Rosângela de F. R. Soares e Dagmar E.

Estermann Meyer

O que se pode aprender com a “MTV de papel” sobre juventude e sexualidade contemporâneas?*
Rosângela de F. R. Soares Dagmar E. Estermann Meyer
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Educação

Educação, cultura e sexualidade juvenil: um recorte necessário James Donald (apud Ellsworth, 2001, p. 71) afirma que “os educadores podem aprender algo sobre educação ao estudar a cultura popular”. Da mesma forma, analisando as relações entre a cultura juvenil e a crescente globalização da mídia e suas relações com a escolarização, Bill Green e Chris Bigun (1995, p. 214) afirmam que uma “nova” identidade juvenil está emergindo e que devemos pensá-la “a partir do nexo entre a cultura juvenil e o complexo global crescente da mídia”. Ou seja, o contexto no qual se processa a construção discursiva e social da juventude inclui a experiência da escolarização, mas não se limita a ela, incluindo o contexto cultural mais amplo, como a cultura do rock, os meios de comunicação de

* Versão modificada e ampliada de trabalho apresentado por Rosângela F. Soares no IV Seminário de Pesquisa em Educação da Região Sul, realizado em Florianópolis (SC), de 26 a 29 de novembro de 2002.

massa e outros espaços pedagógicos. O presente trabalho compartilha da discussão desses autores, ao problematizar um artefato cultural específico – a revista MTV, Music Television – para discutir possíveis relações entre educação, cultura da mídia, juventude e sexualidade. A revista MTV, Music Television é o mais jovem dos produtos com a marca MTV. Seu lançamento ocorreu em março em 2001, sendo que apenas a MTV Brasil possui uma revista. Essa revista – tomada aqui como um artefato cultural que produz significados, ensina determinados comportamentos aos(às) jovens e os institui como sendo “os” comportamentos adequados – constitui o corpus a partir do qual pretendemos descrever e discutir relações entre juventude e sexualidade na cultura da mídia contemporânea. A nosso ver, tal discussão pode ser produtiva para pensarmos como os artefatos culturais – revistas, programas de televisão e filmes, por exemplo – estão ajudando a constituir formas de ser e viver a sexualidade e a juventude, na contemporaneidade. Para encaminhar a discussão proposta, delineamos a seguir o campo teórico-metodológico que lhe dá su-

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com diferentes efeitos. nesta perspectiva. Na perspectiva das teorizações pós-críticas. A compreensão de que a linguagem é um locus de produção de sentidos a serem compartilhados implica compreender. ampliaram e/ou complexificaram noções como linguagem. Entendida como um campo de luta e contestação. certo e errado. profundamente enredado em relações de poder. ela funciona como um elemento central da organização social e da cultura. porte e apresentamos a revista em foco. No contexto dessa teorização. a cultura está implicada com as formas pelas quais tais experiências. Silva (2000. tradições etc. considerando-a “não simplesmente como resultado de um processo. que as possíveis respostas à pergunta Quem e o que nós somos? – enquanto corpo e enquanto sujeito – que nos é colocada. reunidos sob a denominação genérica de Teorias Educacionais Pós-Críticas. que este é um processo ativo. também exaustivamente. 76) é. cotidiana e reiteradamente. tal como estas vinham sendo enfocadas no âmbito das discussões desencadeadas pelas Teorias Educacionais Críticas. p. estruturas de poder e instituições sociais. ser problematizado. p. cujo produto (a verdade sobre a juventude ou a sexualidade juvenil. no contexto mais amplo daquilo que constitui o “mundo MTV”. por isso.. os sentidos e práticas compartilhados por um dado grupo ou segmento social. um dos autores que defende a necessidade de termos uma “teoria da diferença e da identidade” que nos permita operar com a diferença. cultura refere-se. Nessa perspectiva. social. por exemplo) está circunscrito ao espaço daquilo que é possível em um dado contexto histórico. A teorização cultural tem afirmado. mas não apenas. pois. aos “processos. em diferentes lugares. categorias e conhecimentos através dos quais as comunidades são definidas (e se definem) de formas específicas e diferenciadas” (Donald & Rattansi. aqui. 1992. a produção do conhecimento e das práticas sociais e culturais a ela vinculadas é entendida como um movimento sempre provisório. crenças. trabalha-se. ainda mobilizadas com freqüência no campo educacional. Possíveis relações entre teorizações culturais contemporâneas e educação Os argumentos dos autores com que iniciamos este artigo. nada está dado de antemão e tudo pode. inscrevem-se em um amplo espectro de estudos que ressignificaram. se definem nas mesmas relações que nos permitem reconhecer o que nós não somos.O que se pode aprender com a “MTV de papel” . desde os anos de 1970. 4). mas como o processo mesmo pelo qual tanto a identidade quanto a diferença – compreendida aqui como resultado – são produzidas”.. problematizar conhecimentos que sustentam noções estritas de uma dada separação entre natureza e cultura bem. como as idéias de homogeneidade. cultural e lingüístico. das hierarquizações e das desigualdades dentro e entre diferentes sociedades e/ou culturas. no Brasil. inserido e imbricado em relações de poder. também. longe de limitar-se a englobar a totalidade das experiências compartilhadas pelos grupos. podese (ou deve-se). pelas diversas instâncias culturais contemporâneas. são produzidas nos sistemas de significação. que envolve também. A linguagem é. também. diferença e identidade são tomadas como sendo culturalmente produ- Revista Brasileira de Educação 137 . a linguagem está implicada com a produção das identidades e das diferenças. e a operação de poder que está envolvida nestas definições nos posiciona de diferentes formas. cultura. fruto de relações de poder. nas sociedades e grupos em que vivemos. a linguagem – em sentido amplo – é posicionada como sendo a instância privilegiada da produção dos sentidos que atribuímos ao mundo e a nós mesmos e. a partir dessa perspectiva. igual e desigual. práticas. equivalente e diferente. ou seja. com o pressuposto de que nada é natural. Ou seja. Nestes campos de estudo. currículo e pedagogia. conflitivo. instável e dinâmico. gera efeitos de poder e está intrinsecamente relacionada e implicada com a produção daquilo que reconhecemos como sendo nós e eles. Isso significa que. fixidez e herança biológica e cultural que subjazem a estas noções de natureza/biologia e cultura. e é com esse sentido que o conceito é utilizado neste trabalho.

