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TEXTO – 03

CONCEPÇÕES DO HOMEM E DO PROCESSO EDUCATIVO NO DECORRER DA HISTÓRIA (Adaptação de: GADOTTI, Moacir. História das idéias pedagógicas. 3 ed. São Paulo: Ática, 1989) Cada sociedade e cada época histórica tem uma determinada concepção do ser humano ou, uma imagem ideal do homem. Essa imagem-ideal, que engloba também a antiimagem-ideal, ou seja, aquilo que a sociedade não aceita como padrão de comportamento dos seus membros é que vai dar forma ao processo educativo. Nas civilizações orientais, por exemplo, onde a imagem-ideal do homem está associada a um passado idealizado, a uma suposta época de ouro, o processo educativo visa a submissão acrítica a esse modelo situado no passado. O processo educativo entendido dessa maneira exemplifica-se sobretudo na china, na Índia, no Egito, na Babilônia, na Palestina e na Pérsia. Com os gregos, porém, surge outra imagem-ideal do homem e, conseqüentemente, outro conceito de processo educativo. Este visa o homem como ser livre e responsável, como aquele que constrói o seu próprio presente sem, no entanto, negar o seu passado; o homem que pode até desafiar o próprio destino. O modelo das civilizações orientais é o mandarim, o sacerdote, o mago, todos depositários e transmissores de uma sabedoria já adquirida. O modelo que agora surge é o do homem que, em vez de transmitir conhecimentos, desperta no outro o ideal de quem procura, prepara o educando para a vida considerada como aventura, e não como quadro estratificado. Roma prolongará essa imagem-ideal, dando-lhes feições próprias sem fugir do caráter prático e das aspirações nacionais consonantes com a sua peculiar organização social e política. Na Europa medieval, com o cristianismo, a imagem-ideal do homem é fornecida pelos ensinamentos de Jesus Cristo e o processo educativo visa a imitação do próprio Cristo fazendo com que o educando se aproxime da perfeição divina. Enquanto os filósofos gregos davam mais importância ao aspecto intelectual do homem, o cristianismo, pelo contrário, passou a dar maior importância ao aspecto moral da pessoa humana. Durante toda a Idade Média predominou uma concepção do homem e da educação que se opunha ao conceito liberal e individualista dos gregos, e ao conceito de educação prática e social dos romanos. Com a Renascença (século XVI), porém retorna a imagem-ideal da Antiguidade, sobretudo da Grécia. A Renascença assume plenamente a imagem-ideal do homem que se torna humano. Entretanto, o ideal renascentista vai além do ideal clássico pelo fato de reconhecer que a própria criatividade inerente ao homem lhe abre perspectivas incalculáveis quanto à realização da sua humanidade. As virtudes renascentistas são o orgulho, a ousadia, a sede pela aventura de viver. No século XVII, tem início o longo período de emancipação do passado. A tradição é relegada ao passado e o homem dela se emancipa. O processo educativo, por sua vez, rejeita o ensino verbal e a memorização, atribui força à intuição direta da realidade, procura a simplificação do ensino (o latim, por exemplo, é substituído pela língua materna), valoriza as ciências naturais e a educação física, enfim, procura adaptar-se às necessidades do mercantilismo emergente. Depois temos o Iluminismo que propaga a imagem-ideal do homem iluminado pela luz da razão, ou seja, do homem cujo princípio supremo de juízo diante da realidade é a razão. Rousseau, porém, se opõe ao intelectualismo preconizado pelo Iluminismo e prega a “volta à natureza”. E o único meio de recuperar o estado natural é, segundo ele, o processo educativo. O ideal do processo educativo consiste em desenvolver o educando de acordo com a natureza, na evolução harmoniosa do amor-próprio e do amor ao próximo; levá-lo a desenvolver-se na liberdade iluminada pela razão. Assim, desenvolver-se-á nele a verdadeira felicidade, e o educando se elevará ao verdadeiro ideal do homem. O período pós-rousseauniano caracteriza-se pela secularização do sistema educativo (ensino laico), efetuada pela burguesia.

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de nos assustarmos. nossa formação como leitores (ou não-leitores) –. vistos. Introdução EDUCAÇÃO. certamente o contato com o “diferente” pode possibilitar. particulares. os fanatismos e todos os demais ismos. mães. apresentar o ensino como um meio que se oferece a todos. sem dúvida. gratuita em todos os níveis de ensino. História da Educação. Mas. para grupos significativos de pessoas que a elas não tiveram acesso. Aulas. Nos dois casos. essas palavras e expressões são. Caso contrário não haveria necessidade de educadores. do modelo existencialista. As divergências e confrontos surgem justamente no momento de dizer o que o ser humano é. no tempo e no espaço. deparamo-nos com “o outro”. 2001. O que um dia foi o “outro”. Trata-se. de um pluralismo benéfico desde que ele nos ajude a superar os dogmatismos. dizer o que ele é significa intervir naquilo que ele poder ser. como uma oportunidade de ascensão social. nem sempre conseguem perceber o que aqueles meninos e meninas estudantes pensam. De uma maneira ou de outra. Rio de Janeiro: DP&A. e nenhum processo educativo escapa deste erro. ou algum dia já foram. interpretando. uma mudança no olhar do estudioso da história ou do viajante. Material escolar. o universo da educação e. No encontro com personagens e paisagens que não são aquelas em que estamos imersos cotidianamente. descobrir os Página 2 de 11 . Surge. Muito do que ocorre no mundo da educação ainda é pouco conhecido pelos(as) pesquisadores(as) e mesmo pelos professores e professoras que. a literatura. original e. A época contemporânea caracteriza-se pela pluralidade de imagens-ideais. oferecida no alvorecer da vida. o que diz cada uma das cenas que compõem o dia-a-dia da escola. Professoras. Procede de uma dupla mistificação que só consegue ter influência sobre os pequenos burgueses.TEXTO – 03 O ensino passa a ser organizado pelo poder público que substitui os mestres religiosos por mestres leigos. é típico da abstrata e oca democracia burguesa. analisando. necessariamente. por exemplo. independentemente da origem social do educando. a maioria dos educadores concorda num ponto: o ser humano não é um “produto acabado”. Para isso propõe-se a criação e a organização de uma instrução pública. Não é coisa. Podemos acrescentar à história e às viagens muitas outras coisas (o cinema. Eliane M. o mundo escolar está (ou esteve) presente. gênero). hoje faz parte de nós mesmos. do modelo tecnocrático e assim por diante. familiares. comparando. Aliás. provas. acostumamo-nos com eles e corremos sério risco de naturalizá-los. de nos