecidos do século XVIII e mesmo do século XIX. Duvido mesmo que o habitual trabalho artesanal do historiador esteja na medida de nossas atuais ambições. se não me engano. seria preciso diagnosticá-la melhor. como se estivesse fora do alcance e da mordedura do tempo. nos parecem de uma espantosa facilidade? Uma história nova só é possível pelo enorme levantamento de uma documentação que responde a essas novas questões. muitas vezes de interesse menor. das civilizações. III Hoje em dia. /Tarefas intermináveis se propõem e se nos impõem. uma crise de recuo bastante viva. não ^ i ^ a l v a ç ã o fora dos . da conjuntura. Com o perigo que isso pode representar e as dificuldades que a solução implica. tão clara à primeira auscultação. ttiesmo para as realidades mais simples dessas vidas coletivas: quero dizer. Essa história não se lhes oferece como uma fácil descoberta. mais ainda. que iria aprofundar-se depressa e depois aplainar-se de um golpe. de uma história pesada cujo tempo não mais se harmoniza com nossas antigas medidas. mas prossegue. estabelecê-la cientificamente por séries coerentes de 26 . uma erudição que lhe corresponde. Pesquisas em Florença. das estruturas sociais e dos múltiplos problemas. e em torno de Florença.

uns se acelerando mais ou menos do que outros. Para o cúmulo dos embaraços. mas o feixe diverso desses preços e sua comparação. Mas é preciso dizer ainda que a conjuntura do século XVI. com alguns jovens historiadores. Antuérpia ou Sevilha. o ritmo da vida econômica do mundo inteiro — esse historiador nota que a esses anos de mal-estar florentino correspondem. Lião ou Milão. onde prospectará séries ordinariamente ignoradas pela erudição? Viagem interminável!. pois tudo lhe resta a fazer. além desses velhos freqüentadores do Oceano Indico e da Sunda. Mas até onde ela fez sentir sua brusca ação? Sem conhecer sua área exata. . Então. apenas deslocados no tempo. não é somente o movimento conjunto dos preços. em estudar a conjuntura geral do sçculo XVI e espero entreter-vos com isso proximamente. Estou justamente preocupado. a pesquisa acaba de fazer a volta ao mundo. . e vá a todos os depósitos de arquivos da Europa. Sem dúvida é verossímel que os preços do 27. . a esse respeito. ou Lisboa. é mister que o historiador se ponha a caminho. pelos caravaneiros da índia. é igualmente de um lado o século XV e de outro. as importantes correntes do Atlântico e as do Pacífico dos ibéricos. dos juncos chineses e omito muitos elementos de propósito. É necessário dizer-vos. que ainda é o mundo inteiro que se impõe à nossa atenção? A conjuntura do século XVI não se reduz apenas a Veneza. sendo finalmente tudo engolido pela Alta Ásia e a China . não saberíamos precisar sua natureza .preços. . . Este é então retomado das frágeis mãos portuguesas por hábeis mercadores mouros e. por conseguinte. esse historiador que se preocupa com a Índia e com a China e pensa que o Extremo Oriente comandou a circulação dos metais preciosos no século XVI e. Reencontramo-la depressa em Veneza. . . os velhos ritmos do Mediterrâneo. nesses domínios tão simples. mas é ainda a complfexa economia do Báltico. Por si mesma. reencontramo-la facilmente em Ferrara . o século XVII. trabalho local ainda — mas a questão que se coloca imediatamente é sabei se a crise é toscana ou geral. anos de perturbação no Extremo Oriente para o comércio das especiarias e da pimenta.

. imobilizou. esses navios de bolso mostram o seu valor. . então engrossam essas frotas de navios carregados de tonéis. o Mediterrâneo tomado em conjunto. a nossos olhos. conheceu toda uma série de dramas técnicos. outro drama e mais silencioso: produz-se uma lenta e curiosa diminuição das tonelagens marítimas. A história das técnicas. a simples história das técnicas. com que lentidão. entram em todos os portos. marselheses ou nórdicos. provençais. de que maneira a terra absorveu. Assim se explicaria. O menor vento os impele. com prazer . é a hora vitoriosa das tartanas. pelo Brenner. então. Mas. se assim podemos dizer. assinala-se por toda parte a boa fortuna dos pequenos veleiros. gregos. ou. Veneza e Ragusa são as pátrias dos grandes cargueiros: seus veleiros de carga deslocam até mil toneladas e mais. minuciosas. Os cascos se tornam cada vez mais medidos e leves. Por aí se explicaria também essa civilização invasora. Em Marselha. esses carretoni que. K. a fortuna dos novos ricos. em breve. a partir de Sevilha. atraiu.vinho e dos bens imóveis precedessem então todos os outros no seu curso regular. das saetas. èTã^tarnbém. rudes conseqüências daí defluem . das naves minúsculas. o Mediterrâneo. . essa historia das técnicas descobre. aliás. A cada vez. engrossam igualmente esses rios de carriolas. Poder-se-ia segurar esses esquifes no côncavo da mão. . das costas portuguesas ou da Gironda. vastíssimas paisagens. interrompidas sem cessar. Sãcr os grandes corpos flutuantes do mar. Então. pois o fio rompe-se muito freqüentemente entre nossos dedos. trazem cada ano à Alemanha os novos vinhos do Friul e da Venezia esses vinhos turvos que o próprio Montaigne terá provado no local. no trabalho. se o quereis. coloca amplos problemas . da vinha e do vinho: os preços o querem. os documentos a interrogar faltam bruscamente. raramente ultrapassam cem toneladas. Todo um drama social. . Mas. contra os gigantes do mar. No século XVI. \28 . em direção ao norte. Instala-se então a artilharia sobre a ponte estreita dos barcos. obstinada. Seus segredos se transmitem então às regiões do alto Nilo ou ao interior do Oriente Próximo. para além das pesquisas incertas.

Quando deles se apoderam. Mas seria erro crer que o conflito se circunscreva ao Mar Interior. acima de tudo. 100. do outro? Luta amiúde desigual. . Os ibéricos invadirão a Inglaterra? É o problema que se coloca antes. é porque não obstante passam mais ou menos indenes. e a expedição é contra Cádiz. sua luta é a maior do século. ou atacarão o império dos ibéricos. faz desaparecer num instante tudo que é do navio rival. A história dos navios não é uma história em si. Assim. alguns pacotes de especiarias. Grandes e pequenos se chocam e se devoram sobre os sete mares do mundo. se apodera de sua carga e. . . Os nórdicos atacarão a península. não cessa de se complicar. . os comboios de galeões que vão para as Antilhas e voltam carregados de prata. É mister ressituá-la entre as outras histórias que a rodeiam e a sustentam. o incidente ilustra.carregam em alguns dias. é porque as minas do Novo Mundo permanecem ao serviço dos senhores ibéricos . por vezes 50. Os pequenos importunavam os grandes. dizem os genoveses. . sem se recusar. lançando à água a tripulação. Os ingleses dominam o Mancha. e depois queimam a enorme e inútil carcaça. ilustrada por essas gravuras da época que mostram um dos gigantes ibéricos cercado por uma nuvem de cascos liliputianos. a luta dos grandes contra os pequenos barcos do mar. enquanto que os navios de Ragusa requerem semanas e meses para receberem suas cargas. 200. 1000 toneladas de um lado. crivando-os de golpes. Os ibéricos. e é Drake e Cavendish e muitos outros. repito-o. durante e após a Invencível Armada. Qual dessas supremacias é a mais vantajosa? Mas. se subtrai uma vez mais diante de nós. Se um desses grandes cargueiros de Ragusa apreende por acaso um leve navio marselhês. de se ampliar em superfície e 29 . . No Atlântico. guiados pela mão de Deus. as pedras preciosas. Mas a última palavra da história está somente nesse resumo muito claro? Se a resistência ibérica continua. Gibraltar. tomam o ouro. a verdade. os pesados galeões espanhóis ou os delgados veleiros do Norte. Todo problema em equacionamento. quem triunfará sobre as pesadas carracas portuguesas. por um instante. em algumas horas.

estes. jamais. das civilizações. . Resumo mal o apaixonante debate. como em Veneza. então o horizonte. ou. se alarga e se complica com mais intensidade ainda.Ne=nhum problema. à força de precauções e de pacientes pesquisas. 30 . após pacientes prospecções. Mas não basta. eis o que orienta a investigação. já sob o primeiro signo da razão. variam de um dia para outro. navegaremos além do habitual cenário da Reforma. quase invisíveis fendas que. aliás. boas guardiãs de seus cartórios. . alguns ao menos. refugiar-se nessa necessária e interminável prospecção de novos materiais. lenta na revelação da sua verdadeira face. Em dez ou vinte anos. Sem dúvida. se pensarmos nessas prestigiosas revoluções interiores. mas imperiosa. e nos coloca em contato com essa história silenciosa. colecionar os documentos iconográficos. de abrir sem fim novos horizontes de íáBõr. nasce ou parece nascer muito tempo antes nas complexas regiões renanas. pelo das civilizações. tem o sentimento de que a idéia da morte e a representação da morte mudam inteiramente por volta da metade do século XV. se pensarmos nessas insidiosas. Um profundo fosso então se abre: a uma morte celeste. É preciso que esses materiais sejam submetidos a métodos. de imprescritível valor. se deixa encerrar num só quadro. Então. consultar os papéis dos Inquisitori contra Bestemmie. vós o sabeis.em espessura. como imaginais não deve ser lançado somente a crédito do século XVI. esses "arquivos negros" do controle dos costumes. não sem tatear. nas cidades. da técnica. lento em se delinear. Mas que essa nova morte. Se deixarmos o domínio do econômico. voltada para o outro mundo — e calma — porta amplamente aberta por onde todo o homem (sua alma e seu corpo quase inteiro) passa sem se crispar muito antes: essa morte serena é substituída por uma morte humana. num século ou dois. . se convertem em fraturas profundas para além das quais tudo muda na vida e na moral dos homens. Um jovem historiador italiano. Terei ocasião de vos falar a respeito dessa vocação imperial do século XVI com a qual devo entreter-vos este ano e que. Será preciso ler os livros de devoção e os testamentos.

essa distinção situa-se no coração da pesquisa das ciências sociais. . Tarefas demasiado árduas. por excelência. quanto a seu dever? Das forças em luta. se. sabemos quais as que prevalecerão. em estatística. no coração dos destinos do homem. como também freqüentemente. ou não há. Privilégio imenso! Quem saberia. sem querer negá-las. levantar essas informações. direis. não obstante as dificuldades. não podemos destacar o essencial de uma situação histórica. discernimos antecipadamente os acontecimentos importantes. repensá-los à medida do homem e. seja. excepcional e breve coincidência entre todos os tempos variados da vida dos homens? Imensa questão que é nossa. no coração do conhecimento. às quais o futuro será finalmente entregue. além de suas especificações. Pensa-se sempre nas dificuldades de nossa profissão. as antinomias e as contradições entranhadas. o tempo das verdadeiras ' rêvoluções é também o tempo que vê florir as rosas! 31 .nossos métodos em economia. que os sociólogos discutem. É preciso também. que a imensa questão da continuidade e da descontinuidade do destino social. ^ T o d a progressão lenta acaba um dia. tudo se apresenta em termos novos e nada mâis vatem nossos instrumentos ou nossos pensamentós de ontem — a realidade desses cortes depende da história. a unidade da história que é a unidade da vida. nos fatos confusos da vida atual. não é possível assinalar. Historiadores. por exemplo. Quem negará. um problema de história? Se grandes cortes retalham os destinos da humanidade. suas insubstituíveis comodidades? Ao primeiro exame. Há. na zona de seus problemas capitais . para tudo ressituar no quadro geral da história. se acotovelam ou se chocam. esses materiais. somos sem esforço introduzidos nesse debate. se possível. por uma vez. ao mesmo tempo em que nossos resultados serão contestados. distinguir tão seguramente o durável do efêmero? Ora. . têm possibilidades de perder seu valor. lançados por terra: a sorte de estudos relativamente recentes aí está para no-lo dizer. no dia seguinte de sua retalhação. "os que terão conseqüências". tratar-se. de reencontrar a vida: mostrar como suas forças se ligam. para que sejam respeitadas. Retomar tudo. misturam suas águas furiosas.

terá sido a de Vidal de La Blache. Já o disse. publicado em 1903. depois imensos enriquecimentos. a segui-las nas suas realidades rudimentares. Bastará uma palavra. pela própria vida. que foi uma das glórias autênticas do? Collège de France. aqui no Collège de France. ou ainda à sociologia? Uma das obras mais fecundas para a história. Vimos nascer. Há necessidade de expor longamente sua dívida em relação à geografia. infelizmente se fez ouvir durante muito poucos anos. e cuja voz. choques. filósofo que se tornou economista. antes de tudo. aproveitou. a serviço de todas as vedetas do dia. a vida é nossa escola. Mas a história não foi a única a ouvir suas lições e. talvez mesmo a mais fecunda de todas. tendo-as compreendido. O que ele descobriu a respeito das crises e dos ritmos da vida material dos homens possibilitou a obra brilhante de Ernest Labrousse. complicações. mas também da escola histórica francesa. renascer ou desabrochar há cinqüenta anos. Quem melhor que ele nos ensinou. Diria de bom grado que o Tableau de la geographie de la France. fora dessa zona de excelência e de qualidade onde a história de ontem. Vede também o que a história das civilizações pôde reter do prestigioso ensinamento de Mareei Mauss. a nós historiadores. historiadores. a mais recente contribuição à história desses últimos vinte anos. seu desenvolvimento significou para nós. é uma das maiores obras não apenas da escola geográfica. do impulso vitorioso das jovens ciências humanas. a tirar daí as conseqüências. ou à economia política. uma série de ciências humanas imperialistas e. para assinalar o quanto a história deve à obra capital de François Simiand. cada vez. igualmente.IV A história foi conduzida a essas margens talvez perigosas. A história é talvez a maior beneficiária desses progressos recentes. a arte de estudar as civilizações nos seus câmbios e seus aspectos friáveis. De fato. deleitou-se por muito tempo e de maneira demasiado exclusiva? Direi enfim. ao umbral da grande história da França de Ernest Lavisse. ainda mais sensíveis. historiador de origem. do que ela própria às conjunturas do presente. pessoal32 . geógrafo por vocação.

quantas sugestões preciosas sobre o método e sobre a interpretação dos fatos. mais aptos que outros para perceber essas novas correntes do pensamento de seu P" tempo. dos Annales d'histoire économique et sociale. por suas admirações. que alguns homens sejam mais sensíveis. onde não sou mais que um operário da segunda hora. a fundação. . . se enriqueceu com aquisições e contribuições de suas vizinhas. em 1929. bem entendido. constrangidos por sua formação e algumas vezes. sem dele participar. Acontece também. durante esses últimos anos. que lucros em cultura. . Hoje. Freqüentemente acontece que. pois que se trata de uma obra rica de mais de vinte anos de esforços e de êxito. Verdadeiramente ela construiu com eles um novo corpo. Ainda seria preciso convencer os próprios historiadores. . se esforçasse todavia por seguir a obra do vizinho. por vezes febrilmente. sua atividade ao estudo das sociedades e das economias contemporâneas . felizmente acontece quase sempre. na sua origem. . cultivando laboriosamente seu jardim. para a história francesa. homens cada vez mais numerosos consagram. Nada melhor. . nada é mais simples do que sublinhar e fazer compreender a vigorosa originalidade do movimento. Lucien Febvre escrevia na abertura de sua jovem revista: Enquanto que os historiadores aos documentos do passado aplicam seus bons e velhos métodos experimentados. e também a justa inteligência dos fatos que amanhã serão a história. sob a influência de fortes e ricas tradições uma geração inteira atravessa. praticando uma especialização legítima. . É evidente que foi um momento decisivo. por Lucien Febvre e Marc Bloch. puderam trazer-me de incitações a pensar e de novas orientações? Não é necessário multiplicar os exemplos para explicar como a história. que progresso na intuição nasceriam entre esses diversos grupos de intercâmbio intelectuais mais freqüentes! O futuro da história . está nesse preço. o tempo útil de uma revolução intelectual. Mas os muros são tão altos que muitas vezes tapam a vista. É contra esses temíveis cismas que tencionamos nos levantar . seus livros e mais ainda suas deslumbrantes conversas.mente. se cada um. o que a sociologia de Georges Gurvitch. Entretanto. Permitir-me-ão falar deles com admiração e reconhecimento. em Estrasburgo.

a lógica de nossa profissão. _ seu Philippe II et la Franche-Comté. a diversidade e a riqueza da obra de meu ilustre predecessor: todo mundo conhece. último em data. em compensação. desse longo e múltiplo combate. Ninguém melhor que ele esteve em condições de nos restituir a confiança em nosso mister. em sua eficácia . Foi ali que ele abordou livremente todos os temas. de Lucien Febvre. Le Rhin. todas as teses. mas tiveram. Luther. de erudição que se bastaria a si mesma. Ela lhe apareceu sempre como uma explicação do homem e do social a partir dessa coordenada preciosa. mesmo se essa pesquisa é aventurosa . j Não tenho necessidade de falar. um belo título e um programa. •jtNinguém além dele foi capaz. . "Viver a história"^ tal é o título de um de seus artigos. no entanto. . La terre et l'évolution humaine. difundidas por ele. uma espécie de arte pela arte. com essa alegria de descobrir e de fazer descobrir diante da qual não pôde permanecer insensível nenhum dos que verdadeiramente se aproximaram dele. e nós nem sempre o alcançamos em suas alertas viagens. esse fino estudo sobre Marguerite de Navarre. mas que. . queira-se ou não. a evidência dos fatos e o incomparável privilégio de estar à ponta da pesquisa. jamais foi um jogo de erudição estéril. seguramente. porque os Annales foram acolhidos. todos os pontos de vista.e siècle. sobre os inumeráveis artigos e as inumeráveis cartas que são.^Repetenamos hoje de bom grado essas palavras que ainda não convenceram todos os historiadores individualmente. A história para ele. como tudo o que é forte. de fixar nosso caminho no meio dos conflitos e dos entendimentos da história com as ciências sociais vizinhas. seu magnífico livro sobre Rabelais et l'incroyance religieuse au XVI. aqui diante de um público de historiadores. digo-o sem hesitar. Ninguém poderia estabelecer a conta exata de todas as idéias assim prodigalizadas. sutil e complexa — o tempo — H4 . Não preciso dizer-vos mais sobre a amplitude. e. Insistirei. marcaram toda a jovem geração. por vigorosos entusiasmos e hostilidades obstinadas. Queira-se ou não. sua maior contribuição intelectual e humana ao pensamento e as discussões de seu tempo. e têm sempre em seu favor.

no Luther. enquanto indivíduo. Lucien Febvre viveu com paixão e obstinação perto de Lutero. Penso muito particularmente no mais brilhante de seus livros. historiadores. ao mesmo tempo. nem por isso tenha permanecido. à história total do homem. visto sob todos os seus aspectos. nem os indivíduos do passado ou do presente retomam o aspecto e o calor da vida. negar a grandeza do indivíduo. não desdenhar a outra-. não nos parecem tão livres quanto a nossos precursores na história. sem dúvida. onde suspeito que quisesse dar a si mesmo por um instante o espetáculo de um homem verdadeiramente livre. de se debruçar sobre o destino de outro homem. todos nós o percebemos: esquecer. e de exprimir fortemente o que houve de particular e de único em cada aventura individual do espírito.que só nós. sabemos manejar. empenhada por Lucien Febvre no caminho dos destinos coletivos. E a dificuldade não é conciliar. menos capaz de sentir. um só instante. É um fato que a história francesa. dos ápices do espírito. uma de suas originalidades é não ter jamais renunciado à companhia desses príncipes autênticos. Por isso te-lo-á se- . no plano dos princípios. de Michelet. mesmos os maiores. os homens. cada homem às* voltas com sua própria vida. de Proudhon. Foi. não é. Pois contestar o papel considerável que se quis dar a alguns homens abusivos na gênese da história. O perigo de uma história social. e sem o que." e se apaixonando por uma. jamais se desinteressou. Dizia-o há pouco. nem o interesse para um homem. na contemplação dos movimentos profundos da vida dos homens. tendo compreendido com lucidez as novas possibilidades da história. nem as sociedades. certamente. providencial para a história francesa. mas o interesse de suas vidas não é por isso diminuído. de Stendhal. dominando seu destino e o destino da história. a dificuldade é ser capaz de sentir uma e outra ao mésrnõ^temprõ. sendo particularmente sensível aos conjuntos. seu próprio destino. joegar talvez. a necessidade) da história individual e da história social. esguecer. que Lucien Febvre. de Rabelais. pelo contrário. o que cada indivíduo sempre tem _ de insubstituível. com a cultura refinada de um humanista.

que hesita em repeti-la. de Mareei Bataillon. de André Piganiol. cada uma à sua maneira. de Georges Lefebvre. de Mare Bloch. de Augustin Renaudet. o destino da Alemanha e o de seu século. É preciso dizer que julgamentos dessa espécie não podem senão nos trazer encorajamento e orgulho? Dão-nos também o sentimento de um fardo excepcional de responsabilidade. Essa inquietação que dou mostras de sentir. sente imediatamente. Escola francesa? Um francês apenas ousa pronunciar essa palavra e. . pronunciando-a. em seu íntimo. nossa situação não aparece tão complexa. Não creio que essa viva paixão do espírito haja causado em Lucien Febvre uma contradição qualquer. nos últimos instantes de minha conferência. sem esforço. a inquietude de não sermos dignos dela. No entanto. do estrangeiro. tantas divergências internas. Sempre resistiu ao desejo. Construir não é restringir-se sempre? E eis porque. os maiores e portanto os mais fortemente individualizados. depois conscientemente proposta. todos os grandes historiadores de nossa geração. entretanto natural. Um jovem professor inglês escrevia recentemente: Se uma nova inspiração deve penetrar nosso trabalho histórico. se não me engano. . se sentiram à vontade na claridade e no ímpeto de seu pensamento. de maneira implacável. bem sabeis que ela me acompanhava mesmo antes de haver pronunciado a primeira palavra. é da França que provavelmente ela nos pode vir: a França parece destinada a preencher no presente século o papel que teve a Alemanha no precedente .guido apenas durante os primeiros anos de sua vida revoltada e criadora até o dia em que se fecham nele. conciliar-se com essa história entrevista. Não é estranho que elas possam. um pouco por acaso. de ligar o feixe de suas novas riquezas. A história. há mais de vinte anos? É talvez esse feixe de possibilidades que dá sua força à escola francesa de hoje. Não tenho necessidade de sublinhar o que opõe as obras capitais. Quem não se inquietaria. de Ernest Labrousse. para ele. permanece uma empresa prodigiosamente aberta. em ter que tomar lugar entre vós? Felizmente a tradição é boa conse- .

o Magnífico. . para iluminá-la. graças a elas. sem dúvida. Infelizmente! esses tristes homens se nos assemelham como irmãos. simpatias ativas de meus colegas no campo da história. simpatias. que não me faltaram notadamente na Sorbonne. Fui orientado nessa casa pela enorme benevolência de Augustin Renaudet e de Mareei Bataillon. tantas guerras inexpiáveis . a juventude de nossos estudantes. as inesquecíveis luzes da Florença de Lourenço. pertenço à pátria estreita do século XVI e porque amei muito e amo. a Itália de Augustin Renaudet e a Espanha de Mareei Bataillon. a todas as amarguras. . aqui. ardor na tarefa que se sente no fundo de si mesmo. Ler a conferência. a todas as traições dos outros homens e da sorte.lheira. Em seguida. confesso. Tristes homens. Eles não me guardaram rancor por ser. Graças a vós. suceder a um homem sobre o qual repousa. a todas as surpresas. oferece ao mesmo tempo três refúgios. onde estive designado por quase quinze anos. . mais velhos. onde tive tanto prazer em conhecer. com um coração puro. meus caros colegas. . restaurada em 1933. Amizades. . Sem dúvida porque. a primeira vez em minha vida que a tanto me resigno: isso já não fala de minha perturbação? Ocultar-se atrás de um programa. ao abrigo das nossas idéias mais caras: certamente. e de Michelângelo . e muito caras. Outras. velam por mim. . Lucien Febvre tem o habito de falar dos tristes homens de após 1560. ainda hoje. a tela nos esconde mal. sim. em relação a eles. a Itália de Ticiano ou de Caravage não tem mais. Essas simpatias e essas amizades acham-se todas presentes à minha grata lembrança: simpatias ativas de meus colegas dos "Hautes Etudes". 37 . a todas as revoltas inúteis . não podem impedir que se tema. esses homens expostos a todos os golpes. É uma honra muito pesada. e é. evocar as amizades e as simpatias para nos sentirmos menos só. boa vontade. O anoitecer do século XVI. Em torno deles e neles próprios. ou meus contemporâneos. não obstante meus defeitos. a cadeira de história da civilização moderna. um visitante do anoitecer: a Espanha de Filipe II não é mais a de Erasmo. com toda consciência e sem falsa humildade. foi preservada e me incumbe a honra de assegurar-lhe a continuidade.

no próprio sulco de seu pensamento infatigável. que ter-se-ia podido crer silenciosa para sempre. para a glória desta Casa. se fez novamente ouvir a voz de Jules Michelet. durante anos. à margem de seus livros. 38 . a nosso grande e caro Lucien Febvre por quem.a tarefa imensa que define.

A HISTÓRIA E AS OUTRAS CIÊNCIAS DO HOMEM .II.

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S. direta ou indiretamente. mas permanecem entretanto às voltas com um humanismo retrógrado. n.. todas são atingidas. queiram ou não.3. out. 41 . se preo1. Annales E. com mais ou menos lucidez.° 4. pelos progressos das mais ágeis dentre elas. 1958. Todas.C. HISTÓRIA E CIÊNCIAS SOCIAIS.-dez. insidioso. 725-753. pp. A LONGA DURAÇÃO 1 Há uma crise geral das ciências do homem: estão todas esmagadas sob seus próprios progressos. Débats et Combats. ainda que seja apenas devido à acumulação dos novos conhecimentos e da necessidade de um trabalho coletivo. que não lhes pode mais servir de quadro. cuja organização inteligente falta ainda eregir.

ou as separam mal das ciências vizinhas. . à porfia. As ciências do homem sairão. por um não. mesmo se. Anthropologie p. as oposições. Mais ainda. pois (no risco de voltar a antigas repetições ou falsos problemas) ei-las preocupadas. sob o nome de ciência da comunicação. Mas quem está pronto para esses franqueamentos de fronteira e para esses reagrupamentos? Por um sim. aos horizontes da história "inconsciente" e ao imperialismo juvenil das matemáticas "qualitativas". na sua "totalidade". mente. Assim. O desejo de cada' um afirmar contra os outros está forçosamente na origem de novas curiosidades: negar outrem. dessas dificuldades por um esforço suplementar de definição ou um acréscimo de mau humor? Talvez tenham a ilusão disso. mais tarde. structurale. de fato.cupam com seu lugar no conjunto monstruoso das pesquisas antigas e novas. malgrado as reticências. empenhadas em chicanas sobre as fronteiras que as separam. ainda mais que ontem. a História -— talvez a menos estruturada das ciências do homem — aceita todas as lições de_ sua múltipla vizinhança e se esforça por repercuti-las. seus métodos. não sejamos injustos. as ignorâncias tranqüilas. já é conhecê-ío. a economia política. sem o querer explicitamente^ as„gê?íçías sociais se impõem umas às outras. valeria a pena tentá-la no decorrer dos anos vindouros. cuja convergência necessária hoje se adivinha. Alguns estudiosos isolados organizam paralelos: Claude Lévi-Strauss 2 impele a antropologia "estrutural" rumo aos procedimentos da lingüística. cada uma invade o domínio de suas vizinhas crendo permanecer em casa. a própria geografia se divorciaria da história! Mas. Pois cada uma sonha. hoje. Plon. cada 2. Paris. 1958. Ei-las. . cada uma tende a compreender o social no seu todo. a lingüística . a antropologia. em permanecer ou retornar à sua casa . suas superioridades. . em definir suas metas. Tende para uma ciência que ligaria. a instalação de um "mercado comum" se esboça. 329. passim e notada- . A Economia descobre a Sociologia que a rodeia. há um interesse nessas querelas e nessas recusas. . ou não as separam.

extremamente reduzido o que se concede à História. Mas.j3U-^-pe»»axrLx?S. antes de tudo. da observação repetida do historiador. d " ™ "posiçijii viva. esses tempos múltiplos e contraditórios da vida dos homens. em retomar uma estrada mais estreitamente pessoal. senão hábil vendedora: essa duração social. Nos Estados Unidos.ciência tivesse vantagem. g "™íso Yf r i P<1 TkT centro da realidade cnrial. o lugar dado à Geografia nessas tentativas americanas é praticamente nulo e.impoitq n *e. 43 . por um momento. América Latina. por uma equipe de social scientists. repetida indefinidarnente__£atre. Estados Unidos. Conhecê-los é questão vital! Cumpre ainda. Por exemplo. antes. o estudo. mas também o estofo l 1 da vida social atual.. íntima. um aspecto da realidade social do qual a história é boa criada. é preciso aproximar-se desde logo. essa reunião tomou a forma de pesquisas coletivas sobre as áreas culturais do mundo atual. -tal Como ela se desprende do'mister. E além disso. de que História se trata? As outras ciências sociais são muito mal informadas a respeito da crise que nossa disciplina atravessou no decorrer desses últimos vinte ou trinta anos. cego ou surdo. que não são apenas a substância do passado.aáiiatante e o tempo Tento a escoar-se. e sua tendência é desconhecer. cscreyexilt. ao mesmo tempo que os trabalhos dos historiadores. senão de cumprir sempre. a utilidade da história. fora dessa compartição de técnicas e conhecimentos. Uma razão a mais para assiiialar com vigor. no debate que se instaura entre todas a.s ciências do homem. desses monstros políticos do tempo presente: China. que cada w u m dos participantes não permaneça enterrado c m j e u trabalho particular. Índia.^!s*iTagãTi5âis. sendo as area studies. da dialética da duração. a operação é urgente. ao que dizem. ou. Que se trate do passado ou da atualidade. Rússia.putros! É preciso ainda que a reunião das ciências sociais seja completa. a importância. capazes de prometer tanto. que não se negligenciem as mais antigas em benefício das mais jovens. uma consciência clara dessa pluraJjdade do tempo social é indispensável a uma metodologia comum das ciências do homem.

. ao evento. também à realidade das subidas e descidas cíclicas dos preços. mais que a própria história -— a história das cem faces — deveria interessar às ciências sociais. História e durações Todo trabalho histórico decompõe o tempo decorrido. dfi-^xaplitude secular: a história de longa.um jjxHativo da conjuntura que põe em quegtãajQ. segundo preferências e opções exclusivas mais ou menos conscientes. de nossa parte. Bem além desse segundo recitativo.história seúlumina com uma nova luz./ (A nova história econômicas e_ social põe no primeiro planõ 3e"~ sua pesquisa a oscilação cíclica e jassenta sobre sua duração: prendeu-se à miragem. desta vez. longamente da história.consciente ou não. seguimos nas suas experiências e pesquisas porque nos parecia (e ainda nos parece). situa-se uma história de respiração mais contida ainda. A história. que para nossos vizinhos das ciências do homem: economistas. há longos anos. pois. escoíhe entre suas realidades cronológicas. etnólogos (ou antropólogos) . do tempo da história. Hoje.Menos para os leitores* dessa revista. Essa última noção. ao indivíduo. tradicionalJ atenta ao tempo breve. psicólogos. e mesmo. etnógrafos. habituòu-nos há muito tempo • à sua narrativa precipitada. vinte ou cinqüenta anos. ao lado do relato (ou do "recitativo" tradicional). especialistas em nossos estudos. demógrafos.passado por largas fatias: dez.s e - -me familiar para designar o inverso do que François Simiand. t O m O U . terá batizado (história ocorrenciap(événementielle). de IoHgiifss irrÍH~TTffra?Jãn A T n r m n l a b o a OU m á . desprende-se ^ . Pouco 44 . de fôlego curto. colocada a seu reboque ou ao seu contato. geógrafos. a. até mesmo. há assim. Das experiências e tentativas recentes da história. j. que. e. aceita ou não — uma noção cada vez mais precisa da multiplicidade do tempo e do valor excepcional do tempo longo.. 1. dramática. sociólogos.Falarei. matemáticos sociais ou estatísticos — todos vizinhos que. um dos primeLrQsapós Paul Lacombe. tenhamos alguma coisa a lhes dar. Talvez. nossas vizinhas. lingüistas.

à medida J o s indivíduos. Benedetto Croce podia pretender que. livremente ou não. e impossíveis. literária. "novidade sonante". institucional. do jornalista. quisera acantoná-la. sem dúvida. Ora. em lugar de ocorrencial: o tempo curto. o preço dõ trigo. Extensível ao infinito. sem dúvida. Um evento.importam essas fórmulas. de acrescentar a esse fragmento o que ele não contém à primeira vista e portanto saber o que é justo — ou não — associar-lhe. os medíocres açidsntes_da vida ordinária: um incêndio. em todo caso. Questions de méthode. o homem inteiro se incorporam e depois se redescobrem à vontade. social. ao lado dos grandes acontecimentos. de nossas ilusões. Não que essas palavras sejam de uma certeza jJ* absoluta. notemo-lo. do instantâneo à longa duração que se situará nossa discussão. Dá testemunho por vezes de movimentos muito profundos e. em todo evento. enche a consciência dos contemporâneos. . parece. a rigor. um crime. Os filósofos nos diriam. De minha parte. pelo jogo factício ou não das "causas" e dos "efeitos" caros aos historiadores de ontem. anexa um tempo muito superior à sua própria duração. religiosa e 3. do cronista.' lência. aprisioná-la na curta duração: o^ evento é explosivo. derna. Por esse jogo de adições. vê-se apenas sua chama. de nossas rápidas tomadas de consciência — o tempo. Assim. à toda uma corrente de acontecimentos. uma_catástrofe ferroviária. Les Temps Mo- 45 . pode carregar-se de uma série de significações ou familiaridades. liga-se. 1957 n° 139 e 140. crônica ou jornal fornecem.Com sua fumaça excessiva. uma inundação. Digamos então mais claramente. É esse jogo inteligente e perigoso que as reflexões recentes de Jean-Paul Sartre propõem 3 . como se dizia no século XVI. cada um compreenderá que haja um tempo curto de todas as formas da vida. econômica. por exce. é de uma à outra. que isto significa esvaziar a palavra de uma grande parte de seu sentido. de um pólo ao outro do tempo. a história inteira. de destacar desde então uns dos outros. ditos históricos. uma representação "teatral.. Assim a palavra evento. Sob a condição. de realidades subjacentes. JEAN-PAUL SARTRE. mas não dura. da vida cotidiana.

é um fato que. una brilhantes. «A A l e m a n h a à véspera da R e f o r m a » . tal c o m o se nos oferecem. trabalhou no e sobre o tempo curto. o despojo cotidiano da micro-sociologia ou sociometria (há também uma micro-história). uma viva desconfiança relativamente a uma história tradicional. segue 4 . F . quase sempre política. A ciência social tem quase horror do evento. na sua ambição de exatidão. esses mesmos fatos que consti. . Entretanto. centrada no drama dos "grandes eventos". «A E u r o p a e m 1500». Basta. LOUIS HALPHEN. de onde recortava suas narrações 4 . P .apreensão. «O M u n d o em 1880». quase sem espessura temporal. a história dos últimos cem anos. A descoberta maciça do documento levou o historiador^ a crer que. durante esse mesmo período. p. . na conquista científica de instrumentos de trabalho e de métodos rigorosos. entre alguns de nós. uma tempestade) assim como política. outros obscuros e indefinidamente repetidos. Não sem razão: o tempo curto é a mais caprichosa. confundindo-se a etiqueta com a da história política. 46 . resulta por volta do fim do século XIX numa crônica de novo estilo. 1946. Paris. para ver a corrente dos fatos se reconstituir quase automaticamente. 50. na autenticidade documentária estava toda a verdade. nem condenada à sê-lo. _À primeira. 5. salvo as explicações de longa duração de que era preciso sorti-la. o passado é essa massa de fatos miúdos. lidos um após o outro.' tuerr^ na atualidade. que. dita ocorrencial. escrevia ainda ontem Louis Halphen 5 deixar-se de algum modo levar pelos documentos. o preço dos progressos realizados. Donde. a mais enganadora das durações.mesmo geográfica (uma ventania. Mas essa massa não forrttF'toda a realidade. toda a espessura da história sobre a qual a reflexão científica pode trabalhar à vontade. salvo os quadros factícios. Esse ideal. "a história no estado nascente". U . não sem alguma inexatidão: a história política não é forçosamente ocorrencial. historiadores. Foi talvez. é um fato que. no seu conjunto. Introduction à l'Histoire.

uma progressão demográfica.passo a passo a história ocorrencial tal como ela se desprende de correspondências de embaixadores ou de debates parlamentares. graças à arqueologia. certamente/ não disse sua última palavra. inevitavelmente. porque o mais_xar_Q*-da-histQiiograz fia~3õs últimos cêin anos.a rico tradicional. compreenderemos o papel eminente da historia das instituições.^m detrimentq_da /_ história política. na Europa. Por exemplo. um ano podiam parecer boas medidas para um historiador político. Sabe-se n" R redundou em benefício da história econômicaje social. um quarto de século e. houve alteração do tempo histó<. que propõe à nossa escolha uma dezena de anos. como um Michelet. A recente ruptura com as formas tradicionais da J ^ história do século XIX„não foi uma ruptura total com [ o tp. Aparece uma nova forma de narrativa histórica. e. o movimento dos salários. Ontem. O tempo era uma soma de dias. um Fustel souberam redescobrir. deslocamentos de centros de interesses com a aparição de uma história quantitativa que. até mesmo do "interciclo". a seguir. modificações de método. no limite extremo. o papel de vanguarda dos estudos consagrados à Antigüidade clássica. Daí uma reviravoltae uma inegável renovação. as variações da taxa de juro. uma curva dos preços. baixam de 1817 a 1852: esse duplo e lento movimento de elevação e de recuo representa na época um interciclo completo da Europa e. mais 47 . Se aceitarmos que e s s a . somente grandes espíritos. uma análise precisa da circulação reclamam medidas muito mais amplas. Ontem. s u p e t ã o do tempo nirtn foi—o— bem mais precioso. os preços sobem. um Ranke. das religiões. eles salvaram nossa profissão. a qual necessita de vastos espaços cronológicos. Os historiadores do século XVIII e do início do XIX haviam estado mais atentos às perspectivas da longa duração que. do ciclo. das civilizações. Mas. daí. sem levar em conta acidentes breves e de superfície. o meio século do ciclo clássico de Kondratieff. digamos o "recitativo" da conjuntura. de 1791 a 1817. Mas sobretudo.mpo curto. um Jacob Burckhardt. um dia. o estudo (mais imaginado do que realizado) da produção.

as técnicas. 2 v. as ferramentas mentais. Esquisse du mouvement des prix et des revenus eíl France XV111 e siècle. sua Théorie gênérale du progrès économique. Mas pouco importam essas discussões em curso! O historiador dispõe seguramente de um tempo novo. Não creio trair seu desígnio dizendo que essa investigação levará forçosamente à determinação de conjunturas (até mesmo de estruturas) sociais. do que ir do anterior para o desconhecido. François Perroux 6 nos. conjuntura econômica e conjuntura social. talvez indeterminável. após seu manifesto no último Congresso Histórico de Roma (1955). de au 48 . o do crescimento econômico e da renda ou do produto nacional. que esse tipo de conjuntura terá a mesma velocidade ou a mesma lentidão que a econômica. têm igualmente seu ritmo de vida e de crescimento. 1933. quando houver completado sua orquestra/ Com toda lógica. 1957. por mil razões. as civilizações (para empregar essa palavra cômoda). talvez porque parece mais necessário (ou mais urgente) costurar juntas a história "cíclica" e a história curta tradicional. Além disso. estudava o movimento geral dos preços na França no século XVIII 7 . essas duas grandes personagens. Cahiers 1'I. Em termos militares. tratar-se-ia no caso de consolidar posições adquiridas. conduzir à longa duração. 7. o primeiro grande livro de Ernest Labrousse. segundo essas curvas e sua própria respiração. Dalloz. Foi assim que Ernest Labrousse e seus alunos prepararam. elevado à altura de uma explicação onde a história pode tentar inscrever-se. Sem dúvida. Cf. cuja marcha será difícil de determinar.. movimento se6. ofereceria outros limites. não nos devem fazer perder de vista outros atores. em 1933. só estará no ponto. o excesso não foi a regra e um retorno ao tempo curto se realiza sob nossos olhos. uma vasta investigação de história social.ou menos. dividindo-se de acordo com referências inéditas. Assim.A. Paris. e a nova história conjuntural.S. do mundo inteiro. por seu próprio excesso. Mas. Em outros barómetros. as instituições políticas. sem que nada nos assegure. esses períodos cronológicos não têm um valor absoluto.E. esse recitativo deveria. de antemão./As ciências. por falta de medidas precisas. mais válidos talvez. sob o signo da quantificação.

portanto. grande medida. relações bastante fi-^ xas entre realidades e massas sociais. uma coerência. ' arquitetura. histo. Revue économique. até 1929. <j tendência secular. encenador. se apresentam como esboços ou hipóteses. é a palavra estrutura. no próprio côncavo da depressão de 1774 a 1791. no maior livro de história publicado na França no decorrer desses últimos vinte e cinco anos. quando muito até o ano de 1870 8 . e até o pescoço. 1952. Apreciação em R E N É C L É M E N S . oferecem útil introdução à história de longa duração. de bom grado. assinalava uma das fontes vigorosas da Revolução Francesa. aos melhores Jios de uma velhíssima profissão? Além dos ciclos e interciclos. não tendo sofrido a prova das verificações históricas. útil. Eis-nos novamente no tempo curto.cular. quando. Mas ela ainda interessa apenas a raros economistas e suas considerações sobre as crises estruturais. Sua comunicação ao Congresso Internacional de Paris. ela domina os problemas da longa dura-/ ção.\ jnadores. Para nós. uma realidade que 0/ tempo utiliza mal e veicula mui longamente. há o que os economistas chamam. Paris. história. um patetismo econômico de curta duração (novo estilo) a um patetismo político (estilo muito antigo). Comment naissent les révolutions?. Em 1943. Por estrutura. bem mais útil. São uma primeira chave. a operação é lícita. n? 1. 1952 — ver t a m b é m J O H A N N A K E R M A N . uma estrutura é sem dúvida. porém mais ainda. incomodam-na. por viverem muito tempo. articulação. uma de suas rampas de lançamento. Apelava ainda para um meio interciclo. se esforça em ligar. mentos estáveis de uma infinidade de gerações : atra-* vancam a. desta vez. Bem entendido. Certa? estruturas. coman-! dam-lhe o escoamento. em 1948. D o m a t . A segunda. o dos dias revolucionários. apenas enterrados no passado recente. tornam-se e l é r .\ Boa ou má. os observadores do social entendem! uma organização. Como renunciaria ao drama do tempo breve. o mesmo Ernest Labrousse cedia à essa necessidade de retorno a um tempo menos embaraçante. Prolégomènes d'une théorie de la structure économique. Cycle et Structure. sem estudá-la. 49 . mas como é sintomática! O historiador é. Entretanto. Outras estão mais prontas à 8.M o n t c h r e s t i e n . sempre.

até mesmo. de vegetações. de pensar e de crer. O magnífico livro de Ernst Robert Curtius 9 que finalmente apareceu numa tradução francesa. O exemplo mais acessível parece ainda o da coerção geográfica. de um equilíbrio lentamente construído. Paris. E R N S T R O B E R T C U R T I U S . a fixidez surpreendente do quadro geográfico das civilizações. sob uma pesada herança: até os séculos XII e XIV. o estudo de Lucien Febvre. de populações animais. vede a durável implantação das cidades. 1969. estas ou aquelas coerções espirituais: os quadros mentais também são prisões de longa duração. a civilização das elites intelectuais viveu dos mesmos temas. esse conjunto de concepções que. a permanência de certos setores de vida marítima. a civilização latina do Baixo Império. Berna. das mesmas comparações. o homem é prisioneiro de climas. 1948 t r a d . Rabelais et le problème de l'incroyance au XVIe siècle3n dedicou-se a precisar a ferramenta mental do pensamento francês na época de Rabelais. 1943. a persistência das rotas e dos tráficos. até o nascimento das literaturas nacionais. dos mesmos lugares-comuns e refrões. 3» ed. a aventura intelectual dos espíritos mais 9. 1956. As mesmas permanências ou sobrevivências no imenso domínio cultural. Paris. P . 10. Durante séculos. Mas todas são ao mesmo tempo. e limitou duramente. deformando-a por suas escolhas. Numa linha análoga de pensamento. Vede o lugar da transumância na vida montanhesa. sustentáculos e obstáculos.. enraizados em certos pontos privilegiados das articulações litorâneas. U . de antemão. Pensai na dificuldade em quebrar certos quadros geográficos. F . Albin Michel. é o estudo de um sistema cultural que prolonga. certas realidades biológicas.se esfarelar. . bem antes de Rabelais e muito tempo depois dele. Europäische Literatur und lateinisches Mittelalter. fr. certos limites da produtividade. do qual não pode desviar-se sem o risco de pôr tudo novamente em jogo. comandou as artes de viver. : La Littérature aurepéenne et le Moyen Age latin. no sentido matemático) dos quais o homem e suas experiências não podem libertar-se. de culturas. Obstáculos. assinalam-se como limites (envolventes. ela própria. esmagada. 50 .

1949. 51 . O tema que Alphonse Dupront 11 trata. . Peinture et Société12 assinala a partir dos inícios do Renascimento florentino. ibidem. mas aos quais. interciclos. Audin. R E N É C O U R T I N . Historische Zeitschrift. no 1. Sorbonne. muito além de a "verdadeira" cruzada. Lyon. se apresenta também como uma das mais novas pesquisas da Escola Histórica francesa. . os psiquismos mais diversos e toca com um último reflexo os homens do século XIX. 1951. crises estruturais ocultam aqui as regularidades. Le mythe de Croisade. t. — de G E O R G E S L E F E B V R E . Num domínio ainda vizinho. repetida incessantemente. perto de nós. velhos hábitos de pensar e de agir. A dificuldade. B U L T M A N N . de O T T O B R U N N E R sobre a história social da E u r o p a . Annales historiques de la Révolution française. sobre o h u m a n i s m o . A idéia de cruzada é aí considerada. porém muito mais tarde. por vezes contra toda lógica. para além do século XIV. a permanência de um espaço pictural "geométrico" que nada mais alterará até o cubismo e a pintura intelectual dos inícios de nosso século. e de F. de la Renaissance au cubisme. H A R T U N G . 33. O universo aristotélico se mantém sem contestação. ou quase. no quadro da Euro11. 177. P I E R R E F R A N C A S T E L . por um paradoxo só aparente. afundará. n1? 3 — de R. oblitera-se então diante de um universo profundamente geometrizado que. Naissance et destruction d'un espace plastique. 1941. Librairie de Médicis. A história das ciências também conhece universos construídos que são outras tantas explicações imperfeitas. o livro de Pierre Francastel. por sua vez. Mas raciocinemos com base em um exemplo. 12. t. 14. Ciclos. ne 1. na continuidade de uma atitude de longa duração que. 176. Historiche Zeitschrift. 180. no 114. isto é. séculos de duração são regularmente concedidos. La Civilisation économique du Brésil. Eis. duros de morrer. São rejeitados apenas depois de haverem servido longamente. analisado depressa. sobre o Despotismo esclarecido. alguns disseram de civilizações14 — isto é. Paris. diante das revoluções einsteinianas 13 . as permanências de sistemas. Outros argumentos: colocam de b o m g r a d o em questão os poderosos artigos q u e todos defendem no mesmo sentido. atravessa as sociedades. tese datilografada. Peinture et Société. até Galileu. é discernir a longa duração no domínio onde a pesquisa histórica acaba de obter seus inegáveis sucessos: o domínio econômico. Descartes e Newton.livres. no Ocidente. t. quadros resistentes. os mundos. Essai de sociologie religieuse.

de um ou dois grandes tráficos exteriores: o comércio do Levante do século XII ao século XIV. Admiti-lo no coração de nosso mister não será um simples jogo. os traços principais. Durante séculos. evoquei após alguns outros. o papel desproporcionado à primeira vista. a fragilidade. para maior segurança. a atividade econômica depende de populações demograficamente frágeis. Outras características desse sistema: a prioridade dos mercadores. mil rupturas e agitações renovavam o aspecto do mundo. com o fim do século XVI. Não se 15. . obstáculo. e mesmo o cobre. o comércio colonial no século XVIII. entre outras continuidades. defini ou antes. do capitalismo comercial. por minha vez. digamos. pelo desenvolvimento decisivo do crédito. do século XIV ao século XVIII. como hão de mostrar os grandes refluxos de 1350-1450 e. a longa duração se apresenta assim como um personagem embaraçante. À h o r a francesa. complicado. até a agitação do século XVIII e da revolução industrial da qual ainda não saímos. o papel eminente dos metais preciosos. N a Espanha o refluxo demográfico se nota desde o fim do século X V Í . esses quatro ou cinco séculos de vida econômica tiveram uma certa coerência. Alguns traços lhes são comuns e permanecem imutáveis. e ainda. inferioridade. um sistema econômico que se inscreve em algumas linhas e regras gerais bastante claras: mantém-se mais ou menos no lugar. Não obstante todas as modificações evidentes que os percorrem. f Entre os diferentes tempos da história. do próprio soalho da vida econômica. sem dúvida. Durante séculos. enquanto que em torno deles. amiúde inédito.pa. a habitual ampliação de estudos e curiosidades. etapa de longa duração. Assim. salvo as exceções que confirmam a regra (feiras de Champagne já em seu declínio no início do período. cujos choques incessantes somente serão amortecidos. para a Europa Ocidental. enfim. até por volta de 1750. os abalos repetidos das crises agrícolas estacionais. ou feiras de Leipzig no século XVIII). ouro. a circulação vê o triunfo da água e do navio. todos esses surtos de progresso se situam ao longo das franjas litorâneas. prata. de 1630-1730 15 . diremos. Os surtos de progresso europeus. sendo toda a espessura continental.

. quase no limite do movediço. carregados de outras inquietudes. sair dele. Para mim. tampouco. a uma nova concepção do social. A história não faz exceção. » ( O único erro. desde 1900. a boa Escola. Ser-nos-á preciso muito tempo e cuidado para fazer com que todas essas mudanças e novidades sejam admitidas sob o velho nome de história. seria escolher uma dessas histórias com exclusão das outras^ Foi e seria o erro historizante. todos os milhares de estouros do tempo da história se compreendem a partir dessa profundidade. mas com outros olhos. depois voltar a ele. e continua a interroggt-se e a transformar-se. M Anuncia-se./ c Nas linhas que precedem não pretendo ter definido o mister de historiador — mas uma concepção desse mister. Mas desde Mare Bloch. a roda não cessou de girar. todos os milhares de faixas. tudo gravita em torno dela. após as tempestades dos últimos anos. Há uma longa distância de Charles-Victor Langlois e Charles Seignobos a Mare Bloch.—-Jin^c-Okc 5 " H p r r l i < : t p r p g " ' k pontos de vista. a uma alteração de pensamento. as ciências sociais. e bem ingênuo. Nenhuma quietude está pois à vista e a hora dos discípulos não soou. de ontem. de hoje. de atitude. não em outra. de outras questões. No entanto. Nessa faixa. uma_nova "ciência" histórica nasceu. — voltarei a isso — é lícito desprender-se do tempo exigente da história. empenhadas encarniçadamente em nos reconduzir à história tal como era ontem. a meu ver. Sabe-se que não será cômodo convencer todos os historiadores e. De fato. dessa semi-imobilidade. a história é a soma de todas as histórias possíveis. Todas as faixas. entre nós. de uma escolha cujo único beneficiário será e l e v a r a o historiador. Em todo caso.tratará. quem pensasse. ocultá-rlo é prestar-se a uma mudança de estilo. de amanhã. como a partir de uma infra-estrutura. menos ainda. todos os misteres das ciências sociais não cessam de transformar-se em razão de seus movimentos próprios e do vivo movimento do conjunto. É familiarizar-se com um tempo diminuído. é em relação a essas extensões de história lenta que a totalidade da história pode se repensar. os limites claros. por vezes. que encontramos os verdadeiros princípios. Feliz.

estão contaminadas umas pelas outras. tendem a escapar sempre à explicação histórica. tão enfadonho no momento francês. Não que se possa levantar contra elas um firme requisitório e declará-las sempre culpadas de não aceitar a história ou a duração como dimensões necessárias de seus estudos.com a Revue de Synthèse Historique e com os Annales. as barreiras e diferenças de ontem. e exame "diacrónico" que reintroduz a história não está jamais ausente de suas preocupações teóricas. E tampouco. no impulso de um tempo longínquo. sempre no momento francês. •54 . O mundo de 1558. para quem quer compreender o mundo. será preciso distinguir entre movimentos longos e impulsos breves. Quer se situe em 1558 ou no ano da graça de 1958. Além disso. por gosto. depois. de outrora. aqueles. elas nos dão mesmo uma boa acolhida. trata-se. de ontem. por instinto profundo. Todavia. Aparentemente. talvez por formação. A Querela do Tempo Curto Essas verdades são certamente banais. de movimentos particulares. afastadas essas aquiescências. nosso difícil ano de 1958. estes. entre ò historiador e o observador das ciências sociais. a partir de 1929. de ritmo diferentes: o tempo de hoje data. O historiador quis-se atento a "todas" as ciências do hòmem. Todas as ciências do homem. A cada instante dessa pesquisa. não imaginemos. as ciências sociais não se sentem quase tentadas pela busca do tempo perdido. de correntes. tomados desde suas fontes imediatadas. tos de origem. Cada "atualidade" reúne movimen. é preciso convir que as ciências sociais. não nasceu ao umbral desse ano sem encanto. Falam a mesma linguagem ou podem falá-la. ou se quisermos "atualiza" em excesso os estudos sociais. apreender de novo uma constelação de conjunto. 2. de definir uma hierarquia de forças. escapam-lhe por dois procedimentos quase opostos: uma "fatualiza". inclusive a história. ao mesmo tempo. Eis o que dá ao nosso mister estranhas fronteiras e estranhas curiosidades. Entretanto. de anteontem.

mal divididos). geógrafos. ao contrário. na pesquisa das economias antigas. manter a balança igual. acusada de escolha. prisioneiros da mais curta atualidade. / F a l a m o s de nossa desconfiança em relação a uma história puramente fatual. limitada aos dados do tempo curto. Essa recusa autoritária da história não terá quase servido Malinowski e seus discípulos. Alguns dentre eles sublinharam bem a impossibilidade (mas todo o intelectual é obrigado ao impossível) e a inutilidade da história no interior de seu mister./Todas as ciências sociais participam do erro. a outra ultrapassa pura e simplesmente o tempo. alimentados pela tradição vidaliana). O economista tomou o hábito de correr a serviço do atual. ir aquém de 1945. Sejamos justos: se há um pecado jactualista. fazendo isso. Economistas. Sustento que todo pensamento econômico fica encantoado por essa restrição temporal. o que é fácil e obrigatório para o demógrafo. que abandonaram por si mesmos. a história. A posição dos etnógrafos e etnólogos não é tão clara. privam-se de um maravilhoso campo de observação. quando muito alguns anos. o que é imediato para os geógrafos (particularmente os nossos.graças a uma sociologia empírica. De fato. a serviço dos governos. imaginando ao termo de uma "ciência da comunicação" uma formulação matemática de estruturas quase intemporais. sem por isso negar-lhe o valor. Este último procedimento. mas. dizem os economistas. não é a única culpada. entre um limite à retaguarda que vai aquém de 1945 e um hoje que os planos e previsões prolongam no futuro imediato de alguns meses. demógrafos. como a antropologia se desinteressaria da história? É a mesma aventura do espírito. nem tão alarmante. estão divididos entre ontem e hoje (mas. Cabe aos historiadores. ser-Ihes-ia preciso para serem prudentes. da investigação sobre o vivo. é evidentemente o único que pode nos interessar profundamente. desdenhosa de toda história. o mais novo de todos. 55 . só acontece raramente no caso dos economistas. Mas o ocorrencial tem ainda bastante partidários para que os dois aspectos da questão mereçam ser examinados alternadamente. o que.

o historiador tem demasiada facilidade para destacar o essencial de uma época passada. "aqueles que tiveram conseqüências". durante anos. reconstruído — insistamos bem: reconstruído. cil. Uma hora na Grécia de hoje não lhe ensinará nada.es Temps nQ 195. op. o inquiridor sobre o tempo presente somente chega até às tramas "finas" das estruturas. Mas é que. Na verdade. de reconstruir. distingue nela sem esforço os "eventos importantes". devastado pelo silêncio. Em compensação. São à sua maneira. as investigações de mil direções. ou quase nada. confusa. para falar como Henri Pirenne. o que não daria o viajante do atual para ter esse recuo (ou esse avanço no tempo) que desmascararia e simplificaria a vida presente. também. D I O G È N E C O U C H f . p. struclurale. ^ M a i s ainda. 56 . Por este lado.. 31. Para que voltar-se para o tempo da história: empobrecido. à condição. O historiador preparou a viagem. sobre a coerência ou a incoerência da civilização da Grécia antiga 17 . Ánthropologie Moiernes. pouco legível porque demasiado atravancada de gestos e sinais menores? Claude Lévi-Strauss pretende que uma hora de conversação com um contemporâneo de Platão o informaria. l. L£VI-STRAUSS. psicologia e economia. Não há sociedade. Simplificação eyidente e perigosa. mais que nossos discursos clássicos. "as garras do (gvento". es tá tão morto. Estou bem de acordo com isso. com respeito à sociologia das investigações sobre o atual. Elas mergulham entre nós. entenda-se. nossa querela será bastante viva nas fronteiras do tempo curto. que não reyele à observação. uma aposta repetida sobre o valor insubstituível do tempo presente. simplificado.como costuma dizer Claude Lévi-Strauss 10 . de adiantar hipóte16. seu calor "vulcânico". não teríamos razão em nos lamentar ou insistir. tão reconstruído quanto se pretende dizê-lo? Sem dúvida. 17. C L A U D E p. Mas. 17. entre sociologia. por mais inferior que seja. ele ouviu cem vozes gregas salvas do silêncio. acerca das coerências ou incoerências atuais. tampouco não há sociedade cuja história tenha naufragado inteiramente. como no estrangeiro. sua riqueza abundante.

com questionários hábeis e as combinações dos cartões perfurados. ao passado longínquo. 07 . ou faz. no século XVI. da surpresa na explicação histórica: tropeçais. o afastamento — esses grandes meios de conhecimento — não são menos necessários para compreender o que vos cerca. e conhecereis bem mal a Inglaterra. por comparação. de ultrapassá-lo. n o t a d a m e n t e p. cercar perfeitamente um mecanismo social. ciências do homem. em uma estranheza. à luz de vossos espantos. nós. 'Historiadores e social scientists poderiam pois eternamente passar a bola um para o outro no que tange ao documento morto e ao testemunho muito vivo. também é expatriamento. de que fala 18. à atualidade muito próxima. o expatriamento. e de tão perto que não mais o vedes com clareza. Todo um fatual. tereis bruscamente compreendido alguns dos traços mais profundos e originais da França. Le Temps de l'histoire. etnógrafo que encontra por três meses um povo polinésio. sociólogo industrial que entrega os clichês de sua última investigação. nos deslocamentos. que interesse podemos encontrar. ou se revela sem esforço. aqueles que não conheceis a força de conhecê-los. e tanto menos quanto mais afastada do reconstruído ela quiser e s t a r / Philippe Ariès 18 insistiu sobre a importância do expatriamento. Na verdade. homem do século XX. Presente e passado iluminam-se com luz recíproca. Por que essa diferença? O problema está colocado. Face ao atual. tão fastidioso como o das ciências históricas. ou acaba de mudar. todas as operações que permitem escapar ao dado. 1954. reconstruções. espreita o observador apressado. Mas direi que a surpresa. 298 e ss. Pion. O social é uma caca muito mais ardilosa. de truncá-lo.' se se observa exclusivamente na estreita atualidade. de recusar o real tal como é percebido. estranheza para vós. brilha com. Não acho que esse problema seja essencial. o passado. Vivei em Londres um ano. razão ou sem razão. mas que são. Paris. barulho. Mas. todas. para melhor dominá-lo. Duvido que a fotografia sociológica do presente seja mais "verdadeira" que o quadro histórico do passado. a_atençãó 'incidirá sobre o que se mexe depressa. ou que pensa.ses e explicações.

tivesse ela feito estudos de agronomia ou praticado o esqui náutico e tudo teria mudado em suas viagens triangulares. qualquer que seja. de um longínquo ressurgimento ou de um monótono recomeço? ^Concluamos numa palavra: Lucien Febvre. 20. ainda assim nem todas serão válidas ipso facto para trabalhos futuros. seus pânicos. tem que se recolocada no complexo dos campos próximos que a rodeiam. Paris et l'agglomération Paris. a distribuição dos domicílios dos empregados de uma grande empresa. Paris. 1955. Paris. P. ao contrário. BETTELHEIM.LY XYDIAS. Cahiers des e NEI. onde está o problema sem o qual uma investigação permanece um esforço perdido? O interesse dessas investigações para a investigação é. Desconfiemos da arte pela arte. Se registrarmos um intercâmbio campo-cidade. no 17. seus cálculos necessários. Vienne-sur-le-Rhône. se não disponho de um mapa anterior da distribuição. Toda cidade. e também desses arquipélagos de cidades vizinhas das quais. que anima esse complexo. t. quando muito.uma vasta e boa investigação sobre a região parisiense 19 . Sciences Politiques. determinada rivalidade industrial ou comercial. seu professor de música e o local das Sciences-Po? Tira-se daí um lindo mapa. Une ville A r m a n d Colin. I. sem se inscrever na duração histórica. 2t. U . PIERRE CLÉMENT Sociologie d'une cité française. não é essencial saber que se trata de um movimento jovem em pleno ímpeto ou de um fim de corrida. no XVI o quarteirão. Divirto-me. Mas. Mas. S U Z A N N E FRÈRE e CHARLES •française moyenne. e portanto no movimento. terá sido o historiador Richard Hàpke. durante os dez últimos anos de vida. Cahiers des Sciences 58 . sobre um mapa. amiúde muito afastado no tempo. C H O M B A R T D E L A U W E . sociedade tensa com suas crises. acumular ensinamentos. F . se a distância cronológica entre os extratos não é suficiente para permitir inscrever tudo num verdadeiro movimento. Auxerre en 1950. em ver. 106." Terá ' repetido: 19. de uma jovem entre seu domicílio. n? 71. 1952. um dos primeiros a falar. ou Viena em Delfinado 21 . possa ser o objeto de uma investigação sociológica como foi o caso para Auxerre 20 . mais ou menos afastado no tempo. . é indiferente ou. A r m a n d Colin. seus cortes. parisienne. 1951. P . Duvido igualmente que um estudo de cidade. Politiques. p.

elas se definem por si mesmas. ainda que a palavra — e a coisa — não esteja ao abrigo das incertezas e das discussões 22 . ciência do. ou da longa duração. na linguagem da história (tal como eu a imagino).' plicação do social em toda a sua realidade? e portanto do atual? Valendo sua lição nesse domínio como uma proteção contra o evento: não pensar apenas no tempo curto.^'história ciência do passado. sob o duplo signo da "comunicação" e da matemática. não é à sua maneira. sem surpresa útil. os termos de um vocabulário não inteiramente novo. V i a Secção da «École Pratique des Hautes . evidentemente. Mas aqui. suspendendo todas as durações. está alhures. quero dizer.presente". ou. retomado. Em todo caso. acerca do evento. e um a um. seja menos fácil a delimitar do que parece. ou ao menos. não crer que somente os atores que fazem barulho sejam os mais autênticos. há outros e silenciosos — mas quem já não o sabia? 3 . Na verdade. o que 22. se situam absolutamente fora dele. 1958. 59 . não será fácil advogar o processo. Nem há grande coisa a dizer acerca das estruturas. ao menos aparentemente. ainda que seu papel. Com efeito. entre nossos vizinhos. nessa discussão. num estudo concreto do social. será algo difícil provar que nenhum estudo social escapa ao tempo da história.. é quase absurda em si. O debate essencial que a mais nova experiência das ciências sociais conduz. A . a propósito de tentativas que. ex. mas. aí o debate se desenrola sem grande interesse. É inútil também insistir muito nas palavras sincronia e diacronia. Comunicação e Matemáticas Sociais Talvez não tenhamos tido razão em nos demorar na agitada fronteira do tempo curto. Nada temos a repetir. se o leitor quiser nos seguir (para nos aprovar ou divergir de nosso ponto de vista) fará bem em pesar por sua vez. não pode haver sincronia perfeita: uma parada instantânea. resumo datilografado.Êtudes. história dialética dá duração. Ver o Colloque sur les Structures. rejuvenescido nas novas discussões e que prosseguem sob nossos olhos..