exatamente. No que se refere à identidade e à diferença. ou a “diferença”. Ele é apresentado como “sendo ou tendo um dado sexo e um dado gênero”. concomitantemente. os quais nomeiam. Ao fazer essa conexão entre corpo. envolvem processos discursivos. o que é ser branco ou ser negro. o que passa a ser importante para a discussão não é aquilo que não pertence à linguagem. que estão fora dos processos de significação. Os pressupostos biologicistas e psicologizantes que dão suporte à maioria das teorizações acerca da sexualidade humana utilizadas no campo da educação. Soares e Dagmar E. que vivemos ao mesmo tempo ou em tempos diferentes. Nós somos muitas identidades. ou homem e mulher. basicamente. tanto como um operador quanto como um território importante dos processos de diferenciação. a identidade fundamenta-se em algo externo. os meios pelos quais damos sentidos a tais práticas e sujeitos sociais.Rosângela de F. R. o corpo está. adulto ou velho. 2001). portanto. e isso é ainda muito mais evidente e significativo quando se trata de discutir questões relativas à sexualidade e ao gênero. fragmentadas. aqui. que estão longe de ser simétricas. mas perguntarse quais são os mecanismos que permitem produzir a heterossexualidade como sendo a norma (a medida do aceitável e do desejável) e a homossexualidade como desviante. Assim. centralmente envolvido tanto nos processos de classificação e hierarquização social e cultural das diferenças quanto nos processos que buscam definir e fixar identidades de gênero e sexual. cujos resultados são. É nesse sentido que se passa a usar a noção de identidades múltiplas. pela fragmentação e pela instabilidade. sistemas de classificação e formas de inserção social. Mas se. por exemplo. ao longo da nossa 138 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23 . pois. muitas vezes de forma conflituosa. Norma. vivida nas relações sociais. no interior de processos de diferenciação. mutantes. em sendo produções lingüísticas. “naturalmente” decorrentes de uma dada anatomia sexual e/ou de uma dada configuração hormonal que marcaria estes corpos com determinadas identidades sexuais e de gênero desde o nascimento. jovem. ao mesmo tempo. Estermann Meyer zidas. os modos pelos quais cada uma destas situações é. Envolvem. sendo ambas produzidas. aprendizagens essas que são invisibilizadas e apresentadas como comportamentos normais. por exemplo (Meyer. nesta abordagem teórica. identidade e diferença. elas são também marcadas pela indeterminação. Deste ponto de vista. essas características da linguagem têm conseqüências importantes. em sua relação com a juventude. são consideradas como sendo relacionais e mutuamente dependentes porque. sobre outra identidade que ela não é – o “outro”. desvio e risco de tornar-se desviante – noções correntes quando se trata de discutir sexualidade e gênero – são fortemente marcadas por relações de poder que envolvem. ainda. homem ou mulher e. que seriam definidos. Admitir que existem processos e “coisas” naturais. de uma vez para sempre. mas aquilo que o único recurso de significação que temos expressa precária e provisoriamente. ou nos primeiros anos de vida (segundo vertentes da psicologia). quem está saudável e quem está doente. envolve aprendizagens profundamente inscritas no corpo. Isso significa entender que a identidade é marcada pela diferença. identidade e diferença são produzidas e posicionadas discursivamente em relações sociais e culturais. O corpo é tomado. para existir. o que é ser criança. simbólicos e sociais. gordo ou magro. a diferença e a identidade. por exemplo (o que levaria à constatação de uma diversidade naturalmente dada). como enfatizamos anteriormente. sua definição depende das relações de poder que estão em ação nos sistemas de significação. físicas ou biológicas que preexistem à linguagem não significa dizer que elas não estão sujeitas à atribuição de sentidos. desde o nascimento (segundo a biologia). classificam e/ou hierarquizam práticas e sujeitos. descrevem. e não naturalmente dadas. é preciso não cair na armadilha de tentar fazer uma separação entre linguagem e aquilo que está fora dela. Tornar-se hétero ou homossexual. a questão central a ser feita não é porque um é “heterossexual” e outro é “homossexual”. fazem com que esse corpo operador/território seja pouco problematizado. ou pode ser. no entanto. pois. quem é normal e quem é desviante. e. Como operador e como território. definindo.