surpreendermos. uma maior compreensão de si próprio e de sua cultura. classe. raça/etnia. indispensável para todos os homens. se o ser humano não é um “produto acabado”. com o universal. o conhecimento e o saber. O estudo da história proporciona uma abertura semelhante àquela obtida nas viagens. T. De tão falados. Cabenos a sensibilidade. as experiências como pais. embora imersos nele. a disposição e a disponibilidade para. ao mesmo tempo. que significado possuem a leitura e a escrita. filhos e filhas. que oscilam entre as classes exploradas e a classe dos exploradores. Livros e leituras. ENSINAR. temos as imagens-ideais do modelo revolucionário. o marxismo com suas críticas a esse ideal burguês: a escola coloca a teoria antes da prática. Hoje. comum para todos os cidadãos. sendo incapazes de estranhá-los. o teatro. Parafraseando Guimarães Rosa: a “natureza da gente não cabe em nenhuma certeza”. com o familiar. É diferente. com muita freqüência. Ana Maria de O. O contato com o “outro” pode nos mostrar o quanto somos universais e. a primeira aula como professores. Além da persistência das que vimos anteriormente. em nosso cotidiano. leitores(as) escolarizados(as). deparamos com um mundo diferente. então. O ideal dos novos educadores será o de formar a natureza humana comum a todas as raças e povos. Embora esse encontro não implique. não é instrumento. não é gado etc. Pelo menos para nós. a conversa com pessoas e grupos diferentes de nós – em idade. tornando-o menos etnocêntrico. incorporados. ao mesmo tempo. Transmissão da cultura de geração a geração. ************************************************************************ A EDUCAÇÃO AO LONGO DO TEMPO Adaptação de: LOPES. nossos primeiros alumbramentos – a primeira vez que fomos a escola. particularmente. alunos. o que significa ensinar e aprender. vividos. & GALVÃO. por similitude e diferença. APRENDER.

sugere temáticas. na própria raiz da palavra estudo já está: ter gosto. As vezes não. empolgadas com as imagens e um professor que tenta encantá-las – injusta competição. meninas uniformizadas em fila. diretas. A sala não tem mais do que o piso de terra. que. alunas. às vezes. em principio. lê um livro e os olhares das crianças parecem vaguear. um ócio. assentados em um banquinho. mãos dadas. Há jogos e lutas. correm. Há quase um século.. “ócios consagrados ao estudo”. pois era preciso uma certa desocupação que pudesse ser preenchida com a aprendizagem e com o que fazia pensar – uma preguiça. Página 3 de 11 . fazem grupos. o professor olha o relógio – o tempo. afetos e de grosserias. performances inacreditáveis de professores e professoras que inventam músicas cujas letras rimam. o trabalho cotidiano da sala de aula. há namoros. lazer”. que logo deixava de ser.” A ocupação era um negócio. impõe questões. custa muito a passar. juntamente com outras formas de explicação da realidade. uma professora. Confundem-se autoridade e autoritarismo. em particular. ou para se ler o mundo como um dispositivo historiador. Afinal. a História da Educação. a pedagogia.. os pesquisadores atentos formulam problemáticas para a história: o que se fazia. métodos mnemônicos infalíveis. um aluno boceja. dessa forma. Às vezes é mais bruto. No pátio de recreio. um gosto por esse tipo de ocupação e não por outra. A luta contra o tédio é incessante e se desdobra em planos de aula e cronogramas minuciosos. a História. paulatinamente. desejo. tal como nos ensinam os dicionários. ajuda-nos a olhar nossa realidade com paciência: afinal. como se fazia alguma coisa em determinada época e em uma sociedade específica? Por outro lado. A História.. o outro. quem fazia. têm mudado. assim. a didática. é um saber inútil. Imersos em um presente que faz indagações. são os mesmos. ensina. As práticas escolares repetem-se ao longo dos tempos e dos espaços. e muito do que se foi permanece. por que se fazia. No grego. em outros lugares. Podemos argumentar. olhos nos olhos. Vemos um clérigo e meninos com tabuinhas apoiadas no colo.. skolê quer dizer “ócio.. mas pelo fato de que todas as outras ocupações devem ser deixadas de lado e as crianças devem se entregar aos estudos dignos de homens livres. Talvez por isso muitas vezes alunos. professores e professoras têm dificuldades em responder “para que serve a História” e. a educação. As vezes é preciso esperar duas ou três gerações para que uma inovação educacional se estabeleça. saias compridas.. A história nos permite ver que. belas ilustrações para temas insossos.. Aliás.. entretanto. os caixotes servem de apoio aos papéis.. parecem tão próximos e tão distantes daquilo com que lidamos a cada dia. da escola exigem respostas. uns espicaçam os outros. rápidas. Às vezes a indisciplina grassa e é chamada de resistência. o que o presente insistentemente nos coloca como problema: um gesto. a um só tempo. por sua vez. se batem. onde não há quadro-negro. brincam. atrás de uma mesa.. nem verde. um modo de pensar.. Tal como se folheássemos um livro de figuras: o pedagogo que leva o menino a algum lugar. surpreendentemente. à frente uma professora que podia ter a idade de qualquer um deles. aqui. um lugar para se entregar aos estudos que exigia. a variação das idades é mostrada pela diferença de altura. particularmente. do ponto de vista pragmático. muito mais. A disposição para se fazer história. vinte computadores. liberdade e irresponsabilidade – mas nem sempre. ouvir e contar. No latim schola. de modo geral. de uma disposição radical para ler. A escola era. antes de mais nada. mas parecem manter alguns elementos intocados que. as coisas demoram muito a mudar. tem contribuído para que entendamos um pouco mais. em 1915. A palavra passou assim de um significado a outro: “o substantivo escola não se explica pela ociosidade (.TEXTO – 03 quês e os porquês de outras épocas. culturas e em outras épocas. ou aqui perto de nós. troca de bilhetes.. vagar. e ao pé da letra. vinte crianças limpas. jovens rapazes lotam um anfiteatro e acenam lenços e chapéus para o mestre posto em uma cátedra brandindo um livro e a palavra. de julgar o passado e tentar dele extrair lições para o presente e para o futuro. de outros lugares. e a escola. em 2001. parte.). ver. um desejo de saber.. uma maneira de raciocinar. tem deixado. Um professor. lá. uma forma de agir.. Curiosa é a origem e história da palavra escola. que tantas vezes mudaram os currículos.. mudaram os professores. blusas brancas engomadas e ornadas de fitas e cruzes sob o comando da professora-freira em longos e severos trajes negros. No limite. beijos clandestinos. com diferenças que sugerem as “variações-sobre-um-tema”.. mudaram as leis... como fizeram alguns compositores.