o lançamento dos sputniks. A fórmula de Marx esclarece. isto é. a lingüística acreditava tirar tudo das palavras. Admiti. é abusiva. além disso. bem entendido. mas ignoram que ã fa~zem"2:i. sob um novo nome. dos acidentes de Dien-Bien-Phu ou de Sakhiet-Sidi-lussef. aleatória. De fato. 30-31.vem a dar no mesmo. mas não explica o problema. em parte domínio do tempo conjuntural e. Essa história consciente. pp. mais fácil para explorar — senão para descobrir. que esse inconsciente seja considerado cientificamente mais rico que a superfície cintilante à qual nossos olhos estão habituados. como muitos historiadores. do tempo estrutural. Esses comentários indispensáveis se reúnem alhures. C i t a d o por C L A U D E cil. numa problemática comum às ciências sociais. ou desse outro evento. cientificamente mais rico. do mesmo modo. ou — espero-o — não tardarão a se reunir. é verdade. A história inconsciente é.homens fazem a históriá. do "microtempo". uma vez mais. mais simples. Anthropologie struclurale. uma descida segundo a inclinação do tempo não é pensável senão sob a forma de uma multiplicidade de descidas.. "Os . do factual que se nos reapresenta. A história teve a ilusão de tirar tudo dos eventos. para o instante. importante de outro modo. é todo o problema do tempo curto. Mais de um de nossos contemporâneos acreditaria de bom grado que tudo veio dos acordos de lalta ou de Potsdam. esperando o melhor. um inconsciente social. Essas breves chamadas e cuidados bastarão. a história das formas~inconscientes do social. vivendo seu tempo.jk história inconsciente se desenrola além dessas luzes. de apreender seu desenrolar no dia a dia. 23. segundo os diversos e inumeráveis rios do tempo. é muitas vezes. 60 . Os homens sempre tiveram a impressão. de seus flashes. já há muito tempo. aos modelos. mais claramente perop. a uma certa distância. Mas é preciso ser mais explícito no que concerne à história inconsciente. LÊVI-STRAUSS. Mas a separação entre superfície clara e profundezas obscuras — entre ruído e silêncio — é difícil. bastante fictícia. Admiti pois que existe. Acrescentemos que a história "inconsciente". por excelência. clara. concordam em considerá-la? Ontem. às matemáticas sociais.

o cálculo das médias se impõe: elas conduzem aos modelos estatísticos. pois. É seu valor recorrente. em suma. é verdade.|(É o que acontece no tocante à história econômica. é precisar o (H . o cálculo ou o alvo dos utilizadores: simples ou complexos. por vezes discutíveis! __De minha parte. Retomo em Claude Lévi-Strauss esta última distinção. do que as leis ou a direção. Mas uma certa realidade não aparece sem que uma outra não a acompanhe e.história de massa cuja potência e cujos impulsos reconhece melhor. através do tempo e espaço. Mas pouco importam essas definições. tem o sentimento de uma. O modelo estabelecido com cuidado permitirá. até em detrimento. o essencial antes de estabelecer um programa comum das ciências sociais. fora do meio social observado — a partir do qual foi. Nessa prospecção em que a história nãci_está__só (ao contrário. mecânicos ou estatísticos.cebida do que se costuma dizei. qualitativos ou quarn titativos. desta para aquela. além de sua própria vida. Mecânico. do factual. novos instrumentos de conhecimento e investigação foram construídos: temos assim. colocar em questão. criado — outros meios sociais de mesma natureza. por vezes ainda artesanais. é uma revolução no espírito. consistiu em abordar de frente essa semi-obscuridade. em lhe conceder um lugar cada vez maior ao lado. os modelos. sistemas de explicação solidamente ligados segundo a forma da equação ou da função: isso é igual aquilo ou determina aquilo. Quanto às vastas sociedades. ela nada~mais fez senão seguir nesse domínio os pontos de vista das novas ciências sociais e adaptá-los ao seu uso). realidade de pequenas dimensões interessando somente a grupos minúsculos de homens (assim procedem os etnólogos a propósito das sociedades primitivas). E se essa consciência. relações estreitas e constantes se revelam. Esses sistemas de explicações variam ao infinito segundo o temperamento. Os modelos não são mais do que hipóteses. Cada um de nós. hoje. estáticos ou dinâmicos. onde os grandes números intervêm. o modelo estaria na própria dimensão da realidade diretamente observada.) A revolução. é cada vez mais viva^ cia não data apenas dè ontem. mais ou menos aperfeiçoados. pois.

por sua vez. é também a mais lenta a se apagar. a mais lenta a desabrochar. ou seja. modelos à sua maneira. Mais restrito. mas todas as estruturas da história são pelo menos elementarmente dinâmicas) apto a se reproduzir num número de circunstâncias fáceis de reencontrar. c o m a n d a r a m nossa imitação. v. cobre — e crédito. raramente desenvolvidos até o rigor de uma verdadeira regra científica e nunca preocupados em desembocai numa linguagem matemática revolucionária — todavia. esse ágil substi24. Aconteceria talvez a mesma coisa com esse modelo. Daí também. num livro antigo 25 . a propósito da história dos metais preciosos. alternadamente mercadoras. 1955. "industriais". a respectiva significação e o valor de explicação. 233-264. I V . que a estrutura do capitalismo comercial. 25. aplica-se plenamente apenas a uma família dada de sociedades. rudimentares. fabricados por historiadores. Registra um fenômeno (alguns diriam uma estrutura dinâmica. esse esboço seria. com a idéia de duração. n a verdade. de um ciclo de desenvolvimento econômico. que certas iniciativas arriscam engrandecer excessivamente. 264 e ss. entre vários. pp. Para ser mais claro. mais facilmente que aquele. Falamos mais acima do capitalismo comercial entre os séculos XIV e XVIII: trata-se aí de um modelo. à l'époque de Phi- 26. a meu ver. a necessidade de confrontar os modelos. durante e após o século XVI: ouro. de fato. que podemos depreender da obra de Marx. Já não é o mesmo com o modelo que esbocei. La Méditerranée lippe II. esta última atividade. a propósito das cidades italianas entre os séculos XVI e XVIII. durante um tempo dado. tomemos exemplos entre modelos históricos 24 . F E R N A N D B R A U D E L e F R A N K S P O O N E R . Rapports au Congrès de Rome. Les nétaires et l'économie du XVle siècle. prata. A r m a n d et le monde Colin. 1949. méditerranéen p. Seria t e n t a n d o d a r u m lugar aos «modelos» dos economistas que. esboçado por Frank Spooner e por mim mesmo 26 . pois. Paris. modelos bastante grosseiros. antes. extensível na duração e no espaço. depois especializadas no comércio do banco. métaux mointernational 62 . Se deixa a porta aberta a todas as extrapolações.papel e os limites do modelo. da duração que implicam dependem bastante estreitamente.

como diriam os matemáticos. No limite. 28. 1955. S. a evolução da idéia de dinastia ou de império. The Réputation C a m b r i d g e (Massachusetts). império romano. precisa confundir sua sorte com a da Cidade ou da Nação. o século XVI. 1956. no caso particular dos países desenvolvidos de hoje.tuto do metal — são também. por conseguinte. na verdade. do «Centre d ' É t u d e s Économiques». a "estratégia" de um. Structure économique et théorie moParis. na verdade. vê nela a reação habitual a toda classe dominante que sente seu prestígio atingido e seus privilégios ameaçados. capaz de correr os séculos. dos sociólogos matemáticos. quase intemporais. verificar a velha teoria quantitativa da moeda modelo 27 ? Mas as possibilidades de duração de todos esses modelos ainda são breves se as compararmos às do modelo imaginado por um jovem historiador sociólogo americano. defende em face da opinião pública a quem se representa o sucesso do financista como o triunfo típico do self-made man. Atônito com a dupla linguagem da classe dominante dos grandes financistas americanos contemporâneos de Pierpont Morgan. a condição da fortuna da própria nação). para se mascarar. Os economistas não tentaram também à sua maneira. isto é. mais estreitas. circulando pelas rotas obscuras e inéditas da longuíssima duração. nessman. A L E X A N D R E C H A B E R T . que escolhemos para nossa observação. publ. Diamond explicaria de bom grado. of the American Busi- 63 . Sigmund Diamond 28 . jogadores. evidentemente. . linguagem anterior à classe e linguagem exterior (esta última. Quase intemporais. nétaire. A r m a n d Colin. pesa sobre a "estratégia" do outro. para uma duração muito mais longa do que os modelos precedentes. seu interesse particular com o interesse público. mas ao mesmo tempo põe em causa realidades mais precisas. esse gênero de modelo assemelhar-se-ia aos modelos favoritos. . mas cuja história tenha sido pródiga: é válido. S I G M U N D D I A M O N D . O modelo assim concebido é. Supõe certas condições sociais precisas. da mesma maneira. Não será difícil transportar esse modelo fora do século privilegiado e particularmente movimentado. dinastia inglesa. atônito com essa dupla linguagem. 27.

pela utilização dos conjuntos. Por conseguinte. "Não se deve dizer a álgebra. a passagem da observação à formulação matemática não mais se faz obrigatoriamente pela 29.es mathématiques et les sciences sociales. out. do próprio cálculo das probabilidades. não há uma matemática. desde Pascal — é o domínio do cálculo das probabilidades. a matemática (ou então é uma reivindicação). Bulletin International dês Sciences sociates. portanto: a dos fatos de necessidade (um é dado. n° 4. mas submissos a certas coerções. 1951. as matemáticas. dos grupos. — que é grande — é o de acolher no seu domínio essa linguagem sutil. a geometria. 64 . Há três linguagens. nem os deles. abre o caminho às matemáticas "quantitativas". Ê V I . comunicação. é o domínio das matemáticas tradicionais. tão ambiciosos e avançados na pesquisa.As explicações que precedem não são mais que uma insuficiente introdução à ciência e à teoria dos modelos. o que não simplifica nossos problemas. Nossos colegas são. Em todo caso. a linguagem dos fatos condicionados. Critique. Ainda assim. essa estratégia triunfante que não ficou somente nos princípios e audácias de seus fundadores. As matemáticas sociais'-'9 são pelo menos três linguagens que ainda podem misturar-se e não excluem uma seqüência. a regras de jogos. das matemáticas sociais. o relatório b r i l h a n t e de J E A N F O U R A S T I E . uma álgebra. Seus modelos não passam quase de feixes de explicações. Deus sabe para onde! Informação. no51. mas que corre o risco à menor desatenção. que tentam chegar à altura das teorias e das linguagens da informação. enfim. Seu mérito. U N E S C O . The Theory of Games and economic Behaviour. no eixo da "estratégia" de Von Neumann e Morgenstern 30 .S T R A U S S . V I . uma geometria" (Th. a linguagem dos fatos aleatórios. mas. V e r especialmente C L A U D E I . tudo se reúne bastante bem sob o vocábulo. e mais geralmente todo esse n ú m e r o de um grande interesse. nem aleatórios. i n t i t u l a d o : í. nem determinados. Guilbaud). matemáticas qualitativas. como pudermos. A imaginação dos matemáticos não está no fim. da comunicação ou das matemáticas qualitativas. 1944. A estratégia dos jogos. Princeton. aliás amplo. de escapar ao nosso controle e de precipitar-se. Cf. é preciso iluminar nossa lanterna. o outro segue). 30. E é preciso que os historiadores ocupem aí posições de vanguarda. aliás.

65 . diremos nós. sua brocagem. é preciso preparar o trabalho dessa máquina que não engole nem tritura todos os alimentos. de nascimentos. que ele seguiu de longe. 31. tal como uma "tribo" primitiva. num abismo de reflexões. não podem iludir nossa atenção. Mas um exemplo valerá mais que um longo discurso. o preparo da realidade social para seu uso. digamos o de uma ciência da comunicação31. op. Entretanto. Introduzir-nos-á num setor dessas pesquisas. a Anthropologie strucíuraU. até aqui. Nesses domínios evidentemente se abrem mil possibilidades de pesquisas. ou antes. que não são mais apenas nossas velhas matemáticas habituais: curvas de preços. foi em função de verdadeiras máquinas. leve todas em conta. de suas regras de funcionamento. seu recorte. cit. . pode-se passar diretamente a uma formulação matemática. vamos segui-lo. T o d a s as observações que seguem são extraídas de sua última obra. lançam-no. Claude Lévi-Strauss se nos oferece como um excelente guia. 2°) é preciso preparar o social das matemáticas do social. um especialista nesses domínios difíceis. O autor desse estudo não é. tais possibilidades matemáticas existem. Evidentemente. Da análise do social. para as comunicações no sentido mais material da palavra. permanece um duplo fato: l 9 ) tais máquinas. O tratamento prévio. estabelecer em seguida. um "isolado" demográfico. se o novo mecanismo matemático nos escapa com muita freqüência. Essas relações rigorosamente determinadas dão as próprias equações. onde se possa examinar e tocar quase tudo diretamente com o dedo. mas que ainda assim seguiu. Além disso. como alguns outros. à máquina de calcular. que se esboçou e desenvolveu uma ciência da informação. Ora. entre os elementos distinguidos todas as relações. das quais as matemáticas tirarão todas as conclusões e prolongamentos possíveis para chegar a um modelo que as resuma todas. As pesquisas com vistas à fabricação de uma máquina de traduzir. de modo algum. . todos os jogos possíveis. de salários.difícil via das medidas e dos longos cálculos estatísticos. tem sido quase sempre o mesmo: escolher uma unidade restrita de observação.

primeiramente. representou para o conjunto das ciências exatas" 33 ? É dizer muito. essencial às comunicações humanas. O novo trabalho matemático colocou-se sobre algumas dezenas de fonemas que se encontram. algumas vezes. Ibii. no decorrer desses últimos vinte anos. e eis a lingüística. comunicação das mensagens". em todas as línguas do mundo passou a aplicar-se o novo trabalho matemático. Estender o sent . ao fonema. indiferente por conseguinte a seu sentido. Ibii. pois. Como a história presa na armadilha do evento. o casamento no interior da estreita célula familiar. a lingüística presa na armadilha das palavras (relação das palavras com o objeto. 33. à toda realidade subjacente. de maneira direta ou indireta. mas linguagens. Aquém da palavra. do da linguagem às estruturas elementares de parentesco. ao cerimonial. a tal ponto que não há sociedades. mas é preciso dizer muito. por exemplo. é pesquisar esse caminho difícil mas salutar do desfiladeiro. ou melhor. e de associá-las. aos agrupamentos desses sons. que "não pode deixar de representar. se quisermos. comunicação dos bens e dos serviços. às estruturas infrafonêmicas. ele procurou um elemento de base correspondente. em níveis diferentes. aos mitos. não seja proibido. da troca matrimonial.. 66 . ela apegou-se ao esquema de som que é o fonema. aos sons que o acompanham. 326. essa primeira linguagem. à propósito."Em toda sociedade". escreve Claude Lévi-Strauss 32 . p. primitivas ou não. da fonologia. "a comunicação se opera pelo menos em três níveis: comunicação das mulheres. em face das ciências sociais. aos progressos sensacionais da lingüística. esse elemento. Assim sendo. uma linguagem. não teremos o direito de tratá-las como linguagens. às trocas econômicas. ao menos uma parte da lingüística que. esse 32. escapa do mundo das ciências sociais para atravessar "o desfiladeiro das ciências exatas". e é a proeza que realizou Claude Lévi-Strauss. o mesmo papel renovador que a física nuclear. mas atenta a seu lugar. evolução histórica das palavras). onde o incesto. ou mesmo como a linguagem. inconsciente da língua. Portanto. p.. linguagens diferentes. se libertou pela revolução fonológica. Admitamos que sejam. 39. Sob essa linguagem.

Le$ structures élémentaires de la parente. está à procura de níveis de profundidade. em muitas outras direções. idênticos. pp. os mitemas\ reduzirá (sem acreditar muito) a linguagem dos livros de cozinha em gustemas. nada mais didático.U. Essas relações simples e misteriosas. P. maneira de ser. É nessa etapa "micro-sociológica" (de um certo gênero.. a universal linguagem matemática? É a ambição das novas 34. quero dizer. entretanto. para traduzi-las em alfabeto Morse. o qual nosso guia apresentou na sua tese de 1949 34 sob a expressão mais simples: entenda-se o homem. Anthropologie. desta vez. O modelo obtido deve provar a validade. 47-62. Ajudado pelo matemático André Weill. cujas relações possam ser precisamente analisadas. em toques finos. depois o tio materno da criança. A partir desse elemento quadrangular e de todos os sistemas de casamentos conhecidos nesses mundos primitivos — & são numerosos — os matemáticos procurarão as combinações e soluções possíveis. O jogo pode prosseguir."átomo" de parentesco. Paris.F. 67 . à mesa.. pp. culinariamente. assinalar as soluções que este último implica. não me preocupo com os fonemas de meu discurso. seria apreendê-las sob todas as linguagens. se é que existem "gustemas". A cada vez. como o lingüista descobre as suas na ordem infrafonêmica e o físico. a última palavra da pesquisa sociológica. na ordem inframolecular. com "gustemas". não me preocupo mais. 42-43. isto é. a criança. subconscientes: ao falar. Assim.. o jogo das relações sutis e precisas me faz companhia. 35. com os mitos e. sou eu que acrescento essa reserva) que se espera perceber as leis de estrutura mais gerais. a esposa. evidentemente. do que ver Lévi-Strauss às voltas. Ver Anthropologie struclurale. Lévi-Strauss conseguiu traduzir em termos matemáticos a observação do antropólogo. salvo exceção. 1949. a estabilidade do sistema. Vê-se qual é o encaminhamento dessa pesquisa: « • ultrapassar a superfície da observação para atingir a zona dos elementos inconscientes ou pouco conscientes.. com a cozinha (essa outra linguagem): reduzirá os mitos a uma série de células elementares. À cada vez. depois reduzir essa realidade em elementos menores. ao nível do átomo" 35 .

eu o faça passear no tempo ou no espaço. Então. de viagens pacientemente renovadas. porque a navegação de nosso navio muito simples torna-se difícil. Spooner e por mim mesmo. depois fazê-lo subir ou descer. ver se flutua.pesquisa deve ser sempre conduzida. à minha vontade. por uma seqüência de retoques. para os jogos entre metais preciosos. como de um elemento de comparação. O navio construído. E esse tempo. Mas. verificação da solidez e da própria vida de uma estrutura dada. que essa é uma outra história? Reintroduzamos. Assim como é necessário ver. sua brusca ou lenta deterioração sob o efeito de pressões contraditórias. a explicação imaginada por F. ensaio de explicação da estrutura. mais significativos ainda que as estruturas profundas da vida. até seu nascimento. as águas do tempo. tais como nos foram apre- 68 . segundo o movimento concomitante de outras realidades sociais. Disse que os modelos eram de duração variável: valem o tempo que vale a realidade que eles registram. Não tenho razão em pensar que os modelos das matemáticas qualitativas. Aquém. Assim. não me parece válido antes do século XV. posso dizer. depois impossível. com uma luz nova. A não ser que. para o observador do social. é primordial. porque. e assim por diante. instrumento de controle. a duração. com o século XVIII e o impulso anormal do crédito. da realidade social ao modelo. a . depois fazê-lo remontar no tempo. cabe-nos procurar a causa. depois deste àquela. se possível. Para mim. os choques dos metais são de uma violência que a observação ulterior não havia assinalado. calcularia sua vida provável.matemáticas sociais. servindo-me dele. gostaria de recolocá-lo imediatamente na realidade. sem sorrir. alternadamente. Comparei por vezes os modelos a navios. até a próxima ruptura. rumo à jusante desta vez. O modelo é assim. O naufrágio é sempre o momento mais significativo. em busca de outras realidades capazes de se iluminar graças a ele. Após o que. o meu interesse é pô-lo na água. Se eu fabricasse um modelo a partir do atual. são seus pontos de ruptura. de comparação. com efeito.

D i g o m a t e m á t i c a s qualitativas. notemo-lo. uma articulação profunda que as comande. antes de tudo porque circulam sobre uma única das inumeráveis rotas do tempo. Mas suponhamos que nosso colega se interesse não por um mito. a melhor enraizada também na experiência social de onde tudo deve partir. aqui.• tante simples e muito difundida. ele é sensível às incidências e saltos. o procedimento que Lévi-Strauss recomenda na pesquisa das estruturas matematizáveis. as revolucionárias matemáticas qualitativas estarão elas condenadas a seguir somente as 36. ele põe em causa um fenômeno de extrema lentidão. me parece a mais inteligente. ao abrigo dos acidentes. Podemos. se abra para o mundo exterior: a proibição do incesto é uma realidade de longa duração. u m a discussão diferente estaria p o r se e m p e n h a r . a partir de seu lançamento real por volta do meio do século XVI. correspondem. longuíssima duração. pelas interpretações sucessivas do "maquiavelismo". 69 . quase eterna. das conjunturas. mas pelas imagens. segundo a estratégia dos jogos. . a mais clara. Os mitos.sentadas até aqui 36 . às intempéries múltiplas da história. porque é preciso que um pequeno grupo de homens. lentos para se desenvolver. sendo que o problema é ordenar as diversas variações e pôr à luz. sem nos preocupar em escolher a mais antiga. a Claude Lévi-Strauss. Numa palavra. do mito. nesses domínios. como que intemporal. A cada vez. colecionar as versões do mito de Édipo. eles também. a da longa. Assim. abaixo delas. mas no encontro do infinitamente pequeno e da longuíssima duração. porque sua tentativa. Todos os sistemas de parentesco se perpetuam porque não há vida humana possível além de uma certa taxa de consagüinidade. A cada instante. ou aonde tudo deve voltar. das rupturas? Voltarei. pois esse sistema não tem a solidez teatral. De resto. se prestariam mal a tais viagens. uma vez mais. para viver. a estruturas de extrema longevidade. não se situa apenas na etapa micro-sociológica. . quantas reviravoltas. até na própria estrutura do maquiavelismo. quantas rupturas. que ele pesquisa os elementos de base de uma doutrina bas. não caminha apenas sobre as estradas tranqüilas e monótonas da longa duração . Sobre os modelos clássicos e tais como os elaboram os economistas.

estradas da longuíssima duração? Nesse caso, após esse jogo cerrado, encontraríamos apenas verdades que são um pouco demais as do homem eterno. Verdades primeiras, aforismos da sabedoria das nações, dirão espíritos melancólicos. Verdades essenciais, responderemos, e que podem iluminar com uma nova luz as próprias bases de toda vida social. Mas não reside aí o conjunto do debate. Não creio, de fato, que essas tentativas — ou tentativas análogas — não possam prosseguir fora da longuíssima duração. O que se fornece às matemáticas sociais qualitativas, não são cifras, mas relações, relações que devem ser assaz rigorosamente definidas para que possamos atribuir-lhes um sinal matemático a partir do qual serão estudadas todas as possibilidades matemáticas desses sinais, sem mesmo nos preocuparmos mais com a realidade social que representam. Todo o valor das conclusões depende portanto do valor da observação inicial, da escolha que isola os' elementos essenciais da realidade observada e determina suas relações no seio dessa realidade. Concebe-se, por conseguinte, a preferência das matemáticas sociais pelos modelos qiie Claude Lévi-Strauss denomina mecânicos, isto é, estabelecidos a partir de grupos estreitos onde cada indivíduo, por assim dizer, é diretamente observável e onde uma vida social muito homogênea permite definir seguramente relações humanas, simples e concretas, pouco variáveis. Os modelos ditos estatísticos se destinam, ao contrário, às sociedades amplas e complexas onde a observação só pode ser desenvolvida graças às médias, isto é, às matemáticas tradicionais. Mas, essas médias estabelecidas, se o observador é capaz de estabelecer, na escala dos grupos e não mais dos indivíduos, essas relações de base de que falávamos e que são necessárias às elaborações das matemáticas qualitativas, nada impede por conseguinte de recorrer a elas. Ainda não houve, que eu saiba, tentativas desse gênero. Mas estamos no início das experiências. Por ora, quer se trate de psicologia, de economia, de antropologia, todas as experiências foram feitas no sentido que defini à propósito de Lévi-Strauss. Mas as matemáticas sociais qualitativas só darão provas de seu valor

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quando houverem abordado uma sociedade moderna, seus problemas emaranhados, suas diferentes velocidades de vida. Apostemos que a aventura tentará um de nossos sociólogos matemáticos; apostemos também que provocará uma revisão obrigatória dos métodos até aqui observados pelas matemáticas novas, porque estas não podem restringir-se a isso que chamarei desta vez, a duração demasiado longa; elas devem reencontrar o jogo múltiplo da vida, todos os seus movimentos, todas as suas durações, todas as suas rupturas, todas as suas variações.

4.

Tempo do historiador, tempo do

sociólogo

Ao termo de uma incursão pelo país das intemporais matemáticas sociais, eis-me de volta ao tempo, à duração. E, historiador incorrigível, espanto-me, uma vez mais, que os sociólogos tenham podido escapar dela. Mas é que seu tempo não é o nosso: é muito menos imperioso, menos concreto também, nunca está no coração de seus problemas e de suas reflexões. De fato, o historiador não sai jamais do tempo da história: o tempo cola em seu pensamento como a terra à pá do jardineiro. Ele sonha, seguramente, em lhe escapar. Com a angústia de 1940 ajudando, Gaston Roupnel 37 escreveu a esse propósito palavras que fazem sofrer todo historiador sincero. É igualmente o sentido de uma antiga reflexão de Paul Lacombe, também historiador de grande classe: "o tempo não é nada, em si, objetivamente, não é nada senão uma idéia para N nós" 38 . . . Mas se trata no caso de verdadeiras eva-, sões? Pessoalmente, no decorrer de um cativeiro bastante moroso, lutei muito para escapar à crônica desses anos difíceis (1940-1945). Recusar os eventos e o tempo dos eventos, era colocar-se à margem, ao abrigo, para olhá-los um pouco de longe, melhor julgá-los e não crer muito. Do tempo curto, passar ao tempo menos curto e ao tempo muito longo (se existe, este último, só pode ser o tempo dos sábios);
37. Histoire mente p. 169. 38. Revue et Destin, de synthèse Paris, Bernard Grasset, histarique, 1900, p. 32. 1943, passim, notada-

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depois, chegado a esse termo, deter-se, considerar tudo de novo e reconstruir, ver tudo girar à volta: a operação tem com o que tentar um historiador. Mas, essas fugas sucessivas não o repelem em definitivo, fora do tempo do mundo, do tempo da história, imperioso porque irreversível e porque corre no próprio ritmo da rotação da Terra. De fato, as durações que distinguimos são solidárias umas com as outras: não é a duração que é tanto assim criação de nosso espírito, mas as fragmentações dessa duração. Ora, esses fragmentos se reúnem ao termo de nosso trabalho. Longa duração, conjuntura, evento se encaixam sem dificuldade, pois todos se medem por uma mesma escala. Do mesmo modo, participar em espírito de um desses tempos, é participar de todos. O filósofo, atento ao aspecto subjetivo, interior à noção do tempo, não sente jamais esse peso do tempo da história, de um tempo concreto, universal, tal como o tempo da conjuntura que Ernest Labrousse descreve no início de seu livro 39 , como um viajante que, idêntico em toda parte a si mesmo, corre o mundo, impõe os mesmos constrangimentos, qualquer que seja o país onde desembarca, o regime político ou a ordem social que aborda. . Para o historiador, tudo começa, tudo acaba pelo tempo, um tempo matemático e demiúrgico, do qual séria fácil sorrir, tempo como que exterior aos homens, "exógeno", diriam os economistas, que os impele, os constrange, arrebata seus tempos particulares de cores diversas: sim, o tempo imperioso do mundo. Os sociólogos, é claro, não aceitam essa noção muito simples. Estão muito mais próximos da Dialectique de la durée, tal como a apresenta Gaston Bachelard 40 . O tempo social é simplésmente uma dimensão particular de determinada realidade social que contemplo. Interior a essa realidade como pode sê-lo a determinado indivíduo, é um dos sinais •— entre outros — de que ela se reveste, uma das propriedades que a marcam como ser particular. O sociólogo não é incomodado por esse tempo complacente que ele
veille 39. E R N E S T L A B R O U S S E , La crise de l'économie française de la Révolution française, Paris, P . U . F . , 1944, I n t r o d u ç ã o . 40. Paris, P . U . F . , 2* ed., 1950. à la

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pode, à vontade, cortar, fechar, recolocar em movimento. O tempo da história prestar-se-ia menos, repito-o, ao duplo jogo ágil da sincronia e da diacronia: quase não permite imaginar a vida como um mecanismo cujo movimento podemos parar para dele apresentar, à vontade, uma imagem imóvel. Esse desacordo é mais profundo do que parece: o tempo dos sociólogos não pode ser o nosso; repugna à estrutura profunda de nossa profissão. Nosso tempo é medida, como o dos economistas. Quando um sociólogo nos diz que uma estrutura não cessa de se v destruir senão para se reconstruir, aceitamos de bom | grado a explicação que a observação histórica confirv ma de resto. Mas quiséramos, no eixo de nossas exigências habituais, saber a duração precisa desses movimentos, positivos ou negativos. Os ciclos econômicos, fluxo e refluxo da vida material, se medem. Uma crise estrutural social deve, igualmente, referir-se no tempo, através do tempo, situar-se exatamente nela mesma e mais ainda em relação aos movimentos das estruturas concomitantes. O que interessa apaixona-í damente um historiador, é o entrecruzamento desses! movimentos, sua interação e seus pontos de ruptura; coisas todas que só podem se registrar em relação ao tempo uniforme dos historiadores, medida geral de todos esses fenômenos, e não ao tempo social multi" forme, medida particular a cada um desses fenômenos. Essas reflexões ao contrário, um historiador as formula, com ou sem razão, mesmo quando penetra na sociologia acolhedora, quase fraternal de Georges Gurvitch. Um filósofo 41 não o definia, ontem, como aquele que "encurrala a sociologia na história"? Ora, mesmo nele, o historiador não reconhece nem suas durações, nem suas temporalidades. O vasto edifício social (diremos o modelo?) de Georges Gurvitch se organiza segundo cinco arquiteturas essenciais 42 : os patamares em profundidade, as sociabilidades, os grupos sociais, as sociedades globais — os tempos, esse último andaime, o das temporalidades, o mais novo,
41. G I L L E S G R A N G E R , Événement et Structure dans les Sciences de l'homme, Cahiers de l ' I n s t i t u t de Science É c o n o m i q u e Appliquée, Série M , n? 1, pp. 41-42. 42. Ver m e u artigo, sem dúvida, m u i t o polêmico, «Georges Gurvitch et la discontinuité d u social», Annales E.S.C., 1953, 3, p p . 347-361.

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sendo também o último construído e como, que sobreposto ao conjunto. As temporalidades de_Georges Gurvitch são múltiplas. Ele distingue toda uma série: o tempo de longa duração e em ritmo mais lento, o tempo ilusão de óptica ou o tempo surpresa, o tempo de pulsação irregular, o tempo cíclico, o tempo em atraso sobre si próprio e o tempo de alternância entre atraso e avanço, o tempo em avanço sobre si próprio, o tempo explosivo 43 . . . Como o historiador se deixaria convencer? Com essa gama de cores, ser-lhe-ia impossível reconstituir a luz branca unitária, que lhe é indispensável. Ele percebe também rapidamente, que esse tempo camaleão assinala sem mais, com um sinal suplementar, com um toque de cor, as categorias anteriormente distinguidas. Na cidade de nosso amigo, o tempo, último a chegar, se aloja muito naturalmente entre os outros; assume a dimensão desses domicílios e de suas exigências, segundo os "patamares", as sociabilidades, os grupos, as sociedades globais. É uma maneira diferente de reescrever, sem modificá-las, as mesmas equações. Cada realidade social secreta seu tempo ou suas escalas de tempo, como vulgares conchas. Mas o que nós, historiadores, ganhamos com isso? A imensa arquitetura dessa cidade ideal permanece imóvel. A história está ausente dela. O tempo do mundo, o tempo histórico aí se encontra, mas como o vento em Éolo, encerrado numa pele de bode. Não é à história que os sociólogos, final e inconscientemente, querem mal, mas ao tempo da história, — essa realidade que permanece violenta, mesmo se se procura arranjá-la, diversificá-la. Essa coerção à qual o historiador nunca escapa, os sociólogos escapam quase sempre: evadem-se ou no instante, sempre atual, como que suspenso acima do tempo, ou nos fenomenos de repetição que não são de nenhuma idade; portanto, por uma marcha oposta do espírito, que os acantona seja no factual mais estrito, seja na duração mais longa. Essa evasão é lícita? Aí reside o verdadeiro debate entre historiadores e sociólogos, inclusive 1 entre historiadores de opiniões diferentes!
43. humaine. Cf. G E O R G E S G U R V I T C H , Déterminismes Paris, P . U . F . , 1955, pp. 38-40 e passim. sociaux et Liberte

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no marxismo. querendo protestar contra o que. reconduzam a esse eixo suas constatações ou suas pesquisas? Para os historiadores. Les Temps mente. Sartre protesta contra a rigidez. ou Tintoretto como um pequeno-burguês. seu leitmotiv exposto com insistência. instintivamente. quando se tiver "situado" Flaubert como um burguês. 1957. a insuficiência do modelo. nesse leque. muito amparado. (em estes ou aqueles matizes a menos). Estas têm a cumplicidade dos sacrossantos programas da Universidade. a dedicar uma atenção privilegiada à duração. terá a aquiescência dos sociólogos e de nossos outros vizinhos. Mas a cada vez. em nome do particular e do indiv i d u ^ Protestarei como ele. Alcançá-las-ia ainda melhor se a ampulheta fosse inclinada nos dois sentidos — do evento para a estrutura. a todos os movimentos em que ela pode decompor-se. não contra o modelo. seguir-se-ia uma inversão do vapor: é para a história curta que vão. desejar que a um dado momento de seus raciocínios. reforça o ponto de vista deles quando. Valéry.P A U L T i n t o r e t . segundo o hábito dos historiadores. o esquematismo. F r a g m e n t d ' u n livre nov. É pedir muito. em recentes artigos 44 . a linha mais útil para uma observação e uma reflexão comuns às ciências sociais. finalmente. Em todo caso. SARTRE. a longa duração nos parece. Estou efetivamente de acordo. Jean-Paul Sartre ao contexto estrutural e profundo. por natureza. Essa pesquisa vai da superfície às profundezas da história e atinge minhas próprias preocupações. é ao mesmo tempo demasiado simples e demasiado pesado. depois das estruturas e dos modelos para o evento. J E A N . à guisa de conclusão. a nossos vizinhos. mas contra a utilização que dele se faz. não é útil repetir. ele o faz em nome do biográfico. suas preferências.Não sei se esse artigo muito claro. Se a história está destinada. o estudo do caso concreto — Flaubert. e a r t i g o à p a r a î t r e sur le citado precedente- 75 . Duvido. O marxismo é uma multidão de modelos. que muitos se julgaram autorizados a fazer. que não serão todos da minha opinião. Nem tudo está dito. O gênio de^Marx^ o segredo de 44. ou a política exterior da Gironda — reconduz. Modernes. Jean-Paul Sartre. da realidade abundante do factual.

Imensos cálculos nos esperam nesse domínio clássico.S. no necessário remontar.seu poder prolongado. as profundezas do passado chinês 45 . por outros modelos.. Ela não poderia reencontrar força e juventude senão na longa duração . Eses modelos foram congelados na sua simplicidade ao lhes ser dado valor de lei. de serem definidas por outras regras e. mas matizada.A. mas há equipes de calculadores e máquinas de calcular. «Zur Finan-vund Agrargeschichte d e r M i n g Dynastie 1368-1643». também. . aplicável em todos os lugares. O século XVIII europeu. O T T O B E R K E L B A C H . mas já o XVII. Ao passo que. Sinica. Existèm outras. «Population Statistics of M i n g C h i n a » . elas próprias." e a partir da longa duração histórica. limitou-se o poder criador da mais poderosa análise social do último século. 76 . reapareceria sem cessar. transportando-os sobre os rios mutantes do tempo. automática. 1953. V A N D E R S P R E N K E L . a estatística simplifica para melhor conhecer. a partir desses cálculos e pesquisas. bem ou mal. a todas as sociedades. a um passado cada dia mais recuado.S. portanto. Estatísticas de uma dimensão inaudita nos abrem por sua linguagem universal. presa ao modelo pelo modelo? O que eu quisera sublinhar também para concluir é que a longa duração é apenas uma das possibilidades de linguagem comum em vista de uma confrontação das ciências sociais. sua trama seria posta em evidência porque é sólida e bem tecida. 45. 1932. deve-se ao fato de que foi o primeiro a fabricar verdadeiros ^modelos sociais. Acrescentarei eu que o marxismo atual me parece a própria imagem do perigo que espreita toda ciência social apaixonada pelo modelo no estado puro. . B. alternadamente esfumaçada ou avivada pela presença de outras estruturas suscetíveis. Assim. e mais ainda o XVI. no seu conjunto. de explicação prévia. As novas me seduzem.O. Assinalei. Creio na utilidade das longas estatísticas. Sem dúvida. M A R I A N N E R I E G E R . está semeado por nossos canteiros de obra. dia a dia mais aperfeiçoadas. as tentativas das novas matemáticas sociais. cujo triunfo é patente em economia — talvez a mais avançada das ciências do homem — não merecem esta ou aquela reflexão desabusada. mas as antigas. Mas toda ciência vai assim do complicado ao simples.

em lugar de pensar tempo e espaço. p. P. V I D A L D E LA B L A C H E . sobre o que é ou não é ciência social. . é uma maneira de não dizer geografia e. longa duração . modelos. redução ao espaço. Digamos a geografia. . para falar a verdade: a redução necessária de toda realidade social ao espaço que ela ocupa. se existem linhas. a ecologia. o que é ou não é estrutura . ao mesmo tempo. 1903. 77 . para todas as categorias do social. cujo espírito e as lições não nos consolaríamos em ver traídos. as linhas. É nos problemas de conjunto das ciências do homem que. É preciso que todas as ciências sociais. desta vez. através de nossas pesquisas. uma última família de modelos. Que procurem antes traçar. Os modelos espaciais são esses mapas onde a realidade social se projeta e parcialmente se explica. para todos os movimentos da duração e sobretudo da longa duração. . por conseguinte. provisoriamente^ cessassem de tanto discutir sobre suas fronteiras recíprocas. pensaria espaço e realidade social. mais ainda. Revue de synlhèse historique. e é pena. . bem como os temas que permitiriam atingir uma primeira ^ convergência. A geografia se considera muito freqüentemente como um mundo em si. chamo-as pessoalmente: Vpiatematização. como Vidal de La Blache o pedia já em 1903. dar-se-ia o passo na pesquisa geográfica. para o sociólogo. que não se esqueça uma última linguagem.Entretanto. 239. Pensei muitas vezes que uma das superioridades francesas nas ciências sociais era essa escola geográfica de Vidal de La Blache. por seu lado. . Ecologia: a palavra. sem nos deter muito nessas diferenças de vocabulário. na verdade. Essas linhas. dêem lugar a uma "concepção (cada vez) mais geográfica da humanidade" 46 . Mas a ciência social os ignora de maneira espantosa. sem que ele o confesse sempre. de esquivar os problemas que o espaço coloca e. que ele revela à observação atenta. Mas estaria curioso para conhecer aquelas que outros 46. que orientariam uma pesquisa coletiva. Ela teria necessidade de um Vidal de La Blache que. Na prática — pois esse artigo tem um fim prático — desejaria que as ciências sociais.

).C. no que não concerne à sua especialidade. não foi por acaso colocado sob a rubrica Débats et Combats4"1. R u b r i c a b e m conhecida dos Annales (E.S. Pois esse artigo. Essas páginas são um chamado à discussão. 78 .especialistas proporiam. se expõe a riscos evidentes. 47. Pretende por não resolver problemas em que infelizmente cada um de nós. é necessário dizê-lo.

1. e se apresentam como outras tantas pátrias.4. como outras tantas carreiras. afirmada^ para dizer tudo. o que é menos justificável. 1960. Elas são desde logo elas mesmas. estrutural. mas pela diversidade entranhada. estreitamente. 17-22. Revue de l.'enseignement superieur. pp. linguagens e também. 79 . difícil de formular e de promover. antiga. com suas regras. as çiências humanas nos impressionam não pela unidade. n° 1. UNIDADE E DIVERSIDADE DAS CIÊNCIAS DO HOMEM 1 À primeira vista — ao menos se se participa por pouco que seja em seu processamento — à primeira vista.

de um observatório ao outro. como os cubos de um quebra-cabeças infantil que reclamam uma imagem de conjunto e não valem. que as ciências Humanas se interessem todas por uma mesma e única paisagem: a das ações passadas. Mas suas próprias explicações não cessam de arrastá-lo para muito longe. as ciências do homem seriam outros tantos observatórios. um fato é evidente: cada ciência social é imperialista. além disso. para ser breve. À cada vez. Então suponhamos. e mesmo explicar somente por seus critérios. O observador de boa fé e. o que é mais. o etnógrafo são freqüentemente mais ingênuos ainda. por um jogo insidioso. ao menos. para abreviar-lhe as dificuldades e ocultar-lhe as fraquezas. eficazes. ao mesmo tempo. senão em função dessa imagem preestabelecida. os fragmentos de paisagem que cada uma recorta não são peças de armar. o geógrafo. Enfim. livre de qualquer 80 . E cada setor assim reconhecido. O sociólogo. Tem seus testes. ele reconstituiu o quebra-cabeças à sua maneira. seus esboços perspectivos difirentes. com suas vistas particulares. mas ela substitui por si mesma toda explicação. o homem aparece diferente. as constrangem. Em face desse panorama. o psicólogo. não se chamam um ao outro. mesmo se o observador é prudente. as conduzem. O demógrafo que pretende controlar tudo. suas crônicas. não age de outra maneira. irredutíveis uns aos outros. é regularmente promovido à dignidade de paisagem de conjunto.seus encerramentos doutos. presentes e futuras do homem. e geralmente ele o é. para apresentar o homem que ele apreende como o homem integral ou essencial. suas cores. o historiador. tende a apresentar suas conclusões como uma visão global do homem. Certamente. Nada mais anódino e aparentemente mais lícito. ou. habituais: estes lhe bastarão para compreender o homem em seu todo. Suponhamos que uma tal paisagem. mas. O economista distingue as estruturas econômicas e supõe as estruturas não econômicas que as cercam. mesmo se ela se proibe de sê-lo. que prosseguia mesmo a despeito dele mesmo. Por infelicidade. seus lugares-comuns. provavelmente sem experiência prévia. o que evidentemente seria preciso demonstrar. uma imagem não é um raciocínio. seja coerente.

. animá-los com uma mesma vida. que cada um fale sua língua materna e discuta o que conhece: sua loja. deveriam. devido ao fato mesmo de seu progresso. hoje. ou então é uma paisagem recriada. seria renunciar a uma imensa experiência. os conhecimentos adquiridos. dirão os sábios. mais facilmente se chocam com uma realidade hostil. à falta de imagem melhor. por seus próprios meios. seria capaz. que seja assim. Mas as ciências humanas. nessa noite. Quanto mais pretendem a eficácia. condenar-se à refazer tudo por si mesmo./ Õ economista permanecerá economista. Essas ciências. valha o que valer. como a própria paisagem das ciências da natureza. de olhos inexperientes ir ela própria lançar uma olhadela sobre a paisagem! Acabar-se-ia achando uma razão. se fossem perfeitas. mas somente na sua profissão. o geógrafo geógrafo. . que relações podem existir entre as vistas que cada ciência lhe oferece. até mesmo de sua razão de ser. além disso. Ora. seria preciso essa destreza necessária. verificam tanto mais suas fraquezas. Se ainda fosse possível à essa ingênua testemunha. Além disso. e uma linguagem científica? Não são tanto os conhecimentos à acumular que se oporiam à empresa. \ Talvez. freqüentemente ao preço de uma longa aprendizagem. essa vivacidade que cada um dentre nós. sem dúvida. adquiriu. quem caminharia sozinho. ou as teorias — essas super-explicações — que se lhe impõem. Cada um de seus fracassos — no domínio prático das aplicações — torna-se então um instrumento de verificação de seu valor. este observador se perguntará infalivelmente. elevá-los com força. As 81 . à medida que gradualmente estendem e aperfeiçoam seu próprio controle. para ultrapassá-los. de retomar. sua profissão . etc..engajamento. o sociólogo sociólogo. A realidade no estado bruto não é senão uma massa de observações por organizar. impor-lhes uma só linguagem. A vida é muito curta para per-: mitir a um de nós a aquisição de múltiplas maestrias. se reunir automaticamente. mas antes sua utilização. Melhor. entre as explicações com as quais o pressionam. Mas a "realidade" das ciências do homem não é essa paisagem de que falávamos. quem. deixar os observatórios das ciências do homem..

regras tendenciais que elas distinguem, seus cálculos, as previsões que acreditam poder tirar daí, todas essas explicações deveriam juntar-se umas às outras para tornar claros, na massa enorme dos fatos humanos, as mesmas linhas essenciais, os mesmos movimentos profundos, as mesmas tendências. Ora, sabemos que não é nada assim, e que a sociedade que nos cerca permanece mal conhecida, confusa, na grande maioria de seus gestos, imprevisível. Nada prova melhor essa espécie de irredutibilidade atual das ciências do homem uma à outra, que os diálogos tentados, aqui ou ali, por cima das fronteiras. Creio que a história se presta de bom grado a essas discussões e a esses encontros, uma certa história, bem entendido, (não a tradicional que domina nosso ensino e o dominará muito tempo ainda, em razão de uma inércia contra a qual a gente pode lançar maldições, mas que tem a vida dura, devido ao apôio dos sábios idosos e das instituições que se abrem diante de nós, quando não mais somos revolucionários perigosos, mas, aburguesados — porque há uma terrível burguesia do espírito). Sim, a história se presta a esses diálogos. Ela é pouco estruturada, aberta às ciências vizinhas. Mas os diálogos se mostram freqüentemente bem inúteis. Que sociólogo não dirá, acerca da história, cem contra-verdades? Se tem diante de si Lucien Febvre, interpela-o como se se tratasse de Charles Seignobos. É preciso que a história seja o que ela era ontem, essa pequena ciência da contingência, da narrativa particularizada, do tempo reconstruído e, por todas essas razões e algumas outras, uma ciências vizinhas. Mas os diálogos se mostram fretende ser o estudo do presente pelo estudo do passado, especulação sobre a duração, ou melhor, sobre as diversas formas da duração, o sociólogo e o filósofo sorriem, dão de ombros. É negligenciar, e sem apelo, as tendências da história atual e os importantes antecedentes dessas tendências, esquecer quantos historiadores, há vinte ou trinta anos, romperam com uma erudição fácil e de curto alcance. Se uma tese na Sorbonne (a de Alphonse Dupront), se intitula Le mythe de Croisade. Essai de sociologie religieuse, o fato indica do mesmo modo, por si só, que essa pes-

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quisa dos psiquismos sociais, das realidades subjacentes, dos "patamares em profundidade", numa palavra dessa história que alguns chamam "inconsciente", não é üm simples programa teórico. E poderíamos dar de outras realizações e inovações, inumeráveis provas! Contudo, não nos lamentemos excessivamente; o problema não é, uma vez mais, definir a história, face aos que não querem compreendê-la segundo nosso gosto, nem redigir contra eles, um interminável livro de reclamações. Aliás, os erros são partilhados. A "reciprocidade das perspectivas" é evidente. Também nós, historiadores, vemos à nossa maneira, que não é a boa, e com um atraso evidente, essas ciências nossas vizinhas. E assim, de uma casa à outra, a incompreensão se afirma. Na verdade, um conhecimento eficaz dessas pesquisas diversas, exigiria uma longa familiaridade, uma participação ativa, abandono de preconceitos e hábitos. É pedir muito. Não bastaria, com efeito, para obter êxito, nisso, inserir-se por um instante em tais ou tais pesquisas de vanguarda ou de sociologia ou de economia política — o que, em suma, é bastante fácil — mas antes ver como essas pesquisas se ligam a um conjunto e indicam-lhe os novos movimentos, o que não está ao alcance de todo mundo. Pois, não basta ler a tese de Alphonse Dupront, importa também ligá-la a Lucien Febvre, a Mare Bloch, ao Abade Bremond e a alguns outros. Pois, não basta seguir o pensamento autoritário de François Perroux, mas tão logo, situá-lo exatamente, reconhecer de onde vem e por que correntes de aquiescências e de negações ele se integra, no conjunto do pensamento econômico, sempre em movimento. Eu protestava ultimamente, com toda boa fé, contra as investigações sociais sobre a realidade viva, prisioneiras de um presente irreal, irreal porque muito breve — protestava também, na mesma ocasião, contra uma economia política insuficientemente atenta à "longa duração", porque demasiado vinculada a tarefas governamentais limitadas, elas também, à duvidosa realidade presente 2 . Ora, a sociologia sobre a realidade

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viva não está, replicam-me, com razão, à proa das pesquisas sociais e, por sua vez, W. Rostow e W. Kula me afirma que a economia, nas suas pesquisas mais recentes e mais válidas, tenta integrar nela os problemas do tempo longo e mesmo que ela se alimenta disso. Assim, a dificuldade é geral. Se não se tomar cuidado, nesses colóquios por cima de nossas cercas, com omissões em simplificações, alguns atrasos ajudando, não estaremos discutindo, malgrado as aparências, entre contemporâneos. Nossas conversações e nossas discussões, e mesmo nossos mui problemáticos entendimentos, hão de atrasar-se em relação ao tempo do espírito. É preciso acertar nossos relógios, ou então se resignar a inúteis, a inverossímeis qüiproquós. É jogar na farsa. Não creio, além disso, que o mercado comum das ciências do homem possa formar-se se alguma vez ele se constituir, por uma série de acordos bilaterais, por uniões aduaneiras parciais cujo círculo em seguida se estenderia pouco a pouco. Duas ciências próximas se repelem, como que carregadas da mesma eletricidade. A união "universitária" da geografia e da história, que ontem fizera seu duplo esplendor, terminou por um divórcio necessário. Discutir com um historiador ou com um geógrafo, mas isto é, para um economista ou um sociólogo, sentir-se mais economista ou sociólogo que na véspera. Na verdade, essas uniões limitadas exigem demasiado dos cônjuges. A sabedoria consistiria em que abaixássemos todos juntos nossos tradicionais direitos de aduana. A circulação das idéias e das técnicas ver-se-ia favorecida e, passando de uma à outra das ciências do homem, idéias e técnicas se modificariam sem dúvida, mas criariam, esboçariam ao . menos, uma linguagem comum. Um grande passo seria dado, se certas palavras, de um de nossos pequenos países ao outro, tivessem mais ou menos o mesmo sentido ou a mesma ressonância. A história tem a vantagem e a imperfeição de empregar a linguagem corrente — entenda-se, a linguagem literária. Henri Pirenne recomendou-lhe, freqüentemente, que conservasse esse privilégio. Por esse fato, nossa disciplina
2. Cf. m e u (.Annales, E.S.C., 1959 e 1960). a r t i g o : «Histoire et sciences sociales: la iongue durée» 1958, e as respostas dos Srs. R O S T O W e K U L A , i b i d . ,

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é a mais literária, a mais legível das ciências do homem, a mais aberta ao grande público. Mas uma pesquisa científica comum exige um certo vocabulário "de base". Chegaríamos a isso deixando mais que hoje, nossas palavras, nossas fórmulas e mesmo nossos slogans, passar de uma disciplina à outra. Assim, Claude Lévi-Strauss se esforça em mostrar o que daria, nas ciências do homem, a intrusão das matemáticas sociais (ou qualitativas), intrusão ao mesmo tempo de uma linguagem, de um espírito, de técnicas. Amanhã, sem dúvida, será preciso distinguir em novas visões de conjunto, o que há e o que não há de matematizável nas ciências do homem, e nada nos diz que não seremos então obrigados a optar entre essas duas vias. Mas, tomemos um exemplo menos importante e, para dizer tudo, menos dramático. Na economia política hoje, o essencial é, sem dúvida, a "modelização", a fábrica de "modelos". Do presente demasiado complexo, o importante é destacar as linhas simples de relações assaz constantes de estruturas. No começo, as precauções são tão numerosas que o modelo, não obstante a simplificação, mergulha no real, resume suas articulações, ultrapassa, mas com justiça, suas contingências. Assim fizeram Léontieff e seus imitadores. A partir daí, nada mais lícito do que raciocinar no quadro do modelo assim construído e segundo os meios do puro cálculo. Sob seu nome bastante novo, o "modelo" não é aliás senão uma forma tangível dos meios mais clássicos do raciocínio. Nós todos procedemos por meio de "modelo", sem sabê-lo ao certo, tal como o Sr. Jourdain falava em prosa. De fato, o modelo se encontra em todas as ciências do homem. Um mapa geográfico é um modelo. As grades dos psicanalistas, que o jovem crítico literário introduz de bom grado sob as obras dos grandes mestres de nossa literatura (veja-se o pequeno trabalho exato e pérfido de Roland Barthes sobre Michelet), essas grades são modelos. A sociologia múltipla de Georges Gurvitch é um amontoado de modelos. A história também tem seus modelos; como iria fechar-lhes suas portas? Lia ultimamente um admirável artigo de nosso colega de Nuremberg, Hermann Kellenbenz, sobre a história

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dos "empresários" na Alemanha do Sul, entre o século XV e o século XVIII — artigo desenvolvido segundo a própria linha do Centro de Estudos das Empresas que anima, em Harvard, a generosa e forte personalidade de Arthur Cole. Na verdade, esse artigo e a obra múltipla de Arthur Cole são a retomada, pelos historiadores, do "modelo" de Schumpeter. Para este último, o "empresário", no sentido nobre da palavra, é o "artesão, o elemento criador dos progressos econômicos, das novas combinações entre capital, terra e trabalho". E ele o foi assim através de todo o tempo da história. "A definição de Schumpeter", nota H. Kellenbenz, "é, antes de tudo, um modelo, um tipo ideal". Ora, o historiador às voltas com um modelo se compraz sempre em reconduzi-lo às contingências, em fazê-lo flutuar, como um navio, sobre as águas particulares do tempo. Os empresários na Alemanha meridional, do século XV ao XVIII, serão portanto, de natureza, de tipos diferentes, como seria fácil prevê-lo. Mas, nesse jogo, o historiador destrói, sem fim, os benefícios da "modelização", desmonta o navio. Não retornaria à regra a não ser que se reconstruísse o navio, ou um outro navio, ou se, dessa vez na linha da história, trouxesse os diferentes "modelos" identificados nas suas singularidades, explicando-os em seguida, todos ao mesmo tempo, por sua própria sucessão. A "modelização" tiraria assim nossa disciplina de seu gosto pelo particular que não poderia bastar. O próprio movimento da história é uma vasta explicação. Estaríamos tentados a dizê-lo se, por exemplo, jamais se iniciasse uma discussão acerca das grades dos psicanalistas, entre críticos literários, historiadores e sociólogos: essas grades, valem ou não para todas as épocas? E sua evolução, se evolução houver, não é, tanto quanto a própria grade, a linha principal da pesquisa? Assistia ultimamente, na Faculdade de Letras de Lyon, a uma defesa de tese sobre A Escola e a Educação na Espanha, de 1874 à 1902portanto sobre essa imensa guerra de religião em torno da escola que
3. Tese de Yvonne T u r i n , Imprensas Universitárias da F r a n ç a , 453 pp. in-8°. Paris,

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precisa Aleksander Gieysztor. sempre nos colocando no quadro total das ciências do homem. ou aos diversos modelos. o orçamento. é possível fazer mais. Ora. organizar movimentos de conjunto. O princípio é o de reunir várias ciências humanas para estudar e definir as grandes áreas culturais do mundo 87 . à Espanha entre 1874 e 1902. aqui ou ali. subtraí-los à simplificação científica.. quando muito. a demonstração está feita: o modelo viaja seguramente através de todas as ciências do homem e de maneira útil. Semelhantes viagens podem multiplicar-se. cronológico. Mas são meios menores de aproximação e de concordância. restituí-los a uma vida diversa e particular. dois ou mesmo três princípios da classificação dos fenômenos sociais: geográfico. armado desse modelo. mas sejam capazes de modificar profundamente as problemáticas e os comportamentos. que vantagem se se ousasse retornar ao modelo. sobretudo. para discernir-lhes a evolução. Suponham a coisa realizada e os elementos bem no lugar: aqui. historiadores.. alguns fios atados. desse conflito múltiplo. lá as Igrejas. se evolução houver! Detenhamo-nos. "Entende-se sob essa denominação. Nossos colegas poloneses designam esses movimentos combinados pelo cômodo nome de "estudos complexos". ali as paixões antagonistas vivas e cegas. A Espanha oferece um caso. entre vários outros. o trabalho de diversos especialistas sobre um tema limitado por um. certamente ainda não fechada.o século XIX nos legou. confluências que não sacudam tudo. Se voltássemos então. Mas em seguida. desmontar seus mecanismos para verificá-los e. religioso na sua essência. seria particularizar o modelo." São assim "estudos complexos" como os area studies de nossos colegas americanos. a necessidade de uma instrução de massa. o Estado. complicá-los à vontade. nosso primeiro cuidado. Nada se oporia a uma modelização dessa família de debates. ou segundo a própria natureza do tema. mesmo nessas águas que a priori não lhe parecem favoráveis. Toda essa construção teórica nos serviria para melhor compreender a unidade de uma longa crise.

de um concílio ecumênico. visto que seu êxito — ao menos na tarefa de unificação das ciências sociais — se mostra muito discutível. mas igualmente. ou as sondagens de opinião. não ouso dizer Europa. as mais antigas e as mais novas. especialmente esses monstros: Rússia. obras comuns. que essas tentativas podem um dia deslocar as fronteiras. indicar algumas regras importantes: de antemão. Gieysztor. . vêem-se desenhados os eixos de reunião e de reagrupamento. ao biológico. como Lazarsfeld. e sobretudo. essas reduções ao espaço. após exame minucioso. Ora. Depois reconhecer que. ao tempo. também nós. as problemáticas.atual. elas dominam os debates. pois. as mais clássicas. um precedente de importância: as Semaines de synthèse de Henri Berr. sustento que para a construção de uma unidade todas as pesquisas possuem seu interesse. Precisamos. em toda parte. organizaram. China. Enfim. se são conduzidas por um homem de espírito. portanto. Américas. em primeiro lugar. porque os trabalhos que souberam inspirar e levar a bom termo são consideráveis — esse malo- 88 . E essas tentativas não são sequer inteiramente novas. retomadas. encontros. devem ser antecipadamente alinhadas e. ao menos. no plano normativo. E isso para todas as ciências humanas sem exceção. os centros de gravidade. As últimas se designam antes sob o nome de ciências sociais: elas têm a pretensão de ser quatro ou cinco "grandes" de nosso mundo. como as estacas não se podendo plantar ao acaso. são todas as ciências do homem que é preciso colocar em jogo. de que falava A. ou a biologia de Henri Laugier. uma vez mais autêntico precursor de tantos movimentos atuais. pouco importa de resto! Essas experiências exigem ser prosseguidas e. no mesmo lance. Seria preciso. ao número. coligações. um certo abandono do espírito "nacionalista". é possível desde agora. tanto a epigrafia grega como a filosofia. O malogro dos area studies —• entenda-se. Recentes ou antigas. Vejo-lhes. Sem dúvida. É preciso efetivamente admitir. índia. No vasto mundo das ciências humanas. já se combinaram. os pastos quadrados tradicionais.

para compreender a China ou a Índia. mais ou menos em cada disciplina.N.R. A França não possui nem os melhores economistas. Precipitemos o movimento que. o indispensável enquadramento de todas as "ciências" clássicas do homem. desde que isso seja possível e intelectualmente aproveitável. Nossos colegas de Harvard. da Columbia. indiscutíveis: dispomos. cujo arrebatamento e a ambição foram totalmente consagrados à pesquisa. a Maison des Sciences de l'Homme reagrupará num só conjunto todos os centros e laboratórios válidos. Amanhã. nesse vasto domínio. ao menos segundo meu conhecimento. enquanto que temos. De outra parte. queimemos as etapas. da corajosa equipe de Seattle talvez não alargaram bastante o círculo de suas convocações. em Paris. Arriscando-se na estreita atualidade. o mais precioso de todos. Ora. em toda parte do mundo. 89 . senão raramente. são. economistas (no sentido amplo). jamais. Sociólogos. lingüistas são capazes. sem o que nada de decisivo é possível. escapar essa dupla ou tripla oportunidade. de mobilizar o conjunto do humano científico? Não o penso. Todas essas forças jovens. nem os melhores historiadores. Amanhã. psicólogos. nem os melhores sociólogos do mundo. todos esses meios novos estão ao alcance da mão. sem dúvida único no mundo. É a única coisa que seria verdadeiramente impossível improvisar. de homens jovens. é a única que pode ser eficaz. Aproveito a audiência que oferece a Revue de l'enseignement supérieur para repeti-la de novo. por si sós. ao menos nesse momento. Já sustentei muitas vezes essa tese. se necessário. os frutos da política do C. apelo a historiadores. pois. já seria muito tarde. se desenha rumo à unidade e. repito-o. Mas possuímos um dos melhores conjuntos de pesquisadores. ao menos em um ponto. não fizeram.S. essa mobilização geral. a geógrafos. Não deixemos.gro nos deveria servir de lição.

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com bastante freqüência. 3» ad. mesmo se não deve jamais atingi-la plenamente. HISTÓRIA E SOCIOLOGIA 1 Algumas observações prévias situarão. 516 e 466 p p . Paris. digamos a rigor uma ciência.5. P . mas 1. F . 1958-1960. . essa ciência global que Émile Durkheim e François Simiand queriam fazer dela. U . C a p í t u l o IV da I n t r o d u ç ã o do Traité de Sociologie. quase sempre. o presente capítulo. publicado sob a direção de Georges Gurvitch. Entendo aqui por sociologia. no início deste século — essa ciência que ela não é ainda.. espero. 2 vol. 1» ed. 1967-1968. 91 . in-8?.. Entendo por história. mas em direção à qual não cessará de tender. uma pesquisa cientificamente conduzida.

crê falar com a história. Méthode Historique et Science Sociale. É a Paul Lacombe que ele deveria dirigir-se para ter um adversário à sua altura. a polêmica não é possível a não ser que os adversários se prestam a ela. a concordar com ele? Ora. Étude critique d'après les ouvrages récents de M. tem em face dele o mais brilhante historiador de sua geração. como os filósofos. histórias. consintam "em se bater de sabre" 3 . discutíveis e discutidas. Quando François Simiand polemiza contra Charles Seignobos. mas. Há falsas polêmicas. de historizante2. em subtítulo. aquela que foi batizada. p. mas demasiado brilhante. uma soma de curiosidades. De l'histoire considere comme science. de uma vez por todas. Paris. empenhada também. soma à qual amanhã outras curiosidades. demasiado hábil advogado. leva. que não se espere encontrar aqui uma resposta. entretanto. para falar como um historiador 2. ele se opõe a Henri Hauser. n» 2. X Ê N O P O L .complexa: não há uma história. Seignobos. 1894. Revue de synthèse historique. Em todo caso. ofícios. Lacombe et de M. enquanto fala com uma certa história. de abordar o passado quantas atitudes em face do presente? Pode mesmo a história se considerar como um certo estudo do presente? Isso dito. 1900. retomada incessantemente e jamais a mesma. Mas não se arriscava. O artigo de F R A N Ç O I S S I M I A N D . certamente. de pontos de vista. A célebre controvérsia e. enterrado em êxitos precoces e nas regras antigas de sua profissão. de ver na história uma disciplina com regras e métodos perfeitamente e. é quase sempre um falso diálogo como esse do sociólogo e do historiador. 3. com efeito. com Henri Berr. outros pontos de vista. Quando. 1-22 e pp. justamente. na mesma época. entre esses vizinhos que _ não podem nem se ignorar. quando se definem. a propósito do livro de P A U L LACOMBE. Revue de synthèse historique. 1903. definidos — dizendo que há tantas maneiras. Mas a obra de Paul Lacombe praticamente não é colocada em questão. assim como há falsos problemas. — que tem a tendência. nem se conhecer perfeitamente e que. ou uma seqüência à polêmica. nas suas disputas. outras possibilidades se acrescentarão ainda. o fazem unilateralmente. um ofício de historiador. 135. 129-157. 92 . ou até uma tentativa de resposta às habituais interrogações sobre as relações entre história e sociologia. pp. de possibilidades. Far-me-ia melhor compreender por um sociólogo.

entredevorar-se com ela. precisamente.C. por causa também do movimento geral das ciências do homem. 93 . mas nas suas definições mais recentes. pp. em 1900. . p. sob o peso de conhecimentos. Paul Lacombe. * o mais recente em data nesse gênero — pelo menos. Continuité et Discontinuité Us E. Esse apaixonado da história. historique." 4 Infelizmente. Cada historiador é forçosamente sensível às modificações que traz. imagino-o. Todas as ciências sociais se contaminam umas às outras e a história não escapa a essas epidemias. mas se entenderia mais facilmente comigo .S. de se pesquisar.irritado e divertido que retorquia. teremos à nossa disposição pelo menos dez análises e 4. a um ofício flexível e que evolui por si mesmo. mas ele não é nada em si objetivamente. de tarefas. no seu artigo de polêmica histórico-sociológico. ou de semblante. na sua vontade de fazer uma "história-ciência". . Donde. que eu conheça —. não é nada exceto uma idéia para nós . Georges Gurvitch 5 . podia. suas modificações de ser. porque toda ciência não cessa de se definir de novo. 32. nem entendimento perfeito. 73-84. Um pouco de atenção bastaria. 1957. La Science de l'Histoire d'Après M . de novos pasmos. há muito tempo. 1900. talvez não haja nem disputa. recusa entender-se com Henri Marrou. o próprio Paul Lacombe. . no seu desejo de sair dos impasses e dificuldades insolúveis de nosso ofício. há sempre uma história que pode concordar com uma sociologia — ou. en Xénopol. et en Revue de synthèse AnnaHistoire Sociologie. Se nossa retrospectiva começa com este século. 5. Ainda assim seria preciso olhar de perto: entre historiador e sociólogo. ao inverso. não chegava a se evadir do tempo: "O tempo! dizia. ou de maneiras. François Simiand não atacará Paul Lacombe senão incidentalmente e investirá contra outros adversários irredutíveis. I Primeira e essencial precaução: tentemos apresentar rapidamente a história. evidentemente.. se entender com François Simiand sociólogo. . a seu crítico. mesmo involuntariamente. Na verdade.

p p . 1948. l'Histoire?. 13. o artigo do jovem™" Paul Mantoux. alcançamos o Métier d'historien de Marc Bloçh 9 . 1946. nem o discurso de Henri Marrou 15 . visto que todo o mundo ainda o faz. 1959). 12. historique. 329-337. Le 1953. 1954.. « M a r c Bloch et l'Histoire». talvez demasiado atento. ponto de vista de um filósofo sobre a história. Paris. 14. 11. coloquemos. de passagem. Paris. Cheguemos em seguida aos brilhantes Combats pour l'histoire de Lucien .C. Sobre esse belo livro ver a nota p e n e t r a n t e de J .c e q u e 1955. 9.(1903) 7 . M a r r o u sobre a historiografia..J . a clássica Introduction aux sciences historiques de Çharles-Victor Langlois e Charles Seignobos 6 . 256-270. 1953.. Paris. depois. métaphysique et de morale. 1949. pp. pp. à l'histoire. na Revue historique. sem contar as posições que se desenham nas próprias obras dos historiadores. Acrescentar aí. No início da série. nem o livro vivo de Philippe Ariès 12 . bem mais tarde. nem a defesa existencialista de Eric Dardel 13 . 1901.. Histoire 121-140. nem um certo artigo de Andre Piganiol 14 . 225-247. por esses lados. compilação de artigos que ele mesmo reuniu 10 . Annales E. Stengers. A p r i m e i r a edição é de 1938. Não esqueçamos. obra póstuma e incompleta (sem dúvida bem afastada daquela que seu autor publicaria. 10.» ed. Assinalemos. se a morte não o tivesse surpreendido tragicamente). Introduction temps Histoire. o ensaio muito rápido de Louis Halphen 11 . pp. 7. science du Paris. 8. Q u ' e s t . 94 .EÊbwe. do que numa discussão precisa e formal do pensamento que adotam (daí a censura divertida dos filósofos. 1957. de 1946. de l'histoire. 2. Apologie pour l'histoire ou métier d'historien. C H A R L E S S E I G N O B O S . ed. Paris. (3e ed. 1954. acima 6. Paris. 1953. Revue 15. Paris. preocupado por conseqüência. para meu gosto somente aos espetáculos de uma história da Antigüidade e muito enfurnado no pensamento de Max Weber.mil retratos da história. appliquée aux sciences sociales. Introduction à la philosophie de l'histoire8. para os quais os historiadores não conhecem nunca muito exatamente a história que fazem). p p . De la conaissance historique. sendo estes de bom grado levados a crer que marcam melhor suas interpretações e seus pontos de vista numa obra... concret. Revue de synthèse La méthode historique 1903. após o clássico Raymond Aron.S. . interessante e sutil. et Sociologie. Á c o m p l e t a r pelos belos boletins que dá H . 270-289.