2002. a MTV objetivava atingir a faixa etária dos 14 aos 34 anos – público tradicionalmente difícil de ser atingido pela televisão. a MTV. começou como produto da associação entre a Warner Communications e a American Express.O que se pode aprender com a “MTV de papel” . escapa à significação. vida. Pelo contrário. Uma das formas encontradas para alcançar tal objetivo foi o rock. e que redefinem mesmo os modos com que temos teorizado os processos de ensino e aprendizagem. a ocupar e/ou a reconhecer seus lugares sociais por meio de estratégias tão sutis e refinadas que são. portanto. para o reconhecimento e problematização da importância educacional e cultural da imagem. Assim. de conhecimento escolar. de currículo. podem ser produtivas. o que impõe uma reconceptualização das próprias noções de escola. por exemplo (Loiola. 2002. como um canal para televisão a cabo e sistemas acessórios (Klein. 13). divulgou a si mesma: “a primeira rede verdadeiramente de grife” (Klein. para se pensar/problematizar políticas e práticas educativas direcionadas aos jovens de nosso tempo. como também uma instituição que interfere. que aprendemos a tomar como o reduto mais concreto de nossa identidade. Teorizações como estas ampliaram. – um dos maiores grupos de comunicação existentes –. Em 1985. proprietário. por exemplo. p. Som e imagem. diferentes e conflitantes formas de conceber e de viver a juventude. a feiúra e a velhice” (Sant’Anna. análises como a que empreendemos neste artigo. a ociosidade. a doença. desde o início. Elas podem contribuir. 2001). por exemplo. palavras de Tom Freston (apud Klein. da Nickelodeon. enfim. como vimos argumentando. o corpo e a sexualidade. ou seja. sobre as relações entre juventude e sexualidade na cultura MTV. O conceito de pedagogias culturais remete. da relação entre educação e cultura da mídia nos processos de organização das relações sociais e na produção das identidades. por vezes. 67). a noção do educativo para além dos espaços e dos processos formais de aprendizagem. a música. Remete. 2002). e produzem. muito difíceis de perceber. a MTV era a estrela”. o orgulho de ser ou parecer jovem pode ser um exemplo de significados construídos no e sobre o corpo na contemporaneidade: o “culto ao corpo” para tornar-se jovem e belo é. fundador da rede e autor do empreendimento que transformou uma emis- Revista Brasileira de Educação 139 .. corpo ou sexualidade. da Vídeo Hits One (VHI) e da Blockbuster.. a literatura. “amplamente revelador de uma história que lhe é paralela. Foi inaugurada. aprofunda ou fragiliza aprendizagens que fazemos em outras instâncias sociais – e decorre daí o conceito de pedagogias culturais. Apresentando o “admirável mundo MTV” A MTV (Music Television) Network Inc. Reconhecer isso não significa dizer que a escola deixou de ser uma instituição social intensamente disputada por diferentes movimentos sociais e políticos. No contexto dessa argumentação. os brinquedos. aquela que redefine e conjura. de conhecer o eu e o outro. 1995. nos Estados Unidos. ela continua sendo um importante espaço de aprendizagens específicas e diferenciadas que não podem ocorrer em outros locais. Essas aprendizagens envolvem um complexo de forças e de processos que incluem instâncias como os meios de comunicação de massa. chamando a atenção para o fato de que indivíduos e grupos aprendem. sem cessar. em nosso ponto de vista. p. 1994). de conceber e de se relacionar com as autoridades instituídas. 68). “Para nós. também. p. nasceu a união desse gênero musical com um canal de televisão a cabo. das novas tecnologias da informação. o cinema. em 1º de agosto de 1981. É nessa direção que. durante 24 horas. exatamente. ou melhor. desde muito cedo. o culto à juventude. Desde a primeira versão. Além de divulgar produtos dos patrocinadores. a MTV Network transformou-se em propriedade da companhia Viacom International Inc. além da MTV. Um argumento que se torna ainda mais complexo se considerarmos que nem mesmo o corpo. ao mesmo tempo. que envolvem questões de gênero. para um importante deslocamento no qual o currículo se desvincula e se projeta para além da escola. foram especificamente destinados ao público jovem (Rapping.

por exemplo. incolor e cada vez mais rara”.. ousado e com bom humor.. (Figueiredo. referindo-se à água pelas palavras “insípida. 183). desde os anos de 1990. mas que una as duas. um conceito. Por sua vez. na emissora e na revista. o sentido essencial da corporação moderna. [. em tudo nesta vida. corresponder a um público de classe média.. 144). 140 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23 . Não queríamos ter uma série de páginas tipo “inútil paisagem”. sabe? E assim. humor e leveza. nem local. nem páginas. R. A autora estabelece a seguinte diferença entre marca e publicidade: marca é a construção de significados. Na perspectiva do mercado. A MTV. através das compras” (p.] adoro essa coisa de ter na revista estas páginas visuais. bonitas.. acompanhado de uma imagem com moléculas de água. saliva. As campanhas por ela promovidas exemplificam isso. um conjunto de valores construído sobre um determinado produto. de cada bloco) do bloco “Bastidores”.] E acho mesmo que a gente não anda podendo desperdiçar nada. a marca é um meio de vida. Para começar. concluiu que a MTV era um dos fatores mais significativos para os gostos e comportamentos compartilhados pelos adolescentes de classe média que participaram de tal pesquisa. enquanto publicidade é o veículo utilizado para levar esse sentido ao mundo. é uma marca que pretende “fabricar” uma cultura juvenil global. o local onde os funcionários e os dirigentes da MTV fazem seus lanches.Rosângela de F. realizada em 1996 e dirigida pela divisão BrainWaves da agência de publicidade de Nova York DMB?tB. O levantamento. ou os bastidores do Video Music Brasil (VMB). Music Television.2 e o motivo para tal mudança corresponde aos seguintes argumentos: [.600 adolescentes de 15 a 18 anos em 45 países. cujas matérias abordam desde acontecimentos cotidianos. Soares e Dagmar E. [. e assim sucessivamente. o marketing vem constituindo uma terceira nacionalidade em relação à juventude: “não americana. numa espécie de associação de marcas famosas. a parcela juvenil tem uma participação tão decisiva que Klein afirma que. um tom irreverente. é ainda um traço presente no site. É interessante apontar que essa tendência de divulgar a si mesma.. na abertura do bloco “Diversão” aborda-se o desperdício de tempo. o tema do “Desperdício” consta na abertura (página que antecede a primeira matéria 1 De acordo com Klein (2002). 2001a. inodora. p.] A cada mês um tema. Estermann Meyer sora de TV em uma marca. nossas risadas. como. desperdício. luz.. 2002. nossas dúvidas e principalmente nossas buscas. O tipo de juventude ao qual a emissora se dirige é descrito no editorial da revista MTV. acontecimento em que ocorre a premiação da MTV aos melhores videoclipes do ano. E de que forma a MTV se relaciona a isso? As afirmações de Klein sobre o mercado global juvenil apóiam-se nos resultados da pesquisa Estudo do Adolescente no Novo Mundo. Acredita que é possível falar de comportamento com seriedade. Viva a beleza. Acredita que tem muito mais coisa legal para ser dita do que fuxicar sobre a vida alheia. assim mesmo meio loucas. Além de pertencer à categoria consumidor e. embora não seja mais uma exclusividade da MTV. nem nenhum 2 O tema de cada campanha aparece ao longo da revista nas aberturas visuais de cada bloco.1 Os patrocinadores não apenas anunciam na MTV. houve um tema condutor em cada uma de suas edições. p. 8) Talvez a frase “faça a sua parte” sintetize o posicionamento dessa revista em relação aos temas sociais que aborda. Mas começamos a achar que a beleza pela beleza estava ficando gratuita. profundidade. onde se lê: Esta revista acredita que existe vida inteligente entre os jovens. água. Esta revista – e as pessoas que trabalham nela – acreditam que a gente pode fazer diferença com nosso trabalho. feito com 27. uma coisa levando a outra. Logo abaixo dessas palavras há um pequeno texto sobre a situação da água no Brasil e no planeta. mas assumem a “cara da MTV”. um jovem que teria consciência profunda do seu lugar na sociedade. resolvemos “usar” estas páginas melhor. Por exemplo. o(a) jovem também deve refletir o “Cidadão MTV” (Fridman. de acordo com Naomi Klein (2002). Um exemplo de divulgação da MTV na revista é o bloco Bastidores. Desde o número 5. portanto. sempre.