antiga região da Itália – a língua partilhada por todos. não podia mais bastar. diferentemente dos gregos que tinham na filosofia um dos seus principais pilares. servimos de sustentáculo econômico da metrópole européia. Tornamo-nos colônia e durante mais de três séculos. parte do Novo Mundo conquistado por países católicos contra-reformados. de colocála no bom caminho. de ética e de estética. formada pelos que aqui já habitavam havia séculos (os nativos nomeados de índios). Tanto a formação do cristão. A Idade Moderna abre inteiramente três janelas. inclusive pedagógicas. impulsionadas por uma nascente atividade comercial e artesanal. seu corpo docente e discente e suas normas e regras de conduta e bem viver. Novos mundos são alcançados. nos burgos e nas corporações de ofício. das igrejas e das abadias. não mais a vida extraterrena. que tem seu ensinamento baseado na Bíblia (em detrimento das artes liberais da Antigüidade). eram consideradas livres. anunciando uma nova era e novas raças e culturas obrigam a pensar em um novo tipo de educação em um novo tipo de escola. Ao longo dos tempos a escola. estabelecem novas formas de relação. e sim a vida dos homens e mulheres de carne e osso (anthrópos = homem). O século XVII não será apenas palco de grandes feitos políticos. da instrução e cria suas próprias escolas. Suas escolas nascerão ao abrigo dos mosteiros. mas antropocêntricas. apesar dos muitos movimentos de resistência e rebeldia. até então apenas entreabertas. árabes e portugueses mas também holandeses. modelos de vida e de comportamento. será religioso. um artefato cultural como tantos outros. o nascimento. uma vida santa ou mesmo Deus (theós = deus) estariam no centro das atenções e dos ensinamentos. Nascido no interior mesmo desse império. quanto a formação do homem capaz de prover a vida e defender o Cristianismo. também. e de acordo com a sociedade na qual se insere. ao mesmo tempo. A educação admite que pode haver uma escola alegre e que os estudos literários. seus métodos. Diversos tipos de escola eram freqüentados pelas crianças que. Olhando o céu prometido pela Igreja Católica para depois da morte. que interessava a um número sempre maior de crianças. que queria dizer virtude e valor. mas nascerão. o escravo encarregado de conduzir a criança à escola – que também cuidava de sua educação moral. A preocupação com a educação na Idade Média pode ser percebida na fachada e no interior das catedrais. Na Renascença. ou de um amante. Admite um novo lugar para homens e mulheres no mundo e no universo. Durante a Idade Média – seus longos mil anos – negará e conservará. vai se ocupar da educação. por sua condição social. e para a escola. Havia a escola de gramática. negros. O Brasil. a herança antiga. A uma tal educação. os estudos literários e científicos constituíram o cerne do “plano de estudos”. Firma princípios e modos de conduta religiosos e a Igreja Católica é obrigada a admitir o protesto. A elas eram levadas por um pedagogo – do grego paidagôgos. judeus. reclamava para seus filhos a iniciação em técnicas e conhecimentos até então ciosamente guardados pelas famílias aristocratas. dando origem a instituições importantes. através de uma nova concepção de ciência e de Razão. de música. depois que os bárbaros – aqueles povos assim chamados porque não viviam sob o domínio imperial e que não falavam a língua oficial – derrotaram as forças guerreiras romanas. Entre os romanos. vai ter na Companhia de Jesus Página 4 de 11 . científicos e filosóficos constituem partes igualmente importantes de um currículo. mesmo se modificada durante e depois da conquista. o ensino individual de um preceptor. Depois da conquista e da derrota da Grécia.TEXTO – 03 A escola foi invenção da sociedade grega em que um número cada vez maior de privilegiados. Os portugueses chegam a uma nova terra a que dão o nome de Brasil e dela se apossam. Tanto as esculturas e os vitrais quanto a organização revelam a preocupação em ensinar aquilo que para a Igreja Católica e para as monarquias que a apoiavam era importante: a vida de santos e santas. vivendo também a invenção da democracia. aquelas que tinham aretê. paixão e morte de Cristo. franceses etc. tal como a universidade. a arte e a literatura antigas serão resgatadas. com profundas consequências para a extensão da leitura e da escrita a um crescente número de pessoas. grega e romana. de educação física. e nessas escolas estarão presentes. anunciando uma visão de mundo e de relações não mais teocêntricas. de homens e (poucas) mulheres sábias. as Américas. implementando proposições teológicas advindas da Reforma e da Contra-Reforma. o Cristianismo. A grande propriedade e a mão-de-obra escrava traficada da África baseavam economicamente essa nova sociedade. muda sua feição. Ou seja. o caminho da escola. tendo como principal instituição a Igreja Católica. o Império Romano leva os princípios de colaboração para a pax romana a todos os domínios conquistados e faz do latim – língua que era falada no Lácio. que gradativamente entrava em decadência. a astronomia decide o lugar da Terra em relação ao Sol e aos outros planetas.