Mas não discutamos. cit. O que se repetia na vida passada pertencia. é do domínio da história" 16 . não é escolher entre rotas e pontos de vista diferentes. não nos é específico. como todo historiador. em compensação. mas aceitar. incompleta. entretanto. o que não acontece senão uma vez. os livros e artigos assinalados não falam da multiplicidade atual e própria da história —. Mas. escrevia Paul Mantoux em 1908. com a objetividade da história. que a história era a "ressurreição do passado". no decorrer de nossas discussões amistosas. à botica de nossos vizinhos. descobridor dos métodos científicos. Resposta clássica. todo o passado não era nosso. O movimento profundo da história de hoje. Emile Bréhier. aos fatos singulares.. Mais ainda. redobrando a prudência e honestidade. não aumentemos desmesuradamente o papel do Historiador. no navio que nos transportava para o Brasil em 1936. repetia-se de bom grado. a essas flores de um dia. na realidade. para ele. sem hesitar: "O que é particular. Objetividade. o historiador da filosofia. mesmo com um H maiúsculo! Abreviada. E mesmo: desse passado. tão depressa fanadas e que não se tem duas vezes entre os dedos. Henri Marrou o diz com razão. creio que sempre 16. determinar o ponto em que se encontram as polêmicas passadas: elas as baliza bastante de perto. todo o passado". com exclusão de qualquer outra. o que se retinha? Nosso jovem historiador de 1903 respondia. No início deste século. limitada de propósito apenas à literatura francesa do tema.e contudo é o essencial. p 113. bem depois de Michelet. Mas de graça.de toda medida. subjetividade em matéria social: este problema que apaixonou o século XIX. imagem da história que filósofos e sociólogos propõem de bom grado. é hoje primordial? Em todo caso. essa curtíssima bibliografia permitiria. ao domínio da sociologia. Portanto. 95 . se não me engano. * Também estou ligado. Há aí uma fraqueza do espírito científico que só se pode superar. Art. belo programa! A "tarefa da história é comemorar o passado. encerrá-las. não queria renunciar a isso. adicionar essas definições sucessivas nas quais se tentou em vão. Pois todas as histórias são nossas. Belp tema.

desde o começo deste século. Mas a história não é apenas a diferença. Aprovo portanto Philippe Aries por embasar sua história no reconhecimento das diferenças entre as idades e as realidades sociais. milhares e milhares de singularidades. de tática. cit. e desse fato prestigioso. jatual. de hábitos e de costumes guerreiros que se encontram num bom número de outros combates da época" 17 . mais ou menos consciente. o inédito não é jamais perfeitamente inédito. Ultrapassar o evento. E sobretudo. os responsáveis ou as vítimas: eles fazem a história. p. que certos incidentes dessas batalhas "procedem de um sistema de armamento. Pavia é. Assim. citando Paul Lacombe. 21. o da crônica. viva ou extinta. 93. 96 . Ver acima art. ou o do jornalismo — essas rápidas tomadas de consciência dos contemporâneos no dia a dia. 18. ou melhor. Ele coabita com o repetido ou o regular. mas original. Equivale a perguntar se. escapa à lucidez dos atores.. nessa história "linear". concordava e retomava por sua conta a afirmação do historiador: "Não há fato em que não se possa distinguir uma parte de individual e uma parte de social. além dos eventos. não há uma história inconsciente dessa vez. Paul Lacombe dizia acerca de Pavia (24 de fevereiro de 1525) ou melhor. Art. mas numa família de eventos. nota 4. numa sociedade. que. em grande parte. era ultrapassar o tempo curto que o contém. mas a história os transporta. nos tornam tão vivo o calor dos eventos e das existências passadas. acabará por dizer Paul Lacombe. como acreditar nessa história exclusiva dos eventos únicos? François Simiand 18 . de certa maneira. pode-se afirmar que jamais repetirá o que ela é na sua totalidade: ela se oferece como um equilíbrio provisório. um evento. uma parte de contingência e uma parte de regularidade". p. o inédito — o que não se verá duas vezes! Aliás. uma dúvida ao menos se levantava contra uma história restrita aos eventos singulares. cujos traços. o singular. Na verdade.há. de Rocroi (19 de maio de 1643). cit. um protesto.. único. o início da guerra moderna. se compreendemos essa sociedade no seu conjunto. 17. "evéntual".

os psicólogos. o filósofo-sociólogo-economista. a história apoderou-se. sociólogo. como seria de esperar. a François Simiand. após 1929. quis ser e se fez economista.Essa busca de uma história não factual se impôs de maneira imperiosa ao contato das outras ciências do homem. é tão emocionante. de Albert Demangeon e de Jules Sion. tê-lo-ão notado. tudo sacudir. Histoire et Sociologie. tudo dominar. os geógrafos. depois de 1900. retrospectivamente. de todas as ciências do humano. na verdade pequenas nações que. O historiador. depois. uma impossível ciência global do homem. o sociólogo. . Essas novas ligações de espírito foram. Desde então. Vede como parecerá sábio e como de uma o u t r a idade. depois de 1945. pouquíssimo preocupados com métodos de orientação. psicólogo. constituíram um colóquio permanente das ciências do homem. a história continuou nessa mesma linha a se alimentar das outras ciências do homem. antropólogo. lingüista. desde então. graças à vigorosa e eficientíssima campanha dos Annales de Lucien Febvre e Mare Bloch. fundadores. na França. . a Maurice Halbwachs. se transformou. de fato. cada uma por sua conta. 97 . ela quis ser. Fazendo-o. testamento de Mare Bloch. sob a única direção de Lucien Febvre. sonhavam tudo absorver. 1938. as realidades conscientes assim como as inconscientes. Apenas os historiadores. Com eles. O caminho é longo 19 do Métier d'historien. de Charles Blondel e de Henri Wallon. O movimento não parou. conduzidos. mas de maneira decidida. aos Annales de após-guerra. o artigo de J E A N M E U V R E T . Revue historique. animadores também dos Annales. cuja leitura. ao mesmo tempo. a compreender os fatos de repetição assim como os singulares. Entretanto. Os amigos de Lucien Febvre e de Mare Bloch. graças à maravilhosa Revue de synthèse historique de Henri Berr. mas na mesma qualidade e da mesma maneira que quase todas as ciências humanas de então. demógrafo. ela se abandonou a um imperialismo juvenil. A história se aplicou. desde então. com seus chefes de grupo. a questão voltou 19. bem ou mal. se organizou. contato inevitável (as polêmicas são a prova disso) e que. ligações de amizade e de coração.

A história é uma dialética da duração.S. apaga e reacende suas chamas. Claude Lévi-Strauss escrevia ainda ultimamente: "Porque tudo é história. p. que sociologia e história eram uma só aventura do espírito. mas o próprio estofo. em toda a espessura de seus fios. sinta-se numa posição bastante particular para reencontrar "de sabre na mão". O tempo. permanece discutível e 20. Mas se a história. 21. slruclurtile. o que foi dito há um minuto é história" 20 . devia ser apenas o estudo exclusivo do passado? Se. 1958. a duração. o sociólogo que lhe censuraria ou de não pensar como ele. Paris. 1957. 98 . não o avesso e o direito de um estofo. por ela. ou pensado. naturalmente. é sempre a partir desse mesmo movimento do tempo que. é estudo do social. Anlhropologie An nales E. II Já escrevi'21. põe em jogo o social em sua totalidade. 17. de todo o social. um pouco contra Georges Gurvitch. arrasta a vida. um e outro inseparáveis. mas a subtrai a si mesma. Lucien Febvre tê-lo-á dito e repetido durante os dez últimos anos de sua vida: "A história. Essa afirmação. a história se impõem de fato. Acrescentarei o que foi dito. ou deveriam se impor a todas as ciências do homem. sem cessar. não se seguiriam. Suas tendências não são de oposição. ou de pensar demasiado como ele. para ela. ela se encarniçava em ligar o feixe de todas as ciências do homem. A história me aparece como uma dimensão da ciência social. graças a ela. Mas. e portanto do passado. ciência do passado. faz corpo com esta. p.C. herdeiro dos Annales de Mare Bloch e de Lucien Febvre. diz-se para depois sorrir disso.a colocar-se: quais eram o papel e a utilidade da história? Era. 73. Compreender-se-á que o autor deste capítulo. mas de convergência. ela era todas as ciências do homem.. o que foi dito ontem é história. ou somente vivido. para os anos decorridos. e portanto também do presente. ciência do presente". onipresente. ou agido. onde se detém o passado? Tudó é história. inevitáveis conseqüências? No interior de seu domínio.

no social. se confundem. mesmo se a vemos. Pois um novo lançamento das ciências do homem se impõe. se considera a sociologia como essa "ciência dos fatos cujo conjunto constitui a vida coletiva dos homens". a um desejo de unificação. esse inflamante da História. mais depressa do que aquela. Portanto. seu vocabulário. que as liberaria de uma porção de falsos problemas. por predileção. amiúde. não vai depender de sua curiosidade e de seu julgamento? O coletivo. é orquestra. à procura das novas estruturas que se elaboram no calor e na complexidade da vida atual — tudo. mesmo autoritário. Mas ela responde. para submetê-las menos a um mercado comum do que a uma problemática comum. há esse imperialismo. a madeira nova. A inovação. que também é síntese por vocação e que a dialética da duração obriga a se voltar para o passado quer ela queira. em seus campos de atividade e nos trabalhos da história. então ela está em todos os lugares do festim. capaz então de ser fecunda e criadora. segundo a velha fórmula. de uma parte. de conhecimentos inúteis e prepararia. As razões disso são simples. E se o estudo da duração sob todas as suas formas lhe abre.não poderia ser desenvolvida de ponta a ponta. das diversas ciências do homem. História e Sociologia são as únicas ciências globais. o sociólogo. seus problemas. a história é síntese. suas próprias incertezas. não pode estar expatriado: reencontra seus materiais. a madeira antiga. como penso. ou reencontrá-lo no individual: a dicotomia é sempre retomada. h ão se pode negar que. quer não. de outra. 99 . uma futura e nova divergência. / Mesmo se. E aí se encontra regularmente nos costados da sociologia. essa identidade de natureza. esta. mas é preciso separá-lo bem do individual. após os debates e arranjos que se impõem. ria medida em que é todas as ciências do homem no imenso domínio do passado. seus utensílios. suscetíveis de estender sua curiosidade a não importa que aspecto do social. se identificam. História e Sociologia se reúnem. A história. mas não há inovação salvo em relação ao que é antigo e não quer sempre morrer no fogo do atual onde tudo queima. as portas do atual. em mim.

dos mais flexíveis. portanto. Há uma maravilhosa história geográfica e uma vigorosa geografia histórica. tome uma dianteira decisiva sobre a sociologia abstrata. explosivo. não vejo mais com clareza. a sociologia do conhecimento e a história das idéias. do mesmo modo. Mas nos detenhamos aí. é a de contê-las todas. a magérrima e anêmica sociologia econômica. E é bem provável que a história quantitativa. dita factual. muito preocupada. com o conceito de classes sociais em Marx ou seus êmulos. é um dos misteres menos estruturados da ciência social. Há uma demografia histórica (é história. uma história social medíocre. historiadores. a micro-sociologia e a sociometria de uma parte. termo a termo. a bem dizer. cuja vocação. fazemos.Evidentemente. Seria muito fácil pôr em correspondência. no domínio do estudo das classes sociais. . o do século XIX. na minha opinião. entretanto. as diferentes técnicas de informação que a variedade das fontes documentárias impõe (mas isso é verdade no próprio interior da história: o estudo da Idade Média. As ciências sociais. e que pode se estender às dimensões de uma nação ou de um m u n d o . dos mais abertos. na linha dos programas de Ernest Labrousse e de seus alunos (Congresso de História de Roma. Há. a morfologia social é coisa superficial. das carreiras. a identidade não é completa e amiúde ela se dissimula: há o jogo das formações. das aprendizagens. estão talvez presentes mais freqüentemente ainda que na própria sociologia. Há uma história econômica cuja riqueza envergonha. o que tentam os sociólogos e o que nós. exigem uma atitude diferente em face do documento). entre nós. 1955). se podemos dizê-lo. entre sociologia da arte 100 . mas que não se enriqueceria em contato com os maus estudos da sociologia tipológica (para não dizer o que seria pleonasmo: a sociologia social). A um certo momento mesmo. que não podem ser colocadas na balança com a ecologia pontilhista dos sociólogos. . estou seguro disso. A história. das heranças. sociodrama. ou não é) relativamente à qual. a textura do ofício. a diferença que pode haver entre essas atividades intermediárias. essa micro-história onde são vizinhos o fato corriqueiro e o evento brilhante. e de outra. a história de superfície.

eu o disse. sob o cômodo signo de duas palavras. um pequeno esforço bastariá para que o historiador veja esses problemas aparecerem sob suas próprias lunetas. mesmo 22. A palavra patamar saiu do pensamento de Georges Gurvitch e se aclimata. . E as diferenças. Trata-se aí de diferenças.. entre sociologia do trabalho e história do trabalho. . não de imperativos ou de exclusividades do mister. o historiador não é bastante atento aos signos sociais. Outro sinal fraterno dessas correspondências: o vocabulário tende a identificar-se de uma ciência à outra. conjuntural. nem bem nem mal. numerosos exemplos o provam. . O modelo fez sua aparição nas águas vivas da história. os economistas. ou de conjuntura? Factual. ou torna-se o mesmo. de crise de estrutura. de desatenções. mais ainda patamares da explicação histórica. a Anthropologie structurale22. quando existem. desde então. 1958. porque. Os historiadores falam de crise estrutural. Vale mais mostrar o seu interesse. do mesmo modo. há uma dezena de anos. Diremos. entre eventual e factual). 101 . foi lançado. aos símbolos. que Paul Lacombe criou (ele hesitava. entre nós. não poderiam ser preenchidas por um alinhamento do menos brilhante sobre o mais brilhante dos parceiros? Assim. aos papéis sociais regulares e subjacentes. "utensílio artesanal". em uma órbita comum. que François Simiand adotou e que ricocheteou entre os historiadores. por conseguinte. a ou as estruturas nos assediam: fala-se demais em estruturas. Lévi-Strauss volta à estrutural no seu último livro. mudando de andar . entre história religiosa ao nível de Henri Bremond e sociologia religiosa ao nível excepcionalmente brilhante de Gabriel Le Bras e de seus discípulos . cit. cada vez mais. Diremos que há patamares da realidade histórica. Paris. Mas.e história da arte. O vocabulário é o mesmo. Mas deixemos esse jogo que seria fácil de prosseguir. vitoriosas no momento : modelo e estrutura. e. patamares possíveis do acordo ou da polêmica histórico-sociológica: pode-se brigar. ou reconciliar-se. a problemática é a mesma. . que soa mal. mas a serviço das tarefas mais ambiciosas. Op. sociologia literária e história literária.

aceitar as contradições e quase procurá-las. O presente. observador das efervescências do atual? III Desse circuito de horizonte. mais fácil de explorar cientificamente. É estruturada em toda sua espessura ou apenas em uma certa espessura? Fora dos invólucros duros das estruturas situar-se-iam zonas > livres. t. O social tem. ao contrário. Os dois 23. a ciência social. Com efeito. decantado. nos Annales. 24. . resumida da École des Hautes e d a t i l o g r a f a d a . ao complicado. uma realidade empírica e desconcertante. P r e f á c i o à H U G U E T T E e P I E R R E C H A I J N U . I. ' e s t r u t u r a s ' ? Palavra na m o d a . inorganizadas da realidade. de identidade bastante forte. a explicação geral e particular do social. Paris. segundo o esquema de uma estrutura batizada "dinâmica"? Ou. Études VI* secção. estuda-o mal e com menos freqüência que o social oscoado. Roumeguère 24 ? A realidade muda a cada andar ou patamar? Então é descontínua "na vertical". no decorrer de um de seus últimos escritos. há uma regularidade. esses problemas se reúnem e se imbricam. dizia Lucien Febvre 23 . se podemos dizê-lo. no limite. substituir. Por um paradoxo aparente. reconstruir. u m pouco demais p a r a o m e u gosto». sobre as 102 . seria talvez mais simplificador que o sociólogo. será que ele o ouve. "folheada". existem fases necessariamente repetidas em todos os fenômenos de evolução histórica? O "movimento da história" não agiria às cegas . Esse apelo. por uma imagem que seja mais clara. p. deve construir o modelo. osso e carne do social. E cumpre-lhe escolher. aqui. que o atual também é de seu domínio. é um apelo ao múltiplo. De fato.. ou deveriam se reunir e se engrenar. por mais que pretenda. 1958. Na verdade. simplificado por mil razões que é inútil sublinhar. dosar. ressalta uma impressão de analogia. ao "pluridimensional". ela se estende mesmo por vezes. eu o sei. Mas o movimento que arrasta a sociedade é também estruturado. C o n f e r ê n c i a estruturas. truncar. o percebe menos bem que o sociólogo. essa estrutura escalonada. X I : «E depois.nos Annales. valha o que valer. Séville et l'Atlantique. O estruturado e o não-estruturado. para retomar a palavra do Dr. ou não. o historiador. se quisermos. 1959. .

misteres. de um lado. não é seu domínio específico. Pouco importa. os mesmos êxitos. mas eis uma questão mal posta! Seria preciso. assim como cada sociólogo. A história é mais continuísta. à imagem de uma realidade que ele julga. terá desencadeado uma das discussões mais vãs que tiveram lugar no país dos historiadores. reduzir tudo. no fim de contas. se quisermos. lá. / Essa analogia não poderia ser recusada — e mesmo assim — a não ser que o sociólogo não quisesse a intrusão do historiador no atual. por ter colocado prematuramente o grande problema desta. o outro penetra no presente em nome de uma duração criadora de estruturações e desestruturações. p. Entre real vivido e real que se vive ou se vai viver. Não esqueçamos.. que a discontinuidade. 103 . cit. de outro. "procurar os fatos e os casos de experiência na relação do passado da humanidade" 25 . em seguida. hiperempírica. utensílios que cada um pode utilizar. É-nos forçoso. Repetição e comparação. 2. a sociologia mais discontinuísta? Sustentou-se essa oposição. An. Mas seria possível. no seu conjunto. não sem razão. abundante. Claude 25. colocar face à face as próprias obras. para ter o coração limpo. o limite é tão claro? Os primeiros sociólogos bem sabiam que o atual não sustentava senão uma parte de sua construção. hoje. à véspera da guerra de 1939. além disso. de nossas oposições a um duvidoso contraste entre ontem e hoje? Dos dois vizinhos. dizia François Simiand. são atuações sobre o real. Georges Gurvitch leva até ao excesso e ao escrúpulo seu desejo de uma sociologia complicada. um se introduz no passado que. Creio menos ainda numa oposição dos estilos. têm os mesmos limites. duração e dinamismo. de permanências também. não faz outra coisa senão abordar em claro a reflexão histórica. a mesma circunferência. sem esforço. se aqui o setor histórico é melhor lavrado. Mare Bloch. Na verdade. da repetição. o setor sociológico: pouco de atenção ou de trabalho e os domínios se corresponderiam melhor e conheceriam. em nome. cada historiador tem seu estilo. ver se essas oposições são internas ou externas a nossos respectivos ofícios.

Michelet explode em linhas múltiplas. Halbwachs que também classifica. linear. mais e melhor que um outro. preocupado com a linha traçada de um só movimento da mão. mais cedo. e seu estilo. se elevam mil vozes que. Lucien Febvre teve. destrói essa abundância para descobrir a linha profunda. das permanências humanas. aos diversos patamares do conhecimento e do trabalho histórico em primeiro lugar — em seguida. Mareei Mauss é mais diverso. Fustel é muito mais simples. repercutido por seus discípulos e que se mistura assim. dez. Na superfície uma história factual se inscreve no 104 . Pirenne ou Mare Bloch seriam bem mais continuístas que Lucien Febvre. uma vez por todas.Lévi-Strauss afasta. pois não é uma polêmica que nos incumbe reanimar). cem patamares que seria preciso pôr em pauta. não se faziam ouvir. retomados à vontade. diria de bom grado três patamares. também. o sociólogo? Questão de estilo. as diferenças que procuramos. Mas tanto quanto a seus temperamentos. do qual ela não poderia sair. ao frio direto da pesquisa atual. mas isto é modo de falar. mas estreita. o diverso. vívido. É ao coração da história que é preciso conduzir o debate (ou melhor. prestou-se a esses desenhos complicados. cem durações diversas. na nossa mediação. na linha da duração. dos tempos e temporalidades da história. São dez. muito simplista. Será preciso a todo custo escolher e decidir quem é. Em suma. No total. mas nós quase não o lemos — e n o entanto: nós entendemos seu pensamento. Durkheim é de uma simplicidade autoritária. IV A história se situa em patamares diferentes. As grandes tagarelices da época contemporânea começam. repito-o. não seguem essas fórmulas ou distinções fáceis. como duas vozes. dos dois. O mesmo sucede com a sociologia. nossa investigação. e de temperamento. não há um estilo da história. para mim. não o devem eles ao espetáculo que contemplam: uma Idade Média ocidental onde o documento se oculta? Com o século XV e mais ainda o XVI. a preocupação com o abundante.

Historiadores. . uma sociologia da história e do conhecimento histórico em cada um desses três níveis. se não me engano. o diálogo com a história não poderia ter o mesmo ou. . seria. 105 .) Para além desse "recitativo" da conjuntura. faz figura de invariante em face de outras histórias. em parte abusiva. essa história. Há. mas essa sociologia ainda está para ser construída. e que. Uma sociologia do factual seria o estudo desses mecanismos prontos. nervosos. em suma..tempo curto: é uma micro-história. de outra: estas são. na qual os grandes homens são vistos regularmente como chefes de orquestra autoritários. Foi estudada até aqui sobretudo no plano da vida material. crise de l'économie française à la veille de la Révolution. e por que. o inédito). a confrontação da história tradicional. a pretensa história do mundo em vias de se fazer. mais ricas que a história superficial? Como determinar o lugar dessa grande camada de história no complexo de uma sociedade em luta com o tempo? . a sociologia ainda não está em contato. esse sociodrama) é repetição. que registram. no dia a dia. (A obra-prima dessa história é o livro de . gravitam em torno dela. 1944. está no limite do móvel e do imóvel e. de uma parte. fojstória p s t n ^ y p 1 ou de longa duiação.Eíúg§t Labrousse^ sobre a crise. mais vivas a se escoar e a se consumar. coloca em jogo séculos inteiros. a mesma animação. com os quais. sem dúvida. nesses diferentes níveis. A mei^encosta. Ora. também. que serve de rampa de lançamento à Revolução Francesa. La Paris. Essa sociologia do factual. as querelas antigas. por seus valores fixos há muito tempo. seria. se comandam. uma história conjuntural segue um ritmo mais largo e mais lento. como eu o penso. igualmente. três séries de níveis históricos. na realidade. a retomada do diálogo antigo (o repetido. não podemos senão imaginá-la. pelo menos. sempre no lugar. Em resumo. O fait divers (senão o evento. infelizmente. 26. na qual os acontecimentos se prendem uns aos outros. Tudo isso ultrapassa. meio interciclo (1774-1791). da micro-sociologia e da sociometria. dos ciclos ou interciclos econômicos.

os jogos sociais e as estruturas no lugar? Com o refluxo de cada fase B. se acrescentar o estudo da conjuntura social e das outras situações concomitantes do recuo ou do surto de progresso. estender. à propósito do evento.regularidade. para que se retome. deixa-lhes carreira livre. restabelece sua saúde. a história conjuntural não será completa se. nesses domínios. Se. Mas. se se deteriora nessa longa viagem. . durável das estruturas e grupos de estruturas. multidão. procura outros equilíbrios. . seguramente) se reestrutura. seria dizer muito pouco: elas se confundem. científico. que seu nível seja despido de fertilidade. e nada diz. Para o historiador. uma estrutura não é somente arquitetura. à conjuntura econômica. No plano da história de longa duração. não se ombreiam. . por inventar. a vida material (e não apenas ela. Aliás. quebrar aqueles? François Simiand nada fez senão esboçar uma sociologia do tempo conjuntural segundo os fluxos e refluxos da vida material. ou quase. nem desenharam bastante quadros válidos. ou que se prolongue o esboço de Simiand. ou não. Ele é bastante forte — ou não — para misturar os jogos em profundidade. manteria. de maneira absoluta. recompõe-se durante o caminho. em compensação. no que concerne à conjuntura. É o entrecruzamento das conjunturas simultâneas que será uma sociologia eficaz . . essa personagem ignorada. . Seria preciso olhar de perto. ou valor. O surto de progresso (a fase A) e a facilidade que ele oferece ao menos em certos setores. seus traços só se alteram lentamente . favorecer ou desfavorecer os liames coletivos. mobiliza forças de engenhosidade ou. inventa-os. é permanência e freqüentemente mais que secular (o tempo é "estrutura): essa grande personagem atravessa imensos espaços de tempo sem se alterar. por fim. A longa duração é a história interminável. e. ao menos. nossa imaginação sociológica quase não sofre desemprego. os trabalhos dos historiadores e dos economistas ainda não acumularam bastante dados. apertar estes. história e sociologia não se reúnem. da sociologia. 106 . tudo está por construir. . diria. montagem.

| também. ainda que essa imagem repita mil detalhes e realidades anteriores. ela é efetivamente. liberdades. que a estrutura se destaca: liames primitivos de parentesco. "funcionais". cerimoniais. Ei-lo levado a aproximar andares. 107 . . o social em luta com seu devir é idealmente. suas possibilidades diversas de deslizamento. eventos. à aceleração da história. choques ou deslizamentos. como é justo. Toda sociedade. O que o historiador gostaria de salvar no debate. Annaíes E.C. ela se explica fora de seu tempo. é a incerteza do movimento de massa. Mas o historiador fiel ao ensinamento de Lucien Febvre e de Mareei Mauss quererá sempre compreender o conjunto. sem • dúvida. Nesse estádio da "totalidade" — não ouso dizer da "totalização" — no momento. p. 4. Em sua totalidade. tempos diversos. uma diferença considerável. F. mesmo se. certas explicações particulares. 27. a totalidade do social. é única. que toda a nova pesquisa de Claude Lévi-Strauss — comunicação e matemáticas sociais misturadas — só é coroada de êxito quando seus modelos navegam nas águas da longa duração. Ver acima.S. meio adormecido. Uma estrutura é um corpo subtraído à gravidade. em suma. a cada corte sincrônico de sua história. durações. subsiste. Quem o negaria? É por isso que a idéia de uma estrutura global da sociedade inquieta e incomoda o historiador. Qualquer que seja a abertura escolhida para o seu andamento — a micro-sociologia ou qualquer outra ordem — é apenas quando atinge esse rés-do-chão do tempo. filhas do instante ou do momento. é falar de apesaníeur*. Esse conjunto reconstitui a seus olhos um equilíbrio global bastante precário e que não se pode manter sem constantes ajustamentos. em nossa língua. instituições saem do fluxo mais lento da história. A moda.Tentei mostrar 27 . não ouso dizer demonstrar. o historiador voltaria assim às posições anti-sociológicas de seus mestres. segundo o próprio espírito de Henri * N o t a do t r a d u t o r : apesaníeur. mitos. entre estrutura global e realidade global.. entre os físicos. mesmo que muitos de seus materiàisy sejam antigos. corresponderia. de pronunciar a última palavra. à sem gravidade. conjunturas. estruturas-. 1958. «Histoire et Sciences Sociales: La Longue ü u r é e » . 41. palavra sem correspondente direto em português. mas também no interior de seu tempo próprio. uma imagem sempre diferente. B R A U D E L .

a questionar o próprio campo. da ciência social. de suas aprendizagens. suas influências terão sido múltiplas e fortes: faltou apenas. como a terra à pá do jardineiro. nosso ofício. passim. Citei também a reflexão antiga de Paul La28. evadir-se dele. Ele sonha. . 1943. essa enorme influência desempenhou um papel entre as numerosas transformações de nosso mister que obrigaram o historiador a desprender-se de seus hábitos. Lucien Febvre falará de instrumental mental. Notar-se-á quão pouco o marxismo assediou. O historiador não sai jamais do tempo da história: esse tempo cola-se ao seu pensamento. E. suas tentações. (Bem mais tarde. ou pouco falta para isso. em primeiro lugar. publicado no mesmo a n o dos Annales. Gaston Roupnel 2 9 escreveu. a sair de si mesmo. até mesmo de seus êxitos pessoais.) Depois. o tempo. é certo. a contrair novos hábitos. O leitor n o t a r á que as três páginas que seguem reproduzem Tjma passagem do a r t i g o sobre a longa d u r a ç ã o (acima. . neste século. Para essas migrações e metamorfoses. sempre nessa mesma linha de conquista. palavras que fazem sofrer todo historiador sincero. Suprimi-lo de u m lado ou de outro. em direção à economia política conjuntural que François Simiand revela aos historiadores franceses. Paris. é função desse tempo e não somente das durações que partilha com outras experiências sociais. por volta dos anos 30. Com a angústia de 1940 ajudando.Hauser e de Lucien Febvre. neste primeiro século XX. Mas suas infiltrações. a impelir sua curiosidade em todas as direções. que a engloba. muito tempo depois. "filha de seu tempo". a esse propósito. 29. há entretanto um limite secreto. bem entendido. exigente 28 . 108 . Histoire ei deslin. em direção à psicologia: é a época em que Werner Sombart afirma que o capitalismo é. em direção à geografia . p p . Contudo. Com o início deste século. espírito. 75-78). seria r o m p e r a u n i d a d e d e u m raciocinio. uma obra-prima de história marxista que servisse de modelo e de ponto de concentração: nós a esperamos ainda. V Deixei-me levar por ilusões fáceis? Mostrei o mister de historiador a desbordar seus limites antigos.

combe, historiador: "o tempo não é nada em si, objetivamente" 30 . Mas aí se trata de verdadeiras evasões1? Pessoalmente, no decorrer de um cativeiro bastante moroso, lutei muito para escapar à crônica desses anos difíceis (1940-1945). Recusar os eventos e o tempo dos eventos era colocar-se à margem, ao abrigo, par.a olhá-los um pouco do longe, julgá-los melhor e não acreditar muito. Do tempo curto, passar ao tempo menos curto e ao tempo muito longo (se ele existe, este só pode ser o tempo dos sábios), depois, chegado a esse termo, parar, considerar tudo de novo e reconstruir, ver tudo girar ã sua volta: a operação tem do que tentar um historiador. Mas essas fugas sucessivas não o atiram, em definitivo, fora do tempo do mundo, do tempo da história, imperioso porque é irreversível e porque corre no próprio ritmo da rotação da Terra. De fato, as durações que distinguimos são solidárias umas com as outras: não é a duração que é propriamente criação de nosso espírito, mas as fragmentações dessa duração. Ora, esses fragmentos se reúnem ao termo de nosso trabalho. Longa duração, conjuntura, evento se encaixam sem dificuldade, porque todos se medem segundo uma mesma escala. Portanto, participar em espírito de um desses tempos, é participar de todos. O filósofo atento ao aspecto subjetivo, interior da noção do tempo, não sente jamais esse peso do tempo da história, de um tempo concreto, universal, tal como o tempo da conjuntura que Ernest Labrousse descreve no início de seu livro, como um viajante, em toda parte idêntico a si mesmo, que corre o mundo, impõe suas coerções idênticas, qualquer que seja o país onde desembarque, o regime político ou a ordem social que aborde. Para o historiador, tudo começa, tudo acaba, pelo tempo, um tempo matemático e demiurgo, do qual seria fácil sorrir, tempo como que exterior aos homens, que os impele, os constrange, arrasta seus tempos particulares de cores diversas: o tempo imperioso do mundo. Os sociólogos, naturalmente, não aceitam essa noção muito simples. Estão muito mais próximos da Dialectique de la durée, tal como a apresenta Gaston
30. Ver acima, p. 93, nota 4.

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Bachelard 31 . O tempo social é simplesmente uma dimensão particular de determinada realidade social que contemplo. Interior a essa realidade, como pode sê-lo a determinado indivíduo, é um dos sinais — entre outros — que ela adota, uma das propriedades que a marcam como um ser particular. sociólogo não é incomodado por esse tempo complacente que ele pode, à vontade, cortar, represar, repor em movimento. O tempo da história prestar-se-ia menos ao duplo jogo ágil da sincronia e da diacronia: quase não permite imaginar a vida como um mecanismo cujo movimento se pode deter para dele apresentar, à vontade, uma imagem imóvel. Esse desacordo é mais profundo do que parece: o tempo dos sociólogos não pode ser o nosso; se não me engano, repugna à estrutura profunda de nosso mister. Nosso tempo é medida, como o dos economistas. Quando um sociólogo nos diz que uma estrutura não cessa de se destruir para se reconstituir, aceitamos de bom grado a explicação que, além disso, a observação histórica confirma. Mas quiséramos, no eixo de nossas exigências habituais, saber a duração precisa desses movimentos, positivos ou negativos. Os ciclos econômicos, fluxo e refluxo da vida material, se medem. Uma crise estruturál social, deve igualmente descobrir-se no tempo, através do tempo, situar-se exatamente, em si mesma e mais ainda em relação aos, movimentos das estruturas concomitantes. O que inte^ ressa apaixonadamente um historiador, é o entrecruzamento desses movimentos, sua interação, e seus pontos de ruptura: todas as coisas que não podem se registrar senão com respeito ao tempo uniforme dos historiadores, medida geral de todos esses fenômenos, e não ao tempo social multiforme, medida particular a cada um desses fenômenos. Essas reflexões pelo lado oposto, um historiador as formulará, com razão ou sem razão, mesmo quando penetra na sociologia acolhedora, quase fraternal de Georges Gurvitch. Um filósofo 32 não o definia ontem, como aquele que "encurrala a sociologia na hirtória"?
31. 2.» ed., 1950. dans les sciences appliquée, Série 32. G I L L E S G R A N G E R , «Événement et structure de l ' h o m m e » , Cahiers de l'institut de Science économique M, n» 1, p p . 41-42.

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Ora, mesmo nele, o historiador não reconhece nem suas durações, nem suas temporalidades. O vasto edifício social de Georges Gurvitch se organiza segundo cinco arquiteturas essenciais: os patamares em profundidade, as sociabilidades, os grupos sociais, as sociedades globais, os tempos, esse último andaime, o das temporalidades, o mais novo, sendo também o último construído e como que sobreposto ao conjunto. As temporalidades de Georges Gurvitch são múltiplas. Ele distingue toda uma série delas: o tempo de longa duração e diminuído, o tempo "ilusão de óptica" ou o tempo surpresa, o tempo de pulsação irregular, o tempo cíclico, o tempo atrasado em relação a si mesmo, o tempo de alternância entre atraso e avanço, o tempo adiantado em relação a si mesmo, o tempo explosivo 33 . . . Como o historiador se deixaria convencer? Com essa gama de cores, ser-lhe-ia impossível reconstituir a luz branca unitária que lhe é indispensável. Também percebe depressa, que esse tempo camaleão marca sem mais, com um sinal suplementar, com um toque de cor, as categorias anteriormente distinguidas. Na cidade de nosso amigo, o tempo, recém-chegado, se aloja muito naturalmente entre os outros; assume a dimensão desses domicílios e de suas exigências, segundo os patamares, as sociabilidades, os grupos, as sociedades globais. É uma maneira diferente de reescrever, as mesmas equações sem modificá-las. Cada realidade social segrega seu tempo ou suas escalas de tempo como conchas. Mas o que nós, historiadores, ganhamos com isso? A imensa arquitetura dessa cidade ideal permanece imóvel. A história está ausente dela. O tempo do mundo, o tempo histórico aí se encontra, como o vento em Éolo, encerrado numa pele de bode. Não é à história que os sociólogos, finalmente e inconscientemente, querem mal, mas ao tempo da história — essa realidade que permanece violenta, mesmo se se procura ordená-la, diversificá-la, essa coação à qual o historiador jamais escapa. Os sociólogos, por sua vez, lhe escapam quase sempre: evadem-se, ou no instante, sempre atual, como que suspenso acima do tempo, ou nos fenômenos de repetição que não pertencem a nenhuma idade; portanto, por uma marcha
33. Cf. G E O R G E S G U R V I T C H , Déterminismes humaine. Paris, 1955, pp. 38-40 r passim. sociaux et liberte

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oposta do espírito, que os acantona, seja no factual mais estrito, seja na mais longa duração. Essa evasão é lícita? Aí é que reside o verdadeiro debate entre historiadores e sociólogos. VI Não creio que seja possível esquivar-se da história. É preciso que o sociólogo tome cuidado. A filosofia (de onde ele vem e onde permanece) o prepara muito bem para não sentir essa necessidade concreta da história. As técnicas da investigação sobre o atual arriscam-se a consumir esse afastamento. Todos esses investigadores do vivo, um pouco apressados e que ainda empurram seus empregadores, farão bem igualmente em desconfiar de uma observação rápida, à flor da pele. Uma sociologia factual abarrota nossas bibliotecas, os cartões dos governos e empresas. Longe de mim a idéia de me insurgir contra essa voga ou de declará-la inútil. Mas, cientificamente, que pode ela valer, se não registra o sentido, a rapidez ou a lentidão, a ascensão ou a queda do movimento que todo fenômeno social ocasiona, se ela não se apega ao movimento da história, à sua dialética percussora que corre do passado ao presente e até ao próprio futuro? i Quisera que os jovens sociólogos tomassem, em seus anos de aprendizagem, o tempo necessário para estudar, mesmo no mais modesto dos depósitos de arquivos, a mais simples das questões de história, que tivessem, ao menos uma vez, fora dos manuais esterilizantes, um contato com um mister simples, mas que somente se compreende ao praticá-lo — como todos os outros ofícios, sem dúvida. Na minha opinião, não haverá ciência social, exceto numa reconciliação, numa prática simultânea de nossos diversos ofícios. Levantá-los um contra o outro, é coisa fácil, mas essa disputa é cantada em árias bem antigas. É de uma nova música que temos necessidade, j Bibliografia Selecionada

1. Mais ainda que os livros citados no decorrer deste artigo que ilustram os conflitos entre a história e a sociologia, aconselharia aos jovens sociólogos a 712

1er certas obras capazes de levá-los a tomar um contato direto com a história e, mais particularmente, com essa forma da história que é vizinha do próprio ofício deles. Os títulos indicados a esse respeito são uma entre inúmeras seleções possíveis que variarão sempre seguindo os gostos e curiosidades de cada um. VIDAL DE L A BLACHE, P. La France, tableau géographique. Paris, 1906. B L O C H , M . Les caractères originaux de l'histoire rurale française. Paris-Oslo, 1931; La société féodale, 2.1-1 ed., Paris, 1940, v. I e II, 1949. FEBVRE, L . Rabelais et les problèmes de l'incroyance au XVIe siècle. Paris, 1943. D U P R O N T , A . Le mythe de Croisade. Étude de sociologie religieuse. Paris, 1956. FRANCASTEL, P. Peinture et société. Lyon, 1 9 4 1 . BRAUDEL, F . La Méditerranée et le monde méditerranéen à l'époque de Philippe II. Paris, 1949. CURTIUS, E . Le Moyen Age latin. Paris, 1956. HUIZINGA, Le déclin du Moyen Age. (Trad. francesa). Paris, 1948. LABROUSSE, E . La crise de l'économie française à la veille de la Révolution. Paris, 1944. L E F E B V R E , G . La Grande Peur. Paris, 1932. 2. Os estudos metodológicos sobre a história são numerosos. Lembremos alguns escritos que citamos: ARIÈS, P. Le temps de l'histoire. Paris, 1954. Métier d'historien. 3:' ed., Paris, 1949. BRAUDEL, F . "Histoire et sciences sociales: la longue durée". Annales E.S.C., 1958, e acima, p. 41 e 59. FEBVRE, L. Combats pour l'histoire. Paris, 1953. MARROU, H . - J . De la conaissance historique. Paris, 1954. PIGANIOL, A. Qu'est-ce que l'histoire? Revue de métaphysique et de morale. Paris, 1955, pp. 225-247. SIMIAND, F . Méthode historique et science sociale. Revue de synthèse historique, 1903, pp. 1-22 e 129-157.
BLOCH, M .

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r .

deparam-se com dificuldades. ao menos em pensamento. pp. às soluções de grandes problemas atuais. I. de tempos em tempos. 1950. 37-44. às quais. o esboço de uma economia histórica atenta aos vastos conjuntos. PARA UMA ECONOMIA HISTÓRICA 1 Os resultados obtidos pelas pesquisas de história econômica já são bastante densos para que seja lícito ultrapassá-los. ao permanente. l. 85.6. para além dos casos particulares. o que é mais. 115 . pode ser útil às pesquisas de economia. e destacar. Revue êconomique. ao geral. à formulação desses problemas? Os físicos. regras tendenciais? Em outros termos. maio. ou.

nos quais tive a ocasião de meditar. Apresentarei. e quantas analogias. mesmo nesse caso. Irão. alguns que me preocupam pessoalmente. aos amigos geógrafos. aqui. daí podem resultar comoções. o histórico e o econômico. Temos. Tenho portanto a impressão que um diálogo pode e deve travar-se entre as diversas ciências humanas. reduzidas ao nada — mas. não é um método que eu estaria desejoso ou seria capaz de definir. ou. Sem querer negá-las. dar à Revue économique. talvez. podem dar a solução. as cores da paisagem. praticando o ofício de historiador. ainda que nossos pontos de vista me pareçam muito afastados ainda uns dos outros. simplesmente. flutuantes aquelas. a acolher essas comoções no que concerne à história e. esclarecidas. sociologia. que fazer uma tentativa análoga junto aos nossos colegas economistas? A comparação é muito vantajosa sem dúvida. Para cada uma delas. . para que voltem à história transformadas. não é possível assi- 116 . ritmadas ou não . Quando muito. Imagino que se se quisesse uma imagem mais modesta e talvez mais justa. quisera assinalar algumas questões que gostaria de ver repensadas por economistas. com efeito. história. tratar-^ -se-ia de um progresso. para tirar as dúvidas. estáveis estas. economia. seria possível comparar-nos. de antemão. não sem apreensão. o sentimento de haver adivinhado realidades econômicas. no decorrer de nossas viagens através do tempo dos homens. Haveria mil outros. a esses viajantes que notam os acidentes da estrada. ampliadas. aproximações conduziriam.só os matemáticos. historiadores. nós historiadores. de encontro às preocupações de alguns economistas. talvez. nem sequer os problemas essenciais que teriam vantagem em sofrer o exame confrontado dos dois métodos. nessas poucas linhas que aceitei. Teríamos nós. j ^ èscusado dizer que não alimento a pretensão de colocar todos os problemas. reconhecimentos inúteis ou trabalho já válido? Não podemos julgar sós. de um passo a d i a n t e . com suas regras particulares. I Pensa-se sempre nas dificuldades do ofício de historiador. Ilusões. . Estou pronto. por conseqüência. ao inverso.

essa abundância de experiências contrárias que não foram quebradas sem dificuldades — diremos a inércia. mas esses eventos. cem. é necessário ir pela contra-encosta. sabemos quais que hão de prevalecer. um problema dessa espécie que Lucien Febvre 117 . infelizmente. e os grandes eventos. Discernimos antecipadamente os eventos importantes. os fatos se apresentam o mais das vezes.nalar por uma vez. puseram um termo prematuro ao seu curso. porque esses movimentos perdedores são as forças múltiplas. . por vezes. mas também sey oposto. reagir contra as facilidades de seu mister. no entanto. É preciso. materiais e imateriais. as correntes essenciais de eventos que fabricam e arrastam nossa vida. construtores do futuro. que. distinguir também seguramente o durável e o efêmero? Para os contemporâneos. fazem tão pouco ruído — chegam sobre patas de rolas. É indispensável conhecê-los. não estudar apenas o progresso. prolongamentos proféticos em direção ao futuro. pois. não se nos afiguram sequer demasiado humildes. retardaram seu desabrochar e. em um mesmo plano de importância. dez. entre as quais a vida finalmente fez sua escolha: para uma possibilidade que se consumou. contraditórias. demasiado escondidas para se imporem de pronto à história. Diremos. aqueles que terão conseqüências. a quem o futuro finalmente será entregue. Daí o esforço de um Colin Clark acrescentando aos dados atuais da economia. . É portanto o elenco dos eventos vencedores na rivalidade da vida que o historiador percebe à primeira vista d'olhos. nos fatos misturados da vida atual. dizia Nietzsche — que raramente se lhes advinha a presença. que a cada instante frenaram os grandes impulsos da evolução. Todas as coisas transtornadas. o movimento vencedor. tentar reintroduzi-las aí. suas insubstituíveis comodidades? Ao primeiro exame. se ordenam no quadro das possibilidades múltiplas. de antemão. não podemos destacar o essencial de uma situação histórica quanto a seu devir? Das forças em luta. inumeráveis. num sentido. um devaneio de historiador!. sem dar à palavra este ou aquele valor pejorativo? É. se recolocam. mil se desvanecem e algumas. aos historiadores. como uma maneira de distinguir. Privilégio imenso! Quem poderia.

imagina determinado pastor do Peloponeso ou do Épiro. ou melhor. exceções? Na sua magnífica história dos cereais na Grécia antiga. a seu modo. se eu empreendesse o estudo — que me tenta — da França das Guerras de Religião. obstáculos técnicos. de economia internacional. obstáculos geográficos. sua inércia face à incredulidade) autoriza o seu nascimento e a formulação clara. se o equipamento mental do século (entenda-se. Alfred Jardé. obstáculos sociais. nós os reencontramos no domínio econômico. superlativos. seu poderio. a incredulidade ponderada. depois de haver pensado nas formas "modernas" do comércio dos grãos.' posso confiar que. que. pesa exatamente sobre sua vida. . levaram-me a imaginá-la como a China entre as duas guerras mundiais: um imenso país onde os homens se perdem tanto mais quanto a França do século XVI não tem a superabundância demográfica do 118 . . comportar uma medida minuciosa daquilo que. que vive de seu campo. partiria de uma impressão que parecerá talvez. necessariamente. e. administrativos . . Exemplo de milhares e milhares de economias fechadas ou semifechadas. .estuda no seu Rabelais. Sob os nomes de capitalismo. de raízes intelectuais —. estou seguro que não o é. à primeira vista. suas celeridades. de Weltwirtschajt (com tudo o que a palavra comporta de inquietação e de rico no pensamento alemão). quando se pergunta se a incredulidade. à qual um grande futuro está reservado — diria. de suas oliveiras. para precisar o exemplo. Para precisar meu pensamento. fora da economia internacional de seu tempo e que. mata um leitão de seu próprio rebanho . nos dias de festa. nos negociantes de Alexandria. em determinada época precisa. senhores dos tráficos alimentícios. Esses problemas de inércia. mais claramente colocados. não se descreveram amiúde evoluções extremas. Inércias? Há ainda aquelas que a cada época impõem seus meios. se a incredulidade é uma especulação possível na primeira metade do século XVI. As poucas corridas que pude fazer através dessa França. de ordinário. e a qual. suas lentidões relativas. constrangem a expansão desta e seus ritmos. senão mais fáceis de resolver. Todo estudo do passado deve. de enfreamento. arbitrária.

Isto é absolutamente 119 . Não digo que a comparação se manteria por muito tempo. mas por vezes sucede também que freia a guerra — penso no século XVI com suas lutas ofegantes. inclusive a economia e a política. . esse estudo não é também o do surto da economia nas suas tarefas mais atuais? A civilização econômica de hoje tem seus limites. Sem dúvida. Mas que é daí que seria preciso partir. nos dizer como seria preciso formulá-los melhor. que nos demonstre em que são falsos problemas. diluição dos exércitos flutuantes entre províncias. para falar por um instante como moralista. é boa. desesperador e racional ao mesmo tempo. é difícil ao economista extrair esses problemas de seu contexto ou histórico ou social. reconstruções. Quase sempre. Nela reencontramos tudo: cidades sitiadas. nacional e estrangeira. deslocamentos regionais. amedrontadas. dessas resistências.mundo chinês. Todas as existências. entretanto. todas as experiências são prisioneiras de um invólucro demasiado espesso para ser rompido de uma só vez. sem interesse. milagres. das inércias — pesquisa indispensável ou que deveria sê-lo para o historiador obrigado a contar com as realidades de outrora. de um estudo desse clima de vida. dessa imensidade. Esse estudo dos limites. . onde as atividades de produção são esmigalhadas em organismos minúsculos e numerosos. entrecortadas de pausas — ou que interdita o desemprego nesse mesmo século XVI. contava sobretudo com os historiadores. Limite espesso. até o fim de meu estudo. até mesmo certas atitudes e inovações ideológicas. Entretanto. Esses exemplos não colocam o problema. impedindo o melhor ou o pior. seus momentos de inércia. para os estudos dessas freadas. limite de potência no instrumental que permite certos movimentos. dos enfreamentos inumeráveis que ocasionam. mas a imagem de um grande espaço deslocado pela guerra. dessas viscosidades. milita contra o progresso social mais indispensável. de espantosa resistência às crises. bom e mau. ou então. Um economista. j^ue interroguei recentemente me respondeu que. fazem-no aparecer em algumas de suas linhas mestras. Cabe-lhes. para compreender todo o resto. às quais convém restituir sua verdadeira medida —. surpresas. matanças.

seria uma boa. de movimentos periódicos cuja fase vai de cinco a dez. trinta. N ã o seria isso. como as séries de e 2 . o das biografias e dos eventos. Mas. É ela que designamos na nossa linguagem imperfeita sob o nome de história estrutural. Bem sabemos que esse não é o caso e que trabalhamos e especulamos sobre séries relativamente breves e particulares. civilizações. opondo-se esta menos a uma história factual que a uma história conjuntural. até mesmo cinqüenta anos. vinte.certo? Não existem aí. aqui. Mas só se poderiam registrar validamente as grandes oscilações estruturais da economia. em se revelar à observação. se por nossa vez falamos de ciclos. espraia-se. não se trata sempre de uma história em ondas curtas? / / Abaixo dessas ondas. instituições políticas vivem num ritmo menos precipitado. com inclinações imperceptíveis. com seus telecomandos. de preferência. senão definida. se dispuséssemos de uma longuíssima série retrospectiva de documentação — e estatística. economias. ao contrário. ao menos suficientemente apreendida essa história de profundidade. por conseguinte. senão gramática. Sociedades. São imagináveis as discussões 2 e as intimações que poderiam exigir estas poucas l i n h a s / Mas suponhamos que essas discussões estejam ultrapassadas e. muito boa demonstração disso). Esse tempo não é o que interessa aos historiadores economistas ou sociais. através dos tempos. n ã o valeria mais dizer: estrutural? conjuntural 120 . nos forneceram nossos métodos. de interciclos. em ondas relativamente curtas. Não se espantarão os economistas que. Ela é também uma história econômica (a demografia. até mesmo. ainda que seja apenas na duração? II f O historiador tradicional está atento ao tempo"' breve da história. nos domínios dos fenômenos de tendência (a tendência secular dos economistas). uma história lenta em se deformar e. elementos economicamente discerníveis e muitas vezes mensuráveis. ainda aí de nosso ponto de vista.

se comportam. Penso também que. mais amplamente ainda. em ver como se registram nos espaços econômicos dados. muito ou pouco conhecido por grandes unidades de tempo. Essa geografia. as ondas e as peripécias da história? Tentei. François Desaunay. não é. sem consegui-lo sozinho. as perspectivas longas da história sugerem. pesquisas de geografia econômica — uma palavra. M. para se voltar em direção ao Oceano: esse movimento de torsão acarretando. para parafrasear o belo título de uma luminosa comunicação de Henri Pirenne. mas. assistente na Êcole des Hautes Études. Um de nossos bons pesquisadores. por séculos inteiros? Ocasião de sonhar ou de pensar utilmente? Supondo-se que hajam entidades. não haveria interesse em examinar sistematicamente o passado. uma em relação à outra. por exemplo. deslocamentos de numerário para reequilibrar o balanço de contas. mercados e cidades. a vida do Mediterrâneo. Rémond. a França é uma série de Franças provinciais. com regulamentos segundo as lições de nossos manuais. Para seguir aqui os trabalhos em curso de u m jovem M. no fim do século XVI. ligadas em conjunto pela política e as trocas. através das rotas. não obstante o ascenso dos tráficos. de que as modificações espetaculares e as crises nos roubam a vista? De outra parte. mostrar o que poderia ser. Entretanto. As cidades gloriosas 3. ainda no início do século XIX' 1 . não mais por anos ou dezenas de anos.A. está em vias de concluir estudos sobre a França do século XVIII e de mostrar como a economia francesa se aparta então do Mediterrâneo. esses lençóis de história lenta. e que. zonas econômicas em limites relativamente fixos. com seus círculos de vida bem organizados. 121 . um método geográfico de observação não seria eficaz? Mais que as etapas sociais do capitalismo. um plano válido de pesquisas e uma maneira de atingir. economista. para o caso francês. esperando o melhor.preços e de salários. importantes transformações. que a vida econômica obedece a grandes ritmos. em promover sistematicamente em nossos estudos de história. como nações econômicas. não haveria interesse em descrever as etapas geográficas do capitalismo. com as modificações que lhe traz um século fértil em inovações. de maneira talvez falaciosa. ou. e portanto.

por muito tempo ainda. as funções bancárias. O salto é bastante perigoso para que não se olhe duas vezes. a atividade industrial. que essas ascensões e essas descidas não são linhas demasiado simples. Enfim. não surgiram por ruptura brusca. em servir-se delas para explicar. coroamento tardio. a atividade bancária. graças aos proveitos dos transportes terrestres ou marítimos. Seria preciso indicar também. a priori. estabeleceram muito amiúde. a indústria. No ponto de partida. deixando subsistir. de Gênova. que são misturadas. seria preciso mostrar que cada nova atividade corresponde à derrubada de uma barreira. o comércio. de Veneza. dos tranportes ao banco. o declínio tocou sucessivamente. supondo que se chegue a conclusões acerca desses Estados em miniatura. cujo século XVI não marcará brutalmente o declínio. as rotas. algumas ainda em estado embrionário. a um obstáculo suplantado. não na única e estreita duração dos ciclos e interciclos. uma vez mais? Temos razão de ver nos transportes e no que se lhes liga (os preços. Enfim. pois. A atividade mercantil seguiu. como um grão que contém uma planta virtual. em sugerir do que em demonstrar. cada economia urbana implica em estádios diversos todas as atividades. uma precessão de certos movimentos econômicos sobre os outros. em longuíssimos intervalos. para roubar uma palavra aos astrônomos. e há. — e não sem retrocessos — os transportes. como é preciso. sua fortuna. Entretanto. O esquema é muito simplificado. No século XVIII. Veneza e Gênova são sempre lugares de dinheiro. mas sobre vastíssimos períodos? 122 . Seria mister mostrar também que essas fases sucessivas. as técnicas) uma espécie de motor decisivo com o tempo. as experiências de hoje. originalmente. os economistas não poderiam nos ajudar. É o caso de Asti. por mil interferências parasitárias. Para complicá-lo e aproximá-lo do real. Prova inversa. não afirmo que seja perfeitamente exato. aqui.da Itália medieval. às vezes. que foram as cidades italianas da Idade Média (uma microeconomia?). mas tenho mais empenho. haveria perigo evidente em querer tirar uma lei de um exemplo e.

arrasta também. mas tudo pode desmoronar-se antes que termine nossa vida.1 1 1 Outro problema que nos parece capital: o do contínuo e do descontínuo. sociedades e civilizações. porque a duração de sua vida é bem mais longa que a nossa. Não desejo que se nos dê uma filosofia dessas catástrofes (ou da catástrofe falsamente típica que é a queda do mundo romano. quadros. Quando Sombart e Sayous querelam para saber quando nasce o capitalismo moderno. e porque as balizas. é uma ruptura dessa ordem que procuram. Os sociólogos já a discutem. acabam por morrer. o que é uma descontinuidade social. uma mentalidade. as horas de existência das diversas estruturas sociais. indolores. mas um estudo com múltipla iluminação da descontinuidade. zem-nos. uma dessas rupturas estruturais. as etapas para a decrepitude não são nunca as mesmas. conta também. de nossa vida. como nós. em linguagem histórica. o de nossa experiência. que se poderia estudar como os militares alemães estudaram a batalha de Cannes). sem pronunciar-lhe o nome e sem encontrar-lhe a data peremptória. para falar a linguagem dos sociólogos. O tempo que é nosso. por mais lentas que sejam para envelhecer. No entanto. para elas e para nós. os economistas podem pensar nela? Tiveram. interferências e surpresas. Donde. que marca o escoamento de nossa idade. se não é. ainda que de maneira diferente. A gente nasce com um estado do social (isto é. A querela que ele suscita vem talvez do fato de que raramente se tem em conta a pluralidade do tempo histórico. Essa passagem de um mundo a um outro é o enorme drama humano sobre o qual quiséramos ter mais luzes. Ora. estas também mudam. ao mesmo tempo. O tempo que nos arrasta. cuja realidade nos ultrapassa. o tempo que traz as estações e faz florir as rosas. uma civilização e notadamente uma civilização econômica) que várias gerações conheceram antes de nós. os historiadores a descobrem. fraturas de profundidade. silenciosas. mas com um outro ritmo. a ocasião de encontrar o pensamento agudo de Ignace Meyerson? Essas rupturas em profundidade 123 . d .

Pôr face à face uma história estrutural e uma história conjuntural. nossos pensamentos ou nossos conceitos de ontem. Ainda assim é preciso. que coloquemos juntas as realidades que se aparentam e se unem e vivem no mesmo ritmo. nada mais valem para amanhã nossos utensílios. também nossa tormenta. é torcer uma explicação. não servirá para os nossos dias de velhice. em cada degrau: primeiros cuidados. é menos esta ou aquela tentativa particular. o que nos parece indispensável para um novo salto das ciências humanas. 124 . do que a instituição de um imenso debate geral — um debate que não será jamais encerrado. Em seguida. tão bem quanto mal assimilada às lições de nossos bons mestres. mesmo ao preço de hipóteses. inclusive a história da história. mais radicalmente impossível. a respeito dessas descontinuidades estruturais. de degrau em degrau. nós que.espedaçou um dos grandes destinos da humanidade. reconstituiremos a casa como pudermos. também é um ser vivente. todo ensinamento fundado sobre um retorno ilusório aos valores antigos está prescrito. a unidade da vida. ou. com tempos diferentes e ordens de fatos diferentes. somos os únicos a ter o direito de olhar sobre tudo o que ressalta do homem. É entre massas semelhantes que é necessário procurar as correlações. visto que a história das idéias. segundo a fórmula de Lucien Febvre. talhar uma explicação à viva força. acabamos de atravessar uma dessas zonas decisivas. independente daquela dos próprios seres que a animam. Se. primeiras pesquisas. que a ilusão de reduzir o social tão complexo e tão desorientado a uma só linha de explicação^ Historiadores. "A história. Tudo o que ele leva em seu ímpeto se desmorona ou ao menos se transforma. justamente. Se não o quebra-cabeças será deformado. primeiras especulações. que vive com sua vida própria. se nos viramos para o factual. Mas. como é possível. com os sociólogos. quando tentamos reconstituir o homem. os economistas nada têm a dizer? a nos dizer? Como se vê. evidentemente. Nada mais tentador. reconstituir. A economia política que temos. é o homem". é nosso mister. seu destino essencial.

III. . S . N . tomo I. 541-553. p p . Paris. Conjoncturelle et tomo 3. 125 . da história que ele nos propõe. PARA UMA HISTÓRIA SERIAL: SEVILHA E O ATLÂNTICO ( 1504-1650) 1 Para designar a obra monumental de Pierre Chaunu 2 . 1212 p p . 1959. 6 de Sé ville et l'Atlantique (1550-1650). é preciso uma expressão que defina de pronto o sentido de sua empreitada e a novidade. E .S. propositadamente forte e limitada. + X V . nP 3.C. e que 1. N o t a s críticas.. m a i o . Industrie.7. E . V . Digamos: a história serial.j u n h o 1963. 2050 Annales E. nisto que o próprio Pierre Chaunu empregava ultiniãmente essa fórmula 3 . Histoire Sérielle. P . Dynamique j u n h o de 1960. 2. .

quer dizer. Confesso. No quadro de uma história serial. tal é a série. "Ela se interessa menos pelo fato individual. ligadas entre si. que pelo elemento repetido . ou seja. O tráfico de Sevilha com a América de 1504 a 1650. é sempre uma escolha. . integrável numa série homogênea suscetível de suportar. mesmo de soberbas dimensões. perder o rumo. uma série. . mas queridos. pela multiplicidade das vias oferecidas. A história serial. que é oferecida ap nosso conhecimento. exige a série.suficientemente claras ou justas. " É em conseqüência uma linguagem — e muito abstrata. os sete volumes da enorme 126 .. tendo-a lido uma primeira vez e de perto. de medidas ligadas umas às outras. no caminho. historicamente prestigiosa. mas privilegiada. depois a significação. uma função do tempo histórico cujo andamento deverá ser estabelecido com paciência. \ Função e explicação do tempo histórico? Essas imagens e essas fórmulas não são talvez. depois extraviar-se realmente. é também uma rota construída através de nossos conhecimentos incertos e que não permite quase nunca senão uma única viagem. quanto o cálculo que intervém na sua gênese jamais o fixa antecipadamente de maneira automática. reconstituído em volume e em valor. \ Essa história reclama. o livro encontra sua unidade. na segunda leitura. esse amontoado de esforços e de silêncios inesperados. Uma tal série de cifras a exprimir medidas válidas. os processos matemáticos clássicos de análise das séries . tem suas exigências. tanto mais quanto o traçado é por vezes incerto. seus limites aceitos de antemão. . . haver compreendido melhor.ela ilumina a perspectiva principal de uma obra onde o leitor corre o risco de deixar-se distrair. ou tornada coerente. com pena na mão. em seguida. desencarnada. que lhe dá seu nome e sua razão de ser. . sua justificação. "uma massa contínua de dados cifrados". Huguette e Pierre Chaunu publicaram de 1955 a 1957. Uma obra. em cujo interior Pierre Chaunu se entrincheira.. Para estabelecê-la. uma sucessão coerente.

donde a indicação (do tomo) pouco clara à p r i m e i r a a b o r d a g e m . Eles a construíram e inventaram ao mesmo tempo. ainda são possíveis nessa rota privilegiada das séries. dominante. 1955-1956. E.contabilidade portuária 4 . Construction graphique. Já o sabíamos. de Séville et l'Atlantique. V I I I 3 bis. é mensurável. escreve Pierre Chaunu. P . desde Earl J. sozinho desta vez. E . esse Atlântico não é apreendido 4. progressos. a fronteira das economias mensuráveis e daquelas que é preciso abandonar às exclusivas apreciações qualitativas". não creio que o Atlântico sevilhano que nos apresenta. Ela nos oferece uma só linha da grandeza espanhola. Quando se tem a paixão da história. dadas as riquezas dos arquivos da Península. E . são chamados a verificar e a revirar suas antigas explicações. uma só linha da economia mundial. Paris S .«. não obstante as correspondências evidentes e as filiações que Pierre Chaunu se apraz em reconhecer com sua habitual e enorme gentileza. Primeiramente. A tese de Pierre C h a u n u é a segunda parte. V I I I 2 . H U G U E T T E e P I E R R E C H A U N U . nós o sabemos melhor ainda. Séville et l'Atlantique. 1957. Primeira p a r t e : Parte estatística (1504-1650).000 páginas. mas trata-se de um eixo essencial. hoje. em 1949. dita i n t e r p r e t a t i v a . in-49. livro publicado dez anos mais cedo que o seu. que introduz uma ordem imperativa no meio de mil noções e conhecimentos firmados. que Pierre Chaunu edificou. Todos os historiadores e economistas que se interessam pela primeira modernidade do mundo. 1. Hamilton: a grandeza espanhola no século XVI. bem antes dos inícios do século XVIII e de suas estatísticas fáceis. . in-8. \127 . . Para eles o essencial foi estabelecer. desde que seja bem situado e não se lhe perguntar mais do que ele pode e sobretudo quer nos oferecer. essa sólida rota de cifras. sua enorme tese de mais de 3. 6 v. não há espetáculo mais belo. de seus três volumes: V I I I 1 . É portanto ao termo de um esforço prodigioso e inovador. seja uma retomada ou um prolongamento da La Méditerranée et le monde méditerranéen à l'époque de Philippe II. "recuar em um ponto ainda que ínfimo. lendo esse livro. N . mais u m Atlas. V . Estrutura e Conjuntura Não creio.