O título deste item. p. no restaurante. Tal perspectiva se torna mais evidente se levarmos em conta a abrangência da marca MTV. Inclusive é possível. a velhice deixaria de existir. no trabalho. todos seriam jovens e belos e teriam a ilusão de estarem vivendo em uma sociedade perfeita. lança CDs. 8) Outro exemplo de campanha é a sobre a Boa Educação. 28). 78). falar alto no restaurante. não evidentemente na mesma direção de Huxley. Ao livro relaciona-se a matéria da revista. E acreditar. pois descreve comportamentos que devem ser evitados. filmes.. Estes são alguns exemplos dos diversos locais por onde circula o homem não-civilizado.] O lance é concentrar.. e à americanização do planeta. a juventude. além de ser uma sátira à sociedade mecanicista e automatizada que já se prefigurava no cenário dos Estados Unidos. tipo de energia. Para simbolizar a falta de educação – ou o “outro” maleducado –. 2001.O que se pode aprender com a “MTV de papel” . Dominando a tecnologia de transmissão televisiva mundial. Ele é o foco da cena. também deve ter uma perspectiva global. Na sociedade prenunciada por Huxley. O romance narra uma história que se passa por volta do ano de 2500 e tem uma perspectiva pessimista em relação aos efeitos do progresso científico.. e as outras pessoas que fazem parte da situação estão fora de foco. O “Cidadão MTV”. na atualidade. observar tal linguagem. nem tempo. Ignacio Ramonet (2002) afirma que o Admirável mundo novo é um “manifesto humanista” em oposição à sociedade stalinista. fragmentos. ficar na fila’. (Figueiredo. se assiste à MTV em todos os continentes. no bar e no ônibus. p. Os braços gigantes de uma emissora norte-americana. fazer barulho tomando sopa. livros e revista – e pode ser vista em mais de 350 milhões de lares. Nessa obra..” (Tordino et al. dar cantadas na recepcionista ou secretária”. pois os homens seriam. E cada um faz a sua parte. Há uma similaridade da linguagem da MTV nos vários locais onde ela é assistida. o cabelo comprido. não deixar gorjeta. tanto do seu público como de seus VJs. o sexo não seria mais tabu. a MTV Network Inc. o corpo coberto de pêlos. é apresentada a figura de um homem préhistórico.. e as pessoas. nem atenção. máquinas (Semerene. completou 20 anos em 2001 como “uma das maiores marcas jovens de multimídia do mundo – além da TV. poses provocativas e sensuais (Marín. o Pensador.. Revista Brasileira de Educação 141 . na fila de um lugar qualquer. são. desgrenhado e em completo desalinho. clipes. p. conforme uma matéria da revista MTV sobre os(as) VJs de outros locais. encoxar as mulheres. de 1932. além de considerar a MTV como uma referência para sua própria educação/aprendizagem.] ‘pagar imposto. nem afeto. entre outras coisas. expressa em imagens que retratam situações cotidianas no elevador. ser desconfiado. como despersonalizadas. tais como “entrar no elevador antes de os outros saírem. não ceder lugar para pessoas mais velhas na fila ou no ônibus. 2000). e não o pesadelo de Huxley. vestido com pele de animal. “Admirável mundo MTV”. que entre outras coisas afirma que o Brasil pode mudar a partir de “pequenas mudanças no dia-a-dia que a gente pode fazer. representando um homem sujo e que ocupa muito espaço. Admirável mundo novo. origina-se de uma matéria da revista MTV brasileira em que são apresentadas as MTV de outros países. 2002). 140 países e em 17 idiomas” (Cruz. É interessante destacar que essa edição veicula uma entrevista com Gabriel. A dimensão global da linguagem MTV refere-se a uma nova linguagem televisiva implementada pela rede. para a MTV. 2001b. [. uma linguagem juvenil e produtos culturais relativos à geração jovem. com um osso de algum animal na mão. A matéria informa que. O título é uma clara referência ao famoso romance de Aldous Huxley. na realidade um manual anti-etiqueta. não dar bom-dia nem boa-tarde no trabalho. tanto na abordagem dos temas como nas imagens veiculadas por ela. fazer intriga. um “lugar incrível”. como [. a sociedade é descrita pelo autor como homogênea. 2001. que se tornou um clássico do século XX. na qual não seria possível falar em condição humana. com planos curtos e rápidos... eles mesmos. e sim o amor. Cada cena é acompanhada de um texto intitulado “Manual de etiqueta Neanderthal”. na revista. a homogeneização dos seus programas e da sua linguagem..