nos processos formais de escolarização. o Jardim Botânico etc. O século XX traz novos debates acerca da educação (auxiliada por ciências novas como a Psicologia e a Sociologia) e. é um marco desse movimento: ao mesmo tempo em que questionava os métodos tradicionais de ensino. serão criados sistemas públicos de ensino. princípios como a obrigatoriedade. passa a ocupar a maior parte dos lugares no magistério primário. profissionais próprios para ela. As chamadas “aulas régias”. gratuita e obrigatória. a gratuidade. como a inserção das meninas e dos negros nos processos de educação formal. leiga. em suas várias vertentes. Instalada nas sociedades. contribuíram para: destruir a cultura dos nativos fazendo-os crer. com muita força. Com a independência. O final do século XX e o início do século XXI. Já com o estabelecimento da família real no Brasil. e questões antes não pensadas. na esteira dos progressos científicos do século XIX. a partir de então. Em Portugal. uma série de legislações. No Brasil. imprimindo uma direção irreversível às relações com o Estado e com o capital e estabelecendo uma nova geografia e uma nova geopolítica do mundo. certas condições) possibilitam o aumento do volume de informações. novos ares culturais e educativos começam a se respirar na colônia: cursos superiores são criados. a Teologia. A máquina não está instalada apenas na indústria. principalmente a partir do final daquele século. chama a atenção para o papel do aluno como sujeito da aprendizagem e o papel de mediador do professor. direito do cidadão. Aos poucos. buscava afirmar. a escola passa a ser questionada por dentro: a Escola Nova. protegê-los dos mercenários. por qualquer pessoa (guardando. em detrimento de outras que existiam ou que poderiam vir a existir. a cultura midiática invade as instituições. de 1932.TEXTO – 03 seu principal agente educador. em um só movimento. A escola. acusando-os de acumularem fortuna e de não propagarem as conquistas das revoluções científicas centradas na Razão. A República anuncia novas preocupações em relação à educação e ao papel do Estado em relação à sua promoção. embora nem sempre conseguissem neles permanecer. Uma das conseqüências mais importantes será a publicização da educação. o século XIX será marcado pela progressiva institucionalização da escola e da lenta afirmação do lugar do Estado como principal provedor da educação. No Brasil. desde projetores de slides ou gravadores e retroprojetores. espaços (consubstanciados principalmente nos grupos escolares). Nesse período. tornaram-se freqüentes no debate político. em outros mais tarde. Revoluções políticas e industriais mostram o quanto a ciência e suas conquistas contaminam todo o mundo. alguns anos se passaram até que o Estado assumisse alguns encargos em relação à instrução. em uma sociedade ainda pouco escolarizada. aos poucos. por exemplo. diversas foram as leis que buscaram dar organicidade à educação primária. a laicidade e a coeducação. assim como a Biblioteca e o Museu nacionais. suas palavras de ordem dirão que a educação deverá ser pública. nacionais e provinciais. Dever do Estado. e a militar. Inspirados nos princípios liberais de regulação do mundo. vivemos duas ditaduras: a do Estado Novo. Em ambas. A escola não goza mais da prerrogativa de ser o lugar privilegiado da produção e difusão de conhecimentos. está instituindo uma escola em que os meios de ensino são diferentes. educar uma elite nos colégios secundários. na existência de um deus único e onipresente (onipotente e onisciente). como a principal instância de transmissão do saber. universal. até televisões e computadores ligados à Internet. Tal como o advento da imprensa provocou uma redução do tamanho do mundo e a idéia de que a comunicação entre povos e lugares seria possível. o computador e as linhas de transmissão conectadas e possíveis de serem acessadas. A atenção de Página 5 de 11 . o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova. Apesar das revoluções científicas. em alguns lugares mais cedo. as camadas populares começaram a ingressar. e formar quadros para a própria Ordem nos cursos superiores de Teologia. hoje considerados modestos. em meio aos processos de industrialização e urbanização. Curumins e filhos de colonos são os principais alvos da ação educativa dos padres que. em tese. secundária e superior. de 1964 a 1985. No caso brasileiro. classes avulsas de matérias que compunham o que mais tarde seria identificado como ensino secundário. a moral e uma disciplina militar dão o tom da educação jesuítica. em 1808. o Marquês de Pombal. a educação é vista como um elemento importante na formação das novas gerações e na sua inserção em uma ordem política e econômica que se quer inconteste. mas na sala de aula. começaram a ser estabelecidas. representante dos novos ventos que assolavam a Europa e outras partes do mundo. As escolas normais são criadas e progressivamente a mulher.. de 1937 a 1945.. e passa a ser vista. A partir da Revolução Francesa e da definitiva inserção do terceiro Estado na ordem econômica. Aqui. buscaram preencher o vácuo deixado pela ausência da Companhia de Jesus. o século XX é propriamente o momento da publicização da educação: principalmente a partir de 1930. ganha materiais. expulsa os jesuítas do Reino e de suas colônias. fugitiva das tropas de Napoleão. evidentemente.