Pierre Chaunu não tem nem essa pretensão.bieve. Outra diferença fundamental que Pierre Chaunu vê desde logo. Mas seu propósito. . mas que a transborda por todas as partes. . a bem dizer. uma dúzia de anos após a viagem de Colombo. que o estrutural. e um espaço (o Atlântico) de passado confuso e apressadamente construído . mais fácil de compreender. ainda não há estruturas. não é o meu: procurei em La Méditerranée expor. se é cercado de curvas. nem esse desejo. bem ou mal." e de onde tudo sai de novo. tratar-se-á de uma realidade humana construída. Nele. . das Antilhas à embocadura do Guadalquivir. observável somente através da abstração da longa duração. Pierre Chaunu também se deixou seduzir pela eficácia dialética do tempo longo e do . ontem e que se rcvõnT^ontagi oso 1 1 1 1 1 1 1 bom número de teses recentes. construí\128 . mais científico. imaginar uma história global. Suspeito mesmo que Pierre Chaunu tenha conscientemente preferido o conjuntural. Nesse Atlântico visto a partir de 1504. indo das imobilidades aos movimentos mais vivos da vida dos homens. Será preciso importá-las. Sem dúvida. . no entanto. Mais que de um espaço compreendido na sua realidade geográfica bruta e completa. au exemplo que dei. recortada numa história global que ela atravessa. e que salta aos olhos: a que opõe o mais velho espaço marítimo jamais possuído pelo homem — o Mediterrâneo — todo um passado. "um Atlântico mediano". mais próximo da história vivida. para retomar algumas de suas fórmulas. de um sistema viário que confina em Sevilha "de onde se segura tudo . . "o primeiro Atlântico fechado dos ibéricos". mas num certo espaço arbitrário. . o ano em que é acionado o privilégio de Sevilha. um espaço então (no século XVI) ao termo de sua grandeza. quando distingue estrutura e conjunturarTmóbilida^e. "o Atlântico exclusivo de Sevilha" . fato que o autor diz e repete à saciedade: é colocado em questão.no seu todo. pelo gargalo da garrafa.moviroentOjJ^rre Çhaunu se apega por uni nisjante.tempo_. a descrição das imobilidades maiores (sua primeira partej^depois o recitativo conjuntural (a segunda parte) não visam senão a reconstituir uma certa realidade econômica. "Portanto. . .

numa primeira reação diante da obra de Pierre Chaunu. justifica um plano regional segundo as vizinhanças do espaço. que neste caso deveria ter tido suas próprias exigências. sua própria unidade. A Estruturação do Atlântico Mediano Sem dúvida. . o desdobramento de um fichário faustoso. uma maravilhosa ocasião de desembaraçar antecipadamente seu estudo conjuntural — em que deságua seu livro e que é o coração da empreitada — de tudo o que incomodasse o seu arranjo ou o comentário fácil? O matemático não procede de outra maneira quando agrupa ou rejeita os termos inteiros invariáveis num só membro de uma equação. . que corresponde a uma intenção do arquiteto. para Pierre Chaunu. De fato. Um plano fácil. construtor de estruturas . Aconselha. lacunas. o primeiro volume da tese de Pierre Chaunu. assim como os de ontem. como para todos os historiadores que freqüentaram Lucien Febvre. Ele permite. ou melhor. Se o considerarmos em si mesmo. Mais claramente. e. para organizar o espetáculo. a considerar seu volume inicial como um livro em si. é chamada ao debate de toda a experiência vivida dos homens. entretanto. os de hoje. a geografia. o tempo da história. dir-nos-ão. segundo um programa enumerativo cuja defesa não se poderia tomar seriamente. sobretudo. aqui a geografia não é restritiva. por mais rico que seja. mas indicativa.-las em suma. Esse primeiro livro não é intemporal e. qualquer que seja a particularidade de seu ponto de vista. Então Pierre Chaunu não viu na separação da longa duração e da flutuação. . silêncios surpreendentes. a uma obrigação que ele escolheu. 2. Que esse livro se intitule de maneira ambígua Les structures gêographiques. terrivelmente monótono e que não se preocupa quase em agrupar os problemas em feixes ou em introduzir. mas estes se apagam. é um fato que nada muda. veremos fraquezas. é uma condição prévia para a construção serial que há de seguir-se. A partir da página 164 vamos imperturbavelmente de uma escala à vizinha. se justificam na perspectiva geral da obra. inclinei-me bastante. aqui.

o que é mais. sem esquecer os istmos. não sem razão: "istmo de Sevilha". por diversas vezes. assinalou os êxitos das grandes produções: couro. fixou as trocas. . sobretudo. e cada vez que suas séries mercantes lhe permitiam de antemão. os Açores. o monopólio sevilhano sobre o comércio das Américas. as quais são fornecidas respostas muito boas. vastas ou restritas. mas ele a abandona. Em que condições se estabeleceu. atrás desse privilégio dominador. Pierre Chaunu prodigalizou aí tesouros de erudição. reagrupa-as. Pierre Chaunu multiplicou as histórias particulares e. quais são seus limites e. açúcar. passa-se naturalmente às do Novo Mundo: São Domingos. são abordadas as "ilhas da Europa". A seguir. visto por um instante nas suas profundezas e suas margens marítimas? Tais são as primeiras questões. seus pontos fracos? Como. notadamente o de Panamá que nosso autor proclama. Dessas ilhas. prata. porque essa primeira parte é uma lenta e minuciosa viagem. Dentre os corpos geográficos que o Novo Mundo oferece. fumo. ao limiar de sua obra e de acordo com seu próprio temperamento. se comporta o mundo ibérico. ouro. Porto Rico. todo um dicionário recheado de informações. Madeira. se tivesse estado atento à lenta transformação das estruturas. se organiza do Velho para o Novo Mundo. as Bermudas e a península da Flórida . a Jamaica. fácil de consultar. A viagem. à página seguinte. mais precisamente. porque estas se movimentam. que \130 .É verdade. . inovam. infelizmente. era tentador distinguir os corpos leves (as "ilhas continentais") e os corpos pesados (os "continentes": Nova Espanha e Peru). . Um filme em câmara lenta seria preferível a essas vistas fixas de lanterna mágica. histórica e geograficamente falando. Mas que livro Pierre Chaunu não teria escrito. . esse livro traz luzes freqüentemente inéditas. Acerca dessas questões. repitamo-lo. multiplicou as anotações decisivas. sacrificou a uma geografia tipológica que por si mesma transgride as verdades locais. Eis toda uma cartografia das forças e superfícies de produção. Além disso. De que nos lamentamos? De que esse primeiro livro. as Canárias (longamente estudadas). valha-me Deus. não tenha sido tratado em si mesmo.

com essas grandes aventuras. 6. para chegar a novas e importantes considerações sobre a "conquista". Paris. depois as grandes etapas da conquista. um capitalismo mercantil antigo.E. André E. me parece. em seguida. Annales d'Histoire économique et sociale. através de suas sondagens nos arquivos notariais de Sevilha ( Archivo de Protocolos). preocupa-se há muito tempo.P. já capaz de transpor. na melhor das hipóteses. Esperamos mesmo um livro decisivo de Guillermo Lohmann Villena 6 . 1936.permaneça fora de uma história conjunta das estruturas. os quadros urbanos. Não houve construção. plantas cultivadas. as administrações. a não ser por acumulação de homens.7 . sublinhando a ação inovadora e arriscada dos mercadores genoveses.V. 1968. aqui e ali. levantar. de disciplinar o Oceano. as instituições políticas. muitos estudos detalhados apareceram. ágil.E. desníveis de preços: "o baixo preço americano comandou". Mas esse relato útil não é a grande animação na qual penso e que. O Atlântico.N. essas ilhas em pleno oceano ou sobre as franjas continentais. 143 a 159). por transferências e implantações repetidas de bens culturais: barcos. inutilmente presente. O todo foi se organizando a partir de centros privilegiados. S. curiosamente consagradas à uma narração muitas vezes e sobretudo factual. pp. Desde então. Mas já 5. «La genèse d u système capitaliste: la p r a t i q u e des affaires et leur mentalité dans l'Espagne du X V I e siècle». raro.5.. para retomar uma frase de Ernest Labrousse. animais domésticos. onde Colombo tem seu amplo lugar. e. Sobre Les Espinosa. enterrado no quadro de estruturas preexistentes: as religiões. 7. deveria esclarecer a lenta instalação das estruturas atlânticas e as dificuldades de sua mergulhia. insidioso. acima desse conjunto. essas vias aquáticas que vão uni-los — à hora das descobertas são espaços vazios: o homem está ausente. em termos de espaço e em termos de homens (p. Pierre Chaunu bem que o sentiu nas cento e poucas primeiras páginas das Structures (p. brancos ou negros ou índios. 334-354. não obstante a quantidade de materiais oferecidos e que seria preciso coordenar. seus bordos europeus e americanos. muitas vezes. Sayous 5 . 40 a 163).

temos os estudos inovadores de Enrique Otte 7 e as cartas do negociante Simón Ruiz 8 (para a segunda metade do século XVI) que só estão à espera de quem queira utilizá-los 9 . de Gibraltar a Londres e a Bruges. não há uma palavra sobre a própria cidade de Sevilha.o 4. n.o 1. na medida em que o "Oceano Ibérico" é um espaço "dominante" (no sentido em que François Perroux emprega as palavras pólo. e por F. "gargalo" de várias garrafas. V . l'expédition de Diego Ingenios à 1'Iie des Perles en 1528. E . preparada antecipadamente. 1957. das Grandes Descobertas. transallantico di una compagnia fiorentina Habilita 1:12 . 1955. espanta-nos que esse longo prólogo não nos ensine nada. B R A U D E L . ajprimeira América. Revue d'Histoire économique et sociale. todos esses complexos de inferioridade visíveis que a superioridade do Oceano sevilhano desenvolve nos outros espaços da circulação oceânica? Pierre Chaunu nos diz. Annales E. 10. mas ao Mediterrâneo. Il Commercio a Siviglia. a propósito do Pacífico das longínquas Filipi7.C. no entanto. 1954. economia dominante). Quelques témoignages sur le X V I e siècle». fato que ele não menciona de modo algum. É a concentração capitalista internacional de Sevilha que explica. S . Sevilha depende de outros espaços marítimos. n. às entranhas da Espanha (o que. matrizes das cidades do Novo Mundo. t. salvo um acaso providencial. ou os preciosos papéis dos mercadores florentinos. X X X V I I . Báltico. aquelas que H .. sobre os mercadores. Ela não conduz apenas às índias. 8. Assim. ibid. «Facteurs et Sévillans au X V I e siècle». p. 1959. na verdade. p. É mesmo a navegação costeira em torno da Espanha.. 1959. não seria importante ver as formas de "assimetria". de mercadorias e prata afora o eixo Sevilha-Vera Cruz e. aliás. nem sobre a tipologia urbana de um lado e de outro do Atlântico. que permitiu a explosão. Para terminar. Paris.e 1. publicados por Federigo Melis 10 . de outros circuitos de barcos.S. Não há uma palavra tampouco sobre as cidades da Ibéria. de desequilíbrio. Inglaterra. Flandres. 732. les Ruiz. e ainda aos países do Norte. 60. N . Utilizadas por B E N N A S S A R . «Realités économiques et prises de conscience. 9. E . P . em grande parte. Pierre Chaunu diz excelentemente). . Então. L a Rochelle et l'Espagne. N o t a d a m e n t e . n. animadores dos tráficos sevilhanos. L A P E Y R E utiliza na sua tese: Une famille de marchands. «Affaires et gens d'Affaires».

bem antes do fim do século XV. no movimento tão característico e espasmódico de sua vida. 3. para elucidar esses problemas. . mas também nas suas realidades econômicas. seguradores. ao falar das estruturas geográficas. 1960. Paris S . comandado pelas frotas que. Les philippines et le Pacifique des lies ibériques XVie — XVille siècles. a enriquecem e a esgotam. em todo caso. como eu mesmo (mas com muita prudência. sem se preocupar com outras séries existentes. em breve. em suas instituições como a gloriosa Casa de la Contratación. . N . que o Oceano Atlântico o anexou à sua vida "voraz": então. 301 p p . Sevilha. marinheiros. em Simancas os inumeráveis documentos sobre Sevilha e sobre as Flandres . ampliar as pesquisas de arquivos. o "padrón" de Sevilha. pensei em todas essas casas de que Pierre Chaunu se privara e nos havia privado . revendedores.nas 11 . V . P . para o Mar do Norte e o Mediterrâneo de Alicante. mundial. alternadamente. de fato. urbanas. em Simancas. de Livorno? Evidentemente. tinha direito de estar presente em sua totalidade viva e não apenas em seu porto. que seria estendida a todas as grandes civilizações e economias do mundo e que Pierre Chaunu. sociais. Até mesmo. Talvez mesmo já fosse una. no mercado financeiro da praça. E . no sentido da ponte de barcos que a liga a Triana. teria sido preciso. como não olha ele. Trata-se. p. nesse planeta à parte e coerente há séculos que U . P I E R R E C H A U N U . o que os documentos da época denominam a "largueza" e a "estreiteza" da moeda. E . em 1561. e não somente. O Triunfo do Serial Os dois volumes sobre a conjuntura (tomos II e III da obra) nos alertam imediatamente pela insolência do singular. II. na multidão de seus mercadores. 43) afirma que é una. dos ritmos de uma Weltwirtschaft. Mas Pierre Chaunu se manteve. ISS . in-8°. de Gênova e. no interior de sua única história serial. Percorrendo. trazem alternativamente. . . . esse recenseamento exaustivo das casas e de seus habitantes. ver em Sevilha os riquíssimos Protocolos. além do registro dos tráficos sevilhanos. t. da conjuntura internacional. cambistas. voluntariamente.

é o Velho Mundo. à Índia e à África dos Negros. muito à vontade. não será possível senão muito mais i tarde. os períodos. . os ritmos. n'alguma parte entre Sevilha e a Vera Cruz'. . . enfim. Não há dúvida. mais de um historiador não economista terá dito. que a crítica desse livro deverá sempre ou voltar ou se alçar. em sua defesa de tese. exclusivamente as fases. Seria. no relógio das chegadas e partidas das frotas de Sevilha. parece nascer. que é preciso recolocar sua imensa explicação. amiúde corrigidas. e segundo confessa o próprio Pierre Chaunu. tratadas de várias maneiras diferentes (médias qüinqüenais. que a vida se acelera tão fortemente: então a "universidade das flutuações . da Europa à China. mesmo quando secundárias. não antes da explosão demográfica e técnica dos séculos XIX e X X . | em profundidade. idas e voltas são examinadas em separado ou cumulativamentes e as curvas brutas. portanto. É em todo caso a esta altura. até os instantes. essa conjuntura do mundo não derruba tudo: "uma economia-mundo. Com maior razão há uma conjuntura no século XVI. graças às navegações e caravanas de ura Islão durante muito tempo dominador. O que. não é nesse quadro. depois de se ter deslastrado de explicações importantes. é tentar explicar o mundo". enquanto que os círculos se alargam. Se Pierre Chaunu diz mil coisas (como já no seu tomo I) sobre o império espanhol. há muitos anos . por vezes inventadas. a escolha do Atlântico "é uma escolha temerária. sob a forma de uma meada de curvas. . Que essas curvas tenham sido reconstruídas. . desde então. medianas sobre sete ou treze anos). útil. interessante. Dispomos ao mesmo tempo de uma estimativa dos volumes e do valor dos carregamentos. a cujo respeito temos numerosas informações e freqüentemente mais completas. Fora do universo hispânico. O registro se apresenta. Gosto dessa palavra imprudente. . eis o que revela o trabalho prévio necessário ao arranjo \134 . deixar francamente o espaço pelo tempo e marcar neste. " Mas enfim. importa compreender a conjuntura do mundo. a da conjuntura mundial.

Henri Lapeyre escrevia ultimamente que nosso autor poderia ter abreviado e condensado o seu trabalho 12 . Mas essa crítica construtiva somente interessará aos especialistas. ou seja. Entretanto. O trend secular desenha dois grandes movimentos: uma ascensão. aliás. \135 . portanto. diremos. sua cronologia e sua observação. meio-Kondratieff. Poderá. escolher unicamente as discussões que lhes importam. que emprega obstinadamente em lugar de decênio. de preferência. valha o que valer. na baixa de 1550 a 1559-62 (seria aqui. seguramente fastidioso. Historique. ao qual. ou ao menos ambígua. 12. interciclos. Ktvue. Portanto. de 1592 a 1622. francamente na baixa de 1622 a 1650. em períodos de vinte a cinquenta anos no máximo (uma delas é. (São numerosos?) Ao aceitar as decisões e conclusões numéricas do autor. Mas pouco importa a palavra. estende-se. os mais interessados. contornar e.de todo material serial. Pierre Chaunu se entrega imperturbavelmente. um interciclo de Labrousse). as conclusões de conjunto são claras e sólidas. o historiador não arriscará grande coisa. 4". a meu ver. perdoar-se-á mais facilmente a Pierre Chaunu o termo interciclo do que década. ou seja. É verdade. participar sem apreensão do jogo prolongado. Deus seja louvado. p. Em todo caso. 3'. somos obrigados a ler todas as páginas com a atenção habitual? Os mais apressados entre nós podem reportar-se ao Átlas que acompanha o livro. é em medições e em movimentos mais curtos que Pierre Chaunu detém. bem mais curta) e que ele chama de maneira abusiva. na alta de 1504 a 1550. ele assinala por si só os perigos e riscos que foi preciso aceitar. superar. ao passo que são. na alta de 1559-62 a 1592. O obstáculo mais difícil a transpor foi a estimativa (variável) da tonelada. uma descida. uma fase A de 1506 a 1608. mas é tão fácil? Ademais. interciclos sucessivos e contraditórios. 5 9 . seguramente necessário. 2 9 . cinco no total: l 9 . uma fase B de 1608 a 1650. 1962. durante mais de duas mil páginas. antes. 327.

\136 . não nos surpreende em sua articulação maior. dá. é mesmo possível discernir flutuações mais curtas. as "Kitchin". não tendo. uma vez mais. um tema clássico de discussão. que não depende de modo nenhum da quiromancia. O trend secular não é. mas durante um longo período de indecisão. malgrado a presença do autor. do que uma tomada de temperatura sobre a doença de um paciente. os anos de conclusão (é o caso de Carlo M. o que não é uma vantagem tão diminuta. isto é. Não creio. 1935. de um lado e de outro do ano de 1608. confirma o que já sabíamos). Não informam mais. Romano.No interior desses interciclos. ou num ano. como sobre a pirataria inglesa. mas também. 1619 ou^ 1620. Essa escala. a sucessão de ciclos de uma dezena de anos. Um tal evento. outros. II Problema dei trend secolare nelle fluttuazioni dei prezzi. ao contrário. de R. é um fato. Cipolla. no tocante a esse tempo escoado. semeado de ilusões. ou mesmo. Em Aix. os anos 1590. quando se inverte o turbilhão do trend secular: de fato. já Earl J. Hamilton) a discutir esses eventos excepcionais que são as inversões do trend secular. que a Invencível Armada (sobre a qual Pierre Chaunu. trata-se. A prosperidade do mundo se quebra em dois. na atual lógica de nossa profissão. não menos. as teses de Mme J. por um só instante. de catástrofes subjacentes. alguns preferirão os anos anunciadores. uma análise. 1620). no Congresso de setembro de 1962. é bem mais difícil de explicar. mais importante em si. Pávia. que estamos pouco habituados (e ontem. É evidente que o debate permanece aberto. ne13. ontem. Em nossas periodizações necessárias (sem o que não haveria história geral inteligível). de medidas válidas para aferir o tempo passado e sua vida material. que essas datas e os períodos enquadrados sejam medidas subjetivas. O imenso esforço de uma história social resulta assim na fixação de uma escala cronológica com seus múltiplos e submúltiplos. 1619-1623. a inversão não se faz num dia. ou que os inícios da Guerra dita dos Trinta Anos. Griziotti-Kretschmann 13 não foram discutidas.

ou seu desvio para as Filipinas e a China. . a meu ver. e nossa imagnação. Causa ou conseqüência. certamente bem colocado. à mesma conjuntura que a rota normal. obedeceram. a passagem bastante dramática. Frank Spooner e eu. desempenhou então seu papel. Contrabandos. vasto. Problema demasiado amplo. a passagem dos anos de Francisco I os sombrios tempos de Henri- \137 . É um fato que uma imensa viragem condensou-se entre 1590 e 1630. . difícil e enfadonha de Filipe II. como o século XVIII em seu declínio. ou a queda vertical da população indígena da Nova Espanha e. ensolarada. da época de Carlos V. que a crise de um certo capitalismo. senão nossa razão. O fim do século XVI assiste a uma queda dos lucros. . ou sua captura pelo crescente contrabando em direção ao Rio da Prata . do Peru . lido seu raríssimo livro. tem o campo livre para explicá-la: ou os rendimentos decrescentes das minas americanas (explicação que Ernest Labrousse retém de bom grado). O pensamento econômico mesmo em seu mais alto grau. que nos revela. é verdade! Mas as pesquisas ainda são demasiado insuficientes e a problemática por demais desesperadamente pobre. sem estar seguro disso. mais financeiro e especulativo ainda que o comercial. para que o problema. em Sevilha. . para dar um bom exemplo disso. ainda não nos fornece os quadros explicativos necessários. o curto interciclo de 1550 a 1562. nós o sabemos. nesses domínios. É o caso. Na França. possa ser resolvido de maneira correta. Mas os problemas limitados não são sempre mais claros a nossos olhos. a investigação de Pierre Chaunu. Assim foram abandonadas as antigas explicações: absorção do metal branco pela economia crescente da América hispano-portuguesa. Trata-se aí bem mais do que de um canhonaço de advertência. é um enorme arfado de toda a economia "dominante" de Sevilha. a nossos olhos.nhum dos historiadores presentes. Adiantarei de bom grado. fora Ruggiero Romano. pensarão os sábios. para a época triste. sem dúvida. desvios.

Uma curva dos tráficos portuários oferece testemunho sobre a circulação das mercadorias e dos capitais — mas essa circulação que. a última grande discussão que seu livro nos oferece e a qual espanto-me que os críticos ainda não a tenham notado. porque estava ao nosso alcance. A circulação. e como (dessa vez e de outras) foi ou não impulsionado para as praças européias? 4. . ou formular a seu propósito nossas críticas. fiquei muito impressionado com o comportamento. tem seu equivalente nessa "crise". dos movimentos de preço e dos movi14. como diziam os velhos autores. um historiador nos dirá talvez que o interciclo de Labrousse. à véspera da Revolução Francesa. mas trata-se de detalhes. sem dúvida. ou mesmo uma história descritiva que tem valor de auscultação: é o caso da brusca parada das navegações inglesas para o Mediterrâneo. há anos e anos a história matematizante perseguiu. da Europa. . elas nãò faltam.que I I . e notadamente a do último livro de Gaston Imbert 14 . às vésperas de nossas Guerras de Religião. Oe. 1959. ela também. Por que não procurar saber se o ciclo sevilhano foi comandado pela procura americana ou pelas ofertas da economia européia. de suas curvas sevilhanas para pôr em questão uma história em escala serial da Europa e do mundo. \138 . E o ponto essencial do livro de Pierre Chaunu não está aí. prossegue-lhe o ímpeto. completa a produção.í mouvements de longue durée Kondratieff. Lamentaremos tanto mais que Pierre Chaunu não tenha quase saído. vamos a esse essencial. drama para a Europa inteira. nossas dúvidas. diferente por natureza. Amanhã. de êxito indiscutível (desde 1530 talvez) das navegações holandesas do Mar do Norte para Sevilha. Então. Em recentes leituras. Pierre Chaunu sustentou que ela também o prestava testemunho sobre a produção da Espanha e. a esse propósito. como a Revolução Francesa. Aix-en-Provence. A Parada: a História da Produção Seria preciso páginas e páginas para contar as riquezas desse interminável recitativo conjuntural. além.

enquanto que os preços-mental cedem de 20% a 30% . por quinze ou vinte no tocante aos tráficos. como que em vertical. A demonstração não está feita. de Felipe Ruiz Martin. tampouco. com uma inclinação três ou quatro vezes menor. . escreve Pierre Chaunu. por exemplo? Que haveria interesse em não limitar a oscilação cíclica unicamente aos movimentos dos preços. mas percebe-se. não é perfeita. em resumo.mentos de produção. o imperialismo espanhol \ 139 . . . Não . tem no seu conjunto de 1504 a 1608 e de 1608 a 1650 . quantas diferenças! A curva secular dos preços. mas sempre adiantadamente . com os anos 1580. é um pouco como uma prova. elas são precipitadas imediatamente para o refluxo. . Para mim. redução dos tráficos de mais do dobro no simples. pelo contrário. mas sempre com atraso sobre a dos preços: com a longa baixa. em vertical A longa alta dos preços parece desencadear sua viva ascensão. na hora em que. um começo de prova de que as curvas sevilhanas se comportam como curvas de produção. multiplicação dos preços por cinco mais ou menos!. e tornam a cair depressa.tenho razão em pensar que se trata aí de uma parada capital e que se desenha uma história com ciclos diversos imbricados numa dialética nova. Ora. tão prioritários no pensamento dos historiadores-economistas franceses? As pesquisas ainda inéditas. podendo-se dizer a seu' respeito. senão algumas curvas de produção têxtil (Hondschoote. . em geral. de Cordoba. vão apoiar a pesquisa de Pierre Chaunu: denunciam. a mesma orientação. . mas. Entretanto. Leyde. segundo o próprio sentido das pesquisas teóricas e atuais de um Geoffrey Moore. Não conhecemos. Essa correlação é positiva no seu conjunto. Veneza). no século XVI. no século XVI. impedido tanto quanto responsável. de Toledo. justamente a correlação entre as curvas de Pierre Chaunu (tráfico sevilhano) e as curvas dos preços de amilton. mas de publicação próxima. sobre a produção têxtil de Segóvia. nosso colega de Bilbao. de Cuenca. uma mutação característica do capitalismo internacional em face da Espanha. que sobem depressa. Para o período ascendente. todas apresentam o aspecto clássico: de uma curva parabólica. Para a fase descendente.

combinadas entre si. escreve. ao longo do rebordo oriental da Sierra Madre. Eis (fora de Las Palmas) as enseadas pouco abrigadas. elas "são acessíveis. Seu texto abunda em achados felizes. da Grande Canária. numa palavra. E internar-se-iam mais ainda no deserto se 15. Eis-nos. Não cabe a menor discussão a esse propósito. Entretanto. excelente. Assinalamos também. Alvaro Castillo 15 .. o problema técnico da evacuação das águas não será verdadeiramente resolvido antes da generalização das bombas a fogo do século XIX. À força de falar e de escrever iivremente. Em suma. escrito muito depressa? Pierre Chaunu escreve como fala. \140 .vai tentar empresas espetaculares. temos necessidade de sair das curvas de preços para atingir outros registros. «Dette f l o t t a n t e et dette consolidée en Espagne de 1557 à 1600». pp. sem proteção. mas teme a água. a próxima aparição nos Annales. se quisermos compreender a história do mundo. apenas aos barcos que fazem microcabotagem". A melhor salvaguarda contra a inundação. A inundação é o perigo que mais se teme (desde que se afaste um pouco da superfície). à procura das minas de prata situadas na articulação dos dois Méxicos. sua posição é lógica: A mina tem necessidade de homens. e talvez. Escrever muito ou escrever bem? O imenso labor de Pierre — e. os mineiros a encontram num clima sub-árido. feita por nosso colega de Valença. da curva dos asientos (empréstimos) da monarquia castelhana. 1963. Mas todo defeito tem suas vantagens. encontrar a fórmula clara. 5. freqüentemente. nesse vasto continente que é a Nova Espanha.S. o úmido e o árido. medir uma produção que até ali nos escapou e a cujo propósito da qual temos as orelhas cheias por excessivas explicações a priori. 745-759. estamos longe de esquecê-lo. o de Huguette Chaunu — resultou num imenso êxito. esse livro oceânico não é muito longo. Pierre Chaunu consegue. houvesse ele me submetido seu texto teríamos tido algumas belas disputas.C. graças a eles. Annales E. Todas essas séries precisam ser relacionadas. muito discursivo.

Gosto também de tal ou tal frase: assim. desde o fim do século XI. importadora de víveres. . 246). Ou essa frase de bravoure: O surto demográfico. toda embaraçada no seu passado mediterrânico". profundo vagalhão de fundo. 518-519). a crescer à sua custa (I.não se chocassem com outras dificuldades: falta d'água para os homens. prosseguindo sua idéia: A Espanha. entre 1520 e 1530. A segunda colonização cessa de ser. é uma Espanha que. ou em tantos outros que se poderia extrair desse tomo primeiro. indo das grandes Antilhas para os planaltos continentais. a se alimentar dela. completando sua colonização interna. magnificência do milho como sustentáculo de uma civilização! Quem mais o disse tão bem?. Ou essa forte e simples observação (II. que vai de 1500 a 1550. pp. a Andaluzia continua (no século XVI) a absorver a substância da Espanha do Norte. Mediocridade da mandioca como sustentáculo de uma cultura. constrange o Ocidente cristão à inteligência e às soluções novas. acrescentará mais adiante (I. escreve. de 1500 a 1600. falta de alimento . essa "navegação a velas. 5 1 ) : Cumpre situar a grande revolução dos preços do século XVI no seu contexto e não perder de vista que a primeira fase. p. Ou ainda. falando dessa vez da colonização do Novo Mundo: A primeira colonização espanhola é importadora de trigo. p. quase nada fez de início senão preencher a concavidade da longa e dramática vaga que recobre a segunda metade do século XIV e a totalidade do XV. p. portanto necessita uma ligação ponderosa e excessivamente custosa. onde a geografia freqüentemente tão bem inspirou nosso autor? Terra de colonização recente. no mesmo grau. . 29). O que repreender nesse texto. \141 . se apesanta em direção ao Sul. o centro de gravidade das Índias passou da esfera da mandioca para a do milho (1. Porque.

Se esses achados não ficarem perdidos em meio de uma escritura superabundante. esse esforço de eliminação e de escolha que não é apenas assunto de forma — ele poderia ocupar. \142 . se Pierre Chaunu se constrangesse a escrever curtamente — isto é. a refazer. no primeiro lanço. entre os jovens historiadores franceses. esse primeiro lugar ao qual seu poder de trabalho e sua paixão pela história já lhe dão direitos evidentes.

31 figuras no texto. 1-12. N o livro I. HÁ UMA GEOGRAFIA DO INDIVÍDUO BIOLÓGICO? 1 O belo livro de Maximilien Sorre. sem mais. nos livros I I e I I I . Armand Colin. Essai d'une écologie. mas tomou-se o hábito de falar de uma geografia biológica. Les bases biologiques de la Géographie humaine. u m dos dois sentidos. 2. tomo VI. a das plantas ou dos animais. essai d'une écologie de l'homme2 — sobre o qual. O subtítulo me parece discutível: há. 440 pp. in-8<?. Mas na verdade. gr. as palavras «geografia h u m a n a » . o segundo. sem dúvida. elas próprias n ã o são discutíveis? \143 . 1943. m á q u i n a vivente estudada fora de suas realidades sociais? M . na verdade. e n ã o Écologie. a palavra biológico se presta a u m d u p l o sentido: designa a biologia do homem. 1944. escreveu. Mélanges d'histoire sociale. biologia do h o m e m .. — Q u a n t o ao título. os dois sentidos e especialmente.8. pp. Paris. S. em volume precedente 1. u m a ecologia do h o m e m .

uma série de tomadas de contato. . obrigado a defender-se enfim. contra as doenças que o seguem por toda parte lhe fazem. A obra é capital. de um interesse poderoso. ao frio. uma pesquisa limitada. enquanto tal. seus processos e suas soluções. uma primeira operação. Antes de abordar os problemas complexos da geografia humana. o desenvolvimento de um tema prévio. tão concreta e vulgar quanto possível. na qualidade de planta e animal. O homem é captado. Lucien Febvre já atraiu a atenção de nossos leitores — não é. $ A originalidade dessa introdução provém de uma redução sistemática dos problemas do homem ao plano de sua biologia. do homem social ao homo faber ou ao homo sapiens — sem esquecer o homem realidade ou. exposta em todos os seus detalhes. que fica por escrever. às condições primeiras de sua vida c recolocado. de antemão. . Daí suas cautelas. coloca muitos problemas. no centro desse livro. não é estudado em toda a sua realidade. f Vê-se a intenção do autor: seu propósito é estreitar o estudo para torná-lo mais profundo e mais eficaz. quis para compreendê-los melhor. nas suas realidades de "homeotermo de pele nua". o homem e nada mais. na qualidade de 'máquina vivente. Só um dos lados (só uma das zonas) do homem é considerado: seu lado elementar de ser biológico. realidade étnica. à insolação. Não haverá. O homem que se estuda é assim reduzido às bases. sensível ao quente. ocupado incessantemente em procurar e em assegurar sua alimentação. uma obra de conclusão ou de conjunto sobre a geografia humana. como seu título o indica. a um tratado de geografia humana geral. num impressionante cortejo . esclarecer \144 . ao vento. para falar como Maximilien Sorre. o homem vivo. nas condições geográficas do vasto mundo. por assim dizer. que tem sempre diante do espírito e que são um de seus longínquos fins. sobretudo hoje em que se tornou consciente do perigo. pois. aqui. mas não todos os problemas ao mesmo tempo. Mais que uma introdução original e sólida. O homem.das Mélanges. uma coleção de seres. Ela é uma descoberta. talvez para contornar os obstáculos. à seca. e desde sempre. à insuficiente pressão das altitudes. isto é. mas somente sob um de seus aspectos. digamos.

nós o sabemos. segundo as perspectivas e as leis da geografia. como se se trata-se da ecologia da oliveira ou da vinha. É bem isso. que poderia provir de um livro de naturalista. mas o grande mérito desse O objeto. Mas não bastou a Maximilien Sorre resumir os trabalhos de outrem. ela o é. traduzi-los em termos geográficos. com efeito. à delimitação e à explicação de uma área de dispersão". na verdade! Não reside aí. que o autor se propõe: falar-nos da ecologia do homem. uma parte considerável de sua geografia. Haverá. escreve Maximilien Sorre. objetivamente descrito. se reduz. a pesquisa de um determinismo biológico — ao menos dos limites e das coerções inegáveis desse de' minismo? Não se pode dizer que essa pesquisa seja inteiramente nova. apesar de tudo. de maneira contínua. de maneira nova. dos biólogos e dos médicos. em suma. esse cuidado por problemas bem formulados e por investigações claramente concebidas. os problemas foram transladados sobre o mapa para serem assim formulados e estudados. eis que se trata do homem e isso complica tudo. notado e explicado. no fundo. cada vez que a coisa foi possível. conduzidas como experiências onde tudo é longa. antes de Maximilien Sorre. Foi-lhe preciso ainda transpô-los e. de início. Aí reside não só a originalidade.o que. antecipadamente. que são as do espaço dos homens. entenda-se que. Mas. jamais fora efetuada de um modo tão sistemático. indivíduo biológico. Creio que essa pequena frase luminosa e simples. de uma certa maneira — pois que. os problemas da investigação. No entanto. O homem biológico não é um desconhecido. "Nossa investigação. foram tomados aos livros e às pesquisas dos naturalistas. mas jamais fora aí introduzido com essa minúcia. uma geografia humana que fosse por si evidente. com as cautelas que se adivinham (particularmente num geógrafo da escola francesa). esse gosto pela exatidão científica. poderá mesmo haver uma ecologia do homem. Grandes problemas. elementar. Não é tampouco um recém-chegado. nos conduz ao coração do empreendimento. no campo da geografia. e que í 45 . tocando às realidades biológicas do homem. o liga ao espaço e explica.

destacada do contexto da vida? Acrescentemos enfim que. das riquezas de todos os problemas de seu vasto tema. ter sempre diante de si os mesmos obstáculos que na partida? Tal é o programa — diria mais ainda: tal é a grandíssima parada desse livro. . o conjunto do assunto colocado. não nos quis oferecer um estudo exaustivo ou um manual escolar. para ser verdadeiramente útil. Donde. elemento após elemento. longas introduções. O homem biológico é estudado sucessivamente nos quadros da geografia física (livro I ) . distinguidas das regiões vizinhas. a clareza ou a qualidade didática de suas explicações. nos quadros da biogeografia (livro II). Acrescentemos que antes de empreender essas viagens de reconhecimento. senão de maneira sempre muito explícita. Seguramente. mas ainda. A obra divide-se em três partes. quaisquer que sejam. os problemas da psicologia clássica? — Mais ainda. ele se detém no estudo de zonas privilegiadas. muito depressa. sobre as quais ele fala depressa. ou não fala de modo algum. primeiro estádio. e é muito. Nada mais.nos desse a chave de muitos problemas complicados — do modo pela qual os fisiologistas de ontem e de anteontem tentaram tomar às avessas. e resolver. Maximilien Sorre. Esses três livros são bastante independentes uns dos outros e. essa geografia de base poderá ser isolada. Deliberadamente. será preciso não apenas que ela possa ser distinguida e definida. em conclusão. levou-o amiúde a simplificar sua investigação. notemo-lo bem. que permita. todos eles não recobrem. Se não me engano. aliás. De que serve fragmentar a realidade. esse desejo de abrir algumas vias e não todas as vias possíveis. nos quadros de uma geografia das moléstias infecciosas (livro III). com efeito. Quis atingir por três vias diferentes as realidades básicas de uma geografia biológica. esclarecer o conjunto dos problemas da geografia humana. Maximilien Sorre explica cada vez a seus leitores — e é o último traço de seu livro — o que lhe cumpre conhecer das condições científicas do itinerário a seguir. se se deve. na chegada. seu método não é um reconhecimento detalhado dos limites das possibilidades.

É somente depois de ter feito o balanço desses problemas de geografia física que Maximilien Sorre estudará a influência desse clima real sobre o homem biológico. climatólogos e geógrafos têm-se esforçado em renovar esse estudo do clima. seu aspecto particular: primeiro tempo. de outra. geográficas ou não geográficas. escolha de itinerário). Não será consagrado às relações do homem e do meio físico em geral. Os métodos gráficos de representação e de síntese se aperfeiçoaram. . Segundo tempo: o sujeito biológico assim anunciado não será imediatamente abordado. mas unicamente às relações do homem e do clima. de uma parte. dos microclimas e dos tipos de tempo. com certeza. Eis o livro I. por sua justaposição. o ponto mais importante. Não será preciso explicar-se em primeiro lugar o próprio clima? Há uma vintena de anos. ainda que o clima seja. segundo tempo. no estado bruto. Ler-se-á com proveito o que ele diz das climografias ou climogramas. a um inventário um pouco simplificado. foi determinar a influência térmica do clima — quanto a precisar quais J47l . Assim. em apreender as realidades fora dos valores medianos teóricos que freqüentemente as deformam. Maximilien Sorre julgou pois prudente resumir esses trabalhos importantes num prefácio cheio de fatos e de estimativas úteis.minuciosas recordações de noções úteis. não retendo senão um instante ou instantes — cada um estudado em si mesmo — de uma história climática em movimento perpétuo. por mais necessárias que sejam. sendo o alvo perseguido o de apreender o clima real. de estar um pouco à margem da investigação propriamente dita. estudo da zona privilegiada . Essas observações nos ajudarão a resumir melhor uma obra que resiste bastante bem. Aqui. simplificação (digamos. A simplificação é portanto considerável (primeiro tempo). . vemos nos processos do autor três operações bastante regulares e que dão ao livro. o fator essencial de uma ecologia do homem. por assim dizer. terceiro tempo. recordação das noções essenciais. por si mesma. limitando-se a um espaço tão estreito quanto possível. que causam por vezes a impressão. para não ter que levar em conta as diversidades locais.

mas com seus riscos e perigos fisiológicos. Os historiadores farão bem em se reportar ao excelente parágrafo (pp. . indiferentemente solicitada num ou noutro sentido entre essas duas temperaturas que o autor considera. da formação e dos limites da oekoumene3. criadora ou destruidora do calor interno segundo as condições do meio exterior: criadora até mais ou menos 16°. portanto. . uma zona do frio abaixo de 16°. onde são abordados os problemas complexos de uma biogéografia questionada direta e indiretamente. Eis. destruidora além de 23°. Ê a ocasião de dar à luz as duas grandes barreiras que se opõem ao "cosmopolitismo natural" dos homens. após discussão. O resultado do primeiro livro é o grande problema. devido ao seu poderio e aos triunfos da colonização — presente em toda parte. as outras influências climáticas são estudadas: ação da pressão atmosférica (caso particular da altitude). o mundo dos vegetais e dos animais: que relações de força. em face do homem. da luz (grande problema da pigmentação cutânea). uma zona do calor acima de 23°. Mesmo método com o livro II. eminentemente geográfico. sem contar os outros.são as temperaturas mais significativas para o organismo humano — essa máquina homeotérmica. de luta 3. as mais interessantes para seguir sendo talvez. pois que ele está presente no globo inteiro. Teremos. Para ecologia e oekoumene. As obras citadas na bibliografia permitem penetrar utilmente na abundante literatura do tema. as adaptações do homem branco. os limites polares de uma parte. os limites altitudinais de outra parte. da umidade do ar. 94-106) consagrado à aclimatação dos brancos nos países tropicais. as adaptações humanas do clima foram e são muito variadas. com todas as possibilidades desejáveis de translado cartográfico. conservo d e n t e m e n t e . No interior dessa oekoumene. da eletricidade atmosférica e mesmo dos complexos meteoropatológicos mais ou menos explicados no estado atual de nossos conhecimentos. Por sua vez. e mais ou menos à sua disposição. como as mais interessantes do ponto de vista fisiológico. Evi- \148 . hoje. se se quisesse discutir! a ortografia do livro. do vento.

essas associações do homem têm necessidade de que este efetue por elas a conquista do "espaço" 4 ? Enfim. em estado de modificação constante? Eis alguns dos problemas que Maximilien Sorre soube apresentar com uma clareza e uma competência que seus trabalhos anteriores garantiam. e diríamos mesmo. — em um total de 2 milhões de espécies animais conhecidas e de 600. da vinha. esse conjunto de associações do homem em luta com as inumeráveis forças da vida e. etc. pode estar em discussão e ser explicado em algumas linhas. como conseguiu isso? Em que medida a domesticação atuou sobre seres retirados da vida livre? Como o homem propagou seus "associados". Semelhantes explicações levaram forçosamente o autor muito longe no estudo do meio de vida em lutas incessantes. Essa orientação da pesquisa nos dá.ou de ajuda mútua vão-se estabelecer. nos vegetais cultivados e nos animais domesticados pelo homem (43 espécies animais. com exclusão de outros aspectos. um longo estudo sobre esses companheiros vivos do homem. e ainda é um grande problema. Onde e quando o homem associou a si tantas vidas paralelas à sua.000 espécies vegetais). P. por que será ameaçada e por que será salvaguardada essa "ordem humana". freqüentemente imbricadas umas nas outras. O parasitismo das associações do homem. dotadas de um dinamismo progressivo. 600 espécies vegetais. mas visto em geral — e não tal como será tratado pelo autor. contra algumas outras vidas — no caso presente. na verdade. tão numerosos quanto tenazes. aqui muito denso. desta feita. sob a forma de uma introdução detalhada e amiúde muito nova. segundo Geoffrey Saint-Hilaire. Admiráveis problemas. o qual está interessado apenas. diferentemente das associações naturais. até o coração da geografia desse vasto combate conduzido por certas vidas (as do algodoeiro. 188. se a questão não estivesse sem resposta válida. Mas não se poderia resumir ponto por ponto o texto do livro. \149 . pois. e a história 4.). que liames de caráter geográfico vão se travar entre esse mundo dos seres vivos e a biologia do homem? Assim se formula o problema desse segundo livro. segundo Vavilof. as dos parasitas.

Postos esses marcos. mergulha também. as velhas comunidades agrárias. enumera os meios pelos quais o homem pode satisfazê-las: donde. ele retoma bruscamente seus direitos na segunda parte desse livro. Donde ainda. O homem deve alimentar-se em detrimento do mundo vivo associado à sua existência. essa excessão). até os problemas do homem real. dessa "ordem humana" (vejam a conclusão das páginas 214-215). muito rica em fatos precisos. mas. a tentativa de uma geografia dos regimes alimentares (pp. todo um parágrafo sobre a própria história da alimentação. quer se trate da evolução ou do estado presente dessa ordem? Pois nesse jogo. encontra-se o homem social. Durante essas longas explicações prévias. chega-se ao essencial da investigação. tão freqüentemente invocadas na aurora das domesticações e das conquistas agrícolas. a crise da filoxera)? E todo o problema enfim. Sorre responde a elas levantando. para a vida francesa. 264-290) que. dos vastos Estados modernos e mesmo. e Maximilien Sorre soube mostrar sua enorme importância. por ser muito pesquisada. com efeito. em apreciações e novos ensinamentos. Após o que.das grandes lutas contra os flagelos das culturas e as epizootias (pensemos no drama que foi. M. seguramente a mais rica da obra inteira. Que exigirá ele. ou se esforça por velar. na escala das velocidades e dos terríveis flagelos a combater. sobre as riquezas biológicas da humanidade. a lista das necessidades. do mundo inteiro. mas também social desde que o homem está em jogo. uma longa passagem sobre as preparações alimentares mais comuns ( pois não há geografias do festim. quer dizer. que eu consideraria de bom grado como a passagem mais importante. seria possível afastá-lo sempre? o homem social. ou seja. perdeu-se de vista o homem biológico. Uma solidariedade mundial vela. e não apenas do homem \150 . não digo a mais brilhante. problema biológico quando se consideram plantas e animais. ao mundo livre das plantas e dos animais e ao mundo mineral. primeiro. atualmente. em comparação ao que lhe fornecem suas culturas e seus animais domésticos? O estudo dessas necessidades alimentares coloca múltiplas questões.

senão um fato social. . E nesse ponto. negligenciando os maiores e todos aqueles que são visíveis a olho nu. O autor vai escolher entre os antagonistas do homem. É portanto a esses infinitamente pequenos que está reservada a luz desse último livro. recomendações que também valem para os segundos? Terceiro e último livro. o agente patogênico. 273 e seg. vai reservar sua atenção aos menores. O meio vivo ajuda o homem a viver. esperamos as mesmas simplificações. o que são. em toda a sua coesão social e com as coerções de seus usos e de seus preconceitos — que deve encontrar e que encontra uma geografia da alimentação. da associação do trigo. Aqui. Assim. depois escolher entre eles verdadeiros privilegiados.biológico. \ 151 . Pode ser de outra maneira? Por exemplo. e o põe sem cessar em perigo. até certos cogumelos microscópicos. . essa propagação a partir do Oriente antigo. que. É o homem na sua complexidade — em toda a espessura de sua história. infelizmente. Será essa a razão pela qual Maximilien Sorre multiplica as recomendações relativas aos primeiros. são os mais perigosos: dos ultravírus. Com efeito. 267 e seg.? O que é. como é justo. e. muito numerosas. as mesmas aproximações e precauções que anteriormente. mas também luta contra ele.)? É necessário de dizer quão originais e novas são essas páginas sobre uma geografia alimentar? Em geral. além das duvidosas fronteiras entre os reinos animal e vegetal. ao que os homens podem comer . como essa tribo das microbacteriácias (com nome tão revelador de nossas ambigüidades científicas) que conta entre outros. não têm grande coisa a invejar-lhes. os historiadores de hoje. na França. as doenças infecciosas se propagam de diferentes maneiras. Mas para outras doenças. protozoário ou cogumelo. a tuberculose se transmite diretamente de indivíduo a indivíduo. com os agentes da tuberculose. aliás. convenhamos. nô-los apresentar. Vai-se. esses inframicróbios. ainda. o mais brilhante da obra. os geógrafos são poucos atentos. da vinha e da oliveira (p. por todo o Mediterrâneo. da lepra e do mormo. esses regimes alimentares urbanos evocados p. senão um grande fato de história cultural. até às diversas bactérias.

mais clássico ainda. do parasitólogo. segundo a hipótese de Nicolle. supressão do vector em certas doenças. 5. se houvesse necessidade. H á . 301 e seg. digamos com vectores. S O R R E . peste bubônica. Agente patogênico. se superpõem ou se imbricam uns nos outros. às espiroquetozes recorrentes. os agentes infecciosos são igualmente hematozoários. etc. que é o infinitamente pequeno de base. aos tifos. Encontrar-se-á em anexo a esse estudo (p.): ela associa um hematozoário. Quadro e mapa sublinhariam. Mesmas observações e mesmos mecanismos no tocante à da peste. tão bem provida. Trypanosoma gambiense. 293. um quadro útil de alguns grupos nosológicos importantes e (fig. nessa resenha já longa. Aqui. homens se associam nos complexos patogênicos que Maximilien Sorre pôs no centro de seu estudo. à mosca tsé-tsé ( Glossina papalis) e. assim no caso da tuberculose? Gf. \ 152 . a natureza exata das pesquisas nas quais o autor se acantonou. mal de Chagas. 22) um planisfério indicando a localização de algumas grandes endemias: febre amarela.por seu próprio ciclo de vida associa o homem a outros seres vivos que são os vectores da moléstia. que analisará de preferência às outras 5 . nem como evoluem. Mas é inútil. Um exemplo também explicativo seria o caso. provas de apoio e sempre na seqüência do autor. doença do sono. enfim. Cabe aos especialistas saber como se comporta. vectores. ao homem. em seguida. 231). mas do gênero Plasmodium e o vector é fornecido pelos anófeles. Complexo patogênico? A título de exemplo. à febre púrpura das índias. às leishmanioses.. tularemia. às rickettsioses. do complexo malário (p.). o leitor poderá se reportar ao caso da doença do sono (p. e transmissão direta. ao tracoma e a muitas outras doenças que saem da prateleira. 298 e seg. como os complexos patogênicos se cruzam. porque são essas doenças. em que etapa de seu desenvolvimento se encontra o hematozoário — e quais são seus aspectos característicos em cada uma de suas permanências e mudanças de hospedeiro. apresentar outros exemplos e mostrar. do germe patogênico de h o m e m a h o m e m . p. com suas respectivas áreas de extensão e os grandes centros de sua difusão. dos quais 70 espécies podem veicular o impaludismo. Cabe ao geógrafo transportar a área da doença para o mapa.

no livro I. F. relevo) e um complexo de água. A análise que precede não foi completada. por exemplo. ele esboça a geografia dessas doenças infecciosas. sobre os problemas da alimentação e das doenças? E ao seguir essas influências indiretas. porque ela se divide um pouco demais. o mais importante). tenha-se restringido à discussão do problema do clima. podemos agora criticá-lo exatamente no pormenor. ser-lhe-ia preciso. embora compreendamos inteiramente certas necessidades de arranjo.). por baixo. no último capítulo (ainda uma vez. o alentado volume que escreveu. ainda. não há um complexo telúrico (solo. subsolo. dobrar.Quais são as condições de vida desses complexos patogênicos — qual sua ecologia. com efeito. Pensará nisso para uma segunda edição? Lamento também que o estudo do quadro físico. além disso. tão diverso (triplo pelo menos) e tão denso? Não mais do que tenhamos conseguido analisá-lo bem e a segui-lo passo a passo. algumas das grandes questões que Maximilien Sorre expõe com sua habitual exatidão. 381 e seg. com muita freqüência. o estudo de influências sucessivámente revezadas? O clima não age. ao lado do "complexo climático". Poderia sê-lo com um livro tão novo. Em seguida. Se Maximilien Sorre nos quisesse dar satisfação. Mesmas queixas a propósito do livro II. Indiquemos apenas que lamentamos as restrições deliberadas da investigação. Aqui teriam sido bem-vindos alguns parágrafos sobre as plantas e sobre os animais livres. entre as três investigações sucessivas que assinalamos. com exemplos por vezes desenvolvidos — nomeadamente no que concerne à nosologia. do Mediterrâneo (p. repercutidas. Gautier gostava de falar \ 153 . a obra não teria sido mais unida do que é. admiravelmente estudada. a ação do homem sobre eles: tais são. para meu gosto. sobre a pululação dos animais selvagens nos vazios ou nas regiões da oekoumene. insuficientemente ocupadas pelo homem — pululação da qual E. a do agente e a do vector — qual também. sobretudo se não nos atemos unicamente às ações diretas dos fatores físicos sobre a ecologia do homem? A geografia não é.

— ou sobre as florestas. não se viu em demasia os problemas através do manual de Brumpt? Em suma. . semiescravas. muito mais do que se pensa. . mas também incorparadas à "ordem humana". Essai d'une carte des graisses de cuisine en France. Será na m e d i d a em q u e essas doenças a c a r r e t a m o estudo de uma ação do h o m e m sobre o h o m e m . não se reduziu demasiado a matéria medicinal a ser estudada? Nada ou quase nada diz da tuberculose 7 . que se tenha dado lugar a todas as observações úteis da geografia medicinal (e notadamente da Geomedizin alemã). Ver página 342: «A sífilis parece segur a m e n t e ser de o r i g e m a m e r i c a n a . nas Índias. dado. da qual fala Maximilien Sorre. deveria ter sido i n t i t u l a d o . pelo 1" congresso do folclore francês? Para o último livro enfim. sem fornecer provas pessoais. entre elas. 194 e 308). os f u n d o s de cozinha são o u t r a coisa). do câncer ou da sífilis. No que concerne aos capítulos consagrados à alimentação. ele. como o mapa dos recursos de cozinha 6 . Não creio tampouco. a história das substituições de g o r d u r a à g o r d u r a seria a p a i x o n a n t e (Lucien F e b v r e ) .F. por exemplo. nos últimos anos do século XV. proveniente da América 8 . não fomos privados de uma parte do tema? Não se insistiu demais nas doenças parasitárias e. para a França. não haveria ali matéria para um verdadeiro livro autônomo onde fosse possível. essas associações semilivres. \154 . p o r t a n t o um estudo social? Tuberculose. embora se t e n h a dito isso por vezes». na A. estando as árvores (mesmo nos países tropicais). além disso. Todas as moléstias (ou pelo menos muitas moléstias) variam com o espaço. sob a dependência e sob o controle do homem . d o e n ç a das cidades? 8. M a x . para além das observações gerais que impõem a escala do mundo. Algumas ocupam áreas tão precisamente delimitadas que essas áreas as explicam. a favor da origem a m e r i c a n a . que fosse r e t o m a d o por bons pesquisadores. nas regiões ricas em sal de magnésio. apresenta formas particulares. cuja carreira tem sido tão brilhante desde que chegou à Europa. O câncer. nas doenças com vectores. mas. multiplicar os casos particulares estudados de perto e reproduzir um documento tão interessante. o autor nos diz o essencial. Sorre se pronuncia. com efeito. q u e sua investigação fosse histórica ao m e s m o t e m p o que geográfica. i m p o r t a r i a . 7. não 6 . (Pois q u e F e r n a n d Braudel quis l e m b r a r b e m esse t r a b a l h o do qual tive a idéia e que foi conduzido sob m i n h a direção (aliás. os geógrafos dispõem de toda u m a a r m a d a .. O treponema pálido não é assinalado senão incidentalmente (pp.E. seria desejável. é o caso da papeira. com efeito.

estendidas sobre vários séculos ao mesmo t e m p o . inundações devastadoras. de períodos secos e quentes a períodos menos quentes e. encontramos aí formas particulares de pneumonias. H u n t i n g t o n terá razão. sem mais. ao longo das margens russas e siberianas . convenho. ou mesmo. mas o fato é tao seguro? — N u m caso análogo. Bastaria. Mas não vejo bem como se poderia excluir de um livro de geografia. escreve. . não f a l t a m . que os trabalhos sobre os pneumococos tem sido muitas vezes realização dos anglo-saxões. todas as ordens. £ somente por causa dos homens que no século X I X as fontes superficiais se exauriram na Sicília? N o século X I V e no século X V . È assim que. p r o c u r o u a explicação dessa singularidade (o desaparecimento de florescentes estabelecimentos urbanos no país do Péten e de U s u m a c i n t a ) na hipótese de mudanças de clima acarr e t a n d o u m a variação da morbidez infecciosa. lentas m o d u lações de clima passando por debilíssimas variações sucessivas e desníveis totais bem pouco importantes. não colocar ou recolocar essa questão? H á . Há na Inglaterra e. Deitoêl. Segundo os mais categóricos dentre eles. H u n t i n g t o n . bastante clara desde o fim do século X I X . as questões que acabo de indicar. H u n t i n g t o n . — O clima m u d a r i a sob nossos olhos? A questão é daquelas que devem interessar do mesmo modo os climatólogos e os geógrafos. Sublinho a frase.haveria casos de câncer (teoria de Delbet) 9 . É também se estabelecendo sobre o terreno da história que a gente se queixaria de bom grado. mais úmidos. DELBET: 10. se existe variação. não é apresentado. 394. mas perturbadores. do mesmo modo. com o fim do século X V I . invernos mais rudes. Nós o lamentamos muito particularmente de nosso ponto de vista egoístico. com Gaston R o u p n e l . o exemplo dos avanços e dos recuos dos glaciares dos Alpes (até mesmo do Cáucaso). a d i m i n u i ç ã o do banco de gelo ártico. em todo caso. é preciso pensar. íormas de escarlatina e de gripe muito perigosas. para resolver a questão. 1944. pela negativa nas últimas páginas do livro 10 . Maximilien Sorre se esforçou por distinguir sua investigação de uma simples obra medicinal. ousarei dizer. n ã o recolocaria em questão todos os problemas. entretanto. será uin erro? Historicamente. todos os equilíbrios da vida? Muitos autores respondem pela a f i r m a t i v a a coberto de provas e de autoridades bastante duvidosas. Essa variação do clima. A iluminação histórica dos problemas teria ganho se fosse menos sumária e mais sistemática. q u a n d o sustenta que o p r i m e i r o i m p é r i o m a i a foi vítima de u m cataclisma. sobretudo. T o d a a política dos soviéticos nesse N o r t e ártico nos foi apresentada como f u n d a d a sobre a hipótese de u m r e a q u e c i m e n t o atual do Ártico. P. responder pela negativa. Paris. que tantos estudos colocam de novo. Essa hipótese não é necessária». malgrado tudo. os exemplos duvidosos. das quais não conhecemos o equivalente na França. por vezes tão rigorosos que as oliveiras ge\am I^o mesmo modo. u m a g r a v a m e n t o das condições climáticas na Baixa Toscana. e mesmo esse problema é resolvido um pouco depressa. que as calamidades européias são f i n a l m e n t e imputáveis à perturbações de clima? Constata-se. a proposito d a destruição d o p r i m e i r o i m p é r i o dos M a i a s e das teorias de E. o problema das variações do clima na época histórica. 9. aliás tão graves. de uma m u d a n ç a climática? T a l n ã o é a opinião de Maximilien Sorre: «E. N ã o pudemos t o m a r c o n h e c i m e n t o do livro de P I E R R E Politique préventive du câncer. no primeiro livro. sem dúvida. para explicar a recrudescência da malária na Itália do século X V I (e \ 155 . nos Estados Unidos. p r o d u t o r a de grãos.

e a nota. tampouco. Hauser gostava de explicar nos seus cursos? \156 . a esse respeito as notas p r u d e n t e s de E. p. E. nos países baixos mediterrânicos. . 11. poder-se-iam citar centenas de exemplos históricos que teriam encontrado. uma história da m a n t e i g a rançosa que e n t ã o se transportou por barcos de Bône à Argel. seu lugar na narrativa do livro III e que. Temos u m a história da. P a r a certos aspectos sociais dessas transformações (a propósito do café. das águas estagnantes. Sombart sobre o impulso que t o m a r a m as indústrias de conservas nos séculos X V e X V I — ou essa história nórdica e a t l â n t i c a do boi salgado que H . dado o caso. por exemplo.r á p i d a mesmo) da América. poder-se-ia dizer. — não bastante desenvolvidas. obscuros t a m b é m : não resolvem o problema contra a opinião dos geógrafos partidários da imutabilidade do clima dur a n t e as épocas históricas. eles o colocam com mais clareza. não as julgamos ainda bastante numerosas. . n ã o se poderia pensar (sobretudo tratando-se do século X V I I . Phillip H i l t e b r a n d t supõe a chegada de novos germes maléficos. 239. faremos a mesma crítica. sem dificuldade. Quantos ainda. os de u m a malária tropicalis. Cf. para as epidemias de peste bubônica fora do Mediterrâneo e no Mediterrâneo. por conseguinte. À maneira de H u n t i n g t o n . ao citar-se. p. p. se não me engano. condição das mais gloriosas armadas? Sem trigo não há f r o t a . das cozinhas francesas? ou. sem dúvida. mas mais tarde ainda q u a n d o não eslão vitoriosamente acabadas) de u m a g r a v a m e n t o da malária. em um exemplo (Impaludismo e história. talvez mesmo até Constantinopla? Muitos historiadores conhecem as dificuldades da f a b r i c a ç ã o do biscoito. no fim das contas.Não faltam as observações históricas nos capítulos relativos à alimentação 11 . Q u a d r o sumário dessas revoluções no m a n u a l clássico de história econômica de Kulischer. se prestariam a interpretações cartográficas úteis: assim. penso especialmente. na peste de mais g e r a l m e n t e no M e d i t e r r â n e o daquele t e m p o ) . discutíveis. de D j e r b a à Alexandria. 314: « U m a periodicidade de perto de 30 anos não está longe de ser verossímil». em r á p i d a proveniência ( u l t r a . A notar o p a r á g r a f o consagrado às sobrevivências dos regimes alimentares primitivos. 12. u m a história do óleo ou da m a n t e i g a — até mesmo no M e d i t e r r â n e o do século X V I . do chá. nesses domínios. não. Maximilien Sorre nos mostrou o interesse desses retornos ao passado. sobretudo. n o t a d a m e n t e . como toda agitação do solo nessas zonas perigosas? Muitos outros pequenos fatos seriam. Pena q u e não tenha falado das conseqüências que tiveram algumas grandes revoluções alimentares da época m o d e r n a na E u r o p a . 240. q u a n t o o sistema de Law ou q u a l q u e r o u t r a grande questão clássica. bem o quero. de u m a idade dos milhos miúdos». além disso) n u m ligeiro a u m e n t o das precipitações atmosféricas e n u m a conseqüente ascensão. Tantos exemplos históricos nos parecem. citamos ao acaso. no M e d i t e r r â n e o dos navios redondos e dos navios a remos. mas. p. sobre a antiga prior i d a d e dos cereais em pasta e n o t a d a m e n t e dos milhos miúdos: «podcr-se-ia f a l a r . mas aqui. Nesse domínio. conhecem tal nota reveladora de W. pp. n u m a multiplicação de jazigos anofélicos? S e m p r e pensando. de M A R T O N N E em La Francc (Géographie Universelle. 1943). primeira p a r t e . tanto mais que. em outras explicações t a m b é m plausíveis: o a u m e n t o dos homens. talvez tão interessante. a multiplicação das «bonificações». tão reveladores das próprias realidades dos regimes alimentares 12 ! Em relação às doenças infecciosas. criadoras (em seus inícios. Os historiadores franceses contemporâneos são pouco atentos em geral. ou melhor. da cerveja) ver H E N R I B R U N S C H W I G : La crise de 1'Êtal prussien à la fin du XVlIe siècle et la genèse de la mentalité romanlique. em todo caso. 392-400). 313: « O espírito do sábio volta-se i m e d i a t a m e n t e para a hipótese de uma periodicidade». à história da alimentação.

por expedições. 1.Palermo. . não obstante tudo o que tem sido feito nesse sentido (e foi feito muito). p. se quisermos enriquecer ao máximo. sobre a qual temos uma porção de observações medicinais. quantas conquistas laterais não restam ainda hoje por fazer. Ele vale por seu conjunto. Conquistas por perfazer também.57 . por conquistas laterais (por justaposição). indiscutivelmente. penso também nessa epidemia de gripe "inglesa". pelo menos. bem mais inacabada que as outras ciências do social. Tampouco está. . durante os anos 1590-1600. Talvez tão inacabada quanto a própria história. endêmico na Rússia. das ciências da natureza. precisar seu objeto? Conquistas por terminar. como o próprio livro de Maximilien Sorre. Obriga-nos. Mas precisamente. "acabar" a geografia ou. nos séculos XV e XVI. mas sobre terras vizinhas e já ocupadas? A obra de Maximilien Sorre assemelha-se a essa grande conquista das riquezas. dos etnó13. essa velha aventura intelectual. 1. eles e muitos outros. 137: «Ela (a geografia) define pouco e mal os termos que emprega». A geografia científica não se constitui. em possessão de um domínio perfeitamente reconhecido. Cf. menos ainda. tanto quanto ao inverno. em certas teses e estudos de geografia regional. seu interesse geográfico? Mas esse belo livro não coloca problemas interiores ou questões de detalhe. não numa espécie de no maris land. a da história e da pré-história — ainda não realizada. nem plenamente segura de seus métodos. feita ontem pela geografia e conseguida por ela. Historiadores. sobre esse p o n t o a nota de F R A N Ç O I S P E R R O U X . ou nos surtos da cólera asiática através da Europa Oriental e Central onde. dos folcloristas. nem. o grande desastre de 1812 . os altos países alemães permanecem indenes. Ali estão seus problemas exteriores. Os geógrafos o sabem: a geografia (como a história) é uma ciência muito inacabada. sobretudo hoje. atribuem às devastações do tifo.9 ano. não teriam. Cours d'économie politique. regularmente. isto é. curiosamente detida nos países bálticos em sua expansão para o Leste. após tê-lo lido e relido. etc. a reconsiderar o próprio conjunto da ciência geográfica. Esses problemas. as que reduziriam à ordem geográfica as aquisições dos economistas 13 .