Fica evidente que há uma linguagem que não se perde de vista e que é combinada aos diversos estilos das programações locais.] a sexualidade vem sendo descrita. Music Television é a única revista com a marca MTV e. A 142 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23 . sobreposições. como a biologia e a psicologia. o global não está.. a MTV do Brasil se posicionou em primeiro lugar nos critérios referentes ao conteúdo da programação e à aceitação da “marca MTV”. firmemente enraizadas em localidades bem delimitadas. Conforme Guacira Louro (2000a). um(a) VJ de outra MTV. se dizendo VJ.] Teppei ou um Fulanov. normatizada. regulada. algumas vezes. educada.. 1992).. explicada. Cada afiliada adere ao estilo musical do país onde está estabelecida. É possível relacionar isso às afirmações de Stuart Hall (1997) sobre o processo de globalização. em 1990. Ele é. [. simultaneamente. Estermann Meyer no intercâmbio World Chart Express. em uma pesquisa encomendada pela central. discussões e preocupações não faltaram. como um grande acerto para a conquista de uma identificação forte com o público. assim. novas identificações “globais” e novas identificações “locais”. conforme a filosofia da empresa. Um dos motivos para isso. compreendida.] É mais provável que ela vá produzir. Indica Fridman que em tais quesitos superou a própria MTV norte-americana.. Houve discordâncias e. Com a MTV Brasil. Em conseqüência. que tem uma estrutura e uma padronização mundial aliada a um espaço para a programação e decisões locais. portanto. ao mesmo tempo. Ivete. Juventude e sexualidade foram construídas por uma diversidade de discursos originados de diversos campos disciplinares. Em vez disso. necessariamente.. A revista MTV. ser confundido com velhas identidades. que exibe. naturalmente. Informa a matéria que o programa Top 20 Brasil apresenta. p. Soares e Dagmar E.] pensar numa nova articulação entre “o global” e “o local”. com legendas. a cultura MTV ensina sobre juventude e sexualidade. sim! Só não fala a sua língua. comenta Zeca Camargo (1995). não se assuste quando Ruth. consti- E como se combinam esses domínios – global e local – na cultura MTV? Tal perspectiva está estabelecida nos princípios da emissora. a partir de várias perspectivas e campos disciplinares. a MTV Brasil tentou cobrir tal ausência de videoclipes com matérias sobre comportamentos sociais. a ênfase na abordagem de temas ligados ao comportamento social chegou a cobrir quase 40% da pauta de programação em 1995. por Camargo. pois.. afinal. promovendo a cultura e os talentos locais (Uflacker. ah. R. Este “local” não deve. (p. entre os campos disciplinares que se propuseram a dizer. substituindo o local. ele atua no interior da lógica da globalização. controvérsias. o que foi considerado. 2001. Beltranelli ou Sicranischen qualquer aparecer na sua tela. 83-84) emissora brasileira. Juventude e sexualidade na MTV de papel Uma das primeiras afirmações possíveis sobre a sexualidade e a juventude é a centralidade de ambas na nossa cultura. a cada semana. o que é ser jovem na cultura ocidental e como os(as) jovens devem viver a sexualidade. De acordo com Hall. saneada.Rosângela de F. o mais interessante seria [. foi inaugurada a primeira emissora brasileira direcionada exclusivamente ao público jovem. e como.. na nossa cultura. comparado ao dos Estados Unidos. [. com uma estrutura segmentada. [. é um bom exemplo para se analisar o que.. que propuseram como olhar. os clipes mais tocados de sua região ou país. organizando sua programação de acordo com a filosofia e a integridade da marca MTV. Mas que fala a língua da MTV. isso a gente garante que fala” (Loiola. Diz ele que talvez ocorram muito mais identificações que incorporam tanto o global quanto o local do que propriamente a produção de uma cultura uniforme e homogênea que possa ser identificada como “a” cultura global. desde o início. A tal processo. foi o fato de o número de bandas existentes no Brasil. “Portanto. 82). ser muito menor. Luis Carlos Fridman (2002) afirma que. e. viver e pensar a sexualidade juvenil e como intervir nesse processo. deve-se “pensar globalmente e agir localmente”. incluiu tanto videoclipes quanto outros tipos de programas. em seu idioma.