então. Com o surgimento da família burguesa. Para esses pesquisadores. saber é poder. a criança já era representada de maneira particular. ou seja. o livro de Ariès é considerado um marco. não é a modernidade que cria a criança pois mesmo antes dela. Quais foram as principais críticas feitas ao autor? A hipótese mais contestada vem dos medievalistas: para eles. pressupõem que a educação varia segundo a sociedade e a época em que se insere. Pode-se dizer que todos os historiadores que hoje escrevem sobre a infância se baseiam. da Psicanálise. seja para refutar. principalmente para certos grupos sociais e em determinadas épocas. uma cronologia da evolução e da progressiva importância que a criança vai ocupando no seio da família. A categoria “geração” tem guiado a maioria desses estudos que. Mas a educação nunca se restringiu à escola. na medida em que tornou a infância e as representações sobre ela um objeto histórico. na verdade. a criança passa a ser concebida e tratada como um ser dotado de identidade própria. Na verdade. falar sobre suas crianças e jovens. Práticas educativas têm ocorrido. os movimentos sociais. mesmo que fosse predominantemente de ordem moral e religiosa. requerendo cuidado e atenção especiais. os estudos mais recentes complexificam a afirmação do autor de que a fragilidade da vida do recémnascido e as altas taxas de mortalidade infantil observadas nas sociedades tradicionais teriam uma relação Página 6 de 11 . da Antropologia. menor e formada em torno da privacidade. de modo geral. o livro situa em torno do final do século XVI uma mudança fundamental no estatuto da infância no mundo ocidental: diferentemente de antes. O livro faz. como saber é poder. seja para concordar. produzindo cenas que são a expressão de um conjunto de normas e regras que a sociedade e essa máquina chamada educação pensaram para eles. da Educação. mesmo se é “avançada”. havia o sentimento medieval de infância. e mesmo em veículos destinados ao grande público. e continuam sendo. em menor ou maior grau. da intimidade e da afetividade (principalmente entre pais e filhos). traduzida para o inglês quase imediatamente depois (em 1962) e. A História das crianças e dos jovens Resgatar as histórias da educação em outros tempos e sociedades é. espaço feito de tijolos. a uma raça/etnia. O livro de Ariès. A cidade. Além disso.TEXTO – 03 especialistas se volta agora para o papel do professor e para o risco do excesso. A história da infância e da juventude tem sido crescentemente pesquisada no Brasil e em outros países. mas também em conseqüência do pertencimento dos indivíduos a um gênero. a uma classe social e a uma fase da vida. Embora os estudos sobre a infância tenham se multiplicado desde o final do século XIX. destacam-se a construção e a valorização de espaços planejados para a ação escolar. fora dessa instituição e. Baseado sobretudo em fontes iconográficas. núcleo resistente da sociedade. Falar da história da criança é falar de Philippe Ariès e de sua obra pioneira L’enfanc et la vie familiale sous l’Ancien Régime. com o desenvolvimento da Psicanálise. A escola. os medievalistas criticam o uso que Ariès faz da iconografia: para eles e para outros autores que trabalham com esse tipo de fonte. o trabalho. A repercussão de sua obra pode ser medida pela quantidade de artigos e livros que foram escritos a partir de suas idéias. nas conclusões de Ariès. mantém seus atores e suas atrizes (ditos por alguns. idéias e virtualidades. mesmo se desfruta de meios de ensino de última geração. mais do que nunca. já havia uma consciência da especificidade da infância. as novas gerações são o principal alvo dos processos educativos. suscitou uma série de criticas e uma diversidade de novos estudos. pois sabe-se que as doses excessivas de informação a que um número crescente de pessoas está exposta. difundida nos países anglófonos. com o titulo de História social da criança e da família. nos domínios não só da História. mas da Sociologia. a criança não é mais concebida como um adulto em miniatura. ao invés de aumentar o saber. Entre esses cuidados. Mais do que nunca. ao longo do tempo. Uma outra crítica feita a Ariès diz respeito ao modo linear como o livro reconstitui a história das representações e dos sentimentos em relação à infância: é como se a cronologia proposta pelo autor pudesse ser aplicada a todas as sociedades e a todas as camadas sociais. que tem no internato seu modelo mais completo. publicada na França em 1960. agentes) em constante atuação. mostrando a fecundidade de um tema até então praticamente não estudado pela História. da Ciência Política. desse modo. quase necessariamente. nos manuscritos medievais que representavam a criança. é preciso entendê-la em cada sociedade e época especificas. com maior força do que se considera. da Sociologia e da Pediatria. provocam a ignorância. Uma versão reduzida do livro foi publicada no Brasil em 1978. a família. poderosas forças nos processos de inserção de homens e mulheres em mundos culturais específicos. o lazer. às vezes. Afinal. a Igreja foram.

Muitas das afirmações do autor foram contestadas. da mortalidade infantil. principalmente aqueles profissionais que se encontravam mais diretamente em contato com ela. Além disso. não se pode dizer que os objetos ou os sujeitos da pesquisa estão mudos. escritores. Diante dessa dificuldade. pintores. em todo o mundo. a infância não é a mesma para meninos e meninas) e a idade (produzem-se histórias diferentes se investigamos a primeira infância ou a pré-adolescência). um dos momentos mais importantes da história do abandono de crianças. ou seja. situa-se em um cruzamento de áreas e tanto os historiadores quanto psicólogos. Entretanto. econômica e política e recorria-se a uma documentação passível de tratamento quantitativo. Hoje. seus documentos. elas não deixaram testemunhos escritos. pais. já que a infância não é simplesmente uma fase biológica. focalizando os costumes e as mentalidades. O que acontece muitas vezes não é que a criança seja um objeto de pesquisa mudo. deixaram registros sobre o que pensavam e como tratavam a infância. relembram a época em que foram crianças. complexificadas. Mais recentemente. Uma das principais dificuldades para se fazer a história da infância é exatamente a ausência de registros que tenham sido produzidos pelas próprias crianças: afinal. pedagogos. Para isso tem recorrido sobretudo a testemunhos singulares (muitas vezes heterogêneos e dispersos). Estudos sobre história da gravidez. Esses estudos tendem a abordar a infância de maneira distinta segundo o gênero (afinal. A história da família é um dos domínios mais pesquisados e esforços para realizar grandes sínteses. da escolarização. fazia-se uma história da infância e da família de natureza sobretudo demográfica. os estudos mais recentes também criticam a concepção que o autor tem de infância. na medida em que pouco considera as suas variações de acordo com a época e sociedade em que se inscreve. e que vem sendo resgatado. pessoais ou coletivos. do ponto de vista dos adultos que. os estudos de história da infância também têm recorrido ao cruzamento entre diferentes fontes. mas uma construção histórica e cultural. Esses estudos contribuíram para revelar aspectos importantes. é preciso também compreender o significado da infância no interior das práticas familiares cotidianas. em obras literárias. Finalmente. As agendas. os gregos ou a sociedade colonial brasileira tinham e um dos anacronismos mais fáceis em que podemos cair em nossa época – quando a criança é o centro das atenções da família – é julgar o modo como Página 7 de 11 . em geral representações