O mesmo conselho. 9. de uma maneira geral. não no homem. mas esse livro não veio muito cedo (em 1922)? Tanto quanto nos liames do espaço. ainda que tão útil no seu tempo. o homem está nas malhas do meio social — e não haverá geografia se ela não apanha a mãos cheias essa realidade social. — mas para transformá-lo em riquezas novas. é quando ele se considera. duvido que uma geografia humana viável. uma descrição da terra 14 e que seja. retomar a empresa de Jean Brunhes. Na verdade. \ 158 . p. Não nego. tranqüilizado sobre o caráter geográfico de sua empresa tão logo desemboca no espaço — digamos num mapa. I m p r e n s a s Universitárias. dos sociólogos. segura de seus métodos. Enquanto essas reduções não forem efetuadas. ou como ele o diz. dos etnólogos. para ir até o fim de meu pensamento. e. entendo um sistema de análise e de controle. de Lucien Febvre. 14. uma segunda coordenada — que é desembocar. ela tem talvez uma segunda meta. Inútil. aparece em La Terre et l'évolution humaine. numa área de extensão. uma ciência do espaço. A N D R É C H O L L E Y . que a geografia seja. o estudo espacial da sociedade ou. seja verdadeiramente possível. 121. no último livro de Albert Demangeon. mas nos homens. sim. o estudo da sociedade pelo espaço Encontra-se. antes de tudo. Guide ie l'étudiant en géographie. essa exortação: "Renunciemos a considerar os homens como indivíduos" 15 . aliás? Mas essa tarefa é a única? A geografia encontra talvez no espaço um fim e um meio. p. à sua maneira. 15. após tantos outros. na sociedade. linhas e eixos. ALBERT DEMANGEON. com respeito aos quais a redução deve fazer-se. e mais amplamente motivado. antes desse termo. 28. certamente. O ponto onde me separo de Maximilien Sorre. Tomar seu patrimônio em outrem. / A geografia me parece. p . Problèmes. na sua plenitude. contestável hoje. Quem o negaria. Paris. Mais descrição «homocêntrica». múltipla como se sabe. E essas reduções serão possíveis e frutuosas — o que complica ainda o problema — apenas no dia em que forem fixadas as linhas mestras da própria geografia. seus eixos de coordenadas.grafos. 1943.

entretanto. é sempre injusto não se contentar com as riquezas que uma obra como esta vos traz em profusão. os do passado . . " É ele ainda que escreve. o que mais pode ser freqüentemente essa ecologia do indivíduo. É dos homens que é preciso dizer — os do presente . pelo menos dupla: redução ao espaço. e ele as explica em meias palavras no seu prefácio e na sua conclusão onde se encontrariam sem maior esforço os próprios termos de que nos servimos para efetuar a crítica de seu desígnio. Há influências que não se pode dissociar". . Por conseguinte. 10) à u m a o u t r a obra. o estudo do meio climático u r b a n o . 37-38. de sociologia. Não é ele quem escreve (p. digamos. no que concerne os microclimas artificiais. . na realidade. e onde ele só se aprofunda quando é constrangido a fazê-lo pela unidade viva. . a palavra que sublinhamos. sim. o fato de que M . Sem dúvida. se não pesquisa as grandes linhas do esforço "dos homens sobre as coisas" 16 tanto as coerções quanto as criações da vida coletiva. Segundo a expressão de M a u r i c e Halbwachs. mas. mas também redução ao social — esse social que o livro de Maximilien Sorre evita. tratando-se do estudo de certas moléstias infecciosas. . 17. 10): "Ainda assim é muito simples falar do homem. toda redução de fatos humanos à ordem geográfica deve ser. exceto uma abstração. evocada e não estudada deliberadamente. se possível. Dir-se-ia mesmo que a preocupação de Maximilien Sorre.ao mesmo tempo matéria de história. aquela por aparecer. tenho necessidade de dizê-lo. Seu desejo foi ater-se. Bem característico. nessa mesma página de prefácio: "A interação do meio social e do meio natural será portanto evocada . infrangível de seu assunto. o que faz diferença. Evocada. Pp. muito difícil? Entretanto. de economia política. a uma ecologia do homem enquanto indivíduo biológico. que ladeia. apenas assinaladas por sua exposição. amiúde visíveis sobre o solo . . Ou ainda. Maximilien Sorre foi perfeitamente atento às restrições que se impunha. . é bem reveladora. um caminho demasiado estreito. certamente. impraticável ou.. foi deter-se nesse mau caminho: assim. ao menos. \ 159 . p. que colocam os grandes problemas da geografia da vestimenta e do abrigo 17 . t e n h a reservado (Cf. que é um pouco 16. S. me parece.

Mas esse livro terá plena eficácia. de Lucien Febvre. mais unitária. e os historiadores não serão os últimos a consultá-lo. está perfeitamente dentro da brilhante tradição da escola francesa de geografia. desde os Príncipes de géographie humaine. \160 . a obra. Um rico futuro o espera. Pela qualidade de sua escritura. As ciências geográficas — e todas as ciências sociais — hão de tirar todas as vantagens dele. sobretudo. em situar um exemplo ou um detalhe de história ou de lenda. numa série de toques breves. de uma magnífica empreitada. por seus retornos insistentes às margens clássicas do Mediterrâneo. que faz pensar em Jules Sion. desde La Terre et l'évolution humaine. que seja a hora de sua aparição. tal como é — por pior escolhida. por seu talento em evocar. por sua habilidade em seriar os fatos e em ligar os desenvolvimentos. A vida intelectual é um combate: esse livro nos traz o exemplo de uma bela.lamentável que esse belo livro não tenha sido concebido de maneira ainda mais ampla e explicado com mais insistência e clareza em sua arquitetura de conjunto — que desejaríamos que fosse mais clara. talvez mais ambiciosa. paisagens dispersas pelo mundo inteiro ou em tornar sensível o clima de uma época passada. infelizmente. no seu espírito e por seu humanismo. melhor organizada por dentro. Nesses domínios tão difíceis e tão apaixonantes da geografia humana. nenhuma obra dessa qualidade nos havia sido oferecida há longo tempo. muito simplesmente. pela riqueza de sua experiência direta e de seu conhecimento científico. de Vidal de La Blanche.

abril-junho 1959. Neue Wege der Sozialgeschichte. dois dos dez artigos reunidos no presente 1. n. R u p r e c h t .9. 1956. 256 pp. Vorträge gen. Dehats und et Comhats pp2 .C. Annales 308-319.. SOBRE UMA CONCEPÇÃO DA HISTÓRIA SOCIAL 1 Estou atrasado para falar do livro complicado. E. Os historiadores leitores de revistas gerais conheciam.S. aliás. mas que apenas acaba de chegar aos Annales (após erros assaz fortuitos).® 2. por tê-los lido e apreciado em seu devido tempo. publicado em 1956. Aufsätze. alerta e ambíguo de Otto Brunner: Neue Wege der Sozialgeschichte2. Vandenhoeck u. Goettin- \ 161 .

Eis. até mesmo o próprio sentido das ciências históricas. Max Weber. quase só se revela lógica à reflexão. e que. T o m o 177. de uma série de argumentações. 1 e s. um historiador que fala em voz alta da confusão atual da história e que. tenta dominar os tempos inquietos que nossa especulação aborda. Otto Brunner não deve nada aos Annales e os dados de seu raciocínio ou de sua experiência. Todo esse vaivém é acompanhado. Imaginem viagens com pontos de vista sucessivos e cuja sucessão mesma. bastante grande. 4. 1954. velhos companheiros de leitura: Werner Sombart. pois que o capítulo VI compreende. só ele. Eis. finalmente. sobre o próprio problema de uma história social da Europa. p. Georg von Below que. de uma alegria do espírito. na verdade. seguro de seu ofício e da ajuda das ciências vizinhas. 1954. desde a partida. em todo caso. a nossos olhos. não são os nossos. Por si sós. Mas faz-se mister um grande esforço de nossa parte para compreender e. T o m o 40. publicado pela Historische Zeitschriffi em 1954. a importância singular de tudo isso. bastante complexos. dois estudos sobre as relações da burguesia e da nobreza em Viena e na Baixa Áustria (na Idade Média). 3. nove. depois recomeça. para o fim do volume: a gente se reporta à nota. captar e penetrar as sutilezas de sua linguagem. 469 e s. e mesmo dez. muito rápida. Daí. a seu chamado se organiza. já colocavam certos problemas que o livro retoma.volume: um. o cortejo quase completo dos historiadores alemães. para nós. Isto significa dizer que não será fácil apresentar um resumo exato de um trabalho composto. \ 162 . e outro no Vierteljahrschrift für Sozial-und Wirtschajtsgeschichte do mesmo ano (sobre a burguesia da Europa e da Rússia) 4 . e esse é um atrativo suplementar de seu livro. os de ontem. os de hoje. não obstante sua unidade em profundeza. sua conclusão. ontem. põem em discussão a metodologia inteira. p. problemas vastos. A leitura não é simplificada pelas numerosas referências enviadas. perde a página. infelizmente. aqui ou ali. Mesmo se Otto Brunner não tem sua inteira aquiescência — e é mais que provável — ele se apresenta em sua companhia. de materiais diferentes. Como lhe é preciso apoiar-se em seus pares. seus pontos de apoio.

de economistas. a título de delegados de conjuntos sociais ou culturais? Nós o seguimos. ia dizer em suplemento. nosso autor encontra-se na boa junção. repitamo-lo. Werner Conze. " Mas temos o direito. mas. "até Joaquim de Flore e a Bossuet". "de Homero a F é n e l o n . (no sentido mesmo do pensamento de M a x Weber) q u e m e e n c a n t a à passagem. Herbert Hassinger 3 . é verdade. uma viagem através desses antigos e novos caminhos da historiografia alemã. de historiadores enfim: Gerhard Ritter. cujo pensamento permaneceu injustamente alheio. nessas notas ou citações. outros ainda. . de nos queixar dessas pernadas e não ser indulgentes com um historiador que fala da Europa sem se demorar nos eventos ("esse esqueleto da história". como dizia um de nossos pedagogos de visão curta). por u m pouco diríamos. o jovem Marc Bloch. a quem se reservaria entre nós o grande lugar que merece se suas obras completas não houvessem aparecido em má hora. nem um debate inacabado. Meinecke. Mas por isso mesmo é tanto mais difícil. e que não teme nem uma contradição. De "Platão". u m a das tendências de f u n d o . . . Otto Hintze. de sociólogos. . Mas ninguém nesse jogo estará. inteiramente seguro. ou então apresentando-os por fileiras espessas. Mayer.contou entre seus ouvintes. Não menos numerosos. . depreender a verdadeira face desse pensador demasiado ágil. por certo . não é somente esse fenômeno histórico de alcance limitado q u e designamos c o m u m e n t e por essa expressão. autor de admiráveis trabalhos sobre as instituições medievais. às suas artimanhas. Otto Brunner nos oferece assim com liberalidade. às suas explicações amiúde excelentes. Wilhelm Abel. . nos Annales. se habitua. o Irend da história européia por e x c e l ê n c i a . à historiografia de nosso país. em 1941 e 1942. ou do mesmo modo. a seus processos. . a seus imensos resumos. ou pouco falta. finalmente. . Heinrich Mitteis. ao sair 5. por duas ou três razões: «A época das luzes (Aufklärung). seja em direção à plena modernidade. medievalista. Th. escreve. são os nomes de novos especialistas de história da filosofia. Mas a ocasião lhe é sempre propícia para ir aquém ou além dos limites convencionais da Idade Média européia. O leitor. seja em direção à Antigüidade. » \ 163 . sem se demorar nos indivíduos. por grupos. pouco a pouco. a própria junção do destino do Ocidente. demasiado apaixonado. dirá. É de H e i n r i c h Freyer essa citação.

De fato. inteligente e fino. realmente. se não me iludo. evidentemente. Esse modelo põe em evidência continuidades. subestima o conjuntural. A originalidade ocidental reduzida em "modelo" (séculos XI-XVIII) ( >Seu primeiro objetivo é nos propor. do século XI ao XVIII. e que tem os ares e as dimensões de uma história global. Os substantivos e os adjetivos com que tento cercar assim o pensamento de Otto Brunner não o definem. Abandona o evento. numa história social tal como eu a concebo.! Praticamente nos é oferecido. à obra densa e sólida de nosso autor. senão pela metade e podem traí-lo. de conhecer o verdadeiro pensamento de Otto Brunner. O empreendimento (limitado ao contexto medieval) situar-se-ia. Apesar disso. em oposição a uma história liberal. imobilidades. de modelo \ 164 . difíceis e talvez errôneas. Só as palavras que sublinhei no parágrafo precedente se encontram também na sua argumentação com o sentido que nós lhes damos de ordinário. Mas creio inútil demorar-me em interpretações dessa ordem.de alegações que nos é preciso ler e reler uma a uma. sem muito esforço. trata-se. uma ou duas vezes. 1. evolucionista. não sou um leitor tão indiferente que não me tenha detido. e ver o que ele nos traz no plano exclusivo da especulação científica. e nos fazer aceitar uma história social. volto a isso num instante. um certo modelo particularizado da história social européia. nos reportarmos. pelo pensamento matematizante de Ernest Labrousse. flexível. abismado em lembranças e experiências que não partilhamos. Meu propósito é pôr em discussão unicamente esse livro. É inútil. para ver mais claro (salvo determinada referência que citarei dentro em pouco). entretanto. nas águas da longa duração. diante dessa ou daquela reflexão cujo prolongamento nos conduziria diretamente até o tempo presente. que nos vem visitar um pouco tarde. prefere o qualitativo ao quantitativo e não se interessa um segundo. estruturas. e é pena. estrutural e conservadora. também. às voltas com problemas que não são exatamente os nossos.

a atenção. estes últimos mais preocupados. os campos com seus camponeses enraizados (evidentemente. se acrescentam à sua argumentação. os excessos. Se os velhos livros de oeconomia não ignoram o mercado. primeiramente e durante séculos. Mas outras continuidades. a cidade. em geral. as mesmas peças mestras: a saber. Seu horizonte é a "casa". agrargeschichtliche Quelle». com deleite. a oeconomia. Z. em conduzir sua "casa" do que em pensar no lucro e na economia. elas estriam seu livro de linhas que não acabam de atravessar o tempo. alhures. G E R T R U D S C H R O D E R . seu artesanato. \ 165 . este não se acha no centro da economia de subsistência que descrevem. decidir das culturas. o que o presente mais original pode conter de passado longínquo. a "casa inteira". f. 1953. Não nos espantemos. as anomalias. suas franquias. a sociedade ocidental apresenta em toda parte os mesmos quadros. uma coletânea de receitas de cozinha. ou quando suspeita que aos fisiocratas ou o próprio Karl Marx retomam por sua conta tais ou tais idéias da velha "economia" medieval. por vezes. educar as crianças. Postas de parte as conclusões aqui. no caminho. Pois. entre o século XI e o XVIII. o cuidado da casa (a "Casa Rústica" como dirão ainda. Os historiadores e ecomonistas alemães assinalaram há muito tempo essa rica Hausvaterliteratur6. assim.L E M B K E . no campo particular do Ocidente. Mas aqui é sobretudo a sociedade que é o objeto de uma "modelização" séria. seguros de seus direitos) e seus senhores. as estagnações ali. se comportam conselhos morais. então. um resumo de medicina prática. Otto Brunner assinala de bom grado as evidentes continuidades intelectuais. preocupar-se muito pouco com o mercado urbano e com sua "crematística". ou. 6. Ele procura também. mas estes não impedem a existência daqueles. sua burguesia. como o camponês. no sentido que lhe dará nossa sociedade moderna. há os outros que correm aventura. a economia foi.social. Cf. no século XVI. quando percebe que o velhíssimo conceito medieval de alma e de corpo (não no sentido de organismo vivo que lhe dará a moderna biologia) está no centro de pensamento e do vocabulário de Oswald Spengler. Charles Estienne e Jean Liébaut): cuidar das domésticas ou dos escravos. Agrargeschichie «Die Hausvaterliteratur ais und Agrarsoziologie. até mesmo.

É o que sugere o exemplo de Viena (Cap. É verdade que é um caso marginal. de circunstâncias felizes! Filho de camponeses. Se as trocas se aceleram. Para quem quisesse. seu sentido particular. Cristais de vivas arestas. a política se difunde no social e aí se perde (o senhor é ao mesmo tempo senhor e proprietário) progressivamente. Não afirmamos que esses circuitos sejam de forte vazão. ao contrário. de um lado. ou se preferem o Antigo Regime social se desfaz. no modelo. seu filho. Mas compõem-se num jogo harmonioso umas em relação às outras. Nas águas. ou. até mesmo para destruir certas tensões. perde suas virtudes. a todo custo. alhures também. as melhores páginas de seu livro. que aqui o Príncipe intervém cedo nas trocas vivas. Hans Fugger. tornar-se artesão. os cristais iniciais podem. no Ocidente. dessas ascensões sociais. pouco a pouco. mais tais que possam bastar para distender. têm necessidade constante de homens). senhores aspiram a tornar-se burgueses. se podemos assim dizer. se oferece como um termo espetacular: são abolidos os direitos feudais. E enquanto na Idade Média. com o avanço do Estado moderno. a distinção. foi para Augsburgo em 1367. Pois tudo acontece.Essas peças mestras têm. o Estado na Áustria. com o tempo. a disjunção se completam: o Estado. ou pode acontecer: é questão de paciência. alterar-se. com populações frágeis. Os compartimentos se comunicam entre si: o camponês ganha a cidade (mesmo as cidades estacionárias. que o "modelo" flutua mal sobre essas águas particulares. de gerações prudentes. a noite de 4 de agosto de 1789. para manter equilíbrios de longa duração. as franquias \166 . Por vezes. Facilita as passagens da burguesia para uma nobreza que. na minha opinião. esses equilíbrios são sem cessar ameaçados. V I ) . o mercador se transformar em senhor. o fundador da grande família. sua cor. a sociedade econômica. situar cronologicamente esse desmoronamento. Eis o recém-chegado. No entanto. E o velho modelo. as comunidades aldeãs. de outro. mas através dos quais circula uma luz comum. faz girar sua própria roda. amanhã. sua autonomia. suas raízes e suas realidades terrenas. depois o artesão pode um dia fazer-se mercador. tecelão camponês. ao qual Otto Brunner consagra.

As cidades se multiplicam. capaz. produziram alimentos mais abundantes e mais homens que outrora — víveres e homens. economia seguramente nova e destinada a durar. a renovação urbana que irá seguir-se. seguramente estimulado pelo comércio. não teria sido possível. a clientela composta pelos príncipes e pelos ricos.urbanas . graças ao afolheamento trienal. A Europa se afirma como exportadora de têxteis. em metrópoles mercadoras de ordem superior. o trigo. Tudo isso em simbiose com um \167 . os escravos — ou de primeira necessidade. cujo ponto de partida se situaria sete séculos mais cedo. o tráfico de mercadores ambulantes assentava sobre matérias preciosas. É maneira de falar. houve também ascensão geral dos campos ocidentais. . o sal. Inteiramente tomado desde logo por um trabalho rural intenso. misturada. entretanto. raras — os ricos estofos. assegurar e também confiscar sua defesa. no mesmo lance. uma das grandes fases da história ocidental. Mas a partir do século XI aumenta a parte dos produtos fabricados nos tráficos. a Revolução Francesa tomará a aparência de acusada. . Então se encerra. cada grupo desembocando em cidades. Só contava então. Entretanto. Cabe aos senhores portanto. em todo caso. No decurso dos séculos anteriores. formam arquipélagos. e muitos historiadores em sua trilha. O mercador se enraiza. entre 1000 e 1100. as especiarias. está a Revolução Industrial. como uma conseqüência do recrudescimento geral dos tráficos. a glória das feiras de Champagne. E a seu lado. o camponês torna-se camponês em tempo integral. uma grande emigração para a península ibérica). um impulso demográfico de grande fôlego (dentro em pouco se encetavam a colonização para o leste do Elba e. o Ocidente conheceu um ascenso de força. são as bases da economia européia. nos países do Norte. as dos tráficos mediterrânicos se anunciam e depois se afirmam. esse outro personagem sombrio. a partir da França. ou quase. pirâmides de cidades. Nessa época longínqua. não substituída por ela. Henri Pirenne vê. fixaram um campesinato europeu relativamente denso. sem o que o desenvolvimento urbano. Prosperidade rural e prosperidade urbana se sustentam desde a partida. de tirar uma produção aumentada de seus campos.

com um campesinato na sua base que. Quem não veria. a inspiração. quase uma reviravolta. a senhoria. Coloca essa Adelswelt no centro de uma civilização de longuíssima duração. 2. dispõe ainda de uma certa autonomia. Gino Luzzatto e Armando Sapori. base permanente. Sua argumentação é longa. mas pouco importa! Que tenha havido. a vontade do encenador. uma certa unidade. Seguramente. uma ajuda evidente. idênticas. um e outro. Visam o geral. Ocidente e Rússia O leitor adivinha que minha intenção é apresentar. é pleitear. Preferiria dizer séculos XIII-XVIII. uma civilização. que ele apresenta sob o signo de compromissos recíprocos. aqui. não apenas violenta e grosseira. de efetiva liberdade.mundo senhorial e camponês. de uma certa liberdade. Mas pleitear. "homem" do século \ 168 . mais geralmente essa Adelswelt para a qual se dirige sua ternura secreta e cujo papel e importância ele aumenta de bom grado. uma certa "horizontalidade" do tempo longo. Somente se colorem um pouco quando se trata do segundo "pólo" de seu modelo. no pior. e ver. afirmando a "modernidade" dos séculos XIII e XIV. aceitemos essas amplas explicações estendidas do século XI ao XVIII. mais que o fundamento dessas teses. esses séculos tiveram alguma coisa em comum. mas refinada. de 1000 a 1800. . terra que nutre esses êxitos. os senhores. freqüentemente repetida. penetrada até a medula por um espírito de verdadeira. animada de virtudes evidentes — as bibliotecas da nobreza (na Áustria e alhures) aí estão para no-lo provar a partir do século XV. É nessa civilização que participa igualmente a burguesia das cidades. mas suas conclusões sempre breves. estendida até os Fisiocratas. concedê-lo-ia de boa vontade. os camponeses. Otto Brunner não se preocupa excessivamente com isso. Tal esquema exigirá evidentemente. Portanto. não discutir esses resumos autoritários. retoques e complementos. uma civilização aristocrática. . disseram r riõ~a sua maneira. Armando Sapori.

mais ainda. Mas esses jogos não são familiares a Otto Brunner. ante a visão de conjunto que Werner Sombart propunha em relação à economia medieval. muito mais perigoso. Consiste numa dialética bastante particular: ver sucessivamente nas paisagens da história o que as unifica. não quer se deixar ofuscar pelas luzes do Renascimento. Imagino de antemão que Armando Sapori reagirá.XIII. mais arbitrário e muito mais amplo. contra essa imagem de um Ocidente monótono. de fato. ou bem. do Ocidente. a toque de caixa. que historiador aceitará essa horizontalidade do tempo longo. Mais ainda. teve que concentrar um jogo de cartas numerosíssimo. seguramente. Valerá para as terras e as cidades da Itália ou da Espanha? Aí e alhures. ei-las todas reunidas. "homem" do século XIV. cuja evidente modernidade proclamava. não formando mais que um só maço na mão do jogador. que sua simplificação inicial é. através de uma Idade Média recortada de perturbações. como entrada de jogo. a economia de mercado. Porque seu modelo vale sobretudo para as terras e as cidades alemãs. única. depois o que as diversifica. Seu jogo é ao mesmo tempo mais complicado. transferir imediatamente a discussão fora do Ocidente para nos demonstrar. de crises econômicas e sociais? O Estado moderno se anuncia com o século XV. a separação "Estado-sociedade" não espera a Revolução Francesa. Quer dizer que ao capricho da demonstração. penetrou profundamente a sociedade ocidental. a originalidade da Europa em relação ao que \ 169 . Otto Brunner. Do mesmo modo. o jogo de cartas é aberto e mostra então todas as suas figuras de naipes e valores diferentes. Far-se-á sempre necessário uma certa habilidade para transpor ou dissimular esses obstáculos. a coincidência somente será possível com alguns hábeis golpes de ajuda. como reagiu. para além dessa afirmação. A habilidade de nosso colega é a de nos fazer aceitar. depois. Henri Hauser. diria mesmo. o século XVI. desde antes do fim do século XVIII. o reconhecimento atento de uma originalidade própria. e a ruptura. nomeadamente em face do século XVIII. para afirmar a originalidade global do Ocidente. ontem. nem indispensáveis à sua tese ou mesmo à sua argumentação.

mas uma cidade "antiga" aberta para o çampo ao seu redor. ricas em homens. Otto Brunner sustenta que. Ao que se acrescenta o enorme cataclisma da expansão mongol. Não se apoiam sobre pirâmides ou redes de pequenas cidades. em relação à imensa abstração weberiana (de Max Weber. estão há muito tempo mal enraizados. recomeça. à ocidental. mas não se trata. elas não souberam. o Ocidente. com cores particulares. mas se apoiando em outros. As cidades russas. à débil densidade de povoamento. O inverno russo libera por longos meses uma mão-de-obra superabundante nas aldeias e é impossível lutar contra ela. Transportados à margem oriental da Europa. Como \170 . como sucede na Europa. à ocidental. de estabelecer aí sulcos duráveis. que a Europa. Quem acreditará na unidade dessa categoria? Ou que Max Weber tenha verdadeiramente levado sua célebre sociologia urbana até o âmago dos problemas? Mas deixemos essas críticas semiformuladas. Suas culturas permanecem itinerantes. de sujeitar de uma vez por todas essa nova gleba. Quanto aos camponeses.não é a Europa. um certo atraso. mais ainda. certamente. uma indústria camponesa se mantém vivaz. oú se quisermos. integrada na vida desse último. deformações. polivalente. à hostilidade das florestas e dos pântanos. de arrancar-lhes os troncos das árvores. já há atraso e. são consideráveis. reservar-se o monopólio da vida artesanal: ao lado de uma indústria urbana de artesãos miseráveis. diferença de natureza entre estruturas sociais de um e de outro mundo. mas pouco numerosas. afastadas umas das outras: é o caso de Kiev. A demonstração nega imediatamente o que pretendem certos historiadores. Contra certos historiadores russos. a Índia e a China. leitores. organizam-se em detrimento da floresta. é claro) — essa zona da cidade denominada "oriental" e que reúne nas suas malhas o Islão. reedita seu destino sobre a cena russa. a saber. Novgorod não é uma cidade fechada em si mesma. ou não puderam. devidos às intempéries da história. fora do controle urbano. Além disso. à imensidão da cena. de Moscou. somos convidados a medir as diferenças entre sistema ocidental e sistema russo (até mesmo oriental). mesmo antes desse cataclisma.

Russland». É caravaneiro. cidades "antigas" com fórmulas antigas. um paralelo desta vez entre a Europa e a América colonial dos ibéricos (do século XVI ao XVIII). conduzido como o conduziu Otto Brunner. suas cidades independentes ou quase independentes. ou melhor. basear-se-á em produtos naturais. com o fim do século XV. p. essa supervoltagem urbana. o México dos vice-reis. seu capitalismo comercial ativo. indústria e agricultura — numa palavra. 1958. dominadas por grandes proprietários rurais — é o caso desses homens bons dos conselhos municipais do Brasil ou desses grandes hacendados dos cabildos (almotaçarias) espanhóis. Basta essa demonstração para esclarecer o "enigma russo" de que falava ainda recentemente Gerhard Ritter 7 ? Ou o mistério do observador alemão face a essa imensa paisagem? O leitor responderá. ou se apoiam em campesinatos indígenas. mel. são cidades abertas para o campo. As cidades ocidentais são a indústria artesanal e o comércio fora do controle do Estado. Bahia com seus comerciantes exportadores 7. No Novo Mundo. entre cidades e campos. Onde quer que se situem. Pergunto-me o que daria. Esses traços arcaicos completam o quadro de conjunto. recomeça. grandes cidades "à russa". nem a cidade "oriental". mercadorias de luxo e escravos. uma nova Europa nem bem nem mal se enraiza. Lebendige Vergangenheit. Inversamente. essa distinção. Acrescentemos que o artesão. peles. o desperdício do espaço é a regra. haviam conhecido essa cisão. sal. «Das Rátsel \ 171 . M u n i q u e . Ültimo traço: o comércio na Rússia. muito isoladas. até Pedro o Grande. itinerante.na América aberta aos camponeses da Europa. a Europa tem seus camponeses semilivres. outras tantas ilhotas livres para o capitalismo à curta ou à longa distância. Oldenbourg. Aí está. E recomeça pelas cidades. Nesse conjunto. em avanço. não é inteiramente livre em seus movimentos. Recife durante e após os holandeses. uma das originalidades urbanas da Europa medieval: nem a cidade "antiga". não mais que o camponês. no sentido da velha afirmação de Max Weber. 213 e s. com seus mercadores permanentes. duas ou três cidades modernas quando muito. Essas cidades precedem os campos cuja construção é lenta (Rio de La Plata).

reencontrar as realidades de uma história social da Europa entre o século XI e o XVIII? As próprias palavras. de cantar-lhe as virtudes. de revelar sua grandeza. senão a metade de um terço desse livro nervoso. Acrescentem a esse quadro um comércio por caravanas burriqueiras. essas idéias todas carregadas ao mesmo tempo de verdades e de ilusões.de açúcar. a Idade Média ocidental de antes do século XVIII está separada de nós por obstáculos diversos. uma \ 172 . Se não me engano. a de economia. essas semicríticas não colocam em discussão. Num capítula que compreendo mal. O que é a História Social? Essas questões. o próprio esforço das novas ciências sociais. Historiadores e homens do século XX. essencialmente. não é. terceira e última operação.[eis que somos postos em guarda contra o anacronismo. pretende apoiar-se nas luzes desse grande espetáculo para volver-se (ainda com mais habilidade que força ou clareza) para o tempo presente — segunda operação de envergadura — e para as estruturas do mister de historiador. quase de afirmar seu "milagre". é essa a Europa de antes do século XI? Ou a Rússia de antes de Pedro o Grande? 3. como podemos. embora o tenha lido e relido. portanto de uma idade mais ou menos separada das longínquas raízes da Europa pelas mutações e descontinuidades dos séculos XVIII e XIX. Na realidade. o Potosi. para dizer a verdade. Otto Brunner não teve apenas a intenção de abranger a irredutível originalidade da Idade Média ocidental. Então. de fato. as antigas explicações. ao mesmo nível. postos diante das pesadas responsabilidades da história?} Mas. eis que somos. na trilha de Karl Mannheim. mas também a de sociedade. por uma cortina de fumaça onde tudo se reúne: as ideologias (que nasceriam com o século XVIII). além disso. até mesmo a de Estado. Eis-nos apartado em espírito desse objeto. dessa paisagem longínqua. nos desservem. contra o perigo evidente de um diálogo presente-passado. que recobre e ultrapassa as precedentes.

história econômica. a história não admite senão dois planos gerais: o político. a que comparações se abandona o autor — nenhum leitor estrangeiro o saberá com meia palavra. ainda que isso não seja dito claramente. Mas procedamos como se o caminho oferecido nos parecesse seguro. a que julgamentos. deslocados. de outra. como Henri Berr em 1900 no limiar da Revue de synthèse. A quem se julga. um setor particular (Sondergebiet). depois às feiticeiras e às fumaças. bem entendido. sem excesso ou escândalo. sabe-se também. história da vida cotidiana. história da arte. o social. abusivo. é sobre um e sobre o outro plano que é preciso projetar o corpo inteiro da história. Em suma. história religiosa. Heinrich Freyer) que têm seu ritmo próprio. seu alento. independente do lucro e das tiranias do Estado ou das deformações ideológicas. simples setor. Essas incertezas não deixam de complicar de antemão e de debilitar nossa resposta à questão fundamental que nosso colega se coloca. Otto Brunner tenta elevar-se acima dos compartimentos das histórias particulares. se preferimos. Sou eu. ou. história das ciências.caça às ideologias. a história econômica. Como na geometria descritiva. a que somos convidados? As ideologias estão ou não perdendo a velocidade? É possível. "mas uma maneira de considerar um aspecto do homem e dos grupos humanos na sua vida comum. suas medidas cronológicas. O laudaíor íemporis nunca é feito sem segundas intenções presentes. de uma parte. Mas de um lado e de outro da cortina por elas interposta. a respeito do destino. o império da Kulturgeschichte é heteróclito. história das idéias. Desde o princípio. Sabe-se que são numerosos: história do direito. história das instituições. a quem se condena. de quem devemos gostar? Porque esse evidente elogio ao Antigo Regime social. esses setores particulares devem ser dominados.^Otto Brunner dirá mais exatamente que a história social não é para ele uma especialidade (Fach). Do mesmo modo. história das letras. que adianto essas imagens discutíveis. deve ter um sentido. Ora. Assim. (cf. na sua arregimenta\173 . da razão de ser da história. história da filosofia. não pode inflar-se até às dimensões da história inteira.

"e então serão impelidos ao primeiro plano a construção interna. aos choques. tendendo portanto muitas vezes para uma história tradicional. de uma política de significação aristotélica: a essa altura. o Estado se dissolve entre esses corpos 'diversos de que falamos: cidades. ela absorveu tudo. o que dá no mesmo. na Idade Média. aldeias. no sentido de uma história política. Hoje. e mesmo suas convulsões. o escorço alusivo a uma história reduzida ao político. de página em página. Desse ponto de vista. e mesmo por vezes. não há senão essa única história.ção social {Vergesellschaftung)". é um pouco a de seus movimentos. e assim quase isento de negações que serviriam de pontos de referência: a história do homem "animal político". se o compreendo bem. diz em substância. O T T O B R U N N E R . V I I . depende da história política. tem a força de sua lentidão. escrevia então. « Z u m Problem d e r Sozial-und Wirtschaftsgeschichte». resiste às intempéries. a realidade social espessa. pesada. ou. perfurando uma couraça espessa. no sentido estrito da palavra. \174 . Os impulsos da história econômica se esgotam remexendo essa massa. repitamo-lo. a história social. no espelho de uma história social. p. Sobre a outra porta do díptico. 1936. mas há duas maneiras de considerá-lo: primeiramente. . comuniidades. é história política" 8 . A economia de mercado pode de fato ter suas crises. "a autodeterminação dos homens". às crises. in Zeitschrift für Nationalökonomie. reclamava em outros tempos (1936): "Toda problemática puramente histórica. segunda possibilidade. Repito-o: dois planos entre os quais tudo se divide ou pode dividir-se. de suas ações. É impossível ao historiador confundi-los ou. sem que eu lhe faça agravo disso — bem ao contrário — é de opinião diferente. jamais a contradizer. . que é dado por este livro pronto a afirmar.assimilou tudo. de seu livre arbítrio. toda história. 677. Aliás. tratar-se-á de compreender como objeto a ação política. A história tem sempre o homem como objeto. senhorias. a estrutura dos liames sociais". na própria medida em que a história social mobiliza em seu proveito a imobilidade e a longa duração. uma Machtpolitik. de sua inércia poderosa. a oeconomia 8. Com respeito à política. . Seria importante seguir. apresentá-los conjuntamente.

ao contrário. das inércias. Mac se procura ver tão longe quanto possível. o contato esteve perdido por tanto tempo que basta por vezes uma palavra mal compreendida. deixando a Otto Brunner a iniciativa desse debate. uma afirmação lançada muito depressa para que a discussão perca todo o sentido. Haveria certamente vantagem. tanto quanto possível. ao fim dessa confrontação? Esta é uma outra questão. a atitude mental do crítico. obrigatoriamente baterá a uma outra porta. poderia conhecê-las todas. para as duas partes. das estruturas: além dessas imobilidades. isto é para mais tarde. se confunde com a história tradicional do último século. Não procurei. contra a autoritária dicotomia de Otto Brunner. Ela está ao abrigo desas pequenas tempestades. parece-me. "aristotélica" ou não. depois a uma outra. portanto. Nenhum de nós. que todas as portas me parecem boas para transpor a soleira múltipla da história.se recolhe dentro de si mesma. não há historiador digno \ 175 . O Estado e a economia. bem entendido. ao longo desse artigo. mesmo que ela se me afigure como uma história social entre várias outras. uma história social de longa duração só pode seduzir-me. Interditei-me. infelizmente. Na verdade. Tampouco. Entre historiadores alemães e franceses. contra uma história política que. essa dualidade em que encerra a história. das permanências. • Correndo o risco de ser taxado de liberalismo impenitente. em se juntarem pensamentos que se tornaram nesse ponto estranhos um ao outro. nada há a dizer.. senão esclarecer para mim mesmo e meus leitores franceses um pensamento que nos é pouco familiar. O historiador abre primeiro com respeito ao passado aquela que ele conhece melhor. seria preciso recolocar a conjuntura social.. Mas há tudo a dizer. e. . que não é uma personagem insignificante. /Estou convencido. Estou dividido entre uma certa simpatia e algumas reticências bastante vivas. Quaisquer que sejam as razões ou as idéias preconcebidas que ditem sua escolha — elas permanecem incertas para um leitor francês — eu não poderia subscrevê-las. Os séculos lhe pertencem. À cada vez por-se-ia em discussão uma paisagem nova ou ligeiramente diferente. direi. a das lentidões.

dessas interações infinitas. a apreciação cultural ou a dialética materialista ou qualquer outra análise. econômica e política. pelo menos. Para além dessa multiplicidade. evidentemente. a história não pode ser concebida senão em n dimensões. pluridimensional. perderia algumas de suas ambições mais preciosas. mas é una tambérfí^ \176 . cultural e política.desse nome que não saiba justapor um certo número destas paisagens: cultural e social. social e econômicas. etc. sem o que nosso mister seria impensável ou. pois. ela define na base uma história concreta. Essa generosidade é indispensável: ela não repele para planos inferiores. satisfazer-me. como diria Georges Gurvitch. Mas a história as reúne todas. até mesmo fora do espaço explicativo. CA geometria em duas dimensões de Otto Brunner não poderia. ela é o conjunto dessas vizinhanças. . dessas médias. Para mim. . cada um permanece livre — alguns mesmo se sentem obrigados a afirmar a unidade da história. A vida é múltipla.

C h r o n i q u e des sciences \177 . 1.j u n h o 1960.C. e. pp. desse ponto de vista de conjunto. é o conjunto dessas ciências que nos preocupa.10 . sociales. nessa revista. propõe-se a ser aberta para as diferentes ciências do homem. 493-523. Annales E. mais que a própria história. hoje. /Creio útil repeti-lo. considerando-os também. ri.S. A DEMOGRAFIA E AS DIMENSÕES DAS CIÊNCIAS DO HOMEM 1 história que defendemos. e não apenas do ponto de vista exclusivo da história.. m a i o . no limiar dessa crônica que pretende pôr em discussão.° 3. os dados e orientações essenciais dos estudos demográficos.

«Não há necessidade de perito p a r a isso. desejo que a demografia considere a história como uma. um sociologismo. alternadamente. sem exceção. um encontro. . entretanto. é por que se pode corrigir. /Sem dúvida. vjCada ciência. fixada de uma vez por todas e. umas das outras e. a aplicação desses resultados. de suas ciências auxiliares. 2. mas não exclusivo. um economismo. a interpretação. cujas pretensões são.» \ 178 . do ponto de vista egoísta que é o meu. em alinhar a demografia entre as ciências auxiliares da história. naturais. todas as ciências do homem.Estejam tranqüilos: não quero. que é e deve ser o seu) domesticar. por este viés. para seu uso. um historicismo. é lícito (do ponto de vista pessoal. unilateral. peço desculpas por isso a Louis Henry e René Baehrel. escrevia-me n u m a n o t a q u e t e n h o sob os olhos. pela metade. Mas talvez. um geograjismo. hoje. explicação imperialista. rejuvenescida. o que dá no mesmo. sobretudo se é jovem ou. acabem por se reunir. essa agressividade teve suas vantagens. muitas vezes precoce da realidade social. das cóleras de Lucien Febvrecontra as intermináveis querelas que suscitam de ordinário. mais de um erro devido ao método. de minha parte. se necessário. Não nego um instante o valor. e não. Houve ainda. todos imperialismos bastante ingênuos. conviria pôr-lhe um termo. se esforça em elevar o conjunto do social e explicá-lo por si só. / É a essa altura que desejo situar o presente diálogo com nossos colegas e vizinhos demógrafos. «Cabe a cada um fazer seu método». Mas. que elas esbocem ao menos. a palavra ciência auxiliar é aquela que mais incomoda ou irrita as jovens ciências sociais. entre algumas outras. O essencial é que todas as explicações do conjunto se harmonizem. ao nível das discussões sobre métodos. dos métodos e somente participo. em meu espírito. Se n ã o se é capaz de f a b r i c a r u m método para si mesmo. lascia la storia. . mais ainda. em si. são auxiliares. se não hesito. "no ápice". mas os resultados e. para cada uma delas. as outras ciências sociais. numa palavra. Do mesmo modo. não são apenas os métodos ou os meios que contam. Não é pois questão de hierarquia. até mesmo necessárias: ao menos durante um certo tempo. encetar o processo fácil de um certo demografismo.

Düsseldorf. Nunca é tarde demais para se falar das obras importantes. 1953.. 1935. traduzida do alemão para o espanhol. Düsseldorf. Wirtschaftspolitische Strategie. no meio dessas repetições. H a m b u r g o . em Santiago do Chile. resumos seletivos. 245 Economia mundial. Leipzig. Wie ich Deutschland sehe. Ela porá em discussão sobretudo duas obras das quais tomei conhecimento. Berlim. 1949. 1952. praticamente. Der neue Balkan. Berühmte Denkfehler der Nationalökonomie. Eine Lehre von den optimalen Dimensionen gesellschaftlicher Gebilde.«. irritantes também. artigos retomados dez vezes em seguida para moagens diferentes. H a m b u r g o . antiga aluna da École des H a u t e s Études. os trabalhos autoritários. 1945. 1932. Berlim. em todo caso. Ao abordá-los. Berlim. 1940. a segunda. uma primeira dificuldade pode nos deter: é difícil situar-se com exatidão nessas primeiras edições. onde sua aparição. H a m b u r g o . não sem razão. Entretanto. Erprobte Faustregeln — neue Wege. Creio que as voltas para trás que esse ponto de vista me impõe não serão inúteis. A economia mundial5.É portanto da orientação geral das ciências do homem que se tratará na presente crônica. Ein Markt der Zukunft. Heitere Plauderei über gewichtige Dinge. 2* ed. Wirtschaften. H a m b u r g o . Um tal propósito me obriga a escolher meus interlocutores e. 1938. reedições. Hamburgo. 3. a sair mais que pela metade da estreita e insuficiente atualidade bibliográfica. Struktur und Rhythmus der Weltwirtschaft. I I . 5. \ 179 . Allgemeine Geldlehre. de Enrst Wagemann. Ela introduziu u m p o u c o de o r d e m nas publicações múltiplas de nosso a u t o r : Die Nahrungswirtschaft des Auslandes. nem muito cômodo (que eu saiba nenhuma revista crítica o tentou entre nós). 1953. Os "Limiares" de Ernst Wagemann Ainda que não seja inteiramente justo. Santiago. 1923. traduções. 1948. apresentemos em primeiro lugar. causara certo barulho. 2" ed. 4. Wo kommt das viele Geld her? Geldschöpfung und Finanzlenkung in Krieg und Frieden. 1942. I. em 1949 e 1952.. 1 edição. 2* edição. 1932. há muito tempo. La poblacián en el destino de los pueblos. 1937. 1» edição. 1952. A primeira. 1929. 1943. transposições ou repetições integrais 3 . O l d e n b u r g . . Lateinamerika. 1939. Santiago. H a m b u r g o . m e faz alcançar a seguinte lista das obras de Ernst W a g e m a n n que creio útil reproduzir. nos bastará. M a d a m e Ilse Deike. uma sondagem deve bastar e. Berlim. 1931. I. Von den obersten Grundsätzen wirtschaftlicher Staatskunst. H a m b u r g o . Wagen wägen. 1917. Grundlagen einer weltwirtschaftlichen Konjunkturlehre. Die Zahl als Detektiv. 1. se intitula A população no destino dos povos*. in-8. Einführung in die Konjunkturlehre. Was ist geld?. H a m b u r g o . Die Umrisse eines statistischen Weltbildes. ampliações. . Narrenspiegel der Statistik. Menschenzahl und Völkerschicksal. Wirtschaft bewundert und kritisiert. Geld und Kreditreform. 220 p p . in-8«. 1« edição. 1951. 296 p p .

parece, em espanhol, uma primeira edição, mas retoma passagens inteiras da precedente, assim como de outras publicações anteriores. Recorrerei igualmente ao pequeno volume publicado em 1952, pouco antes da morte de Wagemann (1956), na vasta coleção da Livraria Francke, em Berna, Die Zahl ais Detektiv6 e que também é uma reedição, mas, ao mesmo tempo, uma obra-prima de clareza. Esse livro onde Sherlock Holmes se entretém, com seu bom amigo o Dr. Watson, com cifras, estatísticas, grandezas econômicas, como se se tratassem de outros tantos culpados ou suspeitos — esse livro testemunha, melhor que outro qualquer, a mestria e a agilidade, por vezes desenvoltas, de um guia que pensa haver descoberto, através das complicações da vida social, uma pista de onde as coisas, vistas de muito alto, podem ordenar-se segundo as exclusivas deduções da inteligência e do cálculo. Acrescentemos, para completar nossa apresentação, que Ernst Wagemann, como o sabem todos os economistas, foi, antes da Segunda Guerra Mundial, o diretor do célebre Konjunktur Instituí de Berlim. Após a derrota germânica, tomou o caminho do Chile de onde, como numerosos alemães, era originário. Foi-lhe dado ocupar, durante alguns anos, até 1953, uma cadeira na Universidade de Santiago, o que explicaria, se necessário, as publicações chilenas que assinalei. Mas são as obras, não o homem, que queremos pôr em discussão. Obras, na verdade, precoces, escritas ao acaso, inacabadas, febris, divertidas, agradáveis, senão sempre muito razoáveis. No plano da história, bastante banais, até mesmo francamente medíocres, mas jamais suscitando o tédio. No primeiro dos trabalhos citados, A população no destino dos povos, as cento e cinqüenta primeiras páginas têm certo porte e certa grandeza: aí, esse economista de formação se apresenta como demógrafo, e demógrafo apaixonado, inovador. Seu primeiro cuidado é, aliás, desprender-se, valhao que valer, dos estudos e dos pontos de vista da economia que, durante muito tempo, foram os seus, des6. Sammlung Dalp, n9 80, Berna, 2* ed., 1952, 187 p p . , in-16.

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prender-se mesmo da economia poderosamente enraizada no espaço, a mais inteligente, segundo ele: a de von Thünen, "talvez o maior economista alemão, confia-nos, com Karl Marx". Para se liberar depressa e de maneira espetacular, multiplica negações diatribes, balança as explicações admitidas. Tudo isto, mais divertido do que sério. Malthus, ao levantar da cortina, é um dos alvos preferidos. Além disso, é possível fiar-se, argumenta ele, nesses pseudomemógrafos, pessimistas ou otimistas conforme a conjuntura esteja na alta ou na baixa econômica?
A dependência fortemente acentuada em que se encontram as teorias demográficas com respeito à situação econômica dá, por si só, prova de que essa disciplina não dispõe de fundamentos de método suficientes.

Dito isto, o que Wagemann procurará com obstinação, quando houver rejeitado sucessivamente a idéia do desenvolvimento contínuo, cara a Gustav Schmoller ou a teoria da capacidade demográfica — a carga de homens que um sistema econômico dado pode suportar — teoria saída das observações desse "empirista da economia" que foi Friedrich List; quando, ainda, houver afastado esta ou aquela definição (entretanto, inteligentes em seu sentido) do superpovoamento ou do subpovoamento, devidos a economistas como Wilhelm Röpke ou Gustav Rümelin — numa palavra, quando forem rompidas todas as amarras, antigas ou novas, entre economia e demografia — o que ele vai procurar, é a constituição dessa última num mundo à parte, num domínio científico autônomo que é um pouco, no seu pensamento, se ouso dizer, o das causas primeiras.
Uma das teses preferidas da economia política de vulgarização, é que o rápido crescimento moderno da população deve ser atribuído ao sucesso do capitalismo em viva expansão. Sem dúvida nenhuma, os que sustentam o contrário, têm, parece, bem mais razão ainda: a saber, que os progressos técnicos e econômicos dos séculos X I X e X X devem ser atribuídos ao rápido aumento da população.

Eis-nos fixados: a demografia conduz o jogo. Essas demolições, esses gestos de bravura, úteis ou menos úteis, não são mais que um levantar de corti-

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nas. fÊ preciso, para lhe dar a dignidade de ciência, consignar à demografia, tarefas precisas, definidas com clareza. Segundo Ernst Wagemann, a demografia seria, antes de tudo, o estudo das flutuações demográficas e de suas conseqüências. Seria, assim, uma ciência da conjuntura, curiosamente calcada sobre a economia conjuntural. Mas não vamos sorrir, à passagem, dessa aparente contradição, dessa volta para t r á s . ^ (Em todo caso, é da conjuntura que dependem as grandes oscilações demográficas do passado, esses fluxos e refluxos de longas vagas, movimentos essenciais, bem conhecidos dos historiadores, e que Ernst Wagemann considera, de sua parte, como o primeiro objeto de estudo digno de constituir o terreno próprio da demografia. Grosso modo, ele reconhece no Ocidente, os seguintes ritmos demográficos: séculos X-XIII, aumento apreciável da população; século XIV, diminuição catastrófica, com a Peste Negra; século XV, estagnação; século XVI, surto considerável (na Europa Central, precisa Wagemann); século XVII, estagnação ou diminuição; século XVIII, aumento considerável; século XIX, desenvolvimento "intempestivo"; século XX, aumento ainda, mas mais lento. Assim, três grandes impulsos, no relógio da Europa: o primeiro, antes e depois das Cruzadas, o segundo, até a véspera da Guerra dos Trinta Anos, o terceiro, do século XVIII até nossos dias. Que esses fluxos se estendem ao universo, é certo no tocante à última ascensão (a dos séculos XVIII, XIX e X X ) , provável em relação à segunda (século X V I ) . Quanto à primeira (século X-XIII), Ernst Wagemann raciocina um pouco depressa: a seu ver, não há impulso demográfico sem longas guerras. Ora, só o nome de Gengis Khan (1152 ou 1164-1227) indica o quanto o destino global da Ásia foi então agitado. Não se pode deduzir daí que a Ásia conheceu, também, um grande impulso demográfico na época, mais ou menos, das Cruzadas? Nenhum historiador prudente seguirá passo a passo nosso guia para aderir a conclusões tão peremptórias, mesmo no caso de ficar impressionado, e com razão, por tantas analogias entre Extremo Oriente e Ocidente. Entretanto, Gengis Khan posto à parte, tudo o que podemos entrever sobre as tensões demográficas da Ásia das mon\182

ções e da Ásia Central não afirma, muito ao contrário, as suposições de Wagemann. Ademais, se, a partir do século XVI, seguramente do século XVIII, as oscilações demográficas se situam em escala do planeta, ele tem o direito de afirmar, em resumo, que a população do mundo aumenta por ondas mais ou menos bruscas, mais ou menos longas, mas que tendem a ganhar a humanidade inteira. No que, aliás, está de acordo com um espírito de peso, o próprio Max Weber. De um mesmo golpe, todas as habituais explicações da demografia histórica e, para além, da própria demografia, são colocadas, ou pouco falta para tanto, fora de jogo. Não mais nos digam que tudo foi comandado no século XVIII, depois no XIX, pelos progressos da higiene, da medicina, que venceu as grandes epidemias, ou da técnica, ou da industrialização. É inverter a ordem dos fatores, como já o indicamos, porque essas explicações cortadas na medida da Europa, ou melhor, do Ocidente, vestem mal os corpos longínquos da China ou da índia que, no entanto, demograficamente, progridem, parece, no mesmo ritmo que nossa península privilegiada. Aqui, Ernst Wagemann tem razão em dar aos historiadores, e a todos os responsáveis pelas ciências sociais, uma excelente lição: não há verdade humana essencial senão em escala do globo. É preciso, pois, sair de nossas explicações ordinárias, mesmo que não possamos, por ora, encontrar boas explicações para esses movimentos de conjunto. Roberto Lopez pensa, como eu, no clima. Ontem, os especialistas dos preços pensaram, também, em desespero de causa, nos ciclos das manchas solares. Mas Ernst Wagemann quase não se preocupa — uma vez encontrada a independência da demografia — em responder a essa interrogação natural. O problema, para ele, é destacar, depois apreender "fenômenos universais, sujeitos à repetição"; acrescento, ainda que ele não o diga, mensuráveis, se possível. A especulação científica pode ater-se a isso, à falta de algo melhor, se não quiser chamar à discussão, como Ernst Wagemann o faz de passagem, determinada "lei biológica (que explicaria tudo), mas que não conhecemos ainda,

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nem em suas raízes, nem em seu desenvolvimento perspectivo". Vale mais dizer que ele se contenta (tal como no caso das "alternâncias" que iremos abordar logo mais), com simples hipóteses de trabalho, isto é, com uma teoria da qual se exige somente que leve em conta uma série de conhecimentos firmados e abra a via a uma pesquisa mais aprofundada. O critério é a eficácia. Nesse jogo, é menos a natureza dessas oscilações que suas conseqüências, pelo menos certas conseqüências, que serão postas em debate, sob o nome de alternâncias. / A s "alternâncias" de Wagemann, que chamarei mais a gosto de "limiares", são uma hipótese de trabalho dinâmico ou, como ele o diz, demodinâmico, uma hipótese sedutora, embora demasiado simples, por certo. Expô-la brevemente, é ainda deformá-la e, além disso, lançar o leitor na armadilha de um vocabulário enganador, porque as palavras superpopulação e subpopulação, decisivas aqui, evocam uma imagem de inúmeros crescentes e decrescentes que é bem difícil afastar, quaisquer que sejam as advertências do autor. Preferiria, de minha parte, substituí-las pelas expressões neutras, fase A e fase B, nas quais pensei, bastante logicamente, porque as explicações de Ernst Wagemann lembram perfeitamente a linguagem de François Simiand, conhecido de todos os historiadores entre nós. Trata-se portanto, de conduzir nossa atenção para a massa dos homens vivos e suas variações incessantes. Seja, diremos, para falar ao nível do abstrato e do geral (como convém), seja fora do tempo real e do espaço preciso, um país P. Sua população, que podemos fazer variar à nossa vontade, é tida como crescente. Sua densidade quilométrica — é ela sobretudo que será objeto de discussão — atingirá, portanto, sucessivamente, todos os valores. Reteremos, nessa sucessão, algumas cifras fatídicas, verdadeiras cifras de ouro da demonstração de Wagemann: 10, 30, 45, 80, 130, 190, 260 habitantes por km 2 . Cada vez que a população transpõe um desses "limiares", ela sofre na massa, diz nosso autor, uma mutação material profunda; e não apenas material, aliás.

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o da subpopulação: se não fosse assinalado. Então. alternando. sob o signo de catás- \185 . a não ser quando traduzidas em linguagem econômica. serão lentas. Seria preciso. a situação se apresentaria em cores demasiado belas. devolutas. fora da linguagem corrente. 750 000 trabalhadores da Bulgária sem abaixar o nível de sua produção agrícola). e assim por diante. por certo. nosso país P está em fase de subpopulação. a imperfeita utilização da mão-de-obra (no decorrer desse mesmo ano de 1939. ou de B para A. as crises monetárias e de crédito. como na Inglaterra de 1939. a economia se instala e prolifera sob o signo da liberdade. e as mudanças consideráveis que acarretariam. . há superabundância de terras férteis. O que está em questão é. Conforme o caso. a insuficiência de vendas. infelizmente. Mas dá a prova que também em ciência. com definições muito provisórias. De fato. poder-se-ia subtrair. . Todavia. Vê-se que é prestar às palavras subpopulação e superpopulação um sentido elástico. essas alternâncias não podem ser entendidas claramente. além de 30. Ora. essencialmente. retorno (e é aí que cumpre abandonar nossas imagens comuns) à subpopulação. os signos felizes abundam: a demanda de mão-de-obra permanece regularmente insatisfeita. Há superpopulação quando os homens. com força e logo à entrada. de 10 a 30. e o desenvolvimento imperfeito dos circuitos econômicos. Essas passagens de A para B. pelo menos. deverão atravessar a estação de equilíbrios de longa duração. no dizer de peritos. a observação descobre regularmente os seguintes sinais: o desemprego. num primeiro estádio. esperamos em vão nosso guia nessa primeira curva. ei-lo na fase B de superpopulação. as imigrações se mostram necessárias (quer espontâneas ou dirigidas). entre dois crescimentos. digamos. Ernst Wagemann o diz à sua maneira. a estreiteza crônica dos mercados. Ele declara rejeitar todas as habituais definições dos economistas e se contentar. fáceis de tomar. definir esses conceitos. ou serão bruscas. na fase A. o provisório pode durar muito tempo. a relação.Antes do limiar de 10 habitantes por km 2 . tendo-se multiplicado. voltaremos a isso. ainda não aumentaram seus recursos proporcionalmente.

como se falassem por si próprias! Eis-nos.trofes curtas? As duas explicações nos são fornecidas alternadamente. partindo das cifras de Colin Clark. ou escolher entre elas. com um aparelho estatístico sempre simplificado.° 3. V e r esse g r á f i c o nos Annales E. no espírito do autor. . em contato com realidades tangíveis. Rio. .) e que calculássemos para cada um deles. que coloquemos em face dessas cifras as da mortalidade infantil. 30. Obtemos o quadro e o gráfico que reproduzimos. Suponham que repartíssemos o maior número possível dos países de hoje segundo suas densidades de povoação. o que significa agrupá-los aquém e além dos "limiares" (10. como exemplares. é abandonado sem tambor nem trombeta. onde devia se acabar e se coroar a explicação. Para além de as definições "provisórias" e que só esclarecem os problemas pela metade. segundo as densidades crescentes. a propósito dos diversos Estados dos Estados 7. todas as suas responsabilidades. \186 .. Mas deixemos-lhe. Mas a demonstração perde aí força. em todo caso. quanto noutro. as cifras de ouro parecem ter um fundamento. sua renda nacional por cabeça de habitante ativo. 501. depois em riachos minúsculos. no meio de múltiplos exemplos onde o historiador se alegrará de reencontrar suas habituais perspectivas e suas contingências. não sem razão. Demonstrações análogas nos são apresentadas em seguida. Se o cálculo é justo. Trata-se de fazer falar as cifras e somente às cifras. Desta vez. ao menos na realidade atual. como é provável. depois.S. 45. entretanto.C. etc. mas é o único dessa categoria excepcional. temos direito a uma rápida série de "provas" particulares. A mesma demonstração gráfica. 1960. aqui e alhures. consideradas. p . algo sobre o que não me posso pronunciar. divide-se em rios. tanto num sentido. sem que seja possível saber se é preciso. o plano teórico. n. o primeiro exemplo põe em discussão mais ou menos o mundo inteiro. Essas variações no espaço — e não no tempo — denunciam as oscilações concomitantes do bem-estar. por nossa vez 7 . para além dos diferentes limiares escolhidos. no caso do comércio exterior contabilizado per capita de habitante. juntá-las uma a outra.

na enumeração sem fim dos exemplos. Onde se deter. em 1821. a Irlanda é dez vezes menos populosa que ela: não há mais inconveniente em lhe conceder a independência política. em 1949.5 em 1912 por 17 500 habitantes. seguramente sub povoada. a carroça de madeira. enfim. de 7 a 8 em 1949 com 35 ou 40 000 indivíduos). Região atrasada. a uma tensão demográfica desde então suportável. a propósito da Baixa-Saxônia. ou quando muito. no Estado do Espírito Santo (norte do Rio de Janeiro). Por volta de 1912. depois. de um lado e de outro do ano de 1882. ainda qüe jamais sem interesse? No exemplo da regressão da população negra das Índias Ocidentais inglesas? Mais esclarecedor é o retorno da Irlanda. a propósito das variações da renda nacional dos Estados Unidos entre 1869 e 1938. onde os diversos distritos foram classificados da mesma maneira. a propósito da nupcialidade na Prússia. em relação às oscilações de uma situação econômica tensa. Ela dispõe de um território de 5 000 km 2 (densidade 3.Unidos (classificados segundo sua densidade quilométrica crescente). uma curva regular. Mas detenhamo-nos. essa passagem da agitação à calma é a de um país superpovoado a "um país em equilíbrio". No início do século XIX. entre 1925 e 1933. Uma única técnica ao serviço do homem: um almofariz hidráulico para des- \ 187 . após a emigração maciça que segue à crise de 1846. já que não se pode analisá-los todos. a Irlanda representava a metade da população da Inglaterra: esta não podia assegurar sua tranqüilidade a não ser dominando sua vizinha demasiado poderosa. como no Brasil colonial de outrora. entre 1830 e 1913. data em que a Prússia transpõe o limiar fatídico dos 80 habitantes por km 2 . O único meio de transporte. temos fortes oscilações da nupcialidade. cuja capital é o porto de Vitória. vive uma colônia de 17 500 alemães. a quem nosso autor segue de perto. num último exemplo muito sintomático. Assim raciocinava o demógrafo inglês Harold Wright. Em 1921. alguns dos quais frágeis e pouco convincentes. e dentro em pouco subpovoado e portanto folgado. para além. Esse divertido gráfico mostra a oposição dos dois períodos: antes de 1882. ainda era a mula. Para Wagemann.

ataca-se um novo setor da mata. aqui. tabaco. Resulta daí um nomadismo das culturas e dos homens. eles prosperam. no essencial. Primeiramente. desde o século XVIII. o próprio leitor terá. criaram a primeira economia brasileira de grande extensão continental. sem artesanato. Assim.cascar o café. . aquele sobre o qual. que ela comanda tudo. perde boa metade delas durante os trinta anos que seguem. e. cuja exportação assegura as poucas compras necessárias no exterior: carne seca (o charque). A terra abunda. natalidade 4 8 % . Como todo economista. a alimentação provém das propriedades dos colonos. valha o que valer. esses proprietários de caravanas burriqueiras que. E muitos outros sinais i de autarquia se nos oferecem: a pequena casa levantada com a ajuda dos vizinhos. a civilização. mas as escolas. do interesse do pensamento de Wagemann. o homem se multiplica: mortalidade 7 % . precisou trabalhar. esse pensamento pede uma apreciação de conjunto e não de pormenor. não digo a doçura de viver — adivinha-se! — acompanham mal esses nômades. cada vez que as culturas esgotam o solo e que a colheita se torna demasiado magra. viu em demasia o tempo presente. Santa Leopoldina. como todo intelectual de ação. seguramente. precioso gênero. farinha. nesse transcurso. eu o espero. com um comércio reduzido. Não poderíamos cogitar. formulado as críticas e as reservas que se impõem. o autor já não está aqui para defender-se — e ele teria sido capaz de fazê-lo com vigor. Ademais. álcool. essa nos serve de bom testemunho sobre uma vida antiga.-^ Essas aferições. sem dúvida. cifras inauditas que a gente tem de ler duas vezes para acreditar. nas mãos dos tropeiros. O que é preciso concluir daí? pQue a população comanda a economia. esses resumos dizem bem. Nesse vasto espaço que lhe é oferecido. As cifras que ele nos oferece . Ê preciso viver. inútil. Entretanto. íyío entanto. Ernst Wagemann. que contava 300 famílias em 1885. há economias primitivas e no entanto aptas a proliferar. os móveis (cada um possui os que ele mesmo fabrica). quinquilharia. Enfim e sobretudo. . de retomar suas afirmações e encadeamentos para submetê-los a uma verificação errada.

porém mutações. tem perto de 16 milhões de habitantes. como num horóscopo dos mais simples. poder-se-ia objetar. por si só. logo mais. às voltas com sua história e seu espaço reais. Reportemo-nos à escala invariável: ei-la subpovoada. ou mesmo. sem dúvida. mostraria que há pelo menos trinta e seis maneiras. sob o peso da ascensão dos homens. limiares imutáveis. provam que ela pertence à outra categoria. Mas não deixemos Ernst Wagemann com essas críticas muito fáceis. uma forte imigração em direção à Espanha.balizam. da "vitalidade" que lhe infunde ou lhe recusa o fluxo demográfico que lhe atravessa o destino. para o passado. não teríamos perdido inteiramente nosso tempo. limiares atuais. seguindo as deformações de uma equação complexa. dadas uma vez por todas e onde. todos os nossos destinos seriam inscritos e legíveis? A França. que a cifra de 16 milhões não é absolutamente certa. Quem poderia crer. num país dado. de suas capacidades neste ou naquele plano. a rigor. não cessam de variar. de ter uma população em número excessivo ou não suficiente. É verdade. E se retivéssemos apenas sua teoria das mutações. Não há provavelmente. era superpovoada? A França de 1939. Mas continuemos o jogo: a França. ipso facto. O número dos homens é alternadamente determinante ou determinado. subpovoada? Um estudo. em 1789. segundo os lugares e os tempos. no valor de uma série de cifras de densidade. densidade quilométrica 34. de que fala Ernst Wagemann. etc. Não é pequeno o mérito que lhe cabe por haver liquidado certos mitos e levantado tantos problemas que reencontraremos. mesmo rápido. em níveis demográficos variáveis. sob a pena ágil de Alfred Sauvy. Tudo depende de sua capacidade. "fora das condições naturais ou técnicas e das conjunturas particulares à história". ao passo que todos os sinais conhecidos de sua vida de então e. em 1600. com efeito. Tudo é questão de relações e esses valores "totais". Não creio em uma explicação capaz de servir de "valor total" ou de causa primeira ao múltiplo destino dos homens. essencial ou relativamente secundário. sim. mas eu diria antes dominantes. mas sua sucessão não vale. antecipadamente. Essas 1S9 .