A juventude e a sexualidade. a heterossexualidade é posicionada nessas vertentes como o desenlace não só desejado. normal de masculinidade e de feminilidade e uma única forma sadia e normal de sexualidade.. A juventude é objeto de ambivalência. além disso. contudo. (p. se a sexualidade (a heterossexualidade) e a juventude são admitidas como naturais à nossa existência. sob uma perspectiva cultural. medo e repressão preventiva. Existe uma supervalorização da juventude e. Ao mesmo tempo. Louro. Aparentemente supõe-se que todos os sujeitos tenham uma inclinação inata para eleger como objeto de seu desejo. legítimo. Conseqüentemente. e essa centralidade parece ter um realce ainda maior quando é relacionada à juventude. A escola nega outras sexualidades ou tenta “corrigi-las”.O que se pode aprender com a “MTV de papel” . ao mesmo tempo em que há uma maior receptividade a esses comportamentos e uma popularização de gays e de lésbicas em diversos setores da mídia. Já a MTV parece colocar a sexualidade na tônica de seus debates e de sua programação. 17) As escolas podem ser um exemplo da reiteração dessa norma central. peculiares e anormais. bem como do mais diligente investimento. 64) A sexualidade é. são concebidas como sendo produções histórico-culturais. 2000a. como parceiro de seus afetos e de seus jogos sexuais alguém do sexo oposto. descrevê-la ou demarcá-la como uma área multidisciplinar. Guacira Louro (1999) observa que [. por que são continuamente colocadas em discurso e por que se investe tanto nos corpos para inscrever neles essas marcas identitárias? Sobre isso. de acordo com Louro (2002. pois ela amedronta e atrai. É curioso observar. p. Como já indicamos anteriormente. como sendo uma identidade acabada e pronta. Phillip Ariès (1986) afirma que o século XX foi a era da adolescência e que ser jovem não é uma fase com determinada faixa etária. tornar-se excêntrico”. que estaria em algum lugar. (Louro. cabendo aos homens e mulheres incorporá-la conforme seu sexo biológico. no entanto. sua universalidade e naturalidade são contestadas e problematizadas. pois. Ela é objeto de desejo e de repulsa. sair do centro. no entanto. ela é também demonizada.. elas norteiam seus currículos e práticas a partir de um padrão único: “haveria apenas um modo adequado.. manter-se jovem e bonito é um ideal da nossa sociedade. Mas será esta a conclusão mais simples e imediata a que podemos chegar? Segundo Tamsin Spargo (1999). sendo que ambos os movimentos parecem muitas vezes se relacionar com a forma como os(as) jovens vivem ou devem viver sua sexualidade. 1999. 2).] a heterossexualidade é concebida como “natural” e também como universal e normal. a heterossexualidade é concebida. Contudo.. então. nessa perspectiva as identidades juvenis e sexuais. p. A centralidade da juventude na nossa cultura. tida como inata e natural. talvez se pudesse (ou se devesse) identificar a MTV como sendo um espaço de maior aceitação de diversos comportamentos sexuais. 2000a). também é possível constatar que persistem velhos preconceitos. portanto. mas normal. Em vista disso. Henry Giroux (1996a) afirma que. é preciso reconhecer que essa foi – e é – uma área em disputa. Assim. Não basta. que há um recrudescimento de valores morais conservadores e que novas crises estão sempre sendo geradas. tuindo-se em meio a propósitos e interesses igualmente variados. A idade parece ter um papel definidor na importância que a sexualidade ocupa na vida dos indivíduos. uma vez que sua validade está limitada ou circunscrita à cultura na qual se inserem. é parodoxal. não escapam à história. Ao comentar essa reedição de preconceitos. mas um ideal a ser alcançado. a relação da cultura ocidental com a juventude parece ser feita de desconfiança. ao mesmo tempo em que a juventude é exaltada. Vertentes da psicologia e da biologia defendem que é na juventude que a direção (ou a identidade) sexual vai se consolidar e fixar. central no pensamento ocidental (Weeks. nessas perspectivas. é alvo da mais meticulosa. continuada e intensa vigilância. afastar-se desse padrão significa buscar o desvio. a heterossexualidade. o quanto essa inclinação. tal como todas as identidades. ou seja. ela os questiona: Revista Brasileira de Educação 143 . as outras formas de sexualidade são constituídas como antinaturais.