sobre meninos e meninas encontradas. a sociedade que a cerca é que é surda. e portanto cívica e jurídica. os historiadores também lidam com um outro problema inerente à especificidade do próprio objeto com que trabalham: a concepção de criança tem mudado ao longo do tempo. A ausência de traços legados pelas crianças deve ser tributada à representação que cada sociedade faz dessa criança. por exemplo. Assim. na medida em que a considera sujeito é que levará em conta e poderá preservar sua produção. na medida em que cada uma poderá trazer uma interpretação diversa para o mesmo fenômeno. escrevendo suas autobiografias e memórias. aqueles relativos às estruturas familiares. Mas um outro ponto de vista talvez possa ser considerado. do trabalho de meninos e meninas em instituições como fábricas. à infância abandonada e ao nascimento de práticas contraceptivas. Alguns autores chegam a denominar as crianças os grandes mudos da história. nas diferentes épocas. o olhar que temos hoje sobre a infância é diverso daquele que.TEXTO – 03 direta com a pouca afetividade dispensada à criança. como brinquedos. do nascimento. como. diversos trabalhos foram realizados. Como ocorre em outros campos da pesquisa histórica. como legisladores. correspondências e registros sobre jogos e brincadeiras também têm auxiliado os historiadores a compreender como era a vida das crianças em outras épocas. é aquele em que a Roda dos Expostos era uma instituição fundamental no recolhimento dos meninos e meninas abandonados. da amamentação. Assim. além de adultos que. principalmente na Europa. do abandono de crianças. No Brasil. Além das dificuldades com as fontes. depois da publicação do livro de Ariès. os diários. creches e escolas maternais têm sido temas privilegiados. discurso médico e até mesmo baixos-relevos e esculturas que ornamentavam monumentos funerários. objetos cotidianamente utilizados ou traços deixados pelos meninos e meninas. nuançadas. pedagogos e antropólogos têm contribuído para ampliar o olhar sobre a infância em outros tempos e em outras sociedades. têm sido realizados. por exemplo. arquivos de hospitais. ao lado das estimativas quantificadas de natalidade e de mortalidade. De modo geral. como registros paroquiais e recenseamentos populacionais. vestimentas. asilos. como a história dos pais e das mães ou da paternidade e da maternidade. por exemplo. pressupõe que. as redações são fontes que devem ser situadas e cotejadas a outras. os pesquisadores dessa temática têm utilizado diversos tipos de fontes. Só se pode conhecer a história da infância através de traços indiretos. a história da criança.

mais fugidios parecem os vestígios. o casamento e o serviço militar obrigatório. o adulto autônomo. Falemos. variando em conseqüência da época e da sociedade em que se inscreve.TEXTO – 03 era concebida a infância no passado a partir de sentimentos atuais. agora estava ao alcance de todas. a violência. de um domínio ainda mais recente: os estudos sobre história dos jovens (e das jovens). Apesar de diversas pesquisas terem sido feitas principalmente nas décadas de 1970 e 1980 sobre juventude – nas áreas de Antropologia. Assim. Foi uma luta que se espalhou por diversos campos e se fez de muitas formas. a revolta (e mesmo mudanças sociais e políticas). tomou forma. para negros. de outro. a juventude não é um conceito puramente biológico. a juventude não é a mesma para homens e mulheres. A delinquência. a juventude e a vida adulta é a reconstituição dos ritos de passagem das sociedades ocidentais que caracterizam essas entradas nas diferentes fases. a história dos jovens tem uma especificidade. de maneira relativamente fugaz. Não se pode. bastaria estender a amplitude dessas pesquisas à fase posterior da vida: a juventude. não existe uma resposta única para a questão. as mulheres fizeram literatura. sobre associações e movimentos de jovens. por exemplo. desse modo. A História das mulheres A partir das décadas de 1960 e 1970. também têm sido estudadas. na medida em que tantas obras foram escritas sobre história da infância. no Brasil. quer fosse no trabalho. para indivíduos pertencentes às camadas populares. o direito. esses papéis sociais não são definidos pelos mesmos critérios – que se situam entre a dependência e a autonomia – em todos os domínios da vida do jovem. Como forma de dar respostas às problemáticas citadas. ser jovem é. esses limites são marcados por ritos de saída e de entrada. Esse movimento social repercutiu nas pesquisas e nas obras delas resultantes sobretudo no campo das ciências sociais e humanas. Certamente. Esse movimento tinha por objetivo fundamental a conquista de direitos iguais aos dos homens para as mulheres. mas se atravessa a juventude. a medicina. formas de opressão. o historiador só faria reencontrar aquilo que o presente coloca como verdade. à vida cívica. na medida em que. à sexualidade. ganham importância estudos sobre ritos de passagem. na educação. social e cultural. No entanto. e quanto mais distante espacialmente a sociedade que se pesquisa. A História não ficou à parte desse movimento. tornaram-se produtoras e diretoras de teatro e cinema. mas variam em relação. Podia-se pensar. as dificuldades continuam: quanto mais antigo for o período. na família. não se pode falar em uma história da juventude (no singular). dependentes da sociedade e da época): de um lado. como advertem alguns pesquisadores que se dedicam ao tema. e muitas vezes dissimuladas. Página 8 de 11 . então. mas histórico. como a infância e as outras fases da vida. que. publicaram seus diários íntimos. na religião. como a primeira comunhão. que expressam uma progressiva definição dos papéis sociais que os jovens devem ocupar nas culturas em que vivem. mas de histórias de juventudes. como sacramentos e conversões. estar situado entre duas margens (também móveis. por valores simbólicos. O que os historiadores dos jovens têm afirmado é que essa fase da vida se define muito mais por seu caráter de limite do que por uma suposta estabilidade e fixidez. portanto. O maior problema que esses estudos encontram está no próprio fundamento e razão de ser do campo: afinal. às classes médias e às elites econômicas de cada sociedade. em geral associadas a essa fase da vida. a criança dependente. sobre festas (de caráter religioso ou profano) e sobre os processos de educação e escolarização dos jovens e das jovens. sobretudo. Uma das maneiras que têm sido utilizadas para estudar as fronteiras existentes entre a infância. de jovens. o que é juventude? Na verdade. brancos e índios. Sociologia e Demografia – só mais recentemente o tema tem sido abordado a partir de uma perspectiva histórico-cultural. Em geral. postular uma suposta identidade infantil a priori. do gênero e da etnia a que pertencem os indivíduos. No entanto. é uma condição provisória: não se é jovem ao longo da vida. o que em outros países já existia sob o nome de movimento feminista. abordar a juventude historicamente é deparar-se com uma série de dificuldades que não se confundem inteiramente com aquelas enfrentadas pelos historiadores da infância. Mesmo assim. As mulheres foram para as ruas e fizeram passeatas de protesto contra as tradicionais. que era simplesmente ter direito ao seu corpo e ao seu destino. Vale lembrar também que a juventude. Psicologia. ou seja. à atividade econômica e variam em conseqüência da classe social. assim como as demais fases da vida. as mulheres invadiram campos profissionais até então reservados aos homens (mesmo que não se soubesse por quem) como a engenharia. Aquilo que um século antes fez as mulheres serem consideradas fora da lei. sobre viagens de formação.