1959. de Alfred Sauvy. Entretanto. deveria me desculpar por falar deles tão tardiamente. para torná-la mais científica. t. das periodizações. em seguida. pode ser concebida de muitas maneiras. como o faz Wagemann. ou essa Montée des jeunes. II: Biologie sociale (1954) 9 . durante esses últimos anos. 2» ed. estrutura? Seria lamentável. menos pressa. um valor novo ao velho jogo. 370 p p . mas não está fora de tempo assinalar-lhes o valor: seu ensinamento não se esgotou. para uma ciência cujo papel e ambição são ir até às próprias bases da vida dos homens. Livros já antigos. N ã o ouso dizer q u e seria preciso ligar. de outra parte. 9. 10. Mas seria preciso. além disso. a palavra. não obstante sua relativa imprecisão. bastante bem. hoje triunfante. não digo. sobrevoando todo o seu território. I I . que anuncia antecipadamente os grandes temas da obra seguinte 10 . Uma vasta obra consagrada ao conjunto da demografia. sempre útil. essa discutível m a s viva Nalure sociale. clássico. mesmo recorrendo à história 8 como Wagemann. será prudente. ela haja acelerado a passo vivo o ritmo de sua construção. livro duplo e mesmo triplo. Imprensas Universitárias. o livro anterior Richesse et population (1943). com toda eqüidade.. Os modelos de Alfred Sauvy Chego ao livro essencial. tampouco. no social. pois.mutações recortam. o de ter procurado delimitar e precisar. Esse recurso à história m e parece. 2. o 8. t. haveria necessidade de ajuntar aos dois volumes de sua Théorie générale de la Population: I: Êconomie et Population (1952). o tempo da história. De fato. encerrá-la apenas nos problemas de conjuntura? Deixá-la fora das medidas e das explicações capazes de apreender o que designa. mas p o r q u e se explicar l o n g a m e n t e ! Ernst W a g e m a n n n ã o é u m historiador. na economia e na sociologia. Não é um pequeno mérito. a l e r t a e inteligente q u e saiu das imprensas h á alguns meses. Alfred Sauvy apóia a sua no econômico. 397 pp. . I. sem mais. em profundidade. \190 . sobretudo. mais prudência e. Em nossos domínios ele é m u i t o ingênuo para que h a j a proveito em segui-lo ou em criticá-lo. desarrazoado. publicada em 1956. seguramente. mesmo que. uma disciplina que ainda está por ser edificada. Dão um sentido suplementar. nele..

depois complicados ao bel-prazer. os recursos aumentarão mais depressa ou menos depressa que os homens. o segundo confronta o modelo. portanto. se fosse necessário. uma ilha povoada de cabras e de lobos. De saída. os "modelos" assim construídos. fora das complicações do real e de suas contingências emaranhadas. de seu "crescimento". e se dão. depois no mau sentido. de um tempo. e. Deixemo-la e passemos às curvas que nos propõe Alfred Sauvy e aos teoremas e modelos que daí depreende e que hão de permanecer a base fixa sobre a qual se apoiará em \191 . colocado simplesmente. prazeirosamente. Mas essa imagem de balança. fora das cautelas ou das pusilanimidades da observação concreta. Como no caso de Wagemann. Alfred Sauvy. ou melhor. com as realidades da experiência. que a Inglaterra conte 200 habitantes. Alternativamente. problemática. de rendas reais. ou. de esboçar um "modelo". não biológica ou historicamente. vemo-nos. . de recursos. Trata-se de trazer à luz a relação que não cessa de ligar e de opor uma população dada aos recursos diversos de que dispõe. O terreno está livre: cálculos e raciocínios podem dar-se. de um país real. ganhamos em primeiro lugar o país ideal dos cálculos. em cada momento de sua história. suceder-se-ão fases que verão reviravoltas sucessivas. ela também. matematizante. . Suponhamos. divertindo-se. as populações. com uma população que veremos crescer ou decrescer. de 0 ao infinito. depois. Portanto. dois movimentos: primeiro. Ainda assim cumpre estar atento aos seus elementos. tão amplo quanto possível. mas segundo nossa exclusiva vontade. no outro. ou antes. . não ousamos dizer no bom. verificação experimental.primeiro volume é uma tentativa propositadamente abstrata. adianta ele uma outra vez. ou se preferem. isso seria uma maneira pouco científica de falar. é pouco científica. O problema a resolver é simples. os recursos heterogêneos dos quais elas vivem. ou segundo tais ou tais regras. Suponhamos uma balança bastante particular para aceitar num de seus pratos. . em sentido oposto. Não se trata de uma população real. diz. Ou suponhamos. É bom que seja assim.

C. Com efeito. do trabalho. a contribuição do último indivíduo a chegar não é mais uma vantagem para a comunidade. do equipamento de seus predecessores. complicada.» 3. no sentido da origem. Cf. a do último homem que intervém no circuito do trabalho. A produção do primeiro homem. . p. pelo menos. ela faz corresponder 0 valor Y da produção marginal. A produção marginal. seu pessoal ótimo. Ele viverá em parte à sua custa.. por muito tempo. 1960. \192 . Além dessa cifra de 6 000. n. Suponhamos que essa inversão se produza em m. matizada à vontade. até o número 1. até o momento em que o equipamento tem. começa em 1. O eixo dos X. para uma população arbitrariamente fixada em x — 2 000. a produção marginal elevar-se. cada novo trabalhador se colocará dificilmente ou. Reproduzimos. . de maneira menos vantajosa que seus predecessores. Essa última é a mais apropriada a nosso desígnio. uma população x = 6 000 indivíduos.seguida sua observação. contida em Y. Y é a produção do 1 000" indivíduo. A primeira seria a da produção total de cada uma dessas populações sucessivas. sendo a do indivíduo de matrícula 1 000 maior que a de seu predecessor imediato. 505. Então. nas classes da população ativa. no seu esforço. Annales E. entenda-se. é tomada como igual ao mínimo vital. corresponda. Suponhamos que ao próprio ponto Mp onde a curva descendente alcançará de novo o mínimo vital. está assim em alta. verifica-se. introduzido na nossa população crescente. sendo as duas outras as curvas da produção média e da produção marginal. a produção irá decrescer. Vê-se aí em primeiro lugar. modificando-o um pouco. a produção marginal será doravante inferior ao mínimo vital. Para X = 1 000. do contrário esse primeiro homem não seria capaz de esperar a chegada do segundo. cada recém-chegado aproveita. A cada valor X da população. esse importante gráfico 11 . 11. A partir daí. sempre arbitrariamente. e assim por diante. Essas curvas são essencialmente três e nelas a população é cada vez levada em abcissa e tomada como crescente. por suposição.S.

Cada um de nossos 1 000 trabalhadores inscreveu nessa superfície. no momento de sua entrada no jogo. é imensa. Suponhamos a nossa população reduzida à porção côngrua. isto é. senhores ou dirigentes. ou o excedente. o que Alfred Sauvy chama "a corcova". . . que queremos calcular essa produção para a população x = 2 000. tanto quanto material. a população abandonando o "excedente" mais considerável a seus amos. essas "mais-valias". ademais — e é o importante — o montante da produção total. . ficando o resto à disposição de seus chefes. Este pode ser. Elas nos é dada imediatamente pela superfície compreendida entre a curva. é representada no grájfico pelas superfícies cobertas. sem dúvida. não há dúvida alguma que ele decifrará essa mensagem simples. a produção global. ela consumiria somente esse retângulo.Essa curva da produção marginal nos dá. à segunda leitura. o poderio depende do uso que se quer ou se pode fazer dos excedentes. corresponde à população x = 6 000. o luxo das classes dirigentes. Poderá então admitir que o optimum de poderio. semi-enigmática: "Não é na produção propriamente dita que a sociedade encontrou seu impulso . o desperdício do príncipe. discutir esse supérfluo. Nessas condições. para a população x = 6 000. sua produção pessoal. A soma dessas linhas é a superfície considerada (na verdade. . um fragmento retangular correspondente ao mínimo vital. mais longamente ainda que Alfred Sauvy. Não sustento que essa linguagem seja de uma clareza evidente para o leitor. A palavra poderio é pouco precisa. sob a forma de uma linha reta de comprimento variável. superfícies que se decompõem em dois níveis: embaixo. Poder-se-ia longamente. ao capricho das decisões e das possibilidades. acima. correspondente a x = 2 000. Mareei Mauss o disse. com efeito. a ordenada d m. Sua importância social. Suponhamos. \193 . a chamada função primitiva da curva de produção marginal). e os dois eixos de coordenadas. Mas. os investimentos frutuosos ou a preparação para a guerr a . à sua maneira rápida. sobretudo se ele não se dá bem com a matemática elementar cujo conhecimento essa explicação supõe.

Démo- 14. em si. relativas a tal ou tal optimum são. É preciso. 1947. CHEVALIER.o luxo é o grande promotor" 12 . ou qualquer outro optimum. antes. 1951. optimum de população. evidentemente. é uma população em movimento que se trata de estudar". é fixar. Tampouco. nem em 1. Mas digamos desde já que essas diversas fórmulas. não pode começar nem em 0. Esse primeiro esquema não é portanto mais que um modelo elementar. um pequeno grupo. explica o próprio Alfred Sauvy. Temos assim. Definir-se-ia. numa linguagem matemática clara e que os reduza a uma formulação evidente e aceitável. Toda produtividade depen12. uma e outra. com a condição. A população ideai. 139 p p . de que uma teoria do luxo ilumine nossa lanterna. Manuel d'ethnographie. que de organizá-lo. mas aceitável do optimum de poderio. Luxus und Kapilalismus. \194 . Paris. tanto quanto possível. com o nível de existência. as quais é preciso constantemente considerar. por exemplo. repito-o. mas óptima diversos. não vejo melhor meio para fixar essa realidade essencial: população — vida material. no início do segundo volume. P a r a u m a definição simples. "Como noção de optimum não se presta a numerosas aplicações práticas. Jogar tudo sobre pontos fixos seria imobilizar o movimento demográfico. Mas voltemos às curvas. sem mais. a de Sombart não nos satisfaz plenamente 13 . cada um devendo responder a critérios (sobretudo materiais). contanto que os critérios que o fixam sejam claramente exprimidos. com uma outra curva. uma maneira de limpar o terreno. de partida. mas. não sem razão. Não há. uma maneira. simplificando-os. O que ele procura. 1922. os termos do problema. Paris. nessa primeira aproximação. o optimum econômico. Sim. M u n i c h . de diminuir os problemas. aos discursos preliminares de Alfred Sauvy. variáveis. uma definição não perfeita. que a produção média possa confundir-se. 13. curvas à mão. ver L O U I S graphie générale. é o "luxo" que tem sido freqüentemente o fator de progresso. Na minha opinião. não é verdade. o isolado'11. o menor grupo capaz de viver por si mesmo. Dalloz. nem que toda a população seja ativa. nem que a curva dás produtividades tenha esses comportamentos elementares.

"o que a teoria queria. secundário. Consumo. Alfred Sauvy nos diz: "Eis como as coisas deveriam passar-se". de exemplos. Nós o deixamos. ele me surpreendeu um pouco. tampouco. ou primeiro volume. de anedotas. que o mínimo vital seja essa simples paralela que traçamos. mas varia. No fim desse livro. Alfred Sauvy não se priva do prazer. com algumas "conclusões provisórias". Estaria. o leitor acredita ter atingido o alto-mar: mas ainda está nas águas ficticiamente agitadas do porto. as categorias etárias de uma população. é assim. Segundo tempo. o custo do homem. "Dessas conclusões provisórias. cheio de incidentes. e. E então. com o fim do século XVIII. terciário). essa multiplicação de exemplos que falam ainda mais de si mesmos que dos problemas gerais. salários reais. tudo isso não funciona. sem grande embaraço. múltipla. ou segundo livro: tudo é confrontado com a experiência. para o leitor que estava desejoso de aprender uma técnica. Nesse incessante vaivém do real à explicação que o interpreta.de do nível técnico e este varia lentamente. . surgem mil casos particulares: a Peste Negra do século XIV. a história (ele poderia dizer do mesmo modo a vida) o recusou". Apenas traçadas. de tudo complicar. gentilmente. caçoando um pouco dele? Num primeiro tempo. toda a vida dos homens. toods esses dados variam e complicam os problemas. salários. componentes da alimentação. O segundo volume da Théorie générale de la population se intitula: Biologie sociale (belo programa). quando foi restituída ao homem a iniciativa que as primeiras convenções lhe roubaram". somente algumas puderam ser conservadas. portanto. os preços. posso dizê-lo. a atual e a histórica. de inteligência. . Não é verdade. os três setores de atividade (primário. prosseguida com franque- \195 . Esse vasto retorno à experiência e à observação. nossas curvas se revelam muito rígidas. suas variações dominaram do alto. de espírito. a viva desordem do livro. o desemprego. depois de ter simplificado tudo. Estou seguro de que toda essa demolição precisa. ainda que teórico em princípio. Entretanto. Seu primeiro livro. Tudo isso cheio de imaginação. de ir de um esquema muito claro a uma situação concreta extremamente matizada.

a primeira a fazê-lo. também. freqüentemente invocada. devido à diminuição. prudente. por contraste. honesto. sem dúvida. nessa segunda folha do díptico. uma sucessão de surpresas. o da Itália superpovoada. em nome da história e da experiência. por tal. não responder. e algumas questões formuladas permanecem sem resposta. \196 . à luz dos pesos e dos pensamentos demográficos. Mas pouco importa! Constatemos somente que Alfred Sauvy — e era direito seu — quis ser obstinadamente relativista. de apreciações vivas. esse típico caso malthusiano. "A história é o homem". não vejo claramente. e entendia. cheio de ensinamentos. sem ser jamais sistematizada. no fio de uma explicação geral.za em nome do homem. Se o demógrafo calcula de novo a evolução demográfica de nosso país. mas. o que ele entende por uma certa psicologia coletiva. teria encantado Lucien Febvre. pergunta. escrevia. por vezes. sincero. constantemente. Quais são as "conclusões provisórias. Tampouco. o que ressalta mais fortemente. penso que talvez. por nossa vez. "esse eterno esquecido". desde o século XVIII. na base. o da Holanda) se colocam. . é um testemunho longamente meditado sobre o próprio corpo. muitos exemplos que se acreditaria apresentados por si mesmos (o da Espanha moderna entre os séculos XVI e XVIII. segundo as linhas de maior inclinação de um texto sempre inteligente. conservadas por nosso colega?" Confesso não ter encontrado em parte alguma o catálogo preciso. jamais dominada. não forçosamente agradáveis. aberta ou insidiosamente. quase sempre convincente. O livro fechado. Qual de nós poderia permanecer indiferente? • Assim. é bem a de uma população que envelhece. deu o exemplo de uma população onde a restrição voluntária dos nascimentos. . à França que. ou. e se refere portanto. o destino da França. vêm esclarecer. testemunho prudente. de sua natalidade. A sociologia assim esboçada. deixando-nos o cuidado de responder pelo sim ou pelo não. "esse importuno". o caso francês. Alusivo. "O crescimento da população é a causa da riqueza ou o inverso?". ganhou as altas classes e depois o conjunto vivo da nação.

lento em romper-se? Mais ainda. infelizmente. Acho esse engajamento por demais conforme com o que penso pessoalmente. de uma sociedade como a nossa. uma sociologia. e mencionando rapidamente o caso dos países subdesenvolvidos. será que o envelhecimento é suficientemente medido na escala do mundo (pois tende a generalizar-se. imaginando coeficientes diferentes — os mesmos de nossos vizinhos — surgem resultados tão desproporcionais ao que foi nosso destino.empurrando para trás o que foi. que a aberração esclarece com uma luz crua o caso desse país estacionário. abandonando-se assim à sua inclinação natural. voltarei a isso. a França e o Ocidente no centro de sua argumentação. aborda pouco? Finalmente. para ter qualquer coisa a dizer contra os argumentos incisivos de Alfred Sauvy. é que uma teoria geral da população se mantenha ereta sobre esses dois pés: de uma parte. não considerou em demasia. particularmente do Extremo Oriente ou da América Latina. a observação no aspecto experimental. de outra. O autor. uma antropologia. Mas. A exposição vira defesa. em parte. "se engaja". contra o que ele adianta a propósito do envelhecimento das populações. O C a p . colocando. uma geografia. há uma economia não clássica. vítima de falsos cálculos. como um caso central. me parece curto. na escala da história? O que duvido. muito conservadores. enfim. A fabricação de um modelo deve ser prosseguida em todas as direções do social e não apenas num ou dois domínios. no sentido cativante de Henri Lau15. ou do conjunto da população mundial 15 . Assim. com seu forte crescimento e suas misturas étnicas. X I . de cautelas estreitas e mesquinhas. cujos grandes. uma biologia humana. o alcance do segundo volume de sua Théorie générale. em outros termos. o cálculo no aspecto econômico. os imensos problemas. ainda menos. ao mesmo tempo o envelhecimento das populações do Ocidente e o equilíbrio demográfico. o da França. \ 197 . como as vagas "demodinâmicas" caras a Wagemann) e também. sobretudo. Alfred Sauvy não terá restringido. nos quadros. julga. contra sua opinião preconcebida em favor dos jovens e de seu impulso inovador. uma história.

tem regularmente a parte do pobre. É dizer q u e o Cap. tão pouco sociológico. o pensamento de Alfred Sauvy é pouco ativo para o meu gosto. sem o menor recurso aos Príncipes de géographie humaine de Vidal de La Blache. ou a de Kurt Witthauer. me decepciona. A história. ou Quesnay. nem que tenha sido evocada uma geografia das cidades 17 . XIV p. com respeito à história das idéias e. em todo caso sem um só mapa. matérias. que. de homens como Malthus. suas surpresas e nossos espantos.gier. ou a da Sra. Deus! II. E é pena. que as palavras-chaves. um livro publicado na coleção de Georges Gurvitch — Bibliothèque de Sociologie contemporaine — seja. não pode lhe servir de alibi. Pode-se construir a teoria geral da população quase fora do espaço. Lamento igualmente que não seja utilizada por nosso colega nenhuma obra de antropologia. ou aos densos volumes de Maximilien Sorre. 236. Na minha opinião. 18. é somente um instante da vida do mundo. deveria mesmo haver uma microdemografia: nessas diversas direções. onde seu pensamento rápido situa seus argumentos. digo-o de pronto. nem mesmo Marx. 17. uma história factual e politizante. A paixão atuante de Alfred Sauvy. falou-se demais dele. Alfred Sauvy se deixa com muita freqüência seduzir por uma história fácil. na verdade. como a de Hugo Hassinger. Alfred Sauvy ainda não os tinha à sua disposição. Cantillon ou Quételet. para voltar a uma publicação inteiramente recente. para citar uma obra antiga. não há índice das \198 . Não creio que a palavra oekoumène tenha sido pronunciada. nem a de densidade de população 16 . Não é Malthus que me interessa. civilização e cultura lhes sejam praticamente estranhas 18 . particularmente. ou às obras de referência. nessa pesquisa no entanto múltipla. Algumas Valha-me linhas. ainda que esse livro fale demasiadamente pouco dele para meu gosto. o que me interessa é o mundo na época de Malthus ou de Marx. seus exemplos. enfim. O tempo presente. mas sua existência apóia minha crítica. contudo. Jacqueline Beaujeu-Garnier? Esses dois últimos livros. Não se poderia compreender plenamente esse instante sem 16.

um caso assim é o propósito dessa senescência francesa da longa duração que. refazer a história a golpes de nariz-de-Cléopatra*". \199 . . para lançar esse movimento. Essa duração histórica permanece demasiado estranha a Alfred Sauvy. Acredita ele verdadeiramente que tenha bastado. bem assentada. está no centro do pensamento e da ação de nosso autor. Mas eis que falo muito. ou não o bastante de história. . " De minha parte. no século XVIII. Certo. . mas uma pesquisa já antiga. dos irmãos Alexandre e Eugène Kulischer. não sem razão. em suma: "É um jogo fácil e terrivelmente difícil. tentando alcançá-lo no seu próprio curso mas com argumentos de historiador. mesmo ao preço de um pouco de aborrecimento. e o sucesso. Se ele toca na história. o resultado de uma "Reforma r e a b e r t a . . de Eugène Cavaignac. de práticas anticoncepcionais que ganharam pouco a pouco o conjunto da sociedade? "E isso no próprio momento (para citar uma frase tomada numa de suas recentes conferências) em que se dava a partida da grande corrida para a expansão mundial. se os títulos citados não lembram nada de tangível. para não falar dos estudos recentes de Daniele Beltrami. em suma. . teria preferido. que fosse retomado por um demógrafo dessa qualidade o pesado dossiê da demografia histórica. . é uma história digna de um humor tônico. Pois essas críticas à base de enumerações bibliográficas são muito fáceis e ociosas. alguns pervertidos. Valeria mais pleitear a causa de uma demografia histórica junto ao próprio Alfred Sauvy.remergulhá-lo na duração que comanda o sentido e a velocidade do movimento geral que o arrasta. Marianne Rieger ou Van den Sprenkel. escreve. desde o século XVI. que não é "uma ciência selvagem". Toda a marcha da França é a seguir influen* Mantivemos a expressão francesa. Alfredo Rosenblatt. de A. do T). P. de Paul Mombert. ( N . Usher. nova. mas por que tentar? Ademais. na aristocracia e na burguesia. Teria gostado de conhecer sua opinião sobre os trabalhos históricos de Julius Beloch. frouxidões sub-reptícias no tocante a Roma. o que pensar dessa pedra lançada no charco dos seiscentistas: "A queda da natalidade francesa é. de tempos em tempos.

ou ainda política. em todo caso. ou a maus exemplos? Um fenômeno de longa duração pode desencadear-se por pequenas razões? Duvido. Assinalemos. e nossos homens políticos tiveram a inteligência — quando a ti19. Enceta-se um fluxo que um refluxo anterior como que preparou e tornou necessário. ou a tem desde pouco. aqui e ali. nem ainda no século XVI. ao termo de exuberâncias de longa duração? Dir-me-eis que com esses últimos quinze anos. as querelas religiosas aí determinam êxodos. P. no século XVIII. mas vão. no próprio passado da França. \ 200 . Ela não é um país superpovoado nem no século XIII. tão freqüentemente evocada por Alfred Sauvy. no mundo. ela não tem o que A. não teve. Se esse despertar. por que teria tido. ao inverso da França. c o m o eu o desejo. quando chega o século XVIII. do século XII ao XVIII. não. o século XII. não pode isso ter determinado. A França tomou então. ou melhor. o envelhecimento não interviria. na via do envelhecimento.ciada por esse evento capital que se produziu no fim do século XVIII". Em resumo. crônica desde o século XIII. a leviandades. sufocando-se sob sua própria natalidade. atribuir somente a faltas. ela viveu numa situação análoga à da índia atual. que a Inglaterra. essas Gesta Dei per Francos. Sim e não. ou econômica. em profundidade. no plano da vida cultural. Ora. uma longa preparação? Alfred Sauvy diz um pouco depressa "que no século XVIII havia um paralelismo no desenvolvimento dos países do Ocidente". talvez no XVII. se a n u n c i a de longa d u r a ç ã o . Sim. a França acaba de conhecer um brusco despertar e atribuireis o mérito a alguns levianos homens políticos de França: é "factualizar" de novo 19 . de uma longa fase de superpovoamento. se se pensa no passado demográfico. todas essas conquistas. em apoio da tese que esboço. Usher chama "maturidade biológica". essa vida biológica de exuberância que foi a nossa. Todas essas emigrações. de emigrações em cadeia. na vizinhança desse pólo de "poderio" que amiúde é acompanhado de subalimentação. A França sai. Durante quatrocentos ou quinhentos anos (se excetuarmos a regressão de 13501450). um futuro que seria fácil. um século de avanço. toda essa usura. Mas esse envelhecimento de longa duração.

1958. Louis Chevalier : Por uma História Biológica Historiador chegado à demografia. e com o qual. Não é nunca deliberadamente que ele se coloca atrás de uma barreira. ou pelos desenvolvimentos alinhados a prumo. antes de tudo. o tentam e ele ignora essa limitação intelectual que é o desdém. seguramente um belo tema. Mas. Além disso. um homem de seu século. in-16. menos para pesar-lhe a exatidão ou o bom fundamento documentais — outros se encarregaram disso sem amenidade — do que para destacar suas intenções e "doutrina". sempre valerá a pena tentar dialogar.veram — de se inserir nesse "vento da história". que se interessa prodigiosamente. não é escrito. assume seu valor. seguramente. flexível porque sem cessar honesto. em razão mesmo de suas riquezas e da multiplicidade de suas intenções. 3 . esperaria em breve vê-la refluir. Esse demógrafo é. Mas se eles fossem os únicos responsáveis por essa feliz ascensão. As grandes vagas da demografia histórica não podem depender de razões medíocres. Ainda que não seja fácil ganhar o fio direto de uma obra bastante espessa. mas falado. bem como seu desdém pela palavra ou pela fórmula claras. mas. XXVIII-566 pp. difícil e desconcertante à primeira vista. \201 . Louis Chevalier acaba de publicar uma obra compacta e veemente: Classes laborieuses et classes dangereuses à Paris dans la première moitié du XIX. amiúde pouco clara. Todos os diálogos. pelo mundo que o cerca. por conseqüência. sob todos os ângulos. Penso que é nesse nível que o livro.. sem opinião preconcebida. Pion. seguramente um belo livro. suas repetições. suas redundâncias. quaisquer que sejam por vezes seus ligeiros desacordos. digamos 20. elas próprias discutíveis. Com Alfred Sauvy. seus fragmentos de bravura. não pode senão se sentir extremamente enriquecido. o leitor. o que explica suas dilações. Não quisera concluir com essas críticas. com a simpatia que me inspira um pensamento sempre aberto. Coleção «Civilisations d ' h i e r et d ' a u j o u r d ' h u i » . Li-o e reli-o. Paris." siècle20.

mas esse desafio. Suas feridas. Quisera mesmo. a Paris da Restauração e da Monarquia de Julho é um belo pretexto. como uma obra pioneira. essas desenvolturas que nos haviam irritado. essas lacunas anunciadas. entretanto. que pessoalmente não lhe contesto. na medida do possível. não se reduz. se alinham enfim num movimento coerente. lhe fosse de pronto reconhecida. É o "manifesto". suas abominações. Esse "manifesto" além disso. de vez em quando. o objeto do livro é o método. é uma primeira aproximação válida. A esse jogo múltiplo tudo é sacrificado. também abundam aí passagens de uma beleza sombria. tudo pesado. com a pena na mão. suas paisagens malditas. a um desafio afirmado de bom grado. para compreender como se harmonizam suas respostas sucessivas. mas essencial. que domina tudo. sua miséria indizível se harmonizam com sombrias gravuras românticas. Operação pouco cômoda. por um instante sequer. que fosse tomada a sério sua revolta contra as regras monótonas de nosso ofício de historiador. é ele que eu gostaria de analisar primeiramente. Antes de tudo ele se exerce contra a história (uma certa forma de história posta à parte. que essa qualidade. como um "manifesto". Então. um livro sombrio sobre essa Paris "mal conhecida" da primeira metade do século XIX "perigosa. na plenitude. sem mais. E naturalmente. insalubre. antes de tudo. Mas que caminho segue? Pergunta imprudente! Louis Chevalier responde dez vezes por uma. por si só. aliás. asperamente justificadas e no entanto pouco compreensíveis à primeira vista. as novas regras que ele escolheu. Esse livro foi concebido. que seria estritamente \ 202 . com veemências à moda de Michelet: umas e outras são a honra desse livro. seria preciso percorrer a volumosa obra de ponta a ponta. relidas as passagens-chaves. Todo o livro — tenha o autor pretendido ou não — é. se ele pode. como uma aposta. nos extraviar. o autor não ignora sua originalidade. como um desafio. com certa impaciência. terrível". Essas afirmações. suas selvagerias. duas ou três vezes. ao mesmo tempo aposta e desafio. as declarações das duas ou três últimas páginas — essas páginas de verdade — tomam seu verdadeiro sentido. e aceitas.imediatamente.

de documentação. Quanto à aposta.o estatístico. conectados cuidadosamente entre si. de obscuridade. Simplesmente. Para ele. como o fariam em relação a qualquer outra cidade e qualquer outra época". simplesmente ignorada. nesses anos. perigosas. da aglomeração parisiense. mesmo contra o estatístico (oh ingratidão!) ". Confesso que esse programa me apaixona. As razões não são. forte por sua especialidade. "A medida demográfica intervém então plenamente. que não dependem mais da cidade organizada. ao programa que traçava. mas estrita. se empenha sozinho nesse mergulho. mas empobrecido por ela". demógrafo. mais ainda. mais claramente ainda: "Por razões que são de documentação ( sic ). foram autoritariamente afastadas como. com a multiplicidade de modos de apreensão. com uma obstinação simpática. "esse domínio. que dependem da "cidade organizada". dispensando a rigor qualquer outra medida". de maneira privilegiada. de modo algum. é a demografia que manda". só a demografia. o homem menos apto a compreender. onde o homem escapa ao homem e se dissocia em formas de existências instintivas. contra uma sociologia da qual se fala parcimoniosamente. sem mais. nosso colega permaneceu fiel. porquanto a documentação habitual e a judiciária. contra uma sociologia do trabalho. a favor de empreendimentos associados. nenhuma dúvida: especialmente para o caso examinado e o período escolhido. a história se individualiza em duas zonas: uma de luz. existentes. elementares. . . Essas "profundezas" são acessíveis à demografia. contra os criminologistas que "tratam do crime em Paris. não à história e à economia.inúteis. Os demógrafos querem estar a sós. isto é.. . e. sua brilhante e orgulhosa aula inaugural no Collège de France. mas de outras necessidades. . em revezamento. \ 203 . contra uma economia que seria de vista curta e facilitada.a dos demógrafos). escreve ele. . no sentido estrito. a outra. ainda que não esteja na linha de minhas preferências: sou. de tomadas de consciência. . ou pelo menos Louis Chevalier. em 1952. ao contrário. deve bastar para desembaraçar e para explicar os problemas diversos das classes laboriosas e. as da multidão. as do espaço".

uma história largamente aberta à demografia. completo ou não. fora das mãos do demógrafo. o preço do pão. de profissões de fé. . as citações. mas aceitável quando torna a entrar nela e a julga transformada por seu próprio labor. a história é freqüentemente visada. essa história que o autor acha medíocre quando a deixa. as outras explicações sociais. certamente hoje não é mais essa explicação tradicional. sem cessar. as dificuldades. se impõem no fio do relato. . Elas vêm a nós por si mesmas. dessa aventura? Pode a demografia assegurar sozinha a substituição da história e das outras ciências do homem. Nesse jogo. por não serem historiadores de formação) que os conceitos da história. esse "relato cronológico" com os quais parece confundi-la? Há mesmo.. desde muito tempo.Acredito que sejam as únicas eficazes. são fáceis de encontrar nesse livro sensível e combativo. elas lhe estendem e metamorfoseiam o programa". afastadas por um instante. de justificações. Mas. essa descrição da Paris operária da primeira metade do século passado é estranhamente entrecortada. maliciosas. se apresentam de novo. justamente por isso. e que seu programa. "Essas estatísticas não trazem à história apenas uma medida suplementar. pelo menos. o autor crê-se obrigado a nos dizer porque ele nô-los recusa ou nô-los dá com parcimônia e porque permaneceremos ou devemos permanecer em nossa fome. normalmente. de digressões sobre a necessidade de afastar de uma análise séria. Mas. na tese revolucionária de \ 204 . nisso. como não me sentiria cheio de curiosidade diante dos acasos e dos resultados. é preciso acreditar em Louis Chevalier? Desde que as procuremos. ou uma descrição das condições de trabalho. que pobre pesquisa é a história. não param de mudar. ou uma estatística dos crimes. com seu "programa incompleto e seus conceitos imutáveis"! Louis Chevalier ignoraria (como tantos sociólogos e filósofos a quem se desculpa. a propósito dos desafios. Penso na tese bastante sensacional de Pierre Goubert sobre o Beauvaisis do século XVII. na França. em profundidade. Portanto. cada vez que. Por isso. tanto mais quanto os mergulhos não correm sem trégua: cada vez que o autor vem à tona. etc. apostas e tomadas de posição do autor.

age enquanto causa e merece atenção. Essa imigração é a variável decisiva (do mais alto grau algébrico). Permanece a da chegada. Simples escapatória: o problema não é jamais saber se determinada constatação foi feita ou não. por vezes. o fenômeno demográfico se desenvolve por ^ p r ó p r i o movimento. Paris é então. as correlações que se podem estabelecer entre crises econômicas e criminalidade e essa ascensão paralela do preço do pão e do número de atentados". antes de tudo. mas o afluxo demográfico não se instala em Paris num vazio material. \ 205 . escreve (e é a economia política que será excluída): " . três ou quatro vezes. o fato econômico. da desigualdade econômica. "Pouco importam. . sempre têm companheiros. terão as mesmas conseqüências num clima de euforia econômica ou numa conjuntura de desemprego e de miséria? A resposta se impõe por si mesma. São numerosas as interdições que ele se impõe. Mas não é somente a história que o autor quer ignorar. eliminemos o genitor. Portanto. Os inovadores acreditam e querem ser solitários. ele se justificará mais pausadamente. . mas nos reconduziria a terras interditadas. pouco importa! Entretanto. A rigor. Na verdade. pelo menos tanto quanto o fenômeno econômico.René Baehrel sobre a Haute-Provence dos tempos modernos. . comanda tudo. Seja. . pensará o leitor. A partir do momento em que "age enquanto causa". que propõe e respeita. trataremos pouco. o fenômeno demográfico. pois o seu estudo foi feito com freqüência". ambas de um vigor que nada tem a invejar à presente obra. o amontoamento de uma população entre muros demasiado estreitos. não sem inquietude ou pesar. mas se é ou não necessária à demonstração ou à pesquisa que conduzimos. na verdade. Assim. a vítima de uma imigração maciça que submerge. esqueçamos a conjuntura de saída. dirá ainda. quando não mais". a presa. nesse ponto cortado doravante do fenômeno econômico e nesse ponto importante que. . . "Engendrado pelo fenômeno econômico. visto que o afluxo dos imigrantes para as grandes aglomerações se faz tanto na alta como na baixa da conjuntura econômica. as outras se apagam diante dela.

apesar de tantas tomadas de posição. um livro economicamente frágil e essa fragilidade. há estruturas econômicas. sobre o volume de seu abastecimento e sua alimentação. é pelo celibato. voltarei ao assunto) e. surpreende o leitor. é o exemplo disso. 316: "o preço de 12 a 13 soldos pelas quatro libras (de pão) é. e mesmo. limitar-lhes o valor. Não são. mais que explicações a curto termo. insistamos bem. segundo ele. quase malgrado ele (assim p. constrói seu livro sobre um certo vazio econômico: nenhuma palavra sobre os salários. classes perigosas — parecia contudo evocá-las de antemão. evadindo-se de todas as explicações sociais. seguramente. sobre os orçamentos operários. com toda evidência. Essas afirmações.O autor tem. e. sabendo-o. Ora. esses retratos esboçam antes uma atitude do que uma política firmemente afirmada. um verdadeiro limite fisiológico"). Só os dados demográficos valem em profundidade e a longo termo. viver em menage à trois". sem dúvida. poeiras impelidas pelo vento sob a pena do autor. nem dos ricos. que seu pensamento. nesse livro onde o próprio título — classes laboriosas. Mas. não é suficientemente claro. para início de jogo. Numa palavra. sem que jamais lhes parecesse necessário. mas não se trata dele. Em \ 206 . consciência disso. . a demografia se reservando as estruturas. negar o interesse das explicações econômicas. construiu cientemente. se não me engano. em se acantonar somente no reconhecimento demográfico e é ali. É. De forma preconcebida. com a história demográfica intervindo. bastando-lhes amplamente uma à outra ( sic). Louis Chevalier repele essas explicações "fáceis" e. há também conjunturas demográficas (esse livro. não desejando mesmo. . não se contenta. O capitalismo é uma delas. escreve agradavelmente: "Reconheçamos que a história política e a história econômica freqüentemente viveram como um casal em boa paz. de fato. para empregar o jargão de hoje. Louis Chevalier. bem entendido. além disso. não podendo. mais ou menos superficiais. sobre os preços. tenta pelo menos. relegar a ecopomia à conjuntura. Sem dúvida. sobre as rendas globais da cidade. econômicas e sociais ao mesmo tempo. não a única. Louis Chevalier. à parte de algumas indicações colocadas.

Mas essas primeiras medidas. em todas as ciências. "social". D . todo o antropológico (e poderia continuar) são bio21. . As palavras biologia e biológico. assim como seus comentários não constituem senão considerações prévias. a esse título. melhor. "humano". casamentos. "um patamar em profundidade" da realidade social.-Roosevelt. Coloca. Constituem. todo o econômico. Population21. conhecem uma fortuna excessiva: são quase um tique de linguagem. . apesar disso elas existem. até mesmo "geográfico". o esclarecimento indispensável a uma outra pesquisa. por "demográfico". as medidas e os quadros que são do conhecimento de todos os historiadores preocupados com sua profissão — leitores e. aos olhos de todo leitor de boa fé. Far-me-ia mesmo aceitar seus vetos se eu pudesse crer em "fatos biológicos" isoláveis. \ 207 . pelo menos desembocar num domínio mal conhecido. o que seria divertido. E . . na verdade. Na verdade. toda a demografia. ao capricho das frases que o introduzem. N . se as estruturas que Louis Chevalier taxa de biológicas estão mal definidas no vocabulário e no pensamento do autor. Não chegarei a dizer que Louis Chevalier pretende desafiar também a demografia. 23. se as realidades. como diria Georges Gurvitch. mortalidade. sob a pena de Louis Chevalier. "jurídico". Paris. mais profunda. VIIIo. como diz Louis Chevalier. a grande articulação a construir e a reconhecer das ciências do homem. "sociológico". Dez vezes • por uma. não o é aos meus olhos e. controle da migração. a de uma biologia mais secreta. sem dúvida. alunos de Alfred Sauvy e de sua excepcional revista. não é senão "apreender o que é inapreensível. avenida F.todo o caso. Descobrir. Mas não nos detenhamos nessa querela vã. Ora. procura ultrapassar o que chamarei uma demografia clássica. tradicional. Na verdade.-D. ele se explica e justifica a meus olhos. natalidade. toda a história. Editada pelo I . compreender o que escapa ao raciocínio". composição por sexo e por idade. Na medida em que o pensamento de Chevalier aceita e sobretudo propõe essa pesquisa de "fatos biológicos que uma enorme sedimentação de fatos econômicos e morais ( sic ) recobria". biológico poderia ser substituído. todo o social. sem dúvida.

a concubinagem. por sua vez. pelos alimentos terrestres. diremos. os "fundamentos biológicos" da geografia humana? Louis Chevalier parece pensar que o exemplo de Paris é de tal modo esclarecedor. um instante. 20« . mas eu teria gostado de uma definição mais circunstanciada. porque ele próprio transborda evidentemente os quadros. de misturar um livro e um manifesto. N o índice do tratado de Dcmographie générale (1951) de L O U I S C H E V A L I E R . Maximilien Sorre já não definiu. acrescentaria por minha conta. sem. dessa história corporal e. do domínio estrito da demografia. pretende que "o homem é o que ele come" (der Mensch ist was er isst). em ligação estreita com o corpo? Uma afirmação de Feuerbach que tem visos de jogo de palavras. Assim pensa a sabedoria das nações. não creio ser bastante satisfatória a definição que nos é uma ou duas vezes oferecida: esses fundamentos seriam "tudo o que. há uma dezena de anos. sem dúvida. como é dito por um instante). A "biologia" de Louis Chevalier 22 não se interessa. uma demonstração. a literatura popular e não popular. que é. o envio dos recém-nascidos aos asilos. ao mesmo título que os óbitos ou os nascimentos. pois "o comportamento das pessoas está em ligação estreita com o corpo. muito além. o crime.lógicos. distraimo-nos. está em estreita relação com os caracteres físicos dos indivíduos". por si só. a estrutura. no entanto. em não e n c o n t r a r as rubricas d e sua pesquisa presente das estruturas biológicas. nos fatos sociais. as satisfeitas e as não satisfeitas. o funcionamento destas". sobrecarregar o do biológico que se estende. material. ter-se-ia o nosso colega obstinado em encerrar essa realidade profunda nos quadros de uma história demográfica. É o perigo. impor-se-ia uma ampla discussão que esse livro nos recusa. uma história das necessidades. meticulosa. Seguramente. não exerceriam eles alguma influência sobre esse "comportamento" dos homens. stricto sensut Duvido disso. o adultério. as necessidades. Todos esses testemunhos transbordam o seu império. as exigências. o teatro popular. Se o suicídio é certamente de sua alçada (e não de uma sociologia intemporal. Ora. 2. Se é questão de fundamentos biológicos. Em todo caso. Se a houvesse tentado. esses instrumentos para compreender uma história biológica não são todos. também são biológicos.

de antemão. A digressão útil floresce aí sem constrangimento. deu finalmente amplíssimo lugar a esses "dados qualitativos". muito prolixo. na verdade. ao mesmo tempo. a obra teria ganho cento e sessenta páginas ou mais. Por que nosso autor. Pensei também que ele havia procedido como um encenador: os atores e as peças conhecidos. entre a história clara (a dos tomadas de consciência) e a história obscura. ou pelo menos não passa por tal. Louis Chevalier houvesse recorrido. Nesse complexo arranjo. de Zola. a esse "universo invasor de imagens"? Pensei por um instante que. \209 . não mais se reproduzirá no futuro. É preciso. entre a tradição e a inovação da pesquisa. Essas dificuldades se acrescentam a dificuldades próprias ao exemplo que essa obra aborda: o conjunto dos problemas sociais e biológicos de Paris da primeira metade do século XIX. uma fácil compreensão desse livro de vastas proporções. que hesitou a esse propósito. mas também a sua dificuldade inerente. o que prejudica. de Victor Hugo e. Essa multiplicidade dos interesses e dos pontos de vista faz o valor dessa obra. amiúde em conflito uns com os outros: fica preso entre o geral e o particular. são bons atores e boas peças. O autor adianta outros motivos. Os Miseráveis podem ser contados de novo. à literatura que não é uma ciência social. Louis Chevalier é constantemente perturbado por múltiplos interesses. Estranho início! Suprimindo-o. . salvo em 1856. é sem dúvida. Mas que um "manifesto" também amplo se misture assim com um exemplo histórico concreto de uma espantosa complexidade. Todo um primeiro livro — Le thème criminei — é assim consagrado aos testemunhos literários. mas. nenhum deles pôde me convencer de que as personagens de Balzac. a multiplicidade dos problemas e das discussões que levanta. sem remorsos. . sob o signo revolucionário de uma aceleração demográfica jamais vista e que. se pensarmos na sua argumentação teórica e muito curto. sentir-se-á prazer nisso. se considerarmos a massa enorme que propunha ao historiador essa vida parisiense de um meio século. de Eugène Sue.Vê-se a ambição de uma tal formulação teórica. não querendo dever nada a ninguém. o mais freqüentemente. lamentar-se e felicitar-se por isso.

como regra geral. O que ele diz sobre o controle. todo esse longo preâmbulo é de uma excelente. sem o que. seus múltiplos problemas.não invadem abusivamente um livro que se apresenta como científico e mesmo revolucionário. repito-o. sobre o teleguiado. a história é excessivamente desencarnada. Mas os argumentos opostos aos meus têm seu peso. esse limite é. "Os crimes. por seu simples peso. nem estudo social completo (mas há outros testemunhos qualitativos. Sobretudo. acreditou poder esclarecer o grande tema de sua observação e de sua descoberta. para estender-se. Mas. Exige precauções muito mais do que não importa qual outra operação acerca de não importa que outra fonte. nessas zonas difíceis. "O crime cessa de colar-se estreitamente às classes perigosas. pela estatística. E não menos o que ele escreve sobre \210 . se o romance o é. Estou também totalmente de acordo com isso. o menos seguro). não há história. Louis Chevalier introduzia assim no seu livro o "qualitativo". esse testemunho literário em profundidade num estágio infrafactual. à maior parte das classes laboriosas. é um livro em si e que requeriria apenas chegar à autonomia e à independência. Outra vantagem: ele dava lugar a essas tomadas de consciência. como o escrevia Parent-Duchâtelet." Estas por si mesmas. Persisto em pensar que valeria mais reunir num livro à parte. sem o que." Toda essa análise dos testemunhos literários e a evocação dos lugares sinistros da topografia parisiense. seu destino. mudando de significação. estou de acordo com isso. Essas dificuldades não escaparam a nosso guia. às grandes massas de população. generalizada. deslizam para a franja vermelha do crime. mas da distância que. toda obra de arte interpõe entre ela e essas realidades. de uma poderosa oportunidade. não somente das realidades postas em questão. Uma crítica cerrada. são doenças da sociedade. organiza-se a passagem de uma criminalidade "excepcional e monstruosa" a uma criminalidade "social". De Balzac a Victor Hugo. essas análises interessantes por si mesmas. tem grande importância. conscientemente ou não. porque essa poderosa (e inovadora) malaxação do testemunho literário também coloca seus problemas. captando com infinitas precauções. em suma.

a fecundidade. com cifras. O terceiro livro se intitula Le crime. saber escutar. Louis Chevalier sacrificou tudo. mas no que ele não pode evitar dizer. . os infanticídios. com efeito. o estudo das casas. essa tardia tomada de consciência da literatura com respeito à "criminalidade social"? Os Miseráveis estão na tarde de seu período. expression d'un état pathologique considéré dans ses causes — apresenta. depois essa franja perigosa da qual se suputa a largura sem poder calcular-lhe os efetivos. a desigualdade por excelência. a concubinagem dos operários. ou quase tudo de sua obra.". "testemunho eternamente presente que é preciso.esse testemunho da literatura. certamente. entretanto. Assim se apresentam. Lamentemos apenas que os mapas e gráficos atirados ao fim do volume sejam tão pouco numerosos e de difícil consulta. bem como as correlações e hipóteses que elas autorizam. oficiais ou clandestinos (entre a metade e o terço dos vivos). do equipamento urbano. das estruturas físicas e materiais da aglomeração. . "a morte contabilizando o todo" como o diz fortemente. O segundo livro — Le crime. sem que eu tenha a pretensão de esgotá-los. e de maneira diferente. enfim. estuda como se deterioram as condições demográficas e biológicas da população laboriosa de Paris e. Aí. a prostituição. um liame entre a ilegitimidade dos nascimentos e tendência cri- \211 . para que essa última parte se imponha e brilhe. toma consciência dessa imensa transformação. ainda que nem sempre suscite a convicção e nomeadamente na sua linha maior. os problemas múltiplos e vivos desse longo primeiro livro. a morte. Há. expression d'un état pathologique considéré dans ses effets. Como Louis Chevalier explica. ao lado das clássicas medidas demográficas. seguramente interessante. como a opinião pública. Não no que ele pretende dizer. bem ou mal. segundo a óptica burguesa ou operária. a loucura. a massa aproximativa dos indigentes. O problema é estimar. Os sinais com que aclara essas deteriorações são os suicídios (suicídios operários). Quais são as massas de homens que se amontoam na cidade? Sua distribuição? Sua idade? Esse segundo livro é denso e sólido. de novo.

Toda uma patologia social. aliás. Colocadas em jogo essas causas. a concubinagem. Não se trata de "julgar" esta última (o livro todo. as crianças abandonadas. não expressa. os nascimentos ilegítimos. a gama muito extensa dos "delitos". mas de ligar em um conjunto as cifras que controlam seu comportamento múltiplo e no-la mostram encerrada numa \212 . lhe é favorável). A segunda razão. o envio de crianças aos asilos. é talvez o desejo do autor de permanecer uma vez mais no interi. Essa apreensão é uma lição válida de m é t o d o . é verdade. faixa larga. com o perigo social. "razão quanto ao sentido geral de sua investigação. lhe fornecem ampla messe de informações. dessa vez. Tanto mais que. A primeira é que o crime registrado administrativamente é somente uma parte do crime real e virtual. Essa franja. . a mortalidade. seus meios de controle. apenas biológicos) permitem um estudo em laboratório. cuja amplitude não tem precedentes. em situação mais desvantajosa ainda que as classes laboriosas normais e em cujas fileiras a vida social encontra naturalmente suas mais fortes tensões. para essa franja vermelha e obsedante do crime de múltiplos aspectos. enfim. com o conjunto da classe laboriosa. E Louis Chevalier dá-se muito trabalho para calcular essa população. categoria biológica e social. Sem dúvida. os asilos de ^ velhos. evidentemente. encosta abaixo. os hospitais. os suicídios. todos esses signos "biológicos" (mesmo que não sejam. r de suas próprias medidas e de sua demonstração. Louis Chevalier não pedirá às estatísticas criminais que a desenhem por uma razão que ele dá e uma que ele silencia.^ Louis Chevalier tem. cujo espetáculo é rico em ensinamentos.minai de uma parte da população. os efeitos não poderiam surpreender: toda a massa laboriosa desliza. surge assim revelada. mas os arquivos judiciários não registram. Os filhos naturais fornecem uma grande pare do "exército do crime". estou de acordo com isso. ao lado do crime. As doenças. com a indigência que prende em suas malhas uma parte tão grande da população parisiense. sou eu que o acrescento. faixa estreita. Assinala-se um laço do crime.

exceções que confirmam a regra. num novo livro. assumindo os riscos e perigos. medidas demográficas e biológicas teriam iluminado nossa lanterna. os horrores do primeiro século XIX não passam de água de rosa. um longo debate poderia. não estão forçosamente de acordo com sua tese. Pouco importa. se travar. limitam a tomada de posição desse livro. Toda tentativa tão apaixonada. que. com efeito. De minha parte. a claro. sinto receio. No entanto. (ou não) em desprezar arquivos judiciários. o que se \ 213 . de reencontrar.sorte inexorável. os quais. Sobre a aplicação da doutrina ou do "manifesto" nesse exemplo que os realiza. na medida das ciências do homem. Espanto-me que a Paris da Restauração e da Monarquia de Julho não tenha sido mais minuciosamente comparada às Paris que a precederam e seguiram. ou melhor. Para mim. na medida em que contradizem. de contar com tanta insistência com o testemunho literário. infelizmente. que Louis Chevalier tenha razão — como eu creio — (ou não) sobre o caso parisiense. que mo provem! Enfim e sobretudo. ou não. ao me empenhar desde agora numa discussão desse gênero. É útil presentemente? Espero que Louis Chevalier me dê a ocasião. por exemplo. repito-o. Tentei seguir e resumir esse livro difícil. Eu teria medo. sob o signo do risco. Pouco importa também. Tentei fazê-lo. como eu acho. Análises. sem dúvida. certas lacunas de seu estudo parisiense me parecem bastante graves. tão excepcional quanto ele o crê e. E se estou enganado. de diminuir o alcance do debate. Não é. Nenhuma mobilidade social cria para o alto essas ascensões compensadoras de que não se podem citar senão exemplos. ao lado da Paris do século XVI e de Luís XIII. atrai e atrairá forçosamente reservas e críticas. cifras abundantes. que ele se tenha enganado sobre determinada cifra ou determinada referência. que ele tenha errado. tenho a impressão de que a aventura parisiense que nos é contada por Louis Chevalier. o problema era assinalar-lhe o movimento. minha intenção julgar seu bom fundamento no que concerne a Paris. seu pensamento complicado e autoritário. que ele tenha cometido um erro. não é.

Essas comparações. a imperialista demografia. no mesmo momento. à lição de método que pretende ser esse livro. estreitamente conjuntural mesmo. com o risco de demolir um pouco de passagem. posições que me interessam tanto mais quanto situo mais alto o lugar da demografia nesse conjunto. tocar nos fundamentos biológicos de uma sociedade. sem o menor cuidado. Estou de fato persuadido de que. e a da Europ a . pelo contrário. como uma exceção na vida parisiense. em direção ao novo horizonte das realidades e estruturas biológicas. Coisa curiosa é Ernst Wagemann. antigo \214 . a melhor maneira de render justa homenagem a essa obra combativa. se a população de Paris dobra mais ou menos de 1800 a 1850. trégua nas discussões e nas reservas! O que conta é a brecha que esse livro abriu. para falar como Louis Chevalier — é ir ao âmago de suas estruturas.passa. 4. eram indispensáveis para fixar o verdadeiro semblante de Paris e o verdadeiro sentido da experiência demográfica que aí se desenrola. nas outras cidades e mesmo nos campos de França? E nas outras capitais européias? Estou perturbado pela idéia de que. força convincente. Reconhecer esse mérito essencial é. Mas. . Os três autores que retive não se assemelham. foi para melhor analisar as diferentes posições da demografia em face do conjunto das ciências sociais. É quase naturalmente que Louis Chevalier se demora em conjunturas curtas. . a de Londres. sem dúvida. Mas eu me espanto que me queiram prová-lo graças a um estudo no fim de contas conjuntural. da qual Louis Chevalier não diz praticamente nada. atento somente ao que se nos apresenta como um acidente ainda desconhecido. parece-me. em inscrever esse acidente no movimento secular que arrasta a vida profunda de Paris e a das outras capitais. Se os reuni aqui. Eram mais indispensáveis ainda para dar. para aumentá-la aliás. triplica (900 000 a 2 500 000). finas como pontas de agulhas: é o caso das epidemias de cólera de 1832 e 1849. ou tentou abrir nas ciências do homem.

quero dizer. hoje. face às ciências rivais da demografia. ser tomado pela embriaguez do inovador.5 . a hora não é. de visar o essencial e o simples e. Ora. Não há história. se posso dizer. Não acrescentemos a isso vãs disputas de fronteiras ou querelas de precedência. e ainda menos concepção histórica que "conduza". não obstante. por minha vez). não há demografia que conduza. Toda explicação unilateral me parece odiosa e. os pontos de vista. conscientes ou inconscientes. a dificuldade de um mercado comum das ciências sociais. nesse vasto campo não estruturado do conhecimento do homem. disse-o. escrevia. os conhecimentos adquiridos são para todo o mundo. tinha esse desejo autoritário. aí está. no momento em que as ciências do homem criam pele nova. entre todos. não há economia. a Maurice La Châtre: "Não há estrada real para a Ciência". xenófobos mesmo. Pelo contrário. Karl Marx que. nas suas teorias da apropriação dos meios de produção. a 18 de março de 1872. Ou então estou totalmente enganado. Não há uma ciência ou uma carreira que dominaria. entretanto. próprio a todo sábio. Assimilar técnicas estrangeiras. um pouco vã. em que se quebram todas as velhas barreiras que as separam (e aqui eu defendo. teria podido. para quem quer que se mostre capaz de servir-se deles. vindo da história) que são mais ferozmente nacionalistas. não há sociologia que conduza. não é mais para pequenos nacionalismos. que se atinha. a justo título. antigo historiador? Em todo caso. Os métodos. Não o esqueçamos muito! É por múltiplos e difíceis atalhos que nos cumpre caminhar. diante da amplitude da tarefa. o pensamento de Alfred Sauvy é naturalmente levado a uma curiosidade universal que o poupa de um espírito bairrista. à dupla linha (ao menos era dupla) de uma articulação social e econômica. Karl Marx que. é Louis Chevalier (pode-se dizer.economista. 21.

HISTÓRIA E TEMPO PRESENTE .

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e de uma estada numa pequena cidade brasileira. relê-se com prazer o livro dedicado. Annates E. Seu título. faz temer um livro geral. ainda estamos lá 1. M A R V I N H A R R I S . NO BRASIL BAIANO: O PRESENTE EXPLICA O PASSADO 1 Lê-se.S. 1956.C. 325-336. New York. mas felizmente o anúncio é inexato. n. inteligente. chegamos à Minas Velhas. abril-junho 1959. da Columbia University. teórico. de Marvin Harris. 2. Columbia University Press. longe no interior. x-302 p. Town and Country in Brazil2. pp.P 2.11. \219 . Town and Country in Brazil. Trata-se unicamente de uma viagem.. no coração do Estado da Bahia. Desde as primeiras páginas. in-8*?.

a esse ponto. montanhosa. é um prazer vivo. 65 libras de produção. nascidas desde o fim do século XVII. que se mantém por milagre. precoces. possa. fazer compreender. em todo caso. tocá-la com o dedo. aliás. porque é raro que uma obra. 1 No meio de uma região ingrata. por vezes de muito longe. mais numerosas. ela agitará toda essa ordem antiga. mas vê-la. Em 1746-1747. desde 1726. ou seja. com o fim do século XVIII. sob o signo da mais estreita objetividade. se colocou à ativa cidade: os víveres afluíam de toda parte. como diante de um espetáculo.quando o livro se acaba. desusada. a exploração remonta a 1722. \ 220 . desprender-nos do tempo presente e conduzir-nos. com os primeiros decênios do século XVIII. aquelas. estas. cientificamente desenvolvida. mesmo a vida nova tem seus atrativos: um dia. de uma civilização urbana passada. tão viva. 0 texto a tal ponto interessante. em Minas Velhas como no conjunto do Brasil. mais que semideserta. frágil. É em meu espírito um cumprimento excepcional. Em Minas Velhas. de 1725 pelo menos e. Minas Velhas foi plantada pela difícil aventura mineira do século XVIII: foi uma das importantes cidades do ouro do imenso interior brasileiro. nenhum problema. nos aborrecido um segundo sequer em companhia de uma guia que sabe ver. durante o percurso. para dizer a verdade. às fontes — aqui ainda vivas — de uma realidade. arcaica. o quinto se elevou assim à 13 libras de ouro. Enquanto que o ouro dos filões e dos aluviões foi abundante. que a obra se lê "como um romance". O estatuto urbano da cidade data. talvez um pouco antes. Um historiador pode sonhar com uma paisagem desse gênero. sem jamais termos. A isso se acrescentavam evidentemente a fraude e o ouro em trânsito. ela possuía sua Casa da Moeda onde o ouro era fundido e retirado o quinto que revertia ao rei de Portugal. Mas. a prosperidade aurífera se vai. com seus próprios olhos. e que ensinamento! Apressemo-nos em desfrutá-lo! Em Minas Velhas. compreender. A pintura é.

quem teria interesse em ir até essa cidade perdida? O viajante hesita. dos caminhos de ferro. Minas Velhas não teve oportunidade: a geografia jogou contra ela. . Nada progrediu ali há duzentos anos. com um distrito constituído para esse propósito e. muito morno.S. sua vizinha bastante próspera. Há só um bar em Minas Velhas e faz muito pouco movimento para que valha a pena ter um refrigerador 3 . Continuou aproveitando o impulso inicial. por uma gigantesca queda d'água) o alto vale e os planaltos das gerais de Minas Velhas. no traçado das estradas carroçáveis e. em detrimento da velha cidade de sua circunscrição. o progresso toca (a eletricidade. aconselham ao autor.A esse desastre.F. precária por natureza. depois. . cidade <burburinhante que. será melhor permanecer conosco. Eles estão horrivelmente atrasados. . em Bromado. . depois conseguiu adquirir e reter a medíocre fortuna de um centro administrativo de última ordem." \221 . de ervas raras. entre outras. Os negócios lá são péssimos. a despeito de sua situação anormal. a cidade sobreviveu. batidos pelos ventos. povoados de arbustos raquíticos. a T. pois seu primado administrativo — a segunda riqueza — foi bem depressa contestado e seu "distrito" desde então remanejado. "Fique aqui conosco. Além disso. Temos eletricidade e coco. Acrescentemos a esses avatares que. Em 1921. último golpe. ao alcançar a última montanha. a um só tempo com a estrada. em lombo de mula. pela "garganta" do Rio das Pedras (cortado. chegou até o tempo presente. e o tráfego de automóvel a atinge há pouco tempo e de maneira difícil: um caminhão por dia. retalhado. com dificuldade. não será muito encorajado a ganhar. sem nenhuma . quase mortal: Vila Nova. depois de muitas desilusões. Jividade. aos tropeços. . frio. O viajante.. uma vez mais. com seu cacho de viajantes e suas mercadorias heteróclitas. Minas Velhas é o lugar mais morto do mundo. abundância de frutas frescas e carne de porco . . se separou dela. se se informar. a coca-cola. Se quiser cerveja fresca. É um lugar triste. entretanto. em Vila Nova. naturalmente. ) . A via férrea detém-se muito longe de suas portas. assim. desmantelado.

leva 3. minúscula. orgulho da cidade. Gravatão. as cidades brasileiras em construção —. dos vilarejos bastante pobres e incultos de seus arredores: Serra do Ouro. frescamente repintadas em branco e azul. pedras. Feitas com tijolos secos ao sol. miseráveis. quase 1500 cidadãos. branco. . suas crianças saindo da escola em blusa branca e calção azul. pseudomuralhas. portas móveis. pelas realidades da cidade. para dizer a verdade. Em face delas. não agrupa menos. Não. Teria o viajante atingido a cidade maravilhosa? II Em seguida? O melhor é interessar-se pelos espetáculos. ponto de encontro dos passeantes da tarde. o jardim e suas platibandas entrelaçadas. Há pois concorrência. Baixa do Gamba. oh milagre. Um camponês. Minas Velhas. \222 . frutas. ao chegar a Minas e deparar com uma cidade tipicamente cidade — impressão que quase não proporcionam hoje. mas a velha cidade. E m M i n a s Velhas. Gruta. No total. Bananal. mandioca. como a segunda. também recentemente pintada. ou Formiga. feijão. Pouco a pouco. azul. Minas Velhas não vive. todas. suas casas 4 alinhadas ao longo das calçadas. como a primeira. seus habitantes decentemente vestidos. sem dúvida. café — não vai somente para o mercado da cidade: os vendedores chegam até Vila Nova. além disso. sua limpeza geral. É pedir-lhe demasiado.A surpresa é tanto maior. porque a terra. muito fragmentada. com suas ruas pavimentadas. aliás. ao acaso dos encontros. para o viajante ciente de que deixou a "civilização". 4 . Uma ponte de pedras. essas vilas encerram 1250 camponeses. pode suportar sobre seus ombros o peso de um cidadão? Não. inhames. ou de camponeses negros. sem mais. barreiras. Brumadinho. com a d j u n ç ã o de algumas cobertas de telhas. por si mesmo. ouro. tanto mais que o excesso da colheita — legumes. um pouco de milho. batatas doces. vilas de camponeses brancos. Gilão. . os problemas se descobrem. arroz. açúcar. uma cidade. é de uma fertilidade medíocre. a grande praça com sua igreja de pedra. melhor situada. não h á eletricidade.

se lhes cola para se alinhar em conjunto. . pelas maneiras e mesmo pelo rosto. HARRIS. O campo. eu o disse.. se "quando você sai de manhã. cit. Uma forma inteiramente outra de existência. A cidade é o barulho. Pobre camponês. \223 . para eles. Se essa rua é calma. pensá-lo em face dos mais infelizes ou menos afortunados. pelo sotaque. op. Em todo caso. fraternal. Ser citadino é ser superior. pois uma verdadeira casa toca em suas vizinhas. a esses clientes desajeitados das lojas. . então tudo fica estragado. à parte. isso me cansa e não vejo a hora de voltar" 6 . mas depois de um instante. Como explica José. como se diz em Minas. sobre as melhores terras. 6. reconhecíveis à primeira vista pelas roupas. uma certa gama de prazeres. É também a ocasião. 145. a conversação. . "A própria sombra lhes faz medo". constituem um liame a mais entre cidade e campo. Defende também seus direitos pelas propriedades mesmas de seus "burgueses". dos outros. é verdade. diz ela. com um sentimento bem mais forte do que aquele que liga o londrino ou o nova-iorquino à sua grande cidade. A cidade é o rumor. que mora numa casa isolada. de Baixa do Gamba. Gosto do movimento. de pequena extensão. é somente para aqueles que têm os bolsos cheios de dinheiro" 5 . sem mais. aqui. "a vida do comércio. as maiores são fazendas. e poder dizê-lo a si mesmo. Sua mulher acha que "o comércio é bom por algumas horas.ainda assim a -melhor. é o comércio. hóspedes do sábado. de sentir-se superior a esses camponeses. . pobre tabaréu. sobre a rua. cada um compra a alimentação por dinheiro. MARVIN Ibid. reconfortante. mas freqüentemente ao longo do Rio das Pedras. no dia do mercado. que diferença! É a solidão. A cidade. o movimento. Pensem portanto. até a medula dos ossos. pequenas ou medíocres. Essas propriedades. pobre gente da roça. com um mesmo movimento. Como é agradável chalacear a respeito deles! Esses campônios eles próprios sabem que a cidade lhes é muito superior. p. é em relação a esses camponeses que o homem de Minas Velhas se sente citadino e. não há um barulho". de distrações. Não invejem esse homem de Minas Velhas. 5. ou.