Louro afirma que a juventude brasileira tinha como referência de Modernidade. 2000b). belos – ou que nós somos? Por que sexo importa tanto? (Spargo. Os jovens passaram a ocupar um lugar importante nos diversos campos discursivos. 2000b). Ainda no que se refere à televisão. o fenômeno jovem não parou de crescer. do neurolingüista Lair Ribeiro.. o destaque nessa década é a inauguração da MTV Brasil. como Pés no chão e cabeça nas estrelas e A magia da comunicação. um lugar visto como incontestável na expressão de um suposto eu íntimo e mais verdadeiro.Rosângela de F. 5.] como nós sabemos o que faz uma atividade erótica boa e outra má? Isto significa uma ordenação divina. Juventude e sexualidade – dimensões tão centrais de nossa cultura – são também centrais na MTV. o que nós queremos e como nós queremos” (idem. Analisando o cinema como uma pedagogia cultural significativa. E na década atual. determinados períodos históricos em que ela se torna mais contestada e debatida. a juventude também tem sido continuamente colocada em debate. Os anos de 1990 no Brasil. entre as quais o destaque é Malhação. ou seja. até o momento. Soares e Dagmar E. tradução nossa) A compreensão da sexualidade em termos culturais não é imediata. como a autora os denomina. assim como o gênero. seja mediante versões adaptadas de best-sellers. Os “preferidos da mídia”. Na sua perspectiva. seja mediante temas ou problemáticas jovens. Foucault também rejeitou a idéia de que houve uma proibição em falar sobre o sexo. os padrões de comportamento e de estética da juventude norte-americana. seu comportamento. desde que fosse transviada para dentro das lojas”. Já na televisão. desde o século XIX. A juventude norte-americana dos anos de 1950. conforme crônica de Luiz Fernando Veríssimo (apud Louro. por isso. Por sua vez.. o assédio se verifica na criação sem precedentes de programas de auditório e de novelas. baseados nos livros O sucesso não ocorre por acaso e Comunicação global. da natureza biológica ou convenção social? Podemos nós realmente estar certos que nossos próprios desejos e prazeres são normais. como o da ciência. a revista MTV. A sexualidade se tornou o lugar da verdade do sujeito. há. É nesses períodos que o domínio da vida erótica é abertamente politizado e renegociado. p. tradução nossa). Carícia. pululam encartes direcionados aos jovens. o que houve de fato foi uma proliferação de discursos sobre a sexualidade. além de passarem a ser alvo do mercado (Louro. 1999. Além disso. naturais. podia ser “‘transviada’. marcam um crescimento massivo do mercado para o público jovem. no ar desde sua estréia. 13. nos anos de 1950. R. ou seja. Além disso. Se a sexualidade é continuamente colocada em discurso. como demonstra Rosa Fischer (1996). da Rede Globo. Nes- 144 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23 . ela mesma. nos jornais brasileiros. Acredita a autora que estamos vivendo um desses tempos e. a partir dessa década. um mercado consumidor lucrativo e separado do mercado adulto. o do Estado e o da Igreja. efeito de um regime discursivo da sexualidade. tais como a Folhateen. O sexo não pode ser entendido como uma fundação biológica sobre a qual se agregariam aspectos culturais. Estermann Meyer [. Desde então. ela é colocada como o lugar principal de nossos desejos mais íntimos. sua música e sua lingua- gem distinguem-se em relação ao mundo adulto. da Folha de São Paulo. em 1995. segundo Spargo (1999). Michel Foucault (1985) é um dos autores que contestou a perspectiva da sexualidade como biológica e íntima do indivíduo. são freneticamente citados na literatura. A noção de sexo como dada e como o fundamento da identidade é. Assim como a sexualidade. como na peça de teatro Confissões de adolescente. suas roupas. parece simplesmente estar lá. Music Television pode ser um exemplo de um produto totalmente direcionado a esse público. a forma como entendemos e como vivemos nossa sexualidade é explorada em uma miríade de contextos. p. “quem nós queremos. continua Fischer. ao priorizar análises que buscaram explorar os modos pelos quais os discursos e as instituições produziram conhecimentos sobre nossa sexualidade. a rebeldia era interessante desde que rendesse dividendos. Capricho e Todateen são alguns dos títulos de revistas que se multiplicam nas bancas. É possível afirmar que a partir das décadas de 1950 e 1960 a juventude ganha um estatuto próprio. a qual se tornava.

(Figueiredo. Essa revista pode. 60-61). 48-49). É básico! Então. adora restaurante japonês e gostaria de morar em Fernando de Noronha. p. apresentado por Jairo Bouer.. Ele é o cara que dá os ratinhos vivos pras cobras. em continuidade a essa perspectiva. na boa: para mudar e melhorar o mundo. com sei lá o que. “Ela faz circo e quer viajar pelo mundo. é bom a gente começar pela gente mesmo. caratê. Ao longo das páginas da revista.. associados. Os processos culturais plurais em relação à sexualidade. Está ensaiando o novo musical de Chico Buarque e Edu Lobo. você transa sem camisinha. já que inclui campanhas como a da prevenção da AIDS. Na mesma direção. contemporaneamente. no bloco Corpo /Alma se conta a história de amor de dois jovens. “Ela não vê a hora de ir pro Japão. Uma seção que chama a atenção é a denominada Ele x Ela. E. de uma certa forma. dança e balé. aos 9 para o Uruguai e aos 15 veio para o Brasil. Cambaio. entre eles. chover no molhado. que tem como tema central a sexualidade e o comportamento das meninas. Antes de entrar para a escola de circo. Maria Del Castilho e Bruno Buarque estão na revista número 2. mas isso não importa aqui. O currículo dos dois. Laura (22 anos) e Kiko (28 anos). Há uma diversidade de programas com essa temática que compõem a programação da emissora. relacionado à juventude. inteiramente dedicado ao tema da sexualidade (desde 2002. fantasias. Além disso. Não é o que importa?” (Prata. 95). Ele atua como percussionista e baterista e também como ator e cantor. além de abordar diversos outros aspectos da sexualidade. Há ainda o Meninas Veneno. Music Television.. com a penetração do rock‘n’roll na cultura americana. nasceu no Panamá. o MTV Erótica. se na hora de transar. Ela faz faculdade de moda. ser tomada como exemplo de um local de debates e de popularização da sexualidade. com a guerra. nos quais são veiculadas matérias sobre aspectos da vida juvenil. que afirma que “um tapinha não dói” (Plasse e Gomyde. 2001a. p. a sexualidade parece permear outros contextos. tais como rituais. em uma matéria sobre a história da música. ginástica olímpica. desejos. então. nesta sessão. como os seguintes: na revista número 1 aparecem Maria Prata e Beto Strumpf. 2001)... Ele é percussionista e vai atuar num musical de Chico Buarque. com a ecologia. foi surfista. amigo. acontecem nos diversos blocos da revista. como. tal programa não está mais no ar. os dois domínios parecem ser inerentes um ao outro. corpos. dedica várias matérias à sexualidade e à juventude com a “cara da MTV”. inclui apenas dois anos e pouco de namoro (os dois não têm muita certeza). prazeres e comportamentos (Weeks. Eles lêem esta revista” (Prata. a “irreverente” Penélope Nova e a “romântica” Didi). até 2001. Chama a atenção a seguinte parte: “A gente podia falar que ele é diretor de TV e ela produz eventos culturais. 14) Alguns dos aspectos ressaltados em relação à sexualidade dizem respeito aos encontros e aspirações dos(das) jovens. vamos lá. linguagens. Eles lêem esta revista” (Prata. p. Cabe registrar que o escolhido e a escolhida para tais matérias são sempre jovens definidos como “talentosos e interessantes”. há várias matérias sobre a prevenção da AIDS e a importância de cada um fazer a sua parte: [. confundidos. por exemplo. que trata de histórias de vida de um jovem e uma jovem. Ele faz biologia na USP. A atuação da MTV no que se refere à sexualidade juvenil é abrangente.. ela desempenha mesmo tal função. quando se descreve que a relação entre a sexualidade e a música ocorre desde 1953. sa emissora. 1999).O que se pode aprender com a “MTV de papel” . com o funk carioca. O interessante a observar nessas matérias é quais modelos são apresentados para os/as jovens. Atualmente está trabalhando no São Paulo Fashion Week. fez nado sincronizado. já morou em Londres. aos 5 anos foi para Cuba. em seu lugar está Peep MTV. e também pode exemplificar o quanto esse domínio está. 2001c. Revista Brasileira de Educação 145 .] Não adianta se preocupar com o fim do mundo. tem sonhos de morar no Japão. p. Ela é trapezista. A medida é o respeito com que a gente se trata. A revista MTV. A MTV é uma emissora que pretende se situar como referência para a juventude na área do comportamento. especialmente em relação à sexualidade. 2001b. 2001c. intrinsecamente “colados”.

p. 2001. ou seja. o Jornal Nacional e a novela das 8: o esquema “imexível” do Roberto Marinho.. namoro. jul. No entanto. essa suposta liberdade que rola nas revistas.. De saltar de pára-quedas a passear com a família. de todo o Brasil. portanto. como um modelo para a juventude. O que essas matérias permitem pensar é que. 2001.. uma marca para a cultura sexual juvenil. Na verdade. eles não passam de estatísticas e sobre eles são feitas apenas algumas afirmações. nas revistas. p. 100). Bill Green e Chris Bigun (1995) e Helena Abramo (1997). R. 9. 151-159. ROSÂNGELA DE F. n° 2. na atualidade. R. Outra matéria específica sobre encontro entre jovens tem a seguinte chamada: “Diversão é tudo – De beijar na boca a dar a volta ao mundo..com. jul. ele fosse descongelado dali a um ano e ligasse na MTV. A MTV é o canal mais mutante da televisão brasileira porque tem os pés fincados na música – que está sempre se transformando. ainda. a das 7. v. v. 25..Rosângela de F. pesquisadora do Grupo de Estudos de Educação e Relações de Gênero (GEERGE) e doutoranda em educação na mesma instituição. embora a MTV busque por meio de pesquisas aproximar-se do seu público alvo. como Henry Giroux (1996b).. p. é isso que a distingue das outras emissoras: [. Revista Reflexão e Ação./dez.. pela matéria sobre o “sexo normal”. 2001. p. contaram pra gente o que fazem pra se divertir” (Schmaedel. como os/as jovens que ilustraram a coluna Ele x Ela. 2000 e A vida em preto e branco: mídia e construção do eu. embora ela procure se colocar acima da mídia em geral e. p. Estermann Meyer Como na outra seção. o texto acusa a mídia de veicular idéias preconceituosas sobre a sexualidade e de produzir insegurança nos(nas) jovens. uma certeza ele terá: ligando a TV na Globo no final da tarde. p.. O que é atribuído ao jovem – instabilidade. Porto Alegre. Apesar de terem sido entrevistados milhares de jovens.br 146 Maio/Jun/Jul/Ago 2003 Nº 23 . Laura e Kiko são jovens de sucesso que aparecem representando outros jovens. incerteza.000 jovens. E-mail : rosangel@portoweb. aventuras radicais. se o mesmo acontecesse com o filho desse pai. música. A forma como é apresentada a sexualidade na revista pode ser exemplificada.]o problema é que esse turbilhão de fantasias.] se um pai de família for congelado e voltar à vida ativa em 2010. há um(a) jovem ideal e talentoso(a) – a identidade juvenil – definido(a) como o que seria um(a) jovem MTV.. O texto acentua que “[. O que Green e Bigun (1995./dez. é ainda feita por jovens e para jovens – faixa etária que não é conhecida exatamente pelo amor às tradições e aos costumes.. tvs e rádios. e. 209) registram é que a juventude necessita ser teorizada como um campo de contradições e discursos diversos. (Siqueira. Tais afirmações fazem sentido para nós e por isso argumentamos que é potencialmente interessante e produtivo problematizar os produtos culturais como um espaço/meio onde se ensina e se aprende acerca de determinados modos de ser jovem e de viver a sexualidade. Quase 3. 84). O que se destaca na matéria são jovens do mundo artístico e da moda. na sua opinião. defendem que aquilo que se define como a problemática juvenil incorpora aspectos do momento histórico e representa uma espécie de lente de aumento sobre a crise cultural que caracteriza o mundo contemporâneo. Festas. na televisão. 98). 63-80. Soares e Dagmar E. Esse aspecto talvez possa ser reforçado se levarmos em conta que a MTV se apresenta como uma emissora ousada e em permanente processo de mudança. Não bastasse estar apoiada sobre um solo tão dinâmico. como o pop e o rock. Interessante aqui é a crítica do texto às representações da sexualidade nos filmes. 2001. mobilidade e transitoriedade – parece assumir conotações da cultura de amplo significado. n° 2. 2001. verá a novela das 6. essas representações poderiam ser encontradas também em programas da própria MTV. que tem a seguinte chamada: “Você não tem a fantasia de transar com cinco pessoas na casa das máquinas do seu prédio? Você não usa chicote e chantilly na cama? Será que você é normal?” (Sexo. 90) Diversos autores e autoras. Dentre suas publicações recentes destacam-se: Adolescência: monstruosidade cultural? Revista Educação & Realidade. SOARES é professora assistente na Faculdade de Educação da UFRGS... será que rola na cama?” (Sexo. p. muita coisa teria mudado..

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