Cf. O que segue abaixo é apenas uma referência. professores e professoras da área de educação. dissertações e teses que têm se empenhado em realizar tanto pesquisas que incluem a categoria gênero como fundamental para a interpretação. Há claramente o reconhecimento de que sempre houve (e há) uma educação para meninos e outra para meninas. Fala-se. seja ela a mãe. Pop. Mas o exercício desse professorado se faz de maneira diferente? A desinência indicando o gênero – professor/professora –. ela não tem o objeto de seus ensinamentos transmitido para a história. tal como a história. O gênero é uma categoria relacional que permite estabelecer construções contrastantes tendo em vista a cultura e a inserção nela. quando foi preciso que uma doutrina fosse ensinada em alta voz. pode trazer atributos de exercício profissional diferentes? Na história. e mais os sociólogos. Quando o professor é mulher. civilidade pueril e correta. (PL. Aristóteles. sua tarefa era mais complicada. Não bastaria integrar a História como um campo de saber sexuado. Na educação. quase integralmente. do v. do ponto de vista social. ela é cada vez mais alijada da vida política ou cultural. a encomendar e prantear os mortos da família e da cidade. do ponto de vista jurídico. uma menção histórica de como algumas questões podem ser colocadas. o professorado é e pode ser exercido por mulher. a vestir. Quintiliano. que vieram depois. A mulher que a história qualifica como dotada de talentos intelectuais é a mesma descrita como “uma gloriosa desclassificada”.. diversas obras têm surgido tomando o gênero como uma categoria de análise definidora dos papéis sexuais a serem desempenhados por homens e mulheres na sociedade. se a mulher. Na área da educação. tudo isso ensinavam as mulheres antes que a escola fosse um espaço ocupado por elas. ela é sexuada. filósofos. imperante na historiografia de até meados do século XX. sobre Sócrates. A andar.] 1. todos eles mestres. apregoada. Santo Agostinho.. Prostituta com que adolescentes se iniciam na vida sexual. Bras. falava-se de homens e dever-se-ia entender que as mulheres ai estavam compreendidas. confessada. por si só.. A História da Educação também aceitou essa constatação e esse desafio. disciplina moral. No entanto. há que se levar em conta que perceber nesse simbólico o que é feminino e o que é masculino foi (e é) um avanço. liberta ou escrava. E apenas a preparadora do “homenzinho” que deverá ter boas maneiras. se dessem conta de que o mundo é habitado e partilhado por homens e mulheres e nem sempre de maneira justa. é professora e é assim que encontramos no dicionário: (ô) [Fem. psicólogos. proclamada. professorar. Platão. era preciso que educadores em geral. Ora. das empresas. foi aos poucos sendo substituído pela exigência de que se deveria fazer história levando em conta os sexos. pois quando se falava de educação ou História da Educação era sempre de meninos que se falava. a partir da Antropologia. 2. Por exemplo: a associação espontânea hoje entre a imagem da mulher e a ocupação de professora faz-nos esquecer que esta foi uma conquista – lenta e difícil – no campo profissional para as mulheres.E. professora e professoras. programas de pós-graduação. quanto aquelas que têm por objeto a mulher e as particulares relações que estabelece. surgiram grupos de trabalho.] Curiosamente. a falar (a língua não é materna?). é livre e por isto em algum momento sua situação parece estar melhor (século VI). tudo isso aprendido através de brinquedos e de brincadeiras. Mas esquece-se que as mulheres sempre ensinaram a vida e a morte. N. os homens são mais citados. podemos pensar em como a História da Educação abordaria certas questões. das famílias ou das escolas. O processo histórico em alguns casos excluiu. de professor. em outros incluiu e desvalorizou. Da década de 1980 para cá. professor não é aquele com quem adolescentes se iniciam na vida sexual.: professoras (ô). Portanto. Deixemos de lado. Levando isso em conta. a aia ou a ama de leite. Na Grécia Antiga. lê-se. os sofistas. Confinada aos gineceus.. uma nova categoria – o gênero – veio. podemos dizer que hoje há um reconhecimento de que.TEXTO – 03 O sexismo. Em Roma. propor uma nova exigência epistemológica às ciências sociais que a História e a Educação não podiam mais desconhecer. Mulher que ensina ou exerce o professorado. barateou. É preciso que se diga isso em alto e bom som. a comer. mestra. A partir do final da década de 1980. seja no espaço das fábricas. Ainda não eram professores. se a educação faz parte do mundo das palavras e rituais.. não muda muito a situação da mulher em relação à institucionalização de seu papel de Página 9 de 11 . já que o masculino era tornado universal.

esperar o século XIX. ensinando as virtudes e as qualidades daquelas que irão ensinar. Preparação para gozar a vida em sociedade. escravagista e. E a vez dos manuais. Conjugada ao movimento da Igreja de irradiação da doutrina pelo mundo. eram megeras que foram ou deveriam ter sido domadas. A cidade tem o mercado e a escola. o declínio e quase desaparecimento da instituição escolar dá continuidade à situação da mulher em relação a esses aspectos. da formação de boas maneiras. são também centro de intensa produção cultural. Ao longo dos tempos. Esses traços permanecerão – evidentemente com todas as modificações trazidas pela interpenetração de culturas – nas ditas civilizações latinas. aqueles que ensinam as letras. fazendo-as à imagem e semelhança das que as educou. quando ocorre uma espécie de feminização do catolicismo. o ressurgimento das cidades como centros ativos de produção econômica recria a escola e sua função. todas muito semelhantes. São os primórdios das escolas normais ou de formação de professoras. mesmo que algumas vezes o tiro saia pela culatra e o resultado seja bem diferente daquele que se espera(va) e se deseja(va). elaborados pelas congregações religiosas. preparação para o trabalho para as órfãs e abandonadas. abnegação. no entanto. É preciso. Há alguns em que o ensinamento – quase todo a cargo das mulheres – se limita a uma socialização para a própria ordem (ou congregação) e para a devoção à vida religiosa. As cidades. da Espanha e da Itália principalmente –.. Há outros em que a educação de meninas – e só de meninas – é a principal missão. A Igreja controla de muitas formas o passado e o presente. transformada em monstro portador de suores úmidos. a mulher deveria ser vigiada de perto e sua Página 10 de 11 . tendo o Concilio de Trento estabelecido novas regras de conduta e de funcionamento para as instituições religiosas de maneira geral. humildade. E ela. ensinando a ensinar. Mas. e não mais as escravas ou as libertas para esse fim. Não há noticias de mulheres que ensinem nas escolas primárias. e muito menos nas de nível mais elevado. então em estado de profunda decadência. santas ou putas. Mas nem só de professoras e professores vive a educação e a sociedade. os manuais. E nesse momento histórico que a educação se torna missão e todos os adjetivos advindos do campo religioso contra-reformista a ela passarão a estar aderidos: salvação. para ver esse ensino cada vez mais regularizado. um novo tipo de pensamento. A diferença. professores e professoras sobretudo de doutrina.TEXTO – 03 ensinante. As mulheres. O ensinamento nos conventos foi – e possivelmente é – de diferentes espécies. Ser professora é diferente de ser professor. No entanto. o magis ter ludi literarii são cargos. e mantém escolas e centros de produção de conhecimento e de cultura. para aquelas bem nascidas. A importância dessas congregações para a educação brasileira é enorme e ainda não suficientemente estudada. A escola liga-se ao mercado para formar um novo tipo de conhecimento. capaz de loucuras e atrocidades quando não bem regulada (no sentido biológico e social). respeito à pátria e aos ancestrais. desde o século XII. Esse etos religioso se associa a aspectos da formação da mulher cunhados pela cultura brasileira recém-saída da situação colonial. as instituições médicas. sacrifício. diz respeito à educação familiar. em escolas. Pesquisas sobre o século XIV oferecem informações de que há professoras ensinando em algumas cidades nesses tipos de escola. A sexualidade sempre foi o objeto preferido dessa domação: a igreja. Homens e mulheres são catequistas. os conventos e as Casas se reorganizarão e passarão a preparar também aquelas que irão ensinar. Herdeira de pecados da carne e da cobiça. criam em regiões e situações diferentes tipos diferentes de professoras e de práticas pedagógicas. em relação à educação grega. de maneira geral. Como na sua essência não havia muita diferença entre os princípios dessas congregações – embora sim quanto ao tipo de clientela – pode-se dizer que há um etos religioso fundante na formação dessas primeiras professoras. jurídicas e educativas produziram discursos e exerceram práticas que tinham como principal objetivo adestrar a sexualidade feminina. foi só nos conventos que a mulher ocupou legitimamente o lugar daquela que ensina. A partir do século XVI. já que a mulher-mãe ocupa lugar e posição diferentes daqueles ocupados pelas gregas. as doutrinas. mesmo se é na escola pública que irão exercer seu oficio de ensinar. as congregações de ensino e os colégios religiosos de algumas dessas congregações vieram para o Brasil – da França. Todas diferentes.. que se ocupa da primeira educação. Na Idade Média. a própria sociedade vem educando as mulheres. associados. o primus magister. pois o litterator. O exercício da profissão – ser professora – terá também suas particularidades. trazendo os princípios. durante muito tempo. fervor etc. desde meados do século XIX e sobretudo até a década de 1930. Educando-as. ao ensino primário e à formação de professoras. Dedicavam-se. preparando-as. exercidos por homens.

Aliás. social. Mulheres que nos mostraram que poderia haver outro tipo de educação e mais. eruditos ou populares. amando outras mulheres. A mulher com toda sua fragilidade era capaz de ameaçar a sociedade.TEXTO – 03 sexualidade. gerar comportamentos considerados desviantes. é certamente com elas a nossa dívida. dizer. Para elas. que somos herdeiras. Ser mulher nunca foi fácil. Os processos das visitações do Santo Oficio ao Brasil registram mulheres que. muitas entraram para a história por seus feitos e lutas de resistência e delas podemos. em todas as épocas. sem medo de errar. esportistas. ainda hoje. a loucura foi também atribuída a várias mulheres que se mostravam indignas ou inconvenientes aos propósitos de seus pais. Se neste momento quase ninguém mais se espanta em ver uma mulher ocupar qualquer cargo no mundo político. vigilância e discursos normativos. privados e/ou públicos. Página 11 de 11 . a solução era o encarceramento em prisões. Foram fazendeiras e gerentes de alguma fortuna da família. Outras escaparam pelo artifício da mentira e da simulação da loucura. eram severamente vigiados. financeiro. anseios e desejos convergidos a uma só meta: a maternidade. intelectual. Para muitas delas houve castigo e punições cruéis. heréticos. além de mulheres que pretendiam curar através de um conhecimento herdado de uma linhagem de curandeiras. companheiras corajosas de seus maridos em guerras e revoluções. acabaram por. irmãos ou maridos. Esse excesso de proibições. praticavam a sodomia. controle sobre o futuro. no entanto. como pensam alguns. professando elas mesmas seus ideais. indignos. escritoras. perigosos. foram enfermeiras. se muitas padeceram desses e de outros horrores. cientistas. No Brasil. professoras. em asilos manicomiais ou em conventos. militantes de causas políticas. que a educação não tem. Desde o vestuário – encobrimento das vergonhas – até processos e produtos de conhecimento.