É de um ponto de vista de conjunto que conviria encarar esse gigantesco problema. de outra. Melhor que longos discursos. e não gratuitamente. a indústria artesanal. ele foi o companheiro de Marvin Harris nas excursões fora da cidade. até mesmo pela gramática latina. de uma parte. entre mil outros. com as roupas esfarrapadas de todos os dias. Mas. ainda que simples e pobre tijoleiro de Minas. III Mas não se vive somente de barulho ou de complacência para consigo mesmo. . que lhe vem de Vila Nova. de seu gosto pela dignidade. cuja inesgotável tragédia os romances-fluviais de Jorge Amado souberam contar. . "Em Vila Nova. esses pequenos traços — eles abundam no livro — falam do orgulho da cidade. com tudo o que ela pode significar em retorno de dinheiro. em 1820 já fazia a admiração de dois viajantes alemães.diz Péricles. ninguém presta atenção a essas coisas. veste-se. Péricles vai de pés descalços. Deixemos a primeira dessas soluções. Duas soluções para esse problema: a emigração. Repetidas vezes. Se se trata de ir à Vila Nova. de seu amor pelo barulho e pela festa. '43. o que. mas em Baixa do Gamba. não. 2M . um citadino. bem como de seu gosto pela cultura. o combustível indispensável. Gota d'água. se é para Baixa do Gamba. Minas Velhas é um exemplo. mas também a farinha e o querosene. de sua reserva orgulhosa. os naturalistas Von Spix e Von Martius. a excelência de seu professor de latim. esse superlativo do barulho. Minas Velhas p. Uma vez que as vilas-satélites só alimentam a cidade em parte. não posso andar feito esses tabaréus" 7 . Eles também ficaram impressionados com a dignidade da pequena cidade (então com 900 habitantes) e. desses grandes movimentos que afetam ao mesmo tempo todo o Nordeste brasileiro (cidades e campos) e não apenas o Estado da Bahia. chega a ponto de emprestar sapatos. ela se vê forçada a ganhar a vida para pagar o que consome: o que compra aos camponeses.

de São Paulo. ferreiros.facas. de bagagens. os mercadores ambulantes de Minas Velhas. com suas mulas carregadas de mercadorias as mais diversas. esta crescente. do couro. carpinteiros.enfadonha da estreita cidade? Fora de seus emigrantes. A forja está. o mercado longínquo (entenda-se com isto o interior do Brasil). ou quase. de arreios. com seu fole rudimentar. alfaiates. . geralmente um filho ou um jovem parente. de' arreios. Eis-nos a nossa vontade. tudo nela é com isso revirado. tão pouco numerosas. fabricantes de serras. por excelência a zona da circulação burriqueira. Imaginem uma cidade medieval. vendem de novo. com pouca coisa de diferença próxima de sua congênere das aldeias da França que nossa infância conheceu. Os das esperas — a cidade tem uma população feminina superabundante —. peregrinação e feira ao mesmo tempo. ou a mulher do patrão. em 95 artesãos. ainda à margem das vias férreas. oleiros. costureiras. mas há verdadeiros retornos? Como se readaptar à existência em si <. no século XVIII. O mercado próxinio são òs camponeses de que falávamos há pouco. sobre o São Francisco. ao mesmo tempo que os romeiros. Na loja. os dos retornos. Tal mercado vai para oeste até Xiquexique. para mercados longínquos. contamos 39 metalurgistas (se o podemos dizer) e 28 artesãos. Do mesmo modo. quando pode. A emigração incide sobre os jovens. latoeiros. até a peregrinação do Bom Jesus da Lapa. Daí muitos dramas. de rendas e de flores artificiais.está presa nesse rio. no XVII. de chicotes. Assim. revendem. Minas só ^pode contar para viver. por um instante. Ao lado do mercado próximo. com o trabalho de seus artesaós: artífices do cobre. e da circulação dos caminhões. de. o comprador comprará os produtos fabricados sob seus olhos. artesãos que são tentados pelos altos salários da Bahia ou mais ainda. não importa onde no Ocidente. mais longe talvez. de pequeno porte. firma um \225 . ... Evidentemente. que trabalha para seu próprio mercado e. compradores de selas. É para lá que afluem em julho. os mais qualificados por vezes. dois ou três operários ajudam o patrão. Vendem. trocam. O patrão que lhes confia facas ou sapatos.

O setor dos metais tem poucos: o mundo artesanal parece ter-se aqui arrumado por si mesmo. que hoje não mais se fabricam. Ontem.preço com eles. há vinte e cinco anos. muito longe no tempo. O ferreiro João Celestino bem o sabe: "O ferreiro só tem olho para guiá-lo". a zona atingida por esse tráfico primitivo é ameaçada e sem cessar reduzida pela instalação de novos meios de transportes e pela chegada de novas mercadorias. talvez exagerando um pouco. mas a operação se desenrola por sua conta e risco: quando o revendedor voltar. ei-las. mas esses capitalistas existem realmente. Prioridade dos transportadores. Seria melhor. Mas de que lhe serve. . Uma troca chega a bom termo e. no início da commenda e do capitalismo comercial. correm nesses circuitos primitivos e continuam a afluir entre as esmolas ao Bom Jesus da Lapa. À Vila Nova já chegam sapatos fabricados no Estado vizinho de Pernambuco. ou trata muito depressa. essa zona alimentar reduzida permite ainda a Minas Velhas manter todos os seus intercâmbios. Como se imagina facilmente. essas rotas do interior. trocas ou compras antigas. ainda que pouco numerosos. excelente artesão. Assim ela consegue os metais num comércio de ferro-velho atento: sucata. trilhos velhos. fabricando depressa objetos de segunda qualidade. mas aquele que transporta e que vende. a partir de Minas Velhas. ter olho pre- \226 . Quem dá as cartas não é aquele que produz. a caminho de Minas. sem dúvida. mandar vir da Bahia o níquel em folhas. zinco de motores de automóveis em refugo. Como é que estes surgem? É uma questão que nosso guia não resolve inteiramente. Entretanto. cobre das velhas caldeiras. mas que. declarava um dia. reconhecíveis. Mas como o pagariam? Os mercadores juntam as velhas moedas de níquel de 400 réis. atingiam Goiás e até São Paulo: hoje isso está fora de cogitação. Eis-nos. . dos empresários. Seus mercadores lhe trazem mesmo o metal necessário para suas niquelagens primitivas e que mal se mantêm. depois de julho. ainda que desamoedadas. prioridade também dos capitalistas. restituir-lhe-á com as contas a mercadoria não escoada. uma coisa conduzindo a outra.

frutas. no século XVI ou no XVII. que a velha cidade resiste a tantas condições contrárias. Nesse ritmo. Revendedor de produtos alimentares. existem máquinas. já muito maltratado. O mestre é o empresário. o homem "que faz trabalhar" os outros. de selas. os artesãos vêem nisso um sinal de liberdade e de independência. bastante miserável. é uma providência. surge o trabalho a domicílio. Isto porque a luta está travada quase por toda parte entre o Brasil de ontem. todo o movimento da cidade. é o felizardo que vê vir a ele os clientes. seus verdadeiros pobres.. os rumores. pior ainda seus pobres. mercador em suma. de sapatos. pensam os artesãos de Minas Velhas. Estamos aqui. Um dia virá em que mesmo os camponeses. pois acham que o salário regular os escravizaria). a do lojista da venda. não mais virão comprar seus sapatos. até mesmo a especialização em novas oficinas. açúcar grosseiro (a rapadura). emprestador. o vendeiro. como houve tantos outrora. sentado em sua cadeira ao longo do dia.ciso? "A vida de hoje não nos dá mais ocasião de fazer uma peça decente de trabalho". pode-se dizer. Aceito isso. paga os salários. porque tudo ou quase tudo se vende a crédito. É por uma economia ascética. pois a "manufatura" se instala timidamente. de botas. Não há máquinas. Mede-se essa mediocridade geral pela posição que parece a todos tão invejável. mas por quanto tempo continuará a sê-lo? Tanto quanto durar um sistema que se baseia na divisão do trabalho e nos salários muito baixos. aguardente (a cachaça)'. ou os que se dizem ricos. Ao mesmo tempo. mal faz viver seus ricos. baixos salários. é o caso do Senhor Bráulio. em Minas. Liberdade e miséria! No setor do couro as coisas corem de outro modo: com a ajuda. através do Ocidente do primeiro capitalismo: ele consegue a matéria-prima. e o Brasil imperioso de hoje. seus chicotes ou suas facas com bainhas de couro. de legumes. os tabaréus dos arredores. \227 . Ora. que ele mesmo venderá. apareceu o trabalho por peças (curiosamente. fabricante de sandálias. assegura as vendas. esse sistema se choca com algo bem mais forte que ele: alhures.

documentos vivos tão cuidadosamente trazidos à luz. entretanto. crenças populares. sob os nossos olhos. o capitalismo à longa distância de seus contemporâneos: eles estão ali. tanto no tempo quanto no espaço. sem dúvida. prossegue^segundo o plano habitual das investigações etnográficas: falara do lugar. um e outro. suas cidades. com insistência. como o viajante o fez no início desse livro. aplicado uma vez mais de maneira muito convencional. em capítulos sempre precisos e vivos. . que não estou inteiramente de acordo com esse plano habitual. com a condição de que não seja estudada somente por si e em si mesma. a priori? Uma pequena cidade é um bom campo de observação no atual? Sim. Mas expliquemo-nos mais claramente ainda. nos primeiros capítulos tão ricos do livro e que nós seguimos passo a passo. do governo municipal. ir mais longe. e mesmo interrogar o conjunto do Estado da Bahia. Marvin Harris nos perdoará por lhes ter dado. no Brasil. muita freqüência pela investigação etnográfica. No que concerne à Minas Velhas seria preciso discutir seu passado. de mostrar a harmonia ou a desarmonia entre a cidade e as pequenas vilas de seus arredores. alhures talvez. se fosse necessário. o preço de um testemunho inestimável sobre o passado? Como compreender melhor o "pequeno" capitalismo dos lojistas medievais ou. Maryin Harris . Seria preciso discutir sua circunvizinhança atual. Além. das raças. o do Brasil tomado na sua massa. o passado de sua região. sendo seu cuidado constante. mas também avançar até Formiga. Depois. desde as primeiras páginas de 228 . faz as ligações e nos fala. . da religião. mas como um testemunho que é preciso restabelecer em planos múltiplos de comparação. Tem a sensação de estar ali diante de uma das grandes articulações de toda investigação etnográfica e não deixa de ter razão." da vida econômica. deter-se em Vila Nova. suas vilas. até Sincora. Posso dizer. segundo as regras praticadas c o m . das classes. O autor não nos oculta. até Gruta.IV Essas imagens. permanecer aí à vontade. cada vez que a coisa lhe é possível. sem dúvida.

os mecanismos antigos que ela implica. a conclusão apenas as aflora. sobrevivido como uma cidade de outrora. mal harmonizado com suas dimensões e com sua pobreza. per capita). uma cidade. Teria calculado e contado mais ainda do que o fez nosso guia (renda global. Essa sobrevivência. no essencial. direi. tais como. consagrado todos os meus cuidados. Parece-me. revisto e analisado em si mesmos. que tudo.seu livro. notem-no. a área desses tráficos . com \229 . . para mim. extraordinário? Repete-se alhures. surpreendente em si. eu os teria olhado de perto. Quanto à sobrevivência da cidade. como? Essas perguntas. de que Minas Velhas tenha sobrevivido. Teria tentado saber. Te-los-ia visto. uma vez que ela possui arquivos. que Minas é de fato. ter-me-iam retido de um modo quase exclusivo. do ponto de vista das ciências humanas. o que ela era verdadeiramente no tempo do ouro. a essas estruturas sócio-econômicas que descrevi segundo o autor. de maneira precisa. no lugar do autor. de minha parte. indo muito além daquilo que nos oferece seu inteligente acerto de coisas. após a catástrofe das minas de ouro e. é o fato. A partir daí o procedimento do autor será simples: estudar em todos os seus aspectos e em todos os seus detalhes atuais a vida de Minas Velhas. . Mas o problema capital. em condições sensivelmente análogas? Onde. os definem sociólogos ou etnógrafos. para marcar bem o ponto de partida. Teria medido essa defasagem cronológica. no essencial. a surpresa que ela provoca ao recém-chegado. esse caso aberrante? E em que medida ele é aberrante? É um caso único. graças a uma comparação com os critérios da vida urbana. cartografado e discutido. evasivas e imprecisas. se coloca diferentemente: por que. não é absolutamente original. nas únicas páginas desse livro que são. com escassas fontes de rendas e uma população medíocre. o fato saliente ao qual eu pessoalmente teria. na cidade de Minas Velhas. o caráter excepcional de Minas Velhas. Sustento o que o aberrante se reduz. bem como à luz dos mecanismos medievais ou semimodernos que nos oferece a história européia. em razão sobretudo de seu ar citadino. Numa palavra. na minha opinião. depois concluir.

numa outra região do imenso Brasil. Encontrei aí a filha de um engenheiro francês. que todo um sistema de trocas — aquele que está ameaçado de perecer hoje. A cidade de Ubatuba não sobreviveu. analfabeta. arruinados pela água. seus artesãos. pista escorregadia entre as duas cidades: à partida. da projetada estrada de ferro entre Ubatuba e Taubaté. então. engolida pela vegetação tropical. Questão subsidiária: de que horizonte. falam sozinhos da antiga fortuna de pequeno porto. Ainda assim é preciso que o distrito tenha permitido essa vida nova. É uma vila de camponeses. muralha de verdura entre a costa e o interior. mas não menos reveladora. miserável. o pó de ouro. só foram construídas as estações. seus proprietários de terras. à chegada. a associação por cima da poderosa Serra do Mar. Esteve então ligada por um tráfico ativo de tropas de mulas a Taubaté. pelas palmeiras crescendo entre as fissuras dos muros. seu cemitério. Taubaté.seus mineiros. Marvin Harris nos diz que ela sobreviveu como centro administrativo. seus escravos negros. é o casamento. por volta de 1840. a tal ponto que. \230 . Taubaté-Ubatuba. o povoamento suficiente. o salário dos "funcionários" substituindo. Na luta logo travada. São Paulo-Santos prevaleceram. assim como Santos a São Paulo que. na costa do Atlântico. com placas funerárias de uma certa riqueza. seus transportadores. No século XIX. sua época de esplendor. o jogo urbano de Minas Velhas. Ubatuba. não passava de um vilarejo. mas de forma imponente. de um dia para o outro — tenha alimentado. Ubatuba. Deus sabe como. de caboclos. em suma. a ligação de Taubaté a Ubatuba se faz por um carro que consegue. saíram os novos-ricos de Minas. conheceu. no Estado de São Paulo. a proeza de seguir o antigo caminho burriqueiro. não muito longe de Santos. de um mercado colhedor de café e de um porto que o exporta para o mundo inteiro. Ainda hoje. à qual a indústria deu nova vida. não sabendo mais uma palavra de sua língua materna. no século XIX. fiz uma viagem menos poética que aquela de Marvin Harris. ao subsistir. assim como São Paulo-Santos. Seus antigos sobrados abandonados. que tenha tido as riquezas. seus lojistas. pois houve então novos-ricos? Em 1947.

Minas me parece viver segundo a hora geral do Brasil. uma picada através da floresta que. Quer se tratasse de crenças. um civilizado em exílio numa região muito aquém de Minas Velhas. floresta impenetrável. instruídos. de sua originalidade. efetuando-se a estratificação não na horizontal. os restos de cafeeiros. de um lado. Duvido. seguindo o antigo uso. a segunda paisagem que nos oferece Marvin Harris. encerra a cidade. no circuito de vida desacelerada do Nordeste. Uma tarde inteira. bem entendido. Sinto-me perturbado. mas não virgem. contava a epopéia da chegada da luz elétrica: não fora preciso abrir. As plantações desapareceram. como a própria cidade. aqui ou ali. para a linha e os postes. em todos os pontos. nem a energia que teria permitido as adaptações. pois que. segundo a fórmula habitual. semelhante a ele. e também. que não encontrou nem o circuito que lhe teria permitido ir levando a vidinha. nos fazia notar o juiz. o resto. vejo-o bem. os "ricos brancos" e do outro. mas de través. V Comparado a esse problema central. Ubatuba tem seus funcionários.casada com um caboclo e. descida da montanha. Aliás. do governo municipal. escutei ao seu lado um cantor popular. acompanhado de um tocador de violão (que é uma espécie de guitarra de seis cordas): todas as canções do folclore dominavam novamente aqui. teve mais oportunidade. Minas Velhas. me parece sem grande interesse. No entanto. seu juiz de paz também. e uma improvisação cantada. brancos que não são inteiramente ricos e negros abastados. da paixão política. pela maneira como Marvin Harris apresenta a questão negra. nosso guia. há. não obstante todos os matizes observados pelo autor. com efeito. se achavam. Esta é tão tensa quanto ele leva a pensar? De um modo geral. donde uma pirâmide social bastante bizarra. não é o que acontece na própria vizinhança? A tensão social e racial será aí tanto mais viva. os "pobres negros". formado pela Faculdade de Direito de São Paulo. sobretudo \231 . as únicas no lugar. entretanto.

é preciso atribuir a Minas Velhas. por exemplo. parecem igualmente formais e exteriores. também o do Brasil inteiro! O anticlericalisirio que nosso investigador procura nos textos de data diferente. se existe. . digno. que o de Minas pode surpreender. mas não como um igual. prova de miséria por si só. por causa de sua vida atenta e fechada. em Gruta. somente me proporcionam uma semi-satisfação. Sobre esse ponto. mas então. O estudo das rivalidades de clube e de fanfarra. descontente. a bonomia reina entre peles de cor diferente e já faz muito tempo que Gilberto Freyre assinalou sua fraternização sexual. não resta dúvida que não erra ao tirar daí certas conclusões. bastante benigno. demasiado digno. Essa tensão também será mais viva. de Portugal que. exterior. Mas. de pequena cidade. no que concerne à religião. Seguramente esse racismo. um racismo particular. Formiga. Que pensar se não há referência a nenhum ponto de comparação! Como os mesmos problemas se colocam na vizinhança. Esse simples fato é de enorme alcance . ou. aliás. a um francês. convidado à casa dos brancos. o único conselheiro negro da cidade. O catolicismo de Minas Velhas parece formal a Marvin Harris. medroso. de leilões na festa. ou ambos? Mas lembrem-se que o negro de Minas Velhas rompeu inteiramente com os cultos africanos que. aquele cuja mulher vai ela própria procurar lenha. É em relação à formas mais puras. Entretanto. . o retrato de Waldemar. em sentido ainda contrário. são a fonte viva de sua originalidade. o negro. quem é o culpado. Vila Nova. mais despojadas do cristianismo. nas "boas \232 . digamos. ao nível do negro abastado que. o branco. sobretudo o da Itália. bastante vazio. se ela se distingue das grandes correntes do país inteiro. vai lavar a louça ou a roupa no rio próximo. permanece no seu canto. bem anormal no quadro da civilização brasileira? Na escala da nação. Receio que lhe falte o contato com os diferentes catolicismos da Europa. Mesmas observações.ao nível do pobre branco. as cidades vizinhas? A tensão social e racial é diferente. não parece entrar na linha histórica do passado brasileiro. é particular a Minas Velhas? E se for. Não resta dúvida que ele tem razão. confesso que teria gostado de mais luz. da Espanha.

que Marvin Harris orientasse seu livro de outra maneira. sensibilidade e lealdade não padecem nenhuma dúvida. não obstante erros. como no resto do Brasil onde é um componente essencial da civilização. que não impede o falar franco ou as histórias um tanto íépidas. como esse. foi muito menos contra um autor. nos permitiram prolongar o prazer evidente de nossa leitura. na velha cidade. para fazer face ao passado do pequeno povo que tinha sob os olhos. Teria gostado. Direi a mesma coisa das superstições: o Brasil moderno não se desembaraçará delas em alguns anos. ignorâncias. que soubesse. se oferecem e que seria preciso destacar. que distinguisse o testemunho original de alguns homens — a aberração de Minas Velhas — do testemunho banal da vidà cotidiana do interior se o disse com certo vigor. na verdade. girar sobre si próprio. É somente a propósito de livros. depois de tudo. das regras da "obra-prima". como dizia Lucien Febvre. Elas são tão vivas no coração das grandes cidades quanto no pequeno centro urbano de Minas Velhas ou seus campos próximos. muito bons. aplicadas por confiança. Que 8. em casa caso. Q u e pena t a m b é m q ú e esse livro não ele mereceria ter. e bem no lugar. o cristianismo esteja plantado ali. N ã o há u m a só f o t o g r a f i a ! tenha as ilustrações que \233 . Mas detenhamos nossas críticas que. do que contra uma antropologia que se fia demais no valor da investigação direta e impõe a todo estudo do atual um tratamento uniforme. desvios que não são negáveis. sem se inquietar com os prolongamentos evidentes e particulares que. indolências. não prova grande coisa: está na tradição de um cristianismo jovem. cuja sutileza. Maravilho-me. que.histórias". quaisquer que sejam o assunto e a estratégia particular que ela reclamasse. por certo. por duas ou três vezes. que se pode tentar provar a insuficiência obrigatória do método — pois o autor não está em questão — e assinalar uma vez mais os perigos.

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tal como se desenvolveu do século XVIII. t o m o X X . prospective). Cap. geral. 235 . Larousse. Le M o n d e en devenir (Histoire. V da Encyclopédie française. 1959.12.mpnde hnjp. A HISTÓRIA DAS CIVILIZAÇÕES: O PASSADO EXPLICA O PRESENTE A questão discutida no presente capítulo 1 é bastante insólita: a história da civilização. depto. forçosamente. git^e não se compreende a não ser ligado ao tempo de amanhã? O autor dessas linhas (historiador para quem 1. do futuro — porqiie o tp. pode trazer luzes ao conhecimento do tempo presente e. évolution. Paris. do Essai sur les moeurs de Voltaire (1756) aos nossos dias. portanto.

do "tornado" e do "tornar-se". de um século a outro. de um imenso setor de nossa profissão. não é o seu simples doubleí*. que nunca é. a palavra civilização jamais viaja sozinha: e acompanhada infalivelmente da palavra cultura que. / E m primeiro. das civilizações ou das culturas. compreende todas as outras". é perpetuado. concepção que põe em discussão a humanidade inteira. à primeira vista um cortejo. história das letras. quanto no da civilização. conhecimento do passado e do presente. que representa justamente a história da civilização? É mesmo um domínio original? Rafael Altamira não hesitava em afirmar que "dizer civilização significa dizer história".. história da sensibilidade. aleatória. e as civilizações. história das instituições. distinção em cada "tempo" histórico./ Eis já um certo número de matizes. \ 236 . história do direito. ele nos prodigaliza. Guizot já escrevia ( 1 8 2 8 ) : " . de um país ao outro. entre o que dura. Mas nesse conjunto de nossa profissão. de confusões possíveis. segundo as interpretações. Uma. história das ciências. quer seja de ontem ou de hoje. dita da civilização ou da cultura. Acrescentemos que há também a e as culturas. uma orquestra de histórias particulares: história da língua. há a civilização. de fenômenos culturais. há muito tempo. ou antes. . até mesmo efêmero). essa história particular. Toda definição se mostra difícil. o autor dessas linhas responderia de bom grado que é toda a História que é preciso mobilizar para a inteligência do presente. E s s a história (da civilização) é a maior de todas. dispersas no tempo e no espaço. Além disso. Mas qualquer que seja a palavra chave. Quanto ao adjetivo cultural. no entanto.a História é ao mesmo tempo. é. trata-se no caso de um vasto. tanto no domínio da cultura (como o quer a etimologia). Sem dúvida. onde nos falta um adjetivo particular. é um conjunto de traços. fácil de circunscrever e cujo conteúdo variou e continua a variar.civilização. de um historiador. de um ensaísta ao outro. diremos. história da arte. perpetuar-se-á vigorosamente — e o que não é senão provisório. . . his* N o t a de t r a d u t o r : doublet significa palavra afim. . entretanto. serviços ambíguos.

para não falar da história. Lucien Febvre reclama. os direitos da história geral. como também se diz. dos sentimentos religiosos). por tão longo tempo. seu movimento particular e que não é forçosamente o da história geral. a quadratura do círculo. no Collège de France. em planos diferentes. À dificuldade é harmonizar tudo. sem fim. . Tentei. sua linguagem interior. mais ou menos desenvolvido.tória dos costumes. não quer dizer que elas sejam indiferentes umas às outras. Pois se a história da civilização se afirma geralmente como um ponto de vista simplificado. atenta ao conjunto da vida do qual nada pode ser dissociado. . das religiões (e mesmo. então. para o século XVI europeu. tanto a história tradicional. tomada não mais num de seus setores. se a história da civilização gozou. encerrada na esterilidade da crônica política. quanto a história social. não se poderia hesitar quando está em causa a história da civilização. em sua plena espessura e. Entretanto. bastante em vão. senão arbitrariamente. história das superstições. vê-se mal. ou a história econômica. contra uma história autônoma das idéias. Contra Léon Brunschwicg e Etienne Gilson. global. tem suas regras. dos gostos e receitas culinárias . sob todos os seus aspectos. Mas reconstituir sua unidade é. da vida cotidiana. Cada um desses sub-setores. procurar. das crenças. é verdade. colocada em discussão a história inteira. seus objetivos. é que ela oferecia então a única possibilidade de desbordar. ou não. mas no seu conjunto. A cada vez. ela permanece sempre um ensaio de interpretação. no mesmo ritmo. entre a história-das ciências. portanto./ E mesmo. de uma espécie de primazia hoje contestada. de dominação da História: impede certas verdades e certos aspectos para o primeiro plano do palco. se essas histórias caminham. a justo título. história das técnicas. como ela poderia dissociar-se da história geral ou. Todavia. tão raramente abordada. mas essas verdades e realidades se apresentam como explicações de conjunto. "de fazer entrar aí outros eventos que não a política e outros \ 237 . apreendida obrigatoriamente. procurar os liames. Henri Berr dizia "de alargar" a história tradicional. das técnicas e os outros setores da história geral. por mais depressa que seja. durante um ano. é assim.

vamos vê-lo. um campo excepcional de reflexão. os horizontes da História e da explicação gerais. destacar-lhe os dados essenciais. como se diz hoje. Duas pelo menos. um difícil debate. se uma observação prévia e acessível a todos não é "cientificamente" possível. ainda indecisa. É o que dá seu sentido aos combates ontem tão vivos de um Karl Lamprecht em favor da Kulturgeschichte. o estudo das civilizações não desempenha mais esse papel ofensivo. Se não há. então. quando muito. a História se alargou na direção do social e do econômico. ao que tudo indica. imperativas. se não estamos resolutamente fora das presas de uma metafísica da História. ágeis e duvidosas amigas. Civilização e Cultura Origem e fortuna dessas palavras A priori.atores que não as personagens oficiais". recolocadas em suas órbitas. O presente capítulo não pretende nem resumi-lo. projetar sobre o presente essa história complexa. Entretanto. é abrir um longo. qual agrupamento. uma certa coerência. Segunda precaução: sob o vocábulo civilização ou cultura. devemos saber se são verdadeiros ou falsos amigos. nossa tentativa está condenada de antemão. mas \ 238 . no terreno pelo qual enveredamos. de elementos ligados devemos supor. nem fechá-lo. . A primeira. que constelação de forças. evidentemente. conduzi-la para uma posição que não lhe é de maneira nenhuma habitual. Em suma. Ainda assim será preciso tomar algumas precauções. claras . espantamo-nos que haja apenas duas palavras. atingir por caminhos novos e mais seguros. recorrer (segundo a tradição do Centre de Synthèse de Henri Berr) às pesquisas de vocabulário: essas palavras que solicitam e perturbam nossa atenção devem ser compreendidas em suas origens. feitas todas as contas. de valores. as definições impor-se-ão. ainda que permaneça. 1. uma posição de "prospectiva". assaz recentemente. . com toda boa fé? Aqui. Desde que.

social. guerras dissimuladas de idéias e muitos erros. inventar. Acontece ainda serem confundidas. ainda que. realmente.. essas tendências para a unidade não são a regra. bem como a escravidão e a miséria". Assim. cuja vida interior é longa (Cícero já falava da cultura mentis). Mas.apenas duas palavras para dominar e apreender um domínio tão vasto. mais ou menos no mesmo momento. essas querelas de palavras que. Quanto ao cultural. civilizar e civilizado. fragmentada a integridade de grandes problemas: daí. à primeira vista. é pouco. que são discerníveis desde os séculos XVI e XVII. resulta em partilhas. Em suma. Duas palavras. nada mais. tanto mais que. designa um ideal profano de progresso intelectual. Sem dúvida. no meio do século X V I I i y Ao que saibamos. foi empregada mais cedo. são. nos conduzem mais de uma vez ao próprio coração da discussão. até 1800. em 1766. mais ver-se-ão desaparecer a guerra e as conquistas. vindo a nós e a outrem a partir do alemão. freqüentemente. civilização e cultura (sua passagem para o plural aumenta-lhes a significação. ou que uma seja preferida à outra. uma concepção unitária da idéia de civilização ou de cultuía. a concorrência torna-se mais viva entre as duas palavras e esta. o que vem restabelecer. Crescentemente. não \239 . Depois disso. A civilização. "Quanto mais a civilização se estender sobre a terra. técnico. fabricar o substantivo civilização. podem parecer e são amiúde fastidiosas. Em todo caso. f C u l t u r a e civilização nascem na França. civilização aparece pela primeira vez. mas não o número). se não me engano. enceta-se a concorrência entre as duas palavras. Cultura. regularmente. cultura quase não conta. profetiza Condorcet. em 1787. é claro. Fica então quebrada a unidade do vasto reino. Desde o nascimento. Nessas condições. nasce muito tempo após o verbo e o particípio. só uma está em serviço. elas não bastem para trazer ao caso toda a luz. numa obra impressa. por volta de 1900. moral. as "luzes". Foi preciso. só adquire verdadeiramente o sentido particular de cultura intelectual. acrescenta tão-somente uma comodidade de escritura ou de linguagem.

Em todo caso. Durante meio século. aquela consegue uma vitória difícil. Mably escreveu. sob a administração de Gustavo Adolfo. necessária. conhecer um grande sucesso de linguagem e de escrita.". Entretanto. a grande passagem. Essa vitória do particular sobre o geral situa-se bastante bem no movimento do século XIX. se solda dramaticamente ao XIX. não soube então tomar consciência da importância da palavra. dirigindo-se a um de seus amigos. talvez. por volta de 1850. escreveu Joseph Chappey. Uma grande ocasião foi. situa-se a barbárie: sobre esta. para dar satisfação à nossa crítica. num livro vigoroso e reivindicador (1958). para sustentá-la. perdida.se pode quase imaginá-la sem que haja. antes. Não foi nada disso. ainda: "Pedro I tirou sua nação (a Rússia) da extrema barbárie em que ela havia mergulhado". mas rrãtHnteiramente um sucesso científico. "civilização" irá. em contraponto. em todo caso. sociais. ia desaparecer bastante depressa. "policiada". que todas as ciências nascentes do homem se pusessem ao serviço da nova palavra e das aquisições imensas que ela significava. "O homem. escreveu. . fostes ameaçados por um grande perigo. à procura de si mesmas. é a renúncia implícita a uma civilização que seria definida como um ideal ou." Seria preciso. notem que a palavra civilização não chega imediatamente. que evento considerável. intelec- \ 240 . que havia dado à palavra seu primeiro equilíbrio. sem dúvida. em si. Ela será brilhante. . um conde polonês: "No último século. Do mesmo modo. E essa sociedade "policiada". em 1776. reflexo de outros eventos e de outras transformações! ^Civilizações ou culturas no plural. após muitas transformações. Mas. otimista. As ciências do homem ainda estavam na infância. é em parte negligenciar qualidades universais. à pena do abade. é. No seu oposto. quando a Suécia saiu da barbárie. com as transformações e revoluções pelas quais o século XVIII. como se sabe. morais. o ideal. ainda mais brilhante que útil. De uma à outra. fina. ao menos é a opinião de Joseph Chappey. A fortuna da palavra não faz senão começar. uma sociedade de bom-tom. civilização (e ao mesmo tempo cultura) passa do singular para o plural.

J O S E P H C H A P P E Y . de uma língua à outra. mais ou menos claro por volta de 1850. a línguajakmã. Esse triunfo. o plural triunfante do século XIX é um sinal de reflexões. ao nome de cada autor citado. A bibliografia no fim do artigo fornece. Não esqueçamos. que as palavras essenciais. designa. vinda da Alemanha — de uma Alemanha admirável e admirada. 370. etnógrafos muito contribuíram. como muitas outras coisas. multiplicação de "diabólicas" 2 * civilizações da época. * As referências que correspondem às notas foram redigidas sumariamente. das civilizações "de lugar" e no tempo da história fracionado pelos especialistas até o absurdo. o progresso jntelectual e cien2. ou tenta tornar-se. a da primeira metade do século XIX — a cultura chega à França com um prestígio e um sentido novos. viajam sem parada. Trocam-se as palavras como bolas. p. qualquer que seja seu nível. uma civilização uma civilização. da civilização dos tupis-guaranis. geógrafos. da cultura dos Esquimós ou. assim como as dos outros continentes. de mentalidades. com efeito. É assim que. passam de um país ao outro. Já é tender a considerar todas as experiências humanas com igual interesse. as da Europa. mas através da Europa inteira. f À essa fragmentação do "imenso império da civilização em províncias autônomas" (Lucien Febvre). esses índios do Brasil? E contudo. Voltaire foi o primeiro. com seu Siècle de Louis XIV (1751). Ter-se-ia falado. a falar de uma "civilização de época". Houve multiplicação. a palavra dominante em todo o pensamento ocidental. não se assinala somente na França. de tempos novos. mas no retorno a bola nunca é inteiramente a mesma que na partida. \241 . Inegavelmente. redescobre o mundo e deve se acomodar ao fato: um homem é um homem. mais ainda. viajantes. A Europa descobre. como o fêz numa tese magistral Alfred Métraux. Por cultura.tuais que a palavra implicava em seu nascimento. desde antes de 1850. sem pronunciar a palavra. Imediatamente. desde Herder. no tempo de Voltaire e de Condorcet. nesse jogo. o modesto adjunto torna-se. as referências completas. Verifica-se assim o esmigalhamento da civilização na dupla direção do tempo e do espaço. de um autor ao outro.

anódina em si. Para Thomas Mann. eles somente reconhecem valores. Ela deprecia uma palavra. p. E é nesse sentido que se explica a recente frase. Citação tomada a A R M A N D C U V I L L I E R . enquanto que civilização quer dizer mecaniza» ção" 4 . Nessa mesma linha. o mecanismo vazio. W I L H E L M M O M M S E N . G. de ameaças trágicas. a civilização. princípios normativos. ao contrário. Ferdinand Tõnnies (1922) ou Alfred Weber (1935) ainda" vem7sob o nome de civilização. em suma. vinda naturalmente da pena de um historiador alemão. a vitória dos camponeses da Germânia sobre a velha Roma. Marx e Engels dirão. Essa posição em face de civilização e de cultura manter-se-á no pensamento alemão de maneira tenaz. digamos da morte viva. mesmo na Alemanha. quando mostra. não por causa de dificuldades particulares. o ser humano". cultura equivale à verdadeira espirituàlT! dade. que ela destaca mesmo comumente. a~ grandeza aparente. por civilização. citado por Chappey. mas pelo simples fato dá chegada do Ocidente ao estádio da civilização. Um historiador alemão 5 escreveu portanto. 144. \242 . o conjunto dos conhecimentos práticos. no fim das grandes invasões. E l e v í f n a c u T f ü r a os inícios. Nada mais claro. II. p. a inspiração criadora. "a vitória do camponês sobre o guerreiro. 3. entende. Oswald Spengler modifica um pouco a relação habitual. familiar a seu gênio. 160. a primavera fecunda de toda civilização.tífico. como já se disse 3 . demasiado comércio". ao contrário. essa linguagem não é a única a ter curso. P H I L I P BAGBY. á esclerose. c>u mesmo intelectuais. de todo contexto social. na cultura. p. (isto é) demasiados meios de subsistência. Kuhn (1958). há "declínio" do Ocidente. Ela responde aí. Para Spengler. entre espírito e natureza ( Geist e Natur). 670. exalta a outra. em 1951. ideais. a repetição. no Manifeste du Parti communiste (1848): "A sociedade tem hoje civilização em demasia. É. diz ele. . 5. o simples lado material da vida dos homens. que ele não nega. ". é outono. de preferência. Entretanto. de todos os meios impessoais que permitem ao homem agir sobre a natureza. 4. . de maneira característica: "É hoje dever do homem que a civilização não destrua a cultura e a técnica. à dicotomia. Em 1918-1922.

sem o que nenhuma criação é possível. conservaria um quinhão bastante bonito . o papel eminente da palavra. creio que J. que acaba de tomar. no jogo. dos pensadores alemães. ou enterrada na vida material. Henri Marrou propunha. hoje. das fontes e nascentes de juventude. se perigo há para a palavra civilização^ da qual não sou nem defensor nem inimigo. a falar cientificamente. Vede também. que da obstinação. quero. civiltà. fora da Alemanha. aliás. menos os únicos. inimiga do espírito. GEORGES DUBY e ROBERT MANDROU. De fato. há já vinte anos. Civilização. a seqüência e a substituição do manual clássico e antigo de Alfred Rambaud. em seu tempo revolucionário. T "forma pessoal da vida do espírito" e civilização as realidades sociológicas. na Itália. dizer. ernfrancês. o que não incomodaria quase os historiadores se os antropólogos e etnógrafos não fossem. uma razão suplementar: o ensaísta alemão subestimou a palavra civilização que atacava tão vivamente. a partir de 1848 e do romantismo. .do campo sobre a cidade. 6. a grande História. reservar a palavra cultura. em 1900-1911. se intitulava Historia de Espana y de la Civilización Espanola. surgiu o hábito de se falar de culturas primitivas mais do que de civilizações primitivas. . Entre nós. nessa partilha. com certo brio. ou presa pela monotonia da repetição e da velhice. mais ou. Mas essa predileção alemã de longa data. Desde o livro decisivo de Edward Burnett Tylor (1871). vem muito mais da entrada dos antropólogos e etnógrafos. Mas o perigo. duvido que os autores 6 de uma recente Histoire de la civilisation française (1958). Huizinga tem razão quando vê no fracasso de Spengler (voltarei a isso daqui a um instante). afastada desde o princípio. Também na Espanha onde. em favor da cultura não fechou um debate aberto quase desde o princípio. a palavra civilização defendeu-se muito e mantém sempre o primeiro lugar. quanto a ela muito antiga. subestimou seu poderio "internacional". de Rafael Altamira. julguem que a França esteja. em si defensável. Na Inglaterra e na França. \243 . da cultura sobre a civilização".

prudentes. como o dos matemáticos. portanto. devido às crises de consciência e de método que todas as ciências do homem conhecem. estabelece isso peremptoriamente no que concerne à palavra cultura: ela enumera as 161 definições escusado é dizer. é bom nem pensar nisso . _De bom grado eu seria da opinião de Pirenne: utilizemos as palavras tal como se nos apresentam. senão o seguinte: mais ainda do que ncnTo diriam os lexicólogos. afastar-se resolutamente de um vocabulário imobilizado. donde mil avatares diante dos quais convém sermos. C u l t u r a e Civiltà C o m e Modelli Descrittivi. não cessa também de se mexer. de que o historiador levava a vantagem em servir-se. P I E T R O R O S S I . A recente investigação de A. diferentes. Arbitrar esses debates. esclerosado. Henri Pirenne dizia um dia (1931). n u m g r u p o d a d o é o que se transmite. preocupado então em fabricar um Vocabulário histórico. talvez muitíssimo. uma bela manhã. Todas as palavras vivas mudam e devem mudar. contra as tentativas e tentações do Centre de Synthèse. Armand Curvillier conta pelo menos uma vintena de sentidos diferentes de civilização. Mas sejamos conscientes das outras possibilidades que propõem. 1957. dois dos mais célebres antropólogos americanos. pelo menos. \ 244 . . das traições também que nos preparam. Kroeber e de Clyde Klukhohn. A p a r t i r da c u l t u r a : esta. É muito. dos problemas de civilização': Ao ler seus trabalhos. das palavras vivas da linguagem corrente e."objetivamente". que propuseram. diga-se o que se disser). Arrisca impor-se a todos. através de pensa-" mentos e gostos contraditórios do mundo. A esse respeito. Rivisía di Filosofia. que foram dadas da palavra. esta como tantas outras. L. dos progressos insidiosos dó adjetivo cultural — os neutros sempre fazem fortuna —. no seu sentido vivo. seria pelo menos em razão das necessidades do vocabulário científico. o «complexo» dos modos de vida característicos. o p o n t o de vista de um filósofo. cultura e civilização vaguearam através do mundo. fora da h e r e d i t a r i e d a d e biológica. O que concluir daí. como o dos filósofos (que aliás. provisoriamente vivo. julho. 7. sua linguagem se nos torna familiar. . pela h e r e d i t a r i e d a d e social — o «modelo» de c o m p o r t a m e n t o s sociais. com exclusão dos outros. Não fosse por outro motivo. sem contar aquelas que virão em seguida! No seu Manuel de sociologie.

aliás. ou mesmo econômica (um livro de René Courtin se intitula: La civilisation économique du Brésil). a esse preço. Eu poderia. uma pela outra. Tentativas de definição Em todo caso. encher uma página inteira. de uma vez por todas. E talvez precisemos. mas cômodo. A querela das palavras não está pois acabada. no domínio em ebulição das ciências do homem onde ainda há tantos imprevistos. A solução. científica. empregaram as duas palavras. cujo uso não me parece "bárbaro". com nomes de autores de grande e menor porte. o que quiser. reservar civilização aos casos em que as cidades estão em pauta e cultura aos campos não urbanizados. e malgrado definições prévias. ricas em sentidos múltiplos. mais do que se pensa. Philip Bagby. sendo a civilização sempre. contexto — ou se a alternância se tornasse perigosa eu acabaria aceitando o adjetivo cultural. palavras deformáveis. por um simples fato que é a nossa tendência atual de combinar nossos substantivos equívocos com adjetivos que não o são menos e de falar de civilização (ou de cultura) material. Um jovem antropólogo americano. que. creio.Pois dessas palavras vivas. as palavras sendo o que são. mas não creio que seja possível moderar as palavras. empregaria de bom grado essas palavras-chaves uma péla outra — o sentido virá do. Confesso que. nossa liberdade de julgamento e de ação: esse primeiro ponto nos é \245 . capazes de se adaptar à observação (às suas surpresas) e não de incomodá-la. cuja paternidade não lhe cabe em suma. moral. um estádio superior. técnica. é talvez boa. As modificações se preparam ainda sob nossos olhos. manteremos sem esforço. em seu lugar. uma cultura de qualidade. indisciplinadas. até nova ordem. confusões ou opiniões preconcebidas bem mais graves. qualquer que seja o valor da definição ou da convenção proposta. sem olhar muito para o fato. nos propõe. Há. (Joseph Chappey). num livro simpático e inteligente (1958). cada um pode fazer delas. ou quase. remontando apenas até a Hegel.

\ 246 . de sua parte. A "civilização" é para eles um meio — lícito ou não — de reduzir a História a grandes perspectivas — suas perspectivas. Mas estaremos menos à vontade com respeito às coisas significadas. a civilização. segundo seu conteúdo. desenham a nossa. Donde as escolhas. para ele. que sempre se tem prazer em ler. A Inglaterra não realizou antes um progresso social. um equilíbrio entre esses dois pratos da balança. as concepções autoritárias. de livro em livro. Nenhum de nossos autores — nem mesmo Arnold Toynbee — parece sentir a necessidade de nos dar a definição. Mas para Guizot. igualmente. É tão claro. num corpo particular. no fim de contas. do que constitui. como os historiadores entendem sua tarefa e. a civilização. O ideal seria uma harmonia. se incorpora num povo — a França -— ou nesse outro "povo" (Lucien Febvre) que é a Europa. enquanto que a França enveredava. quanto ao que entendem por isto. a Alemanha um progresso intelectual.adquirido. não precisam claramente seu objeto. Histoire de la civilisation en Europe. os historiadores que se ocuparam da civilização nos deixam. e é uma pena. Sem dúvida. por uma e outra via? Mas não é o que nos importa aqui. justificáveis em si. isso não simplifica a tarefa de quem deve decidir. não é? Tão claro que nos será preciso descobrir por nossa conta. por conseguinte. Em Guizot. mas que fragmentam o domínio da civilização. Progresso duplo na verdade: social e intelectual. — Os belos livros de François Guizot. no sentido do século XVIII. da utilidade da história da civilização para o entendimento do mundo atual. a visão de conjunto. Que de um autor ao outro. o setor mude. um progresso. Digamo-lo contra a vontade: como os outros especialistas do social. para Guizot. O interessante é ver como. Histoire de la civilisation en France (1829-1832) — a que é preciso ao menos acrescentar o prefácio que ele redigiu para a reedição do primeiro desses volumes em 1855 — esses belos livros podem nos servir de ponto de partida. em meio de grandes incertezas. conforme a escolha ou a intenção. com seu duplo movimento. em suma. reduzem-no à cada vez a um só de seus setores. a civilização é antes de tudo.

sob o signo maniqueísta da luta entre dois princípios: a autoridade. aparecia em 1860. . como sem dúvida muito se lhe censurou. Grande teoria.— Die Kultur der Renaissance iti Italien. O Renascimento. procuraram. de uma luta confessa. sua harmonia no seio de sua luta. coexistem e se combatem no seio das sociedades humanas . a autoridade e a liberdade. foi retido. radiante. a liberdade. com um luxo de pesquisas e especificações que a tual erudição sem dúvida ultrapassou mas não fez esquecer. o que lhe restringe singularmente a abertura. Entretanto. lança. . limitado ao único quadro da história política. "o espírito mais sábio do século XIX". nem em todo o seu passado. O Ocidente. do vasto álbum da civilização do Ocidente. Abramo-lo: ele nos transporta para um mundo bem diferente do mundo de Guizot. nome que Jacob Burckhardt. com tiragem restrita. Jacob Burckhardt. ele só capta esse jogo. dir-se-á. Um instante somente. escreveu Guizot. tão verdade é que o espetáculo do tempo presente raramente é visto na escala da História por um contemporâneo. o livro de Jacob Burckhardt. contida e regulada numa arena legal. a própria política se coloca. em última análise. Sou daqueles que. no meio de sua vida. passando do estudo a uma cena mais agitada. a Cultura? Largo espaço. N ã o seria isto senão um sonho?. Huizinga. sempre além do que permitiam as perspectivas de ontem. é colhido em suas fontes italianas. pequeno resultado. maravilhoso es- \247 . não sem razão. como talvez a Monarquia de Julho. — a luta só se apaziguando graças a compromissos úteis. a Religião. pública. . de tal modo é a inteligência desse livro evidente. Duas grandes forças. Visto que. . como o diz. desta vez. muito luminoso. depois de Michelet (1855). no seu Prefácio de 1855. na ordem política. Erri_3ut£khíudt. dois grandes direitos. estará então na inteira posse de sua visão da História. mais ou menos prudentes. a harmonia ativa da autoridade e da liberdade. J.Infelizmente. que todo o passado dos homens se relaciona: o Estado. essa redução à "tríade" da qual dirá mais tarde. não é posto em questão nem em todo o seu espaço. para Guizot. ainda que seja historiador e homem de ação.

dominam tudo). o livro veemente. historiadores. vulgarizada pela aparição do livro de Gustav Klemm (1843-1852). por seu tom. à despeito do gosto pelo concreto que o anima . o Declínio do Ocidente (1918-1922). nada ou quase nada. a religião. em todo caso. Para Spengler. ainda ardente. é reduzida à porção côngrua. representará um papel tão grande na Espanha. por si só. . é possível julgá-lo fora das circunstâncias que acompanharam e seguiram seu nascimento.paço é concedido ao Estado. por seu gosto pelas alturas. suspensa. nada é dito sobre os corpos materiais e sociais da Itália de Lourenço o Magnífico. em seguida. nessa imagem de conjunto que nenhuma outra substituiu verdadeiramente desde então? Seria útil ver em que medida Jacob Burckhardt se situa. no qual é preciso deter-se assaz longamente. ela se afirma. . A historiografia alemã de meados do século XIX cede a uma dicotomia bem perigosa. O manual de Weber distingue uma história externa (a política) de uma história interna (cultura. como o mostra claramente. Weber (1853). que nos encerra. de Oswald Spengler. esboçada desde Herder (1784-1791). em contrapartida. pela amplitude de suas concepções. diferentemente de Lucien Febvre ontem. a obra guardou grande alcance. para nossa \ 248 . Irrefutavelmente. ou não. cada cultura é uma experiência única. Dediquei-me a relê-lo atentamente antes de escrever essas linhas. Muito tarde. no próprio movimento da Kulturgeschichte alemã. é razoável para nós. Parece-me que hoje. sempre ofuscante. aos Estados da Itália do século XV e do XVI. que traduzido. A "superestrutura" visada e atingida por esse livro. literatura. por si só. permanece aérea. Mas uma história "interna". os valores artísticos da cultura são estudados com gosto e inteligência (para ele. cedo ou tarde. Assim. ficar nisso. religião). por sua paixão de compreender. um século mais tarde. o grande manual de História Universal de G. talvez. com duas voltas. Mesmo se se trata de uma cultura filha de uma outra. É razoável? Quero dizer. Há coisa pior: além dessa "tríade". constitui uma realidade em si? Sponoifí — É um tal mundo. em sua plena originalidade.

o mui criticável pensamento de Spengler. estudará essas originalidades. j S e uma cultura se define por algumas linhas originais. Mas enfim nos libertamos. todas realidades jamais válidas. mais ainda (mas aqui Spengler será discreto a não mais poder). isto é. a pintura a óleo e as magias da perspectiva. . as viagens interplanetárias: bruscamente fora das leis da gravidade. todas os corpos deixam seu lugar. quanto culturas. Bastar-lhe-á. O Ocidente se distingue assim por uma originalidade matemática inegável: sua descoberta do número-função. Há tantas morais. estranhamente lado a lado. tantas matemáticas. a colônia 1 dórica. hoje. eis-nos arrastados em estranhas viagens ao longo do tempo.. mais ainda pelo feixe particular dessas originalidades. com o de sua ligação com os elementos não culturais. o cálculo infinitesimal de Leibniz. uma filosofia. através dos séculos e milênios. historiografias?). E o que é uma cultura? Ao mesmo tempo uma arte. tantas histórias.de uma beleza que nada embaciou. colide sempre com o difícil. em seguida. . nessas antecipações que nos proporcionam. A colocação do cálculo infinitesimal é portanto apresentada nas mesmas páginas que abrem a obra: elas são. dirá Spengler. o irritante problema da ligação dos elementos culturais entre si e. fato que Nietzsche havia adivinhado ou sugerido. jamais compreensíveis. há tantas filosofias (diremos. como o mais ordinário ou o mais sábio dos pensanientos históricos. \ 249 . o método do historiador das civilizações será simples: ele destacará. tantas artes. a cidade grega. todas as bagagens. Nesse jogo que não pode causar ilusão.própria civilização ocidental: "foi preciso muito tempo para encontrar a coragem de pensar nosso próprio pensamento". Uma cultura se liberta sempre. ou então não é uma cultura. uma matemática. Todas essas bagagens perderam seu peso histórico. a Monarquia de Luís XIV. sorrindo. fora do espírito que as anima.^ De pronto. do mesmo modo. reaproximá-las. flutuam livremente. Assim se chocam ou se acotovelam em Splenger a música de contraponto. para libertarmos das lições da Antigüidade. uma maneira de pensar. aliás. Pensa-se nessas descrições. compará-las para comparar essas mesmas civilizações.

nosso autor os negligencia. Neumann. por exemplo. Portanto. mas de modo algum no sentido dia biologia. um ponto é tudo. O que falta? As "culturas". inflamou. no sentido do pensamento medieval. antes. sem operetas. "cada cultura particular é um ser unitanõ~de'ordem superior": a maior personagem da"' História. diante da explicação que o enfebreceu. é em definitivo um ser místico. Báhr. numa frase seguramente curiosa: "Pensem nas abanações do dei de Argel e outras chinesices (sic) semelhantes que preenchem a cena histórica de motivos de opereta". Em resumo. Mas. Como se assinalava recentemente 8 . são seres. personagem seria um mau termo. por conseqüência. Proceder-se-á não menos depressa com o social. corpos inertes. desembaraça-se deles de uma maneira não menos alegre. se uma alma não os anima ( a Kulturseele). o que dá no mesmo: "uma cultura morre quando a alma realizou a soma total de suas possibilidades". que é inútil analisá-las: elas são. Daí suas afirmações rituais: "uma cultura nasce no momento em que uma grande alma desperta". ou pouco falta para isso. também os grandes arquitetos desse século: Põppelmann. A história — ou melhor. A vida lenta de uma cultura permite-lhe se estabe8. p. Schlüter. Assim o dinheiro não é mais que "uma grandeza anorgânica" e eis. \250 . a política desapareceu de pronto. Não é evidente. uma estrutura dinâmica e de longa duração. uma alma. Eis-nos no centro do pensamento de Oswald Spengler. como negligencia tudo o que. o "destino" de uma cultura é um encadeamento. tão evidentes. no espaço de um segundo. pudesse perturbar seu raciocínio. organismo não seria melhor. Fischer d'Erlach. no pensamento de Spengler. 186. o que tem a dizer sobre toda a história econômica. diríamos em nossa gíria de hoje. as culturas. ou. Quanto aos eventos sensacionais.Estes últimos. Dienzenhofer. O T T O B R U N N E R . que a música está no coração do "devir" ocidental no século XVIII? Spengler escreverá sem pestanejar: A Alemanha produziu os grandes músicos. O que este livro apaixonado persegue sob o nome de cultura do Ocidente. e seu feixe de ligações.

gêmeas na verdade. Para além de um certo termo. o espírito "faustiniano" da ocidental. Mas cada uma desenvolve. assegura Spengler. após tantos outros. deve desenvolver. será uma "civilização". porque "o destino é sempre jovem". que corresponde a vir-a-ser ou devir em português (N. A civilização se define portanto como um resultado inelutável. um pouco mais tarde. mas que é preciso abolir em pensamento para vê-las e mostrá-las tais como são: "contemporâneas". seu sangue se esvai. Com a Revolução Francesa e Napoleão que. o que já veio a ser. Seria vão encarniçar-se. por mais de um século. nessas grandes e ingênuas simplificações. Roma. que em breve lhe faz a rendição. vão dar feição à Europa. a cultura morrerá por não mais ter programa. todas as possibilidades de um programa ideal que a acompanha desde os primeiros passos: o espírito "apoliniano" as civilizações antigas. semelhantes. previamente. não mais do devenir*. apresentado sob cores sombrias. como um ciclo de vida cujas fases se repetem. Ela é o inverno. que são um e outro "românticos ao umbral da civilização". assim como o infinito d o verbo. . Admitamos portanto que Alexandre e Napoleão são "contemporâneos". impõe-se a todas as culturas. que comumente chega com lentidão. "a cultura se coagula bruscamente. Uma civilização é do devenu.lecer. a velhice. uepois de afirmar longamente. enfim morrer tardiamente. devenir. certamente. De tal modo semelhantes que Spengler não hesita em aproximá-las através do espaço cronológico ou geográfico que as separa. O evento é da mesma ordem que o que se anuncia com as decisivas conquistas de Alexandre e as grandes horas do helenismo: a Grécia era uma "cultura". Ou digamos. é a cultura. um pouco mais cedo. soa a hora da civilização do Ocidente. ) \251 . É sem destino. morre. pois Wagner merece as iras de Nietzsche: ele é somente um homem da civilização ocidental. numa fórmula análoga: "Pérgamo faz parelha com Bayreuth". Esse destino negro é inelutável. do T . mantivemos em francês o termo. todo poder criador acaba esgotado. suas forças se quebram: ela se torna civilização". Sancho Pança! Dom Quixote. Para que? Com* Na impossibilidade de traduzir a d e q u a d a m e n t e devem. Porque as culturas são mortais. .

acerca desses dois pontos precisos. numa sucessão coerente de fases. este livro de Albert Demangeon. e que. Mais ainda. custe o que custar. a arte que põe em construir e defender. as evocações inteligentes de Arnold Toynbee. por vezes com entusiasmo. uma navegação chinesa . o destino dos valores espirituais a que. Mas resumamos: na tentativa de Oswald Splenger. é opor. é verdadeiramente a vitória do navio da Europa sobre a circulação caravaneira do Velho Mundo. de \252 . que não comete as imprudências de Oswald Spengler. eles são numerosos. bastante caprichoso. cabe distinguir duas operações. essa navegação terrestre sobre o "mar sem água"? Isto quando há uma poderosa navegação árabe. felizmente. seu racional contemporâneo. Sua atitude. A revolução que as grandes descobertas acarretam. aqui. Em Toynbee. numa história. a prosa. seus esclarecimentos cujos lados frágeis freqüentemente quase não aparecem. ele quis destacar. de seus falsos encadeamentos. Gosto de suas lentidões calculadas. Mas há. ao lado de um guia prevenido. um belo dia. O leitor de Arnold Toynbee aproveita."— Confesso ter lido e relido. continuam a viver apenas com base em seu antigo impulso. historiadores menos racionais que outros. se reduzem culturas e civilizações. e era o mais difícil e o mais contestável. as defesas hábeis. em seguida. à segunda reflexão.parar o Déclin de l'Occident ao Déclin de l'Europe (1920). não difere da de Spengler. quis organizar num destino. para ele. um sistema. de resto. figura entre eles. que se destacam com lentidão. gosto de seus exemplos (todos os historiadores raciocinam a partir de exemplos). voltarei a isso. Dos pretensos amontoados da história. por volta de 1500. porém são mais fortes que toda força no mundo. essa dupla operação não mais parece lícita a um historiador racional. Deixemos a outros essa sabedoria. custe o que custar. Pode-se escrever. à poesia. Creio que Arnold Toynbee. mesmo por inadvertência ou com pensamentos ocultos: "Os albigenses foram esmagados para reaparecer de novo como huguenotes"? Mas pouco importa! Num livro. e ainda assim. os livros claros. a florescência desses valores espirituais. Desde logo. entretanto. . só contam os êxitos e. .

escreve ele gentilmente. . O que entende ele por civilização. não um porto". Portanto. de pintura. de arquitetura. com se. eis-nos bem adiantados! Uma outra vez. de usos. Escreverá: "A civilização. não responderá a não ser ao acaso de capricho. "Antes de terminar ( sic ). Ora. etc. "Não se pode descrever (seu) objetivo porque jamais foi atingido". Como morreriam se não existissem previamente? Uma vez ao menos. de costumes. como os antropólogos lho censuram. suas quedas". ou a nossa. a hindu. contudo. mesmo saborosa.a J e informação e de reflexão. num artigo sem amenidades. argumenta A. não uma condição. . é uma viagem. nosso autor. de bastante bom grado? (a palavra cultura. certamente. seu próprio movimento. a islâmica. não aparece nele no sentido que estes dão à palavra). um átomo. o problema parece abordado de frente. \253 .us elementos e seu núcleo . seus deslocamentos. Sim. é um movimento. seus declínios. Ou bem: "Cada cultura é um todo. — parece-nos efetivamente dotada de sentido. Reconheçamos no entanto que Arnold Toynbee quase não desperdiça o talento para iluminar sua lanterna. porque antes mesmo de ter tentado definir sua significação. . devo dizer uma palavra a propósito de uma questão que supus resolvida até agora (1947) e que é a seguinte: o que entendemos nós por civilização?" Não nos alegremos muito depressa. tal como a conhecemos. pois que é daqueles que empregam civilização em lugar de cultura. Essas palavras evocam representações distintas em nosso espírito. a extremo-oriental. em matéria de religião. seus crescimentos. que desde então escreveu tanto. o que entende ele por civilização? Lucien Febvre já lho perguntava há vinte anos. Elas são porque elas agem. ele sugere que as civilizações se deixam apreender por seus atos. essa classificação humana (a das civilizações) — a ocidental. "seus nascimentos. essas boas intenções tardias não irão além das magras explicações do primeiro tomo de seu grande livro A study oi History (1934) que vão ser retomadas imperturbavelmente: Entendemos de fato por isto alguma coisa de claro. Toynbee. cujas partes são subitamente interdependentes". a contemplação de vastos horizontes hist „J se mostra salutar.

É uma maneira.54 . de fato. um campo operatório. uma reflexão divertida para se desembaraçar de contradições ou de tentações perigosas. Segue. não se encontram. desenham o verdadeiro movimento de sua obra. Toynbee chega a situá-lo no fim do século VIII. Toynbee reterá somente os eventos "salientes". tão importantes quanto os caminhos seguidos são os que recusamos a seguir. em algumas rápidas páginas. que não me desagrada. essa unidade muito vaga. porém nada mais. Na experiência. a menor unidade de estude tórico a qual se chega quando se tenta compreender a história de seu próprio país. a seu propósito. no nascimento de nossa civilização ocidental que. para Toynbee. todo o passado da Humanidade. um meio de explicação. nos quais os historiadores dignos desse nome não crêem há muito tempo. Essa civilização ocidental vale portanto como um limite curto (relativamente curto). ou vai se desprender das heranças da Antigüidade clássica. Freqüentemente basta uma palavra. não vejo em que o procedimento que consiste em remontar da civilização inglesa à ocidental. afastando a cada vez o limite cronológico decisivo. de afogar mais ou menos tudo o que é evento. "salientes". julguemos o obreiro pela obra e sigamos seu caminho. A "civilização" e seu conteúdo. para tanto. Se não se quer pôr em discussão. uma classificação. ao que tudo indica. mais que suas claras tomadas de posição. ela nos permite. por volta dos anos 770. esse caminho é uma série de explicações encadeadas. se liberta então. definidos. oferece um quadro cronológico. têm o direito de sobrenadar? 2. a análise da Inglaterra e dos Estados Unidos. Pois. Mas quais são. À falta de algo melhor. isto é. Em todo caso. aqueles que. assim espero. por civilização.Mas eis a confissão: Entendo. ultrapassar os quadros habituais das histórias nacionais. Irra aos eventos! A. e eu gostaria de indicá-los em primeiro lugar: os silêncios de Toynbee. em que limite devemos nos deter? De dedução em dedução. inacessível. mas chego aí num instante. responde à questão colocada.

graças ao qual muitas técnicas. prodigaliza seus favores — voltarei a isso num instante — que a civilização não responde. estudaremos "a História grega e romana como uma história contínua. de seus choques. ou quase. os escândalos. as mutações. ousar-se-ia explicar as civilizações pelo meio? Nada tão material poderia comandá-las. sobre as civilizações (ou culturas) primitivas. precisamente. Cabe a nós colocar. sobre o vasto campo da Pré-história. mas não menos peremptórias. com uma tal e tão clara opinião preconcebida. quando diz não. não se tratará muito menos das técnicas ou das economias. É justamente quando o meio natural diz sim. somente então. pretender-se-ia. graças às reações psicológicas suscitadas. as descontinuidades ou. sob essa noção. e sobre os proletariados. O resto de suas trocas. como gosta de dizê-lo Claude Lévi-Strauss. das sociedades. às normas? Não teremos direito senão ao contínuo. escreve ele. é secundário. "a difusão". as rupturas. seja no interior. Tampouco se tratará seriamente da questão dos Estados. seja no exterior dessas mesmas civilizações).A geografia. instituições e idéias. Em lugar de nos interessarmos por esses detalhes. a civilização entra em cena. aptidões. quero dizer. hostil. de suas conversações. seguindo uma trama una e indivisível". por mutação. Por razões diferentes. não há uma palavra. São outras tan- \255 . desde o alfabeto até as máquinas de costura Singer. A passagem das culturas à civilização se faz. serão deixadas de lado as transferências culturais. Do mesmo modo. a explicação que nos é recusada. que fazem as civilizações. então. Que quer dizer isso? O que se tornam. nessa obra enorme. das estruturas sociais (se excetuarmos certas reflexões dogmáticas sobre as minorias atuantes. esses desafios às previsões. não será retida senão em segunda ou terceira instância. nos é dito. prolixa. Verdadeiramente. posta em causa. aos cálculos. O alfabeto e as máquinas de costura são tão importantes assim? Não vamos mais pensar nisso! Só valem as grandes ondas religiosas de uma civilização à outra. são comunicadas de uma civilização a outra". Mas quando a natureza se afirma selvagem. esse "método ( sic ).

Se se estuda "a História como um todo. "A peça central. que tornam o pensamento de tal modo mais aceitável. Portanto. Sublinho as duas palavras hábeis. mas por suas conseqüências religiosas a longo prazo". diremos. abandonada à mediocridade de sua sorte. e menos ainda com a economia ou a técnica. que não há para ele uma civilização una. Há. deveria ser (relegada) a um lugar subalterno a história econômica e política. de execuções doces que dissimulam radicais tomadas de posições. de alguma maneira. Há. Arnold Toynbee nos diz. demasiado efêmeras. e conseqüências econômicas ou políticas longas. toda a base social e econômica é escamoteada. repetidas de propósito: "O homem não vive só de pão" ou: "O homem não pode viver só de técnica" e o jogo está feito.tas realidades efêmeras. Pois a religião é." Ainda assim seria preciso ficar de acordo. Uma ou duas pequenas frases. "esses reencontros são importantes. ." Além disso. de início. afinal de contas. "A civilização ocidental. assim. não por suas conseqüências políticas e econômicas imediatas. por exemplo. têm apenas uma duração irrisória em face das civilizações de grande alento. conseqüências religiosas curtas. lê-se alhures. não percamos nosso tempo com os Estados. escrevia Toynbee em 1947. . cada uma em luta com um destino cujas grandes linhas. mais ou menos. todavia. que o progresso é utopia. se repetem e são. fixadas de antemão. bem entendido. Não há senão diferentes civilizações. toda uma série de silêncios deliberados. tem. Duas civilizações se chocam. por con- . enquanto que o reino da Inglaterra não conta senão mil. Assim. a religião.". Mas admiti-lo seria arriscar-se a subverter uma ordem estabelecida de uma vez por todas. Em algumas páginas. os Estados são susceptíveis de "vida curta e de morte súbita. para dar a primazia à história religiosa. o Reino Unido da Inglaterra e da Escócia menos de duzentos e cinqüenta e os Estados Unidos não mais de cinqüenta. Nesse jogo discreto. de exclusivos premeditados. pouco claras ao meu ver. Os Estados. quer dizer. mil e trezentos anos atrás de si. essas pessoas insignificantes de vida desprezível. o assunto sério da raça humana". sobre o que se entende por religião.

Essa maneira de ver exclui uma reflexão como esta de Mareei Mauss: "A civilização é toda a aquisição humana". se desenvolvem e morrem. por longevidade insuficiente. de uma realidade esfuziante. sendo aliás cada etapa. ou vinte duas. uma série de "modelos". Índia. outras. se quiser. Desse número. as extintas e. As civilizações.seguinte. um número restrito dessas civilizações. primeiro cuidado. Mas aceitemos esse quadro reduzido. e. um sistema com suas ordens nítidas. no sentido dos economistas e dos sociólogos. todas de longa duração e que puseram em jogo áreas bastante vastas. outras. destacar regras. que engloba todas as civilizações. por fracasso evidente. ou a sábia observação de Henri Berr: "Cada povo tem sua civilização: há. ainda. Islã. concordâncias. se ela fosse legítima! Em todo caso. a afirmação de Alfred Weber. Cristandade ortodoxa. de maneira autoritária. Em seguida. que agradável simplificação. por originalidade mitigada. desde esse primeiro contato com o pensamento construtivo de Arnold Toynbee. fabricar. desde esse problema de contagem. cinco estão vivas ainda hoje: Extremo Oriente. de longuíssima dura- \257 . felizmente para elas. Se for exato. antecipadamente. irrefutável: nascem. compreenda-o quem puder. Para se ater a um grupo tão magro. Só ascendem à dignidade desse título vinte e uma. têm um só destino. diferentes civilizações mas uma só "natureza espiritual do homem" e sobretudo um só destino. se esboça sua maneira de proceder. de sua parte. sempre um grande número de civilizações diferentes". inexplicavelmente o mesmo. Se a história complicada dos homens se resume assim numa vintena de experiências mestras. ligados uns aos outros. valha o que valer. foi preciso rejeitar muitas candidaturas possíveis: umas. muito próxima da de um cientista à procura de um sistema do mundo. portanto. suas ligações exclusivas e que é preciso. sua importância é excepcional. segundo a qual todas as civilizações são tomadas "no movimento unitário de um progresso geral e gradual". Arnold Toynbee conta. leis. as vivas. Ocidente. tal como os seres humanos. pôr no lugar. Simplificar a História. mais ainda.

ei-la condenada aos esforços. Pois. . tantos desafios magníficos que o homem não levantou. E Gerhard Masur ao sustentar ultimamente que a pretensa dureza das alturas andi- \ 258 . um eficaz educador moral. Do mesmo modo o Brandemburgo deve seu rude vigor a suas saibreiras e a seus pântanos. o meio impõe entraves. três grupos de modelos: os do nascimento. ou histórico — a transpor. no seu universo reconstruído. florescimento. . felizmente para ele: essa hostilidade vencida. A lei. finalmente.ção: não cessam de vir à luz. o último é o mais interessante. o movimento aberrante de um simples pedregulho que se lança. é a própria civilização incaica. A Ática é pobre por natureza. terá dispensado muito tempo. desafios de longa duração. do declínio e da morte. Mas há. A esse longo trabalho. Vejam como Aristóteles se esforça em dominar. não cessam de florir. Ele reduz o papel do "meio" ao papel que atribuíam às varas alguns colégios ingleses: um severo. Uma civilização não chegará à vida. convidada a superar-se a si mesma. importunas. . mas por vezes. como os motores. agilidade. um entrave — ou natural. Arnold Toynbee construiu. . sustenta nosso autor. morte — os dois primeiros não parecem muito originais. Desses três grupos de modelos — nascimento. ainda que seja o mais frágil de todos. As alturas andinas são duras para o homem. Tal é o "modelo" do challenge and response. a regra tendencial são constantemente ameaçadas pelas exceções: há sempre exceções novas. respondem geógrafos como Pierre Gourou. os tradutores dizem: "desafio e resposta". à sua frente. mantém-na em sua órbita. se não tiver. ele é de curta duração. de extrema violência. Seu sistema não o previa. Há muitos pedregulhos desse gênero no jardim de Arnold Toynbee. convencer-nos. os do crescimento e os da deterioração. seus "sistemas" apresentam. paciência. a dificuldade transposta anima a civilização vitoriosa. Geográfico. ainda que não deva. falhas. Histórico. a cada instante. não cessam de desaparecer. inéditas. Se o desafio é levantado e enfrentado. portanto. muito naturalmente.

como é bem possível. Sorokin. Entre estrangeiras. atingimos não apenas os últimos modelos — os do declínio — mas o próprio coração do sistema. portanto. Penso. das quais o narrador. a difusão maltratada por Arnold Toynbee tomaria em relação a ele uma desforra inocente e justa. A morte destas lhe parece a hora decisiva. mas essa morte. como de costume. tem ele o cuidado de dizer. insistentes. as pequenas fagulhas podem acender vastos. Os Incas teriam escolhido a facilidade. . quanto a mim. em face da selva amazônica. duráveis incêndios. . para Arnold Toynbee. Haverá. Essas perturbações se acalmam. Acrescento que se Heine Geldern tem razão. Nessa perspectiva. se assinala por perturbações interiores e exteriores. facilidade. quando esta perde seu "ímpeto vital". diremos. se é que há narrador. é um grande massacrador de civilizações. antes de tudo. porque Arnold Toynbee. isto é. muitas precauções e arranjos. reveladora. por dentro. só morre depois de séculos de existência. Assim. então todas as deteriorações se afirmam. mais ou menos. e com essa precaução adiantada. . como o disse divertindo-se P. com efeito. a ocidental ou a muçulmana. que as civilizações não se acendem somente na linha de sua filiação. \ 259 . um belo dia. as civilizações ameríndias se aproveitaram.nas é brandura. Mas na verdade. Só contam. os desafios que não excedem as forças_do Jiomem. ele não exprime mais que a sabedoria das nações. Tudo se desmorona. Uma civilização. como em determinada explicação de Pierre Gourou sobre a China do Norte. das perturbações em cadeia. nas chamas do antigo. a Kulturseele de Oswald Spengler. "encruzilhada típica". Mas o próprio Arnold Toynbee tem vigiado bastante o seu challenge and response para saber que é preciso. muito tempo antes. por exemplo. no uso. não sai mais. Eis alguém que nos leva para perto de Nietzsche ou de Pareto. desafio e desafio. Mas quando a massa não mais se deixa subjugar pela minoria ativa. o modelo será salvo. Segundo tempo: cada civilização só progride na medida em que a animam uma minoria criadora ou indivíduos criadores. sua força criadora. de contatos repetidos e tardios entre Ásia e América. .

a Igreja universal. como diz nosso autor. o "modelo" da morte de uma civilização com seus quatro tempos: as perturbações. 21 impérios). a instalação de um vasto Império. O preconceito do autor lhes é desfavorável. Mas. sem dúvida porque pouco duráveis. uma nova lista dos 21. segundo o exemplo romano. quaisquer que sejam. ou pouco mais ou menos. "um piscar de olhos". Daí a enegrecer sua verdadeira feição. três ou quatro séculos. em breve o Império se esboroa no meio das catástrofes e de invasões bárbaras (a chegada. Quem pensará. não sem recorrer. dos Guptas. entre os historiadores habituados a pequenas. nos é dito. sem mais. um a um. com autoridade. ou algumas audácias. não interrompe para sempre uma ligação substancial? Aceitar-se-á também que se suprima. o Império Carolíngio. não há mais que um passo. o que. chama de helénica. dos Abássidas. da lista dos Estados universais. todos aqueles que figuram na lista levantada por Toynbee. entre o Império dos Aquemênidas e o califado de Bagdá. ele procurou. a sorte reservada \260 . por si só. medido pela escala temporal das civilizações. não é senão um instante. ao mesmo tempo. como o mostra. ela salvará o que pode ser salvo. os bárbaros. o Império. do Império romano. que um milênio. aqui ou ali. das "verdadeiras civilizações". as conquistas de Luís XIV. algumàs deformações. As estratégias alemãs do início desse século reduziam tudo. um esquema. quase constituído num dia. ou melhor. do "proletariado exterior"). Arnold Toynbee parece ter reduzido tudo ao fim. por dois. André Piganiol diria ao "assassinato". o Estado universal. . Assim. ao modelo da batalha de Cannes. Para cada civilização escoada. quero dizer. e reconheceu.. todos os "tempos" do modelo (é o caso do Império dos Aquemênidas. o Império de Napoleão Primeiro? Aliás. não têm direito a nenhuma indulgência. pois. . Temos.pelo triunfo do gendarme. Mas esse Império "universal" é somente uma solução provisória. e reconhecidos assim como elementos essenciais da vida das civilizações. mas precisas medidas cronológicas. dos Incas. o Império de Carlos V. o esquema por excelência. que Toynbee. instalou-se uma Igreja universal. dos Mongóis. terá terminada a civilização greco-latina. no total. Portanto.

na verdade. segundo o valor recorrente que seu autor lhe atribui. tenha meditado. entre 1519 e 1555. ainda viva. o retorno à ordem romana. Os historiadores não lhe têm dado muito boa acolhida. nessa mesma linha de prognósticos. Obterá ela um sursis. escreve. escapar sempre aos absurdos da simplificação. conquistadora. Philip Bagby. também. Arnold \261 . compreendo. infelizmente. com algumas razões. resumido às pressas. Ela nos traz. o esquema dessa vasta obra. ou pela força. por nossa vez. nova. esquema suscetível de múltiplas aplicações. Teremos um imperador americano? Em vez de responder. imposto amigavelmente. mesmo para seus contraditores. comum a Spengler e Toynbee. Tal é. tanto quanto renovada? Nossos profetas são mais lúcidos e o Imperador americano terá mais possibilidades que Carlos Quinto? Mas não nos despeçamos assim." Eis uma narrativa que. Quantas vezes não terá reconhecido. um Império na escala do mundo. ou americano. Num passado que ele simplificou. com um sorriso. graças a um Império universal? Bem entendido. na Europa que o cerca. mas também por vezes com um pouco de injustiça. começa mal. se esgota há mais de um século nas evidentes perturbações em cadeia. de Arnold Toynbee. mas verdadeiramente à véspera de um Império americano. uma questão bastante longa. A civilização ocidental. ou russo. Vale para o passado e para o presente. Um jovem historiador antropólogo. sem. e que procedem de sua profissão. como deve fazê-lo todo construtor de sistema.ao Império Romano. que Ernst Curtius tenha saudado essa obra com entusiasmo. lições bastante preciosas: algumas explicações têm suas virtudes. "A paz romana. no mínimo. à sua luz. ao império universal e mesmo a instalação de uma Igreja universal. pergunta. Se não sou exceção à regra. "dobra o joelho" (Clough). coloquemos. sobre o seu tempo e sobre a longa experiência do reinado de Carlos Quinto. um observador lúcido que. tudo indica. de minha parte. não somente se estamos à véspera de uma "prosa romana". Suponhemos. foi uma paz de esgotamento. cheio das convicções que animam os escritos de Arnold Toynbee. porque a Igreja que acabará por se reformar em Trento é.

profunda. \262 . o livro. a antiga área de dominação cartaginesa. em suma. traduzido em espanhol sob o título Historia de la Cultura. obstinadamente. de ter ousado comparar essas experiências a séculos de distância. as semelhanças e reduzem. ateve-se às "sociedades". grosso modo. essas enormes massas de tempo. historiador e historiador muito atento. . existe uma uniformidade na natureza espiritual do homem. Alfred Weber (1868-1958). que a conquista árabe do Maghreb e da Espanha (do meio do século VII a 711) reencontrara. É um livro sólido." Em Alfred Webers— É uma afirmação que não desmentirá a obra compacta. nessa ocasião. . poderoso. a uma civilização. por sua vez. ateve-se a eventos. Émile-Félix Gautier pretendia. escreverá Toynbee. O mérito de Arnold Toynbee é ter manejado. sociólogo. da longa duração. Também nos choca muito menos que um Spengler ou um Toynbee. estrutura necessária de todo esforço humano. às realidades sociais. homens também de longa duração. pelo menos a algumas dessas realidades sociais que não cessam mais de viver. serei menos disputador que Lucien Febvre ou Gerhard Masur. não tem tampouco suas imprudências ou seus caprichos. mas perigosos. em Leyde. é que essas comparações só colocam à luz. a diversidade das civilizações a um modelo único. Sobre o milênio entre Aquemênidas e califas de Bagdá. Não tem seu brilho. Irmão do grande Max Weber (1864-1920). capaz de realizar-se numa civilização. fez-se.Toynbee atingiu por instinto os caminhos essenciais. ideal ao menos. o que não admito de modo algum. de Alfred Weber: Kulturgeschichte ais Kultursoziologie. com o risco de aí se perder. ou Maomé. O que mal consigo admitir. mas que repercutem violentamente a séculos de distância e a homens bem acima do homem. vasculhado vastas rotas um pouco irreais e entretanto importantes. "Acima de toda a variedade das culturas. Publicado em 1935. com insistência. a um milênio de distância. mas pouco conhecida entre nós. já teve quatro edições de 1941 a 1948. ou Jesus. qualquer que seja ela. e mesmo. ou Buda. É uma maneira como outra qualquer — mas eu não a aprecio muito — de conciliar esse singular e esse plural que mudam de tal maneira o sentido da palavra civilização.

portanto que se definiria na própria corrente da História. É esse espírito que anima o corpo histórico da civilização? . de antemão. a chinesa. à sociologia. mostra o desenvolvimento de civilizações na segunda ou na terceira geração. como ele diz. no bloco eurasiático. uma definição satisfatória (a meu ver) de uma civilização. à economia. seu sentimento de liberdade. sem mais. Mas o que vem a ser precisamente uma tal corrente às voltas com os destinos da humanidade inteira? E por que as civilizações formariam outros tantos "corpos"? Se Alfred Weber não quer um espírito transcendente. já muito longa e no entanto tão incompleta. poderia. sua possibilidade de se abstrair de si mesmo. duvido que Alfred Weber tenha formulado. à geografia. Philip Bagby se propõe unir His- \263 . um espírito do homem (sua consciência. de uma cultura de alta classe. capaz de explicar. ou. a babilónica. por si só. aluno de Kroeber. Abre amplamente suas explicações à pré-história. como se a explicação sintética. o capitalismo. válida muito de longe. "objetivo" (como o espírito a Werner Sombart que. E isto é bom: seu livro adquire uma solidez que falta aos outros. um "corpo histórico". o Ocidente a oeste dos cumes e vales do Indukuch). todos os obstáculos em que estes se chocavam lhe resistem igualmente. Um livro acaba de aparecer (1958): é assinado com o nome de um jovem historiador. no tempo e no espaço. no início de sua explicação. verbi gratia. as quais dissemos. de nos pôr ao par das últimas discussões dos antropólogos. Sobretudo. a hindu. nesse Ocidente complicado (entenda-se. Terá a vantagem. perdesse sua eficácia à medida que nos aproximamos do tempo presente e de nossa própria civilização.Entretanto. que não é tênue.— 1 Em Philip Bagby — Mas abreviemos essa resenha. é menos convincente quando. antropólogo além do mais. tanto mais que não lhes faz quase violência. à margem de seu pensamento e de suas explicações. a instalação das civilizações da Antigüidade: a egípcia. nos parecem decisivas. ao pensamento de Marx. Vê nisso. Philip Bagby. sua aptidão de engenheiro. Mas se ele mostra admiravelmente. não aceita tampouco. de homo faber). explicar a ou as civilizações. à antropologia. para ele e para nós. "um espírito do tempo".

a do homem. embora diferente. uma ciência histórica que se edifica lentamente. revelou-se frutuoso. se impõe. Antes de atacar essas grandes confrontações. desprendendo. com os princípios de massa. de inércia. não em uma dentre elas. contra Arnold Toynbee. de saber se obedecem a destinos comuns. mas. é apenas no casamento da História e da Antropologia que Philip Bagby pensa. fosse esta a antropologia. Como abertura de jogo. todavia. será necessário afugentar as concepções fantasistas. mas não sem firmeza. acusado — mas que bela acusação! — de ser um historia- \264 . ao título de culturas. de só designar sob esse nome séries de destinos comparáveis entre si. A seu ver. em virtude mesmo dessa operação. Que os historiadores se voltem portanto para o campo operatório privilegiado das civilizações! Privilegiado. é preciso que o homem se compare ao homem. com matizes. à frente. Nos Annales. Trata-se. em seguida. lançaram-se algumas críticas bastante vivas. trata de se apoiar no conjunto das ciências do homem. A título de exemplo. sem malícia. porque autoriza comparações. na linha de Lucien Febvre e de Mare Bloch. de momento. Como não há no mundo dos seres vivos senão uma História. no interior de cada categoria. de pesá-las umas em relação às outras. de uma civilização a outra. no uso. depois explorando um tipo de real transformado e que. as major civilizations. as explicações metafísicas prévias. as muito grandes. mais fácil de dominar. Assim procederam os físicos no seu mundo "objetivo". o que lhe dá uma posição original.tória e Antropologia. as menorzinhas que só têm direito. as menores. se admitem inclinações análogas. uma escolha entre as civilizações. certamente próxima. estruturas dinâmicas regulares que possam ser aproximadas umas das outras de maneira útil. de nossa escola histórica dos Annales. subcivilizações ou civilizações secundárias. Com a condição. que nossa investigação vá de uma experiência a outra. se não se lhe corta de maneira autoritária um setor científico. portanto. não há ciência histórica se o domínio demasiado vasto e demasiado diversificado da História não é simplificado. enfim. em seguida artificialmente isolado. Ora.

não tenta. ao rés-do-chão. " Não o acreditemos ao pé da letra. entre as civilizações encorpadas. inteligente antropólogo. Tantas ascensões repetidas nos dariam. para ser mais justo. o historiador se inquiete de bom grado. p. Numa pontada análoga. a oposição entre elas é sempre a do dia e da noite? Meditemos. O T T O B R U N N E R . 10. c a i s . tampouco. I I . Razão e religião. a mesma colocação idealista dos destinos da humanidade. iríamos conduzir nossos passos. Mas esse prosaísmo nos convida a tornar a descer. Welteesckichu Eurofias. Com efeito. senão nove personagens. Mas como compreender por dentro essas grandes personagens? Philip Bagby. sem cultura antropológica. sobre a reflexão de Heinrich Freyer: "O reino da razão começa no reino de Deus" 10 . contra as vinte e uma ou as vinte e duas eleitas de Arnold Toynbee. Tudo isso para voltar às civilizações maiores. 17. e ver as coisas de perto. infelizmente. Receio que seja pouco mais ou menos a mesma canção. Mas o leitor vê a que altura. 9. \265 . p. de mais em mais. ele também é praticamente "o que ele come" (der Mensch ist was en isst). se quiséssemos crer num jovem. F R E Y E R . . pensemos em Auguste Comte. ainda que diante desse dualismo mais rigoroso que o de Guizot (religiosidade. O homem não vive somente de prece e de pensamento. Heinrich Freyer 9 afirmava ontem "que a racionalidade era o trend do pensamento do Ocidente": será o trend do pensamento do mundo? Aceito. prometia mais? Que as civilizações. no seu lento desenvolvimento. o gosto pelas baixas altitudes. se fosse necessário. Não sei se isso é um progresso.dor de formação humanista e. passam regularmente de uma época religiosa a uma época que. Não retém. certamente. H . 723. Este alimenta aquele no decurso de incessantes secularizações. e muitos outros antes dele. racionalidade). portos. . uma vez mais. Charles Seignobos dizia. portanto. um dia: "A civilização são rotas. o que reter de um estudo comparativo apenas esboçado no término desse livro que. defini-las seriamente. se submete à racionalidade? Max Weber já o dissera com respeito à Europa.

Cumpre-lhe. se desenvolve e morre. ou uma outra vasta e interminável obra sobre a e as civilizações? Primeira tarefa. à inteligência do mundo atual. queira ou não. verificar a amplitude do domínio das civilizações. porque é somente se ela prosseguir firmemente nessa via. tanto bons quanto maus. com efeito. 2. que a história das civilizações. dos quais.ao risco de observar o que as divide e as particulariza. posso indicar o plano de trabalho que me pareceria se impor se. Sacrifícios necessários Renunciar. acabam de fazer. convocando. no domínio inesgotável da vida dos homens. por onde já trilhava. linear. assimilar todas as descobertas que as diversas ciências sociais. se encontra numa encruzilhada. todos os especialistas das ciências do homem. ou de uma personagem ou de um corpo. pelo maior dos acasos. tivesse que escrever. que a história poderá servir. além do historiador. para esse efeito. terceira tarefa. negativa mas necessária: romper imediatamente com certos hábitos. não obstante suas imperfeições aos olhos de um historiador. enfim. propor tarefas precisas. sob minha própria responsabilidade. a mais fácil de manejar. A Study of History. A História na Encruzilhada O leitor já terá visto onde eu quero chegar. a meu ver. Prefiro. a menos má. ou de um organismo. em primeiro plano. Tarefa difícil. Creio. procurar uma definição da civilização. voltar às meditações de Georges Gurvitch a propósito \ 266 . mesmo se for para voltar a eles. e não mais as confunde. como a História em geral. segunda tarefa. à guisa de conclusão. mesmo histórico. de nascimento mais ou menos recente. mas urgente. de partida. é indispensável se desprender de partida. simples. para prosseguir no melhor nosso trabalho. a certas linguagens: não mais falar de uma civilização como de um ser. Não mais dizer que ela nasce. entende-se a mais cômoda. o que volta a lhe dar um destino humano. Nessa linha.

é preciso renunciar ao linear. S(eriam assim rejeitadas tanto as três idades de Vico (idade divina. de uma opinião razoável conforme a própria multiplicidade da vida: o futuro não é uma estrada única. a regra de três. como as três idades de Auguste Comte (teológica. figuram os esquemas de Spengler e de Toynbee.. enfim. porque original. elas partilham todas ou quase todas. em que. positivista). idade humana). a interior). como se cada uma representasse u m a j l h a no meio de um oceano. as duas fases de Spencer Lcoerção e liberdade). até mesmo o número-função. elas vivem. as duas solidariedades sucessivas de Durkheim (a exterior. socialismo. e trata-se. metafísica. de qualquer tradução da frase habitual. escravagismo. e com o risco de voltar a isso. Não crer tampouco. capitalismo. as etapas da coordenação crescente de Waxweiller. de toda cultura particular de um certo nível. a meu ver. independente. que uma civilização. desde o início. o alfabeto. nem mesmo o princípio da explicação. Ele vê o futuro de uma ou de outra hesitando entre vários destinos_20ssíveis. idade dos heróis. a numeração. as bases hoje comuns. ou a propósito de nossa sociedade atual. no total. quando suas convergências. por vezes. não poderá mais esquecer". pois não pretendo condenar em bloco todas essas explicações. dizia Margaret Mead (no próprio sentido da palavra de Mauss que citei). . de Frédéric List ou de Bücher. as densidades crescentes de Levasseur e de Ratzel. Para fechar o capítulo das exclusões. feudalismo. o vapor etc. quando. Portanto. seus diálogos são essenciais. é aquilo que o homem. "A civilização. vale como uma precaução necessária. o fogo. por exemplo. impessoais. .plicação cíclica do destino das civilizações ou das culturas.da sociedade global da idade Média ocidental. a corrente de Karl Marx: sociedades primitivas. Não sem pesar.. de mais em mais. rejeito também as listas estreitas de civiliza- . naturalmente. ao contrário muito útil. elas morrem. na verdade. Eu renunciaria igualmente ao uso de qualquer ex. a linguagem. um rico fundo comum. do modelo ou do ciclo. creio. tão insistente: elas nascem. doravante. muito diferentes. as etapas econômicas de Hildebrant. é um mundo fechado. mas essa exclusão.

evidência.ções que se nos propõem. hoje. decompor essa França. a uniformização das técnicas. deve compreender tudo. ainda que de raio débil. sobretudo. que os Estados. o importante seria ver a ligação desses elementos. se comandam. em Franças particulares. ao capricho do pesquisador. como qualquer outro. recolocar a civilização francesa no seu quadro europeu. podem-lhe dar a etiqueta que se queira. com efeito. os povos. que não creio trair. quer dizer. me parece demasiado simples. Ela se encontra. A meio caminho. A idéia de Mare Bloch. era. Critérios a reter Limpo o terreno. como sofrem juntos. em todo caso. sob o vocábulo civilização ocidental. as nações tendem a ter sua civilização própria. uma alemã. aliás. Creio. "Isso não sofre objeção. compreender como se imbricam. e principalmente que essas major civilizations devem ser divididas em subcivilizações e estas em elementos ainda menores. de outra. penso-o. suficientemente desprendida de todo juízo de valor. qualquer que seja. para ser frutuosa. facilmente utilizável para a observação. são comandados. outra civilização a não ser a francesa. Em última análise. mas que é divertido aproximar-se do fato de que a civilização francesa não existe na classificação de Toynbee. ir das culturas mais modestas às major civilizations. seja no ensinamento deste ou daquele antropólogo. Nietzsche pretendia que desde a civilização grega não houvera. como prosperam. Numa palavra. Há. penso. do menor ao mais vasto. pois nosso país. que a pesquisa. seja em determinada exposi- \268 . cuidemos das possibilidades de uma micro-história e de uma história de abertura tradicional. Seria de grande interesse saber até a que elemento se poderia chegar embaixo da escala. de uma parte. uma italiana. uma inglesa. Estudá-las todas. ao que tudo indica." Afirmação eminentemente discutível. uma civilização francesa. é uma constelação de civilizações vivazes. ou contratempo. colocaríamos a pergunta: o que é uma civilização? Conheço só uma definição boa. ou não (contanto que existam critérios indubitáveis de semelhantes prosperidades). cada uma com suas cores e contradições internas.

O interessante é que uma área agrupa sempre várias sociedades ou grupos sociais. de analisar-lhe as oposições. se possível. aqui. os matizes. . _— Uma civilização é. muito mais do que pensam os antropólogos. que são os primeiros signos de uma coerência cultural.. Daí a necessidade. mais ou menos vasto. donde a necessidade de dividir em seguida a enorme região. dizem os antropólogos. . a área cultural depende da geografia. Mas o exemplo do Pacífico não poderia ser analisado de maneira conveniente. de quem eu a tomei emprestado. a freqüência de certos traços. uma "área cultural". de traços culturais. de grupos sociais diferentes. eu chamo civilização ou cultura o conjunto. Se a essa coerência no espaço se acrescenta uma certa permanência no tempo. ontem. E é à margem que se encontram. Por vezes essas fronteiras e a área que elas abrangem serão imensas. Além disso. sem me arrepender depois por isso. gostos culinários. antes de tudo. suas margens. quanto a nós. Esse "total" é a "forma" da civilização assim reconhecida. tanto a forma. seu "núcleo". de homens.. repito-o. mas jamais muito estreito. uma técnica particular. qual é seu mínimo vital? \269 . suas fronteiras. uma maneira de amar. ensinamos há muito que á possível crer na existência muito antiga de uma civilização de todas as costas e de todas as ilhas do Pacífico . o prelo do impressor. as "cristas" .ção de Mareei Mauss. os traços. Bem entendido. ou ainda. . de estar atento. o "total" do repertório. uma maneira de crer. um alojamento. a bússola. No interior desse alojamento. a ubiqüidade desses traços numa área precisa. imaginem uma massa muito diversa de "bens". quanto um dialeto ou um grupo de dialetos. escrevia Mareei Mauss. o mais das ocasiões. essa área terá seu centro. ela exige de espaço. seu telhado. Quanto. Com efeito. . há nesse domínio numerosas coincidências. quanto determinada arte da flecha emplumada. o material das casas. à menor unidade cultural. nem determinando outro exemplo de menor extensão. fenômenos ou tensões mais características. o papel. um espaço. aqui ou ali. É o agrupamento regular." Numerosas variações também. de marcar-lhe os eixos. "Assim. As áreas culturais.

outrora. com efeito. é o caso da ciência moderna. ainda que todas as civilizações não sejam igualmente abertas a trocas dessa ordem. em semelhante caso. chega à sua escolha decisiva. além das poderosas reações da Contra-Reforma. é ao longo do velho limite que se dilacera aproximadamente a unidade da Igreja: de um lado. as civilizações os exportam ou os emprestam. como o sugere P. quem não sabe que os dois rios marcam uma fronteira espiritual excepcional? Goethe o sabe. . recusas de emprestar. é o caso da técnica moderna. Toda civilização. Roma deteve aí. quando indo para \ 270 . um milênio mais tarde. sua conquista. repetidas. — Todos esses bens culturais. tão pouco avaliados por Toynbee. por essa escolha ela se afirma. Resta saber se. outras pródigas. não cessam de viajar (por aí se distinguem dos fenômenos sociais ordinários): alternadamente. seja um simples instrumento de trabalho. com suas fronteiras. a fidelidade a Roma. se afirma um triplo jogo: a área cultural. Certos elementos culturais são mesmo contagiosos. Aliás. os empréstimos de bens espirituais se mostram ainda mais rápidos que os das técnicas. de outro. a hostilidade da Reforma. seja uma forma de pensar. me parecem assim uma das melhores pedras de toque para quem quer julgar a vitalidade e a originalidade de uma civilização. a dupla fronteira do Reno e do Danúbio. se revela. Duvido. de uma lucidez aguda. — O estudo das áreas culturais e de suas fronteiras se revelará com um exemplo concreto. Os fenômenos da "difusão". micro-elementos da civilização. Ora.Os empréstimos. simultaneamente. Cada um desses jogos abre possibilidades. — Mas todas as trocas não progridem por si: há. ou de crer. As recusas. Sorokin. na definição que tomamos de empréstimos. ou de viver. Algumas dessas recusas se acompanham mesmo de uma consciência. essas recusas. De cada vez. Umas são glutonas. e tanto mais quanto são conscientes. E essa vasta circulação não se interrompe nunca. afirmadas. a recusa. o empréstimo. naturalmente. se outras são cegas. Possibilidades abertas à pesquisa por esse jogo triplo. tomam um valor singular. Em suma. . como que determinadas por soleiras ou ferrolhos que interditam as passagens .

ao Islã. Essa abertura da encruzilhada (os geógrafos dizem "o istmo") francesa é. Madame de Staèl o sabe. entre os séculos XVIII e XIX.a Itália. no século XIV. as vestimentas de linho branco. difundido por intermédio de nosso país. no jogo complicado das transferências e trocas culturais. tomara emprestado sem contar à sua volta ou longe. esses bens frágeis haviam caminhado. tinham transitado pela Espanha e Portugal. através das rotas do Velho Mundo para ganhar. a mensagem do existencialismo. outrora. os dentes artificiais. para transpô-lo. se difunde. quando atravessa o Reno . de Sartre ou de Merleau-Ponty. um pensamento alemão. originárias da França. o vapor (um barco a vapor circula desde 1819 nas águas da baía de São Salvador). os tráficos vivos do Mediterrâneo tinham quase num instante se encarregado desses viajantes estranhos. nem o enorme dossiê. as coifas do tipo hennin. o signo dominante de \ 271 . Porque este tem ainda seus privilégios: a França. a ilha de Chipre e a brilhante corte dos Lusignan. o gás de iluminação. vindo da França. seus choques. . o chalé inglês. . Na verdade. sem dúvida. mais tarde o positivismo. Entretanto. em seu lugar de origem. atinge. Sua lista é divertida: a cerveja inglesa ou hamburguesa. continua sendo uma encruzilhada de escol. Assim. Mas há exemplos mais próximos de nós. Volumes inteiros não lhe esgotariam nem o interesse. A civilização do Ocidente ganhou o planeta. e dessa vez através de toda a América Latina. depois pelo habitual rodízio das ilhas atlânticas). como que uma necessidade do mundo. modas desvanecidas há muito tempo. Dali. prodigalizou seus dons. até mesmo à índia . mais cedo as sociedades secretas (estas. bons ou maus. suas coerções. . Desde 1945. os corpetes decotados. o historiador sociólogo brasileiro Gilberto Freyre se aprouve em enumerar todos os empréstimos feitos por seu país. o Danúbio em Ratisbona. tornou-se a civilização "sem margens". durante meio milênio. Essa história não está acabada. à Europa nutriz. ou à China. mas relançado. Segundo jogo: os empréstimos. Na França um pouco louca de Carlos VI chegavam da longínqua China dos T'ang os atavios "ao modo de cornos". é claro. .

Ela faz ainda nossa importância e nossa glória. não é o assassinato de Roma que eu reteria. ao i acaso de uma polêmica. não são os únicos a estar em jogo. as culturas desempenham seu papel. Paul Valéry tem antepassados genoveses. outros tantos jogadores em torno de uma mesa imensa. A Itália. decisiva da Europa. Sem dúvida. a uma grande profundidade. às Reformas. quem não pensará que é bem desta recusa que se trata. no caso dramático do marxismo militante. Assim. mas luminosas. Sem querer construir tudo em torno da recusa. o passado recente e suas contingências. Não explica ele. nessa pequena casa da velha cidade que a fidelidade polonesa soube reconstruir. que seria para nós vantagem rever. Vê-se até onde me conduziria minha confiança \ com respeito à "difusão". e que nos situa em pontos precisos da História: a recusa.nossa civilização. mas o abandono de Constantinopla. esses meio-irmãos detestados: a eles prefere ainda o turco. da teoria geral dos jogos? Suponham que os jogador e s se ajudem. que as civilizações são.. Toca no âmago as culturas da Europa. Aqui os níveis econômicos. suas intenções: quanto maior a conivência \ 272 . uma vez mais. que dependem assim. e comuniquem uns aos outros suas cartas. "heréticas" e discutíveis. Van Gogh na Holanda. as estruturas sociais. de uma certa maneira. hoje? O mundo anglo-saxão lhe diz não. a Espanha. para > ele. Terceiro jogo. E é um drama de uma amplitude. a França (esta depois de terríveis hesitações) dizem não à Reforma. a Espanha. Outro exemplo: em 1453 Constantinopla não quer ser salva pelos latinos. E aí também é o drama. do historiador turco Rechid Saffet Atabinen. Marie Curie nasceu em Varsóvia. para a Reforma.. o mais revelador. mesmo que fosse apenas através das notas intuitivas. Modigliani nasceu em Livorno. | ao lado de Claude Lévi-Strauss. Se tivesse que escolher um acontecimento para a batalha espiritual que reclama uma nova explicação das civilizações. A Itália. Picasso nos vem da Espanha. a França não lhes são hostis mas também dizem não e bem mais que pela metade. essa divisão profunda. de uma profundeza imensas.

As civilizações repousam sobre a terra. nós historiadores. tal seria nosso terceiro procedimento. nos Annales. que deve recriar ao longo de seu destino. Pierre Renouvin. do filósofo ao demógrafo e ao estatístico. Para um diálogo entre a história e as ciências do homem Reconhecer no "cultural" toda sua extensão. nos é preciso.mútua. Se é absurdo negligenciar a superestrutura. de longa duração. John U. que infantilidade! De fato. a geografia foi colocada em jogo. obrigar a ir no mesmo passo que Toynbee. os próprios marxistas. que seria a civilização. os economistas. quase regularmente. os antropólogos. No fundo de cada civilização. encetar com cada um dos grandes setores das ciências do homem. como tão freqüentemente se faz. Lucien Febvre insistia marcar essas ligações vitais. com o meio que ela cria. é um desafio repetido. incessantemente repetidas. essas relações elementares e como que primitivas ainda \273 . O desdém para com Karl Marx. não o é menos negligenciar. o estudo das civilizações. ou Lucien Febvre de uma parte. de sua posição no cruzamento de inumeráveis correntes culturais. O alojamento das civilizações. em 1950. ilusório querer. Nef e Lucien Febvre. O Ocidente aproveitou. ou melhor. no decorrer de uma amigável discussão sobre o vasto tema da civilização. O historiador não pode ser suficiente aí. de dar. os sociólogos. quer de outra. a infraestrutura. se comporta um desafio. Recebeu ao longo de séculos e de todas as direções. com efeito. entre outras coisas. é algo bem diverso do que um acidente. em todo esse excesso idealista que nos vale. à moda alemã. antes de ser capaz. Para aventurar uma fórmula rápida. tanto as tradicionais como as novas. mesmo de civilizações extintas. mais facilmente um dentre eles terá probabilidade de ganhar. valha o que valer. Impor-se-ia uma "consulta" que agrupasse o conjunto das ciências do homem. Primeiramente com a geografia. por sua vez. isolar a cultura de sua base. de irradiar. é uma série de diálogos que devemos. É. entre Federico Chabod. Uma tarde.

esse corpo (mas tenha o direito de empregar. Contra Lucien Febvre.. acarreta fraturas. como o explicaram os irmãos Kulischer. franceses repetiram que nos restava. essa palavra?) das civilizações. penso que deve ser. a cintilação intelectual. ademais. correm sem fim sob a pele da História. Mesmo se essas aproximações permanecem ainda muito tímidas. Eis por que. ao menos por uma razão essencial: é preciso tornar a dar seu ou seus corpos materiais ao Renascimento italiano. inflete sua vida moral. por minha vez. para além do vigor perdido. mesmo que seus índices sejam más medidas das civilizações: não há medidas perfeitas. Não sou o único a ser de uma opinião contrária. aliás. os vegetais. Diálogo também com a sociologia. Uma civilização está abaixo ou acima de sua carga normal de homens.. com a eçonomia. Mas tudo se mantém. Todo excesso tende a produzir essas vastas. Logo depois de 1945. essas insistentes migrações que. reescrito. que ele me perdoe. retomar todo um debate para decidir das relações entre civilizações e estruturas ou classes sociais. Sustento enfim que não há civilização sem uma forte armadura política. se as compararmos ao alegre idealismo de P. Um mesmo diálogo se impõe com os demógrafos: a civilização é filha do número. e mesmo sua vida religiosa. sou a favor de Alfredo Niceforo. Sou igualmente a favor das "aproximações" de Georges Gurvitch relativamente às "sociedades globais". como parecem cingir o real. intelectual. \ 274 . Uma civilização também exige força.. as populações animais. Shepard Bancroft Clough tem razão: toda cultura requer um excelente. não obstante a admiração que conservo pelo livro de Jacob Burckhardt. Como é possível que Toynbee só se inquiete com isso de maneira incidental? Um avanço demográfico pode acarretar. A cultura é consumo. um supérfluo econômico. até mesmo desperdício. para o meu gosto. saúde. social e econômica que. mutações. a^ endemias. Sorokin! Cumpre.. no bom ou no mau sentido. Uma cultura não vive de idéias puras.com os solos. poder. A força não basta para assegurar a radiação. com a estatística-.

a literatura. não vale senão para a vida econômica. os sentimentos religiosos . . por essas tomadas de contato. a imaginação. em fases curtas da vida cultural. a dignidade da "cultura": quero dizer. demoraria. a técnica. a economia. acompanha essa ampla inversão dos valores. sob o signo da Aufklarung. cumpre ver. etc. Mostra aí como a civilização alemã é invertida. do que realizá-lo. mas quase exclusivamente por especialistas. o que é um mal. o romantismo. sem posição preconcebida. . como eu o farei de bom grado. se pudermos estender a esse domínio. de uma estacagem cronológica precisa. ei-la preferindo ao que foi até ali sua regra. como outras tantas pátrias particulares ao abrigo de sólidas fronteiras. o que é um bem. a geografia. ) e os outros. é mais fácil desejá-lo. Romper essas fronteiras. qual uma enorme ampulheta. o compasso dos séculos ou dos milênios. as ciências. preferindo o instinto. Todos esses setores da vida humana são estudados por especialistas. através de todos os comportamentos. Ei-la no início racional.Quebrar as fronteiras entre especialistas ) Mas em que programas práticos poderíamos pensar. depois. da inteligência à francesa. O importante é ver então. o que. esses setores culturais no sentido estrito (a arte. entre os séculos XVIII e XIX. na base. Não é exata- \275 . os costumes. até aqui. de exclusivos. mesmo se ele tem sua utilidade! Uma vez escolhido o espaço cronológico. como jogam uns em relação aos outros. Henri Brunschwig deu um bom exemplo disso na sua tese sobre as origens sociais do romantismo alemão. em primeiro lugar é em programas prudentes que eu me. quer se lhes conceda ou não. peço-lhes. através de todas as estruturas sociais e de todos os encadeamentos econômicos. a história do trabalho. pouco importa. para pôr à prova esse conjunto contestável de precauções. Veria uma grande vantagem em escolher. a expressão que. em "conjunturas" culturais. Não abramos imediatamente. de adesões? Para aceder também a concepções mais amplas e sobretudo mais sólidas? Há necessidade de dizê-lo. períodos dotados de uma iluminação minuciosa.

obstinadamente. inconcebível a priori. o "outono". pelas inércias da vida social. estou de acordo com isso. os grandes sentimentos. Trata-se no caso de um corte no sentido horizontal. mas talvez se ilumine também. é preciso repeti-lo.mente o que fez num livro célebre e seguramente magnífico. É por isso que saúdo a admirável terceira parte da última grande obra de Lucien Febvre: La religion de Rabelais. Pois. se houve agonia. Mas o que eu mais censuro a J. de Rabelais. da vida econômica ou essas inércias particulares da longa duração. como o sugere a obra inteira de Lucien Febvre. a agonia. quando. ver se. quando estudou o fim. onde se esforça em marcar o que foi o "ferramental mental" da própria época de Rabelais. em que medida houvera modificação. um momento da civilização ocidental. da Idade Média ocidental. Que infelicidade. os mais altos e os mais baixos. encantoado. por que. aliás. dos raciocínios. Huizinga. Huizinga é ter conservado os olhos levantados tão alto que só considerou. dos conceitos. tão características das próprias civilizações onde tantos elementos pesam com peso enorme. Por que é ele assim? A inteligência. J. o último estádio do espetáculo. do caso interessante. De fato. . o cimo da fogueira. a regra. sem dúvida. Mas a lição somente foi dada ao entardecer de uma longa vida de trabalho (1942) e Lucien Febvre sempre pensou que a completaria um dia. Restava-lhe. não será irremediável: ela se me "afigura pessoalmente como uma etapa. essa apreciação. com efeito. mais cedo ou mais tarde. destacar esse corte. o mesmo nível fora. seus próprios encadeamentos. mas em si restrito. . enfim. hoje clássicos. traz em si suas próprias explicações. se se pode assim dizer. ou não. dar-lhe-ia "sua plena dignidade". que não tivesse à sua disposição esses estudos demográficos e econômicos. onde. o repertório das palavras. sobre o poderoso recuo do Ocidente no século X V : ter-lhe-iam dado a base que falta a seu livro. com efeito. uma "agonia" de civilização. \276 . em suma. dirá mais tarde. não levam jamais uma vida plenamente independente. das sensibilidades ao seu alcance. Esse nível intelectual da primeira metade do século XVI nos parece.

e com prudência. em resumo. isto é. com a diferença de minha pessoa. não me sinto no direito de concluir de maneira muito viva. que todas admitem estruturas semelhantes ou seguem. essa "sociedade global". ao longo da história. Tanto mais quanto não se trata de retomar o que acaba de ser dito mais ou menos bem. para uma outra. se quisermos. o que recairia quase no mesmo. 3. Pois nada nos assegura antecipadamente. Mas todos os historiadores. encadeamentos idênticos. eu pensaria em construir modelos. sistemas de explicações ligadas umas às outras. não lhe darão de bom grado ou aproximadamente. de fato. na realidade. — Eis como eu procederia. Georges Gurvitch fala da "ilusão da continuidade e da comparabilidade entre os tipos de estrutura global (isto é. razão neste ponto. portanto um pouco fora dela. irredutíveis". É antes o contrário que seria lógico. para além das tempestades do tempo curto.A busca sistemática das estruturas. variam os riscos decisivos. É mais ou menos também. Um historiador. com o risco de contradizer raciocínios já difíceis. Digo a História. Eis algo que não simplifica uma resposta difícil e que não preparei pacientemente. nessas últimas páginas. ao termo dessas hesitações. dessas prudências e. A História está intimada a mostrar suas utilidades face ao atual. necessários com a pequisa sistemática das estruturas. as civilizações) que permanecem. em seguida. a propósito dessa pesquisa necessária das estruturas. por que não confessá-lo. E em~seguida? Em seguida. Antes de tudo para determinada civilização. realmente. cumpre-nos responder à insidiosa questão que orienta não apenas o presente capítulo. Logicamente. Cumpre-nos. A História Face ao Presente Ao termo dessas análises necessárias. ou pouco falta para isso. daquilo que se mantém. para além dos "saltos e dos recuos" de que fala A. ápice da sociologia eficaz de Georges Gurvitch. mas ainda o volume inteiro. porque a civilização é mais ou menos a História. Toynbee. \277 .

Cada um dentre nós sabe que toda sociedade. é para se desprender dele. cada um faz a experiência. ligadas entre si e por vezes muito diferentes. todo grupo social. Mas como negar que ele também é útil. a milhares de anos de distância. com relações próximas ou remotas. Realidades de longa. é a diversidade entranhada do mundo. de muitos invernos. Cada uma delas e seu conjunto nos inserem num movimento histórico imenso. a partir de suas raízes. sobretudo na escala de nossa vida individual. e arrepiar caminho? Em todo caso. para cada sociedade. Elas não são "mortais". tem uma maneira singular de se interessar pelo presente. e de incontáveis contradições. Utilizar assim a língua francesa como um utensílio preciso. a centenas. e podem deslocar suas constelações fundamentais — tocam-nas infinitamente menos freqüentemente do que se pensa. incessantemente readaptadas a seu desti- \ 278 . tentar tornar-se senhor de suas palavras. Em muitos casos. Por isso mesmo. Longevidade das civilizações O que nós conhecemos. talvez melhor que qualquer observador do social. que é. Via de regra. de longuíssima duração. não obstante a frase muito célebre de Paul Valéry. de suas origens. melhor que nenhum outro. a fonte de uma lógica interna. e como. por vezes meia volta. De ordinário. mas as raízes profundas subsistem para além de muitas rupturas. só são perecíveis suas flores mais esquisitas. participa fortemente de uma civilização. o que o historiador das civilizações pode afirmar. de uma série de civilizações superpostas. é conhecê-las. de inesgotável duração. as civilizações. dar. trata-se somente de adormecimentos. a experiência vale a pena de ser tentada. bem entendido. é que as civilizações são realidades de longuíssima duração.com efeito. ou mais exatamente. seus êxitos mais raros. Quero dizer que os acidentes mortais. Eis-nos portanto face ao tempo presente. que lhe é própria. Mas esse exemplo da língua vale entre uma centena de outros. se existem — e existem.

Portanto. as civilizações sobrevivem às perturbações políticas. econômicas. Em suma. . mesmo ideológicas que. . A burguesia é a maior cepa de França. 1926. a civilização ortodoxa oriental. de cor em relação a si mesma. que alguns intitulam. 7* 27!) . como as outras. mas conservaria quase todos os seus matizes ou originalidade em relação à outras civilizações. as civilizações 11. transgridem os limites das sociedades precisas (que mergulham assim num mundo regularmente mais vasto que elas próprias e recebem. em seu benefício. o que Jean Cocteau 11 traduziu à sua maneira: " . aliás. ou muito categoricamente. com maior razão. lareira. Perdendo tal burguesia. A Revolução Francesa não constitui um corte total no destino da civilização francesa. a rigor. comandam insidiosa. Há uma casa. sociais. nessa experiência. Quando muito mudaria. do mesmo modo se afirma no tempo. em suma. um excesso que Toynbee notou bem e que lhes transmite estranhas heranças. nem a Revolução de 1917 no da civilização russa. poderosamente por vezes. a civilização francesa pode. para quem aspira à inteligência do mundo atual e. é uma tarefa "compensadora" saber discernir. E entretanto. em rupturas ou em catástrofes sociais que seriam irremediáveis. Do mesmo modo que no espaço. ultrapassam portanto em longevidade todas as outras realidades coletivas: elas lhes sobrevivem. na maior parte de suas "virtudes" e de seus "erros". eu o imagino. não digamos muito depressa. «Le Coq et l'Arlequin». como Charles Seignobos o sustentava um dia (1938) numa discussão amigável com o autor dessas linhas. Pelo menos. impulsos particulares). cachimbos. . mudar de suporte social. uma lâmpada. para quem aspira inserir nele uma ação. no mapa do mundo. que não há civilização francesa sem uma burguesia. sem estar sempre conscientes disso. ela pode mesmo ver crescer uma outra. incompreensíveis para quem se contenta em observar. ou criar um novo.. in Le ed. Dito de outro modo. p. 17. . .no. persistiria. uma sopa. vinho. Rappel à l'ordre. por traz de toda obra importante entre nós". . Não creio muito quanto às civilizações. para alargá-la ainda mais. um impulso. em conhecer "o presente" no sentido mais estrito. Paris.

as províncias e o ar que aí se respira. o prova de sobejo. de civilização para civilização. uma viagem a Moscou ou a Leningrado o prova \ 280 . Obrigaria a considerar fora da propaganda. como infelizmente ela tem. nosso primeiro gesto é crer na heterogeneidade. segundo. e ainda. na sobrevivência de seus personagens. Na verdade. — Ontem. essa necessidade de encontrar. antiga. de gostos profundos que só uma história lenta. de atitudes sem grande flexibilidade. ela foi. em cem anos. com exclusão dos outros. desde hoje. mais ou menos no mesmo lugar sobre o mapa do mundo. nesse ínterim. dando tudo na mesma coisa. a única luz comum: uma viagem à Polônia. não tiver se suicidado. ela remanesce uma luz eficaz. Foi a educadora de toda a América Latina — a outra América. ontem. determinar-lhes os centros e periferias. as "formas" particulares e gerais que aí vivem e aí se associam. mas cada povo sente demasiado prazer em examinar-se no seu próprio espelho. linguagens aceitáveis que respeitem e favoreçam posições diferentes. a curto termo — todos os graves problemas das relações culturais. como diz a sabedoria dos economistas. Do contrário. O lugar da França. pouco consciente (como esses antecedentes que a psicanálise situa no âmago dos comportamentos do adulto) explica. de hábitos firmes. Foi o "helenismo moderno" (Jacques Berque) do mundo muçulmano. quer os azares da História as tenham. a França foi essa linguagem aceitável. favorecido. Na África. esse precioso conhecimento continua sendo pouquíssimo comum. na diversidade das civilizações do mundo. o que quer que se diga.hoje estabelecidas. toda probabilidade. ou não. os meios de fazê-lo. essas civilizações ainda estarão. quantos desastres ou equívocos em perspectiva! Em cinqüenta. ou à Romênia. o que importa em colocar na primeira ordem do atual esse estudo de reflexos adquiridos. válida somente. pouco redutíveis umas às outras. Seria preciso que nos interessassem por isso desde a escola. nâ permanência. fixar-lhes os limites. ela o permanece ainda hoje. e salvo evidentemente se a humanidade. também tão atraente. aliás. Assim. até mesmo em dois ou três séculos. Na Europa.

uma vez mais. sobretudo. aviões. todas as cidades. quase nossa razão de ser. se o mundo quer viver sem se destruir. todos os povos se assemelham de uma certa maneira: o Rio de Janeiro está invadido há mais de vinte anos pelos arranha-céus. os costumes locais desaparecem. ferrovias. caminhões. Oferece-os sem dá-los sempre. das centrais elétricas.devidamente. em matizes. . O progresso técnico multiplicou os meios ao serviço dos homens. . nos falam da uniformização crescente do mundo. a técnica — e é dela que se vê por toda parte a feição e a marca — não é seguramente senão um èlemento da vida dos homens. esse futuro permanece nossa oportunidade. dos altos fornos. Nessas aproximações devem partilhar bens. o mundo abundava em pitoresco. se compreender. talvez mesmo certos preconceitos comuns. para além das constatações evidentes. ou ainda. mais do que nunca. uns após os outros. Mesmo se os políticos com olhos de míope sustentam o contrário. automóveis. e. eis os homens "sob um mesmo teto" (Toynbee). seus estoques. não é cometer uma série de erros bastante graves? O mundo de ontem já tinha suas uniformidades. suas mercadorias diversas. utensílios. Permanência da unidade e da diversidade através do mundo No entanto. uns sobre os outros. Apressemo-nos em viajar antes que a terra tenha o mesmo aspecto em toda a parte! Aparentemente. um mapa do consumo \281 . obrigados a viver juntos. não nos arriscamos. por toda parte. todos os viajantes. todos os observadores. A longuíssimo termo. Entretanto. Se tivéssemos diante dos olhos um mapa da distribuição das grandes fábricas. Por toda parte a civilização oferece seus serviços. Podemos ser ainda uma necessidade do mundo. amanhã. das usinas atômicas. não há nada a responder a esses argumentos. fábricas. Ontem. sem se irritar. hoje. entusiastas ou enfadonhos. Moscou faz pensar em Chicago. a confundir a e as civilizações? A terra não cessa de se encolher e.

Há. Todo o pelotão se reagruparia se o progresso fizesse alto: essa não é a impressão que ele dá. esses verdadeiros personagens. os altos fornos de nossa Lorena ou os do Brasil de Minas Gerais ou de Volta Redonda. ambições. uma inflação da civilização. Plurais e singular dialogam. sempre no lugar. lá onde ela se realiza. aqui. promessas. São eles que. Há o contexto humano. Na verdade. mas cada uma lhe dá uma significação particular. até mesmo. não haveria dificuldade em constatar que essas riquezas e que esses utensílios são muito desigualmente repartidos entre as diferentes regiões da Terra. Seria preciso ser cego para não sentir o peso dessa transformação maciça do mundo. O triunfo da civilização no singular. Os arranha-céus de Moscou não são os buildings de Chicago. bem como o ânimo que se põe ou que não se põe nisso. \ 282 . e dotados de longa vida. Os fornos improvisados e os altos fornos da China popular não são. analisadas as semelhanças. com uma amplitude e uma ressonância humana raramente semelhantes. De fato. e ali. mas o operário também significa muito. os subdesenvolvidos que tentam modificar sua sorte com maior ou menor eficácia. Isto equivale a dizer que a técnica não é tudo. social^ político. seria pueril vê-la. carregam sobre os ombros o esforço a realizar. instaurou-se uma corrida. Ela espalhou possibilidades. o progresso ampliou assim a gama das diferenças. dos produtos modernos essenciais. Abrindo o leque das possibilidades humanas. e a obra. por vezes a olho nu. Em resumo. os países industrializados. não é o desastre dos plurais. para além de seu triunfo. mas não é uma transformação onipresente e. a propósito do progresso. seus perdedores. só as civilizações e as economias competitivas estão na corrida. eliminando as civilizações diversas. Sê juntam e também se distinguem. suscita cobiças. O utensílio significa muito. místico. demasiado bem sem dúvida. atribuem-lhe ou não um sentido. Nenhuma civilização diz não ao conjunto desses novos bens. seus alunos médios. é sob formas. qiie terá seus vencedores. A civilização não se distribui igualmente.no mundo. se há efetivamente. coisa que um país velho como a França sabe. iniciam a corrida.

o mundo estava dividido contra si próprio pela imensidade e a dificuldade das distâncias: montanhas. todas as civilizações se desdobram 2RR . de vida miserável e curta. Não esqueçamos. Na Idade Média. assinalemos essa unidade de outrora que tantos observadores negam tão categoricamente. frágil.quase sem que haja necessidade de ser atento. permanece fundamentalmente dividido. que mesmo nessa época. do qual não se evade quase. Esse limite. Mas a vida é muitas vezes contraditória: o mundo é violentamente impelido para a unidade. Todas as atividades. a alguns metros deles. está mais próxima da França dos Valois. a civilização era forçosamente diversificada. o homem permanece sempre prisioneiro de um limite. . extensões oceânicas. e é ele que marca com seu selo uniforme todas as experiências humanas. é sensivelmente o mesmo. a seu trabalho. a raridade dos animais domésticos reduzem toda a atividade ao próprio homem. o homem. . ora. e outras. qualquer que seja a época considerada. guardei a lembrança daquele motorista árabe que. Mas o historiador que se volta para essas idades passadas. Nos caminhos" intermináveis e vazios do Sul "argelino. suas preces rituais. também ele. desertos. nas horas prescritas. A China dos Ming. ademais. se estende seus olhares ao mundo inteiro. Sem dúvida. quanto afirmam a unidade de hoje. ao mesmo tempo. é raro. entre Laghouat e Ghardaia. não deixará ele de perceber as semelhanças espantosas. de uma ponta a outra da terra. freava seu ônibus abandonava os passageiros a seus pensamentos e levava a cabo. Essas imagens. as máquinas. tão cruelmente aberta às guerras da Ásia. que a China de Mao Tse-tung o está da França da V República. por toda parte. Pensam que ontem. não valem como demonstração. valha isso o que valer. a mediocridade das técnicas. escarpas florestais constituíam outras tantas barreiras reais. Para inverter o problema por um instante. ritmos muito análogos a milhares de léguas de distância. as técnicas viajam. Os exemplos seriam inumeráveis. seguramente. Na verdade. variável no tempo. ainda no século XVI. Nesse universo dividido. dos utensílios. Já era assim ontem: unidade e heterogeneidade coabitavam. às suas forças.

um ar de parentesco através do espaço e tempo. onipresentes. é também uma revolução científica (mas que toca tão-somente às ciências objetivas. precisamos servir-nos de outras medidas para compreendê-las ou atingi-las. translúcidas. a conturbação essencial do tempo presente. Se ousamos falar de movimento da História. lhe dão. a propósito dessas marés conjugadas. mas de resultado evidente.assim num domínio estreito de possibilidades. A essa conturbação nada escapa. O presente da civilização de hoje é essa enorme massa de tempo cuja aurora se marcaria com o século XVIII e cuja noite ainda não está próxima. Justamente. de causas múltiplas. de catástrofes em cadeia (elas não são o apanágio somente da civilização ocidental). e ela põe à prova todas as civilizações. três bilhões de seres humanos: eram apenas 300 milhões em 1400. não é apenas a revolução industrial. As revoluções que definem o tempo presente Mas. há de ser. arranca-o a si \ 284 . Na escala das civilizações e mesmo de todas as construções coletivas. ou alguma vez. tão' delgadas. a revolução. Essas coerções envolvem toda aventura. Por volta de 1750. Logo mais. essas perturbações repetidas. É a nova civilização. Essa revolução retomada. que representam nossas existências pessoais. entendamo-nos sobre esta expressão: o tempo presente. uma revolução biológica enfim. é o estouro desses "invólucros" antigos. em profundidade. sempre o mesmo: uma inundação humana como o planeta jamais viu. o mundo com suas múltiplas civilizações. dessas múltiplas coerções. Não julguemos esse presente pela escala de nossas vidas individuais. como essas fatias diárias. O poder material do homem levanta o mundo. pois o tempo foi lento no deslocamento desses obstáculos. levanta o homem. enquanto as ciências do homem não tiverem encontrado seu verdadeiro caminho de eficácia). Estamos nisso ainda hoje. insignificantes. restringem-na de antemão. se envolveu numa série de conturbações.

.. ainda se erguem diante dela. o lazer do homem? o que será sua religião. Enquanto isso. que nem a técnica. nem a economia. Quem pode prever o que serão amanhã o trabalho do homem e seu estranho companheiro. em suma. com as maravilhas da medicina. no seu maximum. De fato. são afetadas com isso. é preciso ter admitido. uma dessas barreiras que. o homem muda de aspecto. as viagens aéreas da atualidade nos habituaram à falsa idéia de limites intransponíveis. a revolução biológica que agita o mundo. nem a demografia têm grande coisa a ver com as civilizações. Tais limites. uma dessas zonas difíceis. o limite de um magnetismo terrestre que envolveria a Terra a 8. maciça. tudo se passa como se a humanidade. nosso próprio país nela se entranha com ímpeto. cortaram ontem. A civilização. Somente agora. na vida industrial. nesta ou naquela parte do mundo. empurra-o para uma vida inédita. Ora. natural. é porque elas reduzem obstinadamente a humanidade às suas horas antigas. no fim do século XV. prescritas. as civilizações. O Ceilão acaba apenas de conhecer. ainda não tocou a ilha. a partir do século XVIII até nossos dias.mesmo. a China efetua sua verdadeira entrada. povoados de monstros. desde o século XVIII. o prolongamento miraculoso da vida. aliás. de abordar um planeta novo. as materiais. que em geral acompanha essa revolução. Esse fenômeno reaparece em muitos países. . Um historiador habituado a uma época relativamente próxima — o século XVI por exemplo — tem a sensação. a razão? quem pode prever o que se \285 . Justamente. . todas as nossas atividades. a ideologia. onde essa taxa permanece muito alta. as espirituais.000 km de distância. que se transpõem um belo dia: o limite da velocidade do som. Para aceitar que as civilizações de hoje repetem o ciclo da dos Incas. o espaço a conquistar do Atlântico. ao já visto. nem sempre se apercebendo disso. ou de outra qualquer. as intelectuais. tais como a Argélia. previamente. É necessário dizer que esse novo tempo rompe com os velhos ciclos e os hábitos tradicionais do homem? Se me ergo tão fortemente contra as idéias de Spengler ou de Toynbee. houvesse franqueado. Mas a queda da taxa de natalidade. presa entre a tradição.

se o Ocidente foi seu animador. É do conflito — ou da harmonia entre atitudes antigas e necessidades novas — que cada povo faz diariamente seu destino. Mas esse jogo não é claro. cada uma se vê colocada numa posição particular. porque elas são a sua própria estrutura. Porque — já o disse — essa nova coação ou essa nova liberação. por causa de realidades muito antigas e resistentes. pode engendrar no jogo interno de cada civilização. essa inflação da civilização e. Mas essa difusão em cadeia. nós ainda a chamamos. Ela não mistura apenas o jogo antigo e calmo das civilizações umas em relação às outras. Só se pode excetuar dessa irradiação. cada uma. no interior de seus próprios limites. Essa difusão. os indígenas do centro da Nova Guiné. em todo caso. se atingem o mundo inteiro. mistura o jogo de cada uma em relação a si mesma. humanizarão a máquina e também essas técnicas sociais de que falava Karl Mannheim no prognóstico lúcido e \86 . Parece. Que civilizações domarão. sem o querer. a desforra. antes de tudo. ou os do leste himaláio. ao que tudo evidencia. a irradiação de nossa civilização sobre o resto do mundo. São a vaga que aumenta desmesuradamente a civilização básica do mundo. provocam nele movimentos muito diversos. para além das fórmulas atuais. na infância? Para além das civilizações No amplo presente ainda em devir. parece. as conturbações que a brusca irrupção da técnica e de todas as acelerações por ela acarretada. uma enorme "difusão" está portanto em obra. cujo termo não se percebe. em face dele. escapa-lhe doravante. materiais ou espirituais. sua "atualidade". domesticarão. Essas revoluções existem agora fora de nós. do singular sobre o plural. varia a cada civilização e. em nosso orgulho de ocidentais. essa nova fonte de conflitos e essa necessidade de adaptações. as explicações da ciência objetiva de amanhã. Imaginam-se sem esforço. ou a feição que tomarão as ciências humanas.tornarão. ainda hoje. ao que dizem os especialistas. O tempo presente é.

de lhe impor um humanismo novo. inicia-se sob diversos nomes. uma aristocracia por uma burguesia. luta sem precedentes.tudo à difusão. essas técnicas sociais que o governo das massas necessita e provoca. A comoção ganhou as grandes profundezas e todas as civilizações. muitas estruturas culturais podem rebentar. ou muitos povos insuportáveis por um Império sábio e moroso. mas que. Mas hoje. Desse ponto de vista. as massas primitivas da floresta equatorial. em diversas frentes. . explica. no sentido de P. . para o Sul. Quanto ao Atlântico. Essa África Negra sem dúvida. nem Alfred Weber. de canalizar esta. O mundo das "verdadeiras" civilizações tem essas exclusões. esteve longo tempo vazio e foi preciso. a intrusão das máquinas. e igualmente as mais modestas. que a imensa África oscilasse em sua direção para acolher suas dádivas e seus malefícios. Em direção ao Oceano Índico se elevam altas montanhas. o velhíssimo Saara e. as muito antigas ou. ao mesmo tempo.sábio. antes. uma religião que se defenderá sempre por uma ideologia universal — nessa . o das culturas "em trânsito" da imensa África Negra. o velho Oceano Indico.por uma quase nova. entre as civilizações e a civilização. Que essas civilizações sejam "culturas". ou uma burguesia antiga. sem dúvida. aumentam o poder do homem sobre o homem? Essas técnicas estarão a serviço de minorias. cega. perdeu suas antigas relações com o Egito e com o Mediterrâneo. entre o novo Oceano Atlântico. Trata-se de subjugar. as mais gloriosas. Nessa luta de uma amplitude nova — não mais se trata de substituir por um golpe de mão. nem o próprio Philip Bagby não nos tenham falado delas. de tecnocratas. nem Félix Sartiaux. uma ocidentalização que abriu amplas bre- \287 . portanto. Bagby. há alguma coisa mudada na África Negra: é. para uma vez mais reduzir. que arriscou em 1943. uma messe de esforços passados e presentes. com casas que dão para as grandes avenidas da História. da liberdade? Uma luta feroz. o surto de verdadeiras cidades. a instalação dos ensinos. nem Toynbee. após o século XV. ou a serviço de todos e. que nem Spengler. de passagem. ou então. perigosamente. o espetáculo atual mais excitante para o espírito é. e todas ao mesmo tempo. um pouco triste.

devem superar a intimação da máquina. como Mareei Griaule. a civilização. ainda que ela não tenha por certo penetrado até as medulas: os etnógrafos enamorados da África Negra. temos insidiosamente necessidade. Em que condições essa passagem se opera. não mais queremos fazer uma escala de valores? Nessa metade do século XX. também com que alegrias. de querer que os homens sejam fraternais uns com respeito aos outros e que as civilizações. De fato. O homem. pesados de eternas tragédias. desde que há homens. vocês o saberão dirigindo-se para lá. dizer nossas esperanças tenazes. Rumo a um humanismo moderno. à custa de que sofrimentos. como o século XVIII em seus meados. afora cultura e civilização. Mas a África Negra tornou-se consciente de si mesma. mesmo da maquinaria — a automatização — que arrisca condenar o homem aos lazeres forçados. dos declínios. de uma terceira palavra. mas que a esperança dos homens não cessa. O presente não poderia ser essa linha de parada que todos os séculos. se eu tivesse que procurar uma melhor compreensão dessas difíceis evoluções culturais. nos propõe a de humanismo moderno. É aceitar. de suas possibilidades. Georges Friedmann. cada uma por sua conta. para além das falências. teríamos hoje necessidade de uma nova. vêem diante de si como um obstáculo. bem o sabem. . Com entusiasmo. de franquear. Um humanismo é uma maneira de esperar. e todas juntas. em lugar de tomar como campo de batalha os últimos dias de Bizâncio. se salvem e nos salvem.chas. de sua conduta. — Na verdade. das catástrofes que estranhos profetas predizem (todos os profetas dependem da literatura macabra). de uma palavra nova para conjurar perigos e catástrofes possíveis. e ele não é o único. das quais. é desejar que as portas do presente se abram amplamente para o futuro. uns ou outros. partiria para a África Negra